Poesia francesa
Semana de traduções, pois, traduzir é preciso. Un souvenir de Noel. Paul Valéry dizia que “o poema é uma duração, na qual, leitor, respiro uma lei que foi preparada”. Tem aquela importância, não só pelo notável simbolismo, muito influenciado pelo Mallarmé, mas por ter pensado a poesia, a linguagem, o que sustenta. Foi redator no Ministério da Guerra, trabalhou na Primeira Guerra Mundial, para, logo depois, ser aceito na Academia Francesa. Traduzir não é trair, embora a etimologia nos leve para essa máxima. Paul Valéry, 30 de outubro de 1871 a 20 de julho de 1945.
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HELÈNE
de Paul Valéry
tradução de Pedro Lago
Azul! Sou eu… Venho das grutas da morte
Escutar a onda se romper aos degraus sonoros,
E revejo as galés dentro das auroras
Ressucitarem da sombra ao fio dos ramos de ouro.
Minhas solitárias mãos chamam os monarcas
Cuja barba de sal divertia meus dedos puros;
Eu chorava. Eles cantavam seus triunfos obscuros,
E os golfos enterrados às popas de seus barcos,
Eu escuto as conchas profundas e os clarins
Militares ritmarem o vôo dos remos;
O canto claro dos remadores concatenam o tumulto,
E os Deuses, na proa heróica, exaltados,
Em seu sorriso antigo e que a espuma insulta
Levantam sobre mim seus braços indulgentes e esculpidos.
Baudelaire é aquela importância. Viveu apenas 46 anos, o suficiente para grifar tudo que veio depois dele, e cada vez que se volta à sua obra, seu escritor sobre arte, descobre-se que a coisa vai cada vez mais longe. “Bom poeta é aquele que tem boa memória” disse mais ou menos assim na ‘Invenção da Modernidade’. Os poemas em prosa são como crônicas antes da crônica. Só lendo. Hoje, 144 anos após sua morte, com as coisas caminhando para um cenário raso e acelerado, Baudelaire traz a necessidade do espanto, para as novas e velhas gerações. Charles-Pierre Baudelaire (Paris, 9 de abril de 1821 – Paris, 31 de agosto de 1867)
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LXXVII SPLEEN
de Charles Baudelaire
tradução de Pedro Lago
Eu sou como o rei de um país chuvoso
Rico, mas desamparado, jovem e ao mesmo tempo muito velho
Quem de seus mentores desdenha as reverências,
Se aborrece com seus cachorros como o faz com outros bobos.
Nada pode o alegrar, nem um animal de caça, nem um falcão
Nem seu povo morrendo em frente à sacada.
Do bufão favorito a grotesca balada
Não distrai mais a face deste cruel doente;
Sua cama ornada de flores de lis se transforma em túmulo,
E as damas do quarto de dormir, para quem todo príncipe é belo,
Não sabem mais achar o impudico toalete
Para gerar um sorriso deste jovem esqueleto.
O erudito que fê-lo ouro jamais pode
De seu ser remover o elemento corrompido,
E nestes banhos de sangue que os Romanos nos trouxeram
De cujos velhos tempos os poderosos se recordam,
Ele não soube aquecer este cadaver atordoado
Onde corre no lugar de sangue a água verde do Létes.
O diálogo entre as gerações é o que acho que mais fascinante em qualquer linguagem, não importa qual. Foi o que Victor Hugo disse sobre Chateaubriand: “ser Chateaubriand ou nada”. Mal sabia que seria fonte. Mal sabia que sua Notre-Dame de Paris, que seu Quasímodo, pegariam tanta gente boa. De jeito. Fato é que o século XIX foi essa vitória sobre o Échec de poètes que os franceses tanto falam. Victor Hugo ainda seria levantado às alturas pelos seus Misérables e tantos outros. Grandes homens, grandes mesmo. Victor-Marie Hugo (Besançon, 26 de fevereiro de 1802 – Paris, 22 de maio de 1885).
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À VIRGILE
de Victor Hugo
tradução de Pedro Lago
Ó Virgílio! Ó poeta! Ó meu mestre divino!
Venha, deixemos esta cidade ao grito sinistro e vão,
A qual é gigante e jamais fecha a pálpebra,
Esprema uma onda espumante entres seus flancos de pedra,
Lutécia, tão pequena nos tempos de seus Césares,
E que joga hoje, cidade cheia de charretes,
Sobre o nome estridente cujo mundo nomeia,
Mais clareza que Atenas, mais barulho que Roma.
Por você que nos bosques faz, como a água dos céus,
Cair de folha em folha um verso misterioso,
Por você cujo pensamento enche meu devaneio,
Encontrei, numa sombra onde ri uma erva florida,
Entre Buc e Meudon, num profundo esquecimento,
- E quando digo Meudon, suponho Tivoli! -
Encontrei , meu poeta, um vale verde
Nas encostas charmosas displicentemente místicas,
Retrato favorável aos amantes escondidos,
Feito de ondas dormentes e de ramos inclinados,
Onde o belo meio-dia banha em vão com seus raios sem número
A gruta e a floresta, frescos asilos de sombra!
Por você eu a procurei, uma manhã, orgulhoso, feliz,
Com o amor no coração e a madrugada nos olhos;
Por você eu a procurei, acompanhado daquela
Que sabe todos os segredos que minha alma esconde,
E quem, só comigo sobre os bosques hirsutos,
Seria minha Licoris se eu fosse seu Gallus.
Porque ela tem no coração esta flor larga e pura,
O amor misterioso de antiga natureza!
Ela ama como nós, mestre, estas doces vozes
Este barulho de ninhos felizes que saem dos sombrios bosques,
E, a noite, toda ao fundo do vale estreito,
As encostas derrubadas no lago que reverbera,
E, quando o poente triste perdeu seu rubor,
Os pântanos irritados dos passos do viajante,
E o humilde sapê, e o antro obstruído de erva verde,
E que lembra uma boca com o terror aberto,
As águas, os prados, os montes, os refúgios charmosos,
E os grandes horizontes cheios de brilhos!
Mestre! pois eis a estação das pervincas
Se você quiser, cada noite, afastando os galhos,
Sem despertar ecos em nossos passos ousados,
Nós iremos todos os três, quer dizer, todos dois,
Nesse valezinho selvagem e de solidão,
Sonhadores, nós surpreenderemos a secreta atitude.
Na parda clareira onde a árvore ao tronco nodoso
Toma a noite um perfil humano e monstruoso,
Nós deixaremos fumar, à costa de um Falso Ébano,
Algum fogo que se extingue sem pastor que o atiça
E, a orelha esticada à suas vagas canções,
Sobre a sombra, ao luar, a atravessar as moitas,
Ávidos, nós poderemos ver, furtivamente
Os sátiros dançantes que imitam Alfesibéia.
Esse mistério que veio do Uruguai, que escreveu em francês e, como muito se diz, foi precursor do surrealismo, o próprio Breton que disse. Pouco se sabe, mesmo, inclusive como era fisicamente. Há alguns desenhos, um deles, do Artaud. Escreveu Les Chants de Maldoror, onde diz “eu fiz um pacto com a prostituição, para semear a desordem entre as famílias”. Perdeu a mãe francesa com vinte meses de idade. Escolheu um nome para si, Conde de Lautréamont, talvez para homenagear o Marquês de Sade, cruzamento direto, mas, como saber? Fato é que, Lautréamont, é um animal feroz, sem exagero. Isidore Lucien Ducasse, Conde de Lautréamont – Montevidéu, Uruguai, 4 de abril de 1846 – Paris, 24 de novembro de 1870.
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VIEIL OCÉAN
de Lautréamont
tradução de Pedro Lago
Eu me proponho, sem ser de modo algum comovido, a entoar o canto sério e frio que vocês irão ouvir. Prestem atenção ao que ele contém, e guardem a impressão penosa que vocês não carecerão de deixar, como um estigma, dentro de suas imaginações perturbadas. Não creiam que eu esteja no ponto de morrer, porque eu não sou mais um esqueleto, e a velhice não grudou na minha face. Afastemos adequadamente toda a idéia de comparação com um cisne, no momento onde sua existência se evapora, e não vejam diante de vocês um monstro, do qual eu estou feliz que vocês não possam perceber a cara, mas menos horrível é ela que sua alma!… Entretanto eu não sou mais um criminoso… o bastante sobre este assunto. Há não muito tempo que eu revi o mar e andei até o cais, e minhas memórias estão vívidas como se eu as tivesse abandonado na véspera. Sejam, contudo, se vocês o podem, tão calmos quanto eu nessa leitura da qual eu já me arrependo de oferecer, e não ruborizem ao pensamento do que é o coração humano. Ah! Dazet! Tu, cuja alma é inseparável da minha; tu, o mais belo dos filhos da mulher, embora adolescente ainda; tu, cujo nome se parece ao maior amigo da juventude de Byron; tu em quem reúnem-se nobremente, como em sua residência natural, por um comum acordo, de um laço indestrutível, a doce virtude comunicativa e as graças divinas, porque não és tu comigo, teu peito contra o meu peito, sentados todos os dois sobre algum rochedo da orla, para contemplar este espetáculo que eu adoro.
Velho Oceano, as ondas de cristal, tu te pareces proporcionalmente a essas manchas azuladas que vemos sobre as costas feridas das espumas; tu és um imenso azul sobre os corpos da terra: eu amo esta comparação. Assim, ao teu primeiro aspecto, um sopro prolongado de tristeza, que acreditamos ser o murmúrio de tua brisa suave passa deixando inefáveis traços sobre a alma profundamente abalada, e tu chamas de volta a lembrança de teus amantes, sem que se perceba sempre, os rudes princípios do homem onde ele trava conhecimento com a dor que não o deixa mais. Eu te saúdo, velho Oceano!
Velho Oceano, tua forma harmoniosamente esférica, que alegra a face grave da geometria, não me lembra menos do que muitos dos pequenos olhos do homem, parecidos aos do javali para a pequenez, e aos dos pássaros da noite para a perfeição circular do contorno. No entanto, o homem acreditou-se belo em todos os séculos. Eu, suponho, antes de preferência, que o homem não acreditou em sua beleza apenas por amor próprio; mas que ele não é belo realmente e que ele disso duvida; senão por que ele observa a figura de seu semelhante com tanto desprezo? Eu te saúdo, velho Oceano!
Velho Oceano, tu és o símbolo da identidade: sempre igual a ti mesmo. Tu não varias de uma maneira essencial, e se tuas ondas estão em alguma parte em fúria, mais ainda em qualquer outra zona elas estão na calma mais completa. Tu não és como um homem, que para na rua para ver dois buldogues se agarrando no pescoço, mas que não para quando um funeral passa; que está nesta manhã acessível e nesta noite de mal humor, que ri hoje e chora amanhã. Eu te saúdo, velho Oceano!
Velho Oceano, não haveria nada de impossível no que tu escondes em teus seios de futuras utilidades para o homem. Tu já lhe destes as baleias. Tu não te deixas facilmente adivinhar pelos olhos ávidos das ciências naturais os mil segredos de tua íntima organização: Tu és modesto. O homem se gaba sem cessar e para as minúcias. Eu te saúdo, velho Oceano!
Velho Oceano, as diferentes espécies de peixes que tu alimentas, não juraram fraternidade entre elas. Cada espécie vive de sua parte. Os temperamentos e as conformações que variam em cada uma delas, explicam de uma maneira satisfatória; o que parece a princípio uma anomalia. É desse modo um homem que não possui os mesmos motivos de desculpa. Um pedaço de terra é ocupado por trinta milhões de seres humanos, os que se crêem obrigados em não se misturar na existência de seus vizinhos, fixados como raízes sobre o pedaço de terra que perseguem. Descendo do grande ao pequeno, cada homem vive como um selvagem dentro de sua caverna, e saem raramente para visitar seu semelhante agachado igualmente dentro de outra caverna. A grande família universal dos humanos é uma utopia digna da lógica das mais medíocres. Além disso, do espetáculo de tuas tetas fecundas emerge a noção de ingratidão, porque pensa-se imediatamente aos seus parentes numerosos demasiadamente ingratos para com o Criador para abandonar o fruto de sua miserável união. Eu te saúdo, velho Oceano!
Velho Oceano, tua grandeza material, não pode ser comparada ao cálculo que se fez do que foi necessário de força ativa para engendrar a totalidade de tua massa. Não se pode te beijar de lampejo. Para te contemplar, é preciso que a paisagem se transforme por um momento contínuo em direção aos quatro pontos do horizonte, igualmente a um matemático que no afã de resolver uma equação algébrica, examina separadamente diversos casos possíveis antes de determinar as dificuldades. O homem come substancias nutritivas e faz outros esforços dignos de uma melhor sorte para parecer alimentado: que ela se inche tanto que ela desejará, esta rã. Sejas tranqüilo, ela não te igualará em dimensão; eu acho, pelo menos. Eu te saúdo, velho Oceano!
Velho Oceano, teus olhos são amargos. É exatamente o mesmo gosto da bílis que destila a critica sobre as belas artes, sobretudo as ciências, sobretudo. Se alguém tem a genialidade sobre as ciências, faz-se passar por um idiota; se um outro alguém é belo de corpo, é um corcunda abominável. Certamente, é preciso que o homem sinta com força sua imperfeição, cujos três quartos, aliás, não devem menos que a ele mesmo, para a criticar assim! Eu te saúdo, velho Oceano!
Velho Oceano, os homens, apensar da excelência de seus métodos, não são ainda seguros, ajudados pelos meios de investigação da ciência, a medir a profundidade vertiginosa de teus abismos; tu que tens as sondas longas, as mais pesadas reconheceram-se inacessíveis. Aos peixes isto é permitido, não aos homens. Muitas vezes eu me questionei que coisa seria mais fácil a reconhecer: a profundidade do Oceano ou a profundidade do coração humano! Muitas vezes, com a mão ao alcance da testa, em pé diante dos navios, enquanto a lua se balançava entre os mastros de um jeito irregular, eu me surpreendi fazendo abstrações de tudo o que não era o fim que eu perseguia, me esforçando para resolver esse difícil problema! Sim, qual é o mais profundo, o mais impenetrável dos dois, o Oceano ou o coração humano? Se trinta anos de experiência de vida podem até certo ponto inclinar a balança para uma ou outra dessas soluções, me será permitido dizer que, apesar da profundidade do Oceano, não se pode igualar, quanto à comparação sobre esta propriedade, com a profundeza do coração humano. Eu estive em relação com os homens que foram virtuosos. Eles morreram aos sessenta anos, e cada um não deixava de se gabar: “Eles fizeram o bem sobre esta terra, quer dizer, ele praticaram a caridade: eis tudo, isto não é malicioso, cada um pode fazer tanto quanto” Quem compreenderá porque dois amantes que se idolatram na véspera, por uma palavra mal interpretada, se afastam, um em direção ao Oriente, o outro em direção ao Ocidente, com os aguilhões do ódio, da vingança, do amor e do remorso, e não se revêem mais, cada um coberto em seu orgulho solitário. É um milagre que se renova a cada dia e que não é menos miraculoso. Quem compreenderá porque aprecia-se não somente as desgraças gerais de seus semelhantes, mas também, as particularidades de seus mais queridos amigos, mesmo de seu pai e de sua mãe, ao passo que se aflige ao mesmo tempo? Um exemplo incontestável para concluir a série: o homem diz hipocritamente sim e pensa não. É por isso que os homens tem tanta confiança uns nos outros, e não são egoístas. Resta à psicologia mais progresso a fazer. Eu te saúdo, velho Oceano!
Velho Oceano, tu és tão poderoso que os homens o aprenderam as suas próprias custas. Eles fazem bom uso de todos os recursos de seu gênio…; incapazes de te dominar. Eles acharam seu mestre. Eu digo que eles encontraram alguma coisa mais forte que eles. É alguma coisa, um nome. Este nome é: O Oceano! O medo que tu os inspiras é tal que eles te respeitam. Apesar disso, tu fazes valsar suas mais pesadas maquinas com graça, elegância e facilidade. Tu os fazes dar saltos ginásticos, até o céu, e dar mergulhos admiráveis até o fundo de teus domínios: um saltimbanco ficaria com inveja. Bem aventurados são eles quando tu não os envelopa definitivamente em tuas camadas espumantes para ir ver, sem trilhos, em tuas entranhas aquáticas, como se portam os peixes, e sobretudo, como se portam eles-mesmos. O homem disse: “Eu sou mais inteligente que o Oceano” É possível, mas o Oceano a ele é mais abominável que ele ao Oceano: é o que não é necessário provar. Este patriarca observador, contemporâneo das primeiras épocas de nosso globo suspenso, sorriu de pena quando viu os combates navais das nações… Eis uma centena de leviathans que saíram das mãos da humanidade! A ordens enfáticas dos superiores, os gritos dos feridos, os tiros de canhão, é o ruído feito com o propósito de aniquilar alguns segundos… O drama termina, o Oceano colocou tudo em seu ventre! Oh! Essa garganta formidável!… Quão grande deve ela ser para baixo, na direção do desconhecido! Para coroar a estúpida comédia, que não é mesmo interessante, vê-se no meio dos ares alguma cegonha atrasada pela fadiga, que se põe a gritar, sem parar a envergadura de seu vôo: “Ei! acho que é ruim! Havia lá embaixo pontos negros. Eu fechei os olhos… eles desapareceram” Eu te saúdo, velho Oceano!
Velho Oceano, ó grande celibatário, quando tu atravessas a solidão solene de teus reinos fleumáticos, tu te orgulhas acertadamente de tua magnitude nativa, e os elogios verdadeiros que me apresso em te dar. Balanças voluptuosamente pelos brilhos suaves de tua lentidão majestosa, que é a mais grandiosa entre os atributos cujo soberano poder te gratificou, tu desenrolas, no meio de um sombrio mistério, sobre tua superfície sublime, tuas ondas incomparáveis com o sentimento calmo de teu poder eterno. Elas se acompanham paralelamente, separadas por curtos intervalos. Mal uma diminui, uma outra vai até ela se reencontrar crescendo, acompanhadas elo ruído melancólico da espuma. (desta forma os seres humanos, as ondas vívidas, extinguem uma após a outra de uma maneira monótona, mas sem deixar o barulho espumoso) O pássaro de passagem descansa sobre elas com confiança, e se deixa abandonar a seus movimentos cheios de uma graça orgulhosa, até que os ossos de suas asas tenham recuperado seu vigor acostumado para continuar a peregrinação aérea. Eu gostaria que a dignidade humana não fosse nada menos que uma encarnação do reflexo da tua; eu desejo muito. Este desejo sincero é glorioso para ti. Tua grandeza moral, imagem do infinito, é imensa como a reflexão do filosofo, como o amor da mulher, como a beleza divina do pássaro, com as meditações do poeta. Tu és mais belo que a noite. Responda-me, Oceano, tu queres ser meu irmão? Me agites com impetuosidade, mais… mais ainda, se tu quiseres que eu te compare à vingança de Deus; alongues tuas garras lívidas abrindo um caminho sobre teu próprio seio… é ótimo… Desenroles tuas ondas abomináveis, Oceano repugnante, compreendido por mim somente e diante do qual eu tombo, prosternado a teus joelhos. A dignidade do homem é emprestada; ele não me imporá um ponto. Tu, sim. Oh! Quando tu avanças a alta crista e terrível, cercada de tuas dobras tortuosas como de uma corte, magnetizador e feroz, rolando tuas ondas umas sobre as outras, com a consciência de que tu és, para que tu cresças das profundezas de teu peito, como que comovido de um remorso intenso que eu não pude descobrir, este surdo rugido perpétuo que os homens receiam tanto, mesmo quando eles te contemplam em segurança, trêmulos sobre a margem, então, eu vejo que ele não me pertence, o direito notável de me dizer teu igual. É porque na presença de tua superioridade, eu te daria todo o meu amor (e nulo não sabes a quantidade de amor que contem minha aspirações sobre o belo), se tu não me fizesses dolorosamente pensar aos meus semelhantes, que formam com ti o mais irônico contraste, a antítese mais bufônica que jamais se viu na criação: Eu não posso te amar. Eu te detesto. Porque volto a ti pela milésima vez, em direção a teus braços amigos que se entreabrem para acariciar meu rosto ardente, que vê desaparecer a febre em teu contato! Eu não conheço teu destino escondido: Tudo que te concerne me interessa. Digas para mim então se tu és a morada do Príncipe das Trevas. Dizes para mim, dizes para mim, Oceano (a mim somente para não entristecer os que ainda não conheceram nada menos que ilusões) e se o sopro de Satan criou as tempestades que agitam teus olhos salgados até as nuvens. É preciso que tu me digas, porque eu me alegraria em conhecer o inferno tão perto do homem. Eu quero que esta seja a última estrofe da minha invocação. Assim sendo, uma última vez de novo, eu quero te saldar e te fazer meus adeuses! Velho Oceano, as ondas de cristal… Meus olhos se molham de lágrimas abundantes, e eu não tenho a força de perseguir, pois eu sinto que o momento de voltar para entre os homens chegou, ao aspecto brutal: Mas; coragem! Façamos um grande esforço e terminemos com o sentimento do dever, nosso destino sobre esta terra. Eu te saúdo, velho Oceano!
A apropriação da imagem do Rimbaud pelo movimento punk é um reflexo bem interessante do que ele representa. Hoje, camisas são vendidas na França. Parece também que o “dia mundial do poeta” é comemorado no dia de seu aniversário, dentre muitas outras reverberações. Ecos. E pensar que não fosse pelo Verlaine, talvez, isso não ocorresse. Outra figura importante na divulgação da obra do jovem poeta de Charleville foi Ezra Pound. Rimbaud sofreu muito na mão dos padres de sua infância, suas prosas do início são lindas, menino da província explodindo em Paris, belo e rústico, poeta de técnica impressionante. Depois de explorar tudo, foi viver o corpo, viajou, ganhou dinheiro com armas, foi para a Àfrica, perdeu uma perna, coisas que todos sabemos. Rimbaud é desses poetas de substância concentrada, capaz de nos fazer mudar, ou mais. Jean-Nicolas Arthur Rimbaud, Charleville 20 de outubro de 1854 – Marselha, 10 de novembro de 1891.
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LE BATEU IVRE
de Arthur Rimbaud
tradução de Pedro Lago
Como eu descia os Rios Impassíveis,
Não me senti mais guiado pelos sirgadores.
Os Peles-Vermelhas berrantes os tinham pego para alvo
Tendo-os pregado, nus, nos postes de cores.
Eu estava inconsciente de toda a tripulação,
Carregador de trigo flamengo ou de algodão inglês.
Quando com meus sirgadores terminaram a algazarra
Os Rios me deixaram descer para onde eu queria.
Dentro dos marulhos furiosos das marés,
Eu, outro inverno, mais surdo que os cérebros das crianças,
Corri! E as Penínsulas desamarradas
Não sofreram confusões triunfantes.
A tempestade abençoou meus despertares marítimos.
Mais leve que uma rolha eu dancei sobre as marés
Que chamamos balanço eterno das vítimas,
Dez noites, sem prantear o óleo parvo das lanternas!
Mais doce que as crianças a carne das maçãs ácidas,
A água verde penetrou minha casca de pinho
E as manchas de vinhos azuis e os vômitos
E me lavou, dispersando leme e arpéu.
E desde então, eu me banhei dentro do poema
Do mar, infundido de astros e lactescente,
Devorando os azuis verdes; onde, na flutuação lívida
E cantante, um afogado pensativo às vezes desce;
Onde, tingindo subitamente os azuis delírios
E ritmos lentos sobre os rutilamentos do dia,
Mais fortes que o álcool, mais vastos que vossas liras,
Fermentando os ruivos amargos do amor!
Eu conheço os céus arrebentando em relâmpagos, e as trombas
E as ressacas e as correntes; eu conheço a noite,
A madrugada exaltada assim que um povo de pombas,
Eu vi às vezes o que o homem jamais acreditou ver!
Eu vi o sol baixo manchado de horrores místicos,
Iluminando do alto coágulos violetas,
Semelhante ao dos atores de dramas muito antigos
As ondas rolando ao longe seus frissons de persianas!
Eu sonhei a noite verde às neves ofuscantes,
Beijos subindo aos olhos dos mares com lentidão,
A circulação das seivas inauditas,
E o despertar amarelo e azul dos fósforos cantantes!
Eu segui, de mêses cheios, semelhantes às vacarias
Histéricas, o marulho ao assalto dos recifes,
Sem sonhar que os pés luminosos das Marias
Pudessem forçar o focinho aos Oceanos asmáticos!
Eu colidi, sabe você, de inacreditáveis Floridas
Misturando as flores dos olhos de panteras às peles
Dos homens! Dos arco-íris estendidos como as rédeas
Sobre o horizonte de mares, aos glaucos gados!
Eu vi fermentar os pântanos enormes, nassas
Onde apodreceu dentro dos juncos um inteiro Leviatã!
Os desabamentos de água ao meio das bonanças,
E os longínquos para os abismos cataratantes!
Geleiras, sóis de prata, marés de nácar, céus de brasas!
Fracassos hediondos do fundo dos golfos pardos
Onde as serpentes gigantes devoradas pelos percevejos
Caem das árvores tortas com negros perfumes!
Eu quereria mostrar às crianças esses dourados
Do mar azul, esses peixes de ouro, esses peixes cantantes,
- As espumas de flores abençoaram minhas enseadas
E os inefáveis ventos me fizeram voar por instantes.
Às vezes, martírio laçado dos pólos e das zonas,
O mar cujo soluço fazia meu balanço doce
Subiam sobre mim suas flores de sombras dos ventosos amarelos
E eu ficava, portanto, como uma mulher de joelhos…
Quase-ilha, sobre minhas bordas as querelas
E os excrementos dos pássaros gritantes aos olhos louros.
E eu vogava, quando através meus laços frágeis
De afogadas desciam para dormir, recuando!
Ora, eu, barco perdido sob os cabelos das ansas
Atirado pelo furacão no éter sem pássaro,
Eu cujos Monitores e os veleiros das Hansas
Não queriam pescar de novo a carcassa ébria da água;
Livre, fumando, embarcado de brumas violetas,
Eu que abri um buraco no céu avermelhando como um muro
Que traz, geléias delicadas aos bons poetas,
Liquens de sol e mucos do azul;
Que corria, manchado de lúnulas elétricas,
Prancha louca, escoltado de hipocampos negros,
Quando os julhos faziam desabar a golpes de porrete
Os céus ultramarinos aos ardentes funis;
Eu que tremia, sentindo choramingar à cinquenta lugares
O cio do Béhémots e dos Maelstroms espessos,
Fiandeiro eterno das imobilidades azuis,
Eu anseio a Europa dos antigos parapeitos!
Eu vi os arquipélagos siderais! e ilhas
Cujos céus delirantes são abertos ao navegante:
- São nessas noites sem fundo que você dorme e se exila,
Milhões de pássaros de ouro, ó futuro Vigor?
Mas, na verdade, eu chorei muito! As madrugadas são aflitivas,
Toda lua é atroz e todo sol amargo:
O acre amor me encheu de torpores inebriantes
Ah que minha quilha quebre! Ah que eu vá ao mar!
Se eu desejo uma água da Europa, é a leve
Negra e fria para o crepúsculo embalsamado,
Uma criança agacha cheia de tristeza, solta
Um barco frágil como uma borboleta de maio.
Eu não pude mais, banhado de vossa languidez, ó ondas,
Arrebatar suas esteiras aos carregadores de algodão,
Nem atravessar o orgulho das bandeiras e das flâmulas,
Nem nadar sob os olhos horríveis dos pontões.
Euclides da Cunha
No dia 20 de janeiro de 1866, nasce Euclides Rodrigues da Cunha, na Fazenda da Saudade, em Santa Rita do Rio Negro, atual Euclidelândia, no município de Cantagalo, Rio de Janeiro. Fillho de Manoel Rodrigues Pimenta da Cunha e Eudóxia Alves Moreira, o jovem foi batizado, apenas, no dia 24 de novembro. Entraremos, então, na obra poética, pouco difundida, deste grande escritor brasileiro. Evoé Euclides!
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EU QUERO…
Eu quero à doce luz, os vespertinos pálidos,
Lançar-me, apaixonado, entre as sombras das matas -
- Berços feitos de flores e de carvalhos válidos,
Onde a Poesia dorme, aos cantos da cascatas…
Eu quero aí viver – o meu viver funéreo,
Eu quero aí chorar – os tristes prantos meus…
E envolto o coração, nas sombras do mistério,
Sentir minh’alma erguer-se entre a floresta e Deus!…
Eu quero aí unir a voz de meus martírios
C’os trenos, que murmura a brisa nos palmares
- As lágrimas guardar, no seio azul dos lírios,
E os soluços no seio dos trêm’los nenúfares…
Eu quero, da ingazeira – erguida aos galhos úmidos,
Ouvir os cantos virgens – da agreste patativa…
Da natureza eu quero nos grandes seios túmidos
Beber a Calma, o Bem e a Crença – ardente, altiva -
Eu quero, eu quero ouvir o esbravejar das águas
Das ásp’ras cachoeiras que irrompem do sertão…
- E a minh’alma cansada – ao peso atroz das mágoas -
Silente adormecer no colo da solidão…
Em1868, nasce a irmã de Euclides, Adélia, no dia 9 de agosto. Um ano depois, o pequeno Euclides, com apenas três anos de idade, torna-se órfão de mãe, vítima de uma tuberculose. Com isso, em 1870, muda-se com a família para Teresópolis, no Rio de Janeiro, para a casa de seus tios Rosinda e Urbano Gouveia, porém, sua tia, Rosinda, que havia ocupado o posto de mãe em sua criação, também morre.
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O JAGUAR
Livre das selvas que trazes
Na garra – o pavor da terra,
No peito – as canções da guerra
Nos olhos – chamas audazes!
Quando convulso tu bramas
Nas brenhas – bravo, possante -
E o Sol te arranca, ofuscante,
Do olhar – punhados de flamas!…
Quando na raiva sem termos -
Povoas – fremindo forte
Com um poema de morte
A calma mudez dos ermos!;
Lembras o meu coração!…
Livre qual tu, qual tu forte
Freme, palpita sem norte
De meu peito na solidão!…
Salta – estaca – bravo, lesto
Cheio de amor e ódio, deixa
Uma blafêmia uma queixa
Um poema em cada esto…
Se a trevosa e fria vaga
Da desgraça nele bate
Ele blasfema am embate
Crê Satã e ruge a praga!
Jaguar! ida a raiva tua
Imóvel, calmo tu lavas
Do sangrento olhar as lavas
No argênteo clarão da Lua…
Meu coração – ida a dor
Chora e canta – entre a soidade -
- No saltério da saudade
A Eterna harmonia: – o amor!…
Depois da morte de sua tia Rosinda, em 1871, Euclides se muda para São Fidélis, no Rio de Janeiro, com a irmã e passa a morar com os tios Laura e Cândido José Magalhães Garcez, na Fazenda São Joaquim. Um ano depois, matricula-se no Colégio Caldeira, sob direção de Francisco José Caldeira, que era um pedagogo português. Em 1878, mais uma mudança, desta vez, para Salvador, Bahia, para, morar com a avó e passa a estuda no Colégio Bahia.
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OS GRANDES ENJEITADOS
Servis!… dançai, folgai – na régia bacanália…
Quadro-voz essa luz que nos raios espalha
A treva e o crime atrai!…
Valsai – nesse delírio atroz, brutal que assombra -
Folgai… a grande Luz espia-vos na sombra!
Folgai, cantai – valsai!…
Que vos importa – ó vis, caricatos atletas -
Se o povo dorme nu – nas lôbregas sarjetas -
Entre o pântano e os Céus!….
Q’importa se essa luz – faz as noites da História!
Q’importa se os heróis ‘stão entre a lama e a Glória
Entre a miséria e Deus!…
Q’importa-vos a dor; – a lágrima brilhante
Do seio dos heróis -, estrela palpitante
Que ao céu do porvir vai…
Q’importa-vos a honra, a consciência, a crença,
A justiça, o dever!?… ah! vossa febre é imensa! -
Folga, folgai, folgai!…
Q’importa-vos a Pátria…a pátria – é-vos um nome!….
Q’importa-vos o povo – esse galé da fome -
Ó cortesãos, ó rei!?
Se o olhar das barregãs, de amor e febre aceso
Vos ferve dentro d’alma – e se o direito é preso
Nessa grilheta – Lei!
Fazeis bem em rir – ó pequeninos seres…
O crime, o vício e o mal são os vossos deveres -
Avante pois – gozai…
Atufai-vos – rolai ó almas guarida -
No abismo fundo e frio – o seio da perdida!…
– Cantai… cantai, cantai!…
Gritai com força! assim… não percebeis agora
O eco de vossa voz?… – de vossa voz sonora -
Tremer na vastidão!?
Não ouvis as canções que o seu frêmito espalha?…
Ele desce de Deus – ó dourada canalha -
Ele é – Revolução!…
Em 1879, Euclides volta para a região fluminense para morar com seu tio paterno, Antônio Pimenta da Cunha, em uma chácara nas imediações do atual Largo da Carioca e matricula-se no Colégio Anglo-Americano. Em 1880, muda novamente de escola, agora frequenta os colégios Vitório da Costa e Meneses Vieira e faz os preparatórios. Em 1883, inicia estudos no Colégio Aquino sob a supervisão de Benjamin Constant. Com alguns colegas, passa a editar o periódico mensal ‘O Democrata’ lançado em 1884, no qual Euclides publicará seu primeiro trabalho em prosa. Também declama poemas no Centro José de Alencar. São dessa época seus primeiros poemas.
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AO CLARÃO DAS FORJAS
Ó fronte varonil – brônzea, dominadora
Que a palpitante luz das fornalhas aclara…
- Alma – altiva e viril, como o bronze – sonora,
Tão rija como o aço e como as forjas – clara!…
Combatente da paz nas lutas do trabalho,
Tu – que ani’las com o olhar – a fome tenebrosa;
E fazer teu porvir – com o ferro, o fogo e o malho
- Dá-me esta áspera mão dá-me esta mão calosa!…
Esta ásp’ra mão robusta, ardente, válida – esta
Mão – que os malhos levanta e, esplêndida à vibrá-los
- Férrea e grande – produz do progredir a orquestra!
- Dá-me esta mão que veste – uma luva de calos!…
E deixa te dizer em cálida linguagem
Ígnea – como o suor – com o qual a fronte adornas -
Como tu’alma – brava, intérmina, selvagem -
- Ásp’ra como a canção sonora das bigornas…
Não invejes – jamais – aos que a sorte fagueira
As frontes osculou descendo um áureo traço -
Eles têm o futuro e a crença – na algibeira -
Tu – tens a crença n’alma – e o futuro – em teu braço.
Em 1885, Euclides entra na Escola Politécnica no Largo de São Francisco no Rio de Janeiro. Um ano depois assenta na Escola Militar da Praia Vermelha como cadete número 308, estundando com Cândido Rondon e Tasso Fragoso. Datam desta época, poemas filosóficos e melancólicos. Passa a colaborar com artigos e poemas na Revista da Família Acadêmica editada pelos alunos da Escola Militar. Porém, um incidente mudaria seu percurso.
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VIAM-NO SEMPRE A DIVAGAR TORVADO
Viam-no sempre a divagar torvado
Pelas tabernas vos, – sempre seguido
De um velho cão famélico e ferido,
Bêbado – impuro, torpe e enlameado…
Veio afinal o inverno amaldiçoado!…
No negro quarto o homem enf’recido
E o cão vacilam ante empedernido,
Vil pedaço de pão – duro e gelado…
Ambos têm fome… torvo – lutulento
Ao pão gelado o miserável corre
E atira-o ao companheiro famulento
Do quarto os cantos a tatear percorre
Erguendo uma garrafa – esgota-a lento
E cambaleia e cai e arqueja e – morre!…
Há duas versões para o incidente da Escola Militar de 1888. O primeiro foi que os alunos do terceiro ano, que não haviam recebido promoção, segundo a lei, para o posto de alferes-alunos, dentre eles, Euclides, organizaram um manifesto aberto diante o Ministro da Guerra do Império, Tomás Coelho, para quando visitasse a escola. A segunda versão conta que os alunos aguardavam para assistir ao desembarque de Lopes Trovão, que voltava da Europa. A questão é que uma visita regulamentar de Tomás Coelho foi marcada no mesmo dia para impedir os alunos de irem ao desembarque. Pois bem, durante o desfile, Euclides saiu da forma, e em vez de levantar seu sabre-baioneta de sargento em saudação, tenta quebrá-lo no joelho, joga-o no chão e profere palavras de protesto. Por isso, é preso, expulso da escola, considerado “doente dos nervos”, e se recusa a mentir no depoimento para aliviar sua pena. É expulso do exército e vai para São Paulo, onde começa a escrever para o jornal ‘A Província de S. Paulo’.
O poema Corpo Aberto aqui http://pedrolago.blogspot.com
A RIR
Eu já não creio mais… sombrio e calmo enfrento
- O lábio ermo da prece; o peito ermo da crença -
A estrela – rubra e imensa
De meu destino atroz, aspérrimo e sangrento!…
E embora sobre mim flamívoma suspensa
Em minh’alma os clarões fatais ela concentre
Eu suporto-lhe bem o flamejante baque
- Altivamente calmo – entricheirando-me entre
Uma canção de Byron
E um cálix de cognac…
- Não há dor que resista ao som de uma risada! –
Depois – se me exacerbo
E tremo e choro erguendo a prece à alma magoada
Mais me dói essa dor, mais esse mal é acerbo!
Assim – eu resolvi, indiferente e frio
Cheio de orgulho e spleen – como um banqueiro inglês!
Sepultar na ironia o pranto meu sombrio…
Por isso quando atroz na triste palidez
De minha fronte paira amarga ideia – eu rio!…
E quando pouco a pouco
Essa ideia me abate e vence-me alterosa
De amargores repleta – eu rio como um louco…
E se ela inda dói mais e forte e tenebrosa
Sói a último idela de minh’alma aniilar
E vencer-me de todo
Então – eu me ergo mais – e desvairando o olhar
– Divinamente doido -
Eu rio, rio muito e rio – até chorar!…
Em 1889, Euclides volta ao Rio de Janeiro e presta exames para a Escola Politécnica. No dia 16 de novembro, chega-lhe a notícia da proclamação da República. No mesmo dia, visita o major Solon Ribeiro, e participa de uma reunião em sua casa. Euclides, enfim, é reintegrado ao exército graças ao apoio do novo Ministro da Guerra, seu antigo mestre, Benjamin Constant. Dois dias depois é promovido a alferes-aluno. Publica em ‘A Província de São Paulo’ uma série de oito crônicas intitulada ‘Atos e Palavras’. Seu trabalho com as crônicas se estende, e Euclides assina mais quatro crônicas no mesmo jornal.
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RIMAS
Ontem – quando soberba escarnecias
Dessa minha paixão – louca – suprema
E no teu lábio essa rosada algema
A minha vida – gélida – prendias…
Eu meditava em loucas utopias
Tentava resolver grave problema…
- Como engastar tu’alma num poema? -
E eu não chorava quando tu rias…
Hoje – que vives desse amor ansioso
E és minha – és minha, extraordinária sorte,
Hoje eu sou triste sendo tão ditoso!…
E tremo e choro – pressentindo – forte
Vibrar – dentro em meu peito, fervoroso
Esse excesso de vida – que é a morte…
Em 1890, Euclides matricula-se na Escola Superior da Guerra, no dia 8 de janeiro, e completa, em 11 de fevereiro, o curso de artilharia. Não demora muito a ser promovido a segundo-tenente e, em seguida, oficial do Batalhão Acadêmico. No dia 10 de setembro do mesmo ano, Euclides casa-se com Ana Ribeiro, ou “Saninha”, filha do major Solon Ribeiro. No ano seguinte, recebe um mês de licença para tratamento de saúde e vai para a Fazenda Trindade, de seu pai, em São Paulo. Quando se prepara para fazer os cursos de Estado-Maior e Engenharia Militar na Escola Superior de Guerra, morre sua primeira filha, Eudóxia, semana depois de seu nascimento.
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OS LEMURES
Ó minha musa – imaculada e santa!
Deixa um momento os sonhos teus benditos
Despe os teus véus de noiva do ideal
Deixa-os, despe-os e canta
Sobre as ruínas trágicas do mal
As almas arruinadas dos malditos!…
Em 1892, Euclides conclui os cursos de Estado-Maior e Engenharia Militar na Escola Superior de Guerra e é promovido a tenente do Estado-Maior. Começa a colaborar com O Estado de São Paulo sob o pseudônimo de José Dávila com crônicas. Em novembro deste ano nasce seu primeiro filho Solon e começa a trabalhar na Estrada de Ferro Central do Brasil no trecho entre São Paulo e Caçapava depois de ter solicitado posto a Floriano Peixoto. Em dezembro do ano seguinte, 1893, durante a Revolta da Armada, Euclides é designado a servir provisoriamente na Diretoria de Obras Militares para dirigir a construção de trincheiras no Morro da Saúde, no Rio de Janeiro.
Pedro Lage em http://cartilhadepoesia.wordpress.com
ESTANCIAS
Les beaux yeux sauvent beaux vers!…
V. Hugo
Meu pobre coração tão cedo aniquilado
Na ardência das paixões – ó pálida criança -
Revive à doce luz do teu olhar magoado
E cheio de ilusões, de crenças e esperança
Faz o castelo ideal das louras utopias
- Com os brilhos desse olhar e o ouro de tua trança! -
Quando sobre as sombrias
Ondas – vasto luar esplêndido se espalma
De todo o seu negror, arranca as ardentias
De teu olhos assim à luz divina e calma
Dimanam – cintilando – as ilusões e os versos
Das sombras de minh’alma…
E sonho e canto e rio e me deslumbro… imersos
- No místico luar que sobre mim derramas -
Fulguram como sóis meus ideais dispersos!…
Fulguram como sóis – entre sonoras flamas -
Partindo no meu peito a tétrica penumbra
E o silêncio fatal de dolorosos dramas…
E tudo hoje antes tem luz, tem voz – deslumbra -
Pois – tal como um ideal – uma canção ressumbra -
E em cada uma canção – o teu olhar cintila…
Em 1894, Euclides publica um polêmico artigo na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, replicando o modo punitivo sugerido para a execução dos prisioneiros pelo senador florianista João Cordeiro, do Ceará, durante a revolta da Armada. Os protestos, porém, surtiram efeito contrário e houve desconfiança dos militares que o afastaram, pouco a pouco do campo da ação. Floriano Peixoto e outros jacobinos não o apoiam mais. Ao fim da revolta, é transferido par Campanha, em Minas Gerais, para a reforma do prédio da Santa Casa de Misericórdia. Este período é marcado por estudos. No dia 18 de julho do mesmo ano, nasce seu segundo filho, Euclides, o Quindinho.
A lua em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
D. QUIXOTE
Assim à aldeia volta o da triste figura
Ao tardo caminhar do Rocinante lento;
No arcabouço dobrado um grande desalento,
No entristecido olhar uns laivos de loucura.
Sonhos, a glória, o amor, a alcantilada altura,
Do ideal e da fé, tudo isto num momento,
A rolar, a rolar, num desmoronamento,
Entre risos boçais do bacharel e o cura.
Mas certo, ó D. Quixote, ainda foi clemente,
Contigo a sorte ao pôr neste teu cérebro oco,
O brilho da ilusão do espírito doente;
Porque há cousa pior: é o ir-se pouco a pouco
Perdendo qual perdeste um ideal ardente
E ardentes ilusões e não se ficar louco.
Em 1896, Euclides, já reformado do exército, retorna a São Paulo, onde é nomeado engenheito-ajudante de primeira classe da Superintendência de Obras Públicas do Estado de São Paulo. Neste momento, estreita laços de amizade com Gonzaga de Campos, Teodoro Sampaio e Bueno Andrade. Visita várias cidades do interior paulista, e sobretudo, São José do Rio Pardo. Em novembro deste ano, irrompe o movimento de Canudos.
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PÁGINA VAZIA
Quem volta da região assustadora
De onde eu venho, revendo inda na mente
Muitas cenas do drama comovente
Da Guerra despiedada e aterradora,
Certo não pode ter uma sonora
Estrofe, ou canto ou ditirambo ardente,
Que, possa figurar dignamente
Em vosso Álbum gentil, minha Senhora.
E quando, com fidalga gentileza
Cedestes-me esta página, a nobreza
Da vossa alma iludiu-vos, não previstes
Que quem mais tarde nesta folha lesse
Perguntaria: “Que autor é esse
De uns versos tão mal feitos e tão triste”?!
Em 1897, Euclides publica “Distribuição dos Vegetais no Estado de São Paulo” em O Estado de São Paulo no mês de julho. No mesmo mês, saem a primeira e a segunda parte do primeiro ensaio sobre a guerra de Canudos, “A Nossa Vendéia”. A convite de Júlio Mesquita, proprietário d’O Estado de São Paulo, Euclides aceita realizar reportagem sobre a guerra de Canudos, agregando-se à comitiva militar do Ministro da Guerra, Marechal Bittencourt. Parte de navio para Salvador e passa 23 dias na casa de seu tio, observando os acontecimentos pelos jornais e enviando artigos para São Paulo.
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NESTES TRES DIAS ESPLENDIDOS
Neste três dias esplêndidos
Em que o Prazer tudo arrasa
Desde o cristão ao ateu,
Quem se sente neurastênico
Faz como eu,
Fica em casa.
No dia 30 de agosto de 1897, Euclides deixa o Rio de Janeiro para iniciar a grande jornada pelo sertão baiano: Alagoinhas, Queimadas e Monte Santo, onde chega no dia 6 de setembro e de onde parte no dia 13, para chegar a Canudos no dia 16. Ali escreve as primeiras notas de Os Sertões. Terminada a guerra, parte para o arraial logo em seguida, para depois de dias no local, voltar ao Rio de Janeiro. No início de 1898, assume seu cargo na Superintendência de Obras Públicas de São Paulo. Em janeiro aparecem os primeiros textos públicos de Os Sertões n’O Estado de São Paulo.
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NOTA PROSAICA
Sábio… o título diz que a fantasia
do Juvenal mineiro é vasta; fá-lo
ver em mim a quem só em nome igualo:
o venerando avô da geometria…
Desculpo-o. Quem com tanta galhardia
ergue uma fronte branca feita em halo,
ou nimbo, que nos leva a venerá-lo,
tem jus à mais perfeita cortesia.
Que passe, pois, o sábio; e que os tercetos
(versos de prosador que os faz tão mancos)
Acabem o mais feio dos sonetos,
num cumprimento e nos aplausos francos
de uma velhice de cabelos pretos
à mocidade de cabelos brancos!
Em 1899, em São José do Rio Pardo, Euclides tem o auxílio de Francisco Escobar, um amigo, que disponibiliza sua biblioteca para consulta enquanto Euclides faz crescer o texto de Os Sertões. Nesta época publica o artigo “A Guerra no Sertão” na Revista Brazileira. Em maio de 1900, pede a José Augusto Pereira Pimenta, cabo do destacamento local, para passar a limpo o manuscrito de Os Sertões. Publica o artigo “As Secas do Norte” no Estado de São Paulo. Seu grande livro estaria muito próximo de sair, porém, enfrentaria alguns percalços.
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LE?… NÃO LE. AQUELE AR NÃO É POR CERTO
Lê?… Não lê. Aquele ar não é por certo
De quem medita. É o ar de quem atrai.
E se qualquer de nós, naquelas praias,
Aparecesse, quedaria incerto.
Sem saber distinguir quem mais nos trai
- Entre a insídia de uma onda ou de um afago
Se o velho mar misterioso e vago,
Ou esse abismo de roupão e saia!
Em 1901, nasce, em São José do Rio Pardo, seu terceiro filho, Manuel Afonso. Em dezembro deste ano, após passar um período no interior de São Paulo, Euclides segue para o Rio de Janeiro, com os originais de Os Sertões. É encaminhado para a Livraria Laemmert cujo editor não se interessa pela obra. Euclides então resolve custear parcialmente a primeira edição do livro, pela qual paga um conto e quinhentos mil-réis. Em janeiro de 1902, recebe as primeiras provas do livro. Nos primeiros dias de dezembro deste ano, Euclides recebe carta da editora saudando-o pelo sucesso do livro. A primeira edição esgotara em poucas semanas. O livro fora bem recebido pelos críticos da época, Araripe Júnior, José Veríssimo e Sílvio Romero.
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SE ACASO UMA ALMA SE FOTOGRAFASSE
Se acaso uma alma se fotografasse
De modo que nos mesmos negativos
A mesma luz pusesse em traços vivos
O nosso coração e a nossa face;
E os nossos ideais, e os mais cativos
De nossos sonhos… Se a emoção que nasce
Em nós, também nas chapas se gravasse
Mesmo em ligeiros traços fugitivos.
Poeta! tu terias com certeza
A mais completa e insólita surpresa
Notando, deste grupo bem no meio,
Que o mais belo, o mais forte e o mais ardente
Destes sujeitos, é precisamente
O mais triste, o mais pálido e o mais feio…
No dia 9 de junho de 1903, Euclides lança a segunda parte de Os Sertões. Uma crise orçamentária motivada pela crise do café fez com que o Governo cortasse verbas destinadas à construção e melhoramentos de obras públicas, e por isso, Euclides deixa o posto, obrigado. Porém, no dia 21 de setembro, Euclides é eleito por uma margem de 41 votos, membro da Academia Brasileira de Letras, na cadeira de Valentim Magalhãe, cujo patrono é Castro Alves.
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DESPEDIDA
No momento cruel da despedida,
Gelado o lábio, mudo, hirto, sem ar,
Eu vi sua alma, de ilusões despida,
Tremer à luz de seu tão triste olhar.
E eu não chorei… Seu peito – a alva guarida
De minha alma – chorava em doudo arfar…
E eu não chorei, mas eu senti a vida
Das lágrimas ao peso se curvar!…
Saí, andei, corri, parei cansado.
Voltei-me e longe, longe eu vi asinha
- Garça de amor fugindo pr’a o passado
Branca, pura, ideal, – sua casinha -
E as lágrimas de amor deixei – domado -
Constelarem da dor a noite minha!
Em janeiro de 1904, Euclides é nomeado engenheiro-fiscal da Comissão de Saneamento de Santos, porém, após três meses, por causa de um desentendimento com o gerente da City of Santos Improvements, Hugh Stenhouse, e com Eugênio Lefreve, diretor da Secretária de Obras Públicas, pede demissão. Na falta de dinheiro, volta a escrever para O Estado de São Paulo. Logo depois, Euclides, por indicação, é nomeado chefe de Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus, que estabeleceria a fixação limítrofe entre Brasil e Peru. Nesta oportunidade, conhece o Barão do Rio Branco.
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A CRUZ DA ESTRADA
Ah! que de vezes quando no ar desfila
A treva, e as sombras a amplidão negrejam
E das estrelas que no céu palejam,
O vasto poema aos pés de Deus cintila.
E mil perfumes as campinas pejam
E da floresta o coração destila
Um vago som que em nosso ser instila,
Gerando sonhos que em noss’alma adejam.
Quando há na terra uma magia imensa
Eu – que não tenho a vida d’alma – a crença
Nem uma prece que divina sagre-ma.
Eu (oh! dizei-me o que a solidão exprime!)
Eu rezo um nome – Minha mãe! – sublime
E me ergo a Deus nos brilhos de uma lágrima.
Em 1905, Euclides parte para Manaus para o Purus. Lá contrai forte impaludismo. Em julho deste ano ocorre o banquete de Curanja, em homenagem à duas comissões, onde Euclides discursa lamentando a ausência da bandeira brasileira. Em 1906, volta ao Rio de Janeiro e torna-se adido do Barão do Rio Branco. Publica o artigo “Entre os Seringais” e o “Relatório da Comissão Mista Brasileiro-Peruana de Reconhecimento do Alto Purus. Em julho, nasce quarto filho, Mauro, da esposa com Dilermando de Assis. A criança veio a falecer uma semana depois do nascimento. Em dezembro, toma posse na Academia Brasileira de Letras tendo sido recebido por Sílvio Romero.
Tatu com Tabasco em http://equivocos-pedrolago.blogspo.com
AMOR ALGÉBRICO
Acabo de estudar – da ciência fria e vã
O gelo, o gelo atroz – me gela ainda a mente
Acabo de arrancar a fronte minha ardente
Das páginas cruéis de um livro de Bertrand.
Bem triste e bem cruel de certo foi o ente
Que este Saara atroz – sem auras, sem manhã
A Álgebra criou – a mente a alma mais sã
Nele vacila e cai sem um sonho virente…
Acabo de estudar e pálido, cansado
Dumas dez equações os véus hei arrancado…
Estou cheio de spleen, cheio de tédio e giz
É tempo, é tempo pois de trêmulo ansioso
Ir dela descansar no seio venturoso
E achar de seu olhar o luminoso X!…
Euclides passa todo o ano de 1907 sem cargo fixo, aborrecido, mantendo-se de favores. Em novembro, nasce quinto filho, Luís, de sua esposa com Dilermando. Sua tuberculose volta a se manifestar. Em dezembro presta conferência sobre Castro Alves. Em maio de 1909, presta concurso para a cadeira de Lógica no Ginásio Nacional, onde hoje é o Colégio Pedro II. Fica em segundo lugar, atrás de Farias Brito, porém, Euclides renuncia meses depois.
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MEU POBRE CORAÇÃO TÃO CEDO ANIQUILADO
Meu pobre coração tão cedo aniquilado
Na ardência das paixões, ó pálida criança,
Revive à doce luz do teu olhar magoado;
E cheio de ilusões, de crenças e esperança,
Faz o castelo ideal das loiras utopias
Com a luz do teu olhar e o ouro de tua trança.
Quando pelas sombrias
Ondas do oceano o luar vastíssimo se espalma,
De todo o seu negror desprende as ardentias.
De teus olhos, assim, à luz divina e calma,
Dimanam, fulgurando, as ilusões e os versos
Das sombras da minha alma…
Euclides chega a dar dez aulas na cátedra de Lógica do Ginásio Nacional quando é morto tragicamente com quatro tiros por Dilermando de Assis, amante de sua esposa, na casa número 214 da Estrada Real de Santa Cruz, estação da Piedade, hoje, Quintino Bocaiúva, subúrbio do Rio de Janeiro. Seu enterro foi realizado no cemitério São João Batista, recebendo sua sepultura o número 3.026. Nesta época, Euclides morava em Copacabana. Deixou uma resenha incompleta sobre o Barão Homem de Melo e de Francisco Homem de Melo. Seus restos mortais se encontram em São José do Rio Pardo, São Paulo, e em Cantagalo, Rio de Janeiro. Ficamos por aqui, até a próxima, beijo grande.
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VOLTA À ALDEIA
E assim à aldeia torna el da triste figura.
Acabrunhado e triste, exangue e macilento
Na acorvada postura – em torno desalento
No desvairado olhar – um laivo de loucura.
Dias de Glória! Ideais! A alcantilada altura
De um sonho! Nada mais resta de tal intento.
Essa nossa carcaça vil – o Rocinante lento
E amigos carnais – o bacharel e o cura…
Feliz Herói! Que importa o riso mau das gentes
Se ele não sói entrar dentro de um crânio oco
Repleto das visões dos cérebros doentes…
Há uma coisa pior que é ir-se a pouco a pouco
Perdendo qual perdeste – ideais grandes e ardentes
E ardentes ilusões – e não ficar-se louco!
Pedro Lage
Antônio Pedro Marinho Lage nasceu no dia 7 de março de 1952, no bairro de Botafogo no Rio de Janeiro. Começou o jardim da infância no colégio Santa Rosa de Lima, em Botafogo, vizinho de muro da casa de seu avô, onde passou parte de sua infância. Sua avó materna era grande leitora de Proust, Tolstoi e Machado de Assim, e foi quem o introduziu na leitura ainda na tenra infância. Neste mês, passaremos pela poesia do poeta Pedro Lage.
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BATEFORTE
as palavras, como usar?
como ousar dizê-las ternas
no sopro dos meus lábios untados aos teus?
trêmulas, não convencerão:
soarão desculpas, parecerão ridículas,
perecerão em teus olhos noturnos.
teu riso franco as dispersará,
tufão incrédulo sobre a cidade.
as frases cairão imprecisas,
na fuga das águas de um rio,
perdidas no mar.
prefiro o gosto úmido silêncio:
o sentimento, morena,
palavra alguma jamais pode alcançar.
Boa semana!
Foi sua avó quem o introduziu na literatura. Conhecia Paschoal Carlos Magno, poeta, dramaturgo e crítico de teatro. Sua avó o apresentou também ao poeta Manuel Bandeira, numa feira de livros na Cinelândia quando tinha seus dez anos. Pedro, nesta ocasião, perguntou ao poeta: “O senhor foi mesmo para Pasárgada?” Lugar mítico que se tornaria real, quando, aos vinte e cinco anos, Pedro visitaria, Pasárgada, a real, próxima a Isphahan, no Irã, numa viagem pela Eurásia, mas isso, é depois.
Elegia a José de Alencar Adnet Filho em http://pedrolago.blogspot.com
RESÍDUO
a Ruthinha
trago comigo a saudade levo
loura carrego seu peso meço
jamais me esqueço do meu amor
seus traços de sol escuros
roubam o clarão da Lua
na tela da noite fulva
fulmina bate depressa
escravo – meu coração!
Seu avô se chamava José. Era industrial de café. Sua avó, Olga. Seus pai se chamavam Antônio e Carmen, que, além de Pedro, tiveram, Toninho, Olga e Nena, essas duas, mais velhas. Toninho, aos seis anos, prematuramente, faleceu de câncer, e assim, a via seguiu com três irmãos. A casa dos avós era grande, ficava na Voluntários da Pátria, e lá, Pedro, gostava de descobrir esconderijos. Brincava também com suas primas, Mônica, que adorava cantar marchinhas, e Susie. Pedro gostava de jogar bola com o pai e no colégio Santo Inácio, e não tardaria a descobrir uma de suas grandes paixões, o Botafogo.
Paulo Mendes Campos aqui http://cartilhadepoesia.wordpress.com
COZINHA
ao Charles
no hospital há uma sala trancada
proibida a entrada
o brinquedo ali dentro custou ao governo
mais de seis milhões
os doentes não podem ousar o rim eletrônico;
enquanto isso, falta sonda na enfermaria sete
o velhinho, todo nu, agarra-se
às grades da cama, tonto, com medo do
tombo.
Pedro Lage tinha uma madrinha que se chamava “Tia Mary”. Era botafoguense. Levou-o para ver a final do carioca de 57. Botafogo e Fluminense, com direito a Mané Garrincha. Seis a dois para o Botafogo. Dalí em diante, Pedro Lage se tornou alvinegro. Frequentou o Maracanã até 71, quando, viu o Botafogo perder para o mesmo Fluminense “com gol roubado de Lula aos 44 do segundo tempo”. O futebol ficou apenas no colégio Santo Inácio.
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ARREBATE D’AMOR
ao Cacaso
permito-me arremeto fronde
enfrento a fonte de tuas águas
bebo seus sucos
nas narinas teus vapores
fluidos fardos deste amor
maior que todos os amores.
Pedro Lage terminou o segundo grau no Colégio Santo Inácio, onde, em 1970, lidera o motim estudantil da turma de medicina do terceiro ano colegial, em que treze dos trinta e cinco estudantes trocaram o curso pelo Miguel Couto. No Santo Inácio conheceu o poeta Luiz Olavo Fontes, o músico Arnaldo Brandão, o jornalista José Castello, o filósofo Guy van de Beuque, Gustavo Schnor, Antônio Luiz Salgado, Manoel Correia do Lago, e seu grande amigo Antônio Quinet. Naquele tempo, as meninas estudavam no Sion, e as festas de fim de semana, no Clube do Botafogo e no Olímpico, era o que se poderia fazer para encontrá-las.
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ESQUINA
manhã, sol forte, a prática é o critério da verdade
nasce a noite, vai-se a vida rebolando pr’outra parte
nem vale a pena pensar sem malícia e agilidade
tudo pode acontecer? não, tudo irá.
olhos abertos, mãos ávidas agarram-se ao mundo:
o amor e seus cabelos, as ilusões, o coração aprisionado.
o medo existe para ser vencido.
olhar as crianças e aprender o que não foi ensinado.
ensinar? sim… mas, quando?
E saber que, mais cedo ou mais tarde,
nem tudo vai dar errado.
Embora já tivesse aparecido como poeta em recitais/performances em 1972, Pedro Lage publicou seu primeiro livro, ‘Vai que vai’, em 1976. Com ilustrações de Anamaria Caravalho, o livro foi lançado na Oficina de Artes do prof. Hélio Rodrigues. Nesta época, Pedro frequentava o Pedro Lage, onde conheceu muita gente, teve aulas de cinema com Sérgio Santeiro e fez pequenos filmes de animação e aprendeu a discutir todo tipo de assunto. Tempo de formação.
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DESVENTURA
a Manuel Bandeira
janela aberta em meu quarto
brilha a luz de outra noite
eu não compreendo
tento olhar através de seus olhos
descobrir o que se passa
uma estrela, talvez, um amigo,
ou apenas o céu, o mistério infinito . . .
queria encontrar Juquinha sorrindo pra mim
deixar a tristeza de lado, queria voar…
mas a janela é bem alta e, assim, permaneço
com as costas cravadas na palha dura do catre.
somente uma luz me penetra: a luz fria de outra noite
que bebe tranqüilamente mais um pedaço de minha paixão.
Pedro chegou a frequentar a efervescência do Pier de Ipanema. Ficava perto da Laura Alvim. Porém, o lugar onde Pedro, de fato, estendeu sua gama de relações foi no Sol Ipanema. Na época em que publicou seu primeiro livro, Pedro frequentava a casa do Cacaso, onde se reunia uma rapaziada “da pesada”: Charles, Lui, Bia Carneiro, Massoca Fontes, Tony Lins, Chico Alvim e muitos outros. Nesta mesma época saiu a coletânea ’26 poetas hoje’, de Heloisa Buarque de Holanda, que Pedro veio a conhecer meses depois em São Paulo num evento de poesia no Theatro Municipal.
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ENQUANTO TERESA DORME
nasce a estrela fugitiva de outros universos
anunciando o final dos tempos
toca um cambalache doido, explode a guerra
passa a carruagem azul repleta de foragidos
e os corações das ruas estremecem em bombain
sentados na galáxia estrema
dois homens mortos conversam sobre a vida
um incêndio intenso toma conta do pensamento
do mundo, o nada se transforma em cor
as praias de mindano acordam com o maremoto
e as criancinhas fogem apavoradas
o reino do krenkrokren prepara-se para a sesta
um padre vira morcego
a faca mais-que-prateada cruza o espaço exterior
e vai cravar-se no peito da ursa-menor
em passadena os cientistas constroem a centopéia atômica
que irá sondar as rugas dos anéis de saturno
e uma animada partida de hóquei sobre patins
tem lugar nos pátios das escolas de pequim
um pingue-pongue de raios espouca por todos
os lados e as nove escolas-de-samba invadem
de uma só vez todas as avenidas
a lua desfalece sôfrega neste céu americano
e ruma para o japão, enquanto o sol,
vindo de angola, surge e ilumina
é quando teresa acorda,
estremunha quentinha na cama e, tranquila,
caminha nas areias de ipanema
pensando no amor que lhe apressa o coração.
Em 1976, Pedro Lage vai para São Paulo com um grupo de poetas para se apresentar no Theatro Municipal. Tratava-se do Encontro de Arte e Poesia. Nesta época, Pedro já se apresentava com a Nuvem Cigana. O clima não estava muito amigável. Chacal, Xico Chaves, Tavinho Paes, Charles Peixoto. No meio de uma vaia que acontecia, em virtude de um pedido de “um minuto de barulho” do Xico Chaves, Tavinho Paes entrou no palco e mijou. Logo depois, Pedro, entrou com Charles e cada um disse um poema. Em meio às vaias, alguns aplausos.
No calor da hora http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
ÀS CAGARRAS
Hoje, o dia anda cinza e chuvoso.
Não a esperei para o almoço, aliás, nada comi.
O Rio, cidade outrora maravilhosa, chora,
perseguido por fantasmas e temporais.
Já quase nem posso escrever-lhe,
nada lhe posso adiantar além de minha loucura.
Minha mão rouca dispara palavras que nada dizem.
A vida, impassível, se ausenta, e apenas o frio
desta noite sensata me entristece demais.
O tempo escorre, macio, implacável,
envolto em seu manto de quasar…
Não sei como isto vai terminar, continuo aflito.
E, ainda, por cima de tudo,
a inconstância do céu a massacrar
minhas tênues ilusões.
Ficarei por aqui,
posso vê-las do Leme ao Leblon.
O oceano imenso,
meus passos pequenos,
adeus.
Em dezembro de 1976, Pedro parte com seu amigo Lui Fontes para a Ásia. Ficou dois anos fora. Passou pela Itália, Turquia, Irã, Afeganistão, Paquistão. Ficou um ano na Índia, passando pelo Nepal, Ceilão, Cingapura, Birmânia, Tilâdia, Marrocos até voltar pela Europa. Voltou no final do ano de 1978. Esta viagem lhe renderia um livro, mas que não seria publicado imediatamente, antes, em 1981, Pedro publica De Mão em Mão.
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COMEÇO
em pompéia meus olhos desertos
e colunas empinadas como a piroca dos vetti
que custa mille lire apreciar,
as turrbinas do jato monstruoso ainda roncavam
na memória de meus ouvidos apavorados,
- saudades não havia –
e os dias foram-se perdendo pelas fontanas,
pelas vias – del corso superiore, veneto, grimaldi,
e amalfi, siracura, agrigento, cidades
e mais cidades,
até dar, assim por acaso, com os labirintos
de ortygia, onde as nuvens,
refletidas nos espelhos das ruelas submarinas,
se parecem com cabelos,
gaivotas exímias em vôos incríveis sobre
o mar – um chicote -
e a falta de ar vinha também na tarde pura,
hotel garda, via lombardia,
(- que deus te perdõe, meu filho, e te guie,
por esta tua louca aventura!)
viagem pela Europa, Oriente Médio e Índia é cercada de causos e profundas impressões. Lá, Pedro viu muitos mendigos no Irã, aviões de guerra voando baixo pelas praias ao norte do estreito de Ormuz, a repressão da polícia nos carregadores de sacos de arroz ou trigo, os inúmeros shopping-centers de Cingapura e seu horror ao comunismo, o templo de Madurai no sul da Índia, chá de cadeira na entrada do Afeganistão, os space cakes em Kabul, os ônibus kamikases do Paquistão e um jardim coberto de cerejas, cinquenta graus de Lahore, o estranho eclipse de Katmandu, a sensação de estar num planeta distante, a suiça Maya e a impressão de que tudo fora um sonho.
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CARTA
um detalhe,
um canto mais amargo de seu riso
sob a lua da cidade,
palavras sugeridas num sarro dos ombros
enquanto as sombras da noite nos ultrapassavam,
de pouco me recordo, as imagens se apagam,
mesmo a sua ao telefone, indiferente
à partida, ao nosso desejo, ao corte de tudo,
- triste representação!
até logo, uma cerveja, um baseado,
dois, três, cinco cigarros e a parede suja
do quarto quando nada mais parece adiantar,
os ridículos milhares de quilômetros,
este inverno turco,
os pulmões encardidos,
este beco sem saída,
e você?
Quando voltou da Ásia, Pedro foi morar em Santa Tereza, do fim de 79 até 80. Porém, pouco tempo depois, foi morar em Botafogo com Martha da Costa Ribeiro. Permaneceu neste endereço até separar-se, um ano depois. Em 81 publicou o livro De Mão em Mão e foi morar na Rua Icatu, onde, em diferentes meses, dividiu o aparamento com Chacal e com Ledusha. No verão de 81/82, Pedro começa uma experiência com o pessoal do Rajnesh e com o grupo que iniciava o Circo Voador. Pedro ajudou a fundar o Circo, ajudando o Perfeito Fortuna a levantar fundos e até mesmo carregando cadeiras.
Aqueles olhos azuis http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
ABISMO
deste abraço
ao avanço da estrela mais íngreme
- apenas um passo,
os lugares menos reconhecíveis,
as lembranças mais frouxas
e uma voz rouca
fecham sobre mim seus lábios de tempestade
no pálio pálido da madrugada,
é tarde,
te amo
Em 1981, Pedro começa a frequentar as oficinas de teatro do Amir Haddad. Lá conhece Rosa, Sérgio Luz, Aninha Cretton e muitos outros. No meio disso, havia as peladas do Caxinguelê. Lá se reuniam o Vinicius Cantuária, Rodrix, Guabira, Novelli, Didito, Lula Lindeberg, Maurício Maestro. Chacal às vezes jogava. De 79 a 83, foram mais ou menos umas duzentas peladas. Era uma confraternização muito importante, eram encontros. Muitos artistas, sobretudo músicos. Nesta época, Pedro já havia passado por uma experiência na FACHA fazendo Comunicação, porém, não se encaixou. Escolheu a Odontologia como profissão.
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FUTUROS AMANTES
..e quem sabe, então, o Rio será
alguma cidade submersa…
Chico Buarque
Um dia, porém,
quando não mais houver, talvez, nem noites nem dias,
e do Rio restar somente, dissipada a atmosfera,
um indício, uma marca deixada nas pedras,
nas veias calcinadas do planeta;
quando viajantes remotos do Universo
por acaso aqui chegarem
e resolverem buscar algum signo sobrevivente
da história morta desse pequeno mundo,
encontrarão rabiscado no espaço azul do teu quarto,
perdido pelas cinzas da cidade,
um retrato – apenas um traço: a imagem fóssil
do amor inscrito por aquele que viveu louco por ti,
(e vive ainda, na imatéria de outros mundos)
e os amantes siderais, com esse traço,
se lembrarão do que é preciso,
aprenderão que nunca é tarde,
e hão de amar-se assim, perdidamente,
por toda a eternidade.
Pedro se tornou dentista. E por isso, tinha um conflito social: Não conseguia cruzar seus amigos artistas com seus amigos dentistas. Pedro costuma dizer que “Odonto tem um pouco a ver com artes plásticas, com poesia tem muito pouco,embora eu até tenha feito umas ligações, mas, não tenho muito saco pra explorar este filão. Não acho interessante ficar poetizando a “curva de spix” ou a “curva de Wilson”, ou as “polarizações axiais das cúspides de trabalho”. Por ironia, Pedro veio a se tornar o dentista de muitos do pessoal das artes. Sorriso total.
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VER DE TI
ver te quero – imenso trecho de desejo
suores trêmulos
penso, não vejo
te quero dentro
ver-te aqui – névoa sobre mim.
acordar – sair do sonho trágico
o ancorar mágico do dia
trapézio de vidro sobre o fio
da cidade.
de madrugada, os animais morrem
em silêncio, à beira do rio.
manhã fria – o outro lado do verso te espera
morceguiando a esfera sombria
figuras funestas fecham o círculo de ferro
sempre elas, na terra e no céu
casamatas na vista acirrada do artista
salto sobre o nada -
sem a bruma, pela brecha,
com seus peitos de mãe-musa,
cuida de ti em seu leito
e te mata.
de madrugada, os animais morrem
em silêncio, à beira da estrada.
Quando voltou do Marrocos, Pedro foi assistir ‘Trate-me Leão’ montado pelo Asdrúbal Trouxe o Trombone no Morro da Urca. Lá, reencontra com Charles Peixoto e Chacal, da Nuvem Cigana, Perfeito Fortuna e Evandro. Foi morar novamente em Santa Teresa. Nesta época conhece o Milton Machado e Malena Barreto. Também participa da reuniões na casa do Cacaso, onde conhece o Chico Alvim. Inicia uma amizade com Ana Cristina Cesar. Também nesta época houve um recital de poesia na Álvaro Ramos organizado pela Ana e sua prima Grazinska onde foram a Nuvem Cigana e o Ferreira Gullar.
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DUAS FACES
a noite vazia, a noite nua,
um palmo de lua, a noite completa,
sereia lânguida a meio luar,
jogo de sombras, céu a reinar…
mas já o dia mostra suas garras líquidas,
- suas guerras íntimas:
o lado mais louco do despertar,
penhascos a que me aferro – o perigo!
nado bem pouco,
não me afogar é o que persigo,
não me perder nos negros rios do azar,
à revelia da lua, da noite do eterno mar -
o príncipe mar, o rei mar, a deusa mar – amar!
A experiência com o Tá na Rua é do início dos anos 80. Pedro frequentava as oficinas do Amir Haddad. Formou-se um grupo que logo levou o nome de “Instituto”. Em 83, Pedro foi morar no Jardim Botânico. No Tá na Rua, Pedro conhece Rosa Douat e Sérgio Luz, que viriam a ser seus grandes amigos para a vida toda. Era teatro de rua aos domingos, oficinas na casa do estudante às segundas e reuniões nas manhãs de terça e quinta com o grupo que não era o titular do Tá na Rua. A experiência culminou na montagem de “Morrer pela Pátria” no Teatro Villa Lobos em 1985.
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SILENCIO, O SILENCIO, SILENCIO
ouve vozes, se assusta, o meu silêncio.
arrojam-se vozes das torres do dia quente,
o silêncio noturno da alma desprega-se,
abandona o frescor cristalino,
transpira, se alarma, ajeita o nó da bravata,
abre seus grandes olhos insones -
brilhantes olhos, eloquentes de silêncio.
o silêncio vazio da alma estilhaça-se
na lama do dia e sorri respingando de preces,
as vozes, os sonhos, o começo e o fim da condição
humana, não humana, humana.
para onde vai o silêncio no isolamento dos passos
pelo vento áspero da tarde?
quem passa não sabe: ele arde, longe das horas,
das rodas pensantes da horda,
a flor do silêncio sorri tranquilamente
entre a última morte e o próximo encontro
(ou pensamento)
o silêncio se nutre na floresta do deus-mar,
ondulante senhor dos segredos, irmão do tempo sem dono,
o silêncio fio de espada – sem adeus, sem amor, sem engano,
o silêncio apenas, mais nada – amante das ondas-fantasmas:
o Cosmos é a sua morada.
Em 1983, Pedro conhece Juliana Prado Teixeira no Tá na Rua. Não demoraria muito para ficarem juntos, se casarem e terem seu primeiro filho, Manoel. São vinte e oito anos juntos. Viravolta foi publicado em 1985, livro que conta toda a experiência da viagem à Europa e Ásia com seu amigo Luis Olavo Fontes. Poemas e um pouco de prosa. Pedro neste época morava no Jardim Botânico com Juiana e o pequeno Manoel. Permance lá até 1992, quando se muda para Teresópolis.
Há, há, há em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
TEORIA
Poder simplesmente esquecer-te
no instante em que partíssemos
e amar-te com extrema ternura
assim que nos reencontrássemos
Fazer amor aventura como se
nunca de amar nos deixássemos
(um beija flor vem beber
preso a seu vôo de átomo
as gotas-diamantes que explodem
na límpida cachoeira do parque
nego beija-flor na tarde cintila
imerso no perfume das pedras lavadas
com o sêmen da montanha viva)
Há alguns bons anos, Pedro Lage é responsável por um recital de poesia que se chama ‘Conversa Portátil’ em homenagem a um livro do poeta Murilo Mendes. Começou em Teresópolis, no Bar Cottage. Juliana fazia esquetes teatrais todo sábado a noite com Airton Rebelo chamados Teatro a Vapor. Pedro começava com dez minutos falando poemas. O primeiro poeta era Augusto dos Anjos. Já estamos no ano de 1994. Depois Pedro encontra com Henrique Cukierman no ônibus voltando para o Rio e o convidou para participar. Henrique permaneceu no recital por dez anos. Sempre homenageando um poeta com convidados. Jorge de Lima, Murilo Mendes, Maiakovski, Brecht, Lorca e outros tantos. Muitos passaram pelo ‘Conversa Portátil’, muitos, ali, inclusive, recitaram pela primeira vez em público.
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O FINAL
Aí, ela teve que me deixar.
Contra a vontade e tudo o mais.
Amor possuía mas tudo tem um limite,
chega uma hora em que não dá mais, aliás,
elas sempre acabaram me deixando, um dia,
desde às primeiras lembranças.
Laura me largou no meio de uma sessão de cinema;
Rita perdeu-se na Serra, (fui atrás dela,
sofri, dormi ao relento, o diabo);
Dora deixou-me com as calças dependuradas na noite,
fazia frio, vaguei horas na escuridão;
Elizete partiu de repente, nem um bilhete, nada;
Eugênia espetou-me um postal na cortina do quarto;
Mary, uma foto antiga, muita saudade;
Luiza me abandonou de uma maneira radical,
torto, irrecuperável quase.
Ela também me deixou, ora, por que não haveria?
O lançamento de Entrevista com o Chipanzé foi em um bar GLS na Rainha Elizabeth em 1996. Houve um recital com direito a uma pequena banda formada por Gil de Windsor, George Clark e Chico Lá. Depois o lançamento foi no Museu da República até chegar em Teresópolis. Pedro já com dois filhos, Manoel e Nicolau, ambos, fruto do casamento com Juliana. A Conversa Portátil já bem estabelecida e a poesia caminhando bem.
Tradução de Le Bateau Ivre no http://pedrolago.blogspot.com
DO AMOR
A poesia se escreve no silêncio de um quarto vazio
- um parque vazio de estrelas espelhos e sombras,
gruta de beijos-cascatas e sabiás brejeiros que por
ali não passam, mas despejam seu aroma, seu sabor
em algum canto do Universo – e um bilhete na mão.
A poesia se inscreve num olhar de mulher nesse quarto,
a mesma noite de frio – ou no calor de um verão invencível
em que o poeta não se derreta jamais em si mesmo…
A poesia eu não escrevo, eu muito,
o manto desta verdade arde em meus olhos vivos,
tuas lágrimas sem conta, o luar mais triste sobre a canção
feita pra ti, por mim, por todos nós que somos um – e teu,
pra sempre teu.
‘Cal do Cosmos’ foi publicado em 2004. Após quase dez anos sem publicar, Pedro, então com 59 anos, voltaria. Ao longo desse período, desenvolvendo a ‘Conversa Portátil’, percorreu todos os lugares onde ainda se diz poesia no Rio de Janeiro. Passaria também outro hiato de sete anos até seu último livro ‘Dicionário de Estrelas’, lançado na Casa de Cultura Laura Alvim, em 2011. Este, reunindo seus 35 anos de poesia, com seleção de poemas de seus livros e uma penca de inéditos.
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SABER QUE TE AMO
à minha Juju
Saber que te amo – apenas um prisma
da verdade que nos recorta
com sua alameda de abismos,
sua força de vida, seu desespero
de um dia ter de renunciar a esse tesouro.
Saber que te amo -
pôr-do-sol e aurora concorrentes,
um dia recoberto por farinha de estrelas,
neve crepitante de encontros e solidões
sem limite.
Saber que te amo -
entrego-me a este aprisco e me preparo
para a morte deliciosa dos corações que deliram
imersos na certeza de ter somente um amor
verdadeiro.
Saber que temo – que te amo assim,
infinitamente,
por inteiro.
Então, Pedro Lage torna-se avô pela primeira vez. Francisco, ou Chiquinho. E disse que a poesia ficou em suspenso quando ele veio, tamanha era a satisfação, mas, logo depois, voltou aos trabalhos que vieram a compor ‘Dicionário de Estrelas’. E por aqui ficamos nesta pequena antologia ao poeta Pedro Lage. Na semana que vem, outro universo poético, outra biografia, caminho, percalço, liame entre um poema e outro.
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SE PODES
Se podes andar sobre as águas
não és melhor que uma palha,
se podes voar pelo espaço
não és melhor que uma mosca;
conquista teu coração
para que possas tornar-te alguém.
Abdulah Ansari
Se podes exterminar outro,
não és melhor do que um vírus;
es podes destruir uma cidade, uma floresta,
não és melhor do que um míssil, uma motosserra.
Afeiçoa-te primeiro a teu próprio coração
para que possas amar-te e amar alguém:
só assim frutificarás realmente,
e tua vida não terá sido em vão.
Paulo Mendes Campos
Paulo Mendes Campos nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, no dia 22 de fevereiro de 1922. Era Carnaval. Escapou de ser bissexto por um dia, pois, naquele ano, haveria o 29. Filho do médico e escritor Mário Mendes Campos e de D. Maria José de Lima Campos. Tinha nove irmãos, sendo ele, o quinto homem. Seu pai trabalhava no município de Dom Silvério, hoje, Saúde, no interior de Minas, onde passou o início da infância. Neste mês, o poeta Paulo Mendes Campos. Evoé!
Nos píncaros da paranóia em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
OS DOMINGOS
Todas as funções da alma estão perfeitas neste domingo.
O tempo inunda a sala, os quadros, a fruteira.
Não há um crédito desmedido de esperança
Nem a verdade dos supremos desconsolos -
Simplesmente a tarde transparente,
Os vidros fáceis das horas preguiçosas,
Adolescência das cores, preciosas andorinhas.
Na tarde – lembro – uma árvore parada,
A alma caminhava para os montes,
Onde o verde das distâncias invencidas
Inventava o mistério de morrer pela beleza.
Domingo – lembro – era o instante das pausas,
O pouso dos tristes, o porto do insofrido.
Na tarde, uma valsa; na ponte, um trem de carga;
No mar, a desilusão dos que longe se buscaram;
No declive da encosta, onde a vista não vai,
Os laranjais de infindáveis doçuras geométricas;
Na alma, os azuis dos que se afastam,
O cristal intocado, a rosa que destoa.
Dos meus domingos sempre fiz um claustro.
As pétalas caíam no dorso das campinas,
A noite aclarava os sofrimentos,
As crianças nasciam, os mortos se esqueciam mortos,
Os ásperos se calavam, os suicidas se matavam.
Eu, prisioneiro, lia poemas nos parques,
Procurando palavras que espelhassem os domingos.
E uma esperança que não tenho.
Paulo nasceu na Rua dos Otoni em Belo Horinzonto, mas, quando Paulo fez dois aos de idade, seus pais foram para o interior de Minas. Seu pai precisava trabalhar. Antes disso, Guimarães Rosa, estudante e vizinho de Paulo, o carregava para sua república, onde esperava que fizesse gracinhas, revelou-lhe a história 25 anos depois. Paulo abriu o olhos para vida na cidade de Saúde, onde, viu “o automóvel, um cavalo, um caçador de perna de pau, a morte dentro de casa, rasgou as pernas no arame farpado e tomei sorvete pela primeira vez”. Para Paulo, Saúde, hoje, Dom Silvério, “é um album de estampas”.
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MADRIGAL 1942
Mulher
que interrompe a primavera de um exército
repartindo cartas suicidas e peixes solitários
que insinuas o desespero sem vigência
e os amoralismos cruciais do coração
fantasma de organdi e nuvens enigmas
viajando para os lados de um soluço
mulher fatal como o quadro instantâneo
que realeja na memória um céu especial
comício de poemas obscuros
ausente dos acampamentos da madrugada
carne dominical falsamente casta
intrusa das salas dos concertos sinfônicos
mulher cem vezes mulher
cem vezes mulher de meu poema
retórica dos madrigais de ternura precipitada
ladra sobretudo dos propósitos pacíficos
alto e sorridente eflúvio de repente
mulher
carta enlutada mentida de rosa
amargura corrosiva das raízes
Em ti me crucificara
como um pássaro
sem ti os jardins não são poemas
os hemisférios da alma não se entendem
em ti
mil vezes em ti eu remo para mais adiante
pesquisador vencido catedral abstrata
por ti perdi-me mendigo nos parques
e nos comboios irremediáveis
que fogem gotejando um tempo lento e venenoso
por ti os telefones floresciam
ou se cobriam de lutos e mistérios
por ti colecionando tardes e alvoradas
eu nadava para o delta dos sortilégios
e alevantava-se um clamor maior que a esperança
dos lados de onde me chegam flores mortuárias
um sentimento de chamas
e um prelúdio infinito.
Em 1929, pula de um bonde na rua da Bahia, em Belo Horizonte, cai no chão, quebrando o braço, com um carro parando em cima. Ainda no colégio, Paulo ouviu de um padre professor entusiasmado com seu desempenho nas aulas de português “Ainda vai ser um escritor!”. Após este período em Dom Silvério, aos seis anos de idade, Paulo volta a Belo Horizonte com os pais, no ano seguinte ingressa no Ginásio. As mudanças de cidade são constantes e Paulo faz o Ginásio em três colégios, em três cidades: Belo Horizonte, Cachoeira do Campo e, enfim, São João Del Rey, onde, conhece, aluno de outro ginásio, um que viria a se tornar um grande amigo, Otto Lara Resende.
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NO VERÃO
Inventaremos no verão os gritos
Verberados na carta episcopal.
Somos apenas pássaros aflitos
Que nada informam da questão moral.
Tens os olhos audazes, infinitos,
E eu sinto em mim o deus verde do mal,
De nossas almas nascerão os mitos,
De nossas bocas uma flor de sal.
Deitaremos raízes sobre a praia
A jogar com palavras inexatas
O desespero de se ter um lar.
E quando para nós enfim se esvaia
O demônio das coisas insensatas
Nossa grandeza brilhará no mar.
Paulo tinha o sonho de ser aviador. Pouco tempo depois de terminar o ginásio, em Belo Horizonte, Paulo, que ficara amigo de Otto em São João Del Rey, ingressa no grupo literário adolescente de que Otto fazia parte. Lá conhece João Etienne Filho, Hélio Pellegrino e Fernando Sabino. “Foi um deslumbramento” recorda. Paulo, desde a infância, já escrevia alguma coisa, contos e alguns poemas. Através desse grupo literário, Paulo começa a publicar alguns textos em pequenos jornais. Já com dezenove anos, descobre Mário de Andrade, Maiakovski, Baudelaire, Rimbaud e outros, “triste e impenetrável como um cisne de feltro”.
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SENTIMENTO DO TEMPO
Os sapatos envelheceram depois de usados
mas fui por mim mesmo aos mesmos descampados
E as borboletas pousavam nos dedos de meus pés.
As coisas estavam mortas, muito mortas,
Mas a vida tem outras portas, muitas portas.
Na terra, três ossos repousavam
Mas há imagens que não podia explicar; me ultrapassavam.
As lágrimas correndo podiam incomodar
Mas ninguém sabe dizer por que deve passar
Como um afogado entre as correntes do mar.
Ninguém sabe dizer por que o eco embrulha a voz
Quando somos crianças e ele corre atrás de nós.
Fizeram muitas vezes minha fotografia
Mas meus pais não souberam impedir
Que o sorriso se mudasse em zombaria
E um coração ardente em coisa fria.
Sempre foi assim: vejo um quarto escuro
Onde só existe a cal de um muro.
Costumo ver nos guindastes do porto
O esqueleto funesto de outro mundo morto
Mas não sei ver coisas mais simples como a água.
Fugi e encontrei a cruz do assassinado
Mas quando voltei, como se não houvesse voltado,
Comecei a ler um livro e nunca mais tive descanso.
Meus pássaros caíam sem sentidos.
No olhar do gato passavam muitas horas
Mas não entendia o tempo àquele como agora.
Não sabia que o tempo cava na face
Um caminho escuro, onde a formiga passe
Lutando com a folha.
O tempo é meu disfarce.
Em 1945, Paulo tinha vinte e três anos. Largou todos seu pequenos empregos em Belo Horizonte e foi “com mãos abanando” para o Rio de Janeiro no trem noturno. Antes, chegou a dirigir o suplemento literário da Folha de Minas e até a trabalhar na construção civil de um tio. Seu amigo Fernando Sabino já estava no Rio de Janeiro e Paulo veio encontrá-lo, e também para conhecer o poeta chileno Pablo Neruda, em viagem na, então, capital do país. O Otto e o Fernando vieram depois.
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RENASCIMENTO
Mais fria do que o sono do meu túmulo
É minha soledade, quando cúmulo
Da carícia mortal se esvai, essência.
Vértice perigoso da inocência,
Entrega-me a manhã seu cemitério,
Quando, extintas espadas, sigo sério
Sorrindo para quem foi num momento
Chama que se desfez nas mãos do vento,
Belo animal que foge ternamente
E em lento movimento está presente
Nos círculos que pensam no meu ser.
Descobre-me a luz crua do prazer
E a sombra do langor se arrasta lenta
No sulcos de meu rosto; se ela tenta,
Beijando-me, apagar a minha face,
Onde o seu lábio vai, a voz renasce,
Nítida, calma, quase com tristeza.
A escuridão despede-se, e a certeza
De um deus fere a vidraça, verdes chamas,
Labaredas do céu, fogo nas ramas
De uma roseira que sobe à janela.
Depois, se o sol maduro se rebela
No mar, sobre as espumas, nós, constantes
Da memória das vagas inconstantes
Vamos colher a flor do tempo. Ausentes
Nos beijamos, tranquilos, transparentes.
Paulo começou a fazer faculdade de Odontologia, dois anos. Depois fez um pouco de Direito e mais um pouco de Veterinária. Queria também ser aviador, o que também não conseguiu fazer. Gostava de dizer que “diploma mesmo, só o de datilógrafo”. Dizia que “deveria ter estudado filologia”. Mas o que gostava mesmo era de literatura, das palavras e da maquina de escrever. Já no Rio de Janeiro, começou a colaborar para O Jornal, O Correio da Manhã e para o Diário Carioca. Em 1947, foi admitido no IPASE e foi fiscal de obras daquele orgão. Neste período trabalhou também como Diretor da Divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional.
poema que fiz para o meu pai http://pedrolago.blogspot.com
A MORTE
Ontem sonhei com a morte
Por duas horas desertas:
As pálpebras não se fecharam,
Antes ficaram abertas.
Os olhos esbugalhados
Cravados num ponto incerto,
Por fora desesperados,
Por dentro o mal do deserto.
Todo de preto vestido
Me aparteava a nudez
De estar ali sem sentido
De um mundo que se desfez.
Se alguém quisesse podia
Cuspir-me em cima do rosto
O nojo que lhe subia
De ver-me assim tão composto.
Talvez um ríctus na boca
O meu segredo explicasse,
Foi-me sempre a vida pouca
E era a morte o meu disfarce.
Vi-me no esquife hediondo,
As mãos cruzadas de vez,
Vi-me só me decompondo,
Doído de lucidez.
Senti o cheiro das flores,
As velas que crepitavam,
O enjôo forte das cores
Que minha morte enfeitavam.
Vi um remorso ingente
Chegar ao pé do caixão,
Um animal repelente
Feito de amor e paixão.
Um padre de voz plangente
Depois de orar disse amém,
Em torno os olhos da gente
Me sepultavam também.
Sei que tudo era aflição
No meu destino acabado:
O terror da solidão
Ia comigo deitado.
Em 1951, Paulo publicou seu primeiro livro de poemas, ‘A palavra escrita’, no mesmo ano em que se casou com Joan, de ascendência inglesa. Com ela teve dois filhos, Gabriela e Daniel. Paulo participou, nesta época e até o fim de sua vida, da boêmia carioca do cafés do centro da cidade, Vermelhinho, onde, iam figuras como Carlos Castelo Branco, Carlos Drummond de Andrade e Tomás Santa Rosa. Eram os anos cinquenta, e Paulo, com seus vinte anos, começava a ganhar a vida.
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JOSETTE
Colunas de tu corpo. O real
Das coxas longas onde se implanta o ventre
Leve. O branco do seio
Dando o leite do sonho ao animal
Da noite acostumado a sofrer sede.
Teu perfil tem a linha imaginária
Das mais felizes frases literárias.
És quem tu és, és a rosa e o rosicler.
Quando caminhas vais frisando a rua
De uma sequencia clara de escultura.
És sol agora, ontem na praia foste a lua.
És tudo o que quiser o meu poema,
Mas não és o orvalho que roreja nem és pura.
Possuis a elegância de uma ave
De pés espapaçados (as mais belas)
E tens do mar o frescor suave e a voz tão grave.
Como a vaga empinada que se espraia
Abres equestres movimentos no vento. Teus cabelos
São as últimas lembranças lúcidas que me restam.
Calmarias de ilhas verdes, teus olhos,
Ah,
São teus olhos.
Paulo teve vários pequenos empregos. Desde sua infância e adolescência em Minas Gerais, trabalhando com o tio, depois, contribuindo para alguns jornais. Costumava dizer que o dinheiro durava para viver quinze dias. No Rio, procurava qualquer coisa para sobreviver. Foi morar numa pensão no Leme chamada Palacete de Mon Rêve, cuja comida era horrível. E foi Drummond quem o arranjou dois empregos e o emprestou uma máquina escrever. Primeiro no Instituto Nacional do Livro onde começou a trabalhar para um dicionário da literatura brasileira. Trabalhava com uma mulher chamada Eneida.
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POEMA DIDÁTICO
Não vou sofrer mais sobre as armações metálicas do mundo
Como o fiz outrora, quando ainda me perturbava a rosa.
Minhas rugas são prantos da véspera, caminhos esquecidos,
Minha imaginação apodreceu sobre os lodos do Orco.
No alto, à vista de todos, onde sem equilíbrio precipitei-me,
Clown de meus próprios fantasmas, sonhei-me,
Morto do meu próprio pensamento, destruí-me,
Pausa repentina, vocação de mentira, dispersei-me,
Quem sofreria agora sobre as armações metálicas do mundo,
Como o fiz outrora, espreitando a grande cruz sombria
Que se deita sobre a cidade, olhando a ferrovia, a fábrica,
E do outro lado da tarde o mundo enigmático dos quintais.
Quem, como eu outrora, andaria cheio de uma vontade infeliz,
Vazio de naturalidade, entre as ruas poentas do subúrbio
E montes cujas vertentes descem infalíveis ao porto de mar ?
Meu instante agora é uma supressão de saudades. instante
Parado e opaco. Difícil se me vai tornando transpor este rio
Que me confundiu outrora. Já deixei de amar os desencontros.
Cansei-me de ser visão, agora sei que sou real em um mundo real.
Então, desprezando o outrora, impedi que a rosa me perturbasse.
E não olhei a ferrovia – mas o homem que sangrou na ferrovia -
E não olhei a fábrica – mas o homem que se consumiu na fábrica -
E não olhei mais a estrela – mas o rosto que refletiu o seu fulgor.
Quem agora estará absorto? Quem agora estará morto ?
O mundo, companheiro, decerto não é um desenho
De metafísicas magnificas (como imaginei outrora)
Mas um desencontro de frustrações em combate.
nele, como causa primeira, existe o corpo do homem
- cabeça, tronco, membros, as pirações e bem estar…
E só depois consolações, jogos e amarguras do espírito.
Não é um vago hálito de inefável ansiedade poética
Ou vaga advinhação de poderes ocultos, rosa
Que se sustentasse sem haste, imaginada, como o fiz outrora.
O mundo nasceu das necesidades. O caos, ou o Senhor,
Não filtraria no escuro um homem inconsequente,
Que apenas palpitasse no sopro da imaginação. O homem
É um gesto que se faz ou não se faz. Seu absurdo -
Se podemos admiti-lo – não se redime em injustiça.
Doou-nos a terra um fruto. Força é reparti-lo
Entre os filhos da terra. Força – aos que o herdaram -
É fazer esse gesto, disputar esse fruto. Outrora,
Quando ainda sofria sobre as armações metálicas do mundo,
Acuado como um cão metafísico, eu gania para a eternidade,
sem compreender que, pelo simples teorema do egoísmo,
A vida enganou a vida, o homem enganou o homem.
Por isso, agora, organizei meu sofrimento ao sofrimento
De todos: se multipliquei a minha dor,
Também multipliquei a minha esperança.
O segundo emprego que Drummond arranjou para Paulo foi numa publicação trimestral da Câmara de Comércio chileno-brasileira sob a direção de Sílvio Cunha. Mas quando a verba do Instituto do Livro que o sustentava acabou e a revista da Câmara do Comércio resultou insolvente, o poeta Augusto Frederico Schmidt, também ajudou Paulo arranjando-lhe um lugar no Correio da Manhã. Embora “apadrinhado” Paulo teve que mostrar que sabia escrever uma reportagem, pois, Paulo Bittencourt, quando soube que era parente de um amigo seu, não podia acreditar que Paulo soubesse redigir uma oração com sujeito, verbo e complemento.
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LITOGRAVURA
Eu voltava cansado como um rio.
No Sumaré altíssimo pulsava
a torre da tevê, tristonha, flava.
Não: voltava humilhado como um tio
bêbado chega à casa de um sobrinho.
Pela ravina, lento, lentamente,
feria-se o luar, num desalinho
de prata sobre a Gávea de meus dias.
Os cães quedaram quietos bruscamente.
Foi no tempo dos bondes: vi um deles
raiar pelo Bar Vinte, borboleta
flamante, touro rútilo, cometa
que se atrasa no cosmo e desespera:
negra, na jaula em fuga, uma pantera.
Passei a mão nos olhos: suntuosa,
negra, na jaula em fuga, ia uma rosa.
Quando era fiscal de obras do IPASE, Paulo passava duas ou três noites por semana no planejamento de um grande negócio: Uma livraria de alta classe em Copacabana. Levou-se meses discutindo se uisque, chá ou sorvete seria servido na livraria. O investimento viria de Carlos Lacerda, Marcelo Garcia e de Fernando Sabino. Mas não chego-se a conclusão nenhuma e a livraria não foi aberta. Paulo dizia que queria trabalhar na China após a guerra na UNRRA (United Nations Relief e Rehabilitations Agency) mas, como não havia feito o curso de paraquedista, não deu. Verdade ou não, vale lembrar.
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CANTIGA PARA TOM JOBIM
Quem for além simplesmente
deste espelho transparente
há de sumir? ou se ver?
relembrar? ou esquecer?
Quem for além simplesmente
deste espelho transparente
há de sentir? ou sonhar?
prosseguir? ou regressar?
Mas quem achar uma seta
que lhe apontar o sentido
neste espelho, há de se achar
no paraíso, perdido,
onde achará o poeta
de repente ou devagar.
Com o livro de poemas ‘O Domingo azul do mar’, de 1958, Paulo recebe o Prêmio Alphonsus de Guimaraens do Ministério da Educação. Em 1960, Paulo publica seu primeiro livro de crônicas reunidas. São crônicas datadas de 1946, anos 50 e início dos anos 60 publicadas no Diário Carioca, revista Manchete e de alguns jornais dos Estados. A esta altura, seguindo de certa forma a ênfase do capixaba Rubem Braga, Paulo se dedica à escrita de crônicas, algumas antológicas, que poderiam ser consideradas como pequenos contos.
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BALADA DE AMOR NA PRAIA
Ai como sofre o corpo que se esfrega
no corpo que se entrega e não se entrega
é como a convulsão da preamar
a querer atirar o mar no ar
a onda rija bate como espada
nos musgos da mulher ensolarada
guelras arfantes pernas semifusas
grifam sombras morenas de medusas
e a verde rocha em V vê o duelo
do peixe azul fisgado no amarelo
compondo um bicho humano sobre a praia
que se desfaz em rendas e cambraia
moluscos musculares do desejo
decápode do homem – caranguejo
anêmonas e polvos complacentes
a resvalar abismos inocentes
como se amar no mar fosse encontrar
nossa animalidade elementar
ou fosse o ser na praia (duplicado
de amor) bicho de amor do mar gerado
cujas garras fatais persuasivas
deslizam pelas angras sensitivas
pelos quadris que dançam pelos frisos
conjugais – ziguezague de mil guizos –
garras que buscam a melhor textura
no ventre no pescoço na cintura
já quase a devorar a lua cheia
no litoral do céu feito de areia
e o sol diz nomes feios para a lua
pedindo que ela entenda e fique nua
para que possa a coisa hermafrodita
mudar a vida breve e infinita
e quando enfim de amor o bicho – arraia
na confusão voraz freme e se espraia
é como a convulsão da preamar
que conseguiu jogar o mar no ar
A revista Manchete era comprada, curiosamente, por pessoas que, de fato, não eram do interesse da revista, porém, lá dentro havia um objeto de desejo: a crônica de Paulo Mendes Campos. Paulo desenvolveu-se na crônica. Algumas autobiográficas e célebres, como a que lembra do tempo em que morava no Palacete Mon Rêve, no Leme, uma espécie de cortiço, e ouviu, no quarto ao lado, uma briga de dois namorados sob o tema da infidelidade. Muitas delas faziam um cruzamento entre sua vida e a literatura, algumas eram prosas poéticas. Em 1962, Paulo publica outra reunião de crônicas ‘Homenzinho na Ventania’, três anos depois, ‘O Colunista do Morro’.
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SALA DE JANTAR
Faltava um tema a nossa companhia,
Faltava a nossa mesa certo espaço:
O mar em nossa casa não bramia,
Mar de gravura dá certo embaraço.
A chuva de repente era alegria,
À falta de amplidão para o fracasso:
A serra do curral nos elidia,
Só o céu nos abria seu compasso:
Só o dente do sal nos conhecia,
Só no prato de sopa era o sargaço.
So no pano um brigue estremecia.
Só na vaga do vento nosso abraço.
Em 1966, Paulo republica os livros de poemas ‘Testamento do Brasil’ e ‘Domingo Azul do Mar’. Todas elas pela Editora do Autor, que vinha publicando todos os contemporâneos. Paulo já fazia parte de uma “geração”, tanto de mineiros, ao lado de Fernado Sabino, Murilo Rubião, João Etienne Filho, Carlos Castello Branco, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino, quanto de cronistas, com Rubem Braga, e alguns dos supracitados. Em 1967, publica a reunião de crônicas ‘A Hora do Recreio’ pela Editora Sabiá.
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VARANDA
De lá de via um muro transparente
E além uns mares lentos e facundos,
Roteiros retorcidos, submundos
De porões recriados num repente
De luz das vesperais de antigamente,
Trilhas navais, romances vagabundos,
Entrelaçados mares oriundos
De ser a gente um ente diferente
Que só pretende o que não vê e vê
De olhos limpos aquilo que não há,
Gente desmedida que descrê
De quanto existe para ver e está
Sempre eludindo o muro e que demanda
O céu a terra o mar de uma varanda.
Sobre o Rio de Janeiro, Paulo dizia que “descobri que amo esta cidade por me sentir exilado em outras” [...] “Amo o bairro de Ipanema. Foi Álvaro Moreyra o primeiro a dizer que a cidade do Rio nasceu velha e aos poucos virou menina, contanto o tempo às avessas. Podemos contemplar essa observação no próprio espaço. O Centro do Rio representou a velhice da cidade: o morro do Castelo, os conventos, os prédios burocráticos dos reinados. Flamengo e Botafogo foram a maturidade do Rio. Copacabana foi a louca adolescência. Ipanema e Leblon: eis a infância da cidade. Preciso dessa meninice de Ipanema, onde tenho meu lar, o meu mar e o meu bar”.
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TANQUE DE ROUPA: SCHERZO
Era uma tarde pastoril mineira,
Eram cirros e cúmulos mentais,
Era o dolce staccato da torneira,
Virações de Offenbach pelos varais,
Eram trêmulos barrocos de roseira,
Trissos de amor nas frinchas dos beirais,
Era uma tarde abril à brasileira,
Era uma tarde ardil Minas Gerais.
E era na tarde tarde redundante
- longe vestígio em meigo pergaminho -
Um refluir azul de mar distante.
Era uma tarde estática de Deus
Mas a boca da noite de mansinho…
E a tarde anil rendeu alma. Adeus.
A relação de Paulo com Ipanema é longa. Muitas de suas crônicas são sobre um bairro. Paulo intitulou um livro com o nome de uma delas chamado ‘O Cego de Ipanema’. Frequentava a boêmia do bairro, Veloso, Pizzaiolo, e outros bares. Seus contemporâneos de bar eram Vinicius de Moraes, Lucio Cardoso, Carlinhos Oliveira, Lucio Rangel, Roniquito, Tarso de Castro, Hugo Bidet, Zequinha Estelita, Narceu de Almeida e muitos outros. Em 1967, Paulo publica ‘Hora do Recreio’ pela Sabiá e em 1969, ‘O Anjo Bêbado’, também pela Sabiá.
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TEMPO-ETERNIDADE
La sensualité, chère amie, consiste simplement à
considerer comme une fin et non comme un moyen
l’objet présent et la vie presente.
André Gide
O instante é tudo para mim que ausente
Do segredo que os dias encadeia
Me abismo na canção que pastoreia
As infinitas nuvens do presente.
Pobre do tempo, fico transparente
À luz desta canção que me rodeia
Como se a carne se fizesse alheia
À nossa opacidade descontente.
Nos meus olhos o tempo é uma cegueira
E a minha eternidade uma bandeira
Aberta em céu azul de solidões.
Sem margens, sem destino, sem história
O tempo que se esvai é minha glória
E o susto de minh’alma sem razões.
Em 1962, Paulo, na presença do Dr. Murilo Pereira Gomes, tomou ácido lisérgico em um apartamento da rua General Glicério em Laranjeiras. Paulo, que em 1954, lera ‘As portas da percepção’ do Aldous Huxley logo após sua publicação, fez-se de cobaia desta experiência. Tinha já seus quarenta anos. Paulo descreveu os efeitos de sua experiência em crônicas memoráveis. “Apurando os ouvidos, poderia se ouvir a parede”, descobriu que “como se dentro da delicadeza, houvesse uma segunda delicadeza e, dentro desta, uma terceira, uma quarta, uma quinta e, só lá no fundo de não sei qual película sutil, estivesse, intacta, a verdadeira delicadeza”.
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SONHO DE UMA INFANCIA
Meu sonho, breve emoção,
A tarde deitada no limoeiro,
Paralelas de aço se agarrando no longe.
Há muito tempo que fui infeliz
E desconhecia meu corpo embrulhando nas vestes.
Um cisne repetia o facílimo soneto do exílio.
Animais do ar esvoaçavam,
Flores se assustavam, muito altas, olhando o momento.
Nascia por nascer a vida tímida.
Os minutos respiravam cadenciados
Como a criança próxima à grande cachoeira.
Breve emoção da pedra, meu sonho
Ficava difícil,
Sol entre constelações remotas.
Sempre a palavra de um poema se perdia.
Um barco remava entre chamas, um coração se consumia,
A noite erguida apagava o meu desejo de pensar.
Vi como se desprende de um pântano a garça nua,
Vi a fantasia e a tristeza de meu ser.
Foi há muito, entre o mineral silencioso
Há muito tempo que nasci da infância para crescer
Entre milícias douradas que marchavam cantando.
Deixarei meu destino como a pátria.
Renovando a aventura, reinarei entre vós,
Sonhos fiéis.
Sobe a fumaça na caligem de uma tarde chuvosa.
Sinto o aroma feliz do bife,
A friagem do ladrilho onde estraçalho um besouro,
O tinir da louça, a água caindo no zinco.
Estamos grandes, do tamanho de um defunto.
Morte, emoção de meu sonho,
Surda floresta que voa no vendaval e se esfacela.
Paulo chamou a viagem de ácido de teve de “purificação do consciente pelo inconsciente”. Ficou deliciado com o paladar de uma azeitona que demorou horas para comer, “a quantidade de caldo, com a ternura, com o mistério do caroço”. Seu único medo era ser trazido de volta pelo consciente. Quando saiu do apartamento, ainda no efeito, tomou um táxi e foi a uma reunião numa casa de amigos. Disse que todos (o motorista, o porteiro, os amigos) o tratavam com delicadeza. Descreveu a experiência, primeiramente, no livro ‘O colunista do morro’ e depois em outros meios. Hoje, estão todas no livro ‘Cisne de Feltro’ com outra crônicas autobiográficas.
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O BEBADO
Já vomita no mar a lua pálida.
Bondes trazem de longe a madrugada
E entre golfos de sombra resplandecem
Fantásticas piscinas de luz crua.
Os ruídos do dia vão nascendo
Da noite que abandona o céu. Tilinta
Real a campainha de um ciclista,
Dobra irreal o sino de um convento.
A própria luz a caminhar cicia
Nos trilhos azulados da manhã.
A espaços, o silêncio coagula
O soturno alarido da ressaca.
O bêbado caminha em direção
De um luzir qualquer no lusco-fusco,
Onde grita a luz fulva dos açougues.
Do mais alto beiral nasce uma pomba
Que voa rente ao asfalto orvalhado,
Ensurdecendo a claridade triste
Do bêbado. Do esforço alvar das vagas
Nascem as gaivotas tresnoitadas.
Cavalos mal dormidos vão surgindo
Nas esquinas, enquanto os operários
Passam numa cadência primitiva.
O bêbado quer morrer, de desfazer,
Andando sem vontade sobre a terra
Que oferece a seus pés o espaço hostil.
Seu ideal é simples, geométrico,
E o sorriso em que fala ao transeunte
É um sorriso de paz e de ironia.
Nós que andamos certos e orgulhosos na manhã
E nos apossamos do dia como nosso território natural,
Como entenderemos este ser obscuro
Cujos passos se extraviam e se afastam de nós
E se aproximam de novo e se perdem em atropelo.
Quando seu rosto se inclina para o chão
E outra vez se levanta com um sorriso de paz e de ironia,
Sentimos uma luz de mentira em seus olhos
E tontos de lucidez nos disfarçamos.
A relação de Paulo com o álcool se estendia para suas crônicas. “Os os bares morrem numa quarta feira” e Paulo falava da boêmia carioca, de anedotas de bares, dizia que “não bebo tanto quando mereço”. Seus vinte últimos anos de vida foram um pouco difíceis. Por motivos variados, mas, com o álcool como centro. Paulo virou um sujeito irritado, muitas vezes evitados nas ruas, chegando a ser, inclusive, impedido de entrar em alguns bares. Paulo dizia que se tornara “um homem entornado”.
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A MÁRIO DE ANDRADE
Não sei que mãos teceram teu silêncio.
Morto. Estás morto. Sonhas morto? Morto.
Espantalho fatal, onde flutuas
Acordas borboletas tresvairadas.
Tua morte chegou nas folhas secas
Mas nada vi no ventre da noitinha,
Que não interpretei nas alegrias
Tua razão mais bela de acabar.
A noite está coalhada de formigas.
A cruz amarga a fé desesperada.
Há formigas na treva de tua morte
E em mim erram punhais entrefechados.
O simples tempo agora abre a vidraça.
Desarmaram nos campos a barraca.
Chega do canteiro a razão – flor
Para agravar sinais do inevitável.
O silêncio borbulha nos esgotos.
Bebamos o licor de tua morte.
Enquanto se suporta a solidão.
Tua morte foi servida numa salva.
Cisnes feridos, franzem meu destino.
Os convivas, as moças, as vitrinas
Não sabem que paraste. Mas eu sofro
O sono vegetal dos passarinhos.
Mas eu sofro. Eu e o morto que conduzo
Vamos sofrer até de manhãzinha.
Vamos velar aflitos sobre a terra
Que desviou o teu olhar das rosas.
Em 1984, Paulo publica ‘Trinca de Copas’, seria seu último livro publicado. No dia 1 de julho de 1991, Paulo morre no Rio de Janeiro. Seu amigo Otto Lara Resende, escreve na Folha de São Paulo: “Paulo morreu. Não, não estamos preparados. Confuso sentimento de que era preciso ter feito alguma coisa. Sim, era previsível. Mas não precisava ser irreparável”. Anos depois, no fim da década de noventa, a Editora Civilização Brasileira inicia um trabalho de republicação de sua obra. Paulo, que ficara por algum tempo esquecido da literatura brasileira, volta.
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NESTE SONETO
Neste soneto, meu amor, eu digo,
Um pouco à moda de Tomás Gonzaga,
Que muita coisa bela o verso indaga
Mas poucos belos versos eu consigo.
Igual à fonte escassa no deserto,
Minha emoção é muita, a forma, pouca.
Se o verso errado sempre vem-me à boca,
Só no meu peito vive o verso certo.
Ouço uma voz soprar à frase dura
Umas palavras brandas, entretanto,
Não sei caber as falas de meu canto
Dentro de forma fácil e segura.
E louvo aqui aqueles grandes mestres
Das emoções do céu e das terrestres.
Paulo Mendes Campos tinha um sonho sólido: Morar definitivamente na serra de Petrópolis, visitar a Europa mais uma vez e passear com frequencia nas velhas cidades de Minas. Dizia que “na carreira literária, a glória está no começo, o resto da vida é aprendizado intensivo, para o anonimato, para o ouvido [...] O sucesso não me interessa. Faço questão de fracassar [...] Aqui jaz Paulo Mendes Campos. Por favor, engavetem-me com a máxima simplicidade e do lado da sombra [...] No mais, é como dizia Freud: morreu, babau”. Até a próxima antologia.
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BALADA DE AMOR PERFEITO
Pelo pés das goiabeiras,
pelo braços das mangueiras,
pelas ervas fratricidas,
pelas pimentas ardidas,
fui me aflorando.
Pelos girassóis que comem
giestas de sol e somem,
por marias-sem-vergonha,
dos entretons de quem sonha
fui te aspirando.
Por surpresas balsaminas,
entre as ferrugens de Minas,
por tantas voltas lunárias,
tantas manhãs cineárias,
fui te esperando.
Por miosótis lacustres,
por teus cântaros ilustres,
pelos súbitos espantos
de teus olhos agapantos,
fui te encontrando.
Pelas estampas arcanas
do amor das flores humanas,
pelas legendas candentes
que trazemos nas sementes,
fui te avivando.
Me evadindo das molduras,
de minhas albas escuras,
pelas tuas sensitivas,
açucenas, sempre-vivas,
fui te virando.
Pela rosa e o resedá,
pelo trevo que não há,
pela torta linha reta
da cravina do poeta,
fui te levando.
Pelas frestas das lianas
de tuas crespas pestanas,
pela trança rebelada
sobre o paredão do nada,
fui te enredando.
Pelas braçadas de malvas,
pelas assembléias alvas
de teus dentes comovidos
pelo caule dos gemidos
fui te enflorando.
Pelas fímbrias de teu húmus,
pelos reclames dos sumos,
sobre as umbelas pequenas
de tuas tensas verbenas,
fui me plantando.
Por tuas arestas góticas,
pelas orquídeas eróticas,
por tuas hastes ossudas,
pelas ânforas carnudas,
fui te escalando.
Por teus pistilos eretos,
por teus acúleos secretos,
pelas úsneas clandestinas
das virilhas de boninas,
fui me criando.
Pelos favores mordentes
das ogivas redolentes,
pelo sereno das zínias,
pelos lábios de glicínias,
fui te sugando.
Pelas tardes de perfil,
pelos pasmados de abril,
pelos parques do que somos,
com seus bruscos cinamomos,
fui me espaçando.
Pelas violas do fim,
nas esquinas do jasmim,
pela chama dos encantos
de fugazes amarantos,
fui me apagando.
Afetando ares e mares
pelas mimosas vulgares
pelos fungos do meu mal,
do teu reino vegetal
fui me afastando.
Pelas gloxínias vivazes,
com seus labelos vorazes,
pelo flor que desata,
pela lélia purpurata,
fui me arrastando.
Pelas papoulas da cama,
que vão fumando quem ama,
pelas dúvidas rasteiras
de volúveis trepadeiras
fui te deixando.
Pelas brenhas, pelas damas
de uma noite, pelos dramas
das raízes retorcidas,
pelas sultanas cuspidas,
fui te olvidando.
Pelas atonalidades
das perpétuas, das saudades,
pelos goivos do meu peito,
pela luz do amor perfeito,
vou te buscando.
Augusto dos Anjos
Augusto Carvalho Rodrigues dos Anjos, nasceu no Engenho do Pau D’Arco no município de Cruz do Espírito Santo, no Estado da Paraíba no dia 20 de abril de 1884. Terceiro filho do casal Alexandre Rodrigues dos Anjos e D. Córdula Carvalho Rodrigues dos Anjos, conhecida por Sinhá Mocinha. Consta que recebeu, junto com seus irmãos, a educação primária e secundária por seu pai. Neste mês, tentaremos percorrer a vida e a poesia desta estranha figura da poesia brasileira, alguns relatos, a escassez de detalhes sobre sua infância, sua vida e seu desenvolvimentos como poeta. Voilá, Augusto dos Anjos!
Produz no meu sensorium de bacante
O efeito de uma túnica brilhante
Cobrindo ampla apostema escrofulosa!
Troveja! E anelo ter, sôfrega e ansiosa,
O sistema nervoso de um gigante
Para sofrer na minha carne estuante
A dor da força cósmica furiosa.
Apraz-me, enfim, despindo a última alfaia
Que ao comércio dos homens me traz presa,
Livre deste cadeado de peçonha,
Semelhante a um cachorro de atalaia
Às decomposições da Natureza,
Ficar latindo minha dor medonha!
Como uma imensa e rutilante cobra
De epiderme finíssima de areia…
E por essa finíssima epiderme
Eis-me passeando como um grande verme
Que, ao sol, em plena podridão, passeia!
A agonia do sol vai ter começo!
Caio de joelhos, trêmulo… Ofereço
Preces a Deus de amor e de respeito
E o Ocaso que nas águas se retrata
Nitidamente reproduz, exata,
A saudade interior que há no meu peito…
Tenho alucinações de toda a sorte…
Impressionado sem cessar com a Morte
E sentindo o que um lázaro não sente,
Em negras nuanças lúgubres e aziagas
Vejo terribilíssimas adagas,
Atravessando os ares bruscamente.
Os olhos volvo para o céu divino
E observo-me pigmeu e pequenino
Através de minúsculos espelhos.
Assim, quem diante duma cordilheira,
Pára, entre assombros, pela vez primeira,
Sente vontade de cair de joelhos!
Soa o rumor fatídico dos ventos,
Anunciando desmoronamentos
De mil lajedos sobre mil lajedos…
E ao longe soam trágicos fracassos
De heróis, partindo e fraturando os braços
Nas pontas escarpadas dos rochedos!
Mas de repente, num enleio doce,
Qual se num sonho arrebatado fosse,
Na ilha encantada de Cypango tombo,
Da qual, no meio, em luz perpétua, brilha
A árvore da perpétua maravilha,
À cuja sombra descansou Colombo!
Foi nessa ilha encantada de Cypango,
Verde, afetando a forma de um losango,
Rica, ostentando amplo floral risonho,
Que Toscanelli viu seu sonho extinto
E como sucedeu a Afonso Quinto
Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho!
Lembro-me bem. Nesse maldito dia
O gênio singular da Fantasia
Convidou-me a sorrir para um passeio…
Iríamos a um país de eternas pazes
Onde em cada deserto há mil oásis
E em cada rocha um cristalino veio.
Gozei numa hora séculos de afagos,
Banhei-me na água de risonhos lagos,
E finalmente me cobri de flores…
Mas veio o vento que a Desgraça espalha
E cobriu-me com o pano da mortalha,
Que estou cosendo para os meus amores!
Desde então para cá fiquei sombrio!
Um penetrante e corrosivo frio
Anestesiou-me a sensibilidade
E as grandes golpes arrancou as raízes
Que prendiam meus dias infelizes
A um sonho antigo de felicidade!
Invoco os Deuses salvadores do erro.
A tarde morre. Passa o seu enterro!…
A luz descreve ziguezagues tortos
Enviando à terra os derradeiros beijos.
Pela estrada feral dois realejos
Estão chorando meus amores mortos!
E a treva ocupa toda a estrada longa…
O Firmamento é uma caverna oblonga
Em cujo fundo a Via-láctea existe.
E como agora a lua cheia brilha!
Ilha maldita vinte vezes a ilha
Que para todo o sempre me fez triste!
Para que o campo flórido a concentre,
Assim, oh! Mãe, sujo de sangue, um novo
Ser, entre dores, te emergiu do ventre!E puseste-lhe, haurindo amplo deleite,
No lábio róseo a grande teta farta
— Fecunda fonte desse mesmo leite —
Que amamentou os éfebos de Sparta. —
Com que avidez ele essa fonte suga!
Ninguém mais com a Beleza está de acordo,
Do que essa pequenina sanguessuga,
Bebendo a vida no teu seio gordo!
Pois, quanto a mim, sem pretensões, comparo,
Essas humanas cousas pequeninas
A um biscuit de quilate muito raro
Exposto aí, à amostra, nas vitrinas.
Mas o ramo fragílimo e venusto
Que hoje nas débeis gêmulas se esboça,
Há de crescer há de tornar-se arbusto
E álamo altivo de ramagem grossa.
Clara, a atmosfera se encherá de aromas,
O Sol virá das épocas sadias…
E o antigo leão, que te esgotou as pomas,
Há de beijar-te as mãos todos os dias!
Quando chegar depois tua velhice
Batida pelos bárbaros invernos!
Relembrarás chorando o que eu te disse,
A sombra dos sicômoros eternos!
De que, pensando, me desencarcero,
Foi que eu, num grito de emoção, sincero
Encontrei, afinal, o meu Nirvana!Nessa manumissão schopenhauereana,
Onde a Vida do humano aspecto fero
Se desarraiga, eu, feito força, impero
Na imanência da Ideia Soberana!
Destruída a sensação que oriunda fora
Do tacto — ínfima antena aferidora
Destas tegumentárias mãos plebeias —
Gozo o prazer, que os anos não carcomem,
De haver trocado a minha forma de homem
Pela imortalidade das Ideias!
Guerra é esforço, é inquietude, é ânsia, é transporte…
E a dramatização sangrenta e dura
Vir Deus num simples grão de argila errante,
Da avidez com que o Espírito procura
É a Subconsciência que se transfigura
Em volição conflagradora… E a coorte
Das raças todas, que se entrega à morte
Para a felicidade da Criatura!
É a obsessão de ver sangue, é o instinto horrendo
De subir, na ordem cósmica, descendo
A irracionalidade primitiva…
É a Natureza que, no seu arcano,
Precisa de encharcar-se em sangue humano
Para mostrar aos homens que está viva!
Dor, saúde dos seres que se fanam,
Riqueza da alma, psíquico tesouro,
Alegria das glândulas do choro
De onde todas as lágrimas emanam..
És suprema! Os meus átomos se ufanam
De pertencer-te, oh! Dor, ancoradouro
Dos desgraçados, sol do cérebro, ouro
De que as próprias desgraças se engalanam!
Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato.
Com os corpúsculos mágicos do tacto
Prendo a orquestra de chamas que executas…
E, assim, sem convulsão que me alvorece,
Minha maior ventura é estar de posse
De tuas claridades absolutas!
Começa. A carne é fogo. A alma arde. A espaços
As cabeças, as mãos, os pés e os braços
Tombara, cedendo à ação de ignotos pesos!É então que a vaga dos instintos presos
— Mãe de esterilidades e cansaços —
Atira os pensamentos mais devassos
Contra os ossos cranianos indefesos.
Subitamente a cerebral coréa
Pára. O cosmos sintético da Idéa
Surge. Emoções extraordinárias sinto…
Arranco do meu crânio as nebulosas.
E acho um feixe de forças prodigiosas
Sustentando dois monstros: a alma e o instinto!
O Amor, a Glória, a Ciência, a Arte e a Beleza
Servem de combustíveis à ira acesa
Das tempestades do meu ser nervoso!Eu sou, por conseqüência um ser monstruoso!
Em minha arca encefálica indefesa
Choram as forças más da Natureza
Sem possibilidades de repouso!
Agregados anômalos malditos
Despedaçam-se, mordem-se, dão gritos
Nas minhas camas cerebrais funéreas…
Ai! Não toqueis em minhas faces verdes,
Sob pena, homens felizes, de sofrerdes
A sensação de todas as misérias!
Como que a erva tem dor… Roem-na amarguras
Talvez humanas, e entre rochas duras
Mostra ao Cosmos a face degradada!
É que, às apalpadelas e às escuras,
Hão de encontrar as gerações futuras
Só, minha árvore humana desfolhada!
Eu não me abalarei, nem mesmo ao ronco
Do. furacão que, rábido, remoinha…
Hão de encher outras árvores! Somente
Minha desgraça há de ficar sozinha!
De comer. Coisa hedionda! Corro. E agora,
Antegozando a ensangüentada presa,
Rodeado pelas moscas repugnantes,
Para comer meus próprios semelhantes
Eis-me sentado à mesa!Como porções de carne morta … Ai! Como
Os que, como eu, têm carne, com este assomo
Que a espécie humana em comer carne tem! …
Como! E pois que a Razão me não reprime,
Possa a terra vingar-se do meu crime
Comendo-me também.
Sou eu que, aliando Buda ao sibarita,
Penetro a essência plásmica infinita,
- Mãe promíscua do amor e do ódio insano!
Por um poder de acústica esquisita,
Ouço o universo ansioso que se agita
Dentro de cada pensamento humano!
Sou eu que, revolvendo o ego profundo
E a escuridão dos cérebros medonhos,
Todos os cosmos que circulam na alma
Sob a forma embriológica de sonhos!
II
Massa palpável e éter; desconforto
E ataraxia; feto vivo e aborto…
- Tudo a unidade do meu ser resume!
Apreendo, em cisma abismadora absorto,
A potencialidade do que é morto
E a eficácia prolífica do estrume!
Dos limites orgânicos estreitos,
Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia,
Do tegumento que me cobre os peitos
Toda a imortalidade da Substância!
Oswald de Andrade
José Oswald de Andrade nasceu no dia 11 de janeiro de 1890 em São Paulo. Filho de José Oswald Nogueira de Andrade e Inês Henriqueta de Souza Andrade. A família de sua mãe descende de uma das famílias fundadoras do Estado do Pará, estabelecida no porto de Óbidos. Também é sobrinho do jurista e escritor Herculano Marques Inglês de Souza. Já a sua família paterna descende de uma família de fazendeiros mineiros de Baependi. O jovem Oswald passa sua infâcia na segurança de uma casa confortável na rua Barão de Itapetiniga, em São Paulo. Neste mês vamos poesia adentro desta grande figura da nossa cultura. Vamos de Oswald de Andrade. Evoé!
Naquela mesa do canto na parte de cima http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
BRINQUEDO
Roda roda São Paulo
Mando tiro tiro lá
Da minha janela eu avistava
Uma cidade pequena
Pouca gente passava
Nas ruas. Era uma pena
Desceram das montanhas
Carochinhas e pastoras
Por dormir em meus olhos
Me levaram pra abrolhos
Os bondes da Light bateram
Telefones na ciranda
Os automóveis correram
Em redor da varanda
Roda roda São Paulo
Mando tiro tiro lá
Brinquedos de comadre
Começaram pela vida
Pela vida começaram
Comadres e mexericos
Roda roda São Paulo
Mando tiro tiro lá
Depois entrou no brinquedo
Um menino grandão
Foi o primeiro arranha-céu
Que rodou no meu céu
Do quintal eu avistei
Casas torres e pontes
Rodaram como gigantes
Até que enfim parei
Roda roda São Paulo
Mando tiro tiro lá
Hoje a roda cresceu
Até que bateu no céu
É gente grande que roda
Mando tiro tiro lá
O menino Oswald inicia seus estudos em 1900 com professores particulares, porém, depois, ingressa no ensino público matriculando-se na Escola Modelo Caetano de Campos. Em 1902, cursa o Ginásio Nossa Senhora do Carmos, agora, já com doze anos. Os relatos de sua infância abrangem “ruas pacatas” e “brincadeiras”, pontos até então, normais, para um menino de São Paulo no início do século. Já em 1905, aos 15 anos, vai para o Colégio São Bento, e recebe um tradicional ensino religioso. Lá conhece Guilherme de Almeida e se torna seu amigo, e também conhece o poeta Ricardo Gonçalves.
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MEUS SETE ANOS
Papai vinha tarde
Da faina de labutar
Eu esperava na calçada
Papai era gerente
D Banco Popular
Eu aprendia com ele
Os nomes dos negócios
Juros hipotecas
Prazo amortização
Papai era gerente
Do Banco Popular
Mas descontava cheques
No guichê do coração
A casa dos Andrade tinha rigorosa formação católica. Dona Inês, fazia com que o pequeno Oswald se vestisse de anjo nas pequenas procissões que seguiam pela Barão de Itapetininga. O menino es tornou superticioso na infância, batia na madeira três vezes para espantar maus pensamentos, passava vinho na orelha e entrava em casa sempre com o pé direito. Ficou conhecido na família como “Oswaldinho”. Sua mãe sempre enfatizou a pronúncia correta de seu nome, “Osváld” e não “ôsvald” como até hoje muitos o chamam. Inclusive, o crítico Antônio Cândido escreveu um artigo sobre a pronúncia correta do nome de Oswald. A entrada de Oswald no Colégio Nossa Senhora do Carmo se dá por causa de uma frase que Oswald desfere no antigo colégio, “Deus é Natureza”, para o pânico de sua mãe devota de São José.
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MEUS OITO ANOS
Oh que saudades eu tenho
Da aurora de minha vida
Das horas
De minha infância
Que os anos não trazem mais
Naquele quintal de terra
Da Rua de Santo Antônio
Debaixo da bananeira
Sem nenhum laranjais
Eu tinha doces visões
Da cocaína da infância
Nos banhos de astro-rei
Do quintal de minha ânsia
A cidade progredia
Em roda de minha casa
Que os anos não trazem mais
Debaixo da bananeira
Sem nenhum laranjais
Em 1908, Oswald conclui o Colégio São Bento, nesta época, por causa de um professor chamado Gervásio Araújo, que o apresenta a Victor Hugo, através dos Miseráveis e também lê Carlos Magno, Julio Verne, Castro Alves e alguns outros. O pequeno Oswald confessa que gosta da poesia do poeta baiano, mas não entende. Olavo Bilac e Lima Barreto são leituras essenciais desta época, assim como Coelho Neto, ou seja, todos os cânones. Nesta época, também conhece Monteiro Lobato e Ricardo Gonçalves. Se envereda também em Dostoiévski, Shakespeare e Eugênio de Castro. Muitas leituras para o jovem promissor e aluno irregular.
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HISTÓRIA DA PÁTRIA
Lá vai uma barquinha carregada de
Aventureiros
Lá vai uma barquinha carregada de
Bacharéis
Lá vai uma barquinha carregada de
Cruzes de Cristo
Lá vai uma barquinha carregada de
Donatários
Lá vai uma barquinha carregada de
Espanhóis
Paga prenda
Prenda os espanhóis!
Lá vai uma barquinha carregada de
Flibusteiros
Lá vai uma barquinha carregada de
Governadores
Lá vai uma barquinha carregada de
Holandeses
Lá vem uma barquinha cheinha de índios
Outra de degradados
Outra de pau de tinta
Até que o mar inteiro
Se coalhou de transatlânticos
E as barquinhas ficaram
Jogando prenda coa raça misturada
No litoral azul de meu Brasil.
Em 1908, Oswald termina o ginásio no Colégio São Bento e toma a “vacina obrigatória”. Incentivados pelos amigos e pela família, um ano depois, ingressa na Faculdade de Direito. De cara, se impressiona com a violência do trote. Nesta época, Oswald se interessa pelo jornalismo e já entra no Diário Popular como repórter e redator. Emprego este que conseguiu atravá da influência do pai, seu salário é de sessenta mil réis. Assina algumas matérias e críticas de cinema e teatro. Fica muito amigo do ator Giovanni Grasso, inclusive o acompanha no Rio e em São Paulo e namora algumas atrizes do grupo. Oswald passa a vivenciar intensamente a cena teatral paulista.
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A DESCOBERTA
Seguimos nosso caminho por este mar de longo
Até a oitava da Páscoa
Topamos aves
E houvemos vista de terra
os selvagens
Mostraram-lhes uma galinha
Quase haviam medo dela
E não queriam por a mão
E depois a tomaram como espantados
primeiro chá
Depois de dançarem
Diogo Dias
Fez o salto real
as meninas da gare
Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis
Com cabelos mui pretos pelas espáduas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito bem olharmos
Não tínhamos nenhuma vergonha.
Oswald escrevia para o Diário sob o pseudônimo de Joswald. Neste mesmo ano de 1910, torna-se amigo de Washington Luís, membro da comitiva nacional e futuro presidente. Também monta um ateliê de pintura com Osvaldo Pinheiro. Em 1911, faz viagens constantes para o Rio de Janeiro onde participa da vida boêmia dos escritores. Se torna amigo de Emílio de Menezes, e lança com Voltolino, Dolor Brito Franco e Antônio Define, o semanário O Pirralho, usando o pseudônimo de Annibale Scipione. No fim do ano, interrompe a faculdade de Direito e arrenda a revista a Paulo Setúbal e Babi de Andrade para fazer sua primeira viagem à Europa.
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BALADA DO ESPLANADA
Ontem à noite
Eu procurei
Ver se aprendia
Como é que se fazia
Uma balada
Antes d’ir
Pro meu hotel
É que este
Coração
Já se cansou
De viver só
E quer então
Morar contigo
No Esplanada
Eu qu’iria
Poder
Encher
Este papel
De versos lindos
É tão distinto
Ser menestrel
No futuro
As gerações
Que passariam
Diriam
É o hotel
Do menestrel
Pra m’inspirar
Abro a janela
Como um jornal
Vou fazer
A balada
Do Esplanada
E ficar sendo
O menestrel
De meu hotel
Mas não há poesia
Num hotel
Mesmo sendo
‘Splanada
Ou Grand-Hotel
Há poesia
Na dor
Na flor
No beija-flor
No elevador
Oferta
Quem sabe
Se algum dia
Traria
O elevador
Até aqui
O teu amor
Em 1921, aos 22 anos, a bordo do navio Martha Washington, Oswald se entusiasma com Carmen Lydia, nome artístico para Landa Kosbach, de treze anos, que viaja para estudar balé em Milão. Oswald conhece a Itália, a Alemanha, a Bélgica, a Inglaterra, a Espanha e a França. Trabalha como correspondente matutino do Correio da Manhã. Em Paris, conhece aquela que viria a ser sua primeira mulher, Henriette Denise Boufflers (Kamiá), com quem retorna ao Brasil. Oswald não consegue rever a mãe, falecida no dia 6 de setembro, nesta época, realiza sua primeira experiência poética ao escrever “O último passeio de um tuberculoso, pela cidade, de bonde”, porém, rasga-o em seguida. No ano seguinte, frequenta as reuniões artísticas da Villa kyrial, no palacete do senador Freitas Valle. Lá conhece o pintor Lasar Segall. Enfim escreve o romance A recusa.
Tradução de Baudelaire em http://pedrolago.blogspot.com
HINA NACIONAL DO PATY DO ALFERES
Eu quero fazer um poema
Rachado e sentimental
Como as bandas de música
De meu país natal
Eu quero fazer um poema
De todo o amor que sinto
Pelas palmas e bandeiras
Do meu país musical
Eu quero fazer um poema
De flores de papel
Laranja azul encarnado
Branco e verdeamarel
Ah! Meu Brasil! Meu Brasil!
Eu já morei foragido
Numa casa rota
Que dava para o mar
Já morei no Normandy de Deauville
E num navio de guerra
E nas ruas e nos portos Das terras imaginárias
Mas quando tu reapareces
Sob o hemisfério estrelado
Esperando a presidência do Dr. Washington Luís
Ó Brasil
Meu coração feito de pedaços
Se unifica
A independência das lágrimas
Fico eleitor
Cidadão vacinado
Solto foguetes
Faço dobrados
Foi assim que eu vim parar
Nas paragens
do Paty do Alferes
E conheci a charanga do Arcozelo
Toda cáqui e preta
Vocês não ouviram
A charanga da fazenda do Arcozelo
É generosa e metálica
A casa é cercada de velhas senzalas
Transfiguradas pela picareta do Progresso
A mão dura de Geraldo
Transformou a terra desabandonada
Numa pátria organizada de gado
E valorizou até as estrelas
Que dividem o céu em sindicatos
Para ouvir os ensaios
Da banda do Arcozelo
Arquitetos de minha terra
Vinde aprender arquitetura
No Paty do Alferes
Donas de casa
Que servis tolamente à francesa
Vinde provar
A mesa saborosa
Do Arcozelo
Bebedores
Vinde gozar a pinga do Paraíso
Como a gente levanta cedo nas fazendas
Antes das primeiras pinceladas
Da pintora Aurora
Vamos dormir
Para sair amanhã
Todos vestidos de cow-boy
E dobrar as quebradas da serra
E deixar o sangue dos pássaros
E das cobras
Nos caminhos
Meu quarto tem três portas
Que dão para outros quartos
Onde ficam as portas
Dos quartos das assombrações
As estrelas são
A estrela d’alva
A estrela do Pastor
Vésper
E o Anjo da Guarda de cada um
As assombrações são
A Inspiração e a Saudade
E os falecidos das nossas relações
Para ver tantas maravilhas
O Cruzeiro do Sul
Espetou a cabeça num morro
E mora aqui
Blefando a rotação universal
E tudo isso
É na fazenda do Arcozelo
Bois arados e rosas
Cavalos e motocicletas
Tudo existindo
E tocando a marcha do Progresso
Que aprenderam com a banda
Da fazenda do Arcozelo
Em 1914, nasce José Oswald Antônio de Andrade, Nonê, filho de Oswald com a francesa Kamiá. Um ano depois, publica, na seção, ‘Lanterna mágica’ de O Pirralho, o artigo, “Em prol de uma pintura nacional”. Nesta época, junto com os colegas da redação, Guilherme de Almeida, Amadeu Amaral, Júlio de Mesquita, Vicente Rao e Pedro Rodrigues de Almeida, cultiva uma vida social intensa. Vai constantemente para o Rio de Janeiro onde participa da boêmia ao lado de Emílio de Menezes, Olegário Mariano, João do Rio e Elói Pontes. Participa de um almoço em homenagem a Olavo Bilac, que visita São Paulo para estimular a campanha cívica. Torna-se membro da Sociedade Brasileira dos Homens de Letras, fundada pelo mesmo Bilac. Nesta época, mantém forte relação com a jovem Carmen Lydia, a quem introduz no meio artístico e financia os estudos.
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BRASIL
O Zé Pereira chegou de caravela
E preguntou pro guarani da mata virgem
- Sois cristão?
- Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte
Teterê tetê Quizá Quizá Quecê!
Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu!
O negro zonzo saído da fornalha
Tomou a palavra e respondeu
- Sim pela graça de Deus
Canhem Babá Canhem Babá Cum Cum!
E fizeram o Carnaval
Em 1917, inspirado pelo envolvimento amoroso com Carmen Lydia, Oswald escreve, em parceria com Guilherme de Almeida, a peça Mon Coeur Balance. Também em francês, assina com Guilherme de Almeida a peça Leuur âme. Em dezembro deste ano, a atriz francesa Suzanne Desprès e Lugné Poe fazem uma leitura dramatizada de um ato de Leur âme no Teatro Municipal de São Paulo. Oswald volta a frequentar a faculdade de Direito e trabalha como redator de O Jornal. Em uma de suas viagens ao Rio, Oswald conhece Isadora Duncan. Assina com o próprio nome os trechos do futuro romance Memórias sentimentais de João Miramar, publicados na revista A Cigarra e começa a escrever o drama O filho do sonho.
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SOLIDÃO
Chove chuva choverando
Que a cidade de meu bem
Está-se toda se lavando
Senhor
Que eu não fique nunca
Como esse velho inglês
Aí do lado
Que dorme numa cadeira
À espera de visitas que não vêm
Chove chuva choverando
Que o jardim de meu bem
Está-se todo se enfeitando
A chuva cai
Cai de bruços
A magnólia abre o para-chuva
Para-sol da cidade
De Mário de Andrade
A chuva cai
Escorre das goteiras do domingo
Chove chuva choverando
Que a casa de meu bem
Está-se toda se molhando
Anoitece sobre os jardins
Jardim da Luz
Jardim da Praça da República
Jardins das platibandas
Noite
Noite de hotel
Chove chuva choverando
Em 1917, Oswald conhece Mário de Andrade e o pintor Di Cavalcanti. As ideias se juntaram, encontraram um no outro uma razão para continuar, algo que começaria ali, assim, os três, mais Guilherme de Almeida e Ribeiro Couto formaram o primeiro grupo modernista. Nesta época também, Oswald aluga uma garçonnière na rua Líbero Badaró 16, onde, faz reuniões intelectuais e, obviamente, amorosas. O grupo modernista se reune lá. Um ano depois, publica no Jornal do Commercio o artigo “A exposição de Anita Malfatti” defendendo as tendências expressionistas em resposta a crítica “Paranoia ou mistificação” de Monteiro Lobato. Ainda sobre a garçonière, Oswald começa a escrever um diário sobre as reuniões com o título de “O perfeito cozinheiro das almas deste mundo”
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CANÇÃO DA ESPERANÇA DE 15 DE NOVEMBRO DE 1926
O céu e o mar
Atira anil
No meu Brasil
Sobre a cidade
Flutua
A bandeira do Porvir
Cada árvore
De estanho
Plantada
Espera
A passagem
Da carruagem
Do Brasil
O céu e o mar
Atira anil
No meu Brasil
Sobre a cidade
Flutua
A bandeira do Porvir
E o povo
Ansioso
Airoso
Sacode no ar
A palheta
Da Esperança
Vendo o dia
Tropical
Que vai passar
Na carruagem
Dos destinos
Do Brasil
À saída da Câmara
Pela boca ardente
De um estudante
Jorra a esperança
Do grandioso
E desordeiro
Povo Brasileiro
E os dragões impacientes
Nos cavalos impacientes
Esperam impacientes
Que o acadêmico exponha
A dedicação
Da gente brasileira
Pelo seu Presidente
Ao lado
Tendo na mão
Espalmada
Os 14 versos brancos
Duma Vitória-Régia
Destaca-se
A Rainha dos Estudantes
Dos Estados Unidos do Brasil
É uma mocinha
Como a futura mãe-pátria
Lá fora as árvores dragonas sacodem os penachos pesados
Dizendo que sim verde
Os cavalos esperam
Os dragões esperam
O povo esperam
Que passe no anil
Entre filas
Do mar e do céu
O Presidente
Do Brasil
Em fevereiro de 1919, Oswald perde seu pai. Começa a ajudar a normalista Maria de Lourdes Castro Dolzabi, Daisy, com quem tivera intenso caso, a se estabelecer em São Paulo. Publica na revista dos estudantes da Faculdade de Direito, Onze de Agosto, “Três capítulos” do romance em confecção Memórias de João Miramar. No dia 15 de agosto, casa-se com Daisy, que estava hospitalizada devido a um aborto mal sucedido. No dia 24 de agosto, Daisy morre, aos dezenove anos e é sepultada no jazigo da família Andrade no Cemitério da Consolação. Conclui o bacharelado em Direito.
Round About Midnight http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
CANÇÃO E CALENDÁRIO
Sol de montanha
Sol esquivo de montanha
Felicidade
Teu nome é
Maria Antonieta d’Alkmin
No fundo do poço
No cimo do monte
Na ponte quebrada
No rego da fonte
Na ponta de lança
No monte profundo
Nevada
Entre os crimes contra mim
Maria Antonieta d’Alkmin
Felicidade forjada nas trevas
Entre os crimes contra mim
Sol de montanha
Maria Antonieta d’Alkmin
Não quero mais as moreninhas de Macedo
Não quero mais as namoradas
Do senhor poeta
Alberto d’Oliveira
Quero você
Não quero mais
Crucificadas em meus cabelos
Quero você
Não quero mais
A inglesa Elena
Não quero mais
A irmã da Nena
A bela Elena
Anabela
Ana Bolena
Quero você
Toma conta do céu
Toma conta da terra
Toma conta do mar
Toma conta de mim
Maria Antonieta d’Alkmin
E se ele vier
Defenderei
E se ela vier
Defenderei
E se eles vierem
Defenderei
E se elas vierem todas
Numa guirlanda de flechas
Defenderei
Defenderei
Defenderei
Cais de minha vida
Partida sete vezes
Cais de minha vida quebrada
Nas prisões
Suada nas ruas
Modelada
Na aurora indecisa dos hospitais
Bonaçosa bonança
Em 1920, começa a trabalhar na revista Papel e Tinta. Escreve o editorial da revista com Menotti Del Pichia, a qual teve colaboração de Mário de Andrade, Monteiro Lobato e Guilherme de Almeida entre outros. Nesta época conhece o escultor Victor Brecheret, a quem encondenda um busto de Daisy. Em 21, profere um discurso no banquete oferecido a Menotti Del Pichia por ocasião do lançamento de um livro, no Trianon. No dia seguinte publica um artigo no Correio Paulistano, onde passa a trabalhar. Apresenta no mesmo jornal a poesia de Mário de Andrade sob o título de “Meu poeta futurista”, criando polêmica com o próprio Mário, que indaga o termo “futurista”. O movimento modernista já existe, e por isso, vai para o Rio de Janeiro com outros escritores em busca novas adesões, se encontra com Ronald de Carvalho, Manuel Bandeira e Sérgio Buarque de Holanda. Logo chegaria a Semana de Arte Moderna.
Drummond em http://cartilhadepoesia.wordpress.com
DOTE
Te ensinarei
O segredo onomatopaico do mundo
Te apresentarei
Thomas Morus
Federico Garcia Lorca
A sombra dos enforcados
O sangue dos fuzilados
Na calçada das cidades inacessíveis
Te mostrarei meus cartões postais
O velho e a criança dos Jardins Públicos
O tutu de dançarina sobre um taxi
Escapados ambos da batalha do Marne
O jacaré andarilho
A amadora de suicídios
A noiva mascarada
A tonta do teatro antigo
A metade da Sulamita
A que o palhaço carregou no carnaval
Enfim, as dezessete luas mecânicas
Que precederam teu uno arrebol
Como consta em todos os registros possíveis, Oswald participa ativamente da Semana de Arte Moderna, realizada de 13 a 17 de fevereiro no Teatro Municipal de São Paulo. Lá, lê fragmentos inéditos de Os Condenados e A estrela de absinto. Integra o grupo modernista da revista recém criada Klaxon. Os condenados é publicado com capa de Anita Malfatti, pela casa editorial de Monteiro Lobato. Faz conferências em banquetes e lançamentos. Nesta época forma o notório “grupo dos cinco” com Mário de Andrade, Anita, Tarsila do Amaral e Menotti Del Pichia. No fim do ano de 22, Oswald viaja para Europa em dezembro, está com 32 anos. Um mês depois, ganha na justiça a custódia do filho Nonê, que viaja com ele à Europa e começa a estudar na Suiça. Passeia com Tarsila pela Espanha e Portugal e, a partir de março, se instala em Paris.
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BLACK-OUT
Girafas tripulantes
Em pára-quedas
A mão do jaburu
Roda a mulher que chora
O leão dá trezentos mil rugidos
Por minuto
O tigre não é mais fera
Nem borboletas
Nem açucenas
A carne apenas
Das anêmonas
Na espingarda
Do peixe espada
Transcontinental ictiossauro
Lambe o mar
Voa, revoa
A moça enastra
Enforca, empala
À espera eterna
Do Natal
Neste mesmo ano de 1923, Oswald conhece o poeta francês Blaise Cendrars. Lá, profere uma conferência na Sorbonne, intitulada “L’Effort intellectuel du Brèsil contemporain”. Participa de um banquete oferecido pelo embaixador Souza Dantas, com a presença de Sérgio Milliet, Jules Romains, Giraudoux, Lhote, Léger e Supervielle. Já está para concluir seu João Miramar. De volta ao Brasil, em 24, desta vez, recebe o poeta francês com quem trava um intensa amizade. No dia 18 de março, publica o “Manifesto da Poesia Pau Brasil”, na Revista do Brasil. Na companhia de Blaise, Mário de Andrade, Tarsila, Paulo Prado, Goffredo da Silva Telles e René Thiollier, forma a famosa caravana modernista, que excursiona pelas cidades históricas de Minas Gerais, durante a Semana Santa. Memórias sentimentais de João Miramar é publicado, enfim. Também expressa suas divergências em relação a Graça Aranha em artigo no Jornal do Commercio.
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MEA CULPA, LEAR
Na hora do fantasma
Entre corujas
Jocasta soluçou
O palácio de fósforo
Múltiplas janelas
Desmaiou
- Por que calaste os sinos?
Meu filho, filho meu!
- Dei, dei, dei
- Onde puseste os reinos e as vitórias
Que minhas estranha serenidade prometia?
- Era usurpação. Paguei
- Passaste fome?
- Muitas vezes comi as marés de meu cérebro
Em 1925, visita o filho Nonê na Suíça. Volta ao Brasil e à Europa e começa a divulgar o modernismo em entrevistas e conferências. Nesta época, Mário de Andrade escreve o poema ‘Tarsivald’ em homenagem ao casal Oswald e Tarsila. Sai o livro de poemas Pau Brasil, com apoio de Blaise Cendrars, pela editora francesa Au Sens Pareil, com ilustrações de Tarsila e prefácio de Paulo Prado. Retorna ao Brasil mais uma vez e publica o artigo “A poesia Pau Brasil” no qual responde ao ataque feito por Tristão de Athayde, no mesmo jornal. Anuncia sua candidatura à Academia Brasileira de Letras na cadeira de Alberto Faria, porém, não a regulariza. Oficializa o noivado com Tarsila e viaja para França com ela. Encontra mais uma vez com Nonê e partem todos para uma excursão no Oriente Médio.
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ANTENA
Aqui todos bem
E aí?
Pega o coleóptero pentâmetro
Lamelicórneo
Escarabídeo de negro marfim
Quem foi que te pegou?
Tata! É meu!
O bizantino escaravelho.
Ainda em 1926, Oswald recebe o poeta italiano Marinetti em viagem à America do Sul e casa-se enfim com Tarsila do Amaral. No ano seguinte, publica, a Estrela de absinto, com capa de Vitor Brecheret. Escreve crônicas de ataque a Plínio Salgado e Menotti Del Pichia, que eram Integralistas e rompem com os Modernistas. Recebe menção honrosa da Academia Brasileira de Letras pelo livro A estrela de absinto. Em 28, como presente de aniversário, recebe de Tarsila um quadro ao qual resolvem chamar de Abaporu, que em língua Tupi quer dizer “aquele que come”. Também é neste mesmo ano que redige e faz uma leitura do “Manifesto Antropófago” na casa de Mário de Andrade e, funda, com Raul Bopp e Antonio Alcântara Machado a Revista de Antropofagia.
Pai e filha em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
A FAMÍLIA DO BURRINHO
- Vamos Joseph fugir
- Para onde Maria ir
Joseph (jocoso) – shall go to Jundi-aí ai!
- Depressa! Sela o Mangarito
Vamos com o vento Sul
Onde serei cesariada?
- Não presepe
- Tenho medo da vaca
- Não chores darling (terno) Sweepstake de Deus!
Maria – Caí na ilegalidade
Porque modéstia à parte
Trago uma trindade no ventre
Nesse tempo não havia ainda as irmãs Dione
Algumas palavras de inglês conhecendo
A família sagrada partiu
Sem saudades levar
Para as bandas do mar
Vermelho
Na poeira da madrugada
Cruzou um olival
O escaravelho
- Quantas dracmas serão precisas?
Exclamou o castiço esposo
Para esta viagem em torno da lei do mundo
Estamos no século III ou IV da fundação
De Roma
E só tenho “argent de poche”
- Não vá faltar Joseph
- Na verdade Deus ajuda…
(os ricos)
- Sonhei que os serafins
Estão bordando uma estrela surda
Para Herodes não ver
Quero reis magos
Trenzinho e monjolo
E o retrato de Shirley Temple
Porque o menino vem
Este mundo salvar
O vento distribuía algodão pelos açudes
Joseph espancou o burrinho
E riu
- Belo mundo ele vem salvar!
(Já havia naquele tempo
Pouco leite para os bebês)
- Se faltar numerário
Eu carrego na centena do Mangarito
E dou um viva ao faraó Hitler…
(Antes que ele faça comigo
O Progrom que fez com Moisés)
- Oportunista! gritou uma nuvem
Joseph fingiu que não ouvia
- A vida é um buraco
Enquanto não vier Maria
A socialização
Dos meios de produção
- Besta! gritou um anjo
São José seguiu pensando
Que os anjos geralmente são reacionários
E as nuvens provocadoras
Em 1929, ano da crise econômica americana, Oswald lança a segunda edição da Revista de Antropofagia, sem a participação dos antigos colaboradores, que passam a criticar a revista. Presta uma homenagem ao palhaço Piolim na quarta feiras de cinzas com o apoio da revista. Ao longo do ano, rompe com os amigos Mário de Andrade, Paulo Prado e Antônio de Alcantara Machado. Com a queda da bolsa, sofre algumas perdas financeiras. Recebe a visita de Le Corbusier, Josephine Baker e Herman Keyerling e mantém uma relação amorosa com Patrícia Galvão, Pagu, com quem escreve o diário “O romance da época anarquista, ou Livro das horas de Pagu que são minhas – o romance romântico – 1929-1931″. No fim do ano, termina com Tarsila e se junta com Pagu. Casa-se com ela em compromisso verbal em frente al jazigo da família Andrade no cemitério da Consolação. Quando vem a Rio de Janeiro assistir à posse de Guilherme de Almeida na ABL, é preso pela polícia sob denúncia de querer agredir ao poeta Olegário Mariano.
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ESTRONDAM EM TI A IARAS
Desde Bilac
Somos internacionalistas e portugueses júniors
Gostamos de Camembert, do Nilo, de Frinéia e de Marx
Carvões do mar
Náufragos entre sustos e paisagens
- “I don’ know my elders!”
Desde Gonzaga e desembargadores
Desde a Prosopopéia
Somos brasileiros
Em 1931, Oswald viaja para o Uruguai para conhecer Luis Carlos Prestes, exilado em Montevidéu. Adere ao comunismo. Lança o jornal O Homem do Povo, com Pagu e Queirós Lima e participa da Conferência Regional do Partido Comunista no Rio de Janeiro. Publica Serafim Ponte Grande e ajuda financeiramente a publicação de Parque industrial de Pagu. Em 1934, Participa do Clube dos Pianistas Modernos e passa a viver com a pianista Pilar Ferrer. Publica a peça O homem e o cavalo e lê cenas no Teatro Experiência de Flávio de Carvalho, mas é interditado pela polícia. Apaixona-se por Julieta Bárbara Guerrini, com quem assina um “contrato antenupcial”. Um ano depois, reuniões na casa de Flávio de Carvalho para programar atividades artísticas e culturais. Conhece através de Julieta, Roger Bastide, Giuseppe Ungaretti e Claude Lévi-Strauss.
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BUENA DICHA
Há quatrocentos anos
Desceste do trópico de Capricórnio
Da tábua carbunculosa
Das velas
Que conduziam pelas estrelas negras
O pálido escaravelho
Dos mares
Cada degredado insone incolor
Como o barro
Criarás o mundo
Dos risos alvares
Das colas infecundas
Dos fartos tigres
Semearás ódios insubmissos lado a lado
De ódios frustrados
Evocarás a humanidade, o orvalho e a rima
Nas lianas construirás o palácio termita
E da terra cercada de cerros
Balida de sinceros cincerros
Na lua subirás
Como a tua esperança
O espaço é um cativeiro
Em 1936, casa-se mais uma vez, agora com Julieta Bárbara Guerrini. Juntos, passam dias na fazenda da família de Julieta onde recebe a visita de Jorge Amado. Publica um volume com duas peças, A morta e O Rei da Vela. Publica também a sátira “Um panorama do fascismo”. Participa das atividades da Frente Negra Brasileira proferindo um discurso sobre Castro Alves no Teatro Municipal. Em 38, obtém o registro # 179 do Sindicado dos Jornalistas de São Paulo. Em 39, ingressa no Pen Club, e vai para a Europa com a mulher para representar o Brasil no Congresso Pen Club, porém, volta ao Brasil devido à guerra. Neste ano, tem problemas de saúde e vai para um retiro na estância São Pedro. Em 40, candidata-se a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras e escreve uma carta aos imortais declarando-se para-quedista contra as candidaturas de Menotti Del Pichia e Manuel Bandeira, que acaba sendo eleito.
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COMO UM MOLE TUFÃO
O imperador está com sinusite
No apartamento 522
Aqui d’el rei!
Viveste milênios
Bajulando a sinusite do imperador
Ou no oboé das barricadas
Nunca acrisolaste tua reputação bancária
Nem na Florença dos Medici
Em Bombaim ou Buenos Aires
Dentro daquele copo da China
Como uma flor de coral
Nunca consolidaste tua revolta
Sem atirar de supetão
Nos tiranos desprevenidos
Daí a tua híbrida
Reputação de jogador
Muita gente te amou sem ser amada
Em 1941, Oswald relança o volume Os condenados, agora, dividido em três partes: Alma, A estrela de absinto e A escada. Nesta época encontra-se com Walt Disney que faz visita a São Paulo e monta com seu filho Nonê, um escritório de imóveis. Em 42, publica na Revista Brasil, o texto “Sombra amarela” dedicado a Orson Wells. Participa do VII Salão do Sindicado dos Artistas Plásticos de São Paulo. Separa-se de Julieta e conhece Maria Antonieta D’Alkmin. Um ano depois, publica A revolução melancólica e participa do II Concurso Literário. Em junho deste ano, casa-se com Maria Antonieta e inicia a coluna “Feira das Sextas” no Diário de São Paulo. Também encontra-se com o escritor argentino Oliverio Girondo.
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EPITÁFIO #2
Não terás os carros dos triunfadores
Nem choros de escravos
Porque quiseste libertar os homens
Estacará diante de ti
A máscara da negação
Lutarás com a vida face a face
Sem subterfúgios nem dolo
E ficará e eco de tua queda
Em 1944, Oswald começa a colaborar para o jornal carioca Correio da Manhã. Em maio deste ano, viaja a Belo Horizonte a convite do prefeito Juscelino Kubitschek, para participar da Primeira Feira de Arte Moderna. Faz conferências sobre pintura e algumas são publicadas. Em 45, participa do I Congresso Brasileiro de Escritores e anuncia Prestes com candidato à presidência, também lança o manifesto da Ala Progressista Brasileira. Porém, discorda da linha política de Prestes e rompe com o Partido Comunista. Recebe o poeta Pablo Neruda e nasce sua filha Antonieta Marília de Oswald de Andrade.
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ERRO DE PORTUGUES
Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português
Em 46, participa das homenagens póstumas a Mario de Andrade e discursa no Centro Acadêmico XI de Agosto em homenagem a Gilberto Freyre. Publica o texto “Mensagem ao Antropófago desconhecido (da França Antártica)”. No ano seguinte, publica O escaravelho de ouro dedicado à sua filha. Perde a eleição para delegado da Associação Brasileira de Escritores e se desliga da entidade. Em 48 nasce seu quarto filho Paulo Marcos Alkmin de Andrade e participa do Primeiro Congresso de Poesia no qual discursa criticando a “geração de 45″ ressaltando as conquista de 22.
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MENSAGEM POÉTICA AO POVO BRASILEIRO
HIP HIP HOOVER!
América do Sul
América do Sol
América do Sal
Do Oceano
Abre a jóia de tuas abras
Guanabara
Para receber os canhões do Utah
Onde vem o Presidente Eleito
Da Grande Democracia Americana
Comboiado no ar
Pelo vôo dos aeroplanos
E por todos os passarinhos
Do Brasil
As corporações
Essas já saíram para as ruas
Na ânsia
De o ver
Hoover!
E este país ficou que nem antes da descoberta
Sem nem um gatuno em casa
Para o ver
Hoover!
Mas que mania
A polícia persegue os operários
Até nesse dia
Em que eles só querem
O ver
Hoover!
Pode ser que a Argentina
Tenha mais farofa na Liga das Nações
Mais crédito nos bancos
Tangos mais cotubas
Pode ser
Mas digam com sinceridade
Quem foi o povo que recebeu melhor
O Presidente Americano
Porque, seu Hoover, o brasileiro é um povo de sentimento
E o senhor sabe que o sentimento é tudo na vida
Toque!
Em 1949, Oswald profere uma conferência no Museu de Arte Moderna, onde fala sobre “As novas dimensões da poesia”. Recebe em julho deste ano Albert Camus em visita ao Brasil e faz com ela uma excursão a Iguape afim de assitir as festas do Divino, relatadas por Camus em “Journaux de Voyage”. A visita termina com uma “feijoada antropofágica” em sua residência. Em 1950, comemora seus sessenta anos e o Jubileu de “Pau Brasil” com um banquete “antropofágico” no Automóvel Club de São Paulo. Lá é homenageado por Sérgio Milliet. Escreve o artigo “Sexagenário não, mas Sex-appeal-genário” para A Manhã. As conferências sobre antropofagia são constantes e Oswald se candidata a deputado federal pelo Partido Republicano Trabalhista com o lema Pão-teto-roupa-saúde-instrução-liberdade.
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GLORIOSO DESTINO DO CAFÉ
para o Germinal Feijó
Pequena árvore
Cheia de xícaras
Te dei
Adubo
Trato
Colono
Céu azul
E tu deste
A safra
Dos meus anos fazendeiros
Depois deste
O desastre
E de borco no chão
Me recusei
A achar desgraçados os meus dias
Senti que como tu
Pequena árvore
Milhões de homens de minha terra
Haviam sido queimados
Decepados dos seus troncos
Para que se salvasse
Sobre a miséria de muitos
O interesse dos imperialismos
E se apaziguasse a gula
De seus sequazes tempestuosos
E deste
Em xícaras
O travo da tua cor madura
Senti no teu calor
Aquecido nos fogareiros pobres
O rubi da revolução
E como muitos me armei
Cavaleiro de ferro
Nos lençóis rasgados
Ds cortiços
E nas praças tumultuosas
E como tu pequena árvore debordada
Debordado do latifúndio
Saí ao encalço da felicidade da terra
Em 1951, Oswald entrega a Cassiano Ricardo um projeto escrito a propósito da reforma de base anunciada por Getúlio Vargas e propõe a organização de um Departamento Nacional de Cultura. Começam as dificuldades financeiras. Em 52, republica o Manifesto da Poesia Pau Brasil no jornal A Manhã. Começa a escrever tratados sobre antropofagia, ensaios, anotações. É internado na clínica São Vicente no Rio de Janeiro. Em 1953, participa do júri pelo Salão das Letras e Artes Carmen Dolores Barbosa e dirige saudação a José Lins do Rego. Sofre nova intervenção hospitalar no Rio de Janeiro. No fim do ano, por problemas financeiros, tenta vender sua coleção de telas estrageiras para o MAM do Rio, e os quadros nacionais para Niomar Muniz.
Jorge Mautner em http://cartilhadepoesia.wordpress.com
O MACAQUINHO E A SENHORA
Um dia uma senhora
De rico parecer
Entrou num velho parque
A fim de espairecer
Olhou todas as flores
Era na Primavera
E pensou nos amores
Pois linda e moça ela era
Eis quando numa gaiola
Depara subitamente
Com feio e pelado bicho
O pobre Macaco Clemente
Vendo-a o filho de Deus
Sorri e se coça todo
Pula gira rodopia
Enfia a cabeça no lodo
Depois trepa, guincha, grita
E pinta o sete e o caneco
Ri-se, assovia, namora
E põe tudo em cacareco
A rica senhora sorri
Pra tal manifestação
Mas ao amor do macaco
Gelado é o seu coração
Desolado, cabisbaixo
Reflete o pobre Clemente
- Assim é a lei inflexível
Do meu destino inclemente!
Meses depois, a senhora
Das sedas e dos brilhantes
Regressa a jardim perdido
Mas não volta como dantes
Na cidade em que vivia
Rebentou a revolução
E o seu querido partiu
À frente de um batalhão
Uma manhã ela viu
O belo amante enforcado
Só a graça e a riqueza
Lhe restou do ano passado
Ávida, ei-la que procura
O triste do macaquinho
Pra ver se ele inda se lembra
Como ficou perdidinho
Mas o Clemente não liga
Às jóias, à seda, ao porte
Da grande e linda senhora.
É assim que muda a sorte!
Põe-se numa gostosa fruta
Preocupado a descascar
Enquanto ela dolorida
Procura o interessar
Moral
Inútil, minha senhora,
Seu macaquinho perdeu
Não troca ele uma banana
Por perfil de camafeu
Tarsila, bela Tarsila
Não vá entornar o caldo
Não perca tempo não perca
Case-se logo com o Oswaldo.
Em 1954, Oswald prepara-se para ministrar um curso de Estudos Brasileiros da Universidade de Upsala, na Suécia, altera a programação para o curso ser dado em Genebra, mas jamais faz essa viagem, pois é internado no hospital Santa Edwiges e escreve o caderno “Livro da convalescença” que é lido por Di Cavalcanto no Encontro de Intelectuais, no Rio de Janeiro. Sofre uma intervenção cirúrgica no Hospital das Clínicas. Faz mais uma conferência e é homenageado no Congresso Internacional de Escritores realizado em São Paulo. Seu reingresso nos quadros da Associação Brasileira de Escritores é aprovado. Em outubro deste ano de 54, Oswald de Andrade é internado e falece no dia 22 sendo sepultado no jazigo da família no cemitério da Consolação. Assim terminamos mais uma antologia. Semana que vem, outro universo poético, outras proposições, outros poemas, outras ideia de poesia.
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PEITINHOS
(poema da era pré-freudiana)
Seu Bonifácio gostava muito de comungar
E como ficava com o estômago fraco
Ia depois tomar café em casa de Dona Sarah
Que era em frente da Igreja
Numa manhã Dona Sarah apareceu com uma blusa de
rendas sobre o corpo sem camisa
Seu Bonifácio quando chegou
Na hora da morte
Aos 78 anos
Comungou pela última vez
Delirando
Com os peitinhos nus de Dona Sarah
Jorge Mautner
Henrique George Mautner nasceu no Rio de Janeiro no dia 17 de janeiro de 1941, filho de Paul Mautner e Anna Illichi. De acordo com sua mãe, George nasceu às 9 horas da noite, na hora em que abria o Cassino da Urca. Sua mãe era origem iugoslava e católica, ao passo que seu pai, era judeu austríaco. O menino nasceu pouco tempo depois de seus pais desembarcarem no Brasil fugindo do holocausto, do nazismo. Neste mês, percorreremos a poesia deste notável artista brasileiro. Sua relação com o Tropicalismo, com a música, com a prosa e, sobretudo, com a poesia brasileira. Evoé!
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POEMA V
E houve um estranho amor
que quase me custou a vida
e que hoje me crucifica
e que na verdade
me tortura, ah! romântico!
A lua brilhava que nem prata
em cima da praia de novo
e eu andava sozinho
com meus velhos blue-jeans
e o meu Brasil
como eu te amo Brasil!
Sofria a fome e os pescadores e trabalhadores
e criancinhas esperam um dia melhor
quando a bandeira vermelha
for nossa bandeira pelo céu
azul e cinza chuvoso dessa terra
maravilhosa e triste
e nós os tristes, os deslocados,
os que são vermelhos por causa do sngue do
coração e da paixão lutaremos por isto!
Mas deixa viver com minha saudade
em meu peito!
Ela é minha!
É coitadinha
é a única coisa que tenho
(pois não tenho amor)
e ela é vermelha
como a bandeira que nos une!
É porque tudo isto é
o sangue, a paixão,
o amor.
Palavra linda! Quase sacra.
O sol nasce por aí
e o mar se ilumina
e o calor produz a febre
e a febre me faz escrever
inventar cantar lutar!
Luto no amor e na vida.
Ah! Os rocks dão-me forças
tenho uma espada na mão que não vejo
mas meu peito tem um coração
que tem FÉ que encontrei
depois de muito tempo perdida.
Eu e meus companheiros
vamos marchar por aí.
É o que resta.
Estandarte do Kaos!
Marxismo existencial!
Coisa nova!
Viva o mundo
o sangue vai correr
do nosso coração
ela já escorre!
Seu pai, Paul Mautner, era um homem extremamente culto. Quando veio ao Brasil, Paul se tornou logo simpatizante de Getúlio Vargas e começou a trabalhar com a comunicação da agência de resistência judaica anti-nazista. Um ano depois, em 42, um choque: Sua irmã, Susana Mautner, não consegue vir da Áustria para o Brasil para se juntar aos pais, fato este que marca muito sua mãe, Anna Illich, que passa a sofrer de uma paralisia nas mãos. O pequeno Jorge, então George, passa a ser educado pela sua babá, Lúcia, que era Yalorixá. Lúcia passa a levar o menino para terreiros de candomblé, onda há uma natural familiarização com o batuque.
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ECOLOGIA
a ecologia
se chamava um dia
deusa harmonia
e era a filosofia
doa gregos e de todos os eternos astronautas
que somos todos nós jamais a sós com todas nossas faltas
só os sonhadores
vivem os grandes amores
ciência e paciência
viva a coexistência!
…
hoje em dia
a ideologia
do terror
morreu de puro amor
e da morte dela nascem sem parar tão lindos frutos
novas ideologias todos os dias a cada três minutos
coisas muito jóias
Sem as paranóias
e sem radicalismo
ou totalitarismo
…
ó coração
por que razão
choras e choras
se a revolução
brasileira é multi-racial super original
só nossa como o samba e a palhoça e este carnaval
ela é nossa
como a bossa
o luar de prata
e ela é bem mulata!
…
e a soja
que é a comida
e a própria vida
que nós daremos
pra boca de uma faminta superpopulação que vai pintar aí
pra boca da superpopulação terrestre que vem aí
essa a missão sagrada do país em que nasci
e acabar com o tédio
do primeiro mundo
e dar o remédio
que é este negro batuque tão profundo
…
Em 1948, quando tinha seis anos, Mautner presencia a separação dos pais. O menino fica com a mãe, Anna Illich, que se casa, então, com Henri Muller, um violinista, e se muda para São Paulo. Mautner foi junto. O contato com seu pai e com a babá Lúcia se perde, ambos continuam a viver no Rio de Janeiro. Henri Muller, que se torna o primeiro violino da Orquestra Sinfônica de São Paulo, tem papel fundamental na vida do jovem George Mautner, quando ensina-o a tocar o instrumento, e assim, Mautner descobre o violino. Seu padrasto, além da orquestra, também faz pequenos trabalhos, ou “bicos”, participando de programas da Rádio Nacional, e nesse tempo, o menino tem a oportunidade de conviver entre grandes artistas da rádio, como Aracy de Almeida, Nelson Gonçalves, BlackOut, Jorge Veiga, Tonico e Tinoco, Elizeth Cardoso, Inezita Barroso, Marlene, Emilinha Borba e muitos outros.
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DESAFIO E DESAFIO
(trecho)
No infinito-finito universo einstaniano
Ou na afro-indígena vertigem da cultura da suprema doçura
Da negritude de todo território americano
Mas ainda tenho fome
Daquilo que não tem nome
Às vezes a poesia para
Para ser mais odara
Mesmo quando se afunda
Arranha céus
Arranha véus
E a peleja de Deus com o diabo
Eu a vejo como réu
Como coisa de outro estado
Que não o estado em que você tem estado
Mas aquele
Apenas aquele
Que foi conquistado
Violões acústicos
São corações tão rústicos
Em 1950, Mautner vai estudar no Colégio Dante Alighieri, em São Paulo, e lá conhece duas figuras que se tornariam, além de grandes amigos, personagens de seus livros: Arthur de Mello Guimarães e José Roberto Aguilar. Este segundo, disse uma vez que “a minha primeira impressão dele, pelo que me lembro, era que, na terceira série ginasial, ele era um CDF. Tinha um paletó de lã de camelo ou sei lá, e era muito discreto, mas no recreio tocava samba, e isso meio que congregava as pessoas. Eu me lembro de ter visto isso e pensado: “puxa, até que esse cara não é tão certinho quanto eu imaginava”. Basicamente ele era uma pessoa muito isolada da classe. Sei lá, você chega numa classe e sempre tem alguma coisa pra falar…aquela identificação imediata entre todo mundo. Mas o Mautner não: ele era um estrangeiro.”
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CANTO I
Sinto que sou alguém
Que para remediar a dor de cotovelo
Escreveu tudo isso pro nada e pro ninguém
E só queria era estar beijando teu cabelo
Tudo que eu desejo e quero
É habitar com você e mesma paisagem
Onde se houve rock-samba-bolero
E vive-se rindo, só rindo, falando bobagem
Penso nos meus planos tão insanos
A programar minhas atividades
Cantaríamos e nos gostaríamos todos os dias dos anos
Até o infinito da embriagues das eternidades
A eternidade fica onde desejamos
Que ela fique como sendo a realidade
É só querer e nos amamos e nos chupamos
Sendo que é isso que eu entendo por única e absoluta felicidade
Teus olhos são poços
Onde quero pescar a finíssima truta
Quero pescar esse peixe, me deixe! Roer teus ossos
E teus nervos e tua medula como uma fruta!
Os sons do teu violão ecoam
E estremecem as luzes da cidade
Eles são como mantras e koans
E cheios de coisas freios e eletricidade
Perfuro o ventre da escuridão
Onde as coisas se escondem
Porque estão cheias de sim e de não e de confusão
E quando pergunto sobre qualquer assunto nunca respondem
São como coisas presas ao labirinto
Com algemas nos pulsos e tudo
São cinco pras cinco e eu já me sinto
Dentro do seu não e de um caixão de veludo
Toca teu samba, toca
E tortura meu ser com prazer de ser
A tortura como aquela coisa que nos choca
Onde a alegria me enganava se dizendo a alegria do não Ter
Não ter o quê?
Ora, tá na cara
Não ter é não ter você
Seja como grilo, ou seja odara
Luas de prata conseguem
Fazer com que lentamente
As sensações das emoções naveguem
E invadam como as fadas minha mente
Doem-me todas as cicatrizes
E sinto as rugas das verrugas
Sei que és como atores e atrizes
E que sempre atacas quem te quer por em fugas
Tocas então mil serenatas
E antigas cantigas e rondós
Depois mijas no chão como os cães vira latas
E ficas falando de ti quando estamos a sós
É por isso que sinto todos estes e aquelas
Dores incolores e na garganta como nós
Nem as cores de óleos, hologramas ou aquarelas
Poderiam expressar tão bem quanto esses meus ós, ós, ós!
Estou muito sozinho
Na realidade agora
Falta o seu carinho
E a hora da aurora de quem namora
Gostaria de fazer poesia sem rima
E finalizar por aqui
Mas não consigo deixar de pensar no verso acima
Que sem rima não me deixa dormir
Queria naufragar te beijando
Mas sei que é possível
Por que e até quando
Será meu destino tão horrível?
Desprezaste e usaste todos o meu ser
Agora cansado me viro pro lado
E calado nem consigo ir pro meu eu antigo e morrer
É tudo como se fosse uma visão – suplício – calculado
As barras da minha prisão
São feitas de chocolate
E dentro do meu coraçÃo
Tem um órgão que bate, bate
Que energia é essa
Que não tem pressa nem vai a lugar nenhum?
Que sempre é esse promessa que recomeça
Mesmo quando o jogo é fogo e está um a um?
Eis que vem do além o trem do abismo
É uma questão de vida ou de morte
Pessimismo ou otimismo?
Ou simplesmente, democraticamente, alta falta de sorte?
Ainda sobre este período no início da adolescência, José Roberto Aguilar diz que “O que eu lembro mesmo da época em que conheci o Mautner é desse universo absolutamente mítico. Você entrava na casa dele – que era na rua Itapeva, 187 – e de repente se encontrava num espaço absolutamente diferente, apartado do mundo [...] De vez em quando o Paul (Mautner, pai de Jorge), dava aulas de física quântica, ou então a gente ficava lendo a História da Civilização Ocidental do Bertrand Russel ou os pré-Socráticos. Eram altas aventuras. Por exemplo: ler textos de Somerset Maughan, Hemingway, Faulkner, Kafka, Dostoiévski, era uma aventura absoluta que se abria [...] Esse contexto é muito importante, todo mundo naquela casa contava histórias em nível mítico. O Jorge e a convivência com a babá negra, por exemplo, é uma narrativa mítica.”
Tradução que fiz de Lautréamont em http://pedrolago.blogspot.com
CANTO III
Sinfonia ligeira
Não chega ao fim
Queira ou não queira
Eu sou é assim
Te dei meu corpo
Te dei minha pele
Mesmo depois de morto
Essa força me impede
Força dos grandes destinos
Que estão muito além
Dos hinos e dos sinos
E do aum e/ou do om e do amém
Mas te amo, te amo, te amo
Como nunca se amou na Terra
Nem no Brasil, no Vietnã ou no oceano
Nem na China nem na Inglaterra
Monstro dourado
De amor e dengue
Sou eternamente gamado
Nestes quadris que dançam merengue
Fico feliz
Quando tu chegas
És a matriz
Das minhas horas mais negras
De onde tu vens?
De onde? De onde?
Será que tu és quem tens
O ouro do conde?
Falo bobagem
Começo a ser fragmento
A grande chantagem
É a morte a todo momento
Em 1956, Jorge Mautner começa a escrever sua primeira grande obra: O Deus da Chuva e da Morte. No ano seguinte, nasce sua irmã, Jane Liliane Muller, filha de Ana com Henri Muller. Mas é em 1958, que sua vida literária tem seu primeiro momento, quando, aos 18 anos, tem pela primeira vez seu texto publicado numa revista. Descoberto por Paulo Bonfim, Jorge é comentado no #13 da revista filosófica Diálogo, dirigida por Vicente Ferreira da Silva. Neste mesmo ano, começa suas composições musicais como Iluminação, Olhar Bestial, O Vampiro e outras. Neste ano, também, começa a praticar tai-chi chuan.
Bolero em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
CANTO IX
Nosso amor, esta ilusão
Está encerrado e frio
Acolchoado no colchão
E ainda assim eu me rio
Gozo às vezes e poso
De ser acima do Bem e do Mal
Mas quando convém me entroso
Sou mais sincero que o real do real
Cabelos cacheados
Cabelos lindos
Cabelos revoltados
São fios de antenas tinindo
Açucar doce
Café amargo
Antes eu me fosse
Mas não vou pois não me largo
Pois mesmo o calafrio é
Também tesão afeto
Quer tomar café?
É meu divertimento predileto
Esta cena é ambulante
Como um cigarro e assim eu brinco
No sarro em que te amarro que é amante e apaixonante
E com o qual, bem ou mal, eu brinco
A maçaneta
Não é o trinco
Assim como a corneta
Toca às cinco pras cinco
Te amo no poste
Ou na banheira
Quero você goste
Ou não goste, como queira
Manda ver o chicote
A noite inteira
Depois quero que você me bote
Na minha boca tua língua inteira
Em 1962, Jorge Mautner (agora, enfim, Jorge), publica seu primeiro livro: O Deus da Chuva e da Morte, editado pela Martins Fontes e recebe o Prêmio Jabuti de Literatura. O livro segue uma narrativa simples, porém, intensa e recebe ótimo elogios. Paulo Bonfim disse que “este é um livro diferente. Em suas páginas o leitor encontrará a mensagem genial de um moço de dezenove anos [...] não conhecemos em nossa literatura documento tão impressionante sobre a angústia, o amor e a morte de uma geração tragicamente solitária e incompreendida”. Caetano Veloso aponta que “Jorge Mautner começou a escrevê-lo em sua adolescência, nos anos cinquenta, quando por aqui se cristalizavam as experiências da construção de Brasília, da poesia concreta e da bossa nova, e, nos Estados Unidos, a da literatura beatnik”. E assim Mautner apareceu.
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SANSÃO E DALILA
Sansão e Dalila
A canção que repercute, dali lá
Escute, vê se entendes meus prantos
Ó Ruth caligut Mendes dos Santos
Flechas como os pigmeus
Feitas de segredos meus
Para corações ateus
E para os crentes do divino Deus
Flechas saem do meu coração
Não sei pra onde elas vão
Só sei que às vezes elas vem
Bater el alguém sem coração
Depende só da ocasião
Umas flechas que só vem
Outras flechas que só vão
O porque disso aí
Justamente não sei não
Juro que… não!
Elas vem envenenadas
De coisas apaixonadas
Que o bruxo do amor que eu sou
Com carinho preparou
Outro dia numa oração
Flecharam a cruz da emoção
No altar cheio de luz
De Nossa Senhora da Conceição
Um dia numa ocasião
Mil flechas em profusão
Atingiram um espelho
Aí se deu a confusão
Me apaixonei só por mim mesmo
Num egoísmo muito vesgo
(num egoísmo tão a esmo)
Mas agora não
Sei bem o que é essa boba ilusão
Outra vez num quarto escuro
Voaram setas pro futuro
Furando aquele longo muro
Que aprisiona a solidão
Flechas que saíram em fila
Num filme que pra ver eu fiz fila
Do coração de Dalila pro coração de Sansão
Com o Brasil em ebulição e após a publicação e o sucesso de ‘Deus de da Chuva de da Morte’, Mautner funda o Partido do Kaos, porém, logo adere ao Partido Comunista e é prontamente convidado pelo professor Mario Schenberg para participar junto com o José Roberto Aguilar de uma célula cultural no Comitê Central. Em 1963, mantém uma coluna diária intitulada Bilhetes do Kaos, no jornal Última Hora, até o dia do Golpe Militar. Comenta sua visão de mundo baseada no “sexo, sangue e futebol”. Logo depois, publica, Kaos, seu segundo livro, com orelha de José Roberto Aguilar. Tinha já seus vinte e um anos e pretendia escrever uma trilogia, começando com o ‘Deus…”, depois com Kaos. “O Partido do Kaos existe no coração de todos”.
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POEMA I & II
I
salve minha linda palmeira brasileira
Que vive prisioneira
Por entre os quatro cantos do prédio da cidade
Nasceu como pequena semente
No ponto mais quente
Do nosso país continental tropical
Veio morar por aqui
No subúrbio desta Capital
E apesar de toda poluição infernal
Vive como antigamente
A irradiar ondas redondas serenamente
Como se fosse tudo natural
É com grande amizade
Que nos comunicamos e amamos de verdade
Eu do reino animal
Ela do reino vegetal
Nós dois, pois, do superimpério democrático social
II
João Alfredo muito cedo partiu pro vigésimo nono andar
Sem medo
Sem anel de bacharel no dedo
Subiu-partiu para o ar frio das vidraças cheias de poluição
Fumaça-prédio-limpar
Foi com a pureza de uma criança
Para trabalhar pendurado (coitado!) quase no ar
No bolso levava um sanduíche de banana com salame
Podia Ter morrido de velho como o lulú ou o totó da madame
Mas morreu como uma pomba
Que tomba embriagada de uma festa de arromba e que se esqueceu de voar
Caiu lá de cima do carro de feira do feirante imigrante Manoel
Veio como um espantalho para o céu
Ao lado do alho, da cebola e do bugalho
Mais um acidente de trabalho
Tanto ‘Deus da Chuva…’ quanto ‘Kaos’ causaram muita impressão nos jovens, sobretudo de São Paulo. Houve um certo movimento intelectual, conhecer Mautner se tornou uma coisa incrivelmente alternativa e exclusiva. Uma espécie de “cult”, ou algo parecido. As críticas forma bem divididas e causaram polêmica. Mautner dizia que: “Nego-me a responder perguntas sobre estilo ou forma. Considero-as estéreis, e o que vale é a força do indivíduo: se minha obra tem valor, ela repercutirá, e isto é o que vale, já disse: não sou parnasiano imbecil burilador. Mas algo eu digo: esta força que minha obra tem, esta repercussão nos espíritos jovens e revoltados que ela encontra é o que vale, e um dia meus inimigos engolirão com sangue minhas respostas finais”.
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AMORA
Sou o pai que te adora
Ó doce filhinha Amora
Só quero que você me escute
Ó cigana rainha Ruth
Nosso amor assassinado e milhões de vezes ressuscitado
É quem me dá certeza na eternidade do que foi testemunhado
Quase dois mil anos atrás
Por um alguém
Que morreu e ressuscitou
Perto de Jerusalém
1964. Golpe Militar. Jorge Mautner é preso e enviado para Barretos. Segundo o Exército, sua prisão seria “uma forma de proteção contra as organizações pára-militares”, que poderiam vitimá-lo por seu envolvimento com o ideário comunista. É solto sob a condição de se “expressar mais cuidadosamente em suas futuras obras”. No ano seguinte, publica a terceira parte da Trilogia do Kaos, com o livro ‘Narciso em Tarde Cinza’. Publica também ‘O Vigarista Jorge’, pela editora Von Schmidt, com prefácio de Mário Schenberg. Embora pareça, o livro não é autobiográfico, mesmo com discurso político provocador com o personagem principal de nome ‘Jorge’. Na música, lança os compactos das música de protesto ‘Radioatividade’; ‘Não, não, não’ e também os conjunto ‘Os Seis – Suicida Apocalipse’ como uma prévia d’Os Mutantes.
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ANTENAS
O artista cisma
Que é marginal
Mas não sabe
Que o que lhe cabe
É o maior problema
De ser um Mandarim do sistema
Líder antena
Igual
Talvez abaixo (eu acho)
Apenas do cientista
Na verdade lista
De importância
Na sociedade da suprema ânsia
De ganâcia e extravagância
Onde o cruel é o mel e a fragrância
E o terrível já começa na infância
O bebê nasce no hospital onde tem uma ambulância
E a multidão te viu
Na Tevê
Que te vê
E te viu
Na Ti, Vi
Que é Tevê
Em inglês
Que todos nós
A esmo
Mesmo na escassez
Se vê, não vê?
E que de antevê
E te fez tudo saber
Ainda como bebê
Ou até mesmo antes de nascer
Sem saber raciocinar
Ou aquela coisa
De escrever e ler
Em 1966, Jorge foi incluído na Lei de Segurança Nacional por causa do conteúdo provocador do livro ‘O Vigarista Jorge’ e das letras do Compacto. A situação ficou bem difícil no Brasil, então, Jorge se exilou nos Estados Unidos. Lá começou a trabalhar na UNESCO. Porém, para ganhar um dinheiro extra, Jorge traduzia livros brasileiros para o inglês e dava palestras sobre os mesmos para a Sociedade Interamericana de Literatura, que ficava na Park Avenue, no mesmo prédio onde havia sido a Embaixada Soviética. Recebia 20 dólares por livro e traduziu muitas obras.
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MOVIMENTO UNIVERSALISTA DO KAOS
O partido do Kaos com k
É o mais querido
O que é que há?
É Kaos com k. KK! Colorido destemido
Vai nascer
E já nasceu
Vai ser o ser
Do ABC do plá do anjo e do Zebedeu
Vai brotar nas águas
Como Vênus-Afrodite
Ou Iemanjá e levar as mágoas
De quem como eu é como o povo e como a elite
Estamos iniciando
O movimento que tal, em paz
Amamos e estamos amando
Todo o tempo do tempo e o mal, aliás, jaz no jamais
E no espaço e no vento
Nos ciclones e vendavais
Eu sou o aço do abraço e o documento
Dos nomes e fomes e se és dos homens e lobisomens e dos etcétera e tais
Movimento Universalista
Do Kaos com k
É o movimento no universo sensualista
Do Tao e do som de eon do balafon e do elétron no tom do bom e do plá do plá
É como a canção
Do Jackson do Pandeiro
É o Rei Momo e o não da emoção
O dõ do kendô do Aikido do amor de Xangô e do verdadeiro brasileiro
Universal
E nacionalista de um neo-nacionalismo
Tolerante e democrático social-existencial-global-sensual
E futurista-realista-surrealista de um mel de humanismo
Mistura fina
De cultura pagã
E aventura-doçura-procura-latina
De cura e de anti-linha dura de qualquer ditadura sã e super saudável
Em 1967 Jorge é convidado para participar do Simpósio Interamericano em Caracas, na Venezuela. Lá conhece e já começa a trabalhar como secretário literário do escritor americano Robert Lowell. Conhece também o teólogo da nova-esquerda do anarquismo pacifista, Paul Goodman, de quem recebe as maiores influências sobre ecologia. Compõe duas músicas com a cantora de jazz Carla Bay. Segue a vida para o ano de 1968, quando volta para o Brasil para receber o Greencard e conhece Ruth Mendes, com que viveria futuramente. Ajuda a fazer o roteiro do filme ‘Jardim de Guerra’ de Neville D’Almeida. O filme é duramente censurado pela Ditadura Militar. Um grande viagem estaria por vir.
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RAIOS DE AMOR
Amor é relâmpago mútuo
Por que será que só eu
Quando todo mundo da luz se esqueceu
Sou um raio que é penugem
Me levanto da nuvem e caio
Com vertigem na penugem
Me levanto da nuvem e caio
Com vertigem na folia
Sou a tua tempestade?
Sou como cavalo baio em pleno céu azul de maio
Com a força da maldade da saudade?
Se nosso amor está de luto
É só por causa da tua vontade
Se você quiser em menos de um minuto
Existirá o ah ah ah da alegria do meio dia
Da harmonia da eterna eternidade
Com total perenidade
E imensa felicidade
Eu sempre te escuto
Mesmo quando você está ausente no presente
Dentro ou fora dos esconderijos da cidade
É como a fumaça que passa e sai e se vai de um charuto
Que some e se consome e que tem o nome de felicidade
É como a bola que eu chuto
Com atletismo e num gol de máxima penalidade
Mesmo assim por teu amor e por você eu luto
Com toda a minha capacidade
O que eu sonho eu executo
Espero que assim você goste de mim
Como eu cujo amor atômico
E eletrônico é igual ao rugir
E crescer e surgir e nascer
De toda uma nova humana humanidade
Que se ama com sincera sinceridade
Como se fosse a eterna e doce primavera
Que sopra na copa de todos os coqueiros
E nos tambores de todas as cores
Flores e amores de nossos e vossos terreiros
Brasileiros da nova religiosidade
Que é a grande novidade
Com toda honestidade
Dos tempos atuais
Dos mais iluminados astrais
Que vem pra cima de nós e de vós
E de sei lá mais quem
Como o mais puro eterno futuro riso do neném
E da força do amém e da luz de Jesus lá no além da insanidade
De paixão no coração de velocidade
Para ela que caminha na velocidade da luz
Que tem todas as cores
E é invisível
É tudo ação e são maravilhas e horrores
Tudo é terrível e incrível
E nunca jamais o samba-jazz
A guerra e a paz ou os vampiros em seus retiros
Não tem história contada
Nem sabida ou conhecida ou considerada
Mas existe como toda coisa triste
E como toda lebre que corre vida afora
Toda hora bem alegre
Pois é acima do Bem e do Mal
Num espaço maluco onde ao mesmo tempo
De uma só vez o bem tem que vencer o Mal
No fim do fim enfim e assim sim afinal
Pois assim o quis
O quer e quererá
Aquele cujo nome não se diz
Nem ninguém nunca saberá
Pois já no tempo do Faraó
Passando por Jó e até o Bozó
Tudo é tudo e nada é nada numa coisa só
Até que surgisse
Alguém que disse:
“Misturando água com pó
Eu farei alguém que não tenha nem dó
Nem piedade
E a este ser não ser sequer darei o nome
De toda fome ciclone e no fim de mim
Sairão uma mulher e um “home”
Só por pura loucura divina
Que rima
É o que nos conta
Informação-explosão
Que deixa minha alma sem calma e tonta tanta
É a recente
E mais consciente
Mensagem
Que pode parecer bobagem
Mas vem provada com paciência
Pela nossa super-ciência
Da atualidade
Será que é mesmo?
Vive-se a esmo?
Que fatalidade!
E os problemas demográficos?
E os temas geográficos?
Tudo no fundo é imundo
Tudo cenas de cinema
Teatro ou tragi-comédia
Em Caixas ou em Ipanema
Mas o que mais importa
É que a grande porta
É a estrada da batucada morena
Que abriu uma avenida pelos céus celestiais
Nos guia como a melodia do uivo de uma hiena
O riso de um chacal
A voz da namorada pequena
E o tom do cantor de sambas e muamba tropical
Assim caminhamos
E trabalhamos e nos odiamos e amamos
Nada mal, como ponto final, etcétera e tal
O etcétera
E o idem-ipsa-ípsilon
Teve tem e terá
Tudo isso está e o todo é o um
O um menos dois
Igual a um
Quatro mais cinco = 1941
Em 1970, Mautner viaja para Londres onde estão, exilados, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Se aproximam. Lá, dirige e participa do filme ‘O Demiurgo’ na casa de seu amigo Arthur de Mello Guimarães com participação de Caetano, Gil, José Roberto Aguilar, Péricles Cavalcanti, Leilah Assunção. O filme é censurado para exposição pública, então, Jorge passa a exibí-lo após seus show ao público. Gkauber Rocha declara que o filme é o melhor “do” e “sobre” o exílio. Jorge volta ao Brasil e para a escrever para o Pasquim. E é por essa época que Jorge conhece uma figura que se tornaria seu grande amigo e parceiro musical: Nelson Jacobina.
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PISAM TEU SOLO
pisam teu solo
e te descubro coberta de tabus
paralelepípedos
encobrem a nudez
que a mãe terra te deixou,
sentindo o recato (falso)
que te enlaça
te estraga
te amordaça,
não te deixando fluir
nem mostrar aos chegantes
despencados
desgarrados,
oâmago de você
Pobre princesa minha
Aprisionada.
Em 1972, Mautner lança o LP Para Iluminar a Cidade e o compacto Planeta dos Macacos, pelo selo Pirata. O disco é lançado por um preço abaixo do mercado e é boicotado pelas lojas. O selo some. Começa uma série de shows em penitenciárias e na Casa da Palmeiras, de Nise da Silveira. No ano seguinte publica Fragmentos de Sabonete e participa de uma comemoração patrocinada pela ONU pelos direitos humanos onde foi criado o Território Livre, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro no notório show O Banquete dos Mendigos, com a participação de muitos artistas. Em 74, lança o LP Jorge Mautner, com participação e direção musical de Gilberto Gil. É dispensado d’O Pasquim como parte do movimento anti-baiano do jornal, se revolta, e sai atacando grande nomes como Millor Fernandes e outros.
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GAMO O GAMAR
Amo o amar
Só adianta
Quem canta
E se espanta e espanta
A besteira que é tanta
Vamos aprender a amar
O nosso lar e lar e mar e dar e amar e estar
Jamais aprisionar e subjugar-controlar-manipular
Mas sim, aliás, se emocionar com o Brás
Com a onça e toda a nossa bossa e tudo que se possa
Na nossa joça ser algo que adoça e que coça
E remoça pois é nossa como a carroça e a palhoça
E a roça e a onça de novo com toda geringonça
E a nossa anta capivara
E arara e curupira que pira
E Saci-Pererê e você e toda planta
Que tem tanta
E tudo mesmo que é mudo
É coisa santa quando canta
E isso é isso e só isso adianta
E viu e sentiu a farra no Farol da Barra
E a festa da raça multidão como floresta na praça
Todo sutil significado de país de céu de anil
Momento fugaz num zás-trás
A alma secreta e repleta de tão completa do Brasil
Da selva sem fim até o mar por onde deságua o grande rio
Quente atmosfera
Sente átomos na esfera
Da gente quando era
Mais filho que avô
Mais direto que fingidor
Objeto direto, direto na dor
Passatempo predileto era curtir naquele tempo
Com vento lento tormento do ciúme
Estrume e talvez simples costume
Do amor sem destino
Sem meta só desatino
Salada completa
Mas nada recordo
Só essa madrugada é predileta
Como a grana do bacana na carteira
Como o trono da coroa do décimo nono Rei Momo
E que durante o ano era mordomo
Levou cano no cotidiano
Se não me engano
Mais do que quem pratica crimes de caráter insano
Já foi rei e guarda-civil é gordo mais sutil
Já está adiante do mais intrigante instante
Apavorante
Chocante
Este gordo rei Baco-Dionisius de nossa carne-naval
Para os deuses e deusas do paganismo a ressureição
Por aqui não foi nada mal
Tem até caráter brasileiramente legal
Burocratizada e institucional
Já se está adiante
Nem que adiante
Mesmo não querendo estar tão avante
Vá adiante com esse brilho
De filho ou dos trilhos
Das novas ferrovias que são urgentes
Para que nossa crescente agro-pecuária alimente
A nós em primeiro lugar e depois todas as outras gentes
É a noite da noite dentro do dia a dia
É a alegria do riso que ria
Assim como a garganta que canta
E que assim se liberta
Dessa coisa que aperta
E que só adianta o que se canta
E é preciso até ser preciso no impreciso
E dizer é não ao não do vacilo ou do bacilo
Mas sim à imperfeição do humano
Pois sua perfeição inclui o engano
É preciso o que eu preciso
É preciso precisar pisar teu piso
Liso no riso e com juízo
Com aquele amor que é preciso
Como diz o samba imortal para entrar no paraíso
Com sorriso sem prejuízo corrosivo
Ou totalitarismo agressivo
Ou como Narciso
Que se evaporou como beija flor
E a ninguém amou
Assim não seremos, não sou!
Sabemos
Que somos
E seremos
Supremos
Vencendo combatendo
(sempre entendendo)
Os venenos
Supremos
Seremos
Serenos
E assim teremos
Os amores que queremos
Nessa terra santa
Onde tem tanta anta que canta
Como só canta
E levanta
E adianta
Quem se encanta
E que se alevante
O supermaracatu elefante
Democratizante!
Aqui é mesmo o final
Abaixo o nazismo universal!
“Ciau”
Jorge Mau
Ou bem
Jorge Ben?!
O Tropicalismo surgiu e Jorge estava no meio dele. Sobre sua impressão com a música de Jorge, Gilberto Gil disse que “Eu acho que o despojamento formal, a desconstrução de uma construção lógica clássica, de um universo arquitetônico arrumado, com edifícios construídos andar sobre andar, primeiro sobre o chão, o segundo sobre o primeiro, essa construção lógica desconstruída no versejar e arrumar os versos, ou arrumar as ideias dentro dos versos, de trazer universos pra dentro dos versos. Essa construção lógica havia sido bombardeada pelo Tropicalismo. Mas quando eu ouvi pela primeira vez Maracatú Atômico, construído daquele jeito tão absurdo, quer dizer, como um edifício de pedras cósmicas, construído à semelhança das estações espaciais, com um sistema de acoplagem onde se encaixam peças vindas de todos os lados, debaixo, do alto, da esquerda e da direita, foi um espanto. Isso para mim era um avanço, não só na poética, mas também na música que o Jacobina e o Mautner criaram”.
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ILUMINAÇÃO FELINA: POSTURA DO SENTIR
A guerra mundial não será o fim da humanidade, ou também poderá ser o fim. Que será
será…Sou um religioso, místico, irracionalista. Intensificar a sensibilidade intuitiva, sensorial,
visual. Aprender a ver tudo de novo, sob um novo ângulo, a partir de um novo foco. Ser profeta.
Ouvir o que ninguém ouve. Desprezar o conhecimento racional ao ponto, apenas, de considerá-lo
15% de nossa capacidade…A iluminação começa quando se descobre que a maior coisa é ser gato.
E quando a gente começa a aprender a respirar como o gato, e andar como os felinos, e a sentir o
cheio das coisas mais do que compreender as coisas, é neste dia que você entra no reino da ilumi-
-nação. Quando a gente é gato, a gente age quando nos nervos dá vontade de agir. Raramente a
gente pensa. A gente desliza como tigres, tudo é sensual, e não há sentido nenhum, meta nenhuma,
objetivo nenhum, apenas desliza vagarosamente com os nervos registrando tudo. Eu, como gato,
às vezes falo com os homens. Alguns deles são simpáticos mas querem sempre explicar coisas.
E eles me falam de revoluções e teorias. E depois que Trotsky morreu assassinado no México,
com machadadas na cabeça e seu sangue correu. Imaginem aquele velhinho, personagem da
tragédia grega, com aqueles óculos e aquela barbicha e aquele olhar ao mesmo tempo doce, duro,
com o crânio arrebentado. A revolução acabou. Depois eu vou procurar meus amigos gatos, com os
quais não preciso falar, pois a gente se entende por gestos e olhares.
Em 1975, nasce sua filha com Ruth Mendes, Amora Mautner. Alegria alegria. Um ano depois lança o LP Mil e uma noites em Bagdá. Em 1978 o início da revisão de alguns textos, com a republicação de Narciso em Tarde Cinza e o livro de Panfletos da Nova Era, que haviam sido publicados no Diário de São Paulo. em capítulos. Lança também um compacto pela CBS com a canções Filho Predileto de Xangô e O Boi e Caetano Veloso grava “Vampiro” no LP Cinema Transcedental. A música chama um pouco mais que a literatura, porém, Jorge não para de escrever. Porém, algumas duras perdas mudariam um pouco as coisas.
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O SILENCIO DE BUDA
o cristianismo nasceu
das palavras de jesus
o zen nasceu
de um silêncio de buda
quando um dia iluminado
em lugar do sermão
apresentou aos discípulos
uma flor
sem dizer palavra
um único discípulo entendeu
mahakasyapa
primeiro patriarca do zen
a doutrina da meditação silenciosa
da concentração descontraída
da dança não dançada
da voz sem voz
da iluminação súbita
da luz interior
da superação dialética dos contrários
na vida diária
Em 1981, Jorge lança o LP Bomba de Estrelas, seu primeiro disco pela gravadora Warner. A música O Encantador de Serpentes fica em quarto lugar no Festival da Globo e, enfim, Mautner lança seu livro de poemas ‘Poesia de Amor e Morte’, base desta antologia. Um ano depois, lança o livro Sexo do Crepúsculo, porém, duas perdas: Seu padrasto, que lhe ensinou o violino, Henri Muller, morre aos 76. Um ano depois, em 1986, Mautner perde seu pai, Paul Mautner. “E os vegetais, as plantas sentem e se comunicam, isso é uma lição de amor & comunicação universal: por quê? Não sei, mas é algo de tão espantoso que a ciência descobriu (e eu a cultura negra do canbomblé e a cultura dos índios sempre soube) que me chocou e conduziu cinco passos a mais no caminho da alegria do Amor Universal. Tudo interligado, através de vibrações, frequencias que são energias, memórias, o Tempo são bolhas que viajam pelo espaço, e a energia é um outro nome para amor” JM.
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O SILENCIO DE PITÁGORAS
para pitágoras
tudo é número
tudo é harmonia
tudo é música
os astros obedecem a uma matemática
essa matemática é uma música
não ouvimos a música das estrelas
porque nossos ouvidos são impuros
a culminância da experiência pitagórica
de purificação
e ascenção nas noites estreladas
a sinfonia vinda das esferas
o silêncio dos astros
nasce da nossa surdez
Em 1985 Mautner relança o livro Narciso em Tarde Cinza e lança o disco Antimaldito com direção musical de Caetano Veloso. Um ano depois lança o livro Fundamentos dos Kaos e faz muitos shows, sobretudo contra o Apartheid da África e pela Revolução na Nicarágua. Em 1987, junto com Gilberto Gil, lança o movimento Figa Brasil no show ‘O Poeta e o Esfomeado’ que tem uma adesão de mais de 7000 inscrições. Esse movimento tinha como objetivo discutir a cultura no Brasil, cruzava com o Kaos do próprio Mautner e propunha uma nova abolição na sociedade brasileira.
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O SILENCIO DE PASCAL
“o silêncio desses espaços infinitos
me apavora”
os pensamentos estraçalhados de pascal
é a crise de uma consciência excepcional
no limiar de uma nova era
o místico pascal
contempla o céu estrelado
numa vã espera de vozes
o céu calou-se
estamos sós no infinito
deus nos abandonou
“daquela estrela à outra
a noite se encarcera
em turbinosa vazia desmesura
daquela solidão de estrela
àquela solidão de estrela” (leopardi/via h campos)
nenhum ufo
no close contact of the third kind
a solidão “cósmica” de pascal
é o pendant do vazio de sua classe social
cuja hegemonia está para terminar
os germes da revolução francesa
que vai derrubar a nobreza
e colocar a burguesia no poder
já estão no ar
pascal ouve nos céus
o tremendo silêncio
de uma classe que já disse
tudo que tinha que dizer
pela boca da história
Em 1988, após lançar o CD Árvore da Vida, Mautner se candidata a vereador em São Paulo pelo Partido Verde. Não faz nenhuma propaganda política e acaba não se elegendo por apenas 300 votos. Logo em seguida, viaja para a Bahia, a convite de Gilberto Gil, para trabalhar como seu Chefe de Gabinete, Gil, havia sido eleito vereador naquelas eleições. Porém, em 1990, Mautner viaja para Áustria completamente desiludido com o país após a vitória de Fernando Collor para a Presidência da República. Lá, lança o disco independente Pedra Bruta e faz shows em Viena, Alemanha e Suiça, neste meso disco, Jorge lança o cantor Celso Sim. No mesmo ano de 1990, Jorge perde sua mãe Anna Illich aos 76 anos, assim, volta para o Brasil.
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OUÇO AGORA
Ouço agora lá longe
Os acordes finais
Como os hinos de um monge
No templo dos samurais
Espinhos e rosas
Rosas e espinhos
Como é que tu gozas
E não tens nem dás carinhos?
Vagueio no meio
De muitas pessoas e gentes
Só não sei se sou lindo ou feio
E se existem mais de três continentes
Como se fazem versos?
Como se fazem mundos?
Assim como se fazem universos
Em segundos vagabundos?
Entenda:
Meu lema
É não se venda
E não tema
Cavaleiros
Medievais
Feiticeiros
E bacanais
Meu desejo não quer esperar, como eu erro!
Leva você pra longe de mim
Vou dar aquele grito, aquele berro
Eu vou chamar o Anjo Serafim
Que é como um Arcanjo
E é amante do Arlequim
Todos tocam seus banjos
Só eu toco bandolim
Na ECO 92, Gilberto Gil enfatiza o pioneirismo ecológico de Mautner e das ONGs desde 1956. No ano seguinte, lança o livro Miséria Dourada. Em 1995, relança o livro Fragmentos de Sabonete com fragmentos inéditos. A gravadora Warner relança o disco Bomba de Estrelas após o sucesso de uma campanha publicitária de Washington Olivetto que tinha como trilha a canção O encantador de Serpentes como trilha. No ano seguinte, uma incrível homenagem: a Fundação Nacional de Arte (Funarte) inaugura em sua sede de São Paulo a ala Jorge Mautner, multidisciplinar direcionada a jovens artistas brasileiros.
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prosa estranha http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
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PERFURO O VENTRE DA ESCURIDÃO
Perfuro o ventre da escuridão
onde as coisas se escondem
porque estão cheias de sim e de não e de confusão
e quando pergunto sobre qualquer assunto nunca
respondem
São como coisas presas ao labirinto
com algemas nos pulsos e tudo
são cinco pras cinco e eu já me sinto
dentro do seu não e de um caixão de veludo
Toca teu samba, toca
e tortura meu ser com prazer de ser
a tortura como aquela coisa que nos choca
onde a alegria me enganava se dizendo a alegria de não ter
Não ter o quê?
Ora, tá na cara
não ter é não ter você
seja com grilo ou seja odara
Luas de prata conseguem
fazer com que lentamente
as sensações das emoções naveguem
e invadam como as fadas minha mente
Doem-me todas as cicatrizes
e sinto as rugas das verrugas
Sei que és como atores e atrizes
e que sempre atacas quem te quer por em fugas
Tocas então mil serenatas
e antigas cantigas e rondós
depois mijas no chão como os cães vira-latas
e ficas falando de ti quando estamos a sós
É por isso que sinto todos estes e aquelas
dores incolores e na garganta estes nós
Nem as cores de óleos, hologramas ou aquarelas
poderiam expressar tão bem estes meus ós, ós, ós!
Em 1997, Jorge lança o disco Estilhaços de Paixão com direção de seu parceiro Nelson Jacobina. No ano seguinte faz shows em Amsterdã, Lisboa, Abrantes e Londres. Também faz shows na rede SESC de São Paulo, celebrando os 100 anos de Bertold Brecht, também dá aulas de literatura nas escolas públicas da periferia de São Paulo. Os discos não para e Jorge lança mais um: O Ser da Tempestade, duplo, com participações de Gil, Caetano, Gal, Zé Ramalho, Chico Science, Moraes Moreira e outros. Abre o novo milênio participando do programa Musikaos na TV Cultura e segue fazendo shows com Jacobina por todo o Brasil.
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O SILENCIO DE HERMES
é o silêncio hermético
o silêncio dos sinais difíceis de ler
o silêncio da poesia de vanguarda
o claro silêncio de mallarmé
e da poesia de vanguarda
o silêncio de ilegibilidade de hoje
que vai aliementar a legibilidade superior de amanhã
hermes é o deus que conduz as almas
até seu destino
o deus que tira o sentido das mensagens mortas
e as conduz à vida do entendimento
o silêncio “incompreensível para as massas”
a grande acusação contra maiakovski
o silêncio lance de dados
o acaso
uma chance até o absoluto
2002 foi um ano muito importante para a renovação de seu trabalho e para a apresentação de sua obra para as gerações mais jovens. Lançou o disco e a caixa com todos os livros e comentários de artistas e amigos, Mitologia do Kaos, e também lançou o disco com Caetano Veloso ‘Eu não peço desculpa’ de grande sucesso. Em 2003, foi homenageado pela Câmara de Vereadores de São Paulo e recebe a Cruz de Honra da Áustria para a Ciência e Cultura, concedida pelo presidente da Áustria. Recebeu também o título de Comendador pela Ordem de Mérito Cultural já no Governo Lula. No mesmo ano, ganhou o Grammy Latino por ‘Eu não peço desculpa’.
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PELAS RUAS
Estou adorando andar pelas ruas
como quem não quer nada
debaixo do sol
debaixo das luas
que são mais de duas
porque tem as artificiais
e no mais
não tem nada de mais
só a felicidade
como névoa brilhante
por cima da cidade
em paz
(breque: vade retro satanás)
Em 2004, Jorge recebe a bolsa Vitae para escrever o livro ‘O filho do Holocausto, dos jardins do Catete ao Colégio Dante Alighieri’. Também escreve o livro ‘Diálogos com o Ministro Gilberto Gil’ com tradução e edição simultânea em diversos países. Desde então, Jorge tem feito shows, programas de televisão, participou da peça “Deus é química” com texto Fernanda Torres, com Francisco Cuoco e Luis Fernando Guimarães no elenco. “Jorge Mautner é um homem, forte como um rochedo, claro como a água, leve como o vento. Os fios elétricos, a bola de borracha, os buracos da flauta, a sola do sapato, as patas do mosquito, e o palito no meio do pirulito. Jorge Mautner pode ser qualquer coisa. Porque ele quer ser qualquer coisa. Tudo. Claro que tudo é tudo e todo mundo é, diria você; mas Jorge realiza, em si, a caminhada para a consciência deste TUDO; é como ele brinca com as pedras do caminho!” Gilberto Gil.
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FILOSOFIA
Filosofia
três ramos
fiscalizante
apreciadora
do todo
ética!
Língua
árvore
distância
macaco
homem
ereto
homem
ave.
Palavra
sujeito
verbo
erro
crasso
fotossíntese
está raiando
está chovendo
deuses.
Grego
pensante
maldita
lógica!
Erro
crasso
de novo
modernos
infernos
experiência.
Galileu
já morreu
foi a lei
que ele disse
o fantasma
1500
de Aristóteles
contradisse.
Foi o erro!
Erro crasso
da lógica
outra vez.
Acabou
quem ganhou
também
morreu
(queimado)
Sputniks
ó lembrança
ó Galileu.
No sono
o tempo
contratempo
não existe.
Tu partiste
podias ter vindo
o tambor
durou um dia
um minuto
estou de luto há duas horas
apenas um minuto.
Platão
chatão
caverna
amarrado
cego
olhava na parede
vêde!
Não via nada!
via sombras.
Maia
que se aproxima
do meu sonho
momentâneo
século vinte!
que acinte!
Aceitar ideia
que já foi de índio.
“Sob o signo de Dionísio, o pensamento de Mautner é uma mistura vertiginosa de Nietzsche, filosofia beatnik e hippie, contracultura, candomblé, zen, antropofagia, tropicalismo e existencialismo. No olho do ciclone da vertigem entre todas essas coisas. Mautner vê no negro e na música a fonte de toda a força. É o que há de mais forte e bonito na América, dos Estados Unidos ao Brasil. É o jazz, o mambo, a rumba, o chachachá, o samba. Os negros são os filhos diletos de Dionísio. Sua sabedoria está gravada, não em pedras nem em placas de bronze, mas em ritmos. Uma sabedoria rítmica milenar, chamando todos os homens para a dança, a alegria, a felicidade. Alienado? O conceito de alienação precisa ser revisto, imediatamente. Ele é penal. O conceito de “alienação” sempre acaba na polícia” E o Paulo Leminski se estende um pouco mais, porém, viemos até aqui.
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FOI O SAMBA
Foi o samba quem tudo me ensinou. A negritude é uma cultura tão profunda se não for
mais que a chamada caucasiana, ocidental, fáustica. Heidegger, Mozart, iguais se não
pouco inferiores a: batuques, maracatus e blues. Orixás e axé! Um dia, brevemente, os
tambores dos terreiros ecoarão em Londres, Paris, Viena, até mesmo em Buenos Aires,
alimentando os pálidos vampiros que necessitam de nosso sangue, vitamina B12 para
sobreviver e rir e ter alegria.
Nós fabricamos o plasma mundial. Brasília é o lugar de pouso de discos-voadores. A fé
sempre foi apenas a mais rigorosa das ciências. Só os mais ousados a possuem. Ela
está exatamente no meio da diagonal formada pelas forças gravitacionais que se instalam
em ambos os aparentes extremos de nosso universo elíptico. Emanam a força da gravidade
cuja velocidade é maior que a da luz e é essa força que é o magnetismo do teu olhar a invadir
oceanos como flecha de algum Oxossim voador.
Eis que chegamos ao final de mais uma antologia. Vimos aí um pouco da poesia desta grande figura, Jorge Mautner, um artista brasileiro, antropófago nato. Na semana que vem, entraremos em um outro universo poético, pois, esta correspondência se faz justamente por essa necessidade de conhecer os poetas do Brasil, assim, sempre que puder, mapearemos esse lugar que tanto excita. O que leva um leitor a buscar um poema? O que ele busca num poema? O que faz um poeta escrever um poema? Não importa, não sou exegeta, tampouco formalista, vamos em frente que a poesia brasileira é imensa. Evoé!
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DIONISIUS
Zagreus despedaçado por bacantes adolescentes. Fundo aqui agora este Kaos com k, uma
nova além religião. É já uma super religiosidade. Tomará conta do Brasil no fim do século XX
para o XXI, e depois como coisa sem nome, sei que só ousa sem lembrar-temer-gemer-odiar,
enfim assim sem fim dominaremos seremos o Poder apenas como potência chefiando como
chefia de um comando sob minha liderança carismática do destino e tendo na mão a chave
de um arrebol, a clave de sol que está por enquanto nas mãos de profunda luz negra do anjo
guardião da chave do abismo. Eu sou o gavião e a pomba, a ação que tomba e assombra,
a luz e a sombra, a cruz e a festa de arromba da miromba na onda redonda das ondulações
de surf galático de rondas e girondas, de emanações sem paranóia, sem braço na tipóia,
sem aço no cansaço da bóia fria ou jibóia da ironia ou tramóia da mesquinharia ou agonia
da escória do fracasso, sem bóia ou abraço de uma história de glória suposta memória basta
de anti história na qual ahchacal, eu me me caço a mim mesmo que nem nenen do joaquim
torresmo tamborim.
Cristo-Dionisius, Baco-Rei Momo-pai-de-santo-painho-cae-gil-eu-jorge-mautner, e você filho
da virgem maria e da vertigem da harmonia da fuligem com a origem e a azia da tia e da que
exigem a redigem a ordem desordem do dia a dia noite a noite açoite ardia como arderia a noite
que aceitou-te como Deus o fez no nono adeus da insensatez.
A missão do PK é tomar o Poder de todas as vias de comunicação. Orações: de ataulfo alves,
“pai joaquim” e “Ogum de angola”.
Carlos Drummond de Andrade
Carlos Dummond de Andrade nasceu em Itabira do Mato Dentro em Minas Gerais no dia 31 de outubro de 1902. É o nono filho de Carlos de Paula Andrade e D. Julieta Augusta Drummond de Andrade. Seu pai era fazendeiro e a família Drummond gozava de certo prestígio social em Itabira. Ali, nasceu e cresceu o jovem Carlos. Magro, sisudo e franzino, que depois viria a se tornar um dos mais respeitados poetas brasileiros. Neste mês tetaremos fazer um pequeno panorama detalhado da vida e da poesia de Drummond, sem querer ser professoral, tampouco exegeta e crítico. Evoé!
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SENTIMENTAL
Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria, cheia de escamas
e debruçado na mesa, todos contemplam
esse romântico trabalho.
Desgraçadamente falta uma letra,
uma letra somente
para acabar teu nome!
- Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!
Eu estava sonhando…
E há em todas as consciências um cartas amarelo:
“Neste país é proibido sonhar”.
Itabira localiza-se a 194 kilômetros de Belo Horizonte. Hoje é apelidada pelos habitantes como “cidade da poesia”, porém, também é a “cidade do ferro”. O nome “Itabira” vem do guarani, que significa “pedra que brilha” (itá é pedra) (bira é que brilha). Chamava-se Vila Itabira do Mato Dentro, era uma província que em 1848, foi elevada à categoria de cidade. Em 1907, foi fundada a primeira escola de Itabira, Escola Municipal Coronel José Batista. Itabira também tinha uma residência que preparava alunos para serem admitidos no Seminário de Caraça e de Mariana. Itabira tem um time de futebol que se chama, Valeriodoce Esporte Clube. Foi nessa cidade que Drummond nasceu.
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JARDIM DA PRAÇA DA LIBERDADE
a Gustavo Capanema
Verdes bulindo.
Sonata cariciosa da água
fugindo entre rosas geométricas.
Ventos elísios.
Macio.
Jardim tão pouco brasileiro… mas tão lindo.
Paisagem sem fundo.
A terra não sofreu para dar estas flores.
Sem ressonância.
O minuto que passa
desabrochando em floração inconsciente.
Bonito demais. Sem humanidade.
Literário demais.
(Pobres jardins do meu sertão,
atrás da Serra do Curral!
Nem repuxos frios nem tanques langues,
nem bombas nem jardineiros oficiais.
Só o mato crescendo indiferente entre sempre-vivas desbotadas
e o olhar desditoso da moça desfolhando malmequeres.)
Jardim da Praça da Liberdade,
Versailles entre bondes.
Na moldura das Secretarias compenetradas
a graça inteligente da relva
compõe o sonho dos verdes.
PROIBIDO PISAR NO GRAMADO
Talvez fosse melhor dizer:
PROIBIDO COMER O GRAMADO
A prefeitura vigilante
vela a soneca das ervinhas.
E o capote preto do guarda é uma bandeira na noite estrelada de funcionários.
De repente uma banda preta
vermelha retinta suando
bate um dobrado batuta
na doçura
do jardim.
Repuxos espavoridos fugindo.
Em 1910, aos oito anos, o jovem Drummond inicia o curso primário no Grupo Escolar Dr. Carvalho Brito, em Belo Horizonte. Lá conhece duas figuras que viriam a ser seus grandes amigos para a vida inteira: Gustavo Capanema e Afonso Arinos de Melo Franco. Lá estuda até o início da adolescência. Drummond, desde criança, até mesmo antes de aprender a ler, era fascinado pela forma da palavra, pela letra. Gostava de folhear jornais e livros para procurar formas, quando aprendeu a ler, já “conhecia” muitas delas. Logo mais, Drummond se enveredaria mais intensamente nos estudos primários.
Paulicéia sempre sempre ela no http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
UM HOMEM E SEU CARNAVAL
Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensões.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.
O pandeiro bate
é dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.
Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.
Em 1916, aos quatorze anos, Drummond se torna interno do Colégio Arnaldo, da Congregação do Verbo Divino, em Belo Horizonte. Curiosidade: A Congregação do Verbo Divino é essencialmente religiosa católica fundada em Steyl, às margens do rio Rosa nos Países Baixos em 1875 pelo padre alemão Arnaldo Janssen. A congregação seria feita na Alemanha, porém, por causa da perseguição do, então, Chanceler do Império Alemão, Otto von Bismarck aos católicos através da Kulturkampf, uma espécie de movimento coercitivo nacionalista contra a religião católica, teve que ser feita nos Países Baixos. Drummond tinha um contato mais direto com a religião católica.
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SOMBRA DAS MOÇAS EM FLOR
À sombra doce das moças em flor,
gosto de deitar para descansar.
É uma sombra verde, macia, vã,
fruto escasso à beira da mão.
A mão não colhe… A sombra das moças
esparramada cobre todo o chão.
As moças sorriem fora de você.
Dentro de você há um desejo torto
que elas não sabem. As moças em flor
estão rindo, dançando, flutuando no ar.
O nome delas é uma carícia
disfarçada.
As moças vão casar e não é com você.
Elas casam mesmo, inútil protestar.
No meio da praça, no meio da roda
há um cego querendo pegar um braço,
todos os braços formam um laço,
mas não se enforque nem se disperse
em mil análises proustianas,
meu filho.
No meio da roda, debaixo da árvore,
a sombra das moças penetra no cego,
e o dia que nasce atrás das pupilas
é vago e tranquilo como um domingo.
E todos os sinos batem no cego
e todos os desejos morrem na sombra,
frutos maduros es esborrachando
no chão.
Em 1917, o jovem Drummond começa a tomar aulas particulares com o professor Emílio Magalhães, em Itabira. No ano seguinte, vira interno do Colégio Anchieta da Companhia de Jesus em Nova Friburgo, onde é laureado com “certames literários”. A poesia, o escrever poemas, surge com mais força nesse período, com quinze anos de idade. Publica um poema em prosa chamado “Onda” no jornal ‘Maio’ de um único número. Começa ler o escritores céticos, e alguns surrealistas, o que teria, e teve, grande importância no desprendimento consciente das ideias religiosas. Isso, também, viria lhe custar caro.
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PRIVILÉGIO DO MAR
Neste terraço mediocremente confortável,
bebemos cerveja e olhamos o mar.
Sabemos que nada nos acontecerá.
O edifício é sólido e o mundo também.
Sabemos que cada edifício abriga mil corpos
labutando em mil compartimentos iguais.
Às vezes, alguns se inserem fatigados no elevador
e vêm cá em cima respirar a brisa do oceano,
o que é privilégio dos edifícios.
O mundo é mesmo de cimento armado.
Certamente, se houvesse um cruzador louco,
fundeado na baía em frente da cidade,
a vida seria incerta… improvável…
Mas nas águas tranquilas só há marinheiros fiéis.
Como a esquadra é cordial!
Podemos beber honradamente nossa cerveja.
Em 1919, Drummond é expulso do Colégio Anchieta da Companhia de Jesus por “insubordinação mental”. Drummond já tinha dezessete anos e um fato como esse grifa muito a história de um sujeito. Um ano depois, muda-se para Belo Horizonte com a família e começa a publicar seus trabalhos na seção “Sociais” do Diário de Minas. Nessa época, Drummond estende suas amizades conhecendo figuras como Milton Campos, Emílio Moura, Alberto Campos, João Alphonsus, Batista Santiago, Aníbal Machado, Pedro Nava (que viria a ser seu grande amigo), Heitor de Sousa e muitos outros. Todos eles frequentadores do Café Estrela e da Livraria Alves, em Belo Horizonte.
A espada em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
PALAVRAS NO MAR
Escrita nas ondas
a palavra Encanto
balança os náufragos,
embala os suicidas.
Lá dentro, os navios
são algas e pedras
em total olvido.
Há também tesouros
que se derramaram
e cartas de amor
circulando frias
por entre medusas.
Verdes solidões,
merencórios prantos,
queixumes de outrora,
tudo passa rápido
e os peixes devoram
e a memória apaga
e somente um palor
de lua embruxada
fica pervagando
no mar condenado.
O último hipocampo
deixa-se prender
num receptáculo
de coral e lágrimas
- do Oceano Atlântico
ou de tua boca,
triste por acaso,
por demais amarga.
A palavra Encanto
recolhe-se ao livro,
entre mil palavras
inertes à espera.
Em 1922, aos vinte anos, o primeiro “retorno”: Drummond ganha cinquenta mil réis como prêmio pelo conto “Joaquim do telhado”, no concurso Novela Mineira. No mesmo ano publica alguns trabalhos nas revistas Todos e Ilustração Brasileira. No ano seguinte, curiosamente, entra para a Escola de Odontologia e Farmácia em Belo Horizonte. Seguiu caminho semelhante de seu grande amigo e médico Pedro Nava, ao escolher a área de saúde, ao contrário de muitos outros jovens escritores que optaram pelo Direito. Em contrapartida, Drummond inicia sua extensa e intensa correspondência com Manuel Bandeira, manifestando-lhe sua admiração. Os conhecimentos aumentam ao conhecer o poeta Blaise Cendras, e parte do grupo modernista através Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Tarsila do Amaral. Pouco depois, inicia também longa correspondência com Mário de Andrade.
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FRAGILIDADE
Este verso, apenas um arabesco
em torno do elemento essencial – inatingível.
Fogem nuvens de verão, passam aves, navios, ondas,
e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento,
ai! já brincou, e tudo se fez imóvel, quantidades e quantidades
de sono se depositam sobre a terra esfacelada.
Não mais o desejo de explicar, e múltiplas palavras em feixe
subindo, e o espírito que escolhe, o olho que visita, a música
feita de depurações e depurações, a delicada modelagem
de um cristal de mil suspiros límpidos e frígidos: não mais
que um arabesco, apenas um arabesco
abraça as coisas, sem reduzi-las.
A correspondência com Mário de Andrade foi extensa e intensa. Quase tudo (ou tudo) foi colocado à disposição do público em livros. Mário era conhecido por suas cartas e pela generosidade dentro delas. Em 1924, Mário, assim responde ao jovem Drummond em uma delas: “Tudo está em gostar da vida e saber vivê-la. Só há um jeito feliz de viver a vida: é ter espírito religioso. Explico melhor: não se trata de ter espírito católico ou budista, trata-se de ter espírito religioso pra com a vida, isto é, viver com religião a vida. Eu sempre gostei muito de viver, de maneira que nenhuma manifestação da vida me é indiferente. Eu tanto aprecio uma boa caminhada a pé até o alto da Lapa como uma tocata de Bach e ponho tanto entusiasmo e carinho no escrever um dístico que vai figurar nas paredes dum bailarico e morrer no lixo depois como um romance a que darei a impossível eternidade da impressão. Eu acho, Drummond, pensando bem, que o que falta pra certos moços de tendência modernista brasileiros é isso: gostarem de verdade da vida”.
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ESTANCIAS
Amor? Amar? Vozes que ouvi, já não me lembra
onde: talvez entre grades solenes, num
calcinado e pungitivo lugar que regamos de fúria,
êxtase, adoração, temor. Talvez no mínimo
território acuado entre a espuma e o gnaisse, onde respira
- mas que assustada! uma criança apenas. E que presságios
de seus cabelos se desenrolam! Sim, ouvi de amor, em hora
infinda, se bem que sepultada na mais rangente areia
que os pés pisam, pisam, e por sua vez – é lei – desaparecem.
E ouvi amar, como de um dom a poucos ofertado; ou de um crime.
De novo essa vozes, peço-te. Escande-as em tom sóbrio,
ou senão, grita-as à face dos homens; desata os petrificados; aturde
os caules no ato de crescer; repete: amor, amar.
O ar se crispa, de ouvi-las; e para além do tempo ressoam, remos
de ouro batendo a água transfigurada; correntes
tombam. Em nós ressurge o antigo; o novo; o que de nada
extrai forma de vida; e não de confiança, de desassossego se nutre.
Eis que a posse abolida na de hoje se reflete, e confundem-se,
e quantos desse mal um dia (estão mortos) soluçaram,
habitam nosso corpo reunido e soluçam conosco.
Em outra carta escrita para Drummond, Mário de Andrade diz que ” (…) toda a gente acha graça na minha alegria e como eu me divirto quando estou na festa mais pau. Creio que essa riqueza me vem de eu compreender a vida e vivê-la em toda a variedade dela. Quando vou na festa sei que a festa é pra gente se divertir e qualquer coisa me diverte extraordinariamente. Quando vou… na dor sei que a dor é pra gente sofrer e sofro pra burro, sofro sério, sofro sofrendo e não espetacularmente, é lógico. Que sucede? a minha variedade de viver é tão incomensurável que não me fatigo dela nunca. (…) A correspondência entre Mário e Carlos se deu até a morte de Mário.
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UM BOI VE OS HOMENS
Tão delicados (mais que um arbusto) e correm
e correm de um para o outro lado, sempre esquecidos
de alguma coisa. Certamente, falta-lhes
não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres
e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves,
até sinistros. Coitados, dir-se-ia não se escutam
nem o canto do ar nem os segredos do feno,
como também parecem não enxergar o que é visível
e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes
e no rasto da tristeza chegam à crueldade.
Toda a expressão deles mora nos olhos – e perde-se
a um simples baixar de cílios, a uma sombra.
Nada nos pêlos, nos extremos de inconcebível fragilidade,
e como neles há pouca montanha,
e que secura e que reentrâncias e que
impossibilidade de se organizarem em formas calmas,
permanentes e necessárias. Têm, talvez,
certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem
perdoar a agitação incômoda e o translúcido
vazio interior que os torna tão pobres e carecidos
de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme
(que sabemos nós?), sons que se despedaçam e tombam no campo
como pedras aflitas e queimam a erva e a água,
e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.
Em 1925, Drummond se casa com Dolores Dutra de Morais. O próprio Drummond dizia que ela tinha sido a primeira, ou segunda mulher a trabalhar num emprego (como contadora numa fábrica de sapatos) em Belo Horizonte. No mesmo ano, funda junto com Emílio Moura e Gregoriano Canedo, A Revista. Órgão essencialmente modernista, do qual saem três números. E também conclui o curso de Farmácia, porém, jamais exerce a profissão, dizendo querer “preservar a saúde dos outros”. Em carta a Mario de Andrade diz: “Mário, acabei os exames e sou agora farmacêutico. Não sei bem o que é isso. Durante o curso todo nunca pensei nisso. E ainda não tive o tempo de pensar.” Em uma outra revela: “Minha última carta de 1925 é pra você. Dei um tiro no meu diploma de farmacopila. Vou ser fazendeiro, se Deus quiser. Lugar: Itabira do Mato Dentro, Minas. É pra lá que você deve me escrever, daqui a um mês mais ou menos”.
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CARTA
Bem quisera escrevê-la
com palavras sabidas,
as mesmas, triviais,
embora estremecessem
a um toque de paixão.
Perfurando os obscuros
canais de argila e sombra,
ela iria contando
que vou bem, e amo sempre
e amo cada vez mais
a essa minha maneira
torcida e reticente,
e espero uma resposta,
mas que não tarde; e peço
um objeto minúsculo
só para dar prazer
a quem pode ofertá-lo;
diria ela do tempo
que faz do nosso lado;
as chuvas já secaram,
as crianças estudam,
uma última invenção
(inda não é perfeita)
faz ler nos corações,
mas todos esperamos
rever-nos bem depressa.
Muito depressa, não.
Vai-se tornando o tempo
estranhamente longo
à medida que encurta.
O que ontem disparava,
desbordado alazão,
hoje se paralisa
em esfinge de mármore,
e até o sono, o sono
que era grato, e era absurdo
é um dormir acordado
numa planície grave.
Rápido é o sonho, apenas,
que se vai, de mandar
notícias amorosas
quando não há amor
a dar ou receber;
quando só há lembrança,
ainda menos, pó,
menos ainda, nada,
nada de nada em tudo,
em mim mais do que em tudo,
e não vale acordar
que acaso repouse
na colina sem árvores.
Contudo, esta é uma carta.
Em 1926, Drummond começa a lecionar Geografia e Português no Ginásio Sul-Americano de Itabira, porém, seu retorno à cidade natal é interrompido, pois, por iniciativa de Alberto Campos, volta para Belo Horizonte para trabalhar como redator-chefe do Diário de Minas. No mesmo ano, uma honra: Heitor Villa Lobos, sem conhecê-lo, compõe uma seresta sobre o poema “Cantiga de Viúvo”. Um ano depois, uma fatalidade: No dia 22 de março, nasce seu filho Carlos Flávio, que, infelizmente, devido a complicações respiratórias, falece meia hora depois do parto.
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MAIO NO LEBLON
Entre os desmaios de maio,
azula o céu carioca
e o sol recolhe seu raio.
Macio maio! Bem vindo
aos que, de pupila doente,
refugiavam-se, no poente,
dos revérberos da praia.
Um frio azul se derrama
e colhe de rama em rama
toda cantiga de pássaro.
É doce, ficar na cama.
O níquel das bicicletas
- ante a franja turmalina -
se desenrola nas retas
sem fustigar as retinas.
Luz de seda! Nos vestidos
anda um prenúncio de lãs
e de agasalhos transidos.
Inverno, prepara as cãs.
Vou lagartear-me na areia
de onde emigram, neste maio,
as gentes de formas feias,
e descobrir nela côncavo
dos pés de Lúcia Sampaio.
Mês de colóquio e surpresa,
em que, sereno, o olhar gaio
se infiltra na natureza
e se perde, achando-se… Amai-o.
Em 1928, aos vinte e seis anos, após a trágica morte prematura de seu primeiro filho, nasce, enfim, Maria Julieta. Ela se tornaria sua grande amiga e confidente para a vida inteira. No mesmo ano publica na Revista de Antropofagia, órgão oriundo do Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade, o poema “No meio do caminho”, que se tornaria o grande escândalo da literatura brasileira na época. A Revista tinha direção de Alcântara Machado e Raul Bopp. Dentre seus principais colaboradores, temos o próprio Drummond, Mário de Andrade, Plínio Salgado, Manuel Bandeira, Menotti Del Picchia, Murilo Mendes, Pedro Nava e alguns outros. Havia duas linhas distintas que escreviam na revista: a de Mário e Oswald e a do grupo nacionalista e integralista Anta.
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PORTINARI
De um baú de folha-de-flandres no caminho da roça
um baú que os pintores desprezaram
mas que anjos vêm cobrir de flores namoradeiras
salta João Cândido trajado de arco-íris
saltam garimpeiros, mártires da liberdade São João da Cruz
salta o galo escarlate bicando o pranto de Jeremias
saltam cavalos-marinhos em fila azul e ritmada
saltam orquídeas humanas, seringais, poetas de e sem óculos, transfigurados
saltam caprichos do Nordeste – nosso tempo
(nele uma angústia purificada na alegria do volume justo e da cor autêntica
salta o mundo de Portinari que fica lá no fundo
maginando novas surpresas
Em 1929, Drummond deixa o Diário de Minas para trabalhar no Minas Gerais, órgão oficial do Estado, como auxiliar de redação e pouco depois como redator, sob a direção de Anibal Machado. Um ano depois, enfim, aos vinte e oito anos, Drummond publica seu primeiro livro, Alguma poesia, em edição de 500 exemplares paga pelo autor, sob o selo imaginário Edições Pindorama, criado por Eduardo Frieiro. Embora tenha sido o primeiro, no livro, há poemas que se tornaram uma espécie de “clássico” em toda sua vasta obra. No mesmo ano, torna-se auxiliar de gabinete do Secretário de Interior, quando, seu amigo, Gustavo Capanema, substitui Cristiano Machado na função.
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LETRA AMARGA PARA MODINHA
Gosto de ti com desgosto.
Quando contemplo teu rosto
nele vejo um rosto outro
com o qual maduras teu gosto.
Por um mandamento imposto
sofro de ti em meu corpo
quando contemplo teu rosto.
Quando contemplo teu rosto
este amor a contragosto
fermenta de ácido mosto
e no meu cavername rouco
um dó de mim, um a-gosto
me punge, queima de agosto.
Se te contemplo, em teu rosto
não me contemplo a meu gosto
pois teu semblante está posto
numa linha de sol-posto
em que por dentro me morro.
Morro de ver em teu rosto
o fel de teu anti-rosto.
Quando contemplo teu rosto
meu gosto é puro desgosto.
Em 1931, Drummond perde seu pai, Carlos de Paula Andrade. Dois anos depois, torna-se redator de A Tribuna e mais uma vez acompanha Gustavo Capanema quando este é nomeado Interventor Federal em Minas Gerais. A grande mudança acontece em 1934. Começa trabalhando como redator nos jornais Minas Gerais, Estado de Minas e Diário da Tarde, simultaneamente. Depois publica Brejo das almas, em edição de 200 exemplares pela cooperativa Os Amigos do Livro, e finalmente, muda-se com sua mulher, Dolores, e sua filha, Maria Julieta, para o Rio de Janeiro, onde, passa a trabalhar como chefe de gabinete de Gustavo Capanema, agora, Ministro da Educação e da Saúde Pública.
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O QUARTO EM DESORDEM
Na curva perigosa dos cinquenta
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor
que não se sabe como é feita: amor,
na quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gosto de colher e amar
a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais defeso, corpo! corpo, corpo,
verdade tão final, sede tão vária,
e esse cavalo solto pela cama,
a passear o peito de quem ama.
Em 1935, Drummond se torna membro da Comissão de Eficiência do Ministério da Educação. Dois anos passam sem muitas novidades literárias até que em 37, começa a colaborar na Revista Acadêmica, de Murilo Miranda. De acordo com Mário Faustino, os poemas que Drummond publica em revistas e jornais não são os seus “melhores”. Mário acreditava que, ali, Drummond fazia uma espécie de laboratório com poemas de menor expressão. Certo, ou não, em 1940, Drummond publica seu famoso Sentimento do mundo, em tiragem de 150 exemplares, apenas, distribuídos entre amigos.
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PROCURA
Procurar sem notícia, nos lugares
onde nunca passou;
inquirir, gente não, porém textura,
chamar à fala muros de nascença,
os que não são nem sabem, elementos
de uma composição estrangulada.
Não renunciar, entre possíveis,
feitos de cimento do impossível,
e ao sol-menino opor a antiga busca,
e de tal modo revolver a morte
que ela caia em fragmentos, devolvendo
seus intatos reféns – e aquele volte.
Venha igual a si mesmo, e ao tão-mudado,
que o interroga, insinue
a sigla de uma armário cristalino,
além do qual, pascendo beatitudes,
os seres-bois completos, se transitem,
ou mugidoramente se abençoem.
Depois, colóquios instantâneos
liguem Amor, Conhecimento,
como fora de espaço e tempo hão de ligar-se,
e breves despedidas
sem lenços e sem mãos
restaurem – para outros – na esplanada
o império do real, que não existe.
Em 1941, assina sob o pseudônimo de “O Observador Literário”, a seção “Conversa Literária” da revista Euclides. Ao mesmo tempo que colabora para o suplemente literário de A Manhã, dirigido por Múcio Leão e mais tarde por Jorge Lacerda. Em 1942, um grande acontecimento: José Olympio, publica Poesias, através de sua Livraria José Olympio Editora. É o primeiro editor que, de fato, publica Drummond. Agora tinha um canal, uma editora que o lançaria definitivamente, pois, já era, a esta altura, considerado como grande poeta, sobretudo, entre poetas. Nessa época, também, envereda-se pela tradução e publica a obra Thérèse Desqueyroux, de François Mauriac, sob o título de Uma gota de veneno.
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A CARLITO
Velho Chaplin:
as crianças do mundo te saúdam.
Não adiantou te esconderes na casa de areia dos setenta anos,
refletida no lago suíço.
Nem trocares tua roupa e sapatos heróicos
pela comum indumentária mundial.
Um guri te descobre e diz: Carlito
CARLITO – ressoa o coro em primavera.
Homens apressados estacam. E readquirem-se.
Estavas enrolado neles como bola de gude de quinze cores,
concentração do lúdico infinito.
Pulas intato da algibeira.
Uma guerra e outra guerra não bastaram
para secar em nós a eterna linfa
em que, peixe, modulas teu bailado.
O filme de 16 milímetros entra em casa
por um dia alugado
e com ele a graça de existir
mesmo entre os equívocos, o medo, a solitude mais solita.
Agora é confidencial o teu ensino,
pessoa por pessoa,
ternura por ternura,
e desligado de ti e da rede internacional de cinemas,
o mito cresce.
O mito cresce Chaplin, a nossos olhos
feridos de pesadelo cotidiano.
O mundo vai acabar por mão dos homens?
A vida renega a vida?
Não restará ninguém para pregar
o último rabo de papel na túnica do rei?
Ninguém para recordar
que houve pelas estradas um errante poeta desengonçado,
a todos resumindo em seu despojamento?
Perguntas suspensas no céu cortado
de pressentimentos e foguetes
cedem à maior pergunta
que o homem dirige às estrelas.
Velho Chaplin, a vida está apenas alvorecendo
e as crianças do mundo te saúdam.
Em 1944, Drummond publica Confissões de Minas, por iniciativa de Álvaro Lins, mas, um ano depois, um grande e marcante lançamento: A Rosa do Povo, sai pela José Olympio. A novela O gerente sai pela Edições Horizonte. Começa a colaborar no suplemente literário do Correio da Manhã e na Folha Carioca. Preservando a boa relação que tinha com Gustavo Capanema, Drummond deixa a chefia do gabinete a convite de Luís Carlos Prestes, e se torna co-editor do jornal comunista, Tribuna Popular, junto com Pedro Mota Lima, Álvaro Moreyra, Aydano do Couto Ferraz e Dalcídio Jurandir. Meses depois, se afasta do jornal por discordar da orientação do mesmo. Neste época Drummond frequenta o café Vermelhinho, no centro do Rio, onde se reuniam intelectuais e poetas como João Cabral (que foi ao Rio conhecer Drummond), Santa Rosa, Carlos Castelo Branco e alguns outros.
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DESFILE
Já fatigado de escrever em prosa,
este vago cronista pede ao verso
que de mansinho desabroche em rosa
e a Raquel de Queiroz hoje se oferte
pelo muito que amamos os seus livros
fraternos e pungentes, seres vivos.
Uma rosa a Raquel? Mas é tão pouco
uma flor por um mundo que começa
no Ceará e chega às Três Marias!
Falta evidentemente paridade,
como hoje se diz em cada esquina,
praia, bar, escritório da cidade.
- Falar nisso: qual é o seu salário,
meu doutor-marechal? quinhentos mil?
- Eu mesmo já nem sei, mas vou a jato
saber o último abono extraordinário
e daquele projeto que aposenta
o servidor com um dia de exercício
para ceder lugar a mais quarenta.
Ainda bem que entre tudo que nos falta,
falta igualmente número ao Congresso…
Mas quem pode aguentar meia semana
em Brasília, onde a vida anda em recesso?
Se a Capital não volta para o Rio,
pois nem o Rio a quer (Inês é morta),
e na praça tristonha dos Três Poderes
semelham um deserto fundo de horta,
o jeito, Juscelino, é por decreto
extinguir-se o governo da República,
o que não faz lá muita diferença
e formalmente fica mais correto.
Difícil é extinguir essa doença
chamada camarite vereadora,
ou, dizendo melhor, devoradora,
que já no corpo em flor da Guanabara,
perfumado a lavanda de esperanças,
coloca a nódoa espúria de uma tara.
Aproveitando a rima: e as duas Franças?
Uma, livre, querendo livre a Argélia,
outra, buscando em ferros conservá-la.
Ai, ganância cruel que assim repele a
voz da razão e o senso de justiça!
O que vibra na gente de sensível,
de reto e inconformado, neste mundo
indeciso entre trágicos destinos,
o que há de mais leal e mais profundo,
pulsa convosco, amigos argelinos.
E nessa americana poranduba,
um verso irmão lá vai, direto de Cuba,
onde o sonho dos homens se elabora,
confuso, dolorido…até que um dia
a vida, se não doce como cana,
pelo menos se torne mais humana.
Após sair do hebdomadário comunista, Drummond é chamado por Rodrigo M. F. de Andrade para trabalhar na diretoria do Patrimônio Histórico Artístico Nacional, onde mais tarde se tornará chefe da Seção de História, na Divisão de Estudos e Tombamento. Em 1946, recebe o Prêmio pelo Conjunto da Obra, da Sociedade Felipe d’Oliveira. Um prêmio importante e seu primeiro. Outro acontecimento interessante: Sua filha, Maria Julieta, publica, aos dezessete anos de idade, a novela, A busca, pela José Olympio. Um ano depois, outra tradução: Les Liaisons dangereuses, de Choderlos De Laclos, sob o título de As relação perigosas.
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CORPORAL
O arabesco em forma de mulher
balança folhas tenras no alvo
da pele.
Transverte coxas em ritmos,
joelhos em tulipas. E dança
repousando. Agora se inclina
em túrgidas, promitentes colinas.
Todo se deita: é uma terra
semeada de minérios redondos,
braceletes, anéis multiplicados,
bandolins de doces nádegas cantantes.
Onde finda o movimento, nasce
espontânea a parábola,
e um círculo, um seio, uma enseada
fazem fluir, ininterruptamente,
a modulação da linha.
De cinco, dez sentidos, infla-se
o arabesco, maçã
polida no orvalho
de corpos a enlaçar-se e desatar-se
em curva curva curva bem-amada,
e o que o corpo inventa é coisa alada.
Em 1948, Drummond publica seu Poesia até agora, com poemas que também se tornariam clássicos. Colabora em Política e Letras, de Odylo Costa, filho. Porém, no mesmo ano, uma grande perda: Falece sua mãe, Julieta Drummond de Andrade. O poeta comparece ao enterro em Itabira ao mesmo tempo em que é executada no Theatro Municipal do Rio de Janeiro a obra “Poema de Itabira”, de Heitor Villa Lobos, composta sobre seu poema “Viagem na família”. Um ano depois volta a escrever no jornal Minas Gerais. Sua filha, Maria Julieta, casa-se com o escritor e advogado argentino Manuel Graña Etcheverry e passa a morar em Buenos Aires, onde, desempenhará, ao longo de sua vida, um importante trabalho de divulgação da cultura brasileira.
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A DUPLA SITUAÇÃO
Um silêncio tão perfeito
como o que baixou agora:
sinal que já morremos
ou nem chegamos ainda à Terra.
Acabamos de sentir a morte
nas veias substituir o sangue.
Circulamos na atmosfera,
somos, corpo e brisa, um só.
Ou flutuamos no possível
sem pressa de, sem desejo de
atingir o irretratável
movimento do nascimento.
Este silêncio tão completo
em si, em nós, em nossa volta,
converte-nos em transparente
esfera
contemplada contemplativa.
Em 1950, Drummond se torna avô de Carlos Manuel, filho de Maria Julieta, nascido em Buenos Aires. Um ano depois, publica Claro enigma, Contos de aprendiz e A mesa. É também publicado em Madrid através do livro Poemas. No ano seguinte, em 1952, já com cinquenta anos, publica Passeios na ilha e Viola de bolso. 1953, mais uma mudança de trabalho. Exonera-se do cargo de redator do Minas Gerais, ao ser estabilizada sua situação de funcionário do DPHAN. Se torna avô pela segunda vez, agora, de Luis Maurício, a quem dedica do poema “Luis Maurício infante”. Seu genro, o escritor Manuel Graña Etcheverry, traduz seus poemas e o publica com o livro Dos poemas, em Buenos Aires.
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A MÚSICA DA TERRA
A dor que habita em nós, o cravo a ignora.
A vida, uma gavota? Pura dança
o amor? No minueto de Lully
cabe a dificuldade de existir?
Quinta-essência do angélico, no caos,
paira a graça de Mozart sobre o abismo,
sem devassá-lo – pássaro de nuvem.
O tempo é outro metal, a comburir-nos.
Urge romper o gosto, a norma límpida,
e sangrentas estilhas do momento
passar à forma nobre da sonata.
Urge extrair do piano o som dramático.
E suscitar o diálogo patético
entre piano e violino qual se escuta,
na penumbra da alma, a duas vozes,
um rumor de paixão se entretecendo.
Eis que a música deixa de ser pura.
Os serafins e os elfos se despedem.
A terra é lar dos homens, não dos mitos.
Há que desmascarar nosso destino.
Em tatear incessante, no conflito
corpo a corpo entre o ser e a contingência,
nova música, ungida de tristeza
mas radiante de força, vem ao mundo.
Luta o homem na área desolada
de sua solidão; luta no palco
fremente de contrastes, percebendo
que pouco a pouco cerram-se os espaços
da percepção, e tudo se limita
à captação interna, de sinais
silentes, impalpáveis, invisíveis,
nunca porém tão vivos se captados.
À proporção que a dor aumenta, e em volta
nega-lhes o amor seus bálsamos terrestres,
ganha requinte a fábrica sonora
de eternizar a vida breve em arte.
Es muss sein! É preciso! Na amargura,
na derrota do corpo, sublimada,
a canção do heroísmo e a da alegria
resgatam nossa mísera passagem.
E entreabre a sinfonia suas palmas
imensas, a conter todos o rebanho
de perplexos irmãos, de angustiados
prospectores de rumo e de sentido
para a sorte geral. O homem revela-se
na torrente melódica, suplanta
seu escuro nascer, sua insegura
visão do além, turva de morte e medo.
Ó Beethoven, tu nos mostraste o alvorecer.
Em 1954, Drummond publica seu Fazendeiro do ar e Poesia até agora. Traduz Les paysans de Balzac e realiza na Rádio Ministério de Educação, em diálogo com Lya Cavalcanti, a série de palestras “Quase memórias”. Inicia também um trabalho de duraria quinzes anos, o de cronistas do Correio da Manhã intitulada “Imagens”. Um ano depois, publica Viola de bolso novamente encordoada. Em Cadernos de Cultura, que o Ministério da Educação fazia, com célebres textos de João Cabral, Otávio de Faria, Mário Pedrosa, Lucio Costa, Paulo Mendes Campos e muitos outros, publica o 50 poemas escolhidos pelo autor, com poemas até então, fora de sua lista de mais populares.
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QUARTO ESCURO
Por que este nome, ao sol? Tudo escurece
de súbito na casa. Estou sem olhos.
Aqui decerto guardam-se guardados
sem forma, sem sentido. É quarto feito
pensadamente para me intrigar.
O que nele se põe assume outra matéria
e nunca mais regressa ao que era antes.
Eu mesmo, se transponho
o umbral enigmático,
fico a ser, de mim desconhecido.
Sou coisa inanimada, bicho preso
em jaula de esquecer, que se afastou
de movimento e fome. Esta pesada
cobertura de sombra nega o tato,
o olfato, o ouvido. Exalo-me. Enoiteço.
O quarto escuro em mim habita. Sou
o quarto escuro. Sem lucarna.
Sem óculo. Os antigos
condenam-me a esta forma de castigo.
Drummond continua com as traduções, desta vez, traduz Albertine disparue, da célebre À la recherche du temps perdu, de Marcel Proust. Em 1957, publica, Fala, amendoreira, e Ciclo. Ano seguinte, no incrível ano de 1958 (em todos os aspectos), outra publicação em Buenos Aires, só que desta vez na coleção “Poetas del siglo viente”. Drummond tem sua primeira “experiência” teatral com a montagem de sua tradução de Doña Rosita la soltera de Federico Garcia Lorca, pela qual recebe o Prêmio Padre Ventura, do Círculo Independente de Críticos Teatrais. Até que, no ano seguinte, nasce seu terceiro neto, Pedro Augusto. Através de Biblioteca Nacional, é publicada a sua tradução de Oiseaux-Mouches orthorynques du Brèsil, de Descourtilz. Colabora também em Mundo Ilustrado.
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PASSEIAM AS BELAS
Passeiam as belas, à tarde, na Avenida
que não é avenida, é longo caminho branco
onde os vestidos cor de rosa vão deixando,
não, não deixam sombra alguma, em mim é que eles deixam.
Passeiam, à tarde, as belas na Avenida.
São tão belas como as vejo, ou mais ainda?
Só de passar, só de lembrar que passam, a beleza
nelas se crava eternamente, adaga de ouro.
Passeiam na Avenida, à tarde, as belas,
as sempre belas no futuro mais remoto.
Pisam com sola fina e saltos altos
de seus sapatos de cetim o tempo e o sonho.
À tarde, na Avenida, passeiam as belas,
seios cuidadosamente ocultos mas arfantes,
pernas recatadas, mas sabe Deus as linhas perturbadoras
que criam ritmos, e o caminho branco é todo ritmo.
Na Avenida, passeiam as belas, à tarde,
no alto da cidade que entre árvores se apresta
para o sono das oito da noite e não sabe que as belas
deixam insone, a noite inteira, uma criança deslumbrada.
No início dos anos sessenta, Drummond começa a colaborar para o programa Quadrante da Rádio Ministério da Educação, instituído por Murilo Miranda. No mesmo ano, uma perda, falece seu irmão Altivo. As publicações não param e ao mesmo tempo saem Lição das coisas, Antologia poética e A bolsa & a vida. Em 1962 é demolida a cada da Rua Joaquim Nabuco 81, onde viveu durante 21 anos. Desde então, passa a residir em apartamento. Saem mais traduções suas de L’Oiseau bleu, de Maurice Maeterlinck e de Les Fouberies de Scapin, de Molière, a qual é encenada no Teatro do Tablado do Rio de Janeiro, e recebe o Prêmio Padre Ventura. No mesmo ano, aposenta-se como Chefe de Seção da DPHAN, após 35 anos de serviço público, recebendo carta de louvor do ministro da Educação, Oliveira Brito.
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A MOÇA FERRADA
Falam tanto dessa moça. Ninguém viu,
todos juram.
Cada qual conta coisa diferente,
e todas concordantes.
Dizem que à noite, ela. Ela o quê?
E com quem? Com viajantes
que somem sem rastro
gabando no caminho
os espasmos secretos (tão públicos) da moça.
Sobe a moça
a ladeira da igreja
para reza de todas as tardes.
De branco perfeitíssimo,
alta, superior, inabordável
(luxúria de mil-folhas sob o véu,
murmura alguém).
À noite é que acontecem coisas
no quarto escuro. Ganidos de prazer,
escutados por quem? se ninguém passa
na rua de altas horas-muro?
Pouco importa, a moça está marcada,
marca de rês na anca, ferro em brasa
de língua popular.
Nos anos sessenta continuam as publicações e prêmios: Tradução de Sult (Fome) de Knut Hamsun; Prêmio Fernando Chinaglia da União Brasileira de Escritores, e Luisa Cláudio de Sousa, do PEN Clube do Brasil, ambos por Lição das coisas; Obra completa, pela Aguilar; Antologia Poética em Portugal; In the Middle of the Road, nos Estados Unidos, Poesie, na Alemanha; Rio de Janeiro em prosa & verso em parceria com Manuel Bandeira; Cadeira de Balanço; traduções de seus livros na Suécia, Praga e Argentina. Em 1968, seu longo e célebre Boitempo. Começa a escrever para o Jornal do Brasil em 1969. Drummond parece colher frutos de tanta dedicação à poesia. Publica Reunião, Caminhos de João Brandão e Seleta em prosa e verso, já no início dos anos setenta. E começando bem esta década nova, publica Poemas em Cuba.
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APONTAMENTOS
O deslizante cisne destas águas
nem simbolista nem parnasiano;
a tartaruga em si mesma trancada;
as rêmiges de fogo no viveiro;
o cris da areia em solas transeuntes;
o guarda que de inerte se assemelha
às árvores, e árvore é com sua farda;
o macaco brincando de ser gente;
a foto de jornal sobre o canteiro;
essa flor que nasceu sem dar aviso
nos ferros rendilhados do gradil;
a caixa envidraçada de empadinhas
e cocadas baianas logo à entrada;
o ver, em si, como ato de viver;
o perder-se e encontrar-se nas aléias,
no entrelaçar de curvas sombreadas,
de onde espero surgir alguma ninfa
sem que surja nenhuma (e continuo
procurando a metáfora do sonho);
o barquinho alugado por sessenta
minutos, e o perfume, que é gratuito,
de resinosos troncos tutelares
desta gentil paisagem recolhida;
uma cantiga – ó minha Carabu…
entoada à distância e logo extinta;
o torpor que a meu ser eis se afeiçoa
na vontade de relva, de reflexo,
de sopro, de sussurro me tornar;
a ausência de relógio e de colégio,
de obrigação, de ação, de tudo vão.
Os anos setenta correm e Drummond publica muito: O poder ultrajovem, em Buenos Aires; As impurezas do branco; Menino antigo; Boitempo II; Lá bolsa y la vida, em Buenos Aires; Réunion, em Paris. Recebe o Prêmio de Poesia da Associação Paulista de Críticos Literários e se torna membro da American Association of Teachers os Spanish and Portuguese, nos Estados Unidos. Publica também Amor, amores e recebe o Prêmio Nacional Walmap de Literatura, e recusa, por motivo de consciência, o Prêmio Brasília de Literatura, da Fundação Cultural do Distrito Federal. Em 77, aparecem sua gravações de 42 poemas em dois long plays. Sai também UYBETBO BA CHETA (Sentimento do mundo) em Búlgaro. Em 79, viaja para Buenos Aires urgentemente, pois, sua filha Maria Julieta se encontrava doente.
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MORTO VIVENDO
Aquele morreu amando.
Nem sentiu chegar a morte
quando à vida se abraçava
nem a morte o castigou.
Enquanto beijava o amor
a morte o foi transportando
nos braços do amor gozoso
sem desatar-se a cadeia
de vida enganchada em vida.
Aquele morreu? Quem sabe
o que foi feito do amante
alçado em coche de chamas
ou carruagem de cinzas
no ato pleno de amar?
Não corrigiu a postura,
não voltou aos intervalos
de solitude a espera,
não repetiu mais os gestos
fora do ritmo amoroso.
Morreu completo, no êxtase
de estar no mundo e extramundo.
Que sabe a morte do abraço
paralisado na luz
do quarto aberto ao amor
e defeso a tudo mais?
E se continua vivo
e mais do que vivo amando
sem paredes e sem ossos
nos vazios espaciais,
não sei como, não sei quem?
No início dos anos oitenta, Drummond recebe o Prêmio Estácio se Sá, de jornalismo, e Morgado Mateus, de poesia, em Portugal. Lança Paixão Medida, e faz uma noite de autógrafos na Livraria José Olympio junto com Um buquê de alcachofras de sua filha Maria Julieta Drummond de Andrade. Mais lançamentos em países, Estados Unidos e Holanda. Em 82, faz 80 anos. São realizadas exposições comemorativas na Biblioteca Nacional e na Casa Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Os principais jornais do Brasil publicam suplementos em homenagem ao poeta. Recebe o título Doutor Honoris Causa, pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Cartazes são feitos e distribuidos pela cidade e sai o imenso livro de cartas entre Drummond e Mário de Andrade. Publica também Carmina drummondiana, com seus poemas traduzidos para o latim. Após 41 anos, muda de editora, sai da José Olympio e assina com a Record. Despede-se também do Jornal do Brasil com a crônica ‘Ciao’.
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ANTEPASSADO
Só te conheço de retrato,
não te conheço de verdade,
mas teu sangue bole em meu sangue
e sem saber te vivo em mim
e sem saber vou copiando
tuas imprevistas maneiras,
mais do que isso: teu fremente
modo de ser, enclausurado
entre ferros de conveniência
ou aranhóis da burguesia,
vou descobrindo o que me deste
sem saber que o davas, na líquida
transmissão de taras e dons,
vou te compreendendo, somente
de esmerilar em teu retrato
o que a pacatez de um retrato
ou o seu vago negtivo,
nele implícito e reticente,
filtra de um homem; sua face
oculta de si mesmo; impulso
primitivo; paixão insone
e mais trevosas intenções
que jamais assumiram ato
nem mesmo sombra de palavra,
mas ficaram dentro de ti
cozinhadas em lenha surda.
Acabei descobrindo tudo
que teus papéis não confessaram
nem a memória de família
transmitiu como fato histórico
e agora te conheço mais
do que a mim próprio me conheço,
pois sou teu vaso e transcendência,
teu duende mal encarnado.
Refaço os gestos que o retrato
não pode ter, aqueles gestos
que ficaram em ti à espera
de tardia repetição,
e tão meus eles se tornaram,
tão aderentes ao meu ser
que suponho tu os copiaste
de mim antes que eu os fizesse,
e furtando-me a iniciativa,
meu ladrão, roubaste-me o espírito.
Em 1986, Drummond escreve 21 poemas para a edição do centenário de Manuel Bandeira, ‘Bandeira a vida inteira’, com um disco. No mesmo ano, sofre um infarto e é internado durante 21 dias. No dia 31 de janeiro de 1987, escreve seu último poema, ‘Elegia a um tucano morto’ que passa a intergrar o livro Farewell, último livro organizado por ele mesmo. Vira tema da Estação Primeira de Mangueira com o samba enredo ‘No reino das palavras’ que vence o Carnaval. Porém, um duro golpe: Após dois meses internada, falece sua filha, Maria Julieta, vítima de câncer. “Assim terminou a vida da pessoa que mais amei no mundo”. Saem publicações em Cuba, Nova York. A vida estava terminando, porém, só por um instante.
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A HORA DO CANSAÇO
As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.
Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.
Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nos cansamos, por um ou outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.
Do sonho de eterno fica esse gosto acre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.
Carlos Drummond de Andrade falece no dia 17 de agosto de 1987, exatamente 12 dias depois da morte de sua filha Maria Julieta. Drummond foi enterrado junto a ela no Cemitério São João Batista do Rio de Janeiro. O poeta deixa obras inéditas como O avesso das coisas; Moça deitada na grama; O amor natural; Viola de bolso III; Farewell; e Arte em exposição, além de crônicas, dedicatórias em verso e um texto para um espetáculo musical. Alguns de seus livros são logo reeditados, tanto no Brasil quanto em outros países. Em 88, ‘Poesia errante’ recebe o Prêmio Padre Ventura pela Record. Em 89, Fernando Py organiza Auto-retrato e outras crônicas e uma série de novos livros. A Casa da Moeda homenageia o poeta emitindo uma nota de 50 cruzados.
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O AMOR ANTIGO
O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.
O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.
Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.
Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.
São muitas as homenagens. O Centro Cultural Banco do Brasil organiza uma grande exposição comemorativa dos 60 anos do livro Alguma poesia. Há palestras de Manuel Graña Etcheverry e Afonso Romano de Sant’Anna. Tônia Carrero encena ‘Mundo, vasto mundo’ com o coral Garganta Profunda sob direção de Paulo Autran. Também no CCBB, é encenado o espetáculo ‘Crônica viva’, com adaptação de João Brandão e Pedro Drummond. Em 1993, o livro O amor natural recebe o Prêmio Jabuti e no dia 2 de julho de 1994, falece Dolores Morais Drummond de Andrade, viúva de Drummond. Em 1996, o livro Farewell também recebe o Prêmio Jabuti. Em 1998, é inaugurado o Museu de Território Caminhos Drummondianos em Itabira e no ano 2000, é inaugurada a Biblioteca Carlos Drummond de Andrade do Colégio Arnaldo de Belo Horizonte em Minas Gerais. Tudo isto dentre muitos outros movimentos.
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NO PEQUENO MUSEU SENTIMENTAL
No pequeno museu sentimental
os fios de cabelo religados
por laços mínimos de fita
são tudo que dos montes hoje resta,
visitados por mim, montes de Vênus.
Apalpo, acaricio a flora negra,
e negra continua, nesse branco
total do tempo extinto
em que eu, pastor felante, apascentava
caracóis perfumados, anéis negros,
cobrinhas passionais, junto do espelho
que com elas rimava, num clarão.
Os movimentos vivos no pretérito
enroscam-se nos fios que em falam
de perdidos arquejos renascentes
em beijos que da boca deslizavam
para o abismo de flores e resinas.
Vou beijando a memória desses beijos.
Eis que chegamos ao final de mais uma antologia. Nessas cinco semanas que passaram, percorremos a vida e a obra de um dos mais importantes poetas brasileiros. Drummond, menino franzino de Itabira. Itabira do Mato Dentro. Espero que tenham gostado de rever ou conhecer o trabalho deste grande poeta. Na semana que vem entraremos em um outro universo poético, com outras proposições, outras possibilidades, outros poemas. Salve Carlos Drummond de Andrade! Salve a poesia nacional! E sobretudo, Salve a poesia contemporânea.
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APARIÇÃO AMOROSA
Doce fantasma, por que me visitas
como em outros tempos nossos corpos se visitavam?
Tua transparência roça-me a pele, convida
a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca
um beijo recebeu de rosto consumido.
Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,
mesma voz, mesmo timbre,
mesmas leves sílabas,
e aquele mesmo longo arquejo
em que te esvaías de prazer,
e nosso final descanso de camurça.
Então, convicto,
ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve
e continua existindo, puro som.
Aperto…o quê? A massa de ar em que te converteste
e beijo, beijo intensamente o nada.
Amado ser destruído, por que voltas
e és tão real assim tão ilusório?
Já nem distingo mais se és sombra
ou sombra sempre foste, e nossa história
invenção de livro soletrado
sob pestanas sonolentas.
Terei um dia conhecido
teu vero corpo como hoje o sei
de enlaçar o vapor como se enlaça
uma ideia platônica no espaço?
O desejo perdura em ti que já não és,
querida ausente, a perseguir-me suave?
Nunca pensei que os mortos
o mesmo ardor tivessem de outros dias
e no-lo transmitissem com chupadas
de fogo aceso e gelo matizados.
Tua visita ardente em consola.
Tua visita, ardente me desola.
Tua visita, apenas uma esmola.
Tavinho Paes
Luiz Octávio Paes de Oliveira nasceu no Rio de Janeiro no dia 26 de janeiro de 1955, às 6:01hs, sendo, aquariano com ascendente em aquário. Nasceria na Pro-Mater, porém, acabou por ser pelas mãos de uma parteira, no Catumbi. Filho de Geraldo Paes de Oliveira e Wanda Machado de Oliveira. A família de sua mãe veio de Cascadura, sua avó Odette era telefonista e seu avô Zeca era operário de um fábrica de sapatos. Anos depois, sua mãe veio a lhe contar que, talvez, o lugar onde nasceu, numa vila no Catumbi, fora posta abaixo para dar lugar ao Sambódromo. Muito bem, nestas próximas semanas, entraremos na vida desta ímpar figura, deste nosso poeta, o inquieto Tavinho Paes.
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Vinicius de Moraes
Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes nasceu no Rio de Janeiro, na Gávea, na Rua Lopes Quintas, no dia 19 de outubro de 1913. Filho de D. Lydia Cruz de Moraes e Clodoaldo Pereira da Silva Moraes. Seu pai era sobrinho do poeta, cronista e folclorista Mello Moraes Filho e neto do historiador Alexandre José de Mello Moraes. Vinicius nasceu pelas mãos de uma vizinha a quem o pai chamara para acompanhar o parto. Neste mês, percorreremos a poesia de um dos grandes e notáveis poetas brasileiros, sua trajetória, suas influências e algumas curiosidades que conheço. Vinicius foi o poeta que inaugurou este espécie de coluna há mais ou menos quatro anos. Até o Carnaval vamos de Vinicius. Saravah!
Eu vi a carne.
Eu senti a carne que me afogava o peito
E me trazia à boca o beijo maldito.
Eu gritei.
De horror eu gritei que a perdição me possuía a alma
E ninguém me atendeu.
Eu me debati em ânsias impuras
A treva ficou rubra em torno a mim
E eu caí!
As horas longas passaram.
O pavor da morte me possuiu.
No vazio interior ouvi gritos lúgubres
Mas a boca beijada não respondeu aos gritos.
Tudo quebrou na prostração.
O movimento da treva cessou ante mim.
A carne fugiu
Desapareceu devagar, sombria, indistinta
Mas na boca ficou o beijo morto.
A carne desapareceu na treva
E eu senti que desaparecia na dor
Que eu tinha a dor em mim como tivera a carne
Na violência da posse.
Olhos que olharam a carne
Por que chorais?
Chorais talvez a carne que foi
Ou chorais a carne que jamais voltará?
Lábios que beijaram a carne
Por que tremeis?
Não vos bastou o afago de outros lábios
Tremeis pelo prazer que eles trouxeram
Ou tremeis no balbucio da oração?
Carne que possui a carne
Onde o frio?
Lá fora a noite é quente e o vento é tépido
Gritam luxúria nesse vento
Onde o frio?
Pela noite quente eu caminhei…
Caminhei sem rumo, para o ruído longínquo
Que eu ouvia, do mar.
Caminhei talvez para a carne
Que vira fugir de mim.
No desespero das árvores paradas busquei consolação
E no silêncio das folhas que caíam senti o ódio
Nos ruídos do mar ouvi o grito de revolta
E de pavor fugi.
Nada mais existe para mim
Só talvez tu, Senhor.
Mas eu sinto em mim o aniquilamento…
Dá-me apenas a aurora, Senhor
Já que eu não poderei jamais ver a luz do dia.
É um contínuo de dor angustiante.
O poeta é o destinado do sofrimento
Do sofrimento que lhe clareia a visão de beleza
E a sua alma é uma parcela do infinito distante
O infinito que ninguém sonda e ninguém compreende.
Ele é o etemo errante dos caminhos
Que vai, pisando a terra e olhando o céu
Preso pelos extremos intangíveis
Clareando como um raio de sol a paisagem da vida.
O poeta tem o coração claro das aves
E a sensibilidade das crianças.
O poeta chora.
Chora de manso, com lágrimas doces, com lágrimas tristes
Olhando o espaço imenso da sua alma.
O poeta sorri.
Sorri à vida e à beleza e à amizade
Sorri com a sua mocidade a todas as mulheres que passam.
O poeta é bom.
Ele ama as mulheres castas e as mulheres impuras
Sua alma as compreende na luz e na lama
Ele é cheio de amor para as coisas da vida
E é cheio de respeito para as coisas da morte.
O poeta não teme a morte.
Seu espírito penetra a sua visão silenciosa
E a sua alma de artista possui-a cheia de um novo mistério.
A sua poesia é a razão da sua existência
Ela o faz puro e grande e nobre
E o consola da dor e o consola da angústia.
A vida do poeta tem um ritmo diferente
Ela o conduz errante pelos caminhos, pisando a terra e olhando o céu
Preso, eternamente preso pelos extremos intangíveis.
É a desejada de minha alma.
Ela me dará o amor do seu coração
E me dará o amor da sua carne.
Ela abandonará pai, mãe, filho, esposo
E virá a mim com os peitos e virá a mim com os lábios
Ela é a querida da minha alma
Que me fará longos carinhos nos olhos
Que me beijará longos beijos nos ouvidos
Que rirá no meu pranto e rirá no meu riso.
Ela só verá minhas alegrias e minhas tristezas
Temerá minha cólera e se aninhará no meu sossego
Ela abandonará filho e esposo
Abandonará o mundo e o prazer do mundo
Abandonará Deus e a Igreja de Deus
E virá a mim me olhando de olhos claros
Se oferecendo à minha posse
Rasgando o véu da nudez sem falso pudor
Cheia de uma pureza luminosa.
Ela é a amada sempre nova do meu coração
Ela ficará me olhando calada
Que ela só crerá em mim
Far-me-á a razão suprema das coisas.
Ela é a amada da minha alma triste
É a que dará o peito casto
Onde os meus lábios pousados viverão a vida do seu coração
Ela é a minha poesia e a minha mocidade
É a mulher que se guardou para o amado de sua alma
Que ela sentia vir porque ia ser dela e ela dele.
Ela é o amor vivendo de si mesmo.
É a que dormirá comigo todas as luas
E a quem eu protegerei contra os males do mundo.
Ela é a anunciada da minha poesia
Que eu sinto vindo a mim com os lábios e com os peitos
E que será minha, só minha, como a força é do forte e a poesia é do poeta.
Tenho medo da vida, minha mãe.
Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fronte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.
Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: – Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão, que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu.
Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
Dize que eu parta, ó mãe, para a saudade.
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe.
A aurora vinha clareando o céu distante
E as primeiras mulheres passavam levando cântaros cheios.
Os olhos do poeta tinham as claridades da aurora
E ele cantou a beleza da nova madrugada.
As mulheres beijaram a fronte do poeta
E rogaram o seu amor.
O poeta sorriu.
Mostrou-lhes no céu claro o pássaro que voava
E disse que a visão da beleza era da poesia
O poeta tem a alegria que vive na luz
E tem a mocidade que nasce da luz.
As mulheres seguiram o poeta
Oferecendo a tristeza do seu amor e a alegria da sua carne
O poeta amou a carne das mulheres
Mas não envelheceu no amor que elas lhe davam.
O poeta quando ama
É como a flor que murcha sem seiva
Porque o amor do poeta
É a seiva do mundo
E se o poeta amasse
Ele não viveria eternamente jovem, brilhando na luz.
Quando a nova madrugada raiou no céu distante
O poeta já tinha partido
E seguindo o poeta as mulheres de peitos fartos e de cântaros cheios
Falavam de ardentes promessas de amor.
Esse ruído dentro do mar invisível são barcos passando
Esse ei-ou que ficou nos meus ouvidos são os pescadores esquecidos
Eles vêm remando sob o peso de grandes mágoas
Vêm de longe e murmurando desaparecem no escuro quieto.
De onde chega essa voz que canta a juventude calma?
De onde sai esse som de piano antigo sonhando a “Berceuse“?
Por que vieram as grandes carroças entornando cal no barro molhado?
Os olhos de Susana eram doces mas Eli tinha seios bonitos
Eu sofria junto de Susana – ela era a contemplação das tardes longas
Eli era o beijo ardente sobre a areia úmida.
Eu me admirava horas e horas no espelho.
Um dia mandei: “Susana, esquece-me, não sou digno de ti – sempre teu…”
Depois, eu e Eli fomos andando… – ela tremia no meu braço
Eu tremia no braço dela, os seios dela tremiam
A noite tremia nos ei-ou dos pescadores…
Meus amigos se chamavam Mário e Quincas, eram humildes, não sabiam
Com eles aprendi a rachar lenha e ir buscar conchas sonoras no mar fundo
Comigo eles aprenderam a conquistar as jovens praianas tímidas e risonhas.
Eu mostrava meus sonetos aos meus amigos – eles mostravam os grandes olhos abertos
E gratos me traziam mangas maduras roubadas nos caminhos.
Um dia eu li Alexandre Dumas e esqueci os meus amigos.
Depois recebi um saco de mangas
Toda a afeição da ausência…
Como não lembrar essas noites cheias de mar batendo?
Como não lembrar Susana e Eli?
Como esquecer os amigos pobres?
Eles são essa memória que é sempre sofrimento
Vêm da noite inquieta que agora me cobre.
São o olhar de Clara e o beijo de Carmem
São os novos amigos, os que roubaram luz e me trouxeram.
Como esquecer isso que foi a primeira angústia
Se o murmúrio do mar está sempre nos meus ouvidos
Se o barco que eu não via é a vida passando
Se o ei-ou dos pescadores é o gemido de angústia de todas as noites?
Estavas alta e imóvel – mas teus seios vieram sobre mim e me feriram os olhos
E trouxeram sangue ao ar onde a tempestade agonizava.
Subitamente cresci e me multipliquei ao peso de tanta carne
Cresci sentindo que a pureza escorria de mim como a chuva dos galhos
E me deixava parado, vazio para a contemplação da tua face.
Longe do mistério do teu amor, curvado, eu fiquei ante tuas partes intocadas
Cheio de desejo e inquietação, com uma enorme vontade de chorar no teu vestido.
Para desvendar as tuas formas nas minhas lágrimas
Agoniado abracei-te e ocultei o meu sopro quente no teu ventre
E logo te senti como um cepo e em torno a mim eram monges brancos em ofício de mortos
E também – quem chorou? – Vozes como lamentações se repetindo.
No horror da treva cravou-se em meus olhos uma estranha máscara de dois gumes
E sobre o meu peito e sobre os meus braços, tenazes de fogo, e sob os meus pés piras ardendo.
Oh, tudo era martírio dentro daquelas vozes soluçando
Tudo era dor e escura angústia dentro da noite despertada!
“Me salvem – gritei – me salvem que não sou eu!” – e as ladainhas repetia – me salvem que não sou eu!
E veio então uma mulher como uma visão sangrenta de revolta
Que com mão de gigante colheu o que de sexo havia em mim e o espremeu amargamente
E que separou a minha cabeça violentameme do meu corpo.
Nesse momento eu tive de partir e todos fugiam aterrados
Porque misteriosamente meu corpo transportava minha cabeça para o inferno…
És, de qualquer modo, a Mulher. Há teu ventre que se cobre, invisível, de odor marítimo dos brigues selvagens que eu não tive; há teus olhos mansos de louca, ó louca! e há tua face obscura, dolorosa, talhada na pedra que quis falar. Nos teus seios de juventude, o ruído misterioso dos duendes ordenhando o leite pálido da tristeza do desejo.
E na espera da música, o vaivém infantil dos gestos de magia. Sim, é dança! – o colo que aflora oferecido é a melodiosa recusa das mãos, a anca que irrompe à carícia é o ungido pudor dos olhos, há um sorriso de infinita graça, também, frio sobre os lábios que se consomem. Ah! onde o mar e as trágicas aves da tempestade, para ser transportado, a face pousada sobre o abismo?
Que se abram as portas, que se abram as janelas e se afastem as coisas aos ventos. Se alguém me pôs nas mãos este chicote de aço, eu te castigarei, fêmea! – Vem, pousa-te aqui! Adormece tuas íris de ágata, dança! – teu corpo barroco em bolero e rumba. – Mais! – dança! dança! – canta, rouxinol! (Oh, tuas coxas são pântanos de cal viva, misteriosa como a carne dos batráquios…)
Tu que só és o balbucio, o voto, a súplica – oh mulher, anjo, cadáver da minha angústia! – sê minha! minha! minha! no ermo deste momento, no momento desta sombra, na sombra desta agonia – minha – minha – minha – oh mulher, garça mansa, resto orvalhado de nuvem…
Pudesse passar o tempo e tu restares horizontalmente, fraco animal, as pernas atiradas à dor da monstruosa gestação! Eu te fecundaria com um simples pensamento de amor, ai de mim!
Mas ficarás com o teu destino.
Por que tens, por que tens olhos escuros
E mãos lânguidas, loucas e sem fim
Quem és, quem és tu, não eu, e estás em mim
Impuro, como o bem que está nos puros?
Que paixão fez-te os lábios tão maduros
Num rosto como o teu criança assim
Quem te criou tão boa para o ruim
E tão fatal para os meus versos duros?
Fugaz, com que direito tens-me presa
A alma que por ti soluça nua
E não és Tatiana e nem Teresa:
E és tampouco a mulher que anda na rua
Vagabunda, patética, indefesa
Ó minha branca e pequenina lua!
Sobre os velhos arabescos das flores calmas
A pequena varanda era como o ninho futuro
E as ramadas escorriam gotas que não havia.
Na rua ignorada anjos brincavam de roda…
- Ninguém sabia, mas nós estávamos ali.
Só os perfumes teciam a renda da tristeza
Porque as corolas eram alegres como frutos
E uma inocente pintura brotava do desenho das cores
Eu me pus a sonhar o poema da hora.
E, talvez ao olhar meu rosto exasperado
Pela ânsia de te ter tão vagamente amiga
Talvez ao pressentir na carne misteriosa
A germinacão estranha do meu indizível apelo
Ouvi bruscamente a claridade do teu riso
Num gorjeio de gorgulhos de água enluarada.
E ele era tão belo, tão mais belo do que a noite
Tão mais doce que o mel dourado dos teus olhos
Que ao vê-lo trilar sobre os teus dentes como um címbalo
E se escorrer sobre os teus lábios como um suco
E marulhar entre os teus seios como uma onda
Eu chorei docemente na concha de minhas mãos vazias
De que me tivesses possuído antes do amor.
Renasce, azul… – são tuas mãos sentidas!
Relembro-as brancas, leves, fenecidas
Pendendo ao longo de corolas fartas.
Relembro-as, vou… nas terras percorridas
Torno a aspirá-lo, aqui e ali desperto
Paro; e tão perto sinto-te, tão perto
Como se numa foram duas vidas.
Pranto, tão pouca dor! tanto quisera
Tanto rever-te, tanto! … e a primavera
Vem já tão próxima! … (Nunca te apartas
Primavera, dos sonhos e das preces!)
E no perfume preso em tuas cartas
À primavera surges e esvaneces.
Minha mãe, manda comprar um quilo de papel almaço na venda
Quero fazer uma poesia.
Diz a Amélia para preparar um refresco bem gelado
E me trazer muito devagarinho.
Não corram, não falem, fechem todas as portas a chave
Quero fazer uma poesia.
Se me telefonarem, só estou para Maria
Se for o Ministro, só recebo amanhã
Se for um trote, me chama depressa
Tenho um tédio enorme da vida.
Diz a Amélia para procurar a “Patética” no rádio
Se houver um grande desastre vem logo contar
Se o aneurisma de dona Ângela arrebentar, me avisa
Tenho um tédio enorme da vida.
Liga para vovó Neném, pede a ela uma idéia bem inocente
Quero fazer uma grande poesia.
Quando meu pai chegar tragam-me logo os jornais da tarde
Se eu dormir, pelo amor de Deus, me acordem
Não quero perder nada na vida.
Fizeram bicos de rouxinol para o meu jantar?
Puseram no lugar meu cachimbo e meus poetas?
Tenho um tédio enorme da vida.
Minha mãe estou com vontade de chorar
Estou com taquicardia, me dá um remédio
Não, antes me deixa morrer, quero morrer, a vida
Já não me diz mais nada
Tenho horror da vida, quero fazer a maior poesia do mundo
Quero morrer imediatamente.
Fala com o Presidente para fecharem todos os cinemas
Não agüento mais ser censor.
Ah, pensa uma coisa, minha mãe, para distrair teu filho
Teu falso, teu miserável, teu sórdido filho
Que estala em força, sacrifício, violência, devotamento
Que podia britar pedra alegremente
Ser negociante cantando
Fazer advocacia com o sorriso exato
Se com isso não perdesse o que por fatalidade de amor
Sabe ser o melhor, o mais doce e o mais eterno da tua puríssima carícia.
Que vi luzindo no céu
Na várzea do setestrelo.
Sairei de casa à tarde
Na hora crepuscular
Em minha rua deserta
Nem uma janela aberta
Ninguém para me espiar
De vivo verei apenas
Duas mulheres serenas
Me acenando devagar.
Será meu corpo sozinho
Que há de me acompanhar
Que a alma estará vagando
Entre os amigos, num bar.
Ninguém ficará chorando
Que mãe já não terei mais
E a mulher que outrora tinha
Mais que ser minha mulher
É mãe de uma filha minha.
Irei embora sozinho
Sem angústia nem pesar
Antes contente da vida
Que não pedi, tão sofrida
Mas não perdi por ganhar.
Verei a cidade morta
Ir ficando para trás
E em frente se abrirem campos
Em flores e pirilampos
Como a miragem de tantos
Que tremeluzem no alto.
Num ponto qualquer da treva
Um vento me envolverá
Sentirei a voz molhada
Da noite que vem do mar
Chegar-me-ão falas tristes
Como a querer me entristar
Mas não serei mais lembrança
Nada me surpreenderá:
Passarei lúcido e frio
Compreensivo e singular
Como um cadáver num rio
E quando, de algum lugar
Chegar-me o apelo vazio
De uma mulher a chorar
Só então me voltarei
Mas nem adeus lhe darei
No oco raio estelar
Libertado subirei.
Tens carne, tens fadiga e tens pudor
No calmo peito teu. Tu és a estrela
Sem nome, és a morada, és a cantiga
Do amor, és luz, és lírio, namorada!
Tu és todo o esplendor, o último claustro
Da elegia sem fim, anjo! mendiga
Do triste verso meu. Ah, fosses nunca
Minha, fosses a idéia, o sentimento
Em mim, fosses a aurora, o céu da aurora
Ausente, amiga, eu não te perderia!
Amada! onde te deixas, onde vagas
Entre as vagas flores? e por que dormes
Entre os vagos rumores do mar? Tu
Primeira, última, trágica, esquecida
De mim! És linda, és alta! és sorridente
És como o verde do trigal maduro
Teus olhos têm a cor do firmamento
Céu castanho da tarde – são teus olhos!
Teu passo arrasta a doce poesia
Do amor! prende o poema em forma e cor
No espaço; para o astro do poente
És o levante, és o Sol! eu sou o gira
O gira, o girassol. És a soberba
Também, a jovem rosa purpurina
És rápida também, como a andorinha!
Doçura! lisa e murmurante… a água
Que corre no chão morno da montanha
És tu; tens muitas emoções; o pássaro
Do trópico inventou teu meigo nome
Duas vezes, de súbito encantado!
Dona do meu amor! sede constante
Do meu corpo de homem! melodia
Da minha poesia extraordinária!
Por que me arrastas? Por que me fascinas?
Por que me ensinas a morrer? teu sonho
Me leva o verso à sombra e à claridade.
Sou teu irmão, és minha irmã; padeço
De ti, sou teu cantor humilde e terno
Teu silêncio, teu trêmulo sossego
Triste, onde se arrastam nostalgias
Melancólicas, ah, tão melancólicas…
Amiga, entra de súbito, pergunta
Por mim, se eu continuo a amar-te; ri
Esse riso que é tosse de ternura
Carrega-me em teu seio, louca! sinto
A infância em teu amor! cresçamos juntos
Como se fora agora, e sempre; demos
Nomes graves às coisas impossíveis
Recriemos a mágica do sonho
Lânguida! ah, que o destino nada pode
Contra esse teu langor; és o penúltimo
Lirismo! encosta a tua face fresca
Sobre o meu peito nu, ouves? é cedo
Quanto mais tarde for, mais cedo! a calma
É o último suspiro da poesia
O mar é nosso, a rosa tem seu nome
E recende mais pura ao seu chamado.
Julieta! Carlota! Beatriz!
Oh, deixa-me brincar, que te amo tanto
Que se não brinco, choro, e desse pranto
Desse pranto sem dor, que é o único amigo
Das horas más em que não estás comigo.
Não fui perder minha infância
No mangue daquela carne!
Dizia que era morena
Sabendo que era mulata
Dizia que era donzela
Nem isso não era ela
Era uma moça que dava.
Deixava… mesmo no mar
Onde se fazia em água
Onde de um peixe que era
Em mil se multiplicava
Onde suas mãos de alga
Sobre meu corpo boiavam
Trazendo à tona águas-vivas
Onde antes não tinha nada.
Quanto meus olhos não viram
No céu da areia da praia
Duas estrelas escuras
Brilhando entre aquelas duas
Nebulosas desmanchadas
E não beberam meus beijos
Aqueles olhos noturnos
Luzindo de luz parada
Na imensa noite da ilha!
Era minha namorada
Primeiro nome de amada
Primeiro chamar de filha…
Grande filha de uma vaca!
Como não me seduzia
Como não me alucinava
Como deixava, fingindo
Fingindo que não deixava!
Aquela noite entre todas
Que cica os cajus! travavam!
Como era quieto o sossego
Cheirando a jasmim-do-cabo!
Lembro que nem se mexia
O luar esverdeado
Lembro que longe, nos Ionges
Um gramofone tocava
Lembro dos seus anos vinte
Junto aos meus quinze deitados
Sob a luz verde da lua.
Ergueu a saia de um gesto
Por sobre a perna dobrada
Mordendo a carne da mão
Me olhando sem dizer nada
Enquanto jazente eu via
Como uma anêmona na água
A coisa que se movia
Ao vento que a farfalhava.
Toquei-lhe a dura pevide
Entre o pêlo que a guardava
Beijando-lhe a coxa fria
Com gosto de cana brava.
Senti à pressão do dedo
Desfazer-se desmanchada
Como um dedal de segredo
A pequenina castanha
Gulosa de ser tocada.
Era uma dança morena
Era uma dança mulata
Era o cheiro de amarugem
Era a lua cor de prata
Mas foi só naquela noite!
Passava dando risada
Carregando os peitos loucos
Quem sabe para quem, quem sabe?
Mas como me seduzia
A negra visão escrava
Daquele feixe de águas
Que sabia ela guardava
No fundo das coxas frias!
Mas como me desbragava
Na areia mole e macia!
A areia me recebia
E eu baixinho me entregava
Com medo que Deus ouvisse
Os gemidos que não dava!
Os gemidos que não dava…
Por amor do que ela dava
Aos outros de mais idade
Que a carregaram da ilha
Para as ruas da cidade
Meu grande sonho da infância
Angústia da mocidade.
(O anjo e o túmulo)
I
Meu amigo Pedro Nava
Em que navio embarcou:
A bordo do Westphalia
Ou a bordo do Lidador?
Em que antárticas espumas
Navega o navegador
Em que brahmas, em que brumas
Pedro Nava se afogou?
Juro que estava comigo
Há coisa de não faz muito
Enchendo bem a caveira
Ao seu eterno defunto.
Ou não era Pedro Nava
Quem me falava aqui junto
Não era o Nava de fato
Nem era o Nava defunto?…
Se o tivesse aqui comigo
Tudo se solucionava
Diria ao garçom: Escanção!
Uma pedra a Pedro Nava!
Uma pedra a Pedro Nava
Nessa pedra uma inscrição:
“- deste que muito te amava
teu amigo, teu irmão…”
Mas oh, não! que ele não morra
Sem escutar meu segredo
Estou nas garras da Cachorra
Vou ficar louco de medo
Preciso muito falar-lhe
Antes que chegue amanhã:
Pedro Nava, meu amigo
DESCEU O LEVIATÃ!
Medita nas altas frondes, na última palma da palmeira
Na grande pedra intacta, o tempo nos parques.
O tempo nos parques cisma no olhar cego dos lagos
Dorme nas furnas, isola-se nos quiosques
Oculta-se no torso muscular dos fícus, o tempo nos parques.
O tempo nos parques gera o silêncio do piar dos pássaros
Do passar dos passos, da cor que se move ao longe.
É alto, antigo, presciente o tempo nos parques
É incorruptível; o prenúncio de uma aragem
A agonia de uma folha, o abrir-se de uma flor
Deixam um frêmito no espaço do tempo nos parques.
O tempo nos parques envolve de redomas invisíveis
Os que se amam; eterniza os anseios, petrifica
Os gestos, anestesia os sonhos, o tempo nos parques.
Nos homens dormentes, nas pontes que fogem, na franja
Dos chorões, na cúpula azul o tempo perdura
Nos parques; e a pequenina cutia surpreende
A imobilidade anterior desse tempo no mundo
Porque imóvel, elementar, autêntico, profundo
É o tempo nos parques.
Eu quisera dar-te, ademais dos beijos e das rosas, tudo o que nunca foi dado por um homem à sua Amada, eu que tão pouco te posso ofertar. Quisera dar-te, por exemplo, o instante em que nasci, marcado pela fatalidade de tua vinda. Verias, então, em mim, na transparência do meu peito, a sombra de tua forma anterior a ti mesma.
Quisera dar-te também o mar onde nadei menino, o tranqüilo mar de ilha em que perdia e em que mergulhava, e de onde trazia a forma elementar de tudo o que existe no espaço acima – estrelas mortas, meteoritos submersos, o plancto das galáxias, a placenta do Infinito.
E mais, quisera dar-te as minhas loucas carreiras à toa, por certo em premonitória busca de teus braços, e a vontade de grimpar tudo de alto, e transpor tudo de proibido, e os elásticos saltos dançarinos para alcançar folhas, aves, estrelas – e a ti mesma, luminosa Lucina, e derramar claridade em mim menino.
Ah, pudesse eu dar-te o meu primeiro medo e a minha primeira coragem; o meu primeiro medo à treva e a minha primeira coragem de enfrentá-la, e o primeiro arrepio sentido ao ser tocado de leve pela mão invisível da Morte.
E o que não daria eu para ofertar-te o instante em que, jazente e sozinho no mundo, enquanto soava em prece o cantochão da noite, vi tua forma emergir do meu flanco, e se esforçar, imensa ondina arquejante, para se desprender de mim; e eu te pari gritando, em meio a temporais desencadeados, roto e imundo do pó da terra.
Gostaria de dar-te, Namorada, aquela madrugada em que, pela primeira vez, as brancas moléculas do papel diante de mim dilataram-se ante o mistério da poesia subitamente incorporada; e dá-Ia com tudo o que nela havia de silencioso e inefável – o pasmo das estrelas, o mudo assombro das casas, o murmúrio místico das árvores a se tocarem sob a Lua.
E também o instante anterior à tua vinda, quando, esperando-te chegar, relembrei-te adolescente naquela mesma cidade em que te reencontrava anos depois; e a certeza que tive, ao te olhar, da fatalidade insigne do nosso encontro, e de que eu estava, de um só golpe, perdido e salvo.
Quisera dar-te, sobretudo, Amada minha, o instante da minha morte; e que ele fosse também o instante da tua morte, de modo que nós, por tanto tempo em vida separados, vivêssemos em nosso decesso uma só eternidade; e que nossos corpos fossem embalsamados e sepultados juntos e acima da terra; e que todos aqueles que ainda se vão amar pudessem ir mirar-nos em nosso último leito; e que sobre nossa lápide comum jazesse a estátua de um homem parindo uma mulher do seu flanco; e que nela houvesse apenas, como epitáfio, estes versos finais de uma cançâo que te dediquei:
… dorme, que assim
dormirás um dia
na minha poesia
de um sono sem fim…
Mas era dele tão querida
Que o amor da Morte foi mais forte
Que o amor do Ovalle à vida.
E foi assim que a Morte, um dia
Levou-o em bela carruagem
A viajar – ah, que alegria!
Ovalle sempre adora viagem!
Foram por montes e por vales
E tanto a Morte se aprazia
Que fosse o mundo só de Ovalles
E nunca mais ninguém morria.
A cada vez que a Morte, a sério
Com cicerônica prestança
Mostrava a Ovalle um cemitério
Ele apontava uma criança.
A Morte, em Londres e Paris
Levou-o à forca e à guilhotina
Porém em Roma, Ovalle quis
Tomar a sua canjebrina.
Mostrou-lhe a Morte as catacumbas
E suas ósseas prateleiras
Mas riu-se muito, tais zabumbas
Fazia Ovalle nas caveiras.
Mais tarde, Ovalle satisfeito
Declara à Morte, ambos de porre:
- Quero enterrar-me, que é um direito
Inalienável de quem morre!
Custou-lhe esforço sobre-humano
Chegar à última morada
De vez que a Morte, a todo pano
Queria dar uma esticada.
Diz o guardião do campo-santo
Que, noite alta, ainda se ouvia
À voz da Morte, um tanto ou quanto
Que ria, ria, ria, ria…
Peçam silêncio geral. Depois
Apontem para o infinito. Ela deve ir
Como uma sonâmbula, envolta numa aura
De tristeza, pois seus olhos
Só verão a minha ausência. Ela deve
Estar cega a tudo o que não seja o meu amor (esse indizível
Amor que vive trancado em mim como num cárcere
Mirando empós seu rastro).
Se for à tarde, comprem e desfolhem rosas
À sua melancólica passagem, e se puderem
Entoem cantus-primus. Que cesse totalmente o tráfego
E silenciem as buzinas de modo que se ouça longamente
O ruído de seus passos. Ah, meus amigos
Ponham as mãos em prece e roguem, não importa a que ser ou divindade
Por que bem-haja a rninha grande amada
Durante o meu recesso, pois sua vida
É minha vida, sua morte a minha morte. Sendo possível
Soltem pombas brancas em quantidade suficiente para que se faça em torno
A suave penumbra que lhe apraz. Se houver por perto
Uma hi-fi, coloquem o “Noturno em si bemol” de Chopin; e se porventura
Ela se puser a chorar, oh recolham-lhe as lágrimas em pequenos frascos de opalina
A me serem mandados regularmente pela mala diplomática.
Meus amigos, meus irmãos (e todos
Os que amam a minha poesia)
Se por acaso virem passar a minha amada
Salmodiem versos meus. Ela estará sobre uma nuvem
Envolta numa aura de tristeza
O coração em luz transverberado. Ela é aquela
Que eu não pensava mais possível, nascida
Do meu desespero de não encontrá-la. Ela é aquela
Por quem caminham as minhas pernas e para quem foram feitos os meus braços
Ela é aquela que eu amo no meu tempo
E que amarei na minha eternidade – a amada
Una e impretérita. Por isso
Procedam com discrição mas eficiência: que ela
Não sinta o seu caminho, e que este, ademais
Ofereça a maior segurança. Seria sem dúvida de grande acerto
Não se locomovesse ela de todo, de maneira
A evitar os perigos inerentes às leis da gravidade
E do momentum dos corpos, e principalmente aqueles devidos
À falibilidade dos reflexos humanos. Sim, seria extremamente preferível
Se mantivesse ela reclusa em andar térreo e intramuros
Num ambiente azul de paz e música. Ó, que ela evite
Sobretudo dirigir à noite e estar sujeita aos imprevistos
Da loucura dos tempos. Que ela se proteja, a minha amada
Contra os males terríveis desta ausência
Com música e equanil. Que ela pense, agora e sempre
Em mim que longe dela ando vagando
Pelos jardins noturnos da paixão
E da melancolia. Que ela se defenda, a minha amiga
Contra tudo o que anda, voa, corre e nada, e que se lembre
Que devemos nos encontrar, e para tanto
É preciso que estejamos íntegros, e acontece
Que os perigos são máximos, e o amor de repente, de tão grande
Tornou tudo frágil, extremamente, extremamente frágil.
Este poema é dedicado a um americano simpático, extrovertido e podre de rico, em cuja casa estive poucos dias antes de minha volta ao Brasil, depois de cinco anos de Los Angeles, EUA. Mr. Buster não podia compreender como é que eu, tendo ainda o direito de permanecer mais um ano na Califórnia, preferia, com grande prejuízo financeiro, voltar para a “Latin America”, como dizia ele. Eis aqui a explicação, que Mr. Buster certamente não receberá, a não ser que esteja morto e esse negócio de espiritismo funcione.
Olhe aqui, Mr. Buster: está muito certo
Que o Sr. tenha um apartamento em Park Avenue e uma casa em Beverly Hills.
Está muito certo que em seu apartamento de Park Avenue
O Sr. tenha um caco de friso do Partenon, e no quintal de sua casa em Hollywood
Um poço de petróleo trabalhando de dia para lhe dar dinheiro e de noite para lhe dar insônia
Está muito certo que em ambas as residências
O Sr. tenha geladeiras gigantescas capazes de conservar o seu preconceito racial
Por muitos anos a vir, e vacuum-cleaners com mais chupo
Que um beijo de Marilyn Monroe, e máquinas de lavar
Capazes de apagar a mancha de seu desgosto de ter posto tanto dinheiro em vão na guerra da
Coréia.
Está certo que em sua mesa as torradas saltem nervosamente de torradeiras automáticas
E suas portas se abram com célula fotelétrica. Está muito certo
Que o Sr. tenha cinema em casa para os meninos verem filmes de mocinho
Isto sem falar nos quatro aparelhos de televisão e na fabulosa hi-fi
Com alto-falantes espalhados por todos os andares, inclusive nos banheiros.
Está muito certo que a Sra. Buster seja citada uma vez por mês por Elsa Maxwell
E tenha dois psiquiatras: um em Nova York, outro em Los Angeles, para as duas “estações” do
ano.
Está tudo muito certo, Mr. Buster – o Sr. ainda acabará governador do seu estado
E sem dúvida presidente de muitas companhias de petróleo, aço e consciências enlatadas.
Mas me diga uma coisa, Mr. Buster
Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:
O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?
O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?
O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?
Em 1968, ano marcante no mundo todo pelo notório mês de maio, Vinicius perde sua mãe Lydia Cruz de Moraes. Atenciosa e, em suas próprias palavras, vaidosa mulher que tanto lhe deu carinho, Dona Lydia foi-se em fevereiro, deixando muitas saudades aos filhos e netos. No mesmo ano, aparece Obra Completa pela Companhia José Aguilar Editora. Seus poemas são traduzidos para o italiano pelo poeta Giuseppe Ungaretti, que viria a falecer dois anos depois. Mais uma vez seu casamento titubeia. Um ano depois, em 1969, a derradeira facada do Governo Federal: Vinicius é exonerado do Itamaraty numa onda de expurgos motivada pelo combate à corrupção, ao homossexualismo e à subversão, e foi nesta última categoria que encaixaram Vinicius. Em contrapartida, Vinicius conhece uma moça, bem mais jovem, apaixona-se e casa-se, se chamava Cristina Gurjão.
A perscrutar-se intimamente os sonhos
Tal como duas súbitas estátuas
Em que apenas o olhar restasse humano.
Qualquer toque, por certo, desfaria
Os seus corpos sem tempo em pura cinza.
Remontavam às origens – a realidade
Neles se fez, de substância, imagem.
Dela a face era fria, a que o desejo
Como um hictus, houvesse adormecido
Dele apenas restava o eterno grito
Da espécie – tudo mais tinha morrido.
Caíam lentamente na voragem
Como duas estrelas que gravitam
Juntas para, depois, num grande abraço
Rolarem pelo espaço e se perderem
Transformadas no magma incandescente
Que milênios mais tarde explode em amor
E da matéria reproduz o tempo
Nas galáxias da vida no infinito.
Eles eram mais antigos que o silêncio…
Chacal
Ricardo de Carvalho Duarte, ou Chacal, nasceu no Rio de Janeiro no dia 24 de maio de 1951. Seu pai, Marcial Galdino, saiu do Rio Grande do Sul com o exército gaúcho para o Rio de Janeiro na Revolução Constitucionalista de 1932, e por aqui ficou. Ricardo nasceu nos dourados anos 50 e passou sua infância, ora no apartamento onde morava em Copacabana, ora no sítio da família em Cinco Lagos, um vilarejo próximo de Mendes, no interior do Estado do Rio de Janeiro. Neste mês, percorreremos a poesia deste grande poeta carioca. Muito prazer, Chacal!
- Lúcifer!
José Saramago
José de Sousa Saramago nasceu em Azinhaga, vilarejo do conselho de Golegã, que fica localizada na antiga província de Ribatejo em Portugal no dia 16 de novembro de 1922. Cresceu “numa família de camponeses em terra” como uma vez escreveu. Neste mês, percorreremos a poesia, pouca conhecida, deste grande e laureado escritor da língua portuguesa cuja prosa todos conhecemos. Com muita honra que determino: Agora é Saramago!
Altos segredos escondem dentro de água
O reverso da carne, corpo ainda.
Como um punho fechado ou um bastão,
Abro o líquido azul, a espuma branca,
E por fundos de areia e madrepérola,
Desço o véu sobre os olhos assombrados.
(Na medida do gesto, a largueza do mar
E a concha do suspiro que se enrola.)
Vem a onda de longe, e foi um espasmo,
Vem o salto na pedra, outro grito:
Depois a água azul desvenda as milhas,
Enquanto um longo, e longo, e branco peixe
Desce ao fundo do mar onde nascem as ilhas.
Foi “numa família de camponeses sem terra” que Saramago nasceu. Consta que o nome ‘Saramago’ vem de uma planta espontânea que servia de alimento aos pobres. Em 1924, aos dois anos de idade, a família se muda para Lisboa. O pai resolvera abandonar o trabalho no campo para exercer a profissão de policial na capital. Meses depois da mudança, seu irmão, Francisco, de quatro anos de idade, faleceria. As condições eram precárias, a família viveu em vários lugares, sempre em quartos alugados na ruas de Lisboa.
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Teu corpo de terra e água Teu ventre de seivas brancas Tua boca verdadeira Bem que o mundo não seria José Saramago fez a instrução básica nas escolas primarias da Rua Martens Ferrão e do Largo do Leão, em Lisboa. A família o havia matriculado numa escola chamada Liceu Gil Vicente, onde fez boa parte do colegial, divido na época em Portugal, em liceu e técnico. Porém, por dificuldades econômicas, foi obrigado a transferir-se para a Escola Industrial de Afonso Domingues, onde estudou, durante cinco anos, o ofício de serralheiro mecânico. PASSO NUM GESTO QUE EU SEI
Passo num gesto que eu sei No outro mundo sou rei E se o mundo que deixei Tantas provas cá terei Vem a ser que o homem novo
À noite, o jovem Saramago frequentava a biblioteca municipal do Palácio das Galveias, como ele próprio diria “lendo ao acaso de encontros e de catálogos, sem orientação, sem ninguém que me aconselhasse, como o mesmo assombro criador do navegante que vai inventando cada lugar que descobre”. Foi assim, “guiado pela curiosidade e pela vontade de aprender” que desenvolveu o gosto pela leitura e o gosto especial por Kafka, Gogol, Cervantes, Montaigne, Raul Brandão e Padre Antônio Vieira. DISSERAM QUE HAVIA SOL
Disseram que havia sol Disseram que havia risos Mais disseram que era tarde E disseram que ao acento Ó meu amor estas vozes
Avançando na vida do jovem José Saramago, em 1944, aos 22 anos, casa-se com a pintora Ilda Reis. Neste momento, já havia mudado sua atividade, do emprego de serralheiro mecânico, agora, trabalharia como empregado administrativo, primeiro nos Hospitais Civis de Lisboa, depois, na Caixa de Abono da Família do Pessoal de Industria e Cerâmica, de onde foi afastado, mais tarde, em 1947, por razões políticas, quando apoiou o candidato da oposição General Norton de Matos, nas eleições da presidência da República. DE PAZ E DE GUERRA
Na mão serena que num gesto de onda Na mão torcida que num frio de gelo Na mão de febre que num suor de chama Na mão de seda que num afago de asa Na tua mão de paz, na tua mão de guerra,
Em 1947, nasce sua primeira e única filha, Violante, é também o ano da publicação de seu primeiro livro, Terra do Pecado, intitulado inicialmente, A Viúva. Graças à intervenção de seu antigo professor Jorge O’Neil, começou a trabalhar na Caixa de Previdência do Pessoal da Companhia de Previdente, fazendo cálculo de subsídios e de pensões. Nessa época, já escrevia poemas e contos, alguns deles publicados em algumas revistas e jornais. Outro romance, literário, viria. Terapia High Tech em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
RETRATO DO POETA QUANDO JOVEM
Há na memória um rio onde navegam Há um bater de remos compassado Há um nascer do sol no sítio exacto, Há um retrato de água e de quebranto
Em 1953, Saramago concluía o romance, até hoje inédito, Clarabóia, que seu amigo, o pintor Figueiredo Sobral, enviou para Empresa Nacional de Publicidade e de que esta só deu notícia em 1990 (!). Sobre este caso, Saramago disse que “sempre tive a consciência que não se perdeu grande coisa em não ter sido publicado”. Depois disso, consta que Saramago passaria dezenove anos sem escrever nada, quase duas décadas de silêncio, “achava que não tinha nada pra dizer”, dizia. EM VIOLINO FADO
Ponho as mãos no teu corpo musical
Se no silêncio em que a canção esmorece
Saramago começou a trabalhar na editora Estúdios Cor, como responsável pela produção, o que lhe permitiu conhecer e fazer amizades com os principais escritores portugueses daquele momento. Nesta época, 1955, para melhorar os rendimentos da família, e também por gosto pessoal, Saramago inicia um trabalho de tradução literária. A partir daí, se envolve com Collete, Par Lagerkvist, Jean Cassou, Maupassant, André Bonnard, Tolstoi, Baudelaire, Étienne Balibar, Nicos Poulantzas, Henri Focillon, Jacques Roumain, Hegel e Raymond Bayer. Por aí vai.
TAXIDERMA OU POÉTICAMENTE HIPÓCRITA
Posso falar de morte enquanto vivo?
Posso ganir de fome imaginada?
Posso lutar nos versos escondido?
Posso fingir de tudo, sendo nada?
Posso tirar verdades de mentiras,
Ou inundar de fontes um deserto?
Posso mudar de cordas e de liras,
E fazer de má noite sol aberto?
Se tudo a vãs palavras se reduz
E com elas me tapo a retirada,
Do poleiro da sombra nego a luz
Como a canção se nega embalsamada.
Olhos de vidro e asas prisioneiras,
Fiquei-me pelo gasto de palavras
Como rasto das coisas verdadeiras.
Em 1966, Saramago publicou seu primeiro livro de poesia, Os Poemas Possíveis, cujos poemas percorremos nessa semana. Paralelamente, entre maio de 67 e novembro de 68, colaborou como crítico literário na revista Seara Nova, analisando vinte e três livros de ficção, dentre os quais, Jorge de Sena, Agustina Bessa Luís, Alice Sampaio, Augusto Abelaira, Urbano Tavares Rodrigues, José Cardoso Pires, Rentes Carvalho, Nelson de Matos e Manuel Campos Pereira. Saramago definiu Agustina como “genial”. Publicou crônicas no jornal A Capital, que depois seriam reunidas no livro Deste Mundo e de Outro.
MITOLOGIA
Os deuses, noutros tempos, eram nossos Da plumagem do cisne as mãos de Leda, Entre o céu e a terra, presidindo Aos amores de humanos e divinos, O sorriso de Apolo refulgia. Quando castos os deuses se tornaram, O grande Pã morreu, e órfãos dele, Os homens não souberam e pecaram.
Em 1970, José Saramago se divorcia de Ilda Reis e inicia, logo após, uma relação que duraria dezesseis anos com a escritora Isabel da Nóbrega. No mesmo ano publica seu segundo livro de poemas Provavelmente Alegria. Saramago sai da editora Estúdios Cor, onde trabalhava, e foi ser editorialista e coordenador de um suplemento cultural do Diário de Lisboa. Colaborava também com o Jornal do Fundão. OUVINDO BEETHOVEN
Em 1973, José Saramago publica O Embargo e o segundo livro de crônicas jornalísticas e publicadas no Jornal do Fundão e em A Capital com o título de A Bagagem do Viajante. Em abril de 1974 vem a Revolução dos Cravos e, Saramago, que já dirigia o suplemento literário do Diário de Lisboa e colaborava com a revista Arquitectura, torna-se uma espécie de “operário das palavras”, é nomeado diretor-adjunto do Diário de Notícias durante o período de governo chefiados pelo General Vasco Gonçalves. Saramago já havia coordenado uma equipe do Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis, dependente do Ministério da Educação. Editou também seu primeiro livro de crônicas políticas: As Opiniões que DL teve. texto Lá vem Juvenal! no http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
AOS DEUSES SEM FIÉIS
Talvez a hora escura, a chuva lenta, Talvez porque a vontade se recolha Finjo no chão as marcas dos joelhos Aos deuses sem fiéis invoco e rezo, Ouvem-me calados os deuses e prudentes, Entre as mãos vagarosas vão passando Um sorriso, por fim, passa furtivo Entre os lábios ressecos brilham dentes Nada mais que o sorriso retribui Anoitece de todo, os deuses mordem,
O verão quente de 75 foi turbulento, os tempos estavam confusos e Portugal, como muitos diziam, beirava uma guerra civil. No Diário de Notícias, onde Saramago trabalhava, consta que sentia-se o clima braço de ferro entre os tidos como “radicais” envolvidos no processo revolucionário de acordo com a linha política do Partido Comunista Português (PCP) do qual Saramago fazia parte desde 66, e com os mais “moderados”. A linha editorial do jornal foi posta em causa por trinta jornalistas que defendiam a revisão, ou seja, uma espécie de censura, através de uma abaixo-assinado, e exigiam a publicação do mesmo no próprio jornal. POEMA A BOCA FECHADA
Não direi: Palavras consumidas se acumulam, Não direi: Nem só lodos se arrastam, nem só lamas, Só direi,
O processo de censura dentro do Diário de Notícias apareceu logo no dia seguinte no jornal Expresso, assim como na BBC. No jornal, para qualquer tipo de decisão era preciso convocar o Conselho Nacional de Trabalhadores, onde, em certa noite, fora decidido que 24 jornalistas seriam afastados após uma intervenção eloquente de Saramago. Porém, no governo seguinte, Saramago, que fora alvo de uma espécie de “saneamento”, foi definitivamente afastado do cargo e o jornal suspenso sem qualquer apoio do Partido Comunista. ESTUDO DE NU
Mais uma vez desempregado e com as portas completamente fechadas para qualquer possibilidade de emprego no contexto político, José Saramago dedica-se por completo à escrita e à tradução, vertendo para o português cerca de vinte e sete obras, quase todas de caráter político. Ganhava pouco dinheiro, porém, não desistia do ofício. Fez parte do Movimento Unitário dos Trabalhadores Intelectuais para a Defesa da Revolução (MUTI) e publicou até o final de 1976 o livro O Ano de 1993, Apontamentos, que se tratava de uma reunião de crônicas do Diário de Notícias e também publicou o romance Manual de Pintura de Caligrafia. Graças ao incentivo de Tavinho Paes, arquivo deste mailing para pesquisa em http://cartilhadepoesia.wordpress.com
EXERCÍCIO MILITAR
A infância marcada pelas dificuldades financeiras seria, mais tarde, lembrada num momento de glória do escritor e, aqui, poeta. Terminado o curso, conseguiu seu primeiro emprego como serralheiro mecânico nas oficinas dos Hospitais Civis de Lisboa. Desde cedo, adquiriu o hábito de ser pontual, rígido no cumprimento do dever e na dedicação ao trabalho. Consta que não tinha ambições na vida, que sabia que teria de viver cada dia com o árduo trabalho, e o que tivesse que chegar, chegaria com o tempo. Experiência numa Biblioteca Municipal em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
NO TEU OMBRO POUSADA A MINHA MÃO
Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
Um poço mais remoto, e habitado De cegas criaturas, de histórias e assombros. Se no fundo do poço, que é o mundo Secreto e intratável das águas interiores, Uma roda de céu ondulando se alarga, Digamos que é o mar: como o rápido canto Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável O movimento de asas. O musgo é um silêncio, E as cobras-d’água dobram rugas no céu, Enquanto, devagar, as aves se recolhem. No início de 1976, Saramago vai morar no Alentejo, mais precisamente na povoação rural de Lavre, onde colheu importantes informações que seriam fundamentais para a escrita de seu aclamado romance e primeiro grande sucesso, Levantado do Chão, com o qual recebeu o Prêmio da Cidade de Lisboa. Dois anos antes, havia publicado a peça de teatro A Noite e recebeu o Prêmio da Associação Portuguesa de Escritores, e o conto O Ouvido, que integrou a antologia Poética dos Cinco Sentidos. Saramago iniciava o amadurecimento de sua linguagem. tradução de Victor Hugo em http://pedrolago.blogspot.com
RECORTO A MINHA SOMBRA DA PAREDE
Recorto a minha sombra da parede, Fico de parte a vê-la repetir Sobre a vida dos outros se projecta Outra vida virá que me absolva Na década de 80 veio a consagração internacional. Continuou traduzindo vários títulos, publicou a peça de teatro O que vou fazer com este livro?; publicou Viagem a Portugal; e Memorial do Convento, já em 1982, com o qual ganhou o prêmio Prêmio Pen Club e Prêmio Literário do Município de Lisboa. Depois, O Ano da Morte de Ricardo Reis, com o qual ganhou de novo o Pen Club, o Prêmio da Crítica 1985, pela Associação Portuguesa de Críticos, o Prêmio Dom Dinis (Fundação Casa de Mateus) e o Prêmio Grinzane-Cavour (Alba, Itália) 1987. No ano seguinte terminou seu relacionamento com a escritora Isabel de Nóbrega. Publicou ainda A Jangada de Pedra e A Segunda Vida de São Francisco de Assis. Um novo amor apareceria.
VENHO DE LONGE, LONGE, E CANTO SURDAMENTE
Venho de longe, longe, e canto surdamente Mas, amor, eu venho neste passo
Por conta do livro O Ano da Morte de Ricardo Reis, a jornalista e tradutora espanhola Pilar de Rio vai para Lisboa conhecer Saramago, acabam se apaixonando e casam-se em 1988. Sobre ela escreveu: “Se tivesse morrido aos 63, antes de a conhecer, morreria muito mais velho do que quando serei quando chegar minha hora”. Em 1989, publica História do Cerco de Lisboa. Também pertenceu à primeira Direção da Associação Portuguesa de Escritores, e de 1985 a 1994, foi presidente da Assembléia Geral da Sociedade Portuguesa de Autores, e ainda ficaria por um ano na presidência da Assembléia Municipal de Lisboa ao mesmo tempo da histórica coligação entre socialistas e comunistas que tinha como presidente da Câmara Jorge Sampaio. Amanhã, anos 90. CARTA DE JOSÉ A JOSÉ
Eu te digo, José: por esta carta São cobiças inúteis, vãos desgostos, Desse lado da mesa, ou desse espelho, (Correm águas geladas no meu rio. Cai a chuva do céu, e não te molha, Desse lado da mesa, onde me acusas. Tua sombra pisada, teu amigo — José.
Na década de 90, Saramago vai para o exílio em virtude do vergonhoso ato de censura do governo português chefiado por Cavaco Silva (!), pela mão do então subsecretário do Estado, Sousa Lara, que vetou a indicação de seu conhecido romance O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de 1991, ao Prêmio Literário Europeu, alegando ser “ofensivo aos católicos”. Saramago então vai viver com Pilar na ilha de Lanzarote na Espanha. Lá construiu uma casa onde gravou em azulejos num muro branco o nome “A Casa”, “resolvi baptizá-la assim, se calhar pela minha necessidade de espetar uma pequena bandeira portuguesa. Foi a afirmação da minha origem”. texto Madeiraaaaa em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
A TI REGRESSO, MAR, AO GOSTO FORTE
O Evangelho Segundo Jesus Cristo recebeu o Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, assim como vários e importantes prêmios, inclusive na Italia. Foi Doutor Honoris Causa pela Universidade de Turim e Sevilha e recebeu o título de Cavaleiro da Ordem das Artes e Letras na França. Em 1993 publicou outra peça de teatro, In Nomine Dei, e iniciou a escrita de um diário, Cadernos de Lanzarote. Saramago se tornou membro do Parlamento Internacional de Escritores em Estrasburgo. Os prêmios viriam mais e mais junto com o prestígio internacional, porém, o grau máximo viria alguns anos depois. Mediante a riqueza de sua biografia e a quantidade de poemas, estenderei o estudo por mais uma semana. Entra aí camarada! http://cartilhadepoesia.wordpress.com
JOGO DO LENÇO
Trago no bolso do peito Acena nas despedidas, Também o suor salgado, Nunca mais chegava ao fim Quando os meus olhos molhados
Em 1995, José Saramago publica seu famoso Ensaio sobre a Cegueira, e o segundo livro de Cadernos de Lanzarote. No mesmo ano ganho o Prêmio Camões, o mais importante prêmio português, e o Prêmio de Consagração da Sociedade Portuguesa de Autores. Nos anos seguintes publicou mais um volume de Cadernos de Lanzarote, Todos os Nomes, e o belíssimo Conto da Ilha Desconhecida. A essa altura, Saramago é mais que reconhecido mundialmente, tendo recebido todos os prêmio importantes portugueses, alguns italianos e uma condecoração francesa. Porém, faltava o prêmio maior que um escritor pode almejar em sua carreira, se assim posso dizer. Sei lá em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
CONTRACANTO
Aqui, longe do sol, que mais farei
Senão cantar o bafo que me aquece?
Como um prazer cansado que adormece
Ou preso conformado com a lei.
Mas neste débil canto há outra voz
Que tenta libertar-se da surdina,
Como rosa-cristal em funda mina
Ou promessa de pão que vem nas mós.
Outro sol mais aberto me dará
Aos acentos do canto outra harmonia,
E na sombra direi que se anuncia
A toalha de luz por onde vá.
Após o Prêmio Nobel, sua vida fica muito mais movimentada, com viagens pelo mundo, palestras, recebe inúmeros títulos Doutor Honoris Causa. Através de uma iniciativa diplomática do Primeiro Ministro Durão Barroso, Saramago reconcilia-se com seu país, após suspensão do processo de censura. Após o evento, o mesmo Primeiro Ministro cria a Cátedra José Saramago na Universidade Autônoma do Mexico. Sua peças são encenadas sucessivamente, é criada uma biblioteca em sua casa de Lanzarote. Em 2007, é criada a Fundação José Saramago. Até então, desde 1998, Saramago publica Folhas Políticas; A Caverna, A Maior Flor do Mundo, O Homem Duplicado; Ensaio Sobre a Lucidez; Don Giovanni ou o Dissoluto Absolvido; As Intermitências da Morte e Pequenas Memórias. SALMO 136
Nem por abandonadas se calavam Têm os povos as músicas que merecem.
No dia 18 de dezembro de 2008, Saramago é internado por causa de uma pneumonia, que lhe causaria sérios danos à saúde. Meses mais tarde, é homenageado em Portugal com uma exposição sobre sua vida e obra. Em 14 de maio, em Cannes, estreia o filme Blindness, adaptação do livro Ensaio Sobre a Cegueira, realizada pelo diretor Fernando Meirelles, com elenco de peso. Saramago se emociona profundamente após ver o filme. Termina o livro Caderno de Elefante. Em outubro de 2009, publica seu último livro, Caim. Em dezembro, arranja forças e vai visitar Aminatu Haidar, defensora dos Direitos Humanos que fazia greve de fome após ter sua entrada impedida em Marrocos. Ainda realiza uma campanha para arrecadar fundos para as vítimas do terremoto no Haiti. BALADA
Dei a volta ao continente Ninguém me soube dizer Onde estavas e vivias (Já cansados de esquecer Puxei da minha viola Com a gamela da esmola Com pão duro na sacola Talvez dissesse romanças Andavam longe os teus passos Quanto tempo ali fiquei Até que um dia cansaste
No dia 18 de junho de 2010, José Saramago morre em sua casa em Lanzarote. Um avião da Força Aérea Portuguesa trouxe os restos mortais do escritor para Portugal, que foi velado na Câmara Municipal de Lisboa, e depois cremado no cemitério Alto de São João. Assim terminamos este estudo sobre a poesia do grande escritor. Dois livros, foi o que produziu em versos. Espero que tenham gostado de sua poesia, que tenha servido para alguma coisa, pois a poesia serve para quem precisa dela. No fim da vida, Saramago revela que “gostaria de ter escrito um livro chamado Livro do Desassossego, mas Fernando Pessoa antecipou-se. O meu desassossego não é o mesmo dele, mas o título convinha-me. Como não tive sossego, quero desassossegar os outros”. Semana que vem, RESTROSPECTIVA 2010. PEQUENO COSMOS
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Álvares de Azevedo
Manuel Antônio Álvares de Azevedo nasceu em São Paulo no dia 12 de setembro de 1831. Além da poesia, se enveredou pelos contos e ensaios. Filho do estudante de Direito Inácio Manuel Álvares de Azevedo e Maria Luisa Mota de Azevedo, nasceu em berço de famílias ilustres da época. Neste mês, percorreremos um pouco pela obra deste poeta que pouco viveu, porém, o suficiente para ficar nos altos da literatura brasileira, que amava Lord Byron e foi da segunda geração do nosso romantismo.
Embora tenha nascido em São Paulo, o pequeno Álvares passou a infância no Rio de Janeiro, onde iniciou os estudos primários. Voltou para São Paulo em 1847 para estudar na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Desde essa época, o jovem já apontava como grande talento. Menino precoce, já criava pequenas peças literárias de grande qualidade. O que também o destacava dos demais era sua imensa facilidade de aprender línguas, assim como portar um espírito jovial e sentimental. Nascia o poeta.
As ondas são anjos que dormem no mar,
Que tremem, palpitam, banhados de luz…
São anjos que dormem, a rir e sonhar
E em leito d’escuma revolvem-se nus!
E quando de noite vem pálida a lua
Seus raios incertos tremer, pratear,
E a trança luzente da nuvem flutua,
As ondas são anjos que dormem no mar!
Que dormem, que sonham — e o vento dos céus
Vem tépido à noite nos seios beijar!
São meigos anjinhos, são filhos de Deus,
Que ao fresco se embalam do seio do mar!
E quando nas águas os ventos suspiram,
São puros fervores de ventos e mar:
São beijos que queimam… e as noites deliram,
E os pobres anjinhos estão a chorar!
Ai! quando tu sentes dos mares na flor
Os ventos e vagas gemer, palpitar,
Porque não consentes, num beijo de amor,
Que eu diga-te os sonhos dos anjos do mar!
As leituras dos clássicos da poesia quando ainda era muito jovem e, sobretudo, de alguns filósofos, fizeram com que Álvares desenvolvesse uma incrível capacidade. O poeta também dominava história e outras áreas do conhecimento. Tamanho empenho e doação, rendeu a Álvares, dentre outras coisas, a carta de Bacharel em Letras quando ainda tinha 16 anos. Logo seria laureado com algo maior.
Passei ontem a noite junto dela.
Do camarote a divisão se erguia
Apenas entre nós – e eu vivia
No doce alento dessa virgem bela…
Tanto amor, tanto fogo se revela
Naqueles olhos negros! Só a via!
Música mais do céu, mais harmonia
Aspirando nessa alma de donzela!
Como era doce aquele seio arfando!
Nos lábios que sorriso feiticeiro!
Daquelas horas lembro-me chorando!
Mas o que é triste e dói ao mundo inteiro
É sentir todo o seio palpitando…
Cheio de amores! E dormir solteiro!
O comportamento casto, puro e carinhoso devotado à mãe e irmã contradiziam com a personalidade perversa de alguns de seus personagens. O fato é que era adolescente, embora culto e letrado, o corpo, o espírito era movido, muitas vezes, pelo ímpeto hormonal, não há como negar isso. Álvares já apontava com inclinações a assuntos mórbidos, porém, falando de amor como ninguém, como por exemplo, na Lira dos Vinte anos.
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!
Quero em teus lábio beber
Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!
Quero viver d’esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!
Vem, anjo, minha donzela,
Minha’alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!
E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!
Ossian o bardo é triste como a sombra
Que seus cantos povoa. O Lamartine
E’ monótono e belo como a noite,
Como a lua no mar e o som da ondas…
Mas pranteia uma eterna monodia,
Tem na lira do gênio uma só corda,
Fibra de amor e Deus que um sopro agita:
Se desmaia de amor a Deus se volta,
Se pranteia por Deus de amor suspira.
Basta de Shakespeare. Vem tu agora,
Fantástico alemão, poeta ardente
Que ilumina o clarão das gotas pálidas
Do nobre Johannisberg! Nos teus romances
Meu coração deleita-se… Contudo
Parece-me que vou perdendo o gosto,
Vou ficando blasé, passeio os dias
Pelo meu corredor, sem companheiro,
Sem ler, nem poetar. Vivo fumando.
Minha casa não tem menores névoas
Que as deste céu d’inverno…. Solitário
Passo as noites aqui e os dias longos;
Dei-me agora ao charuto em corpo e alma;
Debalde ali de um canto um beijo implora,
Como a beleza que o Sultão despreza,
Meu cachimbo alemão abandonado!
Não passeio a cavalo e não namoro;
Odeio o lasquenet… Palavra d’honra!
Se asim me continuam por dois meses
Os diabos azuis nos frouxos membros,
Dou na Praia Vermelha ou no Parnaso.
II
Enchi o meu salão de mil figuras.
Aqui voa um cavalo no galope,
Um roxo dominó as costas volta
A um cavaleiro de alemães bigodes,
Um preto beberrão sobre uma pipa,
Aos grossos beiços a garrafa aperta…
Ao longo das paredes se derramam
Extintas inscrições de versos mortos,
E mortos ao nascer… Ali na alcova
Em águas negras se levanta a ilha
Romântica, sombria à flor das ondas
De um rio que se perde na floresta…
Um sonho de mancebo e de poeta,
El-Dorado de amor que a mente cria
Como um Édem de noites deleitosas…
Era ali que eu podia no silêncio
Junto de um anjo… Além o romantismo!
Borra adiante folgaz caricatur
Com tinta de escrever e pó vermelho
A gorda face, o volumoso abdômen,
E a grossa penca do nariz purpúreo
Do alegre vendilhão entre botelhas
Metido num tonel… Na minha cômoda
Meio encetado o copo inda verbera
As águas d’ouro do Cognac fogoso.
Negreja ao pé narcótica botelha
Que da essência de flores de laranja
Guarda o licor que nectariza os nervos.
Ali mistura-se o charuto Havano
Ao mesquinho cigarro e ao meu cachimbo.
A mesa escura cambaleia ao peso
Do titânio Digesto, e ao lado dele
Childe-Harold entreaberto ou Lamartine
Mostra que o romantismo se descuida
E que a poesia sobrenada sempre
Ao pesadelo clássico do estudo.
e o eco ao longe murmurou — é ela!
Eu a vi… minha fada aérea e pura —
a minha lavadeira na janela.
Dessas águas furtadas onde eu moro
eu a vejo estendendo no telhado
os vestidos de chita, as saias brancas;
eu a vejo e suspiro enamorado!
Esta noite eu ousei mais atrevido,
nas telhas que estalavam nos meus passos,
ir espiar seu venturoso sono,
vê-la mais bela de Morfeu nos braços!
Como dormia! que profundo sono!…
Tinha na mão o ferro do engomado…
Como roncava maviosa e pura!…
Quase caí na rua desmaiado!
Afastei a janela, entrei medroso…
Palpitava-lhe o seio adormecido…
Fui beijá-la… roubei do seio dela
um bilhete que estava ali metido…
Oh! decerto… (pensei) é doce página
onde a alma derramou gentis amores;
são versos dela… que amanhã decerto
ela me enviará cheios de flores…
Tremi de febre! Venturosa folha!
Quem pousasse contigo neste seio!
Como Otelo beijando a sua esposa,
eu beijei-a a tremer de devaneio…
É ela! é ela! — repeti tremendo;
mas cantou nesse instante uma coruja…
Abri cioso a página secreta…
Oh! meu Deus! era um rol de roupa suja!
Mas se Werther morreu por ver Carlota
Dando pão com manteiga às criancinhas,
Se achou-a assim tão bela… eu mais te adoro
Sonhando-te a lavar as camisinhas!
É ela! é ela, meu amor, minh’alma,
A Laura, a Beatriz que o céu revela…
É ela! é ela! — murmurei tremendo,
E o eco ao longe suspirou — é ela!
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!
Na tu’alma, em teus encantos
E na tua palidez
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!
Quero em teus lábio beber
Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!
Quero viver d’esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!
Vem, anjo, minha donzela,
Minha’alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!
E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!
Eu moro em Catumbi. Mas a desgraça
Que rege minha vida malfadada
Pôs lá no fim da rua do Catete
A minha Dulcinéia namorada.
Alugo (três mil réis) por uma tarde
Um cavalo de trote (que esparrela!)
Só para erguer meus olhos suspirando
À minha namorada na janela…
Todo o meu ordenado vai-se em flores
E em lindas folhas de papel bordado
Onde eu escrevo trêmulo, amoroso,
Algum verso bonito… mas furtado.
Morro pela menina, junto dela
Nem ouso suspirar de acanhamento…
Se ela quisesse eu acabava a história
Como toda a Comédia — em casamento.
Ontem tinha chovido… que desgraça!
Eu ia a trote inglês ardendo em chama,
Mas lá vai senão quando uma carroça
Minhas roupas tafuis encheu de lama…
Eu não desanimei. Se Dom Quixote
No Rocinante erguendo a larga espada
Nunca voltou de medo, eu, mais valente,
Fui mesmo sujo ver a namorada…
Mas eis que no passar pelo sobrado
Onde habita nas lojas minha bela
Por ver-me tão lodoso ela irritada
Bateu-me sobre as ventas a janela…
O cavalo ignorante de namoros
Entre dentes tomou a bofetada,
Arrepia-se, pula, e dá-me um tombo
Com pernas para o ar, sobre a calçada…
Dei ao diabo os namoros. Escovado
Meu chapéu que sofrera no pagode
Dei de pernas corrido e cabisbaixo
E berrando de raiva como um bode.
Circunstância agravante. A calça inglesa
Rasgou-se no cair de meio a meio,
O sangue pelas ventas me corria
Em paga do amoroso devaneio!…
A canção dos meus últimos amores!
Da delirante embriaguez de bardo
Sonhos em que afoguei o ardor da vida,
Ardente orvalhos de febris pranteios,
Que lucro à alma descrida?
Deixai que chore pois. – Nem loucas venham
Consolações a importunar-me as dores:
Quero a sós murmurá-la à noite escura
A canção dos meus últimos amores!
Da ventania às rápidas lufadas
A vida maldirei em meu tormento -
Que é falsa, como em prostitutos lábios
Um ósculo visguento. Escárnio!
Para essa muitas virgens
Como flores – românticas e belas -
Mas que no seio o coração tem árido,
Insensível e estúpido como elas!
Que agreste vibrar, ruja-me as cordas
Mais selvagens desta harpa – quero acentos
De áspero som como o ranger dos mastros
Na orquestra dos ventos!
Corre feio o trovão nos céus bramindo;
Vão torvos do relâmpago os livores:
Quero às rajadas do tufão gemê-la,
A canção dos meus últimos amores!
Vem, pois, meu fulvo cão! ergue-te, asinha,
Meu derradeiro e solitário amigo! -
Quero me ir embrenhar pelos desvios
Da serra – ao desabrigo…
Fala-me, anjo de luz! és glorioso
À minha vista na janela à noite,
Como divino alado mensageiro
Ao ebrioso olhar dos froixos olhos
Do homem que se ajoelha para vê-lo,
Quando resvala em preguiçosas nuvens
Ou navega no seio do ar da noite.
Romeu Ai! Quando de noite, sozinha à janela,
Co’a face na mão te vejo ao luar,
Por que, suspirando, tu sonhas donzela?
A noite vai bela,
E a vista desmaia
Ao longe na praia
Do mar!
Por quem essa lágrima orvalha-te os dedos,
Como água da chuva cheiroso jasmim?
Na cisma que anjinho te conta segredos?
Que pálidos medos?
Suave morena,
Acaso tens pena
De mim?
Donzela sombria, na brisa não sentes
A dor que um suspiro em meus lábios tremeu?
E a noite, que inspira no seio dos entes
Os sonhos ardentes,
Não diz-te que a voz
Que fala-te a sós
Sou eu?
Acorda! Não durmas da cisma no véu!
Amemos, vivamos, que amor é sonhar!
Um beijo, donzela! Não ouves?
No céu A brisa gemeu…
As vagas murmuram…
As folhas sussurram: Amar!
Quando em meu peito rebentar-se a fibra
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nem uma lágrima
Em pálpebra demente.
E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.
Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro
— Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;
Como o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade — é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.
Só levo uma saudade — é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas…
De ti, ó minha mãe, pobre coitada
Que por minha tristeza te definhas!
De meu pai… de meus únicos amigos,
Poucos — bem poucos — e que não zombavam
Quando, em noite de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.
Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda
É pela virgem que sonhei… que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!
Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores…
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.
Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo….
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!
Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nelas
— Foi poeta — sonhou — e amou na vida.—
Sombras do vale, noites da montanha
Que minh’alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!
Mas quando preludia ave d’aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos…
Deixai a lua prantear-me a lousa!
Mórbida languidez me banha os olhos,
Ardem sem sono as pálpebras doridas,
Convulsivo tremor meu corpo vibra:
Quanto sofro por ti! Nas longas noites
Adoeço de amor e de desejos
E nos meus olhos desmaiando passa
A imagem voluptuosa da ventura…
Eu sinto-a de paixão encher a brisa,
Embalsamar a noite e o céu sem nuvens,
E ela mesma suave descorando
Os alvacentos véus soltar do colo,
Cheirosas flores desparzir sorrindo
Da mágica cintura.
Sinto na fronte pétalas de flores,
Sinto-as nos lábios e de amor suspiro.
Mas flores e perfumes embriagam,
E no fogo da febre, e em meu delírio
Embebem na minh’alma enamorada
Delicioso veneno
Estrela de mistério! Em tua fronte
Os céus revela, e mostra-me na terra,
Como um anjo que dorme, a tua imagem
E teus encantos onde amor estende
Nessa morena tez a cor de rosa
Meu amor, minha vida, eu sofro tanto!
O fogo de teus olhos me fascina,
O langor de teus olhos me enlanguesce,
Cada suspiro que te abala o seio
Vem no meu peito enlouquecer minh’alma!
Ah! vem, pálida virgem, se tens pena
De quem morre por ti, e morre amando,
Dá vida em teu alento à minha vida,
Une nos lábios meus minh’alma à tua!
Eu quero ao pé de ti sentir o mundo
Na tua alma infantil; na tua fronte
Beijar a luz de Deus; nos teus suspiros
Sentir as vibrações do paraíso;
E a teus pés, de joelhos, crer ainda
Que não mente o amor que um anjo inspira,
Que eu posso na tu’alma ser ditoso,
Beijar-te nos cabelos soluçando
E no teu seio ser feliz morrendo!
Pálida à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!
Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d’alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!
Era mais bela! o seio palpitando
Negros olhos as pálpebras abrindo
Formas nuas no leito resvalando
Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti – as noites eu velei chorando,
Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!
Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!
Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!
Que sol! que céu azul! que doce n’alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!
Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã…
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!
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Mário Faustino
Mário Faustino dos Santos e Silve nasceu em Teresina, Piauí, no dia 13 de outubro de 1930. Estudou em Belém. Lá, foi redator e cronista n’A Província do Pará, depois na Folha do Norte. Durante este período, 1947 a 1949, estudou no Estados Unidos, mais precisamente na California, estudando teoria literária e literatura norte-americana. Neste mês, percorreremos a poesia deste jovem, porém, profundo poeta, que fez um trabalho de extrema importância para a divulgação da poesia no Brasil e foi um notável poeta.
Rainer Maria em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
PREFÁCIO
Quem fez esta manhã, quem penetrou
À noite os labirintos do tesouro,
Quem fez esta manhã predestinou
Seus temas a paráfrases do touro,
As traduções do cisne: fê-la para
Abandonar-se a mitos essenciais,
Desflorada por ímpetos de rara
Metamorfose alada, onde jamais
Se exaure o deus que muda, que transvive.
Quem fez esta manhã fê-la por ser
Um raio a fecundá-la, não por lívida
Ausência sem pecado e fê-la ter
Em si princípio e fim: ter entre aurora
E meio-dia um homem e sua hora.
Em 1956, após ter voltado para o Brasil, Mário Faustino se transfere para o Rio de Janeiro. Mário trabalha na Fundação Getúlio Vargas e logo depois torna-se editorialista do (infelizmente extinto) Jornal do Brasil, começando no Suplemente Dominical (SDJB). Falar da vida de Mário Faustino é tratar de sua relação com a poesia, com o jornalismo e com a crítica literária, exatamente o que pretendo apontar aqui ao longo desta antologia.
Poemas na http://cartilhadepoesia.wordpress.com
MENSAGEM
Em marcha, heróico, alado pé de verso,
busca-me o gral onde sangrei meus deuses:
conta às suas relíquias, ontem de ouro,
hoje de obscura cinza, pó de tempo,
que ele os venera ainda, o jogral verde
que outrora celebrou seus milagres fecundos.
Dize a eles que vinham
tecer silentes minha eternidade
que a lava antiga é pura cal agora
e queima-lhes incenso, e rouba-me farrapos
de seus mantos desertos de oferendas
onde possa chorar meus disfarce ferido.
Dize a eles que tombam
como chuvas de sêmen sobre campos de sal
sem mancha, mas terríveis
que desçam sobre a urna deste olvido
e engendrem rosas rubras
do estrume em que tornei seus dons de trigo e vinho.
Segue, elegia, busca-me nos portos
e nas praias de Antanho, e nas rochas de Algures
os deuses que afoguei no mar absurdo
de um casto sacrifício.
Apanha estas palavras do chão túmido
onde as deixo cair, findo dilúvio:
forma delas um palco, um absoluto
onde possa dançar de novo, nu
contra o peso do mundo e a pureza dos anjos,
até que a lucidez venha construir
um templo justo, exato, onde cantemos.
O projeto do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil surgiu de um programa de rádio na Rádio Jornal do Brasil, dirigido pelo poeta Reynaldo Jardim. Reynaldo conseguiu reunir profissionais competentes. melhorar o aspecto gráfico e mudar o conteúdo do caderno. Foi apoiado pela condessa Pereira Carneiro, proprietária do jornal, e ganhou a confiança dos principais intelectuais do país, transformando o complemento, num ponto de referência para a vida cultural brasileira. Alí, Mário iria fazer história.
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LEGENDA
No princípio
Houve treva bastante para o espírito
Mover-se livremente à flor do sol
Oculto em pleno dia
No princípio
Houve silêncio até para escutar-se
O germinar atroz de uma desgraça
Maquinada no horror do meio-dia.
E havia, no princípio,
Tão vegetal quietude, tão severa
Que se entendia a queda de uma lágrima
Das frondes dos heróis de cada dia.
Havia então mais sombra em nossa via.
Menos fragor na farsa da agonia,
Mais êxtase no mito da alegria.
Agora o bandoleiro brada a atira
Jorros de luz na fuga de meu dia -
E mudo sou para cantar-te, amigo,
O reino, a lenda, a glória desse dia.
Em Belém, o ainda jovem Mário realizou a maior parte de seus estudos. Para sua estreia como poeta, Mário teve a ajuda de Francisco Paulo Mendes, professor de literatura e figura aglutinadora de talentos literários locais. Estreou na Folha do Norte no suplemente literário. Alí também estaria a nova geração de autores, tais como Haroldo Maranhão, Max Martins, Rui Barata e o poeta americano Roberto Stock, que publicou no jornal enquanto esteve por lá. Clarice Lispector, então residente em Belém, contribuia para o jornal. Começaria aí o poeta.
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ROMANCE
Para as Festas da Agonia
Vi-te chegar, como havia
Sonhado já que chegasses:
Vinha teu vulto tão belo
Em teu cavalo amarelo,
Anjo meu, que, se me amasses,
Em teu cavalo eu partira
Sem saudade, pena, ou ira;
Teu cavalo, que amarraras
Ao tronco de minha glória
E pastava-me a memória.
Feno de ouro, gramas raras.
Era tão cálido o peito
Angélico, onde meu leito
Me deixaste então fazer,
Que pude esquecer da cor
Dos olhos da Vida e a dor
Que o Sono vinha trazer.
Tão celeste foi a Festa,
Tão fino o Anjo, e a Besta
Onde montei tão serena,
Que posso, Damas, dizer-vos
E a vós, Senhores, tão servos
De outra Festa mais terrena -
Não morri de mala sorte,
Morri de amor pela Morte.
O professor de literatura Francisco Paulo Mendes foi, por algum tempo, uma espécie de mestre para Mário. Tinha uma vasta biblioteca. Porém, a figura do mestre mudaria para novos amigos. Assim, Mário fugia do provincianismo de Belém. Benedito Nunes foi o autor do primeiro ensaio de seu livro, O homem e sua hora, e revela numa carta: “sabes que aqui tem gente culta, inteligente, moderna e de espírito à beça, [...] tem um rapaz que escreve uns belos poemas, muito simples [...] traduz otimamente ingleses e americanos (inclusive Eliot e Cummings).” Assim, Mário foi se desenvolvendo.
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VIDA TODA LINGUAGEM
Vida toda linguagem,
frase perfeita sempre, talvez verso,
geralmente sem qualquer adjetivo,
coluna sem ornamento, geralmente partida.
Vida toda linguagem
há entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome
aqui, ali, assegurando a perfeição
eterna do período, talvez verso,
talvez interjetivo, verso, verso.
Vida toda linguagem,
feto sugando em língua compassiva
o sangue que criança espalhará – oh metáfora ativa!
leite jorrado em fonte adolescente,
sêmen de homens maduros, verbo, verbo.
Vida toda linguagem,
bem o conhecem velhos que repetem,
contra negras janelas, cintilantes imagens
que lhes estrelam turvas trajetórias.
Vida toda linguagem -
como todos sabemos
conjugar esses verbos, nomear
esses nomes:
amar, fazer, destruir
homem, mulher e besta, diabo e anjo
e deus talvez, e nada.
Vida toda linguagem,
vida sempre perfeita,
imperfeitos somente os vocábulos mortos
com que um homem jovem, nos terraços do inverno contra a chuva,
tenta fazê-la eterna – como se lhe faltasse
outra, imortal sintaxe
à vida que é perfeita
língua
eterna.
Como dissera, de 1951 a 1953, Mário ganha uma bolsa do Institute of International Edication e passa a viver nos Estados Unidos. Estuda Teoria da Literatura e Literatura Norte-Americana, o que seria sua grande base para sua carreira de crítico literário. Sobre isso, Mário disse uma vez que “em todos os meus cursos [...] o trabalho é duro. Há semanas em que sou obrigado a ler dois, três livros inteiros, fora a consulta a inúmeras obras. Somente aos domingos é que posso passear – e que passeios”.
Casamentos… no http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
O MUNDO QUE VENCI DEU-ME UM AMOR
O mundo que venci deu-me um amor,
Um troféu perigoso, este cavalo
Carregado de infantes couraçados.
O mundo que venci deu-me um amor
Alado galopando em céus irados,
Por cima de qualquer muro de credo,
Por cima de qualquer fosso de sexo.
O mundo que venci deu-me um amor
Amor feito de insulto e pranto e riso,
Amor que faça as portas dos infernos,
Amor que galga o cume ao paraíso.
Amor que dorme e treme. Que desperta
E torna contra mim, e me devora
E me rumina em cantos de vitória…
Em 1955, Mário retorno ao Rio de Janeiro com recursos da Fundação Getúlio Vargas, onde, um ano depois, seria contratado como professor. A história de Mário Faustino com o Suplemente Dominical do Jornal do Brasil, como já foi mencionado, surge a partir de um programa da Rádio Jornal do Brasil de mesmo nome. O programa era coordenado pelo poeta Reynaldo Jardim, e tinha apoio da proprietária e condessa Pereira Carneiro (Maurina Dunshee de Abranches). Antes, a primeira página era dominada por classificados. Mais amanhã.
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NAM SIBYLLAM…
Lá onde um velho corpo desfraldava
As trêmulas imagens de seus anos;
Onde imaturo corpo condenava
Ao canibal solar seus tenros anos;
Lá onde em cada corpo vi gravadas
Lápides eloquentes de um passado
Ou de um futuro arguido pelos anos;
Lá cândidos leões alvijubados
Às brisas temporais se espedaçavam
Contra as salsas areias sibilantes;
Lá vi o pó do espaço me enrolando
Em turbilhões de peixes e presságios -
Pois na orla do mundo as delatantes
Sombras marinhas, vagas, me apontavam.
Inicialmente o Suplemento era aos domingos. Ousado graficamente, explorava os espaços em branco, o que causava espanto e consumia muito papel. Por isso, passou para os sábados, porém, conservando o nome que lhe deu fama: Suplemento Dominical do Jornal do Brasil. A equipe era composta de jovens bem informados. Logo ganhou o respeito e a confiança dos principais intelectuais do país, seduziu leitores e se tornou um ponto de referência para vida cultural brasileira. Mário Faustino era um dos que compunha o time de jornalistas e críticos literários.
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AGONISTES
Dormia um redentor no sol que ardia
O louro e a cera, dons hipotecados
Da carne postulada pelo dia;
Dormia um redentor nos incensados
Lençóis que a lua póstuma cobria
De mira e de açafrões embalsamados;
Dormia um redentor no navegante
Das mortalhas de escuma que roía
O verme de seus sonhos abafados;
E até no atol do sexo triunfante
Do mar e da salsugem da agonia
Dormia um redentor: e era bastante
Para acordá-lo o verso que bramia
No cérebro do atleta e lá morria.
Logo que o Suplemento ganhou força, houve uma campanha contrária feita por escritores descontentes e apreensivos com resenhas nada benevolentes de suas obras, sobretudo, as assinadas por Mário Faustino. O jornal resistiu e superou. Anos depois, o sucesso do Suplemento fez com que o Jornal do Brasil mudasse todo seu editorial e sua parte gráfica, inclusive, criando o Caderno B. Mário começou sua história ali, ao lado de Dídimo, José Geraldo e Luís Carlos Barreto, seu amigo de juventude.
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INFERNO, ETERNO INVERNO, QUERO DAR
Inferno, eterno inverno, quero dar
Teu nome à dor sem nome deste dia
Sem sol, céu furor, praia sem mar,
Escuna de alma à beira da agonia.
Inferno, eterno inverno, quero olhar
De frente a gorja em fogo da elegia,
Outono e purgatório, clima e lar
De silente quimera, quieta e fria.
Inverno, teu inferno a mim não traz
Mais do que a dura imagem do juízo
Final com que me aturde essa falaz
Beleza de teus verbos de granizo:
Carátula celeste, onde o fugaz
Estilo de teu riso – paraíso?
O SDJB (Suplemento Dominical do Jornal do Brasil) se tornou um verdadeiro palco de debate, inteiramente dedicado à poesia. Teve início no dia 23 de setembro de 1956 (início da primavera) e foi até 11 de janeiro de 1959. Mário Faustino organizava o Poesia-Experiência, e pretendia tirar da letargia a poesia, a crítica e o jornalismo literário brasileiros. Foi ali também que Mário começou a organizar sua própria obra poética. O objetivo do SDJB também era permitir ao público de jovens críticos e de poetas, ler os clássicos e os modernos, se possível em várias línguas, inclusive os portugueses.
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ONDE PAIRA A CANÇÃO RECOMEÇADA
Onde paira a canção recomeçada
No capitel de acanto de teu lar?
Onde prossegue a dança terminada
Nas lajes de meu tempo de chorar?
Rapaz, em minhas mãos cheias de areia
Conto os astros que faltam no horizonte
Da praia soluçante onde passeia
A espuma de teu fim, pranto sem fonte.
Oh juventude, um pálio de inocência
Jamais se estenderá sobre outra aurora
Mais clara que esta clara adolescência
Que o lupanar da noite hoje devora:
Que vale o lenço impuro da elegia
Sobre teu rosto, lúcida alegria?
O Suplemento Dominical do Jornal do Brasil era dividido em diferentes seções. Havia “Poeta novo” divulgando novos autores. Era uma seção concorridíssima, estar alí era fundamental para um poeta debutante. Também era importante fazer o diálogo dos novos poetas com os grandes. “O melhor do português” selecionava poetas por excelência, muitos deles desconhecidos do grande público. Havia também o “É preciso conhecer” e “Clássicos vivos”. Mais amanhã. Nesta semana, poemas inacabados.
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CAMBIANTE FLORESTA
Cambiante floresta, rio, jóias,
um repuxo de garças brotava
o pescador se erguia
os lábios contra a urna
e a palmeira chovia luz-de-sol
e a superfície d’água, cintilava e mudava de cor.
Um repto, ao caçador, a sarça bruta,
palma de mão, fechada em cano frio,
cinto de brotos, artelhos frios,
caçador de joelhos,
a parede de folhas cintilava, não mudava de dor.
Lontras mudas, caça-e-pesca, lontras frias.
São, ao sul, as estrelas. São seus restos, a parada noturna
câmbio de chaves, a cruz-ao-sul, os astrolábios,
o coração se arguia, o coração supérfulo,
vácuo, fluxo-e-refluxo, arcano, arcanjo,
ar carregado, arfante, a flor e o resto.
Em “Diálogos de oficina”, Mário mostrava um pouco seus poemas e propunha debates ligados à poesia, envolvendo percepção, expressão, questões éticas e estéticas. Havia também o “Fontes da poesia contemporânea”, discutindo padrões criativos estrangeiros que deveriam estimular e favorecer a renovação. Mário fazia uma pequena introdução, e mostrava, lado a lado, o poema no original e o traduzido. “Evolução da poesia brasileira” pretendia abranger as manifestações de poesia desde a época colonial. Por fim, havia o “Personae”, nome que homenageava o maior ídolo de Mário, Ezra Pound, comentando as novidades do momento. Era mais ou menos por aí.
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GESTOS DE AMOR
(inacabado)
gestos de amor fizeram-se
- estrelas brilham -
se desfizeram.
Mãos postas, ovos gigantes postos
(estrelas brilham)
entre as coxas do caos.
Estrelas brilham.
A gaivota fecunda a rocha
estrela, estrela
esteriliza o mar
um traço a mais no ar
peixe a menos no mar.
Gostos, demoras, fezes se refazem.
Contra as costas do cão
estrelas brilham
fases da lua, brisas
ilhas aventuradas, pescadores
dormentes de aventura.
A terra dura. A terra permanece,
a terra flui, cortam-se umbigos, pêlos
sobrevivem sobre os ossos, sobre carnes
aterradoras…
O lema de seu mestre Ezra Pound “Repetir para aprender, criar para renovar” era constantemente usado na página do SDJB. A partir de então, poetas como Eliot, Baudelaire, Rimbaud, Marinetti, Blaise Cendrars, Whitman, Poe (só para falar dos grandes) e muitos outros passaram a ser conhecidos pelo público e, sobretudo, ao lado de poetas nacionais, como Drummond, Bandeira, Mário de Andrade e os “jovens” concretos, por exemplo. Mário desenvolveu uma personalidade crítica, conseguindo respeito de críticos e o medo de jovens poetas.
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O MAR RECEBE O RIO
O mar recebe o rio. O rio
faustosamente corre para o mar
o rio-mar
um hino apologético do mundo.
Dosséis verdes flutuam sobre os outros
tantos dosséis azuis -
santos dos santos
santos dos santos fluem
deuses, deuses mais deuses – e floresta.
Meu nome é legião. Meu nome escorre
e pára – o mar! o mar! Apolo! – o fundo
do céu é verde-gaio sobre os potros
arfando – tantos, tantos – rumo sul.
Mente mefistotélica arrastando
rostos e restos, rosa, fumo, verme,
santos dos santos
azul-gaio
fluxo…
A atividade jornalística de Mário Faustino conviveu também com obras representativas da literatura brasileira na área da crítica: “Formação da literatura brasileira (1959) de Antonio Candido e “A literatura no Brasil (1955-1959) de Afrânio Coutinho, assim como outras. Nos debates entre críticos da época, Mário era uma espécie de “coluna do meio”, embora não se autodenominasse “crítico”. Era interessado em poesia, língua portuguesa e cultura brasileira e fazia o diálogo entre os caminhos que julgava importante para sua formação.
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AS SOMBRAS
Neste momento as sombras
fervilhando no bosque
procuram-se no bosque
como cobras, no bosque,
iguais a morcegos, sugam-se
penetram-se – no bosque -
como vermes.
Umas as outras acham-se
como quem acha o vácuo,
no bosque
o reverso do nada
deparam
para logo no bosque
perder: bosque e vazio
Neste momento, os carros
ressoam sobre o concreto
por entre bosque e rio -
neste momento o mar
trepida sobre o leito
por entre praia, e praia -
Neste momento a sombra
cobre mundo e vazio
neste momento o tempo
suga o vazio, o tempo
procura o tempo, encontra
o tempo, penetra o tempo e perde-se
sombra enrolada a sombra,
nó de víboras, sombra,
um só caos, busca e encontro
e perda e tudo: sombras.
Assim, Mário percorreu, como pode, a história da poesia brasileira e mundial. Analisou desde Anchieta até o movimento concreto. De Poe a Pound passando por todos os grandes aos menos conhecidos, franceses, ingleses, portugueses, americanos, sempre fazendo o diálogo com o contemporâneo brasileiro. Jamais perdeu a condição de intelectual a serviço da poesia. Pound foi grande o guia, embora tenha aprendido com Eliot a importância da poesia para o enriquecimento da língua.
Para ler sobre poetas http://cartilhadepoesia.wordpress.com
TÚNEL, PEDRA, TONEL
Túnel, pedra, tonel.
A mão sem luva,
a mão com chaga.
Mundo que sobe e desce,
mundo que sofre e cresce.
Mundo que principia, medra e finda,
mundo de fel e mel,
túnel, pedra, tonel.
E as dobras fartas
do manto sono
tombando em torno
do leito tempo -
e os dobres fortes
do pranto sino
troando em turnos
de luto e vento -
No fim do túnel, o princípio do túnel.
Na subida da pedra, a descida da pedra.
O tonel não tem fundo, a mão não chega às uvas -
Lida, caixão e sorte,
vida, paixão e morte.
E assim, de 23 de setembro de 1956 a 11 de janeiro de 1959, Mário participou do Poesia-Experiência no Jornal do Brasil. No final de 1959, decepcionado com os rumos que o suplemento tomava, Mário Faustino muda radicalmente de rota: passa a desempenhar as funções de redator e editorialista do mesmo jornal, formando dupla com Hermano Alves, ambos responsáveis pelas mais liberais proclamações da imprensa conservadora no Rio, no entender do amigo Paulo Francis. Abandona a militância literária, mas não desiste da poesia.
Tradução de texto de Paul Valéry no http://pedrolago.blogspot.com
BALADA
Não conseguiu firmar o nobre pacto
Entre o cosmos sangrento e a alma pura
Porém, não se dobrou perante o fato
Da vitória do caos sobre a vontade
Augusta de ordenar a criatura
Ao menos: luz ao sul da tempestade.
Gladiador defunto mas intacto
(Tanta violência, mas tanta ternura),
Jogou-se contra um mar de sofrimentos
Não para pôr-lhes fim, Hamlet, e sim
Para afirmar-se além de seus tormentos
De monstros cegos contra um só delfim,
Frágil porém vidente, morto ao som
De vagas de verdade e de loucura.
Bateu-se delicado e fino, com
Tanta violência, mas tanta ternura!
Cruel foi teu triunfo, torpe mar.
Celebrara-te tanto, te adorava
Do fundo atroz à superfície, altar
De seus deuses solares – tanto amava
Teu dorso cavalgado de tortura!
Com que fervor enfim te penetrou
No mergulho fatal com que mostrou
Tanta violência, mas anta ternura!
Envoi
Senhor, que perdão tem o meu amigo
Por tão clara aventura, mas tão dura?
Não está mais comigo. Nem conTigo:
Tanta violência. Mas tanta ternura.
O jornalista e amigo de Mário Faustino, Paulo Francis, que também colaborava com o Poesia-Experiência, lembra de seu estilo no jornal: “Era violento e opinático, satirizando os maus artistas e distribuindo elogios com economia. Seus argumentos impressionavam pela lucidez e amplitude cultural. Não se tratava de crítico “pessoal”, mas de alguém que defendia um ponto de vista, que lutava pelo estabelecimento de uma escala de valores, que recusava peremptoriamente a contrafação de qualidade [...]“
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BALATETTA
Por não ter esperança de beijá-lo
Eu mesmo, ou de abraçá-lo,
Ou contar-lhe do amor que me corrói
O coração vassalo,
Vai tu, poema, ao meu
Amado, vai ao seu
Quarto dizer-lhe quanto, quanto dói
Amar sem ser amado,
Amar calado.
Beijai-o vós, felizes
Palavras que levíssimas envio
Rumo aos quentes países
De seu corpo dormente, rumo ao frio
Vale onde vaga a alma
Liberta que na calma
Da noite vai sonhando, indiferente
À fonte que, de ardente,
Gera em meu rosto um rio
Resplandecente.
No sonolento ramo
Pousai, palavras minhas, e cantai
Repetindo: eu te amo.
Ele, que dorme, e vai
De reino em reino cavalgando sua
Beleza sob a lua,
Encontrará na voz de vosso canto
Motivo de acalanto;
E dormirá mais longe ainda, enquanto
Eu, carregando só, por esta rua
Dificil, meu pesado
Coração recusado
Verei, nesse seu sono renovado,
Razão de desencanto
E de mais pranto.
Entretanto cantai, palavras: quem
Vos disse que chorásseis, vós também?
No final de 1958, Mário preocupava-se em fazer que a poesia pudesse satisfazer, de algum modo, as necessidades metafísicas do homem contemporâneo. Auto-sublimação, autodignificação, catarse, percepção mais funda e total dos fenômenos objetivos, autoconheciment e etc. Um universo de interesses estranhos à poesia que ajudou a divulgar, por ter conhecido nela um pólo instigador da produção brasileira.
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ENVOI
Vai meu canto,
Dizer a quem te escute desta dor
Severa como as coisas longevivas
Prometem ser, troféus de heróis do olvido;
Vai dizer-lhes
Da dança que dançamos, rito ardente,
E do barro fiel donde extraímos vida
Mais casta que as ideias passageiras,
Ornatos da tormenta…
E dize-lhes do eterno,
Do rubro que inda jaz sobre os mosaicos
Onde o dourado é morto…
Vai, meu canto,
Eu te sigo em segredo, por bizarros ouvidos:
Como um rei que mandou seu segrel para a guerra
E o vê partir de longe, do alto das seteiras…
De 1960 a 1962, Mário morou em Nova York, atuando como jornalista no Departamento de Informação da Organização das Nações Unidas. Volta para o Brasil no mesmo ano, onde, assume, por pouco tempo, a editoria-chefe da Tribuna de Imprensa, comprada pelo Jornal do Brasil. Em novembro de 1962, Mário Faustino morre num desastre de avião a caminho de Nova York, onde iria trabalhar como correspondente do Jornal do Brasil. Mário só publicou um livro de poemas em vida, O Homem e sua Hora, cujos poemas, vimos nesses vinte dias.
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NÃO QUERO AMAR O BRAÇO DESCARNADO
Não quero amar o braço descarnado
Que se oculta em meu braço, nem o peito
Silente que se instala no meu lado,
Onde pulsa de horror um ser desfeito
Na presente visão de seu passado
Em futuro sem tempo contrafeito,
Em tempo sem compasso transmudado.
O morto que em mim jaz aqui rejeito.
Quero entregar-me ao vivo que hoje sua
De medo de perder-me em pleno leito
Rubro de vida e morte em que me deito
A luz de ardente e grave e cheia lua.
Ao que, se a Morte chama ao longe: Mário!,
Me abraça estremecendo em meu sudário.
Eucanaã Ferraz
Eucanaã Ferraz nasceu no Rio de Janeiro no dia 18 de maio de 1961. É professor do curso de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro e publicou alguns bons livros de poesia, sendo, inclusive, laureado com alguns prêmios. Neste mês, percorreremos a poesia deste poeta carioca, cuja poesia tem uma certa delicadeza e que organiza antologias. Veremos livro a livro. Aqui, Primeira Poesia.
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PASSEIO
Na entrada do cinema, o drops
pode ser misto ou de hortelã,
o misto tem gosto de frutas,
o de hortelã de hortelã.
As pessoas são muitas pessoas.
Dentro do cinema, quanto tudo é escuro
são todos anônimos e mesmo em inúmeros
assim como são, ficam uma só pessoa
no escuro, como se não fosse ninguém.
Eucanaã Ferraz cresceu numa casa sem biblioteca. Seu pai era dentista. Os únicos livros que havia em sua casa eram de odontologia. Seu primeiro contato com a poesia fora com um livro encadernado do poeta Augusto dos Anjos, ‘Eu e outros poemas’, onde, Eucanaã descobriu a poesia ligada essencialmente à morte e ao passado. Consta que, para ele, a poesia era Augusto dos Anjos assim como a única de referência de poeta, grande poeta.
videopoesia do poema ‘Apenas’ do meu livro Corpo Aberto feita pelo artística plástico Miguel Bandeira http://www.youtube.com/watch?v=uJru4FixGvQ
QUANDO EU MORRER
Pai, quando eu morrer,
ficarei rosa como uma menina
(você não deve ralhar ou querer que eu minta
porque tudo será exato, sem mesmo carecer de ensaio).
Quando eu morrer sou tranqüilo
como um príncipe que beijasse
a boca do nada (você vai achar bonito
esse quadro de tintas longínquas).
Pensarão que sou uma menina, um barco,
um pombo. Todo o meu doce virá à tona.
Veja pai, sou um mineral,
intacto e sem passado.
Eucanaã diz que se apaixonou pela arte quando viu pela primeira vez um quadro de Henri Matisse, seria o Grand Nu couchè/ Nu Rose. A partir desse momento, a arte, para ele, foi associada ao belo, à beleza, a qual o mesmo conclui ser uma questão de olhar. Como já disse, o primeiro contato com a poesia fora com o livro “Eu e outros poemas” do Augusto dos Anjos. Estes “opostos”, Matisse e Augusto dos Anjos seriam o despertar para a arte, agora faltaria a linguagem.
Um blog que eu mantenho e pouco divulgo http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
INICIAÇÃO
Conheço o primeiro livro de poemas:
— Eu
de Augusto dos Anjos.
Meu pai o tem entre
tratados de odontologia,
sem capa, velho, enferrujado.
De ortografia esquisita, leio
como se adentrasse um círculo onde
o tempo é outro, feito de palavras
estranhas, como que odontologizadas
pelo contato físico.
Livro misteriosíssimo,
no qual a morte é o superlativo
síntese de tudo, absoluta
como minha preguiça
de ir ao dicionário decifrar vocábulos.
Eucanaã diz não ser um poeta da abstração. Interessa-se por fotografia, pintura, arquitetura, porém, não muito por filosofia. Diz também que deixa-se atrair por aquilo que envolve o seu olhar, que tem volume e forma palpável. Acha que essa necessidade do toque é uma limitação e gostaria que as coisas fossem diferentes. Livro Primeiro foi publicado em 1990, e tem orelha do professor Roberto Corrêa dos Santos. Nesta semana, todos os poemas são desse livro.
Conheça meus equívocos http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
O DRAGÃO
Semana que vem, chega-te pelo correio
a lua: puro papelão,
que aos teus dedos transmutará em loiça.
Não fosse a gripe que me assolou esses dias,
não fosse a preguiça, os livros e o sono,
eu te mataria um dragão.
Na entrada da tua vila, deixaria o bicho,
pesado como uma hecatombe
(um hematoma na boca do estômago,
as asas imensas de bomba
imersas numa poça de sangue verde).
Ora, não te assustes,
sei que te acostumei com presentes mais delicados.
Mas não seria preciso guardá-lo: telefonarias
para o Departamento de Limpeza Urbana
avisando que um louco que te ama
deixou um sonho morto
na porta da tua casa.
Antes de escrever, ainda menino, Eucanaã dedicou-se ao desenho às colagens. Disse uma vez que “aprendeu a pensar com o olho”. No colégio teve contato com a poesia além do Augusto dos Anjos que já conhecia. Escreveu os primeiros versos para um professor do colégio que havia morrido e, embora não tivesse a intenção de ser poeta, seria a primeira produção, a primeira poesia. Nesta semana veremos poemas do livro Martelo.
crítica de Fernando Py para o meu livro Corpo Aberto no blog http://pedrolago.blogspot.com
ACONTECIDO
Como quem se banhasse
no mesmo rio
de águas repetidas,
outra vez era setembro
e o amor tão novo.
Iguais, teu hálito mascavo
e minha mão inquieta.
Novamente o quarto,
a praça vista da janela,
teu peito.
Depois eu era só – vê -
sob a chuva miúda daquele dia.
Eucanaã Ferraz entrou para a Universidade Federal do Rio de Janeiro para fazer o curso de Letras. Formou-se e fez mestrado sobre o poeta Carlos Drummond de Andrade ‘Drummond, um poeta na cidade’ no ano de 1994. Em 1999, fez o doutorado sobre o poeta João Cabral de Melo Neto, ‘Máquina de Comover: A poesia de João Cabral de Melo Neto e suas relações com a arquitetura. De acordo com Eucanaã, Drummond o ensinou a descobrir suas próprias habilidades em poesia.
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NOTÍCIAS PARA GRAÇA E QUITÉRIA
As terras estão lá
e os céus de sempre.
As casas são as mesmas,
pequeninas, pele e osso.
De ser feliz, não se sabe,
nem há notícias de Deus.
Usinas, canaviais,
como um dilúvio.
Morrer é facil
e não há justiça.
O chão que vocês pisaram,
o azul que seus olhos viram – eternos.
A mãe, o irmão,
eternamente, dormindo
no Olho d’Água da Pedra.
Eucanaã diz que gosta de ser influenciado por autores de outras linguagens, tais como a música, a prosa e as artes plásticas. É engajado na divulgação de poesia, tornou-es professor de literatura brasileira e dá aulas na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Eis um trecho do prefácio de Jorge Fernandes da Silveira para Martelo, livro dos poemas dessa semana: Um dia, a poesia andava no campus da UFRJ. (É verdade!). Foi preciso ver no peito do jovem para ler marTelo. Lá estava ele, batendo atento e forte: beaTles. Recorda? Aí, eu comecei a ler o livro: o T de martelo tinha um fim a mais; um terceiro elo no gume de corte duplo: mar/elo, marelo.
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Romântico
Amar noutro mundo
que não este.
Poder equilibrar – perfeito –
um prato sobre um alfinete.
Equilibrar um livro, uma casa,
sobre um alfinete.
Outro mundo. Sua maquete:
palavra e cavalete.
Outro: este, mas
em falsete. Sete vezes
mais belo, mil mais leve.
Setecentos o mesmo gesto – amar –
e, no entanto, não se complete.
Um rio que se repetisse,
um Tibete ameno, translúcido – e seu fundo,
em que não se chegasse,
era jamais a morte.
Eis um belo trecho de uma resenha escrita por Victor Hugo Adler Pereira para o livro Martelo:Na leitura deste livro, ao mesmo tempo em que se confirma a consecução da proposta de fazer a poesia com o vigor e a precisão do martelo, ou da goiva da xilogravura, encontram-se as armadilhas da sedução pela sucessão de imagens e sons, muitas vezes meras sugestões, provocações à imaginação do leitor Sem timidez, tece-se um simulacro da vida: “Pois ‘a aparência’ significa aqui a realidade mais uma vez, só que selecionada, fortalecida, corrigida…”, na observação de Niezstche sobre o fascínio do artista pela “aparência”.
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ARQUITETURA DA ILHA
Praia que se imaginasse
mármore.
Ou mais que isso – o maciço
do mineral monométrico,
carbônio puro. Ali,
no alvor de um pátio ininterrupto,
erguer seus edifícios.
Ou mais que isso – aquários aéreos
sob pilotis
que se imaginassem
agulhas
fincadas sobre nada, levitação. Ali,
o opróbrio e a tirania
degolados pela luz.
Creio que o livro Desassombro, de 2001, tenha sido de grande importância para Eucanaã. O livro foi indicado para a fase final do concurso Portugal Telecom de Literatura. Antes disso, o livro também rendeu o Prêmio Alphonsus de Guimaraens da Fundação Biblioteca Nacional de Melhor Livro de Poesia. Prêmios. Sempre um assunto delicado, ainda mais tratando-se de literatura e, sobretudo, poesia. Nesta semana, alguns poemas de Dasassombro.
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POR VEZES NÃO RARO…
Por vezes, não raro,
basta um gesto, sua borracha,
um quase nada de alvaiade,
um rasgo e só.
No entanto, o carvão
de certas palavras,
de alguns nomes,
não se apaga fácil.
Afogá-lo, inútil:
o maralto traz
de volta cada sílaba
em sal fortalecida.
Enterrá-lo? Logo renascerá:
árvore alta, trigo, praga.
No fogo, irrompe a letra,
inda mais sólida liga.
Há que esperar do esquecimento
o dente miúdo
e lento roer a nódoa na língua,
o travo no peito.
Rua do Mundo é um livro de 2004. Na minha opinião, um bom livro de poemas. Nas resenhas feitas sobre o livro, Eucanaã é constantemente filiado a João Cabral, como por exemplo, apontou Francisco Bosco no, já extinto, Jornal do Brasil. Outro tema recorrente é a produção de poesia no mercado editorial, mais poetas, menos, como alguns ressaltam, qualidade. Enfim, falaremos um pouco disso. Até sexta feira, alguns poemas do livro Rua do Mundo.
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UM MUNDO
Onde montanhas não são levantamentos
íngrimes de terra. Onde rios não são cursos
de água que se vão lançar no mar,
nos lagos, noutros rios. As casas
não têm paredes ou teto, ruas
não são vias de acesso, caminhos não vão
de um ponto a outro e os pontos não põem
fim, não abreviam, não são laçadas na malha
da lã ou nas voltas da linha. Por sua vez,
linhas não são fios, nem fibras, nem traços.
Não há sulcos na palma das mãos. Não há frentes
de combate. Linhas não são rumos
ou normas. O Equador não é o anel extremo do globo
e as superfícies esféricas não se chamam esferas.
Não há moedas. O espaço ilimitado, indefinido
no qual se movem os astros é a terra, enquanto
acima das cabeças, pregados pelo horizonte, densos,
amarelos, vão jardins em movimento. Venta.
Há um vento constante, há um canto constante.
Pode-se ver a música, de terraços, belvederes
e torres instaladas para tal finalidade. Mundo
em que se ganha o que se perde.
Toda pedra é pérola. Onde o amor
é entre duas mulheres.
Separei este trecho da resenha de Manuel da Costa Pinto, da Folha de São Paulo, para ilustrar melhor a constante filiação dos poemas de Rua do Mundo de Eucanaã com a poesia, ou “lição” de poesia João Cabral.”Seus poemas, ao contrário, utilizam a realidade concreta (no caso, a cidade) como experiência fenomenológica do sujeito que a contempla, que nela se projeta -mas que a ela se limita. Nesse sentido, estão mais próximos da “lição de poesia” de João Cabral de Melo Neto e do neoconcretismo”.
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VIA
Eu caminhava nu, sem que você visse.
Pra que você visse, eu caminhava sem.
Você não via. Pra que você soubesse,
eu caminhava nem, sem que você visse,
eu caminhava livre, além do limite de
ser ninguém, sem remo e sem alento,
o andar isento quase de mim mesmo,
num estranho, cansado engano,
sem âncora, no vento, e mais contente.
Nu, livro ao avesso; nu, anel sem dedo;
nu, anel sem dentro; nu, a pedra
bruta; nu, um livro bruto, antes
do acabamento, cimento grosso,
na antemão da cal, da letra, descampado,
como se a mão de alguém me desenhasse,
antiqüíssimo, no dorso de um vaso.
Sem poder ser belo, sem poder ser feio,
coisa-coisa no espaço, no tempo, eu ia.
O sol me reconhecia: eu era o filho
mais novo do boro e do alumínio.
Meu passo exalava o hálito do barro.
As crianças me apontavam, riam.
Tudo se condensava à minha roda.
No entanto, nenhuma flor surgia
nos meus passos: os brejos permaneciam
sáfaros, cobertos de urzes, sem que nada
fosse esquivo, estranho ou intratável,
nenhum recife, navalha ou gesto sórdido.
E pra que se desse a ver, meu silêncio
dizia: cabelo, pele. Sorri: os anjos de pedra
me acenaram. Eu caminhava sem,
em você, sem que você visse.
Rua do Mundo foi o meu primeiro contato com a poesia de Eucanaã Ferraz. Buscava um nome contemporâneo e vi em Eucanaã uma possibilidade. O diálogo com outras linguagens é presente nesse livro, assim como o tema ‘casa’, com levanta bem Bernardo Nascimento de Amorim: “A poesia de Eucanaã, gestada a partir da experiência particular que o poeta tem com o que observa e vivencia, lançado no mundo, parece ter, efetivamente, no desejo de abertura e expansão a sua grande mola propulsora. Recusam-se delimitações rígidas, mesmo quando se revela a necessidade da ordenação, para que os espaços se misturem, se interpenetrem, como se penetram os parangolés de Oiticica”.
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RUA DO MUNDO
Onde morou a Luiza.
Passei por ela, a rua, muitas vezes.
Chama-se agora “da Misericórdia”
e sabe de cor seu caminho
que desce à beira do rio
no alto de um ramo de alecrim,
como um Tejo miúdo, todo de pedras
e seu aluvião de pastelarias, alfarrabistas.
O cano que rebentou junto ao passeio,
sim, se calhar,
inda não foi consertado,
que as coisas são lentas.
Chama-se agora “da Misericórdia”
a antiga Rua do Mundo.
Era talvez pequena
para nome tão afastadamente,
para a Terra toda e os astros,
mas Luiza era um corpo celeste
a vigiar o andamento, o ruído,
o silêncio, o istmo,
as variações possíveis,
imprevistas, o sangue,
a asa, o sal inesgotável
do vário, o jogo.
Rua do mundo fora,
de seres que se queimavam à luz.
Rua do mundo sensível,
onde Luiza metia o nariz.
Abarcar o mundo com as pernas,
afundar no poema, cair
no mundo, ganhar mundos,
fundos nenhuns, perder.
Era uma rua qualquer, mas
a chuva sabia seu nome, bem como
os males irremediáveis, as ventanias,
os alvoroços de verão, os insetos.
Mesmo a felicidade tantas vezes
desceu e subiu tal qual uma vaga
desordenada, descalça, as pedras
daquela via sem reis nem padres.
Os sábados enchiam as calçadas de pernas.
Luiza ouvia o fragor. Os telhados ruíam.
Luiza ouvia os cacos, cada um.
A rua frágil, a palavra disparada.
Já não se chama “do Mundo”.
É agora “Rua da Misericórdia”.
Já não é a vastidão do orbe,
mas, de joelhos, ora pro nobis.
O sol vinha reto varar a janela
da louca que atravessara
a noite à procura do verso
mais irritado, mais de si.
Do punhal ali, rente aos olhos,
ao fígado, ao coração, a mulher sabia
que só uma palavra a salvaria:
misericórdia. Não pediria?
De longe, era possível ouvir um grito
(mas talvez fosse apenas eu) a pedir compaixão.
Mas era menos para ela que para o mundo,
menos para ela que para a rua do.
Francisco Bosco do Estado de São Paulo, faz uma resenha interessante sobre Cinemateca, onde, destaco a seguinte passagem: Assim, o verso, em Eucanaã, tem sempre uma natureza como que argilosa, no sentido de que é submetido a uma formalização intensa, e que obedece à sua escrita como só, às mãos, a matéria espessa.Os mais claros e simples poemas estão submetidos a esse olho ativo tanto quanto os mais longos, complexos e, eventualmente, até um pouco obscuros (pois a economia semântica de seus poemas, sua luz interna, vai do claro – a que sem dúvida tende – ao turvo, mantendo, porém, certa inalterada consistência, pois esta é garantida pelo forte princípio formalizador).
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CALENDÁRIO
Maio, de hábito, demora-se à porta,
como o vizinho, o carteiro, o cachorro.
Das três imagens, porém, nenhuma diz
do que houve, para meu susto, àquele ano.
O quinto mês pulou o muro alto do dia
como só fazem os rapazes, mas logo
pelos quartos e sala convertia o ar em águas
definitivamente femininas. Eu
tentava decifrar. Mas
deitou-se comigo e, então, já não era isso
nem seu avesso: a camisa azul despia
azuis formas que eu não sabia, recém-saídas
de si mesmas, eu diria, e não sei ter
em conta senão que eram o que eram. Partiu
do mesmo modo, em bruto, coisa sem causa.
Maio, maravilha sem entendimento,
demora-se à porta, como o vizinho,
o carteiro, o cachorro. Porém,
nenhuma das três imagens, tampouco
este poema, diz do que houve, para meu susto,
àquele ano.
Eucanaã, além de ser professor da UFRJ, trabalha no Instituto Moreira Salles, na parte de literatura e pesquisa. Recentemente, reorganizou toda a obra de Vinicius de Moraes, livro a livro, num importante projeto, sobretudo, para quem não conhece a obra poética do Vinicius. Também relançou ‘Alguma Poesia’ do Drummond. Eucanaã também é conhecido por ser um bom palestrante, esclarecedor e jamais arrogante. Creio que Eucanaã é uma boa voz da poesia contemporânea, se encaminhando, quem sabe, para uma consolidação definitiva com o público. Mais ou menos por aí.
Meus poemas no blog http://pedrolago.blogspot.com
O DOIDO
Diziam, verdade ou não, que fora rico e são
e que a despeito dos bens que possuíra
acabara endividado, falido e torto. Talvez
por isso, embora miserável, a cabeça
reta, o andar
de quem governa e pisa terra extensa e sua
em perambular sob o sol absoluto,
absorvido sabe-se lá por que delírios.
Absorvido sabe-se lá por que delírios,
insultava o vento e o vazio numa agitação
de cabelos e palavras e era comum
vê-lo penteando com seus dedos
encardidos a água das praias,
como se província sua,
como sua líquida mulher ou filha.
Viveu assim, entre feridas e piolhos,
até que desceu a noite
e uma pedra veio buscá-lo.
Eis que chegamos ao final de mais uma antologia. Espero que tenham gostado de conhecer, ou reler, a delicada poesia deste notável nome da poesia contemporânea brasileira. Poeta que ama a pintura, queria ser ator, mas preferiu o caminho da escrita e, dentro da escrita, a poesia. Na semana que vem, entraremos num outro universo poético, com outras proposições, outros poemas, outras reflexões, enfim, até lá.
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O ATOR
Pensei em mentir, pensei em fingir,
dizer: eu tenho um tipo raro de,
estou à beira,
embora não aparente. Não aparento?
Providências: outra cor na pele,
a mais pálida; outro fundo para a foto:
nada; os braços caídos, um mel
pungente entre os dentes.
Quanto à tristeza
que a distância de você me faz,
está perfeita, fica como está: fria,
espantosa, sete dedos
em cada mão. Tudo para que seus olhos
vissem, para que seu corpo
se apiedasse do meu e, quem sabe,
sua compaixão, por um instante,
transmutasse em boca, a boca em pele,
a pele abrigando-nos da tempestade lá fora.
Daria a isso o nome de felicidade,
e morreria.
Eu tenho um tipo raro.
Cassiano Ricardo
Voltando aos poetas. Cassiano Ricardo nasceu em São José dos Campos, São Paulo, em 1895. Passou a infância na fazenda dos pais, que eram modestos lavradores. Consta que queria ser poeta e jornalista já aos dez anos. Neste mês percorreremos o universo poético deste, infelizmente, não tão divulgado bom poeta brasileiro. Assim como muitos que não chegaram ao grande, porém, escasso, público de poesia. Pois este mailing se faz simplesmente por isso, para que as pessoas leiam, pelo menos uma vez por dia, um poema. Poesia é importante, mas só na prática percebemos. Garanto!
poema Apenas, do livro Corpo Aberto no blog http://pedrolago.blogspot.com
COEMA PIRANGA
de primeiro no mundo
só havia sol mais nada
noite não havia
havia só manhã
uma manhã espessa
com a coroa de plumas
vermelhas à cabeça
só manhã no mundo
pois noite não havia
só manhã no mundo
sem nenhuma ideia
de haver noite nem dia
era tudo brasil
tudo era madrugada
não havia mais nada
todas as mulheres
eram filhas do sol
na manhã gentil
e os homens cantavam
que nem pássaros nus
pelos galhos das árvores
sem noite sem dia
porque só havia sol
noite não havia
no começo do mundo
tudo era madrugada
tudo era sol mais nada
tudo amanhecia
permanentemente
num contínuo arrebol
sem ara nem pituna
sem noite nem dia
cantava o tié-piranga
num ramo do sol
sen nenhuma ideia
de uma noite haver noite
ou de um dia haver dia
mas dois frutos havia
e num deles morava
a Noite no outro o Dia
mas ninguém sabia
em que galho em que arbusto
é que a Noite estaria
e onde estava o Dia
não havia o medo
de perder a hora
ou contar-se um segredo
só havia sol se rindo
se rindo grande e real
como um ruivo animal
dentro do matagal
de primeiro no mundo
noite não havia
tudo era mesmo dia
de tanto sol que havia
era o tempo imóvel
não havia esta coisa
chamada noite e dia
só havia sol mais nada
noite não havia
só manhã no mundo
noite não havia
Cassiano Ricardo publicou seus primeiros versos e “inventou” um pequeno jornal manuscrito chamado O Ideal, no ano de 1905. Adolescente, frequentou, em Jacareí, o Ginásio Nogueira da Gama. Logo mais, estudou Direito em São Paulo e colou grau no Rio de Janeiro, já estamos em 1917. Durante esse período publicou o seu primeiro livro de poemas, Dentro da Noite (1915), e logo a seguir, A frauta de Pã. Cassiano inicia seu diálogo com os modernistas, influência que será fundamental em sua obra. Na série desta semana, tratamos de Uiara, uma índia de cabelo verde e amarelo.
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SEM NOITE, NÃO
“A manhã é muito clara…
Não há Noite na terra…
O sol espia a gente
pelos vãos do arvoredo…
Sem Noite, francamente,
não quero me casar
porque não há segredo…
Ixé xatí xa ikó.
O que há são olhos, olhos
em que o sol se reparte.
“Olhos que espiam tudo
pelos vãos doa arvoredo…
Olhos por toda a parte!
Casar? nem por brinquedo.
Não é porque me queixe
mas o sol, sem-vergonha,
até debaixo d’água
quando vou tomar banho
brilha mais do que um peixe.
Os troncos têm orelhas
sobre a casca, vermelhas,
e contam tudo às folhas,
que ouvem o que se diz;
e as folhas que são línguas
verdes e bem afiadas
contam ao vento; e o vento
que não guarda segredo
conta depois aos bichos
que moram no arvoredo;
e os bichos, aos cochichos,
contam ao mato, e o mato
chama o sol, linguarudo,
e conta tudo… Tudo
“Se você, meu amigo,
quer se casar comigo,
tenho uma condição.
É haver Noite, na Terra.
“Sem Noite, não e NÃO.”
No Rio de Janeiro, Cassiano Ricardo foi cronista parlamentar do jornal O Dia. Agora, formado em Direito, depois de ter exercido a advocacia em São Paulo, resolveu se mudar para o Rio Grande do Sul, e lá, tentar a carreira. Volta para São Paulo e retorna para a carreira literária se integrando na redação do Correio Paulistano. Foi ali que conheceu e se aproximou de Plínio Salgado, Menotti Del Picchia, Mota Filho, Alfredo Ellis e Raul Bopp. Juntos iniciariam uma campanha modernista, tendo Cassiano, como um dos lideres.
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A COBRA GRANDE
Até que ao fim da estrada
no sítio acaba-mundo
por onde conduzira
as tribos da manhã,
o Rei do Mato encontra
a Cobra Grande que,
olhos de safira,
se disse sua irmã.
Então Cobra Grande
lhe fala: “Eu tenho a Noite”
E dá-lhe um espinhento
fruto de tucumã.
“A Noite mora ao centro
desta fruta do mato,
que é espinhenta por fora
mas gostosa por dentro…”
(E em seu olhar fulgia
o abismo da manhã.)
“Vá por este caminho
mas não abra o segredo
antes da hora marcada,
pra seu amor não ser
simples palavra vã.
Que se abrires o fruto
por encanto ou por medo
você terá o castigo
de sol e de chão bruto,
que te dará Tupã.
Pois o Bicho Felpudo
que mora na floresta
cum só olho na testa
e que usa pés de lã
te esconderá os caminhos;
cantará a jaçanã.
E todas as corujas
que são filhas da Noite
sairão dos seus ocos
e sujarão a cara
soltinga da manhã.
E a Noite que está dentro
deste crespo por fora
fruto de tucumã,
virará Onça Preta.
E tudo será Noite
de não se ver mais nada.
E você, Rei do Mato,
depois de tanto afã,
ficará o vagabundo
do sítio acaba-mundo.
E vagará, à toa,
à frente do seu povo
de rechã em rechã,
na grande Noite cega,
sem amor, sem cunhã.”
E enquanto a Cobra Grande
falava, o Sol se ria.
Sol coisarrão, Sol nu.
Sol de mitologia.
Com cinco labaredas
de alegria pagã,
presas, qual cinco dedos,
ao fim de cada braço
girassol da manhã…
Junto com Menotti Del Picchia, Plínio Salgado, Mota Filho, Alfredo Ellis e Raul Bopp, Cassiano Ricardo fundou os grupos modernistas “Verde-amarelo” e “Anta”. Vamos entrar nessa parte com calma. Tais grupos foram uma resposta ao nacionalismo Pau-Brasil. Uma crítica ao nacionalismo “afrancesado”, como eles levantaram, de Oswald de Andrade. Tinha como propostas o nacionalismo primitivista, ufanista, identificado com o fascismo. Estes grupos permearam os anos de 1923 (ou 26) a 1929. Estes grupos, depois, evoluiriam para o Integralismo. Cassiano, depois, assinará outros grupos, um deles, o “Bandeira”, já contra o Integralismo. Mais sobre amanhã.
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DECLARAÇÃO DE AMOR
Eu vim do mar! Sou filho de outra raça.
Para servir meu rei andei à caça
de mundos nunca vistos nem sonhados,
por mares nunca de outrem navegados.
Ora de braço dado com a procela,
ora a brigar com ventos malcriados.
Trago um cruz de sangue em cada vela!
Na crista da onda, em meio do escarcéu,
na solidão encrespada e redonda,
quanta vez me afundei no inferno d’água
ou com a cabeça fui bater no céu!
Simples brinquedo em mãos da tempestade
fabulosa ambição me trouxe aqui.
A ambição pode mais do que a saudade…
Ambas me foram ver, quando eu parti.
A saudade, abraçou-me, tão sincera,
soluçando, no adeus do nunca-mais.
A ambição de olhar verde, junto ao cais,
me disse: vai que eu fico à tua espera!
E agora, ó Uiara, eu sou um rouxinol.
Épico só no mar, lírico em terra,
quero gorjear à beira do regato
e o teu beijo colher, fruta do mato,
no teu corpo pagão, quente de sol.
E agarrar-me aos teus seios matutinos,
nauta que amou centenas e centenas
de ondas em fúria e veio naufragar,
depois de tudo, em duas ondas morenas,
que valem mais, em sendo duas apenas,
do que todas as ondas que há no mar.
Que importa a nós as brejaúvas más,
na virgindade insólita onde fechas
o teu supremo bem-ínvio tesouro,
vigiado pelas onças de olhos de ouro -
guardem seus cachos roxos entre flechas
e eu beba a água que o sertão me traz
nas folhas grossas dos caraguatás?
Que importa, no ar, papagaios em bando,
ou araras pintadas, dêem risadas,
por nos verem assim, falando a sós,
tu da cor da manhã, eu cor do dia,
se os pássaros do amor e da alegria
a todo instante pousarão cantando
nas coisas que te digo, em minha voz?
Eu vim do mar! Sou filho da procela.
Trago uma cruz de sangue em cada vela.
Para sentir a glória de te amar,
lobo do oceano acostumado a tudo,
épico só no mar, lírico em terra,
estenderei o couro de um jaguar
sobre este chão que ficará um veludo
mais verde, mais macio do que o mar…
No mar, o bravo peito lusitano.
Em terra o amor em primeiro lugar.
E tão grande há de ser a nossa luta
sobre o leito trançado de cipós,
que a Noite cairá, pesada e bruta,
suando pingos de estrelas sobre nós!
Logo após a fundação dos grupos Verde-Amarelo e Anta, Cassiano publica os livros: Borrões de verde e amarelo; Vamos caçar papagaios e Martim Cererê. Também é eleito para a Academia Paulista de Letras com Plínio Salgado e Menotti Del Picchia. Plínio Salgado foi um dos fundadores da Ação Integralista Brasileira, partido político dos anos 30, extinto pelo Estado Novo. Menotti Del Picchia era poeta, e foi eleito, em 1943, para a Academia Brasileira de Letras. Os três participaram intensamente do modernismo brasileiro, publicando em 1929 o Nhengaçu Verde Amarelo – Manifesto do Verde Amarelismo ou da Escola da Anta.
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LADAINHA
Por ser tratar de um ilha deram-lhe o nome de Ilha de Vera Cruz
llha cheia de graça
Ilha cheia de pássaros
Ilha cheia de luz.
Ilha verde onde havia
mulheres morenas e nuas
anhangás a sonhar com histórias de luas
e cantos bárbaros de pajés em poracés batendo os pés.
Depois mudaram-lhe o nome
pra Terra de Santa Cruz.
Terra cheia de graça
Terra cheia de pássaros
Terra cheia de luz.
A grande Terra girassol onde havia guerreiros de tanga
e onças ruivas deitadas à sombra das árvores mosqueadas de sol.
Mas como houvesse, em abundância,
certa madeira cor de sangue cor de brasa
e como o fogo da manhã selvagem
fosse um brasido no carvão noturno da paisagem,
e como a Terra fosse de árvores vermelhas
e se houvesse mostrado assaz gentil,
deram-lhe o nome de Brasil.
Brasil cheio de graça
Brasil cheio de pássaros
Brasil cheio de luz.
Em 1928, Cassiano foi nomeado para censor teatral e cinematográfico e também virou funcionário público. Sua carreira começava crescer. Em 1931, o então interventor Laudo de Camargo o nomeou para diretor efetivo da Secretaria do Palácio do Governo, em 1932 exerceu a função de secretário do Governador Pedro de Toledo, tendo sido preso (por motivo da Revolução Constitucionalista) e remetido entre outros paulistas, para a Sala da Capela, no Rio de Janeiro.
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A NOTÍCIA
Então o vento
lá dentro da serra,
onde apenas insensato
das coisas sem nome
começou a bater
a bater rataplã
no tambor da manhã.
Então os ecos
saíram das grutas
levando a notícia
por todos os lados.
Então as palmeiras
ao fogo do dia,
em verde tumulto,
pareciam marchar
carregando bandeiras.
Depois veio a Noite
e os morros soturnos
levavam estrelas
por vales e rochas
como um silente
corrida de tochas…
Vale lembrar: A Revolução Constitucionalista (motivo pelo qual Cassiano fora preso quando exercia o cargo de secretário do Governador Pedro de Toledo) foi uma revolta armada contra o governo Vargas, e ocorreu em São Paulo. Em poucos meses, tendo início no dia 9 de julho, São Paulo conheceu um dos maiores conflitos armados da história do Brasil. 87 dias de combate no total, terminando com a rendição do revolucionários em outubro. Cassiano Ricardo foi o poeta mais recitado nas estações de rádio, por causa de seus poemas paulistas.
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SINAL DO CÉU
E uma cruz misteriosa de estrelas
abriu no céu os seus braços de luz
como uma enorme profecia:
Eu sou a cruz do cruzamento!
O cruzeiro do amor universal.
Eu tenho estes braços abertos
assim, na amplidão dos espaços
como que pra dizer: vinde todos!
que este céu é bastante profundo
e servirá de teto a todos quantos
sofrem no mundo;
que este chão é bastante fecundo
e dará de comer a todos quantos
têm fome, no mundo;
que estes rios darão de sobejo
pra mitigar a sede a todos quantos
têm sede, no mundo.
Sinal da cruz, descrucificador
porque signo de “mais”, de soma e aliança.
Eu sou a cruz do amor.
Um abraço de estrelas a quem chega
à procura de uma ilha
no mapa-múndi da desesperança.
Porque eu sou o caminho, ainda obscuro,
por onde, finalmente,
desfilará a humanidade do futuro.
No mesmo ano de 1937, quando toma parte no grupo intelectual “Bandeira”, Cassiano é eleito para a Academia Brasileira de Letras. Ocupa a cadeira #31 que tinha sido ocupada por Paulo Setúbal. Cassiano tinha sido o segundo modernista a ser eleito para a Academia, o primeiro a ter essa honra foi Guilherme de Almeida, o qual foi encarregado de recebê-lo. Vale lembrar: Guilherme de Almeida foi o responsável pela divulgação do Haikai no Brasil.
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TREM DA NOROESTE
Olhos oblíquos
pestanas ruivas;
é o homem bíblico
multiplicado
pelo futuro
pelo presente
pelo passado.
E a terra enigma
modela o outro
(ainda criança
que há dentro dele)
à sua imagem
e semelhança.
Porque ele mesmo
cortado ao meio,
ficou lá longe
e entre o que veio
e o que não veio
o azul-atlântico
lava a memória
do que não veio.
Rostos em viagem.
Rostos em série.
Baralho humano.
Novas trombetas
de Jericó.
A hora futura
que Deus escreve
por linhas tortas
no mural rude
da manhã clara,
imprime aos rostos
judeus, lituanos,
sírios e russos
o ensaio vivo
de um mundo só.
Nisto o trem pára.
Que face é aquela
que se debruça
numa janela?
É a face do outro?
Em 1940, Cassiano Ricardo foi diretor do jornal A Manhã, no Rio de Janeiro. Sobre sua atuação na direção do jornal, Manuel Bandeira disse que “Cassiano chamou para o seu jornal grandes colaboradores adversários da situação, Gilberto Freyre, Afonso Arinos de Melo Franco, José Lins do Rego, Vinicius de Moraes, etc, na nobre atitude de não misturar literatura com política”.
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PECADO ORIGINAL
O dia nos espia… novamente.
Mas, ó incrível morena de olhar verde,
fecha os teus olhos pra fingir que é noite.
E teremos a noite, duas, três vezes,
quantas vezes fecharmos nossos olhos
na quentura de um beijo. Porque a noite
é uma pequena invenção de nós dois…
Há um momento de treva em cada beijo
e uma risada matinal depois,
do dia, debruçado na janela,
que nos espia, e quer saber de tudo
o que se passa agora entre nós dois.
Fecha os olhos de novo, e eu te darei
a noite que ainda mora atrás do dia…
Em 1941, Cassiano Ricarco publicou seu principal ensaio ‘Marcha para Oeste’ e o ‘Sangue das Horas’, denunciador de sua nova fase poética. Cassiano participara profundamente das novas proposições modernistas, sempre pela poesia, permeando os grupos, escrevendo ensaios e nos jornais. Martim Cererê é um longo poema indianista, com negros, índios e brancos tomando posse e criando um novo país. O poema termina com Brasil-Menino. Eis algumas partes.
Poema ‘Apenas’ do livro ‘Corpo Aberto’ no blog http://pedrolago.blogspot.com
BRASIL-MENINO I & II
Meu pai era um gigante, domador de léguas.
Quando um dia partiu, a cavalo,
no seu dragão de pelo azul que era o Tietê dos bandeirantes,
lembro-me muito bem de que me disse: olhe, meu filho
eu vou sururucar por esta porta e um dia voltarei trazendo
umas dezenas de onças arrastadas pelo rabo a pingar
sangue do focinho.
E dito e feito! lá se foi dando empurrões no mato dos barrancos
por entre alas de jacarés e de pássaros brancos!
Quando veio o Natal meu pai estava longe,
em luta com os bichos peludos, com os gatos grandões
de cabeça listada e com as mulas-de-sete-cabeças
que moram no fundo das árvores espessas.
No planalto, batia um sino perguntando: ele não vem?
ele não vem?
Um outro sino de voz grossa respondia “não…
e não, dizendo “não”… e repetindo “não… e não”…
Em 1947, Cassiano volta a residir em São Paulo após alguns anos no Rio de Janeiro. A crítica ressalta que os poemas escritos e publicados por Cassiano nesse período o colocam “na primeira linha dos poetas brasileiros”. Tais poemas se encontram em Um dia depois do outro; A face perdida e Poemas murais. Nesta época também, Cassiano se aproxima dos concretistas das revistas Noigandres e Invenção. Depois, Cassiano viria a dirigir uma importante instituição. Amanhã.
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BRASIL-MENINO IV & V
Passou mais um ano e meu pai não voltou.
Botei meus sapatões atrás da porta novamente
e no outro dia
fui encontrar meus sapatões abarrotados de esmeraldas!
Minha vovó, uma velhinha portuguesa com cabelo de
garoa e xale azul-xadrez me garantia:
“… foi o Papá Noel quem trouxe. “Até que um dia
fiz que não vi mas vi; acordei da ilusão:
meu pai era um gigante, domador de léguas;
um feroz caçador de onças pretas,
terror do mato, assombração das borboletas
mas tinha um grande coração.
Por fim cresci. Hoje sou gente grande.
Sou comissário de café. Tenho viadutos encantados.
Minha cidade é esse tumulto colorido que aí passa
levando as fábricas pelas rédeas pretas da fumaça!
Barulho fantástico
de um mundo que saiu da oficina.
Grito metálico de cidade americana.
Vida rodando fremindo batendo martelos
com músculos de aço.
E o Tietê conta a história dos velhos gigantes,
que andaram medindo as fronteiras da pátria,
ao tempo em que São Paulo colocava os sapatões atrás da porta
e os sapatões amanheciam de ouro…
e os sapatões amanheciam de esmeraldas…
e os sapatões amanheciam de diamantes…
Em 1950, Cassiano Ricardo é eleito presidente do Clube da Poesia de São Paulo. Na direção dessa entidade, iniciou a publicação dos “cadernos” dedicados aos “novíssimos”, inaugurando o Curso de Poética – o primeiro, em seu gênero, realizado no país. Três anos depois, Cassiano foi para a França, em missão oficial. Permaneceu quase três anos e percorreu vários países, como Portugal, Espanha, Bélgica, Suiça, Itália, Inglaterra e Holanda.
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INDOMITUS
O mar é uma esmeralda suja.
Recifes de coral repontam como flores de sangue salpicado de espuma.
(Coisa que explica naturalmente sangue róseo dos náufragos.)
As espadas dos peixes aguerridos
(os espadartes) trançam cintilações de prata
em campo blau, como num escudo.
O escudo de Netuno contra o casco do Indômitus.
A arte de navegar entre espadas
não é tão fácil, senão a mais oscilante das
artes.
Não consta da rosa-dos-ventos…
Se bem que uma rosa-dos-ventos é rosa
mas apenas no nome. Antes, a chamaremos de malme-quer
até Dumquerque.
Indômitus está dançando agora entre duas espécies de
estrêlas.
A hora não é pra considerações em tôrno do
que possa acontecer.
É a hora do sangue-frio. Porque os peixes,
como os capitães, são animais de sangue-frio.
A hora é do vento
pela proa, ou a maubordo (não bombordo).
Nasce uma flor no mastro, um flama (não flâmula).
Indômitus então navega em plena rosa cega.
Uma fulguração súbita escreve no ar uma frase.
Thamuz, Thamuz, panmegas tethneka. Fulmotondro.
O comandante está dizendo à sua maruja que não há
no dicionário uma palavra mas bonita do que arquipélago.
Trinta pombos azuis em formação geométrica voltarão
ao navio.
Durante o período em que esteve em Paris, Cassiano Ricardo escreveu João torto e a Fábula; também escreveu Arranhacéu de Vidro, já inaugurando uma nova fase em sua linguagem. Cassiano também foi chefe do Escritório Comercial do Brasil em Paris no ano de 1953. Os cargos públicos era frequentes na vida de Cassiano, tendo ocupado alguns importantes. O início dos anos 60, Cassiano é laureado com prêmios, entre eles da Fundação Cultural de Brasília, Carmen Dolores Barbosa e o Jabuti.
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PAPAGAIO GAIO
Papagaio insensato,
que te fêz assim?
Que não sabes falar
brasileiro
e já sabes latim?
Papagaio insensato,
ave agreste, do mato,
que diabo em ti existe,
verde-gaio,
que nunca estás triste?
Papagaio do mato,
se nunca estás triste,
quem foi que te ensinou,
por maldade,
a palavra saudade?
Papagaio triste,
papagaio gaio,
quem te fêz tão triste
e tão gaio,
triste mas verde-gaio?
Papagaio gaio,
quem te ensinou,
em mais
do mato, a repetir,
papagaio,
tanto nome feio?
Gaio papagaio,
gaio, gaio, gaio,
que repetes tudo…
Antes fosses
um pássaro mundo.
Papagaio do mato,
se nunca estás triste,
quem foi que te ensinou,
por maldade,
a palavra saudade?
Papagaio gaio.
Gaio, gaio, gaio.
Com os livros do início da década de 60, Montanha Russa e Difícil Manhã, Cassiano recebe muitos prêmios. Seus último dois livros, Jeremia Sem-Chorar e Os Sobreviventes, são marcados por experimentações, tais como o linossigno e os poemas visuais. Cassiano tem também uma história com o concretismo, tendo participado dos grupos que desencadeariam no movimento estético.
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MONTANHA RUSSA
Já o ser inquieto não
está em nenhum lugar
porque a inquietação já
é uma forma de não
estar nunca estaR
que se dirá então
do ninguém que mora
em mim por não ter não
onde morar
na terra no ar no maR
quem imagina não
está em si somente
nem somente onde está
está de repente
sem cuspir nem porvir
numa montanha russa
só pelo prazer
perpendicular
de subir e caiR
Ó meu distante amor
quando eu passar espera-me
na tua porta não
te poderei beijar não
só terei tempo para
na paisagem em fuga
entre areia e sal
te deixar na mão
uma floR
Espera-me na porta
se estiveres na lua
maria azul luz clara
quando eu passar como
um peixe voador não
terei tempo para
te ofertar sequer
uma floR
só terás tempo de dizer
como a mulher de Arvers
que louco é este
que chegou da terra e não
me trouxe sequer
uma floR
Numa memorável luta, Cassiano Ricardo conseguiu que a Academia Brasileira de Letras premiasse o livro Viagem, de Cecília Meireles, e depois, propôs, com a aprovação dos demais acadêmicos, inclusive conservadores, que se comemorasse, naquele cenáculo, o trigésimo aniversário da Semana de Arte Moderna. Em todas as antologias, sobretudo nas resumidas, Cassiano sempre é lembrado pela “militância” na poesia, fazendo-se sempre o uso desta palavra.
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O CACTO
Vamos, todos, brincar de cacto
na areia da nossa tristeza.
Uma folha sobre outra,
Em caminho do céu intacto.
Uns nos ombros dos outros,
um braço a nascer de outro braço,
uma folha sobre outra,
formaremos um grande cacto.
De cada braço, já no espaço,
nascerá mais um braço, e deste
outros braços, qual ramalhete
de flores para um só abraço.
Filhos da pedra e do pó,
fique aqui embaixo o nosso orgulho,
pisado sobre o pedregulho.
Formaremos, num corpo só
(uma folha sobre outra
uma folha sobre outra,
um braço a nascer de outro braço),
a nossa escada de Jacó.
Pra que torre de Babel
ou o Empire State, compacto,
se, uns nos ombros dos outros,
chegaremos ao céu, num cacto?
Uma folha sobre outra
e já uma árvore de feridas
por entre os anjos de azulejo
e as borboletas repetidas.
Que fique aqui embaixo a terra;
lá de cima nós tiraremos
uma grande fotografia
do seu rosto de ouro e prata.
Para provar a Deus que a terra,
numa fotografia exata,
não é redonda, mas chata;
não é redonda, mas chata.
Pra provar, por B mais H,
que o homem, animal suicida,
já sabe fabricar estrelas…
Se é que Deus disto duvida.
Que iríamos fabricar luas
(se não fora, para Seu gáudio,
o espião nos ter furtado a fórmula)
mais bonita do que as Suas.
Vamos, todos, brincar de cacto,
uns nos ombros dos outros,
um braço a nascer de outro braço,
uma folha sobre outra.
Vamos subir, de folha em folha,
mais alto do que vai o avião.
Lá onde os anjos jogam pedras
no cão da constelação.
Que outros usem avião a jacto
pra uma viagem em linha reta:
nós, filhos da planície abjeta,
subiremos ao céu num cacto.
Uns nos ombros dos outros,
injustiças sobre injustiças,
formaremos um verde pacto…
Vamos, todos, brincar de cacto.
Vamos, todos, brincar de cacto.
Cassiano fez parte da equipe “Invenção” grupo de vanguarda que desencadeou numa revista com o mesmo nome e foi o núcleo do movimento concreto na poesia brasileira. O grupo era constituído por Augusto de Campos, Décio Pignatari, Edgar Braga, José Lino Grunewald, Mário da Silva Brito, Mário Chamie, Ronaldo Azeredo e Pedro Xisto. Embora achasse que os poetas daquele grupo eram muito novos e por demais radicais, foi Cassiano quem proporcionou a página Invenção no Correio Paulistano.
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VOCE E O SEU RETRATO
Por que tenho saudade
de você, no retrato,
ainda que o mais recente?
E por que um simples retrato,
mais que você, me comove,
se você mesma está presente?
Talvez porque o retrato
já sem o enfeite das palavras,
tenha um ar de lembrança.
Talvez porque o retrato
já sem o enfeite das palavras,
tenha um ar de lembrança.
Talvez porque o retrato
(exato, embora malicioso)
revele algo de criança
(como, no fundo da água,
um coral em repouso)
Talvez pela idéia de ausência
que o seu retrato faz surgir
colocado entre nós-dois
(como um ramo de hortênsia)
Talvez porque o seu retrato,
embora eu me torne oblíquo,
me olha, sempre, de frente
(amorosamente)
Talvez porque o seu retrato
mais se parece com você
do que você mesma (ingrato).
Talvez porque, no retrato
você está imóvel,
(sem respiração…)
Talvez porque todo retrato
é uma retratação.
Cassiano Ricardo fez parte do Conselho Federal de Cultura, do MEC. Foi casado com Lourdes Fonseca Ricardo, jornalista e pós-graduada pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Cassiano fez parte dos movimentos estéticos e parte da política brasileira no século XX com atuação marcante em neles. Mudou de ideia, rompeu com grupos e sempre esteve perto do novo. Dizia que “situa-se o poeta numa linha geral de vanguarda, na problemática da poesia de hoje, mas as suas soluções são nitidamente pessoais”.
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DESEJO
As coisas que não conseguem morrer
Só por isso são chamadas eternas.
As estrelas, dolorosas lanternas
Que não sabem o que é deixar de ser.
Ó força incognoscível que governas
O meu querer, como o meu não-querer.
Quisera estar entre as simples luzernas
Que morrem no primeiro entardecer.
Ser deus — e não as coisas mais ditosas
Quanto mais breves, como são as rosas
É não sonhar, é nada mais obter.
Ó alegria dourada de o não ser
Entre as coisas que são, e as nebulosas,
Que não conseguiu dormir nem morrer.
Em 1972, Cassiano Ricardo recebe o Prêmio Nacional de Poesia do Instituto Nacional do Livro com seu livro Os sobreviventes, e também como lastro da grande obra poética de toda sua vida. No dia 14 de janeiro de 1974, Cassiano falece no Rio de Janeiro sendo sepultado no Mausoléu da Academia Brasileira de Letras. Ao lado de Alceu Amoroso Lima, Manuel Bandeira e Múcio Leão, levou adiante o processo de renovação da instituição (ABL), para garantir o ingresso dos verdadeiros valores.
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A MEDUSA DE FOGO
A simples bulha surda
Do meu coração batendo
Poderá te acordar.
Mesmo a penugem da lua
Que cai sobre o ombro nu
Das árvores, tão de leve,
Poderá te acordar.
A simples caída da bolha
D’água sobre a folha,
Por ser fria como a neve,
Poderá te acordar.
Só porque a rosa lembra
Um grito vermelho,
Retiro-a de diante do espelho
Porque — de tão rubra —
Poderá te acordar.
E se nasce a manhã
Calço-lhe logo pés de lã,
Porque ela, com seus pássaros,
Poderá te acordar.
Mesmo o meu maior silêncio,
O meu mudo pé-ante-pé,
De tão mudo que é,
Não irá te acordar?
Ó medusa de fogo,
Conserva-te dormida.
Com o teu fogo ruivo e meu,
Qual monstruosa ferida.
Como data esquecida.
Como aranha escondida
Num ângulo da parede.
Como rima água-marinha
Que morreu de sede.
E eu serei tão breve
Que, um dia, deixarei
Também, até de respirar,
Para não te acordar.
ó medusa de fogo,
Dormida sob a neve!
Eis que chegamos ao final de mais uma antologia. Conhecemos um pouco da obra deste importante poeta para modernismo brasileiro, com uma curiosa ligação com a extrema direita, que conseguia unir as mais diversas opiniões políticas em prol da literatura. Acadêmico, responsável pela mudança de postura da Academia com relação ao modernismo e que esteve perto, atuando, em todos os movimentos de vanguarda pelos quais o Brasil passou enquanto esteve vivo. Semana que vem entraremos num outro universo poético, outras proposições, outros poemas.
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FICARAM-ME AS PENAS
O pássaro fugiu, ficaram-me as penas
da sua asa, nas mãos encantadas.
Mas, que é a vida, afinal? Um vôo, apenas.
Uma lembrança e outros pequenos nadas.
Passou o vento mau, entre açucenas,
deixou-me só corolas arrancadas…
Despedem-se de mim glorias terrenas.
Fica-me aos pés a poeira das estradas.
A água correu veloz, fica-me a espuma.
Só o tempo não me deixa coisa alguma
até que da própria alma me despoje!
Desfolhados os últimos segredos,
quero agarrar a vida, que me foge,
vão-se-me as horas pelos vãos dos dedos.
Grandes solilóquios do teatro
Neste mês, percorreremos os grande solilóquios do teatro mundial, para serem lidos como poemas, fora do contexto da peça. Édipo Rei foi montada pela primeira vez provavelmente em 430 a.C em Atenas. É a primeira peça da chamada Trilogia Tebana (Édipo Rei, Édipo em Colono e Antígona), todas escritas pelo poeta Sófocles (496 a.C – 406 a.C). A peça gira entorno das descobertas por Édipo dos fatos terríveis que motivaram o castigo que assola Tebas – a peste. Tendo ordenado Creonte consultar ao oráculo, Édipo, descobre que houve um crime – o assassinato de Laio – então pede ao adivinho Tiresias que conte tudo que sabe sobre a morte do antigo rei, da qual Tirésias foi testemunha. Após muito insistir diante à relutância de Tirésias, Édipo descobre que fora o responsável pela morte de Laio, que o mesmo também era seu pai e que casara com sua própria mãe, Jocasta. A rainha se mata e, Édipo, embebido de culpa, cega-se como auto-punição. Este é o solilóquio onde justifica seu ato. Fala ao corifeu.
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ÉDIPO
(ÉDIPO REI)
Não tentes demonstrar que eu poderia agir
talvez de outra maneira, com maior acerto.
Não quero teus conselhos. Como encararia
meu pai no outro mundo, ou minha mãe, infeliz,
depois de contra ambos perpetrar tais crimes
que nem se me enforcassem eu os pagaria?
Teria eu algum prazer vendo o semblante
dos pobres filhos meus, nascidos como foram?
Não, certamente já não poderia vê-los,
nem a minha cidade, nem seus baluartes,
nem as imagens sacrossantas de seus deuses,
eu, o mais infeliz entre os desventurados!
Após haver vivido em Tebas a existência
mais gloriosa e bela eu mesmo me proibi
de continuar a usufruí-la ao ordenar
que todos repelissem o maldito ser,
impuro para os deuses, da raça de Laio.
Depois de ter conhecimento dessa mácula
que pesa sobre mim, eu poderia ver
meu povo sem baixar os olhos? Não! E mais:
se houvesse ainda um meio de impedir os sons
de me chegarem aos ouvidos eu teria
privado meu sofrido corpo da audição
a fim de nada mais ouvir e nada ver,
pois é um alívio ter o espírito insensível
à causa de tão grandes males, meus amigos.
pausa
Ah! Citéron! Por que tu me acolheste um dia?
Por que não me mataste? Assim eu não teria
jamais mostrado aos homens todos quem eu sou!
Ah! Pólibo! e Corinto! Ah! Palácio antigo
que já chamei de casa de meus pais! Que nódoas
maculam hoje aquele que vos parecia
outrora bom e tantos males ocultava!…
Pois hoje sou um criminoso, um ser gerado
por criminosos como todos podem ver.
Ah! Tripla encruzilhada, vales sombreados,
florestas de carvalhos, ásperos caminhos,
vós que bebestes o meu sangue, derramado
por minhas próprias mãos – o sangue de meu pai -
ainda tendes a lembrança desses crimes
com que vos conspurquei? Pois outros cometi
depois. Ah! Himeneu! Deste-me a existência
e como se isso não bastasse inda fizeste
a mesma sementeira germinar de novo!
Mostraste ao mundo um pai irmão dos próprios filhos,
filhos-irmãos do próprio pai, esposa e mãe
de um mesmo homem, as torpezas mais terríveis
que alguém consiga imaginar. Mostraste-as todas!
pausa
Mas vams logo, pois não se deve falar
no que é indecoroso de fazer. Levai-me!
Depressa, amigos! Ocultai-me sem demora
longe daqui, bem longe, não importa onde;
matai-me ou atirai-me ao mar em um lugar
onde jamais seja possível encontrar-me!
Aproximai-vos e não tenhais nojo, amigos,
de pôr as vossas mãos em mim, um miserável.
Crede-me! Nada receeis! Meu infortúnio
é tanto que somente eu, e mais ninguém,
serei capaz de suportá-lo nesta vida!
Antígona é a peça final da Trilogia Tebana e foi representada pela primeira vez em 441 a.C, em Atenas. Após a morte de Édipo em Colono (retratada em Édipo em Colono, segunda peça da trilogia), Antígona, filha de Édipo, retorna com Ismene, sua irmã, a Tebas, onde seus irmãos, Etéocles e Polinices disputavam a sucessão do pai no trono da cidade. Após um breve acordo, Etéocles não cede o lugar para Polinices que, revoltado, segue para Argos, cidade rival de Tebas. Após uma batalha entre os irmãos, ambos caem mortos. Creonte assume o poder e proíbe o sepultamento de Polinices. Antígona, revoltada, desrespeita a ordem de Creonte e concede o sepultamento alegando que seus direitos eram mais válidos. A maior parte da peça trata dessa medida. Este é o discurso de Antígona antes de ser levada pelos guardas de Creonte como punição de seus atos.
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ANTÍGONA
(Antígona de Sófocles)
Túmulo, alcova nupcial, prisão eterna,
cova profunda para a qual estou seguindo,
em direção aos meus que a morte muitas vezes
já acolheu entre os finados! Eu, a última
e sem comparação a mais desventurada,
vou para lá, antes de haver chegado ao termo
de minha vida! Mas uma esperança eu tenho:
meu pai há de gostar de ver-me, e tu também
gostarás muito, minha mãe, e gostarás
também, irmão querido, pois quando morreste
lavei-te e te vesti com minhas próprias mãos
e sobre tua sepultura eu espargi
as santas libações. E agora, Polinices,
somente por querer cuidar de teu cadáver
dão-me esta recompensa! Mas na opinião
da gente de bom senso todo o meu cuidado
foi justo. Sim! Se houvera sido mãe de filhos,
ou se o esposo morto apodrecesse exposto,
jamais enfrentaria eu tamanhas penas
tendo de opor-me a todos os concidadãos!
Que leis me fazem pronunciar estas palavras?
Fosse eu casada e meu esposo falecesse,
bem poderia encontrar outro, e de outro esposo
teria um filho se antes eu perdesse algum;
mas, morta minha mãe, morto meu pai, jamais
outro irmão meu viria ao mundo. Obedeci
a essas leis quando te honrei mais que a ninguém.
Creonte acha, porém, que errei, que fui rebelde,
irmão querido! Assim ele me leva agora,
cativa em suas mãos; um leito nupcial
jamais terei, nem ouvirei hinos de bodas,
nem sentirei as alegrias conjugais,
nem filhos amamentarei; hoje, sozinha,
sem um amigo, parto – ai! infeliz de mim! -
ainda viva para onde os mortos moram!
Que mandamentos transgredi das divindades?
De que me valerá – pobre de mim! – erguer
ainda os olhos para os deuses? Que aliado
ainda invocarei se, por ser piedosa,
acusam-me de impiedade? Se isso agrada
aos deuses me conformo, embora sofra muito,
com minha culpa, mas se os outros são culpados,
que provem penas pelo menos tão pesadas
quanto as que injustamente me impuseram hoje!
Eurípides nasceu em Salamina (ilha situada nas proximidades de Atenas) provavelmente em 485 a.C e morreu em 406 a.C. Escreveu no mínimo 74 peças, destas, 19 chegaram a nós. Medéia foi apresentada provavelmente em 431 a.C em Atenas. A peça gira entorno dos acontecimentos finais de um mito grego muito conhecido: Jasón e os Argonautas. Após o grande êxito na expedição do Argonautas, Jasón retorna a cidade de Iolco também com Medéia, filha do rei Aietes e neta do Sol, com quem se casaria. Após negar a Pelias (o usurpador da coroa de Iolco) o mesmo remédio da juventude que dera a Áison, pai de Jasón, e tê-lo dado uma poção que o mataria, o casal, Jáson e Medéia, foge para Corinto. Após dez anos de união perfeita, Jáson se apaixona por Glauce, filha de Creonte, e repudia Medéia para casar-se com ela. Resultado: Além da traição, Medéia é expulsa de Corinto junto com os filhos. Medéia resolve fazer de tudo para causar sofrimento em Jáson, e, com isso, mata seus filhos. Este é o solilóquio onde Medéia decide matar seus filhos:
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MEDÉIA
(MEDÉIA DE EURÍPIDES)
Dirigindo-se ao Corifeu
Agora vou contar-te todos os meus planos
(minhas palavras não serão para agradar).
Enviarei a Jáson um de seus criados
para pedir-lhe que venha encontrar-me aqui.
Quando chegar, falar-lhe-ei suavemente;
direi que suas decisões são acertadas
e concordo com elas; ele me abandona
para casar-se com a filha do rei; faz bem,
pois isso corresponde aos interesses dele.
Mas pedirei que deixe meus filhos aqui,
não que eu queira largá-los numa terra hostil
nem os expor à sanha de quem os odeia,
mas afim de aprontar para a filha do rei,
por intermédio deles, a armadilha atroz
em que ela morrerá levando o pai à morte.
Mandá-los-ei a ela com presentes meus
para a nova mulher, a fim de que ela evite
o exílio deles: um véu dos mais finos fios
e um diadema de ouro. Se ela receber
os ornamentos e com eles enfeitar-se,
perecerá em meio às dores mais cruéis
e quem mais a tocar há de morrer com ela,
tão forte é o veneno posto nos presentes.
com uma expressão de horror
Mas mudo aqui meu modo de falar, pois tremo
só de pensar em algo que farei depois;
devo matar minhas crianças e ninguém
pode livrá-los desse fim. E quando houver
aniquilado aqui os dois filhos de Jáson,
irei embora, fugirei, eu, assassina
de meus muitos queridos filhos, sob o peso
do mais cruel dos feitos. Não permitirei,
amigas, que riam de mim os inimigos!
Terá de ser assim. De que vale viver?
Já não existem pátria para mim, meu lar,
nenhum refúgio nesta minha desventura.
Fui insensata quando outrora abandonei
o lar paterno, seduzida pela fala
desse grego que, se me ajudarem os deuses,
me pagará justa reparação em breve.
Jamais voltará ele a ver vivos os filhos
que me fez conceber, e nunca terá outros
de sua nova esposa que – ah! miserável! -
deverá perecer indescritivelmente
graças aos meus venenos! Que ninguém me julgue
covarde, débil, indecisa, mas perceba
que pode haver diversidade no caráter:
terrível para os inimigos e benévola
para os amigos. Isso dá mais glória à vida.
O enredo de Ifigênia em Áulis faz parte do chamado Ciclo Troiano, e foi representada pela primeira vez após a morte de Eurípides, provavelmente, em 405 a.C. A peça se passa em frente a tenda de Agamêmnon, no acampamento dos gregos em Áulis. O exército está pronto para partir para Tróia, porém, imóvel diante uma calmaria. Calcas, o adivinho, profetiza que, para os gregos poderem partir, Ifigênia, uma das filhas de Agamêmnon, rei e comandante do exército, precisaria ser sacrificada à deusa Ártemis. O rei então envia uma mensagem à sua mulher, Clitemnestra, para trazer Áulis ao acampamento, sob o pretexto de casá-la com Aquiles. Segredo revelado, Clitemnestra e Ifigênia imploram em vão. Po sua vez, Ifigênia, declara que está disposta a morrer pela Grécia. Após ser levada para o sacrifício, o Mensageiro, conta que no momento da morte, Ifigênia desaparece milagrosamente, surgindo no lugar dela uma corça enviada por Ártemis. Este é o solilóquio onde Ifigênia decide morrer.
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IFIGENIA
(Ifigênia em Áulis de Eurípides)
fala a Aquiles e Clitemnestra
Ah! Minha mãe e tu! Agora vou falar.
Vejo-te, mãe, inutilmente revoltada
contra teu esposo insensível. Não é fácil
ser persistente contra um fato inelutável.
É justo que sejamos gratas a Aquiles
por seu esforço, mas é hora de pensar
que não devemos atrair acusações
do exército contra ti mesma sem vantagens
para nós duas; além disso ainda expomos
nosso aliado e defensor a infortúnios.
Escuta agora, minha mãe, o pensamento
que ora me ocorre ao refletir sobre estes fatos.
Tomei neste momento a decisão final
de me entregar à morte, mas o meu desejo
é enfrentá-la gloriosa e nobremente,
sem qualquer manifestação de covardia.
Pondera, então, comigo, minha mãe querida,
na fama que me há de trazer esta atitude.
A Grécia inteira, nossa generosa pátria,
dirige neste instante os olhos para mim;
dependem só de mim a viagem da frota
e a extinção de Tróia, e de mim depende
eliminar de vez a possibilidade
de os bárbaros tentarem novas agressões
contra as mulheres gregas e futuros raptos
em nossa terra amada, depois de expiarem
a vergonha de Helena levada por Páris.
O fruto de meu sacrifício será este:
propiciando uma vitória à nossa pátria
conquistarei para mim mesma eterna fama.
E mais ainda, não é justo que me apegue
demasiadamente à vida, minha mãe;
deste-me à luz um dia para toda a Grécia,
e não somente para ti. Pensa comigo:
muitos milhares de soldados protegidos
por seus escudos, outros, também numerosos,
empunhando seus remos, terão de arriscar-se
a lutar e morrer pela terra natal
porque ela foi insultada, e minha vida,
a existência de uma única mulher,
poderá ser um óbice a tanto heroísmo?
Isto seria justo? De que subterfúgios
nos valeríamos? Perguntarei ainda:
este guerreiro – Aquiles – terá de lutar
contra o exército dos gregos e arriscar-se
por uma só mulher – por mim -, pois a existência
de um homem só tem certamente mais valor
que a de muitas mulheres juntas?. E se Ártemis
quer receber meu corpo em santo sacrifício,
resistirei à deusa, eu, simples mortal?
De modo algum! Darei a minha vida à Grécia!
Matem-me para que desapareça Tróia!
Meu sacrifício me trará renome eterno
como se fosse minhas núpcias e meus filhos
e minha glória! Os gregos mandarão
nos bárbaros, e não os bárbaros nos gregos,
já que eles todos são de uma raça de escravos
enquanto nós nos orgulhamos de ser livres!
As Bacantes é um peça em louvor ao deus Dioniso. Foi uma das tragédias preferidas pelos espectadores gregos, tendo sido representada até o século IV a.C. A cena se passa diante o palácio de Tebas, onde Dioniso, disfarçado de profeta, traz sua religião para a Grécia. Sua intenção é punir Agave e Autônoe, irmãs de sua mãe Sêmele, por terem dito que esta se unira a um mortal, e não a Zeus, e eliminar o jovem Penteu, rei de Tebas e filho de Agave. As servas de Dioniso, As Bacantes, estão no alto do monte Citéron, para onde se dirigem o Coro de devotas frígias, Tirésias, o adivinho, e Cadmo, pai de Agave. Penteu os censura, As Bacantes fazem um apelo a Dioniso, que é prontamente acorrentado por ordem de Penteu. Dioniso se revolta, provoca incêndios e terremotos no palácio. Penteu fica enfurecido, mas encontra um pastor de bois, que lhe conta das celebrações das Bacantes no monte Citéron e o convence a se vestir de mulher e ir conferir os ritos. Penteu, já confuso, sobe o monte. Depois, um mensageiro conta como Penteu lá foi esquartejado e degolado por sua própria mãe Agave, todos inebriados. Esta é a fala do Coro quando Dioniso convence Penteu a se vestir de mulher e ir para a celebração.
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CORO
(AS BACANTES DE EURÍPIDES)
Vamos enfim juntar nosso pés nus
aos cortejos noturno de Dioniso,
lançando para trás nossas cabeças
no ar umedecido pelo orvalho,
como corças saltando satisfeitas
nos verdes prados depois escaparem
das redes escondidas nas veredas.
Mas de repente o caçador incita
com gritos a corrida de seus cães;
mais rápidas que as tempestades súbitas
elas saltam ao longo dos riachos
pelas campinas, procurando, aflitas,
bem longe dos homens desnaturados
a paz e a sombra da floresta escura.
Que é ciência, que é glória máxima,
presentes dos bons deuses, senão ter
nas mãos vitoriosas o inimigo?
O que é bom é sempre desejável.
Move-se lentamente a onipotência
das divindades, mas é infalível.
Elas dão o castigo às criaturas
condescendentes com a iniquidade
e cuja mente devotada ao mal
tira dos deuses justas homenagens.
Graças a mil ardis elas ignoram
o perpassar do tempo e implacáveis
seguem até o fim as suas presas.
Mas nada nós devemos conceber,
nada devemos praticar na vida,
que esteja acima das divinas leis.
Não é difícil realmente crer
na onipotência de um poder supremo,
seja qual for a verdadeira origem
das divindades que desde os primórdios
e ao longo dos tempos imemoráveis
têm a força de lei entre os mortais,
pois vem da natureza sua origem.
Que é ciência, que é glória máxima,
presentes dos bons deuses, senão ter
nas mãos vitoriosas o inimigo?
O que é bom é sempre desejável
Feliz é quem pode escapar à morte
em pleno mar e chega vivo ao porto!
Feliz é quem consegue superar
as provocações ao longo desta vida!
Alguns seres humanos vencem outros
em ventura e poder. São incontáveis
os míseros mortais, e incontáveis
as esperanças que eles acalentam.
Alguns chegam sem dúvida à riqueza,
mas para a maioria nada resta!
Consideramos bem-aventuradas
as criaturas que sabem gozar
toda a satisfação de cada dia!
Ésquilo é o mais antigo dos três grandes poetas trágicos gregos. Nasceu em Elêusis, em 525 a.C, combateu nas batalhas de Salamina e Maratona contra os invasores persas e morreu no ano de 456 a.C. Prometeu Acorrentado foi apresentada aproximadamente em 458 a.C. Trata do mito grego de Prometeu. Prometeu está acorrentado num rochedo da região da Cítia, vítima da ira de Hefesto (o deus do fogo). Prometeu havia se rebelado contra a vontade divina com o intuito de ajudar a humanidade primitiva. Prometeu se revolta diante do céu, do mar e da terra. Aparecem as Oceanides, ninfas do mar, para quem Prometeu revela que, por amor às criaturas humanas, deu-lhes o fogo por ele roubado no céu permitindo o início da civilização. Oceano chega, mas Prometeu se recusa a ser libertado. Aparece Io, a quem Prometeu revela uma profecia na qual um filho de Zeus o destronaria, seria Épafo. Hermes entra em cena no afã de saber mais sobre essa profecia. Por ter sido tratado desdenhosamente por Prometeu, Hermes anuncia que uma águia devoraria seu fígado todos os dias até que recompusesse. Ocorre um cataclismo e Prometeu desaparece junto com as Oceanides. Este é o solilóquio em que Prometeu revela seus bens feitos à humanidade.
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PROMETEU
(PROMETEU ACORRENTADO DE ÉSQUILO)
depois de longo silêncio
Não se deve conjeturar que meu silêncio
decorre da arrogância ou de maus sentimentos;
mas uma ideia me atravessa o coração
quando sou ultrajado de maneira ignóbil:
quem concedeu, então, a esses deuses novos
todos os privilégios recém-outorgados?
Calo-me quanto a isto, porém já sabeis
o que eu poderia dizer-vos novamente.
Falar-vos-ei agora das misérias todas
dos sofridos mortais e em que circunstâncias
fiz das crianças que eles eram seres lúcidos,
dotados de razão, capazes de pensar.
Farei o meu relato, não para humilhar
os seres indefesos chamados humanos,
mas para vos mostrar a bondade infinita
de que são testemunhas numerosas dádivas.
Em seus primórdios tinham olhos mas não escutavam,
e como imagens dessas que vemos em sonhos
viviam ao acaso em plena confusão.
Eles desconheciam as casas benfeitas
com tijolos endurecidos pelo sol,
e não tinham noção do uso da madeira;
como formigas ágeis levavam a vida
no fundo de cavernas onde a luz do sol
jamais chegava, e não faziam distinção
entre o inverno e a primavera
e o verão fértil; não usavam a razão
em circunstância alguma até há pouco tempo,
quando lhes ensinei a básica ciência
da elevação e do crepúsculo dos astros.
Depois chegou a vez da ciência dos números,
de todas a mais importante, que criei
para seu benefício, e continuando,
a da reunião das letras, a memória
de todos os conhecimentos nesta vida,
labor do qual decorrem as diversas artes.
Fui também o primeiro a subjugar um dia
as bestas dóceis aos arreios e aos senhores,
para livrar os homens dos trabalhos árduos;
em seguida atrelei aos carros os cavalos
submissos desde então às rédeas, ornamento
da opulência. Eu mesmo, e mais ninguém,
inventei os veículos de asas de pano
que permitem aos nautas percorrer os mares.
Eo infeliz autor de tantas descobertas
para os frágeis mortais não conhece um segredo
capaz de livrá-lo da desgraça presente!
Voltando a Sófocles. Electra foi apresentada pela primeira vez por volta de 413 a.C. Há uma duvida histórica com relação a qual Electra foi montada primeiro, a de Sófocles ou a de Eurípides. A peça é sobre vingança. Agamêmnon, rei do argivos, retorna de Tróia para Micenas, capital de seu reino, onde Clitemnestra, sua esposa, tomara-se de amores pelo usurpador Egisto, primo de Agamêmnon. O rei é morto por Clitemnestra com um “cutelo todo de bronze” com a ajuda de Egisto, sob o pretexto de que Agamêmnon matara uma de suas filhas, Ifigênia, antes de partir para Tróia. O casal tinha mais três filhas – Ifiânassa, Crisôtemis e Electra – e um filho, Orestes. Electra consegue salvar Orestes, ainda com dez anos, e o envia a Fócida. Orestes retorna, anos depois, e junto com Electra, vingam a morte do pai, matando sua mãe. Este é o solilóquio onde Electra combina a morte de sua mãe com o irmão, Orestes.
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ELECTRA
(ELECTRA DE SÓFOCLES)
Tudo se passará como mandaste, irmão,
o meu contentamento é teu, não me pertence;
nem o maior dos bens seria desejável
à custa do menor transtorno para ti;
não fosse assim, eu estaria sendo ingrata
aos deuses poderosos, nossos protetores.
Já sabes como vão as coisas por aqui?
Egisto se ausentou, mas volta ainda hoje,
e nossa mãe está lá dentro, mas não temas
que em hora alguma eu lhe apareça inalterado.
Apresentar-me-ei com lágrimas nos olhos
porque também se chora de alegria, Orestes.
Parece-te excessivo o meu contentamento?
Não devo estar alegre se num mesmo dia
primeiro regressaste morto e depois vivo?
Tanta perplexidade tudo isto causa
que eu eu visse voltar meu pai, ressuscitado,
não descreveria nem assim de meus sentidos;
a tua vinda não foi menos milagrosa.
Dispõe de mim; ordena e obedecerei.
Ainda que faltasses eu já decidira:
matá-los-ia, mesmo só, ou morreria!
A montagem de Ájax tem data incerta, mas é provavelmente anterior a 441a.C, quando foi encenada a Antígona. É a peça da vaidade ferida. Decorre em frente à tenda de Ájax, no acampamento dos gregos próximo a Tróia. Revoltado com a resolução dos chefes gregos de entregar as armas de Aquiles, recém-morto por Páris a Odisseu, preterindo-o, Ájax toma a decisão de matar Agamêmnon e Menelau seu irmão. Atena priva-o da razão e ele, enfurecido, mata os animais dos rebanhos conquistados pelos gregos pensando estar matando os dois. Recuperando a lucidez, Ájax percebe que está perdido e resolve se matar. Após isso, Teucro, seu meio-irmão, aparece e decide desobedecer às ordens de Menelau e de Agamêmnon de deixá-lo insepulto. Até que Odisseu aparece e os convence do contrário. Sófocles foi muito criticado por não ter acabado a peça logo após a morte de Ájax. Este é o famoso solilóquio de Ájax antes de se matar.
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ÁJAX
(ÁJAX DE SÓFOCLES)
Está firme a espada para o sacrifício,
pronta a varar meu corpo da melhor maneira,
se ainda posso demorar-me em falatórios.
Ela foi o presente de um anfitrião
abominado por minha alma e por meus olhos,
e agora está fixada no solo inimigo
de Tróia detestada, depois afiada
na pedra que desgasta o ferro, e bem plantada
com o maior desvelo para me trazer,
como um grande favor, a morte imediata.
Já estou pronto. Agora, Zeus, és o primeiro,
como convém, a quem devo implorar ajuda.
Não pretendo pedir-te um favor muito grande.
Concede-me somente a graça de mandar
um mensageiro a Teucro dando-lhe a notícia,
para que ele seja o primeiro a levantar
meu corpo traspassado pela espada férrea
molhada com meu sangue quente. Não desejo
que ele, encontrado antes meu inimigos,
seja pasto de cães e de aves carniceiras.
Eis tudo que espero de ti agora, Zeus.
Invoco depois dele Hermes Infernal,
guia dos mortos. Peço-lhe que me entorpeça
suavemente, e que num salto ao mesmo tempo
fácil e rápido eu consiga atravessar
a longa espada no meu corpo. Ainda invoco
as virgens inflexíveis, divinas Erínias
de calcanhares rápidos, que sempre observam
os males praticados pelos homens maus.
Fiquem elas sabendo como vou morrer
- pobre de mim! – por causa dos filhos de Atreu
e os faça perecerem miseravelmente
- ah, miseráveis! -; e da mesma forma que elas
verão meu próprio sangue derramado aqui,
eles pereçam sob os golpes de parentes
depois de derramarem por seu turno o sangue!
Avante, Erínias, vingadoras expeditas!
Participai deste banquete e não poupeis
nenhum dos súditos dos dois chefes argivos!
E tu, sol cintilante que guias teu carro
pelas alturas do insondável firmamento,
quando vires a terra de meus ancestrais
retrai as rédeas recobertas de ouro puro
para comunicar a minha desventura
e meu fim melancólico a meu velho pai
e a minha mãe – coitada! E quando a infeliz
receber a notícia, logo sairão
de sua boca soluços intermináveis
que repercutirão pela cidade inteira.
Mas, de que serve lamentar-me inutilmente?
Devo entregar-me por inteiro à minha obra,
e com máxima preteza! Ah! Morte! Ah! Morte!
Chegou a hora! Vem! Olha bem para mim!
No outro mundo ainda falarei contigo,
pois estarás perto de mim a todo instante.
Tu, ao contrário, claridade deste dia,
e tu, sol em teu carro! Desejo saudar-vos
pela última vez! Nunca mais vos verei!
Luz e solo sagrados da terra natal!
Ah! Salamina, que sempre serves de assento
à lareira da casa dos antepassados!
Atenas muito ilustre com teu povo irmão!
E vós, fontes e rios que meus olhos viram
nestas planícies troianas, agradeço-vos!
Adeus, vós todos que me haveis dessedentado!
Dirijo-vos as minhas últimas palavras.
A partir deste instante falarei apenas
com os habitantes das profundezas do inferno!
De modo geral, as tragédias conservadas têm um final infeliz. Não é o caso de Alceste, de Eurípides. A tragédia se aproxima dos dramas satíricos, e fora apresentada num tetralogia após três tragédias propriamente ditas. A peça transcorre diante do palácio de Ádmeto, rei da Tessália. O deus Apolo conta como conseguiu convencer as Parcas a permitirem que Ádmeto se livrasse da morte desde que alguém fosse sacrificado em seu lugar. O velhos pais do rei se recusaram a salvar o filho, somente sua mulher, Alceste, prontificou-se para tal. Apolo suplica, em vão, à Morte (Thânatos) pela vida da rainha. Após despedir-se dos cidadãos, Alceste está pronta para morrer, quando aparece o deus Heraclés, a quem Ádmeto pede que seja seu hóspede, sem dizer nada sobre o que haverá. Após impedir seu próprio filho, Feres, de tentar salvar sua mãe, Ádmeto revela a Heraclés o que está acontecendo. Um pouco mais sóbrio que antes, Heraclés decide salvar a rainha. Entra no castelo e sai com uma mulher nos braços, dizendo ter sido conquistada por ele como prêmio numa competição atlética, era Alceste coberta por um véu. Alceste não morre e tudo fica bem. Este é belo e divertido solilóquio do deus Heraclés, após as reclamação de um servo por estar bebendo e comendo muito.
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HERACLÉS
(ALCESTE DE EURÍPIDES)
fala ao servo
Que significa, servo, o teu olhar tristonho
e inquieto? Os serviçais devem cuidar
de não mostrar o rosto contrafeito aos hóspedes;
cumpre-lhe recebê-los em qualquer hipótese
com o coração afável. Tu, que vês aqui
um doa amigos de teu rei, estás expondo-lhe
as feições contraídas, a testa enrugada:
por que observas este luto rigoroso?
Vem até mim; vou ensinar-te a ser sensato.
Conheces bem a natureza dos mortais?
Não creio; onde saberias? Então ouve-me.
Sem excessão, todos morreremos um dia,
e nenhum de nós sabe se amanhã bem cedo
estará vivo. Ninguém é capaz de ver
para onde nos levam os passos da sorte;
não há maneira alguma, servo, de sabermos,
e nenhuma ciência jamais nos dirá.
Já que é assim, esclarecido finalmente
por minha boca, vê se te manténs alegre;
ciente de que só és dono incontestável
do momento presente e o resto é do destino,
bebe! Cultua a divindade que é sem dúvida
a maior fonte de prazer para os mortais
- Cípris, a bela deusa que só nos quer bem.
Deixa de lado todos os outros cuidados
e crê nestas palavras se as achaste certas
(suponho que elas são). Não estás decidido
a expulsar de ti essa tristeza toda
para beber comigo, demonstrando assim
que és superior a quaisquer contratempos?
Vamos! Adorna de guirlandas a cabeça!
Tenho certeza de que o bailado das taças
afastará de ti esta disposição
tensa e desagradável e a compelirá
a procurar abrigo em outro ancoradouro.
Somos todos mortais e nossa obrigação
é ter apenas sentimentos de mortais,
já que as pessoas de temperamento amargo,
embora sejam muitas, só vivem catástrofes,
com o cenho permanentemente contraído,
em vez de viverem de fato suas vidas.
Fechando o ciclo de tragédias gregas. Eurípides foi chamado por Aristóteles como “o mais trágico dos trágicos”. Considerada por alguns como a mais dolorosa, foi representada provavelmente em 423 a.C, em Atenas. Após a queda de Tróia, as troianas foram entregues como escravas. Os gregos ansiavam partir de volta, mas havia uma grande calmaria que deixava as naus retidas. O fantasma de Aquiles surge e diz que Polixena, filha de Príamo e Hécuba, rei e rainha de Tróia, fosse sacrificada para que houvesse vento. Hécuba suplica, em vão, e Polixena segue para a morte. Enquanto Hécuba cuidava de um dos funerais, o cadáver de seu filho mais novo, Polidoro, é levado até ela. O jovem havia sido morto por Pólimestor, rei do Quersoneso Trácio, com o intuito de apoderar-se dos tesouros e jogou o cadáver ao mar. Hécuba revolta-se e apela a Agamêmnon por vingança, que reluta. Hécuba então vinga-se com a próprias mãos. Atrai Poliméstor e seus filhos para um tenda onde ela e suas companheiras matam o filhos e cegam Poliméstor. Este é o solilóquio de Hécuba após ter se vingado. Fala a Agamêmnon.
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HÉCUBA
(HÉCUBA DE EURÍPIDES)
Entre as criaturas humanas, Agamêmnon,
as palavras jamais devem prevalecer
sobre as ações. Quando se age retamente,
deve-se falar bem, e quando alguém faz mal,
suas palavras nos parecem vãs e ocas.
Nunca, jamais a injustiça possa ter
uma linguagem agradável aos ouvidos!
Os inventores de discursos refinados
são realmente hábeis, mas não podem ter
invariavelmente a mesma habilidade;
seu fim é inditoso e ninguém até hoje
se livrou dele. Quanto a ti, eis meu preâmbulo.
apontando para Poliméstor
Agora quero responder a este homem.
Afirmas que mataste meu querido filho
para poupar os gregos de uma dupla pena
e para prestar um serviço a Agamêmnon.
Devo dizer de início que jamais os bárbaros
serão amigos dos aqueus – muito ao contrário.
Qual o motivo de teu zelo, Poliméstor?
Seria o desejo de algum casamento?
Seriam os laços de sangue ou, porventura,
outras razões? Iriam eles devastar
as terras cultivadas de teu território
antes de retornar ao mar com suas naus?
Pensas que alguém aceitaria tais desculpas?
Se quisesse dizer apenas a verdade,
o ouro e tua cupidez foram as causas
da morte de meu filho. Dize-me, afinal:
quando existia Tróia e sua muralhas
ainda a protegiam, quando o velho Príamo
inda vivia e as armas de Heitor brilhavam,
por que, então – se querias ser agradável
a Agamêmnon – não mataste meu menino
deixado a teus cuidados e sod o teu teto,
ou por que não o entregaste vivo aos gregos?
Mas não! Foi só após deixarmos de existir,
depois do anúncio de que Tróia estava em chamas
aniquilada pelos nosso inimigos
que assassinaste o hóspede em teu próprio lar!
E isto não é tudo. Escuta, celerado,
na hora de mostrar teu péssimo caráter:
se eras realmente amigo dos aqueus,
estavas obrigado, quanto a este ouro
que pertencia a Polidoro e não a ti
de acordo com a tua própria confissão,
a entregá-lo aos gregos, tão necessitados
e há tanto tempo afastados de sua pátria.
Mas, mesmo neste instante falta-te coragem
para afastar as tuas mãos do ouro alheio
e insistes em guardá-lo ainda no palácio.
De fato, é no infortúnio que se vê melhor
a amizade das pessoas generosas;
quando somos felizes não faltam amigos.
Se meu filho vivesse e fosse venturoso,
e se passasses por alguma provação,
ele te ajudaria com o seu tesouro.
Agora, que teu crime te privou do amigo,
o ouro não te ajudará de forma alguma;
teus filhos foram-se e tu mesmo estás assim.
voltando-se para Agamêmnon
Digo-te, rei: se resolveres apoiá-lo,
serás considerado um homem de má índole;
terás favorecido um homem sem caráter,
impiedoso, infiel a seus deveres
de anfitrião, indiferente às divindades
a à justiça humana. Até pensaremos
que dás valor aos maus por seres como eles.
Mas não pretendo injuriar-te, meu senhor.
Lúcio Aneu Sêneca nasceu em Córdova, atual Espanha, no ano 4 a.C. Sua vida estendeu-se ao longo dos principados de Augusto, Tibério, Calígula, Cláudio e Nero. Anos após ter sido exilado por Cláudio, envolveu-se com opositores ao regime e, condenado por Nero, suicidou-se, em Roma, no dia 19 de abril de 65 d.C. O escasso teatro romano o tem como um dos grandes trágicos. Fedra enfoca o mito de uma filha de Minos e Pasífae, casada com Teseu, herói da Ática que venceu Minotauro e libertou Atenas do tributo anual devido a Creta. Teseu é dado como desaparecido e, Fedra, se apaixona por Hipólito, seu enteado. O rapaz, que havia dedicado sua vida e jurado castidade à Diana, recusa as propostas da madrasta. Ela, furiosa, acusa-o de tê-la violado. Teseu, de volta à cidade, pede a Posêidon que mate o filho quando ele, após uma queda com sua biga, é pisoteado pelo cavalos. Este é o solilóquio onde Fedra se mata ao ver o corpo de Hipólito completamente despedaçado.
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FEDRA
(FEDRA DE Sêneca)
De mim, de mim te apodera, cruel senhor do profundo
pélago, e contra mim lança os monstros do mar cerúleo,
o que quer que a longínqua Tétis no imo seio traga,
o que quer que, abraçado pelas vagas errantes,
o Oceano recubra com as suas mais remotas ondas.
Ó Teseu, severo sempre, ó tu que nunca volta aos teus
sem receio: filho e pai com a morte expiaram os teus
retornos; a tua casa pervertes, sempre nocivo
às esposas, por amor ou por ódio.
Hipólito, teu rosto é esse que vejo, e causei isso?
Que cruel Sínis ou que Procrustes te espedaçou os
membros, ou que criatura de Creta, enchendo os claustros
de Dédalo com fortes mugidos, Touro biforme, feroz,
de fronte cornígera, te dilacerou?
Ai de mim, para onde fugiu a tua beleza e os teus olhos,
nossas estrelas? Tu jazes sem vida?
Aproxima-te um instante e ouve as minhas palavras:
nada de torpe falamos: com esta mão pagarei a ti
as minhas dívidas e cravarei neste peito nefando a espada,
despojarei Fedra igualmente da vida e do crime, e pelas
ondas e pelos lagos do Tártaro, pelo Estige e pelos rios
de fogo, insana, seguir-te-ei.
Aplaquemos os manes: da minha cabeça toma os despojos
e aceita a madeixa que corto da fronte mutilada.
Não se puderam unir os corações, mas decerto podem
unir-se os destinos. Se és casta, morre pelo marido;
se incestuosa, pelo amor. Buscarei o leito do cônjuge,
manchado por tamanho crime? Faltava-te este sacrilégio,
para que, como se pura, fruísses do tálamo reclamado.
Ó morte, único alívio do amor malévolo,
ó morte, máxima honra do pudor ferido, recorremos a ti.
Abre o teu seio sereno.
Ouve, Atenas, e tu, um pai pior do que a funesta madrasta:
falsas coisas relatei e, mentindo, forjei o sacrilégio que eu mesma,
demente, concebera no coração insano. Puniste em vão, pai,
e o jovem casto, por uma acusação incestuosa, jaz, puro,
inocente: recebe de volta os teus costumes.
Meu peito ímpio se abre à lâmina justa, e o meu sangue
cumpre o sacrifício do homem virtuoso.
O que devas fazer, pai, tendo um filho arrebatado, aprende-o
com a madrasta: sepulta-te nas plagas do Aqueronte.
Teatro Elizabetano. Christopher Marlowe nasceu provavelmente em 1564 e morreu prematuramente em uma briga de taverna em 1593. Foi contemporâneo de Shakespeare, tendo conseguido reconhecimento antes dele. Consta que introduziu o verso branco (com métrica, sem rimas) na linguagem teatral. A Trágica História do Doutor Fausto é uma de suas obras mais conhecidas e influenciou a muitos posteriormente (Goethe, por exemplo). Foi escrita provavelmente em 1580, e publicada postumamente. Trata-se da história do estudioso alemão Fausto, que vende sua alma para o demônio, representado na figura de Mefistófeles, em troca de mais conhecimento, poder e extravasar os limites humanos. Uma curiosidade da peça: Além de Mefistófeles, há também Lúcifer e Belzebu. Este é o famoso solilóquio de Fausto, momentos antes de levado para o inferno pelos demônios.
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FAUSTO
(A TRÁGICA HISTÓRIA DO DOUTOR FAUSTO DE CHRISTOPHER MARLOWE)
Ah, Fausto, você tem menos de uma hora de vida agora, e, depois, será
a condenação eterna. Ah, esferas celestes em eterno movimento, detenham-se!
Que o tempo cesse de correr e a meia-noite jamais chegue. Olhos brilhantes da
natureza, ergam-se! Ergam-se novamente e façam de hoje um dia perpétuo.
Ou permitam que esta hora seja um ano, um mês, uma semana, um dia.
Que Fausto possa ainda se arrepender e salvar a sua alma.
Oh, cavalos da noite, diminuam sua marcha, vão devagar!
Mas as estrelas continuam se movendo, o tempo corre, o relógio logo baterá
outra vez, o demônio chegará… e Fausto está condenado. Mas não, vou me
atirar nos braços de Deus! Quem está me retendo? Vejam, vejam, se o sangue
de Cristo fosse um filete percorrendo o firmamento, bastaria uma gota dele para
me salvar. Oh, meu Jesus! Ah! Não rasgue meu coração por mencionar o nome
de meu Salvador! E mesmo assim chamarei por Ele. Ó Lúcifer, me poupe!
Onde ele está, agora? Desapareceu! E veja o ponto onde Deus me estende Seu
braço, me apontando, e franze Seu cenho, irado. Montanhas, colinas, venham,
caiam sobre mim e me ocultem da pesada fúria de Deus. Não? Não? Então, eu
me precipitarei nas entranhas da terra. Terra, abra-se! Ah, não, a terra não vai me
dar abrigo. Vocês, estrelas, que reinaram sobre o meu nascimento, cuja influência
determinou a morte e o inferno, agora envolvam Fausto numa névoa mística, nas
reentrâncias de nuvens de magníficas tempestades, de modo que, quando
vomitarem sua raiva no ar, meus membros possam ser projetados de suas bocas
fumarentas e minha alma, então, possa ascender aos céus. [Bate o relógio]
Ah, passou-se meia hora. Logo tudo estará terminado! Oh, Deus, onde está a Vossa
misericórdia? Não é ela infinita? Então, se não é Seu desejo ter piedade de minha alma,
ainda assim, em nome de Cristo, cujo sangue resgatou meus pecados, pelo menos
imponha um fim ao meu tormento infernal. Que Fausto padeça por mil anos, por cem
mil anos, para, a seguir, ser salvo. Ah, não! Não há um fim para os tormentos de uma
alma condenada. Ah, por que não sou uma criatura sem alma? Que imortalidade é essa
que me foi dada? Se a Metempsicose de Pitágoras fosse verdadeira, essa alma sairia
de mim, voaria para o ar e se transformaria em alguma besta brutal. Todas as bestas
são felizes porque, quando morrem, suas almas se dissolvem entre os elementos,
mas a minha deve viver para sempre, sofrendo, no inferno. Malditos sejam os pais
que me geraram! Não, Fausto, amaldiçoe a você mesmo. Amaldiçoe Lúcifer, que
o privou das alegrias do Paraíso. [O relógio bate meia-noite] Ah, o relógio bateu.
Agora, corpo, torne-se ar, ou Lúcifer, depressa, o arrebatará para o inferno.
[Relâmpagos, trovões] Ó alma, torne-se pequenas gotas de água e derrame-se
no oceano para jamais ser encontrada! Meu Deus! Meu Deus! Não olhe para mim
com essa raiva toda! [Entram Belzebu, Mefistófeles e outros demônios] Víboras,
serpentes, deixem-me respirar por mais um instante! Tenebroso inferno, não se abra!
Não venha, Lúcifer! Vou queimar meus livros, todos eles, prometo! Mefistófeles!
William Shakespeare nasceu em Stratford-upon-Avon em 23 de abril de 1564 e morreu no mesmo lugar em 23 de abril de 1616. Percorreremos em pouco mais de duas semanas alguns célebres solilóquios de suas peças com a difícil tarefa de resumi-las em poucas linhas. Romeu e Julieta, se não a mais montada, é, com certeza, a peça mais amada da história. O primeiro registro do texto é de 1597, de um ou dois autores que o tinham reconstituído de memória. O definitivo aparece em 1599 já com as características do nosso querido bardo. A peça se passa e Verona, onde, duas famílias, Capuletos e Montéquios sustentam um ódio mútuo. Há uma festa na casa dos Capuletos, onde, Romeu Montéquio, seu primo Benvólio e seu amigo Mercúcio, parente do príncipe de Verona, invadem para se divertir. Lá, Romeu se apaixona por Julieta Capuleto, sem saber de sua estirpe. Se casam escondidos. A paixão ganha proporções trágicas quando Teobaldo acidentalmente mata Mercúcio numa briga e depois é morto por Romeu. Romeu é banido da cidade. Para que fiquem juntos, Frei Lourenço, sugere que Julieta beba uma poção que a deixará como morta por dois dias e, assim, fugirem juntos. Porém, Romeu recebe a notícia que Julieta morrera. Desesperado, vai ao cemitério e se mata bebendo veneno nos braços da amada. Julieta, ao acordar, também se mata com um punhal. Este é o famoso soliloquio do riquíssimo personagem Mercúcio, antes de invadirem a festa na casa dos Capuletos. Mais amanhã.
MERCÚCIO
(ROMEU E JULIETA DE WILLIAM SHAKESPEARE)
Sonhei que Mab, a rainha, o visitou.
É a parteira das fadas e ela vinha
Como uma ágata pequenininha
No dedo indicador de um conselheiro.
Puxada por um par de vermezinhos
A correr no nariz do adormecido.
Uma casca de noz é sua carruagem,
Feita por um esquilo carpinteiro;
Que sempre foi das fadas carreteiro.
As varas são perninhas de uma aranha,
Asas de gafanhoto sua cobertura;
As rédeas vêm de teias pequeninas,
E a canga, de résteas de luar.
O seu chicote é um ossinho de grilo,
Seu cocheiro, uma mosca varejeira cinza
Que não é nem metade de uma larva
Que uma donzela tira do dedinho;
Assim cavalga ela pela noite
E, atravessando o cérebro do amante,
Faz nascerem ali sonhos de amor;
Nos joelhos dos nobres, cortesias,
No dedo do advogado, grandes ganhos;
Os lábios das donzelas sonham beijos,
Mas Mab, zangada, faz nascerem bolhas
Nos que encontra borrados por bombons.
Se pesa no nariz de um cortesão,
Ela sonha com o cheiro de favores;
Às vezes passa o rabo de um leitão
Pelo nariz de um cura adormecido,
E o faz sonhar com mais uma prebenda.
Se passa no pescoço de um soldado,
Seu sonho é com a degola do inimigo,
Ou com assaltos, aço e emboscadas,
Ou mares de bebida; e, logo após,
Toca o tambor no ouvido, ele desperta
Assustado, e, depois de uma oração ou duas,
Dorme de novo. É essa aquela Mab
Que embaraça a crina dos cavalos
E assa as carapinhas dos capetas
Que, penteadas, trazem grandes males.
É essa a velha que, se uma donzela
Adormece de costas, deita em cima
E a ensina a arcar com um peso vivo,
Pra aprender a pesar com outras cargas.
É ela…
Após terem se apaixonado na festa da casa dos Capuletos, já sabendo que ambos eram de famílias rivais, Romeu segue sua volúpia, sua flamejante libido recém desperta por Julieta e pula os muros de seu pomar após a festa. É a famosa cena do balcão. Romeu a observa, balbucia sua paixão sem chamar atenção. Está escondido. Quando ouve Julieta, com os braços abertos dizer: Romeu, Romeu, por que há de ser Romeu, negue seu pai, renuncie esse nome; Ou se não quiser, jure só que me ama e eu não serei mais dos Capuletos. Romeu não aguenta mais e aparece. Julieta se apavora. Eles se veem. Há de novo a flama. Após algumas belas palavras de Romeu, Julieta, se abre.
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JULIETA
(ROMEU E JULIETA DE WILLIAM SHAKESPEARE)
tradução de Bárbara Heliodora
O meu rosto usa máscara da noite,
Mas, de outro modo eu enrubesceria
Por tudo que foi dito até aqui.
Queria ser correta e renegar
Tudo o que eu disse. Mas adeus, pudores!
Me amas? Sei que vais dizer que sim,
E aceito tua palavra. Se jurar,
Pode ser falso. E dizem que Zeus ri
Dos perjúrios do amor. Doce Romeu,
Se me amas, mesmo, afirme-o com fé.
Mas, se pensar que eu fui fácil demais,
Serei severa e má, e direi não,
Pra que me implore; de outra forma, nunca.
Na verdade, Montéquio, ouso demais,
E posso parecer-lhe leviana;
Mas garanto, senhor, ser mais fiel
Que as que, por arte, fazem-se de difíceis.
Eu seria difícil, devo confessar,
Se não ouvisse, sem que eu soubesse,
Minha grande paixão; então perdoe-me
E não julgue o amor que, cedo,
O peso desta noite revelou.
Quando Romeu encontra o corpo de Julieta, morta, decide que ali também será o fim de sua vida. Não sabia que Julieta havia tomado uma poção que a deixaria como morta por dois dias. Julieta a tomara para fugir do casamento com Páris, pois, morta, poderia fugir com Romeu. Romeu não foi avisado do plano a tempo e se mata tomando veneno. Julieta, ao acordar, vê seu amado morto. Não aguenta a dor e se mata com um punhal. Este é o solilóquio de Romeu antes de se matar.
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ROMEU
(ROMEU E JULIETA DE WILLIAM SHAKESPEARE)
Assim farei; deixe-me ver seu rosto.
O primo de Mercúcio, o nobre Páris.
O que disse o pajem quando minh’alma tonta,
Não lhe dava atenção? Creio ter dito
Que Páris ia casar com Julieta.
Não disse isso? Ou será que sonhei?
Ou fiquei louco, ao falar de Julieta,
E pensei que foi isso? Dê-me a mão,
Inscrita como a minha no infortúnio.
Hei de enterrá-lo em cova triunfal.
Cova? Não; junto a um esplendor de luz,
Pois jaz aqui Julieta; e sua beleza
Faz desta tumba festa luminosa.
Morte, deita-te aí, junto a esse morto.
Quantas vezes, logo antes de morrer,
Um homem fica alegre? É o que chamam
De fagulha mortal. E será isto
Tal fagulha? Meu amor, minha esposa,
A morte, que sugou-lhe o mel dos lábios,
Inda não conquistou sua beleza.
Não triunfou. A flâmula do belo
É rubra em seus lábios e seu rosto,
E o estandarte pálido da morte inda não tremula.
Teobaldo, ‘stás aí, banhado em sangue?
Que honraria mais posso eu prestar-te,
Que, co’a mão que ceifou-te a juventude,
Cortar a de quem foi te inimigo?
Primo, perdão. Querida Julieta,
Por que tão bela ainda? Devo crer
Que a morte etérea está apaixonada,
E que o esquelético monstro a prende aqui
Pra, neste escuro, ser a sua amada?
Só por medo que sim ficarei contigo
E jamais do negror deste palácio
Hei de partir. Aqui permanecerei
Com os vermes, seus criados. Aqui mesmo
Eu hei de repousar por todo o sempre,
E libertar da maldição dos astros
A carne exausta. Olhos, um olhar.
Braços, o último abraço! E vós, oh lábios,
Portal do alento, solene com este beijo
Pacto eterno com a Morte insaciável.
Vem, meu caminho amargo, insosso guia.
Piloto insano atira neste instante
Contra as rochas a barca desgastada.
Ao meu amor! (bebe) Honesto boticário,
Rápida é a droga. E assim, com um beijo, eu morro.
Datado provavelmente de 1601, chegou nas mãos de Shakespeare após ter passada pela mão de vários autores. Conta a história de Hamlet, príncipe da Dinamarca, que recebe a visita do fantasma do pai, recém morto, que revela seu assassino, Cláudio, seu irmão, tio de Hamlet. O jovem jura vingar-se, mas tem dúvidas quanto a isso. Não sabe se o fantasma está correto. No processo de investigação, Hamlet, finge estar louco para não levantar suspeitas. Hamlet corteja Ofélia, mas Polônio, pai de Ofélia, tanto quanto seu filho Laertes não crêem no interesse, acham que Hamlet está louco. Hamlet prepara uma peça de teatro dentro do castelo com o objetivo de desmascarar o tio. Dá certo, e Hamlet é banido por seu tio, sob um pretexto qualquer, para, na verdade, ser assassinado. Logo depois, Hamlet mata Polônio, sem querer. Ofélia enlouquece, morre. Hamlet escapa da morte e regressa. Num duelo de armas brancas com Horácio, Hamlet não bebe o veneno dado pelo rei, o que faz a rainha “à sua sorte”. A rainha morre, Hamlet envenena o tio à força. Laertes também morre, revelando a infâmia do rei. Hamlet, que havia sido ferido com a espada envenenada, também morre. Este é o famoso solilóquio do ato III.
HAMLET
(Hamlet de William Shakespeare)
tradução: Bárbara Heliodora
Ser ou não ser, essa é que é a questão:
Será mais nobre suportar na mente
As flechadas da trágica fortuna,
Ou tomar armas contra um mar de escolhos
E, enfrentando-os, vencer? Morrer – dormir,
Nada mais; e dizer que pelo sono
Findam-se as dores, como os mil abalos
Inerentes à carne – é a conclusão
Que devemos buscar. Morrer – dormir;
Dormir, talvez sonhar – eis o problema:
Pois os sonhos que vierem nesse sono
De morte, uma vez livres deste invólucro
Mortal, fazem cismar. Esse é o motivo
Que prolonga a desdita desta vida.
Quem suportara os golpes do destino,
Os erros do opressor, o escárnio alheio,
A ingratidão no amor, a lei tardia,
O orgulho dos que mandam, o desprezo
Que a paciência atura dos indignos,
Quando podia procurar repouso
Na ponta de um punhal? Quem carregara
Suando o fardo da pesada vida
Se o medo do que vem depois da morte -
O país ignorado de onde nunca
Ninguém voltou – não nos turbasse a mente
E nos fizesse arcar co’o mal que temos
Em vez de voar para esse, que ignoramos?
Assim nossa consciência se acovarda,
E o instinto que inspira as decisões
Desmaia no indeciso pensamento,
E as empresas supremas e oportunas
Desviam-se do fio da corrente
E não são mais ação. Silêncio agora!
A bela Ofélia! Ninfa, em tuas preces
Recorda os meus pecados.
Considerada por muitos como “a mais sanguinária das tragédias de Shakespeare”, Macbeth, foi concluída e apresentada, provavelmente, em 1606, porém, o texto, conta com um primeiro registro de 1623. Trata-se do caminho de Macbeth e sua mulher, Lady Macbeth, até o trono, acreditando encontrar a felicidade em tal posto. Macbeth assassina Duncan, Rei da Escócia, e inicia alí sua busca ao poder. Sempre se questionando e muito atormentado, Macbeth executa outros assassinatos, também pensando estar fazendo a coisa certa para justificar seus atos. Macbeth se consulta o todo tempo com as três bruxas que, num dado momento de crise, lhe revelam que “ninguém que tenha nascido de uma mulher fará mal a Macbeth”, e que ele “jamais será vencido até que a Grande Floresta de Birnam vá até as alturas do Monte Dusinane”. Todas as profecias se concretizam e Macbeth, apesar de ter conseguido chegar ao trono, morre pelas mãos de Macduff, um dos generais do exército do rei. Este é o famoso solilóquio de Macbeth, após saber que sua mulher morrera e pouco antes de saber que a floresta se aproximava, era o exército do rei camuflado com ramos e galhos.
MACBETH
(MACBETH DE WILLIAM SHAKESPEARE)
tradução Bárbara Heliodora
Ela só devia morrer mais tarde;
Haveria um momento para isso.
Amanhã, e amanhã, e ainda amanhã
Arrastam nesse passo o dia-a-dia
Até o fim do tempo pré-notado.
E todo ontem conduziu os tolos
À via em pó da morte. Apaga, vela!
A vida é só uma sombra: um mau ator
Que grita e se debate pelo palco,
Depois é esquecido; é uma história
Que conta o idiota, toda som e fúria,
Sem querer dizer nada.
(entra o Mensageiro)
Não tens língua? Depressa, a história.
Ricardo III é um drama histórico baseado na história verdadeira do Rei Ricardo III da Inglaterra. Sob o pretexto de que a situação na Inglaterra já fora melhor e de que tem direito ao trono, Ricardo, homem coxo e feio, se diz empurrado ao mal. Usando sempre a dissimulação e aos outros para chegar ao poder, Ricardo, primeiramente, elimina os sucessores ao trono para quando o rei morrer. Depois de ter matado o rei e seu filho, trata de seduzir Lady Anne, esposa de Príncipe Eduardo, recém morto. Mata seus filhos. Chega ao trono com ajuda de Buckingham, depois, não cumpre sua promessa de lhe conceder terras. Ricardo chega ao poder, mas logo tem que lutar por ele contra Richmond. Na batalha final, Ricardo diz seu famoso “My Kingdom for a horse” e morre pelas mãos de Richmond. Este é o solilóquio que Ricardo diz logo após ter tido um sonho terrível, sua morte não tardaria a chegar.
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RICARDO
(RICARDO III DE WILLIAM SHAKESPEARE)
tradução de Carlos A Nunes
Dai-me outro cavalo! Ligai minhas feridas!
Tende piedade, Jesus! Chiu, tão-só sonhava.
Ó covarde consciência, como me atormentas!
As luzes ardem azuis, é a meia noite dos mortos.
Gotas frias de terror são no meu corpo tremente.
De que me receio? De mim próprio?
Não é mais ninguém aqui. Ricardo ama Ricardo,
ou seja, eu e eu. E aqui um assassino? Não!
Sim, sou eu! Então fuge. Quê, de mim próprio?
Boa razão há, não me vá eu vingar!
Quê, eu próprio contra mim próprio?
Coitado de mim, eu amo-me a mim próprio. Porquê?
Pelos bens que eu próprio a mim próprio ofereci?
Oh, não, pobre coitado, antes a mim próprio tenho
ódio por feitos odiosos que eu próprio cometi.
Sou ruim vilão… mas minto, eu o não sou!
Sandeu, diz bem de ti próprio! Sandeu, não uses de lisonja!
Minha consciência tem milhares de línguas diferentes
e cada língua me diz um conto diferente, e cada conto
me condena como ruim vilão: perjúrio, perjúrio, no mais subido grau;
assassínio, assassínio horrendo, no mais horrífico grau.
Todos os pecados diferentes, todos cometidos
em cada grau, se ajuntam diante o juiz todos bradando:
“Culpado, culpado!” Em desespero cairei.
Não há criatura que me ame, e se eu morrer,
ninguém me lamentará…
E porque o fariam, se eu próprio em mim
próprio por mim próprio não encontro dó?
Cuido que as almas de todos os que assassinei vieram
a minha tenda, e cada qual me ameaçou que amanhã
a vingança tombaria sobre a cabeça de Ricardo.
Considerada por muitos como a obra-prima definitiva do bardo, Rei Lear, foi escrita provavelmente em 1605, ou no início de 1606. No século XII, Geoffrey of Monmouth contou a história de Lear como sendo parte da história da Inglaterra, porém, Lyr ou Ler já era uma figura presente na lenda, mesmo que não muito definida. Lear foi reescrito algumas vezes até chegar em Shakespeare, que usou todos os textos como base. A grosso modo: Lear quer dividir seu reino entre as filhas. Cordélia, uma delas, o contraria, por não querer provar seu amor como havia pedido o rei. Lear, não compreende o amor da filha e a expulsa da Inglaterra e entregue ao Rei da França. Começa aí o calvário de Lear, que se arrepende, e volta-se contra sua filha Goneril, que se une a sua irmã, Regan, contra o pai. Lear é expulso, enlouquece, enquanto Edmundo, filho bastardo do conde Glócester, seduz Goneril e Regan e torna-se o comandante das forças inglesas. Resultado: Goneril envenena Regan por ciúmes e se mata; Glócester morre de desgosto; Cordélia é enforcada e Lear morre tentanto reavivar a filha. Este é o solilóquio onde Lear percebe sua loucura ouvindo as bajulações de Regan e Goneril.
LEAR
(REI LEAR DE WILLIAM SHAKESPEARE)
tradução de Bárbara Heliodora
Não pensem no que é preciso! até os mendigos
Têm na sua miséria algo supérfulo.
Só dando à natureza o necessário,
A vida humana se iguala à das feras.
A natureza não precisa do luxo
Que te esquenta.Mas quando ao que preciso…
Oh céus, dai-me paciência; é o que preciso!
Deuses, aqui ‘stou eu, um pobre velho
Infeliz pela dor e pela idade!
Se colocastes os corações de tais filhas
Contra o seu pai, não me deixeis qual tolo
Suportá-lo; dotai-me de ira nobre,
E não deixeis que armas femininas
Me molhem as faces! Bruxas anormais,
Hei de vibrar nas duas tais vinganças
Que o mundo inteiro… Eu farei coisas,
Não sei o que serão, mas hão de ser
O horror da terra. Esperais que eu chore?
Não não pra isso,
(Ouve-se a tempestade ao longe)
mas o peito
Há de romper-se em cem mil estilhaços
Antes que eu chore. Bobo, eu enlouqueço!
Fechando a série com Shakespeare, Henrique V é uma de suas peças históricas mais conhecidas. Encenada pela primeira vez em 1599, a ação centra-se nas batalhas de Harfleur e de Azincourt num dos conflitos que compõem a Guerra dos Cem Anos (1337-1453) e trata de um dos personagens mais importantes da história da Inglaterra, o monarca Henrique V, que governou de 1413 a 1422, pacificando a Inglaterra e consolidando a monarquia. É um texto essencialmente nacionalista onde, a todo momento, o Rei agradece aos céus pelos triunfos. Este é o famoso discurso de Henrique V no Dia de São Crispino antes da batalha de Azincourt em pleno campo de batalha.
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HENRIQUE
(HENRIQUE V DE WILLIAM SHAKESPEARE)
tradução de Beatriz Viégas-Faria
Quem é este que deseja tal coisa? Meu primo
Westmorland. Não, meu iluminado primo. Se estamos
marcados para morrer, somos perda suficiente para o
nosso país. Se marcados para viver, quanto menos homens,
maior fração de glória competirá cada um. Pelo amor de Deus,
eu lhe peço, não deseje nem um único homem a mais.
Por Júpiter, não tenho ganância de ouro, nem me importa
quantos comem às minhas custas. Não me entristece ver
outro homem vestindo meus trajes. Essas coisas exteriores
não habitam os meus desejos. Mas, se for pecado ter
ganância de honra, sou a alma mais pecadora aqui neste mundo
dos vivos. Não, meu primo, por minha fé, não peça por nem mais
um homem da Inglaterra. Por Deus, não quero repartir com mais
ninguém tão grande de honra, pois tenho grandes esperanças.
Ah, primo, não queiras um único inglês a mais! Em vez disso,
anuncie o seguinte: o homem que não tiver estômago para este
combate está livre para partir. Seu salvo-conduto será confeccionado,
e serão depositadas coroas francesas em sua bolsa para custear
a passagem. Não queremos morrer na companhia desse homem
que teme ter a sua pessoa morrendo conosco. Hoje é dia de São Crispino.
Aquele que sobreviver ao dia de hoje e voltar para casa são e salvo
ficará de ouvidos em pé sempre que este dia for mencionado e vai
inflamar-se só de ouvir falar em São Crispino. Aquele que testemunhar
o dia de hoje e viver até a velhice presenteará seus vizinhos todos os
anos com um banquete, sempre na véspera, e dirá “Amanhã é dia
de São Crispino”. Então ele vai arregaçar as mangas e mostrar
os ferimentos e dizer: “Estas cicatrizes são herança do dia de São Crispino”.
Os velhos se esquecem e, mesmo que ele tenha se esquecido de tudo,
lembrará, contando vantagem, dos feitos que perpetrou naquele dia.
Teremos então que os nossos nomes, na boca deste senhor idoso,
tão comuns quanto as palavras que ele usa no dia-a-dia, serão pronunciados:
o Rei Henrique, Bedford e Exeter, Warwick e Talboth, Salisbury e Gloucester,
e serão todos lembrados uma vez mais, nos brindes de suas taças transbordantes.
Esta história o bom homem há de ensinar ao filho, e não se passará um
único dia de Crispino Crispiano, de hoje, até quando o mundo acabar, sem
que sejamos lembrados. Nós, estes poucos; nós, um punhado de sortudos;
nós, um bando de irmãos… pois quem derrama o seu sangue junto comigo
passa a ser meu irmão. Pode ser homem de condição humilde; o dia de
hoje fará dele um nobre. E os nobres que ficaram na Inglaterra, que estão
agora em suas camas, irmão julgar-se amaldiçoados porque não estavam
aqui e vão se considerar homens de menor virilidade sempre que ouvirem
falar aquele que lutou conosco no dia de São Crispino.
Faremos uma pequena passagem pelo teatro do fim do século XIX até o início do século XX. Johan Augusto Strindberg nasceu em Estocolmo em 1849 e lá morreu em 1912. Foi escritor, dramaturgo, pintor e fotógrafo sueco. Escreveu poucos dramas, onde se destaca Senhorita Júlia, de 1888. A peça, O Pai, foi escrita em 1887, considerada “excelente” por Frederich Nietzsche, trata dos detalhes “explosivos” das relações dentro do casamento. O Capitão se vê cercado por mulheres (sua mulher Laura, a sogra, a governanta) que tentam a todo tempo controlar suas decisões e o futuro de sua filha, subtraindo assim seu “poder”. Pensado que toda mulher pode ter um filho sem precisar saber quem é o pai, e que, no caso do homem, isso é inadmissível, o Capitão quer a certeza que Bertha, é realmente sua filha, o que o leva à loucura. Aqui uma reflexão do Capitão sobre sua recente loucura e a perda de poder como homem dentro do casamento e da família.
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CAPITÃO
(O PAI DE AUGUST STRINDBERG)
tradução de Guilherme da Silva Braga
(larga os livros em cima da mesa) Tudo está salvo aqui
nestes livros para quem quiser ler. Eu não estava louco!
Está aqui no primeiro livro da Odisséia, verso 215, página
seis da tradução de Uppsala. É Telêmaco quem fala a
Atena. “De fato a minha mãe afirma que Odisseu é meu pai,
mas disso não tenho certeza, pois ninguém descobre as
origens de sí próprio”. E Telêmaco levanta essa suspeita
a respeito de Penélope, a mais virtuosa das mulheres! Que
beleza, hein? Aqui temos o profea Ezequiel: “O louco diz:
eis aqui o meu pai, mas quem pode saber que semente
o criou?”. Acho que está bem claro! o que mais tenho aqui?
A história da literatura russa de Merzliákov: “O que matou
Aleksandr Púchkin, o maior dos poetas russos, foi antes
a angústia causada por rumores sobre a infidelidade da
esposa do que a estocada que recebeu no peito em um
duelo. No leito de morte, Púchkin jurou que ela lhe fora
fiel”. Mas que imbecil, que imbecil! Como ele poderia
jurar uma coisas destas? No entanto agora vocês sabem
o que eu estava lendo em meus livros! – Ah, Jonas, você
por aqui! Eo doutor, é claro! Vocês sabem o que eu respondi
a uma senhora inglesa que uma vez se queixou para mim
de que os irlandeses costumam jogar lamparinas de petróleo
acesas no rosto das esposas? – Meu Deus, que mulheres! -
eu disse. Mulheres? – ela resmungou. Claro! – respondi.
Quando chega o ponto em que um homem, um homem
que amou e idolatrou uma mulher, pega uma lamparina
acesa e atira no rosto dela – é só aí que sabemos!
É com muito prazer que digo: Samuel Beckett nasceu em Dublin, Irlanda, no dia 13 de abril de 1906 e morreu em Paris em 22 de dezembro de 1989. Prêmio Nobel de 1969, na minha opinião, foi um dos maiores dramaturgos de século XX. Ao lado de Eugène Ionesco, Arthur Adamov, Jean Genet e, depois, Harold Pinter, “continuaram” o sonho de Jarry, naquilo que ficou conhecido como o teatro do absurdo. Maravilhoso. Esperando Godot é sua peça mais conhecida. Foi escrita em 1952 e não entrarei em nenhum tipo de interpretação da famosa espera, fica com cada um. A peça conta a história de Estragon, Vladimir, Pozzo, Lucky e um menino. Os dois primeiros se encontram numa estrada para esperar um tal de Godot. A peça de desenrola dentro da espera, onde, ambos, começam um diálogo trivial até a chegada de Pozzo e Lucky. Pozzo chega puxando Lucky por uma corda amarrada em seu pescoço, que causa estranheza em ambos. Um menino entra em cena avisando que Godot só chegaria no dia seguinte. No segundo ato, tudo igual, exceto pela árvore que está mudada. Os dois voltam a dialogar quando Pozzo e Lucky voltam, só que, Pozzo está cego e Lucky, surdo. Volta o menino com a mesma notícia. Este é o extenso solilóquio de Lucky, que nada dizia, até esse dado momento.
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LUCKY
(ESPERANDO GODOT DE SAMUEL BECKETT)
tradução de Fábio de Souza Andrade
Dada a existência tal como se depreende dos recentes trabalhos
públicos de Poinçon e Wattmann de um Deus pessoal quaquaquaqua
de barba branca quaqua fora o tempo e do espaço que do alto de sua
divina apatia sua divina athambia sua divina afasia nos ama a todos
com algumas poucas exceções não se sabe por quê mas o tempo dirá
e sofre a exemplo da divina Miranda com aqueles que estão não se sabe
por quê mas o tempo dirá atormentados atirados ao fogo às flamas às
labaredas que por menos que isto perdure ainda e quem duvida acabarão
incendiando o firmamento a saber levarão o inferno às nuvens tão azuis
às vezes e ainda hoje calmas tão calmas de uma calma que nem por ser
intermitente é menos desejada mas não nos precipitemos e considerado
por outro lado os resultados da investigação interrompida mas consagrada
pela Academia Antropopopometria de Berna-sobre-Bresse de Testu e Conard
ficou estabelecido sem a menor margem de erro tirante a intrínseca a todo
e qualquer cálculo humano que considerando os resultados da investigação
interrompida interrompida de Tesu e Cunard ficou evidente dente dente o
seguinte guinte guinte a saber mas não nos precipitemos não se sabe
por quê acompanhando os trabalhos de Poinçon e Wattmann evidencia-se
claramente tão claramente que à luz dos esforços de Fartov e Belcher
interrompidos interrompidos não se sabe por quê de Tesu e Conard
interrompidos interrompidos evidencia-se que o homem ao contrário
da opinião contrária que o homem em Bresse de Tesu e Conard que o
homem enfim numa palavra que o homem numa palavra enfim não
obstante os avanços na alimentação e na defecação está perdendo peso
e ao mesmo tempo paralelamente não se sabe por quê não obstante os
avanços da educação física na prática de esportes tais quais quais o
tênis o futebol a corrida o ciclismo a natação a equitação a aviação a
conação o tênis a camogia a patinação no gelo e no asfalto o tênis a
aviação o tênis o hockey na terra no mar no ar a penicilina e seus
sucedâneos numa palavra recomeço ao mesmo tempo paralelamente
de novo não se sabe por quê no Sena Sena-e-Oise Sena-e-Marne
Marne-e-Oise a saber ao mesmo tempo paralelamente não se sabe
por quê está perdendo peso e encolhendo recomeço Oise e Marne numa
palavra a perda líquida per capita desde a morte de Voltaire sendo da ordem
de por volta de duzentos gramas aproximadamente na média arredondando
bem pesados e pelados na Normandia não se sabe por quê numa palavra
enfim tanto faz fatos são fatos e considerando por outro lado o que é ainda
mais grave se evidencia ainda mais grave à luz de à luz das experiências
em curso de Steinweg e Petermann o que se evidencia ainda mais grave se
evidência ainda mais grave à luz de à luz das experiências interrompidas
de Steinweg e Petermann que nas planícies na montanha no litoral junto aos
rios de água corrente fogo corrente o ar e a terra feitos de pedras na grande
glaciação ai de mim no sétimo ano da sua era o éter a terra o mar feitos de
pedras na grande escuridão na grande glaciação sobre o mar sobre a terra
e pelos ares que pena recomeço não se sabe por quê recomeço adiante
numa palavra enfim ai de mim adiante feitos de pedras quem poria em
dúvida recomeço mas não nos precipitemos recomeço a cabeça ao mesmo
tempo paralelamente não se sabe por quê não obstante o tênis adiante a
barba as labaredas as lágrimas as pedras tão azuis tão calmas ai de mim
a cabeça a cabeça a cabeça a cabeça na Normandia não obstante o tênis
os esforços interrompidos inacabados mais grave as pedras numa palavra
recomeço ai de mim ai de mim interrompidos inacabados a cabeça a cabeça
na Normandia não obstante o tênis a cabeça ai de mim as pedras Conard Conard…
(confuso, Lucky deixa escapar ainda vociferações_ Tênis!… As pedras!…
Tão calmas!… Conard!… Inacabadas!…
Também é com enorme prazer que digo: Thomas Stearns Eliot nasceu em St Louis, EUA, no dia 26 de setembro de 1888 e morreu em Londres em 4 de janeiro de 1965. Foi, de longe, um dos maiores poetas do século XX. Laureado com o prêmio Nobel em 1948, escreveu poemas antológicos como The Love Song of J. Albert Prufrock e The Waste Land. Escreveu cinco peças de teatro, onde, destaca-se Cocktail Party. A peça Reunião de Família se passa numa casa de campo no Norte da Inglaterra, onde, a velha Amy, prepara um jantar. Harry, seu filho mais velho, reaparece na casa após oito anos de ausência. Ainda atormentado pela morte da esposa, Harry descobre, aos poucos, os demônios escondidos no passado da família. O jantar vai se tornando um pesadelo quando descobre que seu próprio pai tentara matá-lo quando ainda estava no ventre da mãe. Este é o solilóquio do Coro antes do fim da peça.
CORO
(REUNIÃO EM FAMÍLIA DE T.S ELIOT)
tradução de Ivo Barroso
Não gostamos de olhar pela mesma janela e ver uma paisagem
de todo diferente.
Não gostamos de subir uma escada e descobrir que ela nos leva
para baixo.
Não gostamos de atravessar uma porta e nos encontrarmos de
novo na mesma sala.
Não gostamos do labirinto do jardim porque parece demais com o
labirinto do cérebro.
Não gostamos do que acontece quando estamos acordados porque
se parece demais com o que acontece quando estamos adormecidos.
Compreendemos os normais afazeres da vida,
Sabemos como operar as máquinas,
Conseguimos em geral evitar acidentes,
Estamos assegurados contra o fogo,
Contra o furto e as doenças,
Contra os defeitos dos encanamentos,
Mas não contra a vontade de Deus.
Conhecemos várias magias e encantamentos,
E outras formas inferiores de feitiçaria,
Adivinhações e quiromancia,
Específicos contra a insônia,
Lumbago e a perda de dinheiro.
Mas o ciclo do nosso entendimento
É uma área muito limitada.
Exceto por um restrito número
De desígnios estritamente práticos,
Não sabemos de fato o que fazemos;
E mesmo, quando pensamos a respeito,
Não sabemos muito sobre o ato de pensar.
Que está acontecendo no exterior do círculo?
E qual o significado de acontecer?
Que emboscada nos espera além das urzes
Ou por trás das carrancas monolíticas?
Acima da Camada de Heaviside
E por trás do sorriso da Lua?
O que foi feito conosco?
E o que somos nós e o que fazemos?
Para todas e cada uma destas perguntas
Não há resposta concebível.
Sofremos muito mais do que uma perda pessoal…
Perdemos nosso caminho no escuro.
Anton Pavlovitch Tchékhov nasceu em Taganrog, Rússia, no dia 29 de janeiro de 1860 e morreu em Badenweiler em 14 ou 15 de julho de 1904. Curiosamente, além do grande dramaturgo e contista que foi, era também médico. Escreveu peças que se tornaram clássicos do teatro como: A gaivota, As três irmãs, Tio Vânia e o Jardim das Cerejeiras (está última é uma beleza). As Três Irmãs conta a história de Irina, Macha e Olga Prosorov, que veem suas esperanças despertarem após um ano de luto em virtude da morte do pai. Elas desejam intensamente voltar para Moscou, onde a vida volta a ser mais interessante, pois todas foram criadas na cidade grande e não se adaptaram à vida no campo. Elas apoiam suas esperanças no irmão Andrey, que, infelizmente, se apaixona por Natasha, desiste de ser tornar um professor e vicia-se em jogo. Após alguns percalços amorosos, seu sonho de voltar a Moscou não se realiza. Este é o pequeno monólogo de Olga após saber que não mais voltarão para Moscou
OLGA
(AS TRES IRMÃS DE ANTON TCHÉKHOV)
tradução de Klara Gouriánova
A música é tão alegre, tão animadora
e dá vontade de viver! Oh, meu Deus!
O tempo vai passar e nós iremos com ele,
para sempre. Esquecerão de nós, dos
nossos rostos, das nossas vozes e de
quantas éramos, mas o nosso sofrimento
vai se transformar em alegria daqueles
que viverão depois de nós, a felicidade
e a paz reinarão na Terra e aqueles que
vivem agora serão lembrados com boas
palavras e serão abençoados. Oh, minhas
queridas irmãs, nossa vida ainda não
terminou. Vamos viver! A música é tão
alegre, tão feliz, parece que mais um
pouquinho e saberemos por que vivemos,
por que sofremos… Ah, se pudéssemos
saber, se pudéssemos saber!
Terminando os dramaturgos-poetas do século XX em grande estilo e, ao meu ver, bem solto. Eugène Ionesco nasceu em Slatina, Romênia, no dia 26 de novembro de 1909 e morreu em Paris, no dia 28 de março de 1994. O termo mais usado é “Pai do teatro do absurdo”, “para um texto burlesco, uma interpretação dramática; para um texto dramático, uma interpretação burlesca’, assim definia-se o tom. A Cantora Careca foi escrita em 1954 e conta a história de Sr e Sra Smith, que dizem banalidades um para o outro, até a criada, Mary, anunciar a visita dos Martin. Entram, se sentam, começam a conversar, até perceberem, pelas coincidências, que são marido e mulher. Depois entra um Bombeiro em busca de um incêndio que não há. O bombeiro vai embora e a conversa continua entre os quatro. Esta é a história que o Bombeiro conta a pedido de Sr e Sra Smith.
BOMBEIRO
(A CANTORA CARECA DE EUGÈNE IONESCO)
tradução de Luiz de Lima
O resfriado. (sentam-se todos) Meu cunhado tinha do lado paterno,
um primo irmão, cujo tio paterno tinha um sogro cujo avô paterno tinha
desposado em segundas núpcias, uma jovem indígena, cujo irmão tinha
encontrado, numa de suas viagens, uma moça de quem ele tinha se
enamorado e da qual teve um filho que se casou com uma farmacêutica
intrépida e era sobrinha de um oficial desconhecido da marinha de Sua
Majestade a Rainha da Inglaterra (erguem-se todos e tornam a sentar)
e cujo pai adotivo tinha uma prima falando correntemente o espanhol
e que era talvez uma das netas de um enfermeiro morto muito moço
neto ele por sua vez de um proprietário de vinhas que dava um licor
medíocre mas que tinha um primo em segundo grau, caseiro, sargento,
cujo filho casara com uma linda moça divorciada, cujo primeiro marido
era filho de um sincero patriota, que tinha sabido educar na ambição
de fazer fortuna uma de suas filhas, que se casou com um caçador
que conheceu um Rotschild e cujo irmão, depois de ter mudado várias
vezes de profissão, se casou e teve uma filha, cujo bisavô avarento
usava óculos que lhe tinha presenteado um seu primo, cunhado de um
português, filho natural de um oleiro não muito pobre, cujo irmão de leite
tomou por mulher a filha de um velho médico do interior, irmão de leite
do filho de um leiteiro, ele mesmo filho natural de um outro médico de
interior, casou duas vezes seguidas, cuja terceira mulher…
Agora, o teatro brasileiro. Plínio Marcos nasceu em Santos, São Paulo, no dia 29 de setembro de 1935 e morreu em São Paulo no dia 19 de novembro de 1999. Escreveu peças que se tornaram clássicos no teatro brasileiro, com especial devoção para Quando as Máquinas Param (1963); Dois Perdidos Numa Noite Suja (1966) e Navalha na Carne. Plínio retratou como ninguém as relações do submundo, dos “excluídos”. Navalha na Carne conta um dia na vida de três figuras: A prostituta Neusa Sueli, o cafetão Vado e o servente homossexual, Veludo. Vado exige de Neusa Sueli o dinheiro do programa, que Neusa diz ter colocado no criado-mudo. Após uma grande discussão, suspeitam que Veludo pode ter pego o dinheiro. Chamam Veludo, que prontamente nega, porém, logo confessa após apanhar um pouco. Depois disso, Vado toma de Veludo a maconha comprada por ele. Fuma, e começa um tórrido jogo de sedução e provocação entre os dois. Neusa fica irada e expulsa Veludo. A peça termina com Vado trancando Neusa no quarto após seduzí-la. Este é o famoso solilóquio de Neusa refletindo sobre sua vida, após ter suas coisas jogadas no chão por Vado.
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NEUSA SUELI
(NAVALHA NA CARNE DE PLÍNIO MARCOS)
Pára com isso! Pára! Por favor, pára! Poxa, será que você
não se manca? Será que você não é capaz de lembrar que
venho da zona cansada pra chuchu? Ainda mais hoje.
Hoje foi um dia de lascar. Andei pra baixo e pra cima, mais
de mil vezes. Só peguei um trouxa na noite inteira. Um
miserável que parecia um porco. Pesava mais de mil quilos.
Contou toda a história da puta da vida dele, da puta da mulher
dele, da puta da filha dele, da puta que o pariu. Tudo gente
muito bem instalada na vida na puta da vida. O desgraçado
ficou em cima de mim mais de duas horas. Bufou, bufou,
babou, babou, bufou mais pra pagar, reclamou pacas.
Desgraçado, filho da puta. É isso que acaba com a gente…
Isso cansa a gente. A gente só quer chegar em casa, encontrar
o homem de cara legal, tirar aquele sarro e se apagar, pra
desforrar de toda a sacanagem do mundo de merda que está aí.
Resultado: você está de saco cheio por qualquer coisinha, então
apronta. Bate na gente, goza a minha cara e na hora do bem-bom,
sai fora. Poxa, isso arreia qualquer uma. Às vezes chego a pensar:
Poxa, será que eu sou gente? Será que eu, você, o Veludo, somos
gente? Chego até a duvidar. Duvido que gente de verdade viva assim,
um aporrinhando o outro, um se servindo do outro. Isso não pode
ser coisa direita. Isso é uma bosta. Uma bosta! Um monte de bosta!
Fedida! Fedida! Fedida!
Os célebres solilóquios não são uma característica na obra teatral de Nelson Rodrigues (Recife, 23 de agosto de 1912 – Rio de Janeiro, 21 de dezembro de 1980). Porém, encontrei uma fala, não por ser extensa, mas por conter maneiras de pensar que caracterizam bem alguns personagens de Nelson, no caso, sobre a morte, e que nos fazem tremer quando nos vimos nele. Teatro minha gente! Pois bem, esta é de Gastão, na tardia ‘O Anti-Nelson Rodrigues’. A peça foi aos palcos em 1974 sob direção de Paulo César Pereio. Conta a história de Oswaldinho, filho de Gastão e Tereza, um jovem mimado pela mãe e desprezado pelo pai. Inescrupuloso, ladrão e mulherengo, se torna o dono de uma da fábricas do pai e se apaixona por uma das recém contratadas, a jovem Joice. Acostumado a ter tudo que quer, Oswaldinho tenta comprar Joice, que sempre reluta, pois só quer seu amor. Aqui Gastão suspeita de algo que o incomoda.
GASTÃO
(O ANTI-NELSON RODRIGUES DE NELSON RODRIGUES)
Não fecho nada. Tereza, escuta. Uma vez, eu vi um filme italiano.
Era uma história de bandido. História feroz, sem nenhuma vergonha
do dramalhão. E lá havia o velório genial, o velório que cada um
deseja para si. O bandido estava na mesa do necrotério, e cravejado
de balas. E de repente chega a mãe do defunto. Minha mulher, está
ouvindo? Qualquer grande dor tem gritos que ninguém ouviu, jamais.
Mas nenhuma mãe, em nenhum idioma, berra, uiva, como a mãe
daquele morto. Era a mais siciliana das sicilianas. Ao ver o cadáver,
esganiçou todos os gritos do seu espanto. Ah, Tereza, Tereza. Na
minha poltrona, eu tive uma sensação de deslumbramento. E aquela
mãe devoradora começou beijando o dedo grande do pé. Não beijou
apenas. o que seria pouco para sua fome. Ela sorvia os dedos um por um,
como aspargos. Ah, meu Deus, aquela boca continuou beijando – a sola
do pé, o calcanhar, as canelas. Nada restou que não fosse beijado. E eu
sei que também vou morrer, não varado de balas. Deus quer que eu tenha
enfarte, que é a morte da moda. Essa dor manhosa no braço esquerdo
não me engana. Eu sei que é minha morte que está doendo mansamente.
Eu penso no bandido. Mas sei que não vou ser chorado assim, beijado
assim, amado assim.
Se não ouvisse a minha morte, ouve meu sonho. Um sonho de uma
semelhança espantosa com a realidade. Sonhei que meu filho vinha
me dizer: – “Sou eu que escrevo as cartas anônimas, eu!” E começou
a chorar como um menino. Depois, caiu aos meus pés e beijou os meus
sapatos. Tereza, se meu filho fizesse isso, eu estaria salvo, não morreria
mais. E se morresse, seria beijado como o maravilhoso defunto siciliano.
José Oswald de Sousa Andrade Nogueira nasceu em São Paulo no dia 11 de janeiro de 1890 e lá morreu em 22 de outubro de 1954. Como muitos sabem, foi um dos personagens mais importantes para Modernismo Brasileiro. Humor, entusiasmo, busca pelo novo e por uma identidade artística nacional. O Rei da Vela é considerado o marco teatral modernista. Escrita a partir de 1933 após a crise de 29, que muito afetou Oswald, só foi montada 30 anos depois na antológica apresentação de Zé Celso Martinez Correa. Conta a história do agiota Aberlado I, o Rei da Vela, que faz empréstimos a juros altíssimos. Abelardo é um burguês ascendente, que trabalha em diversos ramos, sempre especulando. Abelardo II é um empregado que tenta tomar seu lugar. Heloisa de Lesbos é sua mulher, que representa a decadência das famílias fazendeiras. Abelardo II rouba toda a fortuna de Abelardo I, que se mata. Na peça há “desvios” sexuais entre todos os personagens, numa podrosa crítica à sociedade. Este é um belo trecho de Abelardo I num momento de crise.
ABELARDO I
(O REI DA VELA DE OSWALD DE ANDRADE)
Tão esperto! Olhe menina. Eu fui um porcalhão!
Sabe você a quem a burguesia devia erguer estátuas?
Aos caixas dos bancos! Esses sim é que são colossais!
Firmes como a rocha. Os homens que resistem à tentação
da nota. Sabendo para onde ela vai, para que ela serve,
donde vem, que infâmias pode tecer… Os que recusam
o chamado da nota! Antigamente, quando a burguesia ainda
era inocente… A burguesia já foi inocente, foi até revolucionária…
Nos bons tempos do romantismo, antes do cinema devassar
o mundo, acreditava-se no chamado do Oriente, esse apelo
insondável dos países misteriosos e tardos, onde, no fundo -
o cinema depois divulgou -, só havia exploração imperialista
e palmeiras, mais nada. Na época moderna, para nós, classe
dirigente, minha amiga, só há um chamado – chamado da nota!
Eu não soube resistir ao chamado da nota! Sendo Rei da Vela,
banquei o Rei do Fósforo. Também me apossei do que pude!
Joguei numa terrível aventura, todas as minhas possibilidades!
Pus as mãos no que não era meu. Blefei quanto pude! Mas fui
vergonhosamente batido por um coringa… Pois bem! O Rei da Vela
não será indigno do Rei do Fósforo!…
(agita o revólver)
Francisco Buarque de Holanda nasceu no Rio de Janeiro no dia 16 de junho de 1944. Paulo Pontes nasceu em Campina Grande, Paraíba, no dia 8 de novembro de 1940 e morreu no Rio de Janeiro no dia 27 de dezembro de 1976. Escreveram juntos Gota D’Água em 1975. É uma adaptação de Medéia, de Eurípides. Tal como na tragédia grega, Jasão, um sambista morador da Vila do Meio-Dia, larga a mulher, Joana, para casar-se com Alma, filha do rico empresário Creonte. Trata-se de um belo musical, com Joana sendo interpretada por Bibi Ferreira na primeira montagem e direção de Gianni Ratto. Aqui o Desabafo de Joana para Jasão, revendo tudo aquilo que passara com o marido ao saber que Jasão a trocara por Alma.
JOANA
(GOTA D’ÁGUA DE CHICO BUARQUE E PAULO PONTES)
Pois bem, você vai escutar as conta que eu vou lhe fazer.
Te conheci moleque, frouxo, perna bamba, barba rala,
calça larga, bolso sem fundo, não sabia nada de mulher,
nem de samba e tinha um bruto medo de olhar pro mundo,
As marcas do homem, Jasão, uma a uma, hein,
tu tirou todas de mim.
O primeiro filho, o primeiro prato, o primeiro violão,
o primeiro refrão, o primeiro estribilho, te dei cada
sinal do teu temperamento, te dei matéria prima
para o teu tutano, e mesmo essa ambição, que nesse
momento se volta contra mim, eu te dei por engano!
Fui eu, Jasão, você não se encontrou na rua não!
Você andava tonto quando eu te encontrei,
fabriquei energia que não era tua, pra iluminar uma
estrada que eu te apontei,
e foi assim, do nada, que eu vi nascer uma alma ansiosa,
faminta, preguiçosa, uma alma de homem, enquanto eu,
enciumada dessa explosão, ao mesmo tempo vaidosa
e orgulhosa de ti, Jasão, era feliz, eu era feliz Jasão,
feliz e iludida, porque o que eu não sabia, quando eu fiz meus
dez anos, há mais uma sobrevida, pra completar a vida
que você não tinha, é que eu estava desperdiçando o meu
alento, tava vestindo boneco de fuinha, assim que bateu
um primeiro pé de vento, assim que despontou o segundo
horizonte, lá se foi meu homem, orgulho, minha obra completa,
lá se foi pro acervo de Creonte. Certo, o que eu não tenho,
Creonte tem de sobra, prestígio, posição, o teu samba vai
tocar em tudo quanto é programa, tenho certeza que a Gota D’Água
não vai para de pingar de boca em boca, mas em troca pela
gentileza, vai me engolir a filha, aquela mosca morta, como
engoliu meus dez anos, é esse o preço, ahn? dez anos?
até que apareça uma outra porta que te leve direto pro inferno
Aguenta a vida rapaz! Só de ambição, sem amor, tua alma
vai ficar torta, desgrenhada, aleijada, pestilenta, aproveitador!
Aproveitador! Aproveitador!
Fechamos esta série de solilóquios de teatro com um muito especial. Marcos Vinicius da Cruz e Melo Moraes nasceu no Rio de Janeiro no dia 19 de outubro de 1913 e lá morreu no dia 9 de julho de 1980. Orfeu da Conceição foi escrita em 1954 e marca a parceria musical de Vinicius e Tom Jobim. A peça reconta o mito de Orfeu, que vai ao mundo dos mortos atrás de sua amada Eurídice. Nesta versão, Orfeu é um condutor de bonde e sambista que se apaixona pela jovem Eurídice, moça do interior, no Carnaval. O amor de ambos desperta os ciúmes de Mira, ex-noiva de Orfeu. Tal qual no mito, Eurídice morre e Orfeu desce às profundezas buscá-la. A peça contém músicas que se tornaram clássicos de Vinicius e Tom. Eis o famoso e belíssimo monólogo de Orfeu.
ORFEU
(ORFEU DA CONCEIÇÃO DE VINICIUS DE MORAES)
Mulher mais adorada!
Agora que não estás, deixa que rompa
O meu peito em soluços! Te enrustiste
Em minha vida; e cada hora que passa
E’ mais por que te amar, a hora derrama
O seu óleo de amor, em mim, amada…
E sabes de uma coisa? cada vez
Que o sofrimento vem, essa saudade
De estar perto, se longe, ou estar mais perto
Se perto, – que é que eu sei! essa agonia
De viver fraco, o peito extravasado
O mel correndo; essa incapacidade
De me sentir mais eu, Orfeu; tudo isso
Que é bom capaz de confundir o espírito
De um homem – nada disso tem importância
Quando tu chegas com essa charla antiga
Esse contentamento, essa harmonia
Esse corpo! e me dizes essas coisas
Que me dão essa força, essa coragem
Esse orgulho de rei. Ah, minha Eurídice
Meu verso, meu silêncio, minha música!
Nunca fujas de mim! sem ti sou nada
Sou coisa sem razão, jogada, sou
Pedra rolada. Orfeu menos Eurídice…
Coisa incompreensível! A existência
Sem ti é como olhar para um relógio
Só com o ponteiro dos minutos. Tu
És a hora, és o que dá sentido
E direção ao tempo, minha amiga
Mais querida! Qual mãe, qual pai, qual nada!
A beleza da vida és tu, amada
Milhões amada! Ah! criatura! quem
Poderia pensar que Orfeu: Orfeu
Cujo violão é a vida da cidade
E cuja fala, como o vento à flor
Despetala as mulheres – que ele, Orfeu
Ficasse assim rendido, aos teus encantos!
Mulata, pele escura, dente branco
Vai teu caminho que eu vou te seguindo
No pensamento e aqui me deixo rente
Quando voltares, pela lua cheia
Para os braços sem fim do teu amigo!
Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que eu estarei contigo!
Roberto Piva
Roberto Piva nasceu em São Paulo no dia 25 de setembro de 1937. Cresceu e se formou na cidade ou na fazenda do pai no interior de São Paulo. Neste mês vamos nos concentrar nas ideias do poeta “beat” paulista e o possível sobre a vida, em virtude da escassez de informações e detalhes que estão ao alcance do leitor. Piva teve seus primeiros poemas publicados em 1961, quando tinha 23 anos até participar de uma antologia que o deixou conhecido do público: Antologia dos Novísssimos.
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POEMA SUBMERSO
Eu era um pouco da tua voz violenta, Maldoror
quando os cílios do anjo verde enrugavam as
chaminés da rua onde eu caminhava
E via tuas meninas destruídas como rãs por
uma centena de pássaros fortemente de passagem
NInguém chorava no teu reino, Maldoror, onde o
infinito pousava na palma da minha mão vazia
E meninos prodígios eram seviciados pela Alma
ausente do Criador
Havia um revólver imparcialíssimo vigiado pelas
Amebas no telhado roído pela urina de tuas borboletas
Um jardim azul sempre grande deitava nódoas nos
meus olhos injetados
Eu caminhava pelas aléias olhando com alucinada ternura
as meninas na grande farra dos canteiros de
insetos baratinados
Teu canto insatisfeito semeava o antigo clamor dos
piratas trucidados
Enquanto o mundo de formas enigmáticas se desnudava
para mim, em leves mazurcas
Nos anos 60, Piva estudou profundamente a Divina Comédia, orientado por Eduardo Bizzarri, que era adido cultural do Consulado da Itália em São Paulo. Talvez devamos começar a estruturar suas raízes por aí, pois, consta que foi através da leitura e da imersão na obra de Dante que Piva abriu sua visão para a poesia e para a filosofia. Depois, Piva estudou os poetas metafísicos ingleses, com especial devoção ao poeta William Blake. Bom diálogo.
link das fotos do lançamento de Corpo Aberto, na segunda feira dia 10 http://picasaweb.google.com/julioinx/CCLAPedroLago100510#
PRAÇA DA REPÚBLICA DOS MEUS SONHOS
A estátua de Álvares de Azevedo é devorada com paciência pela paisagem
de morfina
a praça leva pontes aplicadas no centro de seu corpo e crianças brincando
na tarde de esterco
Praça da República dos meus sonhos
onde tudo se faz febre e pombas crucificadas
onde beatificados vêm agitar as massas
onde Garcia Lorca espera seu dentista
onde conquistamos a imensa desolação dos dias mais doces
os meninos tiveram seus testículos espetados pela multidão
lábios coagulam sem estardalhaço
os mictórios tomam um lugar na luz
e os coqueiros se fixam onde o vento desarruma os cabelos
Delirium Tremens diante do Paraíso bundas glabras sexos de papel
anjos deitados nos canteiros cobertos de cal água fumegante nas
privadas cérebros sulcados de acenos
os veterinários passam lentos lendo Dom Casmurro
há jovens pederastas embebidos em lilás
e putas com a noite passeando em torno de suas unhas
há uma gota de chuva na cabeleira abandonada
enquanto o sangue faz naufragar as corolas
Oh minhas visões lembranças de Rimbaud praça da República dos meus
Sonhos última sabedoria debruçada numa porta santa
O poeta alemão Holderlin foi um dos que permeou a estrutura (se assim posso chamar) de Roberto Piva, assim como a leitura dos poetas expressionistas Gottfried Benn e Georg Trakl, que também reforçaram, de certa forma, um certo pessimismo do poeta, porém, de acordo com José Silvério Trevisan, foi através de Nietzsche que essa característica de seu discurso se reforçou. A presença, muitas vezes citada, de Rimbaud e Lautreamont deram todos os motivos para que Piva encontrasse sua linguagem. Estamos nos anos 60.
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JORGE DE LIMA, PANFLETÁRIO DO CAOS
Foi no dia 31 de dezembro de 1961 que te compreendi Jorge de Lima
enquanto eu caminhava pelas praças agitadas pela melancolia presente
na minha memória devorada pelo azul
eu soube decifrar os teus jogos noturnos
indisfarçável entre as flores
uníssonos em tua cabeça de prata e plantas ampliadas
como teus olhos crescem na paisagem Jorge de Lima e como tua boca
palpita nos bulevares oxidados pela névoa
uma constelação de cinza esboroa-se na contemplação inconsútil
de tua túnica
e um milhão de vaga-lumes trazendo estranhas tatuagens no ventre
se despedaçam contra os ninhos da Eternidade
é neste momento de fermento e agonia que te invoco grande alucinado
querido e estranho professor do Caos sabendo que teu nome deve
estar como um talismã nos lábios de todos os meninos
Piva é um poeta ligado ao surrealismo, sobretudo na vertente francesa de Breton, Artaud e René Crevel. É um dos três únicos poetas brasileiros a fazer parte do Dicionário Geral do Surrealismo, publicado na França. Para Piva “existe um compromisso absoluto entre a poesia e a vida” ou lembrando Artaud, “para conhecer minha obra, leia-se minha vida”. O poeta diz que “só acredito em vida experimental quem tem vida experimental”. Isto é fundamental para a compreensão da obra de Piva.
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OS ANJOS DE SODOMA
Eu vi os anjos de Sodoma escalando
um monte até o céu
E suas asas destruídas pelo fogo
abanavam o ar da tarde
Eu vi os anjos de Sodoma semeando
prodígios para a criação não
perder seu ritmo de harpas
Eu vi os anjos de Sodoma lambendo
as feridas dos que morreram sem
alarde, dos suplicantes, dos suicidas
e dos jovens mortos
Eu vi os anjos de Sodoma crescendo
com o fogo e de suas bocas saltavam
medusas cegas
Eu vi os anjos de Sodoma desgrenhados e
violentos aniquilando os mercadores,
roubando o sono das virgens,
criando palavras turbulentas
Eu vi os anjos de Sodoma inventando
a loucura e o arrependimento de Deus
Piva tem duas paixões musicais, o jazz e a bossa nova. Há também duas fortes presenças em sua obra: A geração beat e Pier Paolo Pasolini. De acordo com João Silvério Trevisan, Piva absorveu a estilística fragmentada da geração beat assim como a orientação transgressora, tanto na vida quanto na obra. Pasolini foi um grande ideal de profeta-intelectual e paradoxal que Piva precisava para seguir.
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POEMA DA ETERNIDADE SEM VÍSCERAS
Na última lua eu odiava as montanhas
minha memória quebrada não pode receber
o amor
eu tomava sopa aguardando meus amigos desordeiros
no outro lado da noite
este é o meu estranho emprego este mês
outro tempo quando o velho Gide se despachava para a África
meu coração era sólido eu dançava
eu assistia uma guerra de chapéus e as brancas
lacerações dos garotos no Ibirapuera angélico
terreno vazio onde eu mastigava tabletes de
chocolate branco
no próximo instante eu vi árvores e aeroplanos com bigodes
e lágrimas de Ouro
no Ibirapuera esta noite eu perdi minha solidão
ROBERTO PIVA TRANSFERIDO PARA REPARO DE VÍSCERAS
todos os meus sonhos são reais oh milagres epifanias
do crânio e do amor sem salvação que eu sabia presos
no topo da minha alma
meu esqueleto brilhava na escuridão
repleto de drogas
eu nunca estou satisfeito e ando um incorrigível demônio
lunático com os dez dedos roídos tamborilando num campo
magnético
memória do arsênico que eu dei a uma pomba
os olhos cinzentos do céu meu oculto Totem espiritual
Geração beat, Pasolini, vida experimental para uma poesia experimental. Dos nossos, Piva bebeu em Jorge de Lima e Murilo Mendes. Invenção de Orfeu do primeiro, o surrealismo do segundo. Piva é um poeta ligado ao xamanismo. Fazia caminhadas xamânicas na represa do Mairiporã e na serra da Cantareira, anos depois deu cursos e palestras sobre xamanismo. Para Piva, esta é a única solução possível para o mundo moderno.
poema Nervos, do livro Corpo Aberto no blog http://pedrolago.blogspot.com
HOMENAGEM AO MARQUêS DE SADE
O Marquês de Sade vai serpenteando menstruado por
máquinas & outras vísceras
imperador sobre-humano pedalando a Ursa maior no
tórax do Oceano
onde o crocodilo vira o pescoço & acorda a flor louca
cruzando a mente num suspiro
é aéreo o intestino acústico onde ele deita com o vasto
peixe da tristeza violentando os muros de sacarina
ele se ajoelha na laje cor do Tempo com o grito das
Minervas em seus olhos
o grande cu de fogo de artifício incha este espelho de
adolescentes com uma duna em casa mão
as feridas vegetais libertam os rochedos de carne
empilhadas na Catástrofe
um menino que passava comprimiu o dorso descabelado
da mãe uivando na janela
a fragata engraxada nos caminhos da sombrancelha
calcina
o chicote de ar do Marquês de Sade
no queixo das chaminés
falta ao mundo uma partitura ardente como o hímen
dos pesadelos
os edifícios crescem para que eu possa praticar amor
nos pavimentos
o Marquês de Sade pôs fogo nos ossos dos pianistas que
rachavam como batatas
ele avança com tesouras afiadas tomando as nuvens de
assalto
ele sopra um planador na direção de um corvo agonizante
ele me dilacera & me protege contra o surdo século de
quedas abstratas
O envolvimento de Piva com o xamanismo é intenso. Ele costuma tocar o tambor para evocar seu animal, o gavião, assim como para evocar seus orixás no candomblé, Xangô, Iemanjá e Oxum. Piva também fazia experimentos com drogas alucinógenas e bebidas libatórias, como “formas de atualizar a tradição dionisíaca e a transgressão sagrada do paganismo”, lembra Trevisan. Poética da transgressão, podemos entrar nesse assunto nos próximos dias.
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PIAZZA IX
Os corações árticos coçavam suas cabeleiras cultivando
a morte
grandes & ardentes no mesmo sopro de um mesmo
sorriso apodrecido
purificados como os nossos idênticos pioneiros metálicos
às vésperas dos trovões de ar que nos arrebatam as
cabeças para o céu
sobre os muros de plenas dissecações ao brilho
inesperado do salmão das nuvens
nas cidades circulares de dolorosos espinhos atômicos
na infância cor de pêssego como a hora do amor
em cada solitário as mesmas oitavas com ossos à mostra
éter & línguas sólidas que nós não vemos
catalogadas ao lado trágico das mesmas ondas paralelas
aquelas que nos transportam vencendo toda a paisagem
purulenta
gotas de meninos morenos mudados em nevoentos
cascalhos de desolação
nas montanhas murchas de luar onde a lembrança é
cinzenta
correndo teu arco na tempestade solar da incerteza
o dia escurecia a auréola dos mortos descobridores de
Mágicas
Os surrealistas tinham uma maneira de escrever que consistia em escrever sem parar associando ideias ininterruptamente até esgotarem-se as possibilidades. Piva seguia esse “método” frequentemente, sobretudo em seus anos iniciais. Lembrando que Piva é um dos únicos brasileiros a fazer parte do Dicionário Geral do Surrealismo. Essa influência surrealista junto com a essência da contra cultura, mais a infinitude de Fernando Pessoa, levaram Piva à linguagem que muitos chamam de Poética da Transgressão.
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O MINOTAURO DOS MINUTOS
Os pontos cardeais dos nossos elementos são: a traição, a não-compreensão
da utilidade das vidraças, a violência montanha-russa do Totem, o
rompimento com os labirintos e nervuras do penico estreito da Lógica,
contra o vosso êxtase açucarado, vós como os cães sentis necessidade do
infinito, nós o curto-circuito, a escuridão e o choque somos contra a mensagem
lírica do Mimo, contra as lantejoulas pelos caracóis, contra a
vagina pelo ânus, contra os espectros pelos fantasmas, contra as escadas
pelas ferrovias, contra Eliot pelo Marquês de Sade, contra a polenta pelo
ragu, nós estamos perfeitamente esquizofrênicos, paranoicamente cientes
de que devemos nos afastar da Bandeira das Treza Listas cujos representantes
são as bordadeiras de poesia que estão espalhadas por toda a cidade.
Uma curiosidade: Quando jovem, Piva gostava de ligar para os amigos lhes sugerindo leituras: “Olha, você tem que ler A função do orgasmo de Wlhelm Reich!”, ou, Tem um livro importante, El arco y a lira, de Octavio Paz. Ele citava trechos do livro para ilustrar seus comentários. Foi assim com muitos títulos: Filosofia da tragédia de Leon Chestov, Homo ludens de Huyzinga, O Único e suas propriedades, de Max Stirner e muitos outros. Curiosidade ressaltada pelo poeta Cláudio Willer num ensaio sobre Piva.
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BULES, BÍLIS E BOLAS
Nós convidamos todos a se entregarem à dissolução e ao desregramento.
A Vida não pode sucumbir no torniquete da Consciência. A Vida
explode sempre no mais além. Abaixo as Faculdades e que triunfem
os maconheiros. É preciso não ter medo de deixar irromper a nossa
Alma Fecal. Metodistas, psicólogos, advogados, engenheiros, estudantes,
patrões, operários, químicos, cientistas, contra vós deve estar o espírito
da juventude. Abaixo a Segurança Pública, quem precisa disso?
Somos deliciosamente desorganizados e usualmente nos associamos
com a Liberdade.
Piva publicou apenas dois livros nos anos 60, Paranóia, em 63, e Piazzas, em 64. Após doze anos sem nada publicar, em 1974, Piva aparece com Abra os olhos e diga Ah!, onde há, essencialmente, poemas com a temática homossexual. Piva leu muito Lautreamont e, inclusive usa uma passagem de Les Chants de Maldoror abrindo o livro. É o lirismo do poeta de forma nua e direta, característica forte de Piva e que será cada vez mais presente.
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ABRA OS OLHOS E DIGA AH!
VISÃO ANTROPOLÓGICA DO CANTO DA JANELA
PRISMADA EM GELÉIA-CORAÇÃO NO VINHO
DE MARÇO (o mês mais terrível)
novos animais de rapina
OS OLHOS DO MEU AMANTE OS OLHOS DO MEU AMANTE
galáxias internas OLHOS LIBERDADE galáxias internas
no fundo cor-de rosa do chocolate eu te respiro
nas tripas só com os mortos & seus travesseiros de
flores
nas tripas extravagantes meu amor atrás das
vitrinas
só com os mortos o universo é um espirro
no útero da maçã
tudo começa
a anoitecer
cheio de energia
Coxas, livro escrito depois de Abra os olhos e diga Ah!, também continua com a temática sexual anterior, desta vez, se desenvolvendo em textos em prosa. Há personagens, cenários urbanos, cenas de sexo e erotismo coletivas. Pólem, é o personagem principal de muitos poemas, passando por experiências e orgias ao longo do discurso. Diferentemente da contemplação de Piazzas, em Coxas, há ação.
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O MANIFESTO DE LINDO OLHAR
Múmia vadia.
Deixa a pirâmide pegar fogo & ouve o vento da noite onde
Anúbis domina
o Faraó morreu na orgia ao pôr do sol roxo de vinho
Múmia vadia
o amor atravessou seu caminho de ataduras enlouquecidas
colhe o frenesi na língua caótica dos deuses & pede
o abraço de Osíris deus da agricultura subdesenvolvida
Molha a alma no sangue da rebelião
volta a adorar os deuses semeadores de discórdias
Pólem carregou Lindo Olhar até o andar de cima colocou-o
sobre as almofadas de veludo negro & se beijaram até
amanhecer, quando o grande rio dilatou suas águas até o
fim do mundo & Lindo Olhar percebeu que o amor fazia
uma nova ronda em sua carne multiplicada onde as
guitarras da paixão deixaram marcas de dentes & pequenas
gotas de suor.
As referências a outros autores é constante na obra de Piva, característica que aparece muito em Coxas. Não somente nas epígrafes, mas dentro dos poemas há diversos apontamentos para outros universos (prefiro colocar assim). Por ser também um poeta considerado “urbano”, Piva usa nas situações que descreve, lugares conhecidos, sobretudo de São Paulo, alimentos, obras e até uma marca de vinho. Por aí.
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A VIDA ME CARREGA NO AR COMO UM GIGANTESCO ABUTRE
A verdade dos deuses
carnais como nós & lânguidos
não provém do nada
mas do desejo trovejante do coração
partido pelo amor
em sua disparada pelo rosto de um
adolescente
com sua fúria delicada
cruzo avenidas insones & corroídas
de chuva
minha mão alcança minha dor
presente
& me preparo para um dia duro
amargo & pegajoso
a tarde desaba seu azul sobre
os telhados do mundo
você não veio ao nosso encontro & eu
morro um pouco & me encontro só
numa cidade de muros
você talvez não saiba do ritual
do amor como uma fonte
a água que corre não correrá
jamais a mesma até o poente
minha dor é um anjo ferido
de morte
você é um pequeno deus verde
& rigoroso
horários de morte cidades cemitérios
a morte é a ordem do dia
a noite vem raptar o que
sobra de um soluço
inte poemas com Brócoli é um livro de 1981. Se aprofunda ainda mais na temática erótica numa descrição de orgias com citações de poetas e obras da literatura mundial. Piva entra nas questões das orgias como rituais tribais, já associando sua ligação intensa com o xamanismo. Piva busca também na mitologia grega alguma sustentação para seu discurso andrógino. São poemas curtos que se pertencem.
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VINTE POEMAS COM BRÓCOLI
última locomotiva. gregos de Homero
sonhando dentro do chapéu de palha
última vozes antes dos lábios &
dos cabelos. sonoterapia voraz.
você adora as folhas que caem
no lago escuro
este é o banquete do poeta
sempre
querendo
penetrar
no caroço
da verdade.
nariz do garoto negro apontando para
a praça apinhada de tucanos sambistas
você tranca o planeta
Baudelaire sangrou na ponte negra do Sena
molécula procurano a brecha do
universo & suas trezentas flores.
assim é a lucidez
o swing das Fleurs du Mal.
completa tortura roendo a
realidade
&
l’immense gouffre.
todas as paixões / convulsões no
espelho. Baudelaire & ses fatigues
rumo à pálida estrela.
Considerada sua obra mais caótica e ensandencida, Quizumba, é um livro escrito depois de 20 poemas com Brócoli. O poeta se encontra com Dante, Riobaldo, cita Exu, e faz muitas homenagens a Jorge de Lima. Alguns poemas são interessantes na forma, parecem listas, cujos “itens” variam de grande achados poéticos a nomes de poetas e figuras da literatura. Quizumba é um bastante provocador.
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VENUS 9
Conversa com Mautner & Jacobina no Ponto Chic / Maracatu que
Gil gravou com voz de crioulo de Quilombo / tradição Villa-Lobos /
dança do índio branco / formidável veneno de pantera / o cometa
toma Crush / Califórnia Sunshine de novo atrás da igreja / guerrilheiro
de emoções / Augusto dos Anjos / San Juan de la Cruz / figuras de alta
voltagem do espírito + Bloody Mary matinal / queria estar no Rio no
Espírito Santo queria comer empadinha na onda preferida de Iemanjá
/ Dante afinou o piano ocidental no buraco ameno do purgatório /
figuras suaves figuras mortas figuras suaves / Claudio Willer olhando
em procissão no presépio da história / este espelho ampliou Napoleão /
lente polida por Espinosa / calpestato dagli Ebrei / mínimo o bater
de asas do anjo da história ouvido pelo conde Von Krosigk / moquecas
de malefícios / na boca torta da tarde / lagartos perdem o fôlego /
as horas espiam.
Ciclones é um livro de 1997. Impressionante mudança. Do Piva fervoroso, estendendo o discurso ao máximo nos primeiros livros, vemos agora um Piva sintético, commuitos poemas curtos, ainda explorando sua temática característica e seu surrealismo. Neste livro, Piva está com 60 anos, utilizando sua profunda influência com o xamanismo, e pensa, sobretudo, que os rituais da umbanda e do candomblé são o retorno ou o modo de manifestação do xamanismo.
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POEMA VERTIGEM
Eu sou a viagem de ácido
nos barcos da noite
Eu sou o garoto que se masturba
na montanha
Eu sou o tecno pagão
Eu sou o Reich, Ferenczi & Jung
Eu sou o Eterno Retorno
Eu sou o espaço cibernético
Eu sou a floresta virgem
das garotas convulsivas
Eu sou o disco-voador tatuado
Eu sou o garoto e a garota
Casa Grande & Senzala
Eu sou a orgia com o
garoto loiro e sua namorada
de vagina colorida
(ele vestia a calcinha dela
& dançava feito Shiva
no meu corpo)
Eu sou o nômade de Orgônio
Eu sou a Ilha de Veludo
Eu sou a Invenção de Orfeu
Eu sou os olhos pescadores
Eu sou o Tambor do Xamã
(& o Xamã coberto
de peles e andrógino)
Eu sou o beijo de Urânio
de Al Capone
Eu sou uma metralhadora em
estado de graça
Eu sou a pomba-gira do Absoluto
Para Piva “Eu, como o Pasolini, não acredito na dialética. O que existe são oposições irreconciliáveis. Acredito naquilo que o Freud afirma em O mal-estar na Cultura: existe um movimento cada vez mais restritivo, não só da vida sexual, mas da subjetividade de modo geral.Quanto ao parentesco entre arte e loucura, acho que o “desregramento de todos os sentidos”, de que falava o Rimbaud, refere-se não propriamente à loucura, mas a um estado de transe. Um estado de transe xamânico, porque Rimbaud era um alquimista, um xamã avant la lettre, que propõe mesmo a “alucinação das palavras”; o termo é dele”.
No blog, lugares onde meu livro CORPO ABERTO pode ser comprado http//pedrolago.blogspot.com
A PROPÓSITO DE PASOLINI
quando você encontra um garoto
perto de um chafariz
& ele se curva para a água
tal qual em Caravaggio
sombra selvagem do crepúsculo
com o sol turquesa
nos cabelos ouriçados
é o momento doente
como um solfejo pagão
depois da orgia
é assim que crescem os deuses
na primavera e seu ardor melancólico
são os anos os povos os garotos videntes
que não broxaram sob as tenazes
dos cegos que perderam a Palavra
Sobre sua poesia, Piva diz que “há uma única forma de se ler os jornais e várias formas de se ler um poema. Cada pessoa enxerga uma coisa diferente na minha poesia, pois, no fundo, ela é muito rica e permite uma enorme variedade de interpretações. A qualidade do arremate literário não exclui a radicalidade das experiências que estão na origem do poema. Mas acho que essa valorização excessiva da fatura pode revelar um certo preconceito contra o dionisismo, a idéia de que o dionisismo é algo superficial. Está errado. O dionisismo é uma das religiões mais profundas que já existiram. Basta ver que uma das suas manifestações produziu o teatro”.
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ESTRANHOS SINAIS DE SATURNO
o fundo do corredor
cheio de ursos mal-assombrados
garoto porco
garota porca
observam o
porco das sombras
transformando no monstro da mídia
os sete sanduíches capitais
o menino estufado de macaco
derruba o disco voador
com um nocaute voador
com um norte da Terra
no festival anual de Sacis
na feira de cerveja Paracelso
na República de Salò
o ditirambo canta na escada
você disse que o brasão dele é
um cisne
onde o Inferno está amarrado
onde o Paraíso voa com a Lua
nos trenós de arroz-doce
no castelo hipnótico de Luís II da Baviera
os imperadores romanos encenaram
a crueldade surrealista
no Teatro Colossal do Coliseu
as feras dançavam no submarino
da religião Pagã
até o último suspiro do lobo da estepe
quando a noite levava os adolescentes
pra cama dos gladiadores
o formigão eletrônico & o Apito selvagem
trocaram de roupa & de farofa
& fizeram
Ebó pra Hermes
no calafrio da palhoça
“A universidade é o túmulo da poesia. Eu só fiz curso superior para poder dar aula. Não podia lecionar com dois livros publicados. Lecionei por quinze anos. Tudo o que me deram para ler na universidade ou era sucata ou eu já havia lido. Insisto em que as universidades devem ser transformadas numa coisa viva, isso é, num terreiro de candomblé. Com pais-de-santo, ou xamãs, no lugar dos professores, de modo a propiciar aos alunos uma verdadeira iniciação. As universidades precisam de um corpo docente e um corpo indecente”. Por aí.
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O CHUTE DO MANDRIL DA MEIA-NOITE
O Império Romano
era assim:
folhas revoltadas revoando
na Via Appia
garotos & garotas cochilando
no colo do imperador
deuses sacralizando
todos os poros
da Terra
o poeta Virgílio ganhou
um garoto de
Augusto
o gladiador PIVOTUS
mergulhou na bacanal
& até hoje não veio
à tona para
tomar fôlego
Eis que chegamos ao final de mais uma antologia poética. Neste mês que passou, percorremos a poesia do Roberto Piva, surrealista, dionisíaco ao seu modo, provocador e necessário no cenário da poesia brasileira. Além de poeta, foi produtor de shows de rock e ensina xamanismo. Semana que vem, teremos um mês especial, onde, tentarei unir duas das minhas grandes paixões, a poesia e o teatro. Até lá.
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SOBRE DIONYSOS
Dionysos, na Grécia Antiga, era o Deus da vegetação, da orgia, do
vinho, da anarquia. Pra começar a falar em Ecologia, precisamos
iniciar a gira invocando Dioysos, que traz a renovação da primavera
& da vegetação.
É importante lembrar Dionysos neste momento em que a Igreja
Católica nos impõe São Francisco de Assis como patrono da Ecologia.
Muitos ecologistas caíram neste conto do vigário, a Igreja Católica
depois da Revolução Francesa & agora, com sua Teologia da Libertação
(ou da Empulhação?), está do lado dos partidos chamados de “esquerda”
& dos trabalhadores.
A Igreja Católica só pode viver à sombra do Poder, qualquer Poder.
No Brasil, quando chegaram as caravelas de Cabral, o primeiro ato
dos padres foi um ato antiecológico: cortaram a primeira árvore brasileira
para fazer a cruz da primeira missa.
Ato seguinte converteram & vestiram os índios para melhor escravizá-los
Por isso inaugurando esta coluna gritamos nosso Evoé a Dionysos patrono
da Ecologia, da anarquia, do vinho & da orgia.
É preciso não confundir Ecologia com jardinagem.
A Ecologia é uma ramificação da Biologia, que estuda as interações entre
os seres vivos & o seu ambiente.
Nos anos 60 quando eu falava de Ecologia, a resposta das pessoas, que se
amontoavam em bandos à direita & à esquerda, era sempre uma profissão
de fé na própria mediocridade. “Com tanta gente passando fome, esse cara
vem falar de natureza”. Como se a vida do cretino não dependesse exatamente
do equilíbrio ecológico. Os trabalhadores têm a CUT, a CGT. A onça pintada
não te sindicato. Os rios não têm sindicato. O mar não tem sindicato.
Eles terão agora o seu Sindicato neste cantinho. Crie você também com os
colegas do bairro, do serviço, do clube, um SINDICATO DA NATUREZA.
Nosso lema será sempre AMOR, POESIA & LIBERDADE. A diversidade é a
Verdade. Viva a diferença! Evoé!
João José de Melo Franco
João José de Melo Franco nasceu em Barretos, interior de São Paulo, no dia 10 de agosto de 1956, às 10:30 da manhã. Filho de Àlvaro e Vera de Melo Franco, o nascimento se deu na casa dos avós maternos. Dois anos depois, muda com a família de Barretos para Indaiatuba, também em São Paulo. Neste mês, teremos a honra de percorrer a poesia de João José de Melo Franco. Vamos lá!
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PÉRIPLO
É noite e as vísceras ainda empurram a máquina de ser.
É noite e o ser insiste , víscero, no coexistir.
É noite e a noite sonha e os sonhos insistem em vir.
É noite e ser ou não ser redunda, é uma velha canção.
Mas, que é a vida senão velha e canção?
Eis aqui… o coração do ator e encena um velho ato…
São velhas palavras, velhas roupagens.
Não resolvemos, persona, o que fomos nem o que
seremos.
Ser, não ser, talvez o nada…
Morrer, dormir, sonhar…
Morrer, óbvio ato.
Dormir, enquanto persistir.
Sonhar… périplo mar! périplo mar!
Em 1973, João José se integra ao movimento estudantil secundarista, participando ativamente da vida política estudantil. O desenvolvimento dentro da linguagem da poesia se dá já no ano seguinte, quando, tendo lido, apreendido e definido como base de sua linguagem os poetas Vinicius de Moraes, Mário de Andrade, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Fernando Pessoa, Augusto dos Anjos e Rilke, publica seus primeiros poemas no jornal do Centro Acadêmico do Colégio Equipe. Também nessa época, paticipava ativamente do Movimento Cineclubista, que realizava sessões com filmes contra a ditadura.
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GLÓRIA
Porque só tu destruiste todo rastro de incerteza
e jogaste fora o coração como um caco de xícara
e o chá derramado como sangue
sobre o livro de Maiakovski
e as contas do colar de falsas pérolas
pelo chão de madeira tão clara e escorregadia
A mancha de sangue é um marco no tempo
se teceis tudo em comparação
“isso como aquilo”
Como rosas, meu bem, abandonadas no jardim,
sufocadas, desfolham como olhos e lágrimas
e já não podem seus espinhos perfurar meus dedos
O amor, minha querida,
é como o corpo de Maiakovski balançando
na sombra da corda de Iessenin
Reprodução de mundos!
as pérolas
e o caos lá onde esteve o coração
Ó Glória! Ó Esperança! Ó Glória!
O espírito vive por antecipação
na espera de um redentor!
Os anos setenta são de muita agitação na vida do poeta. Em setenta e cinco conhece o cineasta paulista Roberto Santos, com quem realiza vários trabalhos e do qual será amigo e colaborador até sua morte em oitenta e cinco. Porém, no mesmo ano, João José é detido pelo DOPS, após sua participação na missa de sétimo dia do jornalista Vladimir Herzog, assassinado pela ditadura, e é fichado por suspeita de participação em movimentos de esquerda, inadmissíveis para o Governo Militar.
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CERIMÔNIA
Alhures onde estará agora
como se fora uma bola de fogo
Os corredores negros, tão negros que as paredes
se enlaçam no nada e desaparecem
e teu corpo, incandescente, brilha e refulge de orgulho
cósmico
entre ataúdes que navegam solenes no vácuo
perpétuo dos amanhãs
Este universo incriado, que habitas em meu sonho,
dá a ti, poeta morto, novo rumo biológico
se te entrelaças em meus átomos, como ideia,
e preenches meu corpo pelo simples ato da aspiração
Em cada ato de minhas mãos refulge o brilho do teu
olhar,
o pendor de tuas paixões, o calor de tuas amadas
e quando asado verso arremesso às paredes do universo
como seta de sentido e verdade e beleza
é a teu corpo que procuro
Átomos do universo, encontrai-nos!
na pobreza simples (abastada solidão)
na saúde de Cristo e Dioniso, na saúde
dos fazedores de vinho
e à doença atira as carnes
quando a morte, derradeira cerimônia,
de belos sonhos nos separe!
No final dos anos setenta, mais precisamente em setenta e sete, o poeta integra o grupo estudantil Refazendo, que se opunha ao grupo radical Liberdade e Luta. No mesmo ano, João José conhece aquele que seria seu grande amigo, o poeta Juvenal Juvêncio, com quem tem forte relação literária. Ainda estudando Cinema na USP, João José ingressa no curso de Filosofia da USP. Definitivamente seu caminho intelectual ganhava corpo. Os poemas dessa semana foram extraídos do livro Périplo, com poemas de 1984 a 1994.
poema O Grande Livro no blog http://pedrolago.blogspot.com
A VIZINHA
As mãos, intocadas,
apanham o ar da noite gelada.
À janela expõe o coração singelo
embora a idade não lhe permita a doçura
e a meiguice do olhar.
Dizem: não fica bem para uma mulher,
depois de certa idade, carregar nos olhos
o fulgor das flores de laranjeira.
No ar gelado do cômodo solitário
os bicos dos seios endurecem e o
oco vão entre as pernas é como se não portasse
a áspera cor de certos desejos…
Oco no olhar, é como se não houvesse
úbere e já não pudessem cantar
os pássaros na primavera.
No entanto, porque é mulher, e porque
a cerca a cidade, que também é feminino,
aplaca o tempo de um só golpe
com o simples sal do chorar.
No início dos anos 80, João José publica seu segundo livro Esse louco desejo, um livro que homenageia os poetas do Modernismo. Conclui o curso de filosofia em 81, publica seu terceiro livro Amor-perfeito, em 82, e conclui o curso de Grego e Latim. Nesse momento houve uma guinada intelectual, a partir de então, João José percorreria uma linha metafísica em sua linguagem. Vai para França, onde faz mestrado, estudando os fenômenos linguísticos, tendo como base a canção de gesta Chanson de Roland.
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OCASO
Hoje, uma poderosa tristeza,
pantanosa, irremediável, invadiu-me a alma.
Ou, mais, brotou dela, translúcida e terrivelmente bela.
E cresceu tão rápido, tão segura de si,
tão lamentavelmente cega,
rasgando meus pensamentos mais ternos.
Não era a morte,
pois a morte me é terna neste entardecer desértico,
em que caminho para além das costas rochosas,
entre intervalos de areias lambidas pelo mar.
Que maldição a tua,
que vem me visitar no funeral de mais um dia,
em que incansavelmente entrego-me absorto de agonia,
mal dando para colher-te as lágrimas de viúva,
tão desejada intocada esposa.
Abrupto me vem do norte o chamado,
de pôr minha cabeça a prêmio,
na guilhotina prateada pela clara luz do Cruzeiro,
estica-se o pescoço pronto para o abate,
a noite, o torniquete e, por fim,
o alarde das aves cantoras,
que me bicam o cérebro inerte,
mergulhado na seca sopa de mais um ocaso,
o esposo de uma deusa dolorosa,
que chora de seu amor.
A metade dos anos 80 foi de estruturação intelectual e de expansão, em virtude do término de alguns ciclos acadêmicos e de viagens para a Europa. Em 84 conclui sua tese de mestrado e segue para a Itália, onde estuda semiótica na Universidade de Bologna. Enquanto isso, é publicado no Brasil o Pequeno Dicionário de Termos Literários, essencial peça para a compreensão do universo literário, tendo como sabe a literatura brasileira com especial devoção à poesia. Não fica por aí.
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CAFÉ COM MEU PAI
Debaixo de um pé de café
sepultei o corpo de meu pai,
com o rosto voltado para as ramas,
de modo que seus olhos
seguissem sempre num horizonte verde,
e as narinas, um cheiro doce,
capaz de matar sua sede.
Também para que tivesse sombra nos dias de sol
e muitos companheiros de viagem,
como ele, plantados no cafezal.
Colhe agora o que deu em vida
e o que dele ficou inútil, o corpo,
assim continua a ainda palpita.
Agora que envelheço,
bebo café de outro jeito.
Não só para abrandar o peito,
não só para acender o pito,
mas para rever seu rosto,
um cafezal, e assim existo.
Em 1985, João José segue para a Alemanha, onde inicia doutorado com o linguísta Eugenio Coseriu. É publicado no Brasil o Dicionário Universal Três, com biografias de personalidades da história universal, escrito em parceria com seu amigo Juvenal Neto e com Ignácio de Loyola Brandão, e que será, ate 2006, sua última publicação. Conclui o doutorado em 87 e retorna ao Brasil, onde tentará até 91, a carreira como professor.
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MANHÃ
Esta manhã nasceu do silêncio.
Nenhuma ave gorjeia, nenhum vento agita a onda, o mar
é um espelho.
Ouço distante teus passos pela casa.
Teu sol ameaça levantar-se, lança um tímido amarelo
entre os verdes além da janela e o mar…
Sei que estou ali, apoiado no beiral, esquecido da
paisagem
os olhos assistindo, admirados, o agitar de tuas mãos,
e o faro a ir e vir do teu perfume ao odor do café,
nascendo de uma medida perfeita,
como se soubesses quantas partículas de pó negro
cabem exatos numa gota de água quente.
E te sinto enrubescida de saber que meu olhos te seguem.
Vejo-te preocupada de não mostrar o quanto sentes,
de modo a evitar que o amor desabe sobre ti
e te paralise os afazeres,
numa tão grande alegria que poderias gritar o teu espanto
e chorar todas as manhãs em que não tiveste a chance de a
isto renunciar.
m 1994, João José abandona a escrita e se volta completamente para a publicidade. Ficaria 10 anos sem escrever, dedicando-se à leitura e a estudos sobre a psicologia de Jung. Agora em 2005, volta a escrever poemas, e seu envolvimento na carreira publicitária diminui, contribuindo apenas esporadicamente. Em 2006, muda-se para o Rio de Janeiro, onde conhece a poeta e editora Thereza Christina Rocque da Motta, com quem começa a trabalhar como editor pela Ibis Libris.
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DIÁRIOS DE AMOR PERDIDO XIII
Ele esperou…
Tanto, tanto, tanto…
E esperou de tal modo,
como se fora sua sina e o mais íntimo fado,
que não mais lembrava quantas vezes virara a ampulheta.
E a virara tanto, tanto, tanto…
que apagou a hora e afastou o pranto,
até se transformar no girar dessa ampulheta e, depois,
na areia que caía e recaía e, finalmente,
no deserto de onde trouxeram a areia.
Assim, homem-deserto,
na mais negra de suas noites,
fitou perplexo a abóbada repleta de astros,
onde divisou as constelações copulando há bilhões de
anos,
muito antes da espécie humana florescer sobre a terra,
então imarcescida…
Assim, homem-deserto,
entendeu, pela primeira vez, que a vida é portal e passagem
e, por isso, já passado…
Que do passado a saudade nos aferra e aprisiona
e o tempo é seu cárcere.
Todos os homens do mundo já foram esse homem.
Após 20 anos de ausência no mercado editorial, João José, morando no Rio de Janeiro, publica O mar de Ulisses (cujos poemas vimos na semana passada), livro este que tem como base a Odisséia de Homero. Em 2007, publica Diários de Amor Perdido (poemas desta semana), com poemas escritos na Alemanha e entre 2006 e 2007.João voltara definitivamente ao mercado editorial, publicando essencialmente poesia.
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ÊXODO
Reconstruo meu cérebro com o que restou de ti,
como se caminhasse nas ruas
com a massa inerme nas mãos.
Como se em mim já não coubesse mais
o instrumento com que organizei paisagem
que fiz com o que não pude ver,
como se nada mais sentisse do que fiz ou fui.
Assim, não parece tão má a enorme desesperança,
em que o desesperar não mais aflige a palavra amor,
que agora flutua inerte entre meus dentes sem fome,
como se soubessem de uma morte sem medo,
e para ela sorrissem, vazios,
como no vazio me dissipo,
através do amor que por aí deixei.
João Jose diz que “nunca assinou manifestos literários, nem viveu vanguardas”. Foram os “bondes que perdeu”, disse ele no prefácio de Homens do Povo, livro ainda inédito. Nos anos 70, o jovem João comprava seus livros na Livraria Ler, na Praça da República, onde tinha crediário. Também comprava livros no Sebo Coimbra, na Benjamim Constant. Tudo em São Paulo. João elegeu como sua vanguarda literária os poetas Vinicius de Moraes, Mário de Andrade, Drummond, Bandeira, Murilo Mendes, Jorge de Lima e Augusto dos Anjos, pois “era o que tinha”. Veio a saber o que era Concretismo no final dos anos 70.
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ACEITAÇÃO DA DOR
Estive à tua porta.
Eu tinha sede e me era cara a tua imagem.
Eu abri os olhos e não te vi.
Já não havia ali a tua imagem.
Eu devia ter vivido quando ainda havia a coisa que vive.
Agora procuro e estou no escuro de um portal
que não é mais o teu, mas o meu.
Por isso estou só e sinto medo por tudo que não posso ver.
Há um terror nesta vida que só vem na solidão.
Eu senti que sempre foi assim, mas jamais me entreguei.
Agora, vem como a cara da morte, que não pode ver.
Quero gritar, mas tornou-se oco e sem sentido.
No entanto, é preciso caminhar pelo vale da morte,
é preciso morrer sem pronunciar ais,
reencontrar na miséria de tantos caminhos já percorridos uma
chama,
saber que mais um caminho veio e não há ninguém onde
descansar.
Estrela que tudo reúne,
a dor começou a caminhar.
Ergue o fogo de tuas labaredas para além do visível,
e permite, por hora, ser um pálido reflexo
do fulgurante brilho, que espero, mísero e inferior,
ao fim tocar.
João diz que “não sabe a qual geração de poetas pertenceu”. Tendo sido um rapaz pobre, e por isso, objetivo nos estudos, e ainda ter tido que trabalhar desde cedo, não teve muito contato com a chamada Geração Mimeógrafo que surgia nos anos 70, mesmo tendo conhecido alguns poetas. Sua grande influência foi o poeta Juvenal Neto, única figura com quem, de fato, compartilhava ideias sobre poesia e literatura. Porém, o amigo teve morte precoce em 1991.
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OGUM
A espada, o arado e a enxada – de ferro ele fez.
A espada previne,
o arado rasga a terra,
a enxada tanto junta quando cobre.
E então há paz, a terra é arada
e é deitada a semente.
Quando Iansã faz sexo, chove.
E é assim que sobre o pacífico dom da terra
o fruto vem e alimenta o homem.
E é porque o fruto vem, que dão de fazer guerra,
a maldição de que tudo o que dá vida,
dá morte também.
A espada, pendor de justiça, é um medo que vira arma,
e para ela não há sangue que baste
para cobrir o campo que o arado fez
e sufocar a semente que a enxada bem escondeu.
Em toda paz há um gosto de sangue sobre ferro
e o nome disso é fome.
João José diz que o máximo de envolvimento que teve com um conjunto de ideias, ou grupo literário, foi a Metafísica. Leu Pessoa, Rilke, Eliot, Pound, Éluard, Valéry, os filósofos,Wittgenstein, Heidegger, Nietzsche, clássicos como Homero, Sapho, Píndaro, Eurípides, Sófocles, Virgílio, Ovídio, e os modernos, Pedro Abelardo, Vico, Bruno, e Balzac, e Goethe, e Joyce, e Camus, e um sem fim de autores e obras. Mais sobre a Metafísica na semana que vem.
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xangô
Ulisses, rei e guerreiro grego, que vagou por vinte anos
enfrentando fortes batalhas e vivendo gloriosas aventuras,
amava somente a uma mulher, a doce e fiel Penélope. Xangô,
guerreiro e rei de Ifé, amava logo três: Iemanjá, a mãe, Oxum,
a amante, e Insã, a companheira. E por elas, Xangô, como
Ulisses por sua Penélope, lutava até. Ulisses e Xangô, ambos
reis, guerreiros e astuciosos. Mas isso é tudo que os assemelha
e em nada mais são par a par. Porque Ulisses amava somente
a uma mulher e Xangô amava logo três. Porque Ulisses, que
muito lutou, e que por isso virou semideus, entrou para a
história e de suas lutas faz inspirar, mas Ulisses já não luta,
Ulisses não luta mais. Já Xangô, que também muito lutou,
ainda segue a lutar, e luta ainda pelas três amadas, e é por isso
que ainda vive e é o santo desse lutar, que todo homem bem
conhece, que é a luta do amor, que é a luta do amar. E essa é
a justiça de Xangô, a justiça do amor, que todo homem bem
conhece e, como o próprio Xangô, crê que por ela vale brigar.
E essa é uma briga que todo mundo entende. Não é à toa que
Xangô, comparado a Ulisses, é muito mais popular. Ao menos
aqui, por essas bandas, em que por tudo se luta e na luta segue
a sonhar.
Sobre sua relação com a poesia e a metafísica, João José diz que: “Lidar com uma poesia, que tem em sua base o homem real, de carne e osso, mas que também toma o corpo da humanidade como pano fundo, dando a ele um senso comum que transcende o imediato e o eleva à condição de catalisador de forças mais amplas, de sentido cósmico e espiritual, é o mesmo que fazer o caminho inverso das religiões, que, no mais, desejam sempre levar o homem a deus.” Hoje, dois poemas de Os Homens do Povo, livro ainda inédito.
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GEOGRAFIA
Não vai ler além e o que a paisagem sempre esconde,
para lá da janela, em que não há mundo,
só o desenho ideal da tarde em morte,
as palavras que se perdem no vôo dos pássaros,
inclassificáveis pela distância,
e logo os olhos
estarão a obliterar a geografia do que se não pode tocar
com os anseios do ego-olhar.
Em sombras, geografia vã de tua essência,
a casa inútil em que paralelamente existes,
como paralelas e sem sentido são as janelas nas paredes
e o mundo nelas recortado, aparentemente belo e sem dor,
adornado pelo alarido de crianças e o latir dos cães.
Na outra janela, a outra paisagem,
menos colorida, mais profunda, aceno de eternidade,
a misteriosa cortina dos sonhos,
que fechamos à espera.
CIDADE
Na madrugada bateram em minha porta.
Eram os mortos.
Clamavam por algo que pudesse lhes matar a sede.
Eu bem sabia não ser água
o que havia de matar-lhes a sede.
Eu bem sabia a sede que sentiam
e que água alguma há para matá-la.
Era o cheiro da cidade o que queriam,
o cheiro da fuligem,
o senso pleno na vertigem dos cheiros
nascidos de milhares de fontes de suor.
O cheiro de suas casas,
dos armários entulhados de suas coisas,
que, sem eles, parecem inúteis e são dadas,
por misericórdia, ou para os esquecerem,
e para se livrarem de seus cheiros mortos.
Homens que foram, só agora o sabem
do faro que os guiou nessa vida de porco-odor.
E porcos que foram, só agora se sabem
seguidores da vida e de seu acre odor.
Homens-porcos que foram,
farejam agora o verdadeiro cheiro do corpo,
do seu amor-porco, do seu apego pútrido e louco,
matéria de sua carne histórica,
nos chiqueiros quânticos dessas ruas insones.
Esquecidos habitantes dos umbrais…
Por seus guinchos bestiais abro meu peito e canto,
um hino de horror a esta fétida morada,
testemunho de uma alma incurável e franca,
meu bafo poético, podre por perenidade,
pá de cal, grãos de terra, pétalas semimortas,
e minhas palavras, olfato e tato, minha alavanca.
Breve história: Conheci João José no café de uma livraria no Leblon. Eu estava um pouco angustiado por não ter recebido resposta de uma editora para o projeto de meu livro. Ele estava sentado com a poeta e minha amiga Juliana Hollanda, que o me apresentou. Contei a ele sobre o livro e ele me disse: “manda para mim que resolvo em dois tempos pra você”. Dito e feito. Além da edição do livro, uma amizade se iniciou. Através dele li Virgílio, Luis de Góngora, Horácio, Thereza Christina Rocque da Motta, Afonso Henriques Neto, Alphonsus de Guimaraens Filho, Ovídio e muito de mitologia grega. Mais ou menos por aí.
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CADERNO DE ANOTAÇÕES
Nada cumpri na vida senão em palavras.
As árvores que plantei feneceram,
ou por outras, mais afeitas ao solo,
foram ensombreadas e finalmente esquecidas.
Os filhos, não os tive, ou, talvez não os saiba,
são como o pai, errantes viajantes de desertos.
Os livros foram feitos, mas não se fizeram,
como se fazem a si mesmos os livros,
e até os vi vendidos por peso em troca de algum dinheiro,
e este, sim, talvez tenha dado alimento a alguém.
Hoje, ante as inúmeras quedas do caminho,
ou a contínua e desafortunada busca do ouro,
conheço bem mais o chão,
ou, talvez, a ele me assemelhe mais agora.
Hoje, que me sei mais só,
vejo-me livre de ter gerado uma prole de solitários,
ou, talvez, inconscientemente, os tenha por mortos,
e, assim, de modo inconsciente, ainda os ame.
Hoje, a lide com as palavras não mais se sabe livro,
e quer seja devotada indiferentemente
a traduzir a crueldade ou a beleza da vida,
busca instintivamente, modo super-humano,
a simplicidade de um caderno de anotações,
onde as palavras, perdidas as isenções da poesia,
e adquirida a translucidez no rosto e no espelho,
fluem como sangue, o rio-tinta.
Eis que chegamos ao final de mais uma antologia. Nesse mês, conhecemos um pouco da poesia de João José de Melo Franco, poeta metafísico, editor e amante do Rio de Janeiro. Veio de Barretos, estudou semiótica, grego e latim, e que se considera sem geração. Semana que vem entraremos num outro universo poético, com outras proposições, outras cores, outras facetas da poesia, enfim, outros poemas. Até!
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ORAÇÃO AOS POETAS DO AMOR
A minha amiga, Glaucia Dunley.
Quisera fossem as orações tristes poemas de amor.
Assim, mesmo sem amor, os amantes teriam seu consolo
e certa esperança de que curassem as feridas
as palavras poéticas, proferidas como se fossem as de todo o povo.
Não é o mesmo que prometeram os teus santos, senhor?
Agora e na hora de nossa morte?
Então, não morre também o amor?
Os poemas de amor, os mais tristes, são como o animal sacrificado,
que por nós morre, e nos purifica e, embora breve,
nos dá um chão no céu, para nossos passos incertos
e nossa fé apócrifa, como a vossa mão, senhor,
em nossos enganos, a redenção de nossos sonhos,
mesmo a quem nunca o encontrou, o amor,
e nunca o deixou de procurar, mesmo o amor apedrejado,
e mesmo o amor traído, que nos cegam o coração,
cabem todos em um poema triste de amor,
ainda que não tenha a cura, nem o mistério do perdão.
João Cabral de Melo Neto
João Cabral de Melo Neto nasceu no dia 9 de janeiro, no Recife, no ano de 1920. Nasceu na rua da Jaqueira, que depois se chamou Leonardo Cavalcanti. Segundo filho de Luiz Antônio Cabral de Melo e de Carmem Carneiro-Leão Cabral de Melo. Primo, pelo lado paterno, de Manuel Bandeira, e pelo materno de Gilberto Freire. Neste mês, temos a honra e a responsabilidade de percorrer a obra deste incrível poeta brasileiro. Vamos ver no que dá!
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DENTRO DA PERDA DA MEMÓRIA
Dentro da perda da memória
uma mulher azul estava deitada
que escondia entre os braços
desses pássaros friíssimos
que a lua sopra alta noite
nos ombros nus do retrato.
E do retrato nasciam duas flores
(dois olhos dois seios clarinetes)
que em certas horas do dia
cresciam prodigiosamente
para que as bicicletas de meu desespero
corressem sobre seus cabelos.
E nas bicicletas que eram poemas
chegavam meus amigos alucinados.
Sentados em desordem aparente,
ei-los a engolir regularmente seus relógios
enquanto o hierofante armado cavaleiro
movia inutilmente seu único braço.
O pequeno João passa a infância em engenhos de açucar. Primeiro no Poço do Aleixo (em São Lourenço da Mata), e depois nos engenhos Pacoval e Dois Irmãos (município do Moreno). No ano de 1930, a família se muda para o Refice, onde o pequeno João faz o curso primário. Em 1935, é campeão juvenil de futebol pelo Santa Cruz Futebol Clube. Já aos dezessete, trabalha na Associação Comercial de Pernambuco e depois do Departamento de Estatística do Estado. A literatura viria depois.
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A MULHER NO HOTEL
A mulher que eu não sabia
(rosas nas mãos que eu não via,
olhos, braços, boca, seios),
deita comigo nas nuvens.
Nos seus ombros correm ventos,
crescem ervas no seu leito,
vejo gente no deserto
onde eu sonhara morrer.
Terei de engolir a poeira
que seus cabelos levantam
e pousa na minha alma
me dando um gosto de inferno?
Terei de esmagar crianças?
Pisar as flores crescendo?
Terei de arrasar as cidades
sob seu corpo um cemitério
onde um seu pé plantarei.
Vou cuspir nos olhos brancos
dessa mulher que eu não sei.
Em 1938, João Cabral começa a frequentar a roda literária do Café Lafayette, onde conhece o intelectual Willy Lewin e o pintor Vicente do Rego Monteiro, que regressara de Paris em virtude da guerra. O jovem, ainda sorvendo de suas companhias, iria ter grande curiosidade no universo da pintura. Um ano depois, viaja a serviço para Belém do Pará, porém, a viagem de maior importância aconteceu depois. Os Três Mal-Amados foi publicado em 1943, depois de seu primeiro livro, Pedra do Sono, e se tornou bastante conhecido, sobretudo a fala de Joaquim.
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Os Três Mal-Amados
fala de Joaquim
(trechos)
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato.
O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço.
O amor comeu meus cartões da visita. O amor veio e comeu todos os papéis
onde eu escrevera meu nome.
(…)
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas.
O amor comeu metros e metros de gravatas.
O amor comeu a medida dos meus ternos, o número dos meus sapatos,
o tamanho de meus chapéus.
O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
(…)
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas.
Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas meus raios-X.
Comeu meus testes mentais,meus exames de urina.
(…)
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia.
Comeu em meus livros de prosa as citações em verso.
Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos
(…)
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite.
Meu inverno e meu verão. Comeu meu silencio, minha dor de cabeça,
meu medo da morte.
Em 1940, João Cabral, ainda com vintes anos, viaja com a família para o Rio de Janeiro, então, capital do Brasil. No Rio, conhece o poeta Murilo Mendes, principal referência de poesia na época, que o apresenta a um poeta que despertara interesse no jovem João, o poeta era Carlos Drummond de Andrade. Ficaram amigos. O encontro foi realizado num círculo literário no consultório do poeta Jorge de Lima. João conhecera a segunda geração do modernismo.
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A CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Não há guarda-chuva
contra o poema
subindo de regiões onde tudo é surpresa
como uma flor mesmo num canteiro.
Não há guarda-chuva
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que tritura como um desastre.
Não há guarda-chuva
contra o tédio:
o tédio das quatro paredes, das quatro
estações, dos quatro pontos cardeais.
Não há guarda-chuva
contra o mundo
cada dia devorado nos jornais
sob as espécies de papel e tinta.
Não há guarda-chuva
contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.
Em 1941, João Cabral participa do Congresso de Poesia do Recife, onde apresenta Considerações sobre o poeta dormindo. Um ano depois viria o primeiro livro, Pedra do Sono. Meses depois, no Rio de Janeiro, é convocado para servir à FEB, porém, é dispensado por motivo de saúde. No Rio, João não perde tempo e começa a frequentar as rodas do Café Amarelinho e do conhecido Café Vermelhinho, onde iam intelectuais, políticos e outras personalidades como Tomás Santa Rosa, Carlos Castelo Branco, Carlos Drummond e outros. O poeta estava definitivamente inserido.
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PEQUENA ODE MINERAL
Desordem na alma
que se atropela
sob esta carne
que transparece.
Desordem na alma
que de ti foge,
vaga fumaça
que se dispersa,
informe nuvem
que de ti cresce
e cuja face
nem reconheces.
Tua alma foge
como cabelos,
unhas, humores,
palavras ditas
que não se sabe
onde se perdem
e impregnam a terra
com sua morte.
Tua alma escapa
como este corpo
solto no tempo
que nada impede.
Procura a ordem
que vês na pedra:
nada se gasta
mas permanece.
Essa presença
que reconheces
não se devora
tudo em que cresce.
Nem mesmo cresce
pois permanece
fora do tempo
que não a mede,
pesado sólido
que ao fluido vence,
que sempre ao fundo
das coisas desce.
Procura a ordem
desse silêncio
que imóvel fala:
silêncio puro,
de pura espécie,
voz de silêncio,
mais do que a ausência
que as vozes ferem.
O livro O engenheiro foi publicado em 1945, custeado pelo poeta Augusto Frederico Schmidt. Neste mesmo ano, João Cabral faz concurso para a carreira diplomática, e é nomeado em dezembro. Porém, no ano de 1945, o fato mais marcante foi a morte de Mário de Andrade. Os poetas surgidos nesta geração, a chamada Geração de 45, chegariam com uma proposta mais rígida, contra as inovações dos modernistas de 22. João Cabral, mesmo sendo sendo um poeta que, esteticamente, não se filiaria a nenhum movimento, foi incluído neste grupo.
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ANTIODE
(contra a poesia dita profunda)
Poesia, te escrevia:
flor! conhecendo
que és fezes. Fezes
como qualquer,
gerando cogumelos
(raros, frágeis cogu-
melos) no úmido
calor de nossa boca.
Delicado, escrevia:
flor! (Cogumelos
serão flor? Espécie
estranha, espécie
extinta de flor, flor
não de todo flor,
mas flor, bolha
aberta no maduro.)
Delicado, evitava
o estrume do poema,
seu caule, seu ovário,
suas intestinações.
Esperava as puras,
transparentes florações,
nascidas do ar, no ar,
como as brisas.
Depois, eu descobriria
que era lícito
te chamar: flor!
(Pelas vossas iguais
circunstâncias? Vossas
gentis substâncias? Vossas
doces carnações? Pelos
virtuosos vergéis
de vossas evocações?
Pelo pudor do verso
- pudor de flor -
por seu tão delicado
pudor de flor,
que só se abre
quando a esquece o
sono do jardineiro?)
Depois eu descobriria
que era lícito
te chamar: flor!
(flor, imagem de
duas pontas, como
uma corda). Depois
eu descobriria
as duas pontas
da flor; as duas
bocas da imagem
da flor: a boca
que come o defunto
e a boca que orna
o defunto com outro
defunto, com flores,
- cristais de vômito.
Como não invocar o
vício da poesia: o
corpo que estorpece
ao ar de versos?
(Ao ar de águas
mortas, injetando
na carne do dia
a infecção da noite.)
Fome de vida? Fome
de morte, frequentação
a morte, como de
algum cinema.
O dia? Árido.
Venha, então, a noite,
o sono. Venha,
por isso, a flor.
Venha, mais fácil e
portátil na memória,
o poema, flor no
colete da lembrança.
Como não invocar,
sobretudo, o exercício
do poema, sua prática,
sua lânguida horti-
cultura? Pois estações
há, do poema, como
da flor, ou como
no amor dos cães;
e mil mornos
enxertos, mil maneiras
de excitar negros
êxtases; e a morna
espera de que se
apodreça em poema,
prévia exalação
da alma defunta.
Poesia, não será esse
o sentido em que
ainda te escrevo:
flor! (Te escrevo:
flor! Não uma
flor, nem aquela
flor-virtude – em
disfarçados urinóis.)
Flor é a palavra
flor, verso inscrito
no verso, como as
manhãs no tempo.
Flor é o salto
da ave para o vôo;
o salto fora do sono
quando seu tecido
se rompe; é uma explosão
posta a funcionar,
como uma máquina,
uma jarra de flores.
Poesia, te escrevo
agora, fezes, as
fezes vivas que és.
Sei que outras
palavras és, palavras
impossíveis de poema.
Te escrevo, por isso,
fezes, palavra leve,
contando com sua
breve, Te escrevo
cuspe, cuspe, não
mais; tão cuspe
como a terceira
(como usá-la num
poema?) a terceira
das virtudes teologais.
Aos 26 anos, João Cabral trabalha no Departamento Cultural do Itamaraty, no Departamento Político e depois da Comissão de Organismos Internacionais. Casa-se com Stela Maria Barbosa de Oliveira e, meses depois, nasce seu primeiro filho, Rodrigo. A vida do poeta começa a ficar agitada com sua ida para Barcelona, Espanha, que lhe despertaria uma imensa ternura. Lá, começa a publicar, numa tipografia artesanal, poetas brasileiros e espanhóis. Em 1947, aos 27 anos, nasce sua filha Inês. A Espanha entrara de vez na vida do poeta.
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O CÃO SEM PLUMAS
(trechos)
A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.
O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão,
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.
Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.
(…)
Entre a paisagem
o rio fluía
como uma espada de líquido espesso.
Como um cão
humilde e espesso.
Entre a paisagem
(fluía)
de homens plantados na lama;
de casas de lama
plantadas em ilhas
coaguladas na lama;
paisagem de anfíbios
de lama e lama.
Como o rio
aqueles homens
são como cães sem plumas
(um cão sem plumas
é mais
que um cão saqueado;
é mais
que um cão assassinado.
Um cão sem plumas
é quando uma árvore sem voz.
É quando de um pássaro
suas raízes no ar.
É quando a alguma coisa
roem tão fundo
até o que não tem).
Em 1949, nasce seu filho Luiz. João Cabral reside agora na Catalunha, e lá, escreve um ensaio sobre o pintor Miró, cujo estúdio frequentava. O pintor faz publicar o texto em português com suas primeiras gravuras em madeira. O Cão sem Plumas é publicado depois. Em 1952, João Cabral é removido para o Brasil para responder um inquérito sob a acusação de subversão. Escreve O Rio, com o qual recebe o Prêmio José de Anchieta. É colocado em disponibilidade não remunerada pelo Itamaraty enquanto responde ao inquérito. Arquivado o inquérito, vai para Pernambuco onde é recebido em sessão solene pela Câmara Municipal.
poema Dedos no blog http://pedrolago.blogspot.com
O RIO
Sempre pensara em ir
caminho do mar.
Para alguns bichos e rios
nascer já é caminhar.
Eu não sei o que os rios
têm de homem do mar;
sei que sente o mesmo
e exigente chamar.
Eu já nasci descendo
a serra que se diz do Jacarará,
entre caraibeiras
de que só sei por ouvir contar
(pois, também como gente,
não consigo me lembrar
dessas primeiras léguas
de meu caminhar).
Desde tudo que me lembro,
lembro-me bem de que baixava
entre terras de sede
que das margens me vigiavam.
Rio menino, eu temia
aquela grande sede de palha,
grande sede sem fundo
que águas meninas cobiçava.
Por isso é que ao descer
caminho de pedras eu buscava,
que não leito de areia
com suas bocas multiplicadas.
Leito de pedra abaixo
rio menino eu saltava.
Saltei até encontrar
as terras fêmeas da Mata.
Os anos cinquenta foram de muita produção e importantes para o desenvolvimento de sua linguagem. Foi convidado para o Congresso Internacional de Escritores em 1954, assim como para o Congresso Nacional de Poesia (não sei porque ainda não há). Publica no mesmo ano Poemas Reunidos, pela Editora Orfeu. Também é, enfim, reintegrado à carreira diplomática pelo Supremo Tribunal Federal e passa a atuar no Departamento Cultural do Itamaraty. A partir daí, sua presença se torna mais firme no cenário poético brasileiro.
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FÁBULA DE JOAN BROSSA
Joan Brossa, poeta frugal,
que só come tomate e pão,
que sobre papel de estiva
compõe versos a carvão,
nas feiras de Barcelona,
Joan Brossa, poeta buscão,
as sete caras do dado,
as cinco patas do cão
antes buscava, Joan Brossa,
místico da aberração,
buscava encontrar nas feiras
sua poética sem-razão.
Mas porém como buscava
onde é o sol mais temporão,
pelo Clot, Hospitalet,
onde as vidas de artesão,
por bairros onde as semanas
sobram da vara do pão
e o horário é mais comprido
que fio de tecelão,
acabou vendo, Joan Brossa,
que os verbos do catalão
tinham coisas por detrás
eram só palavras, não.
Agora os olhos, Joan Brossa
(sua trocada instalação),
voltou às coisas espessas
que a gravidez pesa ao chão
e escreveu um Dragãozinho
denso, de copa e fogão,
que combate as mercearias
com ênfase de dragão.
Em 1955, dois “presentes”: o nascimento de sua filha Isabel e o Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras. Um ano depois, a Editora José Olympio publica Duas Águas, livro que reúne seus livros anteriores e os inéditos: Morte e Vida Severina, Paisagem com Figuras (o poema de hoje é desse livro) e Uma faca só lâmina. No mesmo ano, é removido para Barcelona, com a missão de fazer pesquisas históricas no Arquivo das Índias de Sevilha, onde reside. Sevilla para herir disse o Lorca uma vez, e o Cabral também teria o mesmo fascínio pela cidade que cantaria mais tarde.
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ENCONTRO COM UM POETA
Em certo lugar da Mancha,
onde mais dura é Castela,
sob as espécies de um vento
soprando armado de areia,
vim surpreender a presença,
mais do que pensei, severa,
de certo Miguel Hernández,
hortelão de Orihuela.
A voz desse tal Miguel,
entre palavras e terra
indecisa, como em Fraga
as casas o estão da terra,
foi um dia arquitetura,
foi voz métrica de pedra,
tal como, cristalizada,
surge Madrid a quem chega.
Mas a voz que percebi
no vento da parameira
era de terra sofrida
e batida, terra de eira.
Não era a voz expurgada
de suas obras seletas:
era uma edição do vento,
que não vai às bibliotecas,
era uma edição incômoda,
a que se fecha a janela,
incômoda porque o vento
não censura mas libera.
A voz que então percebi
no vento da parameira
era aquela voz final
de Miguel, rouca de guerra
(talvez ainda mais aguda
no sotaque da poeira;
talvez mais dilacerada
quando o vento a interpreta).
Vi então que a terra batida
do fim da vida do poeta,
terra que de tão sofrida
acabou virando pedra,
se havia multiplicado
naquelas facas de areia
e que, se multiplicando,
multiplicara as arestas.
Naquela edição do vento
senti a voz mais direta:
igual que árvore amputada,
ganhara gumes de pedra.
No ano de 1958, João Cabral é removido para Marselha. Depois, recebe o prêmio de melhor autor no Festival Nacional de Teatro Estudante, realizado no Recife. Vai para Lisboa onde publica Quaderna. Vai para Madrid onde publica Dois parlamentos. Nessa altura, suas proposições em poesia estão mais do que claras, que ficam ainda mais em evidência em suas conferências.
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MORTE E VIDA SEVERINA
O retirante explica ao leitor quem é e a que vai
O meu nome é Severino,
não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda é pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
e de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado a cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.
Início dos anos 60. João Cabral é nomeado chefe do gabinete do ministro da Agricultura, Romero Cabral da Costa, volta ao Brasil e reside em Brasília. Com o fim do governo Jânio Quadros, é removido outra vez para a embaixada em Madri. A Editora do Autor, de Rubem Braga e Fernando Sabino, publica Terceira feira, livro que reúne Quaderna, Dois parlamentos e um novo livro, Serial. Um ano depois, volta a morar em Sevilha. Uma Faca Só Lâmina é dedicado a Vinicius de Moraes.
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UMA FACA SÓ LâMINA
Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;
assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado
qual bala que tivesse
um vivo mecanismo
bala que possuísse
um coração ativo
igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,
relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
da lâmina azulada;
assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;
qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto
de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso,
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.
Em 1964, ano do golpe militar, João Cabral é removido como conselheiro para a Delegação do Brasil junto às Nações Unidas, em Genebra. No mesmo ano, nasce seu quinto filho, João. Dois anos depois João Cabral passaria por uma situação inusitada: O Teatro da Universidade Católica produz o auto Morte e Vida Severina, musicado, sem sua autorização, pelo jovem Chico Buarque. Já era notório seu desinteresse por música. Logo mais, recebe um prêmio na França pelo texto da montagem. Ao publicar Educação pela Pedra, recebe os prêmios Jabuti, Luisa Cláudio de Souza e o Institucional pelo Livro.
poema Descrição crescendo no blog http://pedrolago.blogspot.com
PAISAGEM PELO TELEFONE
Sempre que no telefone
me falavas, eu diria
que falavas de uma sala
toda de luz invadida,
sala que pelas janelas,
duzentas, se oferecia
a alguma manhã de praia,
mais manhã porque marinha,
a alguma manhã de praia
no prumo do meio-dia,
meio-dia mineral
de uma praia nordestina,
Nordeste de Pernambuco,
onde as manhãs são mais limpas,
Pernambuco do Recife,
de Piedade, de Olinda,
sempre povoado de velas,
brancas, ao sol estendidas,
de jangadas, que são velas
mais brancas porque salinas,
que, como muros caiados
possuem luz intestina,
pois não é o sol quem as veste
e tampouco as ilumina,
mais bem, somente as desveste
de toda sombra ou neblina,
deixando que livres brilhem
os cristais que dentro tinham.
Pois, assim, no telefone
tua voz me parecia
como se de tal manhã
estivesses envolvida,
fresca e clara, como se
telefonasses despida,
ou, se vestida, somente
de roupa de banho, mínima,
e que por mínima, pouco
de tua luz própria tira,
e até mais, quando falavas
no telefone, eu diria
que estavas de todo nua,
só de teu banho vestida,
que é quando tu estás mais clara
pois a água nada embacia,
sim, como o sol sobre a cal
seis estrofes mais acima,
a água clara não te acende:
libera a luz que já tinhas.
Aos 48 anos, em 1968 (ano bastante confuso), João Cabral é eleito para a Academia Brasileira de Letras na vaga de Assis Chateaubriand. Toma posse no ano seguinte, onde é recebido por José Américo de Almeida. Na posse, João Cabral, num belíssimo discurso em homenagem ao jornalista, disse que “mesmo que eu quisesse fazer de Chateaubriand um perfil do tipo do que ele fez de Getúlio Vargas, não passaria, esse perfil, de uma enumeração dissaborida de anedotas alheias, sabidas de ouvir contar”.
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POEMA(S) DA CABRA
I
A cabra é negra. Mas seu negro
não é o negro do ébano douto
(que é quase azul) ou o negro rico
do jacarandá (mais bem roxo).
O negro da cabra é o negro
do preto, do pobre, do pouco.
Negro da poeira, que é cinzento.
Negro da ferrugem, que é fosco.
Negro do feio, às vezes branco.
Ou o negro do pardo, que é pardo.
Disso que não chega a ter cor
ou perdeu toda cor no gasto.
É o negro da segunda classe.
Do inferior (que é sempre opaco).
Disso que não pode ter cor
porque em negro sai mais barato.
II
Se o negro quer dizer noturno
o negro da cabra é solar.
Não é o da cabra o negro noite.
É o negro de sol. Luminar.
Será o negro do queimado
mais que o negro da escuridão.
Negra é do sol que acumulou.
É o negro mais bem do carvão.
Não é o negro do macabro.
Negro funeral. Nem do luto.
Tampouco é o negro do mistério,
de braços cruzados, eunuco.
É mesmo o negro do carvão.
O negro da hulha. Do coque.
Negro que pode haver na pólvora:
negro de vida, não de morte.
No ano de 1969, a Companhia de Paulo Autran encena Morte e Vida Severina em diversas cidades do Brasil. É removido para a embaixada em Assunção no Paraguai, como ministro conselheiro. Também é eleito membro da Hispania Society of America. Recebe a Ordem do Mérito Pernambucano. As honrarias seriam mais frequentes nos anos seguintes, até o início dos anos noventa. João Cabral era considerado um dos grandes poetas brasileiros.
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O OVO DE GALINHA
I
Ao olho mostra a integridade
de uma coisa num bloco, um ovo.
Numa só matéria, unitária,
maciçamente ovo, num todo.
Sem possuir um dentro e um fora,
tal como as pedras, sem miolo:
e só miolo: o dentro e o fora
integralmente no contorno.
No entanto, se ao olho se mostra
unânime em si mesmo, um ovo,
a mão que o sopesa descobre
que nele há algo suspeitoso:
que seu peso não é o das pedras,
inanimado, frio, goro;
que o seu é um peso morno, túmido,
um peso que é vivo e não morto.
II
O ovo revela o acabamento
a toda mão que o acaricia,
daquelas coisas torneadas
num trabalho de toda a vida.
E que se encontra também noutras
que entretanto mão não fabrica:
nos corais, nos seixos rolados
e em tantas coisas esculpidas
cujas formas simples são obra
de mil inacabáveis lixas
usadas por mãos escultoras
escondidas na água, na brisa.
No entretanto, o ovo, e apesar
da pura forma concluída,
não se situa no final:
está no ponto de partida.
Nos anos setenta, os prêmios e condecorações não param de acontecer: Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco, Prêmio da Crítica da Associação Paulista de Críticos de Arte, Medalha da Humanidade do Nordeste, Grande Oficial da Ordem do Mérito do Senegal. Se torna embaixador de Quito no Equador e publica Museu de Tudo e A escola de facas. João Cabral é um poeta mais do que celebrado e toma posições interessantes no cenário poético nacional.
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GRACILIANO RAMOS
Falo somente com o que falo:
com as mesmas vinte palavras
girando ao redor do sol
que as limpa do que não é faca:
de toda uma crosta viscosa,
resto de janta abaianada,
que fica na lâmina e cega
seu gosto da cicatriz clara.
Falo somente do que falo:
do seco e de suas paisagens,
Nordestes, debaixo de um sol
ali do mais quente vinagre:
que reduz tudo ao espinhaço,
cresta o simplesmente folhagem,
folha prolixa, folharada,
onde possa esconder-se na fraude.
Falo somente por quem falo:
por quem existe nesses climas
condicionados pelo sol,
pelo gavião e outras rapinas:
e onde estão os solos inertes
de tantas condições caatinga
em que só cabe cultivar
o que é sinônimo da míngua.
Falo somente para quem falo:
quem padece sono de morto
e precisa um despertador
acre, como o sol sobre o olho:
que é quando o sol é estridente,
a contrapelo, imperioso,
e bate nas pálpebras como
se bate numa porta a socos.
Anos 80. O poeta faz o discurso inaugural da Ordem do Mérito de Guararapes, sendo condecorado com a Grã-Cruz da Ordem. Acontece também a primeira exposição bibliográfica de sua obra no Palácio do Governo de Pernambuco, organizada por Zila Mamede. E por aí vai, Comenda do Mérito Aeronáutico, Grã-Cruz do Equador, Embaixador de Honduras. Publica Poesia crítica, um lúcido texto sobre composição e sua visão de poesia, que, na semana que vem, entraremos em suas ideias.
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A EDUCAÇÃO PELA PEDRA
Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, frequentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu andensar-se compacta:
lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.
Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.
Em 1982, João Cabral publica seu, hoje conhecido, Auto do Frade, escrito em Tegucigalpa e recebe o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Pernambuco. No Rio de Janeiro, ganha o Prêmio Golfinho de Ouro e se torna cônsul geral do Porto. Três anos depois, publica os poemas Agrestes. Em 1986, falece sua esposa, no Rio de Janeiro, e casa-se em segunda núpcias com a poeta Marly de Oliveira.
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POEMA
Trouxe o sol à poesia
mas como trazê-lo ao dia?
No papel mineral
qualquer geometria
fecunda a pura flora
que o pensamento cria.
Mas à floresta de gestos
que nos povoa o dia,
esse sol de palavra
é natureza fria.
Ora, no rosto que, grave,
riso súbito abria,
no andar decidido
que os longes media,
na calma segurança
de quem tudo sabia,
no contato das coisas
que apenas coisas via,
nova espécie de sol
eu, sem contar, descobria:
não a claridade imóvel
da praia ao meio-dia,
de aérea arquitetura
ou de pura poesia:
mas o oculto calor
que as coisas todas cria.
No início dos anos 90, João Cabral, enfim, se aposenta na carreira diplomática como embaixador. Publica Sevilha andando e é eleito para a Academia Pernambucana de Letras, da qual, havia recebido, anos antes, a medalha Carneiro Vilela. Em Lisboa, recebe o Prêmio Luis de Camões concedido conjuntamente pelos governos de Portugal e do Brasil. Em 91, pelo seu livro Sevilha andando, recebe o Prêmio Pedro Nava.
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O FOGO NO CANAVIAL
A imagem mais viva do inferno.
Eis o fogo em todos seus vícios:
eis a ópera, o ódio, o energúmeno,
a voz rouca de fera em cio.
E contagioso, como outrora
foi, e hoje, não é mais, o inferno:
ele se catapulta, exporta,
em brulotes de curso aéreo,
em petardos que se disparam
sem pontaria, intransitivos;
mas que queimada a palha dormem,
bêbados, curtindo seu litro.
(O inferno foi fogo de vista,
ou de palha, queimou as saias:
deixou nua a perna da cana,
despiu-a, mas sem deflorá-la.)
m 1992, João Cabral viaja para Sevilha para representar o presidente da República nas comemorações do dia 7 de setembro. Houve uma grande exposição, onde, no pavilhão do Brasil, foi distribuido o livro Poemas sevilhanos, numa edição especial feita pelo Itamaraty e a Nova Fronteira. No Rio de Janeiro, recebe do embaixador espanhol a Grã-Cruz da Ordem de Isabel, a Católica. Em 1993, recebe o Jabuti.
texto Uma Nova Era no blog http://pedrolago.blogspot.com
AUTO DO FRADE
(trecho de Frei Caneca)
Acordo fora de mim
como há tempo não fazia.
Acordo claro, de todo,
acordo com toda a vida,
com todos cinco sentidos
e sobretudo com a vista
que dentro dessa prisão
para mim não existia.
Acordo fora de mim:
como fora nada eu via,
ficava dentro de mim
como vida apodrecida.
Acordar não é ter saída.
Acordar é reacordar-se
ao que em nosso redor gira.
Mesmo quando alguém acorda
para um fiapo de vida,
como o que tanto aparato
que me cerca me anuncia:
esse bosque de espingardas
mudas, mas logo assassinas,
sempre à espera dessa voz
que autorize o que é sua sina,
esse padres que as invejam
por serem mais efetivas
que os sermões que passam largo
dos infernos que anunciam.
Essas coisas ao redor
sim me acordam para a vida,
embora somente um fio
me reste de vida e dia.
Essas coisas me situam
e também me dão saída;
ao vê-las me vejo nelas,
me completam, convividas.
Não é o inerte acordar
na cela negra e vazia:
lá não podia dizer
quando velava ou dormia.
Nos anos 50, sobre ‘composição’, Cabral disse “que para uns é o ato de aprisionar a poesia no poema e para outros o de elaborar a poesia em poema; que para uns é o momento inexplicável de um achado e para outros as horas enormes de uma procura, segundo uns e outros se aproximem dos extremos a que se pode levar o enunciado desta conversa (a inspiração e o trabalho de arte), a composição é, hoje em dia, assunto por demais complexo, e falar da composição, tarefa agora, se quem fala preza, em alguma medida, a objetividade.” Mais do mesmo amanhã.
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CONVERSA DE SEVILHANA
Se vamos todos para o inferno:
e é fácil dizer quem vai antes:
nus, lado a lado nesta cama,
lá vamos, primeiro que Dante.
Eu sei bem quem vai para o inferno:
primeiro, nós dois, nesses trajes
que ninguém nunca abençoou,
nós, desabençoados dos padres.
Depois de nós dois, para o inferno
vão todos os chauffeurs de táxi,
que embora pagos nos conduzem
de pé atrás, contra a vontade;
depois, a polícia, os porteiros,
os que estão atrás dos guichês,
quem controlando qualquer coisa
do controlado faz-se ver;
depois, irão esses que fazem
do que é controle, autoridade,
os que batem com o pé no chão,
os que “sabe quem sou? não sabe?”
Enfim, quem manda vai primeiro,
vai de cabeça, vai direto:
talvez precise de sargentos
a ordem-unida que há no inferno.
Ainda sobre ‘composição’: O ato do poema é um ato íntimo, solitário, que se passa sem testemunhas. Nos poetas daquela família para quem a composição é procura, existe como que o pudor de se referir aos momentos em que, diante do papel em branco, exerciam sua força. Porque eles sabem de que é feita essa força – é feita de mil fracassos, de truques que ninguém deve saber, de concessões ao fácil, de soluções insatisfatórias, de aceitação resignada do pouco que se é capaz de conseguir e de renúncia ao que, partida, se desejou conseguir.
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RUBEM BRAGA E O HOMEM DO FAROL
É necessário vocação
na carreira de faroleiro.
Consta do serviço civil,
tem obrigação e direitos.
Porém não se entra nela como
em qualquer outra profissão:
entrar para ser faroleiro
é como entrar em religião.
É como entrar-se para a Igreja
num ordem contemplativa,
pois no alto cargo se cavalgam
vazios propícios à mística.
Na torre só, mais: isolado
de tudo o que faz transeunte,
habita a linha de fronteira
onde espaço e tempo se fundem.
O mar em volta do farol
é qual relógio sem ponteiros.
O faroleiro é só em si,
sem companhia nem do espelho.
O faroleiro é como nu,
ser devassado por janelas
que o cercam de todos os lados
e para o nada sempre abertas,
sobretudo para esse nada
que há na fronteira espaço-tempo:
o silêncio, que abafa como
almofada de algodão denso.
Ora o nada aberto ao redor
leva-o à posição uterina,
fechando-o ainda mais em si,
habitando a moela mais íntima,
ora dissolve o faroleiro,
que embora desperto se anula:
as vias da contemplação,
qualquer das duas se quer, usa.
Rubem Braga uma vez tentou
salvá-lo do não metafísico:
foi visitar um faroleiro
titular de uma ilha do Rio.
Rubem Braga logo decide:
não é homem de introspecção.
Vê que precisa de diálogo
esse afogado en tanto não.
De volta ao Rio, nos jornais,
lança um apelo: que doassem
vitrolas, rádios, qualquer voz
as navegante sem navegagens.
Mais sobre composição: Cada poeta tem sua poética. Ele não está obrigado a obedecer a nenhuma regra, nem mesmo àquelas que em determinado momento ele mesmo criou, nem a sintonizar seu poema a nenhuma sensibilidade diversa sua. O que se espeta dele, hoje, é que não se pareça a ninguém, que contribua com uma expressão original. Por isso ele procura realizar sua obra não com o que nele é comum a todos os homens, mas com o que nele é mais íntimo e pessoal, privado, diverso de todos.
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CIDADE DE NERVOS
Qual o segredo de Sevilha?
Saber existir nos extremos
como levando dentro a brasa
que se reacende a qualquer tempo.
Tem a tessitura da carne
na matéria de suas paredes,
boa ao corpo que a acaricia:
que é feminina sua epiderme.
E tem o esqueleto, essencial
a um poema ou um corpo elegante,
sem o qual sempre se deforma
tudo o que é só de carne e sangue.
Mas o esqueleto não pode,
ele que é rígido e de gesso,
reacender a brasa que tem dentro:
Sevilha é mais que tudo, nervo.
João Cabral de Melo Neto morreu no Rio de Janeiro no dia 9 de outubro de 1999 aos 79 anos. O poeta sofria de depressão e tinha problemas visuais crônicos que o deixaram praticamente cego. É notória a dor de cabeça com que conviveu ao longo de sua vida. Tomava aspirinas diariamente, inclusive, chegou a dizer que muito de sua inspiração vinha delas. Perto de sua morte, era forte candidato ao Prêmio Nobel de Literatura. Enfim, esta foi a pequena antologia de um dos nossos maiores poetas. Semana que vem, outro universo poético, outras proposições, outra poesia. Até.
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SEVILHA E A ESPANHA
O castelhano e o catalão
têm pobreza e riqueza tristes.
Assim desprezam a Andaluzia:
vêm-na africana ou sacrílega.
Em Castilha, ambas são viúvas,
um manto de beata as recobre
e seus ouros têm a cegueira,
a pátina humilde do cobre.
A Catalunha, tira a tristeza
de querer ser muito mais França,
que não a interessa, senão,
enquanto Espanha, dá-lhe entranhas.
A Andaluzia é de ouro e cobre,
mas nenhum dura mais que um dia:
se alternam, como em seu cantar
à soleá, segue a alegria.
Thereza Christina Rocque da Motta
Thereza Christina Rocque da Motta nasceu em São Paulo no dia 10 de julho de 1957. É “poeta por opção, advogada por formação e tradutora por profissão” como costuma dizer. Também conhecida pelo trabalho de editora, neste mês contaremos a história desta poeta e sua maravilhosa relação com os livros. Como se deu o caminho poético, o compromisso com a palavra e sua impressões pelo mercado editorial, confeccionando sonhos, belos sonhos. Allons-y
poema de Stéphane Mallarmé traduzido no blog http://pedrolago.blogspot.com
MANHÃ I & II
I
Tens a forma
de um poema
obtuso,
lâmina ceifando a noite.
Tens a face
boreal e clara
- aurora repentina
circundando a terra.
II
Te sei presumida.
Adivinho-te bela,
enfeitiçada.
Teu riso longe ecoa
dentro do coração
tão vazio.
Teu vazio me corrompe.
Aceito-te mansa e meiga
- qual mesmo o teu nome?
Tua terra, arado, homens,
vegetação absurda.
Teu seio, sangue,
mel e lua.
Amo-te feito noite.
Amo-te feito vida.
Suas aventuras (e bota aventura nisso) pelo mundo editorial começaram em 1978, quando trabalhou como editora no Jornal Análise do DCE da Universidade de Mackenzie. Lá fundou também o Grupo POECO SÓ POESIA em 1980, promovendo concursos de poesia e leituras. Creio que este paralelo é importante na leitura dessa obra, a Thereza poeta com a Thereza editora, pois ambas confluem na pessoa que ela é, e sobretudo, na sua poesia.
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AFRODITE
Redesenho
o sopro fácil e diurno:
dias antigos e alongados
em tua forma, hoje, de ser amado
- por que amado? – e ser tão difuso
quanto a retina de teus olhos.
Meu sonho, poeta, é minha sina,
pecado mortal, pecado carnal, pecado nenhum.
Aos 16 anos, Thereza ganha um concurso de poesia no colégio, foi quando se sentiu responsável pelo que escrevia. Aos 19, surge a oportunidade de publicar seus poemas no Jornal Análise, começando então seus dois caminhos, que para mim, alimentam livremente sua verve poética: a poesia e a produção literária. Logo após, surgiria uma figura fundamental para sua poesia e para outro caminho que percorreria depois. A figura? Hilda Hilst. Outro caminho? Tradução de poesia. Surgiria também a Thereza tradutora.
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LICOR DAS HORAS III & IV
III
Destruímos os sinos
ensurdecendo a terra
seus alforjes e cambraias.
Amaldiçoamos o tempo
maldizendo de nós
em prolongados uivos
sobre o descampado
onde ecoam as florestas
que ali estavam.
E arrancamos as sementes híbridas
para o plaino das horas.
IV
São noites
enclausuradas ou repentinas
desfeitas em pó.
São poucos os beijos
diante da impávida face visceral.
Beijaríamos muito mais
se fosse permitido.
Amaríamos
se nos fosse dado a chance.
As mãos dilapidam o horóscopo,
astrolábio de movimentos
fermentando a aguda fronte aromática.
As vestes magnetizadas pelo odor
revelam o desejo,
criando o mistério de pertencer-te.
Ainda nessa época do Jornal Análise, algo marcante aconteceria na vida da poeta Thereza: Hilda Hilst leu cerca de cem poemas e disse, sem dúvidas: “Ela é poeta”. Para um jovem poeta isso seria como receber uma carta do Rilke, só que dessa vez, o poeta não foi para o exército. Hilda Hilst também seria muito importante para Thereza quando numa entrevista para Marie Claire falou da importância de escrever em inglês para quem começa pois “ninguém lê em português” disse a poeta. Ok than!
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CRISÁLIDA
Escrever não é oficio; é miragem. Miro-te e alcanço-te
como se fosse um fruto. Delicioso e ardente. Temos
tempo regressivo. O futuro é uma abóbora. Imaginar-te,
sempre instigante. Cresces como um gigante. Imagina
qual o particípio irregular de arrebatar. Rapto. Tens dedos
de feiticeiro. Tudo que tocas se incendeia. Vejo-me acesa
com todos os fogos em explosão. E à medida que se
queimam todos os troncos, deixam brasa, convertendo-
se em cinza. Digo que tens o dom de queimar, tanto a
superfície como o lago subterrâneo. Tenho-te dentro de
mim como coisa que não se doma. Que se avoluma e
toma forma. Não temo tua ausência, pois creio que jamais
estarás ausente. Mitifico-te além-vida. Sacralizo-te em
mim. Assim amo ser saber, indisciplinada menina que
zomba dos carinhos e faz deles coisas sublimes. Isto,
como prova ou testemunho de que estamos aqui e vivos.
Joio & Trigo, livro que utilizamos nesta semana, foi o primeiro livro de Thereza Christina. Com prefácio do poeta Claudio Willer e apresentação crítica de nomes como Olga Savary, marcou definitivamente sua entrada nas prateleiras, posto que já publicava em antologias, porém, faltava o livro. Diria que os poemas do livro andam nos jardins de um lirismo suave (sem redundância) com poemas curtos e um belo poema chamado Terminal. Depois mais e mais e mais…
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INVENÇÕES DO TEMPO I & II
I
Descreve a suavidade das linhas oblíquas
em teu sono cálido e permanente,
figura despida em meu leito,
teu sorriso, corpo e mãos presentes.
Toco a palma das encostas
elevando tua alma da penumbra,
tua forma lapidada,
a se transformar com a luz.
II
Distante da tua imagem
aqui posta em sossego
- mais do que tudo, silêncio -
espero o sinal de partida
como o navio que aguarda levantarem âncora.
Saio de minha casa,
abandonando tudo.
Deixo para ti,
meu sono de profeta da clandestinidade.
Trago-te de volta ao que eras.
Areal é um livro de poemas líricos feitos ao longo dos anos 80. Faz parte de sua verve poética essa linha melódica e culta onde o motivo em evidência é tratado com extremo cuidado, como uma flor. Thereza agora já está imersa na produção editorial e na tradução. Nesta semana, somente poemas do livro Areal.
tradução do poema Pantomime de Paul Verlaine no blog http://pedrolago.blogspot.com
ÉS PERFEITO
És perfeito,
porque nascido do acaso.
Eu, que sem preocupação pude buscar-te,
aceito tua sina de camaleão de imagens.
Teu prazer quer alvuras e eu,
amadurecida de teus tons, sou mais frágil
entre as mãos que encerram o destino.
As manhãs, os breves sussurros,
o mastigar lento de maxilares.
Conheço-te como a mim,
tua casa, tuas vestas, tudo que te pertence.
Onde colocares a mão, eu sei,
aqui estiveste.
Não te amo pelo nome.
Amo-te pelo que transpareces.
Thereza ficou treze anos sem publicar livros de poemas. Desde Joio & Trigo, publicado em 1982, um grande hiato se deu em sua vida. Filhos, mudança de cidade, coisas da vida que mantiveram a poeta sem publicar (jamais diria sem produzir). Pois então em 1995 veio Areal, livro desta semana, veio o Rio de Janeiro e vieram novos trabalhos editoriais. Logo mais, Thereza viria a encontrar outro objeto onde seria incrível: tradução de poemas.
PORQUE TE QUIS…
Porque te quis e ninguém te alimentava
de paixões,
vieste, olhos mareados
e tal foi tua fome,
que abraçaste inteira a minha vontade
de dar-me.
Não quis ir ao teu encontro,
senão como fora a tua vinda
na véspera, cheia de expectativas e silêncios.
Não te esperei em vão:
pude aguardar-te, porque quis que viesses
e por que te quis antes de mais nada,
meu nome tornou-se precioso para ti,
com saudade e vozes dentro,
ruídos de uma vontade estranha,
porque não esperavas por mim
e me buscaste.
A linha que costura os poemas de Areal é a ideia da poeta sobre o amor. Thereza diz em seu posfácio que “a exteriorização do amor não deve causar medo. O amor é realidade e, como tal, é para ser vivido, sem pressupostos, para que dele seja extraído sua essência. E, mesmo assim, há ritos que são seguidos, como voltar-se para o amado, num movimento contínuo e mudo”. Mais ou menos por aí.
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ACOSTUMEI-ME…
Acostumei-me a observar o indefinido.
E a aceitar tudo que me dissessem,
mesmo adeus.
As lembranças daquilo
que não guardei,
atos e falhas dos meus gestos
e não passar sua sensação de eternidade.
(Em cada pedra, a seiva
que a mantém úmida.
Pedregulho imerso
na transparente alma marinha.)
E a esperar a travessia,
antes do sinal das embarcações.
Sem vento que antecipe a manhã.
“Se fomos unidos pelo acaso, que não existe, então deve existir uma razão intrínseca, mesmo que desconhecida para nós. Ela existe, a partir do momento em que “você me faz bem”. Em hipótese alguma eu tentaria abolir isso por meras razões formais, por medo ou dúvida”. Desta maneira, Thereza conclui seu Areal, livro que apontaria um caminho essencialmente lírico em sua poesia. Voltamos na quarta de cinzas.
DÉCIMA LUA
A laranja era a única luz dentro do quarto.
Egon Shiele
Enquanto as barcas sobrevoam o ar estático,
estamos entre os verdes olhares de gatos.
Tudo é belo.
Penetramos as células humanas,
passagens entre orifícios e arestas.
À noite, procuramos nos ver melhor.
É o sonho que a habita?
Vivemos e são nossas súplicas
as únicas que se ouvem.
Tudo está parado e se move.
Nada é mais extremo que a permanência.
Ficamos aqui, o segredo entre nós.
As vestes caem e se prolongam pelo chão.
São memórias mais do que tudo
e vasto e largo o pausar das mãos em movimento.
Somos os que desfrutam da pele seca das maçãs.
Enlouquecemos, a nudez a tomar conta,
desfiando as fibras dessa nova borboleta.
O ar impregna-se do mesmo cheiro dos corpos.
Vértebra a vértebra, distendemos o êxtase.
Avolumam-se os seios umedecidos no beijo.
Vocábulos balbuciados, não há som.
Domado o instante, a serpente recolhe-se.
Reconhecemos pelo tato a escamosidade
desse momento.
Da casa inabitada, conhecemos os reféns
e os objetos, danificados pelo tédio.
Sabíamos de tudo, embora não disséssemos.
O cálice preparado, o veneno, dilatadas pupilas.
Nosso nome encravado em pedra.
Após esse hiato de folia, retornamos à obra da poeta Thereza. Sabbath foi publicado em 1998. Segundo livro depois de um longo período fora da produção literária, apenas na produção editorial. O livro segue a linha lírica que permeia sua poesia com uma constante visita aos mitos e símbolos. Algo de muito interessante viria a aparecer depois. Seguindo…
SABBATH
Mãos tangem alaúdes noite adentro
A manhã não tarda
Ervas maceradas na água
o líquido escuro e espesso
escorre das vasilhas
deixadas ao relento
Fogaréus ardendo no escuro
céu sem estrelas
Uivos dos lobos
entre chilreios de pássaros
anunciam o fim da noite
e todos os presságios se misturam
Não esperamos mais
Tudo passou sob a folhagem das árvores
as adagas cravadas nas raízes
testemunhando a chegada
Este é o limite
Homem algum trespassará este lugar
Com os ramos cortados, tecemos guirlandas
e coroamos os príncipes
A festa começa
A lua nova lança sua face vazia
sobre rostos brancos
Sabbath
Um longo dia avança sobre o abismo
Nossos olhos voltados para o infinito
Sabbath
Nossas orações não fazem mais sentido
O ouro líquido escorre sobre as máscaras
preenchendo o contorno das faces
que perseguem manhãs como estas
Sabbath
Amanhecemos órfãos de nossa própria identidade
Outros seres brotam de nossos corpos
outro hálito de nossas bocas profanas
A água escorre sobre as pedras
as mãos lambuzadas de óleo
a besuntar as faces
Transgressão e violência
Crianças abandonadas
filhos da escuridão
Em vão esperamos no escuro
A tocha acesa tremula sobre as cabeças
crepitando a lenta sonolência de farpas
Silêncio
Hóspedes do eterno
selamos nossa aliança
Morte e vida alimentadas pelas mesmas mãos
Ouvem-se os últimos cantos até o anoitecer
A noite retorna sobre a planície
e novamente os riachos correm sobre a terra arada
Afastamos fantasmas
almas que vagam ensimesmadas
entes que gravitam entre esferas circunscritas
nesse mapa aberto sobre o coração da floresta
Encerramos as arcas para as manhãs futuras
e recolhemos pedras sob o pano púrpura
para o novo sabbath.
A segunda parte de Sabbath se chama Livro das Horas. Uma série de poemas curtos que, assim como em Joio & Trigo, podem ser lidos como num poema só. É interessante o lirismo de Thereza, sempre tive a impressão de uma voz encorpada, cheia de ensinamentos, pois é assim que vejo sua voz. Aliás, caminhar em águas mornas é difícil, por isso seu lirismo é interessante. Semana que vem contaremos a bela história da Ibis Libris.
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LIVRO DAS HORAS
Não há imperfeição possível
I
Caminhas
sob águas e ramagens
– manto transparente
sobre paisagens noturnas –
frios olhos
de quem vê através a alma
II
Teus movimentos
repetem-se
únicos
sob finas camadas de espera
vozes
que murmuram segredos
pela primeira vez
Teus rastros
habitam o silêncio
e as auroras
III
Percorres os desertos
e despes teu rosto
dos véus escuros
retornando aos mesmos lugares
sem a solidão das máscaras
IV
Visitante
de esferas ambíguas
cálido sopro
entre dentes
Torres altíssimas e distantes
anunciam tua chegada
Corpos sob os lençóis
devolvem teus breves abraços
Thereza sempre teve tendência editorial. No ano 2000, o poeta e professor Ricardo Ruiz pediu para Thereza que revisasse um livro dele. Depois, pediu que ela que lhe fizesse um prefácio. Thereza terminou o prefácio numa terça-feira de Carnaval e ligou para Ricardo, que prontamente lhe disse: “Agora edita pra mim”. Nesse momento, Thereza atendia um impulso bem íntimo que nem ela sabia de onde vinha. Publicar? Thereza ficou um pouco perplexa, como iria publicar sem um selo? Ricardo então resolve a questão: “Então, cria!”. Quatro dias depois…
poema Feuillage du coeur de Maurice Maeterlinck traduzido no blog http://pedrolago.blogspot.com
Olhos garçosPor detrás de cada sombrao vento traz-me o teu rosto.Roberto Piva
Somos nós que carregamos as imagens dentro dos olhos,
mareados, vertiginosos e esparsos,
luz transida e esmaecida sobre o horizonte ainda pálido que contemplamos.
Somos nós que carregamos as probabilidades feito romãs dentro dos bolsos,
esperando que se abram para encher o ar com seu aroma tingido.
Teremos sempre novos mistérios e insondáveis segredos
diante de janelas abertas sobre o horizonte.
A praia nos alcança em meio dia
e nossa manhã ainda não escorreu pela tarde,
procurando outra seiva para alimentar a noite.
Aguardo, ainda, paciente,
a vez de tangermos a vida
com a devoção de quem acalenta
um anjo.
Quatro dias depois do “ultimato” de Ricardo Ruiz, Thereza vai a um jantar em homenagem ao seu pai, que morrera em 1982. Era o dia 11 de março. No meio do jantar o nome “Ibis” lhe ocorreu. “Ibis” era o apelido de Fernando Pessoa. O poeta assinava suas cartas para Ofélia dizendo “do seu Ibis”. O nome também tinha a ver com o Rio de Janeiro por causa da imagem esculpida no Pão de Açúcar, que segundo a lenda, foi deixada ali pelos fenícios em 1.500 a.C, no pé do gigante adormecido formado pelas montanhas do Rio, sendo a Pedra da Gávea a cabeça do gigante. O pai de Thereza também havia lhe dado um livro com as cartas de Fernando Pessoa para Ofélia 25 anos antes. Ainda tem mais…
AMOR
Para Ricardo Quintana
Respondo-te com o mesmo calor,
com o mesmo entusiasmo lançando-se sobre mim.
Respondo-te com as mesmas palavras longínquas,
o mesmo ardor do tempo,
que só responde a perguntas com o silêncio.
Somos os olhos bravios da tempestade,
o vórtice do furacão,
a manhã estrelada de tantas auroras antigas
– memória restaurada com as mãos ainda leves e breves.
Respondo-te com o que sei de mais límpido e transparente,
meus cristais sobre a areia ainda úmida da manhã.
A praia que nos cerca é fronteiriça
e nos abre os limites da espera e da vida.
Toda vida está diante de nossos olhos,
como o mar que nos aguarda
se o singrarmos.
Partimos para descobertas irrealizadas,
cruzamos outros mares por descuido
e voltamos, exaustos e mudos,
à mesma praia,
à mesma origem,
ao mesmo templo diante do abismo.
Avançamos sobre as águas
– cortando a lâmina fina do esquecimento.
Lembramos quem somos e o sabemos
– toda vida está aonde a colocamos,
vibrando a única melodia
que conhecemos:
amor.
A busca pela imagem que representaria o selo foi também cheia signos. Íbis são aves pernaltas com pescoço longo e bico comprido encurvado para baixo. A íbis era também a cabeça do deus Thoth, pai da literatura egípcia e criador do alfabeto. O pai de Thereza havia estudado a origem do alfabeto, mais uma homenagem ao pai. Fernando Pessoa tinha uma gráfica chamada íbis que jamais veio a funcionar. Na hora do registro, Thereza descobriu que já havia em São Paulo uma editora com esse nome, então, seu irmão sugeriu adicionar o Libris, assim ficaria “os livros da Ibis”.
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Ter ou não serTe chamo por vários nomes e todos serão amor.
Não lamente nada que tudo só parece ser.
O que é, não sabemos e, se soubéssemos,
seríamos desde já o fruto pronto a ser colhido.
Não se precipite.
Não pense que seus desejos serão esquecidos,
pois todos os desejos tecem a trama íntima do ser.
Nem tudo cabe numa vida.
Ela se alarga toda vez que nos lançamos,
temerosos, na amplidão que cerca os nossos passos.
Descansemos.
Nada passa sem ser colhido.
Tudo dá o que é seu a seu tempo.
As flores colhidas ao acaso serão mais belas
do que as de floristas?
Não lamente o tempo, inexorável,
os minutos que escorrem sem olharmos para trás.
Não sejamos as estátuas de sal,
que ficarão impávidas a mirar a catástrofe.
Avancemos, com certezas
que só podem ser trazidas por nós mesmos,
os únicos guias a seguir atalhos,
a reconhecer, como a palma da mão,
a trajetória que nos une nos descaminhos.
O primeiro lançamento da Ibis Libris, o livro de Ricardo Ruiz, foi no dia 18 de agosto, dois após o aniversário do pai de Thereza, Dia de São Roque. Quatro livros depois, a Ibis editaria Neide Archanjo. Logo em seguida, João José de Melo Franco se junta a Thereza na editora. Desde então, a Ibis Libris publicou mais de 150 livros e, quase sempre, de poesia. Lembrando, dois meses depois da fundação, Thereza começa a organizar a Ponte de Versos, evento de leitura de poemas que já produziu uma bela antologia.
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Meu segredo e nosso deserto
Teus caminhos são meus
apenas em tua direção.
Habito tuas horas fartas,
porque as enche de carinhos.
Somos todos os seres possíveis num só.
Conténs todas as órbitas
e orbitas em mim com teus pensamentos.
Tuas rimas te falham,
são poucas, esquece-as.
Nenhum pecado te atinge
já que és puro e meu.
Sagra-te por seres vão.
Sempre um espelho que me reflita
e te reflita em mim.
Corpos que transitam astros
e nós dentro deles.
Acumulamos tempo, linhos e ondas.
Completa-te em mim,
pois naufrago em teus olhos mareados.
Sabemos apenas o que nos é dado ver.
Nada vive senão por fora.
Por dentro já é eterno.
Ao longo de todo esse processo, Thereza jamais deixou de escrever um poema, o que seria nada menos que uma natureza rilkeana. Pois, lembrando uma amiga minha, apesar de todos os compromissos, do trabalho, dos anseios, ainda há a necessidade de sentar e escrever poemas. Admirável é o trabalho do editor, pois transforma sonhos em realidade, literalmente, e digo que além disso, em belíssimas e dignas realidades.
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Renascido
Há coisas que nunca sabemos até acontecidas.
Antes que aconteçam, são insabidas.
Depois, passam a percorrer
os pequenos abalos sísmicos
de uma aurora pessoal.
As lembranças vazias buscam alentos
em novos momentos
reinventados.
Quando reinventá-lo?
Quando abri-lo em horizonte
vasto e destemido?
Lentos olhos perscrutam
- todo poente é um acidente.
Ocaso.
Renascente.
Nesse anos todos editando livros, Thereza tem muita história para contar. Pensando nisso, escreveu alguns textos que, se todo jovem autor lesse, com certeza, o processo do seu livro seria mais tranquilo. Thereza fez os Dez Mandamentos do livro, vamos a alguns: 1º – Reler o texto até a exaustão, até não querer mais mudar uma vírgula (evita o aparecimento de Sacis-Pererês); 2º – Tenha paciência com o tempo do livro (com isso, corta-se a ansiedade, o que atrapalha no primeiro mandamento, que não é bom para o livro).
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DE ABELARDO A HELOÍSA
I
O que é tua beleza ensimesmada?
O que existe em teu olhar tão profundo?
Tuas mãos pousam sobre o livro e esperam.
Tuas horas são lentas cismas sobre ti mesma.
Devolves ao tempo a tua urgência.
Tudo verte o seu olhar absoluto
sobre os vergéis de tua casa.
Abram-se os mapas sobre a mesa
a traçar os caminhos que retornam.
Teu dia não se alonga mais do que a manhã.
O fremir das janelas não se ouve.
No silêncio, construímos a nossa morada,
esse tempo de vir a ser que se aproxima.
Tudo é, sem demora, vida ou nada,
e, por isso, fico à espera do teu amor.
Para Thereza, jamais devemos mentir para o livro. Mesmo que em devaneios, sempre pesquisar e compreender aquilo que diz. Isso é meio que óbvio, mas Thereza sabe o que diz, já passou por poucas e boas com autores desfinformados. Thereza acha que deve-se sempre consultar os amigos, são os primeiros leitores, mesmo que a maioria diga que gosta, sempre haverá aquele que diz “olha, não gostei”, e talvez pérolas saiam da sinceridade.
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DE HELOÍSA A ABELARDOII
Deixa a voz alçar o voo leve
na noite que temos para nós.
Estás à beira de tua honra e eu à beira de ti.
Não me comovo às lágrimas, senão por teus olhos,
olhos veem tudo o que existe em mim.
Não sou senão a serva de um amor imenso,
este que me habita e me devasta.
Por onde me leve, o amor me tem pela mão,
e me guia até onde estás.
Que breve perfume dessas horas se destila
nas pétalas da flor que nos deslumbra?
É o seu aroma ou o nosso que sentimos?
Meu amor é mais puro por não ver
nada mais, nem outro, senão a ti.
“O livro não é uma coisa, é um ser”, eis um dos ensinamentos de Thereza. Para ela, (e para mim também), o livro é um ser que pensa, que decide, dá opinião, reclama, e sabe o que quer. Um livro dura mais que o autor, caso não seja queimado, tem o dom da permanência, de modo que não o empurre. Pois todas as histórias podem ser contadas, e o livro, está aí para carrega-las, portanto, cuide bem deste ser.
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DE HELOÍSA A ABELARDOIII
Nunca, dizes, te afastarás de mim,
mas, mesmo assim, me deixaste.
Meu pensamento se consome em chamas,
minha lucidez me falta neste momento vertigem.
Somos seres absolutos, em absoluta
servos e santos, blasfemos e hipócritas
Ó geração de enfermos!
Ó vida! O que nos deste, nos tiraste!
Restou tão pouco de nós sobre este estreito leito.
Ó dor maior que o mundo!
Ó planger de horas que não bastam!
Choram os filhos sem suas mães.
Choram os amantes sem o seu amor.
Thereza acha ,e eu concordo, que o autor não faz nada sozinho, que o livro é o somatório de tudo que o envolveu, todas forças, todos os percalços sobrenaturais que permeiam o Universo. Ih, não é exagero. Há também outra questão: Jamais diga sobre o que você vai escrever, senão a mente acha que você já escreveu e passa adiante, isso é corretíssimo. Mostrar o que fez é fundamental, porém, jamais o que não fez. Palavra de editora.
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DE ABELARDO A HELOÍSA
VIII
Meu pecado foi não ser casto.
Meu castigo foi me tornar.
Meu Pai, que mal fiz em amar-te
e deixar que me amasses?
Pela mão dos homens, Deus infligiu-me
o castigo da castidade para melhor servi-Lo.
Eu não fui digno Dele, não fui digno de ti.
Quis aproveitar-me da sorte, enquanto o diabo
rondava.
Quis ocultar o matrimônio para me preservar.
Meu egoísmo me castrou e me tornei o que sou.
Este é o meu amor verdadeiro, esta, a minha
missão.
Se por ti errei, por Deus fui corrigido.
Nosso amor redimiu-me perante todos.
Eis que chegamos ao fim de mais uma antologia. Percorremos a obra da poeta Thereza Christina Rocque da Motta, que, além de poeta, é uma exímia editora, leia-se, artesã de sonhos. O mais puro amor de Abelardo e Heloísa é seu último livro. Assim como Ovídio, Thereza criou correspondências amorosas entre dois personagens, sendo estes, reais. O filósofo goliardo Pedro Abelardo e sua amada Heloísa, que se amaram no fim da Idade Média, porém, esbarraram nos conceitos morais da época e outras coerções, que os impediu de continuar. Semana que vem entraremos em outro universo poético, outras proposições, outros poemas. Até!
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DE ABELARDO A HELOÍSA
XI
Bem amada, irmã, serva do Senhor,
a quem sirvo ainda amando-te com todo o meu
amor.
É Dele o amor que nos nutre, Ele quem nos uniu,
e nos mantém unidos por Amor a Ele.
Amo-te mais sem te ter do que tendo-te comigo.
Estás em tudo que faço, toda obra minha tem tua
mão.
Teu silêncio está no meu, e minhas palavras
repetem as tuas. Sou o que restou do homem que
fui,
mas este ainda segue te amando, mesmo longe,
distante de corpo, jamais de alma.
Estas vivem juntas nas noites de vigília,
sob a abóbada celeste que nos testemunha.
Somos o anúncio vivo do nosso amor,
como eco de nossas palavras.
DE HELOÍSA A ABELARDO
XII
Nem Luís nem Eleonor se apiedaram.
Notre-Dame ergueu-se em dor,
abraçando, entre seus arcos, o nosso vazio.
Ao largo, flui o Sena, sem retorno.
Paris se cala e testemunha o nosso horror.
O que será de ti, meu amado?
O que será de mim, tua esposa?
Tu, exilado, escondes o teu rosto em vergonha.
Em Argenteuil, onde nasci e novamente vivo,
o véu desce sobre mim e me amortalha.
Tu, também, te entregas ao martírio.
Enlutados, a morte nos dita regras.
Aqui se encerra a nossa história,
mas, não o nosso amor.
Alphonsus de Guimaraens
Afonso Henriques da Costa Guimarães nasceu no dia 24 de julho de 1870, em Ouro Preto. No dia 10 de junho de 1871 foi batizado na matriz da Freguesia de Nossa Senhora do Pilar do Fundo de Ouro Preto. Seu nome foi uma homenagem ao fundador do Velho Reyno. O menino tinha o apelido de “Afonso sonso”, dado por seus irmãos e colegas de correrias ladeirentas da infância. Nossa correspondência inicia os trabalhos em 2010 com o poeta maior Alphonsus de Guimarães.
poema Saxofonista do Arpoador no blog http://pedrolago.blogspot.com
INITIUM
Tanta agonia, dores sem causa,
E o olhar num céu invisível posto…
Prantos que tombam sem uma pausa,
Risos que não chegam mais ao rosto…
Noites passadas de olhos abertos,
Sem nada ver, sem falar, tão mudo…
Alguém que chega, passos incertos,
Alguém que foge, e silêncio em tudo…
Só, perseguido de sombras mortas,
De espectros negros que são tão altos…
Ouvindo múmias forçar as portas,
E esqueletos que me dão assaltos…
Só, na geena deste meu quarto
Cheio de rezas e de luxúria…
Alguém que geme, dores de parto,
- Satã que faz nascer uma fúria…
E ela que vem sobre mim, de braços
Escancarados, a agitar as tetas…
E nuvens de anjos pelos espaços,
Anjos estranhos com as asas pretas…
E o inferno em tudo, por tudo o abismo
Em que se me vai toda a coragem…
“Santa Maria, dá-me o exorcismo
Do teu sorriso, da tua imagem!”
E os pesadelos fogem agora…
Talvez me escute quem se levanta:
É a lua… e a lua é Nossa-Senhora,
São dela aquelas cores de Santa!
O jovem Afonso estudou português com o poeta romântico João Nemrod Kubitschek, latim com Afonso de Brito, francês com Randolfo Bretas e inglês com mister Charles Catton Kopsey. Aos 17 anos matriculou-se no Curso Complementar da Escola de Minas, com o objetivo de estudar engenharia civil e de minas. Nesta época, o jovem Afonso já fazia versos, que ganharam força já como aluno de engenharia. Afonso passou por uma experiência muito dolorosa: Sua prima, Constança, por quem era apaixonado, morreu quando eram namorados e admitidos como noivos, ainda adolescentes. Ontem seu nome foi escrito errado.
VISÃO DOS SOLITÁRIOS
Com a vasta escuridão do teu cabelo ensombras,
Se o destranças pelo ar, o próprio sol que bate
Nessa carne que tem a maciez das alfombras
Feitas de seda branca e veludo escarlate.
Não sei quem és e ao mesmo tempo assombras.
Alguma coisa de astro o teu sorriso dá-te…
Errante multidão de espectros e de sombras
Anda em redor de ti como para um combate.
Para quê, para quê tanta mágoa me deste?
Por que surgiste aqui, na minha noite espessa,
Tu, Rainha imortal de algum Sabá celeste?
Fantasma, és a Mulher! Levanta-te, Anjo eterno!
Ergue-te mais, e mais! Como a tua cabeça
Pode tocar o Céu, se tens os pés no Inferno?
A perda da prima e noiva Constança foi extremamente marcante para o jovem poeta Afonso. Acompanhava sua doença de perto, rezando para São Bom Jesus de Matozinhos para que ela se curasse. O misticismo e o amor, que veremos em sua obra, parecem ter despertado desde cedo no poeta. Afonso ficou com Constança até sua morte aos 17 anos, muitas vezes sem estudar, sem destino. Afonso percorreu a boêmia literária dos botecos dos estudantes e não tardou a adoecer com uma bronquite, que seus pais desconfiavam ser uma tuberculose.
S. BOM JESUS DE MATOZINHOS
S. Bom Jesus de Matozinhos
Fez a Capela em que o adoramos
No meio de árvores e ramos
Para ficar perto dos ninhos.
É como a Igreja de uma aldeia,
Tão sossegada e tão singela…
As moças, quando a lua é cheia,
Sentam-se à porta da Capela.
Vai-se pela ladeira acima
Até chegar no alto do morro.
Tão longe… mas quem desanima
Se Ele é o Senhor do Bom-Socorro!
Tem tanto encanto a sua Igreja,
Paz que nos é tão familiar,
Que é impossível que se não seja
Um bom cristão em tal lugar.
Alegrias mais que terrestres
Murmuram hinos pelas naves.
No adro, quantas flores silvestres,
Nas torres, quantos vôos de aves…
E atrás da Igreja o cemitério
Floresce cheio de jazigos.
Os próprios mortos, que mistério!
Vivem na paz de bons amigos.
Quando o Jubileu se aproxima,
Ai! quanta gente sobe o morro…
Tão longe… mas quem desanima
Se Ele é o Senhor do Bom-Socorro!
Velhas de oitenta anos contados
Querem vê-lo no seu altar,
Braços abertos, mas pregados,
Que nos não podem abraçar.
Entrevados de muitos anos,
Vão de rastros pelos caminhos
Olhar os olhos tão humanos
De Bom Jesus de Matozinhos.
Saem dos leitos, como de essas,
Espectros cheios de esperança,
E vão cumprir loucas promessas,
Pois de esperar a fé não cansa.
Vinde, leprosos do grande ermo,
Almas que estais dentro de lodos:
Que o Bom Jesus recebe a todos,
Ou seja o são ou seja enfermo.
Almas sem rumo como as vagas,
Vinde rezar, vinde rezar!
Se Ele também tem tantas chagas,
Como não há de vos curar…
Direis talvez: “Chegar lá em cima…
Antes de lá chegar eu morro!
Tão longe… “Mas quem desanima
Se Ele é o Senhor do Bom-Socorro!
Foi pelo meado de setembro,
No Jubileu, que eu vim amá-la.
Ainda com lágrimas relembro
Aqueles olhos cor de opala…
Era tarde. O sol no poente
Baixava lento. A noite vinha.
Ela tossia, estava doente…
Meu Deus, que olhar o que ela tinha!
Ela tossia. Pelos ninhos
Cantava a noite, toda luar.
S. Bom Jesus de Matozinhos
Olhava-a como que a chorar…
Afastado o perigo de pneumonia, o poeta melhora de sua bronquite. Assim, segue o jovem por sua contemporaneidade a abraçar o entusiasmo político que o cerca, a República. Escreve poemas sobre o assunto e é influenciado por Guerra Junqueiro e Manuel Ozzori, este, organizador do Almanaque administrativo, mercantil, industrial, científico e literário do Município de Ouro Preto. Afonso publicava seus poemas nesse Almanaque. Afonso vai então para São Paulo estudar Direito. Seu pai, queria o poeta em Coimbra, mas Afonso recusa prontamente.
CAPUT V / OSSA MAE
poema IV
Ó lábios que sereis de lodo e poeira,
Que intangível desejo vos abate?
Que ânsia suprema, na hora derradeira,
Em silêncio vos livra esse combate?
Quereis falar, e quietos sois: na inteira
Mudez do coração que já não bate,
Por debaixo de vós ri-se a caveira,
Lábios que fostes flamas de escarlate.
Se frios como neve estais agora,
Com saudades de beijos que não destes,
Alegrai-vos na dor que vos descora.
Cerrai-vos para sempre em doce calma:
Que os beijos dados, e ainda os mais celestes,
Nunca deixam vestígios na nossa alma…
Em São Paulo, Afonso mergulha no jornalismo. contribuindo com o Comércio de S. Paulo, Diário Mercantil e Correio Paulistano. No Estado de São Paulo, publica poemas na seção: Parnaso. Enamora-se da sobrinha da dona da pensão onde mora, Ester, depois de uma moça chamada Adélia. Já está prontamente estabelecido na grande cidade. Começa então a organizar os poemas publicados para um livro. Conhece o poeta Jacques d’Avray, que oferecia reuniões em sua casa com outros poetas, começa aí o diálogo com alguns contemporâneos.
PULCHRA UT LUNA
de Dona Mística
Na solidão suprema dos conventos,
Em horas de pavor tão sossegadas,
Vêem-se passar fantasmas sonolentos,
Vultos de freiras mortas e de fadas.
Soluça a paz dos grandes monumentos,
Debruçado à beira das estradas:
Sombras de luto, pelos lutulentos
Caminhos, choram mágoas já choradas.
Vozes de além, pungentes de mistério,
Cantam: e os sinos dobram nas ermidas,
Acompanhando o cantochão funéreo…
(Brancas visões remotas, enfadonho
Enterro infindo de ilusões queridas
Na solidão suprema do meu Sonho!)
Com os poemas publicados nos jornais de São Paulo, Afonso preparava um livro, que se chamaria Salmos da Noite. Após a reforma Benjamin Constant, que permitiria a fundação nos Estados de Faculdade de Direito e com o entusiasmo de jovens advogados como Raimundo Correia e Afonso Arinos, fundou-se em Ouro Preto a Faculdade Livre de Direito. Em 1892, o poeta Afonso se mudaria para lá, e em 1894, colando o grau bacharel. Volta para São Paulo, conclui o curso de Ciências Sociais, e já no quadro da Academia Livre de Direito de Minas Gerais, debaixo de sua foto, está seu nome literário e latinizado: Alphonsus de Guimaraens.
poema Museus e Livrarias no blog http://pedrolago.blogspot.com
ELECTA UT SOL V
de Dona Mística
Quantas vezes no caos destes meus longos dias
Eu ouço a tua voz de perdão e de queixa,
E te vejo surgir, à hora em que aparecias,
Solta a faixa da tua ensombrada madeixa!
Tarde louca de abril; gemem ave-marias
Pelas naves; o luar o mundo inteiro enfeixa
Num ramalhete de ouro estelar: nostalgias
Que o ocaso em funeral pelo infinito deixa.
Do alto onde estás, volves o teu olhar clemente:
Andas no céu. Toda a minha Alma é um sol no poente,
Onde morre a visão dos meu dias felizes…
Uma saudade cruel o coração me corta;
Recordo-me de ti como de alguma morta
Que me tivesse amado em longínquos países…
Após concluir os cursos, Alphonsus vai para o Rio de Janeiro, onde se encontra com o poeta Cruz e Sousa. O poeta catarinense já admirava os versos de Alphonsus publicados no Estado de São Paulo. Conheceu também os grupos literários da época, tornou-se amigo do poeta parnasiano Emílio de Meneses e foi muito admirado por todos que conheceu. Em 1895 foi nomeado promotor de justiça da comarca mineira de Conceição do Serro.
RIMANCE DE DONA CELESTE
- Satã, onde a puseste?
Busco-a desde a manhã.
Oh pálida Celeste…
Satã! Satã! Satã!
E o cavaleiro andante,
A toda, a toda a rédea,
Passa em busca da Amante
Pela noite sem luar da Idade Média.
- O vento ulula e chora…
Maldição! maldição!
A quem amar agora,
Meu pobre coração…
E o Cavaleiro passa
Ante a sombria porta
Da lúgubre Desgraça,
Silenciosa mulher de olhar de morta.
- Viste, velha agoureira,
O Anjo do meu solar?
- Ah! com uma Feiticeira
Ela acaba de passar…
E bate o Cavaleiro
A outra porta escura:
É a casa do coveiro,
Solitária como uma sepultura.
- Quem sabe! acaso, acaso,
O meu anjo morreu?
- Fidalgo, morre o ocaso,
Não posso enterrá-lo eu!
Louco, às trevas pergunta:
Sombras pelos caminhos
Dizem que ela é defunta…
E ele começa a interrogar os ninhos.
- Acaso, acaso a viste,
Meu suave ruscinol?
- Ouves a endecha triste?
Bem vês que não vi o sol.
E o Cavaleiro escuta
Longe o estertor de um pio…
Talvez a voz poluta
E irônica de algum mocho erradio.
- O teu Anjo finou-se
Ao beijo de Satã…
Ai! do seu lábio doce,
Mais doce que a manhã!
Tinem arneses: voa
O cavaleiro andante
A toda a rédea, à-toa…
Não acharás, Fidalgo, a tua amante!
No Largo do Chafariz, em Conceição do Serro, Alphonsus se apaixona por uma moça de quinze anos. Filha de um escrivão da Coletoria Estadual, se chamava Zenaide. Para conquistá-la, o poeta enviou uma caixa de passas com flores na tampa e um poema. Não tardou a ficarem juntos. O poeta acabara de se banhar no mais puro lirismo! Em 1897, casa-se com a moça no dia de seu aniversário de dezessete anos. O poeta com seus 26. A viagem de núpcias foi em Ouro Preto, onde Zenaide conheceu seus pais. Algo de lúgubre aconteceria depois.
ÁRIA DO LUAR
O luar, sonora barcarola,
Aroma de argental caçoula,
Azul, azul em fora rola…
Cauda de virgem lacrimosa,
Sobre a montanha negras pousa,
Da luz na quietação radiosa.
Como lençóis claros de neve,
Que o sol filtrando em luz esteve,
É transparente, é branco, é leve.
Eurritmia celestial das cores,
Parece feito dos menores
E mais transcendentes odores.
Por essas noites, brancas telas,
Cheias de esperanças de estrelas,
O luar é o sonho das donzelas.
Tem cabalísticos poderes
Como os olhares das mulheres:
Melancolia e enerva os seres.
Afunda na água o alvo cabelo,
E brilha logo, algente e belo,
Em cada lago um sete-estrelo.
Cantos de amor, salmos de prece,
Gemidos, tudo anda por esse
Olhar que Deus à terra desce.
Pela sua asa, no ar revolta,
Ao coração do amante volta
A Alma da amada aos beijos solta.
Rola, sonora barcarola,
Aroma de argental caçoula,
O luar, azul em fora, rola…
Após a viagem para Ouro Preto, foi diagnosticado na moça uma cardiopadia adiantada. Tal problema fez com que o poeta tomasse cuidados excessivos com a mulher. Em 1899, Alphonsus publica Setenário das Dores de Nossa Senhora, Câmara Ardente e Dona Mística. Sempre com tiragens de 250 a 500 exemplares. Em 1900, o poeta já tinha duas filhas. Depois segue para o Rio de Janeiro e reafirma o contato com o grupo simbolista contribuindo com as revistas Rosa-Cruz e Revista Contemporânea.
PERISTYLUM
No sacro e fulvo peristilo jalde,
Entre silêncios de cristal imoto,
O meu Amor em nuvens se desfralde
Na perfeição astral do Eterno-Voto:
E pecador, a procurar embalde
A estrada espiritual do Céu remoto,
A aspiração da Fé sublime escalde
O meu peito medievo de devoto:
Longe da turbamulta que me cerca,
Eu fortaleça o coração vetusto
Para que nada do meu Ser se perca:
Neste poema de Amor, amplo e celeste,
Eu cante o extremo Epitalâmio augusto
À sombra funerária de um cipreste…
Alphonsus vai para Conceição do Serro onde contribui com o jornal A Gazeta. Fez algumas amizades na cidade e em junho de 1902 organiza o livro Kiriale, cronologicamente seu primeiro livro, editado em Portugal com despesas próprias. Em 1903 recusa um lugar na redação d’A Gazeta pelo salário de quatrocentos mil-réis. Logo após viria a ser redator de um jornal político. Alphonsus escrevia sátiras versificadas, muitas vezes contra médicos, que eram da oposição local, e também estava presente nas escassas quatro páginas com seus versos ao lado de Cruz e Sousa, Olavo Bilac, Coelho Neto, Raul Pompéia e outros amigos.
ANTÍFONA
Volvo o rosto para o teu afago,
Vendo o consolo dos teus olhares…
Sê propícia para mim que trago
Os olhos mortos de chorar pesares.
A minha Alma, pobre ave que se assusta,
Veio encontrar o derradeiro asilo
No teu olhar de Imperatriz augusta,
Cheio de mar e de céu tranquilo.
Olhos piedosos, palmas de exílios,
Vasos de goivos, macerados vasos!
Venho pousar à sombra dos teus cílios,
Que se fecham sobre dois ocasos.
Volvo o peito para as tuas Dores
E o coração para as Sete Espadas…
Dá-me, Senhora, a unção que nunca morre
Nos pobres lábios de quem espera:
Sê propícia para mim, socorre
Quem te adorara, se adorar pudera!
Mas eu, a poeira que o vento espalha,
O homem de carne vil, cheio de assombros,
O esqueleto que busca uma mortalha,
Pedir o manto que te envolve os ombros!
Adorar-te, Senhora, se eu pudesse
Subir tão alto na hora da agonia!
Sê propícia para a minha prece.
Mãe dos aflitos…
Ave Maria.
Alphonsus exerceu a função de promotor de justiça durante o ano de 1905. Certa vez, o poeta estudou um processo e se preparou para os debates. Momentos antes, empalideceu na frente de sua mulher, Zenaide, escorregou na cadeira e desmaiou. Ser promotor de justiça não era de seus talentos. Foi nomeado juíz municipal de Mariana. Foi a Belo Horizonte, onde conheceu jovens poetas simbolistas e que o admiravam muito. O poeta teve muitos filhos.
tradução de um poema de Paul Valéry no blog http://pedrolago.blogspot.com
NOVA PRIMAVERA
XXVI
Dos cravos o perfume entre as brisas anseia
E os astros, voando como um enxame prateado,
Cintilam com um tremente esplendor irisado
No céu que ao fundo se arroxeia.
Dos castanheiros através, eis que fulgura
A casa dela; após, de repente clareada,
Uma janela se abre… e a voz tão dourada
Em meio à noite ergue-se pura.
Oh encanto! doce voz, eu tremo aos teus acentos:
O orvalho para ouvir-te o rorejar suspende;
O lírio, no jardim à escuta, a frente pende,
E os rouxinóis estão atentos.
Já estabelecido em Mariana, seus pais vieram morar na casa do poeta. Seu pai Albino da Costa Guimarães, com 70 anos, tivera um desmoronamento financeiro no fim da vida. O pai de Alphonsus morreu no dia 5 de março de 1908 e sua mãe, Francisca, dois anos depois, após um ano numa cadeira. Alphonsus já decidira passar sua vida na cidade que o chamaria de “solitário”.
AS CANÇÕES I
Ando colhendo flores tristes:
Um goivo aqui, outro acolá…
Moças, por que não me sorristes?
Vossos sorrisos, flores tristes,
Eu não sei quem os colherá.
Eu colho flores para os noivos
Que já nã querem sonhar mais.
Nos vossos olhos nascem goivos…
Dai-me esas flores para os noivos
Que têm amadas celestiais.
Ando colhendo roxas flores:
Quantas saudades não colhi!
Eu já não tenho mais amores,
Pois vossos beijos, roxas flores,
Não mais florescem por aqui.
Eu colho flores para as mortas…
Quantos sepulcros enfeitei!
Dai-me grinaldas para as portas
Por onde vão saindo as mortas
Com que sonhei, com que sonhei!
Em janeiro de 1915, a França é invadida na Primeira Guerra Mundial. Alphonsus de Guimaraens entra numa crise cívica internacional. Escreve em francês os versos que surgiram da revolta contra o Kaiser que terminava assim: “Le nouvel Attila, l’empereur aux moustaches/En défi à la terre, insidieux vautour/ Ne te souillera pas, car ta vie est sans taches/Berceau de Joanne d’Arc”. No livro Pastoral aos Crentes do Amor e da Morte, há a presença de Verlaine e Mallarmé em poemas traduzidos.
CISNES BRANCOS
Ó cisnes brancos, cisnes brancos,
Por que viestes, se era tão tarde?
O sol não beija mais os flancos
Da montanha onde morre a tarde.
Ó cisnes brancos, dolorida
Minh’alma sente dores novas.
Cheguei à terra prometida:
É um deserto cheio de covas.
Voai para outras risonhas plagas,
Cisnes brancos! Sede felizes…
Deixai-me só com as minhas chagas,
E só com as minhas cicatrizes.
Venham as aves agoireiras,
De risada que esfria os ossos…
Minh’alma, cheia de caveiras,
Está branca de padre-nossos.
Queimando a carne como brasas,
Venham as tentações daninhas,
Que eu lhes porei, bem sob as asas,
A alma cheia de ladainhas.
Ó cisnes brancos, cisnes brancos,
Doce afago de alva plumagem!
Minh’alma morre aos solavancos
Nesta medonha carruagem…
Em 1915, após sua crise cívica em virtude da Grande Guerra (perdoem o imenso deslize), Alphonsus teve um encontro com José Severiano Resende, poeta que vivia em Paris e que abandonara a batina. O encontro aconteceu em Belo Horizonte, onde um jantar foi oferecido aos dois poetas na Academia Mineira de Letras. Alphonsus não ia a Belo Horizonte desde 1906, mas o fez pelo amigo. No jantar houve uma leitura de poemas de todos os poetas que lá estavam. Por que este relato é importante? Porque foi a última viagem de Alphonsus de Guimaraens.
ISMÁLIA
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…
E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…
Como é notório em qualquer antologia ou biografia breve, Alphonsus de Guimaraens é conhecido por “Solitário de Mariana”, cidade onde morou até o fim de sua vida. Seu filho, João Alphonsus, havia pleiteado que o pai fosse para Comarca de Sabará trabalhar no tribunal, porém, o projeto não foi adiante. O poeta vivia uma vida modesta, tendo somente a poesia como consolo. Algo trágico viria a acontecer.
CAMPA EM FLOR
Quando tu viste o branco jasmineiro
Que dentro da minha alma florescia,
Sorriste-me e colhi logo o primeiro
Beijo que nos teus lábios me sorria.
Depois eras o meigo jardineiro,
Que o jardim cultivava noite e dia…
Água nunca faltava no canteiro,
Pois que a fonte dos olhos teus corria.
Mas vendo que eu, alheio a ti, pendera
Um dia a fronte para a terra impura,
Fitaste-te com os teus olhos antigos:
- “Desgraçada de mim, que me esquecera
Que nascem com mais viço e formosura
As flores que plantamos nos jazigos!”
A última filha do poeta, Constança, ou Constancinha, nasceu no dia 8 de março de 1920. Porém no dia 16 de maio, depois de uma doença rápida, a menina morre. A irmã do poeta, Estefânia, e sua tia, Maria Eugênia, haviam atribuido a tragédia de Constancinha ao nome que lhe fora dado (!), pois ambas haviam censurado a escolha. Mas foi um duro golpe ao coração do poeta. Foi se envolvendo numa amargura, até que na madrugada de 15 de julho de 1921, dois meses depois da morte da filha, morre Alphonsus de Guimaraens. Seu corpo, está no cemitério da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, no ponto mais alto de Mariana.
A CATEDRAL
Entre brumas, ao longe, surge a aurora.
O hialino orvalho aos poucos se evapora,
Agoniza o arrebol.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece, na paz do céu risonho,
Toda branca de sol.
E o sino canta em lúgubres responsos:
“Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”
O astro glorioso segue a eterna estrada.
Uma áurea seta lhe cintila em cada
Refulgente raio de luz.
A catedral ebúrnea do meu sonho,
Onde os meus olhos tão cansados ponho,
Recebe a bênção de Jesus.
E o sino clama em lúgubres responsos:
“Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”
Por entre lírios e lilases desce
A tarde esquiva: amargurada prece
Põe-se a lua a rezar.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece, na paz do céu tristonho,
Toda branca de luar.
E o sino chora em lúgubres responsos:
“Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”
O céu é todo trevas: o vento uiva.
Do relâmpago a cabeleira ruiva
Vem açoitar o rosto meu.
E a catedral ebúrnea do meu sonho
Afunda-se no caos do céu medonho
Como um astro que já morreu.
E o sino geme em lúgubres responsos:
“Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”
Eis que chegamos ao final de mais uma antologia poética. Neste mês vimos um pouco da vida e da obra deste que se tornou um dos grandes nomes da poesia simbolista no Brasil. Poeta recluso, mineiro, de obra extensa e substancial, ligado às levitações religiosas e ao amor, que escolheu a calma da solidão para viver e que a vida fez gerar outros grandes poetas na família. Semana que vem, entraremos em outro universo poético, contemporâneo ou não, outras proposições, outros poemas. Pra frente companheiros!
DOIS DE NOVEMBRO XX
Vou pela sombra. O luar é suave como
O sol que morre no claror supremo.
Agora a lua, em demorado assomo,
Domina todo o céu, de extremo a extremo.
Eis a floresta. O espírito de um gnomo
Em cada árvore ri. Valha-me o demo!
Por sobre a copa deste cinamomo
Desliza a lua, gôndola sem remo…
Sigo. Silêncio e luz… Dormem os ninhos.
Por toda a parte, heráldicos arminhos,
Aqui e ali, refulgem sobre o chão.
É a floresta enluarada da minh’alma:
E o teu olhar é a lua doce e calma
Que me segue através desta ilusão…
Retrospectiva 2009
Começamos este bom ano de estudos com o grande poeta simbolista João da Cruz e Sousa. Nasceu em Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis, em 24 de novembro de 1861. Filho de negros alforriados, teve educação na ‘Casa Grande’ com seu ex-senhor, cujo nome de família “herdou”. Aprendeu latim, grego, francês e se tornou poeta ligado à poesia francesa. Apesar de ser negro, Cruz e Sousa só se envolveu com a questão abolicionista numa viagem que fez com um grupo de teatro para a Bahia, onde conheceu outros intelectuais da causa. Cruz e Sousa morreu no povoado Estação de Sítio no município de Antônio Carlos em Minas Gerais no dia 19 de março de 1898.
BRAÇOS
Braços nervosos, brancas opulências,
brumais brancuras, fúlgidas brancuras,
alvuras castas, virginais alvuras,
latescências das raras latescências.
As fascinantes, mórbidas dormências
dos teus abraços de letais flexuras,
produzem sensações de agres torturas,
dos desejos as mornas florescências.
Braços nervosos, tentadoras serpes
que prendem, tetanizam como os herpes,
dos delírios na trêmula coorte …
Pompa de carnes tépidas e flóreas,
braços de estranhas correções marmóreas,
abertos para o Amor e para a Morte!
ENCARNAÇÃO
Carnais, sejam carnais tantos desejos,
carnais, sejam carnais tantos anseios,
palpitações e frêmitos e enleios,
das harpas da emoção tantos arpejos…
Sonhos, que vão, por trêmulos adejos,
à noite, ao luar, intumescer os seios
láteos, de finos e azulados veios
de virgindade, de pudor, de pejos…
Sejam carnais todos os sonhos brumos
de estranhos, vagos, estrelados rumos
onde as Visões do amor dormem geladas…
Sonhos, palpitações, desejos e ânsias
formem, com claridades e fragrâncias,
a encarnação das lívidas Amadas!
Torquato Pereira de Araújo Neto nasceu em Teresina, Piauí, no dia 9 de novembro de 1944. Veio como um cometa. Conheceu Gilberto Gil no colégio em Salvador, se mudou para o Rio e se tornou figura essencial na efervescência cultural dos anos 60. Explosivo, Torquato foi nome e porta-voz do Tropicalismo, da poesia Concreta e da música brasileira naquela época. Escrevia crítica de música para o Geléia Geral. Uma curiosidade: Torquato era fascinado por vampiros. Chegou a fazer um filme antologico chamado Nosferatu no Brasil. Torquato se suicidou em seu apartamento após a festa de seu aniversário de 28 anos, trancando-se na cozinha e abrindo o gás, o dia foi 10 de novembro de 1972.
Este poema é uma obra prima.
EXPLICAÇÃO DO FATO PARTE II
Também tenho uma noite em mim tão escura
que nela me confundo e paro
e em adágio cantabile pronuncio
as palavras da nênia ao meu defunto,
perdido nele, o ar sombrio.
(Me reconheço nele e me apavoro)
Me reconheço nele,
não os olhos cerrados, a boca falando cheia,
as mãos cruzadas em definitivo estado, se enxergando,
mas um calor de cegueira que se exala dele
e pronto: ele sou eu,
peixe boi devolvido à praia, morto,
exposto à vigilância dos passantes.
Ali me enxergo, à força no caixão do mundo
sem arabescos e sem flores.
Tenho muito medo.
Mas acordo e a máquina me engole.
E sou apenas um homem caminhando
e não encontro em minha vestimenta
bolsos para esconder as mãos, armas, que, mesmo frágeis,
me ameaçam.
Como não ter medo?
Uma noite escura sai de mim e vem descer aqui
sobre esta noite maior e sem fantasmas.
como não morrer de medo se esta noite é fera
e dentro dela eu também sou fera e me confundo nela e
ainda insisto?
Não é viável.
Nem eu mesmo sou viável, e como não? Não sou.
O que é viável não existe, passou há muito tempo
e eram manhãs e tardes e manhãs com sol e chuva
e eu menino.
eram manhãs e tardes e manhãs sem pernas
que escorriam em tardes e manhãs sem pernas
e eu sentado num tanque absurdamente posto no meio da rua,
menino sentado sem a preocupação da ida.
E era todo dia.
Havia sol
e eu o sabia
sol: era de dia
Havia uma alegria
do tamanho do mundo
e era dia no mundo.
Havia uma rua
(debaixo dum dia)
e um tanque.
Mas agora é noite até no sol.
Mário de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa, em 19 de maio de 1890. Foi colaborador de diversos jornais em Portugal. Passou um tempo em Paris, se apaixonou por uma prostituta, viveu intensamente sua angústias na capital francesa. Correspondeu-se com o amigo Fernando Pessoa a quem deixou todos os seus manuscritos. Se tornou um pouco conhecido após participar da revista literária e modernista Orpheu, marco da chamada Geração d’Orpheu. No dia 26 de abril de 1916, aos 26 anos, Mário se suicida em Paris tomando arseniato e estricnina.
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ÁLCOOL
Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longemente em procissão;
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.
Batem asas de auréola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de cor e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Descem-me a alma, sangram-me os sentidos.
Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo —
Luto, estrebucho… Em vão! Silvo pra além…
Corro em volta de mim sem me encontrar….
Tudo oscila e se abate como espuma…
Um disco de oiro surge a voltear…
Fecho os meus olhos com pavor da bruma…
Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraíso?…
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eternizo?
Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que ando delirante —
Manhã tão forte que me anoiteceu.
SONETO DE AMOR
Que rosas fugitivas foste ali:
Requeriam-te os tapetes – e vieste…
- Se me dói hoje o bem que me fizeste,
É justo, porque muito te devi.
Em que seda de afagos me envolvi
Quando entraste, nas tardes que apar’ceste -
Como fui de percal quando me deste
Tua boca a beijar, que remordi…
Pensei que fosse o meu o teu cansaço -
Que seria entre nós um longo abraço
O tédio que, tão esbelta, te curvava…
E fugiste…. Que importa? Se deixaste
A lembrança violeta que animaste,
Onde a minha saudade a Cor se trava?…
Antônio Carlos de Brito, ou Cacaso, nasceu em Uberaba, Minas Gerais, no dia 13 de março de 1944. Foi um poeta e letrista de música popular, tendo feito letras para grandes nomes como Elton Medeiros, Edu Lobo e muitos outros. Foi professor da Puc e um dos principais teóricos da geração marginal da qual fez parte. Publicou artigos importantes sobre a poesia contemporânea, e lembra bem que esta geração é fruto da tradição de Bandeira e Mário de Andrade. Cacaso tinha um tom irônico único em sua poesia. No dia 27 de dezembro de 1987, um infarte o levou embora.
poema A estrada no blog http://pedrolago.blogspot.com
VIDA E OBRA
Você sabe o que Kant dizia?
Que se tudo desse certo no meio também
Daria no fim dependendo da ideia que se
Fizesse de começo.
E depois – para ilustrar – saiu dançando um
Foxtrote.
MODÉSTIA À PARTE
Exagerado em matéria de ironia e em
Matéria de matéria moderado.
CARTEIRA PROFISSIONAL
Não sou amado no amor: sou
Amador.
LÁ EM CASA É ASSIM
meu amor diz que me ama
mas jamais me dá um beijo
pra continuar rejeitado assim
prefiro viajar para a Europa
SURDINA
Primeiro o Tenório Jr.
que sumiu na Argentina
Depois quando perigava
onze e meia da matina
veio a notícia falal:
faleceu Elis Regina!
Um arrepio gelado
um frio de cocaína!
A morte espreita calada
na dobra de uma esquina
rodando a sua matraca
tocando a sua buzina
Isso tudo sem falar
na morte do velho Vina!
E agora é Clara Nunes
que morre ainda menina!
É demais! Que sina!
A melhor prata da casa
o ouro melhor da mina
Que Deus proteja de perto
a minha mãe Clementina!
Lá vai a morte afinando
o coro que desafina…
Se desse tempo eu falava
do salto da Ana Cristina…
Manuel Maria Barbosa du Bocage nasceu em Setúbal no dia 15 de setembro de 1765. Enfim foi um poeta que conseguiu ter uma voz em Portugal depois de Camões. Viveu numa sociedade onde os poetas beiravam à bajulação, e foi através de sua personalidade contestadora, provocadora e, sobretudo, libidinosa que marcou seu nome na poesia portuguesa. Bocage viajou para o Brasil, conheceu a modinha, assim como Camões seu grande ídolo, foi da Marinha, percorreu todas as colônias portuguesas, passou tempos na prisão e foi um metrificador nato. Bocage morreu no dia 21 de dezembro de 1805. Este poeta vale o mergulho.
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ACHANDO-SE PRESTES A AUSENTAR-SE DA SUA AMADA
Praias de Sacavém, que Lemnoria
Orna cos pés nevados e mimosos,
Gotejantes penedos cavernosos,
Que do Tejo cobris a margem fria:
De vós me desarreiga a tirania
Dos ásperos Destinos poderosos;
Que não querem que eu logre os amorosos
Olhos, aonde jaz minha alegria:
Oh funesto, oh penoso apartamento!
Objeto encantador de meus sentidos,
A sorte o manda assim, de ti me ausento:
Mas inda lá de longe os meus gemidos
Guiados por Amor, cortando o vento,
Virão ninfa querida, a teus ouvidos.
SONETO IX
Arreitada donzela em fofo leito
Deixando erguer a virginal camisa,
Sobre as roliças coxas se divisa
Entre sombras sutis pachocho estreito:
De louro pêlo um círculo imperfeito
Os papudos beicinhos lhe matiza;
E a branda crica, nacarada e lisa,
Em pingos verte alvo licor desfeito:
A voraz porra as guelras encrespando
Arruma a focinheira, e entre gemidos
A moça treme, os olhos requebrando:
Como é ainda boçal perde os sentidos;
Porém vai com tal ânsia trabalhando,
Que os homens é que vêm a ser fodidos.
Bruno Lúcio de Carvalho Tolentino nasceu no Rio de Janeiro no dia 12 de novembro de 1940. Bruno, que nasceu em uma família tradicional e rica do Rio de Janeiro, desde sempre conviveu com intelectuais e escritores. Ficou preso na Inglaterra durante anos, alfabetizou presos e ensinou literatura na prisão. Foi um poeta do pensamento de alta cultura, polêmico, criticava severamente a intelectualidade brasileira. Escreveu um livro que demorou quarenta anos para ficar pronto: O Mundo como Ideia, base da antologia do estudo que fizemos neste ano. Bruno morreu no dia 27 de junho de 2007. Um grande e peculiar poeta brasileiro.
O PÊSSEGO
Estavas debruçada e me cobriste
dos bruscos panos brancos da alegria,
cantava a noite sacudindo a terra,
desatando o dia,
meu corpo todo em riste,
jubilação do instante, te bebia,
e encontados à crista
luminosa da terra,
fomos marulho puro, maresia,
rebentação da luz que não se avista.
Vive-se da saudade da surpresa
que sacudira acesa
a tocha humana pelo coração.
Mas se acaso outra vez me apareceres,
a rosa refolhada dos prazeres
no ventre e aquele cacto
de delícias na boca,
recomece o prodígio, não o ato:
somos bichos do chão
e à solidão da raça
toda carícia é pouca,
toda ternura passa
e, enquanto a chama cauteriza a chaga
um dia o coração, na escuridão
de si mesmo, instantâneo e vão, se apaga.
A VENDA
A voz do amor vem várias vezes,
mas a alma ama uma vez só.
De estrelas há um trilhão e treze
e somem quando um sol sem dó
recobre-as todas de ouro em pó.
No céu em que eu andei às vezes,
as belas balelas dos deuses
- neoclássicas, de um rococó
ou de um barroco de encomenda
ou de ilusão – de vez em quando
iam chegando e iam passando,
até que um dia um ser de lenda
passou por lá e pô-me a venda
da luz total nos olhos cândidos.
Neste ano fizemos um estudo de cinco semanas sobre tradução de poesia por poetas. Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos, Ivan Junqueira, Machado de Assis, Ana Cristina Cesar, Fernando Pessoa e muitos outros poetas que se enveredaram no árduo trabalho da tradução de poemas. As diferenças são enormes, os estilos também, e creio que a tradução literalmente justa não é possível, nem em poemas em espanhol. Mas foi um estudo muito prazeroso e instigante, gerou muitas respostas e incentivou outros mergulhos.
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ONDE JAMAIS VIAJEI
E.E CUMMINGS
tradução de
Paulo Mendes Campos
onde jamais viajei, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o silêncio deles;
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram
ou que não posso por perto demais tocar…
o teu mais leve olhar facilmente me descerra
embora como os dedos eu me tenha cerrado.
sempre me abres pétala por pétala como a primavera
abre (tocando-a jeitosa, misteriosamente) sua primeira rosa
ou, se te aprouvesse encerrar-me, eu
e minha vida nos fecharíamos em beleza, subitamente,
como quando o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente por todo lado a tombar;
nada do que nos é dado a perceber neste mundo se iguala
ao poder da tua imensa fragilidade: cuja textura
me compele com a cor das suas pátrias,
que me cedem a morte e o sem fim a cada alento
(não sei o que vai em ti que se fecha
e se entreabre; apenas alguma coisa em mim entende
que a voz dos teus olhos é mais funda que as rosas todas)
e ninguém, nem mesmo a chuva, tem as mãos assim tão pequenas
UMA PALAVRA É DEMAIS PROFANADA
SHELLEY
tradução
Thereza Christina Rocque da Motta
Uma palavra é demais profanada
para que eu a profane;
um sentimento é falsamente desdenhado demais
para que tu o desdenhes;
uma esperança se aproxima do desespero demais
para que a prudência a acalme;
e tua piedade é mais cara
do que de qualquer outra pessoa.
Não posso te dar o que chamam de amor;
mas não aceitarás
a adoração que eleva o coração
e os céus não desprezam, –
a ânsia da traça pela luz das estrelas,
da noite pelo amanhecer,
e a devoção pelo que se distancia
da esfera do nosso sofrer?
HELENA
PAUL VALÉRY
tradução
Pedro Lago
Azul! Sou eu… Venho das grutas da morte
Escutar a onda se romper aos degraus sonoros,
E eu revejo as galés dentro das auroras
Ressucitarem da sombra ao fio dos ramos de ouro.
Minhas solitárias mãos chamam os monarcas
Cuja barba de sal divertia meus dedos puros;
Eu chorava. Eles cantavam seus triunfos obscuros
E os golfos enterrados às popas de seus barcos,
Eu escuto as conchas profundas e os clarins
Militares ritmarem o vôo dos remos;
O canto claro dos remadores concatenam o tumulto
E os Deuses, na proa heróica, exaltados
Em seu sorriso antigo e que a espuma insulta,
Levantam sobre mim seus braços indulgentes e esculpidos.
Jorge Mateus de Lima nasceu em Alagoas no dia 23 de abril de 1893. Foi poeta, médico, político, ensaista, tradutor e pintor. Formou-se médico aos vinte anos na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Começou a escrever poesia parnasiana, aprofundou-se na forma do soneto e depois sobre a temática nativa. Jorge de Lima também é conhecido pela sua catolicidade. Escreveu poemas essencialmente religiosos e, junto com Murilo Mendes, restaurou a Poesia em Cristo. Foi recusado seis vezes para a Academia Brasileira de Letras. Jorge de Lima morreu no dia 15 de novembro de 1953.
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DOMÍNIO RÉGIO
Investiguei a Grécia em Platão e em Homero,
Vi Sócrates beber a taça de cicuta…
Depois passei a Roma e analisei de Nero
Na boca de Petrônio essa face corrupta.
Conheci Santo Anselmo e São Tomás, Lutero,
Estudei de Voltaire a inteligência arguta
E finalmente andei como se fosse Asvero
Pela Ciência e a História em requintada luta…
Mas a Arte é que me impõe o seu domínio régio
E é por isso que adoro a mão de Tintoretto
E a sublime palheta e o pincel de Correggio…
E é por isso que eu amo o verso alexandrino
E burilo, Mulher, este pobre soneto
Inspirado a pensar em teu perfil divino.
O CANTO DA DESPARIÇÃO
Aqui é o fim do mundo, aqui é o fim do mundo
em que até aves vêm cantar para encerrá-lo.
Em cada poço, dorme um cadáver, no fundo,
e nos vastos areais – ossadas de cavalo.
Entre as aves do céu: igual carnificina:
se dormires cansado, à face do deserto,
quando acordares hás de te assustar. Por certo,
corvos te espreitarão sobre cada colina.
E, se entoas teu canto a essas aves (teu canto
que é debaixo dos céus, a mais triste canção),
vem das aves a voz repetindo teu pranto.
E, entre teu angustiado e surpreendido espanto,
tangê-las-ás de ti, de ti mesmo, em que estão
êsses corvos fatais. E êsses corvos não vão.
Afonso Henriques de Guimaraes Neto nasceu em Belo Horizonte em 1944. Aos 10 anos, veio para o Rio de Janeiro e depois para Brasília, onde concluiu os estudos fundametais e, posteriormente, a faculdade de Direito. Afonso é filho do poeta Alphonsus de Guimaraes Filho e neto do grande poeta simbolista Alphonsus de Guimaraes. Afonso participou da Antologia 26 poetas hoje de Heloisa Buarque de Holanda. Desde sua estréia em 1972, publicou cerca de 10 excelentes livros de poesia.
Um dos grandes poetas contemporâneos.
poema No silêncio no blog http://pedrolago.blogspot.com
MOMENTO
Na sala
mãos muito brancas
passam e repassam páginas
do livro inconsolável.
Na cabeça
o vento enorme
de todos os poemas
cristalizando-se em nada.
No tempo
a percepção da eterna
derrota
sob ressurreições infinitas.
De repente a borboleta seca
voando
voando na sala.
Oh dai-nos ao menos
esse momento úmido
de nossas mãos no vazio.
NÃO SEJA TÃO LITERÁRIO
não seja tão literário
mas se homero dante a bíblia
são pura literatura
por que não escrever abismos com violinos?
(sei que minha geração
ainda uma vez ironizou
os programas do poder
os discursos literários
romantismos concretismos
panfletarismos cabotinismos
evoé nuvem cigana
saudades cacaso & ana
mais tantos que sonharam
o fim das ditaduras
naqueles roarin’70)
e o consolo paralelo
das construções diamantinas
o la chair est triste, hélas!
et j’ai lu touts les livres
(não resolve
mas me ilumino de imenso)
última oportunidade a um cinquentão
sem poética consistente
mas com tanta vodka pela frente
(se pudéssemos estrangular deus
a branca medicina
tudo tudo
ironia na neblina)
a prosa invadiu de vez a poesia
com música ou sem melodia
o verso não mais recamará ossos
(parcas as parcas
aspérrimos verbos e este ônibus
seco)
corais de luzes dolorosas
navios do princípio do tempo
encalhados nos esqueletos sem fim
(ninguém virá na estrada para
e se vier não há mais jeito
refulgem ruíssimas retinas
o anjo se drogou todo de estrelas)
no fundo fosso a fera engole
a ferida tremenda
e no entanto a vida
entanto o sonho
(virá cantando aleluia pelo atalho
todos desconhecem o mapa mágico
rastro sagrado pedra angular
tudo se esqueceu)
última oportuidade hare
hare
Fizemos um estudo sobre a poesia barroca brasileira e foi muito interessante. Foi o primeiro momento da poesia nacional. Como lembra bem Manuel Bandeira em sua Apresentação da poesia brasileira, padre José Anchieta fizera as “primeiras letras”, mas em nosso estudo, atribuimos ao poeta Bento Teixeira, nascido no Porto em 1561 e vindo ao Brasil com cinco ou seis anos, o título de primeiro poeta “brasileiro”. Estudamos também Manuel Botelho de Oliveira e Sebastião da Rocha Pita, porém, foi em Gregório de Matos que nossa poesia teve seu primeiro grito, nascido em Salvador já no século XVII.
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DESCRIÇÃO DO REFICE DE PARANAMBUCO
Bento Teixeira
Para a parte do Sul, onde a pequena
Ursa se vê de guardas rodeada,
Onde o Céu luminoso mais serena,
Tem sua influição, e temperada.
Junto da nova Lusitânia ordena
A natureza, mãe bem atentada,
Um porto tão quieto, e tão seguro,
Que para as curvas Naus serve de muro.
É este porto tal, por esta posta,
Uma cinta de pedra, inculta, e viva,
Ao longo da soberba e larga costa,
Onde quebra Netuno a fúria esquiva.
Entre a praia, e pedra descomposta,
O estanhado elemento se deriva
Com tanta mansidão, que uma fateixa
Basta ter à fatal Argos aneixa.
QUEIXA-SE O POETA EM QUE O MUNDO VAI ERRADO, E QUERENDO EMENDÁ-LO TEM POR EMPRESA DIFICULTOSA
Gregório de Matos
Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.
O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ornadas
Do que anda só o engenho mais profundo.
Nâo é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir, que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.
O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo o mar de enganos
Ser louco cos demais, que ser sisudo.
Guilherme Zarvos nasceu em São Paulo no dia 23 de março de 1957, mas vive no Rio de Janeiro desde os dois anos de idade. Formou-se em Economia, fez mestrado em Ciências Sociais e Doutorado em Letras pela Puc – Rio. Trabalhou com Darcy Ribeiro, que o queria como político, mas Guilherme optou alguma coisa com poesia. Foi um dos fundadores do CEP 20000. É uma figura controversa, provocadora, generosa e muito peculiar no cenário poético do Rio de Janeiro e continua atuando no que faz melhor.
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MONTE PASCOAL
Daqui de cima do Monte Pascoal viu. Neste
bosque encantado, nesta floresta que é parque
quando tudo era parque – correu morro: trinta
quilômetros. lá de cima havia enxergado. o
coração desejava explodir, o pé precisava voar
- ar pulmão ar – queria chegar na praia, em
Corumbau e conferir: nunca vira Deus tão lindo.
correu por meio de ipê caixeta pinha cupuba
gameleira pau-brasil sapucaia jacarandá oiti
pequi e deixou marcas das solas ligeiras no
manto tapete amarelo na trilha que tantas vezes
percorreu e nem sentiu o perfume doce da
floresta que ontem chovera. era manhã e
orvalhava e ele não viu os pingos ainda
agarrados nas folhas em todos os tons semitons
verdes que dependem das mudanças das horas
do dia e o do tempo e da Terra e das marcas dos
raios de sol. E uma codorna passou mansinha
e tentou lhe avisar que não se apressasse e outros
bichos tentaram lhe pedir que não fosse, gritando
estridentes, uivando, que parasse – ar ar pulmão
eu lhe estouro mas quero chegar – e correu como
nunca, em nome de todos os seus Deuses, de
todas as suas mulheres, não muitas, na sua
juventude. O corpo rijo acostumado à caça à
derrubada ao sexo às guerras aos jogos
correspondia. porém a Impaciência já havendo
lhe tomado exigia mais: passou batido por
borboletas brancas amarelas azuis que
aspiravam por enfeitar acariciar seu braço
guerreiro como só Bela sabia, mas não era a hora.
Apenas a praia lhe interessava e num descuido
uma raiz traiçoeira passou-lhe uma banda e o
guerreiro caiu de boca no chão, no tapete de
folhas de sêmen de óvulo de adubar terra, e um
sapo o encarou: dez centímetros era a distância.
não cuspiu, não era disso. tinha a cor das folhas.
caleidoscópio se protegia dos inimigos. o sapo
não falou absolutamente nada já que não era
um sapo falante mas o encarou preenchido – na
completa imobilidade de sapo que encara – e
Zinho, por alguns segundos, não pensou na areia
que precisava alcançar e lembrou de seu avô,
do olhar grave de tuxaua em momentos de
decisão. de tomar rumo, de falar o que o Tempo
lhe ensinou. a cara do sapo esculpida por pai e
mãe e pai e mãe e pai e mãe do sapo, dez
centímetros de seus olhos, o hipnotizava e ele
deitado de bruços, corpo todo no chão tapete de
folhas, por um minuto permitiu que maus
pressentimentos dominassem sua cabeça. o
corpo do forte fraquejou. foram apenas estes
segundos e o corpo do forte já corria e Fantasia
e Impaciência eram novamente suas donas e
Zinho já avistava a praia e não era só ele ali:
toda a aledeia, do mais velho à mais pequenininha
se grudava perto da água dentro da água para
ver:
A Fundação do Brasil.
Assim terminamos o ano de 2009, com o o poeta considerado louco por muitos e redescoberto anos depois. Neste ano mergulhamos em grandes poetas da nossa língua e em 2010 não será diferente. Para mim, a poesia é algo a ser compartilhado, através da leitura de poemas, dizendo-os em público, para os amores, para outros poetas, enfim, não importa. Conhecer os poetas de nossa língua, mergulhar em suas obras. Para o leitor, um toque em si, para o poeta, um diálogo com a tradição. Boas festas a todos!
poema Intelectuais no blog http://pedrolago.blogspot.com
FRAGMENTOS SOBRE HELEURA
Desde a noite funérea, de tristeza
Heleura está doente. Ara, morrendo,
Nunca perdera as cores do semblante,
Um formoso defunto: “vivo! vivo!”
Gritava a filha p’ra que o não levassem:
“Vivo! vivo!” Prenúncios maus, diziam.
Mas para Ut era crença que, dos túmulos,
Corvos de Odin mandando pelo mundo,
Os mortos melhor cumprem seu desígnios.
Ora, a chorar no tum’lo (Ia, em violetas
Mudada pelo amor), perpétuas meigas
Tornara-se Ut-allah, que o amortalharam.
Fundo silêncio estava dia e noite
Na sombria mansão: de longe em longe,
Como rasgam-se as brisas açoitadas
Por vergônteas, manhãs d’esto, etérea aura
Parecia chamando: Heleura!’ … Heleura!…
Que ela escutava; e nuns baixinhos ecos
A febre arremedando: He – lê – u – rous …
Heliéiou-urion … Súbito saltava,
Pesar d’Ut e as Armênias vigilantes,
E as seráficas fraldas apanhando,
Nuzinhos pés, a rir toda, irradiava
No aposento a estelífera carreira
Atalanta de luz. E viam nela
A luzente visão dos cintilados
Limões de luz, de luz níveos triângulos
Nessa cal mortal brancura, o rosto,
O riso, a boca, os olhos brancos, brancos:
E o maternal diamante em pó desfeito
Que vivifica ao cândido diamante,
Torna-o ao leito Ut-allah: “Heleura! Heleura!”
Sousândrade
Joaquim de Sousa Andrade nasceu na Vila dos Guimarães no Maranhão (consta numa biografia que nasceu em Alcântara, também no Maranhão) no dia 9 de julho de 1832. Formou-se em Letras pela Sorbonne, em Paris, onde também estudou Engenharia. Permaneceu na Europa por muitos anos, viajou muito e conheceu também as repúblicas latino-americanas. Neste mês entraremos na poesia deste poeta que só se tornou conhecido aqui no Brasil por volta de 1970. Vale o mergulho.
HARPA XXXII
Dos rubros flancos do redondo oceano
Com suas asas de luz prendendo a terra
O sol eu vi nascer, jovem formoso
Desordenando pelos ombros de ouro
A perfumada luminosa coma,
Nas faces de um calor que amor acende
Sorriso de coral deixava errante.
Em torno de mim não tragas os teus raios,
Suspende, sol de fogo! tu, que outrora
Em cândidas canções eu te saudava
Nesta hora d’esperança, ergue-te e passa
Sem ouvir minha lira. Quando infante
Nos pés do laranjal adormecido,
Orvalhado das flores que choviam
Cheirosas dentre o ramo e a bela fruta,
Na terra de meus pais eu despertava,
Minhas irmãs sorrindo, e o canto e aromas,
E o sussurrar da rúbida mangueira
Eram teus raios que primeiro vinham
Roçar-me as cordas do alaúde brando
Nos meus joelhos tímidos vagindo.
oaquim de Sousa Andrade, ou Sousâdrade como era conhecido, era republicano convicto e militante. Em 1870 se muda para os Estados Unidos e vai morar em Nova Iorque. Lá funda um periódico republicano chamado O Novo Mundo, publicado em português. Veremos que o poeta se estende pelos poemas de forma “crescente” diria. Num estilo bem diferente dos outros poetas românticos. Alías, Sousândrade é um poeta da fase romântica da poesia brasileira e será um marco na divisão deste período quando deságua no realismo.
POEMA
O sol ao pôr-do-sol (triste soslaio!)…o arroio
Em pedras estendido, em seus soluços
Desmaia o céu d’estrelas arenoso
E o lago anila seus lençóis d’espelho…
Era a Ilha do Sol, sempre florida
Ferrete-azul, o céu, brando o ar pureza
E as vias-lácteas sendas odorantes
Alvas, tão alvas!… Sonoros mares, a onda
d’esmeralda
Pelo areal rolando luminosa…
As velas todas-chamas aclaram todo o ar.
O Romantismo no Brasil teve como marco a publicação do livro “Suspiros póeticos e saudades” de Gonçalves Magalhães em 1836, entretanto, o Brasil já buscava uma identidade própria que nos diferenciasse da antiga metrópole, isto é, de Portugal. Conquistamos nossa Independência (não discuto o “conquistar”) em 1822, porém, a primeira manifestação cultural veio 14 anos depois, através do “Ensaio sobre a história da literatura no Brasil” publicado na revista Niterói do mesmo Gonçalves Magalhães. Durou apenas dois números.
DÁ MEIA-NOITE
Dá meia-noite em céu azul-ferrete
Formosa espádua a lua
Alveja nua,
E voa sobre os templos da cidade.
Nos brancos muros se projetam sombras;
Passeia a sentinela
À noite bela
Opulenta da luz da divindade.
O silêncio respira; almos frescores
Meus cabelos afagam;
Gênis vagam,
De alguma fada no ar andando à caça.
Adormeceu a virgem; dos espíritos
Jaz nos mundos risonhos -
Fora eu os sonhos
Da bela virgem… uma nuvem passa.
Antes de situar o Sousândrade no Romantismo Brasileiro, vale lembrar suas principais características lá fora. Surgiu na Europa no final do século XVIII. A grosso modo, tinha como objetivo propor uma visão de mundo contra o racionalismo e grifar o espírito nacionalista nos países. O termo “romântico”, que norteou o período, veio da necessidade do individuo de ter um sentido objetivo, no idealismo ou poéticamente. Não tardou a ganhar força na figura do próprio indivíduo, através do drama humano e um gosto pelo escapismo. A Revolução Francesa foi a menina dos olhos para os românticos. Liberté Egalité Fraternité.
REPÚBLICA É MENINA BONITA DIAMANTE INCORRUPTÍVEL
Entre os astros, sagrados montes
Feliz asilo da paixão:
Puros jardins, sonoras fontes,
E virginal um coração
Vibrando aos claros horizontes
E encantado à etérea soidão.
Quis ser em chegar, primeirinha:
Oh! A gentileza do lar!
A tudo dispor; pra onde vinha
Sem dizer e onde a s’encontrar
Fé, por sugestão que adivinha,
Alma que espera.
“Hei de, he de a(…)
“Doces miragens, adeus! Vejo
Na profundez do coração,
O interno oceano do desejo,
D’Heleura a ideal solidão:
Vos deixo a Deus. Deixai-me o beijo
Preço da livre sem senão:
“Doutra dona… oh, a inteligência
Dona… mas, cetim branco e flor!
‘Menina e moça’, áurea existência
Musa cívica a Musa-Amor!
Já fotografara-te o pensamento
Que um pensamento houve a transpor”.
Das cinzas fênix renascida,
Arte divina a retratar
Anos treze – quão parecida!
Ela era; hei de noutra a encontrar
Helê que dos céus é descida,
Céus! A borboleta solar!
“A metamorfose sagrada
De jovem pátria e o cidadão
Oiro de lei, Virgínia honrada
Por todo o nobre coração:
Ditando diga: eu sou a amada,
A amante Luz, o Amor
e o Pão.”
O Romantismo é dividido em três gerações, cada qual com anseios e proposições diferentes. Pode-se dizer que a chamada Primeira Geração tinha como base a força de um movimento novo, ou seja, o olhar sobre o sonho com a vontade pura, o lirismo utópico, o exagero, a busca pelo exótico e, sobretudo, a busca pela indentidade nacional. Depois, na então Segunda Geração, o pessimismo, o gosto pela morte, uma inclinação que apontaria ao simbolismo e o sentimento religioso. Para então desaguar na Terceira Geração, que seria já a intercessão para a corrente que viria depois, o Realismo. Pode-se dizer que no fim havia um Romantismo decadente.
HARPAS SELVAGENS (trecho)
Aqui Byron cantou. Mesmo esta
pedra,
Que ora sente uma gota fria e
rápida
Do meu pranto que apaga a
viração
Talvez estremecera de escutá-lo
Qual do raio ferida. Oh me parece
Que aqui te vejo, ó Byron, a meu
lado
À minha esquerda unido me
incitando
Ao desespero da descrença imiga
Com tua voz infernal – verdade
horrível!
- E à minha destra o tenha, anjo
da guarda
Preso ao meu braço contra a
força tua
Me arrancando de ti: co’ um
dedo santo
Aponta-me pra o sol que sai das
serras
Piedoso Lamartine! E o penhasco
Bandeia e geme no pesar da luta
E dum lado o demônio e o anjo
doutro
E eu no meio, minhalma
despedaçam
- Voa comigo, ó anjo, nas tuas asas
Cândidas salva-me: o demônio
embora
Me persiga mostrando-me os
meus dias
Como são desgraçados… porém,
antes
Falaz esp’rança que a descrença
eterna
Assim como Castro Alves e Tobias Barreto, Sousândrade pertence à terceira geração do Romantismo Brasileiro. Alguns teóricos encontram aí uma quarta geração. Enfim, esta geração é voltada ao progresso, ao nacionalismo e, sobretudo, ao abolicionismo. Sousândrade era abolicionista e encontraremos tais gritos em seu poema mais conhecido, o Guesa. A liberdade das formas européias de literatura, anseio maior dos românticos, também é firme na poesia de Sousândrade. poema Paladino do Sublime no blog http://pedrolago.blogspot.com
ELOGIO AO ALEXANDRINO
Asclepiádeo verso: à evolução do poema
Das sestas, cadenciar d’altas antigüidades,
já porque bipartido em fúlgidas metades
Reata em conjunção opostos de um dilema,
E já por ser de gala a forma do matiz
Heleno na escultura e lácio na linguagem
Reacesda, de Alexandre, em fogos de Paris:
Paris o tom da moda, o bom gosto, a roupagem;
Que desperta aos tocsins, galo às estrelas d’alva,
Que faz revoluções de Filadélfia às salvas
E o verso-luz, fardeur das formas, de grandeza,
o verso-formosura, adornos, lauta mesa
Ond’ tokay, champanh’, flor, copos cristal-diamantes
Sobrelevam roast-beef e os queijos e o pudding.
Porém, mens divinior, poesia é o férreo guante:
Ao das delícias tempo, o fácil verso ovante,
o verso cor de rosa, o de oiro, o de carmim,
Dos raios que o astro veste em dia azul-celeste;
E para os que têm fome e sede de justiça,
O verso condor, chama, alárum, de carniça,
D’harpas d’Ésquilus, de Hugo, a dor, a tempestade:
Que, embora contra um deus “Figaro” impiedade
Vesgo olhinho a piscar diga tambour-major,
Restruge alto acordando os cândidos espíritos
Às glórias do oceano e percutindo os gritos
Réus. Ao belo trovoar do magno Trovador
Ouve-se afinação no mundo brasileiro,
Acorde tão formoso, hodierno, hospitaleiro,
Flamívomo social, encantador. Fulgura
Luz de dia primeiro, a nota formosura,
Que ao jeová-grande-abrir faz novo Éden luzir.
Sousândrade foi agraciado pela fortuna rural do pai, que o permitiu, ainda jovem, percorrer vários países da Europa. Sabe-se que conhecia muito bem o idioma grego. Foi professor no fim da vida no Liceu Maranhense. Em 1857, publica seu primeiro livro, Harpas Selvagens. Treze anos depois viaja pela América do Sul ao lado da filha, e queria que esta estudasse nos Estados Unidos, pois como já dissera, Sousândrade era republicano convicto. Em 1871, vai enfim para Nova Iorque, onde contribui para um jornal. Ali começa a ruir sua herança.
Fujamos, vida e luz, riso da minha terra,
Sol do levante meu, lírio da negra serra,
Doce imagem de azuis brandos formosos olhos
Dos róseos mares vinda à plaga dos abrolhos
Muita esperança trazer, muita consolação!
Virgem, do undoso Sena à margem vicejante
Crescendo qual violeta, amando qual errante
Formosa borboleta às flores da estação!
Partamos para Auteuil, é lá que vivo agora;
Vê como o dia é belo! ali há sempre aurora
Nas selvas, denso umbror dos bosques de Bolonha.
- Ouve estrondar Paris! Paris delira e sonha
O que realiza lá voluptuar de amor -
Lá onde dorme a noite, acorda a natureza,
Reluz a flor na calma e os hinos da devesa
Ecoam dentro d’alma ais de pungido ardor.
Aos jogos nunca foste, às águas de Versailles?
Vamos lá hoje!… ali, palácios e convalles
Do rei Luís-catorze alembram grande corte:
Maria Antonieta ali previa a sorte
Dos seus cabelos d’ouro em ondas na bérgère. -
Tu contarás, voltando …inventa muita coisa,
Prazer de velhos pais, – o que viste a bela esposa
Das feras! com chacais dançando Lá Barrère!
Oh! vamos, meu amor! costuras abandona;
Deixa por hoje o hotel, que eu … deixo a Sorbona -
E fugitivos, do ar contentes passarinhos,
Perdidos pela sombra e a moita dos caminhos
Até a verde em flor vila Montmorency!
De lá, és minha prima andando séria e grave;
Entramos no portão: eu dou-te a minha chave
E sobes, meu condão, ao quarto alvo e joli!
Hesitas? ou, senão, sigamos outra via;
Do trem que vai partir a válvula assobia,
O povo se acumula, aqui ninguém a ver-nos:
Fujamos para o céu! que fosse p’ros infernos
Contigo… – “oui” – . Não deixes estar teu colo nu!
Há gente no vagon… sou fúria de ciúme -
Desdobra o véu no rosto… olhos com tanto lume… -
Corria o mês de agosto; entramos em Saint-Cloud.
Importante dizer: Sousândrade conheceu muitos países na adolescência e morou muito tempo nos Estados Unidos, fazendo com que suas influências fossem das mais variadas e ao mesmo tempo difíceis de apontar precisamente. Poe? Baudelaire? Laforgue? Talvez sim. Sousândrade foi testemunha das mudanças após a Guerra da Secessão, tendo presenciado também a expansão industrial americana e os escândalos que marcaram a presidência do general Grant. Seu poema Wall Street é fruto destas influências.
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HARPA III – AO SOL
Tímida e bela e taciturna virgem
Pelos campos, na zona solitária,
Do mar no isolamento, lá do azul
Banhando a terra de uma luta argêntea,
À matinada sobressalta e foge:
Chama aos seios o manto, os pés retira
Da terra e voa, descobrindo os bosques
Que estremecem, do monte a sombra arranca
Toma à pressa os vestidos que vão soltos
E as grinaldas d’estrelas, fugitiva.
Roda o plaustro de um príncipe, os cavalos
Vêm nevados nos vales do oriente;
Cobre os ares a poeira do caminho
Alva como o pó d’água; se arrepiam
No ninho as aves desatando o bico;
Brisa fresca e geral passa acordando
Os vegetais, o oceano; belas nuvens
De marinho coral, nuvens de pérola
Como a face de um lago os céus abriram;
Estende o colo o pássaro cantando
Por detrás da palmeira, qual pergunta
Aos pastores, ao gado apascentando
“Quem fez este rumor?” desliza o orvalho
Na flor, derrama o vento,o vento leva
Ondulações d’incenso; a natureza
Nas barras da manhã respira amores:
A noiva docemente bocejando
N’alva da noite da esperança longa
Embalada nos berços conjugais.
É difícil mencionar fatos sobre a vida de Sousândrade em virtude da carência de informações, de modo que confio nas biografias que consulto, sendo assim: Sousândrade antes de ir para os Estados Unidos para permanecer em Nova Iorque, ficou um tempo em Londres. Teria sido convidado a se retirar de lá por ter atacado, num artigo de imprensa, a rainha Vitória. Voltou ao Maranhão, casou-se, teve uma filha, Maria Bárbara, dedicou-se por um tempo à lavoura e separou-se da mulher por incompatibilidade de gênios. Este é o nosso incompatível poeta.
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HARPA XXXV VISÕES
Sobre o mar, procurando o céu, se eleva
Em colunas de sombra e de ar e d’água
Um templo: vejo um ser baixar sobre ele,
Que as colunas brandeiam, o mar se arqueja,
Humildemente geme, e o mar indômito!
Mais puro do que a noite, eu mal o enxergo,
Como o sol… não, não é, que o sol num disco
Encerra as formas de ouro: não tem forma,
Parece a eternidade e o infinito!
Disseras qual uma ave transparente
Que com as asas envolve a imensidade!
Uma luz, que concentra-se a extinguir-se,
Dando mais claridade ao pensamento,
Quanto a tire aos sentidos; que tão pura
Estende-se dali por toda a parte,
A terra, os astros e os celestes ares
Sem refração seus raios trespassando,
Embebendo de vida e de piedade;
Que tudo anima e faz amor tão santo,
Que de um só pulso inteiro este universo
Uma respiração palpita eterna
A ela só! Nela só tudo desperta:
As aves vivem mais a ela cantando;
As plantas quando o zéfiro as agita;
O mar quando mugindo balbucia,
Infante o nome de seu pai, mais vive;
O bosque amigos não teria e os ventos
Se fossem mudos, não dissessem – Deus!
Eu também vivo mais, morrendo nele;
Oh, tudo vive mais nele vivendo!
O Guesa Errante é considerado o grande poema de Sousândrade. Poema dividido em treze cantos, dos quais quatro ficaram inacabados. O poema tem como base a lenda indígena do Guesa Errante, o personagem principal é uma criança que roubada aos pais pelo deus do Sol é educado no templo da divindade até os dez anos e sacrificado aos quinze, após longa peregrinação pela “estrada do Suna”. Aqui se vê a tentativa de buscar as raízes da cultura como era notório no Romantismo. no caso, na figura deste pequeno índio.
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O GUESA ERRANTE CANTO I
Eia, imaginação divina!
Os Andes
Vulcânicos elevam cumes calvos,
Circundados de gelos, mudos, alvos,
Nuvens flutuando – que espetac’los grandes!
Lá onde o ponto do condor negreja,
Cintilando no espaço como brilhos
D’olhos, e cai a prumo sobre os filhos
Do lhama descuidado; onde deserto,
O azul sertão, formoso e deslumbrante,
Arde do sol o incêndio, delirante
Coração vivo em céu profundo aberto!
“Nos áureos tempos, nos jardins da América
Infante adoração dobrando a crença
Ante o belo sinal, nuvem ibérica
Em sua noite a envolveu ruidosa e densa.
“Cândidos Incas! Quando já campeiam
Os hérois vencedores do inocente
Índio nu; quando os templos s’incendeiam,
Já sem virgens, sem ouro reluzente,
“Sem as sombras dos reis filhos de Manco,
Viu-se… (que tinham feito? e pouco havia
A Fazer-se…) num leito puro e branco
A corrupção, que os braços estendia!
“E da existência meiga, afortunada,
O róseo fio nesse albor ameno
Foi destruído. Como ensaguentada
A terra fez sorrir ao céu sereno!
“Foi tal a maldição dos que caídos
Morderam dessa mãe querida o seio,
A contrair-se aos beijos, denegridos,
O desespero se imprimi-los veio, -
“Que ressentiu-se verdejante e válido,
O floripôndio em flor; e quando o vento
Mugindo estorce-o doloroso, pálido,
Gemidos se ouvem no amplo firmamento!
“E o sol, que resplandece na montanha
As noivas não encontra, não se abraçam
No puro amor; e os fanfarrões d’Espanha,
Em sangue edêneo os pés lavando, passam.
(…)
Guesa quer dizer “errante, sem lar”. Sousândrade diz que “o poema foi livremente esboçado segundo à natureza singela e forte da lenda, e segundo à natureza própria o autor. Compreendi que tal poesia, tanto nas ásperas línguas do norte como nas mais sonorosas do meio-da, tinha de ser a “que reside toda no pensamento, essência da arte”, embora fossem “as formas externas rudes, bárbaras ou flutuantes”.
poema UM FIM no blog http://pedrolago.blogspot.com
O GUESA CANTO III
As balseiras na luz resplandeciam —
oh! que formoso dia de verão!
Dragão dos mares, — na asa lhe rugiam
Vagas, no bojo indômito vulcão!
Sombrio, no convés, o Guesa errante
De um para outro lado passeava
Mudo, inquieto, rápido, inconstante,
E em desalinho o manto que trajava.
A fronte mais que nunca aflita, branca
E pálida, os cabelos em desordem,
Qual o que sonhos alta noite espanca,
“Acordem, olhos meus, dizia, acordem!”
E de través, espavorido olhando
Com olhos chamejantes da loucura,
Propendia p’ra as bordas, se alegrando
Ante a espuma que rindo-se murmura:
Sorrindo, qual quem da onda cristalina
Pressentia surgirem louras filhas;
Fitando olhos no sol, que já s’inclina,
E rindo, rindo ao perpassar das ilhas.
— Está ele assombrado?… Porém, certo
Dentro lhe idéia vária tumultua:
Fala de aparições que há no deserto,
Sobre as lagoas ao clarão da lua.
Imagens do ar, suaves, flutuantes,
Ou deliradas, do alcantil sonoro,
Cria nossa alma; imagens arrogantes,
Ou qual aquela, que há de riso e choro:
Uma imagem fatal (para o ocidente,
Para os campos formosos d’áureas gemas,
O sol, cingida a fronte de diademas,
índio e belo atravessa lentamente):
Estrela de carvão, astro apagado
Prende-se mal seguro, vivo e cego,
Na abóbada dos céus, — negro morcego
Estende as asas no ar equilibrado.
Nos cantos finais do poema o índio reflete sobre sua viagem percorrendo os Andes e algumas capitais da América do Sul. Como se fizesse parte das dores que cada povo sofre, reflete sobre liberdade, revolução, a divisão do Império Inca, a queda dos Impérios, critica os governos militares e lembra da mãe. É uma fase de meditação para o herói que será morto logo em seguida. Uma saga.
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GUESA CANTO XI
Quando as estrelas, cintilada a esfera,
Da luz radial rabiscam todo o oceano
Que uma brisa gentil de primavera,
Qual alva duna os alvejantes panos,
Cândida assopra, – da hora adamantina
Velando, nauta do convés, o Guesa
Amava a solidão, doce bonina
Que abre e às douradas alvoradas reza.
Ora, no mar Pacífico renascem
Os sentimentos, qual depois de um sonho
Os olhos de um menino se comprazem
Grande-abertos aos céus de luz risonhos.
Vasta amplidão – imensidade – iludem,
Côncavos céus, profunda redondeza
Do mar em luz – quão amplos se confundem
Na paz das águas e da natureza!
Nem uma vaga, nem florão d’espuma,
Ou vela ou íris à grandiosa calma,
Onde eu navego dentro da minha alma!
Eis-me nos horizontes luminosos!
Eu vejo, qual eu via, os mudos Andes,
Terríveis infinitos tempestuosos,
Nuvens flutuando – os espetac’los grandes -
Eia imaginação divina! Abraso
Do pensamento eterno – ei-lo magnífico
Aos Andes, que ondam alto ao Chimborazo,
Aos raios d’Ínti, à voz do mar Pacífico..
Os cantos XII e XIII são os últimos do poema-saga Guesa Errante. O herói desce ao longo do Pacífico para o sul. Passa por todas as grandes cidades e ama Talita, a serva-liberta. Guesa fica enfermo, convalesce e lembra de seu drama familiar. Volta ao Equador onde semeia a revolta ideal até ser submetido ao ritual que marcaria sua trajetória. O Guesa é um poema instigante. Certa vez, Sousândrade disse que “Ouvi dizer já por duas vezes que “o ‘Guesa Errante’ será lido 50 anos depois”; entristeci – decepção de quem escreve 50 anos antes”.
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O GUESA CANTO XII
Tudo que vive, repousando, sonha -
Está sonhando natureza! a imagem
Dos montes no ar balança-se risonha,
Ideal da platônica miragem
D’Atlantis!
Fumegando a onda nevoeiros,
Que são do oceano os vivas gloriosos,
Pavilhões auriverdes brasileiros,
Entre um cerrado d’iris luminosos
Rompe o steamer gentil. As nuvens alvas
Perdem as leves formas transparentes,
Tendo as do arbóreo gelo das escalvas,
Na patagônea costa e estão pendentes
Sobre as vagas que elevam-se do Atlântico.
- Porém, as aves que seguindo vieram,
Nesse acompanhamento aéreo-romântico
Do esteiro undoso, desapareceram.
Assim desaparecem da existência
Os sonhos, que conduzem ao futuro:
Desperta-se; e ante esta árida aparência
Nossa alma… – foi-lhe a vida, ao grande obscuro
Dos agitados ares sem sossego:
Oh, são a esp’rança os dias turbulentos
Do desespero, o homem bravo e cego,
Não a posse d’egípcios monumentos!
E ‘das marés no berço’ austral arfando
Em tangagem cadente a nau tão bela
Nas argentinas águas, navegando
À luz da oriente-sul melhor estrela,
A ‘tarde no convés os passageiros
Formam parelhas (pela glória morrem!)
Zunindo os ventos frígidos ponteiros,
Jogando a nau, se equilibrando correm!
Neste vasto e magnífico estuário
As sul norte vagas oceânicas,
Mareiras brisas e o tufão pampário
Harmonias do mar guardam mecânicas.
Após o período nos Estados Unidos, o dinheiro do pai acaba e Sousândrade é obrigado a voltar para o Maranhão, já estamos no fim do segundo reinado. O poeta então começa a fazer pregação republicana abertamente. Informado da proclamação da República, passou um telegrama ao Marechal Deodoro da Fonseca dizendo o seguinte: “República proclamada. Paus-d’arco em flor”, associando ao acontecimento as cores festivas da natureza.
texto O Elfo e a Camponesa no blog http://pedrolago.blogspot.com
FRAGMENTOS SOBRE ADÃO E EVA
Levanta-se Eva: e folhas veludosas
Umbrando-lhe a cintura: alva, alta, lúcida
Andou direita: áurea figueira andando,
Sisuda, linda…
- Oh!…. – vê longe o marido
Nu! …as faces lhe arderam de vergonha.
Adão colhia os favos aromosos
De mel paradisíaco, os mais loiros
Cachos d’uvas passentas. Merendaram.
E Adão não dera pela falta d’Eva.
…………………………………………………….
Da sesta conjugal, do mal já feito
O rosto pudibundo, Eva encantava:
Magnetizou ao homem. Atordoando,
Já das ciências visão sagrada: noite
De vigílias ditosas, vendo os astros,
Dês que o d’Eva escondeu-se, agora os vendo
Nela luzir, que ali lhe dorme ao lado
Estendida no edêneo chão, divina
Coruscante de alvor.
Dia seguinte:
Oh, que formoso dia d’Éden! rosas
Toda a terra; sol grande, iluminando
Áureo o espaço; esplendor os arvoredos;
Cerúleo o etereal, a divindade
Da alma feliz amante; o noivo, a esposa.
Porém, sem que um ao outro s’entendessem,
Ela à nudez, nem ele aquelas cintas.
Além disto, gemendo os horizontes,
Que em alegre trinar amanheciam,
Ais as rolas do amor, angústia as fontes:
Coração principiava; os céus doíam.
Instaurada a República, Sousândrade foi presidente da Independência Municipal de São Luís e reformou o ensino cuidando da fundação de escolas mistas. Idealizou a bandeira maranhense, em cujas cores – branco, preto e vermelho – quis representar a fusão étnica do povo brasileiro. Candidatou-se ao Congresso Constituinte da República, pelo Partido Republicano Histórico do Maranhão, mas renunciou, com o objetivo de pacificar disputas eleitorais. O poeta vai caminhando para seu fim.
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FRAGMENTOS DE ADÃO E EVA II
Banidos do paraíso: olhando para trás,
D’espelho que se parte o relampagueamento
D’estampido seguido e que cegueira faz
Que d’alma a dor profunda apaga no momento,
Viram … um lago! ao longe … um monte! … nada mais.
……………………………………………………………………….
Iam pensando: essa onda … o monte … o céu que estronda …
Quem dessa água a desgraça? … quem desse monte a graça? ..
…………………………………………………………………………………..
Já era pôr-do-sol: cansados do caminho,
Eva chorando, o abrolho, o cardo, a urtiga, o espinho,
Rastos dos pés sangrando: unidos se deitaram
Sem mais o encanto edêneo … Amar? os céus olharam:
Os astros em fulgor, suas frontes em suor;
Travesseiro? uma pedra. E os astros sempre rindo! …
Foi quando Prometeus não pôde mais; e trouxe
Dos céus centelha: e ao fogo o homem que aquentou-se;
Toda tristeza ante ele, os olhos reluzindo
Meiga, mortal, calada: ao colo da mulher,
No Éden do amor, o lar cosmopolita, achou-se
Imagem de Deus uno, à carne rosicler;
Forma flor, forma céus, pára-olhos e pára-almas,
Da Criação o amor em gêmeos, dois amores,
Corpos vibrantes dois, duas psíquicas palmas
Os corações em luz, carnariums, sangues, dores
E o ideal Prometeus, ideal imagem-Deus.
Como disse antes, Sousândrade dava aulas de grego no Liceu Maranhense. Consta que tinha o hábito de dar estas aulas ao ar livre, na Quinta da Vitória, no bairro dos Remédios, às margens do Rio Anil. Preocupou-se durante muito tempo com a fundação de uma Universidade Popular, com o nome de “Atlântida”, empenhando-se para isso, sem êxito, junto aos representantes federais do Maranhão. Certa vez escreveu que “Pensai-vos nos vossos caminhos de ferro, assim como eu penso na minha locomotiva – que da decadência de ciências e letras – a inteligência e a locomotiva – que da decadência moral e financeira ainda havemos de alevantar o Estado do Maranhão”. Amanhã, explicações sobre o poema de hoje.
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FRAGMENTOS SOBRE HELEURA
Desde a noite funérea, de tristeza
Heleura está doente. Ara, morrendo,
Nunca perdera as cores do semblante,
Um formoso defunto: “vivo! vivo!”
Gritava a filha p’ra que o não levassem:
“Vivo! vivo!” Prenúncios maus, diziam.
Mas para Ut era crença que, dos túmulos,
Corvos de Odin mandando pelo mundo,
Os mortos melhor cumprem seu desígnios.
Ora, a chorar no tum’lo (Ia, em violetas
Mudada pelo amor), perpétuas meigas
Tornara-se Ut-allah, que o amortalharam.
Fundo silêncio estava dia e noite
Na sombria mansão: de longe em longe,
Como rasgam-se as brisas açoitadas
Por vergônteas, manhãs d’esto, etérea aura
Parecia chamando: Heleura!’ … Heleura!…
Que ela escutava; e nuns baixinhos ecos
A febre arremedando: He – lê – u – rous …
Heliéiou-urion … Súbito saltava,
Pesar d’Ut e as Armênias vigilantes,
E as seráficas fraldas apanhando,
Nuzinhos pés, a rir toda, irradiava
No aposento a estelífera carreira
Atalanta de luz. E viam nela
A luzente visão dos cintilados
Limões de luz, de luz níveos triângulos
Nessa cal mortal brancura, o rosto,
O riso, a boca, os olhos brancos, brancos:
E o maternal diamante em pó desfeito
Que vivifica ao cândido diamante,
Torna-o ao leito Ut-allah: “Heleura! Heleura!”
Em virtude dos excessivos gastos e da morte da lavoura na fazendo Feliz Asilo, o poeta passa por dificuldades financeiras. Chega a vender pedras para ter o que comer. Tido como louco, chegou a ser apupado nas ruas pelos garotos maranhenses. Seus alunos vão encontrá-lo gravemente enfermo na Quinta da Vitória. No dia 21 de abril de 1902, faleceu num quarto de hospital. Consta que os originais de suas últimas produções caíram nas mãos de um vendeiro, que os utilizou como papel de embrulho.
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FRAGMENTOS SOBRE HELEURA II
Heleura
Mirou-se toda; uma áspide a mordera,
Ela o sentiu; fugiu para o aposento
Alcatifado de cravina e de ouro
E onde sonhos levianos não entravam,
Cheiro sentindo-se de jacintos, vendo
Lábios-luz, verdejeiras laranjeiras,
Flores-noivas grinaldas agitando
Sobre um abismo venturoso, em vagas
Como espelhos levando-a, combanidas,
À cristalina limpidez, reférvida
A epiderme num fosfor’luminoso -
Triângulos! triângulos! Semíramis!
A alvura e o sentimento! anéis da trança,
Quando as faces beijavam-lhe, incendiam.
……………………………………………………….
Porém, já prontinha
Co’as alvoradas stava Heleura, vendo:
Alta amarela estrela brilhantíssima;
Cadentes sul-meteoros luminosos
Do mais divino pó de luz; véus opalos
Abrindo ao oriente a homérea rododáctila
Aurora! e ao cristalino firmamento
Cygni – esse par de sóis unidos sempre,
Invisíveis; e que ela via claros
Dadas mãos, em suas órbitas eternas
Qual num lago ideal as belas asas
Por essa imensidade ………………..
is que chegamos ao final de mais uma antologia. Aqui, o quase esquecido Sousândrade, “salvo” pelos irmãos Campos, poeta incompreendido, viajante, republicano e maranhense. Percorremos sua vida, suas obras, sem exegeses, apenas o “homem humano” lembrando o nosso Guimarães Rosa na figura de Riobaldo. Enfim, semana que vem farei uma retrospectiva dos poetas de 2009, bons estudos foram feitos, e eu, assim como todos aqui, aprendemos um pouco mais.
poema O corpo no blog http://pedrolago.blogspot.com
DA HARPA XLV
Eu careço de amar, viver careço
Nos montes do Brasil, no Maranhão,
Dormir aos berros da arenosa praia
Da ruinosa Alcântara, evocando
Amor … Pericuman! … morrer … meu Deus!
Quero fugir d’Europa, nem meus ossos
Descansar em Paris, não quero, não!
Oh! por que a vida desprezei dos lares,
Onde minh’alma sempre forças tinha
Para elevar-se à natureza e os astros?
Aqui tenho somente uma janela
E uma jeira de céu, que uma só nuvem
A seu grado me tira; e o sol me passa
Ave rápida, ou como o cavaleiro:
E lá! a terra toda, este sol todo -
E num céu anilado eu m’envolvia,
Como a água se perde dentro dele.
Ingrato filho que não ama os berços
Do seu primeiro sol. Eu se algum dia
Tiver de descansar a vida errante,
Caminhos de Paris não me verão:
Através os meus vales solitários
Eu irei me assentar, e as brisas tépidas
Que meus cabelos pretos perfumavam,
Dos meus cabelos velhos a asa trêmula
Embranquecerão: quando eu nascia
Meu primeiro suspiro elas me deram;
Meu último suspiro eu lhes darei.
Guilherme Zarvos
Visito minha mãe no Jardim Botânico
Faz dois anos que ela morreu
Parece que faz uma vida
Tenho tanta saudade
Das conversas
Do uisquinho, até do barulho nervoso do gelo
O excesso de uísque ajudou a matá-la
Pena que os excessos matem
Já conheci quem morreu de amor
De excesso e falta
A árvore que eu e minha irmã escolhemos para depositar suas
Cinzas não tem nada de excepcional
É um Tiliacea da Malásia
Ela me parece velha
Foi um descuido espalhar as cinzas numa
Árvore que pode tombar logo
Mesmo antes da minha morte
Me parece um canto agradável
Ela deve estar contente no céu
Estou aqui na terra
Depositar cinzas de cremação no Jardim Botânico
É proibido. Tirar fotos de casamento pode
Imagino se todos depositassem seus mortos no
Jardim Botânico se assemelharia ao Ganges
Todo humano deveria passar uma tarde
Olhando uma cremação do Rio Ganges, na Índia
Depois de pôr fogo no morto, com a presença da
Família, com um pedaço de pau dilaceram-se os
Ossos e o crânio que são muito resistentes ao
Fogo. Tudo é calmo e sagrado. As cinzas vão para o rio
Minha mãe não sofreu muito ao morrer
Eu e minha irmã ficamos contidos. Nossa família é
Assim. Fatalista. Já me falaram que é um resquício
Aristocrático. Sempre nos orgulhamos da
República. Em volta da Tiliaceae nasceram cogumelos
Cada vez que visito minha mãe tem novidade
Em volta da árvore. Minha mãe está sempre
Presente e o chão sempre apresenta surpresas
Os cogumelos formam um ajuntamento como uma ninhada
Do meio salta uma flor! É da raça das Therezas.
Poetas Barrocos Brasileiros
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A cada canto um grande conselheiro.
-
que nos quer governar cabana, e vinha,
-
não sabem governar sua cozinha,
-
e podem governar o mundo inteiro.
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Em cada porta um freqüentado olheiro,
-
que a vida do vizinho, e da vizinha
-
pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,
-
para a levar à Praça, e ao Terreiro.
-
Muitos mulatos desavergonhados,
-
trazidos pelos pés os homens nobres,
-
posta nas palmas toda a picardia.
-
Estupendas usuras nos mercados,
-
todos, os que não furtam, muito pobres,
-
e eis aqui a cidade da Bahia.
Gregório de Matos exerce vários cargos em Portugal e fica viúvo em 1678. Em 1679, é nomeado por D. Gaspar Barata de Mendonça para desembargador da Relação Eclesiástica da Bahia e, em 1682, tesoureiro a tonsura (ordens menores), no ano de 1681, é destituído, pelo Arcebispo D. Fr. João da Madre de Deus, dos cargos à cúria baiana, por não querer usar batina e por não aceitar a imposição das ordens maiores necessárias para o exercício das suas funções junto ao arcebispado. Começa a escrever poemas satíricos.
texto Varanda no blog http://pedrolago.blogspot.com
FOI CÉSAR TÃO GENEROSO, QUE CHOROU A MORTE DE SEU INIMIGO POMPEU
De Pompeu chora César com verdade
A morte, ação por rara peregrina,
No próprio peito que o furor domina
Achar a compaixão tal liberdade.
Porém, nesta maior fatalidade,
Nesta grandeza de um herói mais digna,
Tão injusta em Pompeu foi a ruína,
Como em César inútil a piedade.
Dos contrários um morre, e logo atento
Outro a morte lhe chora, raro espanto!
Sem remédio no golpe o sentimento.
Mas num correndo o sangue, noutro o pranto,
Muito foi em Pompeu perder o alento,
E César tudo fez em sentir tanto.
Afonso Henriques Neto
máscara densa do universo vomitando.
O texto, mas não a energia que o pensou,
interrogando a simultaneidade absoluta.
Há uma esperança nas ruas, nas pedras, no acaso
de tudo, uma esperança, uma forma suspensa
entre o aparente e a essência, entre o que vemos
e a substância, uma esperança, uma certeza talvez
de que o rio não se dissolva no mar, de que
o ínfimo, o precário, a voz, a sombra,
o estalar das carnes na explosão
não se dispersem no todo, impensável medusa da inexistência.
Há uma luz qualquer sonhando integração, o suposto
destino dos ventos, das energias globais, a suposta
sabedoria com que o homem fecundou a crosta
envenenada do planeta, há uma luz qualquer
ensaiando águas pensadas no eterno esvair-se,
abstrato expansionário, há uns olhos além
da frágil realidade, da terrível matança, da
cruel carnificina entre seres pestilentos aquém
da fronteira do sonho, um texto além do texto,
uma esperança talvez, enquanto somos e nos cumprimos,
enquanto somos e nos oxidamos, enquanto
somos e prosseguimos.
não acreditem nesta única realidade
neste implacável colar de conchas de ar
se lhes derem os códigos os gestos as modas
não acreditem nesta enlatada realidade
nesta implacável aranha de invisíveis fios
se lhes derem a esperança o progresso a palavra
não acreditem na imposta realidade
na implacável engrenagem das hélices de vácuo
onde a história jamais penetra
a profunda história do não registrado
aprendam a procurar debaixo da pedra
a estória do sangue evaporado
a estória do anônimo desastre
aprendam a perguntar
por quem construiu a cidade
por quem cunhou o dinheiro
por quem mastigou a pólvora do canhão
para que as sílabas das leis fossem cuspidas
sobre as cabeças desses condenados ao silêncio.
Jorge de Lima
com as primeiras estrelas
e os derradeiros sinos.
Entre as estrelas e lá detrás da igreja,
surge a lua cheia
para chorar com os poetas.
E vão dormir as duas coisas novas desse mundo:
o sol e os meninos.
Mas ainda vela
o menino impossível
aí do lado
enquanto todas as crianças mansas
dormem
acalentadas
por Mãe-negra Noite.
O menino impossível
que destruiu
os brinquedos perfeitos
que os vovós lhe deram:
o urso de Nürnberg,
o velho barbado jugoeslavo,
as poupées de Paris aux
cheveux crêpés,
o carrinho português
feito de folha-de-flandres,
a caixa de música checoslovaca,
o polichinelo italiano
made in England,
o trem de ferro de U. S. A.
e o macaco brasileiro
de Buenos Aires
moviendo la cola y la cabeza.
O menino impossível
que destruiu até
os soldados de chumbo de Moscou
e furou os olhos de um Papá Noel,
brinca com sabugos de milho,
caixas vazias,
tacos de pau,
pedrinhas brancas do rio…
“Faz de conta que os sabugos
são bois…”
“Faz de conta…”
“Faz de conta…”
E os sabugos de milho
mugem como bois de verdade…
e os tacos que deveriam ser
soldadinhos de chumbo são
cangaceiros de chapéus de couro…
E as pedrinhas balem!
Coitadinhas das ovelhas mansas
longe das mães
presas nos currais de papelão!
É boquinha da noite
no mundo que o menino impossível
povoou sozinho!
A mamãe cochila.
O papai cabeceia.
O relógio badala.
E vem descendo
uma noite encantada
da lâmpada que expira
lentamente
na parede da sala…
O menino poisa a testa
e sonha dentro da noite quieta
da lâmpada apagada
com o mundo maravilhoso
que ele tirou do nada…
Xô! Xô! Pavão!
Sai de cima do telhado
Deixa o menino dormir
Seu soninho sossegado!
(isso já faz muito tempo)
no bangüê dum meu avô
uma negra bonitinha,
chamada negra Fulô.
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
— Vai forrar a minha cama
pentear os meus cabelos,
vem ajudar a tirar
a minha roupa, Fulô!
Essa negra Fulô!
Essa negrinha Fulô!
ficou logo pra mucama
pra vigiar a Sinhá,
pra engomar pro Sinhô!
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
vem me ajudar, ó Fulô,
vem abanar o meu corpo
que eu estou suada, Fulô!
vem coçar minha coceira,
vem me catar cafuné,
vem balançar minha rede,
vem me contar uma história,
que eu estou com sono, Fulô!
Essa negra Fulô!
“Era um dia uma princesa
que vivia num castelo
que possuía um vestido
com os peixinhos do mar.
Entrou na perna dum pato
saiu na perna dum pinto
o Rei-Sinhô me mandou
que vos contasse mais cinco”.
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
Vai botar para dormir
esses meninos, Fulô!
“minha mãe me penteou
minha madrasta me enterrou
pelos figos da figueira
que o Sabiá beliscou”.
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá
Chamando a negra Fulô!)
Cadê meu frasco de cheiro
Que teu Sinhô me mandou?
— Ah! Foi você que roubou!
Ah! Foi você que roubou!
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
O Sinhô foi ver a negra
levar couro do feitor.
A negra tirou a roupa,
O Sinhô disse: Fulô!
(A vista se escureceu
que nem a negra Fulô).
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê meu lenço de rendas,
Cadê meu cinto, meu broche,
Cadê o meu terço de ouro
que teu Sinhô me mandou?
Ah! foi você que roubou!
Ah! foi você que roubou!
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
O Sinhô foi açoitar
sozinho a negra Fulô.
A negra tirou a saia
e tirou o cabeção,
de dentro dêle pulou
nuinha a negra Fulô.
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê, cadê teu Sinhô
que Nosso Senhor me mandou?
Ah! Foi você que roubou,
foi você, negra fulô?
Essa negra Fulô!
Credo em cruz, capeta, pé-de-pato!
Diabo brasileiro, dente-de-ouro, botija, onde está?
Credo, capeta, pé-de-pato!
a dezena do carneiro?
Enxofre, botija, galinha preta!
Credo em cruz, capeta, pé-de-pato!
quero dormir com a Zefa!
Capeta, bode preto, quero dormir com a Zefa!
Capeta, diabo brasileiro, só lhe dou galinha preta!
Capeta, quero casar com a Zefa, quero que Sêo Vigário
me case logo com a Zefa!
Capeta, diabo brasileiro, quando dá
a centena do macaco?
Quero quebrar banqueiro, capeta danado, pé-de-pato,
dente-de-ouro, cheiro de enxofre, tome galinha preta!
Capeta, pé-de-pato, quero acertar com o bicho,
quero comprar gravata, botina de bico fino,
terno de casimira pra quando a Zefa me ver!
Capeta, pé-de-pato, tome galinha preta!
Capeta, pé-de-pato, dente-de-ouro, quero dente de ouro,
quero capa de borracha, punho engomado, camisa,
bengala castão de ouro, capeta, pé-de-pato,
tome galinha-preta!
Quero saber suas partes, suas sabedorias,
quero saber mandingas,
capeta, pé-de-pato, tome galinha preta,
que eu quero quebrar banqueiro, que eu quero tirar botija,
que eu não quero trabalhar, que eu também sou brasileiro!
que eu quero saber embolada,
quero saber martelo, quero ser um cantador,
capeta, quero dizer à Zefa essa quentura de amor!
Capeta, tome galinha preta, que eu quero casar com a Zefa.
Por Deus, que eu quero, capeta, pé-de-pato!
Tome galinha preta!
Poetas tradutores
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
“É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais.”
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora.
E que ninguém chamará mais.
E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto, e: “Com efeito,
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais.”
Minh’alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: “Imploro de vós, — ou senhor ou senhora,
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo, prestemente,
Certificar-me que aí estais.”
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.
Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.
Entro coa alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
“Seguramente, há na janela
Alguma cousa que sussurra. Abramos,
Eia, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso,
Obra do vento e nada mais.”
Abro a janela, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.
Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo, — o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: “O tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais;
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?”
E o corvo disse: “Nunca mais”.
Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Cousa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é seu nome: “Nunca mais”.
No entanto, o corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda a sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: “Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora.”
E o corvo disse: “Nunca mais!”
Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
“Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: “Nunca mais”.
Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: “Nunca mais”.
Assim posto, devaneando,
Meditando, conjeturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava.
Conjeturando fui, tranqüilo a gosto,
Com a cabeça no macio encosto
Onde os raios da lâmpada caíam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.
Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: “Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora.”
E o corvo disse: “Nunca mais”.
“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?”
E o corvo disse: “Nunca mais”.
“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais,
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!”
E o corvo disse: “Nunca mais.”
“Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fique no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua.
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua.”
E o corvo disse: “Nunca mais”.
E o corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e, fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!
Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.
Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor –
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.
E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.
E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar…
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.
Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.
Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim ‘stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.
Ana Cristina Cesar, minha poeta preferida, fez importantes estudos sobre tradução. Alguns deles estão em Escritos da Inglaterra, uma detalhada reunião de anotações sobre tradução de prosa e poesia. Emily Dickinson, nasceu em Massachusetts em 1830 e lá se foi em 1886. Pouco se sabe sobre sua vida particular, apenas que era reclusa, muito reclusa, chegando até virar mito, pela sua personalidade solitária. Teve boa formação, nunca se casou, não publicou mais que dez poemas em vida, e somente em 1955, em uma publicação contendo 1.775 poemas, ou seja, todos, que a poesia de Emily Dickinson veio à público e imediatamente reverenciada.
De machado na madeira,
E os ecos!
Ecos que partem
A galope.
O vento abençoou minhas manhãs marítimas.
Mais leve que uma rolha eu dancei nos lençóis
Das ondas a rolar atrás de suas vítimas,
Dez noites, sem pensar nos olhos dos faróis!
Mais doce que as maçãs parecem aos pequenos,
A água verde infiltrou-se no meu casco ao léu
E das manchas azulejantes dos venenos
E vinhos me lavou, livre de leme e arpéu.
Então eu mergulhei nas águas do poema
Do Mar, sarcófago de estrelas, latescente,
Devorando os azuis, onde às vezes – dilema
Lívido – um afogado afunda lentamente;
Onde, tingindo azulidades com quebrantos
E ritmos lentos sob o rutilante albor,
Mais fortes que o álcool, mais vastas que os nossos prantos,
Fermentam de amargura as rubéolas do amor!
Conheço os céus crivados de clarões, as trombas,
Ressacas e marés: conheço o entardecer,
A aurora em explosão como um bando de pombas,
E algumas vezes vi o que o homem quis ver!
Eu vi o sol baixar, sujo de horrores místicos,
Iluminando os longos túmulos glaciais;
Com actrizes senis em palcos cabalísticos,
Ondas rolando ao longe os frémitos de umbrais!
Sonhei que a noite verde em neves alvacentas
Beijava, lenta, o olhar dos mares com mil coros,
Soube a circulação das seivas suculentas
E o acordar louro e azul dos fósforos canoros!
Por meses eu segui, tropel de vacarias
Histéricas, o mar violentando as areias,
Sem esperar que aos pés de ouro das Marias
Esmorecesse o ardor dos Oceanos sem peias.
Cheguei a visitar as Flóridas perdidas
Com olhos de jaguar florindo em epidermes
De homens! Arco-íris tensos como bridas
No horizonte do mar de glaucos paquidermes.
Vi fermentarem pântanos imensos, ansas
Onde apodrecem Liviatãs distantes!
O desmoronamento da água nas bonanças
E abismos a abrirem-se no caos, cataratantes!
Glaciares, sóis de prata, ondas e céus cadentes!
Naufrágios abissais na tumba dos negrumes,
Onde, pasto de insectos, tombam as serpentes
Dos curvos cipoais, com pérfidos perfumes!
Ah! Se as crianças vissem o dourar das ondas,
Áureos peixes do mar azul, peixes cantantes…
- Espumas em flor ninaram minhas rondas
E as brisas da ilusão me alaram por instantes.
Mártir de pólos e de zonas misteriosas,
O mar a soluçar cobria os meus artelhos
Com flores fantasmais de pálidas ventosas
E eu, como uma mulher, me punha de joelhos…
Quase ilha a balouçar entre borras e brados
De gralhas tagarelas com olhar de gelo,
Eu vogava, e por minha rede os afogados
Passavam, a dormir, descendo a contrapelo.
Mas eu, barco perdido em baías e danças,
Lançado no ar sem pássaros pela torrente,
De quem os Monitores e os arpões das Hansas
Não teriam pescado o casco de água ardente;
Livre, fumando em meio às virações inquietas,
Eu que furava o céu violáceo como um muro
Que mancham, acepipe raro aos bons poetas,
Líquens de sol e vómitos de azul escuro;
Prancha louca a correr em lúnulas e faíscas
E hipocampos de breu, numa escolta de espuma,
Quando os sóis estivais estilhaçavam em riscas
O céu ultramarino e seus funis de bruma;
Eu que tremia ouvindo, ao longe a estertorar,
O cio dos Behemóts e dos Maeltroms febris,
Fiandeiro sem fim dos marasmos do mar,
Anseio pela Europa e os velhos peitoris!
Eu vi os arquipélagos astrais! e as ilhas
Que o delírio dos céus desvela ao viajor;
- É nas noites sem cor que te esqueces e te ilhas,
Milhão de aves de ouro, ó futuro Vigor?
Sim, chorar eu chorei! São mornas as Auroras!
Toda lua é cruel e todo sol, engano:
O amargo amor opiou de ócios minhas horas.
Ah! que esta quilha rompa! Ah! que me engula o oceano!
Da Europa a água que eu quero é só o charco
Negro e gelado onde, ao crepúsculo violeta,
Um menino tristonho arremesse o seu barco
Trémulo como a asa de uma borboleta.
No meu torpor, não posso, ó vagas, as esteiras
Ultrapassar das naves cheias de algodões,
Nem vencer a altivez das velas e bandeiras,
Nem navegar sob o olho torvo dos pontões.
Sentou-se sob o cruzeiro do mercado,
E os velhos andavam de um lado para outro,
E os meninos brincavam e brincavam.
Um galo aproximou-se na ponta dos pés;
E um cavalo baio olhou por cima da cerca,
E esfregou o nariz ao longo do gradil.
Retornou à sua casa,
E sobre a cidade derramou uma lágrima,
E transformou-a num lago.
para que eu a profane;
um sentimento é falsamente desdenhado demais
para que tu o desdenhes;
uma esperança se aproxima do desespero demais
para que a prudência a acalme;
e tua piedade é mais cara
do que de qualquer outra pessoa.
Não posso te dar o que chamam de amor;
mas não aceitarás
a adoração que eleva o coração
e os céus não desprezam, –
a ânsia da traça pela luz das estrelas,
da noite pelo amanhecer,
e a devoção pelo que se distancia
da esfera do nosso sofrer?
Bruno Tolentino
Bruno Lúcio de Carvalho Tolentino nasceu no Rio de Janeiro no dia 12 de novembro de 1940. Bruno, que nasceu em uma família tradicional e rica do Rio de Janeiro, desde sempre conviveu com intelectuais e escritores. Como consta, entre eles Cecília Meireles, Carlos Drummond, João Cabral e Manuel Bandeira. Bruno é primo do escritor e crítico Antonio Candido e da crítica de teatro Barbara Heliodora, seu avô, foi conselheiro do Império e um dos fundadores da Caixa Econômica Federal. Neste mês teremos a árdua tarefa de tentar sintetizar em 4 semanas a obra deste grande poeta brasileiro. Mas vai dar tudo certo.
IN LIMINE
O mundo com idéia (ou pensamento).
Entre a gnose e o real (talvez) o acordo.
Mas no ramo (imperene) canta o tordo
(provisório) e invisível vem o vento
e leva o canto e deixa um desalento,
a queixa dos sentidos. Não recordo
se sonhei tudo isso ou não: um tordo
e a noite em meus ouvidos um momento,
outro rapto no vento… Mas supor
que o triunfo moral do cognitivo
restitua-me o ser menos a dor,
é resignar-me a um perfume tão rápido
que não existe quase, insubstantivo
como a Idéia. Não: o mundo como rapto!
Bruno Tolentino foi alfabetizado aos mesmo tempo em inglês, francês e português. Viveu em um ambiente de “aristocracia” (se assim posso dizer) toda sua infância. Bruno publicou seu primeiro livro aos 23 anos, chamado “Anulação e outros reparos”. Após o Golpe de 64, Bruno vai para a Europa exilar-se a convite do poeta Giuseppe Ungaretti, onde passaria 30 anos, residindo na Itália, Bélgica, Inglaterra e França. Bruno foi professor de literatura en Oxford, Essex e Bristol e foi tradutor-intérprete junto à Comunidade Econômica Européia. Bruno, então, vivia intensamente junto à inteligentsia européia, ainda nos seus vinte e poucos anos.
A GRANDE ALMA PENADA
Se Baudelaire, à diferença de Pascal,
odiou a amplidão
e não soube conter a vertigem do mal
no drama da razão,
terá sido talvez porque insistiu em ver
o olhar que usurpa e mata:
a Medusa da Idéia, esse avatar do ser
que vai virando estátua.
Pascal calou-se ante os silêncios infinitos
e ouviu de Deus a cura;
o outro, o ceifador do mal, saiu aos gritos,
como um louco à procura
da comiseração que os abismos não têm.
A simples diferença
entre o temor a Deus e o pânico de alguém
que O não escuta é imensa.
Um radical, um jansenista, um puritano
da estirpe de Pascal,
teme a misericórdia de Deus (se não me engano);
mas nem em Port Royal,
aquela fortaleza do orgulho, houve lugar
jamais para um bueiro
de que o Céu se tornasse a tampa tumular
e o velho desespero
a bússola da vida, ou um contrapeso a ela.
Vira a alma penada
o poeta imortal que ao abrir a janela
vai do Infinito ao Nada.
Segue a entrevista: Falando da inclusão de Caetano Veloso em matéria escolar sobre poetas brasileiros (!). “Ele está também virando tese de professores universitários. Tenho aqui um livro, Esse Cara, sobre Caetano, uma espécie de guia para mongolóides, e a mesma editora desse livro me pede para escrever um outro, sob o título Caetano Se Engana. É preciso botar os pingos nos is. Cada macaco no seu galho, e o galho de Caetano é o show biz. Por mais poético que seja, é entretenimento. E entretenimento não é cultura. Se fizerem um show com todas as músicas de Noel Rosa, Tom Jobim ou Ary Barroso, eu vou e assisto dez vezes. Mas saio de lá sem achar que passei a tarde numa biblioteca. Não se trata de cultura e muito menos de alta cultura. Gosto da música popular brasileira e também da de outros países, mas a música popular não se confunde com a erudita. Então, como é que letra de música vai se confundir com poesia?”
O VERME
Porque eu quis conhecer, verificar
o possível, a trama que o tecia,
tocou-me separar tudo o que eu via
dos delírios da Idéia. Se criar
não é doar o mundo à fantasia,
é antes de mais nada subjugar
a velha tentação oracular
do conceito, essa estrita tirania
que, substituindo-se ao sensível,
sufoca a fábula do ser. Eu fiz
minha jubilação subir ao nível
mais tênue do real, fui o aprendiz
de uma frágil tensão em que o possível,
como o efêmero, existe por um triz.
Mercúcio, na tragédia de Verona,
é o lado frívolo da realidade,
e a flor do instante vápido, a madona
que ele corteja, é uma diversidade,
uma pura aparência que apaixona
talvez por ser só fuga, porque há de
ser sempre quase só reflexo à tona
da desaparição, da ambiguidade.
No entanto é ali, nessa frivolidade,
que o real se concede, é sempre às tontas
que um coração apaixonado o encontra,
porque é ali que ele está mais à vontade:
no baile doloroso em que a vaidade
subitamente passa além da conta…
Fato interessante. Em 1987, Bruno é preso e condenado a 11 anos de prisão sob a acusação de tráfico de drogas. Cumpre pouco mais de um ano em Dartmoor no Reino Unido. Como consta, na prisão Bruno organizou aulas de alfabetização e de literatura, com o nome de Seminars of Drama and Literature, como disse o próprio Bruno em entrevista, “nas sessões avançadas chegaram a comparecer psicanalistas de renome, ao lado de personalidades do mundo das Letras tais como Harold Carpenter, o estudioso e biógrafo de Pound e Auden, o dramaturgo Harold Pinter, ou Lady Antonia Fraser”. Do período na prisão saiu o livro “A Balada do cárcere” em 1996. Impressionante.
A NEREIDA DE BLOOMSBURY
Virginia Woolf entrou
na luz como no centro
de um mistério maior:
ia acercar por dentro
o tempo exterior!
No entanto, se tocou
talvez aquela teia
de que o ser se rodeia,
não tolerou a urgência
do impuro, do que dura
como o nó da existência:
escapou-lhe a matéria,
enredou-se-lhe a asa
e a graça resvalou
à margem do mistério
renunciando ao vôo.
Em tempos de massacre
a luz tem sempre o acre
sabor da carne em brasa,
da alma carbonizada
que ela não suportou.
A futura afogada
acercara-se um dia
a Lytton Strachey e, a sério,
perguntara ao amigo
se sobrevivera
debaixo d’água, o abrigo
com que sonhava: urgia
prová-lo porque enfim
‘não sabia…’ E, assim,
certo dia cinzento,
saiu, fechou a casa,
deu as costas ao vento
e trocou de elemento,
ou de ponto de apoio:
recostou-se ao arroio
e desmanchou as asas.
Em 1971, Bruno Tolentino lança o livro “Le vrai le vain” em francês, cujo prólogo é uma preciosidade. Depois em 1979, lança, “About the hunt” em inglês. Ambos os livros foram muito bem recebidos pela crítica européia. Percebe-se então o tipo de relacionamento que Bruno tem no seu exílio, o ambiente literário que está acostumado, isto, inclusive, é importante frisar, porque depois compreenderemos algumas de suas atitudes quando retorna ao Brasil. Bruno assume também a direção da revista literária Orford Poetry Now, cargo antes exercido por seu amigo, o poeta W.H. Auden. Lá vai o poeta…
OS FARÓIS
Rubens, rio de olvido e jardim da indolência,
travesseiro carnal onde é vedado amar,
mas por onde se agita e flui esta existência
como o ar pelo céu e o mar dentro do mar.
Leonardo da Vinci, sombrio espelho fundo
onde anjos sedutores sorriem com brandura
e, entre, penhascos e pinheiros do outro mundo,
sugerem-nos mistérios vedados à criatura.
Rembrandt, um hospital cheio de sons inquietos,
onde a um enorme crucifixo erguem-se a prece
e o coro de soluços de um monte de dejetos
a que a um raio invernal subitamente desce.
Michelangelo, ar vago onde os vultos hercúleos
e os Cristos se confundem, onde estranhos espectros,
poderosos fantasmas com seus dedos eretos,
estraçalham sudários à hora dos crepúsculos;
Puget, rei melancólico de um povo de forçados,
com impudências de fauno, de boxeador aos socos,
peito inchado de orgulho, homem débil e pálido,
resgastaste a beleza dos rudes e dos toscos.
Watteau, um carnaval de corações ilustres
a imitar borboletas, cada qual mais brilhante
ante os leves cenários em que o lume dos lustres
derrama o desvario no baile rodopiante.
Goya, onde o pesadelo não conhece mais peias:
fetos cozidos em sabás, velhas megeras
medindo-se ao espelho, ninfetas pondo as meias
para melhor tentar demoníacas feras.
Delacroix, lago cheio de sangue e anjos morosos
à sombra de pinheiros perenemente verdes,
onde passam fanfarras sob céus dolorosos
como se suspirasse Karl Maria von Weber.
Tantas blasfêmias, maldições, queixas e ais,
são um longo Te Deum de êxtases, de ecos
que, por mil labirintos, atravessando os séculos,
vertem ópios divinos aos corações mortais.
De boca em boca, inumeráveis sentinelas
repetem a mesma ordem, o mesmo grito passa
a cada caçador perdido atrás da caça
e um farol brilha aceso sobre mil cidadelas.
É o melhor testemunho da nossa dignidade,
Senhor, essa enxurrada ardente de soluços
que rola de era em era até cair de bruços
e morrer junto à orla da Tua eternidade!
O Mundo como Idéia” livro base desta antologia, demorou quarenta anos para ser escrito (59 – 99). Considerada a obra-prima de Bruno, ganhou o Prêmio Jabuti e o Prêmio José Ermírio de Morais, que nunca havia sido dado a um escritor, em sessão na Academia Brasileira de Letras. “O Mundo como Idéia” é dividido em Prólogo; Livro Primeiro: Lição de Modelagem; Livro Segundo: Lição de Trevas; Livro Último: A Imitação da Música e Finale. Seria de muita irresponsabilidade tentar resumir o livro em poucas linhas, posto que, só o Prólogo tem 85 páginas. Porém, transcrevo o que o próprio Bruno fala sobre o título e outras partes: “porque o que desde o início focalizou o por assim dizer nervo óptico destas reflexões foram os malefícios da Idéia, provindos todos de abusos metodológicos que, força é convir, em nada afetam a posição capital que sempre há de caber em todo esforço cognitivo à ilustre vilã de meus alarmes: queira-se ou não, a Idéia é o inescapável norte magnético no mapa móvel da aventura cognoscente“. Mais sobre nesta semana.
LAMENTO DE CAIM
No estreito labirinto,
as hienas do vento
e teu corpo caído.
Tento acordar e sinto
que me persegues, lento
como no sonho um grito.
Ladrão do amor paterno,
que à procura do ninho
incurável do eterno
escalaste sozinho
as mais altas escarpas
sem volta nem caminho,
viraste a estátua fria
indiferente às farpas
monótonas do dia,
circundaste o meu peito
dos espinhos de um horto
penitente e perfeito.
Sei que estás morto, morto,
máscara mortuária
das mutações de um rosto.
Sou eu que não consinto
que escape a solitária
sombra no labirinto.
Sou eu que enterro, a sós
com aquela sombra amarga,
o que sobrou de nós
como faca na ilharga.
Sobre sua maneira de escrever Bruno disse que “Em arte admira-se sobretudo o inalcançável, o que não se é por natureza e portanto não se faz por inclinação natural. Minha forma mentis será, sim, antes bem mais horaciana, ou mesmo virgiliana, do que sáfica ou pindárica, mas é em Ovídio que fui aprender a naturalidade da frase musical inseparável da sensibilidade profunda subjacente à fala da tribo. Sempre me horrorizou o poema que se afasta orgulhosamente da fala comum, da comunicação natural, detesto todo maneirismo em arte e não vejo senão afetação no hermetismo tão ao gosto dos doutos sem assunto: afinal, o que se concebe com clareza se exprime com facilidade… Por outro lado, penso de um modo e escrevo de outro, a contra-pêlo do que me seria fácil, porque tampouco creio no espontâneo, desconfio tanto do rebuscado quanto do aparentemente conclusivo, daí que faça e refaça incansavelmente meus textos, e meus livros levem anos, décadas para encontrar a forma final.”
POST-SCRIPTUM A UMA TRADUÇÃO
Pobre Paul Valéry, queria tanto
um vento que o arrancasse ao seu torpor!
Mas em vez de cantar queria o Canto,
a Coisa Pura sem tirar nem pôr,
sem tocar nada, a vaga, a chaga ou a flor…
Como esperar que um vento alasse o manto
da sua estranha estátua de isopor
- a Idéia – se o seu hábil esperanto
sem esperança de interlocutor,
era aquela magia sem quebranto
a geometria? E como ser cantor
do mundo-como-idéia sem no entanto
atar as mãos ao vento, esse escultor
a desmanchar estátuas por enquanto…?
Em “O Mundo como Idéia”, Bruno fala sobre o Belo Inteligível no prefácio II, “Plotino afirmava ser preciso que a consciência que temos de nós mesmos consinta em abolir-se para que de fato alcancemos possuir o objeto que anelemos ver. Mas acrescentava que essa autoconsciência necessita paradoxalmente manter-se em si mesma, de modo a que ela nela e com ela amadureça essa visão a que aspiramos. Meditada a lição, fui constatando que uma tal sucessão de instantes contrastados, interpondo uma fragilíssima ponte entre o real e a percepção do real, não nos torna inteiramente donos nem objeto contemplado nem da noção, da idéia que fazemos dele: continuamos entre seus dois pólos, únicos certificantes daquilo que somos e sem ele seguiríamos sendo.” Não posso me estender mais.
ANTEVISÕES DA ÚLTIMA ANTE-SALA
Quando o corpo ceder e uma primeira,
segunda ruga sobre a carapaça,
puserem-se a ensaiar com um ar sem graça
sulcos para os mistérios à maneira
das doçuras da uva numa passa;
quando o desejo, como uma bandeira
esfarrapada, a meio-pau na praça,
tremular, recolher-se à prateleira,
e a memória sozinha entrar no exílio
com ares de ex-rainha, eu, ai de mim,
cobrarei ao espelho aquele brilho
indiferente – mas ainda assim
sei que me vou dar bem aquele velho:
até Narciso cansa-se do espelho.
Tenho medo é da sarça nas pupilas,
do braseiral tardio, das fogueiras
semi-extintas, das poças intranquilas
por sob as pálpebras, das tremedeiras
quando a alma fareje as mais fagueiras
e intocáveis beldades… Ao senti-las
inabordáveis como as axilas
das jovens freiras, pode ser que as feiras
anárquicas do corpo desmontado
como um velho alazão, e todo um resto
de galope fugaz inesperado,
sacudam ainda aquele manifesto
desejo de deixar de ser… E então
quem sabe o que ainda tente um coração!
Poesia é fonte, prosa é água de balde“. Esta é uma frase conhecida de Bruno, que a explicou desta forma: “A poesia nasce dessas profundezas e mobiliza as forças do ser inteiro a partir das raízes do sentimento rumo aos cumes do entendimento. A prosa dita “de ficção” é um fenômeno recente, mais uma inflamação pós-renascentista, ou seja, um sinal do declínio das faculdades superiores do espírito humano, o abandono do campo do espírito – que é sempre uno, a um tempo aglutinador e analítico – às parvices conceitualizantes do meramente especulativo; para este, de resto, sempre houve a filosofia, o ensaio reflexivo que, estes sim, são do domínio da mente total e alerta, onde a vida do espírito não se abandona ao aleatório nem se deixa contaminar pelo simplesmente instintual.”
SEGUNDA RESIDÊNCIA
A casa flutuante que Leopardi
concebeu pendurada a alguma estrela
pelos fios do amor, cheguei a ela
mais de uma vez: quando caída a tarde
e o coração se melancolizava,
era àquela morada que eu subia
para levar-lhe o que já começava
a se acabar, como se acaba o dia
e se acaba a esperança incontentada.
Deixei naquela casa a meio-céu
pedaços do que amei e se perdeu,
sem se perder de todo, que à morada
inventada eu levei de vez em quando
um pouco do que andava agonizando.
Um pouco, raras vezes o melhor.
O melhor de algum modo sempre morre
e deixa, lateral, alguma torre,
solta, gesticulando no esplendor
perdido… Quando à casa, por mais alta
que qualquer torre, eu confiava um resto,
ou um simulacro do que amara, à falta
do que mais fosse, havia sempre um gesto
que era de despedida e parecia
chamar de volta o escasso mobiliário
que eu salvava e levava e aos poucos ia
se acumulando como um relicário.
Estranho relicário! Tudo é herança,
segundo os perdulários da esperança…
E aos poucos fui povoando com mobília
esparsa e desconexa aquela casa,
um álbum de retratos de família,
a família que eu tive, como a asa
tem e não tem o espaço em que volteia.
Voltava àquela casa quando a vida,
como a mecha tremendo na candeia,
começava a ensaiar a despedida
que mal se anunciava. E foi assim
que eu fiz uma segunda residência
a meio-céu, entre a desapetência
e essa estranha delícia que há no fim
de tudo o que se acaba, cedo ou tarde.
Tudo, menos a casa de Leopardi.
A língua afiada de Bruno define o homem moderno como “O homem moderno está infelicíssimo com o cadáver de um rei inchado na barriga… É o cadáver do humanismo prometéico que há cinco séculos vem “nascendo” aos pedaços: o racionalismo, o ateísmo, o espiritismo, o positivismo, o cientificismo, o darwinismo, o marxismo, o impressionismo, o expressionismo, o dadaísmo, o surrealismo, o cubismo, o vanguardismo, o dodecafonismo, o comunismo, o fascismo, o stalinismo, o terceiro-mundismo, o existencialismo, o satanismo, o sadhanismo, o bushismo, o budismo, o pacifismo, o peronismo, o cheguevarismo, o fidelcastrismo, o modernismo, o pós-modernismo, o nudismo, o pós-nudismo, o versolibrismo, o desconstrucionismo, a Marxilenaxuxauí, o Santo Daime e o Doutor Enéas, sem falar da USP e do pós-uspianismo… Tudo isso por aqui deu no Gianotti, no Fernandinho Beira Mar, no Elias Maluco, no casal Garotinho e no Piscinão de Ramos, enquanto por lá deu na arte do genoma e da clonagem, ou seja, no bebê de proveta com a Líbia do Doutor Gadhafi de guardiã dos direitos humanos segundo a ONU… “. Semana que vem, algumas opiniões contrárias.
A VENDA
A voz do amor vem várias vezes,
mas a alma ama uma vez só.
De estrelas há um trilhão e treza
e somem quando um sol sem dó
recobre-as todas de ouro em pó.
No céu em que eu andei às vezes,
as belas balelas dos deuses
- neoclássicas, de um rococó
ou de um barroco de encomenda
ou de ilusão – de vez em quando
iam chegando e iam passando,
até que um dia um ser de lenda
passou por lá e pô-me a venda
da luz total nos olhos cândidos.
Em ensaio após sua morte, o poeta Paulo Fichtner afirma que “o grande amor na vida do poeta foi Anecy Rocha, irmã de Glauber, cuja trágica morte inspirou o poema-litania Ao Divino Assassino, todo em tercetos decassílabos seguidos do belíssimo, permitam-me os puristas, estrambote: …mata, Senhor, que a morte não faz mal!. O amargo e irônico poema em que o católico fervoroso praticamente se levanta contra Deus a ponto de questioná-lo frontalmente pela morte da amada foi concebido em Paray-le-Maulnier, pouco depois do terrível acidente em que ela abriu a porta de um elevador e caiu no fosso de oito andares” , porém, em “O Mundo como Idéia” Bruno também ressalta Malu Grabowski a quem dedica o belo poema “A Noite Fria”.
A NOITE FRIA
Eu fiz de tudo um capitel de escombros.
Dediquei-me a arruaças repentinas,
amontoei no ar minhas ruínas,
joguei tudo no chão e dei de ombros.
Sacrifiquei assim crenças e assombros
à doce inconclusão das cavatinas:
via-os ruir e ao ritmo de seus tombos
ia compondo estrofes assassinas!
Não tem perdão meu perdulário ofício
de tordo de deserto – que onde eu pouso
o cacto em flor da arte, este meu vício,
é tudo insolação; que um fabuloso
sol carnívoro e frio põe um gozo
mavioso onde eu ponho um precipício.
Sou tordo cantor do desenlace.
Nem tenho outro motivo de cantar.
Transformo em elegia cada face,
cada torso em estela tumular.
Canto como quem abre a jugular
a que se abraça e, ainda que me abrace
à perfeição mais doce, pelo passe
de mágica da música vou dar
sempre com a mesma estátua degolada.
Dom nenhum me bastou, tomei-os todos
às mãos que se me abriam e fiz um nada
daquilo tudo; fui virando o tordo
de Bizâncio, a cidade ensimesmada:
um artefato, um engenho, um engodo.
Creio que a origem influencia em parte a obra de um poeta, porém, não necessariamente (ainda bem) faz com que os caminhos percorridos pelo mesmo, estejam de certa forma estabelecidos ou algo parecido. No caso de Bruno, isto se aplica. Nascido em família rica, educado em três línguas, pessoas influentes da crítica literária no meio e uma ligação com a pintura clássica e renascentista. Porém, nada disso vale se o sujeito não tiver o que mais importa na vida, a vontade de fazer, o amor. Por isso, creio eu, que encontramos nele este “passeio pelo intelecto”, este refinamento na criação da ars poetica que vimos durante este mês. Mais opiniões amanhã.
O PÊSSEGO
Estavas debruçada e me cobriste
dos bruscos panos brancos da alegria,
cantava a noite sacudindo a terra,
desatando o dia,
meu corpo todo em riste,
jubilação do instante, te bebia,
e encontados à crista
luminosa da terra,
fomos marulho puro, maresia,
rebentação da luz que não se avista.
Vive-se da saudade da surpresa
que sacudira acesa
a tocha humana pelo coração.
Mas se acaso outra vez me apareceres,
a rosa refolhada dos prazeres
no ventre e aquele cacto
de delícias na boca,
recomece o prodígio, não o ato:
somos bichos do chão
e à solidão da raça
toda carícia é pouca,
toda ternura passa
e, enquanto a chama cauteriza a chaga
um dia o coração, na escuridão
de si mesmo, instantâneo e vão, se apaga.
Bruno era daqueles católicos fervorosos. A ponto de conseguir converter as pessoas para a religião. Pode ser considerado um dos maiores intelectuais/poetas católicos do Brasil. Junto dele, temos o já conhecido e fundador da PUC do Rio, Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Ataíde, Murilo Mendes e Jorge de Lima, que juntos, reinstauraram o projeto, Poesia em Cristo, e outros. Entretanto, não vemos tanto o louvor explícito na poesia de Bruno como há em Jorge de Lima, por exemplo. Mas pessoas que o conheceram bem pessoalmente, me confrmaram sua característica catequisadora. Amém.
A IMITAÇÃO DA MÚSICA 1 E 2
Canto, filho da luz da zona ardente,
coisas que vi a luz, sempre estrangeira,
tecer o ar e inevitavelmente
ir baixando com modos de rendeira
ao tear deste mundo. A vida inteira
vi me escapar a luz do sol cadente,
e é essa rosa de sangue na fogueira
que agora arranco às dúvidas da mente.
Mente o intelecto que se esquece dela.
Se a pura luz de leste se desdiz,
a cada ocaso há no final feliz
dos números da mente a bagatela
de uma luz de mentira. Contra ela
fui tecendo este canto aprendiz.
Canto o que amo e amo o que é mortal.
A luz que se debate ao horizonte,
a frágil mariposa cor de fronte
que é todo o nosso bem e imita um mal,
nossa doce enfermeira terminal
empalidece, cai por trás de um monte,
e a mente sem demora baixa a ponte
e faz entrar a luz conceitual.
Canto para contar daquele instante
quando o que mais amamos chega ao fim
e um belo simulacro delirante
usurpa-lhe o lugar; quando é assim
que a arte desfaz da luz agonizante,
convence a muitos, não comove a mim.
Bruno Tolentino morreu no dia 27 de junho de 2007. Bruno, que sofria de AIDS, já havia superado um câncer, esteve internado no Hospital Emílio Ribas em São Paulo. Foi sepultado no Cemitério Santíssimo Sacramento, em São Paulo. Bruno, poeta de histórias fantásticas, quase inacreditáveis, foi destes poetas que vieram para elevar e provocar. Percorremos aqui apenas um de seus livros, “O Mundo como Idéia”, livro de prêmios e reconhecimentos, porém, apenas aponta a grandeza do poeta que Bruno foi, é preciso conhecer mais da obra de Bruno e mergulhar non seu imaginário clássico, e no seu mar de amigos por toda hisótria da poesia mundial.
A IMITAÇÃO DA MÚSICA 59 E 60
Durante o Quattrocento a criatura,
recém-nascida da beatitude,
faz pensar num infante que procura
situar-se entre o efêmero que o elude
e o eterno que supõe e põe em tudo
sua sombra escolástica e madura.
É a hora irrepetível da figura
que se descobre: o santo em seu estúdio,
entre a caveira, os livros e a ampulheta,
cogita o olhar da Idéia, essa espiã
do mundo que anda vendo com suspeita.
Senhor! A tentação do anacoreta
é agora a luz do instante, a cortesã
ruborizando os lábios da manhã…
Essencialmente, a mente se apavora
diante das cornucópias do existente,
os conúbios do aqui com aquele agora
que, sendo o abismo aberto na vertente
vertiginosa e súbita da História,
vai fazendo do ser o penitente
do instantâneo, da perda que o incorpora
ao chão em que tateia. No Ocidente,
por virtude cristã, não por crendice,
o instante da criatura é sempre histórico,
ou seja, é a instauração de um esvair-se.
O conceito detesta-o, e sobre o pórtico
do passageiro pinta o gesto heróico
de um qualquer semideus que o desmentisse.
Eis que chegamos ao final de mais uma antologia. Espero que tenham gostado de conhecer, reler, ou simplesmente apreender algo da poesia de Bruno Tolentino. Poeta da alta cultura, crítico fervoroso, polêmico, que teve uma vida de aventuras, conheceu e foi respeitado por nomes da alta intelectualidade mundial. Semana que vem, entraremos em um outro universo poético, outras proposições, outros poemas e, com certeza, outros debates. Ah, semana que vem, prepararei um mês especial, será um inverno diferente. Aguardem!
FINALE
Lotte Lehman cantando An Die Musik,
carregada para fora do palco
em lágrimas, incapaz de terminar
a curva do soluço…É sempre assim,
de longe, entrecortado, é assim que caem
a noite, a névoa, a núbil música de tudo,
a cera em chamas: toda vela chora só.
Última aparição do moribundo
à luz emocionada, a melopéia
no transiente – Ach, du heiliger, Kunst!
Adeus uma vez mais e adeus ainda
- ewig, ewig – ó interrupção do imperecível,
se para sempre assim, se por enquanto
adeus, adeus entanto,
doce esplendor do mundo…
Até a próxima.