Jorge Mautner
Henrique George Mautner nasceu no Rio de Janeiro no dia 17 de janeiro de 1941, filho de Paul Mautner e Anna Illichi. De acordo com sua mãe, George nasceu às 9 horas da noite, na hora em que abria o Cassino da Urca. Sua mãe era origem iugoslava e católica, ao passo que seu pai, era judeu austríaco. O menino nasceu pouco tempo depois de seus pais desembarcarem no Brasil fugindo do holocausto, do nazismo. Neste mês, percorreremos a poesia deste notável artista brasileiro. Sua relação com o Tropicalismo, com a música, com a prosa e, sobretudo, com a poesia brasileira. Evoé!
Segurando a pipa amarela em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
POEMA V
E houve um estranho amor
que quase me custou a vida
e que hoje me crucifica
e que na verdade
me tortura, ah! romântico!
A lua brilhava que nem prata
em cima da praia de novo
e eu andava sozinho
com meus velhos blue-jeans
e o meu Brasil
como eu te amo Brasil!
Sofria a fome e os pescadores e trabalhadores
e criancinhas esperam um dia melhor
quando a bandeira vermelha
for nossa bandeira pelo céu
azul e cinza chuvoso dessa terra
maravilhosa e triste
e nós os tristes, os deslocados,
os que são vermelhos por causa do sngue do
coração e da paixão lutaremos por isto!
Mas deixa viver com minha saudade
em meu peito!
Ela é minha!
É coitadinha
é a única coisa que tenho
(pois não tenho amor)
e ela é vermelha
como a bandeira que nos une!
É porque tudo isto é
o sangue, a paixão,
o amor.
Palavra linda! Quase sacra.
O sol nasce por aí
e o mar se ilumina
e o calor produz a febre
e a febre me faz escrever
inventar cantar lutar!
Luto no amor e na vida.
Ah! Os rocks dão-me forças
tenho uma espada na mão que não vejo
mas meu peito tem um coração
que tem FÉ que encontrei
depois de muito tempo perdida.
Eu e meus companheiros
vamos marchar por aí.
É o que resta.
Estandarte do Kaos!
Marxismo existencial!
Coisa nova!
Viva o mundo
o sangue vai correr
do nosso coração
ela já escorre!
Seu pai, Paul Mautner, era um homem extremamente culto. Quando veio ao Brasil, Paul se tornou logo simpatizante de Getúlio Vargas e começou a trabalhar com a comunicação da agência de resistência judaica anti-nazista. Um ano depois, em 42, um choque: Sua irmã, Susana Mautner, não consegue vir da Áustria para o Brasil para se juntar aos pais, fato este que marca muito sua mãe, Anna Illich, que passa a sofrer de uma paralisia nas mãos. O pequeno Jorge, então George, passa a ser educado pela sua babá, Lúcia, que era Yalorixá. Lúcia passa a levar o menino para terreiros de candomblé, onda há uma natural familiarização com o batuque.
http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
ECOLOGIA
a ecologia
se chamava um dia
deusa harmonia
e era a filosofia
doa gregos e de todos os eternos astronautas
que somos todos nós jamais a sós com todas nossas faltas
só os sonhadores
vivem os grandes amores
ciência e paciência
viva a coexistência!
…
hoje em dia
a ideologia
do terror
morreu de puro amor
e da morte dela nascem sem parar tão lindos frutos
novas ideologias todos os dias a cada três minutos
coisas muito jóias
Sem as paranóias
e sem radicalismo
ou totalitarismo
…
ó coração
por que razão
choras e choras
se a revolução
brasileira é multi-racial super original
só nossa como o samba e a palhoça e este carnaval
ela é nossa
como a bossa
o luar de prata
e ela é bem mulata!
…
e a soja
que é a comida
e a própria vida
que nós daremos
pra boca de uma faminta superpopulação que vai pintar aí
pra boca da superpopulação terrestre que vem aí
essa a missão sagrada do país em que nasci
e acabar com o tédio
do primeiro mundo
e dar o remédio
que é este negro batuque tão profundo
…
Em 1948, quando tinha seis anos, Mautner presencia a separação dos pais. O menino fica com a mãe, Anna Illich, que se casa, então, com Henri Muller, um violinista, e se muda para São Paulo. Mautner foi junto. O contato com seu pai e com a babá Lúcia se perde, ambos continuam a viver no Rio de Janeiro. Henri Muller, que se torna o primeiro violino da Orquestra Sinfônica de São Paulo, tem papel fundamental na vida do jovem George Mautner, quando ensina-o a tocar o instrumento, e assim, Mautner descobre o violino. Seu padrasto, além da orquestra, também faz pequenos trabalhos, ou “bicos”, participando de programas da Rádio Nacional, e nesse tempo, o menino tem a oportunidade de conviver entre grandes artistas da rádio, como Aracy de Almeida, Nelson Gonçalves, BlackOut, Jorge Veiga, Tonico e Tinoco, Elizeth Cardoso, Inezita Barroso, Marlene, Emilinha Borba e muitos outros.
http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
DESAFIO E DESAFIO
(trecho)
No infinito-finito universo einstaniano
Ou na afro-indígena vertigem da cultura da suprema doçura
Da negritude de todo território americano
Mas ainda tenho fome
Daquilo que não tem nome
Às vezes a poesia para
Para ser mais odara
Mesmo quando se afunda
Arranha céus
Arranha véus
E a peleja de Deus com o diabo
Eu a vejo como réu
Como coisa de outro estado
Que não o estado em que você tem estado
Mas aquele
Apenas aquele
Que foi conquistado
Violões acústicos
São corações tão rústicos
Em 1950, Mautner vai estudar no Colégio Dante Alighieri, em São Paulo, e lá conhece duas figuras que se tornariam, além de grandes amigos, personagens de seus livros: Arthur de Mello Guimarães e José Roberto Aguilar. Este segundo, disse uma vez que “a minha primeira impressão dele, pelo que me lembro, era que, na terceira série ginasial, ele era um CDF. Tinha um paletó de lã de camelo ou sei lá, e era muito discreto, mas no recreio tocava samba, e isso meio que congregava as pessoas. Eu me lembro de ter visto isso e pensado: “puxa, até que esse cara não é tão certinho quanto eu imaginava”. Basicamente ele era uma pessoa muito isolada da classe. Sei lá, você chega numa classe e sempre tem alguma coisa pra falar…aquela identificação imediata entre todo mundo. Mas o Mautner não: ele era um estrangeiro.”
http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
CANTO I
Sinto que sou alguém
Que para remediar a dor de cotovelo
Escreveu tudo isso pro nada e pro ninguém
E só queria era estar beijando teu cabelo
Tudo que eu desejo e quero
É habitar com você e mesma paisagem
Onde se houve rock-samba-bolero
E vive-se rindo, só rindo, falando bobagem
Penso nos meus planos tão insanos
A programar minhas atividades
Cantaríamos e nos gostaríamos todos os dias dos anos
Até o infinito da embriagues das eternidades
A eternidade fica onde desejamos
Que ela fique como sendo a realidade
É só querer e nos amamos e nos chupamos
Sendo que é isso que eu entendo por única e absoluta felicidade
Teus olhos são poços
Onde quero pescar a finíssima truta
Quero pescar esse peixe, me deixe! Roer teus ossos
E teus nervos e tua medula como uma fruta!
Os sons do teu violão ecoam
E estremecem as luzes da cidade
Eles são como mantras e koans
E cheios de coisas freios e eletricidade
Perfuro o ventre da escuridão
Onde as coisas se escondem
Porque estão cheias de sim e de não e de confusão
E quando pergunto sobre qualquer assunto nunca respondem
São como coisas presas ao labirinto
Com algemas nos pulsos e tudo
São cinco pras cinco e eu já me sinto
Dentro do seu não e de um caixão de veludo
Toca teu samba, toca
E tortura meu ser com prazer de ser
A tortura como aquela coisa que nos choca
Onde a alegria me enganava se dizendo a alegria do não Ter
Não ter o quê?
Ora, tá na cara
Não ter é não ter você
Seja como grilo, ou seja odara
Luas de prata conseguem
Fazer com que lentamente
As sensações das emoções naveguem
E invadam como as fadas minha mente
Doem-me todas as cicatrizes
E sinto as rugas das verrugas
Sei que és como atores e atrizes
E que sempre atacas quem te quer por em fugas
Tocas então mil serenatas
E antigas cantigas e rondós
Depois mijas no chão como os cães vira latas
E ficas falando de ti quando estamos a sós
É por isso que sinto todos estes e aquelas
Dores incolores e na garganta como nós
Nem as cores de óleos, hologramas ou aquarelas
Poderiam expressar tão bem quanto esses meus ós, ós, ós!
Estou muito sozinho
Na realidade agora
Falta o seu carinho
E a hora da aurora de quem namora
Gostaria de fazer poesia sem rima
E finalizar por aqui
Mas não consigo deixar de pensar no verso acima
Que sem rima não me deixa dormir
Queria naufragar te beijando
Mas sei que é possível
Por que e até quando
Será meu destino tão horrível?
Desprezaste e usaste todos o meu ser
Agora cansado me viro pro lado
E calado nem consigo ir pro meu eu antigo e morrer
É tudo como se fosse uma visão – suplício – calculado
As barras da minha prisão
São feitas de chocolate
E dentro do meu coraçÃo
Tem um órgão que bate, bate
Que energia é essa
Que não tem pressa nem vai a lugar nenhum?
Que sempre é esse promessa que recomeça
Mesmo quando o jogo é fogo e está um a um?
Eis que vem do além o trem do abismo
É uma questão de vida ou de morte
Pessimismo ou otimismo?
Ou simplesmente, democraticamente, alta falta de sorte?
Ainda sobre este período no início da adolescência, José Roberto Aguilar diz que “O que eu lembro mesmo da época em que conheci o Mautner é desse universo absolutamente mítico. Você entrava na casa dele – que era na rua Itapeva, 187 – e de repente se encontrava num espaço absolutamente diferente, apartado do mundo [...] De vez em quando o Paul (Mautner, pai de Jorge), dava aulas de física quântica, ou então a gente ficava lendo a História da Civilização Ocidental do Bertrand Russel ou os pré-Socráticos. Eram altas aventuras. Por exemplo: ler textos de Somerset Maughan, Hemingway, Faulkner, Kafka, Dostoiévski, era uma aventura absoluta que se abria [...] Esse contexto é muito importante, todo mundo naquela casa contava histórias em nível mítico. O Jorge e a convivência com a babá negra, por exemplo, é uma narrativa mítica.”
Tradução que fiz de Lautréamont em http://pedrolago.blogspot.com
CANTO III
Sinfonia ligeira
Não chega ao fim
Queira ou não queira
Eu sou é assim
Te dei meu corpo
Te dei minha pele
Mesmo depois de morto
Essa força me impede
Força dos grandes destinos
Que estão muito além
Dos hinos e dos sinos
E do aum e/ou do om e do amém
Mas te amo, te amo, te amo
Como nunca se amou na Terra
Nem no Brasil, no Vietnã ou no oceano
Nem na China nem na Inglaterra
Monstro dourado
De amor e dengue
Sou eternamente gamado
Nestes quadris que dançam merengue
Fico feliz
Quando tu chegas
És a matriz
Das minhas horas mais negras
De onde tu vens?
De onde? De onde?
Será que tu és quem tens
O ouro do conde?
Falo bobagem
Começo a ser fragmento
A grande chantagem
É a morte a todo momento
Em 1956, Jorge Mautner começa a escrever sua primeira grande obra: O Deus da Chuva e da Morte. No ano seguinte, nasce sua irmã, Jane Liliane Muller, filha de Ana com Henri Muller. Mas é em 1958, que sua vida literária tem seu primeiro momento, quando, aos 18 anos, tem pela primeira vez seu texto publicado numa revista. Descoberto por Paulo Bonfim, Jorge é comentado no #13 da revista filosófica Diálogo, dirigida por Vicente Ferreira da Silva. Neste mesmo ano, começa suas composições musicais como Iluminação, Olhar Bestial, O Vampiro e outras. Neste ano, também, começa a praticar tai-chi chuan.
Bolero em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
CANTO IX
Nosso amor, esta ilusão
Está encerrado e frio
Acolchoado no colchão
E ainda assim eu me rio
Gozo às vezes e poso
De ser acima do Bem e do Mal
Mas quando convém me entroso
Sou mais sincero que o real do real
Cabelos cacheados
Cabelos lindos
Cabelos revoltados
São fios de antenas tinindo
Açucar doce
Café amargo
Antes eu me fosse
Mas não vou pois não me largo
Pois mesmo o calafrio é
Também tesão afeto
Quer tomar café?
É meu divertimento predileto
Esta cena é ambulante
Como um cigarro e assim eu brinco
No sarro em que te amarro que é amante e apaixonante
E com o qual, bem ou mal, eu brinco
A maçaneta
Não é o trinco
Assim como a corneta
Toca às cinco pras cinco
Te amo no poste
Ou na banheira
Quero você goste
Ou não goste, como queira
Manda ver o chicote
A noite inteira
Depois quero que você me bote
Na minha boca tua língua inteira
Em 1962, Jorge Mautner (agora, enfim, Jorge), publica seu primeiro livro: O Deus da Chuva e da Morte, editado pela Martins Fontes e recebe o Prêmio Jabuti de Literatura. O livro segue uma narrativa simples, porém, intensa e recebe ótimo elogios. Paulo Bonfim disse que “este é um livro diferente. Em suas páginas o leitor encontrará a mensagem genial de um moço de dezenove anos [...] não conhecemos em nossa literatura documento tão impressionante sobre a angústia, o amor e a morte de uma geração tragicamente solitária e incompreendida”. Caetano Veloso aponta que “Jorge Mautner começou a escrevê-lo em sua adolescência, nos anos cinquenta, quando por aqui se cristalizavam as experiências da construção de Brasília, da poesia concreta e da bossa nova, e, nos Estados Unidos, a da literatura beatnik”. E assim Mautner apareceu.
http://pedrolago.blogspot.com
SANSÃO E DALILA
Sansão e Dalila
A canção que repercute, dali lá
Escute, vê se entendes meus prantos
Ó Ruth caligut Mendes dos Santos
Flechas como os pigmeus
Feitas de segredos meus
Para corações ateus
E para os crentes do divino Deus
Flechas saem do meu coração
Não sei pra onde elas vão
Só sei que às vezes elas vem
Bater el alguém sem coração
Depende só da ocasião
Umas flechas que só vem
Outras flechas que só vão
O porque disso aí
Justamente não sei não
Juro que… não!
Elas vem envenenadas
De coisas apaixonadas
Que o bruxo do amor que eu sou
Com carinho preparou
Outro dia numa oração
Flecharam a cruz da emoção
No altar cheio de luz
De Nossa Senhora da Conceição
Um dia numa ocasião
Mil flechas em profusão
Atingiram um espelho
Aí se deu a confusão
Me apaixonei só por mim mesmo
Num egoísmo muito vesgo
(num egoísmo tão a esmo)
Mas agora não
Sei bem o que é essa boba ilusão
Outra vez num quarto escuro
Voaram setas pro futuro
Furando aquele longo muro
Que aprisiona a solidão
Flechas que saíram em fila
Num filme que pra ver eu fiz fila
Do coração de Dalila pro coração de Sansão
Com o Brasil em ebulição e após a publicação e o sucesso de ‘Deus de da Chuva de da Morte’, Mautner funda o Partido do Kaos, porém, logo adere ao Partido Comunista e é prontamente convidado pelo professor Mario Schenberg para participar junto com o José Roberto Aguilar de uma célula cultural no Comitê Central. Em 1963, mantém uma coluna diária intitulada Bilhetes do Kaos, no jornal Última Hora, até o dia do Golpe Militar. Comenta sua visão de mundo baseada no “sexo, sangue e futebol”. Logo depois, publica, Kaos, seu segundo livro, com orelha de José Roberto Aguilar. Tinha já seus vinte e um anos e pretendia escrever uma trilogia, começando com o ‘Deus…”, depois com Kaos. “O Partido do Kaos existe no coração de todos”.
http://cartilhadepoesia.wordpress.com
POEMA I & II
I
salve minha linda palmeira brasileira
Que vive prisioneira
Por entre os quatro cantos do prédio da cidade
Nasceu como pequena semente
No ponto mais quente
Do nosso país continental tropical
Veio morar por aqui
No subúrbio desta Capital
E apesar de toda poluição infernal
Vive como antigamente
A irradiar ondas redondas serenamente
Como se fosse tudo natural
É com grande amizade
Que nos comunicamos e amamos de verdade
Eu do reino animal
Ela do reino vegetal
Nós dois, pois, do superimpério democrático social
II
João Alfredo muito cedo partiu pro vigésimo nono andar
Sem medo
Sem anel de bacharel no dedo
Subiu-partiu para o ar frio das vidraças cheias de poluição
Fumaça-prédio-limpar
Foi com a pureza de uma criança
Para trabalhar pendurado (coitado!) quase no ar
No bolso levava um sanduíche de banana com salame
Podia Ter morrido de velho como o lulú ou o totó da madame
Mas morreu como uma pomba
Que tomba embriagada de uma festa de arromba e que se esqueceu de voar
Caiu lá de cima do carro de feira do feirante imigrante Manoel
Veio como um espantalho para o céu
Ao lado do alho, da cebola e do bugalho
Mais um acidente de trabalho
Tanto ‘Deus da Chuva…’ quanto ‘Kaos’ causaram muita impressão nos jovens, sobretudo de São Paulo. Houve um certo movimento intelectual, conhecer Mautner se tornou uma coisa incrivelmente alternativa e exclusiva. Uma espécie de “cult”, ou algo parecido. As críticas forma bem divididas e causaram polêmica. Mautner dizia que: “Nego-me a responder perguntas sobre estilo ou forma. Considero-as estéreis, e o que vale é a força do indivíduo: se minha obra tem valor, ela repercutirá, e isto é o que vale, já disse: não sou parnasiano imbecil burilador. Mas algo eu digo: esta força que minha obra tem, esta repercussão nos espíritos jovens e revoltados que ela encontra é o que vale, e um dia meus inimigos engolirão com sangue minhas respostas finais”.
http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
AMORA
Sou o pai que te adora
Ó doce filhinha Amora
Só quero que você me escute
Ó cigana rainha Ruth
Nosso amor assassinado e milhões de vezes ressuscitado
É quem me dá certeza na eternidade do que foi testemunhado
Quase dois mil anos atrás
Por um alguém
Que morreu e ressuscitou
Perto de Jerusalém
1964. Golpe Militar. Jorge Mautner é preso e enviado para Barretos. Segundo o Exército, sua prisão seria “uma forma de proteção contra as organizações pára-militares”, que poderiam vitimá-lo por seu envolvimento com o ideário comunista. É solto sob a condição de se “expressar mais cuidadosamente em suas futuras obras”. No ano seguinte, publica a terceira parte da Trilogia do Kaos, com o livro ‘Narciso em Tarde Cinza’. Publica também ‘O Vigarista Jorge’, pela editora Von Schmidt, com prefácio de Mário Schenberg. Embora pareça, o livro não é autobiográfico, mesmo com discurso político provocador com o personagem principal de nome ‘Jorge’. Na música, lança os compactos das música de protesto ‘Radioatividade’; ‘Não, não, não’ e também os conjunto ‘Os Seis – Suicida Apocalipse’ como uma prévia d’Os Mutantes.
http://pedrolago.blogspot.com
ANTENAS
O artista cisma
Que é marginal
Mas não sabe
Que o que lhe cabe
É o maior problema
De ser um Mandarim do sistema
Líder antena
Igual
Talvez abaixo (eu acho)
Apenas do cientista
Na verdade lista
De importância
Na sociedade da suprema ânsia
De ganâcia e extravagância
Onde o cruel é o mel e a fragrância
E o terrível já começa na infância
O bebê nasce no hospital onde tem uma ambulância
E a multidão te viu
Na Tevê
Que te vê
E te viu
Na Ti, Vi
Que é Tevê
Em inglês
Que todos nós
A esmo
Mesmo na escassez
Se vê, não vê?
E que de antevê
E te fez tudo saber
Ainda como bebê
Ou até mesmo antes de nascer
Sem saber raciocinar
Ou aquela coisa
De escrever e ler
Em 1966, Jorge foi incluído na Lei de Segurança Nacional por causa do conteúdo provocador do livro ‘O Vigarista Jorge’ e das letras do Compacto. A situação ficou bem difícil no Brasil, então, Jorge se exilou nos Estados Unidos. Lá começou a trabalhar na UNESCO. Porém, para ganhar um dinheiro extra, Jorge traduzia livros brasileiros para o inglês e dava palestras sobre os mesmos para a Sociedade Interamericana de Literatura, que ficava na Park Avenue, no mesmo prédio onde havia sido a Embaixada Soviética. Recebia 20 dólares por livro e traduziu muitas obras.
A primeira bailarina do Municipal em http://equivocos-pedrolago.blogdpot.com
MOVIMENTO UNIVERSALISTA DO KAOS
O partido do Kaos com k
É o mais querido
O que é que há?
É Kaos com k. KK! Colorido destemido
Vai nascer
E já nasceu
Vai ser o ser
Do ABC do plá do anjo e do Zebedeu
Vai brotar nas águas
Como Vênus-Afrodite
Ou Iemanjá e levar as mágoas
De quem como eu é como o povo e como a elite
Estamos iniciando
O movimento que tal, em paz
Amamos e estamos amando
Todo o tempo do tempo e o mal, aliás, jaz no jamais
E no espaço e no vento
Nos ciclones e vendavais
Eu sou o aço do abraço e o documento
Dos nomes e fomes e se és dos homens e lobisomens e dos etcétera e tais
Movimento Universalista
Do Kaos com k
É o movimento no universo sensualista
Do Tao e do som de eon do balafon e do elétron no tom do bom e do plá do plá
É como a canção
Do Jackson do Pandeiro
É o Rei Momo e o não da emoção
O dõ do kendô do Aikido do amor de Xangô e do verdadeiro brasileiro
Universal
E nacionalista de um neo-nacionalismo
Tolerante e democrático social-existencial-global-sensual
E futurista-realista-surrealista de um mel de humanismo
Mistura fina
De cultura pagã
E aventura-doçura-procura-latina
De cura e de anti-linha dura de qualquer ditadura sã e super saudável
Em 1967 Jorge é convidado para participar do Simpósio Interamericano em Caracas, na Venezuela. Lá conhece e já começa a trabalhar como secretário literário do escritor americano Robert Lowell. Conhece também o teólogo da nova-esquerda do anarquismo pacifista, Paul Goodman, de quem recebe as maiores influências sobre ecologia. Compõe duas músicas com a cantora de jazz Carla Bay. Segue a vida para o ano de 1968, quando volta para o Brasil para receber o Greencard e conhece Ruth Mendes, com que viveria futuramente. Ajuda a fazer o roteiro do filme ‘Jardim de Guerra’ de Neville D’Almeida. O filme é duramente censurado pela Ditadura Militar. Um grande viagem estaria por vir.
http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
RAIOS DE AMOR
Amor é relâmpago mútuo
Por que será que só eu
Quando todo mundo da luz se esqueceu
Sou um raio que é penugem
Me levanto da nuvem e caio
Com vertigem na penugem
Me levanto da nuvem e caio
Com vertigem na folia
Sou a tua tempestade?
Sou como cavalo baio em pleno céu azul de maio
Com a força da maldade da saudade?
Se nosso amor está de luto
É só por causa da tua vontade
Se você quiser em menos de um minuto
Existirá o ah ah ah da alegria do meio dia
Da harmonia da eterna eternidade
Com total perenidade
E imensa felicidade
Eu sempre te escuto
Mesmo quando você está ausente no presente
Dentro ou fora dos esconderijos da cidade
É como a fumaça que passa e sai e se vai de um charuto
Que some e se consome e que tem o nome de felicidade
É como a bola que eu chuto
Com atletismo e num gol de máxima penalidade
Mesmo assim por teu amor e por você eu luto
Com toda a minha capacidade
O que eu sonho eu executo
Espero que assim você goste de mim
Como eu cujo amor atômico
E eletrônico é igual ao rugir
E crescer e surgir e nascer
De toda uma nova humana humanidade
Que se ama com sincera sinceridade
Como se fosse a eterna e doce primavera
Que sopra na copa de todos os coqueiros
E nos tambores de todas as cores
Flores e amores de nossos e vossos terreiros
Brasileiros da nova religiosidade
Que é a grande novidade
Com toda honestidade
Dos tempos atuais
Dos mais iluminados astrais
Que vem pra cima de nós e de vós
E de sei lá mais quem
Como o mais puro eterno futuro riso do neném
E da força do amém e da luz de Jesus lá no além da insanidade
De paixão no coração de velocidade
Para ela que caminha na velocidade da luz
Que tem todas as cores
E é invisível
É tudo ação e são maravilhas e horrores
Tudo é terrível e incrível
E nunca jamais o samba-jazz
A guerra e a paz ou os vampiros em seus retiros
Não tem história contada
Nem sabida ou conhecida ou considerada
Mas existe como toda coisa triste
E como toda lebre que corre vida afora
Toda hora bem alegre
Pois é acima do Bem e do Mal
Num espaço maluco onde ao mesmo tempo
De uma só vez o bem tem que vencer o Mal
No fim do fim enfim e assim sim afinal
Pois assim o quis
O quer e quererá
Aquele cujo nome não se diz
Nem ninguém nunca saberá
Pois já no tempo do Faraó
Passando por Jó e até o Bozó
Tudo é tudo e nada é nada numa coisa só
Até que surgisse
Alguém que disse:
“Misturando água com pó
Eu farei alguém que não tenha nem dó
Nem piedade
E a este ser não ser sequer darei o nome
De toda fome ciclone e no fim de mim
Sairão uma mulher e um “home”
Só por pura loucura divina
Que rima
É o que nos conta
Informação-explosão
Que deixa minha alma sem calma e tonta tanta
É a recente
E mais consciente
Mensagem
Que pode parecer bobagem
Mas vem provada com paciência
Pela nossa super-ciência
Da atualidade
Será que é mesmo?
Vive-se a esmo?
Que fatalidade!
E os problemas demográficos?
E os temas geográficos?
Tudo no fundo é imundo
Tudo cenas de cinema
Teatro ou tragi-comédia
Em Caixas ou em Ipanema
Mas o que mais importa
É que a grande porta
É a estrada da batucada morena
Que abriu uma avenida pelos céus celestiais
Nos guia como a melodia do uivo de uma hiena
O riso de um chacal
A voz da namorada pequena
E o tom do cantor de sambas e muamba tropical
Assim caminhamos
E trabalhamos e nos odiamos e amamos
Nada mal, como ponto final, etcétera e tal
O etcétera
E o idem-ipsa-ípsilon
Teve tem e terá
Tudo isso está e o todo é o um
O um menos dois
Igual a um
Quatro mais cinco = 1941
Em 1970, Mautner viaja para Londres onde estão, exilados, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Se aproximam. Lá, dirige e participa do filme ‘O Demiurgo’ na casa de seu amigo Arthur de Mello Guimarães com participação de Caetano, Gil, José Roberto Aguilar, Péricles Cavalcanti, Leilah Assunção. O filme é censurado para exposição pública, então, Jorge passa a exibí-lo após seus show ao público. Gkauber Rocha declara que o filme é o melhor “do” e “sobre” o exílio. Jorge volta ao Brasil e para a escrever para o Pasquim. E é por essa época que Jorge conhece uma figura que se tornaria seu grande amigo e parceiro musical: Nelson Jacobina.
http://pedrolago.blogspot.com
PISAM TEU SOLO
pisam teu solo
e te descubro coberta de tabus
paralelepípedos
encobrem a nudez
que a mãe terra te deixou,
sentindo o recato (falso)
que te enlaça
te estraga
te amordaça,
não te deixando fluir
nem mostrar aos chegantes
despencados
desgarrados,
oâmago de você
Pobre princesa minha
Aprisionada.
Em 1972, Mautner lança o LP Para Iluminar a Cidade e o compacto Planeta dos Macacos, pelo selo Pirata. O disco é lançado por um preço abaixo do mercado e é boicotado pelas lojas. O selo some. Começa uma série de shows em penitenciárias e na Casa da Palmeiras, de Nise da Silveira. No ano seguinte publica Fragmentos de Sabonete e participa de uma comemoração patrocinada pela ONU pelos direitos humanos onde foi criado o Território Livre, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro no notório show O Banquete dos Mendigos, com a participação de muitos artistas. Em 74, lança o LP Jorge Mautner, com participação e direção musical de Gilberto Gil. É dispensado d’O Pasquim como parte do movimento anti-baiano do jornal, se revolta, e sai atacando grande nomes como Millor Fernandes e outros.
http://cartilhadepoesia.wordpress.com
GAMO O GAMAR
Amo o amar
Só adianta
Quem canta
E se espanta e espanta
A besteira que é tanta
Vamos aprender a amar
O nosso lar e lar e mar e dar e amar e estar
Jamais aprisionar e subjugar-controlar-manipular
Mas sim, aliás, se emocionar com o Brás
Com a onça e toda a nossa bossa e tudo que se possa
Na nossa joça ser algo que adoça e que coça
E remoça pois é nossa como a carroça e a palhoça
E a roça e a onça de novo com toda geringonça
E a nossa anta capivara
E arara e curupira que pira
E Saci-Pererê e você e toda planta
Que tem tanta
E tudo mesmo que é mudo
É coisa santa quando canta
E isso é isso e só isso adianta
E viu e sentiu a farra no Farol da Barra
E a festa da raça multidão como floresta na praça
Todo sutil significado de país de céu de anil
Momento fugaz num zás-trás
A alma secreta e repleta de tão completa do Brasil
Da selva sem fim até o mar por onde deságua o grande rio
Quente atmosfera
Sente átomos na esfera
Da gente quando era
Mais filho que avô
Mais direto que fingidor
Objeto direto, direto na dor
Passatempo predileto era curtir naquele tempo
Com vento lento tormento do ciúme
Estrume e talvez simples costume
Do amor sem destino
Sem meta só desatino
Salada completa
Mas nada recordo
Só essa madrugada é predileta
Como a grana do bacana na carteira
Como o trono da coroa do décimo nono Rei Momo
E que durante o ano era mordomo
Levou cano no cotidiano
Se não me engano
Mais do que quem pratica crimes de caráter insano
Já foi rei e guarda-civil é gordo mais sutil
Já está adiante do mais intrigante instante
Apavorante
Chocante
Este gordo rei Baco-Dionisius de nossa carne-naval
Para os deuses e deusas do paganismo a ressureição
Por aqui não foi nada mal
Tem até caráter brasileiramente legal
Burocratizada e institucional
Já se está adiante
Nem que adiante
Mesmo não querendo estar tão avante
Vá adiante com esse brilho
De filho ou dos trilhos
Das novas ferrovias que são urgentes
Para que nossa crescente agro-pecuária alimente
A nós em primeiro lugar e depois todas as outras gentes
É a noite da noite dentro do dia a dia
É a alegria do riso que ria
Assim como a garganta que canta
E que assim se liberta
Dessa coisa que aperta
E que só adianta o que se canta
E é preciso até ser preciso no impreciso
E dizer é não ao não do vacilo ou do bacilo
Mas sim à imperfeição do humano
Pois sua perfeição inclui o engano
É preciso o que eu preciso
É preciso precisar pisar teu piso
Liso no riso e com juízo
Com aquele amor que é preciso
Como diz o samba imortal para entrar no paraíso
Com sorriso sem prejuízo corrosivo
Ou totalitarismo agressivo
Ou como Narciso
Que se evaporou como beija flor
E a ninguém amou
Assim não seremos, não sou!
Sabemos
Que somos
E seremos
Supremos
Vencendo combatendo
(sempre entendendo)
Os venenos
Supremos
Seremos
Serenos
E assim teremos
Os amores que queremos
Nessa terra santa
Onde tem tanta anta que canta
Como só canta
E levanta
E adianta
Quem se encanta
E que se alevante
O supermaracatu elefante
Democratizante!
Aqui é mesmo o final
Abaixo o nazismo universal!
“Ciau”
Jorge Mau
Ou bem
Jorge Ben?!
O Tropicalismo surgiu e Jorge estava no meio dele. Sobre sua impressão com a música de Jorge, Gilberto Gil disse que “Eu acho que o despojamento formal, a desconstrução de uma construção lógica clássica, de um universo arquitetônico arrumado, com edifícios construídos andar sobre andar, primeiro sobre o chão, o segundo sobre o primeiro, essa construção lógica desconstruída no versejar e arrumar os versos, ou arrumar as ideias dentro dos versos, de trazer universos pra dentro dos versos. Essa construção lógica havia sido bombardeada pelo Tropicalismo. Mas quando eu ouvi pela primeira vez Maracatú Atômico, construído daquele jeito tão absurdo, quer dizer, como um edifício de pedras cósmicas, construído à semelhança das estações espaciais, com um sistema de acoplagem onde se encaixam peças vindas de todos os lados, debaixo, do alto, da esquerda e da direita, foi um espanto. Isso para mim era um avanço, não só na poética, mas também na música que o Jacobina e o Mautner criaram”.
http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
ILUMINAÇÃO FELINA: POSTURA DO SENTIR
A guerra mundial não será o fim da humanidade, ou também poderá ser o fim. Que será
será…Sou um religioso, místico, irracionalista. Intensificar a sensibilidade intuitiva, sensorial,
visual. Aprender a ver tudo de novo, sob um novo ângulo, a partir de um novo foco. Ser profeta.
Ouvir o que ninguém ouve. Desprezar o conhecimento racional ao ponto, apenas, de considerá-lo
15% de nossa capacidade…A iluminação começa quando se descobre que a maior coisa é ser gato.
E quando a gente começa a aprender a respirar como o gato, e andar como os felinos, e a sentir o
cheio das coisas mais do que compreender as coisas, é neste dia que você entra no reino da ilumi-
-nação. Quando a gente é gato, a gente age quando nos nervos dá vontade de agir. Raramente a
gente pensa. A gente desliza como tigres, tudo é sensual, e não há sentido nenhum, meta nenhuma,
objetivo nenhum, apenas desliza vagarosamente com os nervos registrando tudo. Eu, como gato,
às vezes falo com os homens. Alguns deles são simpáticos mas querem sempre explicar coisas.
E eles me falam de revoluções e teorias. E depois que Trotsky morreu assassinado no México,
com machadadas na cabeça e seu sangue correu. Imaginem aquele velhinho, personagem da
tragédia grega, com aqueles óculos e aquela barbicha e aquele olhar ao mesmo tempo doce, duro,
com o crânio arrebentado. A revolução acabou. Depois eu vou procurar meus amigos gatos, com os
quais não preciso falar, pois a gente se entende por gestos e olhares.
Em 1975, nasce sua filha com Ruth Mendes, Amora Mautner. Alegria alegria. Um ano depois lança o LP Mil e uma noites em Bagdá. Em 1978 o início da revisão de alguns textos, com a republicação de Narciso em Tarde Cinza e o livro de Panfletos da Nova Era, que haviam sido publicados no Diário de São Paulo. em capítulos. Lança também um compacto pela CBS com a canções Filho Predileto de Xangô e O Boi e Caetano Veloso grava “Vampiro” no LP Cinema Transcedental. A música chama um pouco mais que a literatura, porém, Jorge não para de escrever. Porém, algumas duras perdas mudariam um pouco as coisas.
Antes antes Fernandez em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
O SILENCIO DE BUDA
o cristianismo nasceu
das palavras de jesus
o zen nasceu
de um silêncio de buda
quando um dia iluminado
em lugar do sermão
apresentou aos discípulos
uma flor
sem dizer palavra
um único discípulo entendeu
mahakasyapa
primeiro patriarca do zen
a doutrina da meditação silenciosa
da concentração descontraída
da dança não dançada
da voz sem voz
da iluminação súbita
da luz interior
da superação dialética dos contrários
na vida diária
Em 1981, Jorge lança o LP Bomba de Estrelas, seu primeiro disco pela gravadora Warner. A música O Encantador de Serpentes fica em quarto lugar no Festival da Globo e, enfim, Mautner lança seu livro de poemas ‘Poesia de Amor e Morte’, base desta antologia. Um ano depois, lança o livro Sexo do Crepúsculo, porém, duas perdas: Seu padrasto, que lhe ensinou o violino, Henri Muller, morre aos 76. Um ano depois, em 1986, Mautner perde seu pai, Paul Mautner. “E os vegetais, as plantas sentem e se comunicam, isso é uma lição de amor & comunicação universal: por quê? Não sei, mas é algo de tão espantoso que a ciência descobriu (e eu a cultura negra do canbomblé e a cultura dos índios sempre soube) que me chocou e conduziu cinco passos a mais no caminho da alegria do Amor Universal. Tudo interligado, através de vibrações, frequencias que são energias, memórias, o Tempo são bolhas que viajam pelo espaço, e a energia é um outro nome para amor” JM.
http://pedrolago.blogspot.com
O SILENCIO DE PITÁGORAS
para pitágoras
tudo é número
tudo é harmonia
tudo é música
os astros obedecem a uma matemática
essa matemática é uma música
não ouvimos a música das estrelas
porque nossos ouvidos são impuros
a culminância da experiência pitagórica
de purificação
e ascenção nas noites estreladas
a sinfonia vinda das esferas
o silêncio dos astros
nasce da nossa surdez
Em 1985 Mautner relança o livro Narciso em Tarde Cinza e lança o disco Antimaldito com direção musical de Caetano Veloso. Um ano depois lança o livro Fundamentos dos Kaos e faz muitos shows, sobretudo contra o Apartheid da África e pela Revolução na Nicarágua. Em 1987, junto com Gilberto Gil, lança o movimento Figa Brasil no show ‘O Poeta e o Esfomeado’ que tem uma adesão de mais de 7000 inscrições. Esse movimento tinha como objetivo discutir a cultura no Brasil, cruzava com o Kaos do próprio Mautner e propunha uma nova abolição na sociedade brasileira.
http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
O SILENCIO DE PASCAL
“o silêncio desses espaços infinitos
me apavora”
os pensamentos estraçalhados de pascal
é a crise de uma consciência excepcional
no limiar de uma nova era
o místico pascal
contempla o céu estrelado
numa vã espera de vozes
o céu calou-se
estamos sós no infinito
deus nos abandonou
“daquela estrela à outra
a noite se encarcera
em turbinosa vazia desmesura
daquela solidão de estrela
àquela solidão de estrela” (leopardi/via h campos)
nenhum ufo
no close contact of the third kind
a solidão “cósmica” de pascal
é o pendant do vazio de sua classe social
cuja hegemonia está para terminar
os germes da revolução francesa
que vai derrubar a nobreza
e colocar a burguesia no poder
já estão no ar
pascal ouve nos céus
o tremendo silêncio
de uma classe que já disse
tudo que tinha que dizer
pela boca da história
Em 1988, após lançar o CD Árvore da Vida, Mautner se candidata a vereador em São Paulo pelo Partido Verde. Não faz nenhuma propaganda política e acaba não se elegendo por apenas 300 votos. Logo em seguida, viaja para a Bahia, a convite de Gilberto Gil, para trabalhar como seu Chefe de Gabinete, Gil, havia sido eleito vereador naquelas eleições. Porém, em 1990, Mautner viaja para Áustria completamente desiludido com o país após a vitória de Fernando Collor para a Presidência da República. Lá, lança o disco independente Pedra Bruta e faz shows em Viena, Alemanha e Suiça, neste meso disco, Jorge lança o cantor Celso Sim. No mesmo ano de 1990, Jorge perde sua mãe Anna Illich aos 76 anos, assim, volta para o Brasil.
Hecatombes e Ravel em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
OUÇO AGORA
Ouço agora lá longe
Os acordes finais
Como os hinos de um monge
No templo dos samurais
Espinhos e rosas
Rosas e espinhos
Como é que tu gozas
E não tens nem dás carinhos?
Vagueio no meio
De muitas pessoas e gentes
Só não sei se sou lindo ou feio
E se existem mais de três continentes
Como se fazem versos?
Como se fazem mundos?
Assim como se fazem universos
Em segundos vagabundos?
Entenda:
Meu lema
É não se venda
E não tema
Cavaleiros
Medievais
Feiticeiros
E bacanais
Meu desejo não quer esperar, como eu erro!
Leva você pra longe de mim
Vou dar aquele grito, aquele berro
Eu vou chamar o Anjo Serafim
Que é como um Arcanjo
E é amante do Arlequim
Todos tocam seus banjos
Só eu toco bandolim
Na ECO 92, Gilberto Gil enfatiza o pioneirismo ecológico de Mautner e das ONGs desde 1956. No ano seguinte, lança o livro Miséria Dourada. Em 1995, relança o livro Fragmentos de Sabonete com fragmentos inéditos. A gravadora Warner relança o disco Bomba de Estrelas após o sucesso de uma campanha publicitária de Washington Olivetto que tinha como trilha a canção O encantador de Serpentes como trilha. No ano seguinte, uma incrível homenagem: a Fundação Nacional de Arte (Funarte) inaugura em sua sede de São Paulo a ala Jorge Mautner, multidisciplinar direcionada a jovens artistas brasileiros.
poemas e traduções http://pedrolago.blogspot.com
prosa estranha http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
arquivo da correspondência http//cartilhadepoesia.wordpress.com
PERFURO O VENTRE DA ESCURIDÃO
Perfuro o ventre da escuridão
onde as coisas se escondem
porque estão cheias de sim e de não e de confusão
e quando pergunto sobre qualquer assunto nunca
respondem
São como coisas presas ao labirinto
com algemas nos pulsos e tudo
são cinco pras cinco e eu já me sinto
dentro do seu não e de um caixão de veludo
Toca teu samba, toca
e tortura meu ser com prazer de ser
a tortura como aquela coisa que nos choca
onde a alegria me enganava se dizendo a alegria de não ter
Não ter o quê?
Ora, tá na cara
não ter é não ter você
seja com grilo ou seja odara
Luas de prata conseguem
fazer com que lentamente
as sensações das emoções naveguem
e invadam como as fadas minha mente
Doem-me todas as cicatrizes
e sinto as rugas das verrugas
Sei que és como atores e atrizes
e que sempre atacas quem te quer por em fugas
Tocas então mil serenatas
e antigas cantigas e rondós
depois mijas no chão como os cães vira-latas
e ficas falando de ti quando estamos a sós
É por isso que sinto todos estes e aquelas
dores incolores e na garganta estes nós
Nem as cores de óleos, hologramas ou aquarelas
poderiam expressar tão bem estes meus ós, ós, ós!
Em 1997, Jorge lança o disco Estilhaços de Paixão com direção de seu parceiro Nelson Jacobina. No ano seguinte faz shows em Amsterdã, Lisboa, Abrantes e Londres. Também faz shows na rede SESC de São Paulo, celebrando os 100 anos de Bertold Brecht, também dá aulas de literatura nas escolas públicas da periferia de São Paulo. Os discos não para e Jorge lança mais um: O Ser da Tempestade, duplo, com participações de Gil, Caetano, Gal, Zé Ramalho, Chico Science, Moraes Moreira e outros. Abre o novo milênio participando do programa Musikaos na TV Cultura e segue fazendo shows com Jacobina por todo o Brasil.
http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
O SILENCIO DE HERMES
é o silêncio hermético
o silêncio dos sinais difíceis de ler
o silêncio da poesia de vanguarda
o claro silêncio de mallarmé
e da poesia de vanguarda
o silêncio de ilegibilidade de hoje
que vai aliementar a legibilidade superior de amanhã
hermes é o deus que conduz as almas
até seu destino
o deus que tira o sentido das mensagens mortas
e as conduz à vida do entendimento
o silêncio “incompreensível para as massas”
a grande acusação contra maiakovski
o silêncio lance de dados
o acaso
uma chance até o absoluto
2002 foi um ano muito importante para a renovação de seu trabalho e para a apresentação de sua obra para as gerações mais jovens. Lançou o disco e a caixa com todos os livros e comentários de artistas e amigos, Mitologia do Kaos, e também lançou o disco com Caetano Veloso ‘Eu não peço desculpa’ de grande sucesso. Em 2003, foi homenageado pela Câmara de Vereadores de São Paulo e recebe a Cruz de Honra da Áustria para a Ciência e Cultura, concedida pelo presidente da Áustria. Recebeu também o título de Comendador pela Ordem de Mérito Cultural já no Governo Lula. No mesmo ano, ganhou o Grammy Latino por ‘Eu não peço desculpa’.
http://pedrolago.blogspot.com
PELAS RUAS
Estou adorando andar pelas ruas
como quem não quer nada
debaixo do sol
debaixo das luas
que são mais de duas
porque tem as artificiais
e no mais
não tem nada de mais
só a felicidade
como névoa brilhante
por cima da cidade
em paz
(breque: vade retro satanás)
Em 2004, Jorge recebe a bolsa Vitae para escrever o livro ‘O filho do Holocausto, dos jardins do Catete ao Colégio Dante Alighieri’. Também escreve o livro ‘Diálogos com o Ministro Gilberto Gil’ com tradução e edição simultânea em diversos países. Desde então, Jorge tem feito shows, programas de televisão, participou da peça “Deus é química” com texto Fernanda Torres, com Francisco Cuoco e Luis Fernando Guimarães no elenco. “Jorge Mautner é um homem, forte como um rochedo, claro como a água, leve como o vento. Os fios elétricos, a bola de borracha, os buracos da flauta, a sola do sapato, as patas do mosquito, e o palito no meio do pirulito. Jorge Mautner pode ser qualquer coisa. Porque ele quer ser qualquer coisa. Tudo. Claro que tudo é tudo e todo mundo é, diria você; mas Jorge realiza, em si, a caminhada para a consciência deste TUDO; é como ele brinca com as pedras do caminho!” Gilberto Gil.
http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
FILOSOFIA
Filosofia
três ramos
fiscalizante
apreciadora
do todo
ética!
Língua
árvore
distância
macaco
homem
ereto
homem
ave.
Palavra
sujeito
verbo
erro
crasso
fotossíntese
está raiando
está chovendo
deuses.
Grego
pensante
maldita
lógica!
Erro
crasso
de novo
modernos
infernos
experiência.
Galileu
já morreu
foi a lei
que ele disse
o fantasma
1500
de Aristóteles
contradisse.
Foi o erro!
Erro crasso
da lógica
outra vez.
Acabou
quem ganhou
também
morreu
(queimado)
Sputniks
ó lembrança
ó Galileu.
No sono
o tempo
contratempo
não existe.
Tu partiste
podias ter vindo
o tambor
durou um dia
um minuto
estou de luto há duas horas
apenas um minuto.
Platão
chatão
caverna
amarrado
cego
olhava na parede
vêde!
Não via nada!
via sombras.
Maia
que se aproxima
do meu sonho
momentâneo
século vinte!
que acinte!
Aceitar ideia
que já foi de índio.
“Sob o signo de Dionísio, o pensamento de Mautner é uma mistura vertiginosa de Nietzsche, filosofia beatnik e hippie, contracultura, candomblé, zen, antropofagia, tropicalismo e existencialismo. No olho do ciclone da vertigem entre todas essas coisas. Mautner vê no negro e na música a fonte de toda a força. É o que há de mais forte e bonito na América, dos Estados Unidos ao Brasil. É o jazz, o mambo, a rumba, o chachachá, o samba. Os negros são os filhos diletos de Dionísio. Sua sabedoria está gravada, não em pedras nem em placas de bronze, mas em ritmos. Uma sabedoria rítmica milenar, chamando todos os homens para a dança, a alegria, a felicidade. Alienado? O conceito de alienação precisa ser revisto, imediatamente. Ele é penal. O conceito de “alienação” sempre acaba na polícia” E o Paulo Leminski se estende um pouco mais, porém, viemos até aqui.
http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
FOI O SAMBA
Foi o samba quem tudo me ensinou. A negritude é uma cultura tão profunda se não for
mais que a chamada caucasiana, ocidental, fáustica. Heidegger, Mozart, iguais se não
pouco inferiores a: batuques, maracatus e blues. Orixás e axé! Um dia, brevemente, os
tambores dos terreiros ecoarão em Londres, Paris, Viena, até mesmo em Buenos Aires,
alimentando os pálidos vampiros que necessitam de nosso sangue, vitamina B12 para
sobreviver e rir e ter alegria.
Nós fabricamos o plasma mundial. Brasília é o lugar de pouso de discos-voadores. A fé
sempre foi apenas a mais rigorosa das ciências. Só os mais ousados a possuem. Ela
está exatamente no meio da diagonal formada pelas forças gravitacionais que se instalam
em ambos os aparentes extremos de nosso universo elíptico. Emanam a força da gravidade
cuja velocidade é maior que a da luz e é essa força que é o magnetismo do teu olhar a invadir
oceanos como flecha de algum Oxossim voador.
Eis que chegamos ao final de mais uma antologia. Vimos aí um pouco da poesia desta grande figura, Jorge Mautner, um artista brasileiro, antropófago nato. Na semana que vem, entraremos em um outro universo poético, pois, esta correspondência se faz justamente por essa necessidade de conhecer os poetas do Brasil, assim, sempre que puder, mapearemos esse lugar que tanto excita. O que leva um leitor a buscar um poema? O que ele busca num poema? O que faz um poeta escrever um poema? Não importa, não sou exegeta, tampouco formalista, vamos em frente que a poesia brasileira é imensa. Evoé!
http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
DIONISIUS
Zagreus despedaçado por bacantes adolescentes. Fundo aqui agora este Kaos com k, uma
nova além religião. É já uma super religiosidade. Tomará conta do Brasil no fim do século XX
para o XXI, e depois como coisa sem nome, sei que só ousa sem lembrar-temer-gemer-odiar,
enfim assim sem fim dominaremos seremos o Poder apenas como potência chefiando como
chefia de um comando sob minha liderança carismática do destino e tendo na mão a chave
de um arrebol, a clave de sol que está por enquanto nas mãos de profunda luz negra do anjo
guardião da chave do abismo. Eu sou o gavião e a pomba, a ação que tomba e assombra,
a luz e a sombra, a cruz e a festa de arromba da miromba na onda redonda das ondulações
de surf galático de rondas e girondas, de emanações sem paranóia, sem braço na tipóia,
sem aço no cansaço da bóia fria ou jibóia da ironia ou tramóia da mesquinharia ou agonia
da escória do fracasso, sem bóia ou abraço de uma história de glória suposta memória basta
de anti história na qual ahchacal, eu me me caço a mim mesmo que nem nenen do joaquim
torresmo tamborim.
Cristo-Dionisius, Baco-Rei Momo-pai-de-santo-painho-cae-gil-eu-jorge-mautner, e você filho
da virgem maria e da vertigem da harmonia da fuligem com a origem e a azia da tia e da que
exigem a redigem a ordem desordem do dia a dia noite a noite açoite ardia como arderia a noite
que aceitou-te como Deus o fez no nono adeus da insensatez.
A missão do PK é tomar o Poder de todas as vias de comunicação. Orações: de ataulfo alves,
“pai joaquim” e “Ogum de angola”.
lindo… =)