Tavinho Paes
Luiz Octávio Paes de Oliveira nasceu no Rio de Janeiro no dia 26 de janeiro de 1955, às 6:01hs, sendo, aquariano com ascendente em aquário. Nasceria na Pro-Mater, porém, acabou por ser pelas mãos de uma parteira, no Catumbi. Filho de Geraldo Paes de Oliveira e Wanda Machado de Oliveira. A família de sua mãe veio de Cascadura, sua avó Odette era telefonista e seu avô Zeca era operário de um fábrica de sapatos. Anos depois, sua mãe veio a lhe contar que, talvez, o lugar onde nasceu, numa vila no Catumbi, fora posta abaixo para dar lugar ao Sambódromo. Muito bem, nestas próximas semanas, entraremos na vida desta ímpar figura, deste nosso poeta, o inquieto Tavinho Paes.
poeta novo da cartilha http://cartilhadepoesia.wordpress.com
.
.
O TAMBOR
a pele de um bicho esticada
a casca de uma árvore podada
o eco da caverna viva
ôca oca de pigmeus
uivando vozes da terra
girando no espaço
como obra de deus
em festa ou em guerra
seja de que lado for
lá estará ele
o tambor!
rufando a vitória
gingando na roda
com seu toque de coração
soando sinos de domingo
pingo de chuva no chão
batucada e explosão!
seja como for
lá está ele como seu humor
sua majestade: o tambor!
.
.
.
.
A avó, Odette, levava o pequeno Luiz Octávio nos terreirões dos Chorões de Cascadura e em blocos de rancho. Essas experiências com o choro e o rancho causavam muita impressão ao menino, tais marcas teriam grande importância depois. Seu avô costumava levá-lo ao Maracanã, a primeira vez tinha quatro anos de idade. O avô queria que fosse flamenguista, porém, num domingo de rodada dupla com um Flamengo e Vasco no horário principal, no jogo Botafogo e Madureira, o menino Luiz Octávio se encantou com um jogador do Botafogo fazendo estripulias com a bola, dribles inacreditáveis. O nome do jogador era Garrincha. Desde então, não teve mais dúvidas, torceria para o Botafogo.
.
Álvares de Azevedo para consulta no http://cartilhadepoesia. wordpress.com
.
FISSÃO À FRIO
.
nada aristocrático: erístico sou
quando pelo que sei sedado estou
e à minha sede, um pingo de suor dou
numa cama de amor com poesia e dor
genético ingênuo gênio
jogo tudo no nada que tenho
genérico geômetra, cogito versos
no poema genoma que engenho
para cubista como a cruz do cristo
ressuscitar rabo de lagartixa ou fígado
equivocadamente, invocando o tagarela
que iludido pelo que na fala revela
acende velas e faz da cela capela
até que no amor em que o isolo
calado encontre no colo o elo
que o amamenta cozinha e come
dando-lhe vida com idade e nome
num poema que o destino atropela
com o calor que a palavra congela
miasmo o fantasma que me amansa
vedando a tomada mnemônica
do mínimo amor que em máximos amei
vedanta que me inventa nirvanas
com meu poema pé de lama
num mundo que nele diz-se maya
ao Mayakovski que desmaiado chego
qual Kant à moda do noema
fazendo poema noeseando um mesmo tema
em mitos que imito cena a cena
através de filmes que filmo vendo cinema
.
.
.
.
A avó de Tavinho, Ilka Paes de Almeida Leite era uma aristocrata. Mesmo tendo tido problema de catarata no fim da vida, sabia, pelo tato, as diferenças dos guardanapos de linho dos demais e corrigia tudo que enconrava de errado na mesa. Foi ela quem deu as primeiras leituras para Tavinho, Olavo Bilac, Fagundes Varella, Casimiro de Abreu, Fernando Pessoa e Vinicius. Tavinho decorava alguns poemas. A grande leitura mesmo foi Monteiro Lobato. Tavinho aprendeu a ler aos cinco anos e sua avó ainda enxergava. Ela lia com ele Os 12 Trabalhos de Hércules, As reinações de Narizinho, Saci e todos os outros. A querida avó também lhe apresentou aos Irmãos Grimm e La Fontaine. Ela também dava uns trocados escondidos para que Tavinho comprasse gibis. O Fantasma, O Brasinha, O Príncipe Valente. E por fim, teve mania de booklets da Editora Brugera (que ficava em Bonsucesso, e que depois viriam a influenciar suas primeiras publicações) de Marcial Lafuente Stephania e os clássimo Giselle Monfort da espiã nua que abalou Paris.
.
.
BRINQUEDOS
.
poesia é uma lembrança
da infância
que toda criança
inocentemente não sabe
que um dia
há de se acabar
é por uma instintiva esperança
que essa mesma criança
inventa brinquedos
que serão seus segredos
com os quais
no futuro
continuará a brincar
a poesia é um brinquedo
que não quebra nas mãos
de quem com ele
souber brincar.
.
.
.
.
O pai de Tavinho adorava cavalos, cassinos e carteados. Com a questão do jogo do pai, Tavinho acabou por morar em vários lugares durante a infância. Cascadura, Largo do Machado, Ipanema, Ramos, Méier, Flamengo, Grajaú, Madureira… Em um mês de sua vida, Tavinho, morando em uma casa na Aníbal de Mendonça em Ipanema, por exemplo, teve que se mudar da noite para o dia para uma casa em Jacarépaguá, onde havia um pomar, porém, em dois dias, teve que se mudar para a Urca. O pai de Tavinho teve o registro de jornalista cassado quando veio o não muito falado AI 15. Uns homens invadiram sua casa em Cascadura e levaram seu pai. Então, Tavinho, dos 13 aos 17, morou em Bonsucesso. Nessa época, estudava no antológico colégio Amaro Cavalcanti no Largo do Machado em Laranjeiras, perto do Catete.
.
Parla! em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
.
HIERÓGLIFO
.
vou disparar num tiro
um novo profano encanto
antigo e atual de propósito
à propósito do que na poesia imanto
suponha que tomo em mãos um taco
e que na bola que rebato
canto de galo
matando cobra
mostrando o que falo ao falo
retornando calado à caverna
onde ao fogo uma sombra revela
um gigante como um elefante
que ionesco como rinoceronte
conclama os que são finos
a se tornarem elegantes
zombando sem um pingo de piedade
dos que são legalmente ignorantes
sem perdoar a estupidez
que os mantêm abobalhados
literalmente párias insignificantes
todos a caminho da sepultura
felizes filósofos farfalhando falas
arrulhando dogmas arrogantes
contando com dinheiro bastante
para fazerem as contas se pagarem
fazendo de conta
que viveram vidas nababescas
num ritmo alucinante
burro! cretino! tapado!
tal é o peixe que vejo
sentindo sede
fisgado no anzol
engasgado no molinete
prisioneiro por inteiro da rede
sufocando com tanto ar fora d’água
debatendo-se com as guelras molhadas
perto da morte e da frígida frigideira
em que será assado frito e temperado
antes de ser servido num banquete
a um preço melancolicamente salgado
que só será totalmente pago
se o jejum de quem o devorar
aprová-lo na língua e no paladar
para depois ejetá-lo
misturado como cimento e barro
obrado numa privada
de um banheiro fedorento
numa louça sem ralo
eis a esfinge que poema invento
com ávaras metáforas frescas
metonimicamente invocadas
em sacrifício retórico total
nele: a poesia é lótus na lama
flor imaculada
sem perfume
sem nada
decifra-a ou morra com ela
na língua encalacrada
ou ignore-a
veperino vate ignorante
e deixe toda a poesia
dita ou escrita
longe da tua maldita
burrice ululante
.
.
.
.
Tavinho morou por alguns anos, de favor, na casa de uma tia no Conjunto do Jardim Ipê na Avenida Itararé, próximo do que hoje é conhecido por Complexo do Alemão. Ali, Tavinho teve uma infâcia lúdica, soltando pipas e brincando na rua, na essência “moleque” que o Nelson Rodrigues tanto admirava. Perto de onde brincava, havia uma fábrica de calcinhas e sutiãs chamada Poesi! Tavinho admirava as operárias sendo revistadas antes de entrar na fábrica. Tinha naquilo uma espécie de experiência de encantamento com a mulher. Voltando aos livros, Tavinho teve muita impressão dos livros O Clube de Sr. Pickwick de Charles Dickens e Don Quixote de Cervantes. Um pouco de Machado também, e Eça de Queiroz em A Ilustre casa de Ramires.
.
.
A NATUREZA DE DEUS
a natureza não se programa
mas ela reprograma interferências
em suas insondáveis programações
quer saber se isto é coisa de deus?
então pergunte aos vulcões
a que horas ferverão como o sol…
entenda-se com furacões e tornados
que vão para onde querem
e a qualquer hora mudam de lado…
informe-se com as tsunamis
e cuide-se para não ficar molhado…
não indague a natureza
a nada ela responde
a tudo: reage
invisível que nem miragem
não se expõe nem se esconde
magnífica mirabolante
máxima mínima selvagem
quer saber a quanto tempo é assim?
então pergunte ao passado
quando não havia nem pátria nem língua
e as grandes conquistas dos animais
tinham a ver com almoço e jantar
não adianta insistir nem regatear
a natureza não responde nenhuma pergunta
não fala nada sobre nada
a natureza é muda
a natureza muda
.
.
.
.
Tavinho era estudante da PUC nos anos setenta e lá conheceu muita gente interessante que teria grande influência em sua vida. Começou a escrever poemas por essa época. Os poemas eram para amigas de faculdade, com especial devoção para duas: Laís Chamma e Angela Góis. Um grupo interessante também se formou na PUC com Alfredo Herkenhoff, Demétrio de Oliveira Gomes e Rosana, que tinha um fusca que se chamava Valente Valentina, pois só andava com seis dentro. Tempos felizes. De grupos importantes na vida de Tavinho ainda havia o da boêmia do boteco Billy’s com Chicão, Kiki, Torquato Mendonça, Goga e Patrícia Cazé, que viria a ser noiva do Cazuza e chamou-o para a turma. A turma da Cobal também era boa com o Abel Silva, Aldir Blanc, João Paulo de Andrade, Antônio Pedro, Macalé e Tom Jobim. Vida que segue.
.
Paranóia no http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
.
POESIA MENINA
.
amo as mulheres crianças
de alma infantil e cabeça na dança
com as quais posso brincar de médico
gosto das que topam soltar pipa
das que pulam amarelinhas
jogam bolas de gude
tomam banho de rio, mar e açude
reconhecendo nelas yaras
yemanjás, oxuns e iansãs
brincando de pera, uva e maça
amo as mulheres meninas
em especial: as bem agitadinhas
as capacitadas pelo espírito
a agirem livres na hora do rito
que nos rituais de passagem
passam a limpo
os segredos que omito
sem perderem a viagem
amo as mulheres que passam
pela minha vida
montadas num cavalo alado
em direção ao futuro
sempre presentes no meu passado
.
.
.
.
Tulipa Negra foi o primeiro livro mimeografado de Tavinho Paes. Publicado em 1973, foram cinquenta exemplares, sem design. Porém, após a publicação do primeiro, Tavinho descobriu que o mimeógrafo também imprimia imagens, fotos e desenhos. Assim, os livros sempre teriam algo a mais. Começava aí o início com o diálogo com as artes plásticas, que viria depois a influenciar nas performances. Os títulos saíam em ritmo acelerado: A maçã podre; Pelotão de fuzilamento; P(r)onto para A(r)mar; A Pin-up do Marinheiro; Hamburger do Coração; Frágil Tarzan e por aí vai, até 1975, quando Tavinho inaugura sua fase de booklets, pequenos livros de bolso, com Travesti Bossal. A partir de então, a produção poética variava entre os booklets e os planfletos. Tavinho vendia em tudo que era lugar e pagava todas as contas.
.
.
JAZZ
.
não saberia precisar o preciso momento
em que meu impreciso sonho sonhou o seu
nem se foi de amor o sentimento
que senti como quem sente o tempo
soprar moinhos de um imaginário catavento
começando o que não tem começo
talvez nem lembre seu nome
te chamando com pronomes
pelos quais você responde
em nome do que nem tem nome
quem sabe o silêncio soe assobio
revelando o nome oculto
que te nomeia alguém sem nome
enquanto teu corpo dança
música de um sonho meu
sem perder a inocência
que de mim já se perdeu
sola este jazz de tesão paixão desejo
no sonho em que te vejo e me vejo
sem pedir nem mais nem menos
nem ao primeiro nem ao último beijo
jazz que me nina menino no colo
me adormece e me devolve
ao sonho meu que agora é seu
antes que eu acorde entre os acordes
e te ame só pela música que você me deu
.
.
.
.
A abordagem dos leitores nos anos setenta fazia parte do que Tavinho chama de “ato poético”. O poeta diz que o objeto-livro, sobretudo entre jovens poetas, praticamente não existia, e por isso, era necessária uma intervenção performática para as vendas. Tavinho desenvolveu bem isso. Chamava de “parangolé portátil” e tinha o tamanho de um maço de cigarro. Porém, Tavinho também fazia lançamentos. Em um deles, do booklet Luau! O lançamento foi no bar Lual que ficava na curva do Joá. Tavinho achou o bar à beira da falência e chamou uma penca de pessoas para um sarau com canjas de música. Divulgação bico calado no boca a boca pois a polícia não era nada fácil. Apareceram lá Caetano Veloso, Paula Gaetan (que viriam numa limosine) Marina Lima, Richtie, Romi de Vitti (a Marilyn Monroe do Leblon) Lobão e outros jovens ilustres. Cazuza que ainda não cantava ficou sendo o responsável pelas “especiarias proibidas”. Tudo ia bem, até o jornalista Nelson Mota deu uma nota numa coluna da qual era responsável. Resultado: às onze da noite já estava lotado. Neville D’Almeida e Bebel Gilberto não conseguiram entrar. Noite memorável. Coisas aconteceram ali que só quem esteve lá sabe.
.
.
CAÍ DO CÉU
.
eu sou a lira de um anjo festeiro
caí na terra, era noite de São João
assiti missa e casamento e quadrilha
o fogo da fogueira esquentou meu coração
fiquei na terra procurando um bom amigo
amei o vento e o vento vai para onde quer
as minhas flechas são as flechas do Cupido
quando chegam no alvo atingem alma de mulher
eu tenho asas de um anjo bagunceiro
sou brasileiro: eu me misturo na multidão
a minha luz é a de um sol de fevereiro
e o carnaval na rua é a minha procissão
se você quer que eu proteja o seu destino
faça-me amor com amor no coração
eu sou um anjo carente de carinho
seu eu cruzar o teu caminho
me pega
e me leva pela mão
.
.
.
.
Tavinho conheceu o mimeógrafo através de Jamari França, nos diretórios acadêmicos da PUC no início dos anos setenta. Ficou ainda mais fascinado quando descobriu que a máquina fora inventada pelo Thomas Edison, o inventor da lâmpada elétrica. “O mimeógrafo, para mim, era uma luz!”. O livros iam na linha de Preço da Passagem de Chacal e Travessa Bertalha de Charles Peixoto, porém, consta, sem tê-los visto os produziu pela primeira vez. A relação da Tavinho com as Artes Plásticas se deu muito através das revistas de arte que o Paulo Herkenhoff disponibilizava na pensão que morava em Botafogo com seu irmão Alfredo. Como não havia eventos de poesia, as exposições de fotografias eram um lugar para encontrar as pessoas, inclusive os poetas. Tavinho bebeu muito em Anna Bella Geiger, Ligia Pape, Ligia Clark, Vito Acconci, Josef Beyus e, sobretudo, em Chris Burden, que criou o conceito Art-Action. Sempre com a coisa de expor o corpo em suas proposições, assim, Tavinho pensava que expondo seu corpo na venda de seus livros, corria um risco maior ainda por causa da ditadura.
.
.
AZUL
.
aviões e bombas voam como urubus
discos voadores levitam que nem hindus
morcegos escutam de longe
o que de perto nem enxergam
e as paixões humanas
quando não voam: cegam!
o sexo dos anjos está nas asas
como o de mulheres dando a luz
vampiros adoram virgens complicadas
preferem que elas tenham sangue azul
tudo que voa
vê lá de cima o que quer
mas só vento vai para onde quiser
assobia nas frestas
das portas e janelas
invisível como fantasma
sua alma vai e volta
será que vem do norte?
ou terá vindo do sul?
trará consigo a sorte
como traz paz para os hindus?
para muitos anunciará a morte
mas só para uns poucos
esta morte será azul
como o céu da terra
como a terra
azul
.
.
.
.
Certa vez, quando foi fazer um curso pré-vestibular em São Paulo, Tavinho, que estava com alguns planfletos nas mãos, estava no pátio da GAZETA e foi detido pela polícia nas escadarias da gazeta. Os inspetor não sabia do que se tratava e acabou por pedir que o removessem de lá. Levaram-no para o DOPS na Estação da Luz e o colocaram numa sala. Tavinho ficou lá por algumas horas, apavorado, quando sentiu vontade de ir ao banheiro. Foi até a porta e descobriu que ela sempre esteve aberta. Saiu da sala e perguntou a um homem cheio de pastas onde era o WC. O homem lhe mandou descer as escadas pois o banheiro do andar estava entupido. Tavinho desceu, não havia ninguém. Passou pelos corredores, sentinelas até chegar na saída. Foi embora sem ninguém ter notado.
.
.
O MENSAGEIRO
.
quem vai te dizer
que eu te amo
não há de ser
uma carta
um recado
uma fofoca
um telefonema
nem os versos
deste vago poema
quem vai te dizer
que eu te amo
vai ser o tempo
o mensageiro
que nunca chega tarde
e sempre
pede a quem o aceita
para que tenha paciência
e o aguarde
ele é o mensageiro
que voa volúvel no vento
e leva consigo
o que num eu te amo
longe das palavras
é puro sentimento
.
.
.
.
As primeiras parcerias musicais de Tavinho foram meio forçadas, com o cantor Léo Jaime. Tavinho gostava de rock e tinha desejos de escrever algum tipo de jazz, mas não entendia muito de letras de música. Assim nasceu Enfant Terrible, gravada pelo Eduardo Dusek. Tavinho tinha um grupo de performance chamado Poema Terror, com Torquato Mendonça, Demétrio de Oliveira Gomes, Divana, Soninha Toda Pura e Steve Quest. Depois disso compôs, em parceria tripla, Gata Todo Dia, gravada pela Marina Lima. O dinheiro pintou e Tavinho gostou da ideia. Até que na virada de 82 para 83, apareceu um de seus grandes parceiros, Arnaldo Brandão. Ele já tinha musicado um poema de um livreto de Tavinho, O Caso de Jane e Julia e a parceria firmou. Daí vieram Rádio Blá, Totalmente Demais, Renascença Rock, Carência Não!, Partido Verde Alemão e Plic-Plic.
.
Carta ao primeiro em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
.
UTILIDADE
.
se a poesia não existisse
as borboletas não sairiam dos casulos
o zero seria nulo
as flores perderiam seus odores
o arco-íris não teria sete cores
nem haveria sol na lua
se o poema não existisse
amar seria tão triste
quanto um deserto sem oásis
ou um luar sem eclipse
se o poeta não existisse
as musas não seriam lindas
os amantes não amariam o próximo
e o próximo amor seria o último
talvez a poesia só exista
para derreter corações de gelo
afinar o piano humano
ser humana e sacana
sentimental como o medo
no dia a dia, sua serventia
é das mais vulgares
ela invoca e coloca
os imbecis e os idiotas
bem junto de seus pares
tranquilamente
em seus devidos lugares
.
.
.
.
Moacyr Albuquerque foi outro grande parceiro musical de Tavinho, com quem fez ‘Rumba Louca’, gravada pela Gal Costa e Com Certeza, gravada pela Maria Bethânia. Tânia Alves, Mariana também foram cantoras que gravaram músicas de Tavinho. Nesse momento, meio dos anos 80, Tavinho já é bem conhecido como letrista e, por isso, procurado também. Trabalhou também com Marina Lima por alguns anos, que gravou ‘Acho que dá’, dentre outras. Tavinho tinha mais ou menos umas dez canções realmente gravadas, só que oito delas estavam censuradas. ‘Totalmente Demais’ por “apologia ao homossexualismo”. Em 1985, Tavinho e Arnaldo Brandão criam o Hanói Hanói e regravam a música, que é novamente censurada por “apologia às drogas”. Até que Caetano Veloso fez um show no Copacabana Palace cantando a música, aparecendo na TV Cultura. Tavinho era apresentado à classe média e à pequena burguesia. Nessa época era editor d’O Pasquim e iniciou uma campanha “ricos podem ouvir, pobre não pode?”, pela liberação da música. Vem mais por aí.
.
.
ENIGMA-ME
.
diga que não sabe
porque gosta de mim
que não compreende
como sou quem sou
que não sabe onde vai
nem porque contigo vou
verifique e indique problemas
que eu nem sei se tenho
chama-me de maluco
confuso e inseguro
provando a + b
que eu não me entendo
nem me compreendo
acusa-me de doente demente
acuda-me com sua ajuda impaciente
reclama do meu jeito de ser
cria-me um mistério
que eu não possa resolver
e faz amor comigo
decifrando minha esfinge
enxergando o que não posso ver
vem, amor que me domina
apresenta-me à minha própria sina
confunda a anima que me anima
corrói-me de ciúmes
domina-me com mandingas
me execra, me arranha e me xinga
torna-me teu teorema
e por amor ao poema: enigma-me!
.
.
.
.
Sexy Yemanjah foi tirada de um livreto por Pepeu Gomes e teve muito sucesso, chegou a abrir a novela Mulheres de Areia. Em 1989, logo após o enterro de seu pai, Cazuza convidou o poeta para um fim-de-semana na casa da Fazenda Inglesa, com uma turma na qual estava a atriz Maria Zilda Bethlen, Fernando Gabeira e Ezequiel Neves. Na ocasião, Tavinho Paes foi indicado para escrever sua biografia e apresentado ao editor Caio Graco (Brasiliense) que já tinha um contrato para o tal livro, sob o título de 13 anos de Loucura. Para evitar a pressão o editor pagou uma ida de Tavinho a Paris, durante o bicentenário da Revolução Francesa, viajando num avião com Anna Maria Tornaghi e Joãozinho 30… Quando ele voltou, a família fez o que pode para evitar que tal projeto fosse realizado. No início de 1994, depois de um acordo de cavalheiro com João Araújo, o problema acabou e tavinho teve a sorte de voltar ao sistema Globo de Rádio e Televisão, abrindo a novela das 8, Mulheres de Areia com a canção Sexy Yemanjah.
.
.
.
CIDADE GRANDE
.
num solitário escritório
vedado à vidro fumê
no último piso
do suntuoso arranha-céus
no centro de uma grande cidade
em pleno século vinte e um
um executivo excelente
contente em ser gerente
subitamente
sente-te gente
encerrando o expediente
telefonando à portaria
para saber se no térreo
faz chuva
ou brilha um sol
artificial
.
.
.
.
De volta de Paris, 6 meses depois, Tavinho teve que lidar com vpários problemas, tal foi o desconforto nos pais de cazuza quando souberam que o poeta fizera tudo à sua maneira e resolveu escrever um livro sobre a geração de Cazuza. Foi um bafafá: fofoca de todo tipo prenunciavam um livro escandaloso, embora Tavinho insistisse que estaria usando o esquema da pequena e da grande morte (tirado do livro A insustentável leveza do ser) e feito uma pesquisa sobre a AIDS (que se chamava preconceituosamente GRID – Gay Related Defficience Sindrome). Foram tantas as aporrinhações que Tavinho, sob acordo então sigiloso, teve que dar os originais à família. Consta que o pai do Cazuza não gostou e jogou tudo na lareira, mas, como nada foi oficialmente confirmado; pode ser, mesmo que muito remotamente, tais escritos ainda possam vir a tona e serem checados pelo público. Ainda há tal necessidade e quiçás tais originais (uma caixa com mais de 800 folhas manuscritas) não tenham se perdido…
.
.
.
QUANDO O PODER DÁ AS CARTAS
.
quando o poder dá as cartas
falta um coringa no baralho
os ases se sentem reis
as rainhas andam com valetes
a sueca vira buraco
onde cada canastrão bate
pega o morto
e sai atrás de ouros
onde sobram copas, paus e espadas
até perder o que era pra ganhar
sem saber o que foi apostado
quando o poder dá as cartas
o baralho está sempre marcado
joga-se a paixão contra a ilusão
e quem tem as cartas na mão
nem sempre tem a sorte
ao seu lado
e trapaceia
por pura falta de opção
quando o poder dá as cartas
o jogo vira trabalho
a carta que cada um tem na manga
é sempre aquele coringa
que falta no baralho
.
.
.
.
Terminando o capítulo das letras de música com um dia de atraso. Tavinho se enveredou por um caminho muito interessante e corajoso. Em 1984, Xuxa saía da Manchete para ir para a Rede Globo. A emissora, que já tinha os direitos do desenho animado He-Men, comprou os direitos de She-Ra. Tavinho já havia feito alguma letras para Xuxa, porém, esta despontou como grande sucesso. A música foi feita Joe Athanásio e tinha uma roupagem bossa nova, porém, o produtor Guto Graça Melo a transformou em rock. Era mais fácil para Xuxa cantar. Tavinho não sabia no que ia dar, estava um pouco desconfiado, até receber o primeiro pagamento de direitos autorais. Ao receber o dinheiro, Tavinho atravessou a rua, entrou numa loja de passagens e dois dias depois foi torrar 20 mil dólares nos USA, indo de Nova York a Chicago, gastando literalmente tudo em 3 meses! A música entrou em algumas coletâneas até receber uma paródia de uma banda chamada Testículos de Mary. Depois disso, Xuxa desautorizou a veiculação da música em coletâneas. Desta música, saiu o jargão beijinho, beijinho, tchau, tchau.
.
.
ROLAVA UMA GRANA
.
foi uma festa muito doida
bancada pela primeira dama
aniversário de uma amiga mui amiga
de carecas e peruas cafonas
rolava uma grana
que o sócio do marido emprestou
brindes de champagne
entre anões e mafiosos tarados
mil negócios dando certo
e outros tantos que iam sendo acertados
rolava uma grana
até pra quem nunca trabalhou
a elite da roça
zanzava num jardim encantado
som sertanejo na vitrola
e, no lago, jet-skis importados
rolava uma grana,
que ninguém sabe bem quem pagou
besame mucho
ministros dançam apaixonados…
um fantasma assina um cheque
e compra um carro para o seu namorado
rolava uma grana
e a festa era um problema de estado
tá tudo em cima e animado
mas o caçula ficou enciumado
acusou o irmão por tabela
e brigou com seu advogado…
rolava uma grana
dinheiro ali não valia nada
.
.
.
.
Em 1975, 76, Tavinho teve uma namorada chamada Cecília Baptista cujo apelido carinhoso era Crushinha (por causa do refrigerante), os primeiros grandes poemas foram para ela. Poucos anos depois, Tavinho foi praticamente casado com Luisa Ribeiro Costa com quem fez algumas performances e trabalhos de arte ao ar livre, infelizmente, sem registros. Nos ano 90, montou com ela a exposição C.EGO com booklets antigos e quadros. A música Linda Demais foi para ela. Em 1981, Tavinho se casa com Eliana Brito Sena com quem teve três filhos: Elvis Paes (obviamente por causa do Elvis Presley), Dianna Rosa (por causa da Dianna Ross com quem Tavinho dividiu um taxi em Nova York e depois foi a um churrasco de hamburgers em sua casa) e Pedro Gabriel (por causa de Peter Gabriel). Elvis é advogado, Dianna se formou em economia em Londres e Pedro estuda Direito e é surfista conhecido no Arpoador. Mais amor amanhã.
.
Como antes só que agora em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
.
CINEMASCOPE
.
fazer cinema
é desenhar um poema
a nankim
sobre um cubo de gelo
que bóia à deriva
nas águas de um rio
em movimento
fazer cinema
é acreditar em desejos
que só e desejam
diante de estrelas cadentes
mergulhando incandescentes
onde o sol encontra seu poente
fazer cinema
é ter a alegria da prova dos nove
recolocando as estrelas
no céu na terra que se move
.
.
.
.
Getzi foi uma paixão efêmera que Tavinho viveu em 1981 em Nova York. Era alemã, tinha mais ou menos uns 26 anos e Tavinho passou dois meses com ela. Tavinho a conheceu numa sessão do NY Institute for Films and Art no Soho, quando Tavinho entrou numa cabine individual, por engano, e lá estava ela, vendo Ninotschka, com Greta Garbo. Moravam em um loft e todas as noites se divertiam em bares, porém, todas as quartas e sextas, o Joffrey Ballet ensaiava e, por isso, era quase impossível dormir. Foi a primeira vez que Tavinho conheceu uma mulher, de fato, independente. Era casada com um homem e tinha uma namorada e, jamais misturou as coisas. Certa vez, foram expulsos do Museu de História Natural. Getzi queria tirar uma foto (era proibido) em frente a um dos fósseis de dinossauro beijando na boca de Tavinho. O segurança chegou no meio do beijo. Getzi ria, agarrando Tavinho enquanto eram interrogados. O segurança desistiu. A despedida foi numa calçada do Central Park, com o sol refletindo nas lentes do Ray Ban de Getzi. Faltava só uma música e a cena estava pronta.
.
.
ESTRELA GUIA
.
toda lua cheia
tem uma estrela guia
que quando brilha
enche a lua de prazer
é como o sol
dando luz ao meio-dia
ou um anjo da guarda
que veio te proteger
pode ser uma pessoa amiga
uma alma gêmea
um fã
um grande amor
é sempre alguém
que te traz luz e alegria
ama tudo que você faz
vai aonde você for
se atrás de um grande homem
há sempre uma grande mulher
é porque sozinho
nesta vida
ninguém faz tudo que quer
.
.
.
.
Nos anos 80, Tavinho teve uma experiência muito interessante nos EUA. Passava um tempo em Nova York, na mesma viagem que conheceu Getzi, a alemã. Tinha apenas 320 dólares na carteira, o que lhe permitia passar, no máximo, uma semana. Porém, ficou quatro meses e meio. Como? Vendendo livretos na rua. Do Soho à Sutton Place e em áreas nobres do West Side. Nesta ocasião, viu o começo dos rappers com seus grandes rádios na rua. Dos livretos, Tavinho tinha dois preferidos: Bang the Boeing, sobre o acidente do boeing civil 007 da Korean Airlines, que fora abatido por caças ruas sobrevoando instalações soviéticas na península de Kamatshka, o qual causou desconforto em certos veteranos, e Too Soft, com poemas de amor. Nesta mesma viagem, houve um show do Lobão e os Ronaldos, onde, muitos cantaram o que estava no panfleto que haviam comprado. Tavinho usava máquinas de xerox para seus livretos. E assim caminhava.
.
.
SAUDADE
.
saudade é perfume raro
cheiro de gente
para quem tem faro
sentimento que independe
de consentimento
emoção que nunca é descartável
carta que sente falta do baralho
saudade é chuva
que só chove no molhado
assunto delicado
que não dá para negociar
ninguém leva vantagem
em esquecer
de quem deve lembrar
nem com quem deve sonhar
mas, será que há alguém
que tem coragem de sonhar
com alguém que ama
…e acordar?
neste mundo existem milhões
que nunca disseram a ninguém
EU TE AMO
além de outros zilhões
que nunca ouviram isto de alguém
e mesmo assim
saudade todo mundo tem
.
.
.
.
Nos anos 2000, Tavinho promoveu uma série de eventos de poesia, dentre eles o Poesia Voa, no Circo Voador. Participou do grupo que formou o CEP 20000 que até hoje resiste da cena carioca. Também participou do coletivo Voluntários da Pátria ao lado de outros artistas, apresentando-se em diversos lugares O fato interessante nisso tudo é que publicou seu primeiro livro de poesia em uma editora em 2007, os Momossexuais, com poemas e letras de música, inclusive, marchinhas. Um ano depois publicou Buzinaí Naif, ambos os livros pela Ibis Libris. Depois, publicou uma série de livretos: Paixão Inventada, Facebook e outros, jamais deixando de publicar em sua forma primeira, os livros pessoais, como objetos de arte.
.
.
NO MAR DO AMOR
.
pode ser
que no mar
o amor flutue
como ondina
na espuma
da onda que quebra
quando sua onda te pega
você tem que decidir
se afunda ou se navega
conforme as ondas
e a resistência do cais
o amor do teu mar
com seu leva-e-traz
quando resolve te pegar
faz com que você
queira se afogar
independente das marés
das caravelas e das galés
vai ser nesse mar revolto
que você se encontrará
cara a cara contigo mesmo
com quem pensa que no fundo és
e com aquele netuno
que te desobedecerá
abre teu peito e ama
a sereia que lhe encantar
se ela não lhe fizer feliz
nem contigo gozar
pelo menos com ela
vê se aprende a nadar
.
.
.
.
Conheci Tavinho Paes numa pizzaria no Leblon onde havia o sarau Corujão da Poesia. Fui apresentado pelo João Luiz Sousa que me disse: “Você conhece o Tavinho Paes? Uma lenda vida da poesia”. Falei uns poemas lá e ficamos amigos. Logo o inclui no grupo de poesia pela internet, e ele amou. Me disse algo sobre cartilhas para o ensino médio. Por causa dele criei o blog http://cartilhadepoesia.wordpress.com, onde armazeno tudo para consulta. Passei a encontrá-lo em vários lugares. É muito importante haver poetas, como ele, que dialogam com as novas gerações, mostra para o jovem que é possível, estimula. E assim terminamos mais uma antologia, espero que tenham gostado de conhecer um pouco da poesia desta grande figura que dedica sua vida ao fazer poético constante. Semana que vem entraremos em um outro universo poético, outros poemas, outras proposições.
.
.
SERENATA
.
absolutamente de quatro por você
não posso te esquecer
exijo você de volta
e sua vida ao meu lado
ultrapassamos nossos limites
já que ultrapassados por eles
somos dois fracassados
cada um ao seu modo
cada qual com seu passado
pode chamar de orgulho bobo
esse meu pedido de socorro
expresso como um grito de agonia
nesta serenata fria
que canto
enquanto sofrendo morro
morro de amores por você
sem querer poder te dizer
que tudo que eu quero de ti
é o fogo do teu jogo
só assim acabo de vez
com esse sufoco
só assim resgato em mim
o que sempre fui
deixando de ser
este incomodo estorvo
só assim recuperarei o fôlego
de volta à tona de meu íntimo abismo
até que por amor
me deixe afogar de novo
.
.
.
.
Deixe um comentário