Carlos Drummond de Andrade
Carlos Dummond de Andrade nasceu em Itabira do Mato Dentro em Minas Gerais no dia 31 de outubro de 1902. É o nono filho de Carlos de Paula Andrade e D. Julieta Augusta Drummond de Andrade. Seu pai era fazendeiro e a família Drummond gozava de certo prestígio social em Itabira. Ali, nasceu e cresceu o jovem Carlos. Magro, sisudo e franzino, que depois viria a se tornar um dos mais respeitados poetas brasileiros. Neste mês tetaremos fazer um pequeno panorama detalhado da vida e da poesia de Drummond, sem querer ser professoral, tampouco exegeta e crítico. Evoé!
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SENTIMENTAL
Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria, cheia de escamas
e debruçado na mesa, todos contemplam
esse romântico trabalho.
Desgraçadamente falta uma letra,
uma letra somente
para acabar teu nome!
- Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!
Eu estava sonhando…
E há em todas as consciências um cartas amarelo:
“Neste país é proibido sonhar”.
Itabira localiza-se a 194 kilômetros de Belo Horizonte. Hoje é apelidada pelos habitantes como “cidade da poesia”, porém, também é a “cidade do ferro”. O nome “Itabira” vem do guarani, que significa “pedra que brilha” (itá é pedra) (bira é que brilha). Chamava-se Vila Itabira do Mato Dentro, era uma província que em 1848, foi elevada à categoria de cidade. Em 1907, foi fundada a primeira escola de Itabira, Escola Municipal Coronel José Batista. Itabira também tinha uma residência que preparava alunos para serem admitidos no Seminário de Caraça e de Mariana. Itabira tem um time de futebol que se chama, Valeriodoce Esporte Clube. Foi nessa cidade que Drummond nasceu.
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JARDIM DA PRAÇA DA LIBERDADE
a Gustavo Capanema
Verdes bulindo.
Sonata cariciosa da água
fugindo entre rosas geométricas.
Ventos elísios.
Macio.
Jardim tão pouco brasileiro… mas tão lindo.
Paisagem sem fundo.
A terra não sofreu para dar estas flores.
Sem ressonância.
O minuto que passa
desabrochando em floração inconsciente.
Bonito demais. Sem humanidade.
Literário demais.
(Pobres jardins do meu sertão,
atrás da Serra do Curral!
Nem repuxos frios nem tanques langues,
nem bombas nem jardineiros oficiais.
Só o mato crescendo indiferente entre sempre-vivas desbotadas
e o olhar desditoso da moça desfolhando malmequeres.)
Jardim da Praça da Liberdade,
Versailles entre bondes.
Na moldura das Secretarias compenetradas
a graça inteligente da relva
compõe o sonho dos verdes.
PROIBIDO PISAR NO GRAMADO
Talvez fosse melhor dizer:
PROIBIDO COMER O GRAMADO
A prefeitura vigilante
vela a soneca das ervinhas.
E o capote preto do guarda é uma bandeira na noite estrelada de funcionários.
De repente uma banda preta
vermelha retinta suando
bate um dobrado batuta
na doçura
do jardim.
Repuxos espavoridos fugindo.
Em 1910, aos oito anos, o jovem Drummond inicia o curso primário no Grupo Escolar Dr. Carvalho Brito, em Belo Horizonte. Lá conhece duas figuras que viriam a ser seus grandes amigos para a vida inteira: Gustavo Capanema e Afonso Arinos de Melo Franco. Lá estuda até o início da adolescência. Drummond, desde criança, até mesmo antes de aprender a ler, era fascinado pela forma da palavra, pela letra. Gostava de folhear jornais e livros para procurar formas, quando aprendeu a ler, já “conhecia” muitas delas. Logo mais, Drummond se enveredaria mais intensamente nos estudos primários.
Paulicéia sempre sempre ela no http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
UM HOMEM E SEU CARNAVAL
Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensões.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.
O pandeiro bate
é dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.
Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.
Em 1916, aos quatorze anos, Drummond se torna interno do Colégio Arnaldo, da Congregação do Verbo Divino, em Belo Horizonte. Curiosidade: A Congregação do Verbo Divino é essencialmente religiosa católica fundada em Steyl, às margens do rio Rosa nos Países Baixos em 1875 pelo padre alemão Arnaldo Janssen. A congregação seria feita na Alemanha, porém, por causa da perseguição do, então, Chanceler do Império Alemão, Otto von Bismarck aos católicos através da Kulturkampf, uma espécie de movimento coercitivo nacionalista contra a religião católica, teve que ser feita nos Países Baixos. Drummond tinha um contato mais direto com a religião católica.
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SOMBRA DAS MOÇAS EM FLOR
À sombra doce das moças em flor,
gosto de deitar para descansar.
É uma sombra verde, macia, vã,
fruto escasso à beira da mão.
A mão não colhe… A sombra das moças
esparramada cobre todo o chão.
As moças sorriem fora de você.
Dentro de você há um desejo torto
que elas não sabem. As moças em flor
estão rindo, dançando, flutuando no ar.
O nome delas é uma carícia
disfarçada.
As moças vão casar e não é com você.
Elas casam mesmo, inútil protestar.
No meio da praça, no meio da roda
há um cego querendo pegar um braço,
todos os braços formam um laço,
mas não se enforque nem se disperse
em mil análises proustianas,
meu filho.
No meio da roda, debaixo da árvore,
a sombra das moças penetra no cego,
e o dia que nasce atrás das pupilas
é vago e tranquilo como um domingo.
E todos os sinos batem no cego
e todos os desejos morrem na sombra,
frutos maduros es esborrachando
no chão.
Em 1917, o jovem Drummond começa a tomar aulas particulares com o professor Emílio Magalhães, em Itabira. No ano seguinte, vira interno do Colégio Anchieta da Companhia de Jesus em Nova Friburgo, onde é laureado com “certames literários”. A poesia, o escrever poemas, surge com mais força nesse período, com quinze anos de idade. Publica um poema em prosa chamado “Onda” no jornal ‘Maio’ de um único número. Começa ler o escritores céticos, e alguns surrealistas, o que teria, e teve, grande importância no desprendimento consciente das ideias religiosas. Isso, também, viria lhe custar caro.
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PRIVILÉGIO DO MAR
Neste terraço mediocremente confortável,
bebemos cerveja e olhamos o mar.
Sabemos que nada nos acontecerá.
O edifício é sólido e o mundo também.
Sabemos que cada edifício abriga mil corpos
labutando em mil compartimentos iguais.
Às vezes, alguns se inserem fatigados no elevador
e vêm cá em cima respirar a brisa do oceano,
o que é privilégio dos edifícios.
O mundo é mesmo de cimento armado.
Certamente, se houvesse um cruzador louco,
fundeado na baía em frente da cidade,
a vida seria incerta… improvável…
Mas nas águas tranquilas só há marinheiros fiéis.
Como a esquadra é cordial!
Podemos beber honradamente nossa cerveja.
Em 1919, Drummond é expulso do Colégio Anchieta da Companhia de Jesus por “insubordinação mental”. Drummond já tinha dezessete anos e um fato como esse grifa muito a história de um sujeito. Um ano depois, muda-se para Belo Horizonte com a família e começa a publicar seus trabalhos na seção “Sociais” do Diário de Minas. Nessa época, Drummond estende suas amizades conhecendo figuras como Milton Campos, Emílio Moura, Alberto Campos, João Alphonsus, Batista Santiago, Aníbal Machado, Pedro Nava (que viria a ser seu grande amigo), Heitor de Sousa e muitos outros. Todos eles frequentadores do Café Estrela e da Livraria Alves, em Belo Horizonte.
A espada em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
PALAVRAS NO MAR
Escrita nas ondas
a palavra Encanto
balança os náufragos,
embala os suicidas.
Lá dentro, os navios
são algas e pedras
em total olvido.
Há também tesouros
que se derramaram
e cartas de amor
circulando frias
por entre medusas.
Verdes solidões,
merencórios prantos,
queixumes de outrora,
tudo passa rápido
e os peixes devoram
e a memória apaga
e somente um palor
de lua embruxada
fica pervagando
no mar condenado.
O último hipocampo
deixa-se prender
num receptáculo
de coral e lágrimas
- do Oceano Atlântico
ou de tua boca,
triste por acaso,
por demais amarga.
A palavra Encanto
recolhe-se ao livro,
entre mil palavras
inertes à espera.
Em 1922, aos vinte anos, o primeiro “retorno”: Drummond ganha cinquenta mil réis como prêmio pelo conto “Joaquim do telhado”, no concurso Novela Mineira. No mesmo ano publica alguns trabalhos nas revistas Todos e Ilustração Brasileira. No ano seguinte, curiosamente, entra para a Escola de Odontologia e Farmácia em Belo Horizonte. Seguiu caminho semelhante de seu grande amigo e médico Pedro Nava, ao escolher a área de saúde, ao contrário de muitos outros jovens escritores que optaram pelo Direito. Em contrapartida, Drummond inicia sua extensa e intensa correspondência com Manuel Bandeira, manifestando-lhe sua admiração. Os conhecimentos aumentam ao conhecer o poeta Blaise Cendras, e parte do grupo modernista através Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Tarsila do Amaral. Pouco depois, inicia também longa correspondência com Mário de Andrade.
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FRAGILIDADE
Este verso, apenas um arabesco
em torno do elemento essencial – inatingível.
Fogem nuvens de verão, passam aves, navios, ondas,
e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento,
ai! já brincou, e tudo se fez imóvel, quantidades e quantidades
de sono se depositam sobre a terra esfacelada.
Não mais o desejo de explicar, e múltiplas palavras em feixe
subindo, e o espírito que escolhe, o olho que visita, a música
feita de depurações e depurações, a delicada modelagem
de um cristal de mil suspiros límpidos e frígidos: não mais
que um arabesco, apenas um arabesco
abraça as coisas, sem reduzi-las.
A correspondência com Mário de Andrade foi extensa e intensa. Quase tudo (ou tudo) foi colocado à disposição do público em livros. Mário era conhecido por suas cartas e pela generosidade dentro delas. Em 1924, Mário, assim responde ao jovem Drummond em uma delas: “Tudo está em gostar da vida e saber vivê-la. Só há um jeito feliz de viver a vida: é ter espírito religioso. Explico melhor: não se trata de ter espírito católico ou budista, trata-se de ter espírito religioso pra com a vida, isto é, viver com religião a vida. Eu sempre gostei muito de viver, de maneira que nenhuma manifestação da vida me é indiferente. Eu tanto aprecio uma boa caminhada a pé até o alto da Lapa como uma tocata de Bach e ponho tanto entusiasmo e carinho no escrever um dístico que vai figurar nas paredes dum bailarico e morrer no lixo depois como um romance a que darei a impossível eternidade da impressão. Eu acho, Drummond, pensando bem, que o que falta pra certos moços de tendência modernista brasileiros é isso: gostarem de verdade da vida”.
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ESTANCIAS
Amor? Amar? Vozes que ouvi, já não me lembra
onde: talvez entre grades solenes, num
calcinado e pungitivo lugar que regamos de fúria,
êxtase, adoração, temor. Talvez no mínimo
território acuado entre a espuma e o gnaisse, onde respira
- mas que assustada! uma criança apenas. E que presságios
de seus cabelos se desenrolam! Sim, ouvi de amor, em hora
infinda, se bem que sepultada na mais rangente areia
que os pés pisam, pisam, e por sua vez – é lei – desaparecem.
E ouvi amar, como de um dom a poucos ofertado; ou de um crime.
De novo essa vozes, peço-te. Escande-as em tom sóbrio,
ou senão, grita-as à face dos homens; desata os petrificados; aturde
os caules no ato de crescer; repete: amor, amar.
O ar se crispa, de ouvi-las; e para além do tempo ressoam, remos
de ouro batendo a água transfigurada; correntes
tombam. Em nós ressurge o antigo; o novo; o que de nada
extrai forma de vida; e não de confiança, de desassossego se nutre.
Eis que a posse abolida na de hoje se reflete, e confundem-se,
e quantos desse mal um dia (estão mortos) soluçaram,
habitam nosso corpo reunido e soluçam conosco.
Em outra carta escrita para Drummond, Mário de Andrade diz que ” (…) toda a gente acha graça na minha alegria e como eu me divirto quando estou na festa mais pau. Creio que essa riqueza me vem de eu compreender a vida e vivê-la em toda a variedade dela. Quando vou na festa sei que a festa é pra gente se divertir e qualquer coisa me diverte extraordinariamente. Quando vou… na dor sei que a dor é pra gente sofrer e sofro pra burro, sofro sério, sofro sofrendo e não espetacularmente, é lógico. Que sucede? a minha variedade de viver é tão incomensurável que não me fatigo dela nunca. (…) A correspondência entre Mário e Carlos se deu até a morte de Mário.
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UM BOI VE OS HOMENS
Tão delicados (mais que um arbusto) e correm
e correm de um para o outro lado, sempre esquecidos
de alguma coisa. Certamente, falta-lhes
não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres
e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves,
até sinistros. Coitados, dir-se-ia não se escutam
nem o canto do ar nem os segredos do feno,
como também parecem não enxergar o que é visível
e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes
e no rasto da tristeza chegam à crueldade.
Toda a expressão deles mora nos olhos – e perde-se
a um simples baixar de cílios, a uma sombra.
Nada nos pêlos, nos extremos de inconcebível fragilidade,
e como neles há pouca montanha,
e que secura e que reentrâncias e que
impossibilidade de se organizarem em formas calmas,
permanentes e necessárias. Têm, talvez,
certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem
perdoar a agitação incômoda e o translúcido
vazio interior que os torna tão pobres e carecidos
de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme
(que sabemos nós?), sons que se despedaçam e tombam no campo
como pedras aflitas e queimam a erva e a água,
e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.
Em 1925, Drummond se casa com Dolores Dutra de Morais. O próprio Drummond dizia que ela tinha sido a primeira, ou segunda mulher a trabalhar num emprego (como contadora numa fábrica de sapatos) em Belo Horizonte. No mesmo ano, funda junto com Emílio Moura e Gregoriano Canedo, A Revista. Órgão essencialmente modernista, do qual saem três números. E também conclui o curso de Farmácia, porém, jamais exerce a profissão, dizendo querer “preservar a saúde dos outros”. Em carta a Mario de Andrade diz: “Mário, acabei os exames e sou agora farmacêutico. Não sei bem o que é isso. Durante o curso todo nunca pensei nisso. E ainda não tive o tempo de pensar.” Em uma outra revela: “Minha última carta de 1925 é pra você. Dei um tiro no meu diploma de farmacopila. Vou ser fazendeiro, se Deus quiser. Lugar: Itabira do Mato Dentro, Minas. É pra lá que você deve me escrever, daqui a um mês mais ou menos”.
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CARTA
Bem quisera escrevê-la
com palavras sabidas,
as mesmas, triviais,
embora estremecessem
a um toque de paixão.
Perfurando os obscuros
canais de argila e sombra,
ela iria contando
que vou bem, e amo sempre
e amo cada vez mais
a essa minha maneira
torcida e reticente,
e espero uma resposta,
mas que não tarde; e peço
um objeto minúsculo
só para dar prazer
a quem pode ofertá-lo;
diria ela do tempo
que faz do nosso lado;
as chuvas já secaram,
as crianças estudam,
uma última invenção
(inda não é perfeita)
faz ler nos corações,
mas todos esperamos
rever-nos bem depressa.
Muito depressa, não.
Vai-se tornando o tempo
estranhamente longo
à medida que encurta.
O que ontem disparava,
desbordado alazão,
hoje se paralisa
em esfinge de mármore,
e até o sono, o sono
que era grato, e era absurdo
é um dormir acordado
numa planície grave.
Rápido é o sonho, apenas,
que se vai, de mandar
notícias amorosas
quando não há amor
a dar ou receber;
quando só há lembrança,
ainda menos, pó,
menos ainda, nada,
nada de nada em tudo,
em mim mais do que em tudo,
e não vale acordar
que acaso repouse
na colina sem árvores.
Contudo, esta é uma carta.
Em 1926, Drummond começa a lecionar Geografia e Português no Ginásio Sul-Americano de Itabira, porém, seu retorno à cidade natal é interrompido, pois, por iniciativa de Alberto Campos, volta para Belo Horizonte para trabalhar como redator-chefe do Diário de Minas. No mesmo ano, uma honra: Heitor Villa Lobos, sem conhecê-lo, compõe uma seresta sobre o poema “Cantiga de Viúvo”. Um ano depois, uma fatalidade: No dia 22 de março, nasce seu filho Carlos Flávio, que, infelizmente, devido a complicações respiratórias, falece meia hora depois do parto.
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MAIO NO LEBLON
Entre os desmaios de maio,
azula o céu carioca
e o sol recolhe seu raio.
Macio maio! Bem vindo
aos que, de pupila doente,
refugiavam-se, no poente,
dos revérberos da praia.
Um frio azul se derrama
e colhe de rama em rama
toda cantiga de pássaro.
É doce, ficar na cama.
O níquel das bicicletas
- ante a franja turmalina -
se desenrola nas retas
sem fustigar as retinas.
Luz de seda! Nos vestidos
anda um prenúncio de lãs
e de agasalhos transidos.
Inverno, prepara as cãs.
Vou lagartear-me na areia
de onde emigram, neste maio,
as gentes de formas feias,
e descobrir nela côncavo
dos pés de Lúcia Sampaio.
Mês de colóquio e surpresa,
em que, sereno, o olhar gaio
se infiltra na natureza
e se perde, achando-se… Amai-o.
Em 1928, aos vinte e seis anos, após a trágica morte prematura de seu primeiro filho, nasce, enfim, Maria Julieta. Ela se tornaria sua grande amiga e confidente para a vida inteira. No mesmo ano publica na Revista de Antropofagia, órgão oriundo do Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade, o poema “No meio do caminho”, que se tornaria o grande escândalo da literatura brasileira na época. A Revista tinha direção de Alcântara Machado e Raul Bopp. Dentre seus principais colaboradores, temos o próprio Drummond, Mário de Andrade, Plínio Salgado, Manuel Bandeira, Menotti Del Picchia, Murilo Mendes, Pedro Nava e alguns outros. Havia duas linhas distintas que escreviam na revista: a de Mário e Oswald e a do grupo nacionalista e integralista Anta.
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PORTINARI
De um baú de folha-de-flandres no caminho da roça
um baú que os pintores desprezaram
mas que anjos vêm cobrir de flores namoradeiras
salta João Cândido trajado de arco-íris
saltam garimpeiros, mártires da liberdade São João da Cruz
salta o galo escarlate bicando o pranto de Jeremias
saltam cavalos-marinhos em fila azul e ritmada
saltam orquídeas humanas, seringais, poetas de e sem óculos, transfigurados
saltam caprichos do Nordeste – nosso tempo
(nele uma angústia purificada na alegria do volume justo e da cor autêntica
salta o mundo de Portinari que fica lá no fundo
maginando novas surpresas
Em 1929, Drummond deixa o Diário de Minas para trabalhar no Minas Gerais, órgão oficial do Estado, como auxiliar de redação e pouco depois como redator, sob a direção de Anibal Machado. Um ano depois, enfim, aos vinte e oito anos, Drummond publica seu primeiro livro, Alguma poesia, em edição de 500 exemplares paga pelo autor, sob o selo imaginário Edições Pindorama, criado por Eduardo Frieiro. Embora tenha sido o primeiro, no livro, há poemas que se tornaram uma espécie de “clássico” em toda sua vasta obra. No mesmo ano, torna-se auxiliar de gabinete do Secretário de Interior, quando, seu amigo, Gustavo Capanema, substitui Cristiano Machado na função.
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LETRA AMARGA PARA MODINHA
Gosto de ti com desgosto.
Quando contemplo teu rosto
nele vejo um rosto outro
com o qual maduras teu gosto.
Por um mandamento imposto
sofro de ti em meu corpo
quando contemplo teu rosto.
Quando contemplo teu rosto
este amor a contragosto
fermenta de ácido mosto
e no meu cavername rouco
um dó de mim, um a-gosto
me punge, queima de agosto.
Se te contemplo, em teu rosto
não me contemplo a meu gosto
pois teu semblante está posto
numa linha de sol-posto
em que por dentro me morro.
Morro de ver em teu rosto
o fel de teu anti-rosto.
Quando contemplo teu rosto
meu gosto é puro desgosto.
Em 1931, Drummond perde seu pai, Carlos de Paula Andrade. Dois anos depois, torna-se redator de A Tribuna e mais uma vez acompanha Gustavo Capanema quando este é nomeado Interventor Federal em Minas Gerais. A grande mudança acontece em 1934. Começa trabalhando como redator nos jornais Minas Gerais, Estado de Minas e Diário da Tarde, simultaneamente. Depois publica Brejo das almas, em edição de 200 exemplares pela cooperativa Os Amigos do Livro, e finalmente, muda-se com sua mulher, Dolores, e sua filha, Maria Julieta, para o Rio de Janeiro, onde, passa a trabalhar como chefe de gabinete de Gustavo Capanema, agora, Ministro da Educação e da Saúde Pública.
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O QUARTO EM DESORDEM
Na curva perigosa dos cinquenta
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor
que não se sabe como é feita: amor,
na quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gosto de colher e amar
a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais defeso, corpo! corpo, corpo,
verdade tão final, sede tão vária,
e esse cavalo solto pela cama,
a passear o peito de quem ama.
Em 1935, Drummond se torna membro da Comissão de Eficiência do Ministério da Educação. Dois anos passam sem muitas novidades literárias até que em 37, começa a colaborar na Revista Acadêmica, de Murilo Miranda. De acordo com Mário Faustino, os poemas que Drummond publica em revistas e jornais não são os seus “melhores”. Mário acreditava que, ali, Drummond fazia uma espécie de laboratório com poemas de menor expressão. Certo, ou não, em 1940, Drummond publica seu famoso Sentimento do mundo, em tiragem de 150 exemplares, apenas, distribuídos entre amigos.
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PROCURA
Procurar sem notícia, nos lugares
onde nunca passou;
inquirir, gente não, porém textura,
chamar à fala muros de nascença,
os que não são nem sabem, elementos
de uma composição estrangulada.
Não renunciar, entre possíveis,
feitos de cimento do impossível,
e ao sol-menino opor a antiga busca,
e de tal modo revolver a morte
que ela caia em fragmentos, devolvendo
seus intatos reféns – e aquele volte.
Venha igual a si mesmo, e ao tão-mudado,
que o interroga, insinue
a sigla de uma armário cristalino,
além do qual, pascendo beatitudes,
os seres-bois completos, se transitem,
ou mugidoramente se abençoem.
Depois, colóquios instantâneos
liguem Amor, Conhecimento,
como fora de espaço e tempo hão de ligar-se,
e breves despedidas
sem lenços e sem mãos
restaurem – para outros – na esplanada
o império do real, que não existe.
Em 1941, assina sob o pseudônimo de “O Observador Literário”, a seção “Conversa Literária” da revista Euclides. Ao mesmo tempo que colabora para o suplemente literário de A Manhã, dirigido por Múcio Leão e mais tarde por Jorge Lacerda. Em 1942, um grande acontecimento: José Olympio, publica Poesias, através de sua Livraria José Olympio Editora. É o primeiro editor que, de fato, publica Drummond. Agora tinha um canal, uma editora que o lançaria definitivamente, pois, já era, a esta altura, considerado como grande poeta, sobretudo, entre poetas. Nessa época, também, envereda-se pela tradução e publica a obra Thérèse Desqueyroux, de François Mauriac, sob o título de Uma gota de veneno.
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A CARLITO
Velho Chaplin:
as crianças do mundo te saúdam.
Não adiantou te esconderes na casa de areia dos setenta anos,
refletida no lago suíço.
Nem trocares tua roupa e sapatos heróicos
pela comum indumentária mundial.
Um guri te descobre e diz: Carlito
CARLITO – ressoa o coro em primavera.
Homens apressados estacam. E readquirem-se.
Estavas enrolado neles como bola de gude de quinze cores,
concentração do lúdico infinito.
Pulas intato da algibeira.
Uma guerra e outra guerra não bastaram
para secar em nós a eterna linfa
em que, peixe, modulas teu bailado.
O filme de 16 milímetros entra em casa
por um dia alugado
e com ele a graça de existir
mesmo entre os equívocos, o medo, a solitude mais solita.
Agora é confidencial o teu ensino,
pessoa por pessoa,
ternura por ternura,
e desligado de ti e da rede internacional de cinemas,
o mito cresce.
O mito cresce Chaplin, a nossos olhos
feridos de pesadelo cotidiano.
O mundo vai acabar por mão dos homens?
A vida renega a vida?
Não restará ninguém para pregar
o último rabo de papel na túnica do rei?
Ninguém para recordar
que houve pelas estradas um errante poeta desengonçado,
a todos resumindo em seu despojamento?
Perguntas suspensas no céu cortado
de pressentimentos e foguetes
cedem à maior pergunta
que o homem dirige às estrelas.
Velho Chaplin, a vida está apenas alvorecendo
e as crianças do mundo te saúdam.
Em 1944, Drummond publica Confissões de Minas, por iniciativa de Álvaro Lins, mas, um ano depois, um grande e marcante lançamento: A Rosa do Povo, sai pela José Olympio. A novela O gerente sai pela Edições Horizonte. Começa a colaborar no suplemente literário do Correio da Manhã e na Folha Carioca. Preservando a boa relação que tinha com Gustavo Capanema, Drummond deixa a chefia do gabinete a convite de Luís Carlos Prestes, e se torna co-editor do jornal comunista, Tribuna Popular, junto com Pedro Mota Lima, Álvaro Moreyra, Aydano do Couto Ferraz e Dalcídio Jurandir. Meses depois, se afasta do jornal por discordar da orientação do mesmo. Neste época Drummond frequenta o café Vermelhinho, no centro do Rio, onde se reuniam intelectuais e poetas como João Cabral (que foi ao Rio conhecer Drummond), Santa Rosa, Carlos Castelo Branco e alguns outros.
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DESFILE
Já fatigado de escrever em prosa,
este vago cronista pede ao verso
que de mansinho desabroche em rosa
e a Raquel de Queiroz hoje se oferte
pelo muito que amamos os seus livros
fraternos e pungentes, seres vivos.
Uma rosa a Raquel? Mas é tão pouco
uma flor por um mundo que começa
no Ceará e chega às Três Marias!
Falta evidentemente paridade,
como hoje se diz em cada esquina,
praia, bar, escritório da cidade.
- Falar nisso: qual é o seu salário,
meu doutor-marechal? quinhentos mil?
- Eu mesmo já nem sei, mas vou a jato
saber o último abono extraordinário
e daquele projeto que aposenta
o servidor com um dia de exercício
para ceder lugar a mais quarenta.
Ainda bem que entre tudo que nos falta,
falta igualmente número ao Congresso…
Mas quem pode aguentar meia semana
em Brasília, onde a vida anda em recesso?
Se a Capital não volta para o Rio,
pois nem o Rio a quer (Inês é morta),
e na praça tristonha dos Três Poderes
semelham um deserto fundo de horta,
o jeito, Juscelino, é por decreto
extinguir-se o governo da República,
o que não faz lá muita diferença
e formalmente fica mais correto.
Difícil é extinguir essa doença
chamada camarite vereadora,
ou, dizendo melhor, devoradora,
que já no corpo em flor da Guanabara,
perfumado a lavanda de esperanças,
coloca a nódoa espúria de uma tara.
Aproveitando a rima: e as duas Franças?
Uma, livre, querendo livre a Argélia,
outra, buscando em ferros conservá-la.
Ai, ganância cruel que assim repele a
voz da razão e o senso de justiça!
O que vibra na gente de sensível,
de reto e inconformado, neste mundo
indeciso entre trágicos destinos,
o que há de mais leal e mais profundo,
pulsa convosco, amigos argelinos.
E nessa americana poranduba,
um verso irmão lá vai, direto de Cuba,
onde o sonho dos homens se elabora,
confuso, dolorido…até que um dia
a vida, se não doce como cana,
pelo menos se torne mais humana.
Após sair do hebdomadário comunista, Drummond é chamado por Rodrigo M. F. de Andrade para trabalhar na diretoria do Patrimônio Histórico Artístico Nacional, onde mais tarde se tornará chefe da Seção de História, na Divisão de Estudos e Tombamento. Em 1946, recebe o Prêmio pelo Conjunto da Obra, da Sociedade Felipe d’Oliveira. Um prêmio importante e seu primeiro. Outro acontecimento interessante: Sua filha, Maria Julieta, publica, aos dezessete anos de idade, a novela, A busca, pela José Olympio. Um ano depois, outra tradução: Les Liaisons dangereuses, de Choderlos De Laclos, sob o título de As relação perigosas.
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CORPORAL
O arabesco em forma de mulher
balança folhas tenras no alvo
da pele.
Transverte coxas em ritmos,
joelhos em tulipas. E dança
repousando. Agora se inclina
em túrgidas, promitentes colinas.
Todo se deita: é uma terra
semeada de minérios redondos,
braceletes, anéis multiplicados,
bandolins de doces nádegas cantantes.
Onde finda o movimento, nasce
espontânea a parábola,
e um círculo, um seio, uma enseada
fazem fluir, ininterruptamente,
a modulação da linha.
De cinco, dez sentidos, infla-se
o arabesco, maçã
polida no orvalho
de corpos a enlaçar-se e desatar-se
em curva curva curva bem-amada,
e o que o corpo inventa é coisa alada.
Em 1948, Drummond publica seu Poesia até agora, com poemas que também se tornariam clássicos. Colabora em Política e Letras, de Odylo Costa, filho. Porém, no mesmo ano, uma grande perda: Falece sua mãe, Julieta Drummond de Andrade. O poeta comparece ao enterro em Itabira ao mesmo tempo em que é executada no Theatro Municipal do Rio de Janeiro a obra “Poema de Itabira”, de Heitor Villa Lobos, composta sobre seu poema “Viagem na família”. Um ano depois volta a escrever no jornal Minas Gerais. Sua filha, Maria Julieta, casa-se com o escritor e advogado argentino Manuel Graña Etcheverry e passa a morar em Buenos Aires, onde, desempenhará, ao longo de sua vida, um importante trabalho de divulgação da cultura brasileira.
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A DUPLA SITUAÇÃO
Um silêncio tão perfeito
como o que baixou agora:
sinal que já morremos
ou nem chegamos ainda à Terra.
Acabamos de sentir a morte
nas veias substituir o sangue.
Circulamos na atmosfera,
somos, corpo e brisa, um só.
Ou flutuamos no possível
sem pressa de, sem desejo de
atingir o irretratável
movimento do nascimento.
Este silêncio tão completo
em si, em nós, em nossa volta,
converte-nos em transparente
esfera
contemplada contemplativa.
Em 1950, Drummond se torna avô de Carlos Manuel, filho de Maria Julieta, nascido em Buenos Aires. Um ano depois, publica Claro enigma, Contos de aprendiz e A mesa. É também publicado em Madrid através do livro Poemas. No ano seguinte, em 1952, já com cinquenta anos, publica Passeios na ilha e Viola de bolso. 1953, mais uma mudança de trabalho. Exonera-se do cargo de redator do Minas Gerais, ao ser estabilizada sua situação de funcionário do DPHAN. Se torna avô pela segunda vez, agora, de Luis Maurício, a quem dedica do poema “Luis Maurício infante”. Seu genro, o escritor Manuel Graña Etcheverry, traduz seus poemas e o publica com o livro Dos poemas, em Buenos Aires.
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A MÚSICA DA TERRA
A dor que habita em nós, o cravo a ignora.
A vida, uma gavota? Pura dança
o amor? No minueto de Lully
cabe a dificuldade de existir?
Quinta-essência do angélico, no caos,
paira a graça de Mozart sobre o abismo,
sem devassá-lo – pássaro de nuvem.
O tempo é outro metal, a comburir-nos.
Urge romper o gosto, a norma límpida,
e sangrentas estilhas do momento
passar à forma nobre da sonata.
Urge extrair do piano o som dramático.
E suscitar o diálogo patético
entre piano e violino qual se escuta,
na penumbra da alma, a duas vozes,
um rumor de paixão se entretecendo.
Eis que a música deixa de ser pura.
Os serafins e os elfos se despedem.
A terra é lar dos homens, não dos mitos.
Há que desmascarar nosso destino.
Em tatear incessante, no conflito
corpo a corpo entre o ser e a contingência,
nova música, ungida de tristeza
mas radiante de força, vem ao mundo.
Luta o homem na área desolada
de sua solidão; luta no palco
fremente de contrastes, percebendo
que pouco a pouco cerram-se os espaços
da percepção, e tudo se limita
à captação interna, de sinais
silentes, impalpáveis, invisíveis,
nunca porém tão vivos se captados.
À proporção que a dor aumenta, e em volta
nega-lhes o amor seus bálsamos terrestres,
ganha requinte a fábrica sonora
de eternizar a vida breve em arte.
Es muss sein! É preciso! Na amargura,
na derrota do corpo, sublimada,
a canção do heroísmo e a da alegria
resgatam nossa mísera passagem.
E entreabre a sinfonia suas palmas
imensas, a conter todos o rebanho
de perplexos irmãos, de angustiados
prospectores de rumo e de sentido
para a sorte geral. O homem revela-se
na torrente melódica, suplanta
seu escuro nascer, sua insegura
visão do além, turva de morte e medo.
Ó Beethoven, tu nos mostraste o alvorecer.
Em 1954, Drummond publica seu Fazendeiro do ar e Poesia até agora. Traduz Les paysans de Balzac e realiza na Rádio Ministério de Educação, em diálogo com Lya Cavalcanti, a série de palestras “Quase memórias”. Inicia também um trabalho de duraria quinzes anos, o de cronistas do Correio da Manhã intitulada “Imagens”. Um ano depois, publica Viola de bolso novamente encordoada. Em Cadernos de Cultura, que o Ministério da Educação fazia, com célebres textos de João Cabral, Otávio de Faria, Mário Pedrosa, Lucio Costa, Paulo Mendes Campos e muitos outros, publica o 50 poemas escolhidos pelo autor, com poemas até então, fora de sua lista de mais populares.
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QUARTO ESCURO
Por que este nome, ao sol? Tudo escurece
de súbito na casa. Estou sem olhos.
Aqui decerto guardam-se guardados
sem forma, sem sentido. É quarto feito
pensadamente para me intrigar.
O que nele se põe assume outra matéria
e nunca mais regressa ao que era antes.
Eu mesmo, se transponho
o umbral enigmático,
fico a ser, de mim desconhecido.
Sou coisa inanimada, bicho preso
em jaula de esquecer, que se afastou
de movimento e fome. Esta pesada
cobertura de sombra nega o tato,
o olfato, o ouvido. Exalo-me. Enoiteço.
O quarto escuro em mim habita. Sou
o quarto escuro. Sem lucarna.
Sem óculo. Os antigos
condenam-me a esta forma de castigo.
Drummond continua com as traduções, desta vez, traduz Albertine disparue, da célebre À la recherche du temps perdu, de Marcel Proust. Em 1957, publica, Fala, amendoreira, e Ciclo. Ano seguinte, no incrível ano de 1958 (em todos os aspectos), outra publicação em Buenos Aires, só que desta vez na coleção “Poetas del siglo viente”. Drummond tem sua primeira “experiência” teatral com a montagem de sua tradução de Doña Rosita la soltera de Federico Garcia Lorca, pela qual recebe o Prêmio Padre Ventura, do Círculo Independente de Críticos Teatrais. Até que, no ano seguinte, nasce seu terceiro neto, Pedro Augusto. Através de Biblioteca Nacional, é publicada a sua tradução de Oiseaux-Mouches orthorynques du Brèsil, de Descourtilz. Colabora também em Mundo Ilustrado.
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PASSEIAM AS BELAS
Passeiam as belas, à tarde, na Avenida
que não é avenida, é longo caminho branco
onde os vestidos cor de rosa vão deixando,
não, não deixam sombra alguma, em mim é que eles deixam.
Passeiam, à tarde, as belas na Avenida.
São tão belas como as vejo, ou mais ainda?
Só de passar, só de lembrar que passam, a beleza
nelas se crava eternamente, adaga de ouro.
Passeiam na Avenida, à tarde, as belas,
as sempre belas no futuro mais remoto.
Pisam com sola fina e saltos altos
de seus sapatos de cetim o tempo e o sonho.
À tarde, na Avenida, passeiam as belas,
seios cuidadosamente ocultos mas arfantes,
pernas recatadas, mas sabe Deus as linhas perturbadoras
que criam ritmos, e o caminho branco é todo ritmo.
Na Avenida, passeiam as belas, à tarde,
no alto da cidade que entre árvores se apresta
para o sono das oito da noite e não sabe que as belas
deixam insone, a noite inteira, uma criança deslumbrada.
No início dos anos sessenta, Drummond começa a colaborar para o programa Quadrante da Rádio Ministério da Educação, instituído por Murilo Miranda. No mesmo ano, uma perda, falece seu irmão Altivo. As publicações não param e ao mesmo tempo saem Lição das coisas, Antologia poética e A bolsa & a vida. Em 1962 é demolida a cada da Rua Joaquim Nabuco 81, onde viveu durante 21 anos. Desde então, passa a residir em apartamento. Saem mais traduções suas de L’Oiseau bleu, de Maurice Maeterlinck e de Les Fouberies de Scapin, de Molière, a qual é encenada no Teatro do Tablado do Rio de Janeiro, e recebe o Prêmio Padre Ventura. No mesmo ano, aposenta-se como Chefe de Seção da DPHAN, após 35 anos de serviço público, recebendo carta de louvor do ministro da Educação, Oliveira Brito.
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A MOÇA FERRADA
Falam tanto dessa moça. Ninguém viu,
todos juram.
Cada qual conta coisa diferente,
e todas concordantes.
Dizem que à noite, ela. Ela o quê?
E com quem? Com viajantes
que somem sem rastro
gabando no caminho
os espasmos secretos (tão públicos) da moça.
Sobe a moça
a ladeira da igreja
para reza de todas as tardes.
De branco perfeitíssimo,
alta, superior, inabordável
(luxúria de mil-folhas sob o véu,
murmura alguém).
À noite é que acontecem coisas
no quarto escuro. Ganidos de prazer,
escutados por quem? se ninguém passa
na rua de altas horas-muro?
Pouco importa, a moça está marcada,
marca de rês na anca, ferro em brasa
de língua popular.
Nos anos sessenta continuam as publicações e prêmios: Tradução de Sult (Fome) de Knut Hamsun; Prêmio Fernando Chinaglia da União Brasileira de Escritores, e Luisa Cláudio de Sousa, do PEN Clube do Brasil, ambos por Lição das coisas; Obra completa, pela Aguilar; Antologia Poética em Portugal; In the Middle of the Road, nos Estados Unidos, Poesie, na Alemanha; Rio de Janeiro em prosa & verso em parceria com Manuel Bandeira; Cadeira de Balanço; traduções de seus livros na Suécia, Praga e Argentina. Em 1968, seu longo e célebre Boitempo. Começa a escrever para o Jornal do Brasil em 1969. Drummond parece colher frutos de tanta dedicação à poesia. Publica Reunião, Caminhos de João Brandão e Seleta em prosa e verso, já no início dos anos setenta. E começando bem esta década nova, publica Poemas em Cuba.
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APONTAMENTOS
O deslizante cisne destas águas
nem simbolista nem parnasiano;
a tartaruga em si mesma trancada;
as rêmiges de fogo no viveiro;
o cris da areia em solas transeuntes;
o guarda que de inerte se assemelha
às árvores, e árvore é com sua farda;
o macaco brincando de ser gente;
a foto de jornal sobre o canteiro;
essa flor que nasceu sem dar aviso
nos ferros rendilhados do gradil;
a caixa envidraçada de empadinhas
e cocadas baianas logo à entrada;
o ver, em si, como ato de viver;
o perder-se e encontrar-se nas aléias,
no entrelaçar de curvas sombreadas,
de onde espero surgir alguma ninfa
sem que surja nenhuma (e continuo
procurando a metáfora do sonho);
o barquinho alugado por sessenta
minutos, e o perfume, que é gratuito,
de resinosos troncos tutelares
desta gentil paisagem recolhida;
uma cantiga – ó minha Carabu…
entoada à distância e logo extinta;
o torpor que a meu ser eis se afeiçoa
na vontade de relva, de reflexo,
de sopro, de sussurro me tornar;
a ausência de relógio e de colégio,
de obrigação, de ação, de tudo vão.
Os anos setenta correm e Drummond publica muito: O poder ultrajovem, em Buenos Aires; As impurezas do branco; Menino antigo; Boitempo II; Lá bolsa y la vida, em Buenos Aires; Réunion, em Paris. Recebe o Prêmio de Poesia da Associação Paulista de Críticos Literários e se torna membro da American Association of Teachers os Spanish and Portuguese, nos Estados Unidos. Publica também Amor, amores e recebe o Prêmio Nacional Walmap de Literatura, e recusa, por motivo de consciência, o Prêmio Brasília de Literatura, da Fundação Cultural do Distrito Federal. Em 77, aparecem sua gravações de 42 poemas em dois long plays. Sai também UYBETBO BA CHETA (Sentimento do mundo) em Búlgaro. Em 79, viaja para Buenos Aires urgentemente, pois, sua filha Maria Julieta se encontrava doente.
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MORTO VIVENDO
Aquele morreu amando.
Nem sentiu chegar a morte
quando à vida se abraçava
nem a morte o castigou.
Enquanto beijava o amor
a morte o foi transportando
nos braços do amor gozoso
sem desatar-se a cadeia
de vida enganchada em vida.
Aquele morreu? Quem sabe
o que foi feito do amante
alçado em coche de chamas
ou carruagem de cinzas
no ato pleno de amar?
Não corrigiu a postura,
não voltou aos intervalos
de solitude a espera,
não repetiu mais os gestos
fora do ritmo amoroso.
Morreu completo, no êxtase
de estar no mundo e extramundo.
Que sabe a morte do abraço
paralisado na luz
do quarto aberto ao amor
e defeso a tudo mais?
E se continua vivo
e mais do que vivo amando
sem paredes e sem ossos
nos vazios espaciais,
não sei como, não sei quem?
No início dos anos oitenta, Drummond recebe o Prêmio Estácio se Sá, de jornalismo, e Morgado Mateus, de poesia, em Portugal. Lança Paixão Medida, e faz uma noite de autógrafos na Livraria José Olympio junto com Um buquê de alcachofras de sua filha Maria Julieta Drummond de Andrade. Mais lançamentos em países, Estados Unidos e Holanda. Em 82, faz 80 anos. São realizadas exposições comemorativas na Biblioteca Nacional e na Casa Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Os principais jornais do Brasil publicam suplementos em homenagem ao poeta. Recebe o título Doutor Honoris Causa, pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Cartazes são feitos e distribuidos pela cidade e sai o imenso livro de cartas entre Drummond e Mário de Andrade. Publica também Carmina drummondiana, com seus poemas traduzidos para o latim. Após 41 anos, muda de editora, sai da José Olympio e assina com a Record. Despede-se também do Jornal do Brasil com a crônica ‘Ciao’.
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ANTEPASSADO
Só te conheço de retrato,
não te conheço de verdade,
mas teu sangue bole em meu sangue
e sem saber te vivo em mim
e sem saber vou copiando
tuas imprevistas maneiras,
mais do que isso: teu fremente
modo de ser, enclausurado
entre ferros de conveniência
ou aranhóis da burguesia,
vou descobrindo o que me deste
sem saber que o davas, na líquida
transmissão de taras e dons,
vou te compreendendo, somente
de esmerilar em teu retrato
o que a pacatez de um retrato
ou o seu vago negtivo,
nele implícito e reticente,
filtra de um homem; sua face
oculta de si mesmo; impulso
primitivo; paixão insone
e mais trevosas intenções
que jamais assumiram ato
nem mesmo sombra de palavra,
mas ficaram dentro de ti
cozinhadas em lenha surda.
Acabei descobrindo tudo
que teus papéis não confessaram
nem a memória de família
transmitiu como fato histórico
e agora te conheço mais
do que a mim próprio me conheço,
pois sou teu vaso e transcendência,
teu duende mal encarnado.
Refaço os gestos que o retrato
não pode ter, aqueles gestos
que ficaram em ti à espera
de tardia repetição,
e tão meus eles se tornaram,
tão aderentes ao meu ser
que suponho tu os copiaste
de mim antes que eu os fizesse,
e furtando-me a iniciativa,
meu ladrão, roubaste-me o espírito.
Em 1986, Drummond escreve 21 poemas para a edição do centenário de Manuel Bandeira, ‘Bandeira a vida inteira’, com um disco. No mesmo ano, sofre um infarto e é internado durante 21 dias. No dia 31 de janeiro de 1987, escreve seu último poema, ‘Elegia a um tucano morto’ que passa a intergrar o livro Farewell, último livro organizado por ele mesmo. Vira tema da Estação Primeira de Mangueira com o samba enredo ‘No reino das palavras’ que vence o Carnaval. Porém, um duro golpe: Após dois meses internada, falece sua filha, Maria Julieta, vítima de câncer. “Assim terminou a vida da pessoa que mais amei no mundo”. Saem publicações em Cuba, Nova York. A vida estava terminando, porém, só por um instante.
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A HORA DO CANSAÇO
As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.
Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.
Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nos cansamos, por um ou outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.
Do sonho de eterno fica esse gosto acre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.
Carlos Drummond de Andrade falece no dia 17 de agosto de 1987, exatamente 12 dias depois da morte de sua filha Maria Julieta. Drummond foi enterrado junto a ela no Cemitério São João Batista do Rio de Janeiro. O poeta deixa obras inéditas como O avesso das coisas; Moça deitada na grama; O amor natural; Viola de bolso III; Farewell; e Arte em exposição, além de crônicas, dedicatórias em verso e um texto para um espetáculo musical. Alguns de seus livros são logo reeditados, tanto no Brasil quanto em outros países. Em 88, ‘Poesia errante’ recebe o Prêmio Padre Ventura pela Record. Em 89, Fernando Py organiza Auto-retrato e outras crônicas e uma série de novos livros. A Casa da Moeda homenageia o poeta emitindo uma nota de 50 cruzados.
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O AMOR ANTIGO
O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.
O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.
Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.
Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.
São muitas as homenagens. O Centro Cultural Banco do Brasil organiza uma grande exposição comemorativa dos 60 anos do livro Alguma poesia. Há palestras de Manuel Graña Etcheverry e Afonso Romano de Sant’Anna. Tônia Carrero encena ‘Mundo, vasto mundo’ com o coral Garganta Profunda sob direção de Paulo Autran. Também no CCBB, é encenado o espetáculo ‘Crônica viva’, com adaptação de João Brandão e Pedro Drummond. Em 1993, o livro O amor natural recebe o Prêmio Jabuti e no dia 2 de julho de 1994, falece Dolores Morais Drummond de Andrade, viúva de Drummond. Em 1996, o livro Farewell também recebe o Prêmio Jabuti. Em 1998, é inaugurado o Museu de Território Caminhos Drummondianos em Itabira e no ano 2000, é inaugurada a Biblioteca Carlos Drummond de Andrade do Colégio Arnaldo de Belo Horizonte em Minas Gerais. Tudo isto dentre muitos outros movimentos.
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NO PEQUENO MUSEU SENTIMENTAL
No pequeno museu sentimental
os fios de cabelo religados
por laços mínimos de fita
são tudo que dos montes hoje resta,
visitados por mim, montes de Vênus.
Apalpo, acaricio a flora negra,
e negra continua, nesse branco
total do tempo extinto
em que eu, pastor felante, apascentava
caracóis perfumados, anéis negros,
cobrinhas passionais, junto do espelho
que com elas rimava, num clarão.
Os movimentos vivos no pretérito
enroscam-se nos fios que em falam
de perdidos arquejos renascentes
em beijos que da boca deslizavam
para o abismo de flores e resinas.
Vou beijando a memória desses beijos.
Eis que chegamos ao final de mais uma antologia. Nessas cinco semanas que passaram, percorremos a vida e a obra de um dos mais importantes poetas brasileiros. Drummond, menino franzino de Itabira. Itabira do Mato Dentro. Espero que tenham gostado de rever ou conhecer o trabalho deste grande poeta. Na semana que vem entraremos em um outro universo poético, com outras proposições, outras possibilidades, outros poemas. Salve Carlos Drummond de Andrade! Salve a poesia nacional! E sobretudo, Salve a poesia contemporânea.
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APARIÇÃO AMOROSA
Doce fantasma, por que me visitas
como em outros tempos nossos corpos se visitavam?
Tua transparência roça-me a pele, convida
a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca
um beijo recebeu de rosto consumido.
Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,
mesma voz, mesmo timbre,
mesmas leves sílabas,
e aquele mesmo longo arquejo
em que te esvaías de prazer,
e nosso final descanso de camurça.
Então, convicto,
ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve
e continua existindo, puro som.
Aperto…o quê? A massa de ar em que te converteste
e beijo, beijo intensamente o nada.
Amado ser destruído, por que voltas
e és tão real assim tão ilusório?
Já nem distingo mais se és sombra
ou sombra sempre foste, e nossa história
invenção de livro soletrado
sob pestanas sonolentas.
Terei um dia conhecido
teu vero corpo como hoje o sei
de enlaçar o vapor como se enlaça
uma ideia platônica no espaço?
O desejo perdura em ti que já não és,
querida ausente, a perseguir-me suave?
Nunca pensei que os mortos
o mesmo ardor tivessem de outros dias
e no-lo transmitissem com chupadas
de fogo aceso e gelo matizados.
Tua visita ardente em consola.
Tua visita, ardente me desola.
Tua visita, apenas uma esmola.