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dezembro 18, 2011

Poesia francesa

Semana de traduções, pois, traduzir é preciso. Un souvenir de Noel. Paul Valéry dizia que “o poema é uma duração, na qual, leitor, respiro uma lei que foi preparada”. Tem aquela importância, não só pelo notável simbolismo, muito influenciado pelo Mallarmé, mas por ter pensado a poesia, a linguagem, o que sustenta. Foi redator no Ministério da Guerra, trabalhou na Primeira Guerra Mundial, para, logo depois, ser aceito na Academia Francesa. Traduzir não é trair, embora a etimologia nos leve para essa máxima. Paul Valéry, 30 de outubro de 1871 a 20 de julho de 1945.

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HELÈNE
de Paul Valéry
tradução de Pedro Lago

Azul! Sou eu… Venho das grutas da morte
Escutar a onda se romper aos degraus sonoros,
E revejo as galés dentro das auroras
Ressucitarem da sombra ao fio dos ramos de ouro.

Minhas solitárias mãos chamam os monarcas
Cuja barba de sal divertia meus dedos puros;
Eu chorava. Eles cantavam seus triunfos obscuros,
E os golfos enterrados às popas de seus barcos,

Eu escuto as conchas profundas e os clarins
Militares ritmarem o vôo dos remos;
O canto claro dos remadores concatenam o tumulto,

E os Deuses, na proa heróica, exaltados,
Em seu sorriso antigo e que a espuma insulta
Levantam sobre mim seus braços indulgentes e esculpidos.

Baudelaire é aquela importância. Viveu apenas 46 anos, o suficiente para grifar tudo que veio depois dele, e cada vez que se volta à sua obra, seu escritor sobre arte, descobre-se que a coisa vai cada vez mais longe. “Bom poeta é aquele que tem boa memória” disse mais ou menos assim na ‘Invenção da Modernidade’. Os poemas em prosa são como crônicas antes da crônica. Só lendo. Hoje, 144 anos após sua morte, com as coisas caminhando para um cenário raso e acelerado, Baudelaire traz a necessidade do espanto, para as novas e velhas gerações. Charles-Pierre Baudelaire (Paris, 9 de abril de 1821 – Paris, 31 de agosto de 1867)

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LXXVII SPLEEN
de Charles Baudelaire
tradução de Pedro Lago

Eu sou como o rei de um país chuvoso
Rico, mas desamparado, jovem e ao mesmo tempo muito velho
Quem de seus mentores desdenha as reverências,
Se aborrece com seus cachorros como o faz com outros bobos.
Nada pode o alegrar, nem um animal de caça, nem um falcão
Nem seu povo morrendo em frente à sacada.
Do bufão favorito a grotesca balada
Não distrai mais a face deste cruel doente;
Sua cama ornada de flores de lis se transforma em túmulo,
E as damas do quarto de dormir, para quem todo príncipe é belo,
Não sabem mais achar o impudico toalete
Para gerar um sorriso deste jovem esqueleto.
O erudito que fê-lo ouro jamais pode
De seu ser remover o elemento corrompido,
E nestes banhos de sangue que os Romanos nos trouxeram
De cujos velhos tempos os poderosos se recordam,
Ele não soube aquecer este cadaver atordoado
Onde corre no lugar de sangue a água verde do Létes.

O diálogo entre as gerações é o que acho que mais fascinante em qualquer linguagem, não importa qual. Foi o que Victor Hugo disse sobre Chateaubriand: “ser Chateaubriand ou nada”. Mal sabia que seria fonte. Mal sabia que sua Notre-Dame de Paris, que seu Quasímodo, pegariam tanta gente boa. De jeito. Fato é que o século XIX foi essa vitória sobre o Échec de poètes que os franceses tanto falam. Victor Hugo ainda seria levantado às alturas pelos seus Misérables e tantos outros. Grandes homens, grandes mesmo. Victor-Marie Hugo (Besançon, 26 de fevereiro de 1802 – Paris, 22 de maio de 1885).

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À VIRGILE
de Victor Hugo
tradução de Pedro Lago

Ó Virgílio! Ó poeta! Ó meu mestre divino!
Venha, deixemos esta cidade ao grito sinistro e vão,
A qual é gigante e jamais fecha a pálpebra,
Esprema uma onda espumante entres seus flancos de pedra,
Lutécia, tão pequena nos tempos de seus Césares,
E que joga hoje, cidade cheia de charretes,
Sobre o nome estridente cujo mundo nomeia,
Mais clareza que Atenas, mais barulho que Roma.

Por você que nos bosques faz, como a água dos céus,
Cair de folha em folha um verso misterioso,
Por você cujo pensamento enche meu devaneio,
Encontrei, numa sombra onde ri uma erva florida,
Entre Buc e Meudon, num profundo esquecimento,
- E quando digo Meudon, suponho Tivoli! -
Encontrei , meu poeta, um vale verde
Nas encostas charmosas displicentemente místicas,
Retrato favorável aos amantes escondidos,
Feito de ondas dormentes e de ramos inclinados,
Onde o belo meio-dia banha em vão com seus raios sem número
A gruta e a floresta, frescos asilos de sombra!

Por você eu a procurei, uma manhã, orgulhoso, feliz,
Com o amor no coração e a madrugada nos olhos;
Por você eu a procurei, acompanhado daquela
Que sabe todos os segredos que minha alma esconde,
E quem, só comigo sobre os bosques hirsutos,
Seria minha Licoris se eu fosse seu Gallus.

Porque ela tem no coração esta flor larga e pura,
O amor misterioso de antiga natureza!
Ela ama como nós, mestre, estas doces vozes
Este barulho de ninhos felizes que saem dos sombrios bosques,
E, a noite, toda ao fundo do vale estreito,
As encostas derrubadas no lago que reverbera,
E, quando o poente triste perdeu seu rubor,
Os pântanos irritados dos passos do viajante,
E o humilde sapê, e o antro obstruído de erva verde,
E que lembra uma boca com o terror aberto,
As águas, os prados, os montes, os refúgios charmosos,
E os grandes horizontes cheios de brilhos!

Mestre! pois eis a estação das pervincas
Se você quiser, cada noite, afastando os galhos,
Sem despertar ecos em nossos passos ousados,
Nós iremos todos os três, quer dizer, todos dois,
Nesse valezinho selvagem e de solidão,
Sonhadores, nós surpreenderemos a secreta atitude.
Na parda clareira onde a árvore ao tronco nodoso
Toma a noite um perfil humano e monstruoso,
Nós deixaremos fumar, à costa de um Falso Ébano,
Algum fogo que se extingue sem pastor que o atiça
E, a orelha esticada à suas vagas canções,
Sobre a sombra, ao luar, a atravessar as moitas,
Ávidos, nós poderemos ver, furtivamente
Os sátiros dançantes que imitam Alfesibéia.

Esse mistério que veio do Uruguai, que escreveu em francês e, como muito se diz, foi precursor do surrealismo, o próprio Breton que disse. Pouco se sabe, mesmo, inclusive como era fisicamente. Há alguns desenhos, um deles, do Artaud. Escreveu Les Chants de Maldoror, onde diz “eu fiz um pacto com a prostituição, para semear a desordem entre as famílias”. Perdeu a mãe francesa com vinte meses de idade. Escolheu um nome para si, Conde de Lautréamont, talvez para homenagear o Marquês de Sade, cruzamento direto, mas, como saber? Fato é que, Lautréamont, é um animal feroz, sem exagero. Isidore Lucien Ducasse, Conde de Lautréamont – Montevidéu, Uruguai, 4 de abril de 1846 – Paris, 24 de novembro de 1870.

Miasmas em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

VIEIL OCÉAN
de Lautréamont
tradução de Pedro Lago

Eu me proponho, sem ser de modo algum comovido, a entoar o canto sério e frio que vocês irão ouvir. Prestem atenção ao que ele contém, e guardem a impressão penosa que vocês não carecerão de deixar, como um estigma, dentro de suas imaginações perturbadas. Não creiam que eu esteja no ponto de morrer, porque eu não sou mais um esqueleto, e a velhice não grudou na minha face. Afastemos adequadamente toda a idéia de comparação com um cisne, no momento onde sua existência se evapora, e não vejam diante de vocês um monstro, do qual eu estou feliz que vocês não possam perceber a cara, mas menos horrível é ela que sua alma!… Entretanto eu não sou mais um criminoso… o bastante sobre este assunto. Há não muito tempo que eu revi o mar e andei até o cais, e minhas memórias estão vívidas como se eu as tivesse abandonado na véspera. Sejam, contudo, se vocês o podem, tão calmos quanto eu nessa leitura da qual eu já me arrependo de oferecer, e não ruborizem ao pensamento do que é o coração humano. Ah! Dazet! Tu, cuja alma é inseparável da minha; tu, o mais belo dos filhos da mulher, embora adolescente ainda; tu, cujo nome se parece ao maior amigo da juventude de Byron; tu em quem reúnem-se nobremente, como em sua residência natural, por um comum acordo, de um laço indestrutível, a doce virtude comunicativa e as graças divinas, porque não és tu comigo, teu peito contra o meu peito, sentados todos os dois sobre algum rochedo da orla, para contemplar este espetáculo que eu adoro.

Velho Oceano, as ondas de cristal, tu te pareces proporcionalmente a essas manchas azuladas que vemos sobre as costas feridas das espumas; tu és um imenso azul sobre os corpos da terra: eu amo esta comparação. Assim, ao teu primeiro aspecto, um sopro prolongado de tristeza, que acreditamos ser o murmúrio de tua brisa suave passa deixando inefáveis traços sobre a alma profundamente abalada, e tu chamas de volta a lembrança de teus amantes, sem que se perceba sempre, os rudes princípios do homem onde ele trava conhecimento com a dor que não o deixa mais. Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, tua forma harmoniosamente esférica, que alegra a face grave da geometria, não me lembra menos do que muitos dos pequenos olhos do homem, parecidos aos do javali para a pequenez, e aos dos pássaros da noite para a perfeição circular do contorno. No entanto, o homem acreditou-se belo em todos os séculos. Eu, suponho, antes de preferência, que o homem não acreditou em sua beleza apenas por amor próprio; mas que ele não é belo realmente e que ele disso duvida; senão por que ele observa a figura de seu semelhante com tanto desprezo? Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, tu és o símbolo da identidade: sempre igual a ti mesmo. Tu não varias de uma maneira essencial, e se tuas ondas estão em alguma parte em fúria, mais ainda em qualquer outra zona elas estão na calma mais completa. Tu não és como um homem, que para na rua para ver dois buldogues se agarrando no pescoço, mas que não para quando um funeral passa; que está nesta manhã acessível e nesta noite de mal humor, que ri hoje e chora amanhã. Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, não haveria nada de impossível no que tu escondes em teus seios de futuras utilidades para o homem. Tu já lhe destes as baleias. Tu não te deixas facilmente adivinhar pelos olhos ávidos das ciências naturais os mil segredos de tua íntima organização: Tu és modesto. O homem se gaba sem cessar e para as minúcias. Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, as diferentes espécies de peixes que tu alimentas, não juraram fraternidade entre elas. Cada espécie vive de sua parte. Os temperamentos e as conformações que variam em cada uma delas, explicam de uma maneira satisfatória; o que parece a princípio uma anomalia. É desse modo um homem que não possui os mesmos motivos de desculpa. Um pedaço de terra é ocupado por trinta milhões de seres humanos, os que se crêem obrigados em não se misturar na existência de seus vizinhos, fixados como raízes sobre o pedaço de terra que perseguem. Descendo do grande ao pequeno, cada homem vive como um selvagem dentro de sua caverna, e saem raramente para visitar seu semelhante agachado igualmente dentro de outra caverna. A grande família universal dos humanos é uma utopia digna da lógica das mais medíocres. Além disso, do espetáculo de tuas tetas fecundas emerge a noção de ingratidão, porque pensa-se imediatamente aos seus parentes numerosos demasiadamente ingratos para com o Criador para abandonar o fruto de sua miserável união. Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, tua grandeza material, não pode ser comparada ao cálculo que se fez do que foi necessário de força ativa para engendrar a totalidade de tua massa. Não se pode te beijar de lampejo. Para te contemplar, é preciso que a paisagem se transforme por um momento contínuo em direção aos quatro pontos do horizonte, igualmente a um matemático que no afã de resolver uma equação algébrica, examina separadamente diversos casos possíveis antes de determinar as dificuldades. O homem come substancias nutritivas e faz outros esforços dignos de uma melhor sorte para parecer alimentado: que ela se inche tanto que ela desejará, esta rã. Sejas tranqüilo, ela não te igualará em dimensão; eu acho, pelo menos. Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, teus olhos são amargos. É exatamente o mesmo gosto da bílis que destila a critica sobre as belas artes, sobretudo as ciências, sobretudo. Se alguém tem a genialidade sobre as ciências, faz-se passar por um idiota; se um outro alguém é belo de corpo, é um corcunda abominável. Certamente, é preciso que o homem sinta com força sua imperfeição, cujos três quartos, aliás, não devem menos que a ele mesmo, para a criticar assim! Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, os homens, apensar da excelência de seus métodos, não são ainda seguros, ajudados pelos meios de investigação da ciência, a medir a profundidade vertiginosa de teus abismos; tu que tens as sondas longas, as mais pesadas reconheceram-se inacessíveis. Aos peixes isto é permitido, não aos homens. Muitas vezes eu me questionei que coisa seria mais fácil a reconhecer: a profundidade do Oceano ou a profundidade do coração humano! Muitas vezes, com a mão ao alcance da testa, em pé diante dos navios, enquanto a lua se balançava entre os mastros de um jeito irregular, eu me surpreendi fazendo abstrações de tudo o que não era o fim que eu perseguia, me esforçando para resolver esse difícil problema! Sim, qual é o mais profundo, o mais impenetrável dos dois, o Oceano ou o coração humano? Se trinta anos de experiência de vida podem até certo ponto inclinar a balança para uma ou outra dessas soluções, me será permitido dizer que, apesar da profundidade do Oceano, não se pode igualar, quanto à comparação sobre esta propriedade, com a profundeza do coração humano. Eu estive em relação com os homens que foram virtuosos. Eles morreram aos sessenta anos, e cada um não deixava de se gabar: “Eles fizeram o bem sobre esta terra, quer dizer, ele praticaram a caridade: eis tudo, isto não é malicioso, cada um pode fazer tanto quanto” Quem compreenderá porque dois amantes que se idolatram na véspera, por uma palavra mal interpretada, se afastam, um em direção ao Oriente, o outro em direção ao Ocidente, com os aguilhões do ódio, da vingança, do amor e do remorso, e não se revêem mais, cada um coberto em seu orgulho solitário. É um milagre que se renova a cada dia e que não é menos miraculoso. Quem compreenderá porque aprecia-se não somente as desgraças gerais de seus semelhantes, mas também, as particularidades de seus mais queridos amigos, mesmo de seu pai e de sua mãe, ao passo que se aflige ao mesmo tempo? Um exemplo incontestável para concluir a série: o homem diz hipocritamente sim e pensa não. É por isso que os homens tem tanta confiança uns nos outros, e não são egoístas. Resta à psicologia mais progresso a fazer. Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, tu és tão poderoso que os homens o aprenderam as suas próprias custas. Eles fazem bom uso de todos os recursos de seu gênio…; incapazes de te dominar. Eles acharam seu mestre. Eu digo que eles encontraram alguma coisa mais forte que eles. É alguma coisa, um nome. Este nome é: O Oceano! O medo que tu os inspiras é tal que eles te respeitam. Apesar disso, tu fazes valsar suas mais pesadas maquinas com graça, elegância e facilidade. Tu os fazes dar saltos ginásticos, até o céu, e dar mergulhos admiráveis até o fundo de teus domínios: um saltimbanco ficaria com inveja. Bem aventurados são eles quando tu não os envelopa definitivamente em tuas camadas espumantes para ir ver, sem trilhos, em tuas entranhas aquáticas, como se portam os peixes, e sobretudo, como se portam eles-mesmos. O homem disse: “Eu sou mais inteligente que o Oceano” É possível, mas o Oceano a ele é mais abominável que ele ao Oceano: é o que não é necessário provar. Este patriarca observador, contemporâneo das primeiras épocas de nosso globo suspenso, sorriu de pena quando viu os combates navais das nações… Eis uma centena de leviathans que saíram das mãos da humanidade! A ordens enfáticas dos superiores, os gritos dos feridos, os tiros de canhão, é o ruído feito com o propósito de aniquilar alguns segundos… O drama termina, o Oceano colocou tudo em seu ventre! Oh! Essa garganta formidável!… Quão grande deve ela ser para baixo, na direção do desconhecido! Para coroar a estúpida comédia, que não é mesmo interessante, vê-se no meio dos ares alguma cegonha atrasada pela fadiga, que se põe a gritar, sem parar a envergadura de seu vôo: “Ei! acho que é ruim! Havia lá embaixo pontos negros. Eu fechei os olhos… eles desapareceram” Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, ó grande celibatário, quando tu atravessas a solidão solene de teus reinos fleumáticos, tu te orgulhas acertadamente de tua magnitude nativa, e os elogios verdadeiros que me apresso em te dar. Balanças voluptuosamente pelos brilhos suaves de tua lentidão majestosa, que é a mais grandiosa entre os atributos cujo soberano poder te gratificou, tu desenrolas, no meio de um sombrio mistério, sobre tua superfície sublime, tuas ondas incomparáveis com o sentimento calmo de teu poder eterno. Elas se acompanham paralelamente, separadas por curtos intervalos. Mal uma diminui, uma outra vai até ela se reencontrar crescendo, acompanhadas elo ruído melancólico da espuma. (desta forma os seres humanos, as ondas vívidas, extinguem uma após a outra de uma maneira monótona, mas sem deixar o barulho espumoso) O pássaro de passagem descansa sobre elas com confiança, e se deixa abandonar a seus movimentos cheios de uma graça orgulhosa, até que os ossos de suas asas tenham recuperado seu vigor acostumado para continuar a peregrinação aérea. Eu gostaria que a dignidade humana não fosse nada menos que uma encarnação do reflexo da tua; eu desejo muito. Este desejo sincero é glorioso para ti. Tua grandeza moral, imagem do infinito, é imensa como a reflexão do filosofo, como o amor da mulher, como a beleza divina do pássaro, com as meditações do poeta. Tu és mais belo que a noite. Responda-me, Oceano, tu queres ser meu irmão? Me agites com impetuosidade, mais… mais ainda, se tu quiseres que eu te compare à vingança de Deus; alongues tuas garras lívidas abrindo um caminho sobre teu próprio seio… é ótimo… Desenroles tuas ondas abomináveis, Oceano repugnante, compreendido por mim somente e diante do qual eu tombo, prosternado a teus joelhos. A dignidade do homem é emprestada; ele não me imporá um ponto. Tu, sim. Oh! Quando tu avanças a alta crista e terrível, cercada de tuas dobras tortuosas como de uma corte, magnetizador e feroz, rolando tuas ondas umas sobre as outras, com a consciência de que tu és, para que tu cresças das profundezas de teu peito, como que comovido de um remorso intenso que eu não pude descobrir, este surdo rugido perpétuo que os homens receiam tanto, mesmo quando eles te contemplam em segurança, trêmulos sobre a margem, então, eu vejo que ele não me pertence, o direito notável de me dizer teu igual. É porque na presença de tua superioridade, eu te daria todo o meu amor (e nulo não sabes a quantidade de amor que contem minha aspirações sobre o belo), se tu não me fizesses dolorosamente pensar aos meus semelhantes, que formam com ti o mais irônico contraste, a antítese mais bufônica que jamais se viu na criação: Eu não posso te amar. Eu te detesto. Porque volto a ti pela milésima vez, em direção a teus braços amigos que se entreabrem para acariciar meu rosto ardente, que vê desaparecer a febre em teu contato! Eu não conheço teu destino escondido: Tudo que te concerne me interessa. Digas para mim então se tu és a morada do Príncipe das Trevas. Dizes para mim, dizes para mim, Oceano (a mim somente para não entristecer os que ainda não conheceram nada menos que ilusões) e se o sopro de Satan criou as tempestades que agitam teus olhos salgados até as nuvens. É preciso que tu me digas, porque eu me alegraria em conhecer o inferno tão perto do homem. Eu quero que esta seja a última estrofe da minha invocação. Assim sendo, uma última vez de novo, eu quero te saldar e te fazer meus adeuses! Velho Oceano, as ondas de cristal… Meus olhos se molham de lágrimas abundantes, e eu não tenho a força de perseguir, pois eu sinto que o momento de voltar para entre os homens chegou, ao aspecto brutal: Mas; coragem! Façamos um grande esforço e terminemos com o sentimento do dever, nosso destino sobre esta terra. Eu te saúdo, velho Oceano!

A apropriação da imagem do Rimbaud pelo movimento punk é um reflexo bem interessante do que ele representa. Hoje, camisas são vendidas na França. Parece também que o “dia mundial do poeta” é comemorado no dia de seu aniversário, dentre muitas outras reverberações. Ecos. E pensar que não fosse pelo Verlaine, talvez, isso não ocorresse. Outra figura importante na divulgação da obra do jovem poeta de Charleville foi Ezra Pound. Rimbaud sofreu muito na mão dos padres de sua infância, suas prosas do início são lindas, menino da província explodindo em Paris, belo e rústico, poeta de técnica impressionante. Depois de explorar tudo, foi viver o corpo, viajou, ganhou dinheiro com armas, foi para a Àfrica, perdeu uma perna, coisas que todos sabemos. Rimbaud é desses poetas de substância concentrada, capaz de nos fazer mudar, ou mais. Jean-Nicolas Arthur Rimbaud, Charleville 20 de outubro de 1854 – Marselha, 10 de novembro de 1891.

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LE BATEU IVRE
de Arthur Rimbaud
tradução de Pedro Lago

Como eu descia os Rios Impassíveis,
Não me senti mais guiado pelos sirgadores.
Os Peles-Vermelhas berrantes os tinham pego para alvo
Tendo-os pregado, nus, nos postes de cores.

Eu estava inconsciente de toda a tripulação,
Carregador de trigo flamengo ou de algodão inglês.
Quando com meus sirgadores terminaram a algazarra
Os Rios me deixaram descer para onde eu queria.

Dentro dos marulhos furiosos das marés,
Eu, outro inverno, mais surdo que os cérebros das crianças,
Corri! E as Penínsulas desamarradas
Não sofreram confusões triunfantes.

A tempestade abençoou meus despertares marítimos.
Mais leve que uma rolha eu dancei sobre as marés
Que chamamos balanço eterno das vítimas,
Dez noites, sem prantear o óleo parvo das lanternas!

Mais doce que as crianças a carne das maçãs ácidas,
A água verde penetrou minha casca de pinho
E as manchas de vinhos azuis e os vômitos
E me lavou, dispersando leme e arpéu.

E desde então, eu me banhei dentro do poema
Do mar, infundido de astros e lactescente,
Devorando os azuis verdes; onde, na flutuação lívida
E cantante, um afogado pensativo às vezes desce;

Onde, tingindo subitamente os azuis delírios
E ritmos lentos sobre os rutilamentos do dia,
Mais fortes que o álcool, mais vastos que vossas liras,
Fermentando os ruivos amargos do amor!

Eu conheço os céus arrebentando em relâmpagos, e as trombas
E as ressacas e as correntes; eu conheço a noite,
A madrugada exaltada assim que um povo de pombas,
Eu vi às vezes o que o homem jamais acreditou ver!

Eu vi o sol baixo manchado de horrores místicos,
Iluminando do alto coágulos violetas,
Semelhante ao dos atores de dramas muito antigos
As ondas rolando ao longe seus frissons de persianas!

Eu sonhei a noite verde às neves ofuscantes,
Beijos subindo aos olhos dos mares com lentidão,
A circulação das seivas inauditas,
E o despertar amarelo e azul dos fósforos cantantes!

Eu segui, de mêses cheios, semelhantes às vacarias
Histéricas, o marulho ao assalto dos recifes,
Sem sonhar que os pés luminosos das Marias
Pudessem forçar o focinho aos Oceanos asmáticos!

Eu colidi, sabe você, de inacreditáveis Floridas
Misturando as flores dos olhos de panteras às peles
Dos homens! Dos arco-íris estendidos como as rédeas
Sobre o horizonte de mares, aos glaucos gados!

Eu vi fermentar os pântanos enormes, nassas
Onde apodreceu dentro dos juncos um inteiro Leviatã!
Os desabamentos de água ao meio das bonanças,
E os longínquos para os abismos cataratantes!

Geleiras, sóis de prata, marés de nácar, céus de brasas!
Fracassos hediondos do fundo dos golfos pardos
Onde as serpentes gigantes devoradas pelos percevejos
Caem das árvores tortas com negros perfumes!

Eu quereria mostrar às crianças esses dourados
Do mar azul, esses peixes de ouro, esses peixes cantantes,
- As espumas de flores abençoaram minhas enseadas
E os inefáveis ventos me fizeram voar por instantes.

Às vezes, martírio laçado dos pólos e das zonas,
O mar cujo soluço fazia meu balanço doce
Subiam sobre mim suas flores de sombras dos ventosos amarelos
E eu ficava, portanto, como uma mulher de joelhos…

Quase-ilha, sobre minhas bordas as querelas
E os excrementos dos pássaros gritantes aos olhos louros.
E eu vogava, quando através meus laços frágeis
De afogadas desciam para dormir, recuando!

Ora, eu, barco perdido sob os cabelos das ansas
Atirado pelo furacão no éter sem pássaro,
Eu cujos Monitores e os veleiros das Hansas
Não queriam pescar de novo a carcassa ébria da água;

Livre, fumando, embarcado de brumas violetas,
Eu que abri um buraco no céu avermelhando como um muro
Que traz, geléias delicadas aos bons poetas,
Liquens de sol e mucos do azul;

Que corria, manchado de lúnulas elétricas,
Prancha louca, escoltado de hipocampos negros,
Quando os julhos faziam desabar a golpes de porrete
Os céus ultramarinos aos ardentes funis;

Eu que tremia, sentindo choramingar à cinquenta lugares
O cio do Béhémots e dos Maelstroms espessos,
Fiandeiro eterno das imobilidades azuis,
Eu anseio a Europa dos antigos parapeitos!

Eu vi os arquipélagos siderais! e ilhas
Cujos céus delirantes são abertos ao navegante:
- São nessas noites sem fundo que você dorme e se exila,
Milhões de pássaros de ouro, ó futuro Vigor?

Mas, na verdade, eu chorei muito! As madrugadas são aflitivas,
Toda lua é atroz e todo sol amargo:
O acre amor me encheu de torpores inebriantes
Ah que minha quilha quebre! Ah que eu vá ao mar!

Se eu desejo uma água da Europa, é a leve
Negra e fria para o crepúsculo embalsamado,
Uma criança agacha cheia de tristeza, solta
Um barco frágil como uma borboleta de maio.

Eu não pude mais, banhado de vossa languidez, ó ondas,
Arrebatar suas esteiras aos carregadores de algodão,
Nem atravessar o orgulho das bandeiras e das flâmulas,
Nem nadar sob os olhos horríveis dos pontões.

dezembro 6, 2011

Euclides da Cunha

No dia 20 de janeiro de 1866, nasce Euclides Rodrigues da Cunha, na Fazenda da Saudade, em Santa Rita do Rio Negro, atual Euclidelândia, no município de Cantagalo, Rio de Janeiro. Fillho de Manoel Rodrigues Pimenta da Cunha e Eudóxia Alves Moreira, o jovem foi batizado, apenas, no dia 24 de novembro. Entraremos, então, na obra poética, pouco difundida, deste grande escritor brasileiro. Evoé Euclides!

Thunder, thunder, hhhôôôuh! em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

EU QUERO…

Eu quero à doce luz, os vespertinos pálidos,
Lançar-me, apaixonado, entre as sombras das matas -
- Berços feitos de flores e de carvalhos válidos,
Onde a Poesia dorme, aos cantos da cascatas…

Eu quero aí viver – o meu viver funéreo,
Eu quero aí chorar – os tristes prantos meus…
E envolto o coração, nas sombras do mistério,
Sentir minh’alma erguer-se entre a floresta e Deus!…

Eu quero aí unir a voz de meus martírios
C’os trenos, que murmura a brisa nos palmares
- As lágrimas guardar, no seio azul dos lírios,
E os soluços no seio dos trêm’los nenúfares…

Eu quero, da ingazeira – erguida aos galhos úmidos,
Ouvir os cantos virgens – da agreste patativa…
Da natureza eu quero nos grandes seios túmidos
Beber a Calma, o Bem e a Crença – ardente, altiva -

Eu quero, eu quero ouvir o esbravejar das águas
Das ásp’ras cachoeiras que irrompem do sertão…
- E a minh’alma cansada – ao peso atroz das mágoas -
Silente adormecer no colo da solidão…

Em1868, nasce a irmã de Euclides, Adélia, no dia 9 de agosto. Um ano depois, o pequeno Euclides, com apenas três anos de idade, torna-se órfão de mãe, vítima de uma tuberculose. Com isso, em 1870, muda-se com a família para Teresópolis, no Rio de Janeiro, para a casa de seus tios Rosinda e Urbano Gouveia, porém, sua tia, Rosinda, que havia ocupado o posto de mãe em sua criação, também morre.

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O JAGUAR

Livre das selvas que trazes
Na garra – o pavor da terra,
No peito – as canções da guerra
Nos olhos – chamas audazes!

Quando convulso tu bramas
Nas brenhas – bravo, possante -
E o Sol te arranca, ofuscante,
Do olhar – punhados de flamas!…

Quando na raiva sem termos -
Povoas – fremindo forte
Com um poema de morte
A calma mudez dos ermos!;

Lembras o meu coração!…
Livre qual tu, qual tu forte
Freme, palpita sem norte
De meu peito na solidão!…

Salta – estaca – bravo, lesto
Cheio de amor e ódio, deixa
Uma blafêmia uma queixa
Um poema em cada esto…

Se a trevosa e fria vaga
Da desgraça nele bate
Ele blasfema am embate
Crê Satã e ruge a praga!

Jaguar! ida a raiva tua
Imóvel, calmo tu lavas
Do sangrento olhar as lavas
No argênteo clarão da Lua…

Meu coração – ida a dor
Chora e canta – entre a soidade -
- No saltério da saudade
A Eterna harmonia: – o amor!…

Depois da morte de sua tia Rosinda, em 1871, Euclides se muda para São Fidélis, no Rio de Janeiro, com a irmã e passa a morar com os tios Laura e Cândido José Magalhães Garcez, na Fazenda São Joaquim. Um ano depois, matricula-se no Colégio Caldeira, sob direção de Francisco José Caldeira, que era um pedagogo português. Em 1878, mais uma mudança, desta vez, para Salvador, Bahia, para, morar com a avó e passa a estuda no Colégio Bahia.

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OS GRANDES ENJEITADOS

Servis!… dançai, folgai – na régia bacanália…
Quadro-voz essa luz que nos raios espalha
A treva e o crime atrai!…

Valsai – nesse delírio atroz, brutal que assombra -
Folgai… a grande Luz espia-vos na sombra!
Folgai, cantai – valsai!…

Que vos importa – ó vis, caricatos atletas -
Se o povo dorme nu – nas lôbregas sarjetas -
Entre o pântano e os Céus!….

Q’importa se essa luz – faz as noites da História!
Q’importa se os heróis ‘stão entre a lama e a Glória
Entre a miséria e Deus!…

Q’importa-vos a dor; – a lágrima brilhante
Do seio dos heróis -, estrela palpitante
Que ao céu do porvir vai…

Q’importa-vos a honra, a consciência, a crença,
A justiça, o dever!?… ah! vossa febre é imensa! -
Folga, folgai, folgai!…

Q’importa-vos a Pátria…a pátria – é-vos um nome!….
Q’importa-vos o povo – esse galé da fome -
Ó cortesãos, ó rei!?

Se o olhar das barregãs, de amor e febre aceso
Vos ferve dentro d’alma – e se o direito é preso
Nessa grilheta – Lei!

Fazeis bem em rir – ó pequeninos seres…
O crime, o vício e o mal são os vossos deveres -
Avante pois – gozai…

Atufai-vos – rolai ó almas guarida -
No abismo fundo e frio – o seio da perdida!…
– Cantai… cantai, cantai!…

Gritai com força! assim… não percebeis agora
O eco de vossa voz?… – de vossa voz sonora -
Tremer na vastidão!?

Não ouvis as canções que o seu frêmito espalha?…
Ele desce de Deus – ó dourada canalha -
Ele é – Revolução!…

Em 1879, Euclides volta para a região fluminense para morar com seu tio paterno, Antônio Pimenta da Cunha, em uma chácara nas imediações do atual Largo da Carioca e matricula-se no Colégio Anglo-Americano. Em 1880, muda novamente de escola, agora frequenta os colégios Vitório da Costa e Meneses Vieira e faz os preparatórios. Em 1883, inicia estudos no Colégio Aquino sob a supervisão de Benjamin Constant. Com alguns colegas, passa a editar o periódico mensal ‘O Democrata’ lançado em 1884, no qual Euclides publicará seu primeiro trabalho em prosa. Também declama poemas no Centro José de Alencar. São dessa época seus primeiros poemas.

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AO CLARÃO DAS FORJAS

Ó fronte varonil – brônzea, dominadora
Que a palpitante luz das fornalhas aclara…
- Alma – altiva e viril, como o bronze – sonora,
Tão rija como o aço e como as forjas – clara!…

Combatente da paz nas lutas do trabalho,
Tu – que ani’las com o olhar – a fome tenebrosa;
E fazer teu porvir – com o ferro, o fogo e o malho
- Dá-me esta áspera mão dá-me esta mão calosa!…

Esta ásp’ra mão robusta, ardente, válida – esta
Mão – que os malhos levanta e, esplêndida à vibrá-los
- Férrea e grande – produz do progredir a orquestra!
- Dá-me esta mão que veste – uma luva de calos!…

E deixa te dizer em cálida linguagem
Ígnea – como o suor – com o qual a fronte adornas -
Como tu’alma – brava, intérmina, selvagem -
- Ásp’ra como a canção sonora das bigornas…

Não invejes – jamais – aos que a sorte fagueira
As frontes osculou descendo um áureo traço -
Eles têm o futuro e a crença – na algibeira -
Tu – tens a crença n’alma – e o futuro – em teu braço.

Em 1885, Euclides entra na Escola Politécnica no Largo de São Francisco no Rio de Janeiro. Um ano depois assenta na Escola Militar da Praia Vermelha como cadete número 308, estundando com Cândido Rondon e Tasso Fragoso. Datam desta época, poemas filosóficos e melancólicos. Passa a colaborar com artigos e poemas na Revista da Família Acadêmica editada pelos alunos da Escola Militar. Porém, um incidente mudaria seu percurso.

Os ossos em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

VIAM-NO SEMPRE A DIVAGAR TORVADO

Viam-no sempre a divagar torvado
Pelas tabernas vos, – sempre seguido
De um velho cão famélico e ferido,
Bêbado – impuro, torpe e enlameado…

Veio afinal o inverno amaldiçoado!…
No negro quarto o homem enf’recido
E o cão vacilam ante empedernido,
Vil pedaço de pão – duro e gelado…

Ambos têm fome… torvo – lutulento
Ao pão gelado o miserável corre
E atira-o ao companheiro famulento

Do quarto os cantos a tatear percorre
Erguendo uma garrafa – esgota-a lento
E cambaleia e cai e arqueja e – morre!…

Há duas versões para o incidente da Escola Militar de 1888. O primeiro foi que os alunos do terceiro ano, que não haviam recebido promoção, segundo a lei, para o posto de alferes-alunos, dentre eles, Euclides, organizaram um manifesto aberto diante o Ministro da Guerra do Império, Tomás Coelho, para quando visitasse a escola. A segunda versão conta que os alunos aguardavam para assistir ao desembarque de Lopes Trovão, que voltava da Europa. A questão é que uma visita regulamentar de Tomás Coelho foi marcada no mesmo dia para impedir os alunos de irem ao desembarque. Pois bem, durante o desfile, Euclides saiu da forma, e em vez de levantar seu sabre-baioneta de sargento em saudação, tenta quebrá-lo no joelho, joga-o no chão e profere palavras de protesto. Por isso, é preso, expulso da escola, considerado “doente dos nervos”, e se recusa a mentir no depoimento para aliviar sua pena. É expulso do exército e vai para São Paulo, onde começa a escrever para o jornal ‘A Província de S. Paulo’.

O poema Corpo Aberto aqui http://pedrolago.blogspot.com

A RIR

Eu já não creio mais… sombrio e calmo enfrento
- O lábio ermo da prece; o peito ermo da crença -
A estrela – rubra e imensa
De meu destino atroz, aspérrimo e sangrento!…
E embora sobre mim flamívoma suspensa
Em minh’alma os clarões fatais ela concentre
Eu suporto-lhe bem o flamejante baque
- Altivamente calmo – entricheirando-me entre
Uma canção de Byron
E um cálix de cognac…
- Não há dor que resista ao som de uma risada! –
Depois – se me exacerbo
E tremo e choro erguendo a prece à alma magoada
Mais me dói essa dor, mais esse mal é acerbo!
Assim – eu resolvi, indiferente e frio
Cheio de orgulho e spleen – como um banqueiro inglês!
Sepultar na ironia o pranto meu sombrio…
Por isso quando atroz na triste palidez
De minha fronte paira amarga ideia – eu rio!…
E quando pouco a pouco
Essa ideia me abate e vence-me alterosa
De amargores repleta – eu rio como um louco…
E se ela inda dói mais e forte e tenebrosa
Sói a último idela de minh’alma aniilar
E vencer-me de todo
Então – eu me ergo mais – e desvairando o olhar
– Divinamente doido -
Eu rio, rio muito e rio – até chorar!…

Em 1889, Euclides volta ao Rio de Janeiro e presta exames para a Escola Politécnica. No dia 16 de novembro, chega-lhe a notícia da proclamação da República. No mesmo dia, visita o major Solon Ribeiro, e participa de uma reunião em sua casa. Euclides, enfim, é reintegrado ao exército graças ao apoio do novo Ministro da Guerra, seu antigo mestre, Benjamin Constant. Dois dias depois é promovido a alferes-aluno. Publica em ‘A Província de São Paulo’ uma série de oito crônicas intitulada ‘Atos e Palavras’. Seu trabalho com as crônicas se estende, e Euclides assina mais quatro crônicas no mesmo jornal.

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RIMAS

Ontem – quando soberba escarnecias
Dessa minha paixão – louca – suprema
E no teu lábio essa rosada algema
A minha vida – gélida – prendias…

Eu meditava em loucas utopias
Tentava resolver grave problema…
- Como engastar tu’alma num poema? -
E eu não chorava quando tu rias…

Hoje – que vives desse amor ansioso
E és minha – és minha, extraordinária sorte,
Hoje eu sou triste sendo tão ditoso!…

E tremo e choro – pressentindo – forte
Vibrar – dentro em meu peito, fervoroso
Esse excesso de vida – que é a morte…

Em 1890, Euclides matricula-se na Escola Superior da Guerra, no dia 8 de janeiro, e completa, em 11 de fevereiro, o curso de artilharia. Não demora muito a ser promovido a segundo-tenente e, em seguida, oficial do Batalhão Acadêmico. No dia 10 de setembro do mesmo ano, Euclides casa-se com Ana Ribeiro, ou “Saninha”, filha do major Solon Ribeiro. No ano seguinte, recebe um mês de licença para tratamento de saúde e vai para a Fazenda Trindade, de seu pai, em São Paulo. Quando se prepara para fazer os cursos de Estado-Maior e Engenharia Militar na Escola Superior de Guerra, morre sua primeira filha, Eudóxia, semana depois de seu nascimento.

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OS LEMURES

Ó minha musa – imaculada e santa!
Deixa um momento os sonhos teus benditos
Despe os teus véus de noiva do ideal
Deixa-os, despe-os e canta
Sobre as ruínas trágicas do mal
As almas arruinadas dos malditos!…

Em 1892, Euclides conclui os cursos de Estado-Maior e Engenharia Militar na Escola Superior de Guerra e é promovido a tenente do Estado-Maior. Começa a colaborar com O Estado de São Paulo sob o pseudônimo de José Dávila com crônicas. Em novembro deste ano nasce seu primeiro filho Solon e começa a trabalhar na Estrada de Ferro Central do Brasil no trecho entre São Paulo e Caçapava depois de ter solicitado posto a Floriano Peixoto. Em dezembro do ano seguinte, 1893, durante a Revolta da Armada, Euclides é designado a servir provisoriamente na Diretoria de Obras Militares para dirigir a construção de trincheiras no Morro da Saúde, no Rio de Janeiro.

Pedro Lage em http://cartilhadepoesia.wordpress.com

ESTANCIAS

Les beaux yeux sauvent beaux vers!…
V. Hugo

Meu pobre coração tão cedo aniquilado
Na ardência das paixões – ó pálida criança -
Revive à doce luz do teu olhar magoado

E cheio de ilusões, de crenças e esperança
Faz o castelo ideal das louras utopias
- Com os brilhos desse olhar e o ouro de tua trança! -

Quando sobre as sombrias
Ondas – vasto luar esplêndido se espalma
De todo o seu negror, arranca as ardentias

De teu olhos assim à luz divina e calma
Dimanam – cintilando – as ilusões e os versos
Das sombras de minh’alma…

E sonho e canto e rio e me deslumbro… imersos
- No místico luar que sobre mim derramas -
Fulguram como sóis meus ideais dispersos!…

Fulguram como sóis – entre sonoras flamas -
Partindo no meu peito a tétrica penumbra
E o silêncio fatal de dolorosos dramas…

E tudo hoje antes tem luz, tem voz – deslumbra -
Pois – tal como um ideal – uma canção ressumbra -
E em cada uma canção – o teu olhar cintila…

Em 1894, Euclides publica um polêmico artigo na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, replicando o modo punitivo sugerido para a execução dos prisioneiros pelo senador florianista João Cordeiro, do Ceará, durante a revolta da Armada. Os protestos, porém, surtiram efeito contrário e houve desconfiança dos militares que o afastaram, pouco a pouco do campo da ação. Floriano Peixoto e outros jacobinos não o apoiam mais. Ao fim da revolta, é transferido par Campanha, em Minas Gerais, para a reforma do prédio da Santa Casa de Misericórdia. Este período é marcado por estudos. No dia 18 de julho do mesmo ano, nasce seu segundo filho, Euclides, o Quindinho.

A lua em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

D. QUIXOTE

Assim à aldeia volta o da triste figura
Ao tardo caminhar do Rocinante lento;
No arcabouço dobrado um grande desalento,
No entristecido olhar uns laivos de loucura.

Sonhos, a glória, o amor, a alcantilada altura,
Do ideal e da fé, tudo isto num momento,
A rolar, a rolar, num desmoronamento,
Entre risos boçais do bacharel e o cura.

Mas certo, ó D. Quixote, ainda foi clemente,
Contigo a sorte ao pôr neste teu cérebro oco,
O brilho da ilusão do espírito doente;

Porque há cousa pior: é o ir-se pouco a pouco
Perdendo qual perdeste um ideal ardente
E ardentes ilusões e não se ficar louco.

Em 1896, Euclides, já reformado do exército, retorna a São Paulo, onde é nomeado engenheito-ajudante de primeira classe da Superintendência de Obras Públicas do Estado de São Paulo. Neste momento, estreita laços de amizade com Gonzaga de Campos, Teodoro Sampaio e Bueno Andrade. Visita várias cidades do interior paulista, e sobretudo, São José do Rio Pardo. Em novembro deste ano, irrompe o movimento de Canudos.

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PÁGINA VAZIA

Quem volta da região assustadora
De onde eu venho, revendo inda na mente
Muitas cenas do drama comovente
Da Guerra despiedada e aterradora,

Certo não pode ter uma sonora
Estrofe, ou canto ou ditirambo ardente,
Que, possa figurar dignamente
Em vosso Álbum gentil, minha Senhora.

E quando, com fidalga gentileza
Cedestes-me esta página, a nobreza
Da vossa alma iludiu-vos, não previstes

Que quem mais tarde nesta folha lesse
Perguntaria: “Que autor é esse
De uns versos tão mal feitos e tão triste”?!

Em 1897, Euclides publica “Distribuição dos Vegetais no Estado de São Paulo” em O Estado de São Paulo no mês de julho. No mesmo mês, saem a primeira e a segunda parte do primeiro ensaio sobre a guerra de Canudos, “A Nossa Vendéia”. A convite de Júlio Mesquita, proprietário d’O Estado de São Paulo, Euclides aceita realizar reportagem sobre a guerra de Canudos, agregando-se à comitiva militar do Ministro da Guerra, Marechal Bittencourt. Parte de navio para Salvador e passa 23 dias na casa de seu tio, observando os acontecimentos pelos jornais e enviando artigos para São Paulo.

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NESTES TRES DIAS ESPLENDIDOS

Neste três dias esplêndidos
Em que o Prazer tudo arrasa
Desde o cristão ao ateu,
Quem se sente neurastênico
Faz como eu,
Fica em casa.

No dia 30 de agosto de 1897, Euclides deixa o Rio de Janeiro para iniciar a grande jornada pelo sertão baiano: Alagoinhas, Queimadas e Monte Santo, onde chega no dia 6 de setembro e de onde parte no dia 13, para chegar a Canudos no dia 16. Ali escreve as primeiras notas de Os Sertões. Terminada a guerra, parte para o arraial logo em seguida, para depois de dias no local, voltar ao Rio de Janeiro. No início de 1898, assume seu cargo na Superintendência de Obras Públicas de São Paulo. Em janeiro aparecem os primeiros textos públicos de Os Sertões n’O Estado de São Paulo.

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NOTA PROSAICA

Sábio… o título diz que a fantasia
do Juvenal mineiro é vasta; fá-lo
ver em mim a quem só em nome igualo:
o venerando avô da geometria…

Desculpo-o. Quem com tanta galhardia
ergue uma fronte branca feita em halo,
ou nimbo, que nos leva a venerá-lo,
tem jus à mais perfeita cortesia.

Que passe, pois, o sábio; e que os tercetos
(versos de prosador que os faz tão mancos)
Acabem o mais feio dos sonetos,

num cumprimento e nos aplausos francos
de uma velhice de cabelos pretos
à mocidade de cabelos brancos!

Em 1899, em São José do Rio Pardo, Euclides tem o auxílio de Francisco Escobar, um amigo, que disponibiliza sua biblioteca para consulta enquanto Euclides faz crescer o texto de Os Sertões. Nesta época publica o artigo “A Guerra no Sertão” na Revista Brazileira. Em maio de 1900, pede a José Augusto Pereira Pimenta, cabo do destacamento local, para passar a limpo o manuscrito de Os Sertões. Publica o artigo “As Secas do Norte” no Estado de São Paulo. Seu grande livro estaria muito próximo de sair, porém, enfrentaria alguns percalços.

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LE?… NÃO LE. AQUELE AR NÃO É POR CERTO

Lê?… Não lê. Aquele ar não é por certo
De quem medita. É o ar de quem atrai.
E se qualquer de nós, naquelas praias,
Aparecesse, quedaria incerto.

Sem saber distinguir quem mais nos trai
- Entre a insídia de uma onda ou de um afago
Se o velho mar misterioso e vago,
Ou esse abismo de roupão e saia!

Em 1901, nasce, em São José do Rio Pardo, seu terceiro filho, Manuel Afonso. Em dezembro deste ano, após passar um período no interior de São Paulo, Euclides segue para o Rio de Janeiro, com os originais de Os Sertões. É encaminhado para a Livraria Laemmert cujo editor não se interessa pela obra. Euclides então resolve custear parcialmente a primeira edição do livro, pela qual paga um conto e quinhentos mil-réis. Em janeiro de 1902, recebe as primeiras provas do livro. Nos primeiros dias de dezembro deste ano, Euclides recebe carta da editora saudando-o pelo sucesso do livro. A primeira edição esgotara em poucas semanas. O livro fora bem recebido pelos críticos da época, Araripe Júnior, José Veríssimo e Sílvio Romero.

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SE ACASO UMA ALMA SE FOTOGRAFASSE

Se acaso uma alma se fotografasse
De modo que nos mesmos negativos
A mesma luz pusesse em traços vivos
O nosso coração e a nossa face;

E os nossos ideais, e os mais cativos
De nossos sonhos… Se a emoção que nasce
Em nós, também nas chapas se gravasse
Mesmo em ligeiros traços fugitivos.

Poeta! tu terias com certeza
A mais completa e insólita surpresa
Notando, deste grupo bem no meio,

Que o mais belo, o mais forte e o mais ardente
Destes sujeitos, é precisamente
O mais triste, o mais pálido e o mais feio…

No dia 9 de junho de 1903, Euclides lança a segunda parte de Os Sertões. Uma crise orçamentária motivada pela crise do café fez com que o Governo cortasse verbas destinadas à construção e melhoramentos de obras públicas, e por isso, Euclides deixa o posto, obrigado. Porém, no dia 21 de setembro, Euclides é eleito por uma margem de 41 votos, membro da Academia Brasileira de Letras, na cadeira de Valentim Magalhãe, cujo patrono é Castro Alves.

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DESPEDIDA

No momento cruel da despedida,
Gelado o lábio, mudo, hirto, sem ar,
Eu vi sua alma, de ilusões despida,
Tremer à luz de seu tão triste olhar.

E eu não chorei… Seu peito – a alva guarida
De minha alma – chorava em doudo arfar…
E eu não chorei, mas eu senti a vida
Das lágrimas ao peso se curvar!…

Saí, andei, corri, parei cansado.
Voltei-me e longe, longe eu vi asinha
- Garça de amor fugindo pr’a o passado

Branca, pura, ideal, – sua casinha -
E as lágrimas de amor deixei – domado -
Constelarem da dor a noite minha!

Em janeiro de 1904, Euclides é nomeado engenheiro-fiscal da Comissão de Saneamento de Santos, porém, após três meses, por causa de um desentendimento com o gerente da City of Santos Improvements, Hugh Stenhouse, e com Eugênio Lefreve, diretor da Secretária de Obras Públicas, pede demissão. Na falta de dinheiro, volta a escrever para O Estado de São Paulo. Logo depois, Euclides, por indicação, é nomeado chefe de Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus, que estabeleceria a fixação limítrofe entre Brasil e Peru. Nesta oportunidade, conhece o Barão do Rio Branco.

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A CRUZ DA ESTRADA

Ah! que de vezes quando no ar desfila
A treva, e as sombras a amplidão negrejam
E das estrelas que no céu palejam,
O vasto poema aos pés de Deus cintila.

E mil perfumes as campinas pejam
E da floresta o coração destila
Um vago som que em nosso ser instila,
Gerando sonhos que em noss’alma adejam.

Quando há na terra uma magia imensa
Eu – que não tenho a vida d’alma – a crença
Nem uma prece que divina sagre-ma.

Eu (oh! dizei-me o que a solidão exprime!)
Eu rezo um nome – Minha mãe! – sublime
E me ergo a Deus nos brilhos de uma lágrima.

Em 1905, Euclides parte para Manaus para o Purus. Lá contrai forte impaludismo. Em julho deste ano ocorre o banquete de Curanja, em homenagem à duas comissões, onde Euclides discursa lamentando a ausência da bandeira brasileira. Em 1906, volta ao Rio de Janeiro e torna-se adido do Barão do Rio Branco. Publica o artigo “Entre os Seringais” e o “Relatório da Comissão Mista Brasileiro-Peruana de Reconhecimento do Alto Purus. Em julho, nasce quarto filho, Mauro, da esposa com Dilermando de Assis. A criança veio a falecer uma semana depois do nascimento. Em dezembro, toma posse na Academia Brasileira de Letras tendo sido recebido por Sílvio Romero.

Tatu com Tabasco em http://equivocos-pedrolago.blogspo.com

AMOR ALGÉBRICO

Acabo de estudar – da ciência fria e vã
O gelo, o gelo atroz – me gela ainda a mente
Acabo de arrancar a fronte minha ardente
Das páginas cruéis de um livro de Bertrand.

Bem triste e bem cruel de certo foi o ente
Que este Saara atroz – sem auras, sem manhã
A Álgebra criou – a mente a alma mais sã
Nele vacila e cai sem um sonho virente…

Acabo de estudar e pálido, cansado
Dumas dez equações os véus hei arrancado…
Estou cheio de spleen, cheio de tédio e giz

É tempo, é tempo pois de trêmulo ansioso
Ir dela descansar no seio venturoso
E achar de seu olhar o luminoso X!…

Euclides passa todo o ano de 1907 sem cargo fixo, aborrecido, mantendo-se de favores. Em novembro, nasce quinto filho, Luís, de sua esposa com Dilermando. Sua tuberculose volta a se manifestar. Em dezembro presta conferência sobre Castro Alves. Em maio de 1909, presta concurso para a cadeira de Lógica no Ginásio Nacional, onde hoje é o Colégio Pedro II. Fica em segundo lugar, atrás de Farias Brito, porém, Euclides renuncia meses depois.

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MEU POBRE CORAÇÃO TÃO CEDO ANIQUILADO

Meu pobre coração tão cedo aniquilado
Na ardência das paixões, ó pálida criança,
Revive à doce luz do teu olhar magoado;

E cheio de ilusões, de crenças e esperança,
Faz o castelo ideal das loiras utopias
Com a luz do teu olhar e o ouro de tua trança.

Quando pelas sombrias
Ondas do oceano o luar vastíssimo se espalma,
De todo o seu negror desprende as ardentias.

De teus olhos, assim, à luz divina e calma,
Dimanam, fulgurando, as ilusões e os versos
Das sombras da minha alma…

Euclides chega a dar dez aulas na cátedra de Lógica do Ginásio Nacional quando é morto tragicamente com quatro tiros por Dilermando de Assis, amante de sua esposa, na casa número 214 da Estrada Real de Santa Cruz, estação da Piedade, hoje, Quintino Bocaiúva, subúrbio do Rio de Janeiro. Seu enterro foi realizado no cemitério São João Batista, recebendo sua sepultura o número 3.026. Nesta época, Euclides morava em Copacabana. Deixou uma resenha incompleta sobre o Barão Homem de Melo e de Francisco Homem de Melo. Seus restos mortais se encontram em São José do Rio Pardo, São Paulo, e em Cantagalo, Rio de Janeiro. Ficamos por aqui, até a próxima, beijo grande.

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VOLTA À ALDEIA

E assim à aldeia torna el da triste figura.
Acabrunhado e triste, exangue e macilento
Na acorvada postura – em torno desalento
No desvairado olhar – um laivo de loucura.

Dias de Glória! Ideais! A alcantilada altura
De um sonho! Nada mais resta de tal intento.
Essa nossa carcaça vil – o Rocinante lento
E amigos carnais – o bacharel e o cura…

Feliz Herói! Que importa o riso mau das gentes
Se ele não sói entrar dentro de um crânio oco
Repleto das visões dos cérebros doentes…

Há uma coisa pior que é ir-se a pouco a pouco
Perdendo qual perdeste – ideais grandes e ardentes
E ardentes ilusões – e não ficar-se louco!

novembro 9, 2011

Pedro Lage

Antônio Pedro Marinho Lage nasceu no dia 7 de março de 1952, no bairro de Botafogo no Rio de Janeiro. Começou o jardim da infância no colégio Santa Rosa de Lima, em Botafogo, vizinho de muro da casa de seu avô, onde passou parte de sua infância. Sua avó materna era grande leitora de Proust, Tolstoi e Machado de Assim, e foi quem o introduziu na leitura ainda na tenra infância. Neste mês, passaremos pela poesia do poeta Pedro Lage.

Turvo turvo turva aqui http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

BATEFORTE

as palavras, como usar?
como ousar dizê-las ternas
no sopro dos meus lábios untados aos teus?
trêmulas, não convencerão:
soarão desculpas, parecerão ridículas,
perecerão em teus olhos noturnos.
teu riso franco as dispersará,
tufão incrédulo sobre a cidade.
as frases cairão imprecisas,
na fuga das águas de um rio,
perdidas no mar.
prefiro o gosto úmido silêncio:
o sentimento, morena,
palavra alguma jamais pode alcançar.

Boa semana!
:-)

Foi sua avó quem o introduziu na literatura. Conhecia Paschoal Carlos Magno, poeta, dramaturgo e crítico de teatro. Sua avó o apresentou também ao poeta Manuel Bandeira, numa feira de livros na Cinelândia quando tinha seus dez anos. Pedro, nesta ocasião, perguntou ao poeta: “O senhor foi mesmo para Pasárgada?” Lugar mítico que se tornaria real, quando, aos vinte e cinco anos, Pedro visitaria, Pasárgada, a real, próxima a Isphahan, no Irã, numa viagem pela Eurásia, mas isso, é depois.

Elegia a José de Alencar Adnet Filho em http://pedrolago.blogspot.com

RESÍDUO

a Ruthinha

trago comigo a saudade levo
loura carrego seu peso meço
jamais me esqueço do meu amor
seus traços de sol escuros
roubam o clarão da Lua
na tela da noite fulva
fulmina bate depressa
escravo – meu coração!

Seu avô se chamava José. Era industrial de café. Sua avó, Olga. Seus pai se chamavam Antônio e Carmen, que, além de Pedro, tiveram, Toninho, Olga e Nena, essas duas, mais velhas. Toninho, aos seis anos, prematuramente, faleceu de câncer, e assim, a via seguiu com três irmãos. A casa dos avós era grande, ficava na Voluntários da Pátria, e lá, Pedro, gostava de descobrir esconderijos. Brincava também com suas primas, Mônica, que adorava cantar marchinhas, e Susie. Pedro gostava de jogar bola com o pai e no colégio Santo Inácio, e não tardaria a descobrir uma de suas grandes paixões, o Botafogo.

Paulo Mendes Campos aqui http://cartilhadepoesia.wordpress.com

COZINHA

ao Charles

no hospital há uma sala trancada
proibida a entrada
o brinquedo ali dentro custou ao governo
mais de seis milhões
os doentes não podem ousar o rim eletrônico;

enquanto isso, falta sonda na enfermaria sete
o velhinho, todo nu, agarra-se
às grades da cama, tonto, com medo do
tombo.

Pedro Lage tinha uma madrinha que se chamava “Tia Mary”. Era botafoguense. Levou-o para ver a final do carioca de 57. Botafogo e Fluminense, com direito a Mané Garrincha. Seis a dois para o Botafogo. Dalí em diante, Pedro Lage se tornou alvinegro. Frequentou o Maracanã até 71, quando, viu o Botafogo perder para o mesmo Fluminense “com gol roubado de Lula aos 44 do segundo tempo”. O futebol ficou apenas no colégio Santo Inácio.

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ARREBATE D’AMOR
ao Cacaso

permito-me arremeto fronde
enfrento a fonte de tuas águas
bebo seus sucos
nas narinas teus vapores
fluidos fardos deste amor
maior que todos os amores.

Pedro Lage terminou o segundo grau no Colégio Santo Inácio, onde, em 1970, lidera o motim estudantil da turma de medicina do terceiro ano colegial, em que treze dos trinta e cinco estudantes trocaram o curso pelo Miguel Couto. No Santo Inácio conheceu o poeta Luiz Olavo Fontes, o músico Arnaldo Brandão, o jornalista José Castello, o filósofo Guy van de Beuque, Gustavo Schnor, Antônio Luiz Salgado, Manoel Correia do Lago, e seu grande amigo Antônio Quinet. Naquele tempo, as meninas estudavam no Sion, e as festas de fim de semana, no Clube do Botafogo e no Olímpico, era o que se poderia fazer para encontrá-las.

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ESQUINA

manhã, sol forte, a prática é o critério da verdade
nasce a noite, vai-se a vida rebolando pr’outra parte
nem vale a pena pensar sem malícia e agilidade
tudo pode acontecer? não, tudo irá.
olhos abertos, mãos ávidas agarram-se ao mundo:
o amor e seus cabelos, as ilusões, o coração aprisionado.
o medo existe para ser vencido.
olhar as crianças e aprender o que não foi ensinado.
ensinar? sim… mas, quando?
E saber que, mais cedo ou mais tarde,
nem tudo vai dar errado.

Embora já tivesse aparecido como poeta em recitais/performances em 1972, Pedro Lage publicou seu primeiro livro, ‘Vai que vai’, em 1976. Com ilustrações de Anamaria Caravalho, o livro foi lançado na Oficina de Artes do prof. Hélio Rodrigues. Nesta época, Pedro frequentava o Pedro Lage, onde conheceu muita gente, teve aulas de cinema com Sérgio Santeiro e fez pequenos filmes de animação e aprendeu a discutir todo tipo de assunto. Tempo de formação.

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DESVENTURA

a Manuel Bandeira

janela aberta em meu quarto
brilha a luz de outra noite
eu não compreendo
tento olhar através de seus olhos
descobrir o que se passa
uma estrela, talvez, um amigo,
ou apenas o céu, o mistério infinito . . .

queria encontrar Juquinha sorrindo pra mim
deixar a tristeza de lado, queria voar…
mas a janela é bem alta e, assim, permaneço
com as costas cravadas na palha dura do catre.
somente uma luz me penetra: a luz fria de outra noite
que bebe tranqüilamente mais um pedaço de minha paixão.

Pedro chegou a frequentar a efervescência do Pier de Ipanema. Ficava perto da Laura Alvim. Porém, o lugar onde Pedro, de fato, estendeu sua gama de relações foi no Sol Ipanema. Na época em que publicou seu primeiro livro, Pedro frequentava a casa do Cacaso, onde se reunia uma rapaziada “da pesada”: Charles, Lui, Bia Carneiro, Massoca Fontes, Tony Lins, Chico Alvim e muitos outros. Nesta mesma época saiu a coletânea ’26 poetas hoje’, de Heloisa Buarque de Holanda, que Pedro veio a conhecer meses depois em São Paulo num evento de poesia no Theatro Municipal.

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ENQUANTO TERESA DORME

nasce a estrela fugitiva de outros universos
anunciando o final dos tempos
toca um cambalache doido, explode a guerra
passa a carruagem azul repleta de foragidos
e os corações das ruas estremecem em bombain
sentados na galáxia estrema
dois homens mortos conversam sobre a vida
um incêndio intenso toma conta do pensamento
do mundo, o nada se transforma em cor
as praias de mindano acordam com o maremoto
e as criancinhas fogem apavoradas
o reino do krenkrokren prepara-se para a sesta
um padre vira morcego
a faca mais-que-prateada cruza o espaço exterior
e vai cravar-se no peito da ursa-menor

em passadena os cientistas constroem a centopéia atômica
que irá sondar as rugas dos anéis de saturno
e uma animada partida de hóquei sobre patins
tem lugar nos pátios das escolas de pequim
um pingue-pongue de raios espouca por todos
os lados e as nove escolas-de-samba invadem
de uma só vez todas as avenidas
a lua desfalece sôfrega neste céu americano
e ruma para o japão, enquanto o sol,
vindo de angola, surge e ilumina

é quando teresa acorda,
estremunha quentinha na cama e, tranquila,
caminha nas areias de ipanema
pensando no amor que lhe apressa o coração.

Em 1976, Pedro Lage vai para São Paulo com um grupo de poetas para se apresentar no Theatro Municipal. Tratava-se do Encontro de Arte e Poesia. Nesta época, Pedro já se apresentava com a Nuvem Cigana. O clima não estava muito amigável. Chacal, Xico Chaves, Tavinho Paes, Charles Peixoto. No meio de uma vaia que acontecia, em virtude de um pedido de “um minuto de barulho” do Xico Chaves, Tavinho Paes entrou no palco e mijou. Logo depois, Pedro, entrou com Charles e cada um disse um poema. Em meio às vaias, alguns aplausos.

No calor da hora http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

ÀS CAGARRAS

Hoje, o dia anda cinza e chuvoso.
Não a esperei para o almoço, aliás, nada comi.
O Rio, cidade outrora maravilhosa, chora,
perseguido por fantasmas e temporais.
Já quase nem posso escrever-lhe,
nada lhe posso adiantar além de minha loucura.
Minha mão rouca dispara palavras que nada dizem.
A vida, impassível, se ausenta, e apenas o frio
desta noite sensata me entristece demais.
O tempo escorre, macio, implacável,
envolto em seu manto de quasar…
Não sei como isto vai terminar, continuo aflito.
E, ainda, por cima de tudo,
a inconstância do céu a massacrar
minhas tênues ilusões.
Ficarei por aqui,
posso vê-las do Leme ao Leblon.
O oceano imenso,
meus passos pequenos,
adeus.

Em dezembro de 1976, Pedro parte com seu amigo Lui Fontes para a Ásia. Ficou dois anos fora. Passou pela Itália, Turquia, Irã, Afeganistão, Paquistão. Ficou um ano na Índia, passando pelo Nepal, Ceilão, Cingapura, Birmânia, Tilâdia, Marrocos até voltar pela Europa. Voltou no final do ano de 1978. Esta viagem lhe renderia um livro, mas que não seria publicado imediatamente, antes, em 1981, Pedro publica De Mão em Mão.

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COMEÇO

em pompéia meus olhos desertos
e colunas empinadas como a piroca dos vetti
que custa mille lire apreciar,
as turrbinas do jato monstruoso ainda roncavam
na memória de meus ouvidos apavorados,

- saudades não havia –

e os dias foram-se perdendo pelas fontanas,
pelas vias – del corso superiore, veneto, grimaldi,
e amalfi, siracura, agrigento, cidades
e mais cidades,
até dar, assim por acaso, com os labirintos
de ortygia, onde as nuvens,
refletidas nos espelhos das ruelas submarinas,
se parecem com cabelos,

gaivotas exímias em vôos incríveis sobre
o mar – um chicote -
e a falta de ar vinha também na tarde pura,
hotel garda, via lombardia,
(- que deus te perdõe, meu filho, e te guie,
por esta tua louca aventura!)

viagem pela Europa, Oriente Médio e Índia é cercada de causos e profundas impressões. Lá, Pedro viu muitos mendigos no Irã, aviões de guerra voando baixo pelas praias ao norte do estreito de Ormuz, a repressão da polícia nos carregadores de sacos de arroz ou trigo, os inúmeros shopping-centers de Cingapura e seu horror ao comunismo, o templo de Madurai no sul da Índia, chá de cadeira na entrada do Afeganistão, os space cakes em Kabul, os ônibus kamikases do Paquistão e um jardim coberto de cerejas, cinquenta graus de Lahore, o estranho eclipse de Katmandu, a sensação de estar num planeta distante, a suiça Maya e a impressão de que tudo fora um sonho.

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CARTA

um detalhe,
um canto mais amargo de seu riso
sob a lua da cidade,
palavras sugeridas num sarro dos ombros
enquanto as sombras da noite nos ultrapassavam,

de pouco me recordo, as imagens se apagam,
mesmo a sua ao telefone, indiferente
à partida, ao nosso desejo, ao corte de tudo,
- triste representação!

até logo, uma cerveja, um baseado,
dois, três, cinco cigarros e a parede suja
do quarto quando nada mais parece adiantar,
os ridículos milhares de quilômetros,
este inverno turco,
os pulmões encardidos,
este beco sem saída,
e você?

Quando voltou da Ásia, Pedro foi morar em Santa Tereza, do fim de 79 até 80. Porém, pouco tempo depois, foi morar em Botafogo com Martha da Costa Ribeiro. Permaneceu neste endereço até separar-se, um ano depois. Em 81 publicou o livro De Mão em Mão e foi morar na Rua Icatu, onde, em diferentes meses, dividiu o aparamento com Chacal e com Ledusha. No verão de 81/82, Pedro começa uma experiência com o pessoal do Rajnesh e com o grupo que iniciava o Circo Voador. Pedro ajudou a fundar o Circo, ajudando o Perfeito Fortuna a levantar fundos e até mesmo carregando cadeiras.

Aqueles olhos azuis http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

ABISMO

deste abraço
ao avanço da estrela mais íngreme
- apenas um passo,

os lugares menos reconhecíveis,
as lembranças mais frouxas
e uma voz rouca
fecham sobre mim seus lábios de tempestade
no pálio pálido da madrugada,

é tarde,
te amo

Em 1981, Pedro começa a frequentar as oficinas de teatro do Amir Haddad. Lá conhece Rosa, Sérgio Luz, Aninha Cretton e muitos outros. No meio disso, havia as peladas do Caxinguelê. Lá se reuniam o Vinicius Cantuária, Rodrix, Guabira, Novelli, Didito, Lula Lindeberg, Maurício Maestro. Chacal às vezes jogava. De 79 a 83, foram mais ou menos umas duzentas peladas. Era uma confraternização muito importante, eram encontros. Muitos artistas, sobretudo músicos. Nesta época, Pedro já havia passado por uma experiência na FACHA fazendo Comunicação, porém, não se encaixou. Escolheu a Odontologia como profissão.

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FUTUROS AMANTES

..e quem sabe, então, o Rio será
alguma cidade submersa…
Chico Buarque

Um dia, porém,
quando não mais houver, talvez, nem noites nem dias,
e do Rio restar somente, dissipada a atmosfera,
um indício, uma marca deixada nas pedras,
nas veias calcinadas do planeta;
quando viajantes remotos do Universo
por acaso aqui chegarem
e resolverem buscar algum signo sobrevivente
da história morta desse pequeno mundo,
encontrarão rabiscado no espaço azul do teu quarto,
perdido pelas cinzas da cidade,
um retrato – apenas um traço: a imagem fóssil
do amor inscrito por aquele que viveu louco por ti,
(e vive ainda, na imatéria de outros mundos)
e os amantes siderais, com esse traço,
se lembrarão do que é preciso,
aprenderão que nunca é tarde,
e hão de amar-se assim, perdidamente,
por toda a eternidade.

Pedro se tornou dentista. E por isso, tinha um conflito social: Não conseguia cruzar seus amigos artistas com seus amigos dentistas. Pedro costuma dizer que “Odonto tem um pouco a ver com artes plásticas, com poesia tem muito pouco,embora eu até tenha feito umas ligações, mas, não tenho muito saco pra explorar este filão. Não acho interessante ficar poetizando a “curva de spix” ou a “curva de Wilson”, ou as “polarizações axiais das cúspides de trabalho”. Por ironia, Pedro veio a se tornar o dentista de muitos do pessoal das artes. Sorriso total.

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VER DE TI

ver te quero – imenso trecho de desejo
suores trêmulos
penso, não vejo
te quero dentro
ver-te aqui – névoa sobre mim.
acordar – sair do sonho trágico
o ancorar mágico do dia
trapézio de vidro sobre o fio
da cidade.
de madrugada, os animais morrem
em silêncio, à beira do rio.

manhã fria – o outro lado do verso te espera
morceguiando a esfera sombria
figuras funestas fecham o círculo de ferro
sempre elas, na terra e no céu
casamatas na vista acirrada do artista
salto sobre o nada -
sem a bruma, pela brecha,
com seus peitos de mãe-musa,
cuida de ti em seu leito
e te mata.
de madrugada, os animais morrem
em silêncio, à beira da estrada.

Quando voltou do Marrocos, Pedro foi assistir ‘Trate-me Leão’ montado pelo Asdrúbal Trouxe o Trombone no Morro da Urca. Lá, reencontra com Charles Peixoto e Chacal, da Nuvem Cigana, Perfeito Fortuna e Evandro. Foi morar novamente em Santa Teresa. Nesta época conhece o Milton Machado e Malena Barreto. Também participa da reuniões na casa do Cacaso, onde conhece o Chico Alvim. Inicia uma amizade com Ana Cristina Cesar. Também nesta época houve um recital de poesia na Álvaro Ramos organizado pela Ana e sua prima Grazinska onde foram a Nuvem Cigana e o Ferreira Gullar.

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DUAS FACES

a noite vazia, a noite nua,
um palmo de lua, a noite completa,
sereia lânguida a meio luar,
jogo de sombras, céu a reinar…
mas já o dia mostra suas garras líquidas,
- suas guerras íntimas:
o lado mais louco do despertar,
penhascos a que me aferro – o perigo!
nado bem pouco,
não me afogar é o que persigo,
não me perder nos negros rios do azar,
à revelia da lua, da noite do eterno mar -
o príncipe mar, o rei mar, a deusa mar – amar!

A experiência com o Tá na Rua é do início dos anos 80. Pedro frequentava as oficinas do Amir Haddad. Formou-se um grupo que logo levou o nome de “Instituto”. Em 83, Pedro foi morar no Jardim Botânico. No Tá na Rua, Pedro conhece Rosa Douat e Sérgio Luz, que viriam a ser seus grandes amigos para a vida toda. Era teatro de rua aos domingos, oficinas na casa do estudante às segundas e reuniões nas manhãs de terça e quinta com o grupo que não era o titular do Tá na Rua. A experiência culminou na montagem de “Morrer pela Pátria” no Teatro Villa Lobos em 1985.

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SILENCIO, O SILENCIO, SILENCIO

ouve vozes, se assusta, o meu silêncio.
arrojam-se vozes das torres do dia quente,
o silêncio noturno da alma desprega-se,
abandona o frescor cristalino,
transpira, se alarma, ajeita o nó da bravata,
abre seus grandes olhos insones -
brilhantes olhos, eloquentes de silêncio.
o silêncio vazio da alma estilhaça-se
na lama do dia e sorri respingando de preces,
as vozes, os sonhos, o começo e o fim da condição
humana, não humana, humana.
para onde vai o silêncio no isolamento dos passos
pelo vento áspero da tarde?
quem passa não sabe: ele arde, longe das horas,
das rodas pensantes da horda,
a flor do silêncio sorri tranquilamente
entre a última morte e o próximo encontro
(ou pensamento)
o silêncio se nutre na floresta do deus-mar,
ondulante senhor dos segredos, irmão do tempo sem dono,
o silêncio fio de espada – sem adeus, sem amor, sem engano,
o silêncio apenas, mais nada – amante das ondas-fantasmas:
o Cosmos é a sua morada.

Em 1983, Pedro conhece Juliana Prado Teixeira no Tá na Rua. Não demoraria muito para ficarem juntos, se casarem e terem seu primeiro filho, Manoel. São vinte e oito anos juntos. Viravolta foi publicado em 1985, livro que conta toda a experiência da viagem à Europa e Ásia com seu amigo Luis Olavo Fontes. Poemas e um pouco de prosa. Pedro neste época morava no Jardim Botânico com Juiana e o pequeno Manoel. Permance lá até 1992, quando se muda para Teresópolis.

Há, há, há em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

TEORIA

Poder simplesmente esquecer-te
no instante em que partíssemos
e amar-te com extrema ternura
assim que nos reencontrássemos

Fazer amor aventura como se
nunca de amar nos deixássemos

(um beija flor vem beber
preso a seu vôo de átomo
as gotas-diamantes que explodem
na límpida cachoeira do parque

nego beija-flor na tarde cintila
imerso no perfume das pedras lavadas
com o sêmen da montanha viva)

Há alguns bons anos, Pedro Lage é responsável por um recital de poesia que se chama ‘Conversa Portátil’ em homenagem a um livro do poeta Murilo Mendes. Começou em Teresópolis, no Bar Cottage. Juliana fazia esquetes teatrais todo sábado a noite com Airton Rebelo chamados Teatro a Vapor. Pedro começava com dez minutos falando poemas. O primeiro poeta era Augusto dos Anjos. Já estamos no ano de 1994. Depois Pedro encontra com Henrique Cukierman no ônibus voltando para o Rio e o convidou para participar. Henrique permaneceu no recital por dez anos. Sempre homenageando um poeta com convidados. Jorge de Lima, Murilo Mendes, Maiakovski, Brecht, Lorca e outros tantos. Muitos passaram pelo ‘Conversa Portátil’, muitos, ali, inclusive, recitaram pela primeira vez em público.

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O FINAL

Aí, ela teve que me deixar.
Contra a vontade e tudo o mais.
Amor possuía mas tudo tem um limite,
chega uma hora em que não dá mais, aliás,
elas sempre acabaram me deixando, um dia,
desde às primeiras lembranças.

Laura me largou no meio de uma sessão de cinema;
Rita perdeu-se na Serra, (fui atrás dela,
sofri, dormi ao relento, o diabo);
Dora deixou-me com as calças dependuradas na noite,
fazia frio, vaguei horas na escuridão;
Elizete partiu de repente, nem um bilhete, nada;
Eugênia espetou-me um postal na cortina do quarto;
Mary, uma foto antiga, muita saudade;
Luiza me abandonou de uma maneira radical,
torto, irrecuperável quase.

Ela também me deixou, ora, por que não haveria?

O lançamento de Entrevista com o Chipanzé foi em um bar GLS na Rainha Elizabeth em 1996. Houve um recital com direito a uma pequena banda formada por Gil de Windsor, George Clark e Chico Lá. Depois o lançamento foi no Museu da República até chegar em Teresópolis. Pedro já com dois filhos, Manoel e Nicolau, ambos, fruto do casamento com Juliana. A Conversa Portátil já bem estabelecida e a poesia caminhando bem.

Tradução de Le Bateau Ivre no http://pedrolago.blogspot.com

DO AMOR

A poesia se escreve no silêncio de um quarto vazio
- um parque vazio de estrelas espelhos e sombras,
gruta de beijos-cascatas e sabiás brejeiros que por
ali não passam, mas despejam seu aroma, seu sabor
em algum canto do Universo – e um bilhete na mão.

A poesia se inscreve num olhar de mulher nesse quarto,
a mesma noite de frio – ou no calor de um verão invencível
em que o poeta não se derreta jamais em si mesmo…

A poesia eu não escrevo, eu muito,
o manto desta verdade arde em meus olhos vivos,
tuas lágrimas sem conta, o luar mais triste sobre a canção
feita pra ti, por mim, por todos nós que somos um – e teu,
pra sempre teu.

‘Cal do Cosmos’ foi publicado em 2004. Após quase dez anos sem publicar, Pedro, então com 59 anos, voltaria. Ao longo desse período, desenvolvendo a ‘Conversa Portátil’, percorreu todos os lugares onde ainda se diz poesia no Rio de Janeiro. Passaria também outro hiato de sete anos até seu último livro ‘Dicionário de Estrelas’, lançado na Casa de Cultura Laura Alvim, em 2011. Este, reunindo seus 35 anos de poesia, com seleção de poemas de seus livros e uma penca de inéditos.

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SABER QUE TE AMO

à minha Juju

Saber que te amo – apenas um prisma
da verdade que nos recorta
com sua alameda de abismos,
sua força de vida, seu desespero
de um dia ter de renunciar a esse tesouro.

Saber que te amo -
pôr-do-sol e aurora concorrentes,
um dia recoberto por farinha de estrelas,
neve crepitante de encontros e solidões
sem limite.

Saber que te amo -
entrego-me a este aprisco e me preparo
para a morte deliciosa dos corações que deliram
imersos na certeza de ter somente um amor
verdadeiro.

Saber que temo – que te amo assim,
infinitamente,
por inteiro.

Então, Pedro Lage torna-se avô pela primeira vez. Francisco, ou Chiquinho. E disse que a poesia ficou em suspenso quando ele veio, tamanha era a satisfação, mas, logo depois, voltou aos trabalhos que vieram a compor ‘Dicionário de Estrelas’. E por aqui ficamos nesta pequena antologia ao poeta Pedro Lage. Na semana que vem, outro universo poético, outra biografia, caminho, percalço, liame entre um poema e outro.

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SE PODES

Se podes andar sobre as águas
não és melhor que uma palha,
se podes voar pelo espaço
não és melhor que uma mosca;
conquista teu coração
para que possas tornar-te alguém.
Abdulah Ansari

Se podes exterminar outro,
não és melhor do que um vírus;
es podes destruir uma cidade, uma floresta,
não és melhor do que um míssil, uma motosserra.
Afeiçoa-te primeiro a teu próprio coração
para que possas amar-te e amar alguém:
só assim frutificarás realmente,
e tua vida não terá sido em vão.

outubro 2, 2011

Paulo Mendes Campos

Paulo Mendes Campos nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, no dia 22 de fevereiro de 1922. Era Carnaval. Escapou de ser bissexto por um dia, pois, naquele ano, haveria o 29. Filho do médico e escritor Mário Mendes Campos e de D. Maria José de Lima Campos. Tinha nove irmãos, sendo ele, o quinto homem. Seu pai trabalhava no município de Dom Silvério, hoje, Saúde, no interior de Minas, onde passou o início da infância. Neste mês, o poeta Paulo Mendes Campos. Evoé!

Nos píncaros da paranóia em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

OS DOMINGOS

Todas as funções da alma estão perfeitas neste domingo.
O tempo inunda a sala, os quadros, a fruteira.
Não há um crédito desmedido de esperança
Nem a verdade dos supremos desconsolos -
Simplesmente a tarde transparente,
Os vidros fáceis das horas preguiçosas,
Adolescência das cores, preciosas andorinhas.

Na tarde – lembro – uma árvore parada,
A alma caminhava para os montes,
Onde o verde das distâncias invencidas
Inventava o mistério de morrer pela beleza.
Domingo – lembro – era o instante das pausas,
O pouso dos tristes, o porto do insofrido.
Na tarde, uma valsa; na ponte, um trem de carga;
No mar, a desilusão dos que longe se buscaram;
No declive da encosta, onde a vista não vai,
Os laranjais de infindáveis doçuras geométricas;
Na alma, os azuis dos que se afastam,
O cristal intocado, a rosa que destoa.
Dos meus domingos sempre fiz um claustro.
As pétalas caíam no dorso das campinas,
A noite aclarava os sofrimentos,
As crianças nasciam, os mortos se esqueciam mortos,
Os ásperos se calavam, os suicidas se matavam.
Eu, prisioneiro, lia poemas nos parques,
Procurando palavras que espelhassem os domingos.
E uma esperança que não tenho.

Paulo nasceu na Rua dos Otoni em Belo Horinzonto, mas, quando Paulo fez dois aos de idade, seus pais foram para o interior de Minas. Seu pai precisava trabalhar. Antes disso, Guimarães Rosa, estudante e vizinho de Paulo, o carregava para sua república, onde esperava que fizesse gracinhas, revelou-lhe a história 25 anos depois. Paulo abriu o olhos para vida na cidade de Saúde, onde, viu “o automóvel, um cavalo, um caçador de perna de pau, a morte dentro de casa, rasgou as pernas no arame farpado e tomei sorvete pela primeira vez”. Para Paulo, Saúde, hoje, Dom Silvério, “é um album de estampas”.

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MADRIGAL 1942

Mulher
que interrompe a primavera de um exército
repartindo cartas suicidas e peixes solitários
que insinuas o desespero sem vigência
e os amoralismos cruciais do coração
fantasma de organdi e nuvens enigmas
viajando para os lados de um soluço
mulher fatal como o quadro instantâneo
que realeja na memória um céu especial
comício de poemas obscuros
ausente dos acampamentos da madrugada
carne dominical falsamente casta
intrusa das salas dos concertos sinfônicos
mulher cem vezes mulher
cem vezes mulher de meu poema
retórica dos madrigais de ternura precipitada
ladra sobretudo dos propósitos pacíficos
alto e sorridente eflúvio de repente
mulher
carta enlutada mentida de rosa
amargura corrosiva das raízes
Em ti me crucificara
como um pássaro
sem ti os jardins não são poemas
os hemisférios da alma não se entendem
em ti
mil vezes em ti eu remo para mais adiante
pesquisador vencido catedral abstrata
por ti perdi-me mendigo nos parques
e nos comboios irremediáveis
que fogem gotejando um tempo lento e venenoso
por ti os telefones floresciam
ou se cobriam de lutos e mistérios
por ti colecionando tardes e alvoradas
eu nadava para o delta dos sortilégios
e alevantava-se um clamor maior que a esperança
dos lados de onde me chegam flores mortuárias
um sentimento de chamas
e um prelúdio infinito.

Em 1929, pula de um bonde na rua da Bahia, em Belo Horizonte, cai no chão, quebrando o braço, com um carro parando em cima. Ainda no colégio, Paulo ouviu de um padre professor entusiasmado com seu desempenho nas aulas de português “Ainda vai ser um escritor!”. Após este período em Dom Silvério, aos seis anos de idade, Paulo volta a Belo Horizonte com os pais, no ano seguinte ingressa no Ginásio. As mudanças de cidade são constantes e Paulo faz o Ginásio em três colégios, em três cidades: Belo Horizonte, Cachoeira do Campo e, enfim, São João Del Rey, onde, conhece, aluno de outro ginásio, um que viria a se tornar um grande amigo, Otto Lara Resende.

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NO VERÃO

Inventaremos no verão os gritos
Verberados na carta episcopal.
Somos apenas pássaros aflitos
Que nada informam da questão moral.

Tens os olhos audazes, infinitos,
E eu sinto em mim o deus verde do mal,
De nossas almas nascerão os mitos,
De nossas bocas uma flor de sal.

Deitaremos raízes sobre a praia
A jogar com palavras inexatas
O desespero de se ter um lar.

E quando para nós enfim se esvaia
O demônio das coisas insensatas
Nossa grandeza brilhará no mar.

Paulo tinha o sonho de ser aviador. Pouco tempo depois de terminar o ginásio, em Belo Horizonte, Paulo, que ficara amigo de Otto em São João Del Rey, ingressa no grupo literário adolescente de que Otto fazia parte. Lá conhece João Etienne Filho, Hélio Pellegrino e Fernando Sabino. “Foi um deslumbramento” recorda. Paulo, desde a infância, já escrevia alguma coisa, contos e alguns poemas. Através desse grupo literário, Paulo começa a publicar alguns textos em pequenos jornais. Já com dezenove anos, descobre Mário de Andrade, Maiakovski, Baudelaire, Rimbaud e outros, “triste e impenetrável como um cisne de feltro”.

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SENTIMENTO DO TEMPO

Os sapatos envelheceram depois de usados
mas fui por mim mesmo aos mesmos descampados
E as borboletas pousavam nos dedos de meus pés.
As coisas estavam mortas, muito mortas,
Mas a vida tem outras portas, muitas portas.
Na terra, três ossos repousavam
Mas há imagens que não podia explicar; me ultrapassavam.
As lágrimas correndo podiam incomodar
Mas ninguém sabe dizer por que deve passar
Como um afogado entre as correntes do mar.
Ninguém sabe dizer por que o eco embrulha a voz
Quando somos crianças e ele corre atrás de nós.
Fizeram muitas vezes minha fotografia
Mas meus pais não souberam impedir
Que o sorriso se mudasse em zombaria
E um coração ardente em coisa fria.
Sempre foi assim: vejo um quarto escuro
Onde só existe a cal de um muro.
Costumo ver nos guindastes do porto
O esqueleto funesto de outro mundo morto
Mas não sei ver coisas mais simples como a água.
Fugi e encontrei a cruz do assassinado
Mas quando voltei, como se não houvesse voltado,
Comecei a ler um livro e nunca mais tive descanso.
Meus pássaros caíam sem sentidos.
No olhar do gato passavam muitas horas
Mas não entendia o tempo àquele como agora.
Não sabia que o tempo cava na face
Um caminho escuro, onde a formiga passe
Lutando com a folha.
O tempo é meu disfarce.

Em 1945, Paulo tinha vinte e três anos. Largou todos seu pequenos empregos em Belo Horizonte e foi “com mãos abanando” para o Rio de Janeiro no trem noturno. Antes, chegou a dirigir o suplemento literário da Folha de Minas e até a trabalhar na construção civil de um tio. Seu amigo Fernando Sabino já estava no Rio de Janeiro e Paulo veio encontrá-lo, e também para conhecer o poeta chileno Pablo Neruda, em viagem na, então, capital do país. O Otto e o Fernando vieram depois.

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RENASCIMENTO

Mais fria do que o sono do meu túmulo
É minha soledade, quando cúmulo
Da carícia mortal se esvai, essência.
Vértice perigoso da inocência,
Entrega-me a manhã seu cemitério,
Quando, extintas espadas, sigo sério
Sorrindo para quem foi num momento
Chama que se desfez nas mãos do vento,
Belo animal que foge ternamente
E em lento movimento está presente
Nos círculos que pensam no meu ser.
Descobre-me a luz crua do prazer
E a sombra do langor se arrasta lenta
No sulcos de meu rosto; se ela tenta,
Beijando-me, apagar a minha face,
Onde o seu lábio vai, a voz renasce,
Nítida, calma, quase com tristeza.
A escuridão despede-se, e a certeza
De um deus fere a vidraça, verdes chamas,
Labaredas do céu, fogo nas ramas
De uma roseira que sobe à janela.
Depois, se o sol maduro se rebela
No mar, sobre as espumas, nós, constantes
Da memória das vagas inconstantes
Vamos colher a flor do tempo. Ausentes
Nos beijamos, tranquilos, transparentes.

Paulo começou a fazer faculdade de Odontologia, dois anos. Depois fez um pouco de Direito e mais um pouco de Veterinária. Queria também ser aviador, o que também não conseguiu fazer. Gostava de dizer que “diploma mesmo, só o de datilógrafo”. Dizia que “deveria ter estudado filologia”. Mas o que gostava mesmo era de literatura, das palavras e da maquina de escrever. Já no Rio de Janeiro, começou a colaborar para O Jornal, O Correio da Manhã e para o Diário Carioca. Em 1947, foi admitido no IPASE e foi fiscal de obras daquele orgão. Neste período trabalhou também como Diretor da Divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional.

poema que fiz para o meu pai http://pedrolago.blogspot.com

A MORTE

Ontem sonhei com a morte
Por duas horas desertas:
As pálpebras não se fecharam,
Antes ficaram abertas.
Os olhos esbugalhados
Cravados num ponto incerto,
Por fora desesperados,
Por dentro o mal do deserto.
Todo de preto vestido
Me aparteava a nudez
De estar ali sem sentido
De um mundo que se desfez.
Se alguém quisesse podia
Cuspir-me em cima do rosto
O nojo que lhe subia
De ver-me assim tão composto.
Talvez um ríctus na boca
O meu segredo explicasse,
Foi-me sempre a vida pouca
E era a morte o meu disfarce.
Vi-me no esquife hediondo,
As mãos cruzadas de vez,
Vi-me só me decompondo,
Doído de lucidez.
Senti o cheiro das flores,
As velas que crepitavam,
O enjôo forte das cores
Que minha morte enfeitavam.
Vi um remorso ingente
Chegar ao pé do caixão,
Um animal repelente
Feito de amor e paixão.
Um padre de voz plangente
Depois de orar disse amém,
Em torno os olhos da gente
Me sepultavam também.
Sei que tudo era aflição
No meu destino acabado:
O terror da solidão
Ia comigo deitado.

Em 1951, Paulo publicou seu primeiro livro de poemas, ‘A palavra escrita’, no mesmo ano em que se casou com Joan, de ascendência inglesa. Com ela teve dois filhos, Gabriela e Daniel. Paulo participou, nesta época e até o fim de sua vida, da boêmia carioca do cafés do centro da cidade, Vermelhinho, onde, iam figuras como Carlos Castelo Branco, Carlos Drummond de Andrade e Tomás Santa Rosa. Eram os anos cinquenta, e Paulo, com seus vinte anos, começava a ganhar a vida.

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JOSETTE

Colunas de tu corpo. O real
Das coxas longas onde se implanta o ventre
Leve. O branco do seio
Dando o leite do sonho ao animal
Da noite acostumado a sofrer sede.
Teu perfil tem a linha imaginária
Das mais felizes frases literárias.
És quem tu és, és a rosa e o rosicler.
Quando caminhas vais frisando a rua
De uma sequencia clara de escultura.
És sol agora, ontem na praia foste a lua.
És tudo o que quiser o meu poema,
Mas não és o orvalho que roreja nem és pura.
Possuis a elegância de uma ave
De pés espapaçados (as mais belas)
E tens do mar o frescor suave e a voz tão grave.
Como a vaga empinada que se espraia
Abres equestres movimentos no vento. Teus cabelos
São as últimas lembranças lúcidas que me restam.
Calmarias de ilhas verdes, teus olhos,
Ah,
São teus olhos.

Paulo teve vários pequenos empregos. Desde sua infância e adolescência em Minas Gerais, trabalhando com o tio, depois, contribuindo para alguns jornais. Costumava dizer que o dinheiro durava para viver quinze dias. No Rio, procurava qualquer coisa para sobreviver. Foi morar numa pensão no Leme chamada Palacete de Mon Rêve, cuja comida era horrível. E foi Drummond quem o arranjou dois empregos e o emprestou uma máquina escrever. Primeiro no Instituto Nacional do Livro onde começou a trabalhar para um dicionário da literatura brasileira. Trabalhava com uma mulher chamada Eneida.

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POEMA DIDÁTICO

Não vou sofrer mais sobre as armações metálicas do mundo
Como o fiz outrora, quando ainda me perturbava a rosa.
Minhas rugas são prantos da véspera, caminhos esquecidos,
Minha imaginação apodreceu sobre os lodos do Orco.
No alto, à vista de todos, onde sem equilíbrio precipitei-me,
Clown de meus próprios fantasmas, sonhei-me,
Morto do meu próprio pensamento, destruí-me,
Pausa repentina, vocação de mentira, dispersei-me,
Quem sofreria agora sobre as armações metálicas do mundo,
Como o fiz outrora, espreitando a grande cruz sombria
Que se deita sobre a cidade, olhando a ferrovia, a fábrica,
E do outro lado da tarde o mundo enigmático dos quintais.
Quem, como eu outrora, andaria cheio de uma vontade infeliz,
Vazio de naturalidade, entre as ruas poentas do subúrbio
E montes cujas vertentes descem infalíveis ao porto de mar ?

Meu instante agora é uma supressão de saudades. instante
Parado e opaco. Difícil se me vai tornando transpor este rio
Que me confundiu outrora. Já deixei de amar os desencontros.
Cansei-me de ser visão, agora sei que sou real em um mundo real.
Então, desprezando o outrora, impedi que a rosa me perturbasse.
E não olhei a ferrovia – mas o homem que sangrou na ferrovia -
E não olhei a fábrica – mas o homem que se consumiu na fábrica -
E não olhei mais a estrela – mas o rosto que refletiu o seu fulgor.
Quem agora estará absorto? Quem agora estará morto ?
O mundo, companheiro, decerto não é um desenho
De metafísicas magnificas (como imaginei outrora)
Mas um desencontro de frustrações em combate.
nele, como causa primeira, existe o corpo do homem
- cabeça, tronco, membros, as pirações e bem estar…

E só depois consolações, jogos e amarguras do espírito.
Não é um vago hálito de inefável ansiedade poética
Ou vaga advinhação de poderes ocultos, rosa
Que se sustentasse sem haste, imaginada, como o fiz outrora.
O mundo nasceu das necesidades. O caos, ou o Senhor,
Não filtraria no escuro um homem inconsequente,
Que apenas palpitasse no sopro da imaginação. O homem
É um gesto que se faz ou não se faz. Seu absurdo -
Se podemos admiti-lo – não se redime em injustiça.
Doou-nos a terra um fruto. Força é reparti-lo
Entre os filhos da terra. Força – aos que o herdaram -
É fazer esse gesto, disputar esse fruto. Outrora,
Quando ainda sofria sobre as armações metálicas do mundo,
Acuado como um cão metafísico, eu gania para a eternidade,
sem compreender que, pelo simples teorema do egoísmo,
A vida enganou a vida, o homem enganou o homem.
Por isso, agora, organizei meu sofrimento ao sofrimento
De todos: se multipliquei a minha dor,
Também multipliquei a minha esperança.

O segundo emprego que Drummond arranjou para Paulo foi numa publicação trimestral da Câmara de Comércio chileno-brasileira sob a direção de Sílvio Cunha. Mas quando a verba do Instituto do Livro que o sustentava acabou e a revista da Câmara do Comércio resultou insolvente, o poeta Augusto Frederico Schmidt, também ajudou Paulo arranjando-lhe um lugar no Correio da Manhã. Embora “apadrinhado” Paulo teve que mostrar que sabia escrever uma reportagem, pois, Paulo Bittencourt, quando soube que era parente de um amigo seu, não podia acreditar que Paulo soubesse redigir uma oração com sujeito, verbo e complemento.

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LITOGRAVURA

Eu voltava cansado como um rio.
No Sumaré altíssimo pulsava
a torre da tevê, tristonha, flava.
Não: voltava humilhado como um tio
bêbado chega à casa de um sobrinho.
Pela ravina, lento, lentamente,
feria-se o luar, num desalinho
de prata sobre a Gávea de meus dias.
Os cães quedaram quietos bruscamente.
Foi no tempo dos bondes: vi um deles
raiar pelo Bar Vinte, borboleta
flamante, touro rútilo, cometa
que se atrasa no cosmo e desespera:
negra, na jaula em fuga, uma pantera.

Passei a mão nos olhos: suntuosa,
negra, na jaula em fuga, ia uma rosa.

Quando era fiscal de obras do IPASE, Paulo passava duas ou três noites por semana no planejamento de um grande negócio: Uma livraria de alta classe em Copacabana. Levou-se meses discutindo se uisque, chá ou sorvete seria servido na livraria. O investimento viria de Carlos Lacerda, Marcelo Garcia e de Fernando Sabino. Mas não chego-se a conclusão nenhuma e a livraria não foi aberta. Paulo dizia que queria trabalhar na China após a guerra na UNRRA (United Nations Relief e Rehabilitations Agency) mas, como não havia feito o curso de paraquedista, não deu. Verdade ou não, vale lembrar.

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CANTIGA PARA TOM JOBIM

Quem for além simplesmente
deste espelho transparente
há de sumir? ou se ver?
relembrar? ou esquecer?
Quem for além simplesmente
deste espelho transparente
há de sentir? ou sonhar?
prosseguir? ou regressar?
Mas quem achar uma seta
que lhe apontar o sentido
neste espelho, há de se achar
no paraíso, perdido,
onde achará o poeta
de repente ou devagar.

Com o livro de poemas ‘O Domingo azul do mar’, de 1958, Paulo recebe o Prêmio Alphonsus de Guimaraens do Ministério da Educação. Em 1960, Paulo publica seu primeiro livro de crônicas reunidas. São crônicas datadas de 1946, anos 50 e início dos anos 60 publicadas no Diário Carioca, revista Manchete e de alguns jornais dos Estados. A esta altura, seguindo de certa forma a ênfase do capixaba Rubem Braga, Paulo se dedica à escrita de crônicas, algumas antológicas, que poderiam ser consideradas como pequenos contos.

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BALADA DE AMOR NA PRAIA

Ai como sofre o corpo que se esfrega
no corpo que se entrega e não se entrega

é como a convulsão da preamar
a querer atirar o mar no ar

a onda rija bate como espada
nos musgos da mulher ensolarada

guelras arfantes pernas semifusas
grifam sombras morenas de medusas

e a verde rocha em V vê o duelo
do peixe azul fisgado no amarelo

compondo um bicho humano sobre a praia
que se desfaz em rendas e cambraia

moluscos musculares do desejo
decápode do homem – caranguejo

anêmonas e polvos complacentes
a resvalar abismos inocentes

como se amar no mar fosse encontrar
nossa animalidade elementar

ou fosse o ser na praia (duplicado
de amor) bicho de amor do mar gerado

cujas garras fatais persuasivas
deslizam pelas angras sensitivas

pelos quadris que dançam pelos frisos
conjugais – ziguezague de mil guizos –

garras que buscam a melhor textura
no ventre no pescoço na cintura

já quase a devorar a lua cheia
no litoral do céu feito de areia

e o sol diz nomes feios para a lua
pedindo que ela entenda e fique nua

para que possa a coisa hermafrodita
mudar a vida breve e infinita

e quando enfim de amor o bicho – arraia
na confusão voraz freme e se espraia

é como a convulsão da preamar
que conseguiu jogar o mar no ar

A revista Manchete era comprada, curiosamente, por pessoas que, de fato, não eram do interesse da revista, porém, lá dentro havia um objeto de desejo: a crônica de Paulo Mendes Campos. Paulo desenvolveu-se na crônica. Algumas autobiográficas e célebres, como a que lembra do tempo em que morava no Palacete Mon Rêve, no Leme, uma espécie de cortiço, e ouviu, no quarto ao lado, uma briga de dois namorados sob o tema da infidelidade. Muitas delas faziam um cruzamento entre sua vida e a literatura, algumas eram prosas poéticas. Em 1962, Paulo publica outra reunião de crônicas ‘Homenzinho na Ventania’, três anos depois, ‘O Colunista do Morro’.

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SALA DE JANTAR

Faltava um tema a nossa companhia,
Faltava a nossa mesa certo espaço:

O mar em nossa casa não bramia,
Mar de gravura dá certo embaraço.

A chuva de repente era alegria,
À falta de amplidão para o fracasso:

A serra do curral nos elidia,
Só o céu nos abria seu compasso:

Só o dente do sal nos conhecia,
Só no prato de sopa era o sargaço.

So no pano um brigue estremecia.
Só na vaga do vento nosso abraço.

Em 1966, Paulo republica os livros de poemas ‘Testamento do Brasil’ e ‘Domingo Azul do Mar’. Todas elas pela Editora do Autor, que vinha publicando todos os contemporâneos. Paulo já fazia parte de uma “geração”, tanto de mineiros, ao lado de Fernado Sabino, Murilo Rubião, João Etienne Filho, Carlos Castello Branco, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino, quanto de cronistas, com Rubem Braga, e alguns dos supracitados. Em 1967, publica a reunião de crônicas ‘A Hora do Recreio’ pela Editora Sabiá.

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VARANDA

De lá de via um muro transparente
E além uns mares lentos e facundos,
Roteiros retorcidos, submundos
De porões recriados num repente
De luz das vesperais de antigamente,
Trilhas navais, romances vagabundos,
Entrelaçados mares oriundos
De ser a gente um ente diferente
Que só pretende o que não vê e vê
De olhos limpos aquilo que não há,
Gente desmedida que descrê
De quanto existe para ver e está
Sempre eludindo o muro e que demanda
O céu a terra o mar de uma varanda.

Sobre o Rio de Janeiro, Paulo dizia que “descobri que amo esta cidade por me sentir exilado em outras” [...] “Amo o bairro de Ipanema. Foi Álvaro Moreyra o primeiro a dizer que a cidade do Rio nasceu velha e aos poucos virou menina, contanto o tempo às avessas. Podemos contemplar essa observação no próprio espaço. O Centro do Rio representou a velhice da cidade: o morro do Castelo, os conventos, os prédios burocráticos dos reinados. Flamengo e Botafogo foram a maturidade do Rio. Copacabana foi a louca adolescência. Ipanema e Leblon: eis a infância da cidade. Preciso dessa meninice de Ipanema, onde tenho meu lar, o meu mar e o meu bar”.

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TANQUE DE ROUPA: SCHERZO

Era uma tarde pastoril mineira,
Eram cirros e cúmulos mentais,
Era o dolce staccato da torneira,
Virações de Offenbach pelos varais,
Eram trêmulos barrocos de roseira,
Trissos de amor nas frinchas dos beirais,
Era uma tarde abril à brasileira,
Era uma tarde ardil Minas Gerais.

E era na tarde tarde redundante
- longe vestígio em meigo pergaminho -
Um refluir azul de mar distante.

Era uma tarde estática de Deus

Mas a boca da noite de mansinho…

E a tarde anil rendeu alma. Adeus.

A relação de Paulo com Ipanema é longa. Muitas de suas crônicas são sobre um bairro. Paulo intitulou um livro com o nome de uma delas chamado ‘O Cego de Ipanema’. Frequentava a boêmia do bairro, Veloso, Pizzaiolo, e outros bares. Seus contemporâneos de bar eram Vinicius de Moraes, Lucio Cardoso, Carlinhos Oliveira, Lucio Rangel, Roniquito, Tarso de Castro, Hugo Bidet, Zequinha Estelita, Narceu de Almeida e muitos outros. Em 1967, Paulo publica ‘Hora do Recreio’ pela Sabiá e em 1969, ‘O Anjo Bêbado’, também pela Sabiá.

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TEMPO-ETERNIDADE

La sensualité, chère amie, consiste simplement à
considerer comme une fin et non comme un moyen
l’objet présent et la vie presente.
André Gide

O instante é tudo para mim que ausente
Do segredo que os dias encadeia
Me abismo na canção que pastoreia
As infinitas nuvens do presente.

Pobre do tempo, fico transparente
À luz desta canção que me rodeia
Como se a carne se fizesse alheia
À nossa opacidade descontente.

Nos meus olhos o tempo é uma cegueira
E a minha eternidade uma bandeira
Aberta em céu azul de solidões.

Sem margens, sem destino, sem história
O tempo que se esvai é minha glória
E o susto de minh’alma sem razões.

Em 1962, Paulo, na presença do Dr. Murilo Pereira Gomes, tomou ácido lisérgico em um apartamento da rua General Glicério em Laranjeiras. Paulo, que em 1954, lera ‘As portas da percepção’ do Aldous Huxley logo após sua publicação, fez-se de cobaia desta experiência. Tinha já seus quarenta anos. Paulo descreveu os efeitos de sua experiência em crônicas memoráveis. “Apurando os ouvidos, poderia se ouvir a parede”, descobriu que “como se dentro da delicadeza, houvesse uma segunda delicadeza e, dentro desta, uma terceira, uma quarta, uma quinta e, só lá no fundo de não sei qual película sutil, estivesse, intacta, a verdadeira delicadeza”.

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SONHO DE UMA INFANCIA

Meu sonho, breve emoção,
A tarde deitada no limoeiro,
Paralelas de aço se agarrando no longe.
Há muito tempo que fui infeliz
E desconhecia meu corpo embrulhando nas vestes.
Um cisne repetia o facílimo soneto do exílio.
Animais do ar esvoaçavam,
Flores se assustavam, muito altas, olhando o momento.
Nascia por nascer a vida tímida.
Os minutos respiravam cadenciados
Como a criança próxima à grande cachoeira.
Breve emoção da pedra, meu sonho
Ficava difícil,
Sol entre constelações remotas.
Sempre a palavra de um poema se perdia.
Um barco remava entre chamas, um coração se consumia,
A noite erguida apagava o meu desejo de pensar.
Vi como se desprende de um pântano a garça nua,
Vi a fantasia e a tristeza de meu ser.
Foi há muito, entre o mineral silencioso
Há muito tempo que nasci da infância para crescer
Entre milícias douradas que marchavam cantando.

Deixarei meu destino como a pátria.
Renovando a aventura, reinarei entre vós,
Sonhos fiéis.
Sobe a fumaça na caligem de uma tarde chuvosa.
Sinto o aroma feliz do bife,
A friagem do ladrilho onde estraçalho um besouro,
O tinir da louça, a água caindo no zinco.
Estamos grandes, do tamanho de um defunto.
Morte, emoção de meu sonho,
Surda floresta que voa no vendaval e se esfacela.

Paulo chamou a viagem de ácido de teve de “purificação do consciente pelo inconsciente”. Ficou deliciado com o paladar de uma azeitona que demorou horas para comer, “a quantidade de caldo, com a ternura, com o mistério do caroço”. Seu único medo era ser trazido de volta pelo consciente. Quando saiu do apartamento, ainda no efeito, tomou um táxi e foi a uma reunião numa casa de amigos. Disse que todos (o motorista, o porteiro, os amigos) o tratavam com delicadeza. Descreveu a experiência, primeiramente, no livro ‘O colunista do morro’ e depois em outros meios. Hoje, estão todas no livro ‘Cisne de Feltro’ com outra crônicas autobiográficas.

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O BEBADO

Já vomita no mar a lua pálida.
Bondes trazem de longe a madrugada
E entre golfos de sombra resplandecem
Fantásticas piscinas de luz crua.
Os ruídos do dia vão nascendo
Da noite que abandona o céu. Tilinta
Real a campainha de um ciclista,
Dobra irreal o sino de um convento.
A própria luz a caminhar cicia
Nos trilhos azulados da manhã.
A espaços, o silêncio coagula
O soturno alarido da ressaca.
O bêbado caminha em direção
De um luzir qualquer no lusco-fusco,
Onde grita a luz fulva dos açougues.
Do mais alto beiral nasce uma pomba
Que voa rente ao asfalto orvalhado,
Ensurdecendo a claridade triste
Do bêbado. Do esforço alvar das vagas
Nascem as gaivotas tresnoitadas.
Cavalos mal dormidos vão surgindo
Nas esquinas, enquanto os operários
Passam numa cadência primitiva.
O bêbado quer morrer, de desfazer,
Andando sem vontade sobre a terra
Que oferece a seus pés o espaço hostil.
Seu ideal é simples, geométrico,
E o sorriso em que fala ao transeunte
É um sorriso de paz e de ironia.

Nós que andamos certos e orgulhosos na manhã
E nos apossamos do dia como nosso território natural,
Como entenderemos este ser obscuro
Cujos passos se extraviam e se afastam de nós
E se aproximam de novo e se perdem em atropelo.
Quando seu rosto se inclina para o chão
E outra vez se levanta com um sorriso de paz e de ironia,
Sentimos uma luz de mentira em seus olhos
E tontos de lucidez nos disfarçamos.

A relação de Paulo com o álcool se estendia para suas crônicas. “Os os bares morrem numa quarta feira” e Paulo falava da boêmia carioca, de anedotas de bares, dizia que “não bebo tanto quando mereço”. Seus vinte últimos anos de vida foram um pouco difíceis. Por motivos variados, mas, com o álcool como centro. Paulo virou um sujeito irritado, muitas vezes evitados nas ruas, chegando a ser, inclusive, impedido de entrar em alguns bares. Paulo dizia que se tornara “um homem entornado”.

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A MÁRIO DE ANDRADE

Não sei que mãos teceram teu silêncio.
Morto. Estás morto. Sonhas morto? Morto.
Espantalho fatal, onde flutuas
Acordas borboletas tresvairadas.

Tua morte chegou nas folhas secas
Mas nada vi no ventre da noitinha,
Que não interpretei nas alegrias
Tua razão mais bela de acabar.

A noite está coalhada de formigas.
A cruz amarga a fé desesperada.
Há formigas na treva de tua morte
E em mim erram punhais entrefechados.

O simples tempo agora abre a vidraça.
Desarmaram nos campos a barraca.
Chega do canteiro a razão – flor
Para agravar sinais do inevitável.

O silêncio borbulha nos esgotos.
Bebamos o licor de tua morte.
Enquanto se suporta a solidão.
Tua morte foi servida numa salva.

Cisnes feridos, franzem meu destino.
Os convivas, as moças, as vitrinas
Não sabem que paraste. Mas eu sofro
O sono vegetal dos passarinhos.

Mas eu sofro. Eu e o morto que conduzo
Vamos sofrer até de manhãzinha.
Vamos velar aflitos sobre a terra
Que desviou o teu olhar das rosas.

Em 1984, Paulo publica ‘Trinca de Copas’, seria seu último livro publicado. No dia 1 de julho de 1991, Paulo morre no Rio de Janeiro. Seu amigo Otto Lara Resende, escreve na Folha de São Paulo: “Paulo morreu. Não, não estamos preparados. Confuso sentimento de que era preciso ter feito alguma coisa. Sim, era previsível. Mas não precisava ser irreparável”. Anos depois, no fim da década de noventa, a Editora Civilização Brasileira inicia um trabalho de republicação de sua obra. Paulo, que ficara por algum tempo esquecido da literatura brasileira, volta.

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NESTE SONETO

Neste soneto, meu amor, eu digo,
Um pouco à moda de Tomás Gonzaga,
Que muita coisa bela o verso indaga
Mas poucos belos versos eu consigo.
Igual à fonte escassa no deserto,
Minha emoção é muita, a forma, pouca.
Se o verso errado sempre vem-me à boca,
Só no meu peito vive o verso certo.
Ouço uma voz soprar à frase dura
Umas palavras brandas, entretanto,
Não sei caber as falas de meu canto
Dentro de forma fácil e segura.
E louvo aqui aqueles grandes mestres
Das emoções do céu e das terrestres.

Paulo Mendes Campos tinha um sonho sólido: Morar definitivamente na serra de Petrópolis, visitar a Europa mais uma vez e passear com frequencia nas velhas cidades de Minas. Dizia que “na carreira literária, a glória está no começo, o resto da vida é aprendizado intensivo, para o anonimato, para o ouvido [...] O sucesso não me interessa. Faço questão de fracassar [...] Aqui jaz Paulo Mendes Campos. Por favor, engavetem-me com a máxima simplicidade e do lado da sombra [...] No mais, é como dizia Freud: morreu, babau”. Até a próxima antologia.

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BALADA DE AMOR PERFEITO

Pelo pés das goiabeiras,
pelo braços das mangueiras,
pelas ervas fratricidas,
pelas pimentas ardidas,
fui me aflorando.

Pelos girassóis que comem
giestas de sol e somem,
por marias-sem-vergonha,
dos entretons de quem sonha
fui te aspirando.

Por surpresas balsaminas,
entre as ferrugens de Minas,
por tantas voltas lunárias,
tantas manhãs cineárias,
fui te esperando.

Por miosótis lacustres,
por teus cântaros ilustres,
pelos súbitos espantos
de teus olhos agapantos,
fui te encontrando.

Pelas estampas arcanas
do amor das flores humanas,
pelas legendas candentes
que trazemos nas sementes,
fui te avivando.

Me evadindo das molduras,
de minhas albas escuras,
pelas tuas sensitivas,
açucenas, sempre-vivas,
fui te virando.

Pela rosa e o resedá,
pelo trevo que não há,
pela torta linha reta
da cravina do poeta,
fui te levando.

Pelas frestas das lianas
de tuas crespas pestanas,
pela trança rebelada
sobre o paredão do nada,
fui te enredando.

Pelas braçadas de malvas,
pelas assembléias alvas
de teus dentes comovidos
pelo caule dos gemidos
fui te enflorando.

Pelas fímbrias de teu húmus,
pelos reclames dos sumos,
sobre as umbelas pequenas
de tuas tensas verbenas,
fui me plantando.

Por tuas arestas góticas,
pelas orquídeas eróticas,
por tuas hastes ossudas,
pelas ânforas carnudas,
fui te escalando.

Por teus pistilos eretos,
por teus acúleos secretos,
pelas úsneas clandestinas
das virilhas de boninas,
fui me criando.

Pelos favores mordentes
das ogivas redolentes,
pelo sereno das zínias,
pelos lábios de glicínias,
fui te sugando.

Pelas tardes de perfil,
pelos pasmados de abril,
pelos parques do que somos,
com seus bruscos cinamomos,
fui me espaçando.

Pelas violas do fim,
nas esquinas do jasmim,
pela chama dos encantos
de fugazes amarantos,
fui me apagando.

Afetando ares e mares
pelas mimosas vulgares
pelos fungos do meu mal,
do teu reino vegetal
fui me afastando.

Pelas gloxínias vivazes,
com seus labelos vorazes,
pelo flor que desata,
pela lélia purpurata,
fui me arrastando.

Pelas papoulas da cama,
que vão fumando quem ama,
pelas dúvidas rasteiras
de volúveis trepadeiras
fui te deixando.

Pelas brenhas, pelas damas
de uma noite, pelos dramas
das raízes retorcidas,
pelas sultanas cuspidas,
fui te olvidando.

Pelas atonalidades
das perpétuas, das saudades,
pelos goivos do meu peito,
pela luz do amor perfeito,
vou te buscando.

setembro 7, 2011

Augusto dos Anjos

Augusto Carvalho Rodrigues dos Anjos, nasceu no Engenho do Pau D’Arco no município de Cruz do Espírito Santo, no Estado da Paraíba no dia 20 de abril de 1884. Terceiro filho do casal Alexandre Rodrigues dos Anjos e D. Córdula Carvalho Rodrigues dos Anjos, conhecida por Sinhá Mocinha. Consta que recebeu, junto com seus irmãos, a educação primária e secundária por seu pai. Neste mês, tentaremos percorrer a vida e a poesia desta estranha figura da poesia brasileira, alguns relatos, a escassez de detalhes sobre sua infância, sua vida e seu desenvolvimentos como poeta. Voilá, Augusto dos Anjos!

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O MORCEGO
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Meia noite. Ao meu quarto me recolho
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vêde:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela igneo e escaldante molho.
“Vou mandar levantar outra parede…”
- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!
Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A toca-lo. Minha alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!
A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, a noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!
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Da casa onde viveu, recorda sua mãe, Sinha Mocinha “A vasta casa-grande, de muitas salas, a senzala ao lado, o engenho d’água lá embaixo, o canavial na várzea e, pelos altos, o agreste, onde floriam no verão o pau d’arco roxo de outubro e os paus d’arcos amarelos de novembro”. O engenho era sombrio, era de açucar e ficava à aba do rio Una. Alexandre, seu pai, assumiu os engenhos no meio de uma crise de açucar que arrasava as lavouras. Os engenhos, hipotecados, estavam nas mãos de comerciantes da Paraíba, porém, ao contrário dos outros donos de engenho, seu Alexandre era um homem letrado.
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A IDEIA
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De onde ela vem? De que maneira bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?
Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas
Delibera, e, depois, quer a executa!
Vem do encéfalo absconso que a constringe
Chega em seguida às cordas da laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica…
Quebra a força centrípeta que a amarra
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica!
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Dr. Alexandre, como era conhecido, era letrado senhor de engenho e gostava de vagar a cavalo pelos limites de sua terra. Gostava de filosofia, lia muito, e por mais que se esforçasse, não tinha nas mãos a força do mando. Gostava de conversar com as pessoas, com os trabalhadores, procurava manter um clima ameno. Sabia latim, grego e ciências naturais, tinha mãos finas e gostava de escrever. Lia muito Cícero. Costumava dizer que com a casa cheia de meninos querendo estudar, “o tamarindo virava uma escola socrática”, se referindo ao pé de tamarindo que havia no engenho.
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IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA
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Rugia nos meus centros cerebrais
A multidão dos séculos futuros
- Homens que a herança de ímpeto impuros
Tornara etnicamente irracionais! -
Não sei que livro, em letras garrafais
Meus olhos liam! No humus dos monturos,
Realizavam-se os partos mais obscuros
Dentre as genealogias animais!
Como quem esmigalha protozoários
Meti todos os dedos mercenários
Na consciência daquela multidão…
E, em vez de achar a luz que os Céus inflama
Somente achei moléculas de lama
E a mosca alegre da putrefação!
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As informações sobre este período da infância são escassas, por isso, em 1900, Augusto ingressa no Liceu Paraibano. Tinha dezesseis anos e já gozava de uma fama de preparo, de prodígio, que corria pela cidade. Era desembaraçado como afirma Orris Soares, seu amigo dessa época “não soube resistir ao desejo de travar conhecimento com o poeta. Fui imperiosamente atraído, como para um sítio encantado onde a vista se alerta por encontrar movimento. E de tal forma nos acamaradamos, que, dias depois, lhe devia o exame de latim, desembaraçando-me de complicada tradução, numa ode de Horácio”.

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Poema EMPÓRIO dedicado ao Vicente http://pedrolago.blogspot.com
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O DEUS VERME
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Fator universal do transformismo,
Filho da teológica matéria,
Na superabundância ou na miséria
Verme – é o seu nome obscuro de batismo.
Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua diária ocupação funérea,
E vive em contubérnio com a bactéria
Livre das roupas do antropomorfismo.
Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão…
Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!
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Ainda em 1900, na mesma época em que entra no Liceu, Augusto dos Anjos escreve seu primeiro soneto, chamado “Saudade”. Augusto, ainda estudante, gostava de andar recitando, consta que tinha uma voz metálica que continha “complacência e enternecimento”. Nesta época, impressionou muito Orris Soares, de quem se tornaria amigo e que escreveria o texto “Elogio a Augusto dos Anjos”. Em 1901, publica um soneto no jornal O Comércio, e passaria a colaborar com o mesmo. Logo mais, dois anos depois, iria para Recife para se inscrever na faculdade de Direito e lá conhece, enfim, o Carnaval.
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DEBAIXO DO TAMARINDO
No tempo de meu pai, sob estes galhos
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canceira
De inexorabilíssimos trabalhos!
Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,
Guarda, como uma caixa derradeira,
 O passado da Flora Brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!
Quando pararem todos os relógios
De minha vida, e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,
Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade
A minha sombra há de ficar aqui!
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Em 1903, Augusto entra na Faculdade de Direito em Recife. Dois anos depois, em 1905, perde seu pai, Dr. Alexandre. Escreve então três sonetos dedicados ao pai e publica n’O Comércio, que posteriormente fariam parte de seu único livro “Eu”. Nesta época, começa a escrever a “crônica paudarquense” e participa de duas polêmicas. Augusto lia muito os escritos de Charles Darwin, Haeckel, Spencer e Pascal. Em 1907, conclui a faculdade de Direito, para, um ano depois, instalar-se, de vez, na capital da Paraíba.
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Dois poemas meus aqui ao lado de outros poetas http://www.olegalmeida.com/page_25.html
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UMA NOITE NO CAIRO
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Noite no Egito. O céu claro e profundo
Fulgura. A rua é triste. A Lua Cheia
Está sinistra, e, sobre a paz do mundo,
A alma dos Faraós anda e vagueia.
Os mastins negros vão ladrando à lua…
O Cairo é de uma formosura arcaica.
No ângulo mais recôndito da rua
Passa cantando uma mulher hebraica.
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O Egito é sempre assim quando anoitece!
Às vezes das pirâmides o quêdo
E atro perfil, exposto ao luar, parece
Uma sombria interjeição de medo!
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Como um contraste aqueles míseres
Num quiosque em festa a alegre turba grita
E dentro dançam homens e mulheres
Numa aglomeração cosmopolita.
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Tonto do vinho, um saltimbanco da Asia
Convulso e rôto, no apogeu da fúria,
Executando evoluções de razzia
Solta um brado epiléptico de injúria!
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Em derredor duma ampla mesa preta
- Última nota do conúbio infando -
Vêem-se dez jogadores de roleta
Fumando, discutindo, conversando.
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Resplandece a celeste superfície
Dorme soturna a natureza sabia…
Em baixo, na mais próxima planície,
Pasta um cavalo esplêndido da Arábia.
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Vaga no espaço um silfo solitário.
Trôam kinnors! Depois tudo é tranquilo…
Apenas, como um velho stradivario,
Soluça toda a noite a água do Nilo!
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Em 1908, Augustos dos Anjos vai para a capital da Paraíba onde começa a dar aulas particulares. Nesta época, começa a colaborar com o jornal Nonevar e com a revista Terra Natal. Sua mãe, Sinhá Mocinha, ficava no Engenho a esperar por notícias do filho. Eis um relato de sua experiência, em carta, pela “Veneza Brasileira”: “Os três dias de Carnaval nesta capital foram festivos, alegres e esplendorosos. Profusão de clubes carnavalescos, Caraduras, etc, confete, bisnagas, serpentina, danças, e, no entretanto, eu me diverti um pouco. O que é afinal divertimento? Uma fenomenalidade transitória, efêmera, o que fica é a saudade. Saudade! Ora, eu não disposto a ter saudades. Entendo que só devemos acalentar recordações dos entes caros, idolatrados, parcelas de nossa existência, de nossa vida, e esses entes – deixei-os eu aí”.
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A UM MASCARADO
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Rasga esta máscara ótima de seda
E atira à area ancestral dos palimpsestos…
É noite, e, à noite, a escândalos e incestos
É natural que o instinto humano aceda!
Sem que te arranquem da garganta queda
A interjeição danada dos protestos.
Hás de engolir, igual a um porco, os restos
Duma comida horrivelmente azeda!
A sucessão de hebdômadas medonhas
Reduzirá os mundos que tu sonhas
Ao microcosmos do ovo primitivo…
E tu mesmo, após a árdua e atra refrega,
Terás somente uma vontade cega
E uma tendência obscura de ser vivo!
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No mesmo ano de 1908, morre Afrígio Pessoa de Melo, padrasto de sua mãe e patriarca da família, deixando o Engenho em péssima situação financeira. Também começa a lecionar no Instituto Maciel Pinheiro e é nomeado professor do Liceu Paraibano. No ano seguinte, 1909, Augusto publica o poema “Budismo moderno” e outros em A União e num discurso que profere no Teatro Santa Rosa pela comemorações do dia 13 de maio, choca a plateia com seu léxico “incompreensível e bizarro”, logo depois, abandona o Instituo Maciel Pinheiro.
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CONTRASTES
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A antítese do novo e do obsoleto
O Amor e a Paz, o Ódio e a Carnificina,
O que o homem ama e o que o homem abomina,
Tudo convém para o homem ser completo!
O ângulo obtuso, pois, e o ângulo reto,
Uma feição humana e outra divina
São como a eximenina e a endimenina
Que servem ambas para o mesmo feto!
Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes!
Por justaposição destes contrastes,
Junta-se uma hemisfério a outro hemisfério,
Às alegrias juntam-se as tristezas
E o carpinteiro que fabrica as mesas
Faz também os caixões do cemitério!…
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Em 1910, Augusto publica em A União, o poema, “Mistério de um Fósforo” e “Noite de um Visionário”. Mas, o fato mais importante deste ano de 1910, embora, de certa forma avesso às questões do afeto, conhece e casa-se com Ester Fialho. Augusto continua a colaborar com a revista Nonevar até que outro fato marcante, desta vez trágico, acontece na vida do poeta: Sua família, por dificuldades financeiras, vende o Engenho Pau D’Arco. Augusto se atordoa e decide de mudar para o Rio de Janeiro. Embora professor do Liceu Paraibano por dois anos, Augusto quer se tornar poeta conhecido em círculos mais amplos. Então, pega parte de sua herança no Engenho e, com Ester, parte para a capital do país.
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VERSOS DE AMOR
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Parece muito doce aquela cana.
Descasco-a, provo-a, chupo-a… ilusão trêda!!
O amor, poeta, é como a cana azeda,
A toda a boca que o não prova engana.
Quis saber que era o amor, por experiência,
E hoje que, enfim, conheço o seu conteúdo,
Pudera eu ter, eu que idolatro o estudo,
Todas as ciências menos esta ciência!
Certo, este o amor não é que, em ansias, amo
Mas certo, o egoísta amor este é que acinte
Amas, oposto a mim. Por conseguinte
Chamas amor aquilo que eu não chamo.
Oposto ideal ao meu ideal conservas.
Diverso é, pois, o ponto outro de vista
Consoante o qual, observo o amor, do egoísta
Modo de ver, consoante o qual, observas.
Porque o amor, tal como eu o estou amando,
É espírito, é éter, é substância fluida,
É assim como o ar que a gente pega e cuida,
Cuida, entretanto, não o estar pegando!
É a transubstanciação de instintos rudes,
Imponderabilíssima e impalpável,
Que anda acima da carne miserável
Como anda a garça acima dos açudes!
Para reproduzir tal sentimento
Daqui por diante, atenta a orelha cauta,
Como Marsyas – inventor da flauta -
Vou inventar também outro instrumento!
Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo
Ambiciono, que o idioma em que te eu falo
Possam todas as línguas declina-lo
Possam todos os homens compreendê-lo!
Para que, enfim, chegando à última calma
Meu podre coração roto não role
Integralmente desfibrado e mole,
Como um saco vazio dentro da alma!
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No Rio de Janeiro, Augusto e sua mulher Ester, hospedam-se em uma pensão no Largo do Machado mas logo se mudam para a Avenida Central. São constantes as mudanças. O casal vai de pensão em pensão. Augusto termina o ano de 1910 sem conseguir um emprego. No ano seguinte, altos e baixos. Sua mulher engravida, porém, seis meses depois, perde a criança. Augusto é nomeado professor de Geografia, Corografia e Cosmografia no Ginásio Nacional (Pedro II atualmente) e Ester engravida novamente e no fim do ano nasce sua filha Glória.
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DEPOIS DA ORGIA
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O prazer que na orgia a hetaíra goza
Produz no meu sensorium de bacante
O efeito de uma túnica brilhante
Cobrindo ampla apostema escrofulosa!

Troveja! E anelo ter, sôfrega e ansiosa,
O sistema nervoso de um gigante
Para sofrer na minha carne estuante
A dor da força cósmica furiosa.

Apraz-me, enfim, despindo a última alfaia
Que ao comércio dos homens me traz presa,
Livre deste cadeado de peçonha,

Semelhante a um cachorro de atalaia
Às decomposições da Natureza,
Ficar latindo minha dor medonha!

Em 1912, Augusto começa a colaborar com o jornal O Estado e dá aulas na escola Normal. Porém, um dos grandes feitos desse ano vem através da ajuda de seu irmão Odilon, que o ajuda a custear a edição de 1000 exemplares de seu único livro de poemas chamado “Eu” no dia 6 de julho deste ano. O livro é recebido, ora com estranheza, ora, com entusiasmo, as crítica variam muito entre os elogios e a repulsa. De acordo com seu amigo Orris Soares “três fatores fizeram a profunda tristeza de Augusto do Anjos: – um de carater individualíssimo, outro mesológico e o terceiro espiritual”.
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As bodas com sussurro de Blake em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
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A ILHA Do CYPANGO
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Estou sozinho! A estrada se desdobra
Como uma imensa e rutilante cobra
De epiderme finíssima de areia…
E por essa finíssima epiderme
Eis-me passeando como um grande verme
Que, ao sol, em plena podridão, passeia!

A agonia do sol vai ter começo!
Caio de joelhos, trêmulo… Ofereço
Preces a Deus de amor e de respeito
E o Ocaso que nas águas se retrata
Nitidamente reproduz, exata,
A saudade interior que há no meu peito…

Tenho alucinações de toda a sorte…
Impressionado sem cessar com a Morte
E sentindo o que um lázaro não sente,
Em negras nuanças lúgubres e aziagas
Vejo terribilíssimas adagas,
Atravessando os ares bruscamente.

Os olhos volvo para o céu divino
E observo-me pigmeu e pequenino
Através de minúsculos espelhos.
Assim, quem diante duma cordilheira,
Pára, entre assombros, pela vez primeira,
Sente vontade de cair de joelhos!

Soa o rumor fatídico dos ventos,
Anunciando desmoronamentos
De mil lajedos sobre mil lajedos…
E ao longe soam trágicos fracassos
De heróis, partindo e fraturando os braços
Nas pontas escarpadas dos rochedos!

Mas de repente, num enleio doce,
Qual se num sonho arrebatado fosse,
Na ilha encantada de Cypango tombo,
Da qual, no meio, em luz perpétua, brilha
A árvore da perpétua maravilha,
À cuja sombra descansou Colombo!

Foi nessa ilha encantada de Cypango,
Verde, afetando a forma de um losango,
Rica, ostentando amplo floral risonho,
Que Toscanelli viu seu sonho extinto
E como sucedeu a Afonso Quinto
Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho!

Lembro-me bem. Nesse maldito dia
O gênio singular da Fantasia
Convidou-me a sorrir para um passeio…
Iríamos a um país de eternas pazes
Onde em cada deserto há mil oásis
E em cada rocha um cristalino veio.

Gozei numa hora séculos de afagos,
Banhei-me na água de risonhos lagos,
E finalmente me cobri de flores…
Mas veio o vento que a Desgraça espalha
E cobriu-me com o pano da mortalha,
Que estou cosendo para os meus amores!

Desde então para cá fiquei sombrio!
Um penetrante e corrosivo frio
Anestesiou-me a sensibilidade
E as grandes golpes arrancou as raízes
Que prendiam meus dias infelizes
A um sonho antigo de felicidade!

Invoco os Deuses salvadores do erro.
A tarde morre. Passa o seu enterro!…
A luz descreve ziguezagues tortos
Enviando à terra os derradeiros beijos.
Pela estrada feral dois realejos
Estão chorando meus amores mortos!

E a treva ocupa toda a estrada longa…
O Firmamento é uma caverna oblonga
Em cujo fundo a Via-láctea existe.
E como agora a lua cheia brilha!
Ilha maldita vinte vezes a ilha
Que para todo o sempre me fez triste!





Ainda vivendo de pensão em pensão, Augusto pede emprego público aos políticos da Paraíba radicados no Rio de Janeiro. No dia 2 de junho de 1913, nasce seu segundo filho Guilherme Augusto. A péssima situação financeira não permite que Augusto vá com a sua mulher e filha visitar sua mãe na Paraíba. Nesta ocasião Augusto escreve: “minhas ocupações de professor, aliás, mal remuneradas, não me permitem folgas refociladoras dessa natureza”. Augusto continuam a lecionar em diversos lugares, dando inclusive, aulas particulares para obter mais rendimentos.
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MATER


Como a crisálida emergindo do ovo
Para que o campo flórido a concentre,
Assim, oh! Mãe, sujo de sangue, um novo
Ser, entre dores, te emergiu do ventre!
E puseste-lhe, haurindo amplo deleite,
No lábio róseo a grande teta farta
— Fecunda fonte desse mesmo leite —
Que amamentou os éfebos de Sparta. —

Com que avidez ele essa fonte suga!
Ninguém mais com a Beleza está de acordo,
Do que essa pequenina sanguessuga,
Bebendo a vida no teu seio gordo!

Pois, quanto a mim, sem pretensões, comparo,
Essas humanas cousas pequeninas
A um biscuit de quilate muito raro
Exposto aí, à amostra, nas vitrinas.

Mas o ramo fragílimo e venusto
Que hoje nas débeis gêmulas se esboça,
Há de crescer há de tornar-se arbusto
E álamo altivo de ramagem grossa.

Clara, a atmosfera se encherá de aromas,
O Sol virá das épocas sadias…
E o antigo leão, que te esgotou as pomas,
Há de beijar-te as mãos todos os dias!

Quando chegar depois tua velhice
Batida pelos bárbaros invernos!
Relembrarás chorando o que eu te disse,
A sombra dos sicômoros eternos!





O livro “Eu” era considerado estranho. Havia uma excentricidade temática, falava muito da morte, o tratamento da linguagem era cheio de vocábulos e expressões científicas e filosóficas. O léxico era difícil, com rimas ricas, muitas vezes causando espanto. Augusto bebeu muito em Herbert Spencer, Ernst Haeckel e muito Schopenhauer. A Bíblia também foi absorvida por Augusto e, de acordo com alguns exegetas, “a utilização da Bíblia potencializou seu contraponto às ideias iluministas/materialistas que havia em sua época”. Vale conferir.
O MEU NIRVANA


No alheamento da obscura forma humana,
De que, pensando, me desencarcero,
Foi que eu, num grito de emoção, sincero
Encontrei, afinal, o meu Nirvana!
Nessa manumissão schopenhauereana,
Onde a Vida do humano aspecto fero
Se desarraiga, eu, feito força, impero
Na imanência da Ideia Soberana!

Destruída a sensação que oriunda fora
Do tacto — ínfima antena aferidora
Destas tegumentárias mãos plebeias —

Gozo o prazer, que os anos não carcomem,
De haver trocado a minha forma de homem
Pela imortalidade das Ideias!





Parênteses: Por volta do início do século XX, havia no Recife uma espécie de “evolução” no pensamento brasileiro, por ação, sobretudo, de Tobias Barreto. Matins Junior, pelo que consta, foi dos primeiros, senão o primeiro, a introduzir a poesia científica, que não teve seguidores. Esse era o ambiente em que Augusto sorvia. Aprendeu muito com um professor que teve chamado Laurindo Leão, que era um devoto do fenomenismo gnóstico. Augusto passava por tudo isso calado. Emancipou-se intelectualmente da educação católica, de acordo com Horácio de Almeida, influenciado pelos evolucionistas e naturalistas século.

GUERRA

Guerra é esforço, é inquietude, é ânsia, é transporte…

E a dramatização sangrenta e dura

Vir Deus num simples grão de argila errante,

Da avidez com que o Espírito procura

 

É a Subconsciência que se transfigura

Em volição conflagradora… E a coorte

Das raças todas, que se entrega à morte

Para a felicidade da Criatura!

 

É a obsessão de ver sangue, é o instinto horrendo

De subir, na ordem cósmica, descendo

A irracionalidade primitiva…

 

É a Natureza que, no seu arcano,

Precisa de encharcar-se em sangue humano

Para mostrar aos homens que está viva!




Outro parênteses: Augusto não era muito de falar. Ficava quase sempre calado na rodas que se faziam na Paraíba. Inclusive, uma amigo que veio a morar com ele numa pensão na Paraíba, veio a conhecê-lo bem só depois que se formou. Pelos 17 anos escreveu Monólogos da Sombra. Um intelectual chamado Flósculo da Nóbrega, da Academia Paraibana de Letras, quando o encontrou, o achou excessivamente intelectualizado, com o pensamento frio, mas, como já dissemos, seu núcleo emocional, a fonte propriamente dita, se encontrava ainda na memória do Engenho do Pau D’Arco. Mais semana que vem.

HINO À DOR


Dor, saúde dos seres que se fanam,

Riqueza da alma, psíquico tesouro,

Alegria das glândulas do choro

De onde todas as lágrimas emanam..

 

És suprema!  Os meus átomos se ufanam

De pertencer-te, oh!  Dor, ancoradouro

Dos desgraçados, sol do cérebro, ouro

De que as próprias desgraças se engalanam!

 

Sou teu amante!  Ardo em teu corpo abstrato.

Com os corpúsculos mágicos do tacto

Prendo a orquestra de chamas que executas…

 

E, assim, sem convulsão que me alvorece,

Minha maior ventura é estar de posse

De tuas claridades absolutas!




Após alguns meses em busca de um lugar para morar, Augusto e sua família encontram uma casa em Leopoldina. Ali seria então o lugar definitivo, a base. Publica “O lamento das coisa” na Gazeta Leopoldina que é dirigida por seu cunhado, Rômulo Pacheco e também é nomeado diretor do Grupo Escolar de Leopoldina. A vida anunciava tempos calmos na vida do poeta, porém, já há alguns meses que Augusto sofria com uma espécie de tuberculose ou pneuomonia. 

Metendo o malho no Maiacovski em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com


 DANÇA DA PSIQUE


A dança dos encéfalos acesos
Começa. A carne é fogo. A alma arde. A espaços
As cabeças, as mãos, os pés e os braços
Tombara, cedendo à ação de ignotos pesos!
É então que a vaga dos instintos presos
— Mãe de esterilidades e cansaços —
Atira os pensamentos mais devassos
Contra os ossos cranianos indefesos.

Subitamente a cerebral coréa
Pára. O cosmos sintético da Idéa
Surge. Emoções extraordinárias sinto…

Arranco do meu crânio as nebulosas.
E acho um feixe de forças prodigiosas
Sustentando dois monstros: a alma e o instinto!






Após alguns meses doente, mais precisamente, desde o dia 30 de outubro, o poeta Augusto dos Anjos morre, às quatro horas da manhã, do dia 12 de novembro de 1914, aos 30 anos de idade, em Leopoldina, oficialmente de pneumonia. Em carta à Sinha Mocinha, Ester, sua mulher, lamenta: “O mês de outubro já corria em meados quando Augusto dos Anjos adoeceu. O Dr. Custódio Junqueira lhe fez uso de alguns remédios, que não fizeram ceder o mal estar. No dia 29, Augusto caiu na cama com muita febre, frio e dor de cabeça. O Dr. Custódio foi novamente chamado. A base do pulmão direito está congestionada, disse, depois que o examinou [...] A doença abateu o seu corpo franzino, não conseguindo, entretanto, abater-lhe o espírito que se conservou lúcido até 20 minutos antes de expirar… Ele me chamou, despediu-se de mim, dizendo-me: Mande as minhas lágrimas para a minha mãe; mande lembranças para os meus amigos do Rio; trate bem as criancinhas Glória e Guilherme; dê lembranças às meninas do grupo… Recomendou-me que guardasse com cuidado todos os seus versos…”




NOLI ME TANGERE



A exaltação emocional do Gozo,
O Amor, a Glória, a Ciência, a Arte e a Beleza
Servem de combustíveis à ira acesa
Das tempestades do meu ser nervoso!
Eu sou, por conseqüência um ser monstruoso!
Em minha arca encefálica indefesa
Choram as forças más da Natureza
Sem possibilidades de repouso!

Agregados anômalos malditos
Despedaçam-se, mordem-se, dão gritos
Nas minhas camas cerebrais funéreas…

Ai! Não toqueis em minhas faces verdes,
Sob pena, homens felizes, de sofrerdes
A sensação de todas as misérias!





Assim que morreu o poeta, um amigo, alguém que o conhecia e admirava seus versos, foi se lamentar com o Olavo Bilac, que não o conhecia. Pediu para ver alguns versos e, logo após lê-los, disse: “Não lamente, a poesia brasileira não perdeu grande coisa!”. Porém, algo de inesperado aconteceria. Edições de “Eu” foram sendo republicadas e Augusto, não só foi passou a ser lido, como popularizado, sendo recitado, inclusive, em rodas de rua e feiras populares. Mais precisamente a partir de 1920, com introdução do amigo Orris Soares.



MINHA ÁRVORE


Olha: E um triângulo estéril de ínvia estrada!
Como que a erva tem dor… Roem-na amarguras
Talvez humanas, e entre rochas duras
Mostra ao Cosmos a face degradada!
Entre os pedrouços maus dessa morada
É que, às apalpadelas e às escuras,
Hão de encontrar as gerações futuras
Só, minha árvore humana desfolhada!
Mulher nenhuma afagará meu tronco!
Eu não me abalarei, nem mesmo ao ronco
Do. furacão que, rábido, remoinha…
Folhas e frutos, sobre a terra ardente
Hão de encher outras árvores! Somente
Minha desgraça há de ficar sozinha!



Em 1928, a terceira edição do livro “Eu” é lançada no Rio de Janeiro pela Livraria Castilho, com imensa repercussão e sucesso de público e crítica. Augusto dos Anjos é, enfim, reconhecido como grande poeta. Nas palavras de Horácio de Almeida: “Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio. Só muito raramente soltava uma blasfêmia. Por outro lado, não se pode dizer fosse ele um materialista ético. De inflexões mentais sua obra anda cheia. E como era sincero e honesto, virtudes que cultivava com extremado zelo, nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência.”




À MESA

Cedo à sofreguidão do estômago. É a hora
De comer. Coisa hedionda! Corro. E agora,
Antegozando a ensangüentada presa,
Rodeado pelas moscas repugnantes,
Para comer meus próprios semelhantes
Eis-me sentado à mesa!
Como porções de carne morta … Ai! Como
Os que, como eu, têm carne, com este assomo
Que a espécie humana em comer carne tem! …
Como! E pois que a Razão me não reprime,
Possa a terra vingar-se do meu crime
Comendo-me também.





Como não poderia deixar de ser, terminamos este augusto mês de agosto com a descrição de Paulo Soares sobre morte do poeta: “A notícia do falecimento de Augusto dos Anjos logo corre porta a fora, levada não pela dor da mãe desconsolada, mas pela empregada da casa, Dona Ermíria que, ao perceber as lágrimas que longe estão de se conterem em sua fonte, pergunta à patroa enigmática o motivo de tanto desperdício de humor. Ao saber do acontecido, corre a mulher pela calçada a gritar aos que passam: morreu o magro, morreu Augusto, não sei se de tuberculose ou de susto”. Assim terminamos mais uma antologia, na semana que vem, outros poemas, outras proposições e mais deflagrações. Evoé!





REVELAÇÃO I & II


I

Escafandrista de insondado oceano
Sou eu que, aliando Buda ao sibarita,
Penetro a essência plásmica infinita,
- Mãe promíscua do amor e do ódio insano!
Sou eu que, hirto, auscultando o absconso arcano,
Por um poder de acústica esquisita,
Ouço o universo ansioso que se agita
Dentro de cada pensamento humano!
No abstrato abismo equóreo, em que me inundo,
Sou eu que, revolvendo o ego profundo
E a escuridão dos cérebros medonhos,
Restituo triunfalmente à esfera calma
Todos os cosmos que circulam na alma
Sob a forma embriológica de sonhos!

II

Treva e fulguração; sânie e perfume;
Massa palpável e éter; desconforto
E ataraxia; feto vivo e aborto…
- Tudo a unidade do meu ser resume!
Sou eu que, ateando da alma o ocíduo lume,
Apreendo, em cisma abismadora absorto,
A potencialidade do que é morto
E a eficácia prolífica do estrume!
Ah! Sou eu que, transpondo a escarpa angusta
Dos limites orgânicos estreitos,
Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia,
Sinto bater na putrescível crusta
Do tegumento que me cobre os peitos
Toda a imortalidade da Substância!

agosto 21, 2011

Oswald de Andrade

 

José Oswald de Andrade nasceu no dia 11 de janeiro de 1890 em São Paulo. Filho de José Oswald Nogueira de Andrade e Inês Henriqueta de Souza Andrade. A família de sua mãe descende de uma das famílias fundadoras do Estado do Pará, estabelecida no porto de Óbidos. Também é sobrinho do jurista e escritor Herculano Marques Inglês de Souza. Já a sua família paterna descende de uma família de fazendeiros mineiros de Baependi. O jovem Oswald passa sua infâcia na segurança de uma casa confortável na rua Barão de Itapetiniga, em São Paulo. Neste mês vamos poesia adentro desta grande figura da nossa cultura. Vamos de Oswald de Andrade. Evoé!

Naquela mesa do canto na parte de cima http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

BRINQUEDO

Roda roda São Paulo
Mando tiro tiro lá

Da minha janela eu avistava
Uma cidade pequena
Pouca gente passava
Nas ruas. Era uma pena

Desceram das montanhas
Carochinhas e pastoras
Por dormir em meus olhos
Me levaram pra abrolhos

Os bondes da Light bateram
Telefones na ciranda
Os automóveis correram
Em redor da varanda

Roda roda São Paulo
Mando tiro tiro lá

Brinquedos de comadre
Começaram pela vida
Pela vida começaram
Comadres e mexericos

Roda roda São Paulo
Mando tiro tiro lá

Depois entrou no brinquedo
Um menino grandão
Foi o primeiro arranha-céu
Que rodou no meu céu

Do quintal eu avistei
Casas torres e pontes
Rodaram como gigantes
Até que enfim parei

Roda roda São Paulo
Mando tiro tiro lá
Hoje a roda cresceu
Até que bateu no céu
É gente grande que roda
Mando tiro tiro lá

O menino Oswald inicia seus estudos em 1900 com professores particulares, porém, depois, ingressa no ensino público matriculando-se na Escola Modelo Caetano de Campos. Em 1902, cursa o Ginásio Nossa Senhora do Carmos, agora, já com doze anos. Os relatos de sua infância abrangem “ruas pacatas” e “brincadeiras”, pontos até então, normais, para um menino de São Paulo no início do século. Já em 1905, aos 15 anos, vai para o Colégio São Bento, e recebe um tradicional ensino religioso. Lá conhece Guilherme de Almeida e se torna seu amigo, e também conhece o poeta Ricardo Gonçalves.

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MEUS SETE ANOS

Papai vinha tarde
Da faina de labutar
Eu esperava na calçada
Papai era gerente
D Banco Popular
Eu aprendia com ele
Os nomes dos negócios
Juros hipotecas
Prazo amortização
Papai era gerente
Do Banco Popular
Mas descontava cheques
No guichê do coração

A casa dos Andrade tinha rigorosa formação católica. Dona Inês, fazia com que o pequeno Oswald se vestisse de anjo nas pequenas procissões que seguiam pela Barão de Itapetininga. O menino es tornou superticioso na infância, batia na madeira três vezes para espantar maus pensamentos, passava vinho na orelha e entrava em casa sempre com o pé direito. Ficou conhecido na família como “Oswaldinho”. Sua mãe sempre enfatizou a pronúncia correta de seu nome, “Osváld” e não “ôsvald” como até hoje muitos o chamam. Inclusive, o crítico Antônio Cândido escreveu um artigo sobre a pronúncia correta do nome de Oswald. A entrada de Oswald no Colégio Nossa Senhora do Carmo se dá por causa de uma frase que Oswald desfere no antigo colégio, “Deus é Natureza”, para o pânico de sua mãe devota de São José.

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MEUS OITO ANOS

Oh que saudades eu tenho
Da aurora de minha vida
Das horas
De minha infância
Que os anos não trazem mais
Naquele quintal de terra
Da Rua de Santo Antônio
Debaixo da bananeira
Sem nenhum laranjais

Eu tinha doces visões
Da cocaína da infância
Nos banhos de astro-rei
Do quintal de minha ânsia
A cidade progredia
Em roda de minha casa
Que os anos não trazem mais
Debaixo da bananeira
Sem nenhum laranjais

Em 1908, Oswald conclui o Colégio São Bento, nesta época, por causa de um professor chamado Gervásio Araújo, que o apresenta a Victor Hugo, através dos Miseráveis e também lê Carlos Magno, Julio Verne, Castro Alves e alguns outros. O pequeno Oswald confessa que gosta da poesia do poeta baiano, mas não entende. Olavo Bilac e Lima Barreto são leituras essenciais desta época, assim como Coelho Neto, ou seja, todos os cânones. Nesta época, também conhece Monteiro Lobato e Ricardo Gonçalves. Se envereda também em Dostoiévski, Shakespeare e Eugênio de Castro. Muitas leituras para o jovem promissor e aluno irregular.

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HISTÓRIA DA PÁTRIA

Lá vai uma barquinha carregada de
Aventureiros
Lá vai uma barquinha carregada de
Bacharéis
Lá vai uma barquinha carregada de
Cruzes de Cristo
Lá vai uma barquinha carregada de
Donatários
Lá vai uma barquinha carregada de
Espanhóis

Paga prenda
Prenda os espanhóis!
Lá vai uma barquinha carregada de
Flibusteiros
Lá vai uma barquinha carregada de
Governadores
Lá vai uma barquinha carregada de
Holandeses

Lá vem uma barquinha cheinha de índios
Outra de degradados
Outra de pau de tinta

Até que o mar inteiro
Se coalhou de transatlânticos
E as barquinhas ficaram
Jogando prenda coa raça misturada
No litoral azul de meu Brasil.

Em 1908, Oswald termina o ginásio no Colégio São Bento e toma a “vacina obrigatória”. Incentivados pelos amigos e pela família, um ano depois, ingressa na Faculdade de Direito. De cara, se impressiona com a violência do trote. Nesta época, Oswald se interessa pelo jornalismo e já entra no Diário Popular como repórter e redator. Emprego este que conseguiu atravá da influência do pai, seu salário é de sessenta mil réis. Assina algumas matérias e críticas de cinema e teatro. Fica muito amigo do ator Giovanni Grasso, inclusive o acompanha no Rio e em São Paulo e namora algumas atrizes do grupo. Oswald passa a vivenciar intensamente a cena teatral paulista.

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A DESCOBERTA

Seguimos nosso caminho por este mar de longo
Até a oitava da Páscoa
Topamos aves
E houvemos vista de terra
os selvagens
Mostraram-lhes uma galinha
Quase haviam medo dela
E não queriam por a mão
E depois a tomaram como espantados
primeiro chá
Depois de dançarem
Diogo Dias
Fez o salto real
as meninas da gare
Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis
Com cabelos mui pretos pelas espáduas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito bem olharmos
Não tínhamos nenhuma vergonha.

Oswald escrevia para o Diário sob o pseudônimo de Joswald. Neste mesmo ano de 1910, torna-se amigo de Washington Luís, membro da comitiva nacional e futuro presidente. Também monta um ateliê de pintura com Osvaldo Pinheiro. Em 1911, faz viagens constantes para o Rio de Janeiro onde participa da vida boêmia dos escritores. Se torna amigo de Emílio de Menezes, e lança com Voltolino, Dolor Brito Franco e Antônio Define, o semanário O Pirralho, usando o pseudônimo de Annibale Scipione. No fim do ano, interrompe a faculdade de Direito e arrenda a revista a Paulo Setúbal e Babi de Andrade para fazer sua primeira viagem à Europa.

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BALADA DO ESPLANADA

Ontem à noite
Eu procurei
Ver se aprendia
Como é que se fazia
Uma balada
Antes d’ir
Pro meu hotel

É que este
Coração
Já se cansou
De viver só
E quer então
Morar contigo
No Esplanada

Eu qu’iria
Poder
Encher
Este papel
De versos lindos
É tão distinto
Ser menestrel

No futuro
As gerações
Que passariam
Diriam
É o hotel
Do menestrel

Pra m’inspirar
Abro a janela
Como um jornal
Vou fazer
A balada
Do Esplanada
E ficar sendo
O menestrel
De meu hotel

Mas não há poesia
Num hotel
Mesmo sendo
‘Splanada
Ou Grand-Hotel

Há poesia
Na dor
Na flor
No beija-flor
No elevador

Oferta

Quem sabe
Se algum dia
Traria
O elevador
Até aqui
O teu amor

Em 1921, aos 22 anos, a bordo do navio Martha Washington, Oswald se entusiasma com Carmen Lydia, nome artístico para Landa Kosbach, de treze anos, que viaja para estudar balé em Milão. Oswald conhece a Itália, a Alemanha, a Bélgica, a Inglaterra, a Espanha e a França. Trabalha como correspondente matutino do Correio da Manhã. Em Paris, conhece aquela que viria a ser sua primeira mulher, Henriette Denise Boufflers (Kamiá), com quem retorna ao Brasil. Oswald não consegue rever a mãe, falecida no dia 6 de setembro, nesta época, realiza sua primeira experiência poética ao escrever “O último passeio de um tuberculoso, pela cidade, de bonde”, porém, rasga-o em seguida. No ano seguinte, frequenta as reuniões artísticas da Villa kyrial, no palacete do senador Freitas Valle. Lá conhece o pintor Lasar Segall. Enfim escreve o romance A recusa.

Tradução de Baudelaire em http://pedrolago.blogspot.com

HINA NACIONAL DO PATY DO ALFERES

Eu quero fazer um poema
Rachado e sentimental
Como as bandas de música
De meu país natal

Eu quero fazer um poema
De todo o amor que sinto
Pelas palmas e bandeiras
Do meu país musical

Eu quero fazer um poema
De flores de papel
Laranja azul encarnado
Branco e verdeamarel

Ah! Meu Brasil! Meu Brasil!
Eu já morei foragido
Numa casa rota
Que dava para o mar
Já morei no Normandy de Deauville
E num navio de guerra
E nas ruas e nos portos Das terras imaginárias

Mas quando tu reapareces
Sob o hemisfério estrelado
Esperando a presidência do Dr. Washington Luís
Ó Brasil
Meu coração feito de pedaços
Se unifica
A independência das lágrimas

Fico eleitor
Cidadão vacinado
Solto foguetes
Faço dobrados

Foi assim que eu vim parar
Nas paragens
do Paty do Alferes
E conheci a charanga do Arcozelo
Toda cáqui e preta

Vocês não ouviram
A charanga da fazenda do Arcozelo

É generosa e metálica
A casa é cercada de velhas senzalas
Transfiguradas pela picareta do Progresso
A mão dura de Geraldo
Transformou a terra desabandonada
Numa pátria organizada de gado
E valorizou até as estrelas
Que dividem o céu em sindicatos
Para ouvir os ensaios
Da banda do Arcozelo

Arquitetos de minha terra
Vinde aprender arquitetura
No Paty do Alferes
Donas de casa
Que servis tolamente à francesa
Vinde provar
A mesa saborosa
Do Arcozelo
Bebedores
Vinde gozar a pinga do Paraíso

Como a gente levanta cedo nas fazendas
Antes das primeiras pinceladas
Da pintora Aurora
Vamos dormir
Para sair amanhã
Todos vestidos de cow-boy
E dobrar as quebradas da serra
E deixar o sangue dos pássaros
E das cobras
Nos caminhos

Meu quarto tem três portas
Que dão para outros quartos
Onde ficam as portas
Dos quartos das assombrações

As estrelas são
A estrela d’alva
A estrela do Pastor
Vésper
E o Anjo da Guarda de cada um

As assombrações são
A Inspiração e a Saudade
E os falecidos das nossas relações

Para ver tantas maravilhas
O Cruzeiro do Sul
Espetou a cabeça num morro
E mora aqui
Blefando a rotação universal

E tudo isso
É na fazenda do Arcozelo
Bois arados e rosas
Cavalos e motocicletas

Tudo existindo
E tocando a marcha do Progresso
Que aprenderam com a banda
Da fazenda do Arcozelo

Em 1914, nasce José Oswald Antônio de Andrade, Nonê, filho de Oswald com a francesa Kamiá. Um ano depois, publica, na seção, ‘Lanterna mágica’ de O Pirralho, o artigo, “Em prol de uma pintura nacional”. Nesta época, junto com os colegas da redação, Guilherme de Almeida, Amadeu Amaral, Júlio de Mesquita, Vicente Rao e Pedro Rodrigues de Almeida, cultiva uma vida social intensa. Vai constantemente para o Rio de Janeiro onde participa da boêmia ao lado de Emílio de Menezes, Olegário Mariano, João do Rio e Elói Pontes. Participa de um almoço em homenagem a Olavo Bilac, que visita São Paulo para estimular a campanha cívica. Torna-se membro da Sociedade Brasileira dos Homens de Letras, fundada pelo mesmo Bilac. Nesta época, mantém forte relação com a jovem Carmen Lydia, a quem introduz no meio artístico e financia os estudos.

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BRASIL

O Zé Pereira chegou de caravela
E preguntou pro guarani da mata virgem
- Sois cristão?
- Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte
Teterê tetê Quizá Quizá Quecê!
Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu!
O negro zonzo saído da fornalha
Tomou a palavra e respondeu
- Sim pela graça de Deus
Canhem Babá Canhem Babá Cum Cum!
E fizeram o Carnaval

Em 1917, inspirado pelo envolvimento amoroso com Carmen Lydia, Oswald escreve, em parceria com Guilherme de Almeida, a peça Mon Coeur Balance. Também em francês, assina com Guilherme de Almeida a peça Leuur âme. Em dezembro deste ano, a atriz francesa Suzanne Desprès e Lugné Poe fazem uma leitura dramatizada de um ato de Leur âme no Teatro Municipal de São Paulo. Oswald volta a frequentar a faculdade de Direito e trabalha como redator de O Jornal. Em uma de suas viagens ao Rio, Oswald conhece Isadora Duncan. Assina com o próprio nome os trechos do futuro romance Memórias sentimentais de João Miramar, publicados na revista A Cigarra e começa a escrever o drama O filho do sonho.

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SOLIDÃO

Chove chuva choverando
Que a cidade de meu bem
Está-se toda se lavando

Senhor
Que eu não fique nunca
Como esse velho inglês
Aí do lado
Que dorme numa cadeira
À espera de visitas que não vêm

Chove chuva choverando
Que o jardim de meu bem
Está-se todo se enfeitando

A chuva cai
Cai de bruços
A magnólia abre o para-chuva
Para-sol da cidade
De Mário de Andrade
A chuva cai
Escorre das goteiras do domingo

Chove chuva choverando
Que a casa de meu bem
Está-se toda se molhando

Anoitece sobre os jardins
Jardim da Luz
Jardim da Praça da República
Jardins das platibandas

Noite
Noite de hotel
Chove chuva choverando

Em 1917, Oswald conhece Mário de Andrade e o pintor Di Cavalcanti. As ideias se juntaram, encontraram um no outro uma razão para continuar, algo que começaria ali, assim, os três, mais Guilherme de Almeida e Ribeiro Couto formaram o primeiro grupo modernista. Nesta época também, Oswald aluga uma garçonnière na rua Líbero Badaró 16, onde, faz reuniões intelectuais e, obviamente, amorosas. O grupo modernista se reune lá. Um ano depois, publica no Jornal do Commercio o artigo “A exposição de Anita Malfatti” defendendo as tendências expressionistas em resposta a crítica “Paranoia ou mistificação” de Monteiro Lobato. Ainda sobre a garçonière, Oswald começa a escrever um diário sobre as reuniões com o título de “O perfeito cozinheiro das almas deste mundo”

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CANÇÃO DA ESPERANÇA DE 15 DE NOVEMBRO DE 1926

O céu e o mar
Atira anil
No meu Brasil

Sobre a cidade
Flutua
A bandeira do Porvir

Cada árvore
De estanho
Plantada
Espera
A passagem
Da carruagem
Do Brasil

O céu e o mar
Atira anil
No meu Brasil

Sobre a cidade
Flutua
A bandeira do Porvir

E o povo
Ansioso
Airoso
Sacode no ar
A palheta
Da Esperança
Vendo o dia
Tropical
Que vai passar
Na carruagem
Dos destinos
Do Brasil

À saída da Câmara
Pela boca ardente
De um estudante
Jorra a esperança
Do grandioso
E desordeiro
Povo Brasileiro

E os dragões impacientes
Nos cavalos impacientes
Esperam impacientes
Que o acadêmico exponha
A dedicação
Da gente brasileira
Pelo seu Presidente

Ao lado
Tendo na mão
Espalmada
Os 14 versos brancos
Duma Vitória-Régia

Destaca-se
A Rainha dos Estudantes
Dos Estados Unidos do Brasil

É uma mocinha
Como a futura mãe-pátria

Lá fora as árvores dragonas sacodem os penachos pesados
Dizendo que sim verde

Os cavalos esperam
Os dragões esperam
O povo esperam
Que passe no anil
Entre filas
Do mar e do céu
O Presidente
Do Brasil

Em fevereiro de 1919, Oswald perde seu pai. Começa a ajudar a normalista Maria de Lourdes Castro Dolzabi, Daisy, com quem tivera intenso caso, a se estabelecer em São Paulo. Publica na revista dos estudantes da Faculdade de Direito, Onze de Agosto, “Três capítulos” do romance em confecção Memórias de João Miramar. No dia 15 de agosto, casa-se com Daisy, que estava hospitalizada devido a um aborto mal sucedido. No dia 24 de agosto, Daisy morre, aos dezenove anos e é sepultada no jazigo da família Andrade no Cemitério da Consolação. Conclui o bacharelado em Direito.

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CANÇÃO E CALENDÁRIO

Sol de montanha
Sol esquivo de montanha
Felicidade
Teu nome é
Maria Antonieta d’Alkmin

No fundo do poço
No cimo do monte
Na ponte quebrada
No rego da fonte
Na ponta de lança
No monte profundo
Nevada
Entre os crimes contra mim
Maria Antonieta d’Alkmin

Felicidade forjada nas trevas
Entre os crimes contra mim
Sol de montanha
Maria Antonieta d’Alkmin

Não quero mais as moreninhas de Macedo
Não quero mais as namoradas
Do senhor poeta
Alberto d’Oliveira
Quero você
Não quero mais
Crucificadas em meus cabelos
Quero você

Não quero mais
A inglesa Elena
Não quero mais
A irmã da Nena
A bela Elena
Anabela
Ana Bolena
Quero você

Toma conta do céu
Toma conta da terra
Toma conta do mar
Toma conta de mim
Maria Antonieta d’Alkmin

E se ele vier
Defenderei
E se ela vier
Defenderei
E se eles vierem
Defenderei
E se elas vierem todas
Numa guirlanda de flechas
Defenderei
Defenderei
Defenderei

Cais de minha vida
Partida sete vezes
Cais de minha vida quebrada

Nas prisões
Suada nas ruas
Modelada
Na aurora indecisa dos hospitais

Bonaçosa bonança

Em 1920, começa a trabalhar na revista Papel e Tinta. Escreve o editorial da revista com Menotti Del Pichia, a qual teve colaboração de Mário de Andrade, Monteiro Lobato e Guilherme de Almeida entre outros. Nesta época conhece o escultor Victor Brecheret, a quem encondenda um busto de Daisy. Em 21, profere um discurso no banquete oferecido a Menotti Del Pichia por ocasião do lançamento de um livro, no Trianon. No dia seguinte publica um artigo no Correio Paulistano, onde passa a trabalhar. Apresenta no mesmo jornal a poesia de Mário de Andrade sob o título de “Meu poeta futurista”, criando polêmica com o próprio Mário, que indaga o termo “futurista”. O movimento modernista já existe, e por isso, vai para o Rio de Janeiro com outros escritores em busca novas adesões, se encontra com Ronald de Carvalho, Manuel Bandeira e Sérgio Buarque de Holanda. Logo chegaria a Semana de Arte Moderna.

Drummond em http://cartilhadepoesia.wordpress.com

DOTE

Te ensinarei
O segredo onomatopaico do mundo
Te apresentarei
Thomas Morus
Federico Garcia Lorca
A sombra dos enforcados
O sangue dos fuzilados
Na calçada das cidades inacessíveis
Te mostrarei meus cartões postais
O velho e a criança dos Jardins Públicos
O tutu de dançarina sobre um taxi
Escapados ambos da batalha do Marne
O jacaré andarilho
A amadora de suicídios
A noiva mascarada
A tonta do teatro antigo
A metade da Sulamita
A que o palhaço carregou no carnaval
Enfim, as dezessete luas mecânicas
Que precederam teu uno arrebol

Como consta em todos os registros possíveis, Oswald participa ativamente da Semana de Arte Moderna, realizada de 13 a 17 de fevereiro no Teatro Municipal de São Paulo. Lá, lê fragmentos inéditos de Os Condenados e A estrela de absinto. Integra o grupo modernista da revista recém criada Klaxon. Os condenados é publicado com capa de Anita Malfatti, pela casa editorial de Monteiro Lobato. Faz conferências em banquetes e lançamentos. Nesta época forma o notório “grupo dos cinco” com Mário de Andrade, Anita, Tarsila do Amaral e Menotti Del Pichia. No fim do ano de 22, Oswald viaja para Europa em dezembro, está com 32 anos. Um mês depois, ganha na justiça a custódia do filho Nonê, que viaja com ele à Europa e começa a estudar na Suiça. Passeia com Tarsila pela Espanha e Portugal e, a partir de março, se instala em Paris.

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BLACK-OUT

Girafas tripulantes
Em pára-quedas
A mão do jaburu
Roda a mulher que chora
O leão dá trezentos mil rugidos
Por minuto
O tigre não é mais fera
Nem borboletas
Nem açucenas
A carne apenas
Das anêmonas
Na espingarda
Do peixe espada
Transcontinental ictiossauro
Lambe o mar
Voa, revoa
A moça enastra
Enforca, empala
À espera eterna
Do Natal

Neste mesmo ano de 1923, Oswald conhece o poeta francês Blaise Cendrars. Lá, profere uma conferência na Sorbonne, intitulada “L’Effort intellectuel du Brèsil contemporain”. Participa de um banquete oferecido pelo embaixador Souza Dantas, com a presença de Sérgio Milliet, Jules Romains, Giraudoux, Lhote, Léger e Supervielle. Já está para concluir seu João Miramar. De volta ao Brasil, em 24, desta vez, recebe o poeta francês com quem trava um intensa amizade. No dia 18 de março, publica o “Manifesto da Poesia Pau Brasil”, na Revista do Brasil. Na companhia de Blaise, Mário de Andrade, Tarsila, Paulo Prado, Goffredo da Silva Telles e René Thiollier, forma a famosa caravana modernista, que excursiona pelas cidades históricas de Minas Gerais, durante a Semana Santa. Memórias sentimentais de João Miramar é publicado, enfim. Também expressa suas divergências em relação a Graça Aranha em artigo no Jornal do Commercio.

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MEA CULPA, LEAR

Na hora do fantasma
Entre corujas
Jocasta soluçou
O palácio de fósforo
Múltiplas janelas
Desmaiou

- Por que calaste os sinos?
Meu filho, filho meu!
- Dei, dei, dei
- Onde puseste os reinos e as vitórias
Que minhas estranha serenidade prometia?
- Era usurpação. Paguei
- Passaste fome?
- Muitas vezes comi as marés de meu cérebro

Em 1925, visita o filho Nonê na Suíça. Volta ao Brasil e à Europa e começa a divulgar o modernismo em entrevistas e conferências. Nesta época, Mário de Andrade escreve o poema ‘Tarsivald’ em homenagem ao casal Oswald e Tarsila. Sai o livro de poemas Pau Brasil, com apoio de Blaise Cendrars, pela editora francesa Au Sens Pareil, com ilustrações de Tarsila e prefácio de Paulo Prado. Retorna ao Brasil mais uma vez e publica o artigo “A poesia Pau Brasil” no qual responde ao ataque feito por Tristão de Athayde, no mesmo jornal. Anuncia sua candidatura à Academia Brasileira de Letras na cadeira de Alberto Faria, porém, não a regulariza. Oficializa o noivado com Tarsila e viaja para França com ela. Encontra mais uma vez com Nonê e partem todos para uma excursão no Oriente Médio.

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ANTENA

Aqui todos bem
E aí?
Pega o coleóptero pentâmetro
Lamelicórneo
Escarabídeo de negro marfim
Quem foi que te pegou?
Tata! É meu!
O bizantino escaravelho.

Ainda em 1926, Oswald recebe o poeta italiano Marinetti em viagem à America do Sul e casa-se enfim com Tarsila do Amaral. No ano seguinte, publica, a Estrela de absinto, com capa de Vitor Brecheret. Escreve crônicas de ataque a Plínio Salgado e Menotti Del Pichia, que eram Integralistas e rompem com os Modernistas. Recebe menção honrosa da Academia Brasileira de Letras pelo livro A estrela de absinto. Em 28, como presente de aniversário, recebe de Tarsila um quadro ao qual resolvem chamar de Abaporu, que em língua Tupi quer dizer “aquele que come”. Também é neste mesmo ano que redige e faz uma leitura do “Manifesto Antropófago” na casa de Mário de Andrade e, funda, com Raul Bopp e Antonio Alcântara Machado a Revista de Antropofagia.

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A FAMÍLIA DO BURRINHO

- Vamos Joseph fugir
- Para onde Maria ir
Joseph (jocoso) – shall go to Jundi-aí ai!
- Depressa! Sela o Mangarito
Vamos com o vento Sul
Onde serei cesariada?
- Não presepe
- Tenho medo da vaca
- Não chores darling (terno) Sweepstake de Deus!
Maria – Caí na ilegalidade
Porque modéstia à parte
Trago uma trindade no ventre
Nesse tempo não havia ainda as irmãs Dione

Algumas palavras de inglês conhecendo
A família sagrada partiu
Sem saudades levar
Para as bandas do mar
Vermelho
Na poeira da madrugada
Cruzou um olival
O escaravelho
- Quantas dracmas serão precisas?
Exclamou o castiço esposo
Para esta viagem em torno da lei do mundo
Estamos no século III ou IV da fundação
De Roma
E só tenho “argent de poche”
- Não vá faltar Joseph
- Na verdade Deus ajuda…
(os ricos)
- Sonhei que os serafins
Estão bordando uma estrela surda
Para Herodes não ver
Quero reis magos
Trenzinho e monjolo
E o retrato de Shirley Temple
Porque o menino vem
Este mundo salvar
O vento distribuía algodão pelos açudes
Joseph espancou o burrinho
E riu
- Belo mundo ele vem salvar!
(Já havia naquele tempo
Pouco leite para os bebês)
- Se faltar numerário
Eu carrego na centena do Mangarito
E dou um viva ao faraó Hitler…
(Antes que ele faça comigo
O Progrom que fez com Moisés)
- Oportunista! gritou uma nuvem
Joseph fingiu que não ouvia
- A vida é um buraco
Enquanto não vier Maria
A socialização
Dos meios de produção
- Besta! gritou um anjo
São José seguiu pensando
Que os anjos geralmente são reacionários
E as nuvens provocadoras

Em 1929, ano da crise econômica americana, Oswald lança a segunda edição da Revista de Antropofagia, sem a participação dos antigos colaboradores, que passam a criticar a revista. Presta uma homenagem ao palhaço Piolim na quarta feiras de cinzas com o apoio da revista. Ao longo do ano, rompe com os amigos Mário de Andrade, Paulo Prado e Antônio de Alcantara Machado. Com a queda da bolsa, sofre algumas perdas financeiras. Recebe a visita de Le Corbusier, Josephine Baker e Herman Keyerling e mantém uma relação amorosa com Patrícia Galvão, Pagu, com quem escreve o diário “O romance da época anarquista, ou Livro das horas de Pagu que são minhas – o romance romântico – 1929-1931″. No fim do ano, termina com Tarsila e se junta com Pagu. Casa-se com ela em compromisso verbal em frente al jazigo da família Andrade no cemitério da Consolação. Quando vem a Rio de Janeiro assistir à posse de Guilherme de Almeida na ABL, é preso pela polícia sob denúncia de querer agredir ao poeta Olegário Mariano.

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ESTRONDAM EM TI A IARAS

Desde Bilac
Somos internacionalistas e portugueses júniors
Gostamos de Camembert, do Nilo, de Frinéia e de Marx
Carvões do mar
Náufragos entre sustos e paisagens
- “I don’ know my elders!”
Desde Gonzaga e desembargadores
Desde a Prosopopéia
Somos brasileiros

Em 1931, Oswald viaja para o Uruguai para conhecer Luis Carlos Prestes, exilado em Montevidéu. Adere ao comunismo. Lança o jornal O Homem do Povo, com Pagu e Queirós Lima e participa da Conferência Regional do Partido Comunista no Rio de Janeiro. Publica Serafim Ponte Grande e ajuda financeiramente a publicação de Parque industrial de Pagu. Em 1934, Participa do Clube dos Pianistas Modernos e passa a viver com a pianista Pilar Ferrer. Publica a peça O homem e o cavalo e lê cenas no Teatro Experiência de Flávio de Carvalho, mas é interditado pela polícia. Apaixona-se por Julieta Bárbara Guerrini, com quem assina um “contrato antenupcial”. Um ano depois, reuniões na casa de Flávio de Carvalho para programar atividades artísticas e culturais. Conhece através de Julieta, Roger Bastide, Giuseppe Ungaretti e Claude Lévi-Strauss.

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BUENA DICHA

Há quatrocentos anos
Desceste do trópico de Capricórnio
Da tábua carbunculosa
Das velas
Que conduziam pelas estrelas negras
O pálido escaravelho
Dos mares
Cada degredado insone incolor
Como o barro

Criarás o mundo
Dos risos alvares
Das colas infecundas
Dos fartos tigres
Semearás ódios insubmissos lado a lado
De ódios frustrados
Evocarás a humanidade, o orvalho e a rima
Nas lianas construirás o palácio termita
E da terra cercada de cerros
Balida de sinceros cincerros
Na lua subirás
Como a tua esperança

O espaço é um cativeiro

Em 1936, casa-se mais uma vez, agora com Julieta Bárbara Guerrini. Juntos, passam dias na fazenda da família de Julieta onde recebe a visita de Jorge Amado. Publica um volume com duas peças, A morta e O Rei da Vela. Publica também a sátira “Um panorama do fascismo”. Participa das atividades da Frente Negra Brasileira proferindo um discurso sobre Castro Alves no Teatro Municipal. Em 38, obtém o registro # 179 do Sindicado dos Jornalistas de São Paulo. Em 39, ingressa no Pen Club, e vai para a Europa com a mulher para representar o Brasil no Congresso Pen Club, porém, volta ao Brasil devido à guerra. Neste ano, tem problemas de saúde e vai para um retiro na estância São Pedro. Em 40, candidata-se a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras e escreve uma carta aos imortais declarando-se para-quedista contra as candidaturas de Menotti Del Pichia e Manuel Bandeira, que acaba sendo eleito.

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COMO UM MOLE TUFÃO

O imperador está com sinusite
No apartamento 522
Aqui d’el rei!
Viveste milênios
Bajulando a sinusite do imperador
Ou no oboé das barricadas
Nunca acrisolaste tua reputação bancária
Nem na Florença dos Medici
Em Bombaim ou Buenos Aires
Dentro daquele copo da China
Como uma flor de coral
Nunca consolidaste tua revolta
Sem atirar de supetão
Nos tiranos desprevenidos
Daí a tua híbrida
Reputação de jogador
Muita gente te amou sem ser amada

Em 1941, Oswald relança o volume Os condenados, agora, dividido em três partes: Alma, A estrela de absinto e A escada. Nesta época encontra-se com Walt Disney que faz visita a São Paulo e monta com seu filho Nonê, um escritório de imóveis. Em 42, publica na Revista Brasil, o texto “Sombra amarela” dedicado a Orson Wells. Participa do VII Salão do Sindicado dos Artistas Plásticos de São Paulo. Separa-se de Julieta e conhece Maria Antonieta D’Alkmin. Um ano depois, publica A revolução melancólica e participa do II Concurso Literário. Em junho deste ano, casa-se com Maria Antonieta e inicia a coluna “Feira das Sextas” no Diário de São Paulo. Também encontra-se com o escritor argentino Oliverio Girondo.

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EPITÁFIO #2

Não terás os carros dos triunfadores
Nem choros de escravos
Porque quiseste libertar os homens
Estacará diante de ti
A máscara da negação
Lutarás com a vida face a face
Sem subterfúgios nem dolo
E ficará e eco de tua queda

Em 1944, Oswald começa a colaborar para o jornal carioca Correio da Manhã. Em maio deste ano, viaja a Belo Horizonte a convite do prefeito Juscelino Kubitschek, para participar da Primeira Feira de Arte Moderna. Faz conferências sobre pintura e algumas são publicadas. Em 45, participa do I Congresso Brasileiro de Escritores e anuncia Prestes com candidato à presidência, também lança o manifesto da Ala Progressista Brasileira. Porém, discorda da linha política de Prestes e rompe com o Partido Comunista. Recebe o poeta Pablo Neruda e nasce sua filha Antonieta Marília de Oswald de Andrade.

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ERRO DE PORTUGUES

Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português

Em 46, participa das homenagens póstumas a Mario de Andrade e discursa no Centro Acadêmico XI de Agosto em homenagem a Gilberto Freyre. Publica o texto “Mensagem ao Antropófago desconhecido (da França Antártica)”. No ano seguinte, publica O escaravelho de ouro dedicado à sua filha. Perde a eleição para delegado da Associação Brasileira de Escritores e se desliga da entidade. Em 48 nasce seu quarto filho Paulo Marcos Alkmin de Andrade e participa do Primeiro Congresso de Poesia no qual discursa criticando a “geração de 45″ ressaltando as conquista de 22.

Daquele jeito em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

MENSAGEM POÉTICA AO POVO BRASILEIRO

HIP HIP HOOVER!

América do Sul
América do Sol
América do Sal
Do Oceano
Abre a jóia de tuas abras
Guanabara
Para receber os canhões do Utah
Onde vem o Presidente Eleito
Da Grande Democracia Americana
Comboiado no ar
Pelo vôo dos aeroplanos
E por todos os passarinhos
Do Brasil

As corporações
Essas já saíram para as ruas
Na ânsia
De o ver
Hoover!
E este país ficou que nem antes da descoberta
Sem nem um gatuno em casa
Para o ver
Hoover!

Mas que mania
A polícia persegue os operários
Até nesse dia
Em que eles só querem
O ver
Hoover!

Pode ser que a Argentina
Tenha mais farofa na Liga das Nações
Mais crédito nos bancos
Tangos mais cotubas
Pode ser

Mas digam com sinceridade
Quem foi o povo que recebeu melhor
O Presidente Americano
Porque, seu Hoover, o brasileiro é um povo de sentimento
E o senhor sabe que o sentimento é tudo na vida
Toque!

Em 1949, Oswald profere uma conferência no Museu de Arte Moderna, onde fala sobre “As novas dimensões da poesia”. Recebe em julho deste ano Albert Camus em visita ao Brasil e faz com ela uma excursão a Iguape afim de assitir as festas do Divino, relatadas por Camus em “Journaux de Voyage”. A visita termina com uma “feijoada antropofágica” em sua residência. Em 1950, comemora seus sessenta anos e o Jubileu de “Pau Brasil” com um banquete “antropofágico” no Automóvel Club de São Paulo. Lá é homenageado por Sérgio Milliet. Escreve o artigo “Sexagenário não, mas Sex-appeal-genário” para A Manhã. As conferências sobre antropofagia são constantes e Oswald se candidata a deputado federal pelo Partido Republicano Trabalhista com o lema Pão-teto-roupa-saúde-instrução-liberdade.

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GLORIOSO DESTINO DO CAFÉ
para o Germinal Feijó

Pequena árvore
Cheia de xícaras
Te dei
Adubo
Trato
Colono
Céu azul
E tu deste
A safra
Dos meus anos fazendeiros

Depois deste
O desastre
E de borco no chão
Me recusei
A achar desgraçados os meus dias
Senti que como tu
Pequena árvore
Milhões de homens de minha terra
Haviam sido queimados
Decepados dos seus troncos
Para que se salvasse
Sobre a miséria de muitos
O interesse dos imperialismos
E se apaziguasse a gula
De seus sequazes tempestuosos
E deste
Em xícaras
O travo da tua cor madura
Senti no teu calor
Aquecido nos fogareiros pobres
O rubi da revolução

E como muitos me armei
Cavaleiro de ferro
Nos lençóis rasgados
Ds cortiços
E nas praças tumultuosas
E como tu pequena árvore debordada
Debordado do latifúndio
Saí ao encalço da felicidade da terra

Em 1951, Oswald entrega a Cassiano Ricardo um projeto escrito a propósito da reforma de base anunciada por Getúlio Vargas e propõe a organização de um Departamento Nacional de Cultura. Começam as dificuldades financeiras. Em 52, republica o Manifesto da Poesia Pau Brasil no jornal A Manhã. Começa a escrever tratados sobre antropofagia, ensaios, anotações. É internado na clínica São Vicente no Rio de Janeiro. Em 1953, participa do júri pelo Salão das Letras e Artes Carmen Dolores Barbosa e dirige saudação a José Lins do Rego. Sofre nova intervenção hospitalar no Rio de Janeiro. No fim do ano, por problemas financeiros, tenta vender sua coleção de telas estrageiras para o MAM do Rio, e os quadros nacionais para Niomar Muniz.

Jorge Mautner em http://cartilhadepoesia.wordpress.com

O MACAQUINHO E A SENHORA

Um dia uma senhora
De rico parecer
Entrou num velho parque
A fim de espairecer

Olhou todas as flores
Era na Primavera
E pensou nos amores
Pois linda e moça ela era

Eis quando numa gaiola
Depara subitamente
Com feio e pelado bicho
O pobre Macaco Clemente

Vendo-a o filho de Deus
Sorri e se coça todo
Pula gira rodopia
Enfia a cabeça no lodo

Depois trepa, guincha, grita
E pinta o sete e o caneco
Ri-se, assovia, namora
E põe tudo em cacareco

A rica senhora sorri
Pra tal manifestação
Mas ao amor do macaco
Gelado é o seu coração

Desolado, cabisbaixo
Reflete o pobre Clemente
- Assim é a lei inflexível
Do meu destino inclemente!

Meses depois, a senhora
Das sedas e dos brilhantes
Regressa a jardim perdido
Mas não volta como dantes

Na cidade em que vivia
Rebentou a revolução
E o seu querido partiu
À frente de um batalhão

Uma manhã ela viu
O belo amante enforcado
Só a graça e a riqueza
Lhe restou do ano passado

Ávida, ei-la que procura
O triste do macaquinho
Pra ver se ele inda se lembra
Como ficou perdidinho

Mas o Clemente não liga
Às jóias, à seda, ao porte
Da grande e linda senhora.
É assim que muda a sorte!

Põe-se numa gostosa fruta
Preocupado a descascar
Enquanto ela dolorida
Procura o interessar

Moral

Inútil, minha senhora,
Seu macaquinho perdeu
Não troca ele uma banana
Por perfil de camafeu

Tarsila, bela Tarsila
Não vá entornar o caldo
Não perca tempo não perca
Case-se logo com o Oswaldo.

Em 1954, Oswald prepara-se para ministrar um curso de Estudos Brasileiros da Universidade de Upsala, na Suécia, altera a programação para o curso ser dado em Genebra, mas jamais faz essa viagem, pois é internado no hospital Santa Edwiges e escreve o caderno “Livro da convalescença” que é lido por Di Cavalcanto no Encontro de Intelectuais, no Rio de Janeiro. Sofre uma intervenção cirúrgica no Hospital das Clínicas. Faz mais uma conferência e é homenageado no Congresso Internacional de Escritores realizado em São Paulo. Seu reingresso nos quadros da Associação Brasileira de Escritores é aprovado. Em outubro deste ano de 54, Oswald de Andrade é internado e falece no dia 22 sendo sepultado no jazigo da família no cemitério da Consolação. Assim terminamos mais uma antologia. Semana que vem, outro universo poético, outras proposições, outros poemas, outras ideia de poesia.

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PEITINHOS
(poema da era pré-freudiana)

Seu Bonifácio gostava muito de comungar
E como ficava com o estômago fraco
Ia depois tomar café em casa de Dona Sarah
Que era em frente da Igreja

Numa manhã Dona Sarah apareceu com uma blusa de
rendas sobre o corpo sem camisa

Seu Bonifácio quando chegou
Na hora da morte
Aos 78 anos
Comungou pela última vez
Delirando
Com os peitinhos nus de Dona Sarah

agosto 3, 2011

Jorge Mautner

 

Henrique George Mautner nasceu no Rio de Janeiro no dia 17 de janeiro de 1941, filho de Paul Mautner e Anna Illichi. De acordo com sua mãe, George nasceu às 9 horas da noite, na hora em que abria o Cassino da Urca. Sua mãe era origem iugoslava e católica, ao passo que seu pai, era judeu austríaco. O menino nasceu pouco tempo depois de seus pais desembarcarem no Brasil fugindo do holocausto, do nazismo. Neste mês, percorreremos a poesia deste notável artista brasileiro. Sua relação com o Tropicalismo, com a música, com a prosa e, sobretudo, com a poesia brasileira. Evoé!

Segurando a pipa amarela em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

POEMA V

E houve um estranho amor
que quase me custou a vida
e que hoje me crucifica
e que na verdade
me tortura, ah! romântico!
A lua brilhava que nem prata
em cima da praia de novo
e eu andava sozinho
com meus velhos blue-jeans
e o meu Brasil
como eu te amo Brasil!
Sofria a fome e os pescadores e trabalhadores
e criancinhas esperam um dia melhor
quando a bandeira vermelha
for nossa bandeira pelo céu
azul e cinza chuvoso dessa terra
maravilhosa e triste
e nós os tristes, os deslocados,
os que são vermelhos por causa do sngue do
coração e da paixão lutaremos por isto!
Mas deixa viver com minha saudade
em meu peito!
Ela é minha!
É coitadinha
é a única coisa que tenho
(pois não tenho amor)
e ela é vermelha
como a bandeira que nos une!
É porque tudo isto é
o sangue, a paixão,
o amor.
Palavra linda! Quase sacra.
O sol nasce por aí
e o mar se ilumina
e o calor produz a febre
e a febre me faz escrever
inventar cantar lutar!
Luto no amor e na vida.
Ah! Os rocks dão-me forças
tenho uma espada na mão que não vejo
mas meu peito tem um coração
que tem FÉ que encontrei
depois de muito tempo perdida.
Eu e meus companheiros
vamos marchar por aí.
É o que resta.
Estandarte do Kaos!
Marxismo existencial!
Coisa nova!
Viva o mundo
o sangue vai correr
do nosso coração
ela já escorre!

Seu pai, Paul Mautner, era um homem extremamente culto. Quando veio ao Brasil, Paul se tornou logo simpatizante de Getúlio Vargas e começou a trabalhar com a comunicação da agência de resistência judaica anti-nazista. Um ano depois, em 42, um choque: Sua irmã, Susana Mautner, não consegue vir da Áustria para o Brasil para se juntar aos pais, fato este que marca muito sua mãe, Anna Illich, que passa a sofrer de uma paralisia nas mãos. O pequeno Jorge, então George, passa a ser educado pela sua babá, Lúcia, que era Yalorixá. Lúcia passa a levar o menino para terreiros de candomblé, onda há uma natural familiarização com o batuque.

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ECOLOGIA

a ecologia
se chamava um dia
deusa harmonia
e era a filosofia
doa gregos e de todos os eternos astronautas
que somos todos nós jamais a sós com todas nossas faltas
só os sonhadores
vivem os grandes amores
ciência e paciência
viva a coexistência!

hoje em dia
a ideologia
do terror
morreu de puro amor
e da morte dela nascem sem parar tão lindos frutos
novas ideologias todos os dias a cada três minutos
coisas muito jóias
Sem as paranóias
e sem radicalismo
ou totalitarismo

ó coração
por que razão
choras e choras
se a revolução
brasileira é multi-racial super original
só nossa como o samba e a palhoça e este carnaval
ela é nossa
como a bossa
o luar de prata
e ela é bem mulata!

e a soja
que é a comida
e a própria vida
que nós daremos
pra boca de uma faminta superpopulação que vai pintar aí
pra boca da superpopulação terrestre que vem aí
essa a missão sagrada do país em que nasci
e acabar com o tédio
do primeiro mundo
e dar o remédio
que é este negro batuque tão profundo

Em 1948, quando tinha seis anos, Mautner presencia a separação dos pais. O menino fica com a mãe, Anna Illich, que se casa, então, com Henri Muller, um violinista, e se muda para São Paulo. Mautner foi junto. O contato com seu pai e com a babá Lúcia se perde, ambos continuam a viver no Rio de Janeiro. Henri Muller, que se torna o primeiro violino da Orquestra Sinfônica de São Paulo, tem papel fundamental na vida do jovem George Mautner, quando ensina-o a tocar o instrumento, e assim, Mautner descobre o violino. Seu padrasto, além da orquestra, também faz pequenos trabalhos, ou “bicos”, participando de programas da Rádio Nacional, e nesse tempo, o menino tem a oportunidade de conviver entre grandes artistas da rádio, como Aracy de Almeida, Nelson Gonçalves, BlackOut, Jorge Veiga, Tonico e Tinoco, Elizeth Cardoso, Inezita Barroso, Marlene, Emilinha Borba e muitos outros.

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DESAFIO E DESAFIO
(trecho)

No infinito-finito universo einstaniano
Ou na afro-indígena vertigem da cultura da suprema doçura
Da negritude de todo território americano
Mas ainda tenho fome
Daquilo que não tem nome
Às vezes a poesia para
Para ser mais odara
Mesmo quando se afunda
Arranha céus
Arranha véus
E a peleja de Deus com o diabo
Eu a vejo como réu
Como coisa de outro estado
Que não o estado em que você tem estado
Mas aquele
Apenas aquele
Que foi conquistado
Violões acústicos
São corações tão rústicos

Em 1950, Mautner vai estudar no Colégio Dante Alighieri, em São Paulo, e lá conhece duas figuras que se tornariam, além de grandes amigos, personagens de seus livros: Arthur de Mello Guimarães e José Roberto Aguilar. Este segundo, disse uma vez que “a minha primeira impressão dele, pelo que me lembro, era que, na terceira série ginasial, ele era um CDF. Tinha um paletó de lã de camelo ou sei lá, e era muito discreto, mas no recreio tocava samba, e isso meio que congregava as pessoas. Eu me lembro de ter visto isso e pensado: “puxa, até que esse cara não é tão certinho quanto eu imaginava”. Basicamente ele era uma pessoa muito isolada da classe. Sei lá, você chega numa classe e sempre tem alguma coisa pra falar…aquela identificação imediata entre todo mundo. Mas o Mautner não: ele era um estrangeiro.”

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CANTO I

Sinto que sou alguém
Que para remediar a dor de cotovelo
Escreveu tudo isso pro nada e pro ninguém
E só queria era estar beijando teu cabelo

Tudo que eu desejo e quero
É habitar com você e mesma paisagem
Onde se houve rock-samba-bolero
E vive-se rindo, só rindo, falando bobagem
Penso nos meus planos tão insanos
A programar minhas atividades
Cantaríamos e nos gostaríamos todos os dias dos anos
Até o infinito da embriagues das eternidades

A eternidade fica onde desejamos
Que ela fique como sendo a realidade
É só querer e nos amamos e nos chupamos
Sendo que é isso que eu entendo por única e absoluta felicidade

Teus olhos são poços
Onde quero pescar a finíssima truta
Quero pescar esse peixe, me deixe! Roer teus ossos
E teus nervos e tua medula como uma fruta!

Os sons do teu violão ecoam
E estremecem as luzes da cidade
Eles são como mantras e koans
E cheios de coisas freios e eletricidade

Perfuro o ventre da escuridão
Onde as coisas se escondem
Porque estão cheias de sim e de não e de confusão
E quando pergunto sobre qualquer assunto nunca respondem

São como coisas presas ao labirinto
Com algemas nos pulsos e tudo
São cinco pras cinco e eu já me sinto
Dentro do seu não e de um caixão de veludo

Toca teu samba, toca
E tortura meu ser com prazer de ser
A tortura como aquela coisa que nos choca
Onde a alegria me enganava se dizendo a alegria do não Ter

Não ter o quê?
Ora, tá na cara
Não ter é não ter você
Seja como grilo, ou seja odara

Luas de prata conseguem
Fazer com que lentamente
As sensações das emoções naveguem
E invadam como as fadas minha mente

Doem-me todas as cicatrizes
E sinto as rugas das verrugas
Sei que és como atores e atrizes
E que sempre atacas quem te quer por em fugas

Tocas então mil serenatas
E antigas cantigas e rondós
Depois mijas no chão como os cães vira latas
E ficas falando de ti quando estamos a sós

É por isso que sinto todos estes e aquelas
Dores incolores e na garganta como nós
Nem as cores de óleos, hologramas ou aquarelas
Poderiam expressar tão bem quanto esses meus ós, ós, ós!

Estou muito sozinho
Na realidade agora
Falta o seu carinho
E a hora da aurora de quem namora

Gostaria de fazer poesia sem rima
E finalizar por aqui
Mas não consigo deixar de pensar no verso acima
Que sem rima não me deixa dormir

Queria naufragar te beijando
Mas sei que é possível
Por que e até quando
Será meu destino tão horrível?

Desprezaste e usaste todos o meu ser
Agora cansado me viro pro lado
E calado nem consigo ir pro meu eu antigo e morrer
É tudo como se fosse uma visão – suplício – calculado

As barras da minha prisão
São feitas de chocolate
E dentro do meu coraçÃo
Tem um órgão que bate, bate

Que energia é essa
Que não tem pressa nem vai a lugar nenhum?
Que sempre é esse promessa que recomeça
Mesmo quando o jogo é fogo e está um a um?

Eis que vem do além o trem do abismo
É uma questão de vida ou de morte
Pessimismo ou otimismo?
Ou simplesmente, democraticamente, alta falta de sorte?

Ainda sobre este período no início da adolescência, José Roberto Aguilar diz que “O que eu lembro mesmo da época em que conheci o Mautner é desse universo absolutamente mítico. Você entrava na casa dele – que era na rua Itapeva, 187 – e de repente se encontrava num espaço absolutamente diferente, apartado do mundo [...] De vez em quando o Paul (Mautner, pai de Jorge), dava aulas de física quântica, ou então a gente ficava lendo a História da Civilização Ocidental do Bertrand Russel ou os pré-Socráticos. Eram altas aventuras. Por exemplo: ler textos de Somerset Maughan, Hemingway, Faulkner, Kafka, Dostoiévski, era uma aventura absoluta que se abria [...] Esse contexto é muito importante, todo mundo naquela casa contava histórias em nível mítico. O Jorge e a convivência com a babá negra, por exemplo, é uma narrativa mítica.”

Tradução que fiz de Lautréamont em http://pedrolago.blogspot.com

CANTO III

Sinfonia ligeira
Não chega ao fim
Queira ou não queira
Eu sou é assim

Te dei meu corpo
Te dei minha pele
Mesmo depois de morto
Essa força me impede

Força dos grandes destinos
Que estão muito além
Dos hinos e dos sinos
E do aum e/ou do om e do amém

Mas te amo, te amo, te amo
Como nunca se amou na Terra
Nem no Brasil, no Vietnã ou no oceano
Nem na China nem na Inglaterra

Monstro dourado
De amor e dengue
Sou eternamente gamado
Nestes quadris que dançam merengue

Fico feliz
Quando tu chegas
És a matriz
Das minhas horas mais negras

De onde tu vens?
De onde? De onde?
Será que tu és quem tens
O ouro do conde?

Falo bobagem
Começo a ser fragmento
A grande chantagem
É a morte a todo momento

Em 1956, Jorge Mautner começa a escrever sua primeira grande obra: O Deus da Chuva e da Morte. No ano seguinte, nasce sua irmã, Jane Liliane Muller, filha de Ana com Henri Muller. Mas é em 1958, que sua vida literária tem seu primeiro momento, quando, aos 18 anos, tem pela primeira vez seu texto publicado numa revista. Descoberto por Paulo Bonfim, Jorge é comentado no #13 da revista filosófica Diálogo, dirigida por Vicente Ferreira da Silva. Neste mesmo ano, começa suas composições musicais como Iluminação, Olhar Bestial, O Vampiro e outras. Neste ano, também, começa a praticar tai-chi chuan.

Bolero em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

CANTO IX

Nosso amor, esta ilusão
Está encerrado e frio
Acolchoado no colchão
E ainda assim eu me rio

Gozo às vezes e poso
De ser acima do Bem e do Mal
Mas quando convém me entroso
Sou mais sincero que o real do real

Cabelos cacheados
Cabelos lindos
Cabelos revoltados
São fios de antenas tinindo

Açucar doce
Café amargo
Antes eu me fosse
Mas não vou pois não me largo

Pois mesmo o calafrio é
Também tesão afeto
Quer tomar café?
É meu divertimento predileto

Esta cena é ambulante
Como um cigarro e assim eu brinco
No sarro em que te amarro que é amante e apaixonante
E com o qual, bem ou mal, eu brinco

A maçaneta
Não é o trinco
Assim como a corneta
Toca às cinco pras cinco

Te amo no poste
Ou na banheira
Quero você goste
Ou não goste, como queira

Manda ver o chicote
A noite inteira
Depois quero que você me bote
Na minha boca tua língua inteira

Em 1962, Jorge Mautner (agora, enfim, Jorge), publica seu primeiro livro: O Deus da Chuva e da Morte, editado pela Martins Fontes e recebe o Prêmio Jabuti de Literatura. O livro segue uma narrativa simples, porém, intensa e recebe ótimo elogios. Paulo Bonfim disse que “este é um livro diferente. Em suas páginas o leitor encontrará a mensagem genial de um moço de dezenove anos [...] não conhecemos em nossa literatura documento tão impressionante sobre a angústia, o amor e a morte de uma geração tragicamente solitária e incompreendida”. Caetano Veloso aponta que “Jorge Mautner começou a escrevê-lo em sua adolescência, nos anos cinquenta, quando por aqui se cristalizavam as experiências da construção de Brasília, da poesia concreta e da bossa nova, e, nos Estados Unidos, a da literatura beatnik”. E assim Mautner apareceu.

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SANSÃO E DALILA

Sansão e Dalila
A canção que repercute, dali lá
Escute, vê se entendes meus prantos
Ó Ruth caligut Mendes dos Santos

Flechas como os pigmeus
Feitas de segredos meus
Para corações ateus
E para os crentes do divino Deus

Flechas saem do meu coração
Não sei pra onde elas vão
Só sei que às vezes elas vem
Bater el alguém sem coração

Depende só da ocasião
Umas flechas que só vem
Outras flechas que só vão
O porque disso aí
Justamente não sei não
Juro que… não!

Elas vem envenenadas
De coisas apaixonadas
Que o bruxo do amor que eu sou
Com carinho preparou

Outro dia numa oração
Flecharam a cruz da emoção
No altar cheio de luz
De Nossa Senhora da Conceição

Um dia numa ocasião
Mil flechas em profusão
Atingiram um espelho
Aí se deu a confusão

Me apaixonei só por mim mesmo
Num egoísmo muito vesgo
(num egoísmo tão a esmo)
Mas agora não
Sei bem o que é essa boba ilusão

Outra vez num quarto escuro
Voaram setas pro futuro
Furando aquele longo muro
Que aprisiona a solidão

Flechas que saíram em fila
Num filme que pra ver eu fiz fila
Do coração de Dalila pro coração de Sansão

Com o Brasil em ebulição e após a publicação e o sucesso de ‘Deus de da Chuva de da Morte’, Mautner funda o Partido do Kaos, porém, logo adere ao Partido Comunista e é prontamente convidado pelo professor Mario Schenberg para participar junto com o José Roberto Aguilar de uma célula cultural no Comitê Central. Em 1963, mantém uma coluna diária intitulada Bilhetes do Kaos, no jornal Última Hora, até o dia do Golpe Militar. Comenta sua visão de mundo baseada no “sexo, sangue e futebol”. Logo depois, publica, Kaos, seu segundo livro, com orelha de José Roberto Aguilar. Tinha já seus vinte e um anos e pretendia escrever uma trilogia, começando com o ‘Deus…”, depois com Kaos. “O Partido do Kaos existe no coração de todos”.

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POEMA I & II

I

salve minha linda palmeira brasileira
Que vive prisioneira
Por entre os quatro cantos do prédio da cidade
Nasceu como pequena semente
No ponto mais quente
Do nosso país continental tropical
Veio morar por aqui
No subúrbio desta Capital
E apesar de toda poluição infernal
Vive como antigamente
A irradiar ondas redondas serenamente
Como se fosse tudo natural
É com grande amizade
Que nos comunicamos e amamos de verdade
Eu do reino animal
Ela do reino vegetal
Nós dois, pois, do superimpério democrático social

II

João Alfredo muito cedo partiu pro vigésimo nono andar
Sem medo
Sem anel de bacharel no dedo
Subiu-partiu para o ar frio das vidraças cheias de poluição
Fumaça-prédio-limpar
Foi com a pureza de uma criança
Para trabalhar pendurado (coitado!) quase no ar
No bolso levava um sanduíche de banana com salame
Podia Ter morrido de velho como o lulú ou o totó da madame
Mas morreu como uma pomba
Que tomba embriagada de uma festa de arromba e que se esqueceu de voar
Caiu lá de cima do carro de feira do feirante imigrante Manoel
Veio como um espantalho para o céu
Ao lado do alho, da cebola e do bugalho
Mais um acidente de trabalho

Tanto ‘Deus da Chuva…’ quanto ‘Kaos’ causaram muita impressão nos jovens, sobretudo de São Paulo. Houve um certo movimento intelectual, conhecer Mautner se tornou uma coisa incrivelmente alternativa e exclusiva. Uma espécie de “cult”, ou algo parecido. As críticas forma bem divididas e causaram polêmica. Mautner dizia que: “Nego-me a responder perguntas sobre estilo ou forma. Considero-as estéreis, e o que vale é a força do indivíduo: se minha obra tem valor, ela repercutirá, e isto é o que vale, já disse: não sou parnasiano imbecil burilador. Mas algo eu digo: esta força que minha obra tem, esta repercussão nos espíritos jovens e revoltados que ela encontra é o que vale, e um dia meus inimigos engolirão com sangue minhas respostas finais”.

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AMORA

Sou o pai que te adora
Ó doce filhinha Amora
Só quero que você me escute
Ó cigana rainha Ruth

Nosso amor assassinado e milhões de vezes ressuscitado
É quem me dá certeza na eternidade do que foi testemunhado
Quase dois mil anos atrás
Por um alguém
Que morreu e ressuscitou
Perto de Jerusalém

1964. Golpe Militar. Jorge Mautner é preso e enviado para Barretos. Segundo o Exército, sua prisão seria “uma forma de proteção contra as organizações pára-militares”, que poderiam vitimá-lo por seu envolvimento com o ideário comunista. É solto sob a condição de se “expressar mais cuidadosamente em suas futuras obras”. No ano seguinte, publica a terceira parte da Trilogia do Kaos, com o livro ‘Narciso em Tarde Cinza’. Publica também ‘O Vigarista Jorge’, pela editora Von Schmidt, com prefácio de Mário Schenberg. Embora pareça, o livro não é autobiográfico, mesmo com discurso político provocador com o personagem principal de nome ‘Jorge’. Na música, lança os compactos das música de protesto ‘Radioatividade’; ‘Não, não, não’ e também os conjunto ‘Os Seis – Suicida Apocalipse’ como uma prévia d’Os Mutantes.

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ANTENAS

O artista cisma
Que é marginal
Mas não sabe
Que o que lhe cabe
É o maior problema
De ser um Mandarim do sistema
Líder antena
Igual
Talvez abaixo (eu acho)
Apenas do cientista
Na verdade lista
De importância
Na sociedade da suprema ânsia
De ganâcia e extravagância
Onde o cruel é o mel e a fragrância
E o terrível já começa na infância
O bebê nasce no hospital onde tem uma ambulância
E a multidão te viu
Na Tevê
Que te vê
E te viu
Na Ti, Vi
Que é Tevê
Em inglês
Que todos nós
A esmo
Mesmo na escassez
Se vê, não vê?
E que de antevê
E te fez tudo saber
Ainda como bebê
Ou até mesmo antes de nascer
Sem saber raciocinar
Ou aquela coisa
De escrever e ler

Em 1966, Jorge foi incluído na Lei de Segurança Nacional por causa do conteúdo provocador do livro ‘O Vigarista Jorge’ e das letras do Compacto. A situação ficou bem difícil no Brasil, então, Jorge se exilou nos Estados Unidos. Lá começou a trabalhar na UNESCO. Porém, para ganhar um dinheiro extra, Jorge traduzia livros brasileiros para o inglês e dava palestras sobre os mesmos para a Sociedade Interamericana de Literatura, que ficava na Park Avenue, no mesmo prédio onde havia sido a Embaixada Soviética. Recebia 20 dólares por livro e traduziu muitas obras.

A primeira bailarina do Municipal em http://equivocos-pedrolago.blogdpot.com

MOVIMENTO UNIVERSALISTA DO KAOS

O partido do Kaos com k
É o mais querido
O que é que há?
É Kaos com k. KK! Colorido destemido

Vai nascer
E já nasceu
Vai ser o ser
Do ABC do plá do anjo e do Zebedeu

Vai brotar nas águas
Como Vênus-Afrodite
Ou Iemanjá e levar as mágoas
De quem como eu é como o povo e como a elite

Estamos iniciando
O movimento que tal, em paz
Amamos e estamos amando
Todo o tempo do tempo e o mal, aliás, jaz no jamais

E no espaço e no vento
Nos ciclones e vendavais
Eu sou o aço do abraço e o documento
Dos nomes e fomes e se és dos homens e lobisomens e dos etcétera e tais

Movimento Universalista
Do Kaos com k
É o movimento no universo sensualista
Do Tao e do som de eon do balafon e do elétron no tom do bom e do plá do plá

É como a canção
Do Jackson do Pandeiro
É o Rei Momo e o não da emoção
O dõ do kendô do Aikido do amor de Xangô e do verdadeiro brasileiro

Universal
E nacionalista de um neo-nacionalismo
Tolerante e democrático social-existencial-global-sensual
E futurista-realista-surrealista de um mel de humanismo

Mistura fina
De cultura pagã
E aventura-doçura-procura-latina
De cura e de anti-linha dura de qualquer ditadura sã e super saudável

Em 1967 Jorge é convidado para participar do Simpósio Interamericano em Caracas, na Venezuela. Lá conhece e já começa a trabalhar como secretário literário do escritor americano Robert Lowell. Conhece também o teólogo da nova-esquerda do anarquismo pacifista, Paul Goodman, de quem recebe as maiores influências sobre ecologia. Compõe duas músicas com a cantora de jazz Carla Bay. Segue a vida para o ano de 1968, quando volta para o Brasil para receber o Greencard e conhece Ruth Mendes, com que viveria futuramente. Ajuda a fazer o roteiro do filme ‘Jardim de Guerra’ de Neville D’Almeida. O filme é duramente censurado pela Ditadura Militar. Um grande viagem estaria por vir.

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RAIOS DE AMOR

Amor é relâmpago mútuo
Por que será que só eu
Quando todo mundo da luz se esqueceu
Sou um raio que é penugem
Me levanto da nuvem e caio
Com vertigem na penugem
Me levanto da nuvem e caio
Com vertigem na folia
Sou a tua tempestade?
Sou como cavalo baio em pleno céu azul de maio
Com a força da maldade da saudade?
Se nosso amor está de luto
É só por causa da tua vontade
Se você quiser em menos de um minuto
Existirá o ah ah ah da alegria do meio dia
Da harmonia da eterna eternidade
Com total perenidade
E imensa felicidade
Eu sempre te escuto
Mesmo quando você está ausente no presente
Dentro ou fora dos esconderijos da cidade
É como a fumaça que passa e sai e se vai de um charuto
Que some e se consome e que tem o nome de felicidade
É como a bola que eu chuto
Com atletismo e num gol de máxima penalidade
Mesmo assim por teu amor e por você eu luto
Com toda a minha capacidade
O que eu sonho eu executo
Espero que assim você goste de mim
Como eu cujo amor atômico
E eletrônico é igual ao rugir
E crescer e surgir e nascer
De toda uma nova humana humanidade
Que se ama com sincera sinceridade
Como se fosse a eterna e doce primavera
Que sopra na copa de todos os coqueiros
E nos tambores de todas as cores
Flores e amores de nossos e vossos terreiros
Brasileiros da nova religiosidade
Que é a grande novidade
Com toda honestidade
Dos tempos atuais
Dos mais iluminados astrais
Que vem pra cima de nós e de vós
E de sei lá mais quem
Como o mais puro eterno futuro riso do neném
E da força do amém e da luz de Jesus lá no além da insanidade
De paixão no coração de velocidade
Para ela que caminha na velocidade da luz
Que tem todas as cores
E é invisível
É tudo ação e são maravilhas e horrores
Tudo é terrível e incrível
E nunca jamais o samba-jazz
A guerra e a paz ou os vampiros em seus retiros
Não tem história contada
Nem sabida ou conhecida ou considerada
Mas existe como toda coisa triste
E como toda lebre que corre vida afora
Toda hora bem alegre
Pois é acima do Bem e do Mal
Num espaço maluco onde ao mesmo tempo
De uma só vez o bem tem que vencer o Mal
No fim do fim enfim e assim sim afinal
Pois assim o quis
O quer e quererá
Aquele cujo nome não se diz
Nem ninguém nunca saberá
Pois já no tempo do Faraó
Passando por Jó e até o Bozó
Tudo é tudo e nada é nada numa coisa só
Até que surgisse
Alguém que disse:
“Misturando água com pó
Eu farei alguém que não tenha nem dó
Nem piedade
E a este ser não ser sequer darei o nome
De toda fome ciclone e no fim de mim
Sairão uma mulher e um “home”
Só por pura loucura divina
Que rima
É o que nos conta
Informação-explosão
Que deixa minha alma sem calma e tonta tanta
É a recente
E mais consciente
Mensagem
Que pode parecer bobagem
Mas vem provada com paciência
Pela nossa super-ciência
Da atualidade
Será que é mesmo?
Vive-se a esmo?
Que fatalidade!
E os problemas demográficos?
E os temas geográficos?
Tudo no fundo é imundo
Tudo cenas de cinema
Teatro ou tragi-comédia
Em Caixas ou em Ipanema
Mas o que mais importa
É que a grande porta
É a estrada da batucada morena
Que abriu uma avenida pelos céus celestiais
Nos guia como a melodia do uivo de uma hiena
O riso de um chacal
A voz da namorada pequena
E o tom do cantor de sambas e muamba tropical
Assim caminhamos
E trabalhamos e nos odiamos e amamos
Nada mal, como ponto final, etcétera e tal
O etcétera
E o idem-ipsa-ípsilon
Teve tem e terá
Tudo isso está e o todo é o um
O um menos dois
Igual a um
Quatro mais cinco = 1941

Em 1970, Mautner viaja para Londres onde estão, exilados, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Se aproximam. Lá, dirige e participa do filme ‘O Demiurgo’ na casa de seu amigo Arthur de Mello Guimarães com participação de Caetano, Gil, José Roberto Aguilar, Péricles Cavalcanti, Leilah Assunção. O filme é censurado para exposição pública, então, Jorge passa a exibí-lo após seus show ao público. Gkauber Rocha declara que o filme é o melhor “do” e “sobre” o exílio. Jorge volta ao Brasil e para a escrever para o Pasquim. E é por essa época que Jorge conhece uma figura que se tornaria seu grande amigo e parceiro musical: Nelson Jacobina.

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PISAM TEU SOLO

pisam teu solo
e te descubro coberta de tabus
paralelepípedos
encobrem a nudez
que a mãe terra te deixou,
sentindo o recato (falso)
que te enlaça
te estraga
te amordaça,
não te deixando fluir
nem mostrar aos chegantes
despencados
desgarrados,
oâmago de você

Pobre princesa minha
Aprisionada.

Em 1972, Mautner lança o LP Para Iluminar a Cidade e o compacto Planeta dos Macacos, pelo selo Pirata. O disco é lançado por um preço abaixo do mercado e é boicotado pelas lojas. O selo some. Começa uma série de shows em penitenciárias e na Casa da Palmeiras, de Nise da Silveira. No ano seguinte publica Fragmentos de Sabonete e participa de uma comemoração patrocinada pela ONU pelos direitos humanos onde foi criado o Território Livre, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro no notório show O Banquete dos Mendigos, com a participação de muitos artistas. Em 74, lança o LP Jorge Mautner, com participação e direção musical de Gilberto Gil. É dispensado d’O Pasquim como parte do movimento anti-baiano do jornal, se revolta, e sai atacando grande nomes como Millor Fernandes e outros.

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GAMO O GAMAR

Amo o amar
Só adianta
Quem canta
E se espanta e espanta
A besteira que é tanta
Vamos aprender a amar
O nosso lar e lar e mar e dar e amar e estar
Jamais aprisionar e subjugar-controlar-manipular
Mas sim, aliás, se emocionar com o Brás
Com a onça e toda a nossa bossa e tudo que se possa
Na nossa joça ser algo que adoça e que coça
E remoça pois é nossa como a carroça e a palhoça
E a roça e a onça de novo com toda geringonça
E a nossa anta capivara
E arara e curupira que pira
E Saci-Pererê e você e toda planta
Que tem tanta
E tudo mesmo que é mudo
É coisa santa quando canta
E isso é isso e só isso adianta
E viu e sentiu a farra no Farol da Barra
E a festa da raça multidão como floresta na praça
Todo sutil significado de país de céu de anil
Momento fugaz num zás-trás
A alma secreta e repleta de tão completa do Brasil
Da selva sem fim até o mar por onde deságua o grande rio
Quente atmosfera
Sente átomos na esfera
Da gente quando era
Mais filho que avô
Mais direto que fingidor
Objeto direto, direto na dor
Passatempo predileto era curtir naquele tempo
Com vento lento tormento do ciúme
Estrume e talvez simples costume
Do amor sem destino
Sem meta só desatino
Salada completa
Mas nada recordo
Só essa madrugada é predileta
Como a grana do bacana na carteira
Como o trono da coroa do décimo nono Rei Momo
E que durante o ano era mordomo
Levou cano no cotidiano
Se não me engano
Mais do que quem pratica crimes de caráter insano
Já foi rei e guarda-civil é gordo mais sutil
Já está adiante do mais intrigante instante
Apavorante
Chocante
Este gordo rei Baco-Dionisius de nossa carne-naval
Para os deuses e deusas do paganismo a ressureição
Por aqui não foi nada mal
Tem até caráter brasileiramente legal
Burocratizada e institucional
Já se está adiante
Nem que adiante
Mesmo não querendo estar tão avante
Vá adiante com esse brilho
De filho ou dos trilhos
Das novas ferrovias que são urgentes
Para que nossa crescente agro-pecuária alimente
A nós em primeiro lugar e depois todas as outras gentes
É a noite da noite dentro do dia a dia
É a alegria do riso que ria
Assim como a garganta que canta
E que assim se liberta
Dessa coisa que aperta
E que só adianta o que se canta
E é preciso até ser preciso no impreciso
E dizer é não ao não do vacilo ou do bacilo
Mas sim à imperfeição do humano
Pois sua perfeição inclui o engano
É preciso o que eu preciso
É preciso precisar pisar teu piso
Liso no riso e com juízo
Com aquele amor que é preciso
Como diz o samba imortal para entrar no paraíso
Com sorriso sem prejuízo corrosivo
Ou totalitarismo agressivo
Ou como Narciso
Que se evaporou como beija flor
E a ninguém amou
Assim não seremos, não sou!
Sabemos
Que somos
E seremos
Supremos
Vencendo combatendo
(sempre entendendo)
Os venenos
Supremos
Seremos
Serenos
E assim teremos
Os amores que queremos
Nessa terra santa
Onde tem tanta anta que canta
Como só canta
E levanta
E adianta
Quem se encanta
E que se alevante
O supermaracatu elefante
Democratizante!
Aqui é mesmo o final
Abaixo o nazismo universal!
“Ciau”
Jorge Mau
Ou bem
Jorge Ben?!

O Tropicalismo surgiu e Jorge estava no meio dele. Sobre sua impressão com a música de Jorge, Gilberto Gil disse que “Eu acho que o despojamento formal, a desconstrução de uma construção lógica clássica, de um universo arquitetônico arrumado, com edifícios construídos andar sobre andar, primeiro sobre o chão, o segundo sobre o primeiro, essa construção lógica desconstruída no versejar e arrumar os versos, ou arrumar as ideias dentro dos versos, de trazer universos pra dentro dos versos. Essa construção lógica havia sido bombardeada pelo Tropicalismo. Mas quando eu ouvi pela primeira vez Maracatú Atômico, construído daquele jeito tão absurdo, quer dizer, como um edifício de pedras cósmicas, construído à semelhança das estações espaciais, com um sistema de acoplagem onde se encaixam peças vindas de todos os lados, debaixo, do alto, da esquerda e da direita, foi um espanto. Isso para mim era um avanço, não só na poética, mas também na música que o Jacobina e o Mautner criaram”.

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ILUMINAÇÃO FELINA: POSTURA DO SENTIR

A guerra mundial não será o fim da humanidade, ou também poderá ser o fim. Que será
será…Sou um religioso, místico, irracionalista. Intensificar a sensibilidade intuitiva, sensorial,
visual. Aprender a ver tudo de novo, sob um novo ângulo, a partir de um novo foco. Ser profeta.
Ouvir o que ninguém ouve. Desprezar o conhecimento racional ao ponto, apenas, de considerá-lo
15% de nossa capacidade…A iluminação começa quando se descobre que a maior coisa é ser gato.
E quando a gente começa a aprender a respirar como o gato, e andar como os felinos, e a sentir o
cheio das coisas mais do que compreender as coisas, é neste dia que você entra no reino da ilumi-
-nação. Quando a gente é gato, a gente age quando nos nervos dá vontade de agir. Raramente a
gente pensa. A gente desliza como tigres, tudo é sensual, e não há sentido nenhum, meta nenhuma,
objetivo nenhum, apenas desliza vagarosamente com os nervos registrando tudo. Eu, como gato,
às vezes falo com os homens. Alguns deles são simpáticos mas querem sempre explicar coisas.
E eles me falam de revoluções e teorias. E depois que Trotsky morreu assassinado no México,
com machadadas na cabeça e seu sangue correu. Imaginem aquele velhinho, personagem da
tragédia grega, com aqueles óculos e aquela barbicha e aquele olhar ao mesmo tempo doce, duro,
com o crânio arrebentado. A revolução acabou. Depois eu vou procurar meus amigos gatos, com os
quais não preciso falar, pois a gente se entende por gestos e olhares.

Em 1975, nasce sua filha com Ruth Mendes, Amora Mautner. Alegria alegria. Um ano depois lança o LP Mil e uma noites em Bagdá. Em 1978 o início da revisão de alguns textos, com a republicação de Narciso em Tarde Cinza e o livro de Panfletos da Nova Era, que haviam sido publicados no Diário de São Paulo. em capítulos. Lança também um compacto pela CBS com a canções Filho Predileto de Xangô e O Boi e Caetano Veloso grava “Vampiro” no LP Cinema Transcedental. A música chama um pouco mais que a literatura, porém, Jorge não para de escrever. Porém, algumas duras perdas mudariam um pouco as coisas.

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O SILENCIO DE BUDA

o cristianismo nasceu
das palavras de jesus
o zen nasceu
de um silêncio de buda
quando um dia iluminado
em lugar do sermão
apresentou aos discípulos
uma flor
sem dizer palavra
um único discípulo entendeu
mahakasyapa
primeiro patriarca do zen
a doutrina da meditação silenciosa
da concentração descontraída
da dança não dançada
da voz sem voz
da iluminação súbita
da luz interior
da superação dialética dos contrários
na vida diária

Em 1981, Jorge lança o LP Bomba de Estrelas, seu primeiro disco pela gravadora Warner. A música O Encantador de Serpentes fica em quarto lugar no Festival da Globo e, enfim, Mautner lança seu livro de poemas ‘Poesia de Amor e Morte’, base desta antologia. Um ano depois, lança o livro Sexo do Crepúsculo, porém, duas perdas: Seu padrasto, que lhe ensinou o violino, Henri Muller, morre aos 76. Um ano depois, em 1986, Mautner perde seu pai, Paul Mautner. “E os vegetais, as plantas sentem e se comunicam, isso é uma lição de amor & comunicação universal: por quê? Não sei, mas é algo de tão espantoso que a ciência descobriu (e eu a cultura negra do canbomblé e a cultura dos índios sempre soube) que me chocou e conduziu cinco passos a mais no caminho da alegria do Amor Universal. Tudo interligado, através de vibrações, frequencias que são energias, memórias, o Tempo são bolhas que viajam pelo espaço, e a energia é um outro nome para amor” JM.

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O SILENCIO DE PITÁGORAS

para pitágoras
tudo é número
tudo é harmonia
tudo é música
os astros obedecem a uma matemática
essa matemática é uma música
não ouvimos a música das estrelas
porque nossos ouvidos são impuros
a culminância da experiência pitagórica
de purificação
e ascenção nas noites estreladas
a sinfonia vinda das esferas
o silêncio dos astros
nasce da nossa surdez

Em 1985 Mautner relança o livro Narciso em Tarde Cinza e lança o disco Antimaldito com direção musical de Caetano Veloso. Um ano depois lança o livro Fundamentos dos Kaos e faz muitos shows, sobretudo contra o Apartheid da África e pela Revolução na Nicarágua. Em 1987, junto com Gilberto Gil, lança o movimento Figa Brasil no show ‘O Poeta e o Esfomeado’ que tem uma adesão de mais de 7000 inscrições. Esse movimento tinha como objetivo discutir a cultura no Brasil, cruzava com o Kaos do próprio Mautner e propunha uma nova abolição na sociedade brasileira.

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O SILENCIO DE PASCAL

“o silêncio desses espaços infinitos
me apavora”
os pensamentos estraçalhados de pascal
é a crise de uma consciência excepcional
no limiar de uma nova era
o místico pascal
contempla o céu estrelado
numa vã espera de vozes
o céu calou-se
estamos sós no infinito
deus nos abandonou
“daquela estrela à outra
a noite se encarcera
em turbinosa vazia desmesura
daquela solidão de estrela
àquela solidão de estrela” (leopardi/via h campos)
nenhum ufo
no close contact of the third kind
a solidão “cósmica” de pascal
é o pendant do vazio de sua classe social
cuja hegemonia está para terminar
os germes da revolução francesa
que vai derrubar a nobreza
e colocar a burguesia no poder
já estão no ar
pascal ouve nos céus
o tremendo silêncio
de uma classe que já disse
tudo que tinha que dizer
pela boca da história

Em 1988, após lançar o CD Árvore da Vida, Mautner se candidata a vereador em São Paulo pelo Partido Verde. Não faz nenhuma propaganda política e acaba não se elegendo por apenas 300 votos. Logo em seguida, viaja para a Bahia, a convite de Gilberto Gil, para trabalhar como seu Chefe de Gabinete, Gil, havia sido eleito vereador naquelas eleições. Porém, em 1990, Mautner viaja para Áustria completamente desiludido com o país após a vitória de Fernando Collor para a Presidência da República. Lá, lança o disco independente Pedra Bruta e faz shows em Viena, Alemanha e Suiça, neste meso disco, Jorge lança o cantor Celso Sim. No mesmo ano de 1990, Jorge perde sua mãe Anna Illich aos 76 anos, assim, volta para o Brasil.

Hecatombes e Ravel em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

OUÇO AGORA

Ouço agora lá longe
Os acordes finais
Como os hinos de um monge
No templo dos samurais

Espinhos e rosas
Rosas e espinhos
Como é que tu gozas
E não tens nem dás carinhos?

Vagueio no meio
De muitas pessoas e gentes
Só não sei se sou lindo ou feio
E se existem mais de três continentes

Como se fazem versos?
Como se fazem mundos?
Assim como se fazem universos
Em segundos vagabundos?

Entenda:
Meu lema
É não se venda
E não tema

Cavaleiros
Medievais
Feiticeiros
E bacanais

Meu desejo não quer esperar, como eu erro!
Leva você pra longe de mim
Vou dar aquele grito, aquele berro
Eu vou chamar o Anjo Serafim

Que é como um Arcanjo
E é amante do Arlequim
Todos tocam seus banjos
Só eu toco bandolim

Na ECO 92, Gilberto Gil enfatiza o pioneirismo ecológico de Mautner e das ONGs desde 1956. No ano seguinte, lança o livro Miséria Dourada. Em 1995, relança o livro Fragmentos de Sabonete com fragmentos inéditos. A gravadora Warner relança o disco Bomba de Estrelas após o sucesso de uma campanha publicitária de Washington Olivetto que tinha como trilha a canção O encantador de Serpentes como trilha. No ano seguinte, uma incrível homenagem: a Fundação Nacional de Arte (Funarte) inaugura em sua sede de São Paulo a ala Jorge Mautner, multidisciplinar direcionada a jovens artistas brasileiros.

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prosa estranha http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
arquivo da correspondência http//cartilhadepoesia.wordpress.com

PERFURO O VENTRE DA ESCURIDÃO

Perfuro o ventre da escuridão
onde as coisas se escondem
porque estão cheias de sim e de não e de confusão
e quando pergunto sobre qualquer assunto nunca
respondem
São como coisas presas ao labirinto
com algemas nos pulsos e tudo
são cinco pras cinco e eu já me sinto
dentro do seu não e de um caixão de veludo

Toca teu samba, toca
e tortura meu ser com prazer de ser
a tortura como aquela coisa que nos choca
onde a alegria me enganava se dizendo a alegria de não ter

Não ter o quê?
Ora, tá na cara
não ter é não ter você
seja com grilo ou seja odara

Luas de prata conseguem
fazer com que lentamente
as sensações das emoções naveguem
e invadam como as fadas minha mente

Doem-me todas as cicatrizes
e sinto as rugas das verrugas
Sei que és como atores e atrizes
e que sempre atacas quem te quer por em fugas

Tocas então mil serenatas
e antigas cantigas e rondós
depois mijas no chão como os cães vira-latas
e ficas falando de ti quando estamos a sós

É por isso que sinto todos estes e aquelas
dores incolores e na garganta estes nós
Nem as cores de óleos, hologramas ou aquarelas
poderiam expressar tão bem estes meus ós, ós, ós!

Em 1997, Jorge lança o disco Estilhaços de Paixão com direção de seu parceiro Nelson Jacobina. No ano seguinte faz shows em Amsterdã, Lisboa, Abrantes e Londres. Também faz shows na rede SESC de São Paulo, celebrando os 100 anos de Bertold Brecht, também dá aulas de literatura nas escolas públicas da periferia de São Paulo. Os discos não para e Jorge lança mais um: O Ser da Tempestade, duplo, com participações de Gil, Caetano, Gal, Zé Ramalho, Chico Science, Moraes Moreira e outros. Abre o novo milênio participando do programa Musikaos na TV Cultura e segue fazendo shows com Jacobina por todo o Brasil.

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O SILENCIO DE HERMES

é o silêncio hermético
o silêncio dos sinais difíceis de ler
o silêncio da poesia de vanguarda
o claro silêncio de mallarmé
e da poesia de vanguarda
o silêncio de ilegibilidade de hoje
que vai aliementar a legibilidade superior de amanhã
hermes é o deus que conduz as almas
até seu destino
o deus que tira o sentido das mensagens mortas
e as conduz à vida do entendimento
o silêncio “incompreensível para as massas”
a grande acusação contra maiakovski
o silêncio lance de dados
o acaso
uma chance até o absoluto

2002 foi um ano muito importante para a renovação de seu trabalho e para a apresentação de sua obra para as gerações mais jovens. Lançou o disco e a caixa com todos os livros e comentários de artistas e amigos, Mitologia do Kaos, e também lançou o disco com Caetano Veloso ‘Eu não peço desculpa’ de grande sucesso. Em 2003, foi homenageado pela Câmara de Vereadores de São Paulo e recebe a Cruz de Honra da Áustria para a Ciência e Cultura, concedida pelo presidente da Áustria. Recebeu também o título de Comendador pela Ordem de Mérito Cultural já no Governo Lula. No mesmo ano, ganhou o Grammy Latino por ‘Eu não peço desculpa’.

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PELAS RUAS

Estou adorando andar pelas ruas
como quem não quer nada
debaixo do sol
debaixo das luas
que são mais de duas
porque tem as artificiais
e no mais
não tem nada de mais
só a felicidade
como névoa brilhante
por cima da cidade
em paz
(breque: vade retro satanás)

Em 2004, Jorge recebe a bolsa Vitae para escrever o livro ‘O filho do Holocausto, dos jardins do Catete ao Colégio Dante Alighieri’. Também escreve o livro ‘Diálogos com o Ministro Gilberto Gil’ com tradução e edição simultânea em diversos países. Desde então, Jorge tem feito shows, programas de televisão, participou da peça “Deus é química” com texto Fernanda Torres, com Francisco Cuoco e Luis Fernando Guimarães no elenco. “Jorge Mautner é um homem, forte como um rochedo, claro como a água, leve como o vento. Os fios elétricos, a bola de borracha, os buracos da flauta, a sola do sapato, as patas do mosquito, e o palito no meio do pirulito. Jorge Mautner pode ser qualquer coisa. Porque ele quer ser qualquer coisa. Tudo. Claro que tudo é tudo e todo mundo é, diria você; mas Jorge realiza, em si, a caminhada para a consciência deste TUDO; é como ele brinca com as pedras do caminho!” Gilberto Gil.

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FILOSOFIA

Filosofia
três ramos
fiscalizante
apreciadora
do todo
ética!

Língua
árvore
distância
macaco
homem
ereto
homem
ave.

Palavra
sujeito
verbo
erro
crasso
fotossíntese
está raiando
está chovendo
deuses.

Grego
pensante
maldita
lógica!

Erro
crasso
de novo
modernos
infernos
experiência.

Galileu
já morreu
foi a lei
que ele disse
o fantasma
1500
de Aristóteles
contradisse.

Foi o erro!
Erro crasso
da lógica
outra vez.

Acabou
quem ganhou
também
morreu
(queimado)
Sputniks
ó lembrança
ó Galileu.

No sono
o tempo
contratempo
não existe.

Tu partiste
podias ter vindo
o tambor
durou um dia
um minuto
estou de luto há duas horas
apenas um minuto.

Platão
chatão
caverna
amarrado
cego
olhava na parede
vêde!
Não via nada!
via sombras.

Maia
que se aproxima
do meu sonho
momentâneo

século vinte!
que acinte!
Aceitar ideia
que já foi de índio.

“Sob o signo de Dionísio, o pensamento de Mautner é uma mistura vertiginosa de Nietzsche, filosofia beatnik e hippie, contracultura, candomblé, zen, antropofagia, tropicalismo e existencialismo. No olho do ciclone da vertigem entre todas essas coisas. Mautner vê no negro e na música a fonte de toda a força. É o que há de mais forte e bonito na América, dos Estados Unidos ao Brasil. É o jazz, o mambo, a rumba, o chachachá, o samba. Os negros são os filhos diletos de Dionísio. Sua sabedoria está gravada, não em pedras nem em placas de bronze, mas em ritmos. Uma sabedoria rítmica milenar, chamando todos os homens para a dança, a alegria, a felicidade. Alienado? O conceito de alienação precisa ser revisto, imediatamente. Ele é penal. O conceito de “alienação” sempre acaba na polícia” E o Paulo Leminski se estende um pouco mais, porém, viemos até aqui.

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FOI O SAMBA

Foi o samba quem tudo me ensinou. A negritude é uma cultura tão profunda se não for
mais que a chamada caucasiana, ocidental, fáustica. Heidegger, Mozart, iguais se não
pouco inferiores a: batuques, maracatus e blues. Orixás e axé! Um dia, brevemente, os
tambores dos terreiros ecoarão em Londres, Paris, Viena, até mesmo em Buenos Aires,
alimentando os pálidos vampiros que necessitam de nosso sangue, vitamina B12 para
sobreviver e rir e ter alegria.
Nós fabricamos o plasma mundial. Brasília é o lugar de pouso de discos-voadores. A fé
sempre foi apenas a mais rigorosa das ciências. Só os mais ousados a possuem. Ela
está exatamente no meio da diagonal formada pelas forças gravitacionais que se instalam
em ambos os aparentes extremos de nosso universo elíptico. Emanam a força da gravidade
cuja velocidade é maior que a da luz e é essa força que é o magnetismo do teu olhar a invadir
oceanos como flecha de algum Oxossim voador.

Eis que chegamos ao final de mais uma antologia. Vimos aí um pouco da poesia desta grande figura, Jorge Mautner, um artista brasileiro, antropófago nato. Na semana que vem, entraremos em um outro universo poético, pois, esta correspondência se faz justamente por essa necessidade de conhecer os poetas do Brasil, assim, sempre que puder, mapearemos esse lugar que tanto excita. O que leva um leitor a buscar um poema? O que ele busca num poema? O que faz um poeta escrever um poema? Não importa, não sou exegeta, tampouco formalista, vamos em frente que a poesia brasileira é imensa. Evoé!

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DIONISIUS

Zagreus despedaçado por bacantes adolescentes. Fundo aqui agora este Kaos com k, uma
nova além religião. É já uma super religiosidade. Tomará conta do Brasil no fim do século XX
para o XXI, e depois como coisa sem nome, sei que só ousa sem lembrar-temer-gemer-odiar,
enfim assim sem fim dominaremos seremos o Poder apenas como potência chefiando como
chefia de um comando sob minha liderança carismática do destino e tendo na mão a chave
de um arrebol, a clave de sol que está por enquanto nas mãos de profunda luz negra do anjo
guardião da chave do abismo. Eu sou o gavião e a pomba, a ação que tomba e assombra,
a luz e a sombra, a cruz e a festa de arromba da miromba na onda redonda das ondulações
de surf galático de rondas e girondas, de emanações sem paranóia, sem braço na tipóia,
sem aço no cansaço da bóia fria ou jibóia da ironia ou tramóia da mesquinharia ou agonia
da escória do fracasso, sem bóia ou abraço de uma história de glória suposta memória basta
de anti história na qual ahchacal, eu me me caço a mim mesmo que nem nenen do joaquim
torresmo tamborim.
Cristo-Dionisius, Baco-Rei Momo-pai-de-santo-painho-cae-gil-eu-jorge-mautner, e você filho
da virgem maria e da vertigem da harmonia da fuligem com a origem e a azia da tia e da que
exigem a redigem a ordem desordem do dia a dia noite a noite açoite ardia como arderia a noite
que aceitou-te como Deus o fez no nono adeus da insensatez.
A missão do PK é tomar o Poder de todas as vias de comunicação. Orações: de ataulfo alves,
“pai joaquim” e “Ogum de angola”.

julho 17, 2011

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Dummond de Andrade nasceu em Itabira do Mato Dentro em Minas Gerais no dia 31 de outubro de 1902. É o nono filho de Carlos de Paula Andrade e D. Julieta Augusta Drummond de Andrade. Seu pai era fazendeiro e a família Drummond gozava de certo prestígio social em Itabira. Ali, nasceu e cresceu o jovem Carlos. Magro, sisudo e franzino, que depois viria a se tornar um dos mais respeitados poetas brasileiros. Neste mês tetaremos fazer um pequeno panorama detalhado da vida e da poesia de Drummond, sem querer ser professoral, tampouco exegeta e crítico. Evoé!

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SENTIMENTAL

Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria, cheia de escamas
e debruçado na mesa, todos contemplam
esse romântico trabalho.

Desgraçadamente falta uma letra,
uma letra somente
para acabar teu nome!

- Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!

Eu estava sonhando…
E há em todas as consciências um cartas amarelo:
“Neste país é proibido sonhar”.

Itabira localiza-se a 194 kilômetros de Belo Horizonte. Hoje é apelidada pelos habitantes como “cidade da poesia”, porém, também é a “cidade do ferro”. O nome “Itabira” vem do guarani, que significa “pedra que brilha” (itá é pedra) (bira é que brilha). Chamava-se Vila Itabira do Mato Dentro, era uma província que em 1848, foi elevada à categoria de cidade. Em 1907, foi fundada a primeira escola de Itabira, Escola Municipal Coronel José Batista. Itabira também tinha uma residência que preparava alunos para serem admitidos no Seminário de Caraça e de Mariana. Itabira tem um time de futebol que se chama, Valeriodoce Esporte Clube. Foi nessa cidade que Drummond nasceu.

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JARDIM DA PRAÇA DA LIBERDADE
a Gustavo Capanema

Verdes bulindo.
Sonata cariciosa da água
fugindo entre rosas geométricas.
Ventos elísios.
Macio.
Jardim tão pouco brasileiro… mas tão lindo.

Paisagem sem fundo.
A terra não sofreu para dar estas flores.
Sem ressonância.
O minuto que passa
desabrochando em floração inconsciente.
Bonito demais. Sem humanidade.
Literário demais.

(Pobres jardins do meu sertão,
atrás da Serra do Curral!
Nem repuxos frios nem tanques langues,
nem bombas nem jardineiros oficiais.
Só o mato crescendo indiferente entre sempre-vivas desbotadas
e o olhar desditoso da moça desfolhando malmequeres.)

Jardim da Praça da Liberdade,
Versailles entre bondes.
Na moldura das Secretarias compenetradas
a graça inteligente da relva
compõe o sonho dos verdes.

PROIBIDO PISAR NO GRAMADO
Talvez fosse melhor dizer:
PROIBIDO COMER O GRAMADO
A prefeitura vigilante
vela a soneca das ervinhas.
E o capote preto do guarda é uma bandeira na noite estrelada de funcionários.

De repente uma banda preta
vermelha retinta suando
bate um dobrado batuta
na doçura
do jardim.

Repuxos espavoridos fugindo.

Em 1910, aos oito anos, o jovem Drummond inicia o curso primário no Grupo Escolar Dr. Carvalho Brito, em Belo Horizonte. Lá conhece duas figuras que viriam a ser seus grandes amigos para a vida inteira: Gustavo Capanema e Afonso Arinos de Melo Franco. Lá estuda até o início da adolescência. Drummond, desde criança, até mesmo antes de aprender a ler, era fascinado pela forma da palavra, pela letra. Gostava de folhear jornais e livros para procurar formas, quando aprendeu a ler, já “conhecia” muitas delas. Logo mais, Drummond se enveredaria mais intensamente nos estudos primários.

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UM HOMEM E SEU CARNAVAL

Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensões.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.

O pandeiro bate
é dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.

Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.

Em 1916, aos quatorze anos, Drummond se torna interno do Colégio Arnaldo, da Congregação do Verbo Divino, em Belo Horizonte. Curiosidade: A Congregação do Verbo Divino é essencialmente religiosa católica fundada em Steyl, às margens do rio Rosa nos Países Baixos em 1875 pelo padre alemão Arnaldo Janssen. A congregação seria feita na Alemanha, porém, por causa da perseguição do, então, Chanceler do Império Alemão, Otto von Bismarck aos católicos através da Kulturkampf, uma espécie de movimento coercitivo nacionalista contra a religião católica, teve que ser feita nos Países Baixos. Drummond tinha um contato mais direto com a religião católica.

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SOMBRA DAS MOÇAS EM FLOR

À sombra doce das moças em flor,
gosto de deitar para descansar.
É uma sombra verde, macia, vã,
fruto escasso à beira da mão.
A mão não colhe… A sombra das moças
esparramada cobre todo o chão.

As moças sorriem fora de você.
Dentro de você há um desejo torto
que elas não sabem. As moças em flor
estão rindo, dançando, flutuando no ar.
O nome delas é uma carícia
disfarçada.

As moças vão casar e não é com você.
Elas casam mesmo, inútil protestar.
No meio da praça, no meio da roda
há um cego querendo pegar um braço,
todos os braços formam um laço,
mas não se enforque nem se disperse
em mil análises proustianas,
meu filho.

No meio da roda, debaixo da árvore,
a sombra das moças penetra no cego,
e o dia que nasce atrás das pupilas
é vago e tranquilo como um domingo.
E todos os sinos batem no cego
e todos os desejos morrem na sombra,
frutos maduros es esborrachando
no chão.

Em 1917, o jovem Drummond começa a tomar aulas particulares com o professor Emílio Magalhães, em Itabira. No ano seguinte, vira interno do Colégio Anchieta da Companhia de Jesus em Nova Friburgo, onde é laureado com “certames literários”. A poesia, o escrever poemas, surge com mais força nesse período, com quinze anos de idade. Publica um poema em prosa chamado “Onda” no jornal ‘Maio’ de um único número. Começa ler o escritores céticos, e alguns surrealistas, o que teria, e teve, grande importância no desprendimento consciente das ideias religiosas. Isso, também, viria lhe custar caro.

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PRIVILÉGIO DO MAR

Neste terraço mediocremente confortável,
bebemos cerveja e olhamos o mar.
Sabemos que nada nos acontecerá.

O edifício é sólido e o mundo também.

Sabemos que cada edifício abriga mil corpos
labutando em mil compartimentos iguais.
Às vezes, alguns se inserem fatigados no elevador
e vêm cá em cima respirar a brisa do oceano,
o que é privilégio dos edifícios.

O mundo é mesmo de cimento armado.

Certamente, se houvesse um cruzador louco,
fundeado na baía em frente da cidade,
a vida seria incerta… improvável…

Mas nas águas tranquilas só há marinheiros fiéis.
Como a esquadra é cordial!

Podemos beber honradamente nossa cerveja.

Em 1919, Drummond é expulso do Colégio Anchieta da Companhia de Jesus por “insubordinação mental”. Drummond já tinha dezessete anos e um fato como esse grifa muito a história de um sujeito. Um ano depois, muda-se para Belo Horizonte com a família e começa a publicar seus trabalhos na seção “Sociais” do Diário de Minas. Nessa época, Drummond estende suas amizades conhecendo figuras como Milton Campos, Emílio Moura, Alberto Campos, João Alphonsus, Batista Santiago, Aníbal Machado, Pedro Nava (que viria a ser seu grande amigo), Heitor de Sousa e muitos outros. Todos eles frequentadores do Café Estrela e da Livraria Alves, em Belo Horizonte.

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PALAVRAS NO MAR

Escrita nas ondas
a palavra Encanto
balança os náufragos,
embala os suicidas.
Lá dentro, os navios
são algas e pedras
em total olvido.
Há também tesouros
que se derramaram
e cartas de amor
circulando frias
por entre medusas.
Verdes solidões,
merencórios prantos,
queixumes de outrora,
tudo passa rápido
e os peixes devoram
e a memória apaga
e somente um palor
de lua embruxada
fica pervagando
no mar condenado.
O último hipocampo
deixa-se prender
num receptáculo
de coral e lágrimas
- do Oceano Atlântico
ou de tua boca,
triste por acaso,
por demais amarga.

A palavra Encanto
recolhe-se ao livro,
entre mil palavras
inertes à espera.

Em 1922, aos vinte anos, o primeiro “retorno”: Drummond ganha cinquenta mil réis como prêmio pelo conto “Joaquim do telhado”, no concurso Novela Mineira. No mesmo ano publica alguns trabalhos nas revistas Todos e Ilustração Brasileira. No ano seguinte, curiosamente, entra para a Escola de Odontologia e Farmácia em Belo Horizonte. Seguiu caminho semelhante de seu grande amigo e médico Pedro Nava, ao escolher a área de saúde, ao contrário de muitos outros jovens escritores que optaram pelo Direito. Em contrapartida, Drummond inicia sua extensa e intensa correspondência com Manuel Bandeira, manifestando-lhe sua admiração. Os conhecimentos aumentam ao conhecer o poeta Blaise Cendras, e parte do grupo modernista através Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Tarsila do Amaral. Pouco depois, inicia também longa correspondência com Mário de Andrade.

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FRAGILIDADE

Este verso, apenas um arabesco
em torno do elemento essencial – inatingível.
Fogem nuvens de verão, passam aves, navios, ondas,
e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento,
ai! já brincou, e tudo se fez imóvel, quantidades e quantidades
de sono se depositam sobre a terra esfacelada.
Não mais o desejo de explicar, e múltiplas palavras em feixe
subindo, e o espírito que escolhe, o olho que visita, a música
feita de depurações e depurações, a delicada modelagem
de um cristal de mil suspiros límpidos e frígidos: não mais
que um arabesco, apenas um arabesco
abraça as coisas, sem reduzi-las.

A correspondência com Mário de Andrade foi extensa e intensa. Quase tudo (ou tudo) foi colocado à disposição do público em livros. Mário era conhecido por suas cartas e pela generosidade dentro delas. Em 1924, Mário, assim responde ao jovem Drummond em uma delas: “Tudo está em gostar da vida e saber vivê-la. Só há um jeito feliz de viver a vida: é ter espírito religioso. Explico melhor: não se trata de ter espírito católico ou budista, trata-se de ter espírito religioso pra com a vida, isto é, viver com religião a vida. Eu sempre gostei muito de viver, de maneira que nenhuma manifestação da vida me é indiferente. Eu tanto aprecio uma boa caminhada a pé até o alto da Lapa como uma tocata de Bach e ponho tanto entusiasmo e carinho no escrever um dístico que vai figurar nas paredes dum bailarico e morrer no lixo depois como um romance a que darei a impossível eternidade da impressão. Eu acho, Drummond, pensando bem, que o que falta pra certos moços de tendência modernista brasileiros é isso: gostarem de verdade da vida”.

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ESTANCIAS

Amor? Amar? Vozes que ouvi, já não me lembra
onde: talvez entre grades solenes, num
calcinado e pungitivo lugar que regamos de fúria,
êxtase, adoração, temor. Talvez no mínimo
território acuado entre a espuma e o gnaisse, onde respira
- mas que assustada! uma criança apenas. E que presságios
de seus cabelos se desenrolam! Sim, ouvi de amor, em hora
infinda, se bem que sepultada na mais rangente areia
que os pés pisam, pisam, e por sua vez – é lei – desaparecem.
E ouvi amar, como de um dom a poucos ofertado; ou de um crime.

De novo essa vozes, peço-te. Escande-as em tom sóbrio,
ou senão, grita-as à face dos homens; desata os petrificados; aturde
os caules no ato de crescer; repete: amor, amar.
O ar se crispa, de ouvi-las; e para além do tempo ressoam, remos
de ouro batendo a água transfigurada; correntes
tombam. Em nós ressurge o antigo; o novo; o que de nada
extrai forma de vida; e não de confiança, de desassossego se nutre.
Eis que a posse abolida na de hoje se reflete, e confundem-se,
e quantos desse mal um dia (estão mortos) soluçaram,
habitam nosso corpo reunido e soluçam conosco.

Em outra carta escrita para Drummond, Mário de Andrade diz que ” (…) toda a gente acha graça na minha alegria e como eu me divirto quando estou na festa mais pau. Creio que essa riqueza me vem de eu compreender a vida e vivê-la em toda a variedade dela. Quando vou na festa sei que a festa é pra gente se divertir e qualquer coisa me diverte extraordinariamente. Quando vou… na dor sei que a dor é pra gente sofrer e sofro pra burro, sofro sério, sofro sofrendo e não espetacularmente, é lógico. Que sucede? a minha variedade de viver é tão incomensurável que não me fatigo dela nunca. (…) A correspondência entre Mário e Carlos se deu até a morte de Mário.

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UM BOI VE OS HOMENS

Tão delicados (mais que um arbusto) e correm
e correm de um para o outro lado, sempre esquecidos
de alguma coisa. Certamente, falta-lhes
não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres
e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves,
até sinistros. Coitados, dir-se-ia não se escutam
nem o canto do ar nem os segredos do feno,
como também parecem não enxergar o que é visível
e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes
e no rasto da tristeza chegam à crueldade.
Toda a expressão deles mora nos olhos – e perde-se
a um simples baixar de cílios, a uma sombra.
Nada nos pêlos, nos extremos de inconcebível fragilidade,
e como neles há pouca montanha,
e que secura e que reentrâncias e que
impossibilidade de se organizarem em formas calmas,
permanentes e necessárias. Têm, talvez,
certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem
perdoar a agitação incômoda e o translúcido
vazio interior que os torna tão pobres e carecidos
de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme
(que sabemos nós?), sons que se despedaçam e tombam no campo
como pedras aflitas e queimam a erva e a água,
e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.

Em 1925, Drummond se casa com Dolores Dutra de Morais. O próprio Drummond dizia que ela tinha sido a primeira, ou segunda mulher a trabalhar num emprego (como contadora numa fábrica de sapatos) em Belo Horizonte. No mesmo ano, funda junto com Emílio Moura e Gregoriano Canedo, A Revista. Órgão essencialmente modernista, do qual saem três números. E também conclui o curso de Farmácia, porém, jamais exerce a profissão, dizendo querer “preservar a saúde dos outros”. Em carta a Mario de Andrade diz: “Mário, acabei os exames e sou agora farmacêutico. Não sei bem o que é isso. Durante o curso todo nunca pensei nisso. E ainda não tive o tempo de pensar.” Em uma outra revela: “Minha última carta de 1925 é pra você. Dei um tiro no meu diploma de farmacopila. Vou ser fazendeiro, se Deus quiser. Lugar: Itabira do Mato Dentro, Minas. É pra lá que você deve me escrever, daqui a um mês mais ou menos”.

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CARTA

Bem quisera escrevê-la
com palavras sabidas,
as mesmas, triviais,
embora estremecessem
a um toque de paixão.
Perfurando os obscuros
canais de argila e sombra,
ela iria contando
que vou bem, e amo sempre
e amo cada vez mais
a essa minha maneira
torcida e reticente,
e espero uma resposta,
mas que não tarde; e peço
um objeto minúsculo
só para dar prazer
a quem pode ofertá-lo;
diria ela do tempo
que faz do nosso lado;
as chuvas já secaram,
as crianças estudam,
uma última invenção
(inda não é perfeita)
faz ler nos corações,
mas todos esperamos
rever-nos bem depressa.
Muito depressa, não.
Vai-se tornando o tempo
estranhamente longo
à medida que encurta.
O que ontem disparava,
desbordado alazão,
hoje se paralisa
em esfinge de mármore,
e até o sono, o sono
que era grato, e era absurdo
é um dormir acordado
numa planície grave.
Rápido é o sonho, apenas,
que se vai, de mandar
notícias amorosas
quando não há amor
a dar ou receber;
quando só há lembrança,
ainda menos, pó,
menos ainda, nada,
nada de nada em tudo,
em mim mais do que em tudo,
e não vale acordar
que acaso repouse
na colina sem árvores.
Contudo, esta é uma carta.

Em 1926, Drummond começa a lecionar Geografia e Português no Ginásio Sul-Americano de Itabira, porém, seu retorno à cidade natal é interrompido, pois, por iniciativa de Alberto Campos, volta para Belo Horizonte para trabalhar como redator-chefe do Diário de Minas. No mesmo ano, uma honra: Heitor Villa Lobos, sem conhecê-lo, compõe uma seresta sobre o poema “Cantiga de Viúvo”. Um ano depois, uma fatalidade: No dia 22 de março, nasce seu filho Carlos Flávio, que, infelizmente, devido a complicações respiratórias, falece meia hora depois do parto.

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MAIO NO LEBLON

Entre os desmaios de maio,
azula o céu carioca
e o sol recolhe seu raio.

Macio maio! Bem vindo
aos que, de pupila doente,
refugiavam-se, no poente,
dos revérberos da praia.

Um frio azul se derrama
e colhe de rama em rama
toda cantiga de pássaro.
É doce, ficar na cama.

O níquel das bicicletas
- ante a franja turmalina -
se desenrola nas retas
sem fustigar as retinas.

Luz de seda! Nos vestidos
anda um prenúncio de lãs
e de agasalhos transidos.
Inverno, prepara as cãs.

Vou lagartear-me na areia
de onde emigram, neste maio,
as gentes de formas feias,
e descobrir nela côncavo
dos pés de Lúcia Sampaio.

Mês de colóquio e surpresa,
em que, sereno, o olhar gaio
se infiltra na natureza
e se perde, achando-se… Amai-o.

Em 1928, aos vinte e seis anos, após a trágica morte prematura de seu primeiro filho, nasce, enfim, Maria Julieta. Ela se tornaria sua grande amiga e confidente para a vida inteira. No mesmo ano publica na Revista de Antropofagia, órgão oriundo do Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade, o poema “No meio do caminho”, que se tornaria o grande escândalo da literatura brasileira na época. A Revista tinha direção de Alcântara Machado e Raul Bopp. Dentre seus principais colaboradores, temos o próprio Drummond, Mário de Andrade, Plínio Salgado, Manuel Bandeira, Menotti Del Picchia, Murilo Mendes, Pedro Nava e alguns outros. Havia duas linhas distintas que escreviam na revista: a de Mário e Oswald e a do grupo nacionalista e integralista Anta.

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PORTINARI

De um baú de folha-de-flandres no caminho da roça
um baú que os pintores desprezaram
mas que anjos vêm cobrir de flores namoradeiras
salta João Cândido trajado de arco-íris
saltam garimpeiros, mártires da liberdade São João da Cruz
salta o galo escarlate bicando o pranto de Jeremias
saltam cavalos-marinhos em fila azul e ritmada
saltam orquídeas humanas, seringais, poetas de e sem óculos, transfigurados
saltam caprichos do Nordeste – nosso tempo
(nele uma angústia purificada na alegria do volume justo e da cor autêntica
salta o mundo de Portinari que fica lá no fundo
maginando novas surpresas

Em 1929, Drummond deixa o Diário de Minas para trabalhar no Minas Gerais, órgão oficial do Estado, como auxiliar de redação e pouco depois como redator, sob a direção de Anibal Machado. Um ano depois, enfim, aos vinte e oito anos, Drummond publica seu primeiro livro, Alguma poesia, em edição de 500 exemplares paga pelo autor, sob o selo imaginário Edições Pindorama, criado por Eduardo Frieiro. Embora tenha sido o primeiro, no livro, há poemas que se tornaram uma espécie de “clássico” em toda sua vasta obra. No mesmo ano, torna-se auxiliar de gabinete do Secretário de Interior, quando, seu amigo, Gustavo Capanema, substitui Cristiano Machado na função.

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LETRA AMARGA PARA MODINHA

Gosto de ti com desgosto.
Quando contemplo teu rosto
nele vejo um rosto outro
com o qual maduras teu gosto.
Por um mandamento imposto
sofro de ti em meu corpo
quando contemplo teu rosto.

Quando contemplo teu rosto
este amor a contragosto
fermenta de ácido mosto
e no meu cavername rouco
um dó de mim, um a-gosto
me punge, queima de agosto.

Se te contemplo, em teu rosto
não me contemplo a meu gosto
pois teu semblante está posto
numa linha de sol-posto
em que por dentro me morro.
Morro de ver em teu rosto
o fel de teu anti-rosto.

Quando contemplo teu rosto
meu gosto é puro desgosto.

Em 1931, Drummond perde seu pai, Carlos de Paula Andrade. Dois anos depois, torna-se redator de A Tribuna e mais uma vez acompanha Gustavo Capanema quando este é nomeado Interventor Federal em Minas Gerais. A grande mudança acontece em 1934. Começa trabalhando como redator nos jornais Minas Gerais, Estado de Minas e Diário da Tarde, simultaneamente. Depois publica Brejo das almas, em edição de 200 exemplares pela cooperativa Os Amigos do Livro, e finalmente, muda-se com sua mulher, Dolores, e sua filha, Maria Julieta, para o Rio de Janeiro, onde, passa a trabalhar como chefe de gabinete de Gustavo Capanema, agora, Ministro da Educação e da Saúde Pública.

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O QUARTO EM DESORDEM

Na curva perigosa dos cinquenta
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor

que não se sabe como é feita: amor,
na quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gosto de colher e amar

a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais defeso, corpo! corpo, corpo,

verdade tão final, sede tão vária,
e esse cavalo solto pela cama,
a passear o peito de quem ama.

Em 1935, Drummond se torna membro da Comissão de Eficiência do Ministério da Educação. Dois anos passam sem muitas novidades literárias até que em 37, começa a colaborar na Revista Acadêmica, de Murilo Miranda. De acordo com Mário Faustino, os poemas que Drummond publica em revistas e jornais não são os seus “melhores”. Mário acreditava que, ali, Drummond fazia uma espécie de laboratório com poemas de menor expressão. Certo, ou não, em 1940, Drummond publica seu famoso Sentimento do mundo, em tiragem de 150 exemplares, apenas, distribuídos entre amigos.

Arquivo desta “coluna” para consulta aqui http://cartilhadepoesia.wordpress.com

PROCURA

Procurar sem notícia, nos lugares
onde nunca passou;
inquirir, gente não, porém textura,
chamar à fala muros de nascença,
os que não são nem sabem, elementos
de uma composição estrangulada.

Não renunciar, entre possíveis,
feitos de cimento do impossível,
e ao sol-menino opor a antiga busca,
e de tal modo revolver a morte
que ela caia em fragmentos, devolvendo
seus intatos reféns – e aquele volte.

Venha igual a si mesmo, e ao tão-mudado,
que o interroga, insinue
a sigla de uma armário cristalino,
além do qual, pascendo beatitudes,
os seres-bois completos, se transitem,
ou mugidoramente se abençoem.

Depois, colóquios instantâneos
liguem Amor, Conhecimento,
como fora de espaço e tempo hão de ligar-se,
e breves despedidas
sem lenços e sem mãos
restaurem – para outros – na esplanada
o império do real, que não existe.

Em 1941, assina sob o pseudônimo de “O Observador Literário”, a seção “Conversa Literária” da revista Euclides. Ao mesmo tempo que colabora para o suplemente literário de A Manhã, dirigido por Múcio Leão e mais tarde por Jorge Lacerda. Em 1942, um grande acontecimento: José Olympio, publica Poesias, através de sua Livraria José Olympio Editora. É o primeiro editor que, de fato, publica Drummond. Agora tinha um canal, uma editora que o lançaria definitivamente, pois, já era, a esta altura, considerado como grande poeta, sobretudo, entre poetas. Nessa época, também, envereda-se pela tradução e publica a obra Thérèse Desqueyroux, de François Mauriac, sob o título de Uma gota de veneno.

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A CARLITO

Velho Chaplin:
as crianças do mundo te saúdam.
Não adiantou te esconderes na casa de areia dos setenta anos,
refletida no lago suíço.
Nem trocares tua roupa e sapatos heróicos
pela comum indumentária mundial.
Um guri te descobre e diz: Carlito
CARLITO – ressoa o coro em primavera.

Homens apressados estacam. E readquirem-se.
Estavas enrolado neles como bola de gude de quinze cores,
concentração do lúdico infinito.
Pulas intato da algibeira.
Uma guerra e outra guerra não bastaram
para secar em nós a eterna linfa
em que, peixe, modulas teu bailado.

O filme de 16 milímetros entra em casa
por um dia alugado
e com ele a graça de existir
mesmo entre os equívocos, o medo, a solitude mais solita.
Agora é confidencial o teu ensino,
pessoa por pessoa,
ternura por ternura,
e desligado de ti e da rede internacional de cinemas,
o mito cresce.

O mito cresce Chaplin, a nossos olhos
feridos de pesadelo cotidiano.
O mundo vai acabar por mão dos homens?
A vida renega a vida?
Não restará ninguém para pregar
o último rabo de papel na túnica do rei?
Ninguém para recordar
que houve pelas estradas um errante poeta desengonçado,
a todos resumindo em seu despojamento?

Perguntas suspensas no céu cortado
de pressentimentos e foguetes
cedem à maior pergunta
que o homem dirige às estrelas.
Velho Chaplin, a vida está apenas alvorecendo
e as crianças do mundo te saúdam.

Em 1944, Drummond publica Confissões de Minas, por iniciativa de Álvaro Lins, mas, um ano depois, um grande e marcante lançamento: A Rosa do Povo, sai pela José Olympio. A novela O gerente sai pela Edições Horizonte. Começa a colaborar no suplemente literário do Correio da Manhã e na Folha Carioca. Preservando a boa relação que tinha com Gustavo Capanema, Drummond deixa a chefia do gabinete a convite de Luís Carlos Prestes, e se torna co-editor do jornal comunista, Tribuna Popular, junto com Pedro Mota Lima, Álvaro Moreyra, Aydano do Couto Ferraz e Dalcídio Jurandir. Meses depois, se afasta do jornal por discordar da orientação do mesmo. Neste época Drummond frequenta o café Vermelhinho, no centro do Rio, onde se reuniam intelectuais e poetas como João Cabral (que foi ao Rio conhecer Drummond), Santa Rosa, Carlos Castelo Branco e alguns outros.

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DESFILE

Já fatigado de escrever em prosa,
este vago cronista pede ao verso
que de mansinho desabroche em rosa
e a Raquel de Queiroz hoje se oferte
pelo muito que amamos os seus livros
fraternos e pungentes, seres vivos.
Uma rosa a Raquel? Mas é tão pouco
uma flor por um mundo que começa
no Ceará e chega às Três Marias!
Falta evidentemente paridade,
como hoje se diz em cada esquina,
praia, bar, escritório da cidade.
- Falar nisso: qual é o seu salário,
meu doutor-marechal? quinhentos mil?
- Eu mesmo já nem sei, mas vou a jato
saber o último abono extraordinário
e daquele projeto que aposenta
o servidor com um dia de exercício
para ceder lugar a mais quarenta.
Ainda bem que entre tudo que nos falta,
falta igualmente número ao Congresso…
Mas quem pode aguentar meia semana
em Brasília, onde a vida anda em recesso?
Se a Capital não volta para o Rio,
pois nem o Rio a quer (Inês é morta),
e na praça tristonha dos Três Poderes
semelham um deserto fundo de horta,
o jeito, Juscelino, é por decreto
extinguir-se o governo da República,
o que não faz lá muita diferença
e formalmente fica mais correto.
Difícil é extinguir essa doença
chamada camarite vereadora,
ou, dizendo melhor, devoradora,
que já no corpo em flor da Guanabara,
perfumado a lavanda de esperanças,
coloca a nódoa espúria de uma tara.
Aproveitando a rima: e as duas Franças?
Uma, livre, querendo livre a Argélia,
outra, buscando em ferros conservá-la.
Ai, ganância cruel que assim repele a
voz da razão e o senso de justiça!
O que vibra na gente de sensível,
de reto e inconformado, neste mundo
indeciso entre trágicos destinos,
o que há de mais leal e mais profundo,
pulsa convosco, amigos argelinos.
E nessa americana poranduba,
um verso irmão lá vai, direto de Cuba,
onde o sonho dos homens se elabora,
confuso, dolorido…até que um dia
a vida, se não doce como cana,
pelo menos se torne mais humana.

Após sair do hebdomadário comunista, Drummond é chamado por Rodrigo M. F. de Andrade para trabalhar na diretoria do Patrimônio Histórico Artístico Nacional, onde mais tarde se tornará chefe da Seção de História, na Divisão de Estudos e Tombamento. Em 1946, recebe o Prêmio pelo Conjunto da Obra, da Sociedade Felipe d’Oliveira. Um prêmio importante e seu primeiro. Outro acontecimento interessante: Sua filha, Maria Julieta, publica, aos dezessete anos de idade, a novela, A busca, pela José Olympio. Um ano depois, outra tradução: Les Liaisons dangereuses, de Choderlos De Laclos, sob o título de As relação perigosas.

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CORPORAL

O arabesco em forma de mulher
balança folhas tenras no alvo
da pele.
Transverte coxas em ritmos,
joelhos em tulipas. E dança
repousando. Agora se inclina
em túrgidas, promitentes colinas.

Todo se deita: é uma terra
semeada de minérios redondos,
braceletes, anéis multiplicados,
bandolins de doces nádegas cantantes.

Onde finda o movimento, nasce
espontânea a parábola,
e um círculo, um seio, uma enseada
fazem fluir, ininterruptamente,
a modulação da linha.

De cinco, dez sentidos, infla-se
o arabesco, maçã
polida no orvalho
de corpos a enlaçar-se e desatar-se
em curva curva curva bem-amada,
e o que o corpo inventa é coisa alada.

Em 1948, Drummond publica seu Poesia até agora, com poemas que também se tornariam clássicos. Colabora em Política e Letras, de Odylo Costa, filho. Porém, no mesmo ano, uma grande perda: Falece sua mãe, Julieta Drummond de Andrade. O poeta comparece ao enterro em Itabira ao mesmo tempo em que é executada no Theatro Municipal do Rio de Janeiro a obra “Poema de Itabira”, de Heitor Villa Lobos, composta sobre seu poema “Viagem na família”. Um ano depois volta a escrever no jornal Minas Gerais. Sua filha, Maria Julieta, casa-se com o escritor e advogado argentino Manuel Graña Etcheverry e passa a morar em Buenos Aires, onde, desempenhará, ao longo de sua vida, um importante trabalho de divulgação da cultura brasileira.

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A DUPLA SITUAÇÃO

Um silêncio tão perfeito
como o que baixou agora:
sinal que já morremos
ou nem chegamos ainda à Terra.

Acabamos de sentir a morte
nas veias substituir o sangue.
Circulamos na atmosfera,
somos, corpo e brisa, um só.

Ou flutuamos no possível
sem pressa de, sem desejo de
atingir o irretratável
movimento do nascimento.

Este silêncio tão completo
em si, em nós, em nossa volta,
converte-nos em transparente
esfera
contemplada contemplativa.

Em 1950, Drummond se torna avô de Carlos Manuel, filho de Maria Julieta, nascido em Buenos Aires. Um ano depois, publica Claro enigma, Contos de aprendiz e A mesa. É também publicado em Madrid através do livro Poemas. No ano seguinte, em 1952, já com cinquenta anos, publica Passeios na ilha e Viola de bolso. 1953, mais uma mudança de trabalho. Exonera-se do cargo de redator do Minas Gerais, ao ser estabilizada sua situação de funcionário do DPHAN. Se torna avô pela segunda vez, agora, de Luis Maurício, a quem dedica do poema “Luis Maurício infante”. Seu genro, o escritor Manuel Graña Etcheverry, traduz seus poemas e o publica com o livro Dos poemas, em Buenos Aires.

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A MÚSICA DA TERRA

A dor que habita em nós, o cravo a ignora.
A vida, uma gavota? Pura dança
o amor? No minueto de Lully
cabe a dificuldade de existir?

Quinta-essência do angélico, no caos,
paira a graça de Mozart sobre o abismo,
sem devassá-lo – pássaro de nuvem.
O tempo é outro metal, a comburir-nos.

Urge romper o gosto, a norma límpida,
e sangrentas estilhas do momento
passar à forma nobre da sonata.
Urge extrair do piano o som dramático.

E suscitar o diálogo patético
entre piano e violino qual se escuta,
na penumbra da alma, a duas vozes,
um rumor de paixão se entretecendo.

Eis que a música deixa de ser pura.
Os serafins e os elfos se despedem.
A terra é lar dos homens, não dos mitos.
Há que desmascarar nosso destino.

Em tatear incessante, no conflito
corpo a corpo entre o ser e a contingência,
nova música, ungida de tristeza
mas radiante de força, vem ao mundo.

Luta o homem na área desolada
de sua solidão; luta no palco
fremente de contrastes, percebendo
que pouco a pouco cerram-se os espaços

da percepção, e tudo se limita
à captação interna, de sinais
silentes, impalpáveis, invisíveis,
nunca porém tão vivos se captados.

À proporção que a dor aumenta, e em volta
nega-lhes o amor seus bálsamos terrestres,
ganha requinte a fábrica sonora
de eternizar a vida breve em arte.

Es muss sein! É preciso! Na amargura,
na derrota do corpo, sublimada,
a canção do heroísmo e a da alegria
resgatam nossa mísera passagem.

E entreabre a sinfonia suas palmas
imensas, a conter todos o rebanho
de perplexos irmãos, de angustiados
prospectores de rumo e de sentido

para a sorte geral. O homem revela-se
na torrente melódica, suplanta
seu escuro nascer, sua insegura
visão do além, turva de morte e medo.

Ó Beethoven, tu nos mostraste o alvorecer.

Em 1954, Drummond publica seu Fazendeiro do ar e Poesia até agora. Traduz Les paysans de Balzac e realiza na Rádio Ministério de Educação, em diálogo com Lya Cavalcanti, a série de palestras “Quase memórias”. Inicia também um trabalho de duraria quinzes anos, o de cronistas do Correio da Manhã intitulada “Imagens”. Um ano depois, publica Viola de bolso novamente encordoada. Em Cadernos de Cultura, que o Ministério da Educação fazia, com célebres textos de João Cabral, Otávio de Faria, Mário Pedrosa, Lucio Costa, Paulo Mendes Campos e muitos outros, publica o 50 poemas escolhidos pelo autor, com poemas até então, fora de sua lista de mais populares.

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QUARTO ESCURO

Por que este nome, ao sol? Tudo escurece
de súbito na casa. Estou sem olhos.
Aqui decerto guardam-se guardados
sem forma, sem sentido. É quarto feito
pensadamente para me intrigar.
O que nele se põe assume outra matéria
e nunca mais regressa ao que era antes.
Eu mesmo, se transponho
o umbral enigmático,
fico a ser, de mim desconhecido.
Sou coisa inanimada, bicho preso
em jaula de esquecer, que se afastou
de movimento e fome. Esta pesada
cobertura de sombra nega o tato,
o olfato, o ouvido. Exalo-me. Enoiteço.
O quarto escuro em mim habita. Sou
o quarto escuro. Sem lucarna.
Sem óculo. Os antigos
condenam-me a esta forma de castigo.

Drummond continua com as traduções, desta vez, traduz Albertine disparue, da célebre À la recherche du temps perdu, de Marcel Proust. Em 1957, publica, Fala, amendoreira, e Ciclo. Ano seguinte, no incrível ano de 1958 (em todos os aspectos), outra publicação em Buenos Aires, só que desta vez na coleção “Poetas del siglo viente”. Drummond tem sua primeira “experiência” teatral com a montagem de sua tradução de Doña Rosita la soltera de Federico Garcia Lorca, pela qual recebe o Prêmio Padre Ventura, do Círculo Independente de Críticos Teatrais. Até que, no ano seguinte, nasce seu terceiro neto, Pedro Augusto. Através de Biblioteca Nacional, é publicada a sua tradução de Oiseaux-Mouches orthorynques du Brèsil, de Descourtilz. Colabora também em Mundo Ilustrado.

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PASSEIAM AS BELAS

Passeiam as belas, à tarde, na Avenida
que não é avenida, é longo caminho branco
onde os vestidos cor de rosa vão deixando,
não, não deixam sombra alguma, em mim é que eles deixam.

Passeiam, à tarde, as belas na Avenida.
São tão belas como as vejo, ou mais ainda?
Só de passar, só de lembrar que passam, a beleza
nelas se crava eternamente, adaga de ouro.

Passeiam na Avenida, à tarde, as belas,
as sempre belas no futuro mais remoto.
Pisam com sola fina e saltos altos
de seus sapatos de cetim o tempo e o sonho.

À tarde, na Avenida, passeiam as belas,
seios cuidadosamente ocultos mas arfantes,
pernas recatadas, mas sabe Deus as linhas perturbadoras
que criam ritmos, e o caminho branco é todo ritmo.

Na Avenida, passeiam as belas, à tarde,
no alto da cidade que entre árvores se apresta
para o sono das oito da noite e não sabe que as belas
deixam insone, a noite inteira, uma criança deslumbrada.

No início dos anos sessenta, Drummond começa a colaborar para o programa Quadrante da Rádio Ministério da Educação, instituído por Murilo Miranda. No mesmo ano, uma perda, falece seu irmão Altivo. As publicações não param e ao mesmo tempo saem Lição das coisas, Antologia poética e A bolsa & a vida. Em 1962 é demolida a cada da Rua Joaquim Nabuco 81, onde viveu durante 21 anos. Desde então, passa a residir em apartamento. Saem mais traduções suas de L’Oiseau bleu, de Maurice Maeterlinck e de Les Fouberies de Scapin, de Molière, a qual é encenada no Teatro do Tablado do Rio de Janeiro, e recebe o Prêmio Padre Ventura. No mesmo ano, aposenta-se como Chefe de Seção da DPHAN, após 35 anos de serviço público, recebendo carta de louvor do ministro da Educação, Oliveira Brito.

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A MOÇA FERRADA

Falam tanto dessa moça. Ninguém viu,
todos juram.
Cada qual conta coisa diferente,
e todas concordantes.
Dizem que à noite, ela. Ela o quê?
E com quem? Com viajantes
que somem sem rastro
gabando no caminho
os espasmos secretos (tão públicos) da moça.

Sobe a moça
a ladeira da igreja
para reza de todas as tardes.
De branco perfeitíssimo,
alta, superior, inabordável
(luxúria de mil-folhas sob o véu,
murmura alguém).
À noite é que acontecem coisas
no quarto escuro. Ganidos de prazer,
escutados por quem? se ninguém passa
na rua de altas horas-muro?

Pouco importa, a moça está marcada,
marca de rês na anca, ferro em brasa
de língua popular.

Nos anos sessenta continuam as publicações e prêmios: Tradução de Sult (Fome) de Knut Hamsun; Prêmio Fernando Chinaglia da União Brasileira de Escritores, e Luisa Cláudio de Sousa, do PEN Clube do Brasil, ambos por Lição das coisas; Obra completa, pela Aguilar; Antologia Poética em Portugal; In the Middle of the Road, nos Estados Unidos, Poesie, na Alemanha; Rio de Janeiro em prosa & verso em parceria com Manuel Bandeira; Cadeira de Balanço; traduções de seus livros na Suécia, Praga e Argentina. Em 1968, seu longo e célebre Boitempo. Começa a escrever para o Jornal do Brasil em 1969. Drummond parece colher frutos de tanta dedicação à poesia. Publica Reunião, Caminhos de João Brandão e Seleta em prosa e verso, já no início dos anos setenta. E começando bem esta década nova, publica Poemas em Cuba.

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APONTAMENTOS

O deslizante cisne destas águas
nem simbolista nem parnasiano;
a tartaruga em si mesma trancada;
as rêmiges de fogo no viveiro;
o cris da areia em solas transeuntes;
o guarda que de inerte se assemelha
às árvores, e árvore é com sua farda;
o macaco brincando de ser gente;
a foto de jornal sobre o canteiro;
essa flor que nasceu sem dar aviso
nos ferros rendilhados do gradil;
a caixa envidraçada de empadinhas
e cocadas baianas logo à entrada;
o ver, em si, como ato de viver;
o perder-se e encontrar-se nas aléias,
no entrelaçar de curvas sombreadas,
de onde espero surgir alguma ninfa
sem que surja nenhuma (e continuo
procurando a metáfora do sonho);
o barquinho alugado por sessenta
minutos, e o perfume, que é gratuito,
de resinosos troncos tutelares
desta gentil paisagem recolhida;
uma cantiga – ó minha Carabu…
entoada à distância e logo extinta;
o torpor que a meu ser eis se afeiçoa
na vontade de relva, de reflexo,
de sopro, de sussurro me tornar;
a ausência de relógio e de colégio,
de obrigação, de ação, de tudo vão.

Os anos setenta correm e Drummond publica muito: O poder ultrajovem, em Buenos Aires; As impurezas do branco; Menino antigo; Boitempo II; Lá bolsa y la vida, em Buenos Aires; Réunion, em Paris. Recebe o Prêmio de Poesia da Associação Paulista de Críticos Literários e se torna membro da American Association of Teachers os Spanish and Portuguese, nos Estados Unidos. Publica também Amor, amores e recebe o Prêmio Nacional Walmap de Literatura, e recusa, por motivo de consciência, o Prêmio Brasília de Literatura, da Fundação Cultural do Distrito Federal. Em 77, aparecem sua gravações de 42 poemas em dois long plays. Sai também UYBETBO BA CHETA (Sentimento do mundo) em Búlgaro. Em 79, viaja para Buenos Aires urgentemente, pois, sua filha Maria Julieta se encontrava doente.

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MORTO VIVENDO

Aquele morreu amando.
Nem sentiu chegar a morte
quando à vida se abraçava
nem a morte o castigou.
Enquanto beijava o amor
a morte o foi transportando
nos braços do amor gozoso
sem desatar-se a cadeia
de vida enganchada em vida.
Aquele morreu? Quem sabe
o que foi feito do amante
alçado em coche de chamas
ou carruagem de cinzas
no ato pleno de amar?
Não corrigiu a postura,
não voltou aos intervalos
de solitude a espera,
não repetiu mais os gestos
fora do ritmo amoroso.
Morreu completo, no êxtase
de estar no mundo e extramundo.
Que sabe a morte do abraço
paralisado na luz
do quarto aberto ao amor
e defeso a tudo mais?
E se continua vivo
e mais do que vivo amando
sem paredes e sem ossos
nos vazios espaciais,
não sei como, não sei quem?

No início dos anos oitenta, Drummond recebe o Prêmio Estácio se Sá, de jornalismo, e Morgado Mateus, de poesia, em Portugal. Lança Paixão Medida, e faz uma noite de autógrafos na Livraria José Olympio junto com Um buquê de alcachofras de sua filha Maria Julieta Drummond de Andrade. Mais lançamentos em países, Estados Unidos e Holanda. Em 82, faz 80 anos. São realizadas exposições comemorativas na Biblioteca Nacional e na Casa Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Os principais jornais do Brasil publicam suplementos em homenagem ao poeta. Recebe o título Doutor Honoris Causa, pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Cartazes são feitos e distribuidos pela cidade e sai o imenso livro de cartas entre Drummond e Mário de Andrade. Publica também Carmina drummondiana, com seus poemas traduzidos para o latim. Após 41 anos, muda de editora, sai da José Olympio e assina com a Record. Despede-se também do Jornal do Brasil com a crônica ‘Ciao’.

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ANTEPASSADO

Só te conheço de retrato,
não te conheço de verdade,
mas teu sangue bole em meu sangue
e sem saber te vivo em mim
e sem saber vou copiando
tuas imprevistas maneiras,
mais do que isso: teu fremente
modo de ser, enclausurado
entre ferros de conveniência
ou aranhóis da burguesia,
vou descobrindo o que me deste
sem saber que o davas, na líquida
transmissão de taras e dons,
vou te compreendendo, somente
de esmerilar em teu retrato
o que a pacatez de um retrato
ou o seu vago negtivo,
nele implícito e reticente,
filtra de um homem; sua face
oculta de si mesmo; impulso
primitivo; paixão insone
e mais trevosas intenções
que jamais assumiram ato
nem mesmo sombra de palavra,
mas ficaram dentro de ti
cozinhadas em lenha surda.
Acabei descobrindo tudo
que teus papéis não confessaram
nem a memória de família
transmitiu como fato histórico
e agora te conheço mais
do que a mim próprio me conheço,
pois sou teu vaso e transcendência,
teu duende mal encarnado.
Refaço os gestos que o retrato
não pode ter, aqueles gestos
que ficaram em ti à espera
de tardia repetição,
e tão meus eles se tornaram,
tão aderentes ao meu ser
que suponho tu os copiaste
de mim antes que eu os fizesse,
e furtando-me a iniciativa,
meu ladrão, roubaste-me o espírito.

Em 1986, Drummond escreve 21 poemas para a edição do centenário de Manuel Bandeira, ‘Bandeira a vida inteira’, com um disco. No mesmo ano, sofre um infarto e é internado durante 21 dias. No dia 31 de janeiro de 1987, escreve seu último poema, ‘Elegia a um tucano morto’ que passa a intergrar o livro Farewell, último livro organizado por ele mesmo. Vira tema da Estação Primeira de Mangueira com o samba enredo ‘No reino das palavras’ que vence o Carnaval. Porém, um duro golpe: Após dois meses internada, falece sua filha, Maria Julieta, vítima de câncer. “Assim terminou a vida da pessoa que mais amei no mundo”. Saem publicações em Cuba, Nova York. A vida estava terminando, porém, só por um instante.

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A HORA DO CANSAÇO

As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nos cansamos, por um ou outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

Do sonho de eterno fica esse gosto acre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

Carlos Drummond de Andrade falece no dia 17 de agosto de 1987, exatamente 12 dias depois da morte de sua filha Maria Julieta. Drummond foi enterrado junto a ela no Cemitério São João Batista do Rio de Janeiro. O poeta deixa obras inéditas como O avesso das coisas; Moça deitada na grama; O amor natural; Viola de bolso III; Farewell; e Arte em exposição, além de crônicas, dedicatórias em verso e um texto para um espetáculo musical. Alguns de seus livros são logo reeditados, tanto no Brasil quanto em outros países. Em 88, ‘Poesia errante’ recebe o Prêmio Padre Ventura pela Record. Em 89, Fernando Py organiza Auto-retrato e outras crônicas e uma série de novos livros. A Casa da Moeda homenageia o poeta emitindo uma nota de 50 cruzados.

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O AMOR ANTIGO

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

São muitas as homenagens. O Centro Cultural Banco do Brasil organiza uma grande exposição comemorativa dos 60 anos do livro Alguma poesia. Há palestras de Manuel Graña Etcheverry e Afonso Romano de Sant’Anna. Tônia Carrero encena ‘Mundo, vasto mundo’ com o coral Garganta Profunda sob direção de Paulo Autran. Também no CCBB, é encenado o espetáculo ‘Crônica viva’, com adaptação de João Brandão e Pedro Drummond. Em 1993, o livro O amor natural recebe o Prêmio Jabuti e no dia 2 de julho de 1994, falece Dolores Morais Drummond de Andrade, viúva de Drummond. Em 1996, o livro Farewell também recebe o Prêmio Jabuti. Em 1998, é inaugurado o Museu de Território Caminhos Drummondianos em Itabira e no ano 2000, é inaugurada a Biblioteca Carlos Drummond de Andrade do Colégio Arnaldo de Belo Horizonte em Minas Gerais. Tudo isto dentre muitos outros movimentos.

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NO PEQUENO MUSEU SENTIMENTAL

No pequeno museu sentimental
os fios de cabelo religados
por laços mínimos de fita
são tudo que dos montes hoje resta,
visitados por mim, montes de Vênus.

Apalpo, acaricio a flora negra,
e negra continua, nesse branco
total do tempo extinto
em que eu, pastor felante, apascentava
caracóis perfumados, anéis negros,
cobrinhas passionais, junto do espelho
que com elas rimava, num clarão.

Os movimentos vivos no pretérito
enroscam-se nos fios que em falam
de perdidos arquejos renascentes
em beijos que da boca deslizavam
para o abismo de flores e resinas.

Vou beijando a memória desses beijos.

Eis que chegamos ao final de mais uma antologia. Nessas cinco semanas que passaram, percorremos a vida e a obra de um dos mais importantes poetas brasileiros. Drummond, menino franzino de Itabira. Itabira do Mato Dentro. Espero que tenham gostado de rever ou conhecer o trabalho deste grande poeta. Na semana que vem entraremos em um outro universo poético, com outras proposições, outras possibilidades, outros poemas. Salve Carlos Drummond de Andrade! Salve a poesia nacional! E sobretudo, Salve a poesia contemporânea.

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APARIÇÃO AMOROSA

Doce fantasma, por que me visitas
como em outros tempos nossos corpos se visitavam?
Tua transparência roça-me a pele, convida
a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca
um beijo recebeu de rosto consumido.

Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,
mesma voz, mesmo timbre,
mesmas leves sílabas,
e aquele mesmo longo arquejo
em que te esvaías de prazer,
e nosso final descanso de camurça.

Então, convicto,
ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve
e continua existindo, puro som.

Aperto…o quê? A massa de ar em que te converteste
e beijo, beijo intensamente o nada.

Amado ser destruído, por que voltas
e és tão real assim tão ilusório?
Já nem distingo mais se és sombra
ou sombra sempre foste, e nossa história
invenção de livro soletrado
sob pestanas sonolentas.
Terei um dia conhecido
teu vero corpo como hoje o sei
de enlaçar o vapor como se enlaça
uma ideia platônica no espaço?

O desejo perdura em ti que já não és,
querida ausente, a perseguir-me suave?
Nunca pensei que os mortos
o mesmo ardor tivessem de outros dias
e no-lo transmitissem com chupadas
de fogo aceso e gelo matizados.

Tua visita ardente em consola.
Tua visita, ardente me desola.
Tua visita, apenas uma esmola.

junho 30, 2011

Tavinho Paes

Luiz Octávio Paes de Oliveira nasceu no Rio de Janeiro no dia 26 de janeiro de 1955, às 6:01hs, sendo, aquariano com ascendente em aquário. Nasceria na Pro-Mater, porém, acabou por ser pelas mãos de uma parteira, no Catumbi. Filho de Geraldo Paes de Oliveira e Wanda Machado de Oliveira. A família de sua mãe veio de Cascadura, sua avó Odette era telefonista e seu avô Zeca era operário de um fábrica de sapatos. Anos depois, sua mãe veio a lhe contar que, talvez, o lugar onde nasceu, numa vila no Catumbi, fora posta abaixo para dar lugar ao Sambódromo. Muito bem, nestas próximas semanas, entraremos na vida desta ímpar figura, deste nosso poeta, o inquieto Tavinho Paes.

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O TAMBOR
a pele de um bicho esticada
a casca de uma árvore podada
o eco da caverna viva
ôca oca de pigmeus
uivando vozes da terra
girando no espaço
como obra de deus
em festa ou em guerra
seja de que lado for
lá estará ele
o tambor!
rufando a vitória
gingando na roda
com seu toque de coração
soando sinos de domingo
pingo de chuva no chão
batucada e explosão!
seja como for
lá está ele como seu humor
sua majestade: o tambor!
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A avó, Odette, levava o pequeno Luiz Octávio nos terreirões dos Chorões de Cascadura e em blocos de rancho. Essas experiências com o choro e o rancho causavam muita impressão ao menino, tais marcas teriam grande importância depois. Seu avô costumava levá-lo ao Maracanã, a primeira vez tinha quatro anos de idade. O avô queria que fosse flamenguista, porém, num domingo de rodada dupla com um Flamengo e Vasco no horário principal, no jogo Botafogo e Madureira, o menino Luiz Octávio se encantou com um jogador do Botafogo fazendo estripulias com a bola, dribles inacreditáveis. O nome do jogador era Garrincha. Desde então, não teve mais dúvidas, torceria para o Botafogo. 
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Álvares de Azevedo para consulta no http://cartilhadepoesia. wordpress.com
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FISSÃO À FRIO
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nada aristocrático: erístico sou
quando pelo que sei sedado estou
e à minha sede, um pingo de suor dou
numa cama de amor com poesia e dor
genético ingênuo gênio
jogo tudo no nada que tenho
genérico geômetra, cogito versos
no poema genoma que engenho
para cubista como a cruz do cristo
ressuscitar rabo de lagartixa ou fígado
equivocadamente, invocando o tagarela
que iludido pelo que na fala revela
acende velas e faz da cela capela
até que no amor em que o isolo
calado encontre no colo o elo
que o amamenta cozinha e come
dando-lhe vida com idade e nome
num poema que o destino atropela
com o calor que a palavra congela
miasmo o fantasma que me amansa
vedando a tomada mnemônica
do mínimo amor que em máximos amei
vedanta que me inventa nirvanas
com meu poema pé de lama
num mundo que nele diz-se maya
ao Mayakovski que desmaiado chego
qual Kant à moda do noema
fazendo poema noeseando um mesmo tema
em mitos que imito cena a cena
através de filmes que filmo vendo cinema
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A avó de Tavinho, Ilka Paes de Almeida Leite era uma aristocrata. Mesmo tendo tido problema de catarata no fim da vida, sabia, pelo tato, as diferenças dos guardanapos de linho dos demais e corrigia tudo que enconrava de errado na mesa. Foi ela quem deu as primeiras leituras para Tavinho, Olavo Bilac, Fagundes Varella, Casimiro de Abreu, Fernando Pessoa e Vinicius. Tavinho decorava alguns poemas. A grande leitura mesmo foi Monteiro Lobato. Tavinho aprendeu a ler aos cinco anos e sua avó ainda enxergava. Ela lia com ele Os 12 Trabalhos de Hércules, As reinações de Narizinho, Saci e todos os outros. A querida avó também lhe apresentou aos Irmãos Grimm e La Fontaine. Ela também dava uns trocados escondidos para que Tavinho comprasse gibis. O Fantasma, O Brasinha, O Príncipe Valente. E por fim, teve mania de booklets da Editora Brugera (que ficava em Bonsucesso, e que depois viriam a influenciar suas primeiras publicações) de Marcial Lafuente Stephania e os clássimo Giselle Monfort da espiã nua que abalou Paris.
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BRINQUEDOS
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poesia é uma lembrança
da infância
que toda criança
inocentemente não sabe
que um dia
há de se acabar
é por uma instintiva esperança
que essa mesma criança
inventa brinquedos
que serão seus segredos
com os quais
no futuro
continuará a brincar
a poesia é um brinquedo
que não quebra nas mãos
de quem com ele
souber brincar.
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O pai de Tavinho adorava cavalos, cassinos e carteados. Com a questão do jogo do pai, Tavinho acabou por morar em vários lugares durante a infância. Cascadura, Largo do Machado, Ipanema, Ramos, Méier, Flamengo, Grajaú, Madureira… Em um mês de sua vida, Tavinho, morando em uma casa na Aníbal de Mendonça em Ipanema, por exemplo, teve que se mudar da noite para o dia para uma casa em Jacarépaguá, onde havia um pomar, porém, em dois dias, teve que se mudar para a Urca. O pai de Tavinho teve o registro de jornalista cassado quando veio o não muito falado AI 15. Uns homens invadiram sua casa em Cascadura e levaram seu pai. Então, Tavinho, dos 13 aos 17, morou em Bonsucesso. Nessa época, estudava no antológico colégio Amaro Cavalcanti no Largo do Machado em Laranjeiras, perto do Catete.
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HIERÓGLIFO
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vou disparar num tiro
um novo profano encanto
antigo e atual de propósito
à propósito do que na poesia imanto
suponha que tomo em mãos um taco
e que na bola que rebato
canto de galo
matando cobra
mostrando o que falo ao falo
retornando calado à caverna
onde ao fogo uma sombra revela
um gigante como um elefante
que ionesco como rinoceronte
conclama os que são finos
a se tornarem elegantes
zombando sem um pingo de piedade
dos que são legalmente ignorantes
sem perdoar a estupidez
que os mantêm abobalhados
literalmente párias insignificantes
todos a caminho da sepultura
felizes filósofos farfalhando falas
arrulhando dogmas arrogantes
contando com dinheiro bastante
para fazerem as contas se pagarem
fazendo de conta
que viveram vidas nababescas
num ritmo alucinante
burro! cretino! tapado!
tal é o peixe que vejo
sentindo sede
fisgado no anzol
engasgado no molinete
prisioneiro por inteiro da rede
sufocando com tanto ar fora d’água
debatendo-se com as guelras molhadas
perto da morte e da frígida frigideira
em que será assado frito e temperado
antes de ser servido num banquete
a um preço melancolicamente salgado
que só será totalmente pago
se o jejum de quem o devorar
aprová-lo na língua e no paladar
para depois ejetá-lo
misturado como cimento e barro
obrado numa privada
de um banheiro fedorento
numa louça sem ralo
eis a esfinge que poema invento
com ávaras metáforas frescas
metonimicamente invocadas
em sacrifício retórico total
nele: a poesia é lótus na lama
flor imaculada
sem perfume
sem nada
decifra-a ou morra com ela
na língua encalacrada
ou ignore-a
veperino vate ignorante
e deixe toda a poesia
dita ou escrita
longe da tua maldita
burrice ululante
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Tavinho morou por alguns anos, de favor, na casa de uma tia no Conjunto do Jardim Ipê na Avenida Itararé, próximo do que hoje é conhecido por Complexo do Alemão. Ali, Tavinho teve uma infâcia lúdica, soltando pipas e brincando na rua, na essência “moleque” que o Nelson Rodrigues tanto admirava. Perto de onde brincava, havia uma fábrica de calcinhas e sutiãs chamada Poesi! Tavinho admirava as operárias sendo revistadas antes de entrar na fábrica. Tinha naquilo uma espécie de experiência de encantamento com a mulher. Voltando aos livros, Tavinho teve muita impressão dos livros O Clube de Sr. Pickwick de Charles Dickens e Don Quixote de Cervantes. Um pouco de Machado também, e Eça de Queiroz em A Ilustre casa de Ramires.
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A NATUREZA DE DEUS
a natureza não se programa
mas ela reprograma interferências
em suas insondáveis programações
quer saber se isto é coisa de deus?
então pergunte aos vulcões
a que horas ferverão como o sol…
entenda-se com furacões e tornados
que vão para onde querem
e a qualquer hora mudam de lado…
informe-se com as tsunamis
e cuide-se para não ficar molhado…
não indague a natureza
a nada ela responde
a tudo: reage
invisível que nem miragem
não se expõe nem se esconde
magnífica mirabolante
máxima mínima selvagem
quer saber a quanto tempo é assim?
então pergunte ao passado
quando não havia nem pátria nem língua
e as grandes conquistas dos animais
tinham a ver com almoço e jantar
não adianta insistir nem regatear
a natureza não responde nenhuma pergunta
não fala nada sobre nada
a natureza é muda
a natureza muda
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Tavinho era estudante da PUC nos anos setenta e lá conheceu muita gente interessante que teria grande influência em sua vida. Começou a escrever poemas por essa época. Os poemas eram para amigas de faculdade, com especial devoção para duas: Laís Chamma e Angela Góis. Um grupo interessante também se formou na PUC com Alfredo Herkenhoff, Demétrio de Oliveira Gomes e Rosana, que tinha um fusca que se chamava Valente Valentina, pois só andava com seis dentro. Tempos felizes. De grupos importantes na vida de Tavinho ainda havia o da boêmia do boteco Billy’s com Chicão, Kiki, Torquato Mendonça, Goga e Patrícia Cazé, que viria a ser noiva do Cazuza e chamou-o para a turma. A turma da Cobal também era boa com o Abel Silva, Aldir Blanc, João Paulo de Andrade, Antônio Pedro, Macalé e Tom Jobim. Vida que segue.
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POESIA MENINA
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amo as mulheres crianças
de alma infantil e cabeça na dança
com as quais posso brincar de médico
gosto das que topam soltar pipa
das que pulam amarelinhas
jogam bolas de gude
tomam banho de rio, mar e açude
reconhecendo nelas yaras
yemanjás, oxuns e iansãs
brincando de pera, uva e maça
amo as mulheres meninas
em especial: as bem agitadinhas
as capacitadas pelo espírito
a agirem livres na hora do rito
que nos rituais de passagem
passam a limpo
os segredos que omito
sem perderem a viagem
amo as mulheres que passam
pela minha vida
montadas num cavalo alado
em direção ao futuro
sempre presentes no meu passado
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Tulipa Negra foi o primeiro livro mimeografado de Tavinho Paes. Publicado em 1973, foram cinquenta exemplares, sem design. Porém, após a publicação do primeiro, Tavinho descobriu que o mimeógrafo também imprimia imagens, fotos e desenhos. Assim, os livros sempre teriam algo a mais. Começava aí o início com o diálogo com as artes plásticas, que viria depois a influenciar nas performances. Os títulos saíam em ritmo acelerado: A maçã podre; Pelotão de fuzilamento; P(r)onto para A(r)mar; A Pin-up do Marinheiro; Hamburger do Coração; Frágil Tarzan e por aí vai, até 1975, quando Tavinho inaugura sua fase de booklets, pequenos livros de bolso, com Travesti Bossal. A partir de então, a produção poética variava entre os booklets e os planfletos. Tavinho vendia em tudo que era lugar e pagava todas as contas.
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JAZZ
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não saberia precisar o preciso momento
em que meu impreciso sonho sonhou o seu
nem se foi de amor o sentimento
que senti como quem sente o tempo
soprar moinhos de um imaginário catavento
começando o que não tem começo
talvez nem lembre seu nome
te chamando com pronomes
pelos quais você responde
em nome do que nem tem nome
quem sabe o silêncio soe assobio
revelando o nome oculto
que te nomeia alguém sem nome
enquanto teu corpo dança
música de um sonho meu
sem perder a inocência
que de mim já se perdeu
sola este jazz de tesão paixão desejo
no sonho em que te vejo e me vejo
sem pedir nem mais nem menos
nem ao primeiro nem ao último beijo
jazz que me nina menino no colo
me adormece e me devolve
ao sonho meu que agora é seu
antes que eu acorde entre os acordes
e te ame só pela música que você me deu
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A abordagem dos leitores nos anos setenta fazia parte do que Tavinho chama de “ato poético”. O poeta diz que o objeto-livro, sobretudo entre jovens poetas, praticamente não existia, e por isso, era necessária uma intervenção performática para as vendas. Tavinho desenvolveu bem isso. Chamava de “parangolé portátil” e tinha o tamanho de um maço de cigarro. Porém, Tavinho também fazia lançamentos. Em um deles, do booklet Luau! O lançamento foi no bar Lual que ficava na curva do Joá. Tavinho achou o bar à beira da falência e chamou uma penca de pessoas para um sarau com canjas de música. Divulgação bico calado no boca a boca pois a polícia não era nada fácil. Apareceram lá Caetano Veloso, Paula Gaetan (que viriam numa limosine) Marina Lima, Richtie, Romi de Vitti (a Marilyn Monroe do Leblon) Lobão e outros jovens ilustres. Cazuza que ainda não cantava ficou sendo o responsável pelas “especiarias proibidas”. Tudo ia bem, até o jornalista Nelson Mota deu uma nota numa coluna da qual era responsável. Resultado: às onze da noite já estava lotado. Neville D’Almeida e Bebel Gilberto não conseguiram entrar. Noite memorável. Coisas aconteceram ali que só quem esteve lá sabe.
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CAÍ DO CÉU
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eu sou a lira de um anjo festeiro
caí na terra, era noite de São João
assiti missa e casamento e quadrilha
o fogo da fogueira esquentou meu coração
fiquei na terra procurando um bom amigo
amei o vento e o vento vai para onde quer
as minhas flechas são as flechas do Cupido
quando chegam no alvo atingem alma de mulher
eu tenho asas de um anjo bagunceiro
sou brasileiro: eu me misturo na multidão
a minha luz é a de um sol de fevereiro
e o carnaval na rua é a minha procissão
se você quer que eu proteja o seu destino
faça-me amor com amor no coração
eu sou um anjo carente de carinho
seu eu cruzar o teu caminho
me pega
e me leva pela mão
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Tavinho conheceu o mimeógrafo através de Jamari França, nos diretórios acadêmicos da PUC no início dos anos setenta. Ficou ainda mais fascinado quando descobriu que a máquina fora inventada pelo Thomas Edison, o inventor da lâmpada elétrica. “O mimeógrafo, para mim, era uma luz!”. O livros iam na linha de Preço da Passagem de Chacal e Travessa Bertalha de Charles Peixoto, porém, consta, sem tê-los visto os produziu pela primeira vez. A relação da Tavinho com as Artes Plásticas se deu muito através das revistas de arte que o Paulo Herkenhoff disponibilizava na pensão que morava em Botafogo com seu irmão Alfredo. Como não havia eventos de poesia, as exposições de fotografias eram um lugar para encontrar as pessoas, inclusive os poetas. Tavinho bebeu muito em Anna Bella Geiger, Ligia Pape, Ligia Clark, Vito Acconci, Josef Beyus e, sobretudo, em Chris Burden, que criou o conceito Art-Action. Sempre com a coisa de expor o corpo em suas proposições, assim, Tavinho pensava que expondo seu corpo na venda de seus livros, corria um risco maior ainda por causa da ditadura.
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AZUL
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aviões e bombas voam como urubus
discos voadores levitam que nem hindus
morcegos escutam de longe
o que de perto nem enxergam
e as paixões humanas
quando não voam: cegam!
o sexo dos anjos está nas asas
como o de mulheres dando a luz
vampiros adoram virgens complicadas
preferem que elas tenham sangue azul
tudo que voa
vê lá de cima o que quer
mas só vento vai para onde quiser
assobia nas frestas
das portas e janelas
invisível como fantasma
sua alma vai e volta
será que vem do norte?
ou terá vindo do sul?
trará consigo a sorte
como traz paz para os hindus?
para muitos anunciará a morte
mas só para uns poucos
esta morte será azul
como o céu da terra
como a terra
azul
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Certa vez, quando foi fazer um curso pré-vestibular em São Paulo, Tavinho, que estava com alguns planfletos nas mãos, estava no pátio da GAZETA e foi detido pela polícia nas escadarias da gazeta. Os inspetor não sabia do que se tratava e acabou por pedir que o removessem de lá. Levaram-no para o DOPS na Estação da Luz e o colocaram numa sala. Tavinho ficou lá por algumas horas, apavorado, quando sentiu vontade de ir ao banheiro. Foi até a porta e descobriu que ela sempre esteve aberta. Saiu da sala e perguntou a um homem cheio de pastas onde era o WC. O homem lhe mandou descer as escadas pois o banheiro do andar estava entupido. Tavinho desceu, não havia ninguém. Passou pelos corredores, sentinelas até chegar na saída. Foi embora sem ninguém ter notado.
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O MENSAGEIRO
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quem vai te dizer
que eu te amo
não há de ser
uma carta
um recado
uma fofoca
um telefonema
nem os versos
deste vago poema
quem vai te dizer
que eu te amo
vai ser o tempo
o mensageiro
que nunca chega tarde
e sempre
pede a quem o aceita
para que tenha paciência
e o aguarde
ele é o mensageiro
que voa volúvel no vento
e leva consigo
o que num eu te amo
longe das palavras
é puro sentimento
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As primeiras parcerias musicais de Tavinho foram meio forçadas, com o cantor Léo Jaime. Tavinho gostava de rock e tinha desejos de escrever algum tipo de jazz, mas não entendia muito de letras de música. Assim nasceu Enfant Terrible, gravada pelo Eduardo Dusek. Tavinho tinha um grupo de performance chamado Poema Terror, com Torquato Mendonça, Demétrio de Oliveira Gomes, Divana, Soninha Toda Pura e Steve Quest. Depois disso compôs, em parceria tripla, Gata Todo Dia, gravada pela Marina Lima. O dinheiro pintou e Tavinho gostou da ideia. Até que na virada de 82 para 83, apareceu um de seus grandes parceiros, Arnaldo Brandão. Ele já tinha musicado um poema de um livreto de Tavinho, O Caso de Jane e Julia e a parceria firmou. Daí vieram Rádio Blá, Totalmente Demais, Renascença Rock, Carência Não!, Partido Verde Alemão e Plic-Plic.
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UTILIDADE
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se a poesia não existisse
as borboletas não sairiam dos casulos
o zero seria nulo
as flores perderiam seus odores
o arco-íris não teria sete cores
nem haveria sol na lua
se o poema não existisse
amar seria tão triste
quanto um deserto sem oásis
ou um luar sem eclipse
se o poeta não existisse
as musas não seriam lindas
os amantes não amariam o próximo
e o próximo amor seria o último
talvez a poesia só exista
para derreter corações de gelo
afinar o piano humano
ser humana e sacana
sentimental como o medo
no dia a dia, sua serventia
é das mais vulgares
ela invoca e coloca
os imbecis e os idiotas
bem junto de seus pares
tranquilamente
em seus devidos lugares
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Moacyr Albuquerque foi outro grande parceiro musical de Tavinho, com quem fez ‘Rumba Louca’, gravada pela Gal Costa e Com Certeza, gravada pela Maria Bethânia. Tânia Alves, Mariana também foram cantoras que gravaram músicas de Tavinho. Nesse momento, meio dos anos 80, Tavinho já é bem conhecido como letrista e, por isso, procurado também. Trabalhou também com Marina Lima por alguns anos, que gravou ‘Acho que dá’, dentre outras. Tavinho tinha mais ou menos umas dez canções realmente gravadas, só que oito delas estavam censuradas. ‘Totalmente Demais’ por “apologia ao homossexualismo”. Em 1985, Tavinho e Arnaldo Brandão criam o Hanói Hanói e regravam a música, que é novamente censurada por “apologia às drogas”. Até que Caetano Veloso fez um show no Copacabana Palace cantando a música, aparecendo na TV Cultura. Tavinho era apresentado à classe média e à pequena burguesia. Nessa época era editor d’O Pasquim e iniciou uma campanha “ricos podem ouvir, pobre não pode?”, pela liberação da música. Vem mais por aí.
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ENIGMA-ME
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diga que não sabe
porque gosta de mim
que não compreende
como sou quem sou
que não sabe onde vai
nem porque contigo vou
verifique e indique problemas
que eu nem sei se tenho
chama-me de maluco
confuso e inseguro
provando a + b
que eu não me entendo
nem me compreendo
acusa-me de doente demente
acuda-me com sua ajuda impaciente
reclama do meu jeito de ser
cria-me um mistério
que eu não possa resolver
e faz amor comigo
decifrando minha esfinge
enxergando o que não posso ver
vem, amor que me domina
apresenta-me à minha própria sina
confunda a anima que me anima
corrói-me de ciúmes
domina-me com mandingas
me execra, me arranha e me xinga
torna-me teu teorema
e por amor ao poema: enigma-me!
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Sexy Yemanjah foi tirada de um livreto por Pepeu Gomes e teve muito sucesso, chegou a abrir a novela Mulheres de Areia. Em 1989, logo após o enterro de seu pai, Cazuza convidou o poeta para um fim-de-semana na casa da Fazenda Inglesa, com uma turma na qual estava a atriz Maria Zilda Bethlen, Fernando Gabeira e Ezequiel Neves. Na ocasião, Tavinho Paes foi indicado para escrever sua biografia e apresentado ao editor Caio Graco (Brasiliense) que já tinha um contrato para o tal livro, sob o título de 13 anos de Loucura. Para evitar a pressão o editor pagou uma ida de Tavinho a Paris, durante o bicentenário da Revolução Francesa, viajando num avião com Anna Maria Tornaghi e Joãozinho 30… Quando ele voltou, a família fez o que pode para evitar que tal projeto fosse realizado. No início de 1994, depois de um acordo de cavalheiro com João Araújo, o problema acabou e tavinho teve a sorte de voltar ao sistema Globo de Rádio e Televisão, abrindo a novela das 8, Mulheres de Areia com a canção Sexy Yemanjah.
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CIDADE GRANDE
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num solitário escritório
vedado à vidro fumê
no último piso
do suntuoso arranha-céus
no centro de uma grande cidade
em pleno século vinte e um
um executivo excelente
contente em ser gerente
subitamente
sente-te gente
encerrando o expediente
telefonando à portaria
para saber se no térreo
faz chuva
ou brilha um sol
artificial
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De volta de Paris, 6 meses depois, Tavinho teve que lidar com vpários problemas, tal foi o desconforto nos pais de cazuza quando souberam que o poeta fizera tudo à sua maneira e resolveu escrever um livro sobre a geração de Cazuza. Foi um bafafá: fofoca de todo tipo prenunciavam um livro escandaloso, embora Tavinho insistisse que estaria usando o esquema da pequena e da grande morte  (tirado do livro A insustentável leveza do ser) e feito uma pesquisa sobre a AIDS (que se chamava preconceituosamente GRID – Gay Related Defficience Sindrome). Foram tantas as aporrinhações que Tavinho, sob acordo então sigiloso, teve que dar os originais à família. Consta que o pai do Cazuza não gostou e jogou tudo na lareira, mas, como nada foi oficialmente confirmado; pode ser, mesmo que muito remotamente, tais escritos ainda possam vir a tona e serem checados pelo público. Ainda há tal necessidade e quiçás tais originais (uma caixa com mais de 800 folhas manuscritas) não tenham se perdido…
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QUANDO O PODER DÁ AS CARTAS
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quando o poder dá as cartas
falta um coringa no baralho
os ases se sentem reis
as rainhas andam com valetes
a sueca vira buraco
onde cada canastrão bate
pega o morto
e sai atrás de ouros
onde sobram copas, paus e espadas
até perder o que era pra ganhar
sem saber o que foi apostado
quando o poder dá as cartas
o baralho está sempre marcado
joga-se a paixão contra a ilusão
e quem tem as cartas na mão
nem sempre tem a sorte
ao seu lado
e trapaceia
por pura falta de opção
quando o poder dá as cartas
o jogo vira trabalho
a carta que cada um tem na manga
é sempre aquele coringa
que falta no baralho
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Terminando o capítulo das letras de música com um dia de atraso. Tavinho se enveredou por um caminho muito interessante e corajoso. Em 1984, Xuxa saía da Manchete para ir para a Rede Globo. A emissora, que já tinha os direitos do desenho animado He-Men, comprou os direitos de She-Ra. Tavinho já havia feito alguma letras para Xuxa, porém, esta despontou como grande sucesso. A música foi feita Joe Athanásio e tinha uma roupagem bossa nova, porém, o produtor Guto Graça Melo a transformou em rock. Era mais fácil para Xuxa cantar. Tavinho não sabia no que ia dar, estava um pouco desconfiado, até receber o primeiro pagamento de direitos autorais. Ao receber o dinheiro, Tavinho atravessou a rua, entrou numa loja de passagens e dois dias depois foi torrar 20 mil dólares nos USA, indo de Nova York a Chicago, gastando literalmente tudo em 3 meses! A música entrou em algumas coletâneas até receber uma paródia de uma banda chamada Testículos de Mary. Depois disso, Xuxa desautorizou a veiculação da música em coletâneas. Desta música, saiu o jargão beijinho, beijinho, tchau, tchau.
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ROLAVA UMA GRANA
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foi uma festa muito doida
bancada pela primeira dama
aniversário de uma amiga mui amiga
de carecas e peruas cafonas
rolava uma grana
que o sócio do marido emprestou
brindes de champagne
entre anões e mafiosos tarados
mil negócios dando certo
e outros tantos que iam sendo acertados
rolava uma grana
até pra quem nunca trabalhou
a elite da roça
zanzava num jardim encantado
som sertanejo na vitrola
e, no lago, jet-skis importados
rolava uma grana,
que ninguém sabe bem quem pagou
besame mucho
ministros dançam apaixonados…
um fantasma assina um cheque
e compra um carro para o seu namorado
rolava uma grana
e a festa era um problema de estado
tá tudo em cima e animado
mas o caçula ficou enciumado
acusou o irmão por tabela
e brigou com seu advogado…
rolava uma grana
dinheiro ali não valia nada
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Em 1975, 76, Tavinho teve uma namorada chamada Cecília Baptista cujo apelido carinhoso era Crushinha (por causa do refrigerante), os primeiros grandes poemas foram para ela. Poucos anos depois, Tavinho foi praticamente casado com Luisa Ribeiro Costa com quem fez algumas performances e trabalhos de arte ao ar livre, infelizmente, sem registros. Nos ano 90, montou com ela a exposição C.EGO com booklets antigos e quadros. A música Linda Demais foi para ela. Em 1981, Tavinho se casa com Eliana Brito Sena com quem teve três filhos: Elvis Paes (obviamente por causa do Elvis Presley), Dianna Rosa (por causa da Dianna Ross com quem Tavinho dividiu um taxi em Nova York e depois foi a um churrasco de hamburgers em sua casa) e Pedro Gabriel (por causa de Peter Gabriel). Elvis é advogado, Dianna se formou em economia em Londres e Pedro estuda Direito e é surfista conhecido no Arpoador. Mais amor amanhã.
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Como antes só que agora em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
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CINEMASCOPE
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fazer cinema
é desenhar um poema
a nankim
sobre um cubo de gelo
que bóia à deriva
nas águas de um rio
em movimento
fazer cinema
é acreditar em desejos
que só e desejam
diante de estrelas cadentes
mergulhando incandescentes
onde o sol encontra seu poente
fazer cinema
é ter a alegria da prova dos nove
recolocando as estrelas
no céu na terra que se move
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Getzi foi uma paixão efêmera que Tavinho viveu em 1981 em Nova York. Era alemã, tinha mais ou menos uns 26 anos e Tavinho passou dois meses com ela. Tavinho a conheceu numa sessão do NY Institute for Films and Art no Soho, quando Tavinho entrou numa cabine individual, por engano, e lá estava ela, vendo Ninotschka, com Greta Garbo. Moravam em um loft e todas as noites se divertiam em bares, porém, todas as quartas e sextas, o Joffrey Ballet ensaiava e, por isso, era quase impossível dormir. Foi a primeira vez que Tavinho conheceu uma mulher, de fato, independente. Era casada com um homem e tinha uma namorada e, jamais misturou as coisas. Certa vez, foram expulsos do Museu de História Natural. Getzi queria tirar uma foto (era proibido) em frente a um dos fósseis de dinossauro beijando na boca de Tavinho. O segurança chegou no meio do beijo. Getzi ria, agarrando Tavinho enquanto eram interrogados. O segurança desistiu. A despedida foi numa calçada do Central Park, com o sol refletindo nas lentes do Ray Ban de Getzi. Faltava só uma música e a cena estava pronta.
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ESTRELA GUIA
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toda lua cheia
tem uma estrela guia
que quando brilha
enche a lua de prazer
é como o sol
dando luz ao meio-dia
ou um anjo da guarda
que veio te proteger
pode ser uma pessoa amiga
uma alma gêmea
um fã
um grande amor
é sempre alguém
que te traz luz e alegria
ama tudo que você faz
vai aonde você for
se atrás de um grande homem
há sempre uma grande mulher
é porque sozinho
nesta vida
ninguém faz tudo que quer
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Nos anos 80, Tavinho teve uma experiência muito interessante nos EUA. Passava um tempo em Nova York, na mesma viagem que conheceu Getzi, a alemã. Tinha apenas 320 dólares na carteira, o que lhe permitia passar, no máximo, uma semana. Porém, ficou quatro meses e meio. Como? Vendendo livretos na rua. Do Soho à Sutton Place e em áreas nobres do West Side. Nesta ocasião, viu o começo dos rappers com seus grandes rádios na rua. Dos livretos, Tavinho tinha dois preferidos: Bang the Boeing, sobre o acidente do boeing civil 007 da Korean Airlines, que fora abatido por caças ruas sobrevoando instalações soviéticas na península de Kamatshka, o qual causou desconforto em certos veteranos, e Too Soft, com poemas de amor. Nesta mesma viagem, houve um show do Lobão e os Ronaldos, onde, muitos cantaram o que estava no panfleto que haviam comprado. Tavinho usava máquinas de xerox para seus livretos. E assim caminhava.
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SAUDADE
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saudade é perfume raro
cheiro de gente
para quem tem faro
sentimento que independe
de consentimento
emoção que nunca é descartável
carta que sente falta do baralho
saudade é chuva
que só chove no molhado
assunto delicado
que não dá para negociar
ninguém leva vantagem
em esquecer
de quem deve lembrar
nem com quem deve sonhar
mas, será que há alguém
que tem coragem de sonhar
com alguém que ama
…e acordar?
neste mundo existem milhões
que nunca disseram a ninguém
EU TE AMO
além de outros zilhões
que nunca ouviram isto de alguém
e mesmo assim
saudade todo mundo tem
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Nos anos 2000, Tavinho promoveu uma série de eventos de poesia, dentre eles o Poesia Voa, no Circo Voador. Participou do grupo que formou o CEP 20000 que até hoje resiste da cena carioca. Também participou do coletivo Voluntários da Pátria ao lado de outros artistas, apresentando-se em diversos lugares O fato interessante nisso tudo é que publicou seu primeiro livro de poesia em uma editora em 2007, os Momossexuais, com poemas e letras de música, inclusive, marchinhas. Um ano depois publicou Buzinaí Naif, ambos os livros pela Ibis Libris. Depois, publicou uma série de livretos: Paixão Inventada, Facebook e outros, jamais deixando de publicar em sua forma primeira, os livros pessoais, como objetos de arte.
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NO MAR DO AMOR
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pode ser
que no mar
o amor flutue
como ondina
na espuma
da onda que quebra
quando sua onda te pega
você tem que decidir
se afunda ou se navega
conforme as ondas
e a resistência do cais
o amor do teu mar
com seu leva-e-traz
quando resolve te pegar
faz com que você
queira se afogar
independente das marés
das caravelas e das galés
vai ser nesse mar revolto
que você se encontrará
cara a cara contigo mesmo
com quem pensa que no fundo és
e com aquele netuno
que te desobedecerá
abre teu peito e ama
a sereia que lhe encantar
se ela não lhe fizer feliz
nem contigo gozar
pelo menos com ela
vê se aprende a nadar
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Conheci Tavinho Paes numa pizzaria no Leblon onde havia o sarau Corujão da Poesia. Fui apresentado pelo João Luiz Sousa que me disse: “Você conhece o Tavinho Paes? Uma lenda vida da poesia”. Falei uns poemas lá e ficamos amigos. Logo o inclui no grupo de poesia pela internet, e ele amou. Me disse algo sobre cartilhas para o ensino médio. Por causa dele criei o blog http://cartilhadepoesia.wordpress.com, onde armazeno tudo para consulta. Passei a encontrá-lo em vários lugares. É muito importante haver poetas, como ele, que dialogam com as novas gerações, mostra para o jovem que é possível, estimula. E assim terminamos mais uma antologia, espero que tenham gostado de conhecer um pouco da poesia desta grande figura que dedica sua vida ao fazer poético constante. Semana que vem entraremos em um outro universo poético, outros poemas, outras proposições.
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SERENATA
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absolutamente de quatro por você
não posso te esquecer
exijo você de volta
e sua vida ao meu lado
ultrapassamos nossos limites
já que ultrapassados por eles
somos dois fracassados
cada um ao seu modo
cada qual com seu passado
pode chamar de orgulho bobo
esse meu pedido de socorro
expresso como um grito de agonia
nesta serenata fria
que canto
enquanto sofrendo morro
morro de amores por você
sem querer poder te dizer
que tudo que eu quero de ti
é o fogo do teu jogo
só assim acabo de vez
com esse sufoco
só assim resgato em mim
o que sempre fui
deixando de ser
este incomodo estorvo
só assim recuperarei o fôlego
de volta à tona de meu íntimo abismo
até que por amor
me deixe afogar de novo
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maio 17, 2011

Vinicius de Moraes

Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes nasceu no Rio de Janeiro, na Gávea, na Rua Lopes Quintas, no dia 19 de outubro de 1913. Filho de D. Lydia Cruz de Moraes e Clodoaldo Pereira da Silva Moraes. Seu pai era sobrinho do poeta, cronista e folclorista Mello Moraes Filho e neto do historiador Alexandre José de Mello Moraes. Vinicius nasceu pelas mãos de uma vizinha a quem o pai chamara para acompanhar o parto. Neste mês, percorreremos a poesia de um dos grandes e notáveis poetas brasileiros, sua trajetória, suas influências e algumas curiosidades que conheço. Vinicius foi o poeta que inaugurou este espécie de coluna há mais ou menos quatro anos. Até o Carnaval vamos de Vinicius. Saravah!




ÂNSIA


Na treva que se fez em torno a mim
Eu vi a carne.
Eu senti a carne que me afogava o peito
E me trazia à boca o beijo maldito.
Eu gritei.
De horror eu gritei que a perdição me possuía a alma
E ninguém me atendeu.
Eu me debati em ânsias impuras
A treva ficou rubra em torno a mim
E eu caí!

As horas longas passaram.
O pavor da morte me possuiu.
No vazio interior ouvi gritos lúgubres
Mas a boca beijada não respondeu aos gritos.

Tudo quebrou na prostração.

O movimento da treva cessou ante mim.

A carne fugiu
Desapareceu devagar, sombria, indistinta
Mas na boca ficou o beijo morto.
A carne desapareceu na treva
E eu senti que desaparecia na dor
Que eu tinha a dor em mim como tivera a carne
Na violência da posse.

Olhos que olharam a carne
Por que chorais?
Chorais talvez a carne que foi
Ou chorais a carne que jamais voltará?
Lábios que beijaram a carne
Por que tremeis?
Não vos bastou o afago de outros lábios
Tremeis pelo prazer que eles trouxeram
Ou tremeis no balbucio da oração?
Carne que possui a carne
Onde o frio?
Lá fora a noite é quente e o vento é tépido
Gritam luxúria nesse vento
Onde o frio?

Pela noite quente eu caminhei…
Caminhei sem rumo, para o ruído longínquo
Que eu ouvia, do mar.
Caminhei talvez para a carne
Que vira fugir de mim.

No desespero das árvores paradas busquei consolação
E no silêncio das folhas que caíam senti o ódio
Nos ruídos do mar ouvi o grito de revolta
E de pavor fugi.

Nada mais existe para mim
Só talvez tu, Senhor.
Mas eu sinto em mim o aniquilamento…

Dá-me apenas a aurora, Senhor
Já que eu não poderei jamais ver a luz do dia.




Vinicius tinha três irmãos: Laetitia, Helius e Lygia. Lygia foi uma grande companheira de infância do jovem Vinicius. Sua bisavó escrevia poesia, assim como seu pai, Clodoaldo. Em 1916, a família se muda para Botafogo, para a rua Voluntários da Pátria. Um ano depois, a residência seria na rua da Passagem. Vinicius fez o primário na escola Afrânio Peixoto, junto com sua irmã Lygia. Em 1920, mais uma mudança, agora para a Real Grandeza. No mesmo ano, Vinicius é batizado na maçonaria por influência de seu avô materno. Consta que teve grande impressão na cerimônia. Dois anos depois, sua última residência em Botafogo, desta vez para a mesma Voluntários da Pátria. 


O POETA


A vida do poeta tem um ritmo diferente
É um contínuo de dor angustiante.
O poeta é o destinado do sofrimento
Do sofrimento que lhe clareia a visão de beleza
E a sua alma é uma parcela do infinito distante
O infinito que ninguém sonda e ninguém compreende.

Ele é o etemo errante dos caminhos
Que vai, pisando a terra e olhando o céu
Preso pelos extremos intangíveis
Clareando como um raio de sol a paisagem da vida.
O poeta tem o coração claro das aves
E a sensibilidade das crianças.
O poeta chora.
Chora de manso, com lágrimas doces, com lágrimas tristes
Olhando o espaço imenso da sua alma.
O poeta sorri.
Sorri à vida e à beleza e à amizade
Sorri com a sua mocidade a todas as mulheres que passam.
O poeta é bom.
Ele ama as mulheres castas e as mulheres impuras
Sua alma as compreende na luz e na lama
Ele é cheio de amor para as coisas da vida
E é cheio de respeito para as coisas da morte.
O poeta não teme a morte.
Seu espírito penetra a sua visão silenciosa
E a sua alma de artista possui-a cheia de um novo mistério.
A sua poesia é a razão da sua existência
Ela o faz puro e grande e nobre
E o consola da dor e o consola da angústia.

A vida do poeta tem um ritmo diferente
Ela o conduz errante pelos caminhos, pisando a terra e olhando o céu
Preso, eternamente preso pelos extremos intangíveis.



Em 1923, Vinicius faz a primeira comunhão. Um ano depois, começa a estudar no colégio Santo Inácio e começa a cantar no coro. Faz dois grandes amigos: Moacyr Veloso Cardoso de Oliveira e Renato Pompéia da Fonseca Guimarães, sobrinho de Raul Pompéia. A escrita inicia dentro de casa, fazendo quadras sobre cenas familiares. Vinicius, aos cinco anos, desenvolve uma interessante percepção de palco quando prepara uma “apresentação” para os colegas da rua, de surpresa, colocando um rolo de música no piano, fingindo tocar, quando todos passavam pela rua. Alvoroço na janela. No colégio, Vinicius se associa aos mais levados, dando trabalho às professoras, mesmo sendo um bom aluno. Aos cinco anos, também, Vinicius se esconde debaixo da mesa de jantar para alisar as pernas de uma amiga de sua mãe.



A QUE HÁ DE VIR


Aquela que dormirá comigo todas as luas
É a desejada de minha alma.
Ela me dará o amor do seu coração
E me dará o amor da sua carne.

Ela abandonará pai, mãe, filho, esposo
E virá a mim com os peitos e virá a mim com os lábios
Ela é a querida da minha alma
Que me fará longos carinhos nos olhos
Que me beijará longos beijos nos ouvidos
Que rirá no meu pranto e rirá no meu riso.
Ela só verá minhas alegrias e minhas tristezas
Temerá minha cólera e se aninhará no meu sossego
Ela abandonará filho e esposo
Abandonará o mundo e o prazer do mundo
Abandonará Deus e a Igreja de Deus
E virá a mim me olhando de olhos claros
Se oferecendo à minha posse
Rasgando o véu da nudez sem falso pudor
Cheia de uma pureza luminosa.
Ela é a amada sempre nova do meu coração
Ela ficará me olhando calada
Que ela só crerá em mim
Far-me-á a razão suprema das coisas.
Ela é a amada da minha alma triste
É a que dará o peito casto
Onde os meus lábios pousados viverão a vida do seu coração
Ela é a minha poesia e a minha mocidade
É a mulher que se guardou para o amado de sua alma
Que ela sentia vir porque ia ser dela e ela dele.

Ela é o amor vivendo de si mesmo.
É a que dormirá comigo todas as luas
E a quem eu protegerei contra os males do mundo.

Ela é a anunciada da minha poesia
Que eu sinto vindo a mim com os lábios e com os peitos
E que será minha, só minha, como a força é do forte e a poesia é do poeta.




Fato interessante: Vinicius escrevia pequenos quartetos para os irmãos para dar de aniversário. Sempre o fazia. Péssimo aluno de matemática, certa vez, obrigou a irmã, Laetitia (ou Letícia) a namorar o sardento menino que lhe dava cola. De fato, a infância de Vinicius na Ilha do Governador foi muito importante. Ia para lá nos fins de semana. Era calmo e havia o mar. Havia também música e muitas figuras. Lá aprendeu a nadar e, nas areias de uma praia, debutou nas águas mornas do amor. No ginásio, fez amizade com os irmãos Paulo e Haroldo Tapajós, com quem começa a compor. Lá por 1927, monta com os amigos um coro e se apresenta em festinhas. Vinicius era muito esportivo, jogava no time de futebol do colégio Santo Inácio e também participava, como ator principal, de sketches teatrais nos fins de ano no colégio. Vinicius também se experimentava escrevendo peças para serem montadas no colégio. Numas delas, O Bilhete de Loteria, quase teve profundos problemas com os cardeais do Santo Inácio.


MINHA MÃE


Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Tenho medo da vida, minha mãe.
Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fronte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.

Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: – Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão, que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu.

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
Dize que eu parta, ó mãe, para a saudade.
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe.




Vinicius, quando menino, despertou certo fascínio por cinema. Dirigia pequenos “filmes” com os irmãos em frente a um lençol branco e luz. Era um cinema de silhuetas cujas histórias eram quase sempre de boxe ou tiroteio. Vinicius também frequentava muito o cinema Guanabara. Também se dedicou ao desenho, chegando, inclusive, a elaborar um desenho animado com gravuras em série. Era a criatividade se desenvolvendo. Brincava de tudo com os irmãos. Formavam quadrilha, fumavam cigarro de goiaba, liam Conan Doyle. Em sua adolescência, Vinicius brigava muito e ensaiava namoricos com as meninas da rua. Não parava em casa. Em 1929, sua família muda-se definitivamente para a Ilha do Governador e, Vinicius, após período semi-interno no Santo Inácio, forma-se no ginásio e logo depois entra para a Faculdade de Direito.


O POETA NA MADRUGADA


Quando o poeta chegou à cidade
A aurora vinha clareando o céu distante
E as primeiras mulheres passavam levando cântaros cheios.
Os olhos do poeta tinham as claridades da aurora
E ele cantou a beleza da nova madrugada.
As mulheres beijaram a fronte do poeta
E rogaram o seu amor.
O poeta sorriu.
Mostrou-lhes no céu claro o pássaro que voava
E disse que a visão da beleza era da poesia
O poeta tem a alegria que vive na luz
E tem a mocidade que nasce da luz.
As mulheres seguiram o poeta
Oferecendo a tristeza do seu amor e a alegria da sua carne
O poeta amou a carne das mulheres
Mas não envelheceu no amor que elas lhe davam.
O poeta quando ama
É como a flor que murcha sem seiva
Porque o amor do poeta
É a seiva do mundo
E se o poeta amasse
Ele não viveria eternamente jovem, brilhando na luz.

Quando a nova madrugada raiou no céu distante
O poeta já tinha partido
E seguindo o poeta as mulheres de peitos fartos e de cântaros cheios
Falavam de ardentes promessas de amor.



Em 1929, Vinicius entra para a Faculdade de Direito do Catete e a família se muda para a Ilha do Governador. Tempos felizes. Nessa época a leitura dos clássicos foi intensa. Vinicius lia e passava aos irmãos. Dostoiévski, Tolstoi, Proust, Bernanos, Mauriac, Katherine Mansfield (autora que seria grande influência em sua obra), Lawrence e muitos outros. Vinicius já havia aceitado a condição de poeta. Na Faculdade de Direito, Vinicius continua a amizade com os amigos de colégio Renato Pompéia e Moacyr Velloso, e conhece aquele que seria uma das pessoas mais fundamentais na sua formação de poeta, o escritor Octávio de Faria. Foi Octávio quem primeiro viu e acreditou na poesia que havia em Vinicius. Octávio era escritor e jornalista. Também era filho do imortal Alberto de Faria, o qual também era sogro de Afrânio Peixoto e Alceu Amoroso Lima. Vinicius tinha em Octávio um mentor e grande amigo.




ILHA DO GOVERNADOR


Esse ruído dentro do mar invisível são barcos passando
Esse 
ei-ou que ficou nos meus ouvidos são os pescadores esquecidos
Eles vêm remando sob o peso de grandes mágoas
Vêm de longe e murmurando desaparecem no escuro quieto.
De onde chega essa voz que canta a juventude calma?
De onde sai esse som de piano antigo sonhando a “
Berceuse“?
Por que vieram as grandes carroças entornando cal no barro molhado?

Os olhos de Susana eram doces mas Eli tinha seios bonitos
Eu sofria junto de Susana – ela era a contemplação das tardes longas
Eli era o beijo ardente sobre a areia úmida.
Eu me admirava horas e horas no espelho.

Um dia mandei: “Susana, esquece-me, não sou digno de ti – sempre teu…”
Depois, eu e Eli fomos andando… – ela tremia no meu braço
Eu tremia no braço dela, os seios dela tremiam
A noite tremia nos ei-ou dos pescadores…
Meus amigos se chamavam Mário e Quincas, eram humildes, não sabiam
Com eles aprendi a rachar lenha e ir buscar conchas sonoras no mar fundo
Comigo eles aprenderam a conquistar as jovens praianas tímidas e risonhas.
Eu mostrava meus sonetos aos meus amigos – eles mostravam os grandes olhos abertos
E gratos me traziam mangas maduras roubadas nos caminhos.

Um dia eu li Alexandre Dumas e esqueci os meus amigos.
Depois recebi um saco de mangas
Toda a afeição da ausência…

Como não lembrar essas noites cheias de mar batendo?
Como não lembrar Susana e Eli?
Como esquecer os amigos pobres?
Eles são essa memória que é sempre sofrimento
Vêm da noite inquieta que agora me cobre.
São o olhar de Clara e o beijo de Carmem
São os novos amigos, os que roubaram luz e me trouxeram.
Como esquecer isso que foi a primeira angústia
Se o murmúrio do mar está sempre nos meus ouvidos
Se o barco que eu não via é a vida passando
Se o ei-ou dos pescadores é o gemido de angústia de todas as noites?




Vinicius de Moraes e Octávio de Faria viveram uma amizade intensa. Chegavam a andar quase que diariamente do centro da cidade à Gávea, à pé, discutindo questões relacionadas à morte, vida, Deus, o mal e outras coisas. Às vezes, ficavam tão cansados que dormiam na praia. Através de Octávio, Vinicius conheceu o poeta Augusto Frederico Schmidt, ficaram amigos. Na faculdade de Direito, Vinicius faz amizade com Mário Vieira de Mello, José Arthur da Frota Moreira e Almir Castro. Formou-se um grupo. Reuniam-se na casa de Vinicius ou no sítio de Octávio em Itatiaia. Certa vez, a sobrinha de Octávio, Maria Lucia Proença, ainda menina, perguntou a Octávio o que eles comiam nessas reuniões, Octávio respondeu: “Nada, só conversamos”. Ela compreenderia anos mais tarde.


O CADAFALSO


Eu caí de joelhos diante do amor transtornado do teu rosto
Estavas alta e imóvel – mas teus seios vieram sobre mim e me feriram os olhos
E trouxeram sangue ao ar onde a tempestade agonizava.
Subitamente cresci e me multipliquei ao peso de tanta carne
Cresci sentindo que a pureza escorria de mim como a chuva dos galhos
E me deixava parado, vazio para a contemplação da tua face.
Longe do mistério do teu amor, curvado, eu fiquei ante tuas partes intocadas
Cheio de desejo e inquietação, com uma enorme vontade de chorar no teu vestido.
Para desvendar as tuas formas nas minhas lágrimas
Agoniado abracei-te e ocultei o meu sopro quente no teu ventre
E logo te senti como um cepo e em torno a mim eram monges brancos em ofício de mortos
E também – quem chorou? – Vozes como lamentações se repetindo.
No horror da treva cravou-se em meus olhos uma estranha máscara de dois gumes
E sobre o meu peito e sobre os meus braços, tenazes de fogo, e sob os meus pés piras ardendo.
Oh, tudo era martírio dentro daquelas vozes soluçando
Tudo era dor e escura angústia dentro da noite despertada!
“Me salvem – gritei – me salvem que não sou eu!” – e as ladainhas repetia – me salvem que não sou eu!
E veio então uma mulher como uma visão sangrenta de revolta
Que com mão de gigante colheu o que de sexo havia em mim e o espremeu amargamente
E que separou a minha cabeça violentameme do meu corpo.

Nesse momento eu tive de partir e todos fugiam aterrados
Porque misteriosamente meu corpo transportava minha cabeça para o inferno…




Aos vinte anos, Vincius se apaixona por uma moça burguesa paulista cujos pais não apreciavam a ideia dela se casar com um jovem formado, porém, desempregado e ainda indeciso sobre seu futuro. Houve uma ruptura, porém, o início de uma caminhada lírica. Em 1933, forma-se em Direito, finaliza o Curso de Oficial da Reserva e, estimulado por Octávio de faria, publica seu primeiro livro: O caminho para a distância. Dois anos depois, em 1935, seu primeiro grande êxito literário: o livro Forma e Exegese, com o qual ganha o Prêmio Felipe d’Oliveira, disputando com o Mar Morto de Jorge Amado. Agora estava mais maduro. Em 1936, publica o poema Ariana, a mulher e substitui Prudente de Moraes Neto no cargo de representante do Ministério da Educação junto à censura cinematográfica. Também conhece Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Ficam logo amigos. Nos dois primeiros livros, a incrível influência da poesia francesa em Arthur Rimbaud, Baudelaire, Mallarmé, André Gide e do tcheco Rainer Maria Rilke.

A IMPOSSÍVEL PARTIDA

Como poder-te penetrar, ó noite erma, se os meus olhos cegaram nas luzes da cidade 
E se o sangue que corre no meu corpo ficou branco ao contato da carne indesejada?… 
Como poder viver misteriosamente os teus recônditos sentidos 
Se os meus sentidos foram murchando como vão murchando as rosas colhidas 
E se a minha inquietação iria temer a tua eloqüência silenciosa?… 
Eu sonhei!… Sonhei cidades desaparecidas nos desertos pálidos 
Sonhei civilizações mortas na contemplação imutável 
Os rios mortos… as sombras mortas… as vozes mortas… 
…o homem parado, envolto em branco sobre a areia branca e a quietude na face… 
Como poder rasgar, noite, o véu constelado do teu mistério 
Se a minha tez é branca e se no meu coração não mais existem os nervos calmos 
Que sustentavam os braços dos Incas horas inteiras no êxtase da tua visão?… 
Eu sonhei!… Sonhei mundos passando como pássaros 
Luzes voando ao vento como folhas 
Nuvens como vagas afogando luas adolescentes… 
Sons… o último suspiro dos condenados vagando em busca de vida… 
O frêmito lúgubre dos corpos penados girando no espaço… 
Imagens… a cor verde dos perfumes se desmanchando na essência das coisas… 
As virgens das auroras dançando suspensas nas gazes da bruma 
Soprando de manso na boca vermelha dos astros… 
Como poder abrir no teu seio, oh noite erma, o pórtico sagrado do Grande Templo 
Se eu estou preso ao passado como a criança ao colo materno 
E se é preciso adormecer na lembrança boa antes que as mãos desconhecidas me arrebatem?…



Em 1938, Vinicius publica o livro Novos Poemas, com o qual é agraciado com a primeira bolsa do Conselho Britânico para língua e literatura inglesa em Oxford, para onde parte em agosto do mesmo ano. Nesse período, conhece, na casa de Augusto Frederico Schmidt, outro que seria de enorme influência em sua vida, o poeta e compositor, Jayme Ovalle. Anos mais tarde, Vinicius entrevista Jayme Ovalle para o semanário Flan, ficaram dois dias dentro de um quarto de hotel onde conversaram sobre tudo. NUm dado momento, Vinicius perguntou a Jayme: “A Poesia, Ovalle, que é a Poesia?” e ele responde: “É a coisa mais importante do mundo. Todo mundo nasce com ela, porque ela é a própria vida. Todo mundo é criado com o dom da poesia, e só deixa de ser poeta porque perde a inocência. Quanto mais um homem cresce carregando, consigo a sua inocência, maior poeta ele é. No fundo, esse pessoal que se torna banqueiro, ou senador, ou Presidente da República, só faz isso porque deixou de ser poeta, ou porque é poeta frustrado.”



VIAGEM À SOMBRA


Tua casa sozinha – lassidão dos devaneios, dos segredos. Frocos verdes de perfume sobre a malva penumbra (e a tua carne em pianíssimo, grande gata branca de fala moribunda) e o fumo branco da cidade inatingível, e o fumo branco, e a tua boca áspera, onde há dentes de inocência ainda.

És, de qualquer modo, a Mulher. Há teu ventre que se cobre, invisível, de odor marítimo dos brigues selvagens que eu não tive; há teus olhos mansos de louca, ó louca! e há tua face obscura, dolorosa, talhada na pedra que quis falar. Nos teus seios de juventude, o ruído misterioso dos duendes ordenhando o leite pálido da tristeza do desejo.

E na espera da música, o vaivém infantil dos gestos de magia. Sim, é dança! – o colo que aflora oferecido é a melodiosa recusa das mãos, a anca que irrompe à carícia é o ungido pudor dos olhos, há um sorriso de infinita graça, também, frio sobre os lábios que se consomem. Ah! onde o mar e as trágicas aves da tempestade, para ser transportado, a face pousada sobre o abismo?

Que se abram as portas, que se abram as janelas e se afastem as coisas aos ventos. Se alguém me pôs nas mãos este chicote de aço, eu te castigarei, fêmea! – Vem, pousa-te aqui! Adormece tuas íris de ágata, dança! – teu corpo barroco em bolero e rumba. – Mais! – dança! dança! – canta, rouxinol! (Oh, tuas coxas são pântanos de cal viva, misteriosa como a carne dos batráquios…)

Tu que só és o balbucio, o voto, a súplica – oh mulher, anjo, cadáver da minha angústia! – sê minha! minha! minha! no ermo deste momento, no momento desta sombra, na sombra desta agonia – minha – minha – minha – oh mulher, garça mansa, resto orvalhado de nuvem…

Pudesse passar o tempo e tu restares horizontalmente, fraco animal, as pernas atiradas à dor da monstruosa gestação! Eu te fecundaria com um simples pensamento de amor, ai de mim!

Mas ficarás com o teu destino.




Em 1939, Vinicius, casa-se por procuração com Beatriz Azevedo de Mello, sua primeira mulher. Tati, como era chamada, era de uma família de São Paulo. Vinicius, que estava em Oxford, em virtude da II Guerra Mundial, é obrigado a sair da Inglaterra e vai para Portugal. Lá encontra seu amigo Oswald de Andrade, com quem volta para o Brasil. A esta altura, Tati, já esperava seu primeiro filho, ou filha, Susana, que nasce em 1940. Susana nasceu na rua das Acácias, na Gávea. No mesmo ano, passa longa temporada em São Paulo, onde, torna-se amigo próximo de Mário de Andrade. Passa então a trabalhar no A Manhã como redator do Suplemento Literário, escrevendo, também, crítica de cinema. No Suplemento, também participavam Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Rineiro de Couto e Afonso Arinos de Melo Franco, orientados por Múcio Leão e Cassiano Ricardo. Vinicius ansiava por um trabalho que fosse mais livre.

SONETO À LUA


Por que tens, por que tens olhos escuros
E mãos lânguidas, loucas e sem fim
Quem és, quem és tu, não eu, e estás em mim
Impuro, como o bem que está nos puros?

Que paixão fez-te os lábios tão maduros
Num rosto como o teu criança assim
Quem te criou tão boa para o ruim
E tão fatal para os meus versos duros?

Fugaz, com que direito tens-me presa
A alma que por ti soluça nua
E não és Tatiana e nem Teresa:

E és tampouco a mulher que anda na rua
Vagabunda, patética, indefesa
Ó minha branca e pequenina lua!




Vinicius buscava um trabalho que pudesse ser bem remunerado e lhe permitisse deixar a literatura mais livre. Muitas figuras da literatura se encontravam na diplomacia e, para lá, Vinicius foi. Gostava da ideia de viajar. Depois de longos e intensos cursos, em 1941, Vinicius submete-se à prova do Itamarati, porém, não passou. Em 1942, Vinicius participa dos debates sobre cinema mudo e cinema falado. Vinicius era a favor do primeiro. Os debates contaram com a participação de Ribeiro Couto, Orson Welles e madame Falconetti. No mesmo ano, nasce seus segundo filho, Pedro de Moraes. A pedido do presidente Juscelino Kubitschek, chefia uma caravana de escritores para Minas Gerais, onde, conhece e fica amigo dos mineiros Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Hélio Pelegrino. Muito mais. Também inicia, com Rubem Braga, a roda literária do Café Vermelhinho, onde, se misturam jovens arquitetos e artistas plásticos da época como Oscar Niemeyer, Carlos Leão, Alfredo Ceschiatti, Santa Rosa, Pancetti, Djanira e Bruno Giorgi. Frequenta também as domingueiras na casa de Anibal Machado. Faz um longa viagem ao nordeste acompanhando o escritor americano Waldo Frank e, conhece o poeta João Cabral de Melo Neto, de quem se torna amigo. Vinicius era ligado ao movimento de extrema direita Integralista, porém, após essa viagem ao nordeste, muda completamente sua visão política.


POESIA E VIDA


A lua projetava o seu perfil azul
Sobre os velhos arabescos das flores calmas
A pequena varanda era como o ninho futuro
E as ramadas escorriam gotas que não havia.

Na rua ignorada anjos brincavam de roda…
- Ninguém sabia, mas nós estávamos ali.
Só os perfumes teciam a renda da tristeza
Porque as corolas eram alegres como frutos
E uma inocente pintura brotava do desenho das cores

Eu me pus a sonhar o poema da hora.
E, talvez ao olhar meu rosto exasperado
Pela ânsia de te ter tão vagamente amiga
Talvez ao pressentir na carne misteriosa
A germinacão estranha do meu indizível apelo
Ouvi bruscamente a claridade do teu riso
Num gorjeio de gorgulhos de água enluarada.
E ele era tão belo, tão mais belo do que a noite
Tão mais doce que o mel dourado dos teus olhos
Que ao vê-lo trilar sobre os teus dentes como um címbalo
E se escorrer sobre os teus lábios como um suco
E marulhar entre os teus seios como uma onda
Eu chorei docemente na concha de minhas mãos vazias
De que me tivesses possuído antes do amor.




Em 1943, após muito estudar, Vinicius, enfim, passa para a carreira diplomática. No mesmo ano, a pedido de Manuel Bandeira, Otávio de Faria e Aníbal Machado, publica o livro Cinco Elegias. Vinicius colabora em vários jornais, com artigos e críticas de cinema e, em 1945, conhece o poeta Pablo Neruda. No mesmo ano, sofre um grave desastre em um hidro-avião no Uruguai, mas tudo sai bem. Até que em 1946 é chamado para servir no consulado de Los Angeles. A partir de então sua vida muda. Esse período é de extrema importância. Lá, conhece cineastas como Walt Disney, estrelas como Carmen Miranda, Aurora, músicos de jazz, participa de sets de filmagem. Estuda cinema com Orson Welles e Gregg Toland. Viaja com a família toda. Publica também o livro Poemas, Sonetos e Baladas com ilustrações de Carlos Leão. 

Do Chopp ao Suco de Laranja em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com


SONETO A KATHERINE MANSFIELD


O teu perfume, amada – em tuas cartas
Renasce, azul… – são tuas mãos sentidas!
Relembro-as brancas, leves, fenecidas
Pendendo ao longo de corolas fartas.

Relembro-as, vou… nas terras percorridas
Torno a aspirá-lo, aqui e ali desperto
Paro; e tão perto sinto-te, tão perto
Como se numa foram duas vidas.

Pranto, tão pouca dor! tanto quisera
Tanto rever-te, tanto! … e a primavera
Vem já tão próxima! … (Nunca te apartas

Primavera, dos sonhos e das preces!)
E no perfume preso em tuas cartas
À primavera surges e esvaneces. 




Em 1949, em Barcelona, o poeta João Cabral de Melo Neto tira, numa prensa manual que tinha, cinquenta exemplares do poema Pátria Minha. A esta altura, Vinicius se embrenha nos assuntos do cotidiano, com especial devoção ao amor, deixando de lado, aos poucos, o sentimento do sublime. No ano seguinte, viaja para o México para visitar seu amigo Pablo Neruda, que se encontrava gravemente enfermo. Nesta viagem, conhece o pintor David Siqueiros e reencontra seu grande amigo Di Cavalcanti. Porém, seu pai, Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, morre. Vinicius depois escreveria o belo “Elegia na morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes.” Recebe a notícia pelo telefone e começaria “A morte veio pelo interurbano, de repente, não tinha mais pai”. Retorna ao Brasil. Casamento conturbado. Um novo amor apareceria.


O FALSO MENDIGO


Minha mãe, manda comprar um quilo de papel almaço na venda
Quero fazer uma poesia.
Diz a Amélia para preparar um refresco bem gelado
E me trazer muito devagarinho.
Não corram, não falem, fechem todas as portas a chave
Quero fazer uma poesia.
Se me telefonarem, só estou para Maria
Se for o Ministro, só recebo amanhã
Se for um trote, me chama depressa
Tenho um tédio enorme da vida.
Diz a Amélia para procurar a “Patética” no rádio
Se houver um grande desastre vem logo contar
Se o aneurisma de dona Ângela arrebentar, me avisa
Tenho um tédio enorme da vida.
Liga para vovó Neném, pede a ela uma idéia bem inocente
Quero fazer uma grande poesia.
Quando meu pai chegar tragam-me logo os jornais da tarde
Se eu dormir, pelo amor de Deus, me acordem
Não quero perder nada na vida.
Fizeram bicos de rouxinol para o meu jantar?
Puseram no lugar meu cachimbo e meus poetas?
Tenho um tédio enorme da vida.
Minha mãe estou com vontade de chorar
Estou com taquicardia, me dá um remédio
Não, antes me deixa morrer, quero morrer, a vida
Já não me diz mais nada
Tenho horror da vida, quero fazer a maior poesia do mundo
Quero morrer imediatamente.
Fala com o Presidente para fecharem todos os cinemas
Não agüento mais ser censor.
Ah, pensa uma coisa, minha mãe, para distrair teu filho
Teu falso, teu miserável, teu sórdido filho
Que estala em força, sacrifício, violência, devotamento
Que podia britar pedra alegremente
Ser negociante cantando
Fazer advocacia com o sorriso exato
Se com isso não perdesse o que por fatalidade de amor
Sabe ser o melhor, o mais doce e o mais eterno da tua puríssima carícia.




Vinicius conheceu Lila Maria Esquerdo Bôscoli numa festa, através do cronista e amigo, Rubem Braga. “Vinicius, está é Lila, Lila, este é Vinicius, e seja o que Deus quiser”. Apaixonaram-se e, em 1951, se casam. Lila era irmã do jornalista e compositor Ronaldo Bôscoli, era acostumada à boêmia e à vida artística, se tornou uma grande parceira neste período. No mesmo ano, começa a colaborar para o jornal Última Hora, a convite de Samuel Wainer, como cronista diário e crítico de cinema. No ano seguinte, percorre as cidades mineiras compondo os trechos de Aleijadinho para um filme com seus primos José e Humberto Franceschi, encomendado pelo diretor Alberto Cavalcanti. Também é nomeado delegado junto ao Festival de Punta del Este, fazendo paralelamente sua cobertura para o Última Hora.

A PARTIDA


Quero ir-me embora pra estrela
Que vi luzindo no céu
Na várzea do setestrelo.
Sairei de casa à tarde
Na hora crepuscular
Em minha rua deserta
Nem uma janela aberta
Ninguém para me espiar
De vivo verei apenas
Duas mulheres serenas
Me acenando devagar.
Será meu corpo sozinho
Que há de me acompanhar
Que a alma estará vagando
Entre os amigos, num bar.
Ninguém ficará chorando
Que mãe já não terei mais
E a mulher que outrora tinha
Mais que ser minha mulher
É mãe de uma filha minha.
Irei embora sozinho
Sem angústia nem pesar
Antes contente da vida
Que não pedi, tão sofrida
Mas não perdi por ganhar.
Verei a cidade morta
Ir ficando para trás
E em frente se abrirem campos
Em flores e pirilampos
Como a miragem de tantos
Que tremeluzem no alto.
Num ponto qualquer da treva
Um vento me envolverá
Sentirei a voz molhada
Da noite que vem do mar
Chegar-me-ão falas tristes
Como a querer me entristar
Mas não serei mais lembrança
Nada me surpreenderá:
Passarei lúcido e frio
Compreensivo e singular
Como um cadáver num rio
E quando, de algum lugar
Chegar-me o apelo vazio
De uma mulher a chorar
Só então me voltarei
Mas nem adeus lhe darei
No oco raio estelar
Libertado subirei.



Ainda em 1952, Vinicius viaja para Paris e conhece o tradutor Jean Georges Rueff, com quem trabalha na tradução de Cinco Elegias, em Estrasbrugo. No ano seguinte, nasce seu terceiro filho, uma filha, Georgiana, filha de Lila. Cinq Elégies sai em edição com gravuras de Pierre Seguers. Vinicius, então, já era um conhecido bom poeta brasileiro. Liga-se de amizade com o poeta cubano Nicolás Guillén e, para um início promissor, compõe seu primeiro samba Quando Tu Passas Por Mim, música e letra. A convite de Joel Silveira, contribui para a revista Flan e para o jornal A Vanguarda. As viagens não param e Vinicius vai para Paris, novamente, só que desta vez como segundo secretário da Embaixada. Eis que Vinicius, começa a trabalhar na adaptação do mito de Orfeu e Eurídice para o teatro. Precisava de um músico. Já tinha ouvido falar de um jovem promissor chamado Antônio Carlos Jobim. Certa vez, o viu tocando numa boate e Copacabana, porém, a apresentação “oficial” foi feita por Lúcio Rangel. Recém apresentados, Vinicius explica o conceito da peça, como deveria ser a música, até que no fim, o jovem Antônio pergunta: “E não tem um dinheirinho nisso não?”, gafe, desfeita, começa a parceria.



CANTICO


Não, tu não és um sonho, és a existência
Tens carne, tens fadiga e tens pudor
No calmo peito teu. Tu és a estrela
Sem nome, és a morada, és a cantiga
Do amor, és luz, és lírio, namorada!
Tu és todo o esplendor, o último claustro
Da elegia sem fim, anjo! mendiga
Do triste verso meu. Ah, fosses nunca
Minha, fosses a idéia, o sentimento
Em mim, fosses a aurora, o céu da aurora
Ausente, amiga, eu não te perderia!
Amada! onde te deixas, onde vagas
Entre as vagas flores? e por que dormes
Entre os vagos rumores do mar? Tu
Primeira, última, trágica, esquecida
De mim! És linda, és alta! és sorridente
És como o verde do trigal maduro
Teus olhos têm a cor do firmamento
Céu castanho da tarde – são teus olhos!
Teu passo arrasta a doce poesia
Do amor! prende o poema em forma e cor
No espaço; para o astro do poente
És o levante, és o Sol! eu sou o gira
O gira, o girassol. És a soberba
Também, a jovem rosa purpurina
És rápida também, como a andorinha!
Doçura! lisa e murmurante… a água
Que corre no chão morno da montanha
És tu; tens muitas emoções; o pássaro
Do trópico inventou teu meigo nome
Duas vezes, de súbito encantado!
Dona do meu amor! sede constante
Do meu corpo de homem! melodia
Da minha poesia extraordinária!
Por que me arrastas? Por que me fascinas?
Por que me ensinas a morrer? teu sonho
Me leva o verso à sombra e à claridade.
Sou teu irmão, és minha irmã; padeço
De ti, sou teu cantor humilde e terno
Teu silêncio, teu trêmulo sossego
Triste, onde se arrastam nostalgias
Melancólicas, ah, tão melancólicas…
Amiga, entra de súbito, pergunta
Por mim, se eu continuo a amar-te; ri
Esse riso que é tosse de ternura
Carrega-me em teu seio, louca! sinto
A infância em teu amor! cresçamos juntos
Como se fora agora, e sempre; demos
Nomes graves às coisas impossíveis
Recriemos a mágica do sonho
Lânguida! ah, que o destino nada pode
Contra esse teu langor; és o penúltimo
Lirismo! encosta a tua face fresca
Sobre o meu peito nu, ouves? é cedo
Quanto mais tarde for, mais cedo! a calma
É o último suspiro da poesia
O mar é nosso, a rosa tem seu nome
E recende mais pura ao seu chamado.
Julieta! Carlota! Beatriz!
Oh, deixa-me brincar, que te amo tanto
Que se não brinco, choro, e desse pranto
Desse pranto sem dor, que é o único amigo
Das horas más em que não estás comigo.



No dia 25 de setembro de 1956, estreia Orfeu da Conceição no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Com cenário de Oscar Niemeyer, música de Antônio Carlos Jobim, texto e letras de Vinicius de Moraes, com Haroldo Costa como Orfeu e Luiz Bonfá executando o violão do mesmo. Lila Bôscoli fez os figurinos e a coreografia dos bailarinos de Lina de Luca. Carlos Scliar fez os toques finais na arte e da edição em livro. A peça ficou em cartaz apenas um mês, porém, com grande impressão a todos, sobretudo aos jovens que assistiram. Desta peça saíram canções que se tornaram clássicos como Se Todos Fossem Iguais a Você, Mulher, Sempre Mulher e Lamento no Morro. Foi lançado um disco pela Odeon com Roberto Paiva cantando. Ao mesmo tempo, iniciam-se os trabalhos para a adaptação de Orfeu para o cinema pelo diretor francês Marcel Camus. Em 1956, nasce seu quarto filho, ou sua terceira filha, Luciana de Moraes. 



ROSÁRIO


E eu que era um menino puro
Não fui perder minha infância
No mangue daquela carne!
Dizia que era morena
Sabendo que era mulata
Dizia que era donzela
Nem isso não era ela
Era uma moça que dava.
Deixava… mesmo no mar
Onde se fazia em água
Onde de um peixe que era
Em mil se multiplicava
Onde suas mãos de alga
Sobre meu corpo boiavam
Trazendo à tona águas-vivas
Onde antes não tinha nada.
Quanto meus olhos não viram
No céu da areia da praia
Duas estrelas escuras
Brilhando entre aquelas duas
Nebulosas desmanchadas
E não beberam meus beijos
Aqueles olhos noturnos
Luzindo de luz parada
Na imensa noite da ilha!
Era minha namorada
Primeiro nome de amada
Primeiro chamar de filha…
Grande filha de uma vaca!
Como não me seduzia
Como não me alucinava
Como deixava, fingindo
Fingindo que não deixava!
Aquela noite entre todas
Que cica os cajus! travavam!
Como era quieto o sossego
Cheirando a jasmim-do-cabo!
Lembro que nem se mexia
O luar esverdeado
Lembro que longe, nos Ionges
Um gramofone tocava
Lembro dos seus anos vinte
Junto aos meus quinze deitados
Sob a luz verde da lua.
Ergueu a saia de um gesto
Por sobre a perna dobrada
Mordendo a carne da mão
Me olhando sem dizer nada
Enquanto jazente eu via
Como uma anêmona na água
A coisa que se movia
Ao vento que a farfalhava.
Toquei-lhe a dura pevide
Entre o pêlo que a guardava
Beijando-lhe a coxa fria
Com gosto de cana brava.
Senti à pressão do dedo
Desfazer-se desmanchada
Como um dedal de segredo
A pequenina castanha
Gulosa de ser tocada.
Era uma dança morena
Era uma dança mulata
Era o cheiro de amarugem
Era a lua cor de prata
Mas foi só naquela noite!
Passava dando risada
Carregando os peitos loucos
Quem sabe para quem, quem sabe?
Mas como me seduzia
A negra visão escrava
Daquele feixe de águas
Que sabia ela guardava
No fundo das coxas frias!
Mas como me desbragava
Na areia mole e macia!
A areia me recebia
E eu baixinho me entregava
Com medo que Deus ouvisse
Os gemidos que não dava!
Os gemidos que não dava…
Por amor do que ela dava
Aos outros de mais idade
Que a carregaram da ilha
Para as ruas da cidade
Meu grande sonho da infância
Angústia da mocidade.



Após longo período em Paris, Vinicius retorna ao Brasil numa licença-prêmio. A convite de seu amigo Jorge Amado, colabora com o semanário Para Todos onde publica o poema O operário em construção. Porém, o período no Brasil termina e Vinicius precisa voltar para seu posto em Paris, desta vez, junto à UNESCO. A produção do filme Orfeu Negro se aprimora, desta vez entra em cena o produtor Sasha Gordine. Seu casamento com Lila Bôscoli titubeia e Vinicius se vê mais uma vez solitário. Porém, uma incrível história de amor iria lhe acontecer. A sobrinha de Octávio de Faria, que muito o admirava quando menina, que com ele, num jantar, havia trocado olhares voluptuosos a ponto de fazer com que o, então marido da moça, ir embora, aquela que faria seu coração cantar novamente, apareceria, “por acaso” numa avenida em Paris. A partir daí, muita coisa mudaria.


BALADA DE PEDRO NAVA I


(O anjo e o túmulo)

I

Meu amigo Pedro Nava
Em que navio embarcou:
A bordo do Westphalia
Ou a bordo do 
Lidador?

Em que antárticas espumas
Navega o navegador
Em que brahmas, em que brumas

Pedro Nava se afogou?

Juro que estava comigo
Há coisa de não faz muito
Enchendo bem a caveira
Ao seu eterno defunto.

Ou não era Pedro Nava
Quem me falava aqui junto
Não era o Nava de fato
Nem era o Nava defunto?…

Se o tivesse aqui comigo
Tudo se solucionava
Diria ao garçom: Escanção!
Uma pedra a Pedro Nava!

Uma pedra a Pedro Nava
Nessa pedra uma inscrição:
“- deste que muito te amava
teu amigo, teu irmão
…”

Mas oh, não! que ele não morra
Sem escutar meu segredo
Estou nas garras da Cachorra
Vou ficar louco de medo

Preciso muito falar-lhe
Antes que chegue amanhã:
Pedro Nava, meu amigo
DESCEU O LEVIATÃ! 




Maria Lúcia de Faria Proença, Lucinha, era casada e tinha um filho. Conhecia Vinicius ainda menina por causa de seu tio Octávio de Faria. Foram apresentados em Paris, em um restaurante, pelo próprio Octávio, em 1939. Anos depois, reencontraram-se na casa de um amigo de Lucinha, onde, foi lida a peça Orfeu da Conceição, com Tom Jobim ao piano. Impressões. Até que, em 1958, novamente em Paris, Vinicius, sabendo que Lucinha estava lá, e ambos casados, convida-a para um jantar na sexta-feira, era a Sexta-Feira da Paixão! Lucinha voltou para o Brasil apaixonada e Vinicius também. Vinicius vai para Montevideo e alguns meses de cartas e telefonemas passam até que, em Petrópolis, Vinicius sobre um acidente de carro com o Almirante Dario Azambuja, e fica muito machucado. Lucinha vai visitá-lo no sanatório Santa Maria de Petrópolis e decide não mais voltar para casa. Decidiram que iam ficar juntos, que a paixão iniciada dezenove anos antes aconteceria. Casam-se no mesmo ano que sai o LP Canção do Amor Demais. 


 O TEMPO NOS PARQUES


O tempo nos parques é íntimo, inadiável, imparticipante, imarcescível.
Medita nas altas frondes, na última palma da palmeira
Na grande pedra intacta, o tempo nos parques.
O tempo nos parques cisma no olhar cego dos lagos
Dorme nas furnas, isola-se nos quiosques
Oculta-se no torso muscular dos fícus, o tempo nos parques.
O tempo nos parques gera o silêncio do piar dos pássaros
Do passar dos passos, da cor que se move ao longe.
É alto, antigo, presciente o tempo nos parques
É incorruptível; o prenúncio de uma aragem
A agonia de uma folha, o abrir-se de uma flor
Deixam um frêmito no espaço do tempo nos parques.
O tempo nos parques envolve de redomas invisíveis
Os que se amam; eterniza os anseios, petrifica
Os gestos, anestesia os sonhos, o tempo nos parques.
Nos homens dormentes, nas pontes que fogem, na franja
Dos chorões, na cúpula azul o tempo perdura
Nos parques; e a pequenina cutia surpreende
A imobilidade anterior desse tempo no mundo
Porque imóvel, elementar, autêntico, profundo
É o tempo nos parques.



Vinicius e Lucinha passam um período em Montevidéu, onde se casam. É um dos períodos mais importantes e fecundos na vida do poeta que se embrenha definitivamente nas composições e letras de música. Em 1959, o filme Orfeu Negro é laureado com o Oscar de melhor filme estrangeiro e ganha a Palma de Ouro em Cannes. No mesmo ano publica Novos Poemas II e sua filha Susana se casa. As parcerias aparecem e a produção é intensa. Compõe com Pixinguinha, Carlos Lyra, muito mais com Tom Jobim e inaugura uma fase interessante na vida artística e boemia do carioca: as casas abertas. Festas musicais. Tanto no Rio quanto na casa de Lucinha em Petrópolis, a condição é ficar junto e fazer música. A peça Orfeu da Conceição é traduzida para o italiano e alguns poemas para o francês. Em 1962 surge uma parceria importante: Baden Powell. O violonista vai morar na casa de Lucinha por três meses e, sem sair de casa nesse período, compõem o que ficou conhecido por Afro-Sambas. No mesmo ano, surge a comédia-musical Pobre Menina Rica com Carlos Lyra, que leva pela primeira vez ao palco a cantora Nara Leão. Curiosidade: O poema de hoje, Lucinha recebe na bandeja do café da manhã no dia de seu aniversário.

POEMA DE ANIVERSÁRIO
Porque fizeste anos, Bem-Amada, e a asa do tempo roçou teus cabelos negros, e teus grandes olhos calmos miraram por um momento o inescrutável Norte…
Eu quisera dar-te, ademais dos beijos e das rosas, tudo o que nunca foi dado por um homem à sua Amada, eu que tão pouco te posso ofertar. Quisera dar-te, por exemplo, o instante em que nasci, marcado pela fatalidade de tua vinda. Verias, então, em mim, na transparência do meu peito, a sombra de tua forma anterior a ti mesma.
Quisera dar-te também o mar onde nadei menino, o tranqüilo mar de ilha em que perdia e em que mergulhava, e de onde trazia a forma elementar de tudo o que existe no espaço acima – estrelas mortas, meteoritos submersos, o plancto das galáxias, a placenta do Infinito.
E mais, quisera dar-te as minhas loucas carreiras à toa, por certo em premonitória busca de teus braços, e a vontade de grimpar tudo de alto, e transpor tudo de proibido, e os elásticos saltos dançarinos para alcançar folhas, aves, estrelas – e a ti mesma, luminosa Lucina, e derramar claridade em mim menino.
Ah, pudesse eu dar-te o meu primeiro medo e a minha primeira coragem; o meu primeiro medo à treva e a minha primeira coragem de enfrentá-la, e o primeiro arrepio sentido ao ser tocado de leve pela mão invisível da Morte.
E o que não daria eu para ofertar-te o instante em que, jazente e sozinho no mundo, enquanto soava em prece o cantochão da noite, vi tua forma emergir do meu flanco, e se esforçar, imensa ondina arquejante, para se desprender de mim; e eu te pari gritando, em meio a temporais desencadeados, roto e imundo do pó da terra.
Gostaria de dar-te, Namorada, aquela madrugada em que, pela primeira vez, as brancas moléculas do papel diante de mim dilataram-se ante o mistério da poesia subitamente incorporada; e dá-Ia com tudo o que nela havia de silencioso e inefável – o pasmo das estrelas, o mudo assombro das casas, o murmúrio místico das árvores a se tocarem sob a Lua.
E também o instante anterior à tua vinda, quando, esperando-te chegar, relembrei-te adolescente naquela mesma cidade em que te reencontrava anos depois; e a certeza que tive, ao te olhar, da fatalidade insigne do nosso encontro, e de que eu estava, de um só golpe, perdido e salvo.
Quisera dar-te, sobretudo, Amada minha, o instante da minha morte; e que ele fosse também o instante da tua morte, de modo que nós, por tanto tempo em vida separados, vivêssemos em nosso decesso uma só eternidade; e que nossos corpos fossem embalsamados e sepultados juntos e acima da terra; e que todos aqueles que ainda se vão amar pudessem ir mirar-nos em nosso último leito; e que sobre nossa lápide comum jazesse a estátua de um homem parindo uma mulher do seu flanco; e que nela houvesse apenas, como epitáfio, estes versos finais de uma cançâo que te dediquei:

… dorme, que assim
dormirás um dia
na minha poesia
de um sono sem fim…



Errata: Ontem disse que Nara Leão havia pisado no palco pela primeira vez na comédia-musical Pobre Menina Rica ao lado de Vinicius e Carlos Lyra. Engano total. Em 13 de novembro 1959, Nara já havia cantado no show da Escola Naval, que contou com algumas figuras que comporiam a Bossa Nova depois. Voltando ao poeta: Em agosto de 1962, na boite Au Bon Gourmet, acontece, enfim, o show que seria o grande acontecimento para a Bossa Nova. Tom Jobim, João Gilberto, Os Cariocas e Vinicius de Moraes. Foi o lançamento oficial da Garota de Ipanema e do Samba da Benção. Esta última, composta por Baden e Vinicius na casa de Lucinha no Parque Guinle com um improviso de Saravahs. No mesmo ano Vinicius compõe com Ary Barroso o Rancho das Namoradas “já vem raiando a madrugada…” e sai o livro dedicado a Lucinha Para Viver um Grande Amor. Inicia também uma parceria com Edu Lobo que viria a resultar em canções como Arrastão. Vinicius sempre foi fascinado por Marlene Dietrich, desde menino. Quando a mesma veio cantar no Brasil em 1959, Vinicius ficou alvoroçadíssimmo. O show seria no Golden Room no Copacabana Palace. Vinicius foi com Lucinha. Lá dentro, as luzes se apagam. Entra Marlene fabulosa e diz: “Good evening ladys and gentleman, now i’m going to sing Lili marlene” e Vinicius, de súbito, levanta-se da cadeira e grita: “Please, in german!”. Há uma estupefação geral. Marlene ouve e diz: “For that gentleman overthere, i’m going to sing in german”. Este foi o primeiro ciúme que Lucinha sentiu por Vinicius.


A ÚLTIMA VIAGEM DE JAYME OVALLE


Ovalle não queria a Morte
Mas era dele tão querida
Que o amor da Morte foi mais forte
Que o amor do Ovalle à vida.

E foi assim que a Morte, um dia
Levou-o em bela carruagem
A viajar – ah, que alegria!
Ovalle sempre adora viagem!

Foram por montes e por vales
E tanto a Morte se aprazia
Que fosse o mundo só de Ovalles
E nunca mais ninguém morria.

A cada vez que a Morte, a sério
Com cicerônica prestança
Mostrava a Ovalle um cemitério
Ele apontava uma criança.

A Morte, em Londres e Paris
Levou-o à forca e à guilhotina
Porém em Roma, Ovalle quis
Tomar a sua canjebrina.

Mostrou-lhe a Morte as catacumbas
E suas ósseas prateleiras
Mas riu-se muito, tais zabumbas
Fazia Ovalle nas caveiras.

Mais tarde, Ovalle satisfeito
Declara à Morte, ambos de porre:
- Quero enterrar-me, que é um direito
Inalienável de quem morre!

Custou-lhe esforço sobre-humano
Chegar à última morada
De vez que a Morte, a todo pano
Queria dar uma esticada.

Diz o guardião do campo-santo
Que, noite alta, ainda se ouvia
À voz da Morte, um tanto ou quanto
Que ria, ria, ria, ria…




Em 1963, por alguns fortes motivos, Lucinha termina com Vinicius e eles se separam. Vinicius entra num período bastante difícil. Conhece uma jovem moça chamada Nelita Abreu Rocha, apaixona-se e casa-se com ela no mesmo ano. Agora Vinicius colabora para a revista Fatos e Fotos e faz crônicas sobre música para o Diário Carioca. No mesmo ano, começa a compor com um jovem, então estudante de arquitetura, chamado Francis Hime. Também é o ano de um show de muito sucesso na boate Zum-Zum com Dorival Caymmi, onde, junto com o Quarteto em Cy, faz do show um disco. A música se torna definitivamente um caminho e em 1965, vence o Festival de Música Popular de São Paulo da TV Record com o primeito e o segundo lugar com, respectivamente, Arrastão com Edu Lobo cantada por Elis Regina e Valsa do Amor que Não Vem com Baden Powell cantada por Elizete Cardoso. Nesse momento, a carreira ganha força e há a possibilidade de fazer um filme chamado Arrastão, porém, em Paris, indispõe-se com o diretor e tira todas as suas músicas do projeto. Vai para Los Angeles para encontrar Tom Jobim. Tudo caminhando bem na vida profissional. 



A extraordinária viagem do palhaço Petrushka pelas veredas do Carnaval carioca em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com


CARTA DO AUSENTE


Meus amigos, se durante o meu recesso virem por acaso passar a minha amada
Peçam silêncio geral. Depois
Apontem para o infinito. Ela deve ir
Como uma sonâmbula, envolta numa aura
De tristeza, pois seus olhos
Só verão a minha ausência. Ela deve
Estar cega a tudo o que não seja o meu amor (esse indizível
Amor que vive trancado em mim como num cárcere
Mirando empós seu rastro).
Se for à tarde, comprem e desfolhem rosas
À sua melancólica passagem, e se puderem
Entoem 
cantus-primus. Que cesse totalmente o tráfego
E silenciem as buzinas de modo que se ouça longamente
O ruído de seus passos. Ah, meus amigos
Ponham as mãos em prece e roguem, não importa a que ser ou divindade
Por que bem-haja a rninha grande amada
Durante o meu recesso, pois sua vida
É minha vida, sua morte a minha morte. Sendo possível
Soltem pombas brancas em quantidade suficiente para que se faça em torno
A suave penumbra que lhe apraz. Se houver por perto
Uma hi-fi, coloquem o “Noturno em si bemol” de Chopin; e se porventura
Ela se puser a chorar, oh recolham-lhe as lágrimas em pequenos frascos de opalina
A me serem mandados regularmente pela mala diplomática.
Meus amigos, meus irmãos (e todos
Os que amam a minha poesia)
Se por acaso virem passar a minha amada
Salmodiem versos meus. Ela estará sobre uma nuvem
Envolta numa aura de tristeza
O coração em luz transverberado. Ela é aquela
Que eu não pensava mais possível, nascida
Do meu desespero de não encontrá-la. Ela é aquela
Por quem caminham as minhas pernas e para quem foram feitos os meus braços
Ela é aquela que eu amo no meu tempo
E que amarei na minha eternidade – a amada
Una e impretérita. Por isso
Procedam com discrição mas eficiência: que ela
Não sinta o seu caminho, e que este, ademais
Ofereça a maior segurança. Seria sem dúvida de grande acerto
Não se locomovesse ela de todo, de maneira
A evitar os perigos inerentes às leis da gravidade
E do 
momentum dos corpos, e principalmente aqueles devidos
À falibilidade dos reflexos humanos. Sim, seria extremamente preferível
Se mantivesse ela reclusa em andar térreo e intramuros
Num ambiente azul de paz e música. Ó, que ela evite
Sobretudo dirigir à noite e estar sujeita aos imprevistos
Da loucura dos tempos. Que ela se proteja, a minha amada
Contra os males terríveis desta ausência
Com música e equanil. Que ela pense, agora e sempre
Em mim que longe dela ando vagando
Pelos jardins noturnos da paixão
E da melancolia. Que ela se defenda, a minha amiga
Contra tudo o que anda, voa, corre e nada, e que se lembre
Que devemos nos encontrar, e para tanto
É preciso que estejamos íntegros, e acontece
Que os perigos são máximos, e o amor de repente, de tão grande
Tornou tudo frágil, extremamente, extremamente frágil.



Em 1966, há um encontro na casa do amigo e cronista Rubem Braga que gera a célebre fotografia de Vinicius ao lado de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana e Paulo Mendes Campos. O encontro também contou com a presença de Sérgio Porto. A poesia brasileira em imagens. No mesmo ano são feitos documentários sobre Vinicius para televisões americana, alemã, italiana e francesa, com os dois últimos sendo feitos pelos diretores Gianni Amico e Pierre Cast. Algumas de suas crônicas são reunidas no livro Para uma menina com uma flor. O Samba da Benção, parceria com Baden Powell, entra no filme francês Un Homme et Une Femme, dirigido por Claude Lelouch, com versão do ator Pierre Barouh, que também atua no filme. Un Homme et Une Femme vence a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Vinicius torna-se, definitivamente, um poeta de extremo prestígio internacional, elevando nome de nossa poesia.


OLHE AQUI, MR. BUSTER


Este poema é dedicado a um americano simpático, extrovertido e podre de rico, em cuja casa estive poucos dias antes de minha volta ao Brasil, depois de cinco anos de Los Angeles, EUA. Mr. Buster não podia compreender como é que eu, tendo ainda o direito de permanecer mais um ano na Califórnia, preferia, com grande prejuízo financeiro, voltar para a “Latin America”, como dizia ele. Eis aqui a explicação, que Mr. Buster certamente não receberá, a não ser que esteja morto e esse negócio de espiritismo funcione. 

Olhe aqui, Mr. Buster: está muito certo
Que o Sr. tenha um apartamento em Park Avenue e uma casa em Beverly Hills.
Está muito certo que em seu apartamento de Park Avenue
O Sr. tenha um caco de friso do Partenon, e no quintal de sua casa em Hollywood
Um poço de petróleo trabalhando de dia para lhe dar dinheiro e de noite para lhe dar insônia
Está muito certo que em ambas as residências
O Sr. tenha geladeiras gigantescas capazes de conservar o seu preconceito racial
Por muitos anos a vir, e vacuum-cleaners com mais chupo
Que um beijo de Marilyn Monroe, e máquinas de lavar
Capazes de apagar a mancha de seu desgosto de ter posto tanto dinheiro em vão na guerra da
Coréia.
Está certo que em sua mesa as torradas saltem nervosamente de torradeiras automáticas
E suas portas se abram com célula fotelétrica. Está muito certo
Que o Sr. tenha cinema em casa para os meninos verem filmes de mocinho
Isto sem falar nos quatro aparelhos de televisão e na fabulosa hi-fi
Com alto-falantes espalhados por todos os andares, inclusive nos banheiros.
Está muito certo que a Sra. Buster seja citada uma vez por mês por Elsa Maxwell
E tenha dois psiquiatras: um em Nova York, outro em Los Angeles, para as duas “estações” do
ano.
Está tudo muito certo, Mr. Buster – o Sr. ainda acabará governador do seu estado
E sem dúvida presidente de muitas companhias de petróleo, aço e consciências enlatadas.
Mas me diga uma coisa, Mr. Buster
Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:
O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?
O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?
O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?




Em 1968, ano marcante no mundo todo pelo notório mês de maio, Vinicius perde sua mãe Lydia Cruz de Moraes. Atenciosa e, em suas próprias palavras, vaidosa mulher que tanto lhe deu carinho, Dona Lydia foi-se em fevereiro, deixando muitas saudades aos filhos e netos. No mesmo ano, aparece Obra Completa pela Companhia José Aguilar Editora. Seus poemas são traduzidos para o italiano pelo poeta Giuseppe Ungaretti, que viria a falecer dois anos depois. Mais uma vez seu casamento titubeia. Um ano depois, em 1969, a derradeira facada do Governo Federal: Vinicius é exonerado do Itamaraty numa onda de expurgos motivada pelo combate à corrupção, ao homossexualismo e à subversão, e foi nesta última categoria que encaixaram Vinicius. Em contrapartida, Vinicius conhece uma moça, bem mais jovem, apaixona-se e casa-se, se chamava Cristina Gurjão.


NAMORADOS DO MIRANTE


Eles eram mais antigos que o silêncio
A perscrutar-se intimamente os sonhos
Tal como duas súbitas estátuas
Em que apenas o olhar restasse humano.
Qualquer toque, por certo, desfaria
Os seus corpos sem tempo em pura cinza.
Remontavam às origens – a realidade
Neles se fez, de substância, imagem.
Dela a face era fria, a que o desejo
Como um hictus, houvesse adormecido
Dele apenas restava o eterno grito
Da espécie – tudo mais tinha morrido.
Caíam lentamente na voragem
Como duas estrelas que gravitam
Juntas para, depois, num grande abraço
Rolarem pelo espaço e se perderem
Transformadas no magma incandescente
Que milênios mais tarde explode em amor
E da matéria reproduz o tempo
Nas galáxias da vida no infinito.

Eles eram mais antigos que o silêncio…





O casamento com a bem mais jovem Cristina Gurjão dura menos de um ano. Vinicius se encontra mais uma vez num período muito difícil. Porém, o ano de 1970 reserva uma plena recuperação para Vinicius. No antigo e célebre bar em Ipanema chamado Pizzaiollo, Vinicius conhece através da jovem Maria Bethânia a atriz Gesse Gessy. Apaixona-se de cara e deseja ir com ela para Buenos Aires. Não menos espantada ficou Maria Bethânia com a súbita volúpia. Casam-se no mesmo ano e mudam-se para Bahia para uma casa que mandaram construir. O casamento foi uma estranha mistura de candomblé, com festa e ritual que incomodou alguns amigos, sobretudo, Rubem Braga. A casa tinha objetos estranhos para olhos ordinários, porém, ali Vinicius viveria uma vida pacata ao lado de bichos. Vinicius conhece um jovem rapaz de vinte e poucos anos, um violonista ex-aluno de Paulinho Nogueira que, contra as críticas e o esquecimentos entre o público jovem que Vinicius começava a entrar, seria seu grande parceiro e, com ele, retornaria ao trabalho. O jovem era conhecido pelo nome de Toquinho.

SONETO A PABLO NERUDA
Quantos caminhos não fizemos juntos
Neruda, me irmão, meu companheiro…
Mas este encontro súbito, entre muitos
Não foi ele o mais belo e verdadeiro?
Canto maior, canto menor – dois cantos
Fazem-se agora ouvir sob o Cruzeiro
E em seu recesso as cóleras e os prantos
Do homem chileno e do homem brasileiro
E o seu amor – o amor que hoje encontramos…
Por isso, ao se tocarem nossos ramos
Celebro-te ainda além, Cantor Geral
Porque como eu, bicho pesado, voas
Mas mais alto e melhor do céu entoas
Teu furioso canto material!
Fato é que Vinicius não se encontrava em bom momento de crítica no início dos anos setenta logo que começa sua parceria com Toquinho. Vinicius já era uma figura felliniana, sobretudo para os jovens poetas da época, porém, sem despertar grandes amores da crítica, sobretudo musical. Porém, com Toquinho, surgem canções que o trariam de volta, como Tarde em Itapuã e Como Dizia o Poeta. Toquinho que antes da parceria com Vinicius, já havia composto canções com Chico Buarque e Jorge Ben, grava com Vinicius um disco de muito sucesso oriundo de um show em Buenos Aires com a cantora Maria Creuza, chamado Vinicius de Moraes en La Fusa com Maria Creuza y Toquinho. Antes disso, gravou na Italia La vita, amico, é l’arte dell’incontro. A parceria duraria onze anos, 25 discos e mais de 120 canções.

Arquivo deste e-mail de Bruno Tolentino a Mário Faustino em http://cartilhadepoesia.wordpress.com
NA ESPERANÇA DE TEUS OLHOS
Eu ouvi no meu silêncio o prenúncio de teus passos
Penetrando lentamente as solidões da minha espera
E tu eras, Coisa Linda, me chegando nos espaços
Como a vinda impressentida de uma nova primavera.
Vinhas cheia de alegria, coroada de guirlandas
Com sorrisos onde havia burburinhos de água clara
Cada gesto que fazias semeava uma esperança
E existiam mil estrelas nos olhares que me davas.
Ai de mim, eu pus-me amar-te, pus-me a amar-te mais ainda
Porque a vida no meu peito se fizera num deserto
E tu apenas me sorrias, me sorrias, Coisa Linda
Como a fonte inacessível que de súbito está perto.
Pelas rútilas ameias do teu riso entreaberto
Fui subindo, fui subindo no desejo de teus olhos
E o que vi era tão lindo, tão alegre, tão desperto
Que do alburno do meu tronco despontaram folhas novas.
Eu te juro, Coisa Linda: vi nascer a madrugada
Entre os bordos delicados de tuas pálpebras meninas
E perdi-me em plena noite, luminosa e espiralada
Ao cair no negro vórtice letal de tuas retinas.
E é por isso que eu te peço: resta um pouco em minha vida
Que meus deuses estão mortos, minhas musas estão findas
E de ti eu só quisera fosses minha primavera
E só espero, Coisa Linda, dar-te muitas coisas lindas…
Em 1971, muda-se definitivamente para Bahia onde vive uma espécie de vida-hippie-temporão. Compõe muito com Toquinho, e faz um show em Mar del Plata com a jovem Maria Bethânia, na mesma boate La Fusa. O show gera um disco. No mesmo ano, viaja para Italia com Toquinho para gravar Per vivere un grande amore. Em 1973, Vinicius publica A elegia que vem de longe, livro em homenagem a seu grande amigo Pablo Neruda, que morrera naquele ano. Um breve retorno à literatura que estava adormecida. 73 também é o ano do show Poeta, Moça e o Violão com Toquinho e Clara Nunes. Os shows com encontros sempre dão certo. No ano seguinte começa a trabalhar no roteiro de um filme chamado Polichinelo, porém, ficando inacabado. Vinicius vai se tornando essa figura feliniana que havia dito, e as canções com Toquinho vão aparecendo: Sei lá, Um homem chamado Alfredo, Veja Você, O Velho e a Flor.

BREVE CONSIDERAÇÃO
à margem do ano assassino de 1973
Que ano mais sem critério
Esse de setenta e três…
Levou para o cemitério
Três Pablos de uma só vez.
Três Pablões, não três pablinhos
No tempo como no espaço
Pablos de muitos caminhos:
Neruda, Casals, Picasso.
Três Pablos que se empenharam
Contra o fascismo espanhol
Três Pablos que muito amaram
Três Pablos cheios de Sol.
Um trio de imensos Pablos
Em gênio e demonstração
Feita de engenho, trabalho
Pincel, arco e escrita à mão.
Três publicíssimos Pablos
Picasso, Casals, Neruda
Três Pablos de muita agenda
Três Pablos de muita ajuda.
Três líderes cuja morte
O mundo inteiro sentiu…
ô ano triste e sem sorte…
- VÁ PRA PUTA QUE O PARIU!
Em 1976, seu casamento novamente declina e Vinicius se separa. Escreve as letras do disco “Deus lhe pague” em parceria com Edu Lobo e, no mesmo ano, casa-se com a argentina Marta Rodrigues Santamaria, porém, o casamento dura apenas um ano. O ano de 1977 é marcado por um show antológico no Canecão com Tom Jobim, Miucha e Toquinho, ficando sete meses em cartaz (!). Um sucesso imenso. Vinicius saía do show, se internava na São Vicente para se recuperar e voltava no dia seguinte. A saúde não andava bem. O que não o impediu de fazer uma turnê pela Europa com Toquinho, tocando em vários países. Em 1978, Vinicius, se casa com Gilda de Queirós Mattoso, que conhecera em Paris. Gilda se torna uma grande companheira, cuidando de sua saúde além de tudo. A Rede Globo prepara um programa com todos os parceiros de Vinicius. Algo se anunciava. No ano seguinte, Vinicius, a pedido do, então, líder sindical, Luis Inácio Lula da Silva, lê poemas no Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. Voltando de uma viagem da Europa, no mesmo ano, Vinicius sobre um derrame cerebral. Nesta ocasião, perdem-se os originais de Roteiro lírico e sentimental da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Onde agora é noite (ou dia) em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
O SACRIFÍCIO DO VINHO
Contra o crepúsculo
O vinho assoma, exulta, sobreleva
Muda o cristal da tarde em rubra pompa
Ganha som, ganha sangue, ganha seios
Contra o crepúsculo o vinho
Menstrua a tarde.
Ah, eu quero beber o vinho em grandes haustos
Eu quero os longos dedos líquidos
Sobre meus olhos, eu quero
A úmida língua…
O céu da minha boca
É uma cúpula imensa para a acústica
Do vinho, e seu eco de púrpura…
O cantochão do vinho
Cresce, vermelho, entre muralhas súbitas
Carregado de incenso e paciência.
As sinetas litúrgicas
Erguem a taça ardente contra a tarde
E o vinho, transubstanciado, bate asas
Voa para o poente
O vinho…
Uma coisa é o vinho branco
O primeiro vinho, linfa da aurora impúbere
Sobre a morte dos peixes.
Mas contra a noite ei-lo que se levanta
Varado pelas setas do poente
Transverberado, o vinho…
E o seu sangue se espalha pelas ruas
Inunda as casas, pinta os muros, fere
As serpentes do tédio; dentro
Da noite o vinho
Luta como um Lacoonte
O vinho…
Ah, eu quero beijar a boca moribunda
Fechar os olhos pânicos
Beber a áspera morte
Do vinho.
No dia 17 de abril de 1980, Vinicius é operado para a instalação de um dreno cerebral, porém, três meses depois, no dia 9 de julho, morre, em sua casa, na Gávea, na banheira. Um edema pulmonar foi a causa anunciada. Estavam lá, sua mulher Gilda e Toquinho. No dia 11 de julho o prefeito Julio Coutinho publica o decreto de que a rua Montenegro, em Ipanema, passaria a se chamar rua Vinicius de Moraes. No dia 12 de julho, a rua é inaugurada. Vinicius viveu e produziu o que produziu em 67 anos de existência, mostrando, na minha opinião, as imensas possibilidades do poeta. Poema, música, teatro, prosa com todos os seus desmembramentos. Eis que chegamos ao final de mais uma antologia, espero que tenham gostado de passar essas semanas ao lado deste grande poeta brasileiro. Semana que vem, entraremos em um outro universo poético, com outras proposições, situações e vivências. Evoé!


O HAVER

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo:
- Perdoai! – eles não têm culpa de ter nascido…

Resta esse antigo respeito pela noite, essa falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem 
Cheia de mansidão para com tudo que existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira de quem quer balbuciar o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta composição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano, ou essa súbita alegria
Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória…

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de sua inútil poesia e sua inútil.

Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa tola capacidade
de rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem de comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi com será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
E transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
Na busca desesperada de alguma porta quem sabe inexistente
E essa coragem indizível diante do Grande Medo
E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem história
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão de seu reino.

Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
Essa abandono sem remissão à sua voragem insaciável
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio
Pelo momento a vir, quando, emocionada
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada.




abril 25, 2011

Chacal

Ricardo de Carvalho Duarte, ou Chacal, nasceu no Rio de Janeiro no dia 24 de maio de 1951. Seu pai, Marcial Galdino, saiu do Rio Grande do Sul com o exército gaúcho para o Rio de Janeiro na Revolução Constitucionalista de 1932, e por aqui ficou. Ricardo nasceu nos dourados anos 50 e passou sua infância, ora no apartamento onde morava em Copacabana, ora no sítio da família em Cinco Lagos, um vilarejo próximo de Mendes, no interior do Estado do Rio de Janeiro. Neste mês, percorreremos a poesia deste grande poeta carioca. Muito prazer, Chacal!

Tem texto do dia 31 aqui http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
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SÓTÃO
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o sótão ficava entre o céu e o inferno.
um escada nos ligava ao banheiro e ao mundo.
degraus silenciosos.
o telhado mostrava seus segredos
de um buraco eterno no teto.
um armário com todos os livros/chaves
guardava cumplicidade e cupins ruminados.
os filhos malditos disfarçavam en/cruz/ilhadas
bem queimadinhos.
o sol amanhecia esperanças
amarelas e vermelhas nas janelas antigas.
e a vida foi vivida como mando o figurino.
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O jovem Ricardo foi criado em apartamento. O prédio ficava a cinco quadras da praia de Copacabana onde o menino pegava jacaré. Entre a praia e o prédio, ficava o Colégio Mallet Soares, onde estudou. Ali jogou futebol, voley e gostou do Fluminense. Seu amigo Sérgio Liuzzi, fora convocado para jogar voley no Botafogo, e depois o levou para o time. Fez um teste, foi aprovado. Após um treino, Ricardo se atrasou no vestiario e chegou na cantina para comer com o resto do time, após observar a todos, quietos, comendo, diante o silêncio que havia, exclamou: “Que onda chacal!”. Era uma gíria da época. Seu amigo Sérgio gostou, levou para a turma da praça e o apelido pegou. Assim, nascia o Chacal.
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NA PORTA LÁ DE CASA
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na porta lá de casa
tem dizendo lar romi lar
uma bandeira de papel
na porta lá de casa
as crianças passam
e se atiram no chão
e se olham por dentro
das bocas das palavras
na falta de qualquer espelho
na porta lá de casa
passa o amor o calor
de cada um que passa
na porta lá de casa
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Ao entrar no curso secundário do Colégio Estadual André Maurois, no Leblon, Chacal descobre novas percepções. Tudo era falado abertamente sob o lema “liberdade com responsabilidade”. Através do professor Ivo Barbieri, Chacal começa a ler avidamente Guimarães Rosa. Descobriu que “palavras tinham molas, dobravam esquinas”. Entrou num grupo de estudos sobre o materialismo dialético. No mesmo tempo, Chacal, foi fazer segurança de uma colega de classe chamada Gracinha numa manifestação política. Ficou estupefato com a mobilização dos estudantes, intelectuais e artistas contra o governo militar. Viu os comícios-relâmpagos de Marcos Medeiros, Vladimir Palmeira e outros. O contato com essas “performances políticas” viria a ter muita influência nos recitais da vida.
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CENA LONGA
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as pedras estão em cima da terra.
capas de disco espalhadas ao acaso.
a última vez que falou ela falou – eu não vou mais
atrás de você.
desde então só soluços. a terceira e a quarta pessoas
pareciam distraídas, amistosas, jogavam dados
viciados.
era quase de manhã. o nono trago turvou a vista de
orlando, aquele que tacapau. daí desfoca forçado.
olívia contrafeita com seu vestido de gaze vem em
quando botava uma azeitona no copo e acompanhava
o lento movimento de imersão. vez em quando pulava
no sofá dragoflex. pulava e fazia caretas sem graça. a
terceira e a quarta pessoa trepavam no último andar
no beliche à direita.
- esse é um bom disco. gosto dele como de você.
- fala sério?!
- não. gosto mais de você.
- cascata
- gosto mais do disco.
- você me dá asco.
orlando acompanha o som com os dedos nos dentes.
o disco pára.
- muda o disco…
ela se levanta e zangada disca algumas voltas no
telefone.
a terra iniciará um novo dia. raios na janela.
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Em 1970, aos dezenove anos, Chacal entra para a ECO, Escola de Comunicação da UFRJ. Queria estudar Economia, pois gostava de história, geografia, sociologia e matemática. Foi mal em matemática no vestibular e acabou entrando na Comunicação. Nessa época, Chacal conhece três figuras fundamentais para sua trajetória: Charles Peixoto, Virgínia Sabino e Guilherme Mandaro. Charles era neto do poeta Ronald de Carvalho e conhecia muita poesia. Virgínia era neta de Benedito Valladares e filha do Fernando Sabino. Logo depois, veio Guilherme. Formou-se um grupo. Iam muito para a casa de Virgínia em Correias, Petrópolis, e para a casa de Charles em Teresópolis. O grupo mergulhou fundo na contemporaneidade musical, na poesia e na filosofia. Algo começava.
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TRIP TROP
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capitaneando a nau capitânea compartilha
compartimento com diva divina corista de revista
orgias a bombordo o litoral aponta farol canhão
lunetas disparates o barco é ferido no nariz e faz
água orlando dá ordem à desordem embarcando
a tripulação no submarino para o casos como esse
no bico do colosso semi afundado orlandes barriga
encolhida farda de gala assovia o hino da esquadra
e pula. o resto da nau eram bolhas. rio maracanã
banheira de d. moema largo do boticário praias
cariocas o dirigível estaciona numa sarjeta sórdida
de niterói pegam a barca pro rio orlando asseclas
partner desviam a cantareira rumo à lagoa rodrigo
dos peixes exilados com falta de ar e área. barcarola
ancorada os tripulantes raptados são atirados aos
tubarões de mandíbulas os reféns pra trabalhar e
a trip tropa trota corte cantagalo acima abaixo na
final visita cordial ao pequeno canto do céu que
ela veio pra se lembrar.
bunda mole e dedo duro tanto treme quanto entrega
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Certo dia, Charles Peixoto apresentou a Chacal um livro que lhe mudaria completamente. Era um pequeno livro, desses de bolso, com poemas do Oswald de Andrade. Chacal já conhecia o poeta através da montagem do Rei da Vela dirigida pelo Zé Celso, mas, após o livro, tudo mudaria. Em 1971, Chacal iniciava uma série de escritos em três pequenos cadernos, com ilustrações. Começava ali sua trajetória. No mesmo ano, os três, Chacal, Charles e Virgínia, mais uns oito companheiro de enveredaram numa viagem pelo rio São Francisco. Mais amanhã. On the road, man!
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ESPERE BABY NÃO DESESPERE
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espere baby não desespere
não me venha com propostas tão fora de propósito
não acene com planos mirabolantes mas tão distantes
espere baby não desespere
vamos tomar mais um e falar sobre os mistérios
da lua vaga
dylan na vitrola dedo nas teclas
canto invento enquanto o vento marasma
espere baby não desespere
temos um quarto uma eletrola uma cartola
vamos puxar um coelho um baralho
e um castelo de cartas
vamos viver o tempo esquecido do mago merlin
vamos montar o espelho partido da vida como ela é
espere baby não desespere
a lagoa há de secar
e nós não ficaremos mais a ver navios
e nós não ficaremos mais a roer o fio da vida
e nós não ficaremos mais a temer a asa negra do fim
espere baby não desespere
porque nesse dia soprará o vento da ventura
porque nesse dia chegará a roda da fortuna
porque nesse dia se ouvirá o canto do amor
e meu dedo não mais ferirá o silêncio da noite
com estampidos perdidos
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No início de 71, Chacal, Charles e Virgínia fizeram uma viagem pelo rio São Francisco, de Pirapora até Petrolina. Muitas descobertas e causos interessantes pelos interiores do Brasil. Depois da viagem, Chacal passou um tempo em Arembepe, na Bahia. Depois de algum tempo enraizado, voltou para o Rio de Janeiro. De volta à rotina da ECO, e através dos estudos sobre Semiótica e Linguística, Chacal descobre a linguagem. Percebeu ali que poderia se comunicar com o mundo, com as pessoas e, sobretudo, se divertir. Pensou em estudar fora do país, porém, resolveu ficar no Brasil e ser poeta, “era mais barato”. Logo depois, Muito Prazer.
E-mails desta pequena coluna em http://cartilhadepoesia.wordpress.com
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BURACOS NO CÉU
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quando tempo e espaço se cortam
quando nosso corpo se encontra
diga que eu perdi a cabeça
diga que eu sou uma bolha de alka seltzer
quando chove meteoro
quando os buracos se cruzam
caem fagulhas na terra
correm agulhas no sangue
desorganizado saio de casa
com um guarda-chuva de cheeseburger
com uma capa de amianto
e não me espanto
entretanto descobri:
a loucura é um sopro no ouvido
.
Chacal estava com um bom volume de poemas. Coloriu três cadernos de poemas com caneta pilot. Mostrava aos amigos o resultado, até que mostrou para Waly Salomão, que gostou. Guilherme perguntou se ele não gostaria de publicar em mimeógrafo. Chacal aceitou. Da mesma forma, Charles fez o livro dele, Travessa Bertalha, com a ajuda de Guilherme. Muito prazer saiu com cem cópias mimeografadas cada um.Ali começava a vender sua poesia. Após ter participado de alguns pequenos jornais e revistas alternativas da época, eis que sai uma resenha sobre Muito prazer na coluna de Torquato Neto, Geleia Geral, por Waly Salomão. Um bom começo.
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PRIMA
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não me interessam as últimas notícias
nem as primeiras nem as penúltimas
me importa apenas estar perto de você
já não quero saber que dia a guerra vai estourar
como está o novo espetáculo
quanto foi o último jogo
não.
só me importa a sua presença no meio de tudo
que lhe enfeita de manchetes desinteressantes
você é matéria-prima e una
você cumpre sua trajetória na planeta diário
só para me transtornar
.
Chacal foi vivendo a ebulição dos anos 70. Novos Baianos surgindo com tudo, Píer de Ipanema, onde levava Muito prazer, a turma toda das areias, Gal, Waly, Scarlet Moon, Nelson Jacobina, Mautner, Neville, eram as “Dunas do barato”. Foi nessa época, verão de 72, que Chacal, Jards Macalé, Rogério Duarte e Duda compuseram Boneca Semiótica. Preço da passagem, seu segundo livro, foi elaborado nesse mesmo 72, entre uma desagradável experiência na rua Montenegro, em Ipanema, e uma indizível vontade de sair e conhecer o mundo. Fez mil exemplares de Preço da passagem, lançou no MAM na coletiva Ex-Posição. Não vendeu muito. Logo depois participou de um show da Gal dizendo um poema (importante experiência de palco) e com uma salvadora ajuda de seus pais, Chacal embarca para Londres.
Elegia para João Jorge Proença Vargas de Andrade no blog http://pedrolago.blogspot.com
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SONHOS
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sonhos que se desfazem de manhã como se fossem pura bruma
sinais de fumaça de um mundo distante enevoado nebuloso
sonhos que se desfazem de manhã feito bolha bulhufas
sinais que a vida tem campos apenas esboçados farejados
sonhos que se desfazem de manhã como tênue vibração
sinais que nem só na terra existe vida extraterrestre
sonhos que se desfazem de manhã como alga marinha mel
sinais de quimeras como falava quampérius, o zumbi.
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Viagem para Londres. Chacal passa onze meses se enveredando por aquelas bandas de lá. Stones, sementes de girassol, Grand Magic Circus de Jérôme Savary e festival internacional de poesia no Queen’s Elizabeth Hall, onde, Chacal vê ninguém menos que Allen Ginsberg se apresentar. Chacal ficou estupefato com a dicção de Allen, seria uma referência. Depois, Amsterdã, Portugal e muitas experiências que o levaram a escrever América, seu terceiro livro. Chegando ao Brasil, Chacal conhece Cacaso e outros poetas da coleção Frenesi: Ana Cristina Cesar, Chico Alvim, Geraldo Carneiro, Roberto Schwartz e outros. América foi lançado em 75 e já apresentava poemas com mais consistência. Logo mais surgiria, A Nuvem Cigana.
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JABU
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jabuticaba jabuti jaburu jabuco
que é a corruptela de joaquim nabuco
tudo jabuca todos jabam ou jabotam
ainda mais quando estão com vontade
de jabutir ou jaburar
quampérius jogava com jadir na zaga
do jabaquara já vai jaca
zagarreava jabaculejava zarababava
no jaleco do avante vavá
e como era javali talvez jamantão
não dava colher pra nenhum vadio
nenhum valente nenhum valete
nem vascaíno quampa era jabu
jamaicano jamais violento
e sempre jabu porque uma vez jabu
sempre jabu jabu jaburu jaboatão
lalando samba canção…
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Nuvem Cigana veio de uma ideia do poeta Ronaldo Bastos, que pensava criar um grupo de ação artística na cidade. Algo que pudesse juntar tudo ao mesmo tempo: Produzir discos, livros, shows, fazer distribuição. Como a Apple com os Beatles. Ronaldo juntou o pessoal que participava da pelada no Caxinguelê, campo de futebol no Horto onde as pessoas faziam encontros, para tratar de muitas outras coisa além de futebol. Junto com Pedro Cascardo e Dionísio de Oliveira, a Nuvem Cigana havia começado. Chacal também se reunia no Sol Ipanema com outros poetas (depois viria a ser o Posto 9) e de noite no Baixo Leblon, isso já é 76, 77. Muita coisa importante acontecia, encontros, sempre encontros. Nesse período, Chacal foi morar em Santa Tereza, perto da “sede” do Nuvem Cigana. Alguns bons livros foram lançados por Bernardo Vilhena, Ronaldo Santos, Charles Peixoto e outros.
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PINGOS & GOTAS
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a chuva lambe a rua dos pingos dela.
a gota só pinga no banheiro do 403.
os pingos são pisados / atropelados e
é como se não estivessem nem aí.
já a gota grila, me esgota a gota.
e nem se liga
(não sei se repararam que:
a – a gota pinga e o pingo pinga.
b – a tinta pinta e uma pinta pinta
e despinta)
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Em 1975, Rui Campos, convida o Nuvem Cigana para uma feira de artes na galeria da livraria Muro. Seria a Artimanha. A feira (que logo viraria uma festa) teria música, batucada, dança, audiovisual. A poesia não estava encaixando. O que fazer? Ninguém falava poesia em público no Rio de Janeiro. OK. A primeira Artimanha aconteceu com exposição do Vergara com fotos do Cacique de Ramos, o bloco. Estava escuro, Chacal estava inquieto, quando lembrou do Allen Ginsberg e, de súbito, no meio da exibição das fotos, entrou e mandou um poema. Abriram as portas da poesia. Depois disso, todo mundo entrou para falar. Foi ali, por exemplo, que Tavinho Paes se experimentou também. Cinepoema de Flávio Nascimento, Grupo Bela Boca e muitos outros. Foi um importantíssimo evento para tudo que aconteceu depois. Mesmo.
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UM POETA NÃO SE FAZ COM VERSOS
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o poeta se faz do sabor
de se saber poeta
de não ter direito a outro ofício
de se achar de real utilidade pública
no cumprimento de sua missão sobre a terra
escrevendo tocando criando
o que pesa é não se achar louco
patético quixote inútil
como quem fala sozinho
como quem luta sozinho
o que pesa é ter que criar
não a palavra
mas a estrutura onde ela ressoe
não o versinho lindo
mas o jeitinho dele ser lido por você
não o panfleto
mas o jeito de distribuir
quanto a você meu camarada
que à noite verseja pra de dia
cumprir seu dever como água parada
fica aqui uma sugestão:
- se engaveta junto com os seus sonetos
porque muito sangue vai rolar e não
fica bem você manchar tão imaculadas páginas.
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A poesia marginal tinha um nome e corpo e contava com duas importantes figuras para seu amadurecimento: Heloisa Buarque de Hollanda e Cacaso. Chacal estava no meio disso tudo. Em 1976, viaja para São Paulo com Tavinho Paes, Pedro Lage, Xico Chaves e outros poetas para fazer apresentações. A artimanhas e a Nuvem ia crescendo. Em 77, Chacal se forma em Editoração e Teoria da Comunicação. Passou a trabalhar com iluminação de shows até que sai a aguardada antologia de Heloisa Buarque de Hollanda, 26 poetas hoje. Logo depois, Chacal publica seu quarto livro Quampérius. Cria também, ao lado de Luiz Eduardo Resende, o Rola Bola, uma banquinha ambulante de livros que marcava ponto no saguão dos teatros do Rio, deu certo. Momento importante foi o convívio com o Asdrúbal Trouxe o Trombone, com quem, logo mais, criaria a peça Aquele Coisa Toda. Em 79, Chacal publica Olhos vermelhos, Nariz Aniz e Boca Roxa, uma trilogia.
Curta metragem de Victor Steinberg que participei  http://vimeo.com/18830348
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CARA DE CAVEIRA
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minha cara é de caveira
meus olhos são de vidro
e vocês não me dizem nada
no meu corpo tem um sangue
amargo e verde
meu coração é à prova de choque
e vocês não sabem de nada
tenho pés de andar em qualquer chão
as mãos livres sem argolas
e vocês tremem por nada
minha memória guarda coisas bem curtidas
eu sou minha memória bem curtido
e vocês não são de nada
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No fim da década de 70, Chacal sofre um duro golpe: Seu amigo, Guilherme Mandaro, poeta da Nuvem Cigana, se atira pela janela e morre. Houve um abalo geral e, aos poucos, também por outros motivos, a Nuvem foi se dissipando. Chacal tentou trabalhar com publicidade, jornalismo, mas não se encaixava. Letra de música também não. Até que junta tudo e vai para Brasília. Uma nova vida se dava. Se envolveu com o movimento artístico da cidade. No Correio Brasiliense, ajudou a criar o Encarte e trabalhou como cronista. Depois, passa um tempo no sul da Bahia até voltar para o Rio. Fica na casa do Pedro Lage no Largo dos Leões. Volta a frequentar o Parque Lage e conhece uma rapaziada legal que fazia teatro lá com o Hamilton Vaz Pereira e, sobretudo, nas oficinas do Asdrubal. Fausto Fawcett, Cazuza, Bebel Gilberto, Alice Andrade e muitos outros. Tinha também o Perfeito Fortuna que já era uma figura aglutinadora. Como essa gente toda, querendo fazer coisas, havia a necessidade de um espaço. Até que no dia 15 de janeiro de 1982, veio para o mundo o Circo Voador.
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VALHALLA
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está tudo fosforecente
parece um campo de força
uma cápsula lunar
está tudo vago, muito vago
estou nas fronteiras dos campos da paz celestial
não ando.
nado submerso no mar egeu.
sossobro estabanado no mar da tranquilidade
ferido em batalha adentro o valhalla
e desfruto o hidromel das walkyrias
queres? querias.
parece que me transmutei em alguém
esses cabelos não são meus
esse tom de pele, eu desconheço em mim
algo acontece e você não sabe o que é, mr. jones
eu sou o subtítulo de uma obra inacabada
sou o sol de uma sinfonia atonal
passei por um buraco no céu:
a loucura é um sopro no ouvido.
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O início dos anos oitenta foi marcado pela efervescência do Circo Voador. Muita gente boa saiu dali e Chacal estava no meio deles. Entre apresentações da Blitz, Asdrúbal, Manhas & Manias e shows com a Stella Miranda e Duardo Dusek, muita coisa ia acontecendo. Foi um verão incrível. Após a desativação do Circo, Chacal escreve um livro de crônicas chamado Tontas Coisas. Nesse livro havia apenas um poema chamado Cândida. Este poema foi escrito no Prado, em 1981, e é um longo poema de amor. Logo depois Chacal escreve a peça Alguns Anos-luz-além a pedido do Barrão, seu grande amigo que pertencia ao grupo Lua me Dá Colo. Tontas coisas obteve algumas boa críticas até que em 1983, Chacal publica o Drops de Abril. Naquele momento, já se experimentava também com letras de música, algo inconcebível anos antes. Blitz, Lulu Santos, Hanoi Hanoi, 14 Bis e Paralamas.
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CALEIDOSCÓPIO CINEMASCOPE
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a vida é um cristal
que se reflete em pedaços
a vida como ela é
é a coleção dos cacos
vi um filme que aladim
da lâmpada tirava um gênio
ele era james dean
e tinha a cabeça a prêmio
eu parti do irajá
passando por paraty
eu ainda chego lá
até onde quero ir
vi um filme que fellini
fez um ensaio de orquestra
tinha tiro de canhão
e acabava numa festa
se no mato me perdi
nesse mato me acharei
entre mais de mil picadas
numa delas sou o rei
eu vi deus e o diabo
dançando na terra do sol
glauber rocha era o máximo
tão bom quanto rock and roll
minha estrada é um filme
cheio de amor e ódio
pra onde quer que me vire
cinemascope caleidoscópio
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Em 1985 houve o I Festival de Poesia do Circo Voador, organizado por Perfeito Fortuna e Alice Andrade. Foi nesse festival, por exemplo, onde Renato Russo mostrou seu “Faroeste Caboclo” pela primeira fez. Chacal ajuda na organização e participa. Kátia Flávia, conhecido trabalho de Fausto Fawcett com sua banda Robês Efêmeros também surge lá. O Circo armaria sua lona na Lapa. Depois disso, o Circo voou para Guadalajara no meio da Copa do Mundo para uma pequena aventura, Chacal foi junto. O fim dos anos 80 apresenta um certo declínio na sustentação. A competição, o sistema que favorecia somente ao extremo sucesso, um período difícil. Em contrapartida, as performances eram mais constantes e muito se desenvolveu ali. Em 88, Chacal trabalha como roteirista de videoclipe na Rede Globo. Chacal também chegou a escrever o último capítulo da “Armação Ilimitada” como frila e depois para o seriado “Juba e Lula”. Anos 80 é isso aí.
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POP ART
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ande logo seja breve leve love
por art: use abuse e descarte
breve leve now ou never leve love
pop art art pop
é melhor e dá ibope
pop pop pop art
art art art pop
pop art é cultura
aproveite enquanto dura
pop art em toda parte
agora também em marte
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Início dos anos noventa. Chacal, que acabara de sair da Rede Globo e de comprar seu primeiro carro em 36 anos, uma Fusca 67 vermelho, se encontrava novamente em situação difícil. Fazia meditação no Jardim Botânico e natação no Flamengo. Estava meio parado. Então foi convidado para lançar o Quampérius nos jardins da ECO, não falava em público há tempos, mas mesmo assim foi. Até que lhe aparece o Guilherme Zarvos, então, jovem produtor de um evento na Faculdade da Cidade chamado “Terças Poéticas”. Toda terça, havia uma mesa com um poeta de renome como Gullar, Cabral, Gerardo de Mello Mourão, Antonio Houaiss, Antonio Carlos Secchin, com convidados da nova geração, rapaziada mesmo. Chacal fora convidado por Zarvos para falar no mesmo dia da Heloisa Buarque de Hollanda sobre a poesia marginal e no fim de tudo, houve uma apresentação do grupo, então iniciante, Boato. Logo mais, algo surgiria.
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FALA PALAVRA
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fala palavra
tu que és velhíssima
no entanto uma gata
meus afagos
agarrar queria eu teu lombo bom
mas és limo na pedra de imolar amantes
feliz seria se te flagrasse no banho
mas me afogaria na areia movediça
do texto da tua tez
só me resta te cantar
como um cego
que sabe a luz tão próxima
mas impossível
ou como um mudo que sabe
um a um todos os tons
mas incapaz
fala palavra
furta-cor de tudo e todos
apenas passas
                      dás o nome
                                       e vais a caça
                                       bela e fera
                                       pantera
estanca o delírio romântico
nesse coração de poeta
cala em mim a paixão de te cantar
como um louco
que me vale saber tuas sonoridades
                          teu tom de cristal
se no meio desse hospital
                          fico tão impaciente
fala palavra
               fluido flerte
és versátil volúvel volátil
                                 diabólica
fala palavra
                mercúria sombra do nada
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Com o fim do “Terças poéticas” Chacal procura o Zarvos para uma conversa propondo a continuação do evento. Zarvos diz que não gostaria de continuar com a necessidade de chamar sempre um poeta conhecido, julgava difícil agendar, Chacal achava que deveria ser de noite também. Após uma viagem para Berlim, Zarvos, que lá tinha visto um evento parecido, volta com a ideia de fazer algo semelhante, envolvendo poesia e música. Numa conversa entre Chacal, Zarvos e Carlos Emílio, chegam à ideia do CEP 20000. O primeiro foi marcado na última quarta feira de agosto no Espaço Sérgio Porto em 1990. Zarvos, Chacal, Tavinho Paes, Alex Hamburguer, junto com a garotada do Boato, Guilherme Levi e quem aparecesse. O cartaz foi feito pelo André Britto. Chovia muito. Meio vazio, teve fechamento do Boato, que era formado por Celão, Cabelo, Dado Amaral, Beto, Montanha e Justo D’Ávila. Mais ou menos assim teve início o CEP 20000 que duraria 20 anos, ou melhor, está aí há vinte anos. Ainda bem.
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SOBREPOESIA
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a velha pergunta se instala
na sala do meu dia a dia:
pra que serve poesia?
pra decorar cerimônia
pra debelar a insônia
para dar nume ao nome
ou para cantar meu amor
operísticamente?
novas respostas se agitam
em busca de uma saída:
a poesia é precisa
pelo sim e pelo não
pelo que do não é til
pelo que ainda é talvez
pela energia sutil
a poesia é assim.
de novo o problema aparece
e uma ruga se materializa:
como viver de poesia?
de fazer reclame anúncio
de letrar o que é melodia
de ficcionar o que é pedra
ou posando de poeta
oportunista lente?
enfim a solução transparece
em súbita luz muito viva:
a poesia se vive
sem meias medidas
no transitivo direto
sem tênis adidas
no infinitivo descalço
a poesia é o fim.
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Logo após a criação do CEP, Chacal, começa a dar oficinas no Galpão das Artes do MAM. O museu passava por um momento difícil com a crise econômica do governo Collor, então, artistas foram convidados para dar oficinas. Antonio Cícero, Regina Miranda, Paulo Fortes e Chacal, que, inclusive, chegou a editar o Jornal do MAM. Com novo gás, Chacal entra com tudo no CEP. Lá se vão vinte anos e muitos passaram por lá: Marcia X, Pedro Luiz e a Parede, Arthur Omar, Chelpa Ferro, Hapax, Michel Melamed e dezenas de outros. Depois de um tempo, havia o CEP do Chacal e o CEP do Zarvos, todos frequentavam todos e com isso, todos ganhavam. O CEP reunia a rapaziada do Posto 9, do Baixo Gávea, do Baixo Leblon e muita gente que ouvia falar nesse lugar onde tudo acontecia. Liberdade sempre. O CEP virou a tese de doutorado do Zarvos e referência para os novos, inclusive este que vos escreve. Nestes mesmos anos 90, Chacal passa a morar no Baixo Gávea, que era frequentado por jovens interessados em artes, o CEP era divulgado lá, obviamente. Outro ponto de encontro era a casa do Zarvos. Por aí vai.
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LÚCIFER
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- Lúcifer! lúcifer! retornai de onde vos exilastes
diante da hipocrisia dos homens, vinde lá das
entranhas das trevas nos dar tua luz, encarnada luz,
único farol possível no meio desassossego. lúcifer!
lúcifer! lúcifer!
Acordo no meio da noite com o nome do príncipe
das trevas ecoando. vejo uma luz que vem como
uma golfada vermelha de dentro do tenebrião para
dar direção a minhas imagens pânicas. perdido no
lusco-fusco, essa íntima aurora boreal clareia meus
passos nesse labirinto. em toda baía, meu barco baila
bêbado e a grande lua com seus reflexos prismáticos
me desorienta dezoito pressentimentos. fujo de um,
atravessando o charco em desespero para naufragar
em outro, sibila tenebrosa, movediço pântano que me
quer devorar com suas garras crustáceas. aí de dentro
de mim, do fundo da noite eterna, um único grito
brota

- Lúcifer!

Então uma onda de fogo e luz me aquece e ilumina e o
louco lago se rasga. do seu leito seco, nasce um olho
aceso que sabe onde pisar. sim, senhor das trevas,
agora acredito na força das imagens primordiais. sim,
pastor da noite, tenho fé nas vozes que emergem das
minhas vísceras. sim, mestre ctônico, agora olho as
serpentes, os cães, os gatos, com olhar numinoso
de quem vê os encaminhadores. e todos rendem
homenagem à luz que vem de onde não se vê, ao calor
que brota das águas geladas, e todos tecem loas ao
lendário andarilho vagabundo que crepita em toda
lenha e repercute carnaval
- Lúcifer, sebgor dos caminhos! iluminai nossas
veredas. desencadeai a ígnea tempestade para que o
mais humano entre os deuses, o mais santo entre os
mortais, possa de novo caminhar à luz do dia, com
seus chifres, cetro e rabo. lúcifer! lúcifer! imperai!
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Em 2001 surge o FalaPalavra. Grupo performático formado Chacal, Pedro Rocha, Ericson Pires, Viviane Mosé, Guilherme Levi, Paulista, Michel Melamed e Éber Inácio. Foram algumas apresentações no Planetário da Gávea e no próprio Sérgio Porto. O FalaPalavra é o maior exemplo de desmembramentos do CEP, que também se deu em outros grupos. Nos 10 anos do CEP houve uma grande homenagem na Revista Trip, com um cd e grande máteria. Nesse meio, Chacal organiza o Humaitá Pra Peixe, com música e poesia. Quando o Sérgio Porto fecha para obras, Chacal ajuda a criar um bloco de carnaval. A ideia foi crescendo, até que surge o Bangalafumenga, com Pedro Luís e outros. Os shows eram no Planetário e deram certo. O carnaval de rua do Rio voltava a ser o que era.
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TEMPO
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no início era o começo
o depois veio vindo devagar.
o antes veio depois do depois.
só antes quando esse se estabeleceu.
no princípio era o agora.
isso demorou até que
tudo virou antes e depois.
então numa revolução peluda
o agora voltou ao trono.
antes e depois viraram
falta do que fazer.
e tanto fizeram
que o agora virou tudo
e o tudo, nada.
de volta ao princípio
o agora agora congelou.
o antes fica ora depois.
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Profunda errata: Ontem esqueci do Guilherme Zarvos no coro do FalaPalavra, que acontecia em 2000. Depois, houve um lapso de tempo com relação ao Humaitá Pra Peixe que ocorreu em 1992. Fora isso, em 2000, houve o Miscelânea Odeon, evento que começava nas portas do cinema e terminava lá dentro com muita festa. Chacal organizou quatro. Já há muito tempo, Chacal, se tornara referência para eventos de poesia envolvendo outras linguagens. Chacal já era cinquentenário. Chacal também participou da organização do Freezone, evento multiartes patrocinado pela Souza Cruz que acontecia em várias cidades. Grande proporções. Chacal já estava há oito anos sem publicar, até que surgiu a vontade fazer “A vida é curta para ser pequena”, que além de um belo livro, virou uma peça dirigida pela Cristina Flores. Chacal em cena.
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PALAVRA CORPO
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a palavra vive no papel
com vírgulas hífens crases reticências
leva uma vida reclusa de carmelita descalça
corpo palavra
o corpo aprendeu a ler na rua
com manchetes de jornais
jogadas na cara pelo vento
com gírias palavrões
zoando no ouvido
com gritos sussurros
impressos na pele
palavra corpo
a palavra que sair de si
a palavra quer cair no mundo
a palavra quer soar por aí
a palavra que ir mais fundo
a palavra funda
a palavra quer
a palavra fala:
- eu quero um corpo!
corpo palavra
o corpo sabe letras com gosto
de carne osso unha e gente
o corpo lê nas entrelinhas
o corpo conhece os sinais
o corpo não mente
o corpo quer dizer o que sabe
o corpo sabe
o corpo quer
o corpo diz:
- fala palavra!!!
palavracorpo corpopalavra
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Em 2003 a RioArte foi fechada pela Prefeitura. Algumas companhias de dança e de teatro ficaram sem apoio e houve uma grande revolta. Gilberto Gil assume o Ministério da Cultura e a Lei Rouanet é posta em questão. Chacal luta pelo 1% no orçamento para a Cultura. De um lado havia o grande teatro e do outro os grupos experimentais. No Largo do Machado, houve um grande manifesto com a participação de alguns grupos teatrais e de dança, Chacal, junto com Fábio Ferreira, redigiu o Manifesto 1. Em 2006, Chacal, após aprender os caminhos da produção cultural, cria o Bendita Palavra Maldita, no SESC. Performances com poesia e artes plásticas envolvendo gerações diferentes. Nessa época, Chacal começa a receber convites para se apresentar em outros países, Argentina e depois Estados Unidos. Em Nova York, Chacal faz uma performance no Bowery Club, porém, uma triste notícia do Brasil: O Sérgio Porto pega fogo.
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ESSE ANIMAL
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o poeta é de carne e osso
tem olhos, boca, nariz, pescoço
tem pressa, humor, desejo e calma
o poeta é de corpo e alma
o poeta é de osso e carne
sendo a vida vivda o osso
a carne o que lhe dá a palavra
o poeta é alguém que se lavra
tem poeta mais carne que osso
tem o tecido adiposo de quem
entre livros letras ditados
vê a vida passar ao largo
tem poeta carne de pescoço
traz o esqueleto no rosto
não sabe dar carne ao poema
preso no fundo do poço
o poeta é um animal que fuma
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Belvedere é o livro que contém toda a sua poesia reunida. Também é o nome de um mirante na subida da Serra. O livro tem treze livros em 35 anos de estrada. Saiu em 2007, numa bela edição. O lançamento foi na FLIP do mesmo ano. Por essa época, Chacal faz algumas viagens para São Paulo, com recitais e encenações de seus poemas na Praça Roosevelt pelo grupo Os Satyros. Houve também o CEP 20000 na mesma praça e Chacal percorre o Circuito SESC das Artes. Em 2010, Chacal publica Uma História à Margem, autobiografia que é, para mim, um documento de extrema importância para todos os jovens poetas do Rio de Janeiro, ou para os que queiram entender como a coisa toda funcionou e funciona por aqui. O CEP se renovou e hoje volta a ser procurado, volta a ser um ponto de encontro, como sempre foi e Chacal, um dos seus grande responsáveis.
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DOIS PONTO TRES LISBOA
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tô sem ideia. sem vontade descrever. de nada. não
tenho a mínima ideia do que virá a seguir. inércia é
meu sobrenome. ando tão feio. tão sem assunto. me
assusto. ninguém mais há em minha volta. tô cansado
da minha companhia. só falo besteira. não digo nada
com nada. preciso exercitar a pena. se ela se move que
seja na minha mão. trêmula e bolorenta. mesmo que
seja para ser mais um papel sujo. se isso fosse uma folha
em branco, você podia desenhar, descansar a vista. ou
escrever um bilhete suicida. mas eu passei primeiro
e… se você não se importa, rabisque por cima. por mim
tanto faz. acho até que vou tomar um bagaço e ver
no que dá. vou à torre de Belém olhar o Tejo. matar o
tempo pra não me matar, esse é o meu nome. fiquei nos
quartos dessa casa em Benfica o dia todo, ouvindo rock
lendo história em quadrinho. boa noite. talvez alguém
leia e curta isso aqui. tanto faz. embora tudo que mais
quero nessa porca vida é te botar feliz. bagaço nasta o
meu e o da uva.
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Eis que chegamos ao final de mais uma antologia. Desta vez, percorremos a poesia do poeta Ricardo de Carvalho Duarte, o Chacal. Poeta nervo do tempo da geração da marginal, do dizer poesia, do diálogo com a nova geração, dos eventos de poesia, quem começou tudo isso que nós vemos e vivemos hoje no cenário poético do Rio de Janeiro. Da Nuvem Cigana, Artmanhas, Circo Voador, ao CEP 20000 e o FalaPalavra. Lembrando Manuel Bandeira, o sexagenário Chacal, (dia 24 de maio fará 60 anos) é, de fato, umas das figuras mais notáveis da poesia brasileira, com especial devoção ao Rio de Janeiro, cidade onde cresceu e desenvolveu sua voz, seu grito. Semana que vem entraremos numa outra questão, numa outra proposição poética, em outros poemas, outra trajetória, só para lembrar que a poesia pode mudar tudo de uma hora para outra, e o poema é uma das chaves para isso. Evoé!
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SOBRE O SILENCIO
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hoje não viemos discutir projetos
hoje não viemos pedir
hoje viemos como alguém que visita sua casa
que vem dizer pra família
sobre as dificuldades de se tecer a invenção
sobre o abismo que se abre para além do entretenimento
sobre o prazer que é lutar pelo que se acredita
hoje viemos dizer pra família
que não vamos mais terminar os estudos
e que nossa carne curtida, nosso olho vermelho,
nosso sorriso encarnado e, principalmente, nosso silêncio
dizem tudo.
abril 9, 2011

José Saramago

José de Sousa Saramago nasceu em Azinhaga, vilarejo do conselho de Golegã, que fica localizada na antiga província de Ribatejo em Portugal no dia 16 de novembro de 1922. Cresceu “numa família de camponeses em terra” como uma vez escreveu. Neste mês, percorreremos a poesia, pouca conhecida, deste grande e laureado escritor da língua portuguesa cuja prosa todos conhecemos. Com muita honra que determino: Agora é Saramago!

ÁGUA AZUL

Altos segredos escondem dentro de água
O reverso da carne, corpo ainda.
Como um punho fechado ou um bastão,
Abro o líquido azul, a espuma branca,
E por fundos de areia e madrepérola,
Desço o véu sobre os olhos assombrados.

(Na medida do gesto, a largueza do mar
E a concha do suspiro que se enrola.)

Vem a onda de longe, e foi um espasmo,
Vem o salto na pedra, outro grito:
Depois a água azul desvenda as milhas,
Enquanto um longo, e longo, e branco peixe
Desce ao fundo do mar onde nascem as ilhas.

 

 

Foi “numa família de camponeses sem terra” que Saramago nasceu. Consta que o nome ‘Saramago’ vem de uma planta espontânea que servia de alimento aos pobres. Em 1924, aos dois anos de idade, a família se muda para Lisboa. O pai resolvera abandonar o trabalho no campo para exercer a profissão de policial na capital. Meses depois da mudança, seu irmão, Francisco, de quatro anos de idade, faleceria. As condições eram precárias, a família viveu em vários lugares, sempre em quartos alugados na ruas de Lisboa.

TEU CORPO DE TERRA E ÁGUA

Teu corpo de terra e água
Onde a quilha do meu barco
Onde a relha do arado
Abrem rotas e caminho.

Teu ventre de seivas brancas
Tuas rosas paralelas
Tuas colunas teu centro
Teu fogo de verde pinho

Tua boca verdadeira
Teu destino minha alma
Tua balança de prata
Teus olhos de mel e vinho

Bem que o mundo não seria
Se o nosso amor lhe faltasse
Mas as manhãs que não temos
São nossos lençóis de linho

José Saramago fez a instrução básica nas escolas primarias da Rua Martens Ferrão e do Largo do Leão, em Lisboa. A família o havia matriculado numa escola chamada Liceu Gil Vicente, onde fez boa parte do colegial, divido na época em Portugal, em liceu e técnico. Porém, por dificuldades econômicas, foi obrigado a transferir-se para a Escola Industrial de Afonso Domingues, onde estudou, durante cinco anos, o ofício de serralheiro mecânico.

PASSO NUM GESTO QUE EU SEI

Passo num gesto que eu sei
Deste mundo agoniado para o espaço
Onde sou quanto serei
No tempo que sobra escasso

No outro mundo sou rei
E o meu rosto de cristal e puro aço
É o espelho que forjei
Com suor pena e cansaço

E se o mundo que deixei
Tem as marcas desenhadas do meu passo
São baralhas que enredei
São teias e vidro baço

Tantas provas cá terei
Tantas vezes do pescoço solto o laço
Se me sagraram em rei
Aceitem a lei que eu faço

Vem a ser que o homem novo
Está na verdade que movo

 

À noite, o jovem Saramago frequentava a biblioteca municipal do Palácio das Galveias, como ele próprio diria “lendo ao acaso de encontros e de catálogos, sem orientação, sem ninguém que me aconselhasse, como o mesmo assombro criador do navegante que vai inventando cada lugar que descobre”. Foi assim, “guiado pela curiosidade e pela vontade de aprender” que desenvolveu o gosto pela leitura e o gosto especial por Kafka, Gogol, Cervantes, Montaigne, Raul Brandão e Padre Antônio Vieira.

DISSERAM QUE HAVIA SOL

Disseram que havia sol
Que todo o céu descobria
Que nas ramagens pousavam
Os cantos das aves loucas

Disseram que havia risos
Que as rosas se desdobravam
Que no silêncio dos campos
Se davam corpos e bocas

Mais disseram que era tarde
Que a tarde já descaía
Que ao amor não lhe bastavam
Estas nossas vidas poucas

E disseram que ao acento
De tão geral harmonia
Faltava a simples canção
Das nossas gargantas roucas

Ó meu amor estas vozes
São os avisos do tempo

 

 

Avançando na vida do jovem José Saramago, em 1944, aos 22 anos, casa-se com a pintora Ilda Reis. Neste momento, já havia mudado sua atividade, do emprego de serralheiro mecânico, agora, trabalharia como empregado administrativo, primeiro nos Hospitais Civis de Lisboa, depois, na Caixa de Abono da Família do Pessoal de Industria e Cerâmica, de onde foi afastado, mais tarde, em 1947, por razões políticas, quando apoiou o candidato da oposição General Norton de Matos, nas eleições da presidência da República.

DE PAZ E DE GUERRA

Na mão serena que num gesto de onda
Em estátua musical o ar modela.

Na mão torcida que num frio de gelo
A parede do tempo em fundos gritos risca.

Na mão de febre que num suor de chama
Em cinzas vai tornando quanto toca.

Na mão de seda que num afago de asa
Faz abrir os sonhos como fontes de água.

Na tua mão de paz, na tua mão de guerra,
Se já nasceu amor, faz ninho a mágoa.

 

 

Em 1947, nasce sua primeira e única filha, Violante, é também o ano da publicação de seu primeiro livro, Terra do Pecado, intitulado inicialmente, A Viúva. Graças à intervenção de seu antigo professor Jorge O’Neil, começou a trabalhar na Caixa de Previdência do Pessoal da Companhia de Previdente, fazendo cálculo de subsídios e de pensões. Nessa época, já escrevia poemas e contos, alguns deles publicados em algumas revistas e jornais. Outro romance, literário, viria.

RETRATO DO POETA QUANDO JOVEM

Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.

Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brandas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.

Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.

Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.

 

 

Em 1953, Saramago concluía o romance, até hoje inédito, Clarabóia, que seu amigo, o pintor Figueiredo Sobral, enviou para Empresa Nacional de Publicidade e de que esta só deu notícia em 1990 (!). Sobre este caso, Saramago disse que “sempre tive a consciência que não se perdeu grande coisa em não ter sido publicado”. Depois disso, consta que Saramago passaria dezenove anos sem escrever nada, quase duas décadas de silêncio, “achava que não tinha nada pra dizer”, dizia.


EM VIOLINO FADO


Ponho as mãos no teu corpo musical
Onde esperam os sons adormecidos.
Em silêncio começo, que pressente
A brusca irrupção do tom real.
E quando a alma ascendendo canta
Ao percorrer a escala dos sentidos,
Não mente a alma nem o corpo mente.
Não é por culpa nossa se a garganta
Enrouquece e se cala de repente
Em cruas dissonâncias, em rangidos
Exasperantes de acorde errado.


Se no silêncio em que a canção esmorece
Outro tom se insinua, recordado,
Não tarda que se extinga, emudece:
Não se consente em violino fado.

 

 

Saramago começou a trabalhar na editora Estúdios Cor, como responsável pela produção, o que lhe permitiu conhecer e fazer amizades com os principais escritores portugueses daquele momento. Nesta época, 1955, para melhorar os rendimentos da família, e também por gosto pessoal, Saramago inicia um trabalho de tradução literária. A partir daí, se envolve com Collete, Par Lagerkvist, Jean Cassou, Maupassant, André Bonnard, Tolstoi, Baudelaire, Étienne Balibar, Nicos Poulantzas, Henri Focillon, Jacques Roumain, Hegel e Raymond Bayer. Por aí vai.

TAXIDERMA OU POÉTICAMENTE HIPÓCRITA
Posso falar de morte enquanto vivo?
Posso ganir de fome imaginada?
Posso lutar nos versos escondido?
Posso fingir de tudo, sendo nada?
Posso tirar verdades de mentiras,
Ou inundar de fontes um deserto?
Posso mudar de cordas e de liras,
E fazer de má noite sol aberto?
Se tudo a vãs palavras se reduz
E com elas me tapo a retirada,
Do poleiro da sombra nego a luz
Como a canção se nega embalsamada.
Olhos de vidro e asas prisioneiras,
Fiquei-me pelo gasto de palavras
Como rasto das coisas verdadeiras.

Em 1966, Saramago publicou seu primeiro livro de poesia, Os Poemas Possíveis, cujos poemas percorremos nessa semana. Paralelamente, entre maio de 67 e novembro de 68, colaborou como crítico literário na revista Seara Nova, analisando vinte e três livros de ficção, dentre os quais, Jorge de Sena, Agustina Bessa Luís, Alice Sampaio, Augusto Abelaira, Urbano Tavares Rodrigues, José Cardoso Pires, Rentes Carvalho, Nelson de Matos e Manuel Campos Pereira. Saramago definiu Agustina como “genial”. Publicou crônicas no jornal A Capital, que depois seriam reunidas no livro Deste Mundo e de Outro.

MITOLOGIA

Os deuses, noutros tempos, eram nossos
Porque entre nós amavam. Afrodite
Ao pastor se entregava sob os ramos
Que os ciúmes de Hefesto iludiam.

Da plumagem do cisne as mãos de Leda,
O seu peito mortal, o seu regaço,
A semente de Zeus, dóceis, colhiam.

Entre o céu e a terra, presidindo

Aos amores de humanos e divinos,

O sorriso de Apolo refulgia.

Quando castos os deuses se tornaram,

O grande Pã morreu, e órfãos dele,

Os homens não souberam e pecaram.

 

 

Em 1970, José Saramago se divorcia de Ilda Reis e inicia, logo após, uma relação que duraria dezesseis anos com a escritora Isabel da Nóbrega. No mesmo ano publica seu segundo livro de poemas Provavelmente Alegria. Saramago sai da editora Estúdios Cor, onde trabalhava, e foi ser editorialista e coordenador de um suplemento cultural do Diário de Lisboa. Colaborava também com o Jornal do Fundão.

OUVINDO BEETHOVEN

Venham leis e homens de balanças,
Mandamentos daquém e dalém mundo,
Venham ordens, decretos e vinganças,
Desça o juiz em nós até ao fundo.

Nos cruzamentos todos da cidade,
Brilhe, vermelha, a luz inquisidora,
Risquem no chão os dentes da vaidade
E mandem que os lavemos a vassoura.

A quantas mãos existam, peçam dedos,
Para sujar nas fichas dos arquivos,
Não respeitem mistérios nem segredos,
Que é natural nos homens serem esquivos.

Ponham livros de ponto em toda a parte,
Relógios a marcar a hora exacta,
Não aceitem nem votem outra arte
Que a prosa de registo, o verso data.

Mas quando nos julgarem bem seguros,
Cercados de bastões e fortalezas,
Hão-de cair em estrondo os altos muros
E chegará o dia das surpresas.

 

Em 1973, José Saramago publica O Embargo e o segundo livro de crônicas jornalísticas e publicadas no Jornal do Fundão e em A Capital com o título de A Bagagem do Viajante. Em abril de 1974 vem a Revolução dos Cravos e, Saramago, que já dirigia o suplemento literário do Diário de Lisboa e colaborava com a revista Arquitectura, torna-se uma espécie de “operário das palavras”, é nomeado diretor-adjunto do Diário de Notícias durante o período de governo chefiados pelo General Vasco Gonçalves. Saramago já havia coordenado uma equipe do Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis, dependente do Ministério da Educação. Editou também seu primeiro livro de crônicas políticas: As Opiniões que DL teve.

texto Lá vem Juvenal! no http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
AOS DEUSES SEM FIÉIS

Talvez a hora escura, a chuva lenta,
Ou esta solidão inconformada.

Talvez porque a vontade se recolha
Neste findar de tarde sem remédio.

Finjo no chão as marcas dos joelhos
E desenho o meu vulto em penitente.

Aos deuses sem fiéis invoco e rezo,
E pergunto a que venho e o que sou.

Ouvem-me calados os deuses e prudentes,
Sem um gesto de paz ou de recusa.

Entre as mãos vagarosas vão passando
A joeira do tempo irrecusável.

Um sorriso, por fim, passa furtivo
Nos seus rostos de fumo e de poeira.

Entre os lábios ressecos brilham dentes
De rilhar carne humana desgastados.

Nada mais que o sorriso retribui
O corpo ajoelhado em que não estou.

Anoitece de todo, os deuses mordem,
Com seus dentes de névoa e de bolor,
A resposta que aos lábios não chegou.

 

 

O verão quente de 75 foi turbulento, os tempos estavam confusos e Portugal, como muitos diziam, beirava uma guerra civil. No Diário de Notícias, onde Saramago trabalhava, consta que sentia-se o clima braço de ferro entre os tidos como “radicais” envolvidos no processo revolucionário de acordo com a linha política do Partido Comunista Português (PCP) do qual Saramago fazia parte desde 66, e com os mais “moderados”. A linha editorial do jornal foi posta em causa por trinta jornalistas que defendiam a revisão, ou seja, uma espécie de censura, através de uma abaixo-assinado, e exigiam a publicação do mesmo no próprio jornal.

POEMA A BOCA FECHADA

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é doutra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vasa de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais boiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quanto me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

 

 

 

O processo de censura dentro do Diário de Notícias apareceu logo no dia seguinte no jornal Expresso, assim como na BBC. No jornal, para qualquer tipo de decisão era preciso convocar o Conselho Nacional de Trabalhadores, onde, em certa noite, fora decidido que 24 jornalistas seriam afastados após uma intervenção eloquente de Saramago. Porém, no governo seguinte, Saramago, que fora alvo de uma espécie de “saneamento”, foi definitivamente afastado do cargo e o jornal suspenso sem qualquer apoio do Partido Comunista.

ESTUDO DE NU

Essa linha que nasce nos teus ombros,
Que se prolonga em braço, depois mão,
Esses círculos tangentes, geminados,
Cujo centro em cones se resolve,
Agudamente erguidos para os lábios
Que dos teus se desprenderam, ansiosos.

Essas duas parábolas que te apertam.
No quebrar onduloso da cintura,
As calipígias ciclóides sobrepostas
Ao risco das colunas invertidas:
Tépidas coxas de linhas envolventes,
Contornada espiral que não se extingue.

Essa curva quase nada que desenha
No teu ventre um arco repousado,
Esse triângulo de treva cintilante,
Caminho e selo da porta do teu corpo,
Onde o estudo de nu que vou fazendo
Se transforma no quadro terminado.

 

 

Mais uma vez desempregado e com as portas completamente fechadas para qualquer possibilidade de emprego no contexto político, José Saramago dedica-se por completo à escrita e à tradução, vertendo para o português cerca de vinte e sete obras, quase todas de caráter político. Ganhava pouco dinheiro, porém, não desistia do ofício. Fez parte do Movimento Unitário dos Trabalhadores Intelectuais para a Defesa da Revolução (MUTI) e publicou até o final de 1976 o livro O Ano de 1993, Apontamentos, que se tratava de uma reunião de crônicas do Diário de Notícias e também publicou o romance Manual de Pintura de Caligrafia.

Graças ao incentivo de Tavinho Paes, arquivo deste mailing para pesquisa em http://cartilhadepoesia.wordpress.com
EXERCÍCIO MILITAR

És campo de batalha, ou simples mapa?
És combate geral, ou de guerrilhas?
Na cortina de fumo que te tapa,
É paz que vem, ou novas armadilhas?

Fechado neste posto de comando,
Avanço as minhas tropas ao acaso
E tão depressa forço como abrando:
Capitão sem poder, soldado raso.

A lutar com fantasmas e desejos,
Nem sequer sinto as balas disparadas,
E disponho as bandeiras dos meus beijos
Em vez de abrir crateras a dentadas.

 

A infância marcada pelas dificuldades financeiras seria, mais tarde, lembrada num momento de glória do escritor e, aqui, poeta. Terminado o curso, conseguiu seu primeiro emprego como serralheiro mecânico nas oficinas dos Hospitais Civis de Lisboa. Desde cedo, adquiriu o hábito de ser pontual, rígido no cumprimento do dever e na dedicação ao trabalho. Consta que não tinha ambições na vida, que sabia que teria de viver cada dia com o árduo trabalho, e o que tivesse que chegar, chegaria com o tempo.

Experiência numa Biblioteca Municipal em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
NO TEU OMBRO POUSADA A MINHA MÃO
Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se no fundo do poço, que é o mundo
Secreto e intratável das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas. O musgo é um silêncio,
E as cobras-d’água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar, as aves se recolhem.

No início de 1976, Saramago vai morar no Alentejo, mais precisamente na povoação rural de Lavre, onde colheu importantes informações que seriam fundamentais para a escrita de seu aclamado romance e primeiro grande sucesso, Levantado do Chão, com o qual recebeu o Prêmio da Cidade de Lisboa. Dois anos antes, havia publicado a peça de teatro A Noite e recebeu o Prêmio da Associação Portuguesa de Escritores, e o conto O Ouvido, que integrou a antologia Poética dos Cinco Sentidos. Saramago iniciava o amadurecimento de sua linguagem.

tradução de Victor Hugo em http://pedrolago.blogspot.com
RECORTO A MINHA SOMBRA DA PAREDE

Recorto a minha sombra da parede,
Dou-lhe corda, calor e movimento,
Duas demãos de cor e sofrimento,
Quanto baste de fome, o som, a sede.

Fico de parte a vê-la repetir
Os gestos e palavras que me são,
Figura desdobrada e confusão
De verdade vestida de mentir.

Sobre a vida dos outros se projecta
Este jogo das duas dimensões
Em que nada se prova com razões
Tal um arco puxado sem a seta.

Outra vida virá que me absolva
Da meia humanidade que perdura
Nesta sombra privada de espessura,
Na espessura sem forma que a resolva.

Na década de 80 veio a consagração internacional. Continuou traduzindo vários títulos, publicou a peça de teatro O que vou fazer com este livro?; publicou Viagem a Portugal; e Memorial do Convento, já em 1982, com o qual ganhou o prêmio Prêmio Pen Club e Prêmio Literário do Município de Lisboa. Depois, O Ano da Morte de Ricardo Reis, com o qual ganhou de novo o Pen Club, o Prêmio da Crítica 1985, pela Associação Portuguesa de Críticos, o Prêmio Dom Dinis (Fundação Casa de Mateus) e o Prêmio Grinzane-Cavour (Alba, Itália) 1987. No ano seguinte terminou seu relacionamento com a escritora Isabel de Nóbrega. Publicou ainda A Jangada de Pedra e A Segunda Vida de São Francisco de Assis. Um novo amor apareceria.
VENHO DE LONGE, LONGE, E CANTO SURDAMENTE

Venho de longe, longe, e canto surdamente
Esta velha, tão velha, canção de rimas tortas,
E dizes que a cantei a outra gente,
Que outras mãos me abriram outras portas:

Mas, amor, eu venho neste passo
E grito, da lonjura das estradas,
Da poeira mordida e do tremor
Das carnes maltratadas,
Esta nova canção com que renasço.

 

 

Por conta do livro O Ano da Morte de Ricardo Reis, a jornalista e tradutora espanhola Pilar de Rio vai para Lisboa conhecer Saramago, acabam se apaixonando e casam-se em 1988. Sobre ela escreveu: “Se tivesse morrido aos 63, antes de a conhecer, morreria muito mais velho do que quando serei quando chegar minha hora”. Em 1989, publica História do Cerco de Lisboa. Também pertenceu à primeira Direção da Associação Portuguesa de Escritores, e de 1985 a 1994, foi presidente da Assembléia Geral da Sociedade Portuguesa de Autores, e ainda ficaria por um ano na presidência da Assembléia Municipal de Lisboa ao mesmo tempo da histórica coligação entre socialistas e comunistas que tinha como presidente da Câmara Jorge Sampaio. Amanhã, anos 90.

CARTA DE JOSÉ A JOSÉ

Eu te digo, José: por esta carta
Não garanto mentira nem verdade:
O que de mim não sei sempre me aparta
Da franqueza de ser e da vontade.

São cobiças inúteis, vãos desgostos,
São braços levantados e caídos,
São rugas que cortam os cem rostos
Da comédia e do jogo repetidos.

Desse lado da mesa, ou desse espelho,
Vais seguindo as palavras invertidas:
Assim verás melhor se, quanto, valho
Ao revés dos sinais e das medidas.

(Correm águas geladas no meu rio.
E roucos cantos de aves, derivando
Por silêncio frustrado e calafrio,
Vão manhã doutro dia recordando.)

Cai a chuva do céu, e não te molha,
Está a noite entre nós, e não te cega.
Não sorrias, José: à tua escolha
O que nos sobra de alma se me nega.

Desse lado da mesa, onde me acusas.
Te levantas. A marca do teu pé,
Na soleira da porta que recusas,
Fecha de vez a carta inacabada.

Tua sombra pisada, teu amigo — José.

 

 

Na década de 90, Saramago vai para o exílio em virtude do vergonhoso ato de censura do governo português chefiado por Cavaco Silva (!), pela mão do então subsecretário do Estado, Sousa Lara, que vetou a indicação de seu conhecido romance O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de 1991, ao Prêmio Literário Europeu, alegando ser “ofensivo aos católicos”. Saramago então vai viver com Pilar na ilha de Lanzarote na Espanha. Lá construiu uma casa onde gravou em azulejos num muro branco o nome “A Casa”, “resolvi baptizá-la assim, se calhar pela minha necessidade de espetar uma pequena bandeira portuguesa. Foi a afirmação da minha origem”.

A TI REGRESSO, MAR, AO GOSTO FORTE

A ti regresso, mar, ao gosto forte
Do sal que o vento traz à minha boca,
À tua claridade, a esta sorte
Que me foi dada de esquecer a morte
Sabendo embora como a vida é pouca.

A ti regresso, mar, corpo deitado,
Ao teu poder de paz e tempestade,
Ao teu clamor de deus acorrentado,
De terra feminina rodeado,
Prisioneiro da própria liberdade.

A ti regresso, mar, como quem sabe
Dessa tua lição tirar proveito.
E antes que esta vida se me acabe,
De toda a água que na terra cabe
Em vontade tornada, armado o peito.

 

 

O Evangelho Segundo Jesus Cristo recebeu o Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, assim como vários e importantes prêmios, inclusive na Italia. Foi Doutor Honoris Causa pela Universidade de Turim e Sevilha e recebeu o título de Cavaleiro da Ordem das Artes e Letras na França. Em 1993 publicou outra peça de teatro, In Nomine Dei, e iniciou a escrita de um diário, Cadernos de Lanzarote. Saramago se tornou membro do Parlamento Internacional de Escritores em Estrasburgo. Os prêmios viriam mais e mais junto com o prestígio internacional, porém, o grau máximo viria alguns anos depois. Mediante a riqueza de sua biografia e a quantidade de poemas, estenderei o estudo por mais uma semana.

JOGO DO LENÇO

Trago no bolso do peito
Um lenço de seda fina,
Dobrado de certo jeito.
Não sei quem tanto lhe ensina
Que quanto faz é bem feito.

Acena nas despedidas,
Quando a voz já lá não chega
Por distâncias desmedidas.
Depois, no bolso aconchega
As saudades permitidas.

Também o suor salgado,
Às vezes, enxugo a medo,
Que o lenço é mal empregado.
E quando me feri um dedo,
Com ele o trouxe ligado.

Nunca mais chegava ao fim
Se as graças todas dissesse
Deste meu lenço e de mim,
Mas uma coisa acontece
De que não sei porque sim:

Quando os meus olhos molhados
Pedem auxílio do lenço,
São pedidos escusados.
E é bem por isso que penso
Que os meus olhos, se molhados,
Só se enxugam no teu lenço.

 

 

Em 1995, José Saramago publica seu famoso Ensaio sobre a Cegueira, e o segundo livro de Cadernos de Lanzarote. No mesmo ano ganho o Prêmio Camões, o mais importante prêmio português, e o Prêmio de Consagração da Sociedade Portuguesa de Autores. Nos anos seguintes publicou mais um volume de Cadernos de Lanzarote, Todos os Nomes, e o belíssimo Conto da Ilha Desconhecida. A essa altura, Saramago é mais que reconhecido mundialmente, tendo recebido todos os prêmio importantes portugueses, alguns italianos e uma condecoração francesa. Porém, faltava o prêmio maior que um escritor pode almejar em sua carreira, se assim posso dizer.

CONTRACANTO
Aqui, longe do sol, que mais farei
Senão cantar o bafo que me aquece?
Como um prazer cansado que adormece
Ou preso conformado com a lei.
Mas neste débil canto há outra voz
Que tenta libertar-se da surdina,
Como rosa-cristal em funda mina
Ou promessa de pão que vem nas mós.
Outro sol mais aberto me dará
Aos acentos do canto outra harmonia,
E na sombra direi que se anuncia
A toalha de luz por onde vá.

 

 

Após o Prêmio Nobel, sua vida fica muito mais movimentada, com viagens pelo mundo, palestras, recebe inúmeros títulos Doutor Honoris Causa. Através de uma iniciativa diplomática do Primeiro Ministro Durão Barroso, Saramago reconcilia-se com seu país, após suspensão do processo de censura. Após o evento, o mesmo Primeiro Ministro cria a Cátedra José Saramago na Universidade Autônoma do Mexico. Sua peças são encenadas sucessivamente, é criada uma biblioteca em sua casa de Lanzarote. Em 2007, é criada a Fundação José Saramago. Até então, desde 1998, Saramago publica Folhas Políticas; A Caverna, A Maior Flor do Mundo, O Homem Duplicado; Ensaio Sobre a Lucidez; Don Giovanni ou o Dissoluto Absolvido; As Intermitências da Morte e Pequenas Memórias.

SALMO 136

Nem por abandonadas se calavam
As harpas dos salgueiros penduradas.
Se os dedos dos hebreus as não tocavam,
O vento de Sião, nas cordas tensas,
A música da memória repetia.
Mas nesta Babilónia em que vivemos,
Na lembrança Sião e no futuro,
Até o vento calou a melodia.
Tão rasos consentimos nos pusessem,
Mais do que os corpos, as almas e as vontades,
Que nem sentimos já o ferro duro,
Se do que fomos deixarem as vaidades.

Têm os povos as músicas que merecem.

 

 

 

No dia 18 de dezembro de 2008, Saramago é internado por causa de uma pneumonia, que lhe causaria sérios danos à saúde. Meses mais tarde, é homenageado em Portugal com uma exposição sobre sua vida e obra. Em 14 de maio, em Cannes, estreia o filme Blindness, adaptação do livro Ensaio Sobre a Cegueira, realizada pelo diretor Fernando Meirelles, com elenco de peso. Saramago se emociona profundamente após ver o filme. Termina o livro Caderno de Elefante. Em outubro de 2009, publica seu último livro, Caim. Em dezembro, arranja forças e vai visitar Aminatu Haidar, defensora dos Direitos Humanos que fazia greve de fome após ter sua entrada impedida em Marrocos. Ainda realiza uma campanha para arrecadar fundos para as vítimas do terremoto no Haiti.

BALADA

Dei a volta ao continente
Sem sair deste lugar
Interroguei toda a gente
Como o cego ou o demente
Cuja sina é perguntar

Ninguém me soube dizer

Onde estavas e vivias

(Já cansados de esquecer
Só vivos para morrer
Perdiam a conta aos dias)

Puxei da minha viola
Na soleira me sentei

Com a gamela da esmola

Com pão duro na sacola
Desiludido cantei

Talvez dissesse romanças
Ou cantigas de encantar
Aprendidas nas andanças
Das poucas aventuranças
De quem não soube esperar

Andavam longe os teus passos
Nem as cantigas ouviste
Vivias presa nos laços
Que faziam outros braços
No teu corpo que despiste

Quanto tempo ali fiquei
Sangrando os dedos nas cordas
Quantos arrancos soltei
Nesta fome que criei
Nem eu sei nem tu recordas
Porque nunca tos contei

Até que um dia cansaste
(Era pó não era monte)
Outra lembrança deixaste
E nas águas desta fonte
A tua sede mataste
— O arco da minha ponte

 

 

No dia 18 de junho de 2010, José Saramago morre em sua casa em Lanzarote. Um avião da Força Aérea Portuguesa trouxe os restos mortais do escritor para Portugal, que foi velado na Câmara Municipal de Lisboa, e depois cremado no cemitério Alto de São João. Assim terminamos este estudo sobre a poesia do grande escritor. Dois livros, foi o que produziu em versos. Espero que tenham gostado de sua poesia, que tenha servido para alguma coisa, pois a poesia serve para quem precisa dela. No fim da vida, Saramago revela que “gostaria de ter escrito um livro chamado Livro do Desassossego, mas Fernando Pessoa antecipou-se. O meu desassossego não é o mesmo dele, mas o título convinha-me. Como não tive sossego, quero desassossegar os outros”. Semana que vem, RESTROSPECTIVA 2010.

PEQUENO COSMOS

Ah, rosas, não, nem frutos, nem rebentos.
Horta e jardim sobejam nestes versos
De consonâncias velhas e bordões.

Navegante dum espaço que rodeio
(Noutra hora diria que infinito),
É por fome de frutos e de rosas
Que a frouxidão da pele ao osso chega.

Assim árido, e leve, me transformo:
Matéria combustível na caldeira
Que as estrelas ateiam onde passo.

Talvez, enfim, o aço apure e faça
Do espelho em que me veja e redefina.

 

 

 

março 20, 2011

Álvares de Azevedo

Manuel Antônio Álvares de Azevedo nasceu em São Paulo no dia 12 de setembro de 1831. Além da poesia, se enveredou pelos contos e ensaios. Filho do estudante de Direito Inácio Manuel Álvares de Azevedo e Maria Luisa Mota de Azevedo, nasceu em berço de famílias ilustres da época. Neste mês, percorreremos um pouco pela obra deste poeta que pouco viveu, porém, o suficiente para ficar nos altos da literatura brasileira, que amava Lord Byron e foi da segunda geração do nosso romantismo.

QUANDO À NOITE NO LEITO PERFUMADO
Quando à noite no leito perfumado
Lânguida fronte no sonhar reclinas,
No vapor da ilusão por que te orvalha
Pranto de amor as pálpebras divinas?
E, quando eu te contemplo adormecida
Solto o cabelo na suave leito,
Por que um suspiro tépido ressona
E desmaia suavíssimo em teu peito?
Virgem do meu amor, o beijo a furto
Que pouso em tua face adormecida
Não te lembra do peito os meus amores
E a febre do sonhar de minha vida?
Dorme, ó anjo de amor! No teu silêncio
O meu peito e afoga de ternura
E sinto que o porvir não vale um beijo
E o céu um teu suspiro de ventura!

 

 

 

Embora tenha nascido em São Paulo, o pequeno Álvares passou a infância no Rio de Janeiro, onde iniciou os estudos primários. Voltou para São Paulo em 1847 para estudar na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Desde essa época, o jovem já apontava como grande talento. Menino precoce, já criava pequenas peças literárias de grande qualidade. O que também o destacava dos demais era sua imensa facilidade de aprender línguas, assim como portar um espírito jovial e sentimental. Nascia o poeta.

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SONETO
Pálida à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ele dormia!
Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d’alvorada
Que em sonho se banhava e se esquecia!
Era mais bela! o seio palpitando…
Negros olhos as pálpebras abrindo…
Formas nuas no leito resvalando…
Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti – as noites eu velei chorando,
Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!
Questão interessante: Segundo alguns biógrafos, Álvares de Azevedo nasceu na sala da biblioteca da Faculdade de Direito de São Paulo, porém, outros biógrafos afirmam que o local de seu nascimento foi mais “ordinário”, tendo sido na casa do avô materno. Acontece que o jovem cresceu em condições plenamente favoráveis para seu desenvolvimento intelectual. Muito jovem, lia bastante Byron, Poe, Shakespeare, Musset, Lamartine, George Sand e Goethe, através dos livros que pedia para sua família trazer do exterior. Porém, o lorde inglês seria o grande caminho.


ANJOS DO MAR


As ondas são anjos que dormem no mar,

Que tremem, palpitam, banhados de luz…

São anjos que dormem, a rir e sonhar

E em leito d’escuma revolvem-se nus!


E quando de noite vem pálida a lua

Seus raios incertos tremer, pratear,

E a trança luzente da nuvem flutua,

As ondas são anjos que dormem no mar!


Que dormem, que sonham — e o vento dos céus

Vem tépido à noite nos seios beijar!

São meigos anjinhos, são filhos de Deus,

Que ao fresco se embalam do seio do mar!


E quando nas águas os ventos suspiram,

São puros fervores de ventos e mar:

São beijos que queimam… e as noites deliram,

E os pobres anjinhos estão a chorar!


Ai! quando tu sentes dos mares na flor

Os ventos e vagas gemer, palpitar,

Porque não consentes, num beijo de amor,

Que eu diga-te os sonhos dos anjos do mar!



As leituras dos clássicos da poesia quando ainda era muito jovem e, sobretudo, de alguns filósofos, fizeram com que Álvares desenvolvesse uma incrível capacidade. O poeta também dominava história e outras áreas do conhecimento. Tamanho empenho e doação, rendeu a Álvares, dentre outras coisas, a carta de Bacharel em Letras quando ainda tinha 16 anos. Logo seria laureado com algo maior.

SONETO II

Passei ontem a noite junto dela.

Do camarote a divisão se erguia

Apenas entre nós – e eu vivia

No doce alento dessa virgem bela…
Tanto amor, tanto fogo se revela

Naqueles olhos negros! Só a via!

Música mais do céu, mais harmonia

Aspirando nessa alma de donzela!
Como era doce aquele seio arfando!

Nos lábios que sorriso feiticeiro!

Daquelas horas lembro-me chorando!
Mas o que é triste e dói ao mundo inteiro

É sentir todo o seio palpitando…

Cheio de amores! E dormir solteiro!

 

 

O comportamento casto, puro e carinhoso devotado à mãe e irmã contradiziam com a personalidade perversa de alguns de seus personagens. O fato é que era adolescente, embora culto e letrado, o corpo, o espírito era movido, muitas vezes, pelo ímpeto hormonal, não há como negar isso. Álvares já apontava com inclinações a assuntos mórbidos, porém, falando de amor como ninguém, como por exemplo, na Lira dos Vinte anos.


AMOR


Amemos! Quero de amor
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!
Na tu’alma, em teus encantos
E na tua palidez
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!
Quero em teus lábio beber
Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!
Quero viver d’esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!
Vem, anjo, minha donzela,
Minha’alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!
E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!


Lira dos Vinte Anos tem dois personagens, Ariel e Caliban. Representam o bem e o mal. Ambos foram usados por Shakespeare em A tempestade, e Álvares os usa como faces de sua personalidade, uma boa e outra perversa. O poema Ideias íntimas é da segunda parte desse livro e aparece ao melhor estilo inglês, em versos brancos, tratando daquele sentimento “Mal do século” que nosso Charles Pierre (Baudelaire) retratou bem em seu splenn. Haverá uma suspeita de comportamento na vida de Álvares muito interessante que pode, o não, explicar certas inclinações.

Texto de um não sei o quê no em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
IDEIAS ÍNTIMAS


Ossian o bardo é triste como a sombra

Que seus cantos povoa. O Lamartine

E’ monótono e belo como a noite,

Como a lua no mar e o som da ondas…

Mas pranteia uma eterna monodia,

Tem na lira do gênio uma só corda,

Fibra de amor e Deus que um sopro agita:

Se desmaia de amor a Deus se volta,

Se pranteia por Deus de amor suspira.

Basta de Shakespeare. Vem tu agora,

Fantástico alemão, poeta ardente

Que ilumina o clarão das gotas pálidas

Do nobre Johannisberg! Nos teus romances

Meu coração deleita-se… Contudo

Parece-me que vou perdendo o gosto,

Vou ficando blasé, passeio os dias

Pelo meu corredor, sem companheiro,

Sem ler, nem poetar. Vivo fumando.

Minha casa não tem menores névoas

Que as deste céu d’inverno…. Solitário

Passo as noites aqui e os dias longos;

Dei-me agora ao charuto em corpo e alma;

Debalde ali de um canto um beijo implora,

Como a beleza que o Sultão despreza,

Meu cachimbo alemão abandonado!

Não passeio a cavalo e não namoro;

Odeio o lasquenet… Palavra d’honra!

Se asim me continuam por dois meses

Os diabos azuis nos frouxos membros,

Dou na Praia Vermelha ou no Parnaso.

 

 

 

II


Enchi o meu salão de mil figuras.

Aqui voa um cavalo no galope,

Um roxo dominó as costas volta

A um cavaleiro de alemães bigodes,

Um preto beberrão sobre uma pipa,

Aos grossos beiços a garrafa aperta…

Ao longo das paredes se derramam

Extintas inscrições de versos mortos,

E mortos ao nascer… Ali na alcova

Em águas negras se levanta a ilha

Romântica, sombria à flor das ondas

De um rio que se perde na floresta…

Um sonho de mancebo e de poeta,

El-Dorado de amor que a mente cria

Como um Édem de noites deleitosas…

Era ali que eu podia no silêncio

Junto de um anjo… Além o romantismo!

Borra adiante folgaz caricatur

Com tinta de escrever e pó vermelho

A gorda face, o volumoso abdômen,

E a grossa penca do nariz purpúreo

Do alegre vendilhão entre botelhas

Metido num tonel… Na minha cômoda

Meio encetado o copo inda verbera

As águas d’ouro do Cognac fogoso.

Negreja ao pé narcótica botelha

Que da essência de flores de laranja

Guarda o licor que nectariza os nervos.

Ali mistura-se o charuto Havano

Ao mesquinho cigarro e ao meu cachimbo.

A mesa escura cambaleia ao peso

Do titânio Digesto, e ao lado dele

Childe-Harold entreaberto ou Lamartine

Mostra que o romantismo se descuida

E que a poesia sobrenada sempre

Ao pesadelo clássico do estudo.

“Cuidado, leitor, ao voltar esta página! Aqui dissipa-se o mundo visionário e platônico. Vamos entrar num mundo novo, terra fantástica, verdadeira ilha de Baratária de D. Quixote, onde Sancho é rei.[...] Quase depois de Ariel esbarramos em Caliban.” Consta na introdução de Álvares de Azevedo para a Lira dos Vinte Anos. E continua “A Razão é simples. É que a unidade deste livro e capítulo funda-se numa binomia. Duas almas que moram nas cavernas de um cérebro pouco mais ou menos de poeta escreveram este livro, verdadeira medalha de duas faces.”





IDEIAS ÍNTIMAS XI, XII E XIII
XI
Junto do leito meus poetas dormem
- O Dante, a Bíblia, Shakespeare e Byron -
Na mesa confundidos. Junto deles
Meu velho candeeiro se espreguiça
E parece pedir a formatura.
Ó meu amigo, ó velador noturno,
Tu não me abandonaste nas vigílias,
Quer eu perdesse a noite sobre os livros,
Quer, sentado no leito, pensativo
Relesse as minhas cartas de namoro!
Quero-te muito bem, ó meu comparsa
Nas doudas cenas de meu drama obscuro!
E num dia de spleen, vindo a pachorra,
Hei de evocar-te dum poema heróico
Na rima de Camões e de Ariosto,
Como padrão às lâmpadas futuras!
XII
Aqui sobre esta mesa junto ao leito
Em caixa negra dous retratos guardo.
Não os profanem indiscretas vistas.
Eu beijo-os cada noite: neste exílio
Venero-os juntos e os prefiro unidos
- Meu pai e minha mãe. – Se acaso um dia
Na minha solidão me acharem morto,
Não os abra ninguém. Sobre meu peito
Lancem-os em meu túmulo. Mais doce
Será certo o dormir da noite negra
Tendo no peito essas imagens puras.
XIII
Havia uma outra imagem que eu sonhava
No meu peito, na vida e no sepulcro.
Mas ela não quis… Rompeu a tela
Onde eu pintara meus dourados sonhos.
Se posso no viver sonhar com ela,
Essa trança beijar de seus cabelos
E essas violentas inodoras, murchas,
Nos lábios frios comprimir chorando,
Não poderei na sepultura, ao menos,
Sua imagem divina ter no peito.



Há biógrafos que apontam uma terceira face na obra de Álvares de Azevedo, a ironia. Ao melhor estilo bocagiano ou nas bordas de Gregório, Álvares consegue ser sarcástico em grandes momentos, “talvez eu ame quando estiver impotente”, ou, “o rosto é macio, os olhos lânguidos, o seio moreno… mas o corpo é imundo. Tem uma lepra que ocultam num sorriso [...] dão em troca do gozo o veneno da sífilis. Antes amar uma lazarenta”. Talvez aí o adolescente voraz e inteligente que também escreve com veneno, além de sua conhecida verve melancólica e lírica.

É ELA, É ELA, É ELA, É ELA
É ela! é ela! — murmurei tremendo,
e o eco ao longe murmurou — é ela!
Eu a vi… minha fada aérea e pura —
a minha lavadeira na janela.

Dessas águas furtadas onde eu moro
eu a vejo estendendo no telhado
os vestidos de chita, as saias brancas;
eu a vejo e suspiro enamorado!

Esta noite eu ousei mais atrevido,
nas telhas que estalavam nos meus passos,
ir espiar seu venturoso sono,
vê-la mais bela de Morfeu nos braços!

Como dormia! que profundo sono!…
Tinha na mão o ferro do engomado…
Como roncava maviosa e pura!…
Quase caí na rua desmaiado!

Afastei a janela, entrei medroso…
Palpitava-lhe o seio adormecido…
Fui beijá-la… roubei do seio dela
um bilhete que estava ali metido…

Oh! decerto… (pensei) é doce página
onde a alma derramou gentis amores;
são versos dela… que amanhã decerto
ela me enviará cheios de flores…

Tremi de febre! Venturosa folha!
Quem pousasse contigo neste seio!
Como Otelo beijando a sua esposa,
eu beijei-a a tremer de devaneio…

É ela! é ela! — repeti tremendo;
mas cantou nesse instante uma coruja…
Abri cioso a página secreta…
Oh! meu Deus! era um rol de roupa suja!

Mas se Werther morreu por ver Carlota
Dando pão com manteiga às criancinhas,
Se achou-a assim tão bela… eu mais te adoro
Sonhando-te a lavar as camisinhas!

É ela! é ela, meu amor, minh’alma,
A Laura, a Beatriz que o céu revela…
É ela! é ela! — murmurei tremendo,
E o eco ao longe suspirou — é ela!




Spleen, em francês, representa uma espécie de estado de tristeza de pensamento, uma forte melancolia. Vem do grego splēn que na língua inglesa quer dizer baço. Consta que a ligação entre baço e melancolia vem da medicina grega, quando Galeno considerava o baço como uma das fontes dos quatro humores corporais – a bile negra – que, oriunda do baço seria a fonte da melancolia. O Talmud diz o contrário, que o baço é a “orgão da risada”. Em alemão, spleen, é alguém que está muito irritado. O termo ficou conhecido através de Baudelaire, Spleen de Paris, uma melancolia extrema, um desejo de auto-destruição. Esse “fenômeno” ocorreu no Brasil entre nossos românticos (interessante), com nosso Álvares no meio.


AMOR


Amemos! Quero de amor
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!
Na tu’alma, em teus encantos
E na tua palidez
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!
Quero em teus lábio beber
Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!
Quero viver d’esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!
Vem, anjo, minha donzela,
Minha’alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!
E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!



Além do mito sobre sua participação numa sociedade secreta que promovia orgias, há um outro mito sobre sua vida que vai completamente contra seu possível comportamento orgiástico, o de que Álvares teria sido virgem. Absurdo para uns, informação dispensável para outros, há quem pense que o poeta, devido a certos poemas cujos motivos trazem a mulher como uma figura distante de amor não realizado, ou com mulheres casadas, não teria realizado o amor físico. Futilidade biográfica ou não, eu, acho bobagem e prefiro o primeiro mito.

NAMORO A CAVALO

Eu moro em Catumbi. Mas a desgraça

Que rege minha vida malfadada

Pôs lá no fim da rua do Catete

A minha Dulcinéia namorada.
Alugo (três mil réis) por uma tarde

Um cavalo de trote (que esparrela!)

Só para erguer meus olhos suspirando

À minha namorada na janela…
Todo o meu ordenado vai-se em flores

E em lindas folhas de papel bordado

Onde eu escrevo trêmulo, amoroso,

Algum verso bonito… mas furtado.
Morro pela menina, junto dela

Nem ouso suspirar de acanhamento…

Se ela quisesse eu acabava a história

Como toda a Comédia — em casamento.
Ontem tinha chovido… que desgraça!

Eu ia a trote inglês ardendo em chama,

Mas lá vai senão quando uma carroça

Minhas roupas tafuis encheu de lama…
Eu não desanimei. Se Dom Quixote

No Rocinante erguendo a larga espada

Nunca voltou de medo, eu, mais valente,

Fui mesmo sujo ver a namorada…
Mas eis que no passar pelo sobrado

Onde habita nas lojas minha bela

Por ver-me tão lodoso ela irritada

Bateu-me sobre as ventas a janela…
O cavalo ignorante de namoros

Entre dentes tomou a bofetada,

Arrepia-se, pula, e dá-me um tombo

Com pernas para o ar, sobre a calçada…
Dei ao diabo os namoros. Escovado

Meu chapéu que sofrera no pagode

Dei de pernas corrido e cabisbaixo

E berrando de raiva como um bode.
Circunstância agravante. A calça inglesa

Rasgou-se no cair de meio a meio,

O sangue pelas ventas me corria

Em paga do amoroso devaneio!…

Álvares de Azevedo também teve experiências em tradução literária. Quando jovem, ainda no colégio, o poeta traduziu o quinto ato de Otelo, de Shakespeare e traduziu Parisina, de Lord Byron. Consta em algumas biografias a forte influência de François-René de Chateaubriand e, sobretudo, Alfred de Musset. Lembrando que antes disso, Álvares havia sido aluno de Gonçalves Magalhães, um dos introdutores do Romantismo no Brasil. Mais amanhã.

Arquivo de dois anos destas pequenas antologias em http://cartilhadepoesia.wordpress.com

FRAGMENTO DE UM CANTO EM CORDAS DE BRONZE

Deixai que o pranto esse palor me queime,
Deixai que as fibras que estalaram dores
Desse maldito coração me vibrem
A canção dos meus últimos amores!
Da delirante embriaguez de bardo
Sonhos em que afoguei o ardor da vida,
Ardente orvalhos de febris pranteios,
Que lucro à alma descrida?
Deixai que chore pois. – Nem loucas venham
Consolações a importunar-me as dores:
Quero a sós murmurá-la à noite escura
A canção dos meus últimos amores!
Da ventania às rápidas lufadas
A vida maldirei em meu tormento -
Que é falsa, como em prostitutos lábios
Um ósculo visguento. Escárnio!
Para essa muitas virgens
Como flores – românticas e belas -
Mas que no seio o coração tem árido,
Insensível e estúpido como elas!
Que agreste vibrar, ruja-me as cordas
Mais selvagens desta harpa – quero acentos
De áspero som como o ranger dos mastros
Na orquestra dos ventos!
Corre feio o trovão nos céus bramindo;
Vão torvos do relâmpago os livores:
Quero às rajadas do tufão gemê-la,
A canção dos meus últimos amores!
Vem, pois, meu fulvo cão! ergue-te, asinha,
Meu derradeiro e solitário amigo! -
Quero me ir embrenhar pelos desvios
Da serra – ao desabrigo…



Álvares de Azevedo tinha forte ligação com sua mãe. Preocupava-se com seu sofrimento, e isto fica claramente perceptível neste trecho “Não derramem por mim nem uma lágrima… E ti a minha mãe, pobre coitada/ Que por minha tristeza se definhas”. Lembrando que o poeta teve seu auge produtivo ainda na adolescência, e somente neste período, visto que seu caminho foi cortado ainda jovem, assunto que entraremos na semana que vem. Qual a razão deste comentário? Levar o leitor à ideia de que o poeta, mesmo prolixo e prodígio, ainda era um rapaz de 16, 17 anos.


CISMAR

 

Fala-me, anjo de luz! és glorioso

À minha vista na janela à noite,

Como divino alado mensageiro

Ao ebrioso olhar dos froixos olhos

Do homem que se ajoelha para vê-lo,

Quando resvala em preguiçosas nuvens

Ou navega no seio do ar da noite.

Romeu Ai! Quando de noite, sozinha à janela,

Co’a face na mão te vejo ao luar,

Por que, suspirando, tu sonhas donzela?

A noite vai bela,

E a vista desmaia

Ao longe na praia

Do mar!

Por quem essa lágrima orvalha-te os dedos,

Como água da chuva cheiroso jasmim?

Na cisma que anjinho te conta segredos?

Que pálidos medos?

Suave morena,

Acaso tens pena

De mim?

Donzela sombria, na brisa não sentes

A dor que um suspiro em meus lábios tremeu?

E a noite, que inspira no seio dos entes

Os sonhos ardentes,

Não diz-te que a voz

Que fala-te a sós

Sou eu?

Acorda! Não durmas da cisma no véu!

Amemos, vivamos, que amor é sonhar!

Um beijo, donzela! Não ouves?

No céu A brisa gemeu…

As vagas murmuram…

As folhas sussurram: Amar!

 

 

 

A morte é um assunto que sempre aparece na poesia de Álvares de Azevedo. Poemas lúgubres que vêm desde sua férias no Rio em 1849, quando pensa constantemente no tema. Um ano depois, escreve um romance de mais de duzentas páginas, dois poemas, dois contos e alguns textos, que infelizmente se perdeu. Em setembro de 1850, o quintanista Feliciano Coelho Duarte se suicida e, Álvares, escreve o discurso de adeus.

Algo com a Insustentável leveza do ser em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
LEMBRANÇAS DE MORRER


Quando em meu peito rebentar-se a fibra

Que o espírito enlaça à dor vivente,

Não derramem por mim nem uma lágrima

Em pálpebra demente.

 

 

E nem desfolhem na matéria impura

A flor do vale que adormece ao vento:

Não quero que uma nota de alegria

Se cale por meu triste passamento.

 

 

Eu deixo a vida como deixa o tédio

Do deserto, o poento caminheiro

— Como as horas de um longo pesadelo

Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

 

 

Como o desterro de minh’alma errante,

Onde fogo insensato a consumia:

Só levo uma saudade — é desses tempos

Que amorosa ilusão embelecia.

 

 

Só levo uma saudade — é dessas sombras

Que eu sentia velar nas noites minhas…

De ti, ó minha mãe, pobre coitada

Que por minha tristeza te definhas!

 

 

De meu pai… de meus únicos amigos,

Poucos — bem poucos — e que não zombavam

Quando, em noite de febre endoudecido,

Minhas pálidas crenças duvidavam.

 

 

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,

Se um suspiro nos seios treme ainda

É pela virgem que sonhei… que nunca

Aos lábios me encostou a face linda!

 

 

Só tu à mocidade sonhadora

Do pálido poeta deste flores…

Se viveu, foi por ti! e de esperança

De na vida gozar de teus amores.

 

 

Beijarei a verdade santa e nua,

Verei cristalizar-se o sonho amigo….

Ó minha virgem dos errantes sonhos,

Filha do céu, eu vou amar contigo!

 

 

Descansem o meu leito solitário

Na floresta dos homens esquecida,

À sombra de uma cruz, e escrevam nelas

— Foi poeta — sonhou — e amou na vida.—

 

 

Sombras do vale, noites da montanha

Que minh’alma cantou e amava tanto,

Protegei o meu corpo abandonado,

E no silêncio derramai-lhe canto!

 

 

Mas quando preludia ave d’aurora

E quando à meia-noite o céu repousa,

Arvoredos do bosque, abri os ramos…

Deixai a lua prantear-me a lousa!




A morbidez se torna cada vez presente na poesia de Álvares de Azevedo, após a morte de João Batista da Silva Pereira, já em 1851. Alguns biógrafos ligam sua ligação com a morte, seus motivos em poemas com um certo pressentimento, como se o poeta soubesse que a morte estava perto. Disso jamais saberemos, mas, numa breve pesquisa sobre a vida de Álvares de Azevedo, trata-se, inclusive, de um lugar-comum.



À T…
Amoroso palor meu rosto inunda,
Mórbida languidez me banha os olhos,
Ardem sem sono as pálpebras doridas,
Convulsivo tremor meu corpo vibra:
Quanto sofro por ti! Nas longas noites
Adoeço de amor e de desejos
E nos meus olhos desmaiando passa
A imagem voluptuosa da ventura…
Eu sinto-a de paixão encher a brisa,
Embalsamar a noite e o céu sem nuvens,
E ela mesma suave descorando
Os alvacentos véus soltar do colo,
Cheirosas flores desparzir sorrindo
Da mágica cintura.
Sinto na fronte pétalas de flores,
Sinto-as nos lábios e de amor suspiro.
Mas flores e perfumes embriagam,
E no fogo da febre, e em meu delírio
Embebem na minh’alma enamorada
Delicioso veneno
Estrela de mistério! Em tua fronte
Os céus revela, e mostra-me na terra,
Como um anjo que dorme, a tua imagem
E teus encantos onde amor estende
Nessa morena tez a cor de rosa
Meu amor, minha vida, eu sofro tanto!
O fogo de teus olhos me fascina,
O langor de teus olhos me enlanguesce,
Cada suspiro que te abala o seio
Vem no meu peito enlouquecer minh’alma!
Ah! vem, pálida virgem, se tens pena
De quem morre por ti, e morre amando,
Dá vida em teu alento à minha vida,
Une nos lábios meus minh’alma à tua!
Eu quero ao pé de ti sentir o mundo
Na tua alma infantil; na tua fronte
Beijar a luz de Deus; nos teus suspiros
Sentir as vibrações do paraíso;
E a teus pés, de joelhos, crer ainda
Que não mente o amor que um anjo inspira,
Que eu posso na tu’alma ser ditoso,
Beijar-te nos cabelos soluçando
E no teu seio ser feliz morrendo!

Álvares de Azevedo teve tuberculose quando ainda era estudante do quarto ano de direito aos vinte anos, porém, há também uma informação de que teve um tumor na fossa ilíaca, assim como outra suposição de que o poeta sofria de apendicite. Fato mesmo é que nessa época já havia escrito a sua “Lira dos Vinte Anos” que seria publicada depois de sua morte. Álvares tem sonhos e escreve sobre morte. Faz uma viagem para o Rio de Janeiro para se tratar. Seria sua última viagem.

PÁLIDA À LUZ

Pálida à luz da lâmpada sombria,

Sobre o leito de flores reclinada,

Como a lua por noite embalsamada,

Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar, na escuma fria

Pela maré das águas embalada!

Era um anjo entre nuvens d’alvorada

Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando

Negros olhos as pálpebras abrindo

Formas nuas no leito resvalando

Não te rias de mim, meu anjo lindo!

Por ti – as noites eu velei chorando,

Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!

Já sofrendo de tuberculose e com um tumor na fossa ilíaca, Álvares sofre uma queda de cavalo no Rio de Janeiro. Tem que ser operado às pressas, sem anestesia, lembram os parentes, e após 46 dias de internação, morre no dia 25 de abril, Páscoa de 1852. Um mês antes havia escrito o poema “Se eu morresse amanhã”, razão pela qual os biógrafos apontam sua “premonição”. O poema é lido no enterro por Joaquim Manuel Macedo. A excessão de Lira dos Vintes Anos, tudo que se conhece hoje de Álvares de Azevedo foi publicado depois de sua morte. O poeta é patrono da cadeira 2 da Academia Brasileira de Letras por escolha de Coelho Neto.



SE EU MORRESSE AMANHÃ


Se eu morresse amanhã, viria ao menos

Fechar meus olhos minha triste irmã;

Minha mãe de saudades morreria

Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!

Que aurora de porvir e que manhã!

Eu perdera chorando essas coroas

Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n’alva

Acorda a natureza mais louçã!

Não me batera tanto amor no peito

Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora

A ânsia de glória, o dolorido afã…

A dor no peito emudecera ao menos

Se eu morresse amanhã!



 

 

 

 

 

março 9, 2011

Mário Faustino

Mário Faustino dos Santos e Silve nasceu em Teresina, Piauí, no dia 13 de outubro de 1930. Estudou em Belém. Lá, foi redator e cronista n’A Província do Pará, depois na Folha do Norte. Durante este período, 1947 a 1949, estudou no Estados Unidos, mais precisamente na California, estudando teoria literária e literatura norte-americana. Neste mês, percorreremos a poesia deste jovem, porém, profundo poeta, que fez um trabalho de extrema importância para a divulgação da poesia no Brasil e foi um notável poeta.

Rainer Maria em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

PREFÁCIO

Quem fez esta manhã, quem penetrou
À noite os labirintos do tesouro,
Quem fez esta manhã predestinou
Seus temas a paráfrases do touro,
As traduções do cisne: fê-la para
Abandonar-se a mitos essenciais,
Desflorada por ímpetos de rara
Metamorfose alada, onde jamais
Se exaure o deus que muda, que transvive.
Quem fez esta manhã fê-la por ser
Um raio a fecundá-la, não por lívida
Ausência sem pecado e fê-la ter
Em si princípio e fim: ter entre aurora
E meio-dia um homem e sua hora.

Em 1956, após ter voltado para o Brasil, Mário Faustino se transfere para o Rio de Janeiro. Mário trabalha na Fundação Getúlio Vargas e logo depois torna-se editorialista do (infelizmente extinto) Jornal do Brasil, começando no Suplemente Dominical (SDJB). Falar da vida de Mário Faustino é tratar de sua relação com a poesia, com o jornalismo e com a crítica literária, exatamente o que pretendo apontar aqui ao longo desta antologia.

Poemas na http://cartilhadepoesia.wordpress.com

MENSAGEM

Em marcha, heróico, alado pé de verso,
busca-me o gral onde sangrei meus deuses:
conta às suas relíquias, ontem de ouro,
hoje de obscura cinza, pó de tempo,
que ele os venera ainda, o jogral verde
que outrora celebrou seus milagres fecundos.

Dize a eles que vinham
tecer silentes minha eternidade
que a lava antiga é pura cal agora
e queima-lhes incenso, e rouba-me farrapos
de seus mantos desertos de oferendas
onde possa chorar meus disfarce ferido.

Dize a eles que tombam
como chuvas de sêmen sobre campos de sal
sem mancha, mas terríveis
que desçam sobre a urna deste olvido
e engendrem rosas rubras
do estrume em que tornei seus dons de trigo e vinho.
Segue, elegia, busca-me nos portos
e nas praias de Antanho, e nas rochas de Algures
os deuses que afoguei no mar absurdo
de um casto sacrifício.

Apanha estas palavras do chão túmido
onde as deixo cair, findo dilúvio:
forma delas um palco, um absoluto
onde possa dançar de novo, nu
contra o peso do mundo e a pureza dos anjos,
até que a lucidez venha construir
um templo justo, exato, onde cantemos.

O projeto do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil surgiu de um programa de rádio na Rádio Jornal do Brasil, dirigido pelo poeta Reynaldo Jardim. Reynaldo conseguiu reunir profissionais competentes. melhorar o aspecto gráfico e mudar o conteúdo do caderno. Foi apoiado pela condessa Pereira Carneiro, proprietária do jornal, e ganhou a confiança dos principais intelectuais do país, transformando o complemento, num ponto de referência para a vida cultural brasileira. Alí, Mário iria fazer história.

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LEGENDA

No princípio
Houve treva bastante para o espírito
Mover-se livremente à flor do sol
Oculto em pleno dia
No princípio
Houve silêncio até para escutar-se
O germinar atroz de uma desgraça
Maquinada no horror do meio-dia.
E havia, no princípio,
Tão vegetal quietude, tão severa
Que se entendia a queda de uma lágrima
Das frondes dos heróis de cada dia.

Havia então mais sombra em nossa via.
Menos fragor na farsa da agonia,
Mais êxtase no mito da alegria.
Agora o bandoleiro brada a atira
Jorros de luz na fuga de meu dia -
E mudo sou para cantar-te, amigo,
O reino, a lenda, a glória desse dia.

Em Belém, o ainda jovem Mário realizou a maior parte de seus estudos. Para sua estreia como poeta, Mário teve a ajuda de Francisco Paulo Mendes, professor de literatura e figura aglutinadora de talentos literários locais. Estreou na Folha do Norte no suplemente literário. Alí também estaria a nova geração de autores, tais como Haroldo Maranhão, Max Martins, Rui Barata e o poeta americano Roberto Stock, que publicou no jornal enquanto esteve por lá. Clarice Lispector, então residente em Belém, contribuia para o jornal. Começaria aí o poeta.

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ROMANCE

Para as Festas da Agonia
Vi-te chegar, como havia
Sonhado já que chegasses:
Vinha teu vulto tão belo
Em teu cavalo amarelo,
Anjo meu, que, se me amasses,
Em teu cavalo eu partira
Sem saudade, pena, ou ira;
Teu cavalo, que amarraras
Ao tronco de minha glória
E pastava-me a memória.
Feno de ouro, gramas raras.
Era tão cálido o peito
Angélico, onde meu leito
Me deixaste então fazer,
Que pude esquecer da cor
Dos olhos da Vida e a dor
Que o Sono vinha trazer.
Tão celeste foi a Festa,
Tão fino o Anjo, e a Besta
Onde montei tão serena,
Que posso, Damas, dizer-vos
E a vós, Senhores, tão servos
De outra Festa mais terrena -

Não morri de mala sorte,
Morri de amor pela Morte.

O professor de literatura Francisco Paulo Mendes foi, por algum tempo, uma espécie de mestre para Mário. Tinha uma vasta biblioteca. Porém, a figura do mestre mudaria para novos amigos. Assim, Mário fugia do provincianismo de Belém. Benedito Nunes foi o autor do primeiro ensaio de seu livro, O homem e sua hora, e revela numa carta: “sabes que aqui tem gente culta, inteligente, moderna e de espírito à beça, [...] tem um rapaz que escreve uns belos poemas, muito simples [...] traduz otimamente ingleses e americanos (inclusive Eliot e Cummings).” Assim, Mário foi se desenvolvendo.

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VIDA TODA LINGUAGEM

Vida toda linguagem,
frase perfeita sempre, talvez verso,
geralmente sem qualquer adjetivo,
coluna sem ornamento, geralmente partida.
Vida toda linguagem
há entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome
aqui, ali, assegurando a perfeição
eterna do período, talvez verso,
talvez interjetivo, verso, verso.
Vida toda linguagem,
feto sugando em língua compassiva
o sangue que criança espalhará – oh metáfora ativa!
leite jorrado em fonte adolescente,
sêmen de homens maduros, verbo, verbo.
Vida toda linguagem,
bem o conhecem velhos que repetem,
contra negras janelas, cintilantes imagens
que lhes estrelam turvas trajetórias.
Vida toda linguagem -
como todos sabemos
conjugar esses verbos, nomear
esses nomes:
amar, fazer, destruir
homem, mulher e besta, diabo e anjo
e deus talvez, e nada.
Vida toda linguagem,
vida sempre perfeita,
imperfeitos somente os vocábulos mortos
com que um homem jovem, nos terraços do inverno contra a chuva,
tenta fazê-la eterna – como se lhe faltasse
outra, imortal sintaxe
à vida que é perfeita
língua
eterna.

Como dissera, de 1951 a 1953, Mário ganha uma bolsa do Institute of International Edication e passa a viver nos Estados Unidos. Estuda Teoria da Literatura e Literatura Norte-Americana, o que seria sua grande base para sua carreira de crítico literário. Sobre isso, Mário disse uma vez que “em todos os meus cursos [...] o trabalho é duro. Há semanas em que sou obrigado a ler dois, três livros inteiros, fora a consulta a inúmeras obras. Somente aos domingos é que posso passear – e que passeios”.

Casamentos… no http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

O MUNDO QUE VENCI DEU-ME UM AMOR

O mundo que venci deu-me um amor,
Um troféu perigoso, este cavalo
Carregado de infantes couraçados.
O mundo que venci deu-me um amor
Alado galopando em céus irados,
Por cima de qualquer muro de credo,
Por cima de qualquer fosso de sexo.
O mundo que venci deu-me um amor
Amor feito de insulto e pranto e riso,
Amor que faça as portas dos infernos,
Amor que galga o cume ao paraíso.
Amor que dorme e treme. Que desperta
E torna contra mim, e me devora
E me rumina em cantos de vitória…

Em 1955, Mário retorno ao Rio de Janeiro com recursos da Fundação Getúlio Vargas, onde, um ano depois, seria contratado como professor. A história de Mário Faustino com o Suplemente Dominical do Jornal do Brasil, como já foi mencionado, surge a partir de um programa da Rádio Jornal do Brasil de mesmo nome. O programa era coordenado pelo poeta Reynaldo Jardim, e tinha apoio da proprietária e condessa Pereira Carneiro (Maurina Dunshee de Abranches). Antes, a primeira página era dominada por classificados. Mais amanhã.

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NAM SIBYLLAM…

Lá onde um velho corpo desfraldava
As trêmulas imagens de seus anos;
Onde imaturo corpo condenava
Ao canibal solar seus tenros anos;
Lá onde em cada corpo vi gravadas
Lápides eloquentes de um passado
Ou de um futuro arguido pelos anos;
Lá cândidos leões alvijubados
Às brisas temporais se espedaçavam
Contra as salsas areias sibilantes;
Lá vi o pó do espaço me enrolando
Em turbilhões de peixes e presságios -
Pois na orla do mundo as delatantes
Sombras marinhas, vagas, me apontavam.

Inicialmente o Suplemento era aos domingos. Ousado graficamente, explorava os espaços em branco, o que causava espanto e consumia muito papel. Por isso, passou para os sábados, porém, conservando o nome que lhe deu fama: Suplemento Dominical do Jornal do Brasil. A equipe era composta de jovens bem informados. Logo ganhou o respeito e a confiança dos principais intelectuais do país, seduziu leitores e se tornou um ponto de referência para vida cultural brasileira. Mário Faustino era um dos que compunha o time de jornalistas e críticos literários.

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AGONISTES

Dormia um redentor no sol que ardia
O louro e a cera, dons hipotecados
Da carne postulada pelo dia;
Dormia um redentor nos incensados
Lençóis que a lua póstuma cobria
De mira e de açafrões embalsamados;
Dormia um redentor no navegante
Das mortalhas de escuma que roía
O verme de seus sonhos abafados;
E até no atol do sexo triunfante
Do mar e da salsugem da agonia
Dormia um redentor: e era bastante
Para acordá-lo o verso que bramia
No cérebro do atleta e lá morria.

Logo que o Suplemento ganhou força, houve uma campanha contrária feita por escritores descontentes e apreensivos com resenhas nada benevolentes de suas obras, sobretudo, as assinadas por Mário Faustino. O jornal resistiu e superou. Anos depois, o sucesso do Suplemento fez com que o Jornal do Brasil mudasse todo seu editorial e sua parte gráfica, inclusive, criando o Caderno B. Mário começou sua história ali, ao lado de Dídimo, José Geraldo e Luís Carlos Barreto, seu amigo de juventude.

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INFERNO, ETERNO INVERNO, QUERO DAR

Inferno, eterno inverno, quero dar
Teu nome à dor sem nome deste dia
Sem sol, céu furor, praia sem mar,
Escuna de alma à beira da agonia.
Inferno, eterno inverno, quero olhar
De frente a gorja em fogo da elegia,
Outono e purgatório, clima e lar
De silente quimera, quieta e fria.
Inverno, teu inferno a mim não traz
Mais do que a dura imagem do juízo
Final com que me aturde essa falaz
Beleza de teus verbos de granizo:
Carátula celeste, onde o fugaz
Estilo de teu riso – paraíso?

O SDJB (Suplemento Dominical do Jornal do Brasil) se tornou um verdadeiro palco de debate, inteiramente dedicado à poesia. Teve início no dia 23 de setembro de 1956 (início da primavera) e foi até 11 de janeiro de 1959. Mário Faustino organizava o Poesia-Experiência, e pretendia tirar da letargia a poesia, a crítica e o jornalismo literário brasileiros. Foi ali também que Mário começou a organizar sua própria obra poética. O objetivo do SDJB também era permitir ao público de jovens críticos e de poetas, ler os clássicos e os modernos, se possível em várias línguas, inclusive os portugueses.

O Arquivo deste mailing aqui http://cartilhadepoesia.wordpress.com

ONDE PAIRA A CANÇÃO RECOMEÇADA

Onde paira a canção recomeçada
No capitel de acanto de teu lar?
Onde prossegue a dança terminada
Nas lajes de meu tempo de chorar?
Rapaz, em minhas mãos cheias de areia
Conto os astros que faltam no horizonte
Da praia soluçante onde passeia
A espuma de teu fim, pranto sem fonte.
Oh juventude, um pálio de inocência
Jamais se estenderá sobre outra aurora
Mais clara que esta clara adolescência
Que o lupanar da noite hoje devora:
Que vale o lenço impuro da elegia
Sobre teu rosto, lúcida alegria?

O Suplemento Dominical do Jornal do Brasil era dividido em diferentes seções. Havia “Poeta novo” divulgando novos autores. Era uma seção concorridíssima, estar alí era fundamental para um poeta debutante. Também era importante fazer o diálogo dos novos poetas com os grandes. “O melhor do português” selecionava poetas por excelência, muitos deles desconhecidos do grande público. Havia também o “É preciso conhecer” e “Clássicos vivos”. Mais amanhã. Nesta semana, poemas inacabados.

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CAMBIANTE FLORESTA

Cambiante floresta, rio, jóias,
um repuxo de garças brotava
o pescador se erguia
os lábios contra a urna
e a palmeira chovia luz-de-sol
e a superfície d’água, cintilava e mudava de cor.
Um repto, ao caçador, a sarça bruta,
palma de mão, fechada em cano frio,
cinto de brotos, artelhos frios,
caçador de joelhos,
a parede de folhas cintilava, não mudava de dor.
Lontras mudas, caça-e-pesca, lontras frias.
São, ao sul, as estrelas. São seus restos, a parada noturna
câmbio de chaves, a cruz-ao-sul, os astrolábios,
o coração se arguia, o coração supérfulo,
vácuo, fluxo-e-refluxo, arcano, arcanjo,
ar carregado, arfante, a flor e o resto.

Em “Diálogos de oficina”, Mário mostrava um pouco seus poemas e propunha debates ligados à poesia, envolvendo percepção, expressão, questões éticas e estéticas. Havia também o “Fontes da poesia contemporânea”, discutindo padrões criativos estrangeiros que deveriam estimular e favorecer a renovação. Mário fazia uma pequena introdução, e mostrava, lado a lado, o poema no original e o traduzido. “Evolução da poesia brasileira” pretendia abranger as manifestações de poesia desde a época colonial. Por fim, havia o “Personae”, nome que homenageava o maior ídolo de Mário, Ezra Pound, comentando as novidades do momento. Era mais ou menos por aí.

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GESTOS DE AMOR
(inacabado)

gestos de amor fizeram-se
- estrelas brilham -
se desfizeram.

Mãos postas, ovos gigantes postos
(estrelas brilham)
entre as coxas do caos.
Estrelas brilham.
A gaivota fecunda a rocha
estrela, estrela
esteriliza o mar
um traço a mais no ar
peixe a menos no mar.
Gostos, demoras, fezes se refazem.
Contra as costas do cão
estrelas brilham
fases da lua, brisas
ilhas aventuradas, pescadores
dormentes de aventura.
A terra dura. A terra permanece,
a terra flui, cortam-se umbigos, pêlos
sobrevivem sobre os ossos, sobre carnes
aterradoras…

O lema de seu mestre Ezra Pound “Repetir para aprender, criar para renovar” era constantemente usado na página do SDJB. A partir de então, poetas como Eliot, Baudelaire, Rimbaud, Marinetti, Blaise Cendrars, Whitman, Poe (só para falar dos grandes) e muitos outros passaram a ser conhecidos pelo público e, sobretudo, ao lado de poetas nacionais, como Drummond, Bandeira, Mário de Andrade e os “jovens” concretos, por exemplo. Mário desenvolveu uma personalidade crítica, conseguindo respeito de críticos e o medo de jovens poetas.

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O MAR RECEBE O RIO

O mar recebe o rio. O rio
faustosamente corre para o mar
o rio-mar
um hino apologético do mundo.
Dosséis verdes flutuam sobre os outros
tantos dosséis azuis -
santos dos santos
santos dos santos fluem
deuses, deuses mais deuses – e floresta.
Meu nome é legião. Meu nome escorre
e pára – o mar! o mar! Apolo! – o fundo
do céu é verde-gaio sobre os potros
arfando – tantos, tantos – rumo sul.
Mente mefistotélica arrastando
rostos e restos, rosa, fumo, verme,
santos dos santos
azul-gaio
fluxo…

A atividade jornalística de Mário Faustino conviveu também com obras representativas da literatura brasileira na área da crítica: “Formação da literatura brasileira (1959) de Antonio Candido e “A literatura no Brasil (1955-1959) de Afrânio Coutinho, assim como outras. Nos debates entre críticos da época, Mário era uma espécie de “coluna do meio”, embora não se autodenominasse “crítico”. Era interessado em poesia, língua portuguesa e cultura brasileira e fazia o diálogo entre os caminhos que julgava importante para sua formação.

O milharal em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

AS SOMBRAS

Neste momento as sombras
fervilhando no bosque
procuram-se no bosque
como cobras, no bosque,
iguais a morcegos, sugam-se
penetram-se – no bosque -
como vermes.
Umas as outras acham-se
como quem acha o vácuo,
no bosque
o reverso do nada
deparam
para logo no bosque
perder: bosque e vazio
Neste momento, os carros
ressoam sobre o concreto
por entre bosque e rio -
neste momento o mar
trepida sobre o leito
por entre praia, e praia -
Neste momento a sombra
cobre mundo e vazio
neste momento o tempo
suga o vazio, o tempo
procura o tempo, encontra
o tempo, penetra o tempo e perde-se
sombra enrolada a sombra,
nó de víboras, sombra,
um só caos, busca e encontro
e perda e tudo: sombras.

Assim, Mário percorreu, como pode, a história da poesia brasileira e mundial. Analisou desde Anchieta até o movimento concreto. De Poe a Pound passando por todos os grandes aos menos conhecidos, franceses, ingleses, portugueses, americanos, sempre fazendo o diálogo com o contemporâneo brasileiro. Jamais perdeu a condição de intelectual a serviço da poesia. Pound foi grande o guia, embora tenha aprendido com Eliot a importância da poesia para o enriquecimento da língua.

Para ler sobre poetas http://cartilhadepoesia.wordpress.com

TÚNEL, PEDRA, TONEL

Túnel, pedra, tonel.
A mão sem luva,
a mão com chaga.
Mundo que sobe e desce,
mundo que sofre e cresce.
Mundo que principia, medra e finda,
mundo de fel e mel,
túnel, pedra, tonel.

E as dobras fartas
do manto sono
tombando em torno
do leito tempo -

e os dobres fortes
do pranto sino
troando em turnos
de luto e vento -

No fim do túnel, o princípio do túnel.
Na subida da pedra, a descida da pedra.
O tonel não tem fundo, a mão não chega às uvas -
Lida, caixão e sorte,
vida, paixão e morte.

E assim, de 23 de setembro de 1956 a 11 de janeiro de 1959, Mário participou do Poesia-Experiência no Jornal do Brasil. No final de 1959, decepcionado com os rumos que o suplemento tomava, Mário Faustino muda radicalmente de rota: passa a desempenhar as funções de redator e editorialista do mesmo jornal, formando dupla com Hermano Alves, ambos responsáveis pelas mais liberais proclamações da imprensa conservadora no Rio, no entender do amigo Paulo Francis. Abandona a militância literária, mas não desiste da poesia.

Tradução de texto de Paul Valéry no http://pedrolago.blogspot.com

BALADA

Não conseguiu firmar o nobre pacto
Entre o cosmos sangrento e a alma pura
Porém, não se dobrou perante o fato
Da vitória do caos sobre a vontade
Augusta de ordenar a criatura
Ao menos: luz ao sul da tempestade.
Gladiador defunto mas intacto
(Tanta violência, mas tanta ternura),

Jogou-se contra um mar de sofrimentos
Não para pôr-lhes fim, Hamlet, e sim
Para afirmar-se além de seus tormentos
De monstros cegos contra um só delfim,
Frágil porém vidente, morto ao som
De vagas de verdade e de loucura.
Bateu-se delicado e fino, com
Tanta violência, mas tanta ternura!
Cruel foi teu triunfo, torpe mar.
Celebrara-te tanto, te adorava
Do fundo atroz à superfície, altar
De seus deuses solares – tanto amava
Teu dorso cavalgado de tortura!
Com que fervor enfim te penetrou
No mergulho fatal com que mostrou
Tanta violência, mas anta ternura!

Envoi

Senhor, que perdão tem o meu amigo
Por tão clara aventura, mas tão dura?
Não está mais comigo. Nem conTigo:
Tanta violência. Mas tanta ternura.

O jornalista e amigo de Mário Faustino, Paulo Francis, que também colaborava com o Poesia-Experiência, lembra de seu estilo no jornal: “Era violento e opinático, satirizando os maus artistas e distribuindo elogios com economia. Seus argumentos impressionavam pela lucidez e amplitude cultural. Não se tratava de crítico “pessoal”, mas de alguém que defendia um ponto de vista, que lutava pelo estabelecimento de uma escala de valores, que recusava peremptoriamente a contrafação de qualidade [...]“

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BALATETTA

Por não ter esperança de beijá-lo
Eu mesmo, ou de abraçá-lo,
Ou contar-lhe do amor que me corrói
O coração vassalo,
Vai tu, poema, ao meu
Amado, vai ao seu
Quarto dizer-lhe quanto, quanto dói
Amar sem ser amado,
Amar calado.

Beijai-o vós, felizes
Palavras que levíssimas envio
Rumo aos quentes países
De seu corpo dormente, rumo ao frio
Vale onde vaga a alma
Liberta que na calma
Da noite vai sonhando, indiferente
À fonte que, de ardente,
Gera em meu rosto um rio
Resplandecente.

No sonolento ramo
Pousai, palavras minhas, e cantai
Repetindo: eu te amo.

Ele, que dorme, e vai
De reino em reino cavalgando sua
Beleza sob a lua,
Encontrará na voz de vosso canto
Motivo de acalanto;
E dormirá mais longe ainda, enquanto
Eu, carregando só, por esta rua
Dificil, meu pesado
Coração recusado
Verei, nesse seu sono renovado,
Razão de desencanto
E de mais pranto.

Entretanto cantai, palavras: quem
Vos disse que chorásseis, vós também?

No final de 1958, Mário preocupava-se em fazer que a poesia pudesse satisfazer, de algum modo, as necessidades metafísicas do homem contemporâneo. Auto-sublimação, autodignificação, catarse, percepção mais funda e total dos fenômenos objetivos, autoconheciment e etc. Um universo de interesses estranhos à poesia que ajudou a divulgar, por ter conhecido nela um pólo instigador da produção brasileira.

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ENVOI

Vai meu canto,
Dizer a quem te escute desta dor
Severa como as coisas longevivas
Prometem ser, troféus de heróis do olvido;
Vai dizer-lhes
Da dança que dançamos, rito ardente,
E do barro fiel donde extraímos vida
Mais casta que as ideias passageiras,
Ornatos da tormenta…
E dize-lhes do eterno,
Do rubro que inda jaz sobre os mosaicos
Onde o dourado é morto…

Vai, meu canto,
Eu te sigo em segredo, por bizarros ouvidos:
Como um rei que mandou seu segrel para a guerra
E o vê partir de longe, do alto das seteiras…

De 1960 a 1962, Mário morou em Nova York, atuando como jornalista no Departamento de Informação da Organização das Nações Unidas. Volta para o Brasil no mesmo ano, onde, assume, por pouco tempo, a editoria-chefe da Tribuna de Imprensa, comprada pelo Jornal do Brasil. Em novembro de 1962, Mário Faustino morre num desastre de avião a caminho de Nova York, onde iria trabalhar como correspondente do Jornal do Brasil. Mário só publicou um livro de poemas em vida, O Homem e sua Hora, cujos poemas, vimos nesses vinte dias.

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NÃO QUERO AMAR O BRAÇO DESCARNADO

Não quero amar o braço descarnado
Que se oculta em meu braço, nem o peito
Silente que se instala no meu lado,
Onde pulsa de horror um ser desfeito
Na presente visão de seu passado
Em futuro sem tempo contrafeito,
Em tempo sem compasso transmudado.
O morto que em mim jaz aqui rejeito.
Quero entregar-me ao vivo que hoje sua
De medo de perder-me em pleno leito
Rubro de vida e morte em que me deito
A luz de ardente e grave e cheia lua.
Ao que, se a Morte chama ao longe: Mário!,
Me abraça estremecendo em meu sudário.

dezembro 23, 2010

Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz nasceu no Rio de Janeiro no dia 18 de maio de 1961. É professor do curso de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro e publicou alguns bons livros de poesia, sendo, inclusive, laureado com alguns prêmios. Neste mês, percorreremos a poesia deste poeta carioca, cuja poesia tem uma certa delicadeza e que organiza antologias. Veremos livro a livro. Aqui, Primeira Poesia.

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PASSEIO

Na entrada do cinema, o drops
pode ser misto ou de hortelã,
o misto tem gosto de frutas,
o de hortelã de hortelã.

As pessoas são muitas pessoas.

Dentro do cinema, quanto tudo é escuro
são todos anônimos e mesmo em inúmeros
assim como são, ficam uma só pessoa
no escuro, como se não fosse ninguém.

Eucanaã Ferraz cresceu numa casa sem biblioteca. Seu pai era dentista. Os únicos livros que havia em sua casa eram de odontologia. Seu primeiro contato com a poesia fora com um livro encadernado do poeta Augusto dos Anjos, ‘Eu e outros poemas’, onde, Eucanaã descobriu a poesia ligada essencialmente à morte e ao passado. Consta que, para ele, a poesia era Augusto dos Anjos assim como a única de referência de poeta, grande poeta.

videopoesia do poema ‘Apenas’ do meu livro Corpo Aberto feita pelo artística plástico Miguel Bandeira http://www.youtube.com/watch?v=uJru4FixGvQ

QUANDO EU MORRER

Pai, quando eu morrer,
ficarei rosa como uma menina
(você não deve ralhar ou querer que eu minta
porque tudo será exato, sem mesmo carecer de ensaio).

Quando eu morrer sou tranqüilo
como um príncipe que beijasse
a boca do nada (você vai achar bonito
esse quadro de tintas longínquas).

Pensarão que sou uma menina, um barco,
um pombo. Todo o meu doce virá à tona.
Veja pai, sou um mineral,
intacto e sem passado.

Eucanaã diz que se apaixonou pela arte quando viu pela primeira vez um quadro de Henri Matisse, seria o Grand Nu couchè/ Nu Rose. A partir desse momento, a arte, para ele, foi associada ao belo, à beleza, a qual o mesmo conclui ser uma questão de olhar. Como já disse, o primeiro contato com a poesia fora com o livro “Eu e outros poemas” do Augusto dos Anjos. Estes “opostos”, Matisse e Augusto dos Anjos seriam o despertar para a arte, agora faltaria a linguagem.

Um blog que eu mantenho e pouco divulgo http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

INICIAÇÃO

Conheço o primeiro livro de poemas:
— Eu
de Augusto dos Anjos.

Meu pai o tem entre
tratados de odontologia,
sem capa, velho, enferrujado.

De ortografia esquisita, leio
como se adentrasse um círculo onde
o tempo é outro, feito de palavras
estranhas, como que odontologizadas
pelo contato físico.

Livro misteriosíssimo,
no qual a morte é o superlativo
síntese de tudo, absoluta
como minha preguiça
de ir ao dicionário decifrar vocábulos.

Eucanaã diz não ser um poeta da abstração. Interessa-se por fotografia, pintura, arquitetura, porém, não muito por filosofia. Diz também que deixa-se atrair por aquilo que envolve o seu olhar, que tem volume e forma palpável. Acha que essa necessidade do toque é uma limitação e gostaria que as coisas fossem diferentes. Livro Primeiro foi publicado em 1990, e tem orelha do professor Roberto Corrêa dos Santos. Nesta semana, todos os poemas são desse livro.

Conheça meus equívocos http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

O DRAGÃO

Semana que vem, chega-te pelo correio
a lua: puro papelão,
que aos teus dedos transmutará em loiça.

Não fosse a gripe que me assolou esses dias,
não fosse a preguiça, os livros e o sono,
eu te mataria um dragão.

Na entrada da tua vila, deixaria o bicho,
pesado como uma hecatombe
(um hematoma na boca do estômago,

as asas imensas de bomba
imersas numa poça de sangue verde).
Ora, não te assustes,

sei que te acostumei com presentes mais delicados.
Mas não seria preciso guardá-lo: telefonarias
para o Departamento de Limpeza Urbana

avisando que um louco que te ama
deixou um sonho morto
na porta da tua casa.

Antes de escrever, ainda menino, Eucanaã dedicou-se ao desenho às colagens. Disse uma vez que “aprendeu a pensar com o olho”. No colégio teve contato com a poesia além do Augusto dos Anjos que já conhecia. Escreveu os primeiros versos para um professor do colégio que havia morrido e, embora não tivesse a intenção de ser poeta, seria a primeira produção, a primeira poesia. Nesta semana veremos poemas do livro Martelo.

crítica de Fernando Py para o meu livro Corpo Aberto no blog http://pedrolago.blogspot.com

ACONTECIDO

Como quem se banhasse
no mesmo rio
de águas repetidas,
outra vez era setembro
e o amor tão novo.
Iguais, teu hálito mascavo
e minha mão inquieta.
Novamente o quarto,
a praça vista da janela,
teu peito.
Depois eu era só – vê -
sob a chuva miúda daquele dia.

Eucanaã Ferraz entrou para a Universidade Federal do Rio de Janeiro para fazer o curso de Letras. Formou-se e fez mestrado sobre o poeta Carlos Drummond de Andrade ‘Drummond, um poeta na cidade’ no ano de 1994. Em 1999, fez o doutorado sobre o poeta João Cabral de Melo Neto, ‘Máquina de Comover: A poesia de João Cabral de Melo Neto e suas relações com a arquitetura. De acordo com Eucanaã, Drummond o ensinou a descobrir suas próprias habilidades em poesia.

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NOTÍCIAS PARA GRAÇA E QUITÉRIA

As terras estão lá
e os céus de sempre.
As casas são as mesmas,
pequeninas, pele e osso.
De ser feliz, não se sabe,
nem há notícias de Deus.
Usinas, canaviais,
como um dilúvio.
Morrer é facil
e não há justiça.
O chão que vocês pisaram,
o azul que seus olhos viram – eternos.
A mãe, o irmão,
eternamente, dormindo
no Olho d’Água da Pedra.

Eucanaã diz que gosta de ser influenciado por autores de outras linguagens, tais como a música, a prosa e as artes plásticas. É engajado na divulgação de poesia, tornou-es professor de literatura brasileira e dá aulas na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Eis um trecho do prefácio de Jorge Fernandes da Silveira para Martelo, livro dos poemas dessa semana: Um dia, a poesia andava no campus da UFRJ. (É verdade!). Foi preciso ver no peito do jovem para ler marTelo. Lá estava ele, batendo atento e forte: beaTles. Recorda? Aí, eu comecei a ler o livro: o T de martelo tinha um fim a mais; um terceiro elo no gume de corte duplo: mar/elo, marelo.

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Romântico
Amar noutro mundo
que não este.
Poder equilibrar – perfeito –
um prato sobre um alfinete.
Equilibrar um livro, uma casa,
sobre um alfinete.
Outro mundo. Sua maquete:
palavra e cavalete.
Outro: este, mas
em falsete. Sete vezes
mais belo, mil mais leve.
Setecentos o mesmo gesto – amar –
e, no entanto, não se complete.
Um rio que se repetisse,
um Tibete ameno, translúcido – e seu fundo,
em que não se chegasse,
era jamais a morte.

Eis um belo trecho de uma resenha escrita por Victor Hugo Adler Pereira para o livro Martelo:Na leitura deste livro, ao mesmo tempo em que se confirma a consecução da proposta de fazer a poesia com o vigor e a precisão do martelo, ou da goiva da xilogravura, encontram-se as armadilhas da sedução pela sucessão de imagens e sons, muitas vezes meras sugestões, provocações à imaginação do leitor Sem timidez, tece-se um simulacro da vida: “Pois ‘a aparência’ significa aqui a realidade mais uma vez, só que selecionada, fortalecida, corrigida…”, na observação de Niezstche sobre o fascínio do artista pela “aparência”.

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ARQUITETURA DA ILHA

Praia que se imaginasse
mármore.
Ou mais que isso – o maciço
do mineral monométrico,
carbônio puro. Ali,
no alvor de um pátio ininterrupto,
erguer seus edifícios.
Ou mais que isso – aquários aéreos
sob pilotis
que se imaginassem
agulhas
fincadas sobre nada, levitação. Ali,
o opróbrio e a tirania
degolados pela luz.

Creio que o livro Desassombro, de 2001, tenha sido de grande importância para Eucanaã. O livro foi indicado para a fase final do concurso Portugal Telecom de Literatura. Antes disso, o livro também rendeu o Prêmio Alphonsus de Guimaraens da Fundação Biblioteca Nacional de Melhor Livro de Poesia. Prêmios. Sempre um assunto delicado, ainda mais tratando-se de literatura e, sobretudo, poesia. Nesta semana, alguns poemas de Dasassombro.

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POR VEZES NÃO RARO…

Por vezes, não raro,
basta um gesto, sua borracha,
um quase nada de alvaiade,
um rasgo e só.

No entanto, o carvão
de certas palavras,
de alguns nomes,
não se apaga fácil.

Afogá-lo, inútil:
o maralto traz
de volta cada sílaba
em sal fortalecida.

Enterrá-lo? Logo renascerá:
árvore alta, trigo, praga.
No fogo, irrompe a letra,
inda mais sólida liga.

Há que esperar do esquecimento
o dente miúdo
e lento roer a nódoa na língua,
o travo no peito.

Rua do Mundo é um livro de 2004. Na minha opinião, um bom livro de poemas. Nas resenhas feitas sobre o livro, Eucanaã é constantemente filiado a João Cabral, como por exemplo, apontou Francisco Bosco no, já extinto, Jornal do Brasil. Outro tema recorrente é a produção de poesia no mercado editorial, mais poetas, menos, como alguns ressaltam, qualidade. Enfim, falaremos um pouco disso. Até sexta feira, alguns poemas do livro Rua do Mundo.

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UM MUNDO

Onde montanhas não são levantamentos
íngrimes de terra. Onde rios não são cursos
de água que se vão lançar no mar,
nos lagos, noutros rios. As casas

não têm paredes ou teto, ruas
não são vias de acesso, caminhos não vão
de um ponto a outro e os pontos não põem
fim, não abreviam, não são laçadas na malha

da lã ou nas voltas da linha. Por sua vez,
linhas não são fios, nem fibras, nem traços.
Não há sulcos na palma das mãos. Não há frentes
de combate. Linhas não são rumos

ou normas. O Equador não é o anel extremo do globo
e as superfícies esféricas não se chamam esferas.
Não há moedas. O espaço ilimitado, indefinido
no qual se movem os astros é a terra, enquanto

acima das cabeças, pregados pelo horizonte, densos,
amarelos, vão jardins em movimento. Venta.
Há um vento constante, há um canto constante.
Pode-se ver a música, de terraços, belvederes

e torres instaladas para tal finalidade. Mundo
em que se ganha o que se perde.
Toda pedra é pérola. Onde o amor
é entre duas mulheres.

Separei este trecho da resenha de Manuel da Costa Pinto, da Folha de São Paulo, para ilustrar melhor a constante filiação dos poemas de Rua do Mundo de Eucanaã com a poesia, ou “lição” de poesia João Cabral.”Seus poemas, ao contrário, utilizam a realidade concreta (no caso, a cidade) como experiência fenomenológica do sujeito que a contempla, que nela se projeta -mas que a ela se limita. Nesse sentido, estão mais próximos da “lição de poesia” de João Cabral de Melo Neto e do neoconcretismo”.

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VIA

Eu caminhava nu, sem que você visse.
Pra que você visse, eu caminhava sem.
Você não via. Pra que você soubesse,
eu caminhava nem, sem que você visse,

eu caminhava livre, além do limite de
ser ninguém, sem remo e sem alento,
o andar isento quase de mim mesmo,
num estranho, cansado engano,

sem âncora, no vento, e mais contente.
Nu, livro ao avesso; nu, anel sem dedo;
nu, anel sem dentro; nu, a pedra
bruta; nu, um livro bruto, antes

do acabamento, cimento grosso,
na antemão da cal, da letra, descampado,
como se a mão de alguém me desenhasse,
antiqüíssimo, no dorso de um vaso.

Sem poder ser belo, sem poder ser feio,
coisa-coisa no espaço, no tempo, eu ia.
O sol me reconhecia: eu era o filho
mais novo do boro e do alumínio.

Meu passo exalava o hálito do barro.
As crianças me apontavam, riam.
Tudo se condensava à minha roda.
No entanto, nenhuma flor surgia

nos meus passos: os brejos permaneciam
sáfaros, cobertos de urzes, sem que nada
fosse esquivo, estranho ou intratável,
nenhum recife, navalha ou gesto sórdido.

E pra que se desse a ver, meu silêncio
dizia: cabelo, pele. Sorri: os anjos de pedra
me acenaram. Eu caminhava sem,
em você, sem que você visse.

Rua do Mundo foi o meu primeiro contato com a poesia de Eucanaã Ferraz. Buscava um nome contemporâneo e vi em Eucanaã uma possibilidade. O diálogo com outras linguagens é presente nesse livro, assim como o tema ‘casa’, com levanta bem Bernardo Nascimento de Amorim: “A poesia de Eucanaã, gestada a partir da experiência particular que o poeta tem com o que observa e vivencia, lançado no mundo, parece ter, efetivamente, no desejo de abertura e expansão a sua grande mola propulsora. Recusam-se delimitações rígidas, mesmo quando se revela a necessidade da ordenação, para que os espaços se misturem, se interpenetrem, como se penetram os parangolés de Oiticica”.

Entre e se equivoque http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

RUA DO MUNDO

Onde morou a Luiza.
Passei por ela, a rua, muitas vezes.
Chama-se agora “da Misericórdia”
e sabe de cor seu caminho

que desce à beira do rio
no alto de um ramo de alecrim,
como um Tejo miúdo, todo de pedras
e seu aluvião de pastelarias, alfarrabistas.

O cano que rebentou junto ao passeio,
sim, se calhar,
inda não foi consertado,
que as coisas são lentas.

Chama-se agora “da Misericórdia”
a antiga Rua do Mundo.
Era talvez pequena
para nome tão afastadamente,

para a Terra toda e os astros,
mas Luiza era um corpo celeste
a vigiar o andamento, o ruído,
o silêncio, o istmo,

as variações possíveis,
imprevistas, o sangue,
a asa, o sal inesgotável
do vário, o jogo.

Rua do mundo fora,
de seres que se queimavam à luz.
Rua do mundo sensível,
onde Luiza metia o nariz.

Abarcar o mundo com as pernas,
afundar no poema, cair
no mundo, ganhar mundos,
fundos nenhuns, perder.

Era uma rua qualquer, mas
a chuva sabia seu nome, bem como
os males irremediáveis, as ventanias,
os alvoroços de verão, os insetos.

Mesmo a felicidade tantas vezes
desceu e subiu tal qual uma vaga
desordenada, descalça, as pedras
daquela via sem reis nem padres.

Os sábados enchiam as calçadas de pernas.
Luiza ouvia o fragor. Os telhados ruíam.
Luiza ouvia os cacos, cada um.
A rua frágil, a palavra disparada.

Já não se chama “do Mundo”.
É agora “Rua da Misericórdia”.
Já não é a vastidão do orbe,
mas, de joelhos, ora pro nobis.

O sol vinha reto varar a janela
da louca que atravessara
a noite à procura do verso
mais irritado, mais de si.

Do punhal ali, rente aos olhos,
ao fígado, ao coração, a mulher sabia
que só uma palavra a salvaria:
misericórdia. Não pediria?

De longe, era possível ouvir um grito
(mas talvez fosse apenas eu) a pedir compaixão.
Mas era menos para ela que para o mundo,
menos para ela que para a rua do.

Francisco Bosco do Estado de São Paulo, faz uma resenha interessante sobre Cinemateca, onde, destaco a seguinte passagem: Assim, o verso, em Eucanaã, tem sempre uma natureza como que argilosa, no sentido de que é submetido a uma formalização intensa, e que obedece à sua escrita como só, às mãos, a matéria espessa.Os mais claros e simples poemas estão submetidos a esse olho ativo tanto quanto os mais longos, complexos e, eventualmente, até um pouco obscuros (pois a economia semântica de seus poemas, sua luz interna, vai do claro – a que sem dúvida tende – ao turvo, mantendo, porém, certa inalterada consistência, pois esta é garantida pelo forte princípio formalizador).

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CALENDÁRIO

Maio, de hábito, demora-se à porta,
como o vizinho, o carteiro, o cachorro.
Das três imagens, porém, nenhuma diz

do que houve, para meu susto, àquele ano.
O quinto mês pulou o muro alto do dia
como só fazem os rapazes, mas logo

pelos quartos e sala convertia o ar em águas
definitivamente femininas. Eu
tentava decifrar. Mas

deitou-se comigo e, então, já não era isso
nem seu avesso: a camisa azul despia
azuis formas que eu não sabia, recém-saídas

de si mesmas, eu diria, e não sei ter
em conta senão que eram o que eram. Partiu
do mesmo modo, em bruto, coisa sem causa.

Maio, maravilha sem entendimento,
demora-se à porta, como o vizinho,
o carteiro, o cachorro. Porém,

nenhuma das três imagens, tampouco
este poema, diz do que houve, para meu susto,
àquele ano.

Eucanaã, além de ser professor da UFRJ, trabalha no Instituto Moreira Salles, na parte de literatura e pesquisa. Recentemente, reorganizou toda a obra de Vinicius de Moraes, livro a livro, num importante projeto, sobretudo, para quem não conhece a obra poética do Vinicius. Também relançou ‘Alguma Poesia’ do Drummond. Eucanaã também é conhecido por ser um bom palestrante, esclarecedor e jamais arrogante. Creio que Eucanaã é uma boa voz da poesia contemporânea, se encaminhando, quem sabe, para uma consolidação definitiva com o público. Mais ou menos por aí.

Meus poemas no blog http://pedrolago.blogspot.com

O DOIDO

Diziam, verdade ou não, que fora rico e são
e que a despeito dos bens que possuíra

acabara endividado, falido e torto. Talvez
por isso, embora miserável, a cabeça

reta, o andar
de quem governa e pisa terra extensa e sua

em perambular sob o sol absoluto,
absorvido sabe-se lá por que delírios.

Absorvido sabe-se lá por que delírios,
insultava o vento e o vazio numa agitação

de cabelos e palavras e era comum
vê-lo penteando com seus dedos

encardidos a água das praias,
como se província sua,

como sua líquida mulher ou filha.
Viveu assim, entre feridas e piolhos,

até que desceu a noite
e uma pedra veio buscá-lo.

Eis que chegamos ao final de mais uma antologia. Espero que tenham gostado de conhecer, ou reler, a delicada poesia deste notável nome da poesia contemporânea brasileira. Poeta que ama a pintura, queria ser ator, mas preferiu o caminho da escrita e, dentro da escrita, a poesia. Na semana que vem, entraremos num outro universo poético, com outras proposições, outros poemas, outras reflexões, enfim, até lá.

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O ATOR

Pensei em mentir, pensei em fingir,
dizer: eu tenho um tipo raro de,
estou à beira,

embora não aparente. Não aparento?
Providências: outra cor na pele,
a mais pálida; outro fundo para a foto:

nada; os braços caídos, um mel
pungente entre os dentes.
Quanto à tristeza

que a distância de você me faz,
está perfeita, fica como está: fria,
espantosa, sete dedos

em cada mão. Tudo para que seus olhos
vissem, para que seu corpo
se apiedasse do meu e, quem sabe,

sua compaixão, por um instante,
transmutasse em boca, a boca em pele,
a pele abrigando-nos da tempestade lá fora.

Daria a isso o nome de felicidade,
e morreria.
Eu tenho um tipo raro.

outubro 10, 2010

Cassiano Ricardo

Voltando aos poetas. Cassiano Ricardo nasceu em São José dos Campos, São Paulo, em 1895. Passou a infância na fazenda dos pais, que eram modestos lavradores. Consta que queria ser poeta e jornalista já aos dez anos. Neste mês percorreremos o universo poético deste, infelizmente, não tão divulgado bom poeta brasileiro. Assim como muitos que não chegaram ao grande, porém, escasso, público de poesia. Pois este mailing se faz simplesmente por isso, para que as pessoas leiam, pelo menos uma vez por dia, um poema. Poesia é importante, mas só na prática percebemos. Garanto!

poema Apenas, do livro Corpo Aberto no blog http://pedrolago.blogspot.com

COEMA PIRANGA

de primeiro no mundo
só havia sol mais nada
noite não havia

havia só manhã
uma manhã espessa
com a coroa de plumas
vermelhas à cabeça
só manhã no mundo

pois noite não havia
só manhã no mundo
sem nenhuma ideia
de haver noite nem dia

era tudo brasil
tudo era madrugada
não havia mais nada
todas as mulheres
eram filhas do sol
na manhã gentil

e os homens cantavam
que nem pássaros nus
pelos galhos das árvores
sem noite sem dia
porque só havia sol
noite não havia

no começo do mundo
tudo era madrugada
tudo era sol mais nada
tudo amanhecia
permanentemente
num contínuo arrebol

sem ara nem pituna
sem noite nem dia
cantava o tié-piranga
num ramo do sol
sen nenhuma ideia
de uma noite haver noite
ou de um dia haver dia

mas dois frutos havia
e num deles morava
a Noite no outro o Dia
mas ninguém sabia
em que galho em que arbusto
é que a Noite estaria
e onde estava o Dia

não havia o medo
de perder a hora
ou contar-se um segredo
só havia sol se rindo
se rindo grande e real
como um ruivo animal
dentro do matagal

de primeiro no mundo
noite não havia
tudo era mesmo dia
de tanto sol que havia
era o tempo imóvel
não havia esta coisa
chamada noite e dia
só havia sol mais nada
noite não havia

só manhã no mundo
noite não havia

Cassiano Ricardo publicou seus primeiros versos e “inventou” um pequeno jornal manuscrito chamado O Ideal, no ano de 1905. Adolescente, frequentou, em Jacareí, o Ginásio Nogueira da Gama. Logo mais, estudou Direito em São Paulo e colou grau no Rio de Janeiro, já estamos em 1917. Durante esse período publicou o seu primeiro livro de poemas, Dentro da Noite (1915), e logo a seguir, A frauta de Pã. Cassiano inicia seu diálogo com os modernistas, influência que será fundamental em sua obra. Na série desta semana, tratamos de Uiara, uma índia de cabelo verde e amarelo.

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SEM NOITE, NÃO

“A manhã é muito clara…
Não há Noite na terra…
O sol espia a gente
pelos vãos do arvoredo…
Sem Noite, francamente,
não quero me casar
porque não há segredo…
Ixé xatí xa ikó.
O que há são olhos, olhos
em que o sol se reparte.
“Olhos que espiam tudo
pelos vãos doa arvoredo…
Olhos por toda a parte!
Casar? nem por brinquedo.
Não é porque me queixe
mas o sol, sem-vergonha,
até debaixo d’água
quando vou tomar banho
brilha mais do que um peixe.
Os troncos têm orelhas
sobre a casca, vermelhas,
e contam tudo às folhas,
que ouvem o que se diz;
e as folhas que são línguas
verdes e bem afiadas
contam ao vento; e o vento
que não guarda segredo
conta depois aos bichos
que moram no arvoredo;
e os bichos, aos cochichos,
contam ao mato, e o mato
chama o sol, linguarudo,
e conta tudo… Tudo

“Se você, meu amigo,
quer se casar comigo,
tenho uma condição.
É haver Noite, na Terra.

“Sem Noite, não e NÃO.”

No Rio de Janeiro, Cassiano Ricardo foi cronista parlamentar do jornal O Dia. Agora, formado em Direito, depois de ter exercido a advocacia em São Paulo, resolveu se mudar para o Rio Grande do Sul, e lá, tentar a carreira. Volta para São Paulo e retorna para a carreira literária se integrando na redação do Correio Paulistano. Foi ali que conheceu e se aproximou de Plínio Salgado, Menotti Del Picchia, Mota Filho, Alfredo Ellis e Raul Bopp. Juntos iniciariam uma campanha modernista, tendo Cassiano, como um dos lideres.

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A COBRA GRANDE

Até que ao fim da estrada
no sítio acaba-mundo
por onde conduzira
as tribos da manhã,
o Rei do Mato encontra
a Cobra Grande que,
olhos de safira,
se disse sua irmã.
Então Cobra Grande
lhe fala: “Eu tenho a Noite”

E dá-lhe um espinhento
fruto de tucumã.
“A Noite mora ao centro
desta fruta do mato,
que é espinhenta por fora
mas gostosa por dentro…”
(E em seu olhar fulgia
o abismo da manhã.)

“Vá por este caminho
mas não abra o segredo
antes da hora marcada,
pra seu amor não ser
simples palavra vã.
Que se abrires o fruto
por encanto ou por medo
você terá o castigo
de sol e de chão bruto,
que te dará Tupã.

Pois o Bicho Felpudo
que mora na floresta
cum só olho na testa
e que usa pés de lã
te esconderá os caminhos;
cantará a jaçanã.
E todas as corujas
que são filhas da Noite
sairão dos seus ocos
e sujarão a cara
soltinga da manhã.

E a Noite que está dentro
deste crespo por fora
fruto de tucumã,
virará Onça Preta.

E tudo será Noite
de não se ver mais nada.
E você, Rei do Mato,
depois de tanto afã,
ficará o vagabundo
do sítio acaba-mundo.
E vagará, à toa,
à frente do seu povo
de rechã em rechã,
na grande Noite cega,
sem amor, sem cunhã.”

E enquanto a Cobra Grande
falava, o Sol se ria.
Sol coisarrão, Sol nu.
Sol de mitologia.
Com cinco labaredas
de alegria pagã,
presas, qual cinco dedos,
ao fim de cada braço
girassol da manhã…

Junto com Menotti Del Picchia, Plínio Salgado, Mota Filho, Alfredo Ellis e Raul Bopp, Cassiano Ricardo fundou os grupos modernistas “Verde-amarelo” e “Anta”. Vamos entrar nessa parte com calma. Tais grupos foram uma resposta ao nacionalismo Pau-Brasil. Uma crítica ao nacionalismo “afrancesado”, como eles levantaram, de Oswald de Andrade. Tinha como propostas o nacionalismo primitivista, ufanista, identificado com o fascismo. Estes grupos permearam os anos de 1923 (ou 26) a 1929. Estes grupos, depois, evoluiriam para o Integralismo. Cassiano, depois, assinará outros grupos, um deles, o “Bandeira”, já contra o Integralismo. Mais sobre amanhã.

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DECLARAÇÃO DE AMOR

Eu vim do mar! Sou filho de outra raça.
Para servir meu rei andei à caça
de mundos nunca vistos nem sonhados,
por mares nunca de outrem navegados.
Ora de braço dado com a procela,
ora a brigar com ventos malcriados.
Trago um cruz de sangue em cada vela!

Na crista da onda, em meio do escarcéu,
na solidão encrespada e redonda,
quanta vez me afundei no inferno d’água
ou com a cabeça fui bater no céu!
Simples brinquedo em mãos da tempestade
fabulosa ambição me trouxe aqui.

A ambição pode mais do que a saudade…
Ambas me foram ver, quando eu parti.

A saudade, abraçou-me, tão sincera,
soluçando, no adeus do nunca-mais.
A ambição de olhar verde, junto ao cais,
me disse: vai que eu fico à tua espera!

E agora, ó Uiara, eu sou um rouxinol.
Épico só no mar, lírico em terra,
quero gorjear à beira do regato
e o teu beijo colher, fruta do mato,
no teu corpo pagão, quente de sol.
E agarrar-me aos teus seios matutinos,
nauta que amou centenas e centenas
de ondas em fúria e veio naufragar,
depois de tudo, em duas ondas morenas,
que valem mais, em sendo duas apenas,
do que todas as ondas que há no mar.
Que importa a nós as brejaúvas más,
na virgindade insólita onde fechas
o teu supremo bem-ínvio tesouro,
vigiado pelas onças de olhos de ouro -
guardem seus cachos roxos entre flechas
e eu beba a água que o sertão me traz
nas folhas grossas dos caraguatás?

Que importa, no ar, papagaios em bando,
ou araras pintadas, dêem risadas,
por nos verem assim, falando a sós,
tu da cor da manhã, eu cor do dia,
se os pássaros do amor e da alegria
a todo instante pousarão cantando
nas coisas que te digo, em minha voz?

Eu vim do mar! Sou filho da procela.
Trago uma cruz de sangue em cada vela.
Para sentir a glória de te amar,
lobo do oceano acostumado a tudo,
épico só no mar, lírico em terra,
estenderei o couro de um jaguar
sobre este chão que ficará um veludo
mais verde, mais macio do que o mar…
No mar, o bravo peito lusitano.
Em terra o amor em primeiro lugar.

E tão grande há de ser a nossa luta
sobre o leito trançado de cipós,
que a Noite cairá, pesada e bruta,
suando pingos de estrelas sobre nós!

Logo após a fundação dos grupos Verde-Amarelo e Anta, Cassiano publica os livros: Borrões de verde e amarelo; Vamos caçar papagaios e Martim Cererê. Também é eleito para a Academia Paulista de Letras com Plínio Salgado e Menotti Del Picchia. Plínio Salgado foi um dos fundadores da Ação Integralista Brasileira, partido político dos anos 30, extinto pelo Estado Novo. Menotti Del Picchia era poeta, e foi eleito, em 1943, para a Academia Brasileira de Letras. Os três participaram intensamente do modernismo brasileiro, publicando em 1929 o Nhengaçu Verde Amarelo – Manifesto do Verde Amarelismo ou da Escola da Anta.

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LADAINHA

Por ser tratar de um ilha deram-lhe o nome de Ilha de Vera Cruz

llha cheia de graça
Ilha cheia de pássaros
Ilha cheia de luz.

Ilha verde onde havia
mulheres morenas e nuas
anhangás a sonhar com histórias de luas
e cantos bárbaros de pajés em poracés batendo os pés.

Depois mudaram-lhe o nome
pra Terra de Santa Cruz.
Terra cheia de graça
Terra cheia de pássaros
Terra cheia de luz.

A grande Terra girassol onde havia guerreiros de tanga
e onças ruivas deitadas à sombra das árvores mosqueadas de sol.

Mas como houvesse, em abundância,
certa madeira cor de sangue cor de brasa
e como o fogo da manhã selvagem
fosse um brasido no carvão noturno da paisagem,
e como a Terra fosse de árvores vermelhas
e se houvesse mostrado assaz gentil,
deram-lhe o nome de Brasil.

Brasil cheio de graça
Brasil cheio de pássaros
Brasil cheio de luz.

Em 1928, Cassiano foi nomeado para censor teatral e cinematográfico e também virou funcionário público. Sua carreira começava crescer. Em 1931, o então interventor Laudo de Camargo o nomeou para diretor efetivo da Secretaria do Palácio do Governo, em 1932 exerceu a função de secretário do Governador Pedro de Toledo, tendo sido preso (por motivo da Revolução Constitucionalista) e remetido entre outros paulistas, para a Sala da Capela, no Rio de Janeiro.

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A NOTÍCIA

Então o vento
lá dentro da serra,
onde apenas insensato
das coisas sem nome
começou a bater
a bater rataplã
no tambor da manhã.

Então os ecos
saíram das grutas
levando a notícia
por todos os lados.

Então as palmeiras
ao fogo do dia,
em verde tumulto,
pareciam marchar
carregando bandeiras.

Depois veio a Noite
e os morros soturnos
levavam estrelas
por vales e rochas
como um silente
corrida de tochas…

Vale lembrar: A Revolução Constitucionalista (motivo pelo qual Cassiano fora preso quando exercia o cargo de secretário do Governador Pedro de Toledo) foi uma revolta armada contra o governo Vargas, e ocorreu em São Paulo. Em poucos meses, tendo início no dia 9 de julho, São Paulo conheceu um dos maiores conflitos armados da história do Brasil. 87 dias de combate no total, terminando com a rendição do revolucionários em outubro. Cassiano Ricardo foi o poeta mais recitado nas estações de rádio, por causa de seus poemas paulistas.

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SINAL DO CÉU

E uma cruz misteriosa de estrelas
abriu no céu os seus braços de luz
como uma enorme profecia:

Eu sou a cruz do cruzamento!
O cruzeiro do amor universal.

Eu tenho estes braços abertos
assim, na amplidão dos espaços
como que pra dizer: vinde todos!
que este céu é bastante profundo
e servirá de teto a todos quantos
sofrem no mundo;
que este chão é bastante fecundo
e dará de comer a todos quantos
têm fome, no mundo;

que estes rios darão de sobejo
pra mitigar a sede a todos quantos
têm sede, no mundo.

Sinal da cruz, descrucificador
porque signo de “mais”, de soma e aliança.

Eu sou a cruz do amor.
Um abraço de estrelas a quem chega
à procura de uma ilha
no mapa-múndi da desesperança.

Porque eu sou o caminho, ainda obscuro,
por onde, finalmente,
desfilará a humanidade do futuro.

No mesmo ano de 1937, quando toma parte no grupo intelectual “Bandeira”, Cassiano é eleito para a Academia Brasileira de Letras. Ocupa a cadeira #31 que tinha sido ocupada por Paulo Setúbal. Cassiano tinha sido o segundo modernista a ser eleito para a Academia, o primeiro a ter essa honra foi Guilherme de Almeida, o qual foi encarregado de recebê-lo. Vale lembrar: Guilherme de Almeida foi o responsável pela divulgação do Haikai no Brasil.

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TREM DA NOROESTE

Olhos oblíquos
pestanas ruivas;
é o homem bíblico
multiplicado
pelo futuro
pelo presente
pelo passado.
E a terra enigma
modela o outro
(ainda criança
que há dentro dele)
à sua imagem
e semelhança.
Porque ele mesmo
cortado ao meio,
ficou lá longe
e entre o que veio
e o que não veio
o azul-atlântico
lava a memória
do que não veio.
Rostos em viagem.
Rostos em série.
Baralho humano.

Novas trombetas
de Jericó.
A hora futura
que Deus escreve
por linhas tortas
no mural rude
da manhã clara,
imprime aos rostos
judeus, lituanos,
sírios e russos
o ensaio vivo
de um mundo só.
Nisto o trem pára.
Que face é aquela
que se debruça
numa janela?

É a face do outro?

Em 1940, Cassiano Ricardo foi diretor do jornal A Manhã, no Rio de Janeiro. Sobre sua atuação na direção do jornal, Manuel Bandeira disse que “Cassiano chamou para o seu jornal grandes colaboradores adversários da situação, Gilberto Freyre, Afonso Arinos de Melo Franco, José Lins do Rego, Vinicius de Moraes, etc, na nobre atitude de não misturar literatura com política”.

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PECADO ORIGINAL

O dia nos espia… novamente.
Mas, ó incrível morena de olhar verde,
fecha os teus olhos pra fingir que é noite.
E teremos a noite, duas, três vezes,
quantas vezes fecharmos nossos olhos
na quentura de um beijo. Porque a noite
é uma pequena invenção de nós dois…
Há um momento de treva em cada beijo
e uma risada matinal depois,
do dia, debruçado na janela,
que nos espia, e quer saber de tudo
o que se passa agora entre nós dois.
Fecha os olhos de novo, e eu te darei
a noite que ainda mora atrás do dia…

Em 1941, Cassiano Ricarco publicou seu principal ensaio ‘Marcha para Oeste’ e o ‘Sangue das Horas’, denunciador de sua nova fase poética. Cassiano participara profundamente das novas proposições modernistas, sempre pela poesia, permeando os grupos, escrevendo ensaios e nos jornais. Martim Cererê é um longo poema indianista, com negros, índios e brancos tomando posse e criando um novo país. O poema termina com Brasil-Menino. Eis algumas partes.

Poema ‘Apenas’ do livro ‘Corpo Aberto’ no blog http://pedrolago.blogspot.com

BRASIL-MENINO I & II

Meu pai era um gigante, domador de léguas.
Quando um dia partiu, a cavalo,
no seu dragão de pelo azul que era o Tietê dos bandeirantes,
lembro-me muito bem de que me disse: olhe, meu filho
eu vou sururucar por esta porta e um dia voltarei trazendo
umas dezenas de onças arrastadas pelo rabo a pingar
sangue do focinho.

E dito e feito! lá se foi dando empurrões no mato dos barrancos
por entre alas de jacarés e de pássaros brancos!

Quando veio o Natal meu pai estava longe,
em luta com os bichos peludos, com os gatos grandões
de cabeça listada e com as mulas-de-sete-cabeças
que moram no fundo das árvores espessas.
No planalto, batia um sino perguntando: ele não vem?
ele não vem?

Um outro sino de voz grossa respondia “não…
e não, dizendo “não”… e repetindo “não… e não”…

Em 1947, Cassiano volta a residir em São Paulo após alguns anos no Rio de Janeiro. A crítica ressalta que os poemas escritos e publicados por Cassiano nesse período o colocam “na primeira linha dos poetas brasileiros”. Tais poemas se encontram em Um dia depois do outro; A face perdida e Poemas murais. Nesta época também, Cassiano se aproxima dos concretistas das revistas Noigandres e Invenção. Depois, Cassiano viria a dirigir uma importante instituição. Amanhã.

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BRASIL-MENINO IV & V

Passou mais um ano e meu pai não voltou.
Botei meus sapatões atrás da porta novamente
e no outro dia
fui encontrar meus sapatões abarrotados de esmeraldas!
Minha vovó, uma velhinha portuguesa com cabelo de
garoa e xale azul-xadrez me garantia:
“… foi o Papá Noel quem trouxe. “Até que um dia
fiz que não vi mas vi; acordei da ilusão:
meu pai era um gigante, domador de léguas;
um feroz caçador de onças pretas,
terror do mato, assombração das borboletas
mas tinha um grande coração.

Por fim cresci. Hoje sou gente grande.
Sou comissário de café. Tenho viadutos encantados.
Minha cidade é esse tumulto colorido que aí passa
levando as fábricas pelas rédeas pretas da fumaça!

Barulho fantástico
de um mundo que saiu da oficina.
Grito metálico de cidade americana.
Vida rodando fremindo batendo martelos
com músculos de aço.

E o Tietê conta a história dos velhos gigantes,
que andaram medindo as fronteiras da pátria,
ao tempo em que São Paulo colocava os sapatões atrás da porta

e os sapatões amanheciam de ouro…

e os sapatões amanheciam de esmeraldas…

e os sapatões amanheciam de diamantes…

Em 1950, Cassiano Ricardo é eleito presidente do Clube da Poesia de São Paulo. Na direção dessa entidade, iniciou a publicação dos “cadernos” dedicados aos “novíssimos”, inaugurando o Curso de Poética – o primeiro, em seu gênero, realizado no país. Três anos depois, Cassiano foi para a França, em missão oficial. Permaneceu quase três anos e percorreu vários países, como Portugal, Espanha, Bélgica, Suiça, Itália, Inglaterra e Holanda.

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INDOMITUS

O mar é uma esmeralda suja.
Recifes de coral repontam como flores de sangue salpicado de espuma.

(Coisa que explica naturalmente sangue róseo dos náufragos.)
As espadas dos peixes aguerridos
(os espadartes) trançam cintilações de prata
em campo blau, como num escudo.
O escudo de Netuno contra o casco do Indômitus.
A arte de navegar entre espadas
não é tão fácil, senão a mais oscilante das
artes.

Não consta da rosa-dos-ventos…
Se bem que uma rosa-dos-ventos é rosa
mas apenas no nome. Antes, a chamaremos de malme-quer
até Dumquerque.

Indômitus está dançando agora entre duas espécies de
estrêlas.

A hora não é pra considerações em tôrno do
que possa acontecer.

É a hora do sangue-frio. Porque os peixes,
como os capitães, são animais de sangue-frio.

A hora é do vento
pela proa, ou a maubordo (não bombordo).
Nasce uma flor no mastro, um flama (não flâmula).
Indômitus então navega em plena rosa cega.

Uma fulguração súbita escreve no ar uma frase.
Thamuz, Thamuz, panmegas tethneka. Fulmotondro.
O comandante está dizendo à sua maruja que não há
no dicionário uma palavra mas bonita do que arquipélago.

Trinta pombos azuis em formação geométrica voltarão
ao navio.

Durante o período em que esteve em Paris, Cassiano Ricardo escreveu João torto e a Fábula; também escreveu Arranhacéu de Vidro, já inaugurando uma nova fase em sua linguagem. Cassiano também foi chefe do Escritório Comercial do Brasil em Paris no ano de 1953. Os cargos públicos era frequentes na vida de Cassiano, tendo ocupado alguns importantes. O início dos anos 60, Cassiano é laureado com prêmios, entre eles da Fundação Cultural de Brasília, Carmen Dolores Barbosa e o Jabuti.

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PAPAGAIO GAIO

Papagaio insensato,
que te fêz assim?
Que não sabes falar
brasileiro
e já sabes latim?

Papagaio insensato,
ave agreste, do mato,
que diabo em ti existe,
verde-gaio,
que nunca estás triste?

Papagaio do mato,
se nunca estás triste,
quem foi que te ensinou,
por maldade,
a palavra saudade?

Papagaio triste,
papagaio gaio,
quem te fêz tão triste
e tão gaio,
triste mas verde-gaio?

Papagaio gaio,
quem te ensinou,
em mais
do mato, a repetir,
papagaio,
tanto nome feio?

Gaio papagaio,
gaio, gaio, gaio,
que repetes tudo…
Antes fosses
um pássaro mundo.

Papagaio do mato,
se nunca estás triste,
quem foi que te ensinou,
por maldade,
a palavra saudade?

Papagaio gaio.
Gaio, gaio, gaio.

Com os livros do início da década de 60, Montanha Russa e Difícil Manhã, Cassiano recebe muitos prêmios. Seus último dois livros, Jeremia Sem-Chorar e Os Sobreviventes, são marcados por experimentações, tais como o linossigno e os poemas visuais. Cassiano tem também uma história com o concretismo, tendo participado dos grupos que desencadeariam no movimento estético.

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MONTANHA RUSSA

Já o ser inquieto não
está em nenhum lugar
porque a inquietação já
é uma forma de não
estar nunca estaR

que se dirá então
do ninguém que mora
em mim por não ter não
onde morar
na terra no ar no maR

quem imagina não
está em si somente
nem somente onde está
está de repente
sem cuspir nem porvir
numa montanha russa
só pelo prazer
perpendicular
de subir e caiR

Ó meu distante amor
quando eu passar espera-me
na tua porta não
te poderei beijar não
só terei tempo para
na paisagem em fuga
entre areia e sal
te deixar na mão
uma floR

Espera-me na porta
se estiveres na lua
maria azul luz clara
quando eu passar como
um peixe voador não
terei tempo para
te ofertar sequer
uma floR

só terás tempo de dizer
como a mulher de Arvers
que louco é este
que chegou da terra e não
me trouxe sequer
uma floR

Numa memorável luta, Cassiano Ricardo conseguiu que a Academia Brasileira de Letras premiasse o livro Viagem, de Cecília Meireles, e depois, propôs, com a aprovação dos demais acadêmicos, inclusive conservadores, que se comemorasse, naquele cenáculo, o trigésimo aniversário da Semana de Arte Moderna. Em todas as antologias, sobretudo nas resumidas, Cassiano sempre é lembrado pela “militância” na poesia, fazendo-se sempre o uso desta palavra.

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O CACTO

Vamos, todos, brincar de cacto
na areia da nossa tristeza.
Uma folha sobre outra,
Em caminho do céu intacto.

Uns nos ombros dos outros,
um braço a nascer de outro braço,
uma folha sobre outra,
formaremos um grande cacto.

De cada braço, já no espaço,
nascerá mais um braço, e deste
outros braços, qual ramalhete
de flores para um só abraço.

Filhos da pedra e do pó,
fique aqui embaixo o nosso orgulho,
pisado sobre o pedregulho.
Formaremos, num corpo só

(uma folha sobre outra
uma folha sobre outra,
um braço a nascer de outro braço),
a nossa escada de Jacó.

Pra que torre de Babel
ou o Empire State, compacto,
se, uns nos ombros dos outros,
chegaremos ao céu, num cacto?

Uma folha sobre outra
e já uma árvore de feridas
por entre os anjos de azulejo
e as borboletas repetidas.

Que fique aqui embaixo a terra;
lá de cima nós tiraremos
uma grande fotografia
do seu rosto de ouro e prata.

Para provar a Deus que a terra,
numa fotografia exata,
não é redonda, mas chata;
não é redonda, mas chata.

Pra provar, por B mais H,
que o homem, animal suicida,
já sabe fabricar estrelas…
Se é que Deus disto duvida.

Que iríamos fabricar luas
(se não fora, para Seu gáudio,
o espião nos ter furtado a fórmula)
mais bonita do que as Suas.

Vamos, todos, brincar de cacto,
uns nos ombros dos outros,
um braço a nascer de outro braço,
uma folha sobre outra.

Vamos subir, de folha em folha,
mais alto do que vai o avião.
Lá onde os anjos jogam pedras
no cão da constelação.

Que outros usem avião a jacto
pra uma viagem em linha reta:
nós, filhos da planície abjeta,
subiremos ao céu num cacto.

Uns nos ombros dos outros,
injustiças sobre injustiças,
formaremos um verde pacto…
Vamos, todos, brincar de cacto.

Vamos, todos, brincar de cacto.

Cassiano fez parte da equipe “Invenção” grupo de vanguarda que desencadeou numa revista com o mesmo nome e foi o núcleo do movimento concreto na poesia brasileira. O grupo era constituído por Augusto de Campos, Décio Pignatari, Edgar Braga, José Lino Grunewald, Mário da Silva Brito, Mário Chamie, Ronaldo Azeredo e Pedro Xisto. Embora achasse que os poetas daquele grupo eram muito novos e por demais radicais, foi Cassiano quem proporcionou a página Invenção no Correio Paulistano.

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VOCE E O SEU RETRATO

Por que tenho saudade
de você, no retrato,
ainda que o mais recente?

E por que um simples retrato,
mais que você, me comove,
se você mesma está presente?

Talvez porque o retrato
já sem o enfeite das palavras,
tenha um ar de lembrança.

Talvez porque o retrato
já sem o enfeite das palavras,
tenha um ar de lembrança.

Talvez porque o retrato
(exato, embora malicioso)
revele algo de criança
(como, no fundo da água,
um coral em repouso)

Talvez pela idéia de ausência
que o seu retrato faz surgir
colocado entre nós-dois

(como um ramo de hortênsia)

Talvez porque o seu retrato,
embora eu me torne oblíquo,
me olha, sempre, de frente

(amorosamente)

Talvez porque o seu retrato
mais se parece com você
do que você mesma (ingrato).

Talvez porque, no retrato
você está imóvel,

(sem respiração…)

Talvez porque todo retrato
é uma retratação.

Cassiano Ricardo fez parte do Conselho Federal de Cultura, do MEC. Foi casado com Lourdes Fonseca Ricardo, jornalista e pós-graduada pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Cassiano fez parte dos movimentos estéticos e parte da política brasileira no século XX com atuação marcante em neles. Mudou de ideia, rompeu com grupos e sempre esteve perto do novo. Dizia que “situa-se o poeta numa linha geral de vanguarda, na problemática da poesia de hoje, mas as suas soluções são nitidamente pessoais”.

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DESEJO

As coisas que não conseguem morrer
Só por isso são chamadas eternas.
As estrelas, dolorosas lanternas
Que não sabem o que é deixar de ser.

Ó força incognoscível que governas
O meu querer, como o meu não-querer.
Quisera estar entre as simples luzernas
Que morrem no primeiro entardecer.

Ser deus — e não as coisas mais ditosas
Quanto mais breves, como são as rosas
É não sonhar, é nada mais obter.

Ó alegria dourada de o não ser
Entre as coisas que são, e as nebulosas,
Que não conseguiu dormir nem morrer.

Em 1972, Cassiano Ricardo recebe o Prêmio Nacional de Poesia do Instituto Nacional do Livro com seu livro Os sobreviventes, e também como lastro da grande obra poética de toda sua vida. No dia 14 de janeiro de 1974, Cassiano falece no Rio de Janeiro sendo sepultado no Mausoléu da Academia Brasileira de Letras. Ao lado de Alceu Amoroso Lima, Manuel Bandeira e Múcio Leão, levou adiante o processo de renovação da instituição (ABL), para garantir o ingresso dos verdadeiros valores.

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A MEDUSA DE FOGO

A simples bulha surda
Do meu coração batendo
Poderá te acordar.
Mesmo a penugem da lua
Que cai sobre o ombro nu
Das árvores, tão de leve,
Poderá te acordar.

A simples caída da bolha
D’água sobre a folha,
Por ser fria como a neve,
Poderá te acordar.
Só porque a rosa lembra
Um grito vermelho,
Retiro-a de diante do espelho
Porque — de tão rubra —
Poderá te acordar.

E se nasce a manhã
Calço-lhe logo pés de lã,
Porque ela, com seus pássaros,
Poderá te acordar.
Mesmo o meu maior silêncio,
O meu mudo pé-ante-pé,
De tão mudo que é,
Não irá te acordar?

Ó medusa de fogo,
Conserva-te dormida.
Com o teu fogo ruivo e meu,
Qual monstruosa ferida.
Como data esquecida.
Como aranha escondida
Num ângulo da parede.
Como rima água-marinha
Que morreu de sede.

E eu serei tão breve
Que, um dia, deixarei
Também, até de respirar,
Para não te acordar.
ó medusa de fogo,
Dormida sob a neve!

Eis que chegamos ao final de mais uma antologia. Conhecemos um pouco da obra deste importante poeta para modernismo brasileiro, com uma curiosa ligação com a extrema direita, que conseguia unir as mais diversas opiniões políticas em prol da literatura. Acadêmico, responsável pela mudança de postura da Academia com relação ao modernismo e que esteve perto, atuando, em todos os movimentos de vanguarda pelos quais o Brasil passou enquanto esteve vivo. Semana que vem entraremos num outro universo poético, outras proposições, outros poemas.

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FICARAM-ME AS PENAS

O pássaro fugiu, ficaram-me as penas
da sua asa, nas mãos encantadas.
Mas, que é a vida, afinal? Um vôo, apenas.
Uma lembrança e outros pequenos nadas.
Passou o vento mau, entre açucenas,
deixou-me só corolas arrancadas…
Despedem-se de mim glorias terrenas.
Fica-me aos pés a poeira das estradas.

A água correu veloz, fica-me a espuma.
Só o tempo não me deixa coisa alguma
até que da própria alma me despoje!

Desfolhados os últimos segredos,
quero agarrar a vida, que me foge,
vão-se-me as horas pelos vãos dos dedos.

setembro 10, 2010

Grandes solilóquios do teatro

Neste mês, percorreremos os grande solilóquios do teatro mundial, para serem lidos como poemas, fora do contexto da peça. Édipo Rei foi montada pela primeira vez provavelmente em 430 a.C em Atenas. É a primeira peça da chamada Trilogia Tebana (Édipo Rei, Édipo em Colono e Antígona), todas escritas pelo poeta Sófocles (496 a.C – 406 a.C). A peça gira entorno das descobertas por Édipo dos fatos terríveis que motivaram o castigo que assola Tebas – a peste. Tendo ordenado Creonte consultar ao oráculo, Édipo, descobre que houve um crime – o assassinato de Laio – então pede ao adivinho Tiresias que conte tudo que sabe sobre a morte do antigo rei, da qual Tirésias foi testemunha. Após muito insistir diante à relutância de Tirésias, Édipo descobre que fora o responsável pela morte de Laio, que o mesmo também era seu pai e que casara com sua própria mãe, Jocasta. A rainha se mata e, Édipo, embebido de culpa, cega-se como auto-punição. Este é o solilóquio onde justifica seu ato. Fala ao corifeu.

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ÉDIPO
(ÉDIPO REI)

Não tentes demonstrar que eu poderia agir
talvez de outra maneira, com maior acerto.
Não quero teus conselhos. Como encararia
meu pai no outro mundo, ou minha mãe, infeliz,
depois de contra ambos perpetrar tais crimes
que nem se me enforcassem eu os pagaria?
Teria eu algum prazer vendo o semblante
dos pobres filhos meus, nascidos como foram?
Não, certamente já não poderia vê-los,
nem a minha cidade, nem seus baluartes,
nem as imagens sacrossantas de seus deuses,
eu, o mais infeliz entre os desventurados!
Após haver vivido em Tebas a existência
mais gloriosa e bela eu mesmo me proibi
de continuar a usufruí-la ao ordenar
que todos repelissem o maldito ser,
impuro para os deuses, da raça de Laio.
Depois de ter conhecimento dessa mácula
que pesa sobre mim, eu poderia ver
meu povo sem baixar os olhos? Não! E mais:
se houvesse ainda um meio de impedir os sons
de me chegarem aos ouvidos eu teria
privado meu sofrido corpo da audição
a fim de nada mais ouvir e nada ver,
pois é um alívio ter o espírito insensível
à causa de tão grandes males, meus amigos.

pausa

Ah! Citéron! Por que tu me acolheste um dia?
Por que não me mataste? Assim eu não teria
jamais mostrado aos homens todos quem eu sou!
Ah! Pólibo! e Corinto! Ah! Palácio antigo
que já chamei de casa de meus pais! Que nódoas
maculam hoje aquele que vos parecia
outrora bom e tantos males ocultava!…
Pois hoje sou um criminoso, um ser gerado
por criminosos como todos podem ver.
Ah! Tripla encruzilhada, vales sombreados,
florestas de carvalhos, ásperos caminhos,
vós que bebestes o meu sangue, derramado
por minhas próprias mãos – o sangue de meu pai -
ainda tendes a lembrança desses crimes
com que vos conspurquei? Pois outros cometi
depois. Ah! Himeneu! Deste-me a existência
e como se isso não bastasse inda fizeste
a mesma sementeira germinar de novo!
Mostraste ao mundo um pai irmão dos próprios filhos,
filhos-irmãos do próprio pai, esposa e mãe
de um mesmo homem, as torpezas mais terríveis
que alguém consiga imaginar. Mostraste-as todas!

pausa

Mas vams logo, pois não se deve falar
no que é indecoroso de fazer. Levai-me!
Depressa, amigos! Ocultai-me sem demora
longe daqui, bem longe, não importa onde;
matai-me ou atirai-me ao mar em um lugar
onde jamais seja possível encontrar-me!
Aproximai-vos e não tenhais nojo, amigos,
de pôr as vossas mãos em mim, um miserável.
Crede-me! Nada receeis! Meu infortúnio
é tanto que somente eu, e mais ninguém,
serei capaz de suportá-lo nesta vida!

Antígona é a peça final da Trilogia Tebana e foi representada pela primeira vez em 441 a.C, em Atenas. Após a morte de Édipo em Colono (retratada em Édipo em Colono, segunda peça da trilogia), Antígona, filha de Édipo, retorna com Ismene, sua irmã, a Tebas, onde seus irmãos, Etéocles e Polinices disputavam a sucessão do pai no trono da cidade. Após um breve acordo, Etéocles não cede o lugar para Polinices que, revoltado, segue para Argos, cidade rival de Tebas. Após uma batalha entre os irmãos, ambos caem mortos. Creonte assume o poder e proíbe o sepultamento de Polinices. Antígona, revoltada, desrespeita a ordem de Creonte e concede o sepultamento alegando que seus direitos eram mais válidos. A maior parte da peça trata dessa medida. Este é o discurso de Antígona antes de ser levada pelos guardas de Creonte como punição de seus atos.

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ANTÍGONA
(Antígona de Sófocles)

Túmulo, alcova nupcial, prisão eterna,
cova profunda para a qual estou seguindo,
em direção aos meus que a morte muitas vezes
já acolheu entre os finados! Eu, a última
e sem comparação a mais desventurada,
vou para lá, antes de haver chegado ao termo
de minha vida! Mas uma esperança eu tenho:
meu pai há de gostar de ver-me, e tu também
gostarás muito, minha mãe, e gostarás
também, irmão querido, pois quando morreste
lavei-te e te vesti com minhas próprias mãos
e sobre tua sepultura eu espargi
as santas libações. E agora, Polinices,
somente por querer cuidar de teu cadáver
dão-me esta recompensa! Mas na opinião
da gente de bom senso todo o meu cuidado
foi justo. Sim! Se houvera sido mãe de filhos,
ou se o esposo morto apodrecesse exposto,
jamais enfrentaria eu tamanhas penas
tendo de opor-me a todos os concidadãos!
Que leis me fazem pronunciar estas palavras?
Fosse eu casada e meu esposo falecesse,
bem poderia encontrar outro, e de outro esposo
teria um filho se antes eu perdesse algum;
mas, morta minha mãe, morto meu pai, jamais
outro irmão meu viria ao mundo. Obedeci
a essas leis quando te honrei mais que a ninguém.
Creonte acha, porém, que errei, que fui rebelde,
irmão querido! Assim ele me leva agora,
cativa em suas mãos; um leito nupcial
jamais terei, nem ouvirei hinos de bodas,
nem sentirei as alegrias conjugais,
nem filhos amamentarei; hoje, sozinha,
sem um amigo, parto – ai! infeliz de mim! -
ainda viva para onde os mortos moram!
Que mandamentos transgredi das divindades?
De que me valerá – pobre de mim! – erguer
ainda os olhos para os deuses? Que aliado
ainda invocarei se, por ser piedosa,
acusam-me de impiedade? Se isso agrada
aos deuses me conformo, embora sofra muito,
com minha culpa, mas se os outros são culpados,
que provem penas pelo menos tão pesadas
quanto as que injustamente me impuseram hoje!

Eurípides nasceu em Salamina (ilha situada nas proximidades de Atenas) provavelmente em 485 a.C e morreu em 406 a.C. Escreveu no mínimo 74 peças, destas, 19 chegaram a nós. Medéia foi apresentada provavelmente em 431 a.C em Atenas. A peça gira entorno dos acontecimentos finais de um mito grego muito conhecido: Jasón e os Argonautas. Após o grande êxito na expedição do Argonautas, Jasón retorna a cidade de Iolco também com Medéia, filha do rei Aietes e neta do Sol, com quem se casaria. Após negar a Pelias (o usurpador da coroa de Iolco) o mesmo remédio da juventude que dera a Áison, pai de Jasón, e tê-lo dado uma poção que o mataria, o casal, Jáson e Medéia, foge para Corinto. Após dez anos de união perfeita, Jáson se apaixona por Glauce, filha de Creonte, e repudia Medéia para casar-se com ela. Resultado: Além da traição, Medéia é expulsa de Corinto junto com os filhos. Medéia resolve fazer de tudo para causar sofrimento em Jáson, e, com isso, mata seus filhos. Este é o solilóquio onde Medéia decide matar seus filhos:

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MEDÉIA
(MEDÉIA DE EURÍPIDES)

Dirigindo-se ao Corifeu

Agora vou contar-te todos os meus planos
(minhas palavras não serão para agradar).
Enviarei a Jáson um de seus criados
para pedir-lhe que venha encontrar-me aqui.
Quando chegar, falar-lhe-ei suavemente;
direi que suas decisões são acertadas
e concordo com elas; ele me abandona
para casar-se com a filha do rei; faz bem,
pois isso corresponde aos interesses dele.
Mas pedirei que deixe meus filhos aqui,
não que eu queira largá-los numa terra hostil
nem os expor à sanha de quem os odeia,
mas afim de aprontar para a filha do rei,
por intermédio deles, a armadilha atroz
em que ela morrerá levando o pai à morte.
Mandá-los-ei a ela com presentes meus
para a nova mulher, a fim de que ela evite
o exílio deles: um véu dos mais finos fios
e um diadema de ouro. Se ela receber
os ornamentos e com eles enfeitar-se,
perecerá em meio às dores mais cruéis
e quem mais a tocar há de morrer com ela,
tão forte é o veneno posto nos presentes.

com uma expressão de horror

Mas mudo aqui meu modo de falar, pois tremo
só de pensar em algo que farei depois;
devo matar minhas crianças e ninguém
pode livrá-los desse fim. E quando houver
aniquilado aqui os dois filhos de Jáson,
irei embora, fugirei, eu, assassina
de meus muitos queridos filhos, sob o peso
do mais cruel dos feitos. Não permitirei,
amigas, que riam de mim os inimigos!
Terá de ser assim. De que vale viver?
Já não existem pátria para mim, meu lar,
nenhum refúgio nesta minha desventura.
Fui insensata quando outrora abandonei
o lar paterno, seduzida pela fala
desse grego que, se me ajudarem os deuses,
me pagará justa reparação em breve.
Jamais voltará ele a ver vivos os filhos
que me fez conceber, e nunca terá outros
de sua nova esposa que – ah! miserável! -
deverá perecer indescritivelmente
graças aos meus venenos! Que ninguém me julgue
covarde, débil, indecisa, mas perceba
que pode haver diversidade no caráter:
terrível para os inimigos e benévola
para os amigos. Isso dá mais glória à vida.

O enredo de Ifigênia em Áulis faz parte do chamado Ciclo Troiano, e foi representada pela primeira vez após a morte de Eurípides, provavelmente, em 405 a.C. A peça se passa em frente a tenda de Agamêmnon, no acampamento dos gregos em Áulis. O exército está pronto para partir para Tróia, porém, imóvel diante uma calmaria. Calcas, o adivinho, profetiza que, para os gregos poderem partir, Ifigênia, uma das filhas de Agamêmnon, rei e comandante do exército, precisaria ser sacrificada à deusa Ártemis. O rei então envia uma mensagem à sua mulher, Clitemnestra, para trazer Áulis ao acampamento, sob o pretexto de casá-la com Aquiles. Segredo revelado, Clitemnestra e Ifigênia imploram em vão. Po sua vez, Ifigênia, declara que está disposta a morrer pela Grécia. Após ser levada para o sacrifício, o Mensageiro, conta que no momento da morte, Ifigênia desaparece milagrosamente, surgindo no lugar dela uma corça enviada por Ártemis. Este é o solilóquio onde Ifigênia decide morrer.

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IFIGENIA
(Ifigênia em Áulis de Eurípides)

fala a Aquiles e Clitemnestra

Ah! Minha mãe e tu! Agora vou falar.
Vejo-te, mãe, inutilmente revoltada
contra teu esposo insensível. Não é fácil
ser persistente contra um fato inelutável.
É justo que sejamos gratas a Aquiles
por seu esforço, mas é hora de pensar
que não devemos atrair acusações
do exército contra ti mesma sem vantagens
para nós duas; além disso ainda expomos
nosso aliado e defensor a infortúnios.
Escuta agora, minha mãe, o pensamento
que ora me ocorre ao refletir sobre estes fatos.
Tomei neste momento a decisão final
de me entregar à morte, mas o meu desejo
é enfrentá-la gloriosa e nobremente,
sem qualquer manifestação de covardia.
Pondera, então, comigo, minha mãe querida,
na fama que me há de trazer esta atitude.
A Grécia inteira, nossa generosa pátria,
dirige neste instante os olhos para mim;
dependem só de mim a viagem da frota
e a extinção de Tróia, e de mim depende
eliminar de vez a possibilidade
de os bárbaros tentarem novas agressões
contra as mulheres gregas e futuros raptos
em nossa terra amada, depois de expiarem
a vergonha de Helena levada por Páris.
O fruto de meu sacrifício será este:
propiciando uma vitória à nossa pátria
conquistarei para mim mesma eterna fama.
E mais ainda, não é justo que me apegue
demasiadamente à vida, minha mãe;
deste-me à luz um dia para toda a Grécia,
e não somente para ti. Pensa comigo:
muitos milhares de soldados protegidos
por seus escudos, outros, também numerosos,
empunhando seus remos, terão de arriscar-se
a lutar e morrer pela terra natal
porque ela foi insultada, e minha vida,
a existência de uma única mulher,
poderá ser um óbice a tanto heroísmo?
Isto seria justo? De que subterfúgios
nos valeríamos? Perguntarei ainda:
este guerreiro – Aquiles – terá de lutar
contra o exército dos gregos e arriscar-se
por uma só mulher – por mim -, pois a existência
de um homem só tem certamente mais valor
que a de muitas mulheres juntas?. E se Ártemis
quer receber meu corpo em santo sacrifício,
resistirei à deusa, eu, simples mortal?
De modo algum! Darei a minha vida à Grécia!
Matem-me para que desapareça Tróia!
Meu sacrifício me trará renome eterno
como se fosse minhas núpcias e meus filhos
e minha glória! Os gregos mandarão
nos bárbaros, e não os bárbaros nos gregos,
já que eles todos são de uma raça de escravos
enquanto nós nos orgulhamos de ser livres!

As Bacantes é um peça em louvor ao deus Dioniso. Foi uma das tragédias preferidas pelos espectadores gregos, tendo sido representada até o século IV a.C. A cena se passa diante o palácio de Tebas, onde Dioniso, disfarçado de profeta, traz sua religião para a Grécia. Sua intenção é punir Agave e Autônoe, irmãs de sua mãe Sêmele, por terem dito que esta se unira a um mortal, e não a Zeus, e eliminar o jovem Penteu, rei de Tebas e filho de Agave. As servas de Dioniso, As Bacantes, estão no alto do monte Citéron, para onde se dirigem o Coro de devotas frígias, Tirésias, o adivinho, e Cadmo, pai de Agave. Penteu os censura, As Bacantes fazem um apelo a Dioniso, que é prontamente acorrentado por ordem de Penteu. Dioniso se revolta, provoca incêndios e terremotos no palácio. Penteu fica enfurecido, mas encontra um pastor de bois, que lhe conta das celebrações das Bacantes no monte Citéron e o convence a se vestir de mulher e ir conferir os ritos. Penteu, já confuso, sobe o monte. Depois, um mensageiro conta como Penteu lá foi esquartejado e degolado por sua própria mãe Agave, todos inebriados. Esta é a fala do Coro quando Dioniso convence Penteu a se vestir de mulher e ir para a celebração.

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CORO
(AS BACANTES DE EURÍPIDES)

Vamos enfim juntar nosso pés nus
aos cortejos noturno de Dioniso,
lançando para trás nossas cabeças
no ar umedecido pelo orvalho,
como corças saltando satisfeitas
nos verdes prados depois escaparem
das redes escondidas nas veredas.
Mas de repente o caçador incita
com gritos a corrida de seus cães;
mais rápidas que as tempestades súbitas
elas saltam ao longo dos riachos
pelas campinas, procurando, aflitas,
bem longe dos homens desnaturados
a paz e a sombra da floresta escura.
Que é ciência, que é glória máxima,
presentes dos bons deuses, senão ter
nas mãos vitoriosas o inimigo?
O que é bom é sempre desejável.
Move-se lentamente a onipotência
das divindades, mas é infalível.
Elas dão o castigo às criaturas
condescendentes com a iniquidade
e cuja mente devotada ao mal
tira dos deuses justas homenagens.
Graças a mil ardis elas ignoram
o perpassar do tempo e implacáveis
seguem até o fim as suas presas.
Mas nada nós devemos conceber,
nada devemos praticar na vida,
que esteja acima das divinas leis.
Não é difícil realmente crer
na onipotência de um poder supremo,
seja qual for a verdadeira origem
das divindades que desde os primórdios
e ao longo dos tempos imemoráveis
têm a força de lei entre os mortais,
pois vem da natureza sua origem.
Que é ciência, que é glória máxima,
presentes dos bons deuses, senão ter
nas mãos vitoriosas o inimigo?
O que é bom é sempre desejável
Feliz é quem pode escapar à morte
em pleno mar e chega vivo ao porto!
Feliz é quem consegue superar
as provocações ao longo desta vida!
Alguns seres humanos vencem outros
em ventura e poder. São incontáveis
os míseros mortais, e incontáveis
as esperanças que eles acalentam.
Alguns chegam sem dúvida à riqueza,
mas para a maioria nada resta!
Consideramos bem-aventuradas
as criaturas que sabem gozar
toda a satisfação de cada dia!

Ésquilo é o mais antigo dos três grandes poetas trágicos gregos. Nasceu em Elêusis, em 525 a.C, combateu nas batalhas de Salamina e Maratona contra os invasores persas e morreu no ano de 456 a.C. Prometeu Acorrentado foi apresentada aproximadamente em 458 a.C. Trata do mito grego de Prometeu. Prometeu está acorrentado num rochedo da região da Cítia, vítima da ira de Hefesto (o deus do fogo). Prometeu havia se rebelado contra a vontade divina com o intuito de ajudar a humanidade primitiva. Prometeu se revolta diante do céu, do mar e da terra. Aparecem as Oceanides, ninfas do mar, para quem Prometeu revela que, por amor às criaturas humanas, deu-lhes o fogo por ele roubado no céu permitindo o início da civilização. Oceano chega, mas Prometeu se recusa a ser libertado. Aparece Io, a quem Prometeu revela uma profecia na qual um filho de Zeus o destronaria, seria Épafo. Hermes entra em cena no afã de saber mais sobre essa profecia. Por ter sido tratado desdenhosamente por Prometeu, Hermes anuncia que uma águia devoraria seu fígado todos os dias até que recompusesse. Ocorre um cataclismo e Prometeu desaparece junto com as Oceanides. Este é o solilóquio em que Prometeu revela seus bens feitos à humanidade.

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PROMETEU
(PROMETEU ACORRENTADO DE ÉSQUILO)

depois de longo silêncio

Não se deve conjeturar que meu silêncio
decorre da arrogância ou de maus sentimentos;
mas uma ideia me atravessa o coração
quando sou ultrajado de maneira ignóbil:
quem concedeu, então, a esses deuses novos
todos os privilégios recém-outorgados?
Calo-me quanto a isto, porém já sabeis
o que eu poderia dizer-vos novamente.
Falar-vos-ei agora das misérias todas
dos sofridos mortais e em que circunstâncias
fiz das crianças que eles eram seres lúcidos,
dotados de razão, capazes de pensar.
Farei o meu relato, não para humilhar
os seres indefesos chamados humanos,
mas para vos mostrar a bondade infinita
de que são testemunhas numerosas dádivas.
Em seus primórdios tinham olhos mas não escutavam,
e como imagens dessas que vemos em sonhos
viviam ao acaso em plena confusão.
Eles desconheciam as casas benfeitas
com tijolos endurecidos pelo sol,
e não tinham noção do uso da madeira;
como formigas ágeis levavam a vida
no fundo de cavernas onde a luz do sol
jamais chegava, e não faziam distinção
entre o inverno e a primavera
e o verão fértil; não usavam a razão
em circunstância alguma até há pouco tempo,
quando lhes ensinei a básica ciência
da elevação e do crepúsculo dos astros.
Depois chegou a vez da ciência dos números,
de todas a mais importante, que criei
para seu benefício, e continuando,
a da reunião das letras, a memória
de todos os conhecimentos nesta vida,
labor do qual decorrem as diversas artes.
Fui também o primeiro a subjugar um dia
as bestas dóceis aos arreios e aos senhores,
para livrar os homens dos trabalhos árduos;
em seguida atrelei aos carros os cavalos
submissos desde então às rédeas, ornamento
da opulência. Eu mesmo, e mais ninguém,
inventei os veículos de asas de pano
que permitem aos nautas percorrer os mares.
Eo infeliz autor de tantas descobertas
para os frágeis mortais não conhece um segredo
capaz de livrá-lo da desgraça presente!

Voltando a Sófocles. Electra foi apresentada pela primeira vez por volta de 413 a.C. Há uma duvida histórica com relação a qual Electra foi montada primeiro, a de Sófocles ou a de Eurípides. A peça é sobre vingança. Agamêmnon, rei do argivos, retorna de Tróia para Micenas, capital de seu reino, onde Clitemnestra, sua esposa, tomara-se de amores pelo usurpador Egisto, primo de Agamêmnon. O rei é morto por Clitemnestra com um “cutelo todo de bronze” com a ajuda de Egisto, sob o pretexto de que Agamêmnon matara uma de suas filhas, Ifigênia, antes de partir para Tróia. O casal tinha mais três filhas – Ifiânassa, Crisôtemis e Electra – e um filho, Orestes. Electra consegue salvar Orestes, ainda com dez anos, e o envia a Fócida. Orestes retorna, anos depois, e junto com Electra, vingam a morte do pai, matando sua mãe. Este é o solilóquio onde Electra combina a morte de sua mãe com o irmão, Orestes.

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ELECTRA
(ELECTRA DE SÓFOCLES)

Tudo se passará como mandaste, irmão,
o meu contentamento é teu, não me pertence;
nem o maior dos bens seria desejável
à custa do menor transtorno para ti;
não fosse assim, eu estaria sendo ingrata
aos deuses poderosos, nossos protetores.
Já sabes como vão as coisas por aqui?
Egisto se ausentou, mas volta ainda hoje,
e nossa mãe está lá dentro, mas não temas
que em hora alguma eu lhe apareça inalterado.
Apresentar-me-ei com lágrimas nos olhos
porque também se chora de alegria, Orestes.
Parece-te excessivo o meu contentamento?
Não devo estar alegre se num mesmo dia
primeiro regressaste morto e depois vivo?
Tanta perplexidade tudo isto causa
que eu eu visse voltar meu pai, ressuscitado,
não descreveria nem assim de meus sentidos;
a tua vinda não foi menos milagrosa.
Dispõe de mim; ordena e obedecerei.
Ainda que faltasses eu já decidira:
matá-los-ia, mesmo só, ou morreria!

A montagem de Ájax tem data incerta, mas é provavelmente anterior a 441a.C, quando foi encenada a Antígona. É a peça da vaidade ferida. Decorre em frente à tenda de Ájax, no acampamento dos gregos próximo a Tróia. Revoltado com a resolução dos chefes gregos de entregar as armas de Aquiles, recém-morto por Páris a Odisseu, preterindo-o, Ájax toma a decisão de matar Agamêmnon e Menelau seu irmão. Atena priva-o da razão e ele, enfurecido, mata os animais dos rebanhos conquistados pelos gregos pensando estar matando os dois. Recuperando a lucidez, Ájax percebe que está perdido e resolve se matar. Após isso, Teucro, seu meio-irmão, aparece e decide desobedecer às ordens de Menelau e de Agamêmnon de deixá-lo insepulto. Até que Odisseu aparece e os convence do contrário. Sófocles foi muito criticado por não ter acabado a peça logo após a morte de Ájax. Este é o famoso solilóquio de Ájax antes de se matar.

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ÁJAX
(ÁJAX DE SÓFOCLES)

Está firme a espada para o sacrifício,
pronta a varar meu corpo da melhor maneira,
se ainda posso demorar-me em falatórios.
Ela foi o presente de um anfitrião
abominado por minha alma e por meus olhos,
e agora está fixada no solo inimigo
de Tróia detestada, depois afiada
na pedra que desgasta o ferro, e bem plantada
com o maior desvelo para me trazer,
como um grande favor, a morte imediata.
Já estou pronto. Agora, Zeus, és o primeiro,
como convém, a quem devo implorar ajuda.
Não pretendo pedir-te um favor muito grande.
Concede-me somente a graça de mandar
um mensageiro a Teucro dando-lhe a notícia,
para que ele seja o primeiro a levantar
meu corpo traspassado pela espada férrea
molhada com meu sangue quente. Não desejo
que ele, encontrado antes meu inimigos,
seja pasto de cães e de aves carniceiras.
Eis tudo que espero de ti agora, Zeus.
Invoco depois dele Hermes Infernal,
guia dos mortos. Peço-lhe que me entorpeça
suavemente, e que num salto ao mesmo tempo
fácil e rápido eu consiga atravessar
a longa espada no meu corpo. Ainda invoco
as virgens inflexíveis, divinas Erínias
de calcanhares rápidos, que sempre observam
os males praticados pelos homens maus.
Fiquem elas sabendo como vou morrer
- pobre de mim! – por causa dos filhos de Atreu
e os faça perecerem miseravelmente
- ah, miseráveis! -; e da mesma forma que elas
verão meu próprio sangue derramado aqui,
eles pereçam sob os golpes de parentes
depois de derramarem por seu turno o sangue!
Avante, Erínias, vingadoras expeditas!
Participai deste banquete e não poupeis
nenhum dos súditos dos dois chefes argivos!
E tu, sol cintilante que guias teu carro
pelas alturas do insondável firmamento,
quando vires a terra de meus ancestrais
retrai as rédeas recobertas de ouro puro
para comunicar a minha desventura
e meu fim melancólico a meu velho pai
e a minha mãe – coitada! E quando a infeliz
receber a notícia, logo sairão
de sua boca soluços intermináveis
que repercutirão pela cidade inteira.
Mas, de que serve lamentar-me inutilmente?
Devo entregar-me por inteiro à minha obra,
e com máxima preteza! Ah! Morte! Ah! Morte!
Chegou a hora! Vem! Olha bem para mim!
No outro mundo ainda falarei contigo,
pois estarás perto de mim a todo instante.
Tu, ao contrário, claridade deste dia,
e tu, sol em teu carro! Desejo saudar-vos
pela última vez! Nunca mais vos verei!
Luz e solo sagrados da terra natal!
Ah! Salamina, que sempre serves de assento
à lareira da casa dos antepassados!
Atenas muito ilustre com teu povo irmão!
E vós, fontes e rios que meus olhos viram
nestas planícies troianas, agradeço-vos!
Adeus, vós todos que me haveis dessedentado!
Dirijo-vos as minhas últimas palavras.
A partir deste instante falarei apenas
com os habitantes das profundezas do inferno!

De modo geral, as tragédias conservadas têm um final infeliz. Não é o caso de Alceste, de Eurípides. A tragédia se aproxima dos dramas satíricos, e fora apresentada num tetralogia após três tragédias propriamente ditas. A peça transcorre diante do palácio de Ádmeto, rei da Tessália. O deus Apolo conta como conseguiu convencer as Parcas a permitirem que Ádmeto se livrasse da morte desde que alguém fosse sacrificado em seu lugar. O velhos pais do rei se recusaram a salvar o filho, somente sua mulher, Alceste, prontificou-se para tal. Apolo suplica, em vão, à Morte (Thânatos) pela vida da rainha. Após despedir-se dos cidadãos, Alceste está pronta para morrer, quando aparece o deus Heraclés, a quem Ádmeto pede que seja seu hóspede, sem dizer nada sobre o que haverá. Após impedir seu próprio filho, Feres, de tentar salvar sua mãe, Ádmeto revela a Heraclés o que está acontecendo. Um pouco mais sóbrio que antes, Heraclés decide salvar a rainha. Entra no castelo e sai com uma mulher nos braços, dizendo ter sido conquistada por ele como prêmio numa competição atlética, era Alceste coberta por um véu. Alceste não morre e tudo fica bem. Este é belo e divertido solilóquio do deus Heraclés, após as reclamação de um servo por estar bebendo e comendo muito.

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HERACLÉS
(ALCESTE DE EURÍPIDES)

fala ao servo

Que significa, servo, o teu olhar tristonho
e inquieto? Os serviçais devem cuidar
de não mostrar o rosto contrafeito aos hóspedes;
cumpre-lhe recebê-los em qualquer hipótese
com o coração afável. Tu, que vês aqui
um doa amigos de teu rei, estás expondo-lhe
as feições contraídas, a testa enrugada:
por que observas este luto rigoroso?
Vem até mim; vou ensinar-te a ser sensato.
Conheces bem a natureza dos mortais?
Não creio; onde saberias? Então ouve-me.
Sem excessão, todos morreremos um dia,
e nenhum de nós sabe se amanhã bem cedo
estará vivo. Ninguém é capaz de ver
para onde nos levam os passos da sorte;
não há maneira alguma, servo, de sabermos,
e nenhuma ciência jamais nos dirá.
Já que é assim, esclarecido finalmente
por minha boca, vê se te manténs alegre;
ciente de que só és dono incontestável
do momento presente e o resto é do destino,
bebe! Cultua a divindade que é sem dúvida
a maior fonte de prazer para os mortais
- Cípris, a bela deusa que só nos quer bem.
Deixa de lado todos os outros cuidados
e crê nestas palavras se as achaste certas
(suponho que elas são). Não estás decidido
a expulsar de ti essa tristeza toda
para beber comigo, demonstrando assim
que és superior a quaisquer contratempos?
Vamos! Adorna de guirlandas a cabeça!
Tenho certeza de que o bailado das taças
afastará de ti esta disposição
tensa e desagradável e a compelirá
a procurar abrigo em outro ancoradouro.
Somos todos mortais e nossa obrigação
é ter apenas sentimentos de mortais,
já que as pessoas de temperamento amargo,
embora sejam muitas, só vivem catástrofes,
com o cenho permanentemente contraído,
em vez de viverem de fato suas vidas.

Fechando o ciclo de tragédias gregas. Eurípides foi chamado por Aristóteles como “o mais trágico dos trágicos”. Considerada por alguns como a mais dolorosa, foi representada provavelmente em 423 a.C, em Atenas. Após a queda de Tróia, as troianas foram entregues como escravas. Os gregos ansiavam partir de volta, mas havia uma grande calmaria que deixava as naus retidas. O fantasma de Aquiles surge e diz que Polixena, filha de Príamo e Hécuba, rei e rainha de Tróia, fosse sacrificada para que houvesse vento. Hécuba suplica, em vão, e Polixena segue para a morte. Enquanto Hécuba cuidava de um dos funerais, o cadáver de seu filho mais novo, Polidoro, é levado até ela. O jovem havia sido morto por Pólimestor, rei do Quersoneso Trácio, com o intuito de apoderar-se dos tesouros e jogou o cadáver ao mar. Hécuba revolta-se e apela a Agamêmnon por vingança, que reluta. Hécuba então vinga-se com a próprias mãos. Atrai Poliméstor e seus filhos para um tenda onde ela e suas companheiras matam o filhos e cegam Poliméstor. Este é o solilóquio de Hécuba após ter se vingado. Fala a Agamêmnon.

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HÉCUBA
(HÉCUBA DE EURÍPIDES)

Entre as criaturas humanas, Agamêmnon,
as palavras jamais devem prevalecer
sobre as ações. Quando se age retamente,
deve-se falar bem, e quando alguém faz mal,
suas palavras nos parecem vãs e ocas.
Nunca, jamais a injustiça possa ter
uma linguagem agradável aos ouvidos!
Os inventores de discursos refinados
são realmente hábeis, mas não podem ter
invariavelmente a mesma habilidade;
seu fim é inditoso e ninguém até hoje
se livrou dele. Quanto a ti, eis meu preâmbulo.

apontando para Poliméstor

Agora quero responder a este homem.
Afirmas que mataste meu querido filho
para poupar os gregos de uma dupla pena
e para prestar um serviço a Agamêmnon.
Devo dizer de início que jamais os bárbaros
serão amigos dos aqueus – muito ao contrário.
Qual o motivo de teu zelo, Poliméstor?
Seria o desejo de algum casamento?
Seriam os laços de sangue ou, porventura,
outras razões? Iriam eles devastar
as terras cultivadas de teu território
antes de retornar ao mar com suas naus?
Pensas que alguém aceitaria tais desculpas?
Se quisesse dizer apenas a verdade,
o ouro e tua cupidez foram as causas
da morte de meu filho. Dize-me, afinal:
quando existia Tróia e sua muralhas
ainda a protegiam, quando o velho Príamo
inda vivia e as armas de Heitor brilhavam,
por que, então – se querias ser agradável
a Agamêmnon – não mataste meu menino
deixado a teus cuidados e sod o teu teto,
ou por que não o entregaste vivo aos gregos?
Mas não! Foi só após deixarmos de existir,
depois do anúncio de que Tróia estava em chamas
aniquilada pelos nosso inimigos
que assassinaste o hóspede em teu próprio lar!
E isto não é tudo. Escuta, celerado,
na hora de mostrar teu péssimo caráter:
se eras realmente amigo dos aqueus,
estavas obrigado, quanto a este ouro
que pertencia a Polidoro e não a ti
de acordo com a tua própria confissão,
a entregá-lo aos gregos, tão necessitados
e há tanto tempo afastados de sua pátria.
Mas, mesmo neste instante falta-te coragem
para afastar as tuas mãos do ouro alheio
e insistes em guardá-lo ainda no palácio.
De fato, é no infortúnio que se vê melhor
a amizade das pessoas generosas;
quando somos felizes não faltam amigos.
Se meu filho vivesse e fosse venturoso,
e se passasses por alguma provação,
ele te ajudaria com o seu tesouro.
Agora, que teu crime te privou do amigo,
o ouro não te ajudará de forma alguma;
teus filhos foram-se e tu mesmo estás assim.

voltando-se para Agamêmnon

Digo-te, rei: se resolveres apoiá-lo,
serás considerado um homem de má índole;
terás favorecido um homem sem caráter,
impiedoso, infiel a seus deveres
de anfitrião, indiferente às divindades
a à justiça humana. Até pensaremos
que dás valor aos maus por seres como eles.
Mas não pretendo injuriar-te, meu senhor.

Lúcio Aneu Sêneca nasceu em Córdova, atual Espanha, no ano 4 a.C. Sua vida estendeu-se ao longo dos principados de Augusto, Tibério, Calígula, Cláudio e Nero. Anos após ter sido exilado por Cláudio, envolveu-se com opositores ao regime e, condenado por Nero, suicidou-se, em Roma, no dia 19 de abril de 65 d.C. O escasso teatro romano o tem como um dos grandes trágicos. Fedra enfoca o mito de uma filha de Minos e Pasífae, casada com Teseu, herói da Ática que venceu Minotauro e libertou Atenas do tributo anual devido a Creta. Teseu é dado como desaparecido e, Fedra, se apaixona por Hipólito, seu enteado. O rapaz, que havia dedicado sua vida e jurado castidade à Diana, recusa as propostas da madrasta. Ela, furiosa, acusa-o de tê-la violado. Teseu, de volta à cidade, pede a Posêidon que mate o filho quando ele, após uma queda com sua biga, é pisoteado pelo cavalos. Este é o solilóquio onde Fedra se mata ao ver o corpo de Hipólito completamente despedaçado.

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FEDRA
(FEDRA DE Sêneca)

De mim, de mim te apodera, cruel senhor do profundo
pélago, e contra mim lança os monstros do mar cerúleo,
o que quer que a longínqua Tétis no imo seio traga,
o que quer que, abraçado pelas vagas errantes,
o Oceano recubra com as suas mais remotas ondas.
Ó Teseu, severo sempre, ó tu que nunca volta aos teus
sem receio: filho e pai com a morte expiaram os teus
retornos; a tua casa pervertes, sempre nocivo
às esposas, por amor ou por ódio.
Hipólito, teu rosto é esse que vejo, e causei isso?
Que cruel Sínis ou que Procrustes te espedaçou os
membros, ou que criatura de Creta, enchendo os claustros
de Dédalo com fortes mugidos, Touro biforme, feroz,
de fronte cornígera, te dilacerou?
Ai de mim, para onde fugiu a tua beleza e os teus olhos,
nossas estrelas? Tu jazes sem vida?
Aproxima-te um instante e ouve as minhas palavras:
nada de torpe falamos: com esta mão pagarei a ti
as minhas dívidas e cravarei neste peito nefando a espada,
despojarei Fedra igualmente da vida e do crime, e pelas
ondas e pelos lagos do Tártaro, pelo Estige e pelos rios
de fogo, insana, seguir-te-ei.
Aplaquemos os manes: da minha cabeça toma os despojos
e aceita a madeixa que corto da fronte mutilada.
Não se puderam unir os corações, mas decerto podem
unir-se os destinos. Se és casta, morre pelo marido;
se incestuosa, pelo amor. Buscarei o leito do cônjuge,
manchado por tamanho crime? Faltava-te este sacrilégio,
para que, como se pura, fruísses do tálamo reclamado.
Ó morte, único alívio do amor malévolo,
ó morte, máxima honra do pudor ferido, recorremos a ti.
Abre o teu seio sereno.
Ouve, Atenas, e tu, um pai pior do que a funesta madrasta:
falsas coisas relatei e, mentindo, forjei o sacrilégio que eu mesma,
demente, concebera no coração insano. Puniste em vão, pai,
e o jovem casto, por uma acusação incestuosa, jaz, puro,
inocente: recebe de volta os teus costumes.
Meu peito ímpio se abre à lâmina justa, e o meu sangue
cumpre o sacrifício do homem virtuoso.
O que devas fazer, pai, tendo um filho arrebatado, aprende-o
com a madrasta: sepulta-te nas plagas do Aqueronte.

Teatro Elizabetano. Christopher Marlowe nasceu provavelmente em 1564 e morreu prematuramente em uma briga de taverna em 1593. Foi contemporâneo de Shakespeare, tendo conseguido reconhecimento antes dele. Consta que introduziu o verso branco (com métrica, sem rimas) na linguagem teatral. A Trágica História do Doutor Fausto é uma de suas obras mais conhecidas e influenciou a muitos posteriormente (Goethe, por exemplo). Foi escrita provavelmente em 1580, e publicada postumamente. Trata-se da história do estudioso alemão Fausto, que vende sua alma para o demônio, representado na figura de Mefistófeles, em troca de mais conhecimento, poder e extravasar os limites humanos. Uma curiosidade da peça: Além de Mefistófeles, há também Lúcifer e Belzebu. Este é o famoso solilóquio de Fausto, momentos antes de levado para o inferno pelos demônios.

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FAUSTO
(A TRÁGICA HISTÓRIA DO DOUTOR FAUSTO DE CHRISTOPHER MARLOWE)

Ah, Fausto, você tem menos de uma hora de vida agora, e, depois, será
a condenação eterna. Ah, esferas celestes em eterno movimento, detenham-se!
Que o tempo cesse de correr e a meia-noite jamais chegue. Olhos brilhantes da
natureza, ergam-se! Ergam-se novamente e façam de hoje um dia perpétuo.
Ou permitam que esta hora seja um ano, um mês, uma semana, um dia.
Que Fausto possa ainda se arrepender e salvar a sua alma.
Oh, cavalos da noite, diminuam sua marcha, vão devagar!
Mas as estrelas continuam se movendo, o tempo corre, o relógio logo baterá
outra vez, o demônio chegará… e Fausto está condenado. Mas não, vou me
atirar nos braços de Deus! Quem está me retendo? Vejam, vejam, se o sangue
de Cristo fosse um filete percorrendo o firmamento, bastaria uma gota dele para
me salvar. Oh, meu Jesus! Ah! Não rasgue meu coração por mencionar o nome
de meu Salvador! E mesmo assim chamarei por Ele. Ó Lúcifer, me poupe!
Onde ele está, agora? Desapareceu! E veja o ponto onde Deus me estende Seu
braço, me apontando, e franze Seu cenho, irado. Montanhas, colinas, venham,
caiam sobre mim e me ocultem da pesada fúria de Deus. Não? Não? Então, eu
me precipitarei nas entranhas da terra. Terra, abra-se! Ah, não, a terra não vai me
dar abrigo. Vocês, estrelas, que reinaram sobre o meu nascimento, cuja influência
determinou a morte e o inferno, agora envolvam Fausto numa névoa mística, nas
reentrâncias de nuvens de magníficas tempestades, de modo que, quando
vomitarem sua raiva no ar, meus membros possam ser projetados de suas bocas
fumarentas e minha alma, então, possa ascender aos céus. [Bate o relógio]
Ah, passou-se meia hora. Logo tudo estará terminado! Oh, Deus, onde está a Vossa
misericórdia? Não é ela infinita? Então, se não é Seu desejo ter piedade de minha alma,
ainda assim, em nome de Cristo, cujo sangue resgatou meus pecados, pelo menos
imponha um fim ao meu tormento infernal. Que Fausto padeça por mil anos, por cem
mil anos, para, a seguir, ser salvo. Ah, não! Não há um fim para os tormentos de uma
alma condenada. Ah, por que não sou uma criatura sem alma? Que imortalidade é essa
que me foi dada? Se a Metempsicose de Pitágoras fosse verdadeira, essa alma sairia
de mim, voaria para o ar e se transformaria em alguma besta brutal. Todas as bestas
são felizes porque, quando morrem, suas almas se dissolvem entre os elementos,
mas a minha deve viver para sempre, sofrendo, no inferno. Malditos sejam os pais
que me geraram! Não, Fausto, amaldiçoe a você mesmo. Amaldiçoe Lúcifer, que
o privou das alegrias do Paraíso. [O relógio bate meia-noite] Ah, o relógio bateu.
Agora, corpo, torne-se ar, ou Lúcifer, depressa, o arrebatará para o inferno.
[Relâmpagos, trovões] Ó alma, torne-se pequenas gotas de água e derrame-se
no oceano para jamais ser encontrada! Meu Deus! Meu Deus! Não olhe para mim
com essa raiva toda! [Entram Belzebu, Mefistófeles e outros demônios] Víboras,
serpentes, deixem-me respirar por mais um instante! Tenebroso inferno, não se abra!
Não venha, Lúcifer! Vou queimar meus livros, todos eles, prometo! Mefistófeles!

William Shakespeare nasceu em Stratford-upon-Avon em 23 de abril de 1564 e morreu no mesmo lugar em 23 de abril de 1616. Percorreremos em pouco mais de duas semanas alguns célebres solilóquios de suas peças com a difícil tarefa de resumi-las em poucas linhas. Romeu e Julieta, se não a mais montada, é, com certeza, a peça mais amada da história. O primeiro registro do texto é de 1597, de um ou dois autores que o tinham reconstituído de memória. O definitivo aparece em 1599 já com as características do nosso querido bardo. A peça se passa e Verona, onde, duas famílias, Capuletos e Montéquios sustentam um ódio mútuo. Há uma festa na casa dos Capuletos, onde, Romeu Montéquio, seu primo Benvólio e seu amigo Mercúcio, parente do príncipe de Verona, invadem para se divertir. Lá, Romeu se apaixona por Julieta Capuleto, sem saber de sua estirpe. Se casam escondidos. A paixão ganha proporções trágicas quando Teobaldo acidentalmente mata Mercúcio numa briga e depois é morto por Romeu. Romeu é banido da cidade. Para que fiquem juntos, Frei Lourenço, sugere que Julieta beba uma poção que a deixará como morta por dois dias e, assim, fugirem juntos. Porém, Romeu recebe a notícia que Julieta morrera. Desesperado, vai ao cemitério e se mata bebendo veneno nos braços da amada. Julieta, ao acordar, também se mata com um punhal. Este é o famoso soliloquio do riquíssimo personagem Mercúcio, antes de invadirem a festa na casa dos Capuletos. Mais amanhã.

MERCÚCIO
(ROMEU E JULIETA DE WILLIAM SHAKESPEARE)

Sonhei que Mab, a rainha, o visitou.
É a parteira das fadas e ela vinha
Como uma ágata pequenininha
No dedo indicador de um conselheiro.
Puxada por um par de vermezinhos
A correr no nariz do adormecido.
Uma casca de noz é sua carruagem,
Feita por um esquilo carpinteiro;
Que sempre foi das fadas carreteiro.
As varas são perninhas de uma aranha,
Asas de gafanhoto sua cobertura;
As rédeas vêm de teias pequeninas,
E a canga, de résteas de luar.
O seu chicote é um ossinho de grilo,
Seu cocheiro, uma mosca varejeira cinza
Que não é nem metade de uma larva
Que uma donzela tira do dedinho;
Assim cavalga ela pela noite
E, atravessando o cérebro do amante,
Faz nascerem ali sonhos de amor;
Nos joelhos dos nobres, cortesias,
No dedo do advogado, grandes ganhos;
Os lábios das donzelas sonham beijos,
Mas Mab, zangada, faz nascerem bolhas
Nos que encontra borrados por bombons.
Se pesa no nariz de um cortesão,
Ela sonha com o cheiro de favores;
Às vezes passa o rabo de um leitão
Pelo nariz de um cura adormecido,
E o faz sonhar com mais uma prebenda.
Se passa no pescoço de um soldado,
Seu sonho é com a degola do inimigo,
Ou com assaltos, aço e emboscadas,
Ou mares de bebida; e, logo após,
Toca o tambor no ouvido, ele desperta
Assustado, e, depois de uma oração ou duas,
Dorme de novo. É essa aquela Mab
Que embaraça a crina dos cavalos
E assa as carapinhas dos capetas
Que, penteadas, trazem grandes males.
É essa a velha que, se uma donzela
Adormece de costas, deita em cima
E a ensina a arcar com um peso vivo,
Pra aprender a pesar com outras cargas.
É ela…

Após terem se apaixonado na festa da casa dos Capuletos, já sabendo que ambos eram de famílias rivais, Romeu segue sua volúpia, sua flamejante libido recém desperta por Julieta e pula os muros de seu pomar após a festa. É a famosa cena do balcão. Romeu a observa, balbucia sua paixão sem chamar atenção. Está escondido. Quando ouve Julieta, com os braços abertos dizer: Romeu, Romeu, por que há de ser Romeu, negue seu pai, renuncie esse nome; Ou se não quiser, jure só que me ama e eu não serei mais dos Capuletos. Romeu não aguenta mais e aparece. Julieta se apavora. Eles se veem. Há de novo a flama. Após algumas belas palavras de Romeu, Julieta, se abre.

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JULIETA
(ROMEU E JULIETA DE WILLIAM SHAKESPEARE)
tradução de Bárbara Heliodora

O meu rosto usa máscara da noite,
Mas, de outro modo eu enrubesceria
Por tudo que foi dito até aqui.
Queria ser correta e renegar
Tudo o que eu disse. Mas adeus, pudores!
Me amas? Sei que vais dizer que sim,
E aceito tua palavra. Se jurar,
Pode ser falso. E dizem que Zeus ri
Dos perjúrios do amor. Doce Romeu,
Se me amas, mesmo, afirme-o com fé.
Mas, se pensar que eu fui fácil demais,
Serei severa e má, e direi não,
Pra que me implore; de outra forma, nunca.
Na verdade, Montéquio, ouso demais,
E posso parecer-lhe leviana;
Mas garanto, senhor, ser mais fiel
Que as que, por arte, fazem-se de difíceis.
Eu seria difícil, devo confessar,
Se não ouvisse, sem que eu soubesse,
Minha grande paixão; então perdoe-me
E não julgue o amor que, cedo,
O peso desta noite revelou.

Quando Romeu encontra o corpo de Julieta, morta, decide que ali também será o fim de sua vida. Não sabia que Julieta havia tomado uma poção que a deixaria como morta por dois dias. Julieta a tomara para fugir do casamento com Páris, pois, morta, poderia fugir com Romeu. Romeu não foi avisado do plano a tempo e se mata tomando veneno. Julieta, ao acordar, vê seu amado morto. Não aguenta a dor e se mata com um punhal. Este é o solilóquio de Romeu antes de se matar.

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ROMEU
(ROMEU E JULIETA DE WILLIAM SHAKESPEARE)

Assim farei; deixe-me ver seu rosto.
O primo de Mercúcio, o nobre Páris.
O que disse o pajem quando minh’alma tonta,
Não lhe dava atenção? Creio ter dito
Que Páris ia casar com Julieta.
Não disse isso? Ou será que sonhei?
Ou fiquei louco, ao falar de Julieta,
E pensei que foi isso? Dê-me a mão,
Inscrita como a minha no infortúnio.
Hei de enterrá-lo em cova triunfal.
Cova? Não; junto a um esplendor de luz,
Pois jaz aqui Julieta; e sua beleza
Faz desta tumba festa luminosa.
Morte, deita-te aí, junto a esse morto.
Quantas vezes, logo antes de morrer,
Um homem fica alegre? É o que chamam
De fagulha mortal. E será isto
Tal fagulha? Meu amor, minha esposa,
A morte, que sugou-lhe o mel dos lábios,
Inda não conquistou sua beleza.
Não triunfou. A flâmula do belo
É rubra em seus lábios e seu rosto,
E o estandarte pálido da morte inda não tremula.
Teobaldo, ‘stás aí, banhado em sangue?
Que honraria mais posso eu prestar-te,
Que, co’a mão que ceifou-te a juventude,
Cortar a de quem foi te inimigo?
Primo, perdão. Querida Julieta,
Por que tão bela ainda? Devo crer
Que a morte etérea está apaixonada,
E que o esquelético monstro a prende aqui
Pra, neste escuro, ser a sua amada?
Só por medo que sim ficarei contigo
E jamais do negror deste palácio
Hei de partir. Aqui permanecerei
Com os vermes, seus criados. Aqui mesmo
Eu hei de repousar por todo o sempre,
E libertar da maldição dos astros
A carne exausta. Olhos, um olhar.
Braços, o último abraço! E vós, oh lábios,
Portal do alento, solene com este beijo
Pacto eterno com a Morte insaciável.
Vem, meu caminho amargo, insosso guia.
Piloto insano atira neste instante
Contra as rochas a barca desgastada.
Ao meu amor! (bebe) Honesto boticário,
Rápida é a droga. E assim, com um beijo, eu morro.

Datado provavelmente de 1601, chegou nas mãos de Shakespeare após ter passada pela mão de vários autores. Conta a história de Hamlet, príncipe da Dinamarca, que recebe a visita do fantasma do pai, recém morto, que revela seu assassino, Cláudio, seu irmão, tio de Hamlet. O jovem jura vingar-se, mas tem dúvidas quanto a isso. Não sabe se o fantasma está correto. No processo de investigação, Hamlet, finge estar louco para não levantar suspeitas. Hamlet corteja Ofélia, mas Polônio, pai de Ofélia, tanto quanto seu filho Laertes não crêem no interesse, acham que Hamlet está louco. Hamlet prepara uma peça de teatro dentro do castelo com o objetivo de desmascarar o tio. Dá certo, e Hamlet é banido por seu tio, sob um pretexto qualquer, para, na verdade, ser assassinado. Logo depois, Hamlet mata Polônio, sem querer. Ofélia enlouquece, morre. Hamlet escapa da morte e regressa. Num duelo de armas brancas com Horácio, Hamlet não bebe o veneno dado pelo rei, o que faz a rainha “à sua sorte”. A rainha morre, Hamlet envenena o tio à força. Laertes também morre, revelando a infâmia do rei. Hamlet, que havia sido ferido com a espada envenenada, também morre. Este é o famoso solilóquio do ato III.

HAMLET
(Hamlet de William Shakespeare)
tradução: Bárbara Heliodora

Ser ou não ser, essa é que é a questão:
Será mais nobre suportar na mente
As flechadas da trágica fortuna,
Ou tomar armas contra um mar de escolhos
E, enfrentando-os, vencer? Morrer – dormir,
Nada mais; e dizer que pelo sono
Findam-se as dores, como os mil abalos
Inerentes à carne – é a conclusão
Que devemos buscar. Morrer – dormir;
Dormir, talvez sonhar – eis o problema:
Pois os sonhos que vierem nesse sono
De morte, uma vez livres deste invólucro
Mortal, fazem cismar. Esse é o motivo
Que prolonga a desdita desta vida.
Quem suportara os golpes do destino,
Os erros do opressor, o escárnio alheio,
A ingratidão no amor, a lei tardia,
O orgulho dos que mandam, o desprezo
Que a paciência atura dos indignos,
Quando podia procurar repouso
Na ponta de um punhal? Quem carregara
Suando o fardo da pesada vida
Se o medo do que vem depois da morte -
O país ignorado de onde nunca
Ninguém voltou – não nos turbasse a mente
E nos fizesse arcar co’o mal que temos
Em vez de voar para esse, que ignoramos?
Assim nossa consciência se acovarda,
E o instinto que inspira as decisões
Desmaia no indeciso pensamento,
E as empresas supremas e oportunas
Desviam-se do fio da corrente
E não são mais ação. Silêncio agora!
A bela Ofélia! Ninfa, em tuas preces
Recorda os meus pecados.

Considerada por muitos como “a mais sanguinária das tragédias de Shakespeare”, Macbeth, foi concluída e apresentada, provavelmente, em 1606, porém, o texto, conta com um primeiro registro de 1623. Trata-se do caminho de Macbeth e sua mulher, Lady Macbeth, até o trono, acreditando encontrar a felicidade em tal posto. Macbeth assassina Duncan, Rei da Escócia, e inicia alí sua busca ao poder. Sempre se questionando e muito atormentado, Macbeth executa outros assassinatos, também pensando estar fazendo a coisa certa para justificar seus atos. Macbeth se consulta o todo tempo com as três bruxas que, num dado momento de crise, lhe revelam que “ninguém que tenha nascido de uma mulher fará mal a Macbeth”, e que ele “jamais será vencido até que a Grande Floresta de Birnam vá até as alturas do Monte Dusinane”. Todas as profecias se concretizam e Macbeth, apesar de ter conseguido chegar ao trono, morre pelas mãos de Macduff, um dos generais do exército do rei. Este é o famoso solilóquio de Macbeth, após saber que sua mulher morrera e pouco antes de saber que a floresta se aproximava, era o exército do rei camuflado com ramos e galhos.

MACBETH
(MACBETH DE WILLIAM SHAKESPEARE)
tradução Bárbara Heliodora

Ela só devia morrer mais tarde;
Haveria um momento para isso.
Amanhã, e amanhã, e ainda amanhã
Arrastam nesse passo o dia-a-dia
Até o fim do tempo pré-notado.
E todo ontem conduziu os tolos
À via em pó da morte. Apaga, vela!
A vida é só uma sombra: um mau ator
Que grita e se debate pelo palco,
Depois é esquecido; é uma história
Que conta o idiota, toda som e fúria,
Sem querer dizer nada.

(entra o Mensageiro)
Não tens língua? Depressa, a história.

Ricardo III é um drama histórico baseado na história verdadeira do Rei Ricardo III da Inglaterra. Sob o pretexto de que a situação na Inglaterra já fora melhor e de que tem direito ao trono, Ricardo, homem coxo e feio, se diz empurrado ao mal. Usando sempre a dissimulação e aos outros para chegar ao poder, Ricardo, primeiramente, elimina os sucessores ao trono para quando o rei morrer. Depois de ter matado o rei e seu filho, trata de seduzir Lady Anne, esposa de Príncipe Eduardo, recém morto. Mata seus filhos. Chega ao trono com ajuda de Buckingham, depois, não cumpre sua promessa de lhe conceder terras. Ricardo chega ao poder, mas logo tem que lutar por ele contra Richmond. Na batalha final, Ricardo diz seu famoso “My Kingdom for a horse” e morre pelas mãos de Richmond. Este é o solilóquio que Ricardo diz logo após ter tido um sonho terrível, sua morte não tardaria a chegar.

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RICARDO
(RICARDO III DE WILLIAM SHAKESPEARE)
tradução de Carlos A Nunes

Dai-me outro cavalo! Ligai minhas feridas!
Tende piedade, Jesus! Chiu, tão-só sonhava.
Ó covarde consciência, como me atormentas!
As luzes ardem azuis, é a meia noite dos mortos.
Gotas frias de terror são no meu corpo tremente.
De que me receio? De mim próprio?
Não é mais ninguém aqui. Ricardo ama Ricardo,
ou seja, eu e eu. E aqui um assassino? Não!
Sim, sou eu! Então fuge. Quê, de mim próprio?
Boa razão há, não me vá eu vingar!
Quê, eu próprio contra mim próprio?
Coitado de mim, eu amo-me a mim próprio. Porquê?
Pelos bens que eu próprio a mim próprio ofereci?
Oh, não, pobre coitado, antes a mim próprio tenho
ódio por feitos odiosos que eu próprio cometi.
Sou ruim vilão… mas minto, eu o não sou!
Sandeu, diz bem de ti próprio! Sandeu, não uses de lisonja!
Minha consciência tem milhares de línguas diferentes
e cada língua me diz um conto diferente, e cada conto
me condena como ruim vilão: perjúrio, perjúrio, no mais subido grau;
assassínio, assassínio horrendo, no mais horrífico grau.
Todos os pecados diferentes, todos cometidos
em cada grau, se ajuntam diante o juiz todos bradando:
“Culpado, culpado!” Em desespero cairei.
Não há criatura que me ame, e se eu morrer,
ninguém me lamentará…
E porque o fariam, se eu próprio em mim
próprio por mim próprio não encontro dó?
Cuido que as almas de todos os que assassinei vieram
a minha tenda, e cada qual me ameaçou que amanhã
a vingança tombaria sobre a cabeça de Ricardo.

Considerada por muitos como a obra-prima definitiva do bardo, Rei Lear, foi escrita provavelmente em 1605, ou no início de 1606. No século XII, Geoffrey of Monmouth contou a história de Lear como sendo parte da história da Inglaterra, porém, Lyr ou Ler já era uma figura presente na lenda, mesmo que não muito definida. Lear foi reescrito algumas vezes até chegar em Shakespeare, que usou todos os textos como base. A grosso modo: Lear quer dividir seu reino entre as filhas. Cordélia, uma delas, o contraria, por não querer provar seu amor como havia pedido o rei. Lear, não compreende o amor da filha e a expulsa da Inglaterra e entregue ao Rei da França. Começa aí o calvário de Lear, que se arrepende, e volta-se contra sua filha Goneril, que se une a sua irmã, Regan, contra o pai. Lear é expulso, enlouquece, enquanto Edmundo, filho bastardo do conde Glócester, seduz Goneril e Regan e torna-se o comandante das forças inglesas. Resultado: Goneril envenena Regan por ciúmes e se mata; Glócester morre de desgosto; Cordélia é enforcada e Lear morre tentanto reavivar a filha. Este é o solilóquio onde Lear percebe sua loucura ouvindo as bajulações de Regan e Goneril.

LEAR
(REI LEAR DE WILLIAM SHAKESPEARE)
tradução de Bárbara Heliodora

Não pensem no que é preciso! até os mendigos
Têm na sua miséria algo supérfulo.
Só dando à natureza o necessário,
A vida humana se iguala à das feras.
A natureza não precisa do luxo
Que te esquenta.Mas quando ao que preciso…
Oh céus, dai-me paciência; é o que preciso!
Deuses, aqui ‘stou eu, um pobre velho
Infeliz pela dor e pela idade!
Se colocastes os corações de tais filhas
Contra o seu pai, não me deixeis qual tolo
Suportá-lo; dotai-me de ira nobre,
E não deixeis que armas femininas
Me molhem as faces! Bruxas anormais,
Hei de vibrar nas duas tais vinganças
Que o mundo inteiro… Eu farei coisas,
Não sei o que serão, mas hão de ser
O horror da terra. Esperais que eu chore?
Não não pra isso,
(Ouve-se a tempestade ao longe)
mas o peito
Há de romper-se em cem mil estilhaços
Antes que eu chore. Bobo, eu enlouqueço!

Fechando a série com Shakespeare, Henrique V é uma de suas peças históricas mais conhecidas. Encenada pela primeira vez em 1599, a ação centra-se nas batalhas de Harfleur e de Azincourt num dos conflitos que compõem a Guerra dos Cem Anos (1337-1453) e trata de um dos personagens mais importantes da história da Inglaterra, o monarca Henrique V, que governou de 1413 a 1422, pacificando a Inglaterra e consolidando a monarquia. É um texto essencialmente nacionalista onde, a todo momento, o Rei agradece aos céus pelos triunfos. Este é o famoso discurso de Henrique V no Dia de São Crispino antes da batalha de Azincourt em pleno campo de batalha.

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HENRIQUE
(HENRIQUE V DE WILLIAM SHAKESPEARE)
tradução de Beatriz Viégas-Faria

Quem é este que deseja tal coisa? Meu primo
Westmorland. Não, meu iluminado primo. Se estamos
marcados para morrer, somos perda suficiente para o
nosso país. Se marcados para viver, quanto menos homens,
maior fração de glória competirá cada um. Pelo amor de Deus,
eu lhe peço, não deseje nem um único homem a mais.
Por Júpiter, não tenho ganância de ouro, nem me importa
quantos comem às minhas custas. Não me entristece ver
outro homem vestindo meus trajes. Essas coisas exteriores
não habitam os meus desejos. Mas, se for pecado ter
ganância de honra, sou a alma mais pecadora aqui neste mundo
dos vivos. Não, meu primo, por minha fé, não peça por nem mais
um homem da Inglaterra. Por Deus, não quero repartir com mais
ninguém tão grande de honra, pois tenho grandes esperanças.
Ah, primo, não queiras um único inglês a mais! Em vez disso,
anuncie o seguinte: o homem que não tiver estômago para este
combate está livre para partir. Seu salvo-conduto será confeccionado,
e serão depositadas coroas francesas em sua bolsa para custear
a passagem. Não queremos morrer na companhia desse homem
que teme ter a sua pessoa morrendo conosco. Hoje é dia de São Crispino.
Aquele que sobreviver ao dia de hoje e voltar para casa são e salvo
ficará de ouvidos em pé sempre que este dia for mencionado e vai
inflamar-se só de ouvir falar em São Crispino. Aquele que testemunhar
o dia de hoje e viver até a velhice presenteará seus vizinhos todos os
anos com um banquete, sempre na véspera, e dirá “Amanhã é dia
de São Crispino”. Então ele vai arregaçar as mangas e mostrar
os ferimentos e dizer: “Estas cicatrizes são herança do dia de São Crispino”.
Os velhos se esquecem e, mesmo que ele tenha se esquecido de tudo,
lembrará, contando vantagem, dos feitos que perpetrou naquele dia.
Teremos então que os nossos nomes, na boca deste senhor idoso,
tão comuns quanto as palavras que ele usa no dia-a-dia, serão pronunciados:
o Rei Henrique, Bedford e Exeter, Warwick e Talboth, Salisbury e Gloucester,
e serão todos lembrados uma vez mais, nos brindes de suas taças transbordantes.
Esta história o bom homem há de ensinar ao filho, e não se passará um
único dia de Crispino Crispiano, de hoje, até quando o mundo acabar, sem
que sejamos lembrados. Nós, estes poucos; nós, um punhado de sortudos;
nós, um bando de irmãos… pois quem derrama o seu sangue junto comigo
passa a ser meu irmão. Pode ser homem de condição humilde; o dia de
hoje fará dele um nobre. E os nobres que ficaram na Inglaterra, que estão
agora em suas camas, irmão julgar-se amaldiçoados porque não estavam
aqui e vão se considerar homens de menor virilidade sempre que ouvirem
falar aquele que lutou conosco no dia de São Crispino.

Faremos uma pequena passagem pelo teatro do fim do século XIX até o início do século XX. Johan Augusto Strindberg nasceu em Estocolmo em 1849 e lá morreu em 1912. Foi escritor, dramaturgo, pintor e fotógrafo sueco. Escreveu poucos dramas, onde se destaca Senhorita Júlia, de 1888. A peça, O Pai, foi escrita em 1887, considerada “excelente” por Frederich Nietzsche, trata dos detalhes “explosivos” das relações dentro do casamento. O Capitão se vê cercado por mulheres (sua mulher Laura, a sogra, a governanta) que tentam a todo tempo controlar suas decisões e o futuro de sua filha, subtraindo assim seu “poder”. Pensado que toda mulher pode ter um filho sem precisar saber quem é o pai, e que, no caso do homem, isso é inadmissível, o Capitão quer a certeza que Bertha, é realmente sua filha, o que o leva à loucura. Aqui uma reflexão do Capitão sobre sua recente loucura e a perda de poder como homem dentro do casamento e da família.

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CAPITÃO
(O PAI DE AUGUST STRINDBERG)
tradução de Guilherme da Silva Braga

(larga os livros em cima da mesa) Tudo está salvo aqui
nestes livros para quem quiser ler. Eu não estava louco!
Está aqui no primeiro livro da Odisséia, verso 215, página
seis da tradução de Uppsala. É Telêmaco quem fala a
Atena. “De fato a minha mãe afirma que Odisseu é meu pai,
mas disso não tenho certeza, pois ninguém descobre as
origens de sí próprio”. E Telêmaco levanta essa suspeita
a respeito de Penélope, a mais virtuosa das mulheres! Que
beleza, hein? Aqui temos o profea Ezequiel: “O louco diz:
eis aqui o meu pai, mas quem pode saber que semente
o criou?”. Acho que está bem claro! o que mais tenho aqui?
A história da literatura russa de Merzliákov: “O que matou
Aleksandr Púchkin, o maior dos poetas russos, foi antes
a angústia causada por rumores sobre a infidelidade da
esposa do que a estocada que recebeu no peito em um
duelo. No leito de morte, Púchkin jurou que ela lhe fora
fiel”. Mas que imbecil, que imbecil! Como ele poderia
jurar uma coisas destas? No entanto agora vocês sabem
o que eu estava lendo em meus livros! – Ah, Jonas, você
por aqui! Eo doutor, é claro! Vocês sabem o que eu respondi
a uma senhora inglesa que uma vez se queixou para mim
de que os irlandeses costumam jogar lamparinas de petróleo
acesas no rosto das esposas? – Meu Deus, que mulheres! -
eu disse. Mulheres? – ela resmungou. Claro! – respondi.
Quando chega o ponto em que um homem, um homem
que amou e idolatrou uma mulher, pega uma lamparina
acesa e atira no rosto dela – é só aí que sabemos!

É com muito prazer que digo: Samuel Beckett nasceu em Dublin, Irlanda, no dia 13 de abril de 1906 e morreu em Paris em 22 de dezembro de 1989. Prêmio Nobel de 1969, na minha opinião, foi um dos maiores dramaturgos de século XX. Ao lado de Eugène Ionesco, Arthur Adamov, Jean Genet e, depois, Harold Pinter, “continuaram” o sonho de Jarry, naquilo que ficou conhecido como o teatro do absurdo. Maravilhoso. Esperando Godot é sua peça mais conhecida. Foi escrita em 1952 e não entrarei em nenhum tipo de interpretação da famosa espera, fica com cada um. A peça conta a história de Estragon, Vladimir, Pozzo, Lucky e um menino. Os dois primeiros se encontram numa estrada para esperar um tal de Godot. A peça de desenrola dentro da espera, onde, ambos, começam um diálogo trivial até a chegada de Pozzo e Lucky. Pozzo chega puxando Lucky por uma corda amarrada em seu pescoço, que causa estranheza em ambos. Um menino entra em cena avisando que Godot só chegaria no dia seguinte. No segundo ato, tudo igual, exceto pela árvore que está mudada. Os dois voltam a dialogar quando Pozzo e Lucky voltam, só que, Pozzo está cego e Lucky, surdo. Volta o menino com a mesma notícia. Este é o extenso solilóquio de Lucky, que nada dizia, até esse dado momento.

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LUCKY
(ESPERANDO GODOT DE SAMUEL BECKETT)
tradução de Fábio de Souza Andrade

Dada a existência tal como se depreende dos recentes trabalhos
públicos de Poinçon e Wattmann de um Deus pessoal quaquaquaqua
de barba branca quaqua fora o tempo e do espaço que do alto de sua
divina apatia sua divina athambia sua divina afasia nos ama a todos
com algumas poucas exceções não se sabe por quê mas o tempo dirá
e sofre a exemplo da divina Miranda com aqueles que estão não se sabe
por quê mas o tempo dirá atormentados atirados ao fogo às flamas às
labaredas que por menos que isto perdure ainda e quem duvida acabarão
incendiando o firmamento a saber levarão o inferno às nuvens tão azuis
às vezes e ainda hoje calmas tão calmas de uma calma que nem por ser
intermitente é menos desejada mas não nos precipitemos e considerado
por outro lado os resultados da investigação interrompida mas consagrada
pela Academia Antropopopometria de Berna-sobre-Bresse de Testu e Conard
ficou estabelecido sem a menor margem de erro tirante a intrínseca a todo
e qualquer cálculo humano que considerando os resultados da investigação
interrompida interrompida de Tesu e Cunard ficou evidente dente dente o
seguinte guinte guinte a saber mas não nos precipitemos não se sabe
por quê acompanhando os trabalhos de Poinçon e Wattmann evidencia-se
claramente tão claramente que à luz dos esforços de Fartov e Belcher
interrompidos interrompidos não se sabe por quê de Tesu e Conard
interrompidos interrompidos evidencia-se que o homem ao contrário
da opinião contrária que o homem em Bresse de Tesu e Conard que o
homem enfim numa palavra que o homem numa palavra enfim não
obstante os avanços na alimentação e na defecação está perdendo peso
e ao mesmo tempo paralelamente não se sabe por quê não obstante os
avanços da educação física na prática de esportes tais quais quais o
tênis o futebol a corrida o ciclismo a natação a equitação a aviação a
conação o tênis a camogia a patinação no gelo e no asfalto o tênis a
aviação o tênis o hockey na terra no mar no ar a penicilina e seus
sucedâneos numa palavra recomeço ao mesmo tempo paralelamente
de novo não se sabe por quê no Sena Sena-e-Oise Sena-e-Marne
Marne-e-Oise a saber ao mesmo tempo paralelamente não se sabe
por quê está perdendo peso e encolhendo recomeço Oise e Marne numa
palavra a perda líquida per capita desde a morte de Voltaire sendo da ordem
de por volta de duzentos gramas aproximadamente na média arredondando
bem pesados e pelados na Normandia não se sabe por quê numa palavra
enfim tanto faz fatos são fatos e considerando por outro lado o que é ainda
mais grave se evidencia ainda mais grave à luz de à luz das experiências
em curso de Steinweg e Petermann o que se evidencia ainda mais grave se
evidência ainda mais grave à luz de à luz das experiências interrompidas
de Steinweg e Petermann que nas planícies na montanha no litoral junto aos
rios de água corrente fogo corrente o ar e a terra feitos de pedras na grande
glaciação ai de mim no sétimo ano da sua era o éter a terra o mar feitos de
pedras na grande escuridão na grande glaciação sobre o mar sobre a terra
e pelos ares que pena recomeço não se sabe por quê recomeço adiante
numa palavra enfim ai de mim adiante feitos de pedras quem poria em
dúvida recomeço mas não nos precipitemos recomeço a cabeça ao mesmo
tempo paralelamente não se sabe por quê não obstante o tênis adiante a
barba as labaredas as lágrimas as pedras tão azuis tão calmas ai de mim
a cabeça a cabeça a cabeça a cabeça na Normandia não obstante o tênis
os esforços interrompidos inacabados mais grave as pedras numa palavra
recomeço ai de mim ai de mim interrompidos inacabados a cabeça a cabeça
na Normandia não obstante o tênis a cabeça ai de mim as pedras Conard Conard…
(confuso, Lucky deixa escapar ainda vociferações_ Tênis!… As pedras!…
Tão calmas!… Conard!… Inacabadas!…

Também é com enorme prazer que digo: Thomas Stearns Eliot nasceu em St Louis, EUA, no dia 26 de setembro de 1888 e morreu em Londres em 4 de janeiro de 1965. Foi, de longe, um dos maiores poetas do século XX. Laureado com o prêmio Nobel em 1948, escreveu poemas antológicos como The Love Song of J. Albert Prufrock e The Waste Land. Escreveu cinco peças de teatro, onde, destaca-se Cocktail Party. A peça Reunião de Família se passa numa casa de campo no Norte da Inglaterra, onde, a velha Amy, prepara um jantar. Harry, seu filho mais velho, reaparece na casa após oito anos de ausência. Ainda atormentado pela morte da esposa, Harry descobre, aos poucos, os demônios escondidos no passado da família. O jantar vai se tornando um pesadelo quando descobre que seu próprio pai tentara matá-lo quando ainda estava no ventre da mãe. Este é o solilóquio do Coro antes do fim da peça.

CORO
(REUNIÃO EM FAMÍLIA DE T.S ELIOT)
tradução de Ivo Barroso

Não gostamos de olhar pela mesma janela e ver uma paisagem
de todo diferente.
Não gostamos de subir uma escada e descobrir que ela nos leva
para baixo.
Não gostamos de atravessar uma porta e nos encontrarmos de
novo na mesma sala.
Não gostamos do labirinto do jardim porque parece demais com o
labirinto do cérebro.
Não gostamos do que acontece quando estamos acordados porque
se parece demais com o que acontece quando estamos adormecidos.
Compreendemos os normais afazeres da vida,
Sabemos como operar as máquinas,
Conseguimos em geral evitar acidentes,
Estamos assegurados contra o fogo,
Contra o furto e as doenças,
Contra os defeitos dos encanamentos,
Mas não contra a vontade de Deus.
Conhecemos várias magias e encantamentos,
E outras formas inferiores de feitiçaria,
Adivinhações e quiromancia,
Específicos contra a insônia,
Lumbago e a perda de dinheiro.
Mas o ciclo do nosso entendimento
É uma área muito limitada.
Exceto por um restrito número
De desígnios estritamente práticos,
Não sabemos de fato o que fazemos;
E mesmo, quando pensamos a respeito,
Não sabemos muito sobre o ato de pensar.
Que está acontecendo no exterior do círculo?
E qual o significado de acontecer?
Que emboscada nos espera além das urzes
Ou por trás das carrancas monolíticas?
Acima da Camada de Heaviside
E por trás do sorriso da Lua?
O que foi feito conosco?
E o que somos nós e o que fazemos?
Para todas e cada uma destas perguntas
Não há resposta concebível.
Sofremos muito mais do que uma perda pessoal…
Perdemos nosso caminho no escuro.

Anton Pavlovitch Tchékhov nasceu em Taganrog, Rússia, no dia 29 de janeiro de 1860 e morreu em Badenweiler em 14 ou 15 de julho de 1904. Curiosamente, além do grande dramaturgo e contista que foi, era também médico. Escreveu peças que se tornaram clássicos do teatro como: A gaivota, As três irmãs, Tio Vânia e o Jardim das Cerejeiras (está última é uma beleza). As Três Irmãs conta a história de Irina, Macha e Olga Prosorov, que veem suas esperanças despertarem após um ano de luto em virtude da morte do pai. Elas desejam intensamente voltar para Moscou, onde a vida volta a ser mais interessante, pois todas foram criadas na cidade grande e não se adaptaram à vida no campo. Elas apoiam suas esperanças no irmão Andrey, que, infelizmente, se apaixona por Natasha, desiste de ser tornar um professor e vicia-se em jogo. Após alguns percalços amorosos, seu sonho de voltar a Moscou não se realiza. Este é o pequeno monólogo de Olga após saber que não mais voltarão para Moscou

OLGA
(AS TRES IRMÃS DE ANTON TCHÉKHOV)
tradução de Klara Gouriánova

A música é tão alegre, tão animadora
e dá vontade de viver! Oh, meu Deus!
O tempo vai passar e nós iremos com ele,
para sempre. Esquecerão de nós, dos
nossos rostos, das nossas vozes e de
quantas éramos, mas o nosso sofrimento
vai se transformar em alegria daqueles
que viverão depois de nós, a felicidade
e a paz reinarão na Terra e aqueles que
vivem agora serão lembrados com boas
palavras e serão abençoados. Oh, minhas
queridas irmãs, nossa vida ainda não
terminou. Vamos viver! A música é tão
alegre, tão feliz, parece que mais um
pouquinho e saberemos por que vivemos,
por que sofremos… Ah, se pudéssemos
saber, se pudéssemos saber!

Terminando os dramaturgos-poetas do século XX em grande estilo e, ao meu ver, bem solto. Eugène Ionesco nasceu em Slatina, Romênia, no dia 26 de novembro de 1909 e morreu em Paris, no dia 28 de março de 1994. O termo mais usado é “Pai do teatro do absurdo”, “para um texto burlesco, uma interpretação dramática; para um texto dramático, uma interpretação burlesca’, assim definia-se o tom. A Cantora Careca foi escrita em 1954 e conta a história de Sr e Sra Smith, que dizem banalidades um para o outro, até a criada, Mary, anunciar a visita dos Martin. Entram, se sentam, começam a conversar, até perceberem, pelas coincidências, que são marido e mulher. Depois entra um Bombeiro em busca de um incêndio que não há. O bombeiro vai embora e a conversa continua entre os quatro. Esta é a história que o Bombeiro conta a pedido de Sr e Sra Smith.

BOMBEIRO
(A CANTORA CARECA DE EUGÈNE IONESCO)
tradução de Luiz de Lima

O resfriado. (sentam-se todos) Meu cunhado tinha do lado paterno,
um primo irmão, cujo tio paterno tinha um sogro cujo avô paterno tinha
desposado em segundas núpcias, uma jovem indígena, cujo irmão tinha
encontrado, numa de suas viagens, uma moça de quem ele tinha se
enamorado e da qual teve um filho que se casou com uma farmacêutica
intrépida e era sobrinha de um oficial desconhecido da marinha de Sua
Majestade a Rainha da Inglaterra (erguem-se todos e tornam a sentar)
e cujo pai adotivo tinha uma prima falando correntemente o espanhol
e que era talvez uma das netas de um enfermeiro morto muito moço
neto ele por sua vez de um proprietário de vinhas que dava um licor
medíocre mas que tinha um primo em segundo grau, caseiro, sargento,
cujo filho casara com uma linda moça divorciada, cujo primeiro marido
era filho de um sincero patriota, que tinha sabido educar na ambição
de fazer fortuna uma de suas filhas, que se casou com um caçador
que conheceu um Rotschild e cujo irmão, depois de ter mudado várias
vezes de profissão, se casou e teve uma filha, cujo bisavô avarento
usava óculos que lhe tinha presenteado um seu primo, cunhado de um
português, filho natural de um oleiro não muito pobre, cujo irmão de leite
tomou por mulher a filha de um velho médico do interior, irmão de leite
do filho de um leiteiro, ele mesmo filho natural de um outro médico de
interior, casou duas vezes seguidas, cuja terceira mulher…

Agora, o teatro brasileiro. Plínio Marcos nasceu em Santos, São Paulo, no dia 29 de setembro de 1935 e morreu em São Paulo no dia 19 de novembro de 1999. Escreveu peças que se tornaram clássicos no teatro brasileiro, com especial devoção para Quando as Máquinas Param (1963); Dois Perdidos Numa Noite Suja (1966) e Navalha na Carne. Plínio retratou como ninguém as relações do submundo, dos “excluídos”. Navalha na Carne conta um dia na vida de três figuras: A prostituta Neusa Sueli, o cafetão Vado e o servente homossexual, Veludo. Vado exige de Neusa Sueli o dinheiro do programa, que Neusa diz ter colocado no criado-mudo. Após uma grande discussão, suspeitam que Veludo pode ter pego o dinheiro. Chamam Veludo, que prontamente nega, porém, logo confessa após apanhar um pouco. Depois disso, Vado toma de Veludo a maconha comprada por ele. Fuma, e começa um tórrido jogo de sedução e provocação entre os dois. Neusa fica irada e expulsa Veludo. A peça termina com Vado trancando Neusa no quarto após seduzí-la. Este é o famoso solilóquio de Neusa refletindo sobre sua vida, após ter suas coisas jogadas no chão por Vado.

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NEUSA SUELI
(NAVALHA NA CARNE DE PLÍNIO MARCOS)

Pára com isso! Pára! Por favor, pára! Poxa, será que você
não se manca? Será que você não é capaz de lembrar que
venho da zona cansada pra chuchu? Ainda mais hoje.
Hoje foi um dia de lascar. Andei pra baixo e pra cima, mais
de mil vezes. Só peguei um trouxa na noite inteira. Um
miserável que parecia um porco. Pesava mais de mil quilos.
Contou toda a história da puta da vida dele, da puta da mulher
dele, da puta da filha dele, da puta que o pariu. Tudo gente
muito bem instalada na vida na puta da vida. O desgraçado
ficou em cima de mim mais de duas horas. Bufou, bufou,
babou, babou, bufou mais pra pagar, reclamou pacas.
Desgraçado, filho da puta. É isso que acaba com a gente…
Isso cansa a gente. A gente só quer chegar em casa, encontrar
o homem de cara legal, tirar aquele sarro e se apagar, pra
desforrar de toda a sacanagem do mundo de merda que está aí.
Resultado: você está de saco cheio por qualquer coisinha, então
apronta. Bate na gente, goza a minha cara e na hora do bem-bom,
sai fora. Poxa, isso arreia qualquer uma. Às vezes chego a pensar:
Poxa, será que eu sou gente? Será que eu, você, o Veludo, somos
gente? Chego até a duvidar. Duvido que gente de verdade viva assim,
um aporrinhando o outro, um se servindo do outro. Isso não pode
ser coisa direita. Isso é uma bosta. Uma bosta! Um monte de bosta!
Fedida! Fedida! Fedida!

Os célebres solilóquios não são uma característica na obra teatral de Nelson Rodrigues (Recife, 23 de agosto de 1912 – Rio de Janeiro, 21 de dezembro de 1980). Porém, encontrei uma fala, não por ser extensa, mas por conter maneiras de pensar que caracterizam bem alguns personagens de Nelson, no caso, sobre a morte, e que nos fazem tremer quando nos vimos nele. Teatro minha gente! Pois bem, esta é de Gastão, na tardia ‘O Anti-Nelson Rodrigues’. A peça foi aos palcos em 1974 sob direção de Paulo César Pereio. Conta a história de Oswaldinho, filho de Gastão e Tereza, um jovem mimado pela mãe e desprezado pelo pai. Inescrupuloso, ladrão e mulherengo, se torna o dono de uma da fábricas do pai e se apaixona por uma das recém contratadas, a jovem Joice. Acostumado a ter tudo que quer, Oswaldinho tenta comprar Joice, que sempre reluta, pois só quer seu amor. Aqui Gastão suspeita de algo que o incomoda.

GASTÃO
(O ANTI-NELSON RODRIGUES DE NELSON RODRIGUES)

Não fecho nada. Tereza, escuta. Uma vez, eu vi um filme italiano.
Era uma história de bandido. História feroz, sem nenhuma vergonha
do dramalhão. E lá havia o velório genial, o velório que cada um
deseja para si. O bandido estava na mesa do necrotério, e cravejado
de balas. E de repente chega a mãe do defunto. Minha mulher, está
ouvindo? Qualquer grande dor tem gritos que ninguém ouviu, jamais.
Mas nenhuma mãe, em nenhum idioma, berra, uiva, como a mãe
daquele morto. Era a mais siciliana das sicilianas. Ao ver o cadáver,
esganiçou todos os gritos do seu espanto. Ah, Tereza, Tereza. Na
minha poltrona, eu tive uma sensação de deslumbramento. E aquela
mãe devoradora começou beijando o dedo grande do pé. Não beijou
apenas. o que seria pouco para sua fome. Ela sorvia os dedos um por um,
como aspargos. Ah, meu Deus, aquela boca continuou beijando – a sola
do pé, o calcanhar, as canelas. Nada restou que não fosse beijado. E eu
sei que também vou morrer, não varado de balas. Deus quer que eu tenha
enfarte, que é a morte da moda. Essa dor manhosa no braço esquerdo
não me engana. Eu sei que é minha morte que está doendo mansamente.
Eu penso no bandido. Mas sei que não vou ser chorado assim, beijado
assim, amado assim.
Se não ouvisse a minha morte, ouve meu sonho. Um sonho de uma
semelhança espantosa com a realidade. Sonhei que meu filho vinha
me dizer: – “Sou eu que escrevo as cartas anônimas, eu!” E começou
a chorar como um menino. Depois, caiu aos meus pés e beijou os meus
sapatos. Tereza, se meu filho fizesse isso, eu estaria salvo, não morreria
mais. E se morresse, seria beijado como o maravilhoso defunto siciliano.

José Oswald de Sousa Andrade Nogueira nasceu em São Paulo no dia 11 de janeiro de 1890 e lá morreu em 22 de outubro de 1954. Como muitos sabem, foi um dos personagens mais importantes para Modernismo Brasileiro. Humor, entusiasmo, busca pelo novo e por uma identidade artística nacional. O Rei da Vela é considerado o marco teatral modernista. Escrita a partir de 1933 após a crise de 29, que muito afetou Oswald, só foi montada 30 anos depois na antológica apresentação de Zé Celso Martinez Correa. Conta a história do agiota Aberlado I, o Rei da Vela, que faz empréstimos a juros altíssimos. Abelardo é um burguês ascendente, que trabalha em diversos ramos, sempre especulando. Abelardo II é um empregado que tenta tomar seu lugar. Heloisa de Lesbos é sua mulher, que representa a decadência das famílias fazendeiras. Abelardo II rouba toda a fortuna de Abelardo I, que se mata. Na peça há “desvios” sexuais entre todos os personagens, numa podrosa crítica à sociedade. Este é um belo trecho de Abelardo I num momento de crise.

ABELARDO I
(O REI DA VELA DE OSWALD DE ANDRADE)

Tão esperto! Olhe menina. Eu fui um porcalhão!
Sabe você a quem a burguesia devia erguer estátuas?
Aos caixas dos bancos! Esses sim é que são colossais!
Firmes como a rocha. Os homens que resistem à tentação
da nota. Sabendo para onde ela vai, para que ela serve,
donde vem, que infâmias pode tecer… Os que recusam
o chamado da nota! Antigamente, quando a burguesia ainda
era inocente… A burguesia já foi inocente, foi até revolucionária…
Nos bons tempos do romantismo, antes do cinema devassar
o mundo, acreditava-se no chamado do Oriente, esse apelo
insondável dos países misteriosos e tardos, onde, no fundo -
o cinema depois divulgou -, só havia exploração imperialista
e palmeiras, mais nada. Na época moderna, para nós, classe
dirigente, minha amiga, só há um chamado – chamado da nota!
Eu não soube resistir ao chamado da nota! Sendo Rei da Vela,
banquei o Rei do Fósforo. Também me apossei do que pude!
Joguei numa terrível aventura, todas as minhas possibilidades!
Pus as mãos no que não era meu. Blefei quanto pude! Mas fui
vergonhosamente batido por um coringa… Pois bem! O Rei da Vela
não será indigno do Rei do Fósforo!…
(agita o revólver)

Francisco Buarque de Holanda nasceu no Rio de Janeiro no dia 16 de junho de 1944. Paulo Pontes nasceu em Campina Grande, Paraíba, no dia 8 de novembro de 1940 e morreu no Rio de Janeiro no dia 27 de dezembro de 1976. Escreveram juntos Gota D’Água em 1975. É uma adaptação de Medéia, de Eurípides. Tal como na tragédia grega, Jasão, um sambista morador da Vila do Meio-Dia, larga a mulher, Joana, para casar-se com Alma, filha do rico empresário Creonte. Trata-se de um belo musical, com Joana sendo interpretada por Bibi Ferreira na primeira montagem e direção de Gianni Ratto. Aqui o Desabafo de Joana para Jasão, revendo tudo aquilo que passara com o marido ao saber que Jasão a trocara por Alma.

JOANA
(GOTA D’ÁGUA DE CHICO BUARQUE E PAULO PONTES)

Pois bem, você vai escutar as conta que eu vou lhe fazer.
Te conheci moleque, frouxo, perna bamba, barba rala,
calça larga, bolso sem fundo, não sabia nada de mulher,
nem de samba e tinha um bruto medo de olhar pro mundo,
As marcas do homem, Jasão, uma a uma, hein,
tu tirou todas de mim.
O primeiro filho, o primeiro prato, o primeiro violão,
o primeiro refrão, o primeiro estribilho, te dei cada
sinal do teu temperamento, te dei matéria prima
para o teu tutano, e mesmo essa ambição, que nesse
momento se volta contra mim, eu te dei por engano!
Fui eu, Jasão, você não se encontrou na rua não!
Você andava tonto quando eu te encontrei,
fabriquei energia que não era tua, pra iluminar uma
estrada que eu te apontei,
e foi assim, do nada, que eu vi nascer uma alma ansiosa,
faminta, preguiçosa, uma alma de homem, enquanto eu,
enciumada dessa explosão, ao mesmo tempo vaidosa
e orgulhosa de ti, Jasão, era feliz, eu era feliz Jasão,
feliz e iludida, porque o que eu não sabia, quando eu fiz meus
dez anos, há mais uma sobrevida, pra completar a vida
que você não tinha, é que eu estava desperdiçando o meu
alento, tava vestindo boneco de fuinha, assim que bateu
um primeiro pé de vento, assim que despontou o segundo
horizonte, lá se foi meu homem, orgulho, minha obra completa,
lá se foi pro acervo de Creonte. Certo, o que eu não tenho,
Creonte tem de sobra, prestígio, posição, o teu samba vai
tocar em tudo quanto é programa, tenho certeza que a Gota D’Água
não vai para de pingar de boca em boca, mas em troca pela
gentileza, vai me engolir a filha, aquela mosca morta, como
engoliu meus dez anos, é esse o preço, ahn? dez anos?
até que apareça uma outra porta que te leve direto pro inferno
Aguenta a vida rapaz! Só de ambição, sem amor, tua alma
vai ficar torta, desgrenhada, aleijada, pestilenta, aproveitador!
Aproveitador! Aproveitador!

Fechamos esta série de solilóquios de teatro com um muito especial. Marcos Vinicius da Cruz e Melo Moraes nasceu no Rio de Janeiro no dia 19 de outubro de 1913 e lá morreu no dia 9 de julho de 1980. Orfeu da Conceição foi escrita em 1954 e marca a parceria musical de Vinicius e Tom Jobim. A peça reconta o mito de Orfeu, que vai ao mundo dos mortos atrás de sua amada Eurídice. Nesta versão, Orfeu é um condutor de bonde e sambista que se apaixona pela jovem Eurídice, moça do interior, no Carnaval. O amor de ambos desperta os ciúmes de Mira, ex-noiva de Orfeu. Tal qual no mito, Eurídice morre e Orfeu desce às profundezas buscá-la. A peça contém músicas que se tornaram clássicos de Vinicius e Tom. Eis o famoso e belíssimo monólogo de Orfeu.

ORFEU
(ORFEU DA CONCEIÇÃO DE VINICIUS DE MORAES)

Mulher mais adorada!
Agora que não estás, deixa que rompa
O meu peito em soluços! Te enrustiste
Em minha vida; e cada hora que passa
E’ mais por que te amar, a hora derrama
O seu óleo de amor, em mim, amada…
E sabes de uma coisa? cada vez
Que o sofrimento vem, essa saudade
De estar perto, se longe, ou estar mais perto
Se perto, – que é que eu sei! essa agonia
De viver fraco, o peito extravasado
O mel correndo; essa incapacidade
De me sentir mais eu, Orfeu; tudo isso
Que é bom capaz de confundir o espírito
De um homem – nada disso tem importância
Quando tu chegas com essa charla antiga
Esse contentamento, essa harmonia
Esse corpo! e me dizes essas coisas
Que me dão essa força, essa coragem
Esse orgulho de rei. Ah, minha Eurídice
Meu verso, meu silêncio, minha música!
Nunca fujas de mim! sem ti sou nada
Sou coisa sem razão, jogada, sou
Pedra rolada. Orfeu menos Eurídice…
Coisa incompreensível! A existência
Sem ti é como olhar para um relógio
Só com o ponteiro dos minutos. Tu
És a hora, és o que dá sentido
E direção ao tempo, minha amiga
Mais querida! Qual mãe, qual pai, qual nada!
A beleza da vida és tu, amada
Milhões amada! Ah! criatura! quem
Poderia pensar que Orfeu: Orfeu
Cujo violão é a vida da cidade
E cuja fala, como o vento à flor
Despetala as mulheres – que ele, Orfeu
Ficasse assim rendido, aos teus encantos!
Mulata, pele escura, dente branco
Vai teu caminho que eu vou te seguindo
No pensamento e aqui me deixo rente
Quando voltares, pela lua cheia
Para os braços sem fim do teu amigo!
Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que eu estarei contigo!

agosto 24, 2010

Roberto Piva

Roberto Piva nasceu em São Paulo no dia 25 de setembro de 1937. Cresceu e se formou na cidade ou na fazenda do pai no interior de São Paulo. Neste mês vamos nos concentrar nas ideias do poeta “beat” paulista e o possível sobre a vida, em virtude da escassez de informações e detalhes que estão ao alcance do leitor. Piva teve seus primeiros poemas publicados em 1961, quando tinha 23 anos até participar de uma antologia que o deixou conhecido do público: Antologia dos Novísssimos.

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POEMA SUBMERSO

Eu era um pouco da tua voz violenta, Maldoror
quando os cílios do anjo verde enrugavam as
chaminés da rua onde eu caminhava
E via tuas meninas destruídas como rãs por
uma centena de pássaros fortemente de passagem
NInguém chorava no teu reino, Maldoror, onde o
infinito pousava na palma da minha mão vazia
E meninos prodígios eram seviciados pela Alma
ausente do Criador
Havia um revólver imparcialíssimo vigiado pelas
Amebas no telhado roído pela urina de tuas borboletas
Um jardim azul sempre grande deitava nódoas nos
meus olhos injetados
Eu caminhava pelas aléias olhando com alucinada ternura
as meninas na grande farra dos canteiros de
insetos baratinados
Teu canto insatisfeito semeava o antigo clamor dos
piratas trucidados
Enquanto o mundo de formas enigmáticas se desnudava
para mim, em leves mazurcas

Nos anos 60, Piva estudou profundamente a Divina Comédia, orientado por Eduardo Bizzarri, que era adido cultural do Consulado da Itália em São Paulo. Talvez devamos começar a estruturar suas raízes por aí, pois, consta que foi através da leitura e da imersão na obra de Dante que Piva abriu sua visão para a poesia e para a filosofia. Depois, Piva estudou os poetas metafísicos ingleses, com especial devoção ao poeta William Blake. Bom diálogo.

link das fotos do lançamento de Corpo Aberto, na segunda feira dia 10 http://picasaweb.google.com/julioinx/CCLAPedroLago100510#

PRAÇA DA REPÚBLICA DOS MEUS SONHOS

A estátua de Álvares de Azevedo é devorada com paciência pela paisagem
de morfina
a praça leva pontes aplicadas no centro de seu corpo e crianças brincando
na tarde de esterco
Praça da República dos meus sonhos
onde tudo se faz febre e pombas crucificadas
onde beatificados vêm agitar as massas
onde Garcia Lorca espera seu dentista
onde conquistamos a imensa desolação dos dias mais doces
os meninos tiveram seus testículos espetados pela multidão
lábios coagulam sem estardalhaço
os mictórios tomam um lugar na luz
e os coqueiros se fixam onde o vento desarruma os cabelos
Delirium Tremens diante do Paraíso bundas glabras sexos de papel
anjos deitados nos canteiros cobertos de cal água fumegante nas
privadas cérebros sulcados de acenos
os veterinários passam lentos lendo Dom Casmurro
há jovens pederastas embebidos em lilás
e putas com a noite passeando em torno de suas unhas
há uma gota de chuva na cabeleira abandonada
enquanto o sangue faz naufragar as corolas
Oh minhas visões lembranças de Rimbaud praça da República dos meus
Sonhos última sabedoria debruçada numa porta santa

O poeta alemão Holderlin foi um dos que permeou a estrutura (se assim posso chamar) de Roberto Piva, assim como a leitura dos poetas expressionistas Gottfried Benn e Georg Trakl, que também reforçaram, de certa forma, um certo pessimismo do poeta, porém, de acordo com José Silvério Trevisan, foi através de Nietzsche que essa característica de seu discurso se reforçou. A presença, muitas vezes citada, de Rimbaud e Lautreamont deram todos os motivos para que Piva encontrasse sua linguagem. Estamos nos anos 60.

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JORGE DE LIMA, PANFLETÁRIO DO CAOS

Foi no dia 31 de dezembro de 1961 que te compreendi Jorge de Lima
enquanto eu caminhava pelas praças agitadas pela melancolia presente
na minha memória devorada pelo azul
eu soube decifrar os teus jogos noturnos
indisfarçável entre as flores
uníssonos em tua cabeça de prata e plantas ampliadas
como teus olhos crescem na paisagem Jorge de Lima e como tua boca
palpita nos bulevares oxidados pela névoa
uma constelação de cinza esboroa-se na contemplação inconsútil
de tua túnica
e um milhão de vaga-lumes trazendo estranhas tatuagens no ventre
se despedaçam contra os ninhos da Eternidade
é neste momento de fermento e agonia que te invoco grande alucinado
querido e estranho professor do Caos sabendo que teu nome deve
estar como um talismã nos lábios de todos os meninos

Piva é um poeta ligado ao surrealismo, sobretudo na vertente francesa de Breton, Artaud e René Crevel. É um dos três únicos poetas brasileiros a fazer parte do Dicionário Geral do Surrealismo, publicado na França. Para Piva “existe um compromisso absoluto entre a poesia e a vida” ou lembrando Artaud, “para conhecer minha obra, leia-se minha vida”. O poeta diz que “só acredito em vida experimental quem tem vida experimental”. Isto é fundamental para a compreensão da obra de Piva.

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OS ANJOS DE SODOMA

Eu vi os anjos de Sodoma escalando
um monte até o céu
E suas asas destruídas pelo fogo
abanavam o ar da tarde
Eu vi os anjos de Sodoma semeando
prodígios para a criação não
perder seu ritmo de harpas
Eu vi os anjos de Sodoma lambendo
as feridas dos que morreram sem
alarde, dos suplicantes, dos suicidas
e dos jovens mortos
Eu vi os anjos de Sodoma crescendo
com o fogo e de suas bocas saltavam
medusas cegas
Eu vi os anjos de Sodoma desgrenhados e
violentos aniquilando os mercadores,
roubando o sono das virgens,
criando palavras turbulentas
Eu vi os anjos de Sodoma inventando
a loucura e o arrependimento de Deus

Piva tem duas paixões musicais, o jazz e a bossa nova. Há também duas fortes presenças em sua obra: A geração beat e Pier Paolo Pasolini. De acordo com João Silvério Trevisan, Piva absorveu a estilística fragmentada da geração beat assim como a orientação transgressora, tanto na vida quanto na obra. Pasolini foi um grande ideal de profeta-intelectual e paradoxal que Piva precisava para seguir.

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POEMA DA ETERNIDADE SEM VÍSCERAS

Na última lua eu odiava as montanhas
minha memória quebrada não pode receber
o amor
eu tomava sopa aguardando meus amigos desordeiros
no outro lado da noite
este é o meu estranho emprego este mês
outro tempo quando o velho Gide se despachava para a África
meu coração era sólido eu dançava
eu assistia uma guerra de chapéus e as brancas
lacerações dos garotos no Ibirapuera angélico
terreno vazio onde eu mastigava tabletes de
chocolate branco
no próximo instante eu vi árvores e aeroplanos com bigodes
e lágrimas de Ouro
no Ibirapuera esta noite eu perdi minha solidão
ROBERTO PIVA TRANSFERIDO PARA REPARO DE VÍSCERAS
todos os meus sonhos são reais oh milagres epifanias
do crânio e do amor sem salvação que eu sabia presos
no topo da minha alma
meu esqueleto brilhava na escuridão
repleto de drogas
eu nunca estou satisfeito e ando um incorrigível demônio
lunático com os dez dedos roídos tamborilando num campo
magnético
memória do arsênico que eu dei a uma pomba
os olhos cinzentos do céu meu oculto Totem espiritual

Geração beat, Pasolini, vida experimental para uma poesia experimental. Dos nossos, Piva bebeu em Jorge de Lima e Murilo Mendes. Invenção de Orfeu do primeiro, o surrealismo do segundo. Piva é um poeta ligado ao xamanismo. Fazia caminhadas xamânicas na represa do Mairiporã e na serra da Cantareira, anos depois deu cursos e palestras sobre xamanismo. Para Piva, esta é a única solução possível para o mundo moderno.

poema Nervos, do livro Corpo Aberto no blog http://pedrolago.blogspot.com

HOMENAGEM AO MARQUêS DE SADE

O Marquês de Sade vai serpenteando menstruado por
máquinas & outras vísceras
imperador sobre-humano pedalando a Ursa maior no
tórax do Oceano
onde o crocodilo vira o pescoço & acorda a flor louca
cruzando a mente num suspiro
é aéreo o intestino acústico onde ele deita com o vasto
peixe da tristeza violentando os muros de sacarina
ele se ajoelha na laje cor do Tempo com o grito das
Minervas em seus olhos
o grande cu de fogo de artifício incha este espelho de
adolescentes com uma duna em casa mão
as feridas vegetais libertam os rochedos de carne
empilhadas na Catástrofe
um menino que passava comprimiu o dorso descabelado
da mãe uivando na janela
a fragata engraxada nos caminhos da sombrancelha
calcina
o chicote de ar do Marquês de Sade
no queixo das chaminés
falta ao mundo uma partitura ardente como o hímen
dos pesadelos
os edifícios crescem para que eu possa praticar amor
nos pavimentos
o Marquês de Sade pôs fogo nos ossos dos pianistas que
rachavam como batatas
ele avança com tesouras afiadas tomando as nuvens de
assalto
ele sopra um planador na direção de um corvo agonizante
ele me dilacera & me protege contra o surdo século de
quedas abstratas

O envolvimento de Piva com o xamanismo é intenso. Ele costuma tocar o tambor para evocar seu animal, o gavião, assim como para evocar seus orixás no candomblé, Xangô, Iemanjá e Oxum. Piva também fazia experimentos com drogas alucinógenas e bebidas libatórias, como “formas de atualizar a tradição dionisíaca e a transgressão sagrada do paganismo”, lembra Trevisan. Poética da transgressão, podemos entrar nesse assunto nos próximos dias.

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PIAZZA IX

Os corações árticos coçavam suas cabeleiras cultivando
a morte
grandes & ardentes no mesmo sopro de um mesmo
sorriso apodrecido
purificados como os nossos idênticos pioneiros metálicos
às vésperas dos trovões de ar que nos arrebatam as
cabeças para o céu
sobre os muros de plenas dissecações ao brilho
inesperado do salmão das nuvens
nas cidades circulares de dolorosos espinhos atômicos
na infância cor de pêssego como a hora do amor
em cada solitário as mesmas oitavas com ossos à mostra
éter & línguas sólidas que nós não vemos
catalogadas ao lado trágico das mesmas ondas paralelas
aquelas que nos transportam vencendo toda a paisagem
purulenta
gotas de meninos morenos mudados em nevoentos
cascalhos de desolação
nas montanhas murchas de luar onde a lembrança é
cinzenta
correndo teu arco na tempestade solar da incerteza
o dia escurecia a auréola dos mortos descobridores de
Mágicas

Os surrealistas tinham uma maneira de escrever que consistia em escrever sem parar associando ideias ininterruptamente até esgotarem-se as possibilidades. Piva seguia esse “método” frequentemente, sobretudo em seus anos iniciais. Lembrando que Piva é um dos únicos brasileiros a fazer parte do Dicionário Geral do Surrealismo. Essa influência surrealista junto com a essência da contra cultura, mais a infinitude de Fernando Pessoa, levaram Piva à linguagem que muitos chamam de Poética da Transgressão.

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O MINOTAURO DOS MINUTOS

Os pontos cardeais dos nossos elementos são: a traição, a não-compreensão
da utilidade das vidraças, a violência montanha-russa do Totem, o
rompimento com os labirintos e nervuras do penico estreito da Lógica,
contra o vosso êxtase açucarado, vós como os cães sentis necessidade do
infinito, nós o curto-circuito, a escuridão e o choque somos contra a mensagem
lírica do Mimo, contra as lantejoulas pelos caracóis, contra a
vagina pelo ânus, contra os espectros pelos fantasmas, contra as escadas
pelas ferrovias, contra Eliot pelo Marquês de Sade, contra a polenta pelo
ragu, nós estamos perfeitamente esquizofrênicos, paranoicamente cientes
de que devemos nos afastar da Bandeira das Treza Listas cujos representantes
são as bordadeiras de poesia que estão espalhadas por toda a cidade.

Uma curiosidade: Quando jovem, Piva gostava de ligar para os amigos lhes sugerindo leituras: “Olha, você tem que ler A função do orgasmo de Wlhelm Reich!”, ou, Tem um livro importante, El arco y a lira, de Octavio Paz. Ele citava trechos do livro para ilustrar seus comentários. Foi assim com muitos títulos: Filosofia da tragédia de Leon Chestov, Homo ludens de Huyzinga, O Único e suas propriedades, de Max Stirner e muitos outros. Curiosidade ressaltada pelo poeta Cláudio Willer num ensaio sobre Piva.

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BULES, BÍLIS E BOLAS

Nós convidamos todos a se entregarem à dissolução e ao desregramento.
A Vida não pode sucumbir no torniquete da Consciência. A Vida
explode sempre no mais além. Abaixo as Faculdades e que triunfem
os maconheiros. É preciso não ter medo de deixar irromper a nossa
Alma Fecal. Metodistas, psicólogos, advogados, engenheiros, estudantes,
patrões, operários, químicos, cientistas, contra vós deve estar o espírito
da juventude. Abaixo a Segurança Pública, quem precisa disso?
Somos deliciosamente desorganizados e usualmente nos associamos
com a Liberdade.

Piva publicou apenas dois livros nos anos 60, Paranóia, em 63, e Piazzas, em 64. Após doze anos sem nada publicar, em 1974, Piva aparece com Abra os olhos e diga Ah!, onde há, essencialmente, poemas com a temática homossexual. Piva leu muito Lautreamont e, inclusive usa uma passagem de Les Chants de Maldoror abrindo o livro. É o lirismo do poeta de forma nua e direta, característica forte de Piva e que será cada vez mais presente.

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ABRA OS OLHOS E DIGA AH!

VISÃO ANTROPOLÓGICA DO CANTO DA JANELA
PRISMADA EM GELÉIA-CORAÇÃO NO VINHO
DE MARÇO (o mês mais terrível)
novos animais de rapina
OS OLHOS DO MEU AMANTE OS OLHOS DO MEU AMANTE
galáxias internas OLHOS LIBERDADE galáxias internas
no fundo cor-de rosa do chocolate eu te respiro
nas tripas só com os mortos & seus travesseiros de
flores
nas tripas extravagantes meu amor atrás das
vitrinas
só com os mortos o universo é um espirro
no útero da maçã
tudo começa
a anoitecer
cheio de energia

Coxas, livro escrito depois de Abra os olhos e diga Ah!, também continua com a temática sexual anterior, desta vez, se desenvolvendo em textos em prosa. Há personagens, cenários urbanos, cenas de sexo e erotismo coletivas. Pólem, é o personagem principal de muitos poemas, passando por experiências e orgias ao longo do discurso. Diferentemente da contemplação de Piazzas, em Coxas, há ação.

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O MANIFESTO DE LINDO OLHAR

Múmia vadia.
Deixa a pirâmide pegar fogo & ouve o vento da noite onde
Anúbis domina
o Faraó morreu na orgia ao pôr do sol roxo de vinho
Múmia vadia
o amor atravessou seu caminho de ataduras enlouquecidas
colhe o frenesi na língua caótica dos deuses & pede
o abraço de Osíris deus da agricultura subdesenvolvida
Molha a alma no sangue da rebelião
volta a adorar os deuses semeadores de discórdias
Pólem carregou Lindo Olhar até o andar de cima colocou-o
sobre as almofadas de veludo negro & se beijaram até
amanhecer, quando o grande rio dilatou suas águas até o
fim do mundo & Lindo Olhar percebeu que o amor fazia
uma nova ronda em sua carne multiplicada onde as
guitarras da paixão deixaram marcas de dentes & pequenas
gotas de suor.

As referências a outros autores é constante na obra de Piva, característica que aparece muito em Coxas. Não somente nas epígrafes, mas dentro dos poemas há diversos apontamentos para outros universos (prefiro colocar assim). Por ser também um poeta considerado “urbano”, Piva usa nas situações que descreve, lugares conhecidos, sobretudo de São Paulo, alimentos, obras e até uma marca de vinho. Por aí.

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A VIDA ME CARREGA NO AR COMO UM GIGANTESCO ABUTRE

A verdade dos deuses
carnais como nós & lânguidos
não provém do nada
mas do desejo trovejante do coração
partido pelo amor
em sua disparada pelo rosto de um
adolescente
com sua fúria delicada
cruzo avenidas insones & corroídas
de chuva
minha mão alcança minha dor
presente
& me preparo para um dia duro
amargo & pegajoso
a tarde desaba seu azul sobre
os telhados do mundo
você não veio ao nosso encontro & eu
morro um pouco & me encontro só
numa cidade de muros
você talvez não saiba do ritual
do amor como uma fonte
a água que corre não correrá
jamais a mesma até o poente
minha dor é um anjo ferido
de morte
você é um pequeno deus verde
& rigoroso
horários de morte cidades cemitérios
a morte é a ordem do dia
a noite vem raptar o que
sobra de um soluço

inte poemas com Brócoli é um livro de 1981. Se aprofunda ainda mais na temática erótica numa descrição de orgias com citações de poetas e obras da literatura mundial. Piva entra nas questões das orgias como rituais tribais, já associando sua ligação intensa com o xamanismo. Piva busca também na mitologia grega alguma sustentação para seu discurso andrógino. São poemas curtos que se pertencem.

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VINTE POEMAS COM BRÓCOLI

última locomotiva. gregos de Homero
sonhando dentro do chapéu de palha
última vozes antes dos lábios &
dos cabelos. sonoterapia voraz.
você adora as folhas que caem
no lago escuro
este é o banquete do poeta
sempre
querendo
penetrar
no caroço
da verdade.
nariz do garoto negro apontando para
a praça apinhada de tucanos sambistas
você tranca o planeta

Baudelaire sangrou na ponte negra do Sena
molécula procurano a brecha do
universo & suas trezentas flores.
assim é a lucidez
o swing das Fleurs du Mal.
completa tortura roendo a
realidade
&
l’immense gouffre.
todas as paixões / convulsões no
espelho. Baudelaire & ses fatigues
rumo à pálida estrela.

Considerada sua obra mais caótica e ensandencida, Quizumba, é um livro escrito depois de 20 poemas com Brócoli. O poeta se encontra com Dante, Riobaldo, cita Exu, e faz muitas homenagens a Jorge de Lima. Alguns poemas são interessantes na forma, parecem listas, cujos “itens” variam de grande achados poéticos a nomes de poetas e figuras da literatura. Quizumba é um bastante provocador.

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VENUS 9

Conversa com Mautner & Jacobina no Ponto Chic / Maracatu que
Gil gravou com voz de crioulo de Quilombo / tradição Villa-Lobos /
dança do índio branco / formidável veneno de pantera / o cometa
toma Crush / Califórnia Sunshine de novo atrás da igreja / guerrilheiro
de emoções / Augusto dos Anjos / San Juan de la Cruz / figuras de alta
voltagem do espírito + Bloody Mary matinal / queria estar no Rio no
Espírito Santo queria comer empadinha na onda preferida de Iemanjá
/ Dante afinou o piano ocidental no buraco ameno do purgatório /
figuras suaves figuras mortas figuras suaves / Claudio Willer olhando
em procissão no presépio da história / este espelho ampliou Napoleão /
lente polida por Espinosa / calpestato dagli Ebrei / mínimo o bater
de asas do anjo da história ouvido pelo conde Von Krosigk / moquecas
de malefícios / na boca torta da tarde / lagartos perdem o fôlego /
as horas espiam.

Ciclones é um livro de 1997. Impressionante mudança. Do Piva fervoroso, estendendo o discurso ao máximo nos primeiros livros, vemos agora um Piva sintético, commuitos poemas curtos, ainda explorando sua temática característica e seu surrealismo. Neste livro, Piva está com 60 anos, utilizando sua profunda influência com o xamanismo, e pensa, sobretudo, que os rituais da umbanda e do candomblé são o retorno ou o modo de manifestação do xamanismo.

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POEMA VERTIGEM

Eu sou a viagem de ácido
nos barcos da noite
Eu sou o garoto que se masturba
na montanha
Eu sou o tecno pagão
Eu sou o Reich, Ferenczi & Jung
Eu sou o Eterno Retorno
Eu sou o espaço cibernético
Eu sou a floresta virgem
das garotas convulsivas
Eu sou o disco-voador tatuado
Eu sou o garoto e a garota
Casa Grande & Senzala
Eu sou a orgia com o
garoto loiro e sua namorada
de vagina colorida
(ele vestia a calcinha dela
& dançava feito Shiva
no meu corpo)
Eu sou o nômade de Orgônio
Eu sou a Ilha de Veludo
Eu sou a Invenção de Orfeu
Eu sou os olhos pescadores
Eu sou o Tambor do Xamã
(& o Xamã coberto
de peles e andrógino)
Eu sou o beijo de Urânio
de Al Capone
Eu sou uma metralhadora em
estado de graça
Eu sou a pomba-gira do Absoluto

Para Piva “Eu, como o Pasolini, não acredito na dialética. O que existe são oposições irreconciliáveis. Acredito naquilo que o Freud afirma em O mal-estar na Cultura: existe um movimento cada vez mais restritivo, não só da vida sexual, mas da subjetividade de modo geral.Quanto ao parentesco entre arte e loucura, acho que o “desregramento de todos os sentidos”, de que falava o Rimbaud, refere-se não propriamente à loucura, mas a um estado de transe. Um estado de transe xamânico, porque Rimbaud era um alquimista, um xamã avant la lettre, que propõe mesmo a “alucinação das palavras”; o termo é dele”.

No blog, lugares onde meu livro CORPO ABERTO pode ser comprado http//pedrolago.blogspot.com

A PROPÓSITO DE PASOLINI

quando você encontra um garoto
perto de um chafariz
& ele se curva para a água
tal qual em Caravaggio
sombra selvagem do crepúsculo
com o sol turquesa
nos cabelos ouriçados
é o momento doente
como um solfejo pagão
depois da orgia
é assim que crescem os deuses
na primavera e seu ardor melancólico
são os anos os povos os garotos videntes
que não broxaram sob as tenazes
dos cegos que perderam a Palavra

Sobre sua poesia, Piva diz que “há uma única forma de se ler os jornais e várias formas de se ler um poema. Cada pessoa enxerga uma coisa diferente na minha poesia, pois, no fundo, ela é muito rica e permite uma enorme variedade de interpretações. A qualidade do arremate literário não exclui a radicalidade das experiências que estão na origem do poema. Mas acho que essa valorização excessiva da fatura pode revelar um certo preconceito contra o dionisismo, a idéia de que o dionisismo é algo superficial. Está errado. O dionisismo é uma das religiões mais profundas que já existiram. Basta ver que uma das suas manifestações produziu o teatro”.

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ESTRANHOS SINAIS DE SATURNO

o fundo do corredor
cheio de ursos mal-assombrados
garoto porco
garota porca
observam o
porco das sombras
transformando no monstro da mídia
os sete sanduíches capitais
o menino estufado de macaco
derruba o disco voador
com um nocaute voador
com um norte da Terra
no festival anual de Sacis
na feira de cerveja Paracelso
na República de Salò
o ditirambo canta na escada
você disse que o brasão dele é
um cisne
onde o Inferno está amarrado
onde o Paraíso voa com a Lua
nos trenós de arroz-doce
no castelo hipnótico de Luís II da Baviera

os imperadores romanos encenaram
a crueldade surrealista
no Teatro Colossal do Coliseu
as feras dançavam no submarino
da religião Pagã
até o último suspiro do lobo da estepe
quando a noite levava os adolescentes
pra cama dos gladiadores
o formigão eletrônico & o Apito selvagem
trocaram de roupa & de farofa
& fizeram
Ebó pra Hermes
no calafrio da palhoça

“A universidade é o túmulo da poesia. Eu só fiz curso superior para poder dar aula. Não podia lecionar com dois livros publicados. Lecionei por quinze anos. Tudo o que me deram para ler na universidade ou era sucata ou eu já havia lido. Insisto em que as universidades devem ser transformadas numa coisa viva, isso é, num terreiro de candomblé. Com pais-de-santo, ou xamãs, no lugar dos professores, de modo a propiciar aos alunos uma verdadeira iniciação. As universidades precisam de um corpo docente e um corpo indecente”. Por aí.

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O CHUTE DO MANDRIL DA MEIA-NOITE

O Império Romano
era assim:
folhas revoltadas revoando
na Via Appia
garotos & garotas cochilando
no colo do imperador
deuses sacralizando
todos os poros
da Terra
o poeta Virgílio ganhou
um garoto de
Augusto
o gladiador PIVOTUS
mergulhou na bacanal
& até hoje não veio
à tona para
tomar fôlego

Eis que chegamos ao final de mais uma antologia poética. Neste mês que passou, percorremos a poesia do Roberto Piva, surrealista, dionisíaco ao seu modo, provocador e necessário no cenário da poesia brasileira. Além de poeta, foi produtor de shows de rock e ensina xamanismo. Semana que vem, teremos um mês especial, onde, tentarei unir duas das minhas grandes paixões, a poesia e o teatro. Até lá.

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SOBRE DIONYSOS

Dionysos, na Grécia Antiga, era o Deus da vegetação, da orgia, do
vinho, da anarquia. Pra começar a falar em Ecologia, precisamos
iniciar a gira invocando Dioysos, que traz a renovação da primavera
& da vegetação.
É importante lembrar Dionysos neste momento em que a Igreja
Católica nos impõe São Francisco de Assis como patrono da Ecologia.
Muitos ecologistas caíram neste conto do vigário, a Igreja Católica
depois da Revolução Francesa & agora, com sua Teologia da Libertação
(ou da Empulhação?), está do lado dos partidos chamados de “esquerda”
& dos trabalhadores.
A Igreja Católica só pode viver à sombra do Poder, qualquer Poder.
No Brasil, quando chegaram as caravelas de Cabral, o primeiro ato
dos padres foi um ato antiecológico: cortaram a primeira árvore brasileira
para fazer a cruz da primeira missa.
Ato seguinte converteram & vestiram os índios para melhor escravizá-los
Por isso inaugurando esta coluna gritamos nosso Evoé a Dionysos patrono
da Ecologia, da anarquia, do vinho & da orgia.
É preciso não confundir Ecologia com jardinagem.
A Ecologia é uma ramificação da Biologia, que estuda as interações entre
os seres vivos & o seu ambiente.
Nos anos 60 quando eu falava de Ecologia, a resposta das pessoas, que se
amontoavam em bandos à direita & à esquerda, era sempre uma profissão
de fé na própria mediocridade. “Com tanta gente passando fome, esse cara
vem falar de natureza”. Como se a vida do cretino não dependesse exatamente
do equilíbrio ecológico. Os trabalhadores têm a CUT, a CGT. A onça pintada
não te sindicato. Os rios não têm sindicato. O mar não tem sindicato.
Eles terão agora o seu Sindicato neste cantinho. Crie você também com os
colegas do bairro, do serviço, do clube, um SINDICATO DA NATUREZA.
Nosso lema será sempre AMOR, POESIA & LIBERDADE. A diversidade é a
Verdade. Viva a diferença! Evoé!

maio 29, 2010

João José de Melo Franco

João José de Melo Franco nasceu em Barretos, interior de São Paulo, no dia 10 de agosto de 1956, às 10:30 da manhã. Filho de Àlvaro e Vera de Melo Franco, o nascimento se deu na casa dos avós maternos. Dois anos depois, muda com a família de Barretos para Indaiatuba, também em São Paulo. Neste mês, teremos a honra de percorrer a poesia de João José de Melo Franco. Vamos lá!

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PÉRIPLO

É noite e as vísceras ainda empurram a máquina de ser.
É noite e o ser insiste , víscero, no coexistir.
É noite e a noite sonha e os sonhos insistem em vir.
É noite e ser ou não ser redunda, é uma velha canção.

Mas, que é a vida senão velha e canção?

Eis aqui… o coração do ator e encena um velho ato…
São velhas palavras, velhas roupagens.
Não resolvemos, persona, o que fomos nem o que
seremos.
Ser, não ser, talvez o nada…
Morrer, dormir, sonhar…
Morrer, óbvio ato.
Dormir, enquanto persistir.
Sonhar… périplo mar! périplo mar!

Em 1973, João José se integra ao movimento estudantil secundarista, participando ativamente da vida política estudantil. O desenvolvimento dentro da linguagem da poesia se dá já no ano seguinte, quando, tendo lido, apreendido e definido como base de sua linguagem os poetas Vinicius de Moraes, Mário de Andrade, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Fernando Pessoa, Augusto dos Anjos e Rilke, publica seus primeiros poemas no jornal do Centro Acadêmico do Colégio Equipe. Também nessa época, paticipava ativamente do Movimento Cineclubista, que realizava sessões com filmes contra a ditadura.

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GLÓRIA

Porque só tu destruiste todo rastro de incerteza
e jogaste fora o coração como um caco de xícara

e o chá derramado como sangue
sobre o livro de Maiakovski
e as contas do colar de falsas pérolas
pelo chão de madeira tão clara e escorregadia

A mancha de sangue é um marco no tempo
se teceis tudo em comparação
“isso como aquilo”

Como rosas, meu bem, abandonadas no jardim,
sufocadas, desfolham como olhos e lágrimas
e já não podem seus espinhos perfurar meus dedos

O amor, minha querida,
é como o corpo de Maiakovski balançando
na sombra da corda de Iessenin

Reprodução de mundos!
as pérolas
e o caos lá onde esteve o coração

Ó Glória! Ó Esperança! Ó Glória!
O espírito vive por antecipação
na espera de um redentor!

Os anos setenta são de muita agitação na vida do poeta. Em setenta e cinco conhece o cineasta paulista Roberto Santos, com quem realiza vários trabalhos e do qual será amigo e colaborador até sua morte em oitenta e cinco. Porém, no mesmo ano, João José é detido pelo DOPS, após sua participação na missa de sétimo dia do jornalista Vladimir Herzog, assassinado pela ditadura, e é fichado por suspeita de participação em movimentos de esquerda, inadmissíveis para o Governo Militar.

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CERIMÔNIA

Alhures onde estará agora
como se fora uma bola de fogo
Os corredores negros, tão negros que as paredes
se enlaçam no nada e desaparecem
e teu corpo, incandescente, brilha e refulge de orgulho
cósmico
entre ataúdes que navegam solenes no vácuo
perpétuo dos amanhãs
Este universo incriado, que habitas em meu sonho,
dá a ti, poeta morto, novo rumo biológico
se te entrelaças em meus átomos, como ideia,
e preenches meu corpo pelo simples ato da aspiração
Em cada ato de minhas mãos refulge o brilho do teu
olhar,
o pendor de tuas paixões, o calor de tuas amadas

e quando asado verso arremesso às paredes do universo
como seta de sentido e verdade e beleza
é a teu corpo que procuro

Átomos do universo, encontrai-nos!
na pobreza simples (abastada solidão)
na saúde de Cristo e Dioniso, na saúde
dos fazedores de vinho
e à doença atira as carnes
quando a morte, derradeira cerimônia,
de belos sonhos nos separe!

No final dos anos setenta, mais precisamente em setenta e sete, o poeta integra o grupo estudantil Refazendo, que se opunha ao grupo radical Liberdade e Luta. No mesmo ano, João José conhece aquele que seria seu grande amigo, o poeta Juvenal Juvêncio, com quem tem forte relação literária. Ainda estudando Cinema na USP, João José ingressa no curso de Filosofia da USP. Definitivamente seu caminho intelectual ganhava corpo. Os poemas dessa semana foram extraídos do livro Périplo, com poemas de 1984 a 1994.

poema O Grande Livro no blog http://pedrolago.blogspot.com

A VIZINHA

As mãos, intocadas,
apanham o ar da noite gelada.
À janela expõe o coração singelo
embora a idade não lhe permita a doçura
e a meiguice do olhar.
Dizem: não fica bem para uma mulher,
depois de certa idade, carregar nos olhos
o fulgor das flores de laranjeira.
No ar gelado do cômodo solitário
os bicos dos seios endurecem e o
oco vão entre as pernas é como se não portasse
a áspera cor de certos desejos…
Oco no olhar, é como se não houvesse
úbere e já não pudessem cantar
os pássaros na primavera.
No entanto, porque é mulher, e porque
a cerca a cidade, que também é feminino,
aplaca o tempo de um só golpe
com o simples sal do chorar.

No início dos anos 80, João José publica seu segundo livro Esse louco desejo, um livro que homenageia os poetas do Modernismo. Conclui o curso de filosofia em 81, publica seu terceiro livro Amor-perfeito, em 82, e conclui o curso de Grego e Latim. Nesse momento houve uma guinada intelectual, a partir de então, João José percorreria uma linha metafísica em sua linguagem. Vai para França, onde faz mestrado, estudando os fenômenos linguísticos, tendo como base a canção de gesta Chanson de Roland.

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OCASO

Hoje, uma poderosa tristeza,
pantanosa, irremediável, invadiu-me a alma.
Ou, mais, brotou dela, translúcida e terrivelmente bela.
E cresceu tão rápido, tão segura de si,
tão lamentavelmente cega,
rasgando meus pensamentos mais ternos.
Não era a morte,
pois a morte me é terna neste entardecer desértico,
em que caminho para além das costas rochosas,
entre intervalos de areias lambidas pelo mar.
Que maldição a tua,
que vem me visitar no funeral de mais um dia,
em que incansavelmente entrego-me absorto de agonia,
mal dando para colher-te as lágrimas de viúva,
tão desejada intocada esposa.
Abrupto me vem do norte o chamado,
de pôr minha cabeça a prêmio,
na guilhotina prateada pela clara luz do Cruzeiro,
estica-se o pescoço pronto para o abate,
a noite, o torniquete e, por fim,
o alarde das aves cantoras,
que me bicam o cérebro inerte,
mergulhado na seca sopa de mais um ocaso,
o esposo de uma deusa dolorosa,
que chora de seu amor.

A metade dos anos 80 foi de estruturação intelectual e de expansão, em virtude do término de alguns ciclos acadêmicos e de viagens para a Europa. Em 84 conclui sua tese de mestrado e segue para a Itália, onde estuda semiótica na Universidade de Bologna. Enquanto isso, é publicado no Brasil o Pequeno Dicionário de Termos Literários, essencial peça para a compreensão do universo literário, tendo como sabe a literatura brasileira com especial devoção à poesia. Não fica por aí.

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CAFÉ COM MEU PAI

Debaixo de um pé de café
sepultei o corpo de meu pai,
com o rosto voltado para as ramas,
de modo que seus olhos
seguissem sempre num horizonte verde,
e as narinas, um cheiro doce,
capaz de matar sua sede.
Também para que tivesse sombra nos dias de sol
e muitos companheiros de viagem,
como ele, plantados no cafezal.
Colhe agora o que deu em vida
e o que dele ficou inútil, o corpo,
assim continua a ainda palpita.

Agora que envelheço,
bebo café de outro jeito.
Não só para abrandar o peito,
não só para acender o pito,
mas para rever seu rosto,
um cafezal, e assim existo.

Em 1985, João José segue para a Alemanha, onde inicia doutorado com o linguísta Eugenio Coseriu. É publicado no Brasil o Dicionário Universal Três, com biografias de personalidades da história universal, escrito em parceria com seu amigo Juvenal Neto e com Ignácio de Loyola Brandão, e que será, ate 2006, sua última publicação. Conclui o doutorado em 87 e retorna ao Brasil, onde tentará até 91, a carreira como professor.

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MANHÃ

Esta manhã nasceu do silêncio.
Nenhuma ave gorjeia, nenhum vento agita a onda, o mar
é um espelho.
Ouço distante teus passos pela casa.
Teu sol ameaça levantar-se, lança um tímido amarelo
entre os verdes além da janela e o mar…
Sei que estou ali, apoiado no beiral, esquecido da
paisagem
os olhos assistindo, admirados, o agitar de tuas mãos,
e o faro a ir e vir do teu perfume ao odor do café,
nascendo de uma medida perfeita,
como se soubesses quantas partículas de pó negro
cabem exatos numa gota de água quente.
E te sinto enrubescida de saber que meu olhos te seguem.
Vejo-te preocupada de não mostrar o quanto sentes,
de modo a evitar que o amor desabe sobre ti
e te paralise os afazeres,
numa tão grande alegria que poderias gritar o teu espanto
e chorar todas as manhãs em que não tiveste a chance de a
isto renunciar.

m 1994, João José abandona a escrita e se volta completamente para a publicidade. Ficaria 10 anos sem escrever, dedicando-se à leitura e a estudos sobre a psicologia de Jung. Agora em 2005, volta a escrever poemas, e seu envolvimento na carreira publicitária diminui, contribuindo apenas esporadicamente. Em 2006, muda-se para o Rio de Janeiro, onde conhece a poeta e editora Thereza Christina Rocque da Motta, com quem começa a trabalhar como editor pela Ibis Libris.

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DIÁRIOS DE AMOR PERDIDO XIII

Ele esperou…
Tanto, tanto, tanto…
E esperou de tal modo,
como se fora sua sina e o mais íntimo fado,
que não mais lembrava quantas vezes virara a ampulheta.

E a virara tanto, tanto, tanto…
que apagou a hora e afastou o pranto,
até se transformar no girar dessa ampulheta e, depois,
na areia que caía e recaía e, finalmente,
no deserto de onde trouxeram a areia.

Assim, homem-deserto,
na mais negra de suas noites,
fitou perplexo a abóbada repleta de astros,
onde divisou as constelações copulando há bilhões de
anos,
muito antes da espécie humana florescer sobre a terra,
então imarcescida…

Assim, homem-deserto,
entendeu, pela primeira vez, que a vida é portal e passagem
e, por isso, já passado…
Que do passado a saudade nos aferra e aprisiona
e o tempo é seu cárcere.

Todos os homens do mundo já foram esse homem.

Após 20 anos de ausência no mercado editorial, João José, morando no Rio de Janeiro, publica O mar de Ulisses (cujos poemas vimos na semana passada), livro este que tem como base a Odisséia de Homero. Em 2007, publica Diários de Amor Perdido (poemas desta semana), com poemas escritos na Alemanha e entre 2006 e 2007.João voltara definitivamente ao mercado editorial, publicando essencialmente poesia.

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ÊXODO

Reconstruo meu cérebro com o que restou de ti,
como se caminhasse nas ruas
com a massa inerme nas mãos.
Como se em mim já não coubesse mais
o instrumento com que organizei paisagem
que fiz com o que não pude ver,
como se nada mais sentisse do que fiz ou fui.
Assim, não parece tão má a enorme desesperança,
em que o desesperar não mais aflige a palavra amor,
que agora flutua inerte entre meus dentes sem fome,
como se soubessem de uma morte sem medo,
e para ela sorrissem, vazios,
como no vazio me dissipo,
através do amor que por aí deixei.

João Jose diz que “nunca assinou manifestos literários, nem viveu vanguardas”. Foram os “bondes que perdeu”, disse ele no prefácio de Homens do Povo, livro ainda inédito. Nos anos 70, o jovem João comprava seus livros na Livraria Ler, na Praça da República, onde tinha crediário. Também comprava livros no Sebo Coimbra, na Benjamim Constant. Tudo em São Paulo. João elegeu como sua vanguarda literária os poetas Vinicius de Moraes, Mário de Andrade, Drummond, Bandeira, Murilo Mendes, Jorge de Lima e Augusto dos Anjos, pois “era o que tinha”. Veio a saber o que era Concretismo no final dos anos 70.

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ACEITAÇÃO DA DOR

Estive à tua porta.
Eu tinha sede e me era cara a tua imagem.
Eu abri os olhos e não te vi.
Já não havia ali a tua imagem.
Eu devia ter vivido quando ainda havia a coisa que vive.
Agora procuro e estou no escuro de um portal
que não é mais o teu, mas o meu.
Por isso estou só e sinto medo por tudo que não posso ver.
Há um terror nesta vida que só vem na solidão.
Eu senti que sempre foi assim, mas jamais me entreguei.
Agora, vem como a cara da morte, que não pode ver.
Quero gritar, mas tornou-se oco e sem sentido.
No entanto, é preciso caminhar pelo vale da morte,
é preciso morrer sem pronunciar ais,
reencontrar na miséria de tantos caminhos já percorridos uma
chama,
saber que mais um caminho veio e não há ninguém onde
descansar.

Estrela que tudo reúne,
a dor começou a caminhar.
Ergue o fogo de tuas labaredas para além do visível,
e permite, por hora, ser um pálido reflexo
do fulgurante brilho, que espero, mísero e inferior,
ao fim tocar.

João diz que “não sabe a qual geração de poetas pertenceu”. Tendo sido um rapaz pobre, e por isso, objetivo nos estudos, e ainda ter tido que trabalhar desde cedo, não teve muito contato com a chamada Geração Mimeógrafo que surgia nos anos 70, mesmo tendo conhecido alguns poetas. Sua grande influência foi o poeta Juvenal Neto, única figura com quem, de fato, compartilhava ideias sobre poesia e literatura. Porém, o amigo teve morte precoce em 1991.

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OGUM

A espada, o arado e a enxada – de ferro ele fez.
A espada previne,
o arado rasga a terra,
a enxada tanto junta quando cobre.
E então há paz, a terra é arada
e é deitada a semente.
Quando Iansã faz sexo, chove.
E é assim que sobre o pacífico dom da terra
o fruto vem e alimenta o homem.
E é porque o fruto vem, que dão de fazer guerra,
a maldição de que tudo o que dá vida,
dá morte também.
A espada, pendor de justiça, é um medo que vira arma,
e para ela não há sangue que baste
para cobrir o campo que o arado fez
e sufocar a semente que a enxada bem escondeu.
Em toda paz há um gosto de sangue sobre ferro
e o nome disso é fome.

João José diz que o máximo de envolvimento que teve com um conjunto de ideias, ou grupo literário, foi a Metafísica. Leu Pessoa, Rilke, Eliot, Pound, Éluard, Valéry, os filósofos,Wittgenstein, Heidegger, Nietzsche, clássicos como Homero, Sapho, Píndaro, Eurípides, Sófocles, Virgílio, Ovídio, e os modernos, Pedro Abelardo, Vico, Bruno, e Balzac, e Goethe, e Joyce, e Camus, e um sem fim de autores e obras. Mais sobre a Metafísica na semana que vem.

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xangô

Ulisses, rei e guerreiro grego, que vagou por vinte anos
enfrentando fortes batalhas e vivendo gloriosas aventuras,
amava somente a uma mulher, a doce e fiel Penélope. Xangô,
guerreiro e rei de Ifé, amava logo três: Iemanjá, a mãe, Oxum,
a amante, e Insã, a companheira. E por elas, Xangô, como
Ulisses por sua Penélope, lutava até. Ulisses e Xangô, ambos
reis, guerreiros e astuciosos. Mas isso é tudo que os assemelha
e em nada mais são par a par. Porque Ulisses amava somente
a uma mulher e Xangô amava logo três. Porque Ulisses, que
muito lutou, e que por isso virou semideus, entrou para a
história e de suas lutas faz inspirar, mas Ulisses já não luta,
Ulisses não luta mais. Já Xangô, que também muito lutou,
ainda segue a lutar, e luta ainda pelas três amadas, e é por isso
que ainda vive e é o santo desse lutar, que todo homem bem
conhece, que é a luta do amor, que é a luta do amar. E essa é
a justiça de Xangô, a justiça do amor, que todo homem bem
conhece e, como o próprio Xangô, crê que por ela vale brigar.
E essa é uma briga que todo mundo entende. Não é à toa que
Xangô, comparado a Ulisses, é muito mais popular. Ao menos
aqui, por essas bandas, em que por tudo se luta e na luta segue
a sonhar.

Sobre sua relação com a poesia e a metafísica, João José diz que: “Lidar com uma poesia, que tem em sua base o homem real, de carne e osso, mas que também toma o corpo da humanidade como pano fundo, dando a ele um senso comum que transcende o imediato e o eleva à condição de catalisador de forças mais amplas, de sentido cósmico e espiritual, é o mesmo que fazer o caminho inverso das religiões, que, no mais, desejam sempre levar o homem a deus.” Hoje, dois poemas de Os Homens do Povo, livro ainda inédito.

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GEOGRAFIA

Não vai ler além e o que a paisagem sempre esconde,
para lá da janela, em que não há mundo,
só o desenho ideal da tarde em morte,
as palavras que se perdem no vôo dos pássaros,
inclassificáveis pela distância,
e logo os olhos
estarão a obliterar a geografia do que se não pode tocar
com os anseios do ego-olhar.

Em sombras, geografia vã de tua essência,
a casa inútil em que paralelamente existes,
como paralelas e sem sentido são as janelas nas paredes
e o mundo nelas recortado, aparentemente belo e sem dor,
adornado pelo alarido de crianças e o latir dos cães.

Na outra janela, a outra paisagem,
menos colorida, mais profunda, aceno de eternidade,
a misteriosa cortina dos sonhos,
que fechamos à espera.

CIDADE

Na madrugada bateram em minha porta.
Eram os mortos.
Clamavam por algo que pudesse lhes matar a sede.
Eu bem sabia não ser água
o que havia de matar-lhes a sede.
Eu bem sabia a sede que sentiam
e que água alguma há para matá-la.

Era o cheiro da cidade o que queriam,
o cheiro da fuligem,
o senso pleno na vertigem dos cheiros
nascidos de milhares de fontes de suor.
O cheiro de suas casas,
dos armários entulhados de suas coisas,
que, sem eles, parecem inúteis e são dadas,
por misericórdia, ou para os esquecerem,
e para se livrarem de seus cheiros mortos.

Homens que foram, só agora o sabem
do faro que os guiou nessa vida de porco-odor.
E porcos que foram, só agora se sabem
seguidores da vida e de seu acre odor.
Homens-porcos que foram,
farejam agora o verdadeiro cheiro do corpo,
do seu amor-porco, do seu apego pútrido e louco,
matéria de sua carne histórica,
nos chiqueiros quânticos dessas ruas insones.

Esquecidos habitantes dos umbrais…
Por seus guinchos bestiais abro meu peito e canto,
um hino de horror a esta fétida morada,
testemunho de uma alma incurável e franca,

meu bafo poético, podre por perenidade,
pá de cal, grãos de terra, pétalas semimortas,
e minhas palavras, olfato e tato, minha alavanca.

Breve história: Conheci João José no café de uma livraria no Leblon. Eu estava um pouco angustiado por não ter recebido resposta de uma editora para o projeto de meu livro. Ele estava sentado com a poeta e minha amiga Juliana Hollanda, que o me apresentou. Contei a ele sobre o livro e ele me disse: “manda para mim que resolvo em dois tempos pra você”. Dito e feito. Além da edição do livro, uma amizade se iniciou. Através dele li Virgílio, Luis de Góngora, Horácio, Thereza Christina Rocque da Motta, Afonso Henriques Neto, Alphonsus de Guimaraens Filho, Ovídio e muito de mitologia grega. Mais ou menos por aí.

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CADERNO DE ANOTAÇÕES

Nada cumpri na vida senão em palavras.
As árvores que plantei feneceram,
ou por outras, mais afeitas ao solo,
foram ensombreadas e finalmente esquecidas.
Os filhos, não os tive, ou, talvez não os saiba,
são como o pai, errantes viajantes de desertos.
Os livros foram feitos, mas não se fizeram,
como se fazem a si mesmos os livros,
e até os vi vendidos por peso em troca de algum dinheiro,
e este, sim, talvez tenha dado alimento a alguém.

Hoje, ante as inúmeras quedas do caminho,
ou a contínua e desafortunada busca do ouro,
conheço bem mais o chão,
ou, talvez, a ele me assemelhe mais agora.
Hoje, que me sei mais só,
vejo-me livre de ter gerado uma prole de solitários,
ou, talvez, inconscientemente, os tenha por mortos,
e, assim, de modo inconsciente, ainda os ame.
Hoje, a lide com as palavras não mais se sabe livro,
e quer seja devotada indiferentemente
a traduzir a crueldade ou a beleza da vida,
busca instintivamente, modo super-humano,
a simplicidade de um caderno de anotações,
onde as palavras, perdidas as isenções da poesia,
e adquirida a translucidez no rosto e no espelho,
fluem como sangue, o rio-tinta.

Eis que chegamos ao final de mais uma antologia. Nesse mês, conhecemos um pouco da poesia de João José de Melo Franco, poeta metafísico, editor e amante do Rio de Janeiro. Veio de Barretos, estudou semiótica, grego e latim, e que se considera sem geração. Semana que vem entraremos num outro universo poético, com outras proposições, outras cores, outras facetas da poesia, enfim, outros poemas. Até!

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ORAÇÃO AOS POETAS DO AMOR

A minha amiga, Glaucia Dunley.

Quisera fossem as orações tristes poemas de amor.
Assim, mesmo sem amor, os amantes teriam seu consolo
e certa esperança de que curassem as feridas
as palavras poéticas, proferidas como se fossem as de todo o povo.
Não é o mesmo que prometeram os teus santos, senhor?
Agora e na hora de nossa morte?
Então, não morre também o amor?
Os poemas de amor, os mais tristes, são como o animal sacrificado,
que por nós morre, e nos purifica e, embora breve,
nos dá um chão no céu, para nossos passos incertos
e nossa fé apócrifa, como a vossa mão, senhor,
em nossos enganos, a redenção de nossos sonhos,
mesmo a quem nunca o encontrou, o amor,
e nunca o deixou de procurar, mesmo o amor apedrejado,
e mesmo o amor traído, que nos cegam o coração,
cabem todos em um poema triste de amor,
ainda que não tenha a cura, nem o mistério do perdão.

maio 29, 2010

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto nasceu no dia 9 de janeiro, no Recife, no ano de 1920. Nasceu na rua da Jaqueira, que depois se chamou Leonardo Cavalcanti. Segundo filho de Luiz Antônio Cabral de Melo e de Carmem Carneiro-Leão Cabral de Melo. Primo, pelo lado paterno, de Manuel Bandeira, e pelo materno de Gilberto Freire. Neste mês, temos a honra e a responsabilidade de percorrer a obra deste incrível poeta brasileiro. Vamos ver no que dá!

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DENTRO DA PERDA DA MEMÓRIA

Dentro da perda da memória

uma mulher azul estava deitada

que escondia entre os braços

desses pássaros friíssimos

que a lua sopra alta noite

nos ombros nus do retrato.

E do retrato nasciam duas flores

(dois olhos dois seios clarinetes)

que em certas horas do dia

cresciam prodigiosamente

para que as bicicletas de meu desespero

corressem sobre seus cabelos.

E nas bicicletas que eram poemas

chegavam meus amigos alucinados.

Sentados em desordem aparente,

ei-los a engolir regularmente seus relógios

enquanto o hierofante armado cavaleiro

movia inutilmente seu único braço.

O pequeno João passa a infância em engenhos de açucar. Primeiro no Poço do Aleixo (em São Lourenço da Mata), e depois nos engenhos Pacoval e Dois Irmãos (município do Moreno). No ano de 1930, a família se muda para o Refice, onde o pequeno João faz o curso primário. Em 1935, é campeão juvenil de futebol pelo Santa Cruz Futebol Clube. Já aos dezessete, trabalha na Associação Comercial de Pernambuco e depois do Departamento de Estatística do Estado. A literatura viria depois.

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A MULHER NO HOTEL

A mulher que eu não sabia

(rosas nas mãos que eu não via,

olhos, braços, boca, seios),

deita comigo nas nuvens.

Nos seus ombros correm ventos,

crescem ervas no seu leito,

vejo gente no deserto

onde eu sonhara morrer.

Terei de engolir a poeira

que seus cabelos levantam

e pousa na minha alma

me dando um gosto de inferno?

Terei de esmagar crianças?

Pisar as flores crescendo?

Terei de arrasar as cidades

sob seu corpo um cemitério

onde um seu pé plantarei.

Vou cuspir nos olhos brancos

dessa mulher que eu não sei.

Em 1938, João Cabral começa a frequentar a roda literária do Café Lafayette, onde conhece o intelectual Willy Lewin e o pintor Vicente do Rego Monteiro, que regressara de Paris em virtude da guerra. O jovem, ainda sorvendo de suas companhias, iria ter grande curiosidade no universo da pintura. Um ano depois, viaja a serviço para Belém do Pará, porém, a viagem de maior importância aconteceu depois. Os Três Mal-Amados foi publicado em 1943, depois de seu primeiro livro, Pedra do Sono, e se tornou bastante conhecido, sobretudo a fala de Joaquim.

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Os Três Mal-Amados

fala de Joaquim

(trechos)

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato.

O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço.

O amor comeu meus cartões da visita. O amor veio e comeu todos os papéis

onde eu escrevera meu nome.

(…)

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas.

O amor comeu metros e metros de gravatas.

O amor comeu a medida dos meus ternos, o número dos meus sapatos,

o tamanho de meus chapéus.

O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

(…)

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas.

Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas meus raios-X.

Comeu meus testes mentais,meus exames de urina.

(…)

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia.

Comeu em meus livros de prosa as citações em verso.

Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos

(…)

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite.

Meu inverno e meu verão. Comeu meu silencio, minha dor de cabeça,

meu medo da morte.

Em 1940, João Cabral, ainda com vintes anos, viaja com a família para o Rio de Janeiro, então, capital do Brasil. No Rio, conhece o poeta Murilo Mendes, principal referência de poesia na época, que o apresenta a um poeta que despertara interesse no jovem João, o poeta era Carlos Drummond de Andrade. Ficaram amigos. O encontro foi realizado num círculo literário no consultório do poeta Jorge de Lima. João conhecera a segunda geração do modernismo.

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A CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Não há guarda-chuva

contra o poema

subindo de regiões onde tudo é surpresa

como uma flor mesmo num canteiro.

Não há guarda-chuva

contra o amor

que mastiga e cospe como qualquer boca,

que tritura como um desastre.

Não há guarda-chuva

contra o tédio:

o tédio das quatro paredes, das quatro

estações, dos quatro pontos cardeais.

Não há guarda-chuva

contra o mundo

cada dia devorado nos jornais

sob as espécies de papel e tinta.

Não há guarda-chuva

contra o tempo,

rio fluindo sob a casa, correnteza

carregando os dias, os cabelos.

Em 1941, João Cabral participa do Congresso de Poesia do Recife, onde apresenta Considerações sobre o poeta dormindo. Um ano depois viria o primeiro livro, Pedra do Sono. Meses depois, no Rio de Janeiro, é convocado para servir à FEB, porém, é dispensado por motivo de saúde. No Rio, João não perde tempo e começa a frequentar as rodas do Café Amarelinho e do conhecido Café Vermelhinho, onde iam intelectuais, políticos e outras personalidades como Tomás Santa Rosa, Carlos Castelo Branco, Carlos Drummond e outros. O poeta estava definitivamente inserido.

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PEQUENA ODE MINERAL

Desordem na alma

que se atropela

sob esta carne

que transparece.

Desordem na alma

que de ti foge,

vaga fumaça

que se dispersa,

informe nuvem

que de ti cresce

e cuja face

nem reconheces.

Tua alma foge

como cabelos,

unhas, humores,

palavras ditas

que não se sabe

onde se perdem

e impregnam a terra

com sua morte.

Tua alma escapa

como este corpo

solto no tempo

que nada impede.

Procura a ordem

que vês na pedra:

nada se gasta

mas permanece.

Essa presença

que reconheces

não se devora

tudo em que cresce.

Nem mesmo cresce

pois permanece

fora do tempo

que não a mede,

pesado sólido

que ao fluido vence,

que sempre ao fundo

das coisas desce.

Procura a ordem

desse silêncio

que imóvel fala:

silêncio puro,

de pura espécie,

voz de silêncio,

mais do que a ausência

que as vozes ferem.

O livro O engenheiro foi publicado em 1945, custeado pelo poeta Augusto Frederico Schmidt. Neste mesmo ano, João Cabral faz concurso para a carreira diplomática, e é nomeado em dezembro. Porém, no ano de 1945, o fato mais marcante foi a morte de Mário de Andrade. Os poetas surgidos nesta geração, a chamada Geração de 45, chegariam com uma proposta mais rígida, contra as inovações dos modernistas de 22. João Cabral, mesmo sendo sendo um poeta que, esteticamente, não se filiaria a nenhum movimento, foi incluído neste grupo.

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ANTIODE

(contra a poesia dita profunda)

Poesia, te escrevia:

flor! conhecendo

que és fezes. Fezes

como qualquer,

gerando cogumelos

(raros, frágeis cogu-

melos) no úmido

calor de nossa boca.

Delicado, escrevia:

flor! (Cogumelos

serão flor? Espécie

estranha, espécie

extinta de flor, flor

não de todo flor,

mas flor, bolha

aberta no maduro.)

Delicado, evitava

o estrume do poema,

seu caule, seu ovário,

suas intestinações.

Esperava as puras,

transparentes florações,

nascidas do ar, no ar,

como as brisas.

Depois, eu descobriria

que era lícito

te chamar: flor!

(Pelas vossas iguais

circunstâncias? Vossas

gentis substâncias? Vossas

doces carnações? Pelos

virtuosos vergéis

de vossas evocações?

Pelo pudor do verso

- pudor de flor -

por seu tão delicado

pudor de flor,

que só se abre

quando a esquece o

sono do jardineiro?)

Depois eu descobriria

que era lícito

te chamar: flor!

(flor, imagem de

duas pontas, como

uma corda). Depois

eu descobriria

as duas pontas

da flor; as duas

bocas da imagem

da flor: a boca

que come o defunto

e a boca que orna

o defunto com outro

defunto, com flores,

- cristais de vômito.

Como não invocar o

vício da poesia: o

corpo que estorpece

ao ar de versos?

(Ao ar de águas

mortas, injetando

na carne do dia

a infecção da noite.)

Fome de vida? Fome

de morte, frequentação

a morte, como de

algum cinema.

O dia? Árido.

Venha, então, a noite,

o sono. Venha,

por isso, a flor.

Venha, mais fácil e

portátil na memória,

o poema, flor no

colete da lembrança.

Como não invocar,

sobretudo, o exercício

do poema, sua prática,

sua lânguida horti-

cultura? Pois estações

há, do poema, como

da flor, ou como

no amor dos cães;

e mil mornos

enxertos, mil maneiras

de excitar negros

êxtases; e a morna

espera de que se

apodreça em poema,

prévia exalação

da alma defunta.

Poesia, não será esse

o sentido em que

ainda te escrevo:

flor! (Te escrevo:

flor! Não uma

flor, nem aquela

flor-virtude – em

disfarçados urinóis.)

Flor é a palavra

flor, verso inscrito

no verso, como as

manhãs no tempo.

Flor é o salto

da ave para o vôo;

o salto fora do sono

quando seu tecido

se rompe; é uma explosão

posta a funcionar,

como uma máquina,

uma jarra de flores.

Poesia, te escrevo

agora, fezes, as

fezes vivas que és.

Sei que outras

palavras és, palavras

impossíveis de poema.

Te escrevo, por isso,

fezes, palavra leve,

contando com sua

breve, Te escrevo

cuspe, cuspe, não

mais; tão cuspe

como a terceira

(como usá-la num

poema?) a terceira

das virtudes teologais.

Aos 26 anos, João Cabral trabalha no Departamento Cultural do Itamaraty, no Departamento Político e depois da Comissão de Organismos Internacionais. Casa-se com Stela Maria Barbosa de Oliveira e, meses depois, nasce seu primeiro filho, Rodrigo. A vida do poeta começa a ficar agitada com sua ida para Barcelona, Espanha, que lhe despertaria uma imensa ternura. Lá, começa a publicar, numa tipografia artesanal, poetas brasileiros e espanhóis. Em 1947, aos 27 anos, nasce sua filha Inês. A Espanha entrara de vez na vida do poeta.

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O CÃO SEM PLUMAS

(trechos)

A cidade é passada pelo rio

como uma rua

é passada por um cachorro;

uma fruta

por uma espada.

O rio ora lembrava

a língua mansa de um cão,

ora o ventre triste de um cão,

ora o outro rio

de aquoso pano sujo

dos olhos de um cão.

Aquele rio

era como um cão sem plumas.

Nada sabia da chuva azul,

da fonte cor-de-rosa,

da água do copo de água

da água de cântaro,

dos peixes de água,

da brisa na água.

(…)

Entre a paisagem

o rio fluía

como uma espada de líquido espesso.

Como um cão

humilde e espesso.

Entre a paisagem

(fluía)

de homens plantados na lama;

de casas de lama

plantadas em ilhas

coaguladas na lama;

paisagem de anfíbios

de lama e lama.

Como o rio

aqueles homens

são como cães sem plumas

(um cão sem plumas

é mais

que um cão saqueado;

é mais

que um cão assassinado.

Um cão sem plumas

é quando uma árvore sem voz.

É quando de um pássaro

suas raízes no ar.

É quando a alguma coisa

roem tão fundo

até o que não tem).

Em 1949, nasce seu filho Luiz. João Cabral reside agora na Catalunha, e lá, escreve um ensaio sobre o pintor Miró, cujo estúdio frequentava. O pintor faz publicar o texto em português com suas primeiras gravuras em madeira. O Cão sem Plumas é publicado depois. Em 1952, João Cabral é removido para o Brasil para responder um inquérito sob a acusação de subversão. Escreve O Rio, com o qual recebe o Prêmio José de Anchieta. É colocado em disponibilidade não remunerada pelo Itamaraty enquanto responde ao inquérito. Arquivado o inquérito, vai para Pernambuco onde é recebido em sessão solene pela Câmara Municipal.

poema Dedos no blog http://pedrolago.blogspot.com

O RIO

Sempre pensara em ir

caminho do mar.

Para alguns bichos e rios

nascer já é caminhar.

Eu não sei o que os rios

têm de homem do mar;

sei que sente o mesmo

e exigente chamar.

Eu já nasci descendo

a serra que se diz do Jacarará,

entre caraibeiras

de que só sei por ouvir contar

(pois, também como gente,

não consigo me lembrar

dessas primeiras léguas

de meu caminhar).

Desde tudo que me lembro,

lembro-me bem de que baixava

entre terras de sede

que das margens me vigiavam.

Rio menino, eu temia

aquela grande sede de palha,

grande sede sem fundo

que águas meninas cobiçava.

Por isso é que ao descer

caminho de pedras eu buscava,

que não leito de areia

com suas bocas multiplicadas.

Leito de pedra abaixo

rio menino eu saltava.

Saltei até encontrar

as terras fêmeas da Mata.

Os anos cinquenta foram de muita produção e importantes para o desenvolvimento de sua linguagem. Foi convidado para o Congresso Internacional de Escritores em 1954, assim como para o Congresso Nacional de Poesia (não sei porque ainda não há). Publica no mesmo ano Poemas Reunidos, pela Editora Orfeu. Também é, enfim, reintegrado à carreira diplomática pelo Supremo Tribunal Federal e passa a atuar no Departamento Cultural do Itamaraty. A partir daí, sua presença se torna mais firme no cenário poético brasileiro.

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FÁBULA DE JOAN BROSSA

Joan Brossa, poeta frugal,

que só come tomate e pão,

que sobre papel de estiva

compõe versos a carvão,

nas feiras de Barcelona,

Joan Brossa, poeta buscão,

as sete caras do dado,

as cinco patas do cão

antes buscava, Joan Brossa,

místico da aberração,

buscava encontrar nas feiras

sua poética sem-razão.

Mas porém como buscava

onde é o sol mais temporão,

pelo Clot, Hospitalet,

onde as vidas de artesão,

por bairros onde as semanas

sobram da vara do pão

e o horário é mais comprido

que fio de tecelão,

acabou vendo, Joan Brossa,

que os verbos do catalão

tinham coisas por detrás

eram só palavras, não.

Agora os olhos, Joan Brossa

(sua trocada instalação),

voltou às coisas espessas

que a gravidez pesa ao chão

e escreveu um Dragãozinho

denso, de copa e fogão,

que combate as mercearias

com ênfase de dragão.

Em 1955, dois “presentes”: o nascimento de sua filha Isabel e o Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras. Um ano depois, a Editora José Olympio publica Duas Águas, livro que reúne seus livros anteriores e os inéditos: Morte e Vida Severina, Paisagem com Figuras (o poema de hoje é desse livro) e Uma faca só lâmina. No mesmo ano, é removido para Barcelona, com a missão de fazer pesquisas históricas no Arquivo das Índias de Sevilha, onde reside. Sevilla para herir disse o Lorca uma vez, e o Cabral também teria o mesmo fascínio pela cidade que cantaria mais tarde.

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ENCONTRO COM UM POETA

Em certo lugar da Mancha,

onde mais dura é Castela,

sob as espécies de um vento

soprando armado de areia,

vim surpreender a presença,

mais do que pensei, severa,

de certo Miguel Hernández,

hortelão de Orihuela.

A voz desse tal Miguel,

entre palavras e terra

indecisa, como em Fraga

as casas o estão da terra,

foi um dia arquitetura,

foi voz métrica de pedra,

tal como, cristalizada,

surge Madrid a quem chega.

Mas a voz que percebi

no vento da parameira

era de terra sofrida

e batida, terra de eira.

Não era a voz expurgada

de suas obras seletas:

era uma edição do vento,

que não vai às bibliotecas,

era uma edição incômoda,

a que se fecha a janela,

incômoda porque o vento

não censura mas libera.

A voz que então percebi

no vento da parameira

era aquela voz final

de Miguel, rouca de guerra

(talvez ainda mais aguda

no sotaque da poeira;

talvez mais dilacerada

quando o vento a interpreta).

Vi então que a terra batida

do fim da vida do poeta,

terra que de tão sofrida

acabou virando pedra,

se havia multiplicado

naquelas facas de areia

e que, se multiplicando,

multiplicara as arestas.

Naquela edição do vento

senti a voz mais direta:

igual que árvore amputada,

ganhara gumes de pedra.

No ano de 1958, João Cabral é removido para Marselha. Depois, recebe o prêmio de melhor autor no Festival Nacional de Teatro Estudante, realizado no Recife. Vai para Lisboa onde publica Quaderna. Vai para Madrid onde publica Dois parlamentos. Nessa altura, suas proposições em poesia estão mais do que claras, que ficam ainda mais em evidência em suas conferências.

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MORTE E VIDA SEVERINA

O retirante explica ao leitor quem é e a que vai

O meu nome é Severino,

não tenho outro de pia.

Como há muitos Severinos,

que é santo de romaria,

deram então de me chamar

Severino de Maria;

como há muitos Severinos

com mães chamadas Maria,

fiquei sendo o da Maria

do finado Zacarias.

Mas isso ainda é pouco:

há muitos na freguesia,

por causa de um coronel

que se chamou Zacarias

e que foi o mais antigo

senhor desta sesmaria.

Como então dizer quem fala

ora a Vossas Senhorias?

Vejamos: é o Severino

da Maria do Zacarias,

lá da serra da Costela,

limites da Paraíba.

Mas isso ainda diz pouco:

se ao menos mais cinco havia

com nome de Severino

filhos de tantas Marias

mulheres de outros tantos,

já finados, Zacarias,

vivendo na mesma serra

magra e ossuda em que eu vivia.

Somos muitos Severinos

iguais em tudo na vida:

na mesma cabeça grande

que a custo é que se equilibra,

no mesmo ventre crescido

sobre as mesmas pernas finas,

e iguais também porque o sangue

que usamos tem pouca tinta.

E se somos Severinos

iguais em tudo na vida,

morremos de morte igual,

mesma morte severina:

que é a morte de que se morre

de velhice antes dos trinta,

de emboscada antes dos vinte,

de fome um pouco por dia

(de fraqueza e de doença

é que a morte severina

ataca em qualquer idade,

e até gente não nascida).

Somos muitos Severinos

iguais em tudo e na sina:

a de abrandar estas pedras

suando-se muito em cima,

e de tentar despertar

terra sempre mais extinta,

a de querer arrancar

algum roçado a cinza.

Mas, para que me conheçam

melhor Vossas Senhorias

e melhor possam seguir

a história de minha vida,

passo a ser o Severino

que em vossa presença emigra.

Início dos anos 60. João Cabral é nomeado chefe do gabinete do ministro da Agricultura, Romero Cabral da Costa, volta ao Brasil e reside em Brasília. Com o fim do governo Jânio Quadros, é removido outra vez para a embaixada em Madri. A Editora do Autor, de Rubem Braga e Fernando Sabino, publica Terceira feira, livro que reúne Quaderna, Dois parlamentos e um novo livro, Serial. Um ano depois, volta a morar em Sevilha. Uma Faca Só Lâmina é dedicado a Vinicius de Moraes.

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UMA FACA SÓ LâMINA

Assim como uma bala

enterrada no corpo,

fazendo mais espesso

um dos lados do morto;

assim como uma bala

do chumbo mais pesado,

no músculo de um homem

pesando-o mais de um lado

qual bala que tivesse

um vivo mecanismo

bala que possuísse

um coração ativo

igual ao de um relógio

submerso em algum corpo,

ao de um relógio vivo

e também revoltoso,

relógio que tivesse

o gume de uma faca

e toda a impiedade

da lâmina azulada;

assim como uma faca

que sem bolso ou bainha

se transformasse em parte

de vossa anatomia;

qual uma faca íntima

ou faca de uso interno,

habitando num corpo

como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,

e sempre, doloroso,

de homem que se ferisse

contra seus próprios ossos.

Em 1964, ano do golpe militar, João Cabral é removido como conselheiro para a Delegação do Brasil junto às Nações Unidas, em Genebra. No mesmo ano, nasce seu quinto filho, João. Dois anos depois João Cabral passaria por uma situação inusitada: O Teatro da Universidade Católica produz o auto Morte e Vida Severina, musicado, sem sua autorização, pelo jovem Chico Buarque. Já era notório seu desinteresse por música. Logo mais, recebe um prêmio na França pelo texto da montagem. Ao publicar Educação pela Pedra, recebe os prêmios Jabuti, Luisa Cláudio de Souza e o Institucional pelo Livro.

poema Descrição crescendo no blog http://pedrolago.blogspot.com

PAISAGEM PELO TELEFONE

Sempre que no telefone

me falavas, eu diria

que falavas de uma sala

toda de luz invadida,

sala que pelas janelas,

duzentas, se oferecia

a alguma manhã de praia,

mais manhã porque marinha,

a alguma manhã de praia

no prumo do meio-dia,

meio-dia mineral

de uma praia nordestina,

Nordeste de Pernambuco,

onde as manhãs são mais limpas,

Pernambuco do Recife,

de Piedade, de Olinda,

sempre povoado de velas,

brancas, ao sol estendidas,

de jangadas, que são velas

mais brancas porque salinas,

que, como muros caiados

possuem luz intestina,

pois não é o sol quem as veste

e tampouco as ilumina,

mais bem, somente as desveste

de toda sombra ou neblina,

deixando que livres brilhem

os cristais que dentro tinham.

Pois, assim, no telefone

tua voz me parecia

como se de tal manhã

estivesses envolvida,

fresca e clara, como se

telefonasses despida,

ou, se vestida, somente

de roupa de banho, mínima,

e que por mínima, pouco

de tua luz própria tira,

e até mais, quando falavas

no telefone, eu diria

que estavas de todo nua,

só de teu banho vestida,

que é quando tu estás mais clara

pois a água nada embacia,

sim, como o sol sobre a cal

seis estrofes mais acima,

a água clara não te acende:

libera a luz que já tinhas.

Aos 48 anos, em 1968 (ano bastante confuso), João Cabral é eleito para a Academia Brasileira de Letras na vaga de Assis Chateaubriand. Toma posse no ano seguinte, onde é recebido por José Américo de Almeida. Na posse, João Cabral, num belíssimo discurso em homenagem ao jornalista, disse que “mesmo que eu quisesse fazer de Chateaubriand um perfil do tipo do que ele fez de Getúlio Vargas, não passaria, esse perfil, de uma enumeração dissaborida de anedotas alheias, sabidas de ouvir contar”.

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POEMA(S) DA CABRA

I

A cabra é negra. Mas seu negro

não é o negro do ébano douto

(que é quase azul) ou o negro rico

do jacarandá (mais bem roxo).

O negro da cabra é o negro

do preto, do pobre, do pouco.

Negro da poeira, que é cinzento.

Negro da ferrugem, que é fosco.

Negro do feio, às vezes branco.

Ou o negro do pardo, que é pardo.

Disso que não chega a ter cor

ou perdeu toda cor no gasto.

É o negro da segunda classe.

Do inferior (que é sempre opaco).

Disso que não pode ter cor

porque em negro sai mais barato.

II

Se o negro quer dizer noturno

o negro da cabra é solar.

Não é o da cabra o negro noite.

É o negro de sol. Luminar.

Será o negro do queimado

mais que o negro da escuridão.

Negra é do sol que acumulou.

É o negro mais bem do carvão.

Não é o negro do macabro.

Negro funeral. Nem do luto.

Tampouco é o negro do mistério,

de braços cruzados, eunuco.

É mesmo o negro do carvão.

O negro da hulha. Do coque.

Negro que pode haver na pólvora:

negro de vida, não de morte.

No ano de 1969, a Companhia de Paulo Autran encena Morte e Vida Severina em diversas cidades do Brasil. É removido para a embaixada em Assunção no Paraguai, como ministro conselheiro. Também é eleito membro da Hispania Society of America. Recebe a Ordem do Mérito Pernambucano. As honrarias seriam mais frequentes nos anos seguintes, até o início dos anos noventa. João Cabral era considerado um dos grandes poetas brasileiros.

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O OVO DE GALINHA

I

Ao olho mostra a integridade

de uma coisa num bloco, um ovo.

Numa só matéria, unitária,

maciçamente ovo, num todo.

Sem possuir um dentro e um fora,

tal como as pedras, sem miolo:

e só miolo: o dentro e o fora

integralmente no contorno.

No entanto, se ao olho se mostra

unânime em si mesmo, um ovo,

a mão que o sopesa descobre

que nele há algo suspeitoso:

que seu peso não é o das pedras,

inanimado, frio, goro;

que o seu é um peso morno, túmido,

um peso que é vivo e não morto.

II

O ovo revela o acabamento

a toda mão que o acaricia,

daquelas coisas torneadas

num trabalho de toda a vida.

E que se encontra também noutras

que entretanto mão não fabrica:

nos corais, nos seixos rolados

e em tantas coisas esculpidas

cujas formas simples são obra

de mil inacabáveis lixas

usadas por mãos escultoras

escondidas na água, na brisa.

No entretanto, o ovo, e apesar

da pura forma concluída,

não se situa no final:

está no ponto de partida.

Nos anos setenta, os prêmios e condecorações não param de acontecer: Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco, Prêmio da Crítica da Associação Paulista de Críticos de Arte, Medalha da Humanidade do Nordeste, Grande Oficial da Ordem do Mérito do Senegal. Se torna embaixador de Quito no Equador e publica Museu de Tudo e A escola de facas. João Cabral é um poeta mais do que celebrado e toma posições interessantes no cenário poético nacional.

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GRACILIANO RAMOS

Falo somente com o que falo:

com as mesmas vinte palavras

girando ao redor do sol

que as limpa do que não é faca:

de toda uma crosta viscosa,

resto de janta abaianada,

que fica na lâmina e cega

seu gosto da cicatriz clara.

Falo somente do que falo:

do seco e de suas paisagens,

Nordestes, debaixo de um sol

ali do mais quente vinagre:

que reduz tudo ao espinhaço,

cresta o simplesmente folhagem,

folha prolixa, folharada,

onde possa esconder-se na fraude.

Falo somente por quem falo:

por quem existe nesses climas

condicionados pelo sol,

pelo gavião e outras rapinas:

e onde estão os solos inertes

de tantas condições caatinga

em que só cabe cultivar

o que é sinônimo da míngua.

Falo somente para quem falo:

quem padece sono de morto

e precisa um despertador

acre, como o sol sobre o olho:

que é quando o sol é estridente,

a contrapelo, imperioso,

e bate nas pálpebras como

se bate numa porta a socos.

Anos 80. O poeta faz o discurso inaugural da Ordem do Mérito de Guararapes, sendo condecorado com a Grã-Cruz da Ordem. Acontece também a primeira exposição bibliográfica de sua obra no Palácio do Governo de Pernambuco, organizada por Zila Mamede. E por aí vai, Comenda do Mérito Aeronáutico, Grã-Cruz do Equador, Embaixador de Honduras. Publica Poesia crítica, um lúcido texto sobre composição e sua visão de poesia, que, na semana que vem, entraremos em suas ideias.

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A EDUCAÇÃO PELA PEDRA

Uma educação pela pedra: por lições;

para aprender da pedra, frequentá-la;

captar sua voz inenfática, impessoal

(pela de dicção ela começa as aulas).

A lição de moral, sua resistência fria

ao que flui e a fluir, a ser maleada;

a de poética, sua carnadura concreta;

a de economia, seu andensar-se compacta:

lições da pedra (de fora para dentro,

cartilha muda), para quem soletrá-la.

Outra educação pela pedra: no Sertão

(de dentro para fora, e pré-didática).

No Sertão a pedra não sabe lecionar,

e se lecionasse não ensinaria nada;

lá não se aprende a pedra: lá a pedra,

uma pedra de nascença, entranha a alma.

Em 1982, João Cabral publica seu, hoje conhecido, Auto do Frade, escrito em Tegucigalpa e recebe o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Pernambuco. No Rio de Janeiro, ganha o Prêmio Golfinho de Ouro e se torna cônsul geral do Porto. Três anos depois, publica os poemas Agrestes. Em 1986, falece sua esposa, no Rio de Janeiro, e casa-se em segunda núpcias com a poeta Marly de Oliveira.

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POEMA

Trouxe o sol à poesia

mas como trazê-lo ao dia?

No papel mineral

qualquer geometria

fecunda a pura flora

que o pensamento cria.

Mas à floresta de gestos

que nos povoa o dia,

esse sol de palavra

é natureza fria.

Ora, no rosto que, grave,

riso súbito abria,

no andar decidido

que os longes media,

na calma segurança

de quem tudo sabia,

no contato das coisas

que apenas coisas via,

nova espécie de sol

eu, sem contar, descobria:

não a claridade imóvel

da praia ao meio-dia,

de aérea arquitetura

ou de pura poesia:

mas o oculto calor

que as coisas todas cria.

No início dos anos 90, João Cabral, enfim, se aposenta na carreira diplomática como embaixador. Publica Sevilha andando e é eleito para a Academia Pernambucana de Letras, da qual, havia recebido, anos antes, a medalha Carneiro Vilela. Em Lisboa, recebe o Prêmio Luis de Camões concedido conjuntamente pelos governos de Portugal e do Brasil. Em 91, pelo seu livro Sevilha andando, recebe o Prêmio Pedro Nava.

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O FOGO NO CANAVIAL

A imagem mais viva do inferno.

Eis o fogo em todos seus vícios:

eis a ópera, o ódio, o energúmeno,

a voz rouca de fera em cio.

E contagioso, como outrora

foi, e hoje, não é mais, o inferno:

ele se catapulta, exporta,

em brulotes de curso aéreo,

em petardos que se disparam

sem pontaria, intransitivos;

mas que queimada a palha dormem,

bêbados, curtindo seu litro.

(O inferno foi fogo de vista,

ou de palha, queimou as saias:

deixou nua a perna da cana,

despiu-a, mas sem deflorá-la.)

m 1992, João Cabral viaja para Sevilha para representar o presidente da República nas comemorações do dia 7 de setembro. Houve uma grande exposição, onde, no pavilhão do Brasil, foi distribuido o livro Poemas sevilhanos, numa edição especial feita pelo Itamaraty e a Nova Fronteira. No Rio de Janeiro, recebe do embaixador espanhol a Grã-Cruz da Ordem de Isabel, a Católica. Em 1993, recebe o Jabuti.

texto Uma Nova Era no blog http://pedrolago.blogspot.com

AUTO DO FRADE

(trecho de Frei Caneca)

Acordo fora de mim

como há tempo não fazia.

Acordo claro, de todo,

acordo com toda a vida,

com todos cinco sentidos

e sobretudo com a vista

que dentro dessa prisão

para mim não existia.

Acordo fora de mim:

como fora nada eu via,

ficava dentro de mim

como vida apodrecida.

Acordar não é ter saída.

Acordar é reacordar-se

ao que em nosso redor gira.

Mesmo quando alguém acorda

para um fiapo de vida,

como o que tanto aparato

que me cerca me anuncia:

esse bosque de espingardas

mudas, mas logo assassinas,

sempre à espera dessa voz

que autorize o que é sua sina,

esse padres que as invejam

por serem mais efetivas

que os sermões que passam largo

dos infernos que anunciam.

Essas coisas ao redor

sim me acordam para a vida,

embora somente um fio

me reste de vida e dia.

Essas coisas me situam

e também me dão saída;

ao vê-las me vejo nelas,

me completam, convividas.

Não é o inerte acordar

na cela negra e vazia:

lá não podia dizer

quando velava ou dormia.

Nos anos 50, sobre ‘composição’, Cabral disse “que para uns é o ato de aprisionar a poesia no poema e para outros o de elaborar a poesia em poema; que para uns é o momento inexplicável de um achado e para outros as horas enormes de uma procura, segundo uns e outros se aproximem dos extremos a que se pode levar o enunciado desta conversa (a inspiração e o trabalho de arte), a composição é, hoje em dia, assunto por demais complexo, e falar da composição, tarefa agora, se quem fala preza, em alguma medida, a objetividade.” Mais do mesmo amanhã.

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CONVERSA DE SEVILHANA

Se vamos todos para o inferno:

e é fácil dizer quem vai antes:

nus, lado a lado nesta cama,

lá vamos, primeiro que Dante.

Eu sei bem quem vai para o inferno:

primeiro, nós dois, nesses trajes

que ninguém nunca abençoou,

nós, desabençoados dos padres.

Depois de nós dois, para o inferno

vão todos os chauffeurs de táxi,

que embora pagos nos conduzem

de pé atrás, contra a vontade;

depois, a polícia, os porteiros,

os que estão atrás dos guichês,

quem controlando qualquer coisa

do controlado faz-se ver;

depois, irão esses que fazem

do que é controle, autoridade,

os que batem com o pé no chão,

os que “sabe quem sou? não sabe?”

Enfim, quem manda vai primeiro,

vai de cabeça, vai direto:

talvez precise de sargentos

a ordem-unida que há no inferno.

Ainda sobre ‘composição’: O ato do poema é um ato íntimo, solitário, que se passa sem testemunhas. Nos poetas daquela família para quem a composição é procura, existe como que o pudor de se referir aos momentos em que, diante do papel em branco, exerciam sua força. Porque eles sabem de que é feita essa força – é feita de mil fracassos, de truques que ninguém deve saber, de concessões ao fácil, de soluções insatisfatórias, de aceitação resignada do pouco que se é capaz de conseguir e de renúncia ao que, partida, se desejou conseguir.

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RUBEM BRAGA E O HOMEM DO FAROL

É necessário vocação

na carreira de faroleiro.

Consta do serviço civil,

tem obrigação e direitos.

Porém não se entra nela como

em qualquer outra profissão:

entrar para ser faroleiro

é como entrar em religião.

É como entrar-se para a Igreja

num ordem contemplativa,

pois no alto cargo se cavalgam

vazios propícios à mística.

Na torre só, mais: isolado

de tudo o que faz transeunte,

habita a linha de fronteira

onde espaço e tempo se fundem.

O mar em volta do farol

é qual relógio sem ponteiros.

O faroleiro é só em si,

sem companhia nem do espelho.

O faroleiro é como nu,

ser devassado por janelas

que o cercam de todos os lados

e para o nada sempre abertas,

sobretudo para esse nada

que há na fronteira espaço-tempo:

o silêncio, que abafa como

almofada de algodão denso.

Ora o nada aberto ao redor

leva-o à posição uterina,

fechando-o ainda mais em si,

habitando a moela mais íntima,

ora dissolve o faroleiro,

que embora desperto se anula:

as vias da contemplação,

qualquer das duas se quer, usa.

Rubem Braga uma vez tentou

salvá-lo do não metafísico:

foi visitar um faroleiro

titular de uma ilha do Rio.

Rubem Braga logo decide:

não é homem de introspecção.

Vê que precisa de diálogo

esse afogado en tanto não.

De volta ao Rio, nos jornais,

lança um apelo: que doassem

vitrolas, rádios, qualquer voz

as navegante sem navegagens.

Mais sobre composição: Cada poeta tem sua poética. Ele não está obrigado a obedecer a nenhuma regra, nem mesmo àquelas que em determinado momento ele mesmo criou, nem a sintonizar seu poema a nenhuma sensibilidade diversa sua. O que se espeta dele, hoje, é que não se pareça a ninguém, que contribua com uma expressão original. Por isso ele procura realizar sua obra não com o que nele é comum a todos os homens, mas com o que nele é mais íntimo e pessoal, privado, diverso de todos.

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CIDADE DE NERVOS

Qual o segredo de Sevilha?

Saber existir nos extremos

como levando dentro a brasa

que se reacende a qualquer tempo.

Tem a tessitura da carne

na matéria de suas paredes,

boa ao corpo que a acaricia:

que é feminina sua epiderme.

E tem o esqueleto, essencial

a um poema ou um corpo elegante,

sem o qual sempre se deforma

tudo o que é só de carne e sangue.

Mas o esqueleto não pode,

ele que é rígido e de gesso,

reacender a brasa que tem dentro:

Sevilha é mais que tudo, nervo.

João Cabral de Melo Neto morreu no Rio de Janeiro no dia 9 de outubro de 1999 aos 79 anos. O poeta sofria de depressão e tinha problemas visuais crônicos que o deixaram praticamente cego. É notória a dor de cabeça com que conviveu ao longo de sua vida. Tomava aspirinas diariamente, inclusive, chegou a dizer que muito de sua inspiração vinha delas. Perto de sua morte, era forte candidato ao Prêmio Nobel de Literatura. Enfim, esta foi a pequena antologia de um dos nossos maiores poetas. Semana que vem, outro universo poético, outras proposições, outra poesia. Até.

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SEVILHA E A ESPANHA

O castelhano e o catalão

têm pobreza e riqueza tristes.

Assim desprezam a Andaluzia:

vêm-na africana ou sacrílega.

Em Castilha, ambas são viúvas,

um manto de beata as recobre

e seus ouros têm a cegueira,

a pátina humilde do cobre.

A Catalunha, tira a tristeza

de querer ser muito mais França,

que não a interessa, senão,

enquanto Espanha, dá-lhe entranhas.

A Andaluzia é de ouro e cobre,

mas nenhum dura mais que um dia:

se alternam, como em seu cantar

à soleá, segue a alegria.

abril 4, 2010

Thereza Christina Rocque da Motta

Thereza Christina Rocque da Motta nasceu em São Paulo no dia 10 de julho de 1957. É “poeta por opção, advogada por formação e tradutora por profissão” como costuma dizer. Também conhecida pelo trabalho de editora, neste mês contaremos a história desta poeta e sua maravilhosa relação com os livros. Como se deu o caminho poético, o compromisso com a palavra e sua impressões pelo mercado editorial, confeccionando sonhos, belos sonhos. Allons-y

poema de Stéphane Mallarmé traduzido no blog http://pedrolago.blogspot.com

MANHÃ I & II

I

Tens a forma

de um poema

obtuso,

lâmina ceifando a noite.

Tens a face

boreal e clara

- aurora repentina

circundando a terra.

II

Te sei presumida.

Adivinho-te bela,

enfeitiçada.

Teu riso longe ecoa

dentro do coração

tão vazio.

Teu vazio me corrompe.

Aceito-te mansa e meiga

- qual mesmo o teu nome?

Tua terra, arado, homens,

vegetação absurda.

Teu seio, sangue,

mel e lua.

Amo-te feito noite.

Amo-te feito vida.

Suas aventuras (e bota aventura nisso) pelo mundo editorial começaram em 1978, quando trabalhou como editora no Jornal Análise do DCE da Universidade de Mackenzie. Lá fundou também o Grupo POECO SÓ POESIA em 1980, promovendo concursos de poesia e leituras. Creio que este paralelo é importante na leitura dessa obra, a Thereza poeta com a Thereza editora, pois ambas confluem na pessoa que ela é, e sobretudo, na sua poesia.

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AFRODITE

Redesenho

o sopro fácil e diurno:

dias antigos e alongados

em tua forma, hoje, de ser amado

- por que amado? – e ser tão difuso

quanto a retina de teus olhos.

Meu sonho, poeta, é minha sina,

pecado mortal, pecado carnal, pecado nenhum.

Aos 16 anos, Thereza ganha um concurso de poesia no colégio, foi quando se sentiu responsável pelo que escrevia. Aos 19, surge a oportunidade de publicar seus poemas no Jornal Análise, começando então seus dois caminhos, que para mim, alimentam livremente sua verve poética: a poesia e a produção literária. Logo após, surgiria uma figura fundamental para sua poesia e para outro caminho que percorreria depois. A figura? Hilda Hilst. Outro caminho? Tradução de poesia. Surgiria também a Thereza tradutora.

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LICOR DAS HORAS III & IV

III

Destruímos os sinos

ensurdecendo a terra

seus alforjes e cambraias.

Amaldiçoamos o tempo

maldizendo de nós

em prolongados uivos

sobre o descampado

onde ecoam as florestas

que ali estavam.

E arrancamos as sementes híbridas

para o plaino das horas.

IV

São noites

enclausuradas ou repentinas

desfeitas em pó.

São poucos os beijos

diante da impávida face visceral.

Beijaríamos muito mais

se fosse permitido.

Amaríamos

se nos fosse dado a chance.

As mãos dilapidam o horóscopo,

astrolábio de movimentos

fermentando a aguda fronte aromática.

As vestes magnetizadas pelo odor

revelam o desejo,

criando o mistério de pertencer-te.

Ainda nessa época do Jornal Análise, algo marcante aconteceria na vida da poeta Thereza: Hilda Hilst leu cerca de cem poemas e disse, sem dúvidas: “Ela é poeta”. Para um jovem poeta isso seria como receber uma carta do Rilke, só que dessa vez, o poeta não foi para o exército. Hilda Hilst também seria muito importante para Thereza quando numa entrevista para Marie Claire falou da importância de escrever em inglês para quem começa pois “ninguém lê em português” disse a poeta. Ok than!

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CRISÁLIDA

Escrever não é oficio; é miragem. Miro-te e alcanço-te

como se fosse um fruto. Delicioso e ardente. Temos

tempo regressivo. O futuro é uma abóbora. Imaginar-te,

sempre instigante. Cresces como um gigante. Imagina

qual o particípio irregular de arrebatar. Rapto. Tens dedos

de feiticeiro. Tudo que tocas se incendeia. Vejo-me acesa

com todos os fogos em explosão. E à medida que se

queimam todos os troncos, deixam brasa, convertendo-

se em cinza. Digo que tens o dom de queimar, tanto a

superfície como o lago subterrâneo. Tenho-te dentro de

mim como coisa que não se doma. Que se avoluma e

toma forma. Não temo tua ausência, pois creio que jamais

estarás ausente. Mitifico-te além-vida. Sacralizo-te em

mim. Assim amo ser saber, indisciplinada menina que

zomba dos carinhos e faz deles coisas sublimes. Isto,

como prova ou testemunho de que estamos aqui e vivos.

Joio & Trigo, livro que utilizamos nesta semana, foi o primeiro livro de Thereza Christina. Com prefácio do poeta Claudio Willer e apresentação crítica de nomes como Olga Savary, marcou definitivamente sua entrada nas prateleiras, posto que já publicava em antologias, porém, faltava o livro. Diria que os poemas do livro andam nos jardins de um lirismo suave (sem redundância) com poemas curtos e um belo poema chamado Terminal. Depois mais e mais e mais…

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INVENÇÕES DO TEMPO I & II

I

Descreve a suavidade das linhas oblíquas

em teu sono cálido e permanente,

figura despida em meu leito,

teu sorriso, corpo e mãos presentes.

Toco a palma das encostas

elevando tua alma da penumbra,

tua forma lapidada,

a se transformar com a luz.

II

Distante da tua imagem

aqui posta em sossego

- mais do que tudo, silêncio -

espero o sinal de partida

como o navio que aguarda levantarem âncora.

Saio de minha casa,

abandonando tudo.

Deixo para ti,

meu sono de profeta da clandestinidade.

Trago-te de volta ao que eras.

Areal é um livro de poemas líricos feitos ao longo dos anos 80. Faz parte de sua verve poética essa linha melódica e culta onde o motivo em evidência é tratado com extremo cuidado, como uma flor. Thereza agora já está imersa na produção editorial e na tradução. Nesta semana, somente poemas do livro Areal.

tradução do poema Pantomime de Paul Verlaine no blog http://pedrolago.blogspot.com

ÉS PERFEITO

És perfeito,

porque nascido do acaso.

Eu, que sem preocupação pude buscar-te,

aceito tua sina de camaleão de imagens.

Teu prazer quer alvuras e eu,

amadurecida de teus tons, sou mais frágil

entre as mãos que encerram o destino.

As manhãs, os breves sussurros,

o mastigar lento de maxilares.

Conheço-te como a mim,

tua casa, tuas vestas, tudo que te pertence.

Onde colocares a mão, eu sei,

aqui estiveste.

Não te amo pelo nome.

Amo-te pelo que transpareces.

Thereza ficou treze anos sem publicar livros de poemas. Desde Joio & Trigo, publicado em 1982, um grande hiato se deu em sua vida. Filhos, mudança de cidade, coisas da vida que mantiveram a poeta sem publicar (jamais diria sem produzir). Pois então em 1995 veio Areal, livro desta semana, veio o Rio de Janeiro e vieram novos trabalhos editoriais. Logo mais, Thereza viria a encontrar outro objeto onde seria incrível: tradução de poemas.

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PORQUE TE QUIS…

Porque te quis e ninguém te alimentava
de paixões,
vieste, olhos mareados
e tal foi tua fome,
que abraçaste inteira a minha vontade
de dar-me.
Não quis ir ao teu encontro,
senão como fora a tua vinda
na véspera, cheia de expectativas e silêncios.
Não te esperei em vão:
pude aguardar-te, porque quis que viesses
e por que te quis antes de mais nada,
meu nome tornou-se precioso para ti,
com saudade e vozes dentro,
ruídos de uma vontade estranha,
porque não esperavas por mim
e me buscaste.

A linha que costura os poemas de Areal é a ideia da poeta sobre o amor. Thereza diz em seu posfácio que “a exteriorização do amor não deve causar medo. O amor é realidade e, como tal, é para ser vivido, sem pressupostos, para que dele seja extraído sua essência. E, mesmo assim, há ritos que são seguidos, como voltar-se para o amado, num movimento contínuo e mudo”. Mais ou menos por aí.
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ACOSTUMEI-ME…
Acostumei-me a observar o indefinido.
E a aceitar tudo que me dissessem,
mesmo adeus.
As lembranças daquilo
que não guardei,
atos e falhas dos meus gestos
e não passar sua sensação de eternidade.

(Em cada pedra, a seiva
que a mantém úmida.
Pedregulho imerso
na transparente alma marinha.)

E a esperar a travessia,
antes do sinal das embarcações.
Sem vento que antecipe a manhã.
“Se fomos unidos pelo acaso, que não existe, então deve existir uma razão intrínseca, mesmo que desconhecida para nós. Ela existe, a partir do momento em que “você me faz bem”. Em hipótese alguma eu tentaria abolir isso por meras razões formais, por medo ou dúvida”. Desta maneira, Thereza conclui seu Areal, livro que apontaria um caminho essencialmente lírico em sua poesia. Voltamos na quarta de cinzas.

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DÉCIMA LUA

A laranja era a única luz dentro do quarto.
Egon Shiele

Enquanto as barcas sobrevoam o ar estático,
estamos entre os verdes olhares de gatos.
Tudo é belo.
Penetramos as células humanas,
passagens entre orifícios e arestas.
À noite, procuramos nos ver melhor.
É o sonho que a habita?
Vivemos e são nossas súplicas
as únicas que se ouvem.
Tudo está parado e se move.
Nada é mais extremo que a permanência.
Ficamos aqui, o segredo entre nós.
As vestes caem e se prolongam pelo chão.
São memórias mais do que tudo
e vasto e largo o pausar das mãos em movimento.
Somos os que desfrutam da pele seca das maçãs.
Enlouquecemos, a nudez a tomar conta,
desfiando as fibras dessa nova borboleta.
O ar impregna-se do mesmo cheiro dos corpos.
Vértebra a vértebra, distendemos o êxtase.
Avolumam-se os seios umedecidos no beijo.
Vocábulos balbuciados, não há som.
Domado o instante, a serpente recolhe-se.
Reconhecemos pelo tato a escamosidade
desse momento.
Da casa inabitada, conhecemos os reféns
e os objetos, danificados pelo tédio.
Sabíamos de tudo, embora não disséssemos.
O cálice preparado, o veneno, dilatadas pupilas.
Nosso nome encravado em pedra.

Após esse hiato de folia, retornamos à obra da poeta Thereza. Sabbath foi publicado em 1998. Segundo livro depois de um longo período fora da produção literária, apenas na produção editorial. O livro segue a linha lírica que permeia sua poesia com uma constante visita aos mitos e símbolos. Algo de muito interessante viria a aparecer depois. Seguindo…

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SABBATH
Mãos tangem alaúdes noite adentro

A manhã não tarda

Ervas maceradas na água
o líquido escuro e espesso
escorre das vasilhas
deixadas ao relento

Fogaréus ardendo no escuro
céu sem estrelas

Uivos dos lobos
entre chilreios de pássaros
anunciam o fim da noite
e todos os presságios se misturam

Não esperamos mais

Tudo passou sob a folhagem das árvores
as adagas cravadas nas raízes
testemunhando a chegada

Este é o limite
Homem algum trespassará este lugar

Com os ramos cortados, tecemos guirlandas
e coroamos os príncipes
A festa começa

A lua nova lança sua face vazia
sobre rostos brancos

Sabbath
Um longo dia avança sobre o abismo
Nossos olhos voltados para o infinito

Sabbath
Nossas orações não fazem mais sentido
O ouro líquido escorre sobre as máscaras
preenchendo o contorno das faces
que perseguem manhãs como estas

Sabbath
Amanhecemos órfãos de nossa própria identidade
Outros seres brotam de nossos corpos
outro hálito de nossas bocas profanas

A água escorre sobre as pedras
as mãos lambuzadas de óleo
a besuntar as faces

Transgressão e violência
Crianças abandonadas
filhos da escuridão

Em vão esperamos no escuro
A tocha acesa tremula sobre as cabeças
crepitando a lenta sonolência de farpas

Silêncio

Hóspedes do eterno
selamos nossa aliança
Morte e vida alimentadas pelas mesmas mãos

Ouvem-se os últimos cantos até o anoitecer
A noite retorna sobre a planície
e novamente os riachos correm sobre a terra arada

Afastamos fantasmas
almas que vagam ensimesmadas
entes que gravitam entre esferas circunscritas
nesse mapa aberto sobre o coração da floresta

Encerramos as arcas para as manhãs futuras
e recolhemos pedras sob o pano púrpura
para o novo sabbath.

A segunda parte de Sabbath se chama Livro das Horas. Uma série de poemas curtos que, assim como em Joio & Trigo, podem ser lidos como num poema só. É interessante o lirismo de Thereza, sempre tive a impressão de uma voz encorpada, cheia de ensinamentos, pois é assim que vejo sua voz. Aliás, caminhar em águas mornas é difícil, por isso seu lirismo é interessante. Semana que vem contaremos a bela história da Ibis Libris.
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LIVRO DAS HORAS

Não há imperfeição possível

I

Caminhas
sob águas e ramagens
– manto transparente
sobre paisagens noturnas –
frios olhos
de quem vê através a alma

II

Teus movimentos
repetem-se
únicos
sob finas camadas de espera
vozes
que murmuram segredos
pela primeira vez
Teus rastros
habitam o silêncio
e as auroras

III

Percorres os desertos
e despes teu rosto
dos véus escuros
retornando aos mesmos lugares
sem a solidão das máscaras

IV

Visitante
de esferas ambíguas
cálido sopro
entre dentes
Torres altíssimas e distantes
anunciam tua chegada
Corpos sob os lençóis
devolvem teus breves abraços

Thereza sempre teve tendência editorial. No ano 2000, o poeta e professor Ricardo Ruiz pediu para Thereza que revisasse um livro dele. Depois, pediu que ela que lhe fizesse um prefácio. Thereza terminou o prefácio numa terça-feira de Carnaval e ligou para Ricardo, que prontamente lhe disse: “Agora edita pra mim”. Nesse momento, Thereza atendia um impulso bem íntimo que nem ela sabia de onde vinha. Publicar? Thereza ficou um pouco perplexa, como iria publicar sem um selo? Ricardo então resolve a questão: “Então, cria!”. Quatro dias depois…

poema Feuillage du coeur de Maurice Maeterlinck traduzido no blog http://pedrolago.blogspot.com

Olhos garçosPor detrás de cada sombrao vento traz-me o teu rosto.Roberto Piva
Somos nós que carregamos as imagens dentro dos olhos,
mareados, vertiginosos e esparsos,
luz transida e esmaecida sobre o horizonte ainda pálido que contemplamos.
Somos nós que carregamos as probabilidades feito romãs dentro dos bolsos,
esperando que se abram para encher o ar com seu aroma tingido.
Teremos sempre novos mistérios e insondáveis segredos
diante de janelas abertas sobre o horizonte.
A praia nos alcança em meio dia
e nossa manhã ainda não escorreu pela tarde,
procurando outra seiva para alimentar a noite.
Aguardo, ainda, paciente,
a vez de tangermos a vida
com a devoção de quem acalenta
um anjo.

Quatro dias depois do “ultimato” de Ricardo Ruiz, Thereza vai a um jantar em homenagem ao seu pai, que morrera em 1982. Era o dia 11 de março. No meio do jantar o nome “Ibis” lhe ocorreu. “Ibis” era o apelido de Fernando Pessoa. O poeta assinava suas cartas para Ofélia dizendo “do seu Ibis”. O nome também tinha a ver com o Rio de Janeiro por causa da imagem esculpida no Pão de Açúcar, que segundo a lenda, foi deixada ali pelos fenícios em 1.500 a.C, no pé do gigante adormecido formado pelas montanhas do Rio, sendo a Pedra da Gávea a cabeça do gigante. O pai de Thereza também havia lhe dado um livro com as cartas de Fernando Pessoa para Ofélia 25 anos antes. Ainda tem mais…

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AMOR
Para Ricardo Quintana
Respondo-te com o mesmo calor,
com o mesmo entusiasmo lançando-se sobre mim.
Respondo-te com as mesmas palavras longínquas,
o mesmo ardor do tempo,
que só responde a perguntas com o silêncio.

Somos os olhos bravios da tempestade,
o vórtice do furacão,
a manhã estrelada de tantas auroras antigas
– memória restaurada com as mãos ainda leves e breves.

Respondo-te com o que sei de mais límpido e transparente,
meus cristais sobre a areia ainda úmida da manhã.
A praia que nos cerca é fronteiriça
e nos abre os limites da espera e da vida.

Toda vida está diante de nossos olhos,
como o mar que nos aguarda
se o singrarmos.

Partimos para descobertas irrealizadas,
cruzamos outros mares por descuido
e voltamos, exaustos e mudos,
à mesma praia,
à mesma origem,
ao mesmo templo diante do abismo.

Avançamos sobre as águas
– cortando a lâmina fina do esquecimento.
Lembramos quem somos e o sabemos
– toda vida está aonde a colocamos,
vibrando a única melodia
que conhecemos:
amor.

A busca pela imagem que representaria o selo foi também cheia signos. Íbis são aves pernaltas com pescoço longo e bico comprido encurvado para baixo. A íbis era também a cabeça do deus Thoth, pai da literatura egípcia e criador do alfabeto. O pai de Thereza havia estudado a origem do alfabeto, mais uma homenagem ao pai. Fernando Pessoa tinha uma gráfica chamada íbis que jamais veio a funcionar. Na hora do registro, Thereza descobriu que já havia em São Paulo uma editora com esse nome, então, seu irmão sugeriu adicionar o Libris, assim ficaria “os livros da Ibis”.
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Ter ou não serTe chamo por vários nomes e todos serão amor.
Não lamente nada que tudo só parece ser.
O que é, não sabemos e, se soubéssemos,
seríamos desde já o fruto pronto a ser colhido.

Não se precipite.
Não pense que seus desejos serão esquecidos,
pois todos os desejos tecem a trama íntima do ser.

Nem tudo cabe numa vida.
Ela se alarga toda vez que nos lançamos,
temerosos, na amplidão que cerca os nossos passos.
Descansemos.

Nada passa sem ser colhido.
Tudo dá o que é seu a seu tempo.
As flores colhidas ao acaso serão mais belas
do que as de floristas?

Não lamente o tempo, inexorável,
os minutos que escorrem sem olharmos para trás.
Não sejamos as estátuas de sal,
que ficarão impávidas a mirar a catástrofe.

Avancemos, com certezas
que só podem ser trazidas por nós mesmos,
os únicos guias a seguir atalhos,
a reconhecer, como a palma da mão,
a trajetória que nos une nos descaminhos.

O primeiro lançamento da Ibis Libris, o livro de Ricardo Ruiz, foi no dia 18 de agosto, dois após o aniversário do pai de Thereza, Dia de São Roque. Quatro livros depois, a Ibis editaria Neide Archanjo. Logo em seguida, João José de Melo Franco se junta a Thereza na editora. Desde então, a Ibis Libris publicou mais de 150 livros e, quase sempre, de poesia. Lembrando, dois meses depois da fundação, Thereza começa a organizar a Ponte de Versos, evento de leitura de poemas que já produziu uma bela antologia.
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Meu segredo e nosso deserto
Teus caminhos são meus
apenas em tua direção.
Habito tuas horas fartas,
porque as enche de carinhos.

Somos todos os seres possíveis num só.
Conténs todas as órbitas
e orbitas em mim com teus pensamentos.

Tuas rimas te falham,
são poucas, esquece-as.

Nenhum pecado te atinge
já que és puro e meu.

Sagra-te por seres vão.
Sempre um espelho que me reflita
e te reflita em mim.
Corpos que transitam astros
e nós dentro deles.

Acumulamos tempo, linhos e ondas.
Completa-te em mim,
pois naufrago em teus olhos mareados.

Sabemos apenas o que nos é dado ver.
Nada vive senão por fora.

Por dentro já é eterno.

Ao longo de todo esse processo, Thereza jamais deixou de escrever um poema, o que seria nada menos que uma natureza rilkeana. Pois, lembrando uma amiga minha, apesar de todos os compromissos, do trabalho, dos anseios, ainda há a necessidade de sentar e escrever poemas. Admirável é o trabalho do editor, pois transforma sonhos em realidade, literalmente, e digo que além disso, em belíssimas e dignas realidades.

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Renascido
Há coisas que nunca sabemos até acontecidas.
Antes que aconteçam, são insabidas.

Depois, passam a percorrer
os pequenos abalos sísmicos
de uma aurora pessoal.

As lembranças vazias buscam alentos
em novos momentos
reinventados.
Quando reinventá-lo?
Quando abri-lo em horizonte
vasto e destemido?

Lentos olhos perscrutam
- todo poente é um acidente.
Ocaso.
Renascente.

Nesse anos todos editando livros, Thereza tem muita história para contar. Pensando nisso, escreveu alguns textos que, se todo jovem autor lesse, com certeza, o processo do seu livro seria mais tranquilo. Thereza fez os Dez Mandamentos do livro, vamos a alguns: 1º – Reler o texto até a exaustão, até não querer mais mudar uma vírgula (evita o aparecimento de Sacis-Pererês); 2º – Tenha paciência com o tempo do livro (com isso, corta-se a ansiedade, o que atrapalha no primeiro mandamento, que não é bom para o livro).

poema novo Constatações no blog http://pedrolago.blogspot.com

DE ABELARDO A HELOÍSA

I

O que é tua beleza ensimesmada?

O que existe em teu olhar tão profundo?

Tuas mãos pousam sobre o livro e esperam.

Tuas horas são lentas cismas sobre ti mesma.

Devolves ao tempo a tua urgência.

Tudo verte o seu olhar absoluto

sobre os vergéis de tua casa.

Abram-se os mapas sobre a mesa

a traçar os caminhos que retornam.

Teu dia não se alonga mais do que a manhã.

O fremir das janelas não se ouve.

No silêncio, construímos a nossa morada,

esse tempo de vir a ser que se aproxima.

Tudo é, sem demora, vida ou nada,

e, por isso, fico à espera do teu amor.

Para Thereza, jamais devemos mentir para o livro. Mesmo que em devaneios, sempre pesquisar e compreender aquilo que diz. Isso é meio que óbvio, mas Thereza sabe o que diz, já passou por poucas e boas com autores desfinformados. Thereza acha que deve-se sempre consultar os amigos, são os primeiros leitores, mesmo que a maioria diga que gosta, sempre haverá aquele que diz “olha, não gostei”, e talvez pérolas saiam da sinceridade.
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DE HELOÍSA A ABELARDOII

Deixa a voz alçar o voo leve

na noite que temos para nós.

Estás à beira de tua honra e eu à beira de ti.

Não me comovo às lágrimas, senão por teus olhos,

olhos  veem tudo o que existe em mim.

Não sou senão a serva de um amor imenso,

este que me habita e me devasta.

Por onde me leve, o amor me tem pela mão,

e me guia até onde estás.

Que breve perfume dessas horas se destila

nas pétalas da flor que nos deslumbra?

É o seu aroma ou o nosso que sentimos?

Meu amor é mais puro por não ver

nada mais, nem outro, senão a ti.

“O livro não é uma coisa, é um ser”, eis um dos ensinamentos de Thereza. Para ela, (e para mim também), o livro é um ser que pensa, que decide, dá opinião, reclama, e sabe o que quer. Um livro dura mais que o autor, caso não seja queimado, tem o dom da permanência, de modo que não o empurre. Pois todas as histórias podem ser contadas, e o livro, está aí para carrega-las, portanto, cuide bem deste ser.
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DE HELOÍSA A ABELARDOIII

Nunca, dizes, te afastarás de mim,

mas, mesmo assim, me deixaste.

Meu pensamento se consome em chamas,

minha lucidez me falta neste momento vertigem.

Somos seres absolutos, em absoluta

servos e santos, blasfemos e hipócritas

Ó geração de enfermos!

Ó vida! O que nos deste, nos tiraste!

Restou tão pouco de nós sobre este estreito leito.

Ó dor maior que o mundo!

Ó planger de horas que não bastam!

Choram os filhos sem suas mães.

Choram os amantes sem o seu amor.

Thereza acha ,e eu concordo, que o autor não faz nada sozinho, que o livro é o somatório de tudo que o envolveu, todas forças, todos os percalços sobrenaturais que permeiam o Universo. Ih, não é exagero. Há também outra questão:  Jamais diga sobre o que você vai escrever, senão a mente acha que você já escreveu e passa adiante, isso é corretíssimo. Mostrar o que fez é fundamental, porém, jamais o que não fez. Palavra de editora.
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DE ABELARDO A HELOÍSA

VIII

Meu pecado foi não ser casto.

Meu castigo foi me tornar.

Meu Pai, que mal fiz em amar-te

e deixar que me amasses?

Pela mão dos homens, Deus infligiu-me

o castigo da castidade para melhor servi-Lo.

Eu não fui digno Dele, não fui digno de ti.

Quis aproveitar-me da sorte, enquanto o diabo

rondava.

Quis ocultar o matrimônio para me preservar.

Meu egoísmo me castrou e me tornei o que sou.

Este é o meu amor verdadeiro, esta, a minha

missão.

Se por ti errei, por Deus fui corrigido.

Nosso amor redimiu-me perante todos.

Eis que chegamos ao fim de mais uma antologia. Percorremos a obra da poeta Thereza Christina Rocque da Motta, que, além de poeta, é uma exímia editora, leia-se, artesã de sonhos. O mais puro amor de Abelardo e Heloísa é seu último livro. Assim como Ovídio, Thereza criou correspondências amorosas entre dois personagens, sendo estes, reais. O filósofo goliardo Pedro Abelardo e sua amada Heloísa, que se amaram no fim da Idade Média, porém, esbarraram nos conceitos morais da época e outras coerções, que os impediu de continuar. Semana que vem entraremos em outro universo poético, outras proposições, outros poemas. Até!
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DE ABELARDO A HELOÍSA

XI

Bem amada, irmã, serva do Senhor,

a quem sirvo ainda amando-te com todo o meu

amor.

É Dele o amor que nos nutre, Ele quem nos uniu,

e nos mantém unidos por Amor a Ele.

Amo-te mais sem te ter do que tendo-te comigo.

Estás em tudo que faço, toda obra minha tem tua

mão.

Teu silêncio está no meu, e minhas palavras

repetem as tuas. Sou o que restou do homem que

fui,

mas este ainda segue te amando, mesmo longe,

distante de corpo, jamais de alma.

Estas vivem juntas nas noites de vigília,

sob a abóbada celeste que nos testemunha.

Somos o anúncio vivo do nosso amor,

como eco de nossas palavras.



DE HELOÍSA A ABELARDO

XII

Nem Luís nem Eleonor se apiedaram.

Notre-Dame ergueu-se em dor,

abraçando, entre seus arcos, o nosso vazio.

Ao largo, flui o Sena, sem retorno.

Paris se cala e testemunha o nosso horror.

O que será de ti, meu amado?

O que será de mim, tua esposa?

Tu, exilado, escondes o teu rosto em vergonha.

Em Argenteuil, onde nasci e novamente vivo,

o véu desce sobre mim e me amortalha.

Tu, também, te entregas ao martírio.

Enlutados, a morte nos dita regras.

Aqui se encerra a nossa história,

mas, não o nosso amor.

março 21, 2010

Alphonsus de Guimaraens

Afonso Henriques da Costa Guimarães nasceu no dia 24 de julho de 1870, em Ouro Preto. No dia 10 de junho de 1871 foi batizado na matriz da Freguesia de Nossa Senhora do Pilar do Fundo de Ouro Preto. Seu nome foi uma homenagem ao fundador do Velho Reyno. O menino tinha o apelido de “Afonso sonso”, dado por seus irmãos e colegas de correrias ladeirentas da infância. Nossa correspondência inicia os trabalhos em 2010 com o poeta maior Alphonsus de Guimarães.

poema Saxofonista do Arpoador no blog http://pedrolago.blogspot.com

INITIUM

Tanta agonia, dores sem causa,

E o olhar num céu invisível posto…

Prantos que tombam sem uma pausa,

Risos que não chegam mais ao rosto…

Noites passadas de olhos abertos,

Sem nada ver, sem falar, tão mudo…

Alguém que chega, passos incertos,

Alguém que foge, e silêncio em tudo…

Só, perseguido de sombras mortas,

De espectros negros que são tão altos…

Ouvindo múmias forçar as portas,

E esqueletos que me dão assaltos…

Só, na geena deste meu quarto

Cheio de rezas e de luxúria…

Alguém que geme, dores de parto,

- Satã que faz nascer uma fúria…

E ela que vem sobre mim, de braços

Escancarados, a agitar as tetas…

E nuvens de anjos pelos espaços,

Anjos estranhos com as asas pretas…

E o inferno em tudo, por tudo o abismo

Em que se me vai toda a coragem…

“Santa Maria, dá-me o exorcismo

Do teu sorriso, da tua imagem!”

E os pesadelos fogem agora…

Talvez me escute quem se levanta:

É a lua… e a lua é Nossa-Senhora,

São dela aquelas cores de Santa!

O jovem Afonso estudou português com o poeta romântico João Nemrod Kubitschek, latim com Afonso de Brito, francês com Randolfo Bretas e inglês com mister Charles Catton Kopsey. Aos 17 anos matriculou-se no Curso Complementar da Escola de Minas, com o objetivo de estudar engenharia civil e de minas. Nesta época, o jovem Afonso já fazia versos, que ganharam força já como aluno de engenharia. Afonso passou por uma experiência muito dolorosa: Sua prima, Constança, por quem era apaixonado, morreu quando eram namorados e admitidos como noivos, ainda adolescentes. Ontem seu nome foi escrito errado.

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VISÃO DOS SOLITÁRIOS

Com a vasta escuridão do teu cabelo ensombras,

Se o destranças pelo ar, o próprio sol que bate

Nessa carne que tem a maciez das alfombras

Feitas de seda branca e veludo escarlate.

Não sei quem és e ao mesmo tempo assombras.

Alguma coisa de astro o teu sorriso dá-te…

Errante multidão de espectros e de sombras

Anda em redor de ti como para um combate.

Para quê, para quê tanta mágoa me deste?

Por que surgiste aqui, na minha noite espessa,

Tu, Rainha imortal de algum Sabá celeste?

Fantasma, és a Mulher! Levanta-te, Anjo eterno!

Ergue-te mais, e mais! Como a tua cabeça

Pode tocar o Céu, se tens os pés no Inferno?

A perda da prima e noiva Constança foi extremamente marcante para o jovem poeta Afonso. Acompanhava sua doença de perto, rezando para São Bom Jesus de Matozinhos para que ela se curasse. O misticismo e o amor, que veremos em sua obra, parecem ter despertado desde cedo no poeta. Afonso ficou com Constança até sua morte aos 17 anos, muitas vezes sem estudar, sem destino. Afonso percorreu a boêmia literária dos botecos dos estudantes e não tardou a adoecer com uma bronquite, que seus pais desconfiavam ser uma tuberculose.

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S. BOM JESUS DE MATOZINHOS

S. Bom Jesus de Matozinhos

Fez a Capela em que o adoramos

No meio de árvores e ramos

Para ficar perto dos ninhos.

É como a Igreja de uma aldeia,

Tão sossegada e tão singela…

As moças, quando a lua é cheia,

Sentam-se à porta da Capela.

Vai-se pela ladeira acima

Até chegar no alto do morro.

Tão longe… mas quem desanima

Se Ele é o Senhor do Bom-Socorro!

Tem tanto encanto a sua Igreja,

Paz que nos é tão familiar,

Que é impossível que se não seja

Um bom cristão em tal lugar.

Alegrias mais que terrestres

Murmuram hinos pelas naves.

No adro, quantas flores silvestres,

Nas torres, quantos vôos de aves…

E atrás da Igreja o cemitério

Floresce cheio de jazigos.

Os próprios mortos, que mistério!

Vivem na paz de bons amigos.

Quando o Jubileu se aproxima,

Ai! quanta gente sobe o morro…

Tão longe… mas quem desanima

Se Ele é o Senhor do Bom-Socorro!

Velhas de oitenta anos contados

Querem vê-lo no seu altar,

Braços abertos, mas pregados,

Que nos não podem abraçar.

Entrevados de muitos anos,

Vão de rastros pelos caminhos

Olhar os olhos tão humanos

De Bom Jesus de Matozinhos.

Saem dos leitos, como de essas,

Espectros cheios de esperança,

E vão cumprir loucas promessas,

Pois de esperar a fé não cansa.

Vinde, leprosos do grande ermo,

Almas que estais dentro de lodos:

Que o Bom Jesus recebe a todos,

Ou seja o são ou seja enfermo.

Almas sem rumo como as vagas,

Vinde rezar, vinde rezar!

Se Ele também tem tantas chagas,

Como não há de vos curar…

Direis talvez: “Chegar lá em cima…

Antes de lá chegar eu morro!

Tão longe… “Mas quem desanima

Se Ele é o Senhor do Bom-Socorro!

Foi pelo meado de setembro,

No Jubileu, que eu vim amá-la.

Ainda com lágrimas relembro

Aqueles olhos cor de opala…

Era tarde. O sol no poente

Baixava lento. A noite vinha.

Ela tossia, estava doente…

Meu Deus, que olhar o que ela tinha!

Ela tossia. Pelos ninhos

Cantava a noite, toda luar.

S. Bom Jesus de Matozinhos

Olhava-a como que a chorar…

Afastado o perigo de pneumonia, o poeta melhora de sua bronquite. Assim, segue o jovem por sua contemporaneidade a abraçar o entusiasmo político que o cerca, a República. Escreve poemas sobre o assunto e é influenciado por Guerra Junqueiro e Manuel Ozzori, este, organizador do Almanaque administrativo, mercantil, industrial, científico e literário do Município de Ouro Preto. Afonso publicava seus poemas nesse Almanaque. Afonso vai então para São Paulo estudar Direito. Seu pai, queria o poeta em Coimbra, mas Afonso recusa prontamente.

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CAPUT V / OSSA MAE

poema IV

Ó lábios que sereis de lodo e poeira,

Que intangível desejo vos abate?

Que ânsia suprema, na hora derradeira,

Em silêncio vos livra esse combate?

Quereis falar, e quietos sois: na inteira

Mudez do coração que já não bate,

Por debaixo de vós ri-se a caveira,

Lábios que fostes flamas de escarlate.

Se frios como neve estais agora,

Com saudades de beijos que não destes,

Alegrai-vos na dor que vos descora.

Cerrai-vos para sempre em doce calma:

Que os beijos dados, e ainda os mais celestes,

Nunca deixam vestígios na nossa alma…

Em São Paulo, Afonso mergulha no jornalismo. contribuindo com o Comércio de S. Paulo, Diário Mercantil e Correio Paulistano. No Estado de São Paulo, publica poemas na seção: Parnaso. Enamora-se da sobrinha da dona da pensão onde mora, Ester, depois de uma moça chamada Adélia. Já está prontamente estabelecido na grande cidade. Começa então a organizar os poemas publicados para um livro. Conhece o poeta Jacques d’Avray, que oferecia reuniões em sua casa com outros poetas, começa aí o diálogo com alguns contemporâneos.

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PULCHRA UT LUNA

de Dona Mística

Na solidão suprema dos conventos,

Em horas de pavor tão sossegadas,

Vêem-se passar fantasmas sonolentos,

Vultos de freiras mortas e de fadas.

Soluça a paz dos grandes monumentos,

Debruçado à beira das estradas:

Sombras de luto, pelos lutulentos

Caminhos, choram mágoas já choradas.

Vozes de além, pungentes de mistério,

Cantam: e os sinos dobram nas ermidas,

Acompanhando o cantochão funéreo…

(Brancas visões remotas, enfadonho

Enterro infindo de ilusões queridas

Na solidão suprema do meu Sonho!)

Com os poemas publicados nos jornais de São Paulo, Afonso preparava um livro, que se chamaria Salmos da Noite. Após a reforma Benjamin Constant, que permitiria a fundação nos Estados de Faculdade de Direito e com o entusiasmo de jovens advogados como Raimundo Correia e Afonso Arinos, fundou-se em Ouro Preto a Faculdade Livre de Direito. Em 1892, o poeta Afonso se mudaria para lá, e em 1894, colando o grau bacharel.  Volta para São Paulo, conclui o curso de Ciências Sociais, e já no quadro da Academia Livre de Direito de Minas Gerais, debaixo de sua foto, está seu nome literário e latinizado: Alphonsus de Guimaraens.

poema Museus e Livrarias no blog http://pedrolago.blogspot.com

ELECTA UT SOL V

de Dona Mística

Quantas vezes no caos destes meus longos dias

Eu ouço a tua voz de perdão e de queixa,

E te vejo surgir, à hora em que aparecias,

Solta a faixa da tua ensombrada madeixa!

Tarde louca de abril; gemem ave-marias

Pelas naves; o luar o mundo inteiro enfeixa

Num ramalhete de ouro estelar: nostalgias

Que o ocaso em funeral pelo infinito deixa.

Do alto onde estás, volves o teu olhar clemente:

Andas no céu. Toda a minha Alma é um sol no poente,

Onde morre a visão dos meu dias felizes…

Uma saudade cruel o coração me corta;

Recordo-me de ti como de alguma morta

Que me tivesse amado em longínquos países…

Após concluir os cursos, Alphonsus vai para o Rio de Janeiro, onde se encontra com o poeta Cruz e Sousa. O poeta catarinense já admirava os versos de Alphonsus publicados no Estado de São Paulo. Conheceu também os grupos literários da época, tornou-se amigo do poeta parnasiano Emílio de Meneses e foi muito admirado por todos que conheceu. Em 1895 foi nomeado promotor de justiça da comarca mineira de Conceição do Serro.

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RIMANCE DE DONA CELESTE

- Satã, onde a puseste?

Busco-a desde a manhã.

Oh pálida Celeste…

Satã! Satã! Satã!

E o cavaleiro andante,

A toda, a toda a rédea,

Passa em busca da Amante

Pela noite sem luar da Idade Média.

- O vento ulula e chora…

Maldição! maldição!

A quem amar agora,

Meu pobre coração…

E o Cavaleiro passa

Ante a sombria porta

Da lúgubre Desgraça,

Silenciosa mulher de olhar de morta.

- Viste, velha agoureira,

O Anjo do meu solar?

- Ah! com uma Feiticeira

Ela acaba de passar…

E bate o Cavaleiro

A outra porta escura:

É a casa do coveiro,

Solitária como uma sepultura.

- Quem sabe! acaso, acaso,

O meu anjo morreu?

- Fidalgo, morre o ocaso,

Não posso enterrá-lo eu!

Louco, às trevas pergunta:

Sombras pelos caminhos

Dizem que ela é defunta…

E ele começa a interrogar os ninhos.

- Acaso, acaso a viste,

Meu suave ruscinol?

- Ouves a endecha triste?

Bem vês que não vi o sol.

E o Cavaleiro escuta

Longe o estertor de um pio…

Talvez a voz poluta

E irônica de algum mocho erradio.

- O teu Anjo finou-se

Ao beijo de Satã…

Ai! do seu lábio doce,

Mais doce que a manhã!

Tinem arneses: voa

O cavaleiro andante

A toda a rédea, à-toa…

Não acharás, Fidalgo, a tua amante!

No Largo do Chafariz, em Conceição do Serro, Alphonsus se apaixona por uma moça de quinze anos. Filha de um escrivão da Coletoria Estadual, se chamava Zenaide. Para conquistá-la, o poeta enviou uma caixa de passas com flores na tampa e um poema. Não tardou a ficarem juntos. O poeta acabara de se banhar no mais puro lirismo! Em 1897, casa-se com a moça no dia de seu aniversário de dezessete anos. O poeta com seus 26. A viagem de núpcias foi em Ouro Preto, onde Zenaide conheceu seus pais. Algo de lúgubre aconteceria depois.

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ÁRIA DO LUAR

O luar, sonora barcarola,

Aroma de argental caçoula,

Azul, azul em fora rola…

Cauda de virgem lacrimosa,

Sobre a montanha negras pousa,

Da luz na quietação radiosa.

Como lençóis claros de neve,

Que o sol filtrando em luz esteve,

É transparente, é branco, é leve.

Eurritmia celestial das cores,

Parece feito dos menores

E mais transcendentes odores.

Por essas noites, brancas telas,

Cheias de esperanças de estrelas,

O luar é o sonho das donzelas.

Tem cabalísticos poderes

Como os olhares das mulheres:

Melancolia e enerva os seres.

Afunda na água o alvo cabelo,

E brilha logo, algente e belo,

Em cada lago um sete-estrelo.

Cantos de amor, salmos de prece,

Gemidos, tudo anda por esse

Olhar que Deus à terra desce.

Pela sua asa, no ar revolta,

Ao coração do amante volta

A Alma da amada aos beijos solta.

Rola, sonora barcarola,

Aroma de argental caçoula,

O luar, azul em fora, rola…

Após a viagem para Ouro Preto, foi diagnosticado na moça uma cardiopadia adiantada. Tal problema fez com que o poeta tomasse cuidados excessivos com a mulher. Em 1899, Alphonsus publica Setenário das Dores de Nossa Senhora, Câmara Ardente e Dona Mística. Sempre com tiragens de 250 a 500 exemplares. Em 1900, o poeta já tinha duas filhas. Depois segue para o Rio de Janeiro e reafirma o contato com o grupo simbolista contribuindo com as revistas Rosa-Cruz e Revista Contemporânea.

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PERISTYLUM

No sacro e fulvo peristilo jalde,

Entre silêncios de cristal imoto,

O meu Amor em nuvens se desfralde

Na perfeição astral do Eterno-Voto:

E pecador, a procurar embalde

A estrada espiritual do Céu remoto,

A aspiração da Fé sublime escalde

O meu peito medievo de devoto:

Longe da turbamulta que me cerca,

Eu fortaleça o coração vetusto

Para que nada do meu Ser se perca:

Neste poema de Amor, amplo e celeste,

Eu cante o extremo Epitalâmio augusto

À sombra funerária de um cipreste…

Alphonsus vai para Conceição do Serro onde contribui com o jornal A Gazeta. Fez algumas amizades na cidade e em junho de 1902 organiza o livro Kiriale, cronologicamente seu primeiro livro, editado em Portugal com despesas próprias. Em 1903 recusa um lugar na redação d’A Gazeta pelo salário de quatrocentos mil-réis. Logo após viria a ser redator de um jornal político. Alphonsus escrevia sátiras versificadas, muitas vezes contra médicos, que eram da oposição local, e também estava presente nas escassas quatro páginas com seus versos ao lado de Cruz e Sousa, Olavo Bilac, Coelho Neto, Raul Pompéia e outros amigos.

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ANTÍFONA

Volvo o rosto para o teu afago,

Vendo o consolo dos teus olhares…

Sê propícia para mim que trago

Os olhos mortos de chorar pesares.

A minha Alma, pobre ave que se assusta,

Veio encontrar o derradeiro asilo

No teu olhar de Imperatriz augusta,

Cheio de mar e de céu tranquilo.

Olhos piedosos, palmas de exílios,

Vasos de goivos, macerados vasos!

Venho pousar à sombra dos teus cílios,

Que se fecham sobre dois ocasos.

Volvo o peito para as tuas Dores

E o coração para as Sete Espadas…

Dá-me, Senhora, a unção que nunca morre

Nos pobres lábios de quem espera:

Sê propícia para mim, socorre

Quem te adorara, se adorar pudera!

Mas eu, a poeira que o vento espalha,

O homem de carne vil, cheio de assombros,

O esqueleto que busca uma mortalha,

Pedir o manto que te envolve os ombros!

Adorar-te, Senhora, se eu pudesse

Subir tão alto na hora da agonia!

Sê propícia para a minha prece.

Mãe dos aflitos…

Ave Maria.

Alphonsus exerceu a função de promotor de justiça durante o ano de 1905. Certa vez, o poeta estudou um processo e se preparou para os debates. Momentos antes, empalideceu na frente de sua mulher, Zenaide, escorregou na cadeira e desmaiou. Ser promotor de justiça não era de seus talentos. Foi nomeado juíz municipal de Mariana. Foi a Belo Horizonte, onde conheceu jovens poetas simbolistas e que o admiravam muito. O poeta teve muitos filhos.

tradução de um poema de Paul Valéry no blog http://pedrolago.blogspot.com

NOVA PRIMAVERA

XXVI

Dos cravos o perfume entre as brisas anseia

E os astros, voando como um enxame prateado,

Cintilam com um tremente esplendor irisado

No céu que ao fundo se arroxeia.

Dos castanheiros através, eis que fulgura

A casa dela; após, de repente clareada,

Uma janela se abre… e a voz tão dourada

Em meio à noite ergue-se pura.

Oh encanto! doce voz, eu tremo aos teus acentos:

O orvalho para ouvir-te o rorejar suspende;

O lírio, no jardim à escuta, a frente pende,

E os rouxinóis estão atentos.

Já estabelecido em Mariana, seus pais vieram morar na casa do poeta. Seu pai Albino da Costa Guimarães, com 70 anos, tivera um desmoronamento financeiro no fim da vida. O pai de Alphonsus morreu no dia 5 de março de 1908 e sua mãe, Francisca, dois anos depois, após um ano numa cadeira. Alphonsus já decidira passar sua vida na cidade que o chamaria de “solitário”.

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AS CANÇÕES I

Ando colhendo flores tristes:

Um goivo aqui, outro acolá…

Moças, por que não me sorristes?

Vossos sorrisos, flores tristes,

Eu não sei quem os colherá.

Eu colho flores para os noivos

Que já nã querem sonhar mais.

Nos vossos olhos nascem goivos…

Dai-me esas flores para os noivos

Que têm amadas celestiais.

Ando colhendo roxas flores:

Quantas saudades não colhi!

Eu já não tenho mais amores,

Pois vossos beijos, roxas flores,

Não mais florescem por aqui.

Eu colho flores para as mortas…

Quantos sepulcros enfeitei!

Dai-me grinaldas para as portas

Por onde vão saindo as mortas

Com que sonhei, com que sonhei!

Em janeiro de 1915, a França é invadida na Primeira Guerra Mundial. Alphonsus de Guimaraens entra numa crise cívica internacional. Escreve em francês os versos que surgiram da revolta contra o Kaiser que terminava assim: “Le nouvel Attila, l’empereur aux moustaches/En défi à la terre, insidieux vautour/ Ne te souillera pas, car ta vie est sans taches/Berceau de Joanne d’Arc”. No livro Pastoral aos Crentes do Amor e da Morte, há a presença de Verlaine e Mallarmé em poemas traduzidos.

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CISNES BRANCOS

Ó cisnes brancos, cisnes brancos,

Por que viestes, se era tão tarde?

O sol não beija mais os flancos

Da montanha onde morre a tarde.

Ó cisnes brancos, dolorida

Minh’alma sente dores novas.

Cheguei à terra prometida:

É um deserto cheio de covas.

Voai para outras risonhas plagas,

Cisnes brancos! Sede felizes…

Deixai-me só com as minhas chagas,

E só com as minhas cicatrizes.

Venham as aves agoireiras,

De risada que esfria os ossos…

Minh’alma, cheia de caveiras,

Está branca de padre-nossos.

Queimando a carne como brasas,

Venham as tentações daninhas,

Que eu lhes porei, bem sob as asas,

A alma cheia de ladainhas.

Ó cisnes brancos, cisnes brancos,

Doce afago de alva plumagem!

Minh’alma morre aos solavancos

Nesta medonha carruagem…

Em 1915, após sua crise cívica em virtude da Grande Guerra (perdoem o imenso deslize), Alphonsus teve um encontro com José Severiano Resende, poeta que vivia em Paris e que abandonara a batina. O encontro aconteceu em Belo Horizonte, onde um jantar foi oferecido aos dois poetas na Academia Mineira de Letras. Alphonsus não ia a Belo Horizonte desde 1906, mas o fez pelo amigo. No jantar houve uma leitura de poemas de todos os poetas que lá estavam. Por que este relato é importante? Porque foi a última viagem de Alphonsus de Guimaraens.

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ISMÁLIA

Quando Ismália enlouqueceu,

Pôs-se na torre a sonhar…

Viu uma lua no céu

Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,

Banhou-se toda em luar…

Queria subir ao céu,

Queria descer ao mar…

E, no desvario seu,

Na torre pôs-se a cantar…

Estava perto do céu,

Estava longe do mar…

E como um anjo pendeu

As asas para voar…

Queria a lua do céu,

Queria a lua do mar…

As asas que Deus lhe deu

Ruflaram de par em par…

Sua alma subiu ao céu,

Seu corpo desceu ao mar…

Como é notório em qualquer antologia ou biografia breve, Alphonsus de Guimaraens é conhecido por “Solitário de Mariana”, cidade onde morou até o fim de sua vida. Seu filho, João Alphonsus, havia pleiteado que o pai fosse para Comarca de Sabará trabalhar no tribunal, porém, o projeto não foi adiante. O poeta vivia uma vida modesta, tendo somente a poesia como consolo. Algo trágico viria a acontecer.

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CAMPA EM FLOR

Quando tu viste o branco jasmineiro

Que dentro da minha alma florescia,

Sorriste-me e colhi logo o primeiro

Beijo que nos teus lábios me sorria.

Depois eras o meigo jardineiro,

Que o jardim cultivava noite e dia…

Água nunca faltava no canteiro,

Pois que a fonte dos olhos teus corria.

Mas vendo que eu, alheio a ti, pendera

Um dia a fronte para a terra impura,

Fitaste-te com os teus olhos antigos:

- “Desgraçada de mim, que me esquecera

Que nascem com mais viço e formosura

As flores que plantamos nos jazigos!”

A última filha do poeta, Constança, ou Constancinha, nasceu no dia 8 de março de 1920. Porém no dia 16 de maio, depois de uma doença rápida, a menina morre. A irmã do poeta, Estefânia, e sua tia, Maria Eugênia, haviam atribuido a tragédia de Constancinha ao nome que lhe fora dado (!), pois ambas haviam censurado a escolha. Mas foi um duro golpe ao coração do poeta. Foi se envolvendo numa amargura, até que na madrugada de 15 de julho de 1921, dois meses depois da morte da filha, morre Alphonsus de Guimaraens. Seu corpo, está no cemitério da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, no ponto mais alto de Mariana.

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A CATEDRAL

Entre brumas, ao longe, surge a aurora.

O hialino orvalho aos poucos se evapora,

Agoniza o arrebol.

A catedral ebúrnea do meu sonho

Aparece, na paz do céu risonho,

Toda branca de sol.

E o sino canta em lúgubres responsos:

“Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”

O astro glorioso segue a eterna estrada.

Uma áurea seta lhe cintila em cada

Refulgente raio de luz.

A catedral ebúrnea do meu sonho,

Onde os meus olhos tão cansados ponho,

Recebe a bênção de Jesus.

E o sino clama em lúgubres responsos:

“Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”

Por entre lírios e lilases desce

A tarde esquiva: amargurada prece

Põe-se a lua a rezar.

A catedral ebúrnea do meu sonho

Aparece, na paz do céu tristonho,

Toda branca de luar.

E o sino chora em lúgubres responsos:

“Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”

O céu é todo trevas: o vento uiva.

Do relâmpago a cabeleira ruiva

Vem açoitar o rosto meu.

E a catedral ebúrnea do meu sonho

Afunda-se no caos do céu medonho

Como um astro que já morreu.

E o sino geme em lúgubres responsos:

“Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”

Eis que chegamos ao final de mais uma antologia poética. Neste mês vimos um pouco da vida e da obra deste que se tornou um dos grandes nomes da poesia simbolista no Brasil. Poeta recluso, mineiro, de obra extensa e substancial, ligado às levitações religiosas e ao amor, que escolheu a calma da solidão para viver e que a vida fez gerar outros grandes poetas na família. Semana que vem, entraremos em outro universo poético, contemporâneo ou não, outras proposições, outros poemas. Pra frente companheiros!

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DOIS DE NOVEMBRO XX

Vou pela sombra. O luar é suave como

O sol que morre no claror supremo.

Agora a lua, em demorado assomo,

Domina todo o céu, de extremo a extremo.

Eis a floresta. O espírito de um gnomo

Em cada árvore ri. Valha-me o demo!

Por sobre a copa deste cinamomo

Desliza a lua, gôndola sem remo…

Sigo. Silêncio e luz… Dormem os ninhos.

Por toda a parte, heráldicos arminhos,

Aqui e ali, refulgem sobre o chão.

É a floresta enluarada da minh’alma:

E o teu olhar é a lua doce e calma

Que me segue através desta ilusão…

dezembro 27, 2009

Retrospectiva 2009

Começamos este bom ano de estudos com o grande poeta simbolista João da Cruz e Sousa. Nasceu em Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis, em 24 de novembro de 1861. Filho de negros alforriados, teve educação na ‘Casa Grande’ com seu ex-senhor, cujo nome de família “herdou”. Aprendeu latim, grego, francês e se tornou poeta ligado à poesia francesa. Apesar de ser negro, Cruz e Sousa só se envolveu com a questão abolicionista numa viagem que fez com um grupo de teatro para a Bahia, onde conheceu outros intelectuais da causa. Cruz e Sousa morreu no povoado Estação de Sítio no município de Antônio Carlos em Minas Gerais no dia 19 de março de 1898.

BRAÇOS

Braços nervosos, brancas opulências,

brumais brancuras, fúlgidas brancuras,
alvuras castas, virginais alvuras,
latescências das raras latescências.

As fascinantes, mórbidas dormências
dos teus abraços de letais flexuras,
produzem sensações de agres torturas,
dos desejos as mornas florescências.

Braços nervosos, tentadoras serpes
que prendem, tetanizam como os herpes,
dos delírios na trêmula coorte …

Pompa de carnes tépidas e flóreas,
braços de estranhas correções marmóreas,
abertos para o Amor e para a Morte!

ENCARNAÇÃO

Carnais, sejam carnais tantos desejos,
carnais, sejam carnais tantos anseios,
palpitações e frêmitos e enleios,
das harpas da emoção tantos arpejos…
Sonhos, que vão, por trêmulos adejos,
à noite, ao luar, intumescer os seios
láteos, de finos e azulados veios
de virgindade, de pudor, de pejos…

Sejam carnais todos os sonhos brumos
de estranhos, vagos, estrelados rumos
onde as Visões do amor dormem geladas…

Sonhos, palpitações, desejos e ânsias
formem, com claridades e fragrâncias,
a encarnação das lívidas Amadas!

Torquato Pereira de Araújo Neto nasceu em Teresina, Piauí, no dia 9 de novembro de 1944. Veio como um cometa. Conheceu Gilberto Gil no colégio em Salvador, se mudou para o Rio e se tornou figura essencial na efervescência cultural dos anos 60. Explosivo, Torquato foi nome e porta-voz do Tropicalismo, da poesia Concreta e da música brasileira naquela época. Escrevia crítica de música para o Geléia Geral. Uma curiosidade: Torquato era fascinado por vampiros. Chegou a fazer um filme antologico chamado Nosferatu no Brasil. Torquato se suicidou em seu apartamento após a festa de seu aniversário de 28 anos, trancando-se na cozinha e abrindo o gás, o dia foi 10 de novembro de 1972.

Este poema é uma obra prima.

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EXPLICAÇÃO DO FATO PARTE II

Também tenho uma noite em mim tão escura

que nela me confundo e paro

e em adágio cantabile pronuncio

as palavras da nênia ao meu defunto,

perdido nele, o ar sombrio.

(Me reconheço nele e me apavoro)

Me reconheço nele,

não os olhos cerrados, a boca falando cheia,

as mãos cruzadas em definitivo estado, se enxergando,

mas um calor de cegueira que se exala dele

e pronto: ele sou eu,

peixe boi devolvido à praia, morto,

exposto à vigilância dos passantes.

Ali me enxergo, à força no caixão do mundo

sem arabescos e sem flores.

Tenho muito medo.

Mas acordo e a máquina me engole.

E sou apenas um homem caminhando

e não encontro em minha vestimenta

bolsos para esconder as mãos, armas, que, mesmo frágeis,

me ameaçam.

Como não ter medo?

Uma noite escura sai de mim e vem descer aqui

sobre esta noite maior e sem fantasmas.

como não morrer de medo se esta noite é fera

e dentro dela eu também sou fera e me confundo nela e

ainda insisto?

Não é viável.

Nem eu mesmo sou viável, e como não? Não sou.

O que é viável não existe, passou há muito tempo

e eram manhãs e tardes e manhãs com sol e chuva

e eu menino.

eram manhãs e tardes e manhãs sem pernas

que escorriam em tardes e manhãs sem pernas

e eu sentado num tanque absurdamente posto no meio da rua,

menino sentado sem a preocupação da ida.

E era todo dia.

Havia sol

e eu o sabia

sol: era de dia

Havia uma alegria

do tamanho do mundo

e era dia no mundo.

Havia uma rua

(debaixo dum dia)

e um tanque.

Mas agora é noite até no sol.

Mário de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa, em 19 de maio de 1890. Foi colaborador de diversos jornais em Portugal. Passou um tempo em Paris, se apaixonou por uma prostituta, viveu intensamente sua angústias na capital francesa. Correspondeu-se com o amigo Fernando Pessoa a quem deixou todos os seus manuscritos. Se tornou um pouco conhecido após participar da revista literária e modernista Orpheu, marco da chamada Geração d’Orpheu. No dia 26 de abril de 1916, aos 26 anos, Mário se suicida em Paris tomando arseniato e estricnina.

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ÁLCOOL

Guilhotinas, pelouros e castelos

Resvalam longemente em procissão;

Volteiam-me crepúsculos amarelos,

Mordidos, doentios de roxidão.

Batem asas de auréola aos meus ouvidos,

Grifam-me sons de cor e de perfumes,

Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,

Descem-me a alma, sangram-me os sentidos.

Respiro-me no ar que ao longe vem,

Da luz que me ilumina participo;

Quero reunir-me, e todo me dissipo —

Luto, estrebucho… Em vão! Silvo pra além…

Corro em volta de mim sem me encontrar….

Tudo oscila e se abate como espuma…

Um disco de oiro surge a voltear…

Fecho os meus olhos com pavor da bruma…

Que droga foi a que me inoculei?

Ópio de inferno em vez de paraíso?…

Que sortilégio a mim próprio lancei?

Como é que em dor genial eu me eternizo?

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,

Foi álcool mais raro e penetrante:

É só de mim que ando delirante —

Manhã tão forte que me anoiteceu.

SONETO DE AMOR

Que rosas fugitivas foste ali:

Requeriam-te os tapetes – e vieste…

- Se me dói hoje o bem que me fizeste,

É justo, porque muito te devi.

Em que seda de afagos me envolvi

Quando entraste, nas tardes que apar’ceste -

Como fui de percal quando me deste

Tua boca a beijar, que remordi…

Pensei que fosse o meu o teu cansaço -

Que seria entre nós um longo abraço

O tédio que, tão esbelta, te curvava…

E fugiste…. Que importa? Se deixaste

A lembrança violeta que animaste,

Onde a minha saudade a Cor se trava?…

Antônio Carlos de Brito, ou Cacaso, nasceu em Uberaba, Minas Gerais, no dia 13 de março de 1944. Foi um poeta e letrista de música popular, tendo feito letras para grandes nomes como Elton Medeiros, Edu Lobo e muitos outros. Foi professor da Puc e um dos principais teóricos da geração marginal da qual fez parte. Publicou artigos importantes sobre a poesia contemporânea, e lembra bem que esta geração é fruto da tradição de Bandeira e Mário de Andrade. Cacaso tinha um tom irônico único em sua poesia. No dia 27 de dezembro de 1987, um infarte o levou embora.

poema A estrada no blog http://pedrolago.blogspot.com

VIDA E OBRA

Você sabe o que Kant dizia?

Que se tudo desse certo no meio também

Daria no fim dependendo da ideia que se

Fizesse de começo.

E depois – para ilustrar – saiu dançando um

Foxtrote.

MODÉSTIA À PARTE

Exagerado em matéria de ironia e em

Matéria de matéria moderado.

CARTEIRA PROFISSIONAL

Não sou amado no amor: sou

Amador.

LÁ EM CASA É ASSIM

meu amor diz que me ama

mas jamais me dá um beijo

pra continuar rejeitado assim

prefiro viajar para a Europa

SURDINA

Primeiro o Tenório Jr.

que sumiu na Argentina

Depois quando perigava

onze e meia da matina

veio a notícia falal:

faleceu Elis Regina!

Um arrepio gelado

um frio de cocaína!

A morte espreita calada

na dobra de uma esquina

rodando a sua matraca

tocando a sua buzina

Isso tudo sem falar

na morte do velho Vina!

E agora é Clara Nunes

que morre ainda menina!

É demais! Que sina!

A melhor prata da casa

o ouro melhor da mina

Que Deus proteja de perto

a minha mãe Clementina!

Lá vai a morte afinando

o coro que desafina…

Se desse tempo eu falava

do salto da Ana Cristina…

Manuel Maria Barbosa du Bocage nasceu em Setúbal no dia 15 de setembro de 1765. Enfim foi um poeta que conseguiu ter uma voz em Portugal depois de Camões. Viveu numa sociedade onde os poetas beiravam à bajulação, e foi através de sua personalidade contestadora, provocadora e, sobretudo, libidinosa que marcou seu nome na poesia portuguesa. Bocage viajou para o Brasil, conheceu a modinha, assim como Camões seu grande ídolo, foi da Marinha, percorreu todas as colônias portuguesas, passou tempos na prisão e foi um metrificador nato. Bocage morreu no dia 21 de dezembro de 1805. Este poeta vale o mergulho.

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ACHANDO-SE PRESTES A AUSENTAR-SE DA SUA AMADA

Praias de Sacavém, que Lemnoria

Orna cos pés nevados e mimosos,

Gotejantes penedos cavernosos,

Que do Tejo cobris a margem fria:

De vós me desarreiga a tirania

Dos ásperos Destinos poderosos;

Que não querem que eu logre os amorosos

Olhos, aonde jaz minha alegria:

Oh funesto, oh penoso apartamento!

Objeto encantador de meus sentidos,

A sorte o manda assim, de ti me ausento:

Mas inda lá de longe os meus gemidos

Guiados por Amor, cortando o vento,

Virão ninfa querida, a teus ouvidos.

SONETO IX

Arreitada donzela em fofo leito

Deixando erguer a virginal camisa,

Sobre as roliças coxas se divisa

Entre sombras sutis pachocho estreito:

De louro pêlo um círculo imperfeito

Os papudos beicinhos lhe matiza;

E a branda crica, nacarada e lisa,

Em pingos verte alvo licor desfeito:

A voraz porra as guelras encrespando

Arruma a focinheira, e entre gemidos

A moça treme, os olhos requebrando:

Como é ainda boçal perde os sentidos;

Porém vai com tal ânsia trabalhando,

Que os homens é que vêm a ser fodidos.

Bruno Lúcio de Carvalho Tolentino nasceu no Rio de Janeiro no dia 12 de novembro de 1940. Bruno, que nasceu em uma família tradicional e rica do Rio de Janeiro, desde sempre conviveu com intelectuais e escritores. Ficou preso na Inglaterra durante anos, alfabetizou presos e ensinou literatura na prisão. Foi um poeta do pensamento de alta cultura, polêmico, criticava severamente a intelectualidade brasileira. Escreveu um livro que demorou quarenta anos para ficar pronto: O Mundo como Ideia, base da antologia do estudo que fizemos neste ano. Bruno morreu no dia 27 de junho de 2007. Um grande e peculiar poeta brasileiro.

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O PÊSSEGO

Estavas debruçada e me cobriste

dos bruscos panos brancos da alegria,

cantava a noite sacudindo a terra,

desatando o dia,

meu corpo todo em riste,

jubilação do instante, te bebia,

e encontados à crista

luminosa da terra,

fomos marulho puro, maresia,

rebentação da luz que não se avista.

Vive-se da saudade da surpresa

que sacudira acesa

a tocha humana pelo coração.

Mas se acaso outra vez me apareceres,

a rosa refolhada dos prazeres

no ventre e aquele cacto

de delícias na boca,

recomece o prodígio, não o ato:

somos bichos do chão

e à solidão da raça

toda carícia é pouca,

toda ternura passa

e, enquanto a chama cauteriza a chaga

um dia o coração, na escuridão

de si mesmo, instantâneo e vão, se apaga.

A VENDA

A voz do amor vem várias vezes,

mas a alma ama uma vez só.

De estrelas há um trilhão e treze

e somem quando um sol sem dó

recobre-as todas de ouro em pó.

No céu em que eu andei às vezes,

as belas balelas dos deuses

- neoclássicas, de um rococó

ou de um barroco de encomenda

ou de ilusão – de vez em quando

iam chegando e iam passando,

até que um dia um ser de lenda

passou por lá e pô-me a venda

da luz total nos olhos cândidos.

Neste ano fizemos um estudo de cinco semanas sobre tradução de poesia por poetas. Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos, Ivan Junqueira, Machado de Assis, Ana Cristina Cesar, Fernando Pessoa e muitos outros poetas que se enveredaram no árduo trabalho da tradução de poemas. As diferenças são enormes, os estilos também, e creio que a tradução literalmente justa não é possível, nem em poemas em espanhol. Mas foi um estudo muito prazeroso e instigante, gerou muitas respostas e incentivou outros mergulhos.

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ONDE JAMAIS VIAJEI

E.E CUMMINGS

tradução de

Paulo Mendes Campos

onde jamais viajei, alegremente além

de qualquer experiência, teus olhos têm o silêncio deles;

no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram

ou que não posso por perto demais tocar…

o teu mais leve olhar facilmente me descerra

embora como os dedos eu me tenha cerrado.

sempre me abres pétala por pétala como a primavera

abre (tocando-a jeitosa, misteriosamente) sua primeira rosa

ou, se te aprouvesse encerrar-me, eu

e minha vida nos fecharíamos em beleza, subitamente,

como quando o coração desta flor imagina

a neve cuidadosamente por todo lado a tombar;

nada do que nos é dado a perceber neste mundo se iguala

ao poder da tua imensa fragilidade: cuja textura

me compele com a cor das suas pátrias,

que me cedem a morte e o sem fim a cada alento

(não sei o que vai em ti que se fecha

e se entreabre; apenas alguma coisa em mim entende

que a voz dos teus olhos é mais funda que as rosas todas)

e ninguém, nem mesmo a chuva, tem as mãos assim tão pequenas

UMA PALAVRA É DEMAIS PROFANADA

SHELLEY

tradução

Thereza Christina Rocque da Motta

Uma palavra é demais profanada

para que eu a profane;

um sentimento é falsamente desdenhado demais

para que tu o desdenhes;

uma esperança se aproxima do desespero demais

para que a prudência a acalme;

e tua piedade é mais cara

do que de qualquer outra pessoa.

Não posso te dar o que chamam de amor;

mas não aceitarás

a adoração que eleva o coração

e os céus não desprezam, –

a ânsia da traça pela luz das estrelas,

da noite pelo amanhecer,

e a devoção pelo que se distancia

da esfera do nosso sofrer?

HELENA

PAUL VALÉRY

tradução

Pedro Lago

Azul! Sou eu… Venho das grutas da morte

Escutar a onda se romper aos degraus sonoros,

E eu revejo as galés dentro das auroras

Ressucitarem da sombra ao fio dos ramos de ouro.

Minhas solitárias mãos chamam os monarcas

Cuja barba de sal divertia meus dedos puros;

Eu chorava. Eles cantavam seus triunfos obscuros

E os golfos enterrados às popas de seus barcos,

Eu escuto as conchas profundas e os clarins

Militares ritmarem o vôo dos remos;

O canto claro dos remadores concatenam o tumulto

E os Deuses, na proa heróica, exaltados

Em seu sorriso antigo e que a espuma insulta,

Levantam sobre mim seus braços indulgentes e esculpidos.

Jorge Mateus de Lima nasceu em Alagoas no dia 23 de abril de 1893. Foi poeta, médico, político, ensaista, tradutor e pintor. Formou-se médico aos vinte anos na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Começou a escrever poesia parnasiana, aprofundou-se na forma do soneto e depois sobre a temática nativa. Jorge de Lima também é conhecido pela sua catolicidade. Escreveu poemas essencialmente religiosos e, junto com Murilo Mendes, restaurou a Poesia em Cristo. Foi recusado seis vezes para a Academia Brasileira de Letras. Jorge de Lima morreu no dia 15 de novembro de 1953.

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DOMÍNIO RÉGIO

Investiguei a Grécia em Platão e em Homero,

Vi Sócrates beber a taça de cicuta…

Depois passei a Roma e analisei de Nero

Na boca de Petrônio essa face corrupta.

Conheci Santo Anselmo e São Tomás, Lutero,

Estudei de Voltaire a inteligência arguta

E finalmente andei como se fosse Asvero

Pela Ciência e a História em requintada luta…

Mas a Arte é que me impõe o seu domínio régio

E é por isso que adoro a mão de Tintoretto

E a sublime palheta e o pincel de Correggio…

E é por isso que eu amo o verso alexandrino

E burilo, Mulher, este pobre soneto

Inspirado a pensar em teu perfil divino.

O CANTO DA DESPARIÇÃO

Aqui é o fim do mundo, aqui é o fim do mundo

em que até aves vêm cantar para encerrá-lo.

Em cada poço, dorme um cadáver, no fundo,

e nos vastos areais – ossadas de cavalo.

Entre as aves do céu: igual carnificina:

se dormires cansado, à face do deserto,

quando acordares hás de te assustar. Por certo,

corvos te espreitarão sobre cada colina.

E, se entoas teu canto a essas aves (teu canto

que é debaixo dos céus, a mais triste canção),

vem das aves a voz repetindo teu pranto.

E, entre teu angustiado e surpreendido espanto,

tangê-las-ás de ti, de ti mesmo, em que estão

êsses corvos fatais. E êsses corvos não vão.

Afonso Henriques de Guimaraes Neto nasceu em Belo Horizonte em 1944. Aos 10 anos, veio para o Rio de Janeiro e depois para Brasília, onde concluiu os estudos fundametais e, posteriormente, a faculdade de Direito. Afonso é filho do poeta Alphonsus de Guimaraes Filho e neto do grande poeta simbolista Alphonsus de Guimaraes. Afonso participou da Antologia 26 poetas hoje de Heloisa Buarque de Holanda. Desde sua estréia em 1972, publicou cerca de 10 excelentes livros de poesia.

Um dos grandes poetas contemporâneos.

poema No silêncio no blog http://pedrolago.blogspot.com

MOMENTO

Na sala

mãos muito brancas

passam e repassam páginas

do livro inconsolável.

Na cabeça

o vento enorme

de todos os poemas

cristalizando-se em nada.

No tempo

a percepção da eterna

derrota

sob ressurreições infinitas.

De repente a borboleta seca

voando

voando na sala.

Oh dai-nos ao menos

esse momento úmido

de nossas mãos no vazio.

NÃO SEJA TÃO LITERÁRIO

não seja tão literário

mas se homero dante a bíblia

são pura literatura

por que não escrever abismos com violinos?

(sei que minha geração

ainda uma vez ironizou

os programas do poder

os discursos literários

romantismos concretismos

panfletarismos cabotinismos

evoé nuvem cigana

saudades cacaso & ana

mais tantos que sonharam

o fim das ditaduras

naqueles roarin’70)

e o consolo paralelo

das construções diamantinas

o la chair est triste, hélas!

et j’ai lu touts les livres

(não resolve

mas me ilumino de imenso)

última oportunidade a um cinquentão

sem poética consistente

mas com tanta vodka pela frente

(se pudéssemos estrangular deus

a branca medicina

tudo tudo

ironia na neblina)

a prosa invadiu de vez a poesia

com música ou sem melodia

o verso não mais recamará ossos

(parcas as parcas

aspérrimos verbos e este ônibus

seco)

corais de luzes dolorosas

navios do princípio do tempo

encalhados nos esqueletos sem fim

(ninguém virá na estrada para

e se vier não há mais jeito

refulgem ruíssimas retinas

o anjo se drogou todo de estrelas)

no fundo fosso a fera engole

a ferida tremenda

e no entanto a vida

entanto o sonho

(virá cantando aleluia pelo atalho

todos desconhecem o mapa mágico

rastro sagrado pedra angular

tudo se esqueceu)

última oportuidade hare

hare

Fizemos um estudo sobre a poesia barroca brasileira e foi muito interessante. Foi o primeiro momento da poesia nacional. Como lembra bem Manuel Bandeira em sua Apresentação da poesia brasileira, padre José Anchieta fizera as “primeiras letras”, mas em nosso estudo, atribuimos ao poeta Bento Teixeira, nascido no Porto em 1561 e vindo ao Brasil com cinco ou seis anos, o título de primeiro poeta “brasileiro”. Estudamos também Manuel Botelho de Oliveira e Sebastião da Rocha Pita, porém, foi em Gregório de Matos que nossa poesia teve seu primeiro grito, nascido em Salvador já no século XVII.

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DESCRIÇÃO DO REFICE DE PARANAMBUCO

Bento Teixeira

Para a parte do Sul, onde a pequena

Ursa se vê de guardas rodeada,

Onde o Céu luminoso mais serena,

Tem sua influição, e temperada.

Junto da nova Lusitânia ordena

A natureza, mãe bem atentada,

Um porto tão quieto, e tão seguro,

Que para as curvas Naus serve de muro.

É este porto tal, por esta posta,

Uma cinta de pedra, inculta, e viva,

Ao longo da soberba e larga costa,

Onde quebra Netuno a fúria esquiva.

Entre a praia, e pedra descomposta,

O estanhado elemento se deriva

Com tanta mansidão, que uma fateixa

Basta ter à fatal Argos aneixa.

QUEIXA-SE O POETA EM QUE O MUNDO VAI ERRADO, E QUERENDO EMENDÁ-LO TEM POR EMPRESA DIFICULTOSA

Gregório de Matos

Carregado de mim ando no mundo,

E o grande peso embarga-me as passadas,

Que como ando por vias desusadas,

Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.

O remédio será seguir o imundo

Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,

Que as bestas andam juntas mais ornadas

Do que anda só o engenho mais profundo.

Nâo é fácil viver entre os insanos,

Erra, quem presumir, que sabe tudo,

Se o atalho não soube dos seus danos.

O prudente varão há de ser mudo,

Que é melhor neste mundo o mar de enganos

Ser louco cos demais, que ser sisudo.

Guilherme Zarvos nasceu em São Paulo no dia 23 de março de 1957, mas vive no Rio de Janeiro desde os dois anos de idade. Formou-se em Economia, fez mestrado em Ciências Sociais e Doutorado em Letras pela Puc – Rio. Trabalhou com Darcy Ribeiro, que o queria como político, mas Guilherme optou alguma coisa com poesia. Foi um dos fundadores do CEP 20000. É uma figura controversa, provocadora, generosa e muito peculiar no cenário poético do Rio de Janeiro e continua atuando no que faz melhor.

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MONTE PASCOAL

Daqui de cima do Monte Pascoal viu. Neste

bosque encantado, nesta floresta que é parque

quando tudo era parque – correu morro: trinta

quilômetros. lá de cima havia enxergado. o

coração desejava explodir, o pé precisava voar

- ar pulmão ar – queria chegar na praia, em

Corumbau e conferir: nunca vira Deus tão lindo.

correu por meio de ipê caixeta pinha cupuba

gameleira pau-brasil sapucaia jacarandá oiti

pequi e deixou marcas das solas ligeiras no

manto tapete amarelo na trilha que tantas vezes

percorreu e nem sentiu o perfume doce da

floresta que ontem chovera. era manhã e

orvalhava e ele não viu os pingos ainda

agarrados nas folhas em todos os tons semitons

verdes que dependem das mudanças das horas

do dia e o do tempo e da Terra e das marcas dos

raios de sol. E uma codorna passou mansinha

e tentou lhe avisar que não se apressasse e outros

bichos tentaram lhe pedir que não fosse, gritando

estridentes, uivando, que parasse – ar ar pulmão

eu lhe estouro mas quero chegar – e correu como

nunca, em nome de todos os seus Deuses, de

todas as suas mulheres, não muitas, na sua

juventude. O corpo rijo acostumado à caça à

derrubada ao sexo às guerras aos jogos

correspondia. porém a Impaciência já havendo

lhe tomado exigia mais: passou batido por

borboletas brancas amarelas azuis que

aspiravam por enfeitar acariciar seu braço

guerreiro como só Bela sabia, mas não era a hora.

Apenas a praia lhe interessava e num descuido

uma raiz traiçoeira passou-lhe uma banda e o

guerreiro caiu de boca no chão, no tapete de

folhas de sêmen de óvulo de adubar terra, e um

sapo o encarou: dez centímetros era a distância.

não cuspiu, não era disso. tinha a cor das folhas.

caleidoscópio se protegia dos inimigos. o sapo

não falou absolutamente nada já que não era

um sapo falante mas o encarou preenchido – na

completa imobilidade de sapo que encara – e

Zinho, por alguns segundos, não pensou na areia

que precisava alcançar e lembrou de seu avô,

do olhar grave de tuxaua em momentos de

decisão. de tomar rumo, de falar o que o Tempo

lhe ensinou. a cara do sapo esculpida por pai e

mãe e pai e mãe e pai e mãe do sapo, dez

centímetros de seus olhos, o hipnotizava e ele

deitado de bruços, corpo todo no chão tapete de

folhas, por um minuto permitiu que maus

pressentimentos dominassem sua cabeça. o

corpo do forte fraquejou. foram apenas estes

segundos e o corpo do forte já corria e Fantasia

e Impaciência eram novamente suas donas e

Zinho já avistava a praia e não era só ele ali:

toda a aledeia, do mais velho à mais pequenininha

se grudava perto da água dentro da água para

ver:

A Fundação do Brasil.

Assim terminamos o ano de 2009, com o o poeta considerado louco por muitos e redescoberto anos depois. Neste ano mergulhamos em grandes poetas da nossa língua e em 2010 não será diferente. Para mim, a poesia é algo a ser compartilhado, através da leitura de poemas, dizendo-os em público, para os amores, para outros poetas, enfim, não importa. Conhecer os poetas de nossa língua, mergulhar em suas obras. Para o leitor, um toque em si, para o poeta, um diálogo com a tradição. Boas festas a todos!

poema Intelectuais no blog http://pedrolago.blogspot.com

FRAGMENTOS SOBRE HELEURA

Desde a noite funérea, de tristeza

Heleura está doente. Ara, morrendo,

Nunca perdera as cores do semblante,

Um formoso defunto: “vivo! vivo!”

Gritava a filha p’ra que o não levassem:

“Vivo! vivo!” Prenúncios maus, diziam.

Mas para Ut era crença que, dos túmulos,

Corvos de Odin mandando pelo mundo,

Os mortos melhor cumprem seu desígnios.

Ora, a chorar no tum’lo (Ia, em violetas

Mudada pelo amor), perpétuas meigas

Tornara-se Ut-allah, que o amortalharam.

Fundo silêncio estava dia e noite

Na sombria mansão: de longe em longe,

Como rasgam-se as brisas açoitadas

Por vergônteas, manhãs d’esto, etérea aura

Parecia chamando: Heleura!’ … Heleura!…

Que ela escutava; e nuns baixinhos ecos

A febre arremedando: He – lê – u – rous …

Heliéiou-urion … Súbito saltava,

Pesar d’Ut e as Armênias vigilantes,

E as seráficas fraldas apanhando,

Nuzinhos pés, a rir toda, irradiava

No aposento a estelífera carreira

Atalanta de luz. E viam nela

A luzente visão dos cintilados

Limões de luz, de luz níveos triângulos

Nessa cal mortal brancura, o rosto,

O riso, a boca, os olhos brancos, brancos:

E o maternal diamante em pó desfeito

Que vivifica ao cândido diamante,

Torna-o ao leito Ut-allah: “Heleura! Heleura!”

dezembro 11, 2009

Sousândrade

Joaquim de Sousa Andrade nasceu na Vila dos Guimarães no Maranhão (consta numa biografia que nasceu em Alcântara, também no Maranhão) no dia 9 de julho de 1832. Formou-se em Letras pela Sorbonne, em Paris, onde também estudou Engenharia. Permaneceu na Europa por muitos anos, viajou muito e conheceu também as repúblicas latino-americanas. Neste mês entraremos na poesia deste poeta que só se tornou conhecido aqui no Brasil por volta de 1970. Vale o mergulho.

HARPA XXXII

Dos rubros flancos do redondo oceano
Com suas asas de luz prendendo a terra
O sol eu vi nascer, jovem formoso
Desordenando pelos ombros de ouro
A perfumada luminosa coma,
Nas faces de um calor que amor acende
Sorriso de coral deixava errante.
Em torno de mim não tragas os teus raios,
Suspende, sol de fogo! tu, que outrora
Em cândidas canções eu te saudava
Nesta hora d’esperança, ergue-te e passa
Sem ouvir minha lira. Quando infante
Nos pés do laranjal adormecido,
Orvalhado das flores que choviam
Cheirosas dentre o ramo e a bela fruta,
Na terra de meus pais eu despertava,
Minhas irmãs sorrindo, e o canto e aromas,
E o sussurrar da rúbida mangueira
Eram teus raios que primeiro vinham
Roçar-me as cordas do alaúde brando
Nos meus joelhos tímidos vagindo.

oaquim de Sousa Andrade, ou Sousâdrade como era conhecido, era republicano convicto e militante. Em 1870 se muda para os Estados Unidos e vai morar em Nova Iorque. Lá funda um periódico republicano chamado O Novo Mundo, publicado em português. Veremos que o poeta se estende pelos poemas de forma “crescente” diria. Num estilo bem diferente dos outros poetas românticos. Alías, Sousândrade é um poeta da fase romântica da poesia brasileira e será um marco na divisão deste período quando deságua no realismo.

POEMA

O sol ao pôr-do-sol (triste soslaio!)…o arroio
Em pedras estendido, em seus soluços
Desmaia o céu d’estrelas arenoso
E o lago anila seus lençóis d’espelho…
Era a Ilha do Sol, sempre florida
Ferrete-azul, o céu, brando o ar pureza
E as vias-lácteas sendas odorantes
Alvas, tão alvas!… Sonoros mares, a onda
d’esmeralda
Pelo areal rolando luminosa…
As velas todas-chamas aclaram todo o ar.

O Romantismo no Brasil teve como marco a publicação do livro “Suspiros póeticos e saudades” de Gonçalves Magalhães em 1836, entretanto, o Brasil já buscava uma identidade própria que nos diferenciasse da antiga metrópole, isto é, de Portugal. Conquistamos nossa Independência (não discuto o “conquistar”) em 1822, porém, a primeira manifestação cultural veio 14 anos depois, através do “Ensaio sobre a história da literatura no Brasil” publicado na revista Niterói do mesmo Gonçalves Magalhães. Durou apenas dois números.

DÁ MEIA-NOITE

Dá meia-noite em céu azul-ferrete
Formosa espádua a lua
Alveja nua,
E voa sobre os templos da cidade.

Nos brancos muros se projetam sombras;
Passeia a sentinela
À noite bela
Opulenta da luz da divindade.

O silêncio respira; almos frescores
Meus cabelos afagam;
Gênis vagam,
De alguma fada no ar andando à caça.

Adormeceu a virgem; dos espíritos
Jaz nos mundos risonhos -
Fora eu os sonhos
Da bela virgem… uma nuvem passa.

Antes de situar o Sousândrade no Romantismo Brasileiro, vale lembrar suas principais características lá fora. Surgiu na Europa no final do século XVIII. A grosso modo, tinha como objetivo propor uma visão de mundo contra o racionalismo e grifar o espírito nacionalista nos países. O termo “romântico”, que norteou o período, veio da necessidade do individuo de ter um sentido objetivo, no idealismo ou poéticamente. Não tardou a ganhar força na figura do próprio indivíduo, através do drama humano e um gosto pelo escapismo. A Revolução Francesa foi a menina dos olhos para os românticos. Liberté Egalité Fraternité.

REPÚBLICA É MENINA BONITA DIAMANTE INCORRUPTÍVEL

Entre os astros, sagrados montes

Feliz asilo da paixão:

Puros jardins, sonoras fontes,

E virginal um coração

Vibrando aos claros horizontes

E encantado à etérea soidão.

Quis ser em chegar, primeirinha:

Oh! A gentileza do lar!

A tudo dispor; pra onde vinha

Sem dizer e onde a s’encontrar

Fé, por sugestão que adivinha,

Alma que espera.

“Hei de, he de a(…)

“Doces miragens, adeus! Vejo

Na profundez do coração,

O interno oceano do desejo,

D’Heleura a ideal solidão:

Vos deixo a Deus. Deixai-me o beijo

Preço da livre sem senão:

“Doutra dona… oh, a inteligência

Dona… mas, cetim branco e flor!

‘Menina e moça’, áurea existência

Musa cívica a Musa-Amor!

Já fotografara-te o pensamento

Que um pensamento houve a transpor”.

Das cinzas fênix renascida,

Arte divina a retratar

Anos treze – quão parecida!

Ela era; hei de noutra a encontrar

Helê que dos céus é descida,

Céus! A borboleta solar!

“A metamorfose sagrada

De jovem pátria e o cidadão

Oiro de lei, Virgínia honrada

Por todo o nobre coração:

Ditando diga: eu sou a amada,

A amante Luz, o Amor

e o Pão.”

O Romantismo é dividido em três gerações, cada qual com anseios e proposições diferentes. Pode-se dizer que a chamada Primeira Geração tinha como base a força de um movimento novo, ou seja, o olhar sobre o sonho com a vontade pura, o lirismo utópico, o exagero, a busca pelo exótico e, sobretudo, a busca pela indentidade nacional. Depois, na então Segunda Geração, o pessimismo, o gosto pela morte, uma inclinação que apontaria ao simbolismo e o sentimento religioso. Para então desaguar na Terceira Geração,  que seria já a intercessão para a corrente que viria depois, o Realismo. Pode-se dizer que no fim havia um Romantismo decadente.

HARPAS SELVAGENS (trecho)

Aqui Byron cantou. Mesmo esta
pedra,
Que ora sente uma gota fria e
rápida
Do meu pranto que apaga a
viração
Talvez estremecera de escutá-lo
Qual do raio ferida. Oh me parece
Que aqui te vejo, ó Byron, a meu
lado
À minha esquerda unido me
incitando
Ao desespero da descrença imiga
Com tua voz infernal – verdade
horrível!
- E à minha destra o tenha, anjo
da guarda
Preso ao meu braço contra a
força tua
Me arrancando de ti: co’ um
dedo santo
Aponta-me pra o sol que sai das
serras
Piedoso Lamartine! E o penhasco
Bandeia e geme no pesar da luta
E dum lado o demônio e o anjo
doutro
E eu no meio, minhalma
despedaçam
- Voa comigo, ó anjo, nas tuas asas
Cândidas salva-me: o demônio
embora
Me persiga mostrando-me os
meus dias
Como são desgraçados… porém,
antes
Falaz esp’rança que a descrença
eterna

Assim como Castro Alves e Tobias Barreto, Sousândrade pertence à terceira geração do Romantismo Brasileiro. Alguns teóricos encontram aí uma quarta geração. Enfim, esta geração é voltada ao progresso, ao nacionalismo e, sobretudo, ao abolicionismo. Sousândrade era abolicionista e encontraremos tais gritos em seu poema mais conhecido, o Guesa. A liberdade das formas européias de literatura, anseio maior dos românticos, também é firme na poesia de Sousândrade. poema Paladino do Sublime no blog http://pedrolago.blogspot.com

ELOGIO AO ALEXANDRINO 

Asclepiádeo verso: à evolução do poema
Das sestas, cadenciar d’altas antigüidades,
já porque bipartido em fúlgidas metades
Reata em conjunção opostos de um dilema,
E já por ser de gala a forma do matiz
Heleno na escultura e lácio na linguagem
Reacesda, de Alexandre, em fogos de Paris:
Paris o tom da moda, o bom gosto, a roupagem;
Que desperta aos tocsins, galo às estrelas d’alva,
Que faz revoluções de Filadélfia às salvas
E o verso-luz, fardeur das formas, de grandeza,
o verso-formosura, adornos, lauta mesa
Ond’ tokay, champanh’, flor, copos cristal-diamantes
Sobrelevam roast-beef e os queijos e o pudding.
Porém, mens divinior, poesia é o férreo guante:
Ao das delícias tempo, o fácil verso ovante,
o verso cor de rosa, o de oiro, o de carmim,
Dos raios que o astro veste em dia azul-celeste;
E para os que têm fome e sede de justiça,
O verso condor, chama, alárum, de carniça,
D’harpas d’Ésquilus, de Hugo, a dor, a tempestade:
Que, embora contra um deus “Figaro” impiedade
Vesgo olhinho a piscar diga tambour-major,
Restruge alto acordando os cândidos espíritos
Às glórias do oceano e percutindo os gritos
Réus. Ao belo trovoar do magno Trovador
Ouve-se afinação no mundo brasileiro,
Acorde tão formoso, hodierno, hospitaleiro,
Flamívomo social, encantador. Fulgura
Luz de dia primeiro, a nota formosura,
Que ao jeová-grande-abrir faz novo Éden luzir.

Sousândrade foi agraciado pela fortuna rural do pai, que o permitiu, ainda jovem, percorrer vários países da Europa. Sabe-se que conhecia muito bem o idioma grego. Foi professor no fim da vida no Liceu Maranhense. Em 1857, publica seu primeiro livro, Harpas Selvagens. Treze anos depois viaja pela América do Sul ao lado da filha, e queria que esta estudasse nos Estados Unidos, pois como já dissera, Sousândrade era republicano convicto. Em 1871, vai enfim para Nova Iorque, onde contribui para um jornal. Ali começa a ruir sua herança.

Fujamos, vida e luz, riso da minha terra,

Sol do levante meu, lírio da negra serra,

Doce imagem de azuis brandos formosos olhos

Dos róseos mares vinda à plaga dos abrolhos

Muita esperança trazer, muita consolação!

Virgem, do undoso Sena à margem vicejante

Crescendo qual violeta, amando qual errante

Formosa borboleta às flores da estação!

Partamos para Auteuil, é lá que vivo agora;

Vê como o dia é belo! ali há sempre aurora

Nas selvas, denso umbror dos bosques de Bolonha.

- Ouve estrondar Paris! Paris delira e sonha

O que realiza lá voluptuar de amor -

Lá onde dorme a noite, acorda a natureza,

Reluz a flor na calma e os hinos da devesa

Ecoam dentro d’alma ais de pungido ardor.

Aos jogos nunca foste, às águas de Versailles?

Vamos lá hoje!… ali, palácios e convalles

Do rei Luís-catorze alembram grande corte:

Maria Antonieta ali previa a sorte

Dos seus cabelos d’ouro em ondas na bérgère. -

Tu contarás, voltando …inventa muita coisa,

Prazer de velhos pais, – o que viste a bela esposa

Das feras! com chacais dançando Lá Barrère!

Oh! vamos, meu amor! costuras abandona;

Deixa por hoje o hotel, que eu … deixo a Sorbona -

E fugitivos, do ar contentes passarinhos,

Perdidos pela sombra e a moita dos caminhos

Até a verde em flor vila Montmorency!

De lá, és minha prima andando séria e grave;

Entramos no portão: eu dou-te a minha chave

E sobes, meu condão, ao quarto alvo e joli!

Hesitas? ou, senão, sigamos outra via;

Do trem que vai partir a válvula assobia,

O povo se acumula, aqui ninguém a ver-nos:

Fujamos para o céu! que fosse p’ros infernos

Contigo… – “oui” – . Não deixes estar teu colo nu!

Há gente no vagon… sou fúria de ciúme -

Desdobra o véu no rosto… olhos com tanto lume… -

Corria o mês de agosto; entramos em Saint-Cloud.

Importante dizer: Sousândrade conheceu muitos países na adolescência e morou muito tempo nos Estados Unidos, fazendo com que suas influências fossem das mais variadas e ao mesmo tempo difíceis de apontar precisamente. Poe? Baudelaire? Laforgue? Talvez sim. Sousândrade foi testemunha das mudanças após a Guerra da Secessão, tendo presenciado também a expansão industrial americana e os escândalos que marcaram a presidência do general Grant. Seu poema Wall Street é fruto destas influências.

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HARPA III – AO SOL

Tímida e bela e taciturna virgem

Pelos campos, na zona solitária,

Do mar no isolamento, lá do azul

Banhando a terra de uma luta argêntea,

À matinada sobressalta e foge:

Chama aos seios o manto, os pés retira

Da terra e voa, descobrindo os bosques

Que estremecem, do monte a sombra arranca

Toma à pressa os vestidos que vão soltos

E as grinaldas d’estrelas, fugitiva.

Roda o plaustro de um príncipe, os cavalos

Vêm nevados nos vales do oriente;

Cobre os ares a poeira do caminho

Alva como o pó d’água; se arrepiam

No ninho as aves desatando o bico;

Brisa fresca e geral passa acordando

Os vegetais, o oceano; belas nuvens

De marinho coral, nuvens de pérola

Como a face de um lago os céus abriram;

Estende o colo o pássaro cantando

Por detrás da palmeira, qual pergunta

Aos pastores, ao gado apascentando

“Quem fez este rumor?” desliza o orvalho

Na flor, derrama o vento,o vento leva

Ondulações d’incenso; a natureza

Nas barras da manhã respira amores:

A noiva docemente bocejando

N’alva da noite da esperança longa

Embalada nos berços conjugais.

É difícil mencionar fatos sobre a vida de Sousândrade em virtude da carência de informações, de modo que confio nas biografias que consulto, sendo assim: Sousândrade antes de ir para os Estados Unidos para permanecer em Nova Iorque, ficou um tempo em Londres. Teria sido convidado a se retirar de lá por ter atacado, num artigo de imprensa, a rainha Vitória. Voltou ao Maranhão, casou-se, teve uma filha, Maria Bárbara, dedicou-se por um tempo à lavoura e separou-se da mulher por incompatibilidade de gênios. Este é o nosso incompatível poeta.

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HARPA XXXV VISÕES

Sobre o mar, procurando o céu, se eleva

Em colunas de sombra e de ar e d’água

Um templo: vejo um ser baixar sobre ele,

Que as colunas brandeiam, o mar se arqueja,

Humildemente geme, e o mar indômito!

Mais puro do que a noite, eu mal o enxergo,

Como o sol… não, não é, que o sol num disco

Encerra as formas de ouro: não tem forma,

Parece a eternidade e o infinito!

Disseras qual uma ave transparente

Que com as asas envolve a imensidade!

Uma luz, que concentra-se a extinguir-se,

Dando mais claridade ao pensamento,

Quanto a tire aos sentidos; que tão pura

Estende-se dali por toda a parte,

A terra, os astros e os celestes ares

Sem refração seus raios trespassando,

Embebendo de vida e de piedade;

Que tudo anima e faz amor tão santo,

Que de um só pulso inteiro este universo

Uma respiração palpita eterna

A ela só! Nela só tudo desperta:

As aves vivem mais a ela cantando;

As plantas quando o zéfiro as agita;

O mar quando mugindo balbucia,

Infante o nome de seu pai, mais vive;

O bosque amigos não teria e os ventos

Se fossem mudos, não dissessem – Deus!

Eu também vivo mais, morrendo nele;

Oh, tudo vive mais nele vivendo!

O Guesa Errante é considerado o grande poema de Sousândrade. Poema dividido em treze cantos, dos quais quatro ficaram inacabados. O poema tem como base a lenda indígena do Guesa Errante, o personagem principal é uma criança que roubada aos pais pelo deus do Sol é educado no templo da divindade até os dez anos e sacrificado aos quinze, após longa peregrinação pela “estrada do Suna”. Aqui se vê a tentativa de buscar as raízes da cultura como era notório no Romantismo. no caso, na figura deste pequeno índio.

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O GUESA ERRANTE CANTO I

Eia, imaginação divina!

Os Andes

Vulcânicos elevam cumes calvos,

Circundados de gelos, mudos, alvos,

Nuvens flutuando – que espetac’los grandes!

Lá onde o ponto do condor negreja,

Cintilando no espaço como brilhos

D’olhos, e cai a prumo sobre os filhos

Do lhama descuidado; onde deserto,

O azul sertão, formoso e deslumbrante,

Arde do sol o incêndio, delirante

Coração vivo em céu profundo aberto!

“Nos áureos tempos, nos jardins da América

Infante adoração dobrando a crença

Ante o belo sinal, nuvem ibérica

Em sua noite a envolveu ruidosa e densa.

“Cândidos Incas! Quando já campeiam

Os hérois vencedores do inocente

Índio nu; quando os templos s’incendeiam,

Já sem virgens, sem ouro reluzente,

“Sem as sombras dos reis filhos de Manco,

Viu-se… (que tinham feito? e pouco havia

A Fazer-se…) num leito puro e branco

A corrupção, que os braços estendia!

“E da existência meiga, afortunada,

O róseo fio nesse albor ameno

Foi destruído. Como ensaguentada

A terra fez sorrir ao céu sereno!

“Foi tal a maldição dos que caídos

Morderam dessa mãe querida o seio,

A contrair-se aos beijos, denegridos,

O desespero se imprimi-los veio, -

“Que ressentiu-se verdejante e válido,

O floripôndio em flor; e quando o vento

Mugindo estorce-o doloroso, pálido,

Gemidos se ouvem no amplo firmamento!

“E o sol, que resplandece na montanha

As noivas não encontra, não se abraçam

No puro amor; e os fanfarrões d’Espanha,

Em sangue edêneo os pés lavando, passam.

(…)

Guesa quer dizer “errante, sem lar”. Sousândrade diz que “o poema foi livremente esboçado segundo à natureza singela e forte da lenda, e segundo à natureza própria o autor. Compreendi que tal poesia, tanto nas ásperas línguas do norte como nas mais sonorosas do meio-da, tinha de ser a “que reside toda no pensamento, essência da arte”, embora fossem “as formas externas rudes, bárbaras ou flutuantes”.

poema UM FIM no blog http://pedrolago.blogspot.com

O GUESA CANTO III

As balseiras na luz resplandeciam —

oh! que formoso dia de verão!

Dragão dos mares, — na asa lhe rugiam

Vagas, no bojo indômito vulcão!

Sombrio, no convés, o Guesa errante

De um para outro lado passeava

Mudo, inquieto, rápido, inconstante,

E em desalinho o manto que trajava.

A fronte mais que nunca aflita, branca

E pálida, os cabelos em desordem,

Qual o que sonhos alta noite espanca,

“Acordem, olhos meus, dizia, acordem!”

E de través, espavorido olhando

Com olhos chamejantes da loucura,

Propendia p’ra as bordas, se alegrando

Ante a espuma que rindo-se murmura:

Sorrindo, qual quem da onda cristalina

Pressentia surgirem louras filhas;

Fitando olhos no sol, que já s’inclina,

E rindo, rindo ao perpassar das ilhas.

— Está ele assombrado?… Porém, certo

Dentro lhe idéia vária tumultua:

Fala de aparições que há no deserto,

Sobre as lagoas ao clarão da lua.

Imagens do ar, suaves, flutuantes,

Ou deliradas, do alcantil sonoro,

Cria nossa alma; imagens arrogantes,

Ou qual aquela, que há de riso e choro:

Uma imagem fatal (para o ocidente,

Para os campos formosos d’áureas gemas,

O sol, cingida a fronte de diademas,

índio e belo atravessa lentamente):

Estrela de carvão, astro apagado

Prende-se mal seguro, vivo e cego,

Na abóbada dos céus, — negro morcego

Estende as asas no ar equilibrado.

Nos cantos finais do poema o índio reflete sobre sua viagem percorrendo os Andes e algumas capitais da América do Sul. Como se fizesse parte das dores que cada povo sofre, reflete sobre liberdade, revolução, a divisão do Império Inca, a queda dos Impérios, critica os governos militares e lembra da mãe. É uma fase de meditação para o herói que será morto logo em seguida. Uma saga.

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GUESA CANTO XI

Quando as estrelas, cintilada a esfera,

Da luz radial rabiscam todo o oceano

Que uma brisa gentil de primavera,

Qual alva duna os alvejantes panos,

Cândida assopra, – da hora adamantina

Velando, nauta do convés, o Guesa

Amava a solidão, doce bonina

Que abre e às douradas alvoradas reza.

Ora, no mar Pacífico renascem

Os sentimentos, qual depois de um sonho

Os olhos de um menino se comprazem

Grande-abertos aos céus de luz risonhos.

Vasta amplidão – imensidade – iludem,

Côncavos céus, profunda redondeza

Do mar em luz – quão amplos se confundem

Na paz das águas e da natureza!

Nem uma vaga, nem florão d’espuma,

Ou vela ou íris à grandiosa calma,

Onde eu navego dentro da minha alma!

Eis-me nos horizontes luminosos!

Eu vejo, qual eu via, os mudos Andes,

Terríveis infinitos tempestuosos,

Nuvens flutuando – os espetac’los grandes -

Eia imaginação divina! Abraso

Do pensamento eterno – ei-lo magnífico

Aos Andes, que ondam alto ao Chimborazo,

Aos raios d’Ínti, à voz do mar Pacífico..

Os cantos XII e XIII são os últimos do poema-saga Guesa Errante. O herói desce ao longo do Pacífico para o sul. Passa por todas as grandes cidades e ama Talita, a serva-liberta. Guesa fica enfermo, convalesce e lembra de seu drama familiar. Volta ao Equador onde semeia a revolta ideal até ser submetido ao ritual que marcaria sua trajetória. O Guesa é um poema instigante. Certa vez, Sousândrade disse que “Ouvi dizer já por duas vezes que “o ‘Guesa Errante’ será lido 50 anos depois”; entristeci – decepção de quem escreve 50 anos antes”.

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O GUESA CANTO XII

Tudo que vive, repousando, sonha -

Está sonhando natureza! a imagem

Dos montes no ar balança-se risonha,

Ideal da platônica miragem

D’Atlantis!

Fumegando a onda nevoeiros,

Que são do oceano os vivas gloriosos,

Pavilhões auriverdes brasileiros,

Entre um cerrado d’iris luminosos

Rompe o steamer gentil. As nuvens alvas

Perdem as leves formas transparentes,

Tendo as do arbóreo gelo das escalvas,

Na patagônea costa e estão pendentes

Sobre as vagas que elevam-se do Atlântico.

- Porém, as aves que seguindo vieram,

Nesse acompanhamento aéreo-romântico

Do esteiro undoso, desapareceram.

Assim desaparecem da existência

Os sonhos, que conduzem ao futuro:

Desperta-se; e ante esta árida aparência

Nossa alma… – foi-lhe a vida, ao grande obscuro

Dos agitados ares sem sossego:

Oh, são a esp’rança os dias turbulentos

Do desespero, o homem bravo e cego,

Não a posse d’egípcios monumentos!

E ‘das marés no berço’ austral arfando

Em tangagem cadente a nau tão bela

Nas argentinas águas, navegando

À luz da oriente-sul melhor estrela,

A ‘tarde no convés os passageiros

Formam parelhas (pela glória morrem!)

Zunindo os ventos frígidos ponteiros,

Jogando a nau, se equilibrando correm!

Neste vasto e magnífico estuário

As sul norte vagas oceânicas,

Mareiras brisas e o tufão pampário

Harmonias do mar guardam mecânicas.

Após o período nos Estados Unidos, o dinheiro do pai acaba e Sousândrade é obrigado a voltar para o Maranhão, já estamos no fim do segundo reinado. O poeta então começa a fazer pregação republicana abertamente. Informado da proclamação da República, passou um telegrama ao Marechal Deodoro da Fonseca dizendo o seguinte: “República proclamada. Paus-d’arco em flor”, associando ao acontecimento as cores festivas da natureza.

texto O Elfo e a Camponesa no blog http://pedrolago.blogspot.com

FRAGMENTOS SOBRE ADÃO E EVA

Levanta-se Eva: e folhas veludosas

Umbrando-lhe a cintura: alva, alta, lúcida

Andou direita: áurea figueira andando,

Sisuda, linda…

- Oh!…. – vê longe o marido

Nu! …as faces lhe arderam de vergonha.

Adão colhia os favos aromosos

De mel paradisíaco, os mais loiros

Cachos d’uvas passentas. Merendaram.

E Adão não dera pela falta d’Eva.

…………………………………………………….

Da sesta conjugal, do mal já feito

O rosto pudibundo, Eva encantava:

Magnetizou ao homem. Atordoando,

Já das ciências visão sagrada: noite

De vigílias ditosas, vendo os astros,

Dês que o d’Eva escondeu-se, agora os vendo

Nela luzir, que ali lhe dorme ao lado

Estendida no edêneo chão, divina

Coruscante de alvor.

Dia seguinte:

Oh, que formoso dia d’Éden! rosas

Toda a terra; sol grande, iluminando

Áureo o espaço; esplendor os arvoredos;

Cerúleo o etereal, a divindade

Da alma feliz amante; o noivo, a esposa.

Porém, sem que um ao outro s’entendessem,

Ela à nudez, nem ele aquelas cintas.

Além disto, gemendo os horizontes,

Que em alegre trinar amanheciam,

Ais as rolas do amor, angústia as fontes:

Coração principiava; os céus doíam.

Instaurada a República, Sousândrade foi presidente da Independência Municipal de São Luís e reformou o ensino cuidando da fundação de escolas mistas. Idealizou a bandeira maranhense, em cujas cores – branco, preto e vermelho – quis representar a fusão étnica do povo brasileiro. Candidatou-se ao Congresso Constituinte da República, pelo Partido Republicano Histórico do Maranhão, mas renunciou, com o objetivo de pacificar disputas eleitorais. O poeta vai caminhando para seu fim.

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FRAGMENTOS DE ADÃO E EVA II

Banidos do paraíso: olhando para trás,

D’espelho que se parte o relampagueamento

D’estampido seguido e que cegueira faz

Que d’alma a dor profunda apaga no momento,

Viram … um lago! ao longe … um monte! … nada mais.

……………………………………………………………………….

Iam pensando: essa onda … o monte … o céu que estronda …

Quem dessa água a desgraça? … quem desse monte a graça? ..

…………………………………………………………………………………..

Já era pôr-do-sol: cansados do caminho,

Eva chorando, o abrolho, o cardo, a urtiga, o espinho,

Rastos dos pés sangrando: unidos se deitaram

Sem mais o encanto edêneo … Amar? os céus olharam:

Os astros em fulgor, suas frontes em suor;

Travesseiro? uma pedra. E os astros sempre rindo! …

Foi quando Prometeus não pôde mais; e trouxe

Dos céus centelha: e ao fogo o homem que aquentou-se;

Toda tristeza ante ele, os olhos reluzindo

Meiga, mortal, calada: ao colo da mulher,

No Éden do amor, o lar cosmopolita, achou-se

Imagem de Deus uno, à carne rosicler;

Forma flor, forma céus, pára-olhos e pára-almas,

Da Criação o amor em gêmeos, dois amores,

Corpos vibrantes dois, duas psíquicas palmas

Os corações em luz, carnariums, sangues, dores

E o ideal Prometeus, ideal imagem-Deus.

Como disse antes, Sousândrade dava aulas de grego no Liceu Maranhense. Consta que tinha o hábito de dar estas aulas ao ar livre, na Quinta da Vitória, no bairro dos Remédios, às margens do Rio Anil. Preocupou-se durante muito tempo com a fundação de uma Universidade Popular, com o nome de “Atlântida”, empenhando-se para isso, sem êxito, junto aos representantes federais do Maranhão. Certa vez escreveu que “Pensai-vos nos vossos caminhos de ferro, assim como eu penso na minha locomotiva – que da decadência de ciências e letras – a inteligência e a locomotiva – que da decadência moral e financeira ainda havemos de alevantar o Estado do Maranhão”. Amanhã, explicações sobre o poema de hoje.

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FRAGMENTOS SOBRE HELEURA

Desde a noite funérea, de tristeza

Heleura está doente. Ara, morrendo,

Nunca perdera as cores do semblante,

Um formoso defunto: “vivo! vivo!”

Gritava a filha p’ra que o não levassem:

“Vivo! vivo!” Prenúncios maus, diziam.

Mas para Ut era crença que, dos túmulos,

Corvos de Odin mandando pelo mundo,

Os mortos melhor cumprem seu desígnios.

Ora, a chorar no tum’lo (Ia, em violetas

Mudada pelo amor), perpétuas meigas

Tornara-se Ut-allah, que o amortalharam.

Fundo silêncio estava dia e noite

Na sombria mansão: de longe em longe,

Como rasgam-se as brisas açoitadas

Por vergônteas, manhãs d’esto, etérea aura

Parecia chamando: Heleura!’ … Heleura!…

Que ela escutava; e nuns baixinhos ecos

A febre arremedando: He – lê – u – rous …

Heliéiou-urion … Súbito saltava,

Pesar d’Ut e as Armênias vigilantes,

E as seráficas fraldas apanhando,

Nuzinhos pés, a rir toda, irradiava

No aposento a estelífera carreira

Atalanta de luz. E viam nela

A luzente visão dos cintilados

Limões de luz, de luz níveos triângulos

Nessa cal mortal brancura, o rosto,

O riso, a boca, os olhos brancos, brancos:

E o maternal diamante em pó desfeito

Que vivifica ao cândido diamante,

Torna-o ao leito Ut-allah: “Heleura! Heleura!”

Em virtude dos excessivos gastos e da morte da lavoura na fazendo Feliz Asilo, o poeta passa por dificuldades financeiras. Chega a vender pedras para ter o que comer. Tido como louco, chegou a ser apupado nas ruas pelos garotos maranhenses. Seus alunos vão encontrá-lo gravemente enfermo na Quinta da Vitória. No dia 21 de abril de 1902, faleceu num quarto de hospital. Consta que os originais de suas últimas produções caíram nas mãos de um vendeiro, que os utilizou como papel de embrulho.

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FRAGMENTOS SOBRE HELEURA II

Heleura

Mirou-se toda; uma áspide a mordera,

Ela o sentiu; fugiu para o aposento

Alcatifado de cravina e de ouro

E onde sonhos levianos não entravam,

Cheiro sentindo-se de jacintos, vendo

Lábios-luz, verdejeiras laranjeiras,

Flores-noivas grinaldas agitando

Sobre um abismo venturoso, em vagas

Como espelhos levando-a, combanidas,

À cristalina limpidez, reférvida

A epiderme num fosfor’luminoso -

Triângulos! triângulos! Semíramis!

A alvura e o sentimento! anéis da trança,

Quando as faces beijavam-lhe, incendiam.

……………………………………………………….

Porém, já prontinha

Co’as alvoradas stava Heleura, vendo:

Alta amarela estrela brilhantíssima;

Cadentes sul-meteoros luminosos

Do mais divino pó de luz; véus opalos

Abrindo ao oriente a homérea rododáctila

Aurora! e ao cristalino firmamento

Cygni – esse par de sóis unidos sempre,

Invisíveis; e que ela via claros

Dadas mãos, em suas órbitas eternas

Qual num lago ideal as belas asas

Por essa imensidade ………………..

is que chegamos ao final de mais uma antologia. Aqui, o quase esquecido Sousândrade, “salvo” pelos irmãos Campos, poeta incompreendido, viajante, republicano e maranhense. Percorremos sua vida, suas obras, sem exegeses, apenas o “homem humano” lembrando o nosso Guimarães Rosa na figura de Riobaldo. Enfim, semana que vem farei uma retrospectiva dos poetas de 2009, bons estudos foram feitos, e eu, assim como todos aqui, aprendemos um pouco mais.

poema O corpo no blog http://pedrolago.blogspot.com

DA HARPA XLV

Eu careço de amar, viver careço

Nos montes do Brasil, no Maranhão,

Dormir aos berros da arenosa praia

Da ruinosa Alcântara, evocando

Amor … Pericuman! … morrer … meu Deus!

Quero fugir d’Europa, nem meus ossos

Descansar em Paris, não quero, não!

Oh! por que a vida desprezei dos lares,

Onde minh’alma sempre forças tinha

Para elevar-se à natureza e os astros?

Aqui tenho somente uma janela

E uma jeira de céu, que uma só nuvem

A seu grado me tira; e o sol me passa

Ave rápida, ou como o cavaleiro:

E lá! a terra toda, este sol todo -

E num céu anilado eu m’envolvia,

Como a água se perde dentro dele.

Ingrato filho que não ama os berços

Do seu primeiro sol. Eu se algum dia

Tiver de descansar a vida errante,

Caminhos de Paris não me verão:

Através os meus vales solitários

Eu irei me assentar, e as brisas tépidas

Que meus cabelos pretos perfumavam,

Dos meus cabelos velhos a asa trêmula

Embranquecerão: quando eu nascia

Meu primeiro suspiro elas me deram;

Meu último suspiro eu lhes darei.

novembro 8, 2009

Guilherme Zarvos

Guilherme Zarvos nasceu em São Paulo no dia 23 de março de 1957, mas vive no Rio de Janeiro desde os dois anos de idade. Formou-se em Economia, fez mestrado em Ciências Sociais e Doutorado em Letras pela Puc – Rio. Neste mês percorreremos a poesia visceral, política e prosaica desta figura tão peculiar do cenário cultural carioca. Vamos além do Guilherme Zarvos do CEP 20.000, além do controverso e socrático provocador. Guilherme Zarvos é o nosso homenageado do mês.
 
texto DA NUCA no blog http://pedrolago.blogspot.com
 
 
QUEM ME PRESERVA ME CASTIGA?
 
Não me lembro mais
se era doce ou salgado
só do pequeno futo na veia
                            da garganta
- refletivo no espelho -
onde filete-caminho descia
sem encontrar obstáculo
 
Não me recordo se já era dia
parece que clareava
a única sensação
(se era boa?)
a da entrada para o eterno
sono. Merecido.
 
Guilherme Zarvos é filho de Nicolau Zarvos e Thereza Maria de Carvalho Cesário Alvim, depois Zarvos. Thereza participou, com sete anos, da retirada de Paris, em 1939. Nicolau Zarvos era grego. Guilherme cresceu em uma família, ora ligada, ora envolvida com política. O velho José Cesário Alvim foi Prefeito do Rio de Janeiro em 1889, e sua irmã, Sylvia, era mãe de Virgilio Alvim de Melo Franco e do Senador Afonso Arinos de Melo Franco. Nos anos 30, parte da família ajuda a fundar a UDN.
 
 
 
 
THEREZA
 
 
 
Visito minha mãe no Jardim Botânico
Faz dois anos que ela morreu
Parece que faz uma vida
Tenho tanta saudade
Das conversas
Do uisquinho, até do barulho nervoso do gelo
O excesso de uísque ajudou a matá-la
Pena que os excessos matem
Já conheci quem morreu de amor
De excesso e falta
 
A árvore que eu e minha irmã escolhemos para depositar suas
Cinzas não tem nada de excepcional
É um Tiliacea da Malásia
Ela me parece velha
Foi um descuido espalhar as cinzas numa
Árvore que pode tombar logo
Mesmo antes da minha morte
Me parece um canto agradável
Ela deve estar contente no céu
Estou aqui na terra
 
Depositar cinzas de cremação no Jardim Botânico
É proibido. Tirar fotos de casamento pode
Imagino se todos depositassem seus mortos no
Jardim Botânico se assemelharia ao Ganges
Todo humano deveria passar uma tarde
Olhando uma cremação do Rio Ganges, na Índia
Depois de pôr fogo no morto, com a presença da
Família, com um pedaço de pau dilaceram-se os
Ossos e o crânio que são muito resistentes ao
Fogo. Tudo é calmo e sagrado. As cinzas vão para o rio
 
Minha mãe não sofreu muito ao morrer
Eu e minha irmã ficamos contidos. Nossa família é
Assim. Fatalista. Já me falaram que é um resquício
Aristocrático. Sempre nos orgulhamos da
República. Em volta da Tiliaceae nasceram cogumelos
Cada vez que visito minha mãe tem novidade
Em volta da árvore. Minha mãe está sempre
 
Presente e o chão sempre apresenta surpresas
Os cogumelos formam um ajuntamento como uma ninhada
Do meio salta uma flor! É da raça das Therezas.
 
Importante ressaltar o ambiente que Guilherme vivia enquando jovem. Sua mãe, Thereza, era jornalista do Última Hora nos anos 60, Guilherme muito pequeno, é claro. Com família ligada à política, Thereza vai para o Rio de Janeiro, enquanto Nicolau volta para a Europa. Ruptura. No Rio, volta a ser Cesário Alvim e começa a namorar o jornalista Paulo Francis. É uma das primeiras jornalistas a escrever um livro sobre o Golpe de 64, ainda recente. Guilherme nesta época estudava no Andrews e não gostava de estudar francês.
 
 
 
 
TRANSPARÊNCIA
 
 
A transparência da chuva fininha
a que permite enxergar calmamente
a enorme mangueira 200m afastada
da janela
A chuva é formadora de camadas e na
continuidade é uma cor
camada sobre camada
Ela é cinza ela é branca ela é transparente
A enorme mangueira verde e amarela –
está carregada – transforma-se numa
visão impressionista
O realismo da mangueira modificado pelo
difuso da chuva fininha e as centenas de camadas
está carregada – transforma-se numa
visão impressionista
O realismo da mangueira modificado pelo
difuso da chuva fininha e as centenas de camadas
 
Ainda criança, porém vivendo neste ambiente jornalístico dos anos 60, sempre inclinado à política, Guilherme então, já por volta de seus vinte anos, começa a trabalhar, em 1983, com quem seria seu grande mestre: Darcy Ribeiro. Darcy queria que Guilherme fosse político, porém, desde sempre, Guilherme queria a cultura. Trabalhava no Programa Especial de Educação, que era o núcleo gerador dos CIEPs, então presidido por Darcy e lá, apontava o interesse em fazer algo ligado à poesia. Muita coisa surgiria depois disso. Gerardo de Mello Mourão, Berlim e o Terças Poéticas.
 
 
 
 
CANÇÕES I & II
 
I
 
Conto
quando meu coração flerta
Que os 472 tufões do apocalipse
Nada representam
São figuras pequenas, mero detalhe
Só vejo um coração enorme
boiando – fileira de dentes
marfim em faísca
… a beleza da vida…
Pode ser mais simples?
Céus por que me presenteiam
com um corpo em harmonia
depois de tanta tormenta?
Largo-me, que seja a tentação,
maçãs sempre fizeram parte
principalmente as podres
Mas quero, por segundos, ao menos
na cama abraçado esquecer
que nasci para ser triste?
 
II
 
Por um dia – não
foram apenas horas -
senti sublime, incontido
amor
Veio de início cândido
a respiração tinha o som
do vento manso raspando
um fresta
Bastou uma condenada hora
do corpo ausente
Para que ouvisse a
reprovação dos Deuses
Pela ousadia de sentir-me
um igual
explodiu, ditames do
subterrâneo,
dor – santo, santo
santo – me pus
de joelhos querendo
refrear e
queimava, por mais que
me encolhesse.
 
 
Darcy Ribeiro deseja um caminho promissor dentro da política real para Guilherme, Educação Pública ou a eleição para um das três Câmaras. Porém, Guilherme desejava trabalhar com algo ligado à arte. Em 1989, vai para Berlim, foi com o objetivo de fazer Doutorado em Ciências Políticas na Universidade Livre de Berlim. Lá conheceu uma juventude política, punk e alternativa. Começara alí a idéia de fazer algo semelhante, que misturasse artes, juventude e algum tipo de atitude política, de resistência cultural.
 
 
texto a Menina e os Livros no blog http://pedrolago.blogspot.com
 
 
AMARELO
 
 
O amor de que fala Zarvoleta     Amor do poeta
Encarcerado no Pinel              Na sua histeria
Jogaram meu amor na enfermagem
Trancaram a porta
Os cabelos amarelos do meu poeta estavam sem brilho
Meu cavalheiro cercado por lúmpens
Tão pobres tão pobres
Ele tinha esquecido do que era a enfermaria do Pinel
A melhor instituição pública para os insanos
Eles denominam de sofredores mentais
A família os quer lá no quadrado de demo
País de bastardos tratando meu poeta e seus colegas
De quarto como matéria em detrito
Abençôo todos os humanos que foram trancafiados
por perturbar
A paz.                                    Como vai seu vizinho?
 
 
Guilherme fala com Darcy Ribeiro sobre seu interesse de desenvolver um projeto ligado à poesia para juntar gente. Guilherme afirma que “apesar de conversar muito sobre o assunto com o mestre, foi através de João Luiz Souza que vi muitos dos meus anseios pessoais sendo postos em prática“. Darcy indica o poeta Gerardo de Mello Mourão, então Presidente do Fundo Rio, da Secretária Municipal de Cultura na gestão de Marcelo Alencar, para tratar deste assunto com Guilherme. Gerardo gostou. Surgiria o Terças Poéticas.
 
 
 
 
PIPI E POPÓ
 
Anjos voam: se deixam levar
Crianças sonham com anjos e
Ambos têm porquês de mesma
Natureza. Ambos fazem xixi de
Anjo e cheiram criança e riem
Covinhas e rolam no chão, em
Tempo e espaço de reinação: brin-
Cadeira de anjo e de criança que
É um anjo. E diz o povo de casa
Que se criança morre vira anjo e
Diz o povo de casa que viu uma
Criança subir ao céu. tadinho
Virou anjo e foi envolver as pernas
De Deus que é Cristo que foi me-
Nino e morreu na cruz. Já não era
Anjo mas subiu ao céu. Os anjos
Estavam curiosos. Logo eles que
Tanta perplexidade provocam: sobre
O sexo dos Anjos! dá vontade de rir
Amontoaram-se dúzias de doutores e
Nunca concluíram que anjo e criança
Têm pipi e popó. Só que ninguém es-
Tá muito preocupado. É coisa que vai
Suscitar logo-logo. Vão virar meninos
E meninas no troca-troca das figurinhas.
 
 
Guilherme Zarvos morava no Baixo Gávea e queria, num evento, misturar poetas renomados com jovens atuantes da poesia. Como achar estes jovens? Guilherme ia para os bares e, pelo estilo ou intuição, indagava-os na rua perguntando se eram poetas. O Terças Poéticas acontecia no teatro da Faculdade da Cidade, em Ipanema, com debates, sempre às 17 horas, sobre poesia e poetas. Os encontros contaram com a participação, separadamente, dos poetas Gerardo de Mello Mourão, Ferreira Gullar, Antonio Houaiss, João Cabral de Melo Neto e Heloisa Buarque de Hollanda, esta última, que falaria sobre Tropicalismo e Poesia, contou com a apresentação do poeta Chacal e Boato. Começou aí.
 
 
 
 
 A LUZ
 
 
E se eu pudesse dizer que é do meu canto
Que é do lugar de onde convergem as
Paredes, deixei desbotar fotos que lembram e
O passado vai e nunca vai completamente
 
Sou um desassossegado – destino que me quis
Ferir – assim me resta o canto e as
Fotos que descoloridas lembram que nada
Vai completamente, pois não há tudo por ruir
 
Hoje após vinte anos de espera – já
Que não arvoro a morte – me resta o
Canto que por mais vinte ou trinta,
Alvejará várias outras fotos convergidas
 
Parede que me escuta já que é muda
Que não pretende aplacar minha dor
Nem minha conduta. Apague apenas
Vez em quando as fotos e se não incomodar
                                                         A LUZ
 
 
Após alguns Terças Poéticas, Guilherme quis parar. Dizia estar cansado de ter que chamar alguém de nome conhecido para compor a mesa. Até que Chacal, convidado do último terças poéticas, sugere algo de noite. O Espaço Sérgio Porto pareceu uma boa opção. Pouco tem depois do último Terças Poéticas, se deu o primeiro CEP 20.000. Com curadoria de Guilherme e Chacal. O desejo era procurar jovens artistas para mostrarem seus trabalhos, desde poetas e músicos até artistas plásticos e grupos de teatro.
 
 
 
 
DARCY
 
 
Darcy é um bandoleiro
- Que os sigam as almas iracundas
Já que é herói já que é pastor
 
Não entendo a complacência dos deuses que apenas
lhe testaram, muitas vezes, a tentação da morte. É
como se o alertassem: – Seu fim pode acontecer em breve!
E por algum motivo lindo, encantados por esse mortal
que encanta, como na frente de uma criança peralta
como que admirando um guerreiro, um bicho no mato livre
deram-lhe sempre mais uma oportunidade e Darcy Ribeiro
marcou a sorte, bandoleiro que cavuca o caminho, regendo
com todo o rigor de quem sabe, de quem olhou uma
estátua na principal praça pública e reconheceu seu lugar.
 
 
Importante dizer: No que diz respeito à formação, Guilherme viera da Economia e das Ciências Sociais, para assim, desaguar nas Letras. O ambiente é que era mais rico. Sua mãe era escritora, jornalista, vivia com os intelectuais e era ligada à política na época do Golpe. Guilherme trabalhou por alguns anos com Darcy Ribeiro e quase virou político, tendo até se candidatado para vereador. Depois, a convivência com jovens poetas, músicos, artistas plásticos e poetas experientes como Bruno Tolentino e Gerardo de Mello Mourão. Tudo isso misturado, resultou nas linguagens de seus livros. A poesia coloquial, o lirismo da dor, discurso político e muita prosa poética.
 
 
texto Silêncios de uma tarde no blog http://pedrolago.blogspot.com
 
 
DIA TAL #5
 
E da forma escrita, seja prosa ou poesia, se houvesse uma fórmula: claro que
há dezenas! mas é o doce martíni, ou melhor, martírio, a tarefa de encontrar
o ponto e as vírgulas, de descrever patas de elefantes brancos nos jardins de
tons rosas das flores e dos mármores de marajás, na intenção de fazer pas-
sear e retornar ao bonde ao lotação à carrocinha puxada por bodes e vai indo
rua Augusta, Cabo Frio, Petrópolis, Águas de Lindóia, Ouro Preto e vão indo e
vindo tantas lembranças em crônicas, poesia, conto, romance que esta eu
viro: o mundo de cabeça para cada lado: e que alguém abra a página como
um zíper, dois botões e a sensação plena de quem encontrou, em perfeita
sintonia, patas de elefantes brancos nos jardins de tons rosas das flores e dos
mármores de marajás.
 
 
Guilherme publicou sete livros. O primeiro, Beijo na Poeira, de 1990, Guilherme conta suas aventuras em Berlim. Na mesma viagem que disse ter despertado o profundo interesse em fazer algo ligado à poesia e das saudades do Baixo Gávea. No prefácio, Darcy Ribeiro diz que “Morro de inveja desse Daniel. Gostaria de vestir seu pelame e sair por aí vagabundando por Arábias e Alemanha afora, dando cabeçada, namorando. É mesmo uma pena que a vida não se repita”.
  
  
 
 
MONTE PASCOAL
 
Daqui de cima do Monte Pascoal viu. Neste
bosque encantado, nesta floresta que é parque
quando tudo era parque – correu morro: trinta
quilômetros. lá de cima havia enxergado. o
coração desejava explodir, o pé precisava voar
- ar pulmão ar – queria chegar na praia, em
Corumbau e conferir: nunca vira Deus tão lindo.
correu por meio de ipê caixeta pinha cupuba
gameleira pau-brasil sapucaia jacarandá oiti
pequi e deixou marcas das solas ligeiras no
manto tapete amarelo na trilha que tantas vezes
percorreu e nem sentiu o perfume doce da
floresta que ontem chovera. era manhã e
orvalhava e ele não viu os pingos ainda
agarrados nas folhas em todos os tons semitons
verdes que dependem das mudanças das horas
do dia e o do tempo e da Terra e das marcas dos
raios de sol. E uma codorna passou mansinha
e tentou lhe avisar que não se apressasse e outros
bichos tentaram lhe pedir que não fosse, gritando
estridentes, uivando, que parasse – ar ar pulmão
eu lhe estouro mas quero chegar – e correu como
nunca, em nome de todos os seus Deuses, de
todas as suas mulheres, não muitas, na sua
juventude. O corpo rijo acostumado à caça à
derrubada ao sexo às guerras aos jogos
correspondia. porém a Impaciência já havendo
lhe tomado exigia mais: passou batido por
borboletas brancas amarelas azuis que
aspiravam por enfeitar acariciar seu braço
guerreiro como só Bela sabia, mas não era a hora.
Apenas a praia lhe interessava e num descuido
uma raiz traiçoeira passou-lhe uma banda e o
guerreiro caiu de boca no chão, no tapete de
folhas de sêmen de óvulo de adubar terra, e um
sapo o encarou: dez centímetros era a distância.
não cuspiu, não era disso. tinha a cor das folhas.
caleidoscópio se protegia dos inimigos. o sapo
não falou absolutamente nada já que não era
um sapo falante mas o encarou preenchido – na
completa imobilidade de sapo que encara – e
Zinho, por alguns segundos, não pensou na areia
que precisava alcançar e lembrou de seu avô,
do olhar grave de tuxaua em momentos de
decisão. de tomar rumo, de falar o que o Tempo
lhe ensinou. a cara do sapo esculpida por pai e
mãe e pai e mãe e pai e mãe do sapo, dez
centímetros de seus olhos, o hipnotizava e ele
deitado de bruços, corpo todo no chão tapete de
folhas, por um minuto permitiu que maus
pressentimentos dominassem sua cabeça. o
corpo do forte fraquejou. foram apenas estes
segundos e o corpo do forte já corria e Fantasia
e Impaciência eram novamente suas donas e
Zinho já avistava a praia e não era só ele ali:
toda a aledeia, do mais velho à mais pequenininha
se grudava perto da água dentro da água para
ver:
                  A Fundação do Brasil.
 
 
O segundo livro de Guilherme foi a peça Nacos de Carne. Dois personagens, um rapaz e uma moça que discutem na cama sobre sua relação de modo extremamente íntimo e sem pudores. Há também um coro e intervenções musicais com participações. Nacos de Carne foi montada apenas uma vez, no teatro Cândido Mendes no centro, ‘havia gente que ia embora e quem morria de rir”. Trata-se de um texto em fluxo, característica da poesia de Guilherme. Nacos de Carne é do ano de 1992.
 
 
 
 
ZAÍDE
 
 
Nunca pensei que amar fosse tão doce
que era coisa de velhice de abelha
no jardim dedicado por casais que
de mãos dadas dormem e jogam sorrisos
Pensava só no turbilhão e nas contas
do final do mês no ter que me transportar
no outro e que era disputa e nunca compla-
cência e cumplicidade e nunca criação
Até que chegou o momento. Veio quieto
Era final de uma noite sem vento na
Gávea. Lembro-me da hora da cor da
recém aurora das roupas do que to-
mamos acho que de cada palavra
Agora que vejo o corpo mais frágil -
meus rins doem – e a cadeira que
ganhei no dia dos namorados dá uma tre-
menda alegria (como é confortável), posso
garantir que amar é tão doce que as abelhas
não se enjoam de parir potes de favos. Eu
no jardim, de mãos dadas, de cabelos tão brancos
 
 
O terceiro livro de Guilherme chama-se Mais Tragédia Burguesa. O título é uma homenagem ao, infelilzmente, desconhecido escritor e imortal Otávio de Faria que escreveu A Tragédia Burguesa. O livro é ousado e trata de assuntos bastante polêmicos. Guilherme entra, através de confissões coloquiais, poemas e prosas-poéticas, na morte, no homossexualismo, opiniões políticas e nos percalços de sua vida. Inicia um estilo que virá a ser, e é, sua maior característica, o discurso lavado e puro direto do âmago que choca ou elucida.
 
 
 
HENRIQUE
 
 

  
O quinto livro de Guilherme é o mais corajoso, chama-se Morrer. Uma espécie de epitáfio-poético-confessional que revela a fragilidade do poeta. Conta casos da intimidade, revelações do âmago e uma reflexão dos caminhos tomados na vida. É um livro de 2002, e já mostra o poeta preocupado com a morte, tema vigente do livro. Entretanto, há momentos de ternura, como em qualquer turbilhão de facas que Guilherme costuma escrever, sempre há uma rosa quando se pensa que será apenas o abjeto.
 
 
 
 
MORRER
 
 
Querer ficar marcado pois
cada detalhe é belo
As formas ou idéias que
aguçam a inteligência
O que é mais pleno do
que olhar o transbordar
seja da floresta ou de um verso?
O que é belo aguça a inteligência
E a vontade de morrer é não
aguentar a espera do outro dia
É a incerteza do encontro de
outra planta ou texto
Desejando então findar o que aguça
 
Zombar é o sexto livro de Guilherme. Ousado, mais político e essencialmente coloquial, o livro conta com relatos de Guilherme pelas ruas do Rio, numa angustiante trajetória de lembranças e casos de uma vida de extremos. Zombar conta também com um belo prefácio de Heloisa Buarque de Holanda, que diz “Foi adorável ficar indignada com sua intolerância passional quando julga a minha geração nas figuras de Jabor e Elio Gaspari. Foi excelente me deter na parte Poemas Soltos e descobrir que Guilherme é, antes de tudo, poeta”.
  
 
 
 
POETA
 
Quando a morte me levar, suave suave descanso,
quando a dita aconchegar, tragédia para uns poucos,
lembrança no ar (não há). Quando o cinza, o branco
desfocado, o negro do sonho, quando, talvez, morrer
e ver tudo colorido, poucas vezes sonhei colorido,
quando, como disse a senhora retornando do coma -
tudo é tranquilo, a morte é como esquecer para sempre
- sorvo mais duas latas e aspiro alguma substância
tóxica; só queria ser um velho culto a contar bobagens
como o meu primeiro beijo de língua ou mergulho na
cachoeira. Nunca menti seu desgraçado. Sempre
cumpri as ordens da nação. Ser repetitivo o apaixonado
e não espero que muitos me leiam. Tão educado
menininho.
 
Publicado neste ano de 2009, Branco sobre Branco é a tese de Doutorado de Guilherme. Ele conta como se deu a criação do CEP 20.000, com textos de participantes, opiniões, pequenos casos e ainda uma bela homenagem a sua mãe e seu pai. Guilherme não considera Branco sobre Branco  um livro, é apenas uma tese. Modestia do autor, pois é um belo livro e diria de importante leitura para a compreensão da cena poética do Rio na década de 90. Mais opiniões nesta semana.
 
 
poema Surto de Volúpia Possessiva no blog http://pedrolago.blogspot.com
 
 
 AZUL CLARO
 
 
A excelência da manhã clara que é bebê acordando
Que desperta a mãe que nunca está desligada
Tempo de poucas palavras e olhares amarfanhados
De quem sonhou há tão pouco que ainda
De um pouco sonha estando ronronado pelo
Sol que encosta pela fresta da janela que
Empresta um calor que é brinquedo, ursinho
De criança, em casa bem guardada.
O cheiro do chá e da banana amassada em
Mel. O pão e a geléia caseiros alguns estalam
Um ovo ou mais um fruta e infelizmente
O mundo ganha juízo. Já não é tempo do
Despertar na manhã azul: é agir pois
Todos são chamados por um nome e profissão.
O tempo tão lento do espreguiçar do abrir
O jornal sem ler do membro rijo sem querer
Da primeira vez de ir ao banheiro do escovar
Os dentes do primeiro beijo selinho do apenas
Encostar as mãos… e se este tempo não dura
Para sempre ele retorna tantas vezes que sem
Preocupação pode despertar e dizer bom-dia passarinho
Bom-dia manga madura na árvore pronta para
Ser chupada bom-dia Esperança que amassou a
Banana e fez o chá e ainda fará bolinhos de
Arroz no almoço. Bom-dia até para o trabalho pois
Todos são chamados por um nome e profissão
A minha é descrever bom-dia para lembrar quando
Dias menos claros quando em humores desgastados
Que também há o despertar com raiva com dor na
Coluna brigado com quem ama sem cheiro de chá
Com ar de sumiço. E se o abrir de uma página transformar
O maxilar rijo num sorriso, encostarei minhas pontas
Dos dedos no chão – desdobrados braços e coluna -
Finalizando o reverente cumprimento: estarei lisonjeado,
Cumpri minha tarefa! Carregar palavras que são
Mastros e entrar em seu silêncio que é espaço imenso
De sol e frio amor de sobra e falta de Esperança.
 
Guilherme acha que não existe diferença entre prosa e poesia. Suas proposições provam isso. Há textos/poemas essencialmente prosaicos, assim como em outras formas. Guilherme não consegue dissociar a vida pessoal da obra, apesar de não concordar com sua primeira afirmativa, nesta última estou por completo. Ser assim causa muita estranheza entre poetas, o que Guilherme adora, pois a provocação, direta ou indireta, é um dos grandes “efeitos” que sua poesia causa.
 
 
 
 
PRA LÁ DOS 70
 
 
Envelhecendo com dignidade, convivendo com as
Doenças, seja a diabete, que deixa minhas pernas
Negras, o coração de mudanças de ritmo e de humor,
O pulmão com água. Envelhecendo e esperando a
Morte. Sem revolta. Comendo de tudo. Tudo é
Proibido. Sonhando com viagens que não posso
Executar. O médico manda exames, às vezes os
Faço, às vezes nem envio de volta: ficam no armário
Canetas, relógios, fotos de família, contas já pagas e
Várias pílulas, todas as cores, chego a tomar 17 ou
Mais por dia. Se estou com raiva não olho a
Prescrição. Esqueço. O que mais pode me acontecer
Morrer? Já nem sei o que é isto. Estou tão próximo
Da morte que ela já nem existe. Estou dentro do
Enlace da morte. Eu quero é que se foda. Desculpem-me.
Envelheço com dignidade.
 
Creio que Guilherme é muito pouco lido. As pessoas se prendem na sua figura folclórica e controversa e não veem o que diz. Guilherme esteve presente na antologia Esses poetas, de Heloisa Buarque de Holanda, um tentativa de continuar com o acerto de 26 poetas hoje, livro que revelou grandes poetas. Há quem diga que o livro não foi bem aceito, eu acho-o importante e deve ser lido pois é grupo interessante. Guilherme foi poeta nos anos 90, década um pouco confusa no quadro das artes, mas que teve suas jóias.
 
 
 
 
BRASÍLIA

 
 

 

Conheci Guilherme Zarvos no Bar do Mineiro em Santa Tereza. Estava frio e logo me peguei com raiva dele por discordar de minhas idéias. Ele achava a fase figurativa do Antonio Dias melhor, era mais política. Hoje entendo. Guilherme disse que me faltava malícia, perversão, essa foi a palavra. Um ano depois, o procurei para ler meus poemas. Foi por causa que Guilherme que li Eliot a primeira vez. Pound, Bruno Tolentino, Konstantinos Kaváfis, Kant, Lorca e um que se tornou meu grande amigo, Paulo Fichtner. Esta é a homenagem que faço ao socrático e velho de guerra Guilherme Zarvos. Isso aí.
 
 
 
 
PAULO
 
 
Esperei 40 anos para ter 4 meses de felicidade. Espera-
ria outros 40.
Duvidei do Ser aceito, quase da (di) vida: delirei de-
batendo-me: tinha certeza – como quem ora profundo
ou soleia carvão ou pedra quentes.
Enxergar dormir acordar sorrir, meu anjo, meu homem,
me apraz + do que minha vida. + que amor, a palavra
é comunhão: pão queijo leite e café.
Nunca duvidei do amor, nunca duvidaria.
 
Eu tinha certeza(?) E se tivesse de esperar outros 40 eu
morreria(?) 160 dias de felicidade valeram 12.000 de es-
pera(?) Quantos 1000 + esperaria(?) Valeria -
não vou duvidar, já que tenho.
 
Eis que chegamos ao final de mais uma antologia poética. Espero que tenham gostado de conhecer a poesia deste controverso, polêmico, político e sensível poeta que é o Guilherme Zarvos. Mudança de linguagem, trazer a poesia para o relato pessoal, não separar a vida do artista de sua obra, verdade nua e crua, irreverência, humor e muito tapa na cara, está é a poesia de Guilherme. Na semana que vem entraremos em um outro universo poético, com outras proposições, outras linguagens, enfim, outros poemas. Ou como diria o Mario Quintana, “todos os poemas são o mesmo poema”. Até.
 
poema Momento Íntimo no blog http://pedrolago.blogspot.com
 
 
POETA
 
Quando a morte me levar, suave suave descanso,
quando a dita aconchegar, tragédia para uns poucos,
lembrança no ar (não há). Quando o cinza, o branco
desfocado, o negro do sonho, quando, talvez, morrer
e ver tudo colorido, poucas vezes sonhei colorido,
quando, como disse a senhora retornando do coma -
tudo é tranquilo, a morte é como esquecer para sempre
- sorvo mais duas latas e aspiro alguma substância
tóxica; só queria ser um velho culto a contar bobagens
como o meu primeiro beijo de língua ou mergulho na
cachoeira. Nunca menti seu desgraçado. Sempre
cumpri as ordens da nação. Ser repetitivo o apaixonado
e não espero que muitos me leiam. Tão educado
menininho.
 
 

 

 

outubro 9, 2009

Poetas Barrocos Brasileiros

BENTO TEIXEIRA
 
Neste mês estudaremos a poesia feita no Brasil no período barroco. Vamos da contextualização histórica até a biografia de quatro poetas mais significativos: Bento Teixeira, Manuel Botelho de Oliveira, Gregório de Matos e Sebastião da Rocha Pita. O barroco no Brasil tem inicio “oficialmente” no século XVII, entretanto, na poesia, é em Bento Teixeira que se dá o primeiro movimento. Bento Teixeira nasceu no Porto em 1561 e veio ao Brasil aos cinco ou seis anos em companhia dos pais. Bento estudou com os padres da Companhia de Jesus (que explicaremos depois) e seguiu para o Rio de Janeiro onde estudou a obra dos escritores latinos e teologia com os jesuítas. Segue para Bahia, casa-se, então segue para Olinda onde mantém uma escola.
 
 
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PROSOPOPÉIA I e II
 
Cantem Poetas o Poder Romano,
Submetendo Nações ao jugo duro;
O Mantuano pinte o Rei Troiano,
Descendo à confusão do Reino escuro;
Que eu canto um Albuquerque soberano,
Da fé, da cara Pátria firme muro,
Cujo valor e ser, que o Céu lhe inspira,
Pode estancar a Lácia e Grega lira.
 
As Délficas irmãs chamar não quero,
que tal invocação é vão estudo;
Aquele chamo só, de quem espero
A vida que se espera em fim de tudo.
Ele fará meu Verso tão sincero,
Quanto fora sem ele tosco e rudo,
Que per rezão negar não deve o menos
Quem deu o mais a míseros terrenos.
 
Consta que Bento Teixeira  nos autos de seu processo no Santo Ofício, em Lisboa, “ensinou mais de 60 moços por espaço de dois anos e pouco mais ou menos”. Em 1593 ou 94, mata a esposa Felipa Raposa, com que se casara na Bahia, por ter-se “adulterado com muitos homens”, e “tinha pouca emenda”. Recebeu ordem de prisão pelo Santo Ofício em 19 de agosto de 1595 por práticas judaicas, que acabou por confessar  em 1597. O poeta foi considerado herege apóstata pela Igreja Católica.
 
 
 
 
DESCRIÇÃO DO REFICE DE PARANAMBUCO
 
Para a parte do Sul, onde a pequena
Ursa se vê de guardas rodeada,
Onde o Céu luminoso mais serena,
Tem sua influição, e temperada.
Junto da nova Lusitânia ordena
A natureza, mãe bem atentada,
Um porto tão quieto, e tão seguro,
Que para as curvas Naus serve de muro.
 
É este porto tal, por esta posta,
Uma cinta de pedra, inculta, e viva,
Ao longo da soberba e larga costa,
Onde quebra Netuno a fúria esquiva.
Entre a praia, e pedra descomposta,
O estanhado elemento se deriva
Com tanta mansidão, que uma fateixa
Basta ter à fatal Argos aneixa.
 
obs: Nova Lusitânia foi o nome inicial da Capitania de Pernambuco;
Argos é o nome do navio conduzido por Jasão e outros heróis chamados de argonautas, que se dirigiram à Cólquida em busca de Tosão de Ouro.
 
 
O poema Prosopopoéia, de Bento Teixeira é um pequeno poema épico, composto de 94 estrofes em oitava de rima, que por sua vez consiste em estrofes de oito versos, composta de seis versos de rimas alternadas e os dois último versos com rimas emparelhadas nesta ordem “abababcc”, ao melhor estilo  d‘Os Lusíadas. O poema celebra os primeiros donatários da capitania de Pernambuco, sendo dedicado a Jorge de Albuquerque Coelho (1539-1598). A magnânime obra de Camões foi o grande molde para a produção da época, como vemos agora e veremos mais adiante.
 
 
 
 
CANTO DE PROTEU XII & XIII
 
 
Pelos ares retumbe o grave acento
De minha rouca voz, confusa e lenta,
Qual trovão espantoso e violento
De repentina e hórrida tormenta;
Ao Rio de Aqueronte turbulento,
Que em sulfúreas borbulhas arrebenta,
Passe com tal vigor, que imprima espanto
Em Minos rigoroso e Radamento.
 
De lanças e d’escudos encantados
Não tratarei em numerosa Rima,
Mais de Barões Ilustres afamados,
Mais que quantos a Musa não sublima.
Seus heróicos feitos extremados
Afinarão a dissoante prima,
Que não é muito tão gentil sujeito
Suprir com seus quilates meu defeito.
 
Minos é o mítico rei de Creta, filho de Zeus e Europa. Por sua sabedoria e justiça, Minos tornou-se após a morte um dos três juízes do Inferno, ao lado de Éaco e Radamento.
Radamento é irmão de Minos, também se tornou após a morte um dos juízes do Inferno.
 
 
É clara a influência das lendas gregas e romanas na poesia de Bento Teixeira. No prólogo do poema Prosopopéia (este que estamos usando como base) há uma citação da Arte Poética do romano Horácio que diz “Pictoribus atque poetis quid libet audendi semper fuit aequa potestas” ou seja, “a pintores e a poetas sempre se permitiu o mesmo poder de ousar“. Mais adiante, na obra de outros poetas barrocos, as referências gregas e romanas estarão presentes, aqui, está Hércules, ou Héracles.
 
 
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CANTO DE PROTEU XXIV & XXV
 
 
 
Não quero no meu Canto alguma ajuda
Das nove moradoras de Parnaso,
Nem matéria tão alta quer que aluda
Nada ao essencial deste meu caso.
Porque, dado que a forma se me muda,
Em falar a verdade serei raso,
Que assim convém fazê-lo quem escreve,
Se à justiça quer dar o que se deve.
 
A fama dos antigos coa moderna
Fica perdendo o preço sublimado:
A façanha cruel, que a turva Lerna
Espanta com estrondo d’arco armado:
O cão de três gargantas, que na eterna
Confusão infernal está fechado,
Não louve o braço de Hércules Tebano,
Pois procede Albuquerque soberano.
 
Hidra de Lerna, morta por Hércules no segundo de seus doze trabalhos, a serviço de seu primo Euristeu.
O cão de três gargantas é Cérbero, guardião do Inferno. O 11º Trabalho de Hércules consistia em trazer o cão para seu primo Euristeu.
 
 
Bento Teixeira morreu no ano de 1600, após o Santo Ofício tê-lo encontrado “em cama com febre tendo lançado algum sangue pela boca“, sendo anotado na capa dos autos do processo a seguinte informação: “é falecido Bento Teixeira e faleceu andando com a penitência em o fim de Julho de 1600“. Bento foi o primeiro poeta ”brasileiro” barroco, que viria depois com mais ênfase e expansão ao longo do século XVII, pelas mãos de um grande artesão e pelas penas de outros poetas que veremos mais adiante.
 
 
 
 
CANTO DE PROTEU XCIII & XCIV
 
Assim diz; e com alta Majestade
O Rei do Salso Reino, ali falando,
Diz: – Em satisfação da tempestade
Que mandei a Albuquerque venerando,
Pretendo que a mortal posteridade
Com hinos o ande sempre sublimando,
Quando vir que por ti o foi primeiro,
Com fatídico esp’rito verdadeiro.
 
Aqui deu [fim] a tudo, e brevemente
Entra no carro [de] cristal lustroso;
Após dele a demais cerúlea gente
Cortando a via vai do Reino aquoso.
Eu que a tal espetáculo presente
estive, quis em verso numeroso
Escrevê-lo, por ver que assim convinha
Para mais perfeição da Musa minha.
 
Rei do Salso Reino é Netuno
 
GREGÓRIO DE MATOS
 
Continuando os estudos sobre a poesia barroca brasileira. Gregório de Matos nasceu em Salvador, Bahia, possivelmente em 1636 (outros biógrafos apontam 1623 ou 1636), em uma família abastada de proprietários da admnistração colonial. Estudou nos colégios jesuítas e, posteriormente, prossegue os estudos em Coimbra, sendo graduado em Cânones (como se chamava o estudo de Teologia na época) no ano de 1661 e casa-se com D. Micaela de Andrade, de uma família de magistrados. Gregório merece um estudo mais aprofundado, mas somente nesta semana veremos quem foi o Boca de Inferno.
 
 
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DESCREVE O QUE ERA REALMENTE NAQUELE TEMPO A CIDADE DA BAHIA DE MAIS ENREDADA POR MENOS CONFUSA
 
A cada canto um grande conselheiro.
que nos quer governar cabana, e vinha,
não sabem governar sua cozinha,
e podem governar o mundo inteiro.
Em cada porta um freqüentado olheiro,
que a vida do vizinho, e da vizinha
pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,
para a levar à Praça, e ao Terreiro.
Muitos mulatos desavergonhados,
trazidos pelos pés os homens nobres,
posta nas palmas toda a picardia.
Estupendas usuras nos mercados,
todos, os que não furtam, muito pobres,
e eis aqui a cidade da Bahia.
 

 Gregório de Matos exerce vários cargos em Portugal e fica viúvo em 1678. Em 1679, é nomeado por D. Gaspar Barata de Mendonça para desembargador da Relação Eclesiástica da Bahia e, em 1682, tesoureiro a tonsura (ordens menores), no ano de 1681, é destituído, pelo Arcebispo D. Fr. João da Madre de Deus, dos cargos à cúria baiana, por não querer usar batina e por não aceitar a imposição das ordens maiores necessárias para o exercício das suas funções junto ao arcebispado. Começa a escrever poemas satíricos.

 
 
 
QUEIXA-SE O POETA EM QUE O MUNDO VAI ERRADO, E QUERENDO EMENDÁ-LO TEM POR EMPRESA DIFICULTOSA
 
 
Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.
 
O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ornadas
Do que anda só o engenho mais profundo.
 
Nâo é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir, que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.
 
O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo o mar de enganos
Ser louco cos demais, que ser sisudo.

 

A vida de Gregório de Matos merece um estudo mais aprofundado, porém, podemos ressaltar sua postura perante à Igreja, os problemas que enfrentou por ser considerado “herege”; a fama de “Boca do Inferno” ou “Boca de Rasa” e seu estilo satírico. Quanto a isto, vale lembrar que esta caracterítica apareceu depois do envolvimento com os “deveres” da Igreja, pois Gregório de Matos também apresenta uma linha lírica muito interessante. Por isso a necessidade do estudo, porém aqui, falamos do barroco, portanto, outros poetas também.
 
 
 
 
NESTE RETIRO DEVEMOS SUPOR O POETA CONSULTADO DE VÁRIOS AMIGOS COM ALGUNS ASSUNTOS PARA RESOLVER, E ASSIM PROSSEGUIREMOS COM AS OBRAS SEGUINTES.
 
 
Fábio; que pouco entendes de finezas.
Quem faz só, o que pode, a pouco obriga;
Quem contra os impossíveis se afadiga,
A esses se dê amor em mil ternezas.
 
Amor comete sempre altas empresas;
Pouco amor muita sede não mitiga;
Quem impossíveis vence, este me instiga
Vencer por ele muitas estranhezas.
 
As durezas da cera o sol abranda,
E da terra as branduras endurece,
Atrás do que resiste, o raio se anda.
 
Quem vence a resistência, se enobrece,
Quem pode, o que não pode, impera, e manda;
Quem faz mais do que pode, esse merece.
 
 
Consta que Gregório de Matos morreu em 1696 após uma febre contraída em Angola. O poeta recebera a permissão de voltar ao Brasil após tantas acusações de heresia, por ter colaborado em uma conspiração militar. Assim vai para o Recife. Fato interessante: Gregório de Matos, em seu leito de morte, pede que dois padres venham à sua casa e fiquem cada um de um lado de seu corpo e, representando a si mesmo como Jesus Cristo, alega “estar morrendo entre dois ladrões, tal como Cristo ao ser crucificado“. Semana que vem outro poeta barroco.
 
 
 
 
A UMAS SAUDADES
 
Mote
 
Parti, coração, parti,
navegai sem vos deter,
ide-vos, minhas saudades,
a meu amor socorrer.
  
Pelo mar do meu tormento,
em que padecer me vejo,
já que amante me desejo
navegue meu pensamento:
meus suspiros formem vento,
com que me faças ir ter,
onde me desejo ver,
e diga minha alma assi,
Parti, coração parti,
navegai sem vos deter.
 
Ide onde meu amor
apesar desta distância
nem há perdido a constância,
nem há admitido rigos:
antes mais superior
assim se quer exceder,
porém se desfalecer
em tantas adversidades,
Ide-vos minhas saudades
a meu amor socorrer.
 
MANUEL BOTELHO DE OLIVEIRA
 
Manuel Botelho de Oliveira nasceu em Salvador no ano de 1636. Estudou direito em Coimbra. Ao voltar ao Brasil, exerceu advocacia e foi vereador em Salvador. Foi um contemporâneo de Gregório de Matos com quem teria convivido. Fato interessante: Música de Parnaso tornou-se o primeiro livro impresso de autor nascido no Brasil. Os poemas desta semana serão todos deste livro. Manuel também foi poeta barroco, já no meio de seu desenvolvimento.
 
 
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ANARDA INVOCADA
 
Invoco agora Anarda lastimado
Do venturoso, esquivo sentimento:
Que quem motiva as ânsias do tormento,
É bem que explique as queixas do cuidado.
 
Melhor Musa será no verso amado,
Dando para favor do sábio intento
Por Hipocrene o lagrimoso alento,
E por louro o cabelo venerado.
 
Se a gentil formosura em seus primores
Toda ornada de flores se avalia,
Se tem como harmonia seus candores;
 
Bem pode dar agora Anarda impia
A meu rude discurso cultas flores,
A meu plectro feliz doce harmonia.
 
O livro Música de Parnaso está dividido em quatro coros, sendo apenas o primeiro composto de versos em português, pois os três restantes trazem poemas em espanhol, italiano e latim. À Ilha da Maré, incluído no livro, é um poema longo e considerado por muitos como um dos primeiros exemplos do nativismo na literatura brasileira. Veremos depois alguns trechos do poema. Manuel também conviveu com Padre Antônio Vieira, a quem lhe dedica belo soneto.
 
 
 
AO SONO
 
 
Quando em mágoas me vejo atribulado,
Vem, sono, a meu desvelo padecido,
Refrigera os incêndios do sentido,
Os rigores suspende do cuidado.
 
Se no monte Cimério retirado
Triste lugar ocupas, te convido
Que venhas a meu peito estristecido,
Porque triste lugar se tem formado.
 
Se querem noite escura teus intentos,
E se querem silêncio; nas tristezas
Noite, e silêncio têm meus sentimentos:
 
Porque triste, e secreto nas ternezas,
É meu peito uma noite de tormentos,
É meu peito um silêncio de finezas.
 
Raphael Bluteau define madrigal como “uma casta de verso, como ramo de silva, consta de versos pequenos e grandes; umas vezes com consoantes inperpolados e outros seguidos. É poesia pastoril. Madrigal vem de mandra, que no latim e no grego quer dizer curral, ou gado junto; madrigais eram cantigas de pastores”. Outros autores são mais românticos, dizem que vem de madrugar, porque cantava-se os madrigais nas madrugadas para as amadas ao pé da janela. Já Olavo Bilac diz que “de origem italiana, o madrigal era, no século XVI, uma espécie de composição destinada a exprimir, num resumido número de versos, um pensamento espirituoso e elegante, um elogio discreto ou uma discreta confissão de amor. Concisão, graça e delicadeza são as suas qualidades essenciais”. Esse é o Bilac.
 
 
 
MADRIGAIS
 
 
I – Navegação Amorosa
 
É meu peito navio,
São teus olhos o Norte,
A quem segue o alvedrio,
Amor Piloto forte;
Sendo as lágrimas mar, vento os suspiros,
A venda velas são, remos seus tiros.
 
II – Pesca Amorosa
 
Foi no mar de um cuidado
Meu coração pescado;
Anzóis os olhos belos;
São linhas teus cabelos
Com solta gentileza,
Cupido pescador, isca a beleza.
 
III – Naufrágio Amoroso
 
Querendo meu cuidado
Navegar venturoso,
Foi logo soçobrado
Em naufrágio amoroso;
E foram teus desdéns contrário vento,
Sendo baixo o meu vil merecimento.
 
 
Manuel Botelho de Oliveira morreu em Salvador no ano de 1711. Seu poema Lira Sacra, extenso conjunto de poemas de teor religioso, permaneceu oculto até a segunda metade do século XX, quando em 1971, foi publicado por Heitor Martins. Este foi nosso terceiro poeta barroco. Semana que vem o último poeta que representa melhor esse período da poesia brasileira, o primeiro momento da nossa poesia.
 
 
 
 
PONDERAÇÃO DA VIDA HUMANA
 
 
Homem que queres?  Vida regalada;
Vida que solicitas?     larga idade;
Idade que procuras?   liberdade;
Liberdade que logras?   prenda amada;
Prenda que conta fazes?    conta errada;
Conta que somas já?    pouca verdade;
Verdade que descobres?   a vaidade;
Vaidade que pretendes?   tudo e nada;
Tudo que ganhos dá?   perda notória;
Perda que vem a ser?   de Deus eterno;
Deus que a vida nos presta?    transitória;
Transitória que aspira?   ao Céu superno;
Céu que nos oferece?    a eterna glória;
Glória que nos evita?    o triste inferno.
 
 
SEBASTIÃO DA ROCHA PITA
 
Sebastião da Rocha Pita nasceu em Salvador em 1660. Estudou no Colégio dos Jesuítas conquistanto título de mestre das artes. Ocupou alta posição social e fez fortuna com a cultura da cana-de-açucar. Foi membro do Senado da Câmara em 1687 e recebeu o título de coronel das Ordenanças da Corte em 1694. Será nosso último poeta do período barroco a ser estudado.
 
 
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SONETO JOCOSO
 
 
Pondero a emudecida formosura
De Fília, sem temer que impertinente
Possa, no meu soneto, meter dente,
Pois carece de toda a dentadura.
 
Se, por cobrir a falta, esta escultura
Tão muda está que não parece gente,
Estátua de jardim será somente,
Se de pano de raz não for figura.
 
O Senhor Secretário quer que a creia
Bela sem dentes; eu lho não concedo:
Desdentada é pior do que ser feia,
 
E em silêncio só pode causar medo,
Ser relógio do sol para uma aldeia,
Para um povo estafermo do segredo.
 
 
D. João II (1455 – 1495), foi rei de Portugal de 1481 até sua morte, foi chamado “O Príncipe Perfeito” devido à forma como governava. Grandes navegações foram realizadas sob o seu reinado, que culminariam com a chegada de Vasco da Gama à Índia em 1498. Os poemas enaltecendo figuras públicas e à Igreja eram bastante regulares no século XVII e XVIII em Portugal e, consequentemente, no Brasil. Vale lembrar que foi contra isso que Bocage se voltara no século XVIII em Portugal, e aqui, Gregório de Matos no século XVII.
 
 
 
GLORIAVA-SE O SENHOR REI DOM JOÃO II DE VER OS SEUS VASSALOS, ASSUNTO HERÓICO DA NOSSA ACADEMIA BRASÍLICA
 
 
Aquele a quem mais cultos dá o respeito,
O Segundo João de imenso brado,
Pelas vozes da fama proclamado
Perfeito Rei, e Príncipe perfeito.
 
As ações dos vassalos, e o conceito,
Com ânimo real, augusto agrado,
Para os prêmios trazia no cuidado,
Para as estimações tinha no peito.
 
De ver aos lusitanos se gloriava,
E nesta ação a mesma simpatia
No monarca, e vassalos, se apurava.
 
Mas não sei quem mais glória conseguia:
Se o Rei, que como lince os penetrava,
Se os vassalos, que como objetos via.
 
 
Sebastião da Rocha Pita fazia parte da Academia Brasílica dos Esquecidos. Consta que foi formada com o propósito de coligir informações sobre a Nova Lusitania. Este material seria enviado para a Corte a fim de ser anexado à História de Portugal, que estava sendo redigida pela Academia Real de História Portuguesa. A autodenominação esquecidos veio provavelmente do fato de que nenhum letrado colonial fora chamado para compor os quadros da Academia de História Portuguesa. Os acadêmicos se consideravam abandonados pela metrópole, consideravam que seus talentos intelectuais deveriam receber mais atenção da Corte.
 
 
CAINDO UM RAIO SOBRE A ESTÁTUA DE APOLO, ASSUNTO HERÓICO DA PRESENTE ACADEMIA
 
 
Fulmina, irado, Júpiter tonante
Sobre a estátua de Apolo um raio ardente,
Fatal impulso, ação incompetente,
De um amoroso pai a um filho amante.
 
Que mistério, que causa relevante,
Teve tão memorável acidente:
Espedaçar o raio irreverente
Da luz ao simulacro radiante?
 
Se os destroços de imagens tanto dignas
Das próprias divindades são castigos,
Com pasmo das esferas cristalinas,
 
Quem pode ter consoantes os abrigos
Quando ao sol não perdoam as ruínas,
Quando até nas deidades há perigos?
 
O Acadêmico Vago
Sebastião da Rocha Pita
  
  
Fato histórico: Caio Júlio Cesar (100 a.C – 44 a.C), foi militar e político romano. Suas vitórias na Gália estenderam o domínio romano até o Oceano Atlântico. Consta que lutou numa guerra civil com a ala conservadora do senado romano, cujo líder era Pompeu; ao vencê-la, tornou-se governante vitalício de Roma. Foi assassinado por um grupo de senadores. Fato que gerou instabilidade e que levou ao fim da República e ao início do Império Romano. Já Cneu Pompeu Magno (106 a.C – 48 a.C) foi general político romano. Consta que participou do primeiro triunvirato, com Júlio César e Crasso. Com a morte de Crasso e a campanha de Júlio César na Gália, fez-se nomear cônsul único em 52 a.C. Pompeu parte para a Grécia e perde para César em 48 a.C. Foi assassinado no Egito, onde estava refugiado.
 
 
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FOI CÉSAR TÃO GENEROSO, QUE CHOROU A MORTE DE SEU INIMIGO POMPEU
 
De Pompeu chora César com verdade
A morte, ação por rara peregrina,
No próprio peito que o furor domina
Achar a compaixão tal liberdade.
 
Porém, nesta maior fatalidade,
Nesta grandeza de um herói mais digna,
Tão injusta em Pompeu foi a ruína,
Como em César inútil a piedade.
 
Dos contrários um morre, e logo atento
Outro a morte lhe chora, raro espanto!
Sem remédio no golpe o sentimento.
 
Mas num correndo o sangue, noutro o pranto,
Muito foi em Pompeu perder o alento,
E César tudo fez em sentir tanto.
 
Sebastião da Rocha Pita morreu em 1738 aos 78 anos. Assim chegamos ao final de mais uma antologia poética. Neste mês passamos pelo primeiro momento da poesia brasileira, muito lusitana ainda, mas que revelou um nome importante, que considero ter sido o primeiro grande poeta brasileiro, que foi Gregório de Matos. O barroco foi o momento, o lugar propício para o aparecimento desta figura, que, sem me desfazer dos demais, foi quem melhor grifou sua voz naquele momento. Semana que vem entraremos num outro universo poético, outras proposições, outros poemas e outra poesia, ou seria sempre a mesma?
 
 
 
UM DELFIM SALVANDO DAS ONDAS, SOBRE AS SUAS ESPALDAS A UM HOMEM.
 
Quanto o lírico assunto desta vez
Nada tem de fecundo, e de eficaz,
Delfim no mar, que dúvida nos faz,
É mais próprio no mar, que no xadrez.
 
Porém que homem há, tão fraca rês,
Que um delfim de o suster seja capaz,
Pô-lo em salvo na terra, para trás
Seguro que o não faço, nem das dez?
 
Eu não acho no assunto cor, nem luz,
Com que possa formar algum matiz,
Sequer para pintar um avestruz,
 
Que muito pois ignoro o que ele diz;
Se o assunto conceitos não produz,
Que o soneto não valha dois ceitis.

 

setembro 11, 2009

Afonso Henriques Neto

Afonso Henriques de Guimaraes Neto nasceu em Belo Horizonte em 1944. Aos 10 anos, veio para o Rio de Janeiro e depois para Brasília, onde concluiu os estudos fundametais e, posteiormente, a faculdade de Direito. Afonso é filho do poeta Alphonsus de Guimaraes Filho e neto do grande poeta simbolista Alphonsus de Guimaraes. Neste mês entraremos na poesia forte, diria, deste grande poeta contemporâneo. Que desde sua estréia em 1972, publicou cerca de 10 excelentes livros de poesia. Vamos lá.
 
 
 
 
MOMENTO
 
 
Na sala
mãos muito brancas
passam e repassam páginas
do livro inconsolável.
Na cabeça
o vento enorme
de todos os poemas
cristalizando-se em nada.
No tempo
a percepção da eterna
derrota
sob ressurreições infinitas.
De repente a borboleta seca
voando
voando na sala.
Oh dai-nos ao menos
esse momento úmido
de nossas mãos no vazio.
 
Afonso Henriques neto estreou no mercado literário com um livro escrito a quatro mãos. Misterioso Ladrão de Tenerife, junto com Eudoro Augusto. Livro cujos poemas abrem esta semana. A capa foi feita pelo artista plástico Luiz Áquila, fato que seria presente em suas outras publicações: a participação de artistas plásticos na elaboração das obras. Como diz o João José de Melo Franco, desde a capa, o título, os poemas, a ordem, no livro, tudo é movimento da mesma orquestração, tudo marcado, afinado e ensaiado para o dia da estréia.
 
 
 
TEXTO
 
 
O texto, escura escama, pesadelo de eternidade,
máscara densa do universo vomitando.
O texto, mas não a energia que o pensou,
interrogando a simultaneidade absoluta.
Há uma esperança nas ruas, nas pedras, no acaso
de tudo, uma esperança, uma forma suspensa
entre o aparente e a essência, entre o que vemos
e a substância, uma esperança, uma certeza talvez
de que o rio não se dissolva no mar, de que
o ínfimo, o precário, a voz, a sombra,
o estalar das carnes na explosão
não se dispersem no todo, impensável medusa da inexistência.
Há uma luz qualquer sonhando integração, o suposto
destino dos ventos, das energias globais, a suposta
sabedoria com que o homem fecundou a crosta
envenenada do planeta, há uma luz qualquer
ensaiando águas pensadas no eterno esvair-se,
abstrato expansionário, há uns olhos além
da frágil realidade, da terrível matança, da
cruel carnificina entre seres pestilentos aquém
da fronteira do sonho, um texto além do texto,
uma esperança talvez, enquanto somos e nos cumprimos,
enquanto somos e nos oxidamos, enquanto
somos e prosseguimos.
 

O avô de |Afonso Henriques Neto foi o poeta simboista Alphonsus de Guimaraes. Creio que grupo que procurou fazer este tipo de poesia aqui no Brasil, foi dos mais notáveis. Ao lado do poeta Cruz e Sousa, Alphonsus conseguiu se desenvolver nesta linguagem tão “francesa”. O simbolismo de Valéry e Mallarmé, poesia essencialmente francesa, quando apareceu, notou certa procura nos poetas do Brasil, que buscavam uma saída aos parnasianos, o “problema” foi justamente o modernismo que veio depois, impedindo que este tipo de poesia fosse mais marcante em nossa literatura.
 
 
 
 
DOS OLHOS DO NÃO
 
 
se lhes derem Kennedy ou Kruschev ou De Gaulle
não acreditem nesta única realidade
neste implacável colar de conchas de ar

se lhes derem os códigos os gestos as modas
não acreditem nesta enlatada realidade
nesta implacável aranha de invisíveis fios

se lhes derem a esperança o progresso a palavra
não acreditem na imposta realidade
na implacável engrenagem das hélices de vácuo

aprendam a olhar atrás do espelho
onde a história jamais penetra
a profunda história do não registrado
aprendam a procurar debaixo da pedra
a estória do sangue evaporado
a estória do anônimo desastre
aprendam a perguntar
por quem construiu a cidade
por quem cunhou o dinheiro
por quem mastigou a pólvora do canhão
para que as sílabas das leis fossem cuspidas
sobre as cabeças desses condenados ao silêncio.
 

O pai de Afonso Henriques Neto é o notável poeta Alphonsus de Guimaraes Filho. Alphonsus morreu em 2008 com 95 anos. Poeta místico, católico, não poderia dizer o quanto e como influenciou a obra do filho, visto que tal argumento seria meramente especulativo. Entretanto, cabe dizer que o poeta gostava muito do que o filho escrevia, posso dizer isso em virtude de um lindo poema do dedicado a ele. Afonso cresceu neste meio de poetas, bons poetas, o que lhe facilita o caminho e clareia a vocação.
 
 
 
 
 
QUANDO O SOL
 
quando o sol tornar a colorir a figueira da montanha
aves iluminadas estarão cantando em teu silêncio.
 
escutarás então o inexistente tempo
fluindo sob o peso morno das lágrimas:
sob sob.
 
quando o sol tocar o vento
e os longos dedos de gelo
coçarem a pele da manhã
incendiando os galos e os cabelos
das árvores e montanhas
dos caracóis e cachoeiras
 
quando o sol puxar entre os dentes
o interno verbo de todas as galáxias
altas redes de vento e luz e infinito
 
saberás que atrás de cada tortura
de cada assassínio
de toda a impostura
detrás de cada negação ou falsificação
do humano manancial
o olhar da vida
 
o permanente olhar da vida
sempre ardeu como um grito saltando do pó do avesso do ódio
dos ossos das sepulturas dos cárceres do rosto vazio e
implacável.
 
 
Assim como outros bons poetas de sua geração, Afonso se tornou mais conhecido em virtude da antologia 26 Poetas Hoje, organizada por Heloisa Buarque de Hollanda. Nesta notória antologia, nomes como Ana Cristina Cesar, Cacaso, Chacal, Torquato Neto e outros notáveis poetas da, assim chamada, geração mimeógrafo, apareceram. Apesar de algumas controvérsias, o livro se tornou um marco desta geração, fazendo assim surgir um novo grupo, um novo “rumo” para a poesia daquela época. Tempos depois, nos anos noventa, a mesma tentativa fora feita por Heloisa, porém sem a mesma repercussão. Geração igual aquela, dificilmente haverá.
 
 
 
 
MAIS UMA VEZ
 
 
o menino chora no meio da noite
no meio da praça
no meio do coração.
o menino chupa laranjas e abismos
as bombas caem.
está sozinho no meio do oceano
no meio de cem milhões
no meio do infinito.
o menino desenha navios submersos
enquanto mais uma vez
o povo é saqueado.
o menino chora sob um turbilhão
de cavalos em febre
sob uma teia de equívocos e fracassos.
estamos no meio da noite barroca
no meio da praça
onde os tiranos engolem o ouro
no meio do coração torturado
por mil punhais envenenados
e um punho de sombra redigindo leis imóveis.
o menino uiva um labirinto
(não há pai nem mãe
nem lembrança de ternura
para consolar o pranto).
o menino uiva uma farpa de cristal
um relâmpago de estrelas podres
o abandono definitivo
(não há luz no quarto
onde o menino chora
sob um fedor de sinfonia
estarrecida).
no meio da fome
no meio da morte
no meio do coração.
 
 
Afonso Henriques Neto pensa que a “ a poesia ‘vende pouco’, nada tendo que ver com o universo da comunicação de massa: no poema circula uma linguagem rarefeita, uma língua sem traduções nítidas, delírio a dançar o infinito (mesmo que seja só jogo…). Portanto, penso que o poeta não deve se preocupar em excesso com a retórica imbecilizante de toda a comunicação de massa (ela estará sempre presente em todas as mídias, na sociedade do dinheiro/espetáculo, no discurso do mesmo, da redundância): o poeta precisa é afiar as suas armas e gastar a sua energia na produção de uma obra que valha a pena. Pois todo mundo sabe que a arte ajuda demais na construção do sentido/caminho para uma vida mais rica, mais plena.” Mais opiniões do poeta nesta semana.
 
  
 
 
TERCEIRAS MARGENS
 
 
me canso de vez desse teu jeito de poeta metafísico
de navegador de intrincado torto lirismo
porto de ar aonde vão ter os silêncios
de que se armam os gestos para a navegação sem rota
canso-me por todos os nervos desse pobre
teu ar pedante e prosaico
a pisar o mesmo chão dos mesmos ossos insolúveis
 
cansei-me de kant de joyce de cabral de pessoa
me cansei da repetição desse eterno sempre passado
a espreitar atrás da sensação e do idiota e do imprestável
quero que se fodam o verso solto e o empolado
a imagem de lã o provérbio alado
qualquer um dos lados por onde pensa sorrir
teu manco roto discurso entanto límpido
pois que é só cansaço nem estrela e nem
por isso gostaria de enlouquecer cantando
às margens de nada e falta de ar ou chope
velho dessas margens terceiras e falido rio.
 
Afonso Henriques Neto toca num ponto interessante sobre o processo literário, o relaxamento e o comprometimento. Muitos poetas, sobretudo hoje em dia, optam pelo discurso coloquial tão utilizado pela geração dele nos anos 70. Acontece que naqueles tempos, a coisa se misturava de forma tão visceral, que mesmo poetas com boa formação literária e poetas sem formação literária dialogavam e produziam trabalhos de boa qualidade. Era opção de alguns e único caminho para outros. Cita o próprio poeta em entrevista o Cacaso e a Ana Cristina Cesar de um lado. Chacal, já com outras proposições e apostando no “faro poético”do outro. Outra época.
 
 
 
 
 
 
SATISFACTION
 
 
quero sugar sua boca
na velocidade da luz
não aguento mais
essa conversa fiada
esse apartamento trancado
essa burocracia de esgoto
amarelo de papel ressonando
enquanto a lua enlouquece
lágrimas e espermas
speed amor speed
eu quero chupar você
como um risco de gilete
na pele noite da estrela
eu quero comer você
olhando a foda no espelho
e espalhar pelos campos
meus ossos os labirintos o gozo
charme postiço
nossos prosaicos pentelhos
oh sonâmbula dama lúcida paixão
nenhum incêndio me basta
minha fome meu tesão.
 
 
Ainda sobre a questão relaxamento x comprometimento (não que o poeta “relaxado” não seja comprometido, falo de busca, auto-crítica e aperfeiçoamento), Afonso Henriques Neto diz que “não basta o domínio técnico, uma certa postura formalista, para se fazer um bom poeta. O melhor, talvez, seja juntar as duas coisas: visceralidade e consciência técnica. Mas uma coisa é certa: se você quiser mesmo saber o que é grande literatura, siga os passos do Ezra Pound e procure Homero, Safo, Propércio, Catulo, Dante, Shakespeare, Camões, Fernando Pessoa; no Brasil, Gregório de Matos, Gonçalves Dias, Castro Alves, Augusto dos Anjos, Alphonsus de Guimaraens, Cruz e Sousa e os modernos.”
  
  
 
 
 
FOGUEIRAS
 
 
não saberia o que fazer com todas essas vozes
todas essas narrações de viagem de vida consumida aos
                                                         arrancos
no meio dos desfiladeiros cintilantes dos corredores de
                                                         algodão
solidão e estrelas estripadas
não saberia o que fazer com teus olhos de cenoura
cor e urro da fera escorrendo pelos teus rins
rasgando de dor o gozo de tuas mamas tão infantis
tão despudoradamente infantis
não saberia o que fazer com tua boceta de clarões secretos
se o amor é essa mistura de lágrima e corpos
se despedindo longamente na translúcida estrada
de parte alguma pra parte nenhuma o amor
rios ocos da morte que a vida inutilmente
tenta penetrar em líquidos em rochas em pulmões arfantes
e resta o zumbido neutro dessas moscas implacáveis
não saberia mesmo arrematar a sinfonia
por isso agarro tuas mãos nessa urgência
de astros cadentes
e ligamos a tv e as formigas lambem o açucar
talvez as crianças caminhem pelas fogueiras do tempo.
 
 
Ainda sobre os poetas ‘marginais’. É muito certo que a antologia 26 poetas hoje fez com que muitos poetas daquela ótima geração aparecessem. Porém, outros que não concordavam com a proposta do livro, não quiseram ser publicados. Há também os poetas que não eram atuantes na “militante” nuvem cigana e também não apareceram. Há também poetas que participaram do livro e depois “se arrependeram”. Enfim, mas o livro é marcante, de certa forma precisava ser feito. Agora, uma coisa é ter participado de uma antologia, outra coisa é conseguir manter-se com o trabalho bem feito. Quem carrega a obra é o povo.
 
 
 
 
NÃO É QUALQUER AMOR
 
 
não é qualquer amor que se acaba em Paris
angústia de mel nas praças sinfônicas do infinito
não é qualquer amor que risca na rocha o relâmpago
sonhos siderais nas guelras dos furacões
não é qualquer amor que se celebra na orgia das estrelas
revoada dos deuses até então imóveis nas estátuas
não é qualquer amor que se perfuma com o destino das flautas
doce alfabeto sonhado nos pássaros em primavera
não é qualquer amor que será eterno como a carne
oblíqua emoção de lamber em prantos o sol entardecendo
não é qualquer amor
 
 
A questão do coloquialismo na geração marginal é apontada por Cacaso em Não quero prosa como sendo fruto da leitura e da tradição de Manuel Bandeira. Porém, Cacaso também levanta a importância de Mário de Andrade para este tipo de caminho. Concordo com ele pois vi isso na prática, é incrível. Aquela geração foi uma geração que lia muito o Bandeira, sem se desfazer obviamente dos franceses e outros fundamentais como dizia o Torquato Neto, mas foi uma geração que surgiu abrindo o que as anteriores vinham construindo, e creio que é isto que acontece de tempos em tempos, o processo de destruição da reconstrução, ou reconstrução da destruição. Por aí.
 
 
 
LA MER MÊLÉE AU SOLEIL
 
 
 
quem trouxe o mar para beber
em toda a sua sede
junto ao sangue trêmulo da ironia?
rimbaud respirou a vertigem
árvores amarelas no coração dos cósmicos
caracóis
oh mandala dos verbos e dos sentidos.
nublados estão os poemas
na carne sem conceito da melodia.
assassinado artesão dos corações sem ferrugem
amo em desespero os céus prateados
daquelas sinfônicas esperanças.
quantas lágrimas para uivar?
quantos cães ferrados a este osso de testamento?
todos os versos já visitados
digeridos mapas das emoções de pedra
e sonho
e os navios abertos em grito nos horizontes da cor.
o mar alado
sol sol Sol.
sempre dentro dos olhos
o invisível.
taça estúpida da palavra
rimbaud
o desespero branco da eternidade
irrevelável.
 
 
Em 1976, um ano após a pubublicação de seu segundo livro, Afonso Henriques Neto recebe a seguinte crítica de Carlos Drummond de Andrade : “Sua personalidade poética é indiscutível – tanto mais quanto, chegando após duas gerações de poetas de alta qualidade, ela se afirma independente da influência dos grandes que o rodeiam. E é tanto mais curiosa essa personalidade quanto ela se permite ondular entre formas simplesmente modernas de poesia e formas de nítida vanguarda, como a experimentar forças nos dois setores. Por mim, confesso que o experimentalismo vanguardista me importa menos que a dicção livre, a serviço de alguma coisa veemente que exige expressão comovida e comovedora, sem excluir as graças e os luxos do verso belo em si, mesmo quando aparentemente desarticulado.” Por aí vai.
 
 
 
TODA PALAVRA
 
 
língua de segredos, arquitetura de vulcões, sonoridade
em cor profunda, nômades do sentido os batalhões
labiais velares palatais borbulhas,
cachoeiras de bichos enlameados, vapor do signo,
mel noturno de nuvens esmagadas, calendário
translúcido, oceano em lâminas incandescidas, mágica
de pedras escarlates, sol, cabeça do mito,
usina de fábulas, espetáculos, fetos lunares, plantação
de sonhos, murmúrios de constelações, acme
dos mortos a sobrenadar,
luz abstrata, resumo das águas, matemáticas
do vento, história dobrada em si mesma,
estranheza do número, imaginar é verbo infinito,
formigas em fogo, relâmpagos teóricos, nada
se imprime em fátuo papel evanescente, arco tensão,
construção do invisível, sólida estrada.
 
 
 
Nesta semana veremos o corpo crítico à poesia de Afonso Henriques Neto. O escritor Antônio Carlos Villaça, em 1981, disse o seguinte sobre Afonso: “tive um choque, ao ler seus poemas de Ossos do paraíso. Tudo alí é abismo. Fiquei verdadeiramente perturbado com a intensidade da sua poesia, que é de uma autenticidade, de uma verdade total, arrepiante“. Não sei o quanto a resenha crítica mudou daqueles tempos pra cá, mas creio que antes era mais substancial, porém hoje, para um jovem poeta, é tão importante quanto, não importando onde e como. Afonso Henriques, pela qualidade do trabalho, recebeu muitas outras. Isso aí.
 
 
 
 
NÃO SEJA TÃO LITERÁRIO
 
 
não seja tão literário
mas se homero dante a bíblia
são pura literatura
por que não escrever abismos com violinos?
(sei que minha geração
ainda uma vez ironizou
os programas do poder
os discursos literários
romantismos concretismos
panfletarismos cabotinismos
evoé nuvem cigana
saudades cacaso & ana
mais tantos que sonharam
o fim das ditaduras
naqueles roarin’70)
e o consolo paralelo
das construções diamantinas
o la chair est triste, hélas!
et j’ai lu touts les livres
(não resolve
mas me ilumino de imenso)
última oportunidade a um cinquentão
sem poética consistente
mas com tanta vodka pela frente
(se pudéssemos estrangular deus
a branca medicina
tudo tudo
ironia na neblina)
a prosa invadiu de vez a poesia
com música ou sem melodia
o verso não mais recamará ossos
(parcas as parcas
aspérrimos verbos e este ônibus
seco)
corais de luzes dolorosas
navios do princípio do tempo
encalhados nos esqueletos sem fim
(ninguém virá na estrada para
e se vier não há mais jeito
refulgem ruíssimas retinas
o anjo se drogou todo de estrelas)
no fundo fosso a fera engole
a ferida tremenda
e no entanto a vida
entanto o sonho
(virá cantando aleluia pelo atalho
todos desconhecem o mapa mágico
rastro sagrado pedra angular
tudo se esqueceu)
última oportuidade hare
hare
 
 
Antônio Carlos de Brito, ou Cacaso, é um dos meus poetas favoritos. Assim como sua crítica, Cacaso fazia uma poesia muito intressante, uma linguagem bem característica. Cacaso foi amigo de Afonso Henriques Neto, e sobre sua poesia, disse o seguinte: “Mário de Andrade notou, a respeito de Murilo Mendes, que apesar do estilo surrealista, o poeta era carioquíssimo. Algo de análogo se dá com Afonso, que pratica um surrealismo com sotaque… mineiro. Sua imaginação é aérea; sua síntese poética se dá num elevado grau de abstração. A alegoria de Afonso Henriques é fortemente evocativa, uma espécie de inventário de ruínas – familiares, ideológicas, pessoais“. Grande Cacaso!
 
 
 
 
CLARÃO
 
 
e os tambores que soam sendo sombras
dos sorrisos de amor, fogo de outrora,
eis refulgem na cinza desta hora,
luz a corroer a pedra mais escura.
 
ah que esta dor na alma é que perdura
rente ao nojo dos anjos, flama impura,
relâmpago a transmudar-se em poesia,
astro que consola energiza cura.
 
o verso é esta pedra viva, pão
da luz, claro segredo inviolado
a preencher de sonho o que era ausência,
 
muda forma do amor reconquistado
pelo fulgor do coração em fúria
(estrelas bebem deste sumo intato).
 
 
Não que a crítica seja essencial para um poeta ser adorado, porém, para ser lido ela serve muito bem, depois o trabalho é com o leitor. Entretanto vale ressaltar aqui, no caso do nosso homenageado do mês, o que foi dito sobre seu trabalho. Ana Cristina Cesar, minha predileta bem na frente dos outros, disse que “a nova poesia aparece aqui marcada pelo cotidiano, ali por brechtinano rigor. Anticabralina, (…) é antes uma poesia que não se dá ares, que desconfia dos plenos poderes da sua palavra (…), que faz da consciência do distanciamento o seu tema ou o seu tom. (…) No choque entre os poetas, comparece tanto a contenção, a brevidade e o inacabamento (…), como o ‘excesso de palavras’, o derramamento sem pudor de um Afonso Henriques Neto.” Palavra da belíssima.
 

 

 
RADAR DE ELEVADOR
(rápido reflexo de los ’70 en nuestros trópicos)
 
 
primeiro o cheiro
ovos fritos pigarros & zumbidos
sobre a mesa frutas da estação
ouvido pouco atento
lenta circulação o sangue o trânsito
janela trancada da manhã
nenhum cigarro
nenhuma idéia
planos do godard
faxineira no quadro
composição tão caseira
sangue sugado
aranha capitalista
vertigens bêbadas do mar
uau
novos baianos no rádio na porta o jornal
nuvem na cortina entreaberta
abrir janela sobre o caminhão de coca-cola
planos do godard
por favor traz o açucar
ssshih! como é que se pode esquecer?
o senhor me desculpe
a mosca salta do prato emborcado
para o silêncio dos óculos
pijama com nervos expostos
uma água escorre na morte
que não sei estancar
bule de minha mãe de trinta anos atrás
salto de mosca o silêncio
óculos esmagados
sol na faca da manhã
galáxia no ladrilho latido lá fora
longe como um ex-voto
arrastando os pés o verbo o açucar
preciso limpar o aquário
uma simbologia de relâmpagos
não sei lidar com a revolta dos filhos
nem com a paixão da vizinha
peixe morre torto de velhice
mesmo
 
 
 Terminando o que foi dito sobre sua poesia, creio que o relato mais interessante é do pai de Afonso, o poeta Alphonsus de Guimaraes Filho. Grande poeta que será com certeza estudado por aqui, lhe dedicou um poema, que na horizontal, fica assim : Afonso Henriques, meu filho poeta,/poeta de um tempo atônito e triste./Tudo nos fere? tudo nos inquieta?/A luz, que amamos, subsiste./Desmoronam-se mitos? Recriaremos/outros. O Mundo atômico é grito?/De afeto é que povoaremos/com um sonho infinito./Sombras somos no pânico e na vertigem?/Pouco importa. Que nos leve/a luz que vem da origem:/não é ouro, nem breve. Voltamos na terça, que ninguém é de ferro.

 
 
 
 
COMPLETO
 
amor tão completo
que o efêmero reflita o eterno
que o silêncio sonhe a melodia
que os cavalos sejam selvagens
ventanias
 
amor tão completo
que longe o corpo viva perto
que na água adormeça a transparência
que na treva se esclareça
a incandescência
 
amor tão completo
que o gozo fecunde o deserto
que a pele fale pelo que arrepia
que o desejo arda a infinita
poesia
 
 
Afonso ressalta que é preciso tentar assimilar visceralidade com consciência técnica. É ler Homero, Safo, Catulo, Dante, Camões, Shakespeare, Fernando Pessoa, e aqui no Brasil, de acordo com Afonso, ler Gregório de Matos, Gonçalves Dias, Castro Alves, Augusto do Anjos, Alphonsus de Guimaraens, Cruz e Sousa e o modernos, dos quais, levanto em Mário de Andrade e Manuel Bandeira, nossa grande “bandeirante”, já na minha opinião. Listar nomes sempre será injusto, ou causará impactos, pois todos temos nossos sopros, porém, há sopros tão substanciais que mesmo discordando, conduzem muito bem nossa vela.
 
 
 
NÃO EXISTE
 
 
Esta paisagem não existe.
Existiu um dia de tanto sol
que esta paisagem se enfeitou
de infância transparente.
Hoje a fórmula enguiçou.
Subo a rua das notícias mortas
e o pouco do cheiro que restou
de sonho dentro da noite
sobre esse velhos meninos
rola por um sentimento difícil
gesto de agonia espessa
sombra sem possível aurora.
Esta paisagem é a hora
do verbo estagnar-se.
E os sóis vingadores
a arrancarem do futuro
um sangue novo que invada
as trêmulas rochas da morte
são apenas o mesmo rio
esquecido de correr
desesperançado de mar.
Contudo canta canta coração
inventa a luminosa paisagem
personagem sem raiz e chão.
 
 
Afonso tem um texto visceral, um discurso que pontua versos como uma pegada de gigante (assim que me sinto). Vemos aí questões dos anos 60 e 70, influências surrealistas, político sem ser excessivamente engajado, o que é bom, e outras coisas que só lendo e relendo para perceber, eu tenho as minhas, mas creio que apontar características de um poeta é questão pessoal. Afonso é professor da UFF e poeta desde sempre, morador do Cosme Velho que achou sua linguagem desde cedo, pelo menos é o que vi ao longo desde mês.
 
 
 
Reportagem no Futura que fala deste grupo de e-mail, bem legal     http://www.youtube.com/watch?v=ymYDWW2WPzY&feature=channel_page
 
VOCÊ
 
 
as mulheres mais belas
habitam você
fragor do mar nos vulcões do meio-dia
espuma lunar a flutuar
fotografia que o sonho grava no invisível
(você vestida em nuvem violeta, você e um gato
branco de patas azuis, você fugindo nua
pela praia do infinito,
você dançando o som do violino-pensamento,
você de olhos de surpresa com o peixe pulsando nas mãos,
você, você)
aprender você
intacta liberdade
amor é saber leveza
no centro da tempestade
 
 
Das pesquisas que fiz sobre a obra de Afonso Henriques Neto, encontrei muitas vezes relatos de leitores e críticos como “um dos únicos fazendo boa poesia contemporânea“. É uma questão interessante, pois Afonso é de uma geração muito talentosa cujas figuras, hoje, são como ”mitos urbanos”. Poetas emblemáticos, poetas de rua, poetas que se foram ainda jovens, todos misturados, como a cavalaria, o pelotão de frente de um exército, pois se hoje, a minha geração tem essa liberdade toda, para mim, é porque eles deram seu sangue (nossa!). ;-)
 
 
 
 
MUITO ANTIGO
 
 
o doloroso exame da tarde me incendeia
em nebuloso crepúsculo a cuspir luar.
hordas de mortos pelos campos onde branqueia
floração soprada em vago a flutuar.
 
bem quisera das águas ácidas deste mar
beber o sumo de prata dos enluarados
silêncios de bocas, uma a uma, decepadas,
raiva do tempo a chover, a nos entrangular.
 
não há mais quem peça amor nos olhs parados
e das mensagens de bronze regressam navios
com seus cordames de névoa e os velames de lua,
caveiras de sonhos por tombadilhos vazios.
 
Eis que chegamos ao final de mais uma antologia poética. A obra do poeta Afonso Henriques Neto foi nosso objeto de estudo através deste pequeno mergulho. Visceralidade sem perder a compreensão técnica, foi a primeira coisa que ficou. Espero que tenham gostado de sua poesia, ou apenas de ter conhecido. As respostas foram muitas e sempre positivas. Semana que vem entraremos em um novo universo poético, novas proposições, outras influências, outros versos, outros versos.
 
 
MATURANDO
 
 
toda a mágica lenta maturação.
recolha uma rara imagem da infância
e a lance no vôo do tiê-sangue
e da nuvem ao fundo despeje a chuva
sobre um amor antigo
desenho a cantar no barro do tempo
sabor-frêmito de cristal
então forma
poesia
silêncio a se escrever música no aberto.
toda a mágica supõe um céu maravilhado.
a destilação é lenta
sabemos
pois de um jovem perfume
sentir a sombra de um susto
a descoberta da luz em flores mortas
porejar essências quando a surpresa
flutuar abismos
brancos teatros do invisível.
mágicas que são bonecos
narrando o que o poema busca nas fábulas
e nas auroras.

agosto 15, 2009

Jorge de Lima

Jorge Mateus de Lima nasceu em Alagoas no dia 23 de abril de 1893. Foi poeta, médico, político, ensaista, tradutor e pintor. Formou-se médico aos vinte anos na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Começou a escrever poesia parnasiana, aprofundou-se na forma do soneto e depois sobre a temática nativa. Jorge de Lima também é conhecido pela sua catolicidade. Escreveu poemas essencialmente religiosos e, junto com Murilo Mendes, restaurou a Poesia em Cristo. Em quatro semanas, entraremos no universo poético deste poeta brasileiro, em todas as suas fases e algumas polêmicas.
 
 
 
texto “O Conto do Conquistador” no blog http://pedrolago.blogspot.com
 
 
O MUNDO DO MENINO IMPOSSÍVEL
 
 
Fim da tarde, boquinha da noite
com as primeiras estrelas
e os derradeiros sinos.

Entre as estrelas e lá detrás da igreja,
surge a lua cheia
para chorar com os poetas.

E vão dormir as duas coisas novas desse mundo:
                              o sol e os meninos.

Mas ainda vela
o menino impossível
         aí do lado
enquanto todas as crianças mansas
                           dormem
               acalentadas
        por Mãe-negra Noite.
O menino impossível
        que destruiu
  os brinquedos perfeitos
       que os vovós lhe deram:

              o urso de Nürnberg,
         o velho barbado jugoeslavo,
      as poupées de Paris aux
            cheveux crêpés,
        o carrinho português
     feito de folha-de-flandres,
    a caixa de música checoslovaca,
     o polichinelo italiano
               made in England,
  o trem de ferro de U. S. A.
  e o macaco brasileiro
                de Buenos Aires
  moviendo la cola y la cabeza.

    O menino impossível
    que destruiu até
    os soldados de chumbo de Moscou
e furou os olhos de um Papá Noel,
    brinca com sabugos de milho,
                           caixas vazias,
                           tacos de pau,
    pedrinhas brancas do rio…

    “Faz de conta que os sabugos
     são bois…”
     “Faz de conta…”
     “Faz de conta…”

         E os sabugos de milho
mugem como bois de verdade…

    e os tacos que deveriam ser
    soldadinhos de chumbo são
    cangaceiros de chapéus de couro…

  E as pedrinhas balem!
  Coitadinhas das ovelhas mansas
                        longe das mães
   presas nos currais de papelão!

É boquinha da noite
no mundo que o menino impossível
povoou sozinho!

                    A mamãe cochila.
                    O papai cabeceia.
                    O relógio badala.

E vem descendo
       uma noite encantada
               da lâmpada que expira
                    lentamente
               na parede da sala…

      O menino poisa a testa
     e sonha dentro da noite quieta
             da lâmpada apagada
    com o mundo maravilhoso
   que ele tirou do nada…

Xô! Xô! Pavão!
Sai de cima do telhado
Deixa o menino dormir
Seu soninho sossegado!

 

Jorge de Lima é filho do pernambucano José Mateus de Lima e D. Delmina Simões Mateus de Lima. O pai era negociante e senhor de engenho de antiga linhagem local, o menino passou seus primeiros anos, ora na casa-grande, ora no sobradinho português do final do século XIX que havia na cidade. Atrás do sobrado onde nasceu e a poucos quilômetros, fica a Serra da Barriga, onde Zumbi fundou seu famoso quilombo. Jorge andava por essa paisagem bucólica, entre paisagens da Serra da Barriga e a cidade. Jorge disse uma vez que “quando em uma pequena comitiva conheci os interiores da Serra da Barriga, me senti, pela primeira vez, tocado pela poesia”.
 
 
 
 
SONHO DE FARAÓ
 
 
“Trezentos e sessenta e seis mil braços
erigem as pirâmides do Egito,
para que eu, Faraó, vença os espaços,
e através dos espaços o Infinito…
 
E, terminando o meu labor, medito:
Gravei de mim perpetuadores traços.
Hão de cem povos repetir meu grito,
e o mundo inteiro eternizar meus passos.
 
E quando em tebas renascer, Amon,
dobra as cem portas nos sagrados quícios!”
……………………………………………………..
Feliz quem tem o transcendente dom
 
de ter um sonho, – nem que seja um só -
pois tem a chave de ancestrais auspícios,
que abre cem portas como Faraó!
 
Jorge de Lima publicou seus primeiros poemas aos 10 de anos de idade em um jornalzinho do colégio, intitulado O Corifeu. Poemas estes que já haviam sido elaborados desde os 7 anos. Jorge, também compôs um romance nesta idade (!). Já com treze anos, seus poemas começaram a ser publicados em jornais locais de Alagoas. Aos 15, se transfere para Salvador, onde começa o curso de Medicina. Alí começariam as primeiras experiências regionalistas na poesia de Jorge. Aos 18 anos, Jorge se muda para o Rio de Janeiro onde conclui o curso de Medicina. Apenas começando. Este “Primeiro dos Quatorze” pertence a uma série de poemas alexandrinos.
 
 
 
 
O PRIMEIRO DOS QUATORZE
 
 
 
Há muita gente eu sei que não gosta de versos,
Porque… não sei… talvez… porque não queira;
Daí uma asserção de críticos diversos:
Morrerá no Porvir a poesia inteira.
 
Eu me esteio a mim mesmo em pontos controversos:
A Ciência julgada austera e sobranceira
Pousa no fictício os pedestais emersos
Que sustêm uma bíblia eterna e verdadeira.
 
Vêde: a Química conta as moléculas; dita
A Mecânica as leia tendo por base a inércia;
Outros mundos além a Astronomia habita…
 
Se mesmo o positivo é sonho e controvérsia
Nem Porvir, nem ninguém, cousa alguma desliga
A Ciência que sonha e o verso que investiga.
 
Em 1914, Jorge de Lima recebeu o grau de doutor em medicina, depois de defender a tese sobre O Destino Higiênico do Lixo no Rio de Janeiro, recebendo, inclusive, elogios de Afranio Peixoto. O poeta tinha 21 anos. O livro XIV Alexandrinos foi publicado quando ainda era estudante de medicina. Voltou a Maceió onde seguiu na carreira de médico, granjeando prestígio sem par. Curiosamente, em 1919, foi eleito deputado estadual no mesmo estado. Não parou por aí, dois anos depois, tornou-se por concurso, professor catedrático da Escola Normal de Alagoas, na cadeira de História Natural e Higiene Escolar. Publicou seu primeiro livro de ensaios A Comédia dos Erros em 1923. Este é seu famoso poema que o tornou conhecido.
 
 
texto “Sensibilidade” no blog http://pedrolago.blogspot.com
 
 
O ACENDEDOR DE LAMPIÕES
 
 
Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!
 
Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.
 
Triste ironia atroz que o senso humano irrita: -
Ele que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.
 
Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade,
Como este acendedor de lampiões da rua!
 
Em 1925, Jorge de Lima casa-se com D. Ádila Alves de Lima, de tradicional família gaúcha. O casamento foi em Belém. Há uma quetão interessante que pede uma discussão depois: Jorge, nesta época, adere ao Modernismo. Começa a ecrever poemas livres, publica em folhetos e decepciona muita gente que já o considerava “o príncipe dos poetas alagoanos”. Sua experiência com o coloquialismo se deu acolhendo formas da infância e da região de alagoas. Jorge depois afirmaria não ter participado do modernismo como movimento, o que entraremos depois. Seus poemas “regionais” o tornam mais conhecido, sobretudo com o poema Essa Negra Fulô.
 
 
 
 
 
DOMÍNIO RÉGIO
 
 
Investiguei a Grécia em Platão e em Homero,
Vi Sócrates beber a taça de cicuta…
Depois passei a Roma e analisei de Nero
Na boca de Petrônio essa face corrupta.
 
Conheci Santo Anselmo e São Tomás, Lutero,
Estudei de Voltaire a inteligência arguta
E finalmente andei como se fosse Asvero
Pela Ciência e a História em requintada luta…
 
Mas a Arte é que me impõe o seu domínio régio
E é por isso que adoro a mão de Tintoretto
E a sublime palheta e o pincel de Correggio…
 
E é por isso que eu amo o verso alexandrino
E burilo, Mulher, este pobre soneto
Inspirado a pensar em teu perfil divino.
 
Em 1928, Jorge de Lima publica em edição limitada da Casa Trigueiros de Maceió, Essa Negra Fulô, a primeira grande manifestação conforme à nova tendência poética, já completamente inclinado ao modernismo e na busca por uma identidade brasileira. Anos depois, Jorge afirmara que não participara do movimento, embora o apoiasse desde o início. “é aquilo que os rapazes de São Paulo faziam era o que nós do Norte também achávamos que precisava ser feito”. Jorge não sabia o que queria, porém, sabia o que não queria e como “todos agiam por si” não participou do movimento. A renovação é algo biológico e Jorge de Lima não gostava de Marinetti.
 
 
texto Os Livros no blog http://pedrolago.blogspot.com
 
 
ESSA NEGRA FULÔ
 
 
 
 
Ora, se deu que chegou
(isso já faz muito tempo)
no bangüê dum meu avô
uma negra bonitinha,
chamada negra Fulô.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
— Vai forrar a minha cama
pentear os meus cabelos,
vem ajudar a tirar
a minha roupa, Fulô!

Essa negra Fulô!

Essa negrinha Fulô!
ficou logo pra mucama
pra vigiar a Sinhá,
pra engomar pro Sinhô!

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
vem me ajudar, ó Fulô,
vem abanar o meu corpo
que eu estou suada, Fulô!
vem coçar minha coceira,
vem me catar cafuné,
vem balançar minha rede,
vem me contar uma história,
que eu estou com sono, Fulô!

Essa negra Fulô!

“Era um dia uma princesa
que vivia num castelo
que possuía um vestido
com os peixinhos do mar.
Entrou na perna dum pato
saiu na perna dum pinto
o Rei-Sinhô me mandou
que vos contasse mais cinco”.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Vai botar para dormir
esses meninos, Fulô!
“minha mãe me penteou
minha madrasta me enterrou
pelos figos da figueira
que o Sabiá beliscou”.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá
Chamando a negra Fulô!)
Cadê meu frasco de cheiro
Que teu Sinhô me mandou?
— Ah! Foi você que roubou!
Ah! Foi você que roubou!

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

O Sinhô foi ver a negra
levar couro do feitor.
A negra tirou a roupa,
O Sinhô disse: Fulô!
(A vista se escureceu
que nem a negra Fulô).

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê meu lenço de rendas,
Cadê meu cinto, meu broche,
Cadê o meu terço de ouro
que teu Sinhô me mandou?
Ah! foi você que roubou!
Ah! foi você que roubou!

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

O Sinhô foi açoitar
sozinho a negra Fulô.
A negra tirou a saia
e tirou o cabeção,
de dentro dêle pulou
nuinha a negra Fulô.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê, cadê teu Sinhô
que Nosso Senhor me mandou?
Ah! Foi você que roubou,
foi você, negra fulô?

Essa negra Fulô!

 

Jorge de Lima achava que Proust e Pirandello influenciaram muito mais os modernistas do que os notórios Apollinaire, Max Jacob e Marinetti. Ainda acha que Freud e Einstein foram também figuras fundamentais. Dizia que depois do modernismo, o relativo passou a preponderar sobre o definitivo, isto se dá pela fragmentação dos personagens de Proust, caso de Swann e outros que têm suas trajetórias mudadas durante toda a obra. Aqui, Menino de Engenho de José Lins do Rêgo, que dá mais importância à memórias da infância, já sob influência proustiana. Mais sobre isso ainda.
 
 
 
 
 
SERRA DA BARRIGA
 
 
Serra da Barriga!
Barriga de negra-mina!
As outras montanhas se cobrem de neve,
de noiva, de nuvem, de verde!
E tu, de Loanda, de panos-da-costa,
de argolas, de contas, de quilombos!
 
Serra da Barriga!
Te vejo da casa em que nasci.
Que medo danado de negro fujão!
 
Serra da Barriga, buchuda, redonda,
de jeito de mama, de anca, de ventre de negra!
Mundaú te lambeu! Mundaú te lambeu!
Cadê teus bumbuns, teus sambas, teus jongos?
Serra da Barriga,
Serra da Barriga, as tuas noites de mandinga,
cheirando a maconha, cheirando a liamba?
Os teus meio-dias: tibum nos peraus!
Tibum nas lagoas!
 
Pixains que saem secos, cobrindo
sovacos de sucupira,
barrigas de baraúna!
Mundaú te lambeu! Mundaú te lambeu!
De noite: tantãs, curros-curros
e bumbas, batuques e baques!
E bumbas!
E cucas: ô ô!
E bantos: ê ê
Aqui não há cangas, nem troncos, nem banzos!
Aqui é Zumbi!
Barriga da África! Serra da minha terra!
Te vejo bulindo, mexendo, gozando Zumbi!
Depois, minha serra, tu desabando, caindo,
levando nos braços Zumbi!
 
A questão da multiplicidade de personalidades é fato marcante na poesia brasileira após o modernismo. Fato este apontado por Jorge de Lima, que já citava João Cabral, seu amigo Murilo Mendes e, claro, do “trezentos” Mario de Andrade neste ponto. Jorge também aponta uma “saturação russa” nesta época, ora, é alí, no fim do século XIX que Tchekov reinou no teatro russo e, depois, Gorki no início do século XX, e claro, os poemas proletários, a identidade soviética, as proposições comunistas, fizeram com que surgisse também os romances revolucionários, figuras essencialmente fortes de ideologia e consequentemente, estas influências também se deram aqui.
 
 
texto “A Gruta” no blog http://pedrolago.blogspot.com
 
 
DIABO BRASILEIRO
 
 
Enxofre, botijas, galinha preta!
Credo em cruz, capeta, pé-de-pato!
Diabo brasileiro, dente-de-ouro, botija, onde está?
Credo, capeta, pé-de-pato!
Diabo brasileiro quero saber quando dá
a dezena do carneiro?
Enxofre, botija, galinha preta!
Credo em cruz, capeta, pé-de-pato!
Capeta, dente-de-ouro, tome galinha preta,
quero dormir com a Zefa!
Capeta, bode preto, quero dormir com a Zefa!
Capeta, diabo brasileiro, só lhe dou galinha preta!
Capeta, quero casar com a Zefa, quero que Sêo Vigário
me case logo com a Zefa!
Capeta, tome galinha preta!
Capeta, diabo brasileiro, quando dá
a centena do macaco?
Quero quebrar banqueiro, capeta danado, pé-de-pato,
dente-de-ouro, cheiro de enxofre, tome galinha preta!
Capeta, pé-de-pato, quero acertar com o bicho,
quero comprar gravata, botina de bico fino,
terno de casimira pra quando a Zefa me ver!
Capeta, pé-de-pato, tome galinha preta!

Capeta, pé-de-pato, dente-de-ouro, quero dente de ouro,
quero capa de borracha, punho engomado, camisa,
bengala castão de ouro, capeta, pé-de-pato,
tome galinha-preta!
Quero saber suas partes, suas sabedorias,
quero saber mandingas,
capeta, pé-de-pato, tome galinha preta,
que eu quero quebrar banqueiro, que eu quero tirar botija,
que eu não quero trabalhar, que eu também sou brasileiro!

Capeta, tome galinha preta,
que eu quero saber embolada,
quero saber martelo, quero ser um cantador,
capeta, quero dizer à Zefa essa quentura de amor!
Capeta, tome galinha preta, que eu quero casar com a Zefa.
Por Deus, que eu quero, capeta, pé-de-pato!
Tome galinha preta!
 

Em 1944, Jorge de Lima é recusado pela primeira vez à Academia Brasileira de Letras. Perguntado pelos motivos que o levaram a querer entrar na instituição disse que “ela representa uma tradição, uma fundação que dispõe das maiores garantias de perpetuidade“, acho incrível este relato, visto que a Academia o recusou mais cinco vezes além desta, e hoje, 65 anos depois, abraça nomes como José Sarney e Paulo Coelho. Jorge ainda disse que “é o nosso maior núcleo intelectual digno de receber sumidades do panorama mundial de esquerda ou de direita“. Isso aí.
 
 
 
 
NORDESTE
 
 
Nordeste, terra de São Sol!
Irmã enchente, vamos dar graças a Nosso Senhor,
que a minha madrasta Sêca torrou seus anjinhos
para os comer.
São Tomé passou por aqui?
Passou, sim senhor!
Pajeú! Pajeú!
Vamos lavar Pedra Bonita, meus irmãos,
com o sangue de mil meninos, amém!
D. Sebastião ressuscitou!
S. Tomé passou por aqui?
Passou, sim senhor.
Terra de Deus! Terra de minha bisavó
que dançou uma valsa com D. Pedro II.
São Tomé passou por aqui?
Tranca a porta, gente, Cabeleira aí vem!
Sertão! Pedra Bonita!
Tragam uma viagem para D. Lampião!
 
Após 1932, Jorge de Lima sente-se insatisfeito com o caminho que percorrera e procura novas fontes. Volta a um tipo de poesia que fazia ainda jovem, inclinada ao místico. Acreditava que para chegar ao “nível mais alto, na mais alta verdade, a poesia deveria se restaurar em Cristo“. Então, junto com o poeta Murilo Mendes, Jorge de Lima publica um série de poemas intitulados Poesia em Cristo. Dizia que “era o menino voltando ao homem, pois lembro até de uma frase do Machado que diz “o menino é o pai do homem”, portanto, este sempre foi meu caminho natural“. Esta escolha fez com que sofresse muitos ataques da intelectualidade e, dizem que contribuiu para que não entrasse na Academia.
 
 
 
 
 
O FILHO PRÓDIGO
 
 
Nas engrenagens das fábricas
bolem como vermes – dedos decepados de operários.
Há vaivéns do correame das oficinas.
A cor e a alegria das moças empregadas
dissolvem-se na algazarra monótona dos teares.
O avião comeu a saudade das mães
que a distância separou dos filhos vagabundos.
Há máquinas que cegam os adolescentes
ansiosos de ver o progresso do mundo.
 
Um homem teve medo de enlouquecer
perseguido pela força e pelo orgulho
das máquinas assassinas.
 
Cadê a luz trêmula de vela
pra alumiar o meu poema antigo?
O lirismo perdeu a sua liturgia.
 
As lâmpadas Osram velam funebremente a poesia.
Ah! que existe uma tristeza na terra
que nem lágrimas produz
de sua esterilidade tão seca.
 
Eu sou um corpo distraído.
 
Bóiam os meus olhos pelas superfícies.
Mas os meus olhos correm mais perigo
do que se andassem em acrobacias contemplativas
pulando no céu alto, perto das estrelas.
 
Vovózinha, venho de longe,
ando há muitos séculos à pé.
 
Ensina-me de novo a ficar de joelhos,
que já é tarde e eu quero me deitar.
 
Em 1952, Jorge de Lima publica Invenção de Orfeu, poema de 11.000 versos entre 10 cantos exatamente como em Os Lusíadas, a grande inspiração. Invenção de Orfeu, como o próprio Jorge disse “é a modernização da epopéia”. Com aspectos de sua infância até suas impressões do Brasil contemporâneo, Invenção de Orfeu é o nosso Lusíadas sim, muito lido e discutido quando publicado e esquecido hoje. Nesta semana, somente versos desta magnânime obra de Jorge de Lima.
 
 
texto “Livrarias e Museus” no blog http://pedrolago.blogspot.com
 
 
FUNDAÇÃO DA ILHA
 
Um barão assinalado
sem brasão, sem gume e fama
cumpre apenas o seu fado:
amar, louvar sua dama,
dia e noite navegar,
que é de aquém e de além-mar
a ilha que busca e amor que ama.
 
Nobre apenas de memórias,
vai lembrado de seus dias,
dias que são as histórias,
histórias que são porfias
de passados e futuros,
naufrágios e outros apuros,
descobertas e alegrias.
 
Alegrias descobertas
ou mesmo achadas, lá vão
a todas as naus alertas
de vária mastreação,
mastros que apontam caminhos
a países de outros vinhos.
Esta é a ébria embarcação.
 
Barão ébrio, mas barão,
de manchas condecorado;
entre o amor, o céu e o chão
fala sem ser escutado
a peixes, homens e aves
bocas e bicos, com chaves
e ele sem chaves na mão.
 
Jorge de Lima define seu Invenção de Orfeu, desta forma:”A idéia central é a epopéia do poeta olhado como herói diante das vicissitudes do mundo através do tempo e do espaço. O drama da Queda. Sem a Queda não haveria história. O poema é um momento da eternidade perdida que o poeta procura conquistar. E todo esse despojamento do espaço, tempo e corpo tende para a concepção do puro espírito capaz de sentir a tragédia da Queda e compreender a tragédia do mundo. O poeta é seu herói.”
 
 
 
 
 
 
SUBSOLO E SUPERSOLO
 
 
 
 
É preciso falar-se das criaturas,
verdadeiras criaturas animadas,
das vivências totais, arbítrio e tudo,
alma, corpo funesto e essa imortal
 
perpetuidade além, Deus nas alturas,
nomes de terra e nomes eternados,
anjos, demônios, sonhos acordados
e as profecias, fúrias, posses, tudo
 
que um poema pode ter: esse clamor,
essa indefinição, esses apelos,
- sonho de rei Nabucodonosor,
 
que depois de refeito e decifrado
é a condição do bicho: carne, pêlos,
e sangue breve do homem desgraçado.
 
Entre os intelectuais e artistas de outros tempos, não tão distantes assim, a catolicidade era apenas uma opção. Figuras importantes para a cultura nacional como Alceu Amoroso Lima, um dos fundadores da PUC, por exemplo, ou Dom Helder Câmara, Padre Leonel Franca, tido como homem muito inteligente, compunham a intelectualidade nacional com grande destaque e respeito. Hoje, os religiosos convictos e atuantes são outros, são vistos como lunáticos ou de caráter duvidoso, sem entrar em quaisquer dogmas. Jorge de Lima foi um desses respeitados e, ao lado de Murilo Mendes, publicou poemas católicos belíssimos, que como diz o João José de Melo Franco, “onde mais alto foi em sua poesia.”
 
 
 
 
POEMAS RELATIVOS VII
 
 
Alegria achareis neste meu poema
como poema lícito, como um
corpo casual ou vão, como a memória
dura e acídula, como um homem se
 
conhece respirando, ou como quando
se entristece sem causa ou se doendo,
ou se lavando sempre ou comparando-se
às dimensões das coisas relativas;
 
ou como sente os membros de seu ser,
transmitidos e opacos, e os avós
responsabilizando-se presentes.
 
São alegrias rápidas. Lugares,
reencontrados países, becos, passos
sob as chuvas que não vos molharão.
 
 
Invenção de Orfeu tem dez cantos. Tem que ser lido, inclusive, montado teatralmente. Há uma antiga edição da Nova Aguilar, a conhecida Obra Completa, em papel de bíblia, pois não conheço outro nome para essa gramatura, onde há, obviamente, a magnânime obra que o poeta chama apenas de poema. De modo que não há como sintetizar aqui a coisa toda, mas é um prazer imenso, algo esquecido pelas gerações atuais, sobretudo a minha. Jorge de Lima não é poeta para o colégio, é para sempre. Rasgados elogios veem de um sentimento bonito. Isso aí.
 
 
texto O Índio no blog http://pedrolago.blogspot.com
 
 
O CANTO DA DESPARIÇÃO
 
 
Aqui é o fim do mundo, aqui é o fim do mundo
em que até aves vêm cantar para encerrá-lo.
Em cada poço, dorme um cadáver, no fundo,
e nos vastos areais – ossadas de cavalo.
 
Entre as aves do céu: igual carnificina:
se dormires cansado, à face do deserto,
quando acordares hás de te assustar. Por certo,
corvos te espreitarão sobre cada colina.
 
E, se entoas teu canto a essas aves (teu canto
que é debaixo dos céus, a mais triste canção),
vem das aves a voz repetindo teu pranto.
 
E, entre teu angustiado e surpreendido espanto,
tangê-las-ás de ti, de ti mesmo, em que estão
êsses corvos fatais. E êsses corvos não vão.
 
Vi recentemente um vídeo na internet com jovens poetas contemporâneos e publicados, darem suas impressões sobre a poesia. Um deles disse que “poesia não serve pra nada“, ou “ninguém lê, só poetas mesmo“. Este tipo de comentário não é novo, sempre há poetas que dizem que “poemas não foram feitos para serem lidos” e coisas antagônicas e irresponsáveis dessa natureza. Gosto do que o Jorge de Lima diz “a poesia aproxima constantemente os povos, separados pelas guerras, pela política, pelos regimes, pelos ódios, que são cordilheiras mais difíceis de transpor do que as comuns cordilheiras e as grandes serras que separam os povos da América do Sul”. Há poetas e poetas, felizmente.
 
 
 
 
 
MISSÃO E PROMISSÃO XIV
 
 
 
Pra conhecer a calma que há na vida
isolemo-nos dentro desses frutos.
Que doçura perene nesses sumos
de cavilosos ácidos despidos!
 
Os pomares repousam nesses úteros
de rubis, ó maçã redescoberta;
repouso no teu seio como um púero
pois nesses fins de tempo sou um certo
 
cavaleiro chamado Adão segundo
flagelado de quedas, e barão
de azorragues de fogo assinalado;
 
que deseja na beira desses mundos
dormir nas frondes que amanhã virão,
dormir já morto nos futuros pomos.
 
Foi sem o poema, voltando. Gilberto Freyre levanta a questão de um movimento essencialmente nordestino na literatura brasileira “o poeta leva sem nenhum rancor nem ranger de dentes o cristianismo para o campo específico das relações fraternais dos brancos com os povos de cor. Daí me parecer que precisamente nessa zona de expressão literária e ética é que o Brasil merece receber um desses dias o Prêmio Nobel, pela mão de algum dos seus poetas ou romancistas.” Assim o disse o criador de Casa Grande e Senzala.
 
 
 
texto Nayana no blog http://pedrolago.blogspot.com
 
 
OBAMBÁ É BATIZADO
 
 
Pela fé de zambi te digo:
Obambá é batizado, confirmado, cruzado e coroado.
Dá licença meu pai?
Licença venha
para os alufás de babalau.
Licença tem
o Babá de Olubá.
Licença tem.
 
Licença têm
cacuriqués, cacuricás.
Licença têm.
 
Licença tem
babalaô, babalaô.
Licença tem.
Na fé de Zambi te digo:
Obambá é batizado, confirmado e coroado.
Oxóssi está reinando: dá pra ele.
Dá pra o pai-de-sala, dá pra ele.
Ó ocaia dá pra ele.
 
Na fé de Zambi te digo:
Te vira em meu sangue.
Obambá é batizado, confirmado e coroado.
Dá licença meu pai?
Licença venha para outros bacuros.
 
Ó ocaiá dá pra ele.
Dá licença meu pai?
Ó ocaiá, me deixa só com meu santo,
me deixa só,
me deixa só,
dá pra ele
que Obambá é batizado, confirmado, cruzado e coroado.
Ôxóssi está reinando: dá pra ele.
 
O Livro de Sonetos de Jorge de Lima é um dos pontos altos de sua obra. Assim como Invenção de Orfeu, o poeta aqui, chega a seu “limite” digamos assim, com sonetos que se pertencem e se voltam para o Divino, o Sublime, e a própria poesia, sua poesia. Fausto Cunha julgou ter sido o maior acontecimento de 1949. Há alí a qualidade do grande poeta, do grande sonetista. Vale lembrar que Jorge de Lima havia abandonado o soneto há bastante tempo e, nesta obra, retorna com todas as forças.
 
 
 
 
LIVRO DE SONETOS
 
 
E são setas no céu (Ó sagitário).
Versos brotam de mim. Depois de lidos
os distribuo por um destino vário,
depondo em seus percursos meus sentidos.
 
Exijo que eles sejam meu sudário.
Reconheço-me: aqui os meus gemidos,
e ali esse vulcão desnecessário,
jogando lava em todos os sentidos.
 
Que chegar de presenças! Que contágio!
Que pajens anunciados e banidos!
Nos bosques sugeridos – que presságio!
 
Perscruto-me nos verbos nunca ouvidos,
apenas pressentidos ou passados.
Ó bosque êrmo de pássaros calados!
 
Após algumas complicações e prolongada enfermidade, Jorge de Lima morre na Capital Federal no dia 15 de novembro de 1953. Um ano antes, Jorge fora eleito o primeiro presidente da recém fundada Sociedade Carioca de Escritores (SOCE). Não faltariam relatos enaltecendo sua importância, sobretudo após sua história com a Academia Brasileira de Letras. Seis vezes recusado. Mario Faustino disse que “Jorge foi o mais alto, o mais vasto, o mais importante e o mais original poetas brasileiro de todos os tempos“, ou o Ítalo Moriconi, que disse “Quem os conhece, mesmo quando os amam, como é o meu caso, hesitam em substituir um daqueles quatro por esses dois”. Rerefindo-se primeiramente a Jorge de Lima e Murilo Mendes, e depois, a Bandeira, Drummond, Cabral e Quintana. Enfim, tudo é muito relativo e pessoal, ainda bem. 
 
 
 
 
BÔBO
 
Estou comparecendo,
ó senhores que pensais
que eu sou bôbo também.
Pois sou.
Basta olhardes estas cinzas
que me cobrem o rosto,
e estes punhos em amaranto,
e este colarinho que me empata as palavras,
e estas mãos como estrelas de barro.
Tudo é um fingimento claro
por mais que mude a voz
e oculte o guarda-chuva
por detrás desta armadura baça.
Também há um rasgão nesta púrpura sovada
que já perdeu o orgulho e os brasões.
Se chegardes lume aos mulambos da blusa,
eis que o coração abrasado de medo
poderá ficar enxuto de prantos
e abrir-se diante de vosso contentamento.
O mais nada vale como disfarce de mim.
Sou transparente,
e o timbre de minha voz repercute sombrio
como de uma abóbada afogada.
Sem faróis e sem brilho
grito: não me atropeleis que eu sou turba.
Escutai:
há vários carnavais chorando neste poema
e em cada gesto vago que eu faço,
fingindo ser rei-do-mundo.
Mas para vós sou infelizmente – palhaço.
 
 
Eis que chegamos ao final de mais uma antologia poética. Espero que tenham gostado de penetrar na obra de um dos maiores poetas brasileiros. Jorge de Lima, o poeta católico, o poeta regionalista, o poeta que escreveu Invenção de Orfeu, o poeta que foi recusado seis vezes na Academia, o poeta médico, o poeta vereador, o poeta alagoano, o poeta “negra fulô”. Semana que vem, entraremos em outro universo poético, que em quatro semanas, tentaremos dar um mergulho mais detalhado na obra e na vida, revivendo assim, partes da poesia brasileira.
 
 
texto “Maresia” sobre duas mamães no Arpoador no blog  http://pedrolago.blogspot.com
 
 
 
ERA O OLVIDO
 
 
Com o olvido vão as andorinhas
(quando outra voz como a sombra move
sua distância desfolhada em neve)
as tôrres da alma, peregrinas.
 
Pairam sobre os ventos como ruínas;
e àvidamente a soluçar se atreve
esta faixa de névoa que tão breve,
morre e nasce em ti, se em mim te inclinas
 
Já não querem o olvido nem sua pista;
nem seus muros de ausentes mariposas
errando como dunas ou faisca.
 
Nem sequer seu antigo labirinto;
que em ti minha vida acaba entre as cousas
por um lírio arroxeado e um jacinto.
 
 

julho 18, 2009

Poetas tradutores

Vamos dar início a uma antologia diferente das que estamos acostumados. Neste mês homenagearemos o poetas tradutores. Traduzir poesia é tarefa árdua. Não há como algo não mudar, uma palavra, um sentido, uma letra que for. De modo que o poema traduzido, de certa forma, passa a pertencer também ao poeta. Digo poeta, pois, há tradutores formidáveis, mas aqui, veremos a visão de alguns poetas com os objetos estudados e ver no que dá. Paulo Mendes Campos foi um deles, para mim, um dos maiores poetas brasileiros, eis então sua proposições de tradução, a começar pelo grande T.S Eliot, americanos de St. Louis, mas londrino de coração e opção. Foi certamente um dos mais importants poetas do século XX, opinião de 10 entre 10 poetas. Posso dizer com toda segurança que Eliot é descoberta de Ezra Pound. Eliot, ganhou o prêmio Nobel de literatura em 1948. Eliot tem que ser lido, pelo menos, uma vez por ano.
 
 
 
 
O HIPOPÓTAMO
tradução de
Paulo Mendes Campos
 
 
 
O espesso hipopótamo dorme
com sua barriga no mangue;
pareça embora firme, enorme,
não é senão de carne e sangue.
  
A carne fraca, o sangue ralo,
podem causar choques nervosos;
A Igreja não sofre abalo
porque de funda em chãos rochosos.
  
Fraco, o hipo pode perder-se
ao procurar seus pavimentos,
mas a Igreja, sem mexer-se,
pode colher seus rendimentos.
  
Não pode o pótamo se alçar
até a manga da mangueira;
romãs, pêssegos de além-mar,
sabem à Mestra verdadeira.
  
Amando, o hipo tem na voz
roncos grotescos e plebeus;
aos domingos ouvimos nós
a Igreja juntar-se a Deus.
  
O hipo dorme a tarde inteira,
durante a noite sai à caça;
pode a Igreja verdadeira
dormir e se nutrir de graça.
  
Vi o pótamo, asas ganhando,
voar acima das savanas,
em torno os anjos entoando,
para a glória de Deus, hosanas.
  
No Céu, no sangue do Cordeiro,
suas manchas serão lavadas;
por entre os mártires, fagueiro,
irá tocar harpas douradas.
  
E terá, limpo, da brancura
da neve, o beijo virginal;
embaixo a Igreja perdura
na velha marema letal.
 
 
 
Federico Garcia Lorca é o maior autor espanhol desde Cervantes. Tudo bem, pode-se dizer isso numa boa, sem exagero, pois ele foi e é. Garcia Lorca é daqueles foi daqueles autores imensos; poesia, teatro, prosa, pintura, pianista e abre-alas para o sublime. Sim, para o sublime. Garcia Lorca é o lirismo delicado quando fala da Espanha, da natureza, das mulheres, e pode ser utópico e verdadeiro quando fala dos horrores da guerra civil, da qual, foi vítima. Ficar dizendo que é um dos maiores do século XX é ser pleonástico ao quadrado, digo apenas que tem que ser lido, sempre, pois Federico, teto de Vinicius, é tudo aquilo que um poeta deseja de sutileza, pelo menos para mim.
 
 
 
 
DE “MARIANA PINEDA”
tradução de
Paulo Mendes Campos
 
 
Na tourada mais bonita
que se viu em Ronda, a velha.
Cinco touros de azeviche
com divisa verde e negra
Eu pensava sempre em ti;
eu pensava: Se comigo
estivesse minha triste
amiga Marianita,
Marianita Pineda!
As moças vinham gitando
em caleças coloridas
com abaninhos redondos
bordados de lantejoulas.
Também os moços e Ronda
em cavalinhos faceiros,
os amplos chapéus cinzentos
colados nas sombrancelhas.
A praça com povaréu
(chapéus baixos, altos pentes)
girava como um zodíaco
de risos brancos e negros.
Quando o grande Caetano,
pisando em palhas de areia,
atravessou a arena
com traje cor de maçã
bordado de prata e seda,
destacando-se Galhardo
entre os sujeitos de briga
frente os touros traiçoeiros
que cria a terra de Espanha,
parecia que a tarde
se botava mais morena.
Ah, se visses com que graça
se virava com as pernas!
Que grande equilíbrio o seu
com a capa e a muleta!
Melhor nem Pedro Romero
a tourear as estrelas!
Cinco touros matou; cinco,
com divisa verde e negra.
Na ponta de seu estoque
cinco flores pôs abertas
e a cada instante roçava
pelos focinhos das feras
como imensa borboleta
de ouro com asas vermelhas.
A praça, tal qual a tarde,
vibrava forte, violenta,
e entre o aroma do sangue
ia o aroma da serra.
Eu pensava sempre em ti;
estivesse minha triste
amiga Marianita,
Marianita Pineda!
 
 
 
Wilhem Apollinaris de Kostrowitzky, ou Guillaume Apollinaire, foi o único poeta “cubista”. Amigo e influenciador de Picasso, foi a figura mais interessante daquela efervescência vanguardista do início do século XX. Lider intelectual, crítico de arte, crítico literário, fez manifestos, jornalismo e muita poesia. Uma vez disse que “os grandes poetas e os grandes artistas têm como função social renovar sem cessar o aspecto que adquire a natureza aos olhos dos homens”. Esteve envolvido no roubo da Monalisa, foi muito lido por Pound, sobretudo em seus poemas caligramas, esquentou o clima em diversas áreas em que esteve. Nosso Mário de Andrade também foi outro que bebeu muito em Apollinaire. Esse eu queria ter conhecido. Liberdade para as palavras, é disso que se trata.
 
 
 
 
 
A BONITA RUIVA
tradução
Paulo Mendes Campos
 
 
Eis-me aqui diante de todos um homem cheio de sentido
Conhecendo da vida e da morte o que um vivo pode conhecer
Tendo provado as mágoas e as alegrias do amor
Algumas vezes tendo sabido impor suas idéias
Conhecendo diversas línguas
Tendo viajado um pouco
Visto a guerra na Artilharia e na Infantaria
Ferido na cabeça trepanado sob clorofórmio
Tendo perdido seus melhores amigos na pavorosa luta
Sei do antigo e do novo tanto quanto um homem só poderia saber
 
E sem preocupar-me no dia de hoje com esta guerra
Entre nós e para nós meus amigos
Julgo essa longa querela entre a tradição e a invenção
      Entre a Ordem e a Aventura
 
Você cuja boca foi feita à imagem da boca de Deus
Boca que é a própria ordem
Seja indulgente ao comparar-nos
Aos que foram a perfeição da ordem
Nós que por toda parte buscamos a aventura
Não somos inimigos
Queremos obter vastos e estranhos domínios
Onde o mistério se oferece a quem deseja colhê-lo
Aí existem chamas novas e cores jamais vistas
Mil fantasmas imponderáveis
Aos quais é preciso dar realidade
Queremos explorar a bondade enorme país onde tudo se cala
 
Existe ainda o tempo que se pode expulsar ou trazer de volta
Piedade para nós que sempre combatemos nas fronteiras
Do ilimitado e do futuro
Piedade para os nossos erros piedade para os nossos pecados
Eis de volta o verão a estação violenta
E a minha juventude está morta como a primavera
Ó sol eis o tempo da Razão ardente
 
       E espero
Para segui-la sempre a forma nobre e doce
Que ela assume a fim de que eu a ame exclusivamente
       E tem a aparência encantadora
       de uma ruiva adorável
 
Seus cabelos são de ouro dir-se-ia
Um bonito relâmpago que perdurasse
Ou a palavra destas chamas
Na rosa-chá que se fana
 
Mas riam riam de mim
Homens de todos os lugares gente daqui sobretudo
Porque há tantas coisas que não ouso dizer-lhes
Tantas coisas que vocês não me deixariam dizer
Piedade de mim.
 
 
 
Edward Estlin Cummings, ou simplesmente E.E. Cummings foi um poeta norte-americano de Massachusetts. Nasceu em 1894 e morreu em 1962. Muito conhecido nos EUA, é tido, como consta, como grande poeta e voz literária do século XX. Nele podemos encontrar experimentações linguísticas, questões relacionadas à maiúsculas e minúsculas, formas não ortodoxas (que hoje não seriam novidade, mas na época foram mal vistas pelos “puritanos” da língua) e também pela sua postura irônica diante a contemporaneidade literária, uma vez disse que “Se o poeta é alguém, ele é alguém para quem as coisas feitas importam muito pouco – alguém que é obcecado pelo Fazer. Como todas as obsessões, a obsessão de Fazer tem desvantagens; por exemplo, meu único interesse em fazer dinheiro seria fazê-lo. Mas felizmente eu preferiria fazer quase tudo o mais, inclusive locomotivas e rosas. É com rosas e locomotivas (para não mencionar acrobatas primavera eletricidade Coney Island o 4 de Julho os olhos dos camundongos e as Cataratas do Niágara) que meus “poemas” competem.”
 
 
 
 
ONDE JAMAIS VIAJEI
tradução de
Paulo Mendes Campos
 
 
 
onde jamais viajei, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o silêncio deles;
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram
ou que não posso por perto demais tocar…
 
o teu mais leve olhar facilmente me descerra
embora como os dedos eu me tenha cerrado.
sempre me abres pétala por pétala como a primavera
abre (tocando-a jeitosa, misteriosamente) sua primeira rosa
 
ou, se te aprouvesse encerrar-me, eu
e minha vida nos fecharíamos em beleza, subitamente,
como quando o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente por todo lado a tombar;
 
nada do que nos é dado a perceber neste mundo se iguala
ao poder da tua imensa fragilidade: cuja textura
me compele com a cor das suas pátrias,
que me cedem a morte e o sem fim a cada alento
 
(não sei o que vai em ti que se fecha
e se entreabre; apenas alguma coisa em mim entende
que a voz dos teus olhos é mais funda que as rosas todas)
e ninguém, nem mesmo a chuva, tem as mãos assim tão pequenas
 
 
 
O motivo pelo qual Paulo Mendes Campos veio para o Rio de Janeiro e aqui ficou a vida inteira, foi conhecer o poeta chileno Pablo Neruda, que visitava o país. Isso ele conta em relatos escritos e registros de áudio. Pablo Neruda, que era canceriano, também era diplomata. Foi um poeta lírico por essência e, por que não, por excelência. Assim com Lorca, dizer que Neruda foi dos mais importantes poetas da língua castelhana é lugar comum desde que era vivo, mas enfim, falamos de novo e de novo se preciso, pois é assim que as gerações novas chegam aos poetas eternos. Com esta dobradinha, terminamos as traduções do Paulo, semana que vem, outras apropriações poéticas e algumas surpresas. Voilá!
  
  
  
texto “Asas Frágeis” no blog  http://pedrolago.blogspot.com
 
 
 
 
CAVALEIRO SOLITÁRIO
tradução
Paulo Mendes Campos
 
 
Os jovens homossexuais e as moças amorosas,
e as longas viúvas que sofrem a delirante insônia,
e as jovens senhoras emprenhadas faz trinta horas,
e os gatos roucos que cruzam meu jardim em trevas,
como um colar de palpitante ostras sexuais
rodeiam minha residência solitária,
como inimigos estabelecidos contra a minha alma,
como conspiradores em trajes de dormitório
que trocaram longos beijos espessos como instruções.
O radiante verão conduz os enamorados
em uniformes regimentos melancólicos,
feitos de gordos e magros e alegres e tristes casais:
sob os elegantes coqueiros, junto ao oceano e à lua,
há uma contínua vida de calças e saias,
um rumor de meias de seda acariciadas,
e seios femininos que brilham como olhos.
O pequeno empregado, depois de muito,
depois do tédio semanal, e os romances lidos de noite na cama,
definitivamente seduziu sua vizinha,
e a leva para miseráveis cinemas
onde os heróis são potros ou príncipes apaixonados,
e acaricia suas pernas cheias de um doce pelo
com suas ardentes e úmidas mãos que cheiram a cigarro.
 
Os entardecedores do sedutor e as noites dos esposos
unem-se como dois lençóis me sepultando,
e as horas depois do almoço em que os jovens estudantes
e as jovens estudantes, e os sacerdotes se masturbam
e os animais fornicam diretamente,
e as abelhas cheiram a sangue, e as moscas zumbem coléricas,
e os primos brincam estranhamente com as suas primas,
e os médicos olham com fúria para o marido da jovem paciente,
e as horas da manhã em que o professor, como por descuido,
cumpre o seu dever conjugal e toma café,
e ainda mais, os adúlteros que se amam com verdadeiro amor
sobre leitos altos e longos como embarcações;
seguramente, eternamente me rodeia
este grande bosque respiratório e enredado
com grandes flores como bocas e dentaduras
e negras raízes em forma de unhas e sapatos.
 
 
 
Edgar Allan Poe nasceu em Boston no ano de 1809 e morreu em Baltimore quarenta anos depois. Poe foi dos primeiros a escrever obras de ficção, reconhecidas como os primeiros policiais. Há quem diga que foi com ele que “a verdadeira literatura americana começou”. O Corvo, seu poema mais conhecido, foi traduzido por muitos. Fiquei na dúvida se usava a do Fernando Pessoa, mas acho que a do Machado tem um sabor a mais. Poe, que foi traduzido por Baudelaire, foi também grande crítico literário. Seus ensaios são boas aulas de métrica em língua inglesa. Machado tinha fascínio por ele, por isso sua tradução é interessante de ser lida.
 
 
 
 
 
 O CORVO
tradução
Machado de Assis
 
 
Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
“É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais.”

 

Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora.
E que ninguém chamará mais.

 

E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto, e: “Com efeito,
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais.”

Minh’alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: “Imploro de vós, — ou senhor ou senhora,
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo, prestemente,
Certificar-me que aí estais.”
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

Entro coa alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
“Seguramente, há na janela
Alguma cousa que sussurra. Abramos,
Eia, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso,
Obra do vento e nada mais.”

Abro a janela, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo, — o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: “O tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais;
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?”
E o corvo disse: “Nunca mais”.

Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Cousa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é seu nome: “Nunca mais”.

No entanto, o corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda a sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: “Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora.”
E o corvo disse: “Nunca mais!”

Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
“Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: “Nunca mais”.

Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: “Nunca mais”.

Assim posto, devaneando,
Meditando, conjeturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava.
Conjeturando fui, tranqüilo a gosto,
Com a cabeça no macio encosto
Onde os raios da lâmpada caíam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.

Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: “Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora.”
E o corvo disse: “Nunca mais”.

“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?”
E o corvo disse: “Nunca mais”.

“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais,
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!”
E o corvo disse: “Nunca mais.”

“Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fique no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua.
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua.”
E o corvo disse: “Nunca mais”.

E o corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e, fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!

 

Outro que traduziu Poe para o português foi Fernando Pessoa. Como consta, Annabel Lee é o último poema composto por Poe, em 1849, e foi publicado depois de sua morte neste mesmo ano, em dois jornais. Atribui-se à Virginia, mulher de Poe, o papel de Annabel Lee, que para outros estudiosos, serviu apenas de inspiração para o poema. Enfim, isso não importa muito, pois o poema está aí e é muito bonito, tal qual a tradução do Pessoa que, obedece fielmente, ao ritmo original. Além d’Annabel Lee, Pessoa traduziu O Corvo e Ulalume do poeta americano. Vale ler sobretudo O Corvo, que tem outra cadência.
 
 
 
texto SERRA no blog http://pedrolago.blogspot.com
 
 
ANNABEL LEE
tradução
Fernando Pessoa
 
 

Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.

Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor –
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.

E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.

E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar…
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.

Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim ‘stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.

 

 

 Ana Cristina Cesar, minha poeta preferida, fez importantes estudos sobre tradução. Alguns deles estão em Escritos da Inglaterra, uma detalhada reunião de anotações sobre tradução de prosa e poesia. Emily Dickinson, nasceu em Massachusetts em 1830 e lá se foi em 1886. Pouco se sabe sobre sua vida particular, apenas que era reclusa, muito reclusa, chegando até virar mito, pela sua personalidade solitária. Teve boa formação, nunca se casou, não publicou mais que dez poemas em vida, e somente em 1955, em uma publicação contendo 1.775 poemas, ou seja, todos, que a poesia de Emily Dickinson veio à público e imediatamente reverenciada.

 
 
 
 
POEMA 280
tradução
Ana Cristina Cesar
 
 
Sinto um Enterro em minha Mente,
Enlutados vêm e vão
Marcham – marcham – até que
 
E quando todos sentam,
Um Tambor em minha Mente
Bate – bate – até que o Senso
Parece estar dormente
 
E os ouço erguer um grande Peso
E em minha Alma range
O chumbo dessas Botas, sempre
E o Espaço todo – tange,
 
E o Céu inteiro é só um Sino
E o ser é só um Ouvir,
Silêncio, e eu, uma estranha raça
Destruída, solitária, aqui -
 
E quebra a Tábua da Razão,
E eu afundo mais, e mais -
E atinjo um Mundo em cada choque
E sei Enfim – então -
 
 
 
Dylan Marlays Thomas nasceu no País de Gales em 1914 e morreu em Nova York em 1953. Considerado por aí o maior poeta de Gales, escreveu poemas bastante conhecidos na língua inglesa e peças de teatro, entre elas, Under Milk Wood. Lançou também uma coletânea de contos intitulada Portrait of the Artist as a Young Dog. Dylan era muito bom de copo, tomava aqueles “porres homéricos” (já está na hora de achar outro termo para isso, Homero já cansou de beber) e, por isso, morreu de alcoolismo. Dizem que o compositor americano Roberto Allen Zimmerman, mudou o nome para Bob Dylan por causa dele. Incrível isn’t it?
 
 
 
 
NÃO ENTRES DOCILMENTE NESTA NOITE MANSA
tradução
Ana Cristina Cesar 
 
Não entres docilmente nesta noite mansa:
A idade deve arder e irar-se ao fim do dia;
Grita, grita contra a luz que está morrendo.
 
Mesmo sabendo no final que a justa escuridão avança,
Pois seus gestos não forjaram raios, o homem sábio
Não entra docilmente nesta noite mansa.
 
O homem, à onda derradeira, gemendo
Que seus frágeis atos poderiam ter brilhado e dançado na enseada,
Grita, grita contra a luz que está morrendo.
 
O homem louco que reteu e cantou o sol em fuga,
E aprendeu, tão tarde, que apenas lamentava seu passar,
Não entra docilmente nesta noite mansa.
 
O homem grave, ao morrer, já cego vendo
Que olhos cegos poderiam brilhar como as estrelas e alegrar-se,
Grita, grita contra a luz que está morrendo.
 
E tu, meu pai, aí da tua altura triste,
Amaldiçoa-me, abençoa-me, te peço, com tuas lágrimas ferozes.
Não entres docilmente nesta noite mansa.
Grita, grita contra a luz que está morrendo.
 
 
 
Sylvia Plath nasceu em Massachusetts em 1932 e morreu em Londres 31 anos depois, cometendo suicídio. Já havia tentado o suicídio antes, quando estava na faculdade. Sylvia era casada com o também poeta Ted Hughes, com quem teve dois filhos, tendo se separado depois. Há quem diga que foi uma das mais importantes poetas dos EUA. Precoce, organica, poeta de chagas e caótica. Fazer um paralelo entre a poeta e sua tradutora não é dificil, não pelas semelhantes tragédias, pelo discurso mesmo, há muito de Sylvia em três ou quatro de Ana. Há duas traduções de Palavras feitas por Ana Cristina, escolhi a segunda, que é a menos conhecida, ou seja, isso quer dizer….nada.
 
 
 
 
PALAVRAS
tradução
Ana Cristina Cesar
 
 
Golpes
De machado que fazem soar a madeira,
E os ecos!
Ecos partem
Do centro como cavalos.
 
A seiva
Jorra como lágrimas, como a
Água lutando
Para repor seu espelho
Sobre a rocha
 
Que cai e rola,
Crânio branco
Comido por ervas daninhas.
Anos depois as encontro
Na estrada
 
Palavras secas e sem rumo,
Infatigável bater de cascos.
Enquanto
Do fundo do poço estrelas fixas
Governam uma vida.
PALAVRAS (primeira tradução)
 
Golpes,
De machado na madeira,
E os ecos!
Ecos que partem
A galope.
 
 
 
 
Jean-Nicolas Arthur Rimbaud, veio ao mundo como um cometa em 1854 e se foi em 1891. Ter sido precoce, ter escrito tudo até os dezenove, ter virado traficante de armas, ter sido o mais voraz dos simbolistas, são aquelas coisas que todo mundo pensa quando se fala dele. “Je est un autre“,  e assim mesmo definiu-se em prosa, “O primeiro estudo do homem que quer ser poeta é seu próprio conhecimento, completo; pesquisa sua alma, inspeciona-a, experimenta-a, aprende-a. A partir do momento em que a conhece, deve cultivá-la… portanto o poeta é na verdade um ladrão de fogo“. Não há muito mais o que dizer, pois Rimbaud não é poeta para poucos, e sim, para todos, e aqui, agora, navega-se por aí. Como hoje é meu aniversário, vamos brindar com ele.
 
 
texto Tentações no blog http://pedrolago.blogspot.com
 
 
O BARCO ÉBRIO
tradução
Augusto de Campos
 
 
 

Quando eu atravessava os Rios impassíveis,
Senti-me libertar dos meus rebocadores
Cruéis peles-vermelhas com uivos terríveis
Os espetaram nus em postes multicores.
 
Eu era indiferente à carga que trazia,
Gente, trigo flamengo ou algodão inglês
Morta a tripulação e finda algaravia
Os Rios para mim se abriram de uma vez.
 
Imerso no furor do marulho oceânico
No inverno, eu, surdo como um cérebro infantil,
Deslizava enquanto as penínsulas em pânico
Viam turbilhonar marés de verde anil.

O vento abençoou minhas manhãs marítimas.
Mais leve que uma rolha eu dancei nos lençóis
Das ondas a rolar atrás de suas vítimas,
Dez noites, sem pensar nos olhos dos faróis!

Mais doce que as maçãs parecem aos pequenos,
A água verde infiltrou-se no meu casco ao léu
E das manchas azulejantes dos venenos
E vinhos me lavou, livre de leme e arpéu.

Então eu mergulhei nas águas do poema
Do Mar, sarcófago de estrelas, latescente,
Devorando os azuis, onde às vezes – dilema
Lívido – um afogado afunda lentamente;

Onde, tingindo azulidades com quebrantos
E ritmos lentos sob o rutilante albor,
Mais fortes que o álcool, mais vastas que os nossos prantos,
Fermentam de amargura as rubéolas do amor!

Conheço os céus crivados de clarões, as trombas,
Ressacas e marés: conheço o entardecer,
A aurora em explosão como um bando de pombas,
E algumas vezes vi o que o homem quis ver!

Eu vi o sol baixar, sujo de horrores místicos,
Iluminando os longos túmulos glaciais;
Com actrizes senis em palcos cabalísticos,
Ondas rolando ao longe os frémitos de umbrais!

Sonhei que a noite verde em neves alvacentas
Beijava, lenta, o olhar dos mares com mil coros,
Soube a circulação das seivas suculentas
E o acordar louro e azul dos fósforos canoros!

Por meses eu segui, tropel de vacarias
Histéricas, o mar violentando as areias,
Sem esperar que aos pés de ouro das Marias
Esmorecesse o ardor dos Oceanos sem peias.

Cheguei a visitar as Flóridas perdidas
Com olhos de jaguar florindo em epidermes
De homens! Arco-íris tensos como bridas
No horizonte do mar de glaucos paquidermes.

Vi fermentarem pântanos imensos, ansas
Onde apodrecem Liviatãs distantes!
O desmoronamento da água nas bonanças
E abismos a abrirem-se no caos, cataratantes!

Glaciares, sóis de prata, ondas e céus cadentes!
Naufrágios abissais na tumba dos negrumes,
Onde, pasto de insectos, tombam as serpentes
Dos curvos cipoais, com pérfidos perfumes!

Ah! Se as crianças vissem o dourar das ondas,
Áureos peixes do mar azul, peixes cantantes…
- Espumas em flor ninaram minhas rondas
E as brisas da ilusão me alaram por instantes.

Mártir de pólos e de zonas misteriosas,
O mar a soluçar cobria os meus artelhos
Com flores fantasmais de pálidas ventosas
E eu, como uma mulher, me punha de joelhos…

Quase ilha a balouçar entre borras e brados
De gralhas tagarelas com olhar de gelo,
Eu vogava, e por minha rede os afogados
Passavam, a dormir, descendo a contrapelo.

Mas eu, barco perdido em baías e danças,
Lançado no ar sem pássaros pela torrente,
De quem os Monitores e os arpões das Hansas
Não teriam pescado o casco de água ardente;

Livre, fumando em meio às virações inquietas,
Eu que furava o céu violáceo como um muro
Que mancham, acepipe raro aos bons poetas,
Líquens de sol e vómitos de azul escuro;

Prancha louca a correr em lúnulas e faíscas
E hipocampos de breu, numa escolta de espuma,
Quando os sóis estivais estilhaçavam em riscas
O céu ultramarino e seus funis de bruma;

Eu que tremia ouvindo, ao longe a estertorar,
O cio dos Behemóts e dos Maeltroms febris,
Fiandeiro sem fim dos marasmos do mar,
Anseio pela Europa e os velhos peitoris!

Eu vi os arquipélagos astrais! e as ilhas
Que o delírio dos céus desvela ao viajor;
- É nas noites sem cor que te esqueces e te ilhas,
Milhão de aves de ouro, ó futuro Vigor?

Sim, chorar eu chorei! São mornas as Auroras!
Toda lua é cruel e todo sol, engano:
O amargo amor opiou de ócios minhas horas.
Ah! que esta quilha rompa! Ah! que me engula o oceano!

Da Europa a água que eu quero é só o charco
Negro e gelado onde, ao crepúsculo violeta,
Um menino tristonho arremesse o seu barco
Trémulo como a asa de uma borboleta.

No meu torpor, não posso, ó vagas, as esteiras
Ultrapassar das naves cheias de algodões,
Nem vencer a altivez das velas e bandeiras,
Nem navegar sob o olho torvo dos pontões.

 

  
Charles-Pierre Baudelaire nasceu em Paris em 1821 e lá encantou-se em 1867. Muito se fala dele, que foi um dos maiores poetas da história, que revolucionou a poesia francesa, que adorava Egdar Allan Poe, que precedeu e influenciou a geração simbolista que viria, enfim, todas essas coisas que não cansamos de falar. Para mim, Baudelaire foi importante quando li seus “pequenos poemas em prosa”. Aquilo tudo alí é crônica pura. Quem gosta de ler o Rubem Braga, o Sabino, o Otto, vai achar alí a fonte, é simplesmente incrível. Irônico, sarcástico, muito engraçado e, sobretudo, leve. Isso mesmo, leve, Baudelaire leve. Pois é obvio que o autor de Le Fleurs du mal é muito mais importante pelo que fez alí, no simbolo, no sórdido, no sublime, na narrativa, mas, com suas “experimentações” atrevidas de prosa poética, com certeza, abriu caminhos para muitos que aí estão, inclusive eu.
 
 
 
 
O LETES
tradução
Dante Milano
 
 
Vem ao meu peito, alma surda e traiçoeira,
Tigre adorado, de ares indolentes.
Quero tocar-te com dedos trementes
E acariciar a tua cabeleira.
 
Em tua saia, onde há o teu odor,
Enterrar a cabeça dolorida
E aspirar, qual de flor emurchecida,
O hálito suave de um extinto amor.
 
Quero dormir! Dormir e não viver!
Num sono assim como o que a morte encobre,
Em teu corpo brunido como o cobre
Colar meus beijos, no último prazer.
 
Para afogar soluços nada vejo
Melhor que a cova aberta em tua cama.
De tua boca o olvido se derrama
E a água do Letes flui pelo teu beijo.
 
Ao meu destino, que é delícia e vício,
Obedeço como um predestinado,
Um mártir, inocente condenado,
Cujo fervor atiça o seu suplício.
 
E afogando o rancor desta paixão,
A cicuta e o nepentes saboreio
Nas suaves pontas desse agudo seio
Que nunca teve dentro um coração.
 
 
 
Mário Faustino tinha uma coluna no Jornal do Brasil aos domingos onde publicava poemas e pequenas biografias de poetas do mundo inteiro, era como se fosse uma pequena aula, para elucidar àqueles que desejavam conhecer um pouco mais de poesia. Traduzia e, muitas vezes, não metrificava, gostava de dizer (e é verdade) que as traduções apenas apontam algo que pode vir a ser próximo do original. Isso é importante dizer, pois, assim lemos os poetas traduzidos com mais clareza, sem achar que o mergulho está sendo definitivo. Robert Frost, americano de San Francisco (1875 -1963), ganhou quatro vezes o Prêmio Pulitzer, como disse o próprio Mário “simples, humano, sutil, humorístico, contemplativo, poesia penetrada de sentimento trágico; poeta regional, seu humanismo o torna decerto nacional e até certo ponto universal”.
  
 
 
 
THE MASTER SPEED
tradução
Mário Faustino
 
 
Pressa de vento ou de água aos pés correndo,
Tua pressa é maior. Podes subir
Radiante, riacho acima, rumo ao céu,
E história acima, rumo ao tempo, atrás
Deram-te essa leveza por amor
Da ligeireza não, nem para ires
Aonde queiras: sim para que possas
Tudo gastar até seres senhor
Do poder de deter-te, quieto, fora
De tudo quanto digas – coisa quieta
Ou movediça. Dois iguais a ti,
A mesma rapidez de mestre, quem
Apartar-vos pudera se sabeis
Que a vida é vida, apenas, para sempre
Juntos, remo com remo, asa com asa.
 
 
 
Johann Christian Friedrich Hölderlin nasceu em Lauffen am Neckar na Alemanha em 1770 e morreu em Tubingen em 1843. Era um poeta ligado à grande filosofia. Seus poemas interessaram a Heidegger, por exemplo, e era íntimo dos filósofos de sua época, ou seja, os fundadores do chamado Idealismo Alemão. Holderlin tinha ligações pessoais com Schiller. Hegel e Schelling foram seus colegas e amigos no seminário teológico da Universidade de Tubingen. Poesia não é filosofia, nunca será e ainda bem, mas há na historia, poetas que pensaram ambas, e Holderlin, como lembra bem o Antonio Cicero, “pensou o mundo enquanto poeta e pensou sobre o mundo enquanto filósofo“. Entretanto, o poeta não deixou obra filosófica, apenas cartas e outros manuscritos. O poeta era amigo de Fichte, que era discípulo de Kant, e disse uma vez que ”Kant, é o Moisés de nossa nação, que a conduz da dormência egípcia ao deserto livre da especulação e traz do monte sagrado a lei enérgica”.
  
  
  
texto Laura Alvim no blog http://pedrolago.blogspot.com
 
 
CANÇÃO DO DESTINO DE HIPÉRION
tradução
Antonio Cicero
 
 
Andais lá em cima na luz
  Em chão macio, gênios felizes!
    Cintilantes brisas divinas
      Tocam-vos de leve
        Como os dedos da artista
          Cordas sagradas.
 
Sem destino, qual o lactente
  Adormecido, respiram os divinos;
    Casto, guardado
      Em botão simples
        Floresce-lhes
          Eterno o espírito
            E os olhos felizes
              Fitam em calma
               Eterna claridade.
 
Mas a nós não é dado
  Em lugar algum repousar:
    Fenecem, caem
      Os homens sofredores
        Cegamente de uma
          Hora para outra
            Como água de penhasco
             Em penhasco lançada
              Incessantemente no incerto.
 
 
 
Traduzir poesia sempre será motivo de dicussão. O tradutor, ou poeta/tradutor, muitas vezes toma conta do poema e faz do mesmo uma versão própria. Rimando ou não rimando, o sentido completo sempre se perde um pouco. Creio que para nós brasileiros, um poema em espanhol, por exemplo, fique mais próximo do original. No passado, traduzir era trazer a conhecimento do público poetas importantes, papel de extrema importância, depois, poetas e tradutores começaram a fazer outras traduções dos mesmos poetas, o que complica ainda mais, porém, nos dá uma noção do que está sendo lido. Gosto de tradutores que dizem o que o poeta disse, sem adaptações métricas ou “justificativas” poéticas para impasses linguísticos, e nisso, Thereza Christina Rocque da Motta é mestre. Além de poeta, é tradutora de altíssimo nível, pois vai no essencial, no importante. Traduziu Shelley, Keats, Yeats, Lord Byron e outros. Como hoje é aniversário dela, vai então uma tradução sua. Ah, o poeta? Acho que esse aí não precisa muito de apresentações.
 
 
 
 
SONETO 18
tradução
Thereza Christina Rocque da Motta
 
Como hei de compara-te a um dia de verão?
És muito mais amável e mais amena:
Os ventos sopram os doces botões de maio,
E o verão finda antes que possamos começá-lo:
Por vezes, o sol lança seus cálidos raios,
Ou esconde o rosto dourado sob a névoa;
E tudo que é belo um dia acaba,
Seja pelo acaso ou por sua natureza;
Mas teu eterno verão jamais se extingue.
Nem perde o frescor que só tu possuis;
Nem a Morte irá arrastar-te sob a sombra,
Quando os versos te elevarem à eternidade:
Enquanto a humanidade puder respirar e ver,
Viverá meu canto e ele te fará viver.
  
  
 
Cartas a um jovem poeta do Rilke é para ser lido, pelo menos, uma vez por ano. Comparo Rilke a Van Gogh, quase não vendeu livros e, depois de sua morte, foi considerado um tipo de gênio. Rilke é a permanência no sublime, a sustentação poética no belo. Acreditava nisso. Dizia que “arte trata-se de Beleza”. Foi secretário de Rodin, já quando era poeta. Seus relatos sobre Florença são magníficos, assim como suas cartas sobre Cezanne. Rilke tem seu ponto máximo, na minha opinião, em Elegias de Duino, sem bem que Sonetos a Orfeu também é incrível. Enfim, Rilke é referência para qualquer poeta que queira se meter a ser sublime.
 
 
texto “Solto” no blog http://pedrolago.blogspot.com
 
 
 
TORSO ARCAICO DE APOLO
tradução
Manuel Bandeira
 
 
Não sabemos como era a cabeça, que falta,
De pupilas amadurecidas, porém,
O torso arde ainda como um candelabro e tem,
Só que meio apagada, a luz do olhar, que salta
 
E brilha. Se não fosse assim, a curva rara
Do peito não deslumbraria, nem achar
Caminho poderia um sorriso e baixar
Da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.
 
Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
Pedra, um desfigurado mármore, e nem já
Resplandecera mais como pele de fera.
 
Seus limites não transporia desmedida
Como uma estrela: pois ali ponto não há
Que não te mire. Força é mudares de vida.
 
 
 
Elizabeth Barrett Browning é inglesa. Nasceu em 1806 e morreu em Florença em 1861. Ficou conhecida pelos sonetos que escreveu para o marido, o poeta Robert Browning, com quem,se casou secretamente. São poemas líricos essencialmente e muito delicados. O título é interessante Sonnets from the Portuguese, que antes seria Sonnets from de Bosnian, mas foi aconselhada por Robert a trocar para Portuguese, provavelmente pelo apelido que Robert a chamava, my little Portuguese lowie. O livro é considerado por críticos ingleses, como uma das mais belas obras líricas na língua inglesa. Aqui, ficou mais conhecida quando foi traduzida por Manuel Bandeira. Vale a pesquisa, pois são todos lindos.
 
 
 
 
SONETO IV
tradução
Manuel Bandeira
 
 
Ama-me por amor do amor somente.
Não digas: “Amo-a pelo seu olhar,
O seu sorriso, o modo de falar
Honesto e brando. Amo-a porque se sente
 
Minhalma em comunhão, constantemente
Com a sua”. Porque pode mudar
Isso tudo, em si mesmo, ao perpassar
Do tempo, ou para ti unicamente.
 
Nem me ames pelo pranto que a bondade
De tuas mãos enxuga, pois se em mim
Secar, por teu conforto, esta vontade
 
De chorar, teu amor pode ter fim!
Ama-me por amor do amor, e assim
Me hás de querer por toda a eternidade.
 
 
 
William Butler Yeats é irlandes de Dublin, nasceu lá em 1865 e morreu na França em 1939. Foi um dos mais importantes poetas irlandeses, e por que não, da língua inglesa. Teve uma notória participação política, sobretudo no processo do nacionalismo irlandês. A política tomou grande parte de sua vida. Conheceu o ainda jovem Ezra Pound, que veio a ser seu secretário. Escreveu para teatro e foi um dos fundadores do Teatro Abbey. Yeats tinha profunda admiração por Shelley, sua maior influência poética. Ganhou o Prêmio Nobel em 1923. Isso aí.
 
 
 
 
O CRIADOR DAS ESTRELAS E DOS MUNDOS
tradução
Thereza Christina Rocque da Motta
 
 
O criador das estrelas e dos mundos
Sentou-se sob o cruzeiro do mercado,
E os velhos andavam de um lado para outro,
E os meninos brincavam e brincavam.
A praça agora não tinha mais ninguém;
Um galo aproximou-se na ponta dos pés;
E um cavalo baio olhou por cima da cerca,
E esfregou o nariz ao longo do gradil.
O criador das estrelas e dos mundos
Retornou à sua casa,
E sobre a cidade derramou uma lágrima,
E transformou-a num lago.
 
 
 
Percy Bysshe Shelley é inglês de Sussex, nasceu lá em 1792, morreu trinta anos depois numa ilha entre a Riveira Italiana e as Ilhas Córsega e Elba. Foi desses poetas angustiados (qual que não é), mas que causou muito incômodo em sua época. Era amigo de Lord Byron em noites de boêmia e filosofia (uma coisa alimenta a outra, não é?). Foi referência no pensamento romântico na Literatura Inglesa. Aos 22 anos, largou a mulher e foi viver com a filha do pensador William Goldwin, Mary Shelley, autora de Frankenstein. Shelley morreu em um acidente de barco.
 
 
 
 
 
UMA PALAVRA É DEMAIS PROFANADA
tradução
Thereza Christina Rocque da Motta
 
 
Uma palavra é demais profanada
para que eu a profane;
um sentimento é falsamente desdenhado demais
para que tu o desdenhes;
uma esperança se aproxima do desespero demais
para que a prudência a acalme;
e tua piedade é mais cara
do que de qualquer outra pessoa.
Não posso te dar o que chamam de amor;
mas não aceitarás
a adoração que eleva o coração
e os céus não desprezam, –
a ânsia da traça pela luz das estrelas,
da noite pelo amanhecer,
e a devoção pelo que se distancia
da esfera do nosso sofrer?
 
 
 
Então, no último dia do nosso mês dedicado aos poetas tradutores, faço a minha primeira tradução. Ambroise-Paul-Toussaint-Jules Valéry nasceu em Sète no ano de 1871 e morreu em Paris em 1945. É considerado pelo próprios franceses como um dos mais importantes poetas. Escreveu um livro lindo sobre o pintor Degas, fez estudos sobre filosofia, matemática, e foi da Academia Francesa. Extremamente simbolista, consta que influenciou diretamente a Jean Paul Sartre, e é com Paul Valéry que terminamos nosso estudo sobre traduções. Semana que vem tudo normal, mergulharemos na obra de um poeta e por quatro semanas tentaremos passar um pouco de sua vida. Quanto à tradução, fiz o que acho que deve ser feito, fui fiel às palavras originais e os sentidos que trazem. Não adicionei nada, nem vírgulas, por isso, as divisões estão dentro dos versos. Até.
 
 
 
 
HELENA
tradução
Pedro Lago
 
 
Azul! Sou eu… Eu venho das grutas da morte
Escutar a onda se romper aos degraus sonoros,
E eu revejo as galés dentro das auroras
Ressucitarem da sombra ao fio dos ramos de ouro.
 
Minhas solitárias mãos chamam os monarcas
Cuja barba de sal divertia meus dedos puros;
Eu chorava. Eles cantavam seus triunfos obscuros
E os golfos enterrados às popas de seus barcos,
 
Eu escuto as conchas profundas e os clarins
Militares ritmar o vôo dos remos;
O canto claro dos remadores concatenam o tumulto
 
E os Deuses, na proa heróica exaltados
Em seu sorriso antigo e que a espuma insulta
Levantam sobre mim seus braços indulgentes e esculpidos.
junho 20, 2009

Bruno Tolentino

Bruno Lúcio de Carvalho Tolentino nasceu no Rio de Janeiro no dia 12 de novembro de 1940. Bruno, que nasceu em uma família tradicional e rica do Rio de Janeiro, desde sempre conviveu com intelectuais e escritores. Como consta, entre eles Cecília Meireles, Carlos Drummond, João Cabral e Manuel Bandeira. Bruno é primo do escritor e crítico Antonio Candido e da crítica de teatro Barbara Heliodora, seu avô, foi conselheiro do Império e um dos fundadores da Caixa Econômica Federal. Neste mês teremos a árdua tarefa de tentar sintetizar em 4 semanas a obra deste grande poeta brasileiro. Mas vai dar tudo certo.
 

 
 
IN LIMINE
 
 
O mundo com idéia (ou pensamento).
Entre a gnose e o real (talvez) o acordo.
Mas no ramo (imperene) canta o tordo
(provisório) e invisível vem o vento
 
e leva o canto e deixa um desalento,
a queixa dos sentidos. Não recordo
se sonhei tudo isso ou não: um tordo
e a noite em meus ouvidos um momento,
 
outro rapto no vento… Mas supor
que o triunfo moral do cognitivo
restitua-me o ser menos a dor,
 
é resignar-me a um perfume tão rápido
que não existe quase, insubstantivo
como a Idéia. Não: o mundo como rapto!
 

Bruno Tolentino foi alfabetizado aos mesmo tempo em inglês, francês e português. Viveu em um ambiente de “aristocracia” (se assim posso dizer) toda sua infância. Bruno publicou seu primeiro livro aos 23 anos, chamado “Anulação e outros reparos”. Após o Golpe de 64, Bruno vai para a Europa exilar-se a convite do poeta Giuseppe Ungaretti, onde passaria 30 anos, residindo na Itália, Bélgica, Inglaterra e França. Bruno foi professor de literatura en Oxford, Essex e Bristol e foi tradutor-intérprete junto à Comunidade Econômica Européia. Bruno, então, vivia intensamente junto à inteligentsia européia, ainda nos seus vinte e poucos anos.
 
 

 
 
A GRANDE ALMA PENADA
 
 
Se Baudelaire, à diferença de Pascal,
       odiou a amplidão
e não soube conter a vertigem do mal
       no drama da razão,
 
terá sido talvez porque insistiu em ver
       o olhar que usurpa e mata:
a Medusa da Idéia, esse avatar do ser
       que vai virando estátua.
 
Pascal calou-se ante os silêncios infinitos
       e ouviu de Deus a cura;
o outro, o ceifador do mal, saiu aos gritos,
       como um louco à procura
 
da comiseração que os abismos não têm.
       A simples diferença
entre o temor a Deus e o pânico de alguém
       que O não escuta é imensa.
 
Um radical, um jansenista, um puritano
       da estirpe de Pascal,
teme a misericórdia de Deus (se não me engano);
       mas nem em Port Royal,
 
aquela fortaleza do orgulho, houve lugar
       jamais para um bueiro
de que o Céu se tornasse a tampa tumular
       e o velho desespero
 
a bússola da vida, ou um contrapeso a ela.
       Vira a alma penada
o poeta imortal que ao abrir a janela
       vai do Infinito ao Nada.
 

Segue a entrevista: Falando da inclusão de Caetano Veloso em matéria escolar sobre poetas brasileiros (!). “Ele está também virando tese de professores universitários. Tenho aqui um livro, Esse Cara, sobre Caetano, uma espécie de guia para mongolóides, e a mesma editora desse livro me pede para escrever um outro, sob o título Caetano Se Engana. É preciso botar os pingos nos is. Cada macaco no seu galho, e o galho de Caetano é o show biz. Por mais poético que seja, é entretenimento. E entretenimento não é cultura. Se fizerem um show com todas as músicas de Noel Rosa, Tom Jobim ou Ary Barroso, eu vou e assisto dez vezes. Mas saio de lá sem achar que passei a tarde numa biblioteca. Não se trata de cultura e muito menos de alta cultura. Gosto da música popular brasileira e também da de outros países, mas a música popular não se confunde com a erudita. Então, como é que letra de música vai se confundir com poesia?”
 
 
O VERME
 
 
Porque eu quis conhecer, verificar
o possível, a trama que o tecia,
tocou-me separar tudo o que eu via
dos delírios da Idéia. Se criar
    não é doar o mundo à fantasia,
é antes de mais nada subjugar
a velha tentação oracular
do conceito, essa estrita tirania
    que, substituindo-se ao sensível,
sufoca a fábula do ser. Eu fiz
minha jubilação subir ao nível
    mais tênue do real, fui o aprendiz
de uma frágil tensão em que o possível,
como o efêmero, existe por um triz.
 
Mercúcio, na tragédia de Verona,
é o lado frívolo da realidade,
e a flor do instante vápido, a madona
que ele corteja, é uma diversidade,
    uma pura aparência que apaixona
talvez por ser só fuga, porque há de
ser sempre quase só reflexo à tona
da desaparição, da ambiguidade.
    No entanto é ali, nessa frivolidade,
que o real se concede, é sempre às tontas
que um coração apaixonado o encontra,
    porque é ali que ele está mais à vontade:
no baile doloroso em que a vaidade
subitamente passa além da conta…
 

Fato interessante. Em 1987, Bruno é preso e condenado a 11 anos de prisão sob a acusação de tráfico de drogas. Cumpre pouco mais de um ano em Dartmoor no Reino Unido. Como consta, na prisão Bruno organizou aulas de alfabetização e de literatura, com o nome de Seminars of Drama and Literature, como disse o próprio Bruno em entrevista, “nas sessões avançadas chegaram a comparecer psicanalistas de renome, ao lado de personalidades do mundo das Letras tais como Harold Carpenter, o estudioso e biógrafo de Pound e Auden, o dramaturgo Harold Pinter, ou Lady Antonia Fraser”. Do período na prisão saiu o livro “A Balada do cárcere” em 1996. Impressionante.
 
 
 
A NEREIDA DE BLOOMSBURY
 
 
Virginia Woolf entrou
na luz como no centro
de um mistério maior:
ia acercar por dentro
o tempo exterior!
No entanto, se tocou
talvez aquela teia
de que o ser se rodeia,
não tolerou a urgência
do impuro, do que dura
como o nó da existência:
escapou-lhe a matéria,
enredou-se-lhe a asa
e a graça resvalou
à margem do mistério
renunciando ao vôo.
Em tempos de massacre
a luz tem sempre o acre
sabor da carne em brasa,
da alma carbonizada
que ela não suportou.
 
A futura afogada
acercara-se um dia
a Lytton Strachey e, a sério,
perguntara ao amigo
se sobrevivera
debaixo d’água, o abrigo
com que sonhava: urgia
prová-lo porque enfim
‘não sabia…’ E, assim,
certo dia cinzento,
saiu, fechou a casa,
deu as costas ao vento
e trocou de elemento,
ou de ponto de apoio:
recostou-se ao arroio
e desmanchou as asas.
 

Em 1971, Bruno Tolentino lança o livro “Le vrai le vain” em francês, cujo prólogo é uma preciosidade. Depois em 1979, lança, “About the hunt” em inglês. Ambos os livros foram muito bem recebidos pela crítica européia. Percebe-se então o tipo de relacionamento que Bruno tem no seu exílio, o ambiente literário que está acostumado, isto, inclusive, é importante frisar, porque depois compreenderemos algumas de suas atitudes quando retorna ao Brasil. Bruno assume também a direção da revista literária Orford Poetry Now, cargo antes exercido por seu amigo, o poeta W.H. Auden. Lá vai o poeta…
 

 

OS FARÓIS
 
 
Rubens, rio de olvido e jardim da indolência,
travesseiro carnal onde é vedado amar,
mas por onde se agita e flui esta existência
como o ar pelo céu e o mar dentro do mar.
 
Leonardo da Vinci, sombrio espelho fundo
onde anjos sedutores sorriem com brandura
e, entre, penhascos e pinheiros do outro mundo,
sugerem-nos mistérios vedados à criatura.
 
Rembrandt, um hospital cheio de sons inquietos,
onde a um enorme crucifixo erguem-se a prece
e o coro de soluços de um monte de dejetos
a que a um raio invernal subitamente desce.
 
Michelangelo, ar vago onde os vultos hercúleos
e os Cristos se confundem, onde estranhos espectros,
poderosos fantasmas com seus dedos eretos,
estraçalham sudários à hora dos crepúsculos;
 
Puget, rei melancólico de um povo de forçados,
com impudências de fauno, de boxeador aos socos,
peito inchado de orgulho, homem débil e pálido,
resgastaste a beleza dos rudes e dos toscos.
 
Watteau, um carnaval de corações ilustres
a imitar borboletas, cada qual mais brilhante
ante os leves cenários em que o lume dos lustres
derrama o desvario no baile rodopiante.
 
Goya, onde o pesadelo não conhece mais peias:
fetos cozidos em sabás, velhas megeras
medindo-se ao espelho, ninfetas pondo as meias
para melhor tentar demoníacas feras.
 
Delacroix, lago cheio de sangue e anjos morosos
à sombra de pinheiros perenemente verdes,
onde passam fanfarras sob céus dolorosos
como se suspirasse Karl Maria von Weber.
 
Tantas blasfêmias, maldições, queixas e ais,
são um longo Te Deum de êxtases, de ecos
que, por mil labirintos, atravessando os séculos,
vertem ópios divinos aos corações mortais.
 
De boca em boca, inumeráveis sentinelas
repetem a mesma ordem, o mesmo grito passa
a cada caçador perdido atrás da caça
e um farol brilha aceso sobre mil cidadelas.
 
É o melhor testemunho da nossa dignidade,
Senhor, essa enxurrada ardente de soluços
que rola de era em era até cair de bruços
e morrer junto à orla da Tua eternidade!
 

O Mundo como Idéia” livro base desta antologia, demorou quarenta anos para ser escrito (59 – 99). Considerada a obra-prima de Bruno, ganhou o Prêmio Jabuti e o Prêmio José Ermírio de Morais, que nunca havia sido dado a um escritor, em sessão na Academia Brasileira de Letras. “O Mundo como Idéia” é dividido em Prólogo; Livro Primeiro: Lição de Modelagem; Livro Segundo: Lição de Trevas; Livro Último: A Imitação da Música e Finale. Seria de muita irresponsabilidade tentar resumir o livro em poucas linhas, posto que, só o Prólogo tem 85 páginas. Porém, transcrevo o que o próprio Bruno fala sobre o título e outras partes: “porque o que desde o início focalizou o por assim dizer nervo óptico destas reflexões foram os malefícios da Idéia, provindos todos de abusos metodológicos que, força é convir, em nada afetam a posição capital que sempre há de caber em todo esforço cognitivo à ilustre vilã de meus alarmes: queira-se ou não, a Idéia é o inescapável norte magnético no mapa móvel da aventura cognoscente“. Mais sobre nesta semana.

LAMENTO DE CAIM
 
 
No estreito labirinto,
as hienas do vento
e teu corpo caído.
 
Tento acordar e sinto
que me persegues, lento
como no sonho um grito.
 
Ladrão do amor paterno,
que à procura do ninho
incurável do eterno
 
escalaste sozinho
as mais altas escarpas
sem volta nem caminho,
 
viraste a estátua fria
indiferente às farpas
monótonas do dia,
 
circundaste o meu peito
dos espinhos de um horto
penitente e perfeito.
 
Sei que estás morto, morto,
máscara mortuária
das mutações de um rosto.
 
Sou eu que não consinto
que escape a solitária
sombra no labirinto.
 
Sou eu que enterro, a sós
com aquela sombra amarga,
o que sobrou de nós
 
como faca na ilharga.
 
 

Sobre sua maneira de escrever Bruno disse que “Em arte admira-se sobretudo o inalcançável, o que não se é por natureza e portanto não se faz por inclinação natural. Minha forma mentis será, sim, antes bem mais horaciana, ou mesmo virgiliana, do que sáfica ou pindárica, mas é em Ovídio que fui aprender a naturalidade da frase musical inseparável da sensibilidade profunda subjacente à fala da tribo. Sempre me horrorizou o poema que se afasta orgulhosamente da fala comum, da comunicação natural, detesto todo maneirismo em arte e não vejo senão afetação no hermetismo tão ao gosto dos doutos sem assunto: afinal, o que se concebe com clareza se exprime com facilidade… Por outro lado, penso de um modo e escrevo de outro, a contra-pêlo do que me seria fácil, porque tampouco creio no espontâneo, desconfio tanto do rebuscado quanto do aparentemente conclusivo, daí que faça e refaça incansavelmente meus textos, e meus livros levem anos, décadas para encontrar a forma final.”

  

  

 

 

POST-SCRIPTUM A UMA TRADUÇÃO

 

 

Pobre Paul Valéry, queria tanto

um vento que o arrancasse ao seu torpor!

Mas em vez de cantar queria o Canto,

a Coisa Pura sem tirar nem pôr,

 

sem tocar nada, a vaga, a chaga ou a flor…

Como esperar que um vento alasse o manto

da sua estranha estátua de isopor

 - a Idéia – se o seu hábil esperanto

 

sem esperança de interlocutor,

era aquela magia sem quebranto

a geometria? E como ser cantor

 

do mundo-como-idéia sem no entanto

atar as mãos ao vento, esse escultor

a desmanchar estátuas por enquanto…?

 

 

Em “O Mundo como Idéia”, Bruno fala sobre o Belo Inteligível no prefácio II, “Plotino afirmava ser preciso que a consciência que temos de nós mesmos consinta em abolir-se para que de fato alcancemos possuir o objeto que anelemos ver. Mas acrescentava que essa autoconsciência necessita paradoxalmente manter-se em si mesma, de modo a que ela nela e com ela amadureça essa visão a que aspiramos. Meditada a lição, fui constatando que uma tal sucessão de instantes contrastados, interpondo uma fragilíssima ponte entre o real e a percepção do real, não nos torna inteiramente donos nem objeto contemplado nem da noção, da idéia que fazemos dele: continuamos entre seus dois pólos, únicos certificantes daquilo que somos e sem ele seguiríamos sendo.” Não posso me estender mais.

 

 

 

 

ANTEVISÕES DA ÚLTIMA ANTE-SALA

 

 

 

Quando o corpo ceder e uma primeira,

segunda ruga sobre a carapaça,

puserem-se a ensaiar com um ar sem graça

sulcos para os mistérios à maneira

    das doçuras da uva numa passa;

quando o desejo, como uma bandeira

esfarrapada, a meio-pau na praça,

tremular, recolher-se à prateleira,

    e a memória sozinha entrar no exílio

com ares de ex-rainha, eu, ai de mim,

cobrarei ao espelho aquele brilho

    indiferente – mas ainda assim

sei que me vou dar bem aquele velho:

até Narciso cansa-se do espelho.

 

Tenho medo é da sarça nas pupilas,

do braseiral tardio, das fogueiras

semi-extintas, das poças intranquilas

por sob as pálpebras, das tremedeiras

    quando a alma fareje as mais fagueiras

e intocáveis beldades… Ao senti-las

inabordáveis como as axilas

das jovens freiras, pode ser que as feiras

    anárquicas do corpo desmontado

como um velho alazão, e todo um resto

de galope fugaz inesperado,

    sacudam ainda aquele manifesto

desejo de deixar de ser… E então

quem sabe o que ainda tente um coração!

 

 

Poesia é fonte, prosa é água de balde“. Esta é uma frase conhecida de Bruno, que a explicou desta forma: “A poesia nasce dessas profundezas e mobiliza as forças do ser inteiro a partir das raízes do sentimento rumo aos cumes do entendimento. A prosa dita “de ficção” é um fenômeno recente, mais uma inflamação pós-renascentista, ou seja, um sinal do declínio das faculdades superiores do espírito humano, o abandono do campo do espírito – que é sempre uno, a um tempo aglutinador e analítico – às parvices conceitualizantes do meramente especulativo; para este, de resto, sempre houve a filosofia, o ensaio reflexivo que, estes sim, são do domínio da mente total e alerta, onde a vida do espírito não se abandona ao aleatório nem se deixa contaminar pelo simplesmente instintual.”

 

 

 

 

 

SEGUNDA RESIDÊNCIA

 

 

A casa flutuante que Leopardi

concebeu pendurada a alguma estrela

pelos fios do amor, cheguei a ela

mais de uma vez: quando caída a tarde

    e o coração se melancolizava,

era àquela morada que eu subia

para levar-lhe o que já começava

a se acabar, como se acaba o dia

    e se acaba a esperança incontentada.

Deixei naquela casa a meio-céu

pedaços do que amei e se perdeu,

    sem se perder de todo, que à morada

inventada eu levei de vez em quando

um pouco do que andava agonizando.

 

Um pouco, raras vezes o melhor.

O melhor de algum modo sempre morre

e deixa, lateral, alguma torre,

solta, gesticulando no esplendor

    perdido… Quando à casa, por mais alta

que qualquer torre, eu confiava um resto,

ou um simulacro do que amara, à falta

do que mais fosse, havia sempre um gesto

    que era de despedida e parecia

chamar de volta o escasso mobiliário

que eu salvava e levava e aos poucos ia

    se acumulando como um relicário.

Estranho relicário! Tudo é herança,

segundo os perdulários da esperança…

 

E aos poucos fui povoando com mobília

esparsa e desconexa aquela casa,

um álbum de retratos de família,

a família que eu tive, como a asa

    tem e não tem o espaço em que volteia.

Voltava àquela casa quando a vida,

como a mecha tremendo na candeia,

começava a ensaiar a despedida

    que mal se anunciava. E foi assim

que eu fiz uma segunda residência

a meio-céu, entre a desapetência

    e essa estranha delícia que há no fim

de tudo o que se acaba, cedo ou tarde.

Tudo, menos a casa de Leopardi.

 

A língua afiada de Bruno define o homem moderno como “O homem moderno está infelicíssimo com o cadáver de um rei inchado na barriga… É o cadáver do humanismo prometéico que há cinco séculos vem “nascendo” aos pedaços: o racionalismo, o ateísmo, o espiritismo, o positivismo, o cientificismo, o darwinismo, o marxismo, o impressionismo, o expressionismo, o dadaísmo, o surrealismo, o cubismo, o vanguardismo, o dodecafonismo, o comunismo, o fascismo, o stalinismo, o terceiro-mundismo, o existencialismo, o satanismo, o sadhanismo, o bushismo, o budismo, o pacifismo, o peronismo, o cheguevarismo, o fidelcastrismo, o modernismo, o pós-modernismo, o nudismo, o pós-nudismo, o versolibrismo, o desconstrucionismo, a Marxilenaxuxauí, o Santo Daime e o Doutor Enéas, sem falar da USP e do pós-uspianismo… Tudo isso por aqui deu no Gianotti, no Fernandinho Beira Mar, no Elias Maluco, no casal Garotinho e no Piscinão de Ramos, enquanto por lá deu na arte do genoma e da clonagem, ou seja, no bebê de proveta com a Líbia do Doutor Gadhafi de guardiã dos direitos humanos segundo a ONU… “. Semana que vem, algumas opiniões contrárias.

 

 

 

 

 

A VENDA

 

 

A voz do amor vem várias vezes,

mas a alma ama uma vez só.

De estrelas há um trilhão e treza

e somem quando um sol sem dó

 

recobre-as todas de ouro em pó.

No céu em que eu andei às vezes,

as belas balelas dos deuses

- neoclássicas, de um rococó

 

ou de um barroco de encomenda

ou de ilusão – de vez em quando

iam chegando e iam passando,

 

até que um dia um ser de lenda

passou por lá e pô-me a venda

da luz total nos olhos cândidos.

 

 

Em ensaio após sua morte, o poeta Paulo Fichtner afirma que “o grande amor na vida do poeta foi Anecy Rocha, irmã de Glauber, cuja trágica morte inspirou o poema-litania Ao Divino Assassino, todo em tercetos decassílabos seguidos do belíssimo, permitam-me os puristas, estrambote: …mata, Senhor, que a morte não faz mal!. O amargo e irônico poema em que o católico fervoroso praticamente se levanta contra Deus a ponto de questioná-lo frontalmente pela morte da amada foi concebido em Paray-le-Maulnier, pouco depois do terrível acidente em que ela abriu a porta de um elevador e caiu no fosso de oito andares” , porém, em “O Mundo como Idéia” Bruno também ressalta Malu Grabowski a quem dedica o belo poema “A Noite Fria”.

  

  

  

  

A NOITE FRIA

  

  

Eu fiz de tudo um capitel de escombros.

Dediquei-me a arruaças repentinas,

amontoei no ar minhas ruínas,

joguei tudo no chão e dei de ombros.

    Sacrifiquei assim crenças e assombros

à doce inconclusão das cavatinas:

via-os ruir e ao ritmo de seus tombos

ia compondo estrofes assassinas!

    Não tem perdão meu perdulário ofício

de tordo de deserto – que onde eu pouso

o cacto em flor da arte, este meu vício,

    é tudo insolação; que um fabuloso

sol carnívoro e frio põe um gozo

mavioso onde eu ponho um precipício.

  

Sou tordo cantor do desenlace.

Nem tenho outro motivo de cantar.

Transformo em elegia cada face,

cada torso em estela tumular.

    Canto como quem abre a jugular

a que se abraça e, ainda que me abrace

à perfeição mais doce, pelo passe

de mágica da música vou dar

    sempre com a mesma estátua degolada.

Dom nenhum me bastou, tomei-os todos

às mãos que se me abriam e fiz um nada

    daquilo tudo; fui virando o tordo

de Bizâncio, a cidade ensimesmada:

um artefato, um engenho, um engodo.

 

 

Creio que a origem influencia em parte a obra de um poeta, porém, não necessariamente (ainda bem) faz com que os caminhos percorridos pelo mesmo, estejam de certa forma estabelecidos ou algo parecido. No caso de Bruno, isto se aplica. Nascido em família rica, educado em três línguas, pessoas influentes da crítica literária no meio e uma ligação com a pintura clássica e renascentista. Porém, nada disso vale se o sujeito não tiver o que mais importa na vida, a vontade de fazer, o amor. Por isso, creio eu, que encontramos nele este “passeio pelo intelecto”, este refinamento na criação da ars poetica que vimos durante este mês. Mais opiniões amanhã.

 

 

 

 

O PÊSSEGO

 

 

Estavas debruçada e me cobriste

dos bruscos panos brancos da alegria,

cantava a noite sacudindo a terra,

desatando o dia,

meu corpo todo em riste,

jubilação do instante, te bebia,

e encontados à crista

luminosa da terra,

fomos marulho puro, maresia,

rebentação da luz que não se avista.

 

Vive-se da saudade da surpresa

que sacudira acesa

a tocha humana pelo coração.

Mas se acaso outra vez me apareceres,

a rosa refolhada dos prazeres

no ventre e aquele cacto

de delícias na boca,

recomece o prodígio, não o ato:

somos bichos do chão

e à solidão da raça

toda carícia é pouca,

toda ternura passa

e, enquanto a chama cauteriza a chaga

um dia o coração, na escuridão

de si mesmo, instantâneo e vão, se apaga.

 

Bruno era daqueles católicos fervorosos. A ponto de conseguir converter as pessoas para a religião. Pode ser considerado um dos maiores intelectuais/poetas católicos do Brasil. Junto dele, temos o já conhecido e fundador da PUC do Rio, Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Ataíde, Murilo Mendes e Jorge de Lima, que juntos, reinstauraram o projeto, Poesia em Cristo, e outros. Entretanto, não vemos tanto o louvor explícito na poesia de Bruno como há em Jorge de Lima, por exemplo. Mas pessoas que o conheceram bem pessoalmente, me confrmaram sua característica catequisadora. Amém.

 

 

 

A IMITAÇÃO DA MÚSICA 1 E 2

 

 

Canto, filho da luz da zona ardente,

coisas que vi a luz, sempre estrangeira,

tecer o ar e inevitavelmente

ir baixando com modos de rendeira

    ao tear deste mundo. A vida inteira

vi me escapar a luz do sol cadente,

e é essa rosa de sangue na fogueira

que agora arranco às dúvidas da mente.

    Mente o intelecto que se esquece dela.

Se a pura luz de leste se desdiz,

a cada ocaso há no final feliz

    dos números da mente a bagatela

de uma luz de mentira. Contra ela

fui tecendo este canto aprendiz.

 

Canto o que amo e amo o que é mortal.

A luz que se debate ao horizonte,

a frágil mariposa cor de fronte

que é todo o nosso bem e imita um mal,

   nossa doce enfermeira terminal

empalidece, cai por trás de um monte,

e a mente sem demora baixa a ponte

e faz entrar a luz conceitual.

    Canto para contar daquele instante

quando o que mais amamos chega ao fim

e um belo simulacro delirante

    usurpa-lhe o lugar; quando é assim

que a arte desfaz da luz agonizante,

convence a muitos, não comove a mim.

 

Bruno Tolentino morreu no dia 27 de junho de 2007. Bruno, que sofria de AIDS, já havia superado um câncer, esteve internado no Hospital Emílio Ribas em São Paulo. Foi sepultado no Cemitério Santíssimo Sacramento, em São Paulo. Bruno, poeta de histórias fantásticas, quase inacreditáveis, foi destes poetas que vieram para elevar e provocar. Percorremos aqui apenas um de seus livros, “O Mundo como Idéia”, livro de prêmios e reconhecimentos, porém, apenas aponta a grandeza do poeta que Bruno foi, é preciso conhecer mais da obra de Bruno e mergulhar non seu imaginário clássico, e no seu mar de amigos por toda hisótria da poesia mundial.

 

 

 

 

A IMITAÇÃO DA MÚSICA 59 E 60

 

 

Durante o Quattrocento a criatura,

recém-nascida da beatitude,

faz pensar num infante que procura

situar-se entre o efêmero que o elude

    e o eterno que supõe e põe em tudo

sua sombra escolástica e madura.

É a hora irrepetível da figura

que se descobre: o santo em seu estúdio,

    entre a caveira, os livros e a ampulheta,

cogita o olhar da Idéia, essa espiã

do mundo que anda vendo com suspeita.

    Senhor! A tentação do anacoreta

é agora a luz do instante, a cortesã

ruborizando os lábios da manhã…

 

Essencialmente, a mente se apavora

diante das cornucópias do existente,

os conúbios do aqui com aquele agora

que, sendo o abismo aberto na vertente

    vertiginosa e súbita da História,

vai fazendo do ser o penitente

do instantâneo, da perda que o incorpora

ao chão em que tateia. No Ocidente,

    por virtude cristã, não por crendice,

o instante da criatura é sempre histórico,

ou seja, é a instauração de um esvair-se.

    O conceito detesta-o, e sobre o pórtico

do passageiro pinta o gesto heróico

de um qualquer semideus que o desmentisse.

Eis que chegamos ao final de mais uma antologia. Espero que tenham gostado de conhecer, reler, ou simplesmente apreender algo da poesia de Bruno Tolentino. Poeta da alta cultura, crítico fervoroso, polêmico, que teve uma vida de aventuras, conheceu e foi respeitado por nomes da alta intelectualidade mundial. Semana que vem, entraremos em um outro universo poético, outras proposições, outros poemas e, com certeza, outros debates. Ah, semana que vem, prepararei um mês especial, será um inverno diferente. Aguardem!

 

 

 

 

FINALE

 

 

Lotte Lehman cantando An Die Musik,

carregada para fora do palco

em lágrimas, incapaz de terminar

a curva do soluço…É sempre assim,

de longe, entrecortado, é assim que caem

a noite, a névoa, a núbil música de tudo,

a cera em chamas: toda vela chora só.

 

Última aparição do moribundo

à luz emocionada, a melopéia

no transiente – Ach, du heiliger, Kunst!

Adeus uma vez mais e adeus ainda

- ewig, ewig – ó interrupção do imperecível,

se para sempre assim, se por enquanto

adeus, adeus entanto,

 

doce esplendor do mundo…

Até a próxima.

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