Oswald de Andrade

 

José Oswald de Andrade nasceu no dia 11 de janeiro de 1890 em São Paulo. Filho de José Oswald Nogueira de Andrade e Inês Henriqueta de Souza Andrade. A família de sua mãe descende de uma das famílias fundadoras do Estado do Pará, estabelecida no porto de Óbidos. Também é sobrinho do jurista e escritor Herculano Marques Inglês de Souza. Já a sua família paterna descende de uma família de fazendeiros mineiros de Baependi. O jovem Oswald passa sua infâcia na segurança de uma casa confortável na rua Barão de Itapetiniga, em São Paulo. Neste mês vamos poesia adentro desta grande figura da nossa cultura. Vamos de Oswald de Andrade. Evoé!

Naquela mesa do canto na parte de cima http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

BRINQUEDO

Roda roda São Paulo
Mando tiro tiro lá

Da minha janela eu avistava
Uma cidade pequena
Pouca gente passava
Nas ruas. Era uma pena

Desceram das montanhas
Carochinhas e pastoras
Por dormir em meus olhos
Me levaram pra abrolhos

Os bondes da Light bateram
Telefones na ciranda
Os automóveis correram
Em redor da varanda

Roda roda São Paulo
Mando tiro tiro lá

Brinquedos de comadre
Começaram pela vida
Pela vida começaram
Comadres e mexericos

Roda roda São Paulo
Mando tiro tiro lá

Depois entrou no brinquedo
Um menino grandão
Foi o primeiro arranha-céu
Que rodou no meu céu

Do quintal eu avistei
Casas torres e pontes
Rodaram como gigantes
Até que enfim parei

Roda roda São Paulo
Mando tiro tiro lá
Hoje a roda cresceu
Até que bateu no céu
É gente grande que roda
Mando tiro tiro lá

O menino Oswald inicia seus estudos em 1900 com professores particulares, porém, depois, ingressa no ensino público matriculando-se na Escola Modelo Caetano de Campos. Em 1902, cursa o Ginásio Nossa Senhora do Carmos, agora, já com doze anos. Os relatos de sua infância abrangem “ruas pacatas” e “brincadeiras”, pontos até então, normais, para um menino de São Paulo no início do século. Já em 1905, aos 15 anos, vai para o Colégio São Bento, e recebe um tradicional ensino religioso. Lá conhece Guilherme de Almeida e se torna seu amigo, e também conhece o poeta Ricardo Gonçalves.

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MEUS SETE ANOS

Papai vinha tarde
Da faina de labutar
Eu esperava na calçada
Papai era gerente
D Banco Popular
Eu aprendia com ele
Os nomes dos negócios
Juros hipotecas
Prazo amortização
Papai era gerente
Do Banco Popular
Mas descontava cheques
No guichê do coração

A casa dos Andrade tinha rigorosa formação católica. Dona Inês, fazia com que o pequeno Oswald se vestisse de anjo nas pequenas procissões que seguiam pela Barão de Itapetininga. O menino es tornou superticioso na infância, batia na madeira três vezes para espantar maus pensamentos, passava vinho na orelha e entrava em casa sempre com o pé direito. Ficou conhecido na família como “Oswaldinho”. Sua mãe sempre enfatizou a pronúncia correta de seu nome, “Osváld” e não “ôsvald” como até hoje muitos o chamam. Inclusive, o crítico Antônio Cândido escreveu um artigo sobre a pronúncia correta do nome de Oswald. A entrada de Oswald no Colégio Nossa Senhora do Carmo se dá por causa de uma frase que Oswald desfere no antigo colégio, “Deus é Natureza”, para o pânico de sua mãe devota de São José.

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MEUS OITO ANOS

Oh que saudades eu tenho
Da aurora de minha vida
Das horas
De minha infância
Que os anos não trazem mais
Naquele quintal de terra
Da Rua de Santo Antônio
Debaixo da bananeira
Sem nenhum laranjais

Eu tinha doces visões
Da cocaína da infância
Nos banhos de astro-rei
Do quintal de minha ânsia
A cidade progredia
Em roda de minha casa
Que os anos não trazem mais
Debaixo da bananeira
Sem nenhum laranjais

Em 1908, Oswald conclui o Colégio São Bento, nesta época, por causa de um professor chamado Gervásio Araújo, que o apresenta a Victor Hugo, através dos Miseráveis e também lê Carlos Magno, Julio Verne, Castro Alves e alguns outros. O pequeno Oswald confessa que gosta da poesia do poeta baiano, mas não entende. Olavo Bilac e Lima Barreto são leituras essenciais desta época, assim como Coelho Neto, ou seja, todos os cânones. Nesta época, também conhece Monteiro Lobato e Ricardo Gonçalves. Se envereda também em Dostoiévski, Shakespeare e Eugênio de Castro. Muitas leituras para o jovem promissor e aluno irregular.

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HISTÓRIA DA PÁTRIA

Lá vai uma barquinha carregada de
Aventureiros
Lá vai uma barquinha carregada de
Bacharéis
Lá vai uma barquinha carregada de
Cruzes de Cristo
Lá vai uma barquinha carregada de
Donatários
Lá vai uma barquinha carregada de
Espanhóis

Paga prenda
Prenda os espanhóis!
Lá vai uma barquinha carregada de
Flibusteiros
Lá vai uma barquinha carregada de
Governadores
Lá vai uma barquinha carregada de
Holandeses

Lá vem uma barquinha cheinha de índios
Outra de degradados
Outra de pau de tinta

Até que o mar inteiro
Se coalhou de transatlânticos
E as barquinhas ficaram
Jogando prenda coa raça misturada
No litoral azul de meu Brasil.

Em 1908, Oswald termina o ginásio no Colégio São Bento e toma a “vacina obrigatória”. Incentivados pelos amigos e pela família, um ano depois, ingressa na Faculdade de Direito. De cara, se impressiona com a violência do trote. Nesta época, Oswald se interessa pelo jornalismo e já entra no Diário Popular como repórter e redator. Emprego este que conseguiu atravá da influência do pai, seu salário é de sessenta mil réis. Assina algumas matérias e críticas de cinema e teatro. Fica muito amigo do ator Giovanni Grasso, inclusive o acompanha no Rio e em São Paulo e namora algumas atrizes do grupo. Oswald passa a vivenciar intensamente a cena teatral paulista.

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A DESCOBERTA

Seguimos nosso caminho por este mar de longo
Até a oitava da Páscoa
Topamos aves
E houvemos vista de terra
os selvagens
Mostraram-lhes uma galinha
Quase haviam medo dela
E não queriam por a mão
E depois a tomaram como espantados
primeiro chá
Depois de dançarem
Diogo Dias
Fez o salto real
as meninas da gare
Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis
Com cabelos mui pretos pelas espáduas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito bem olharmos
Não tínhamos nenhuma vergonha.

Oswald escrevia para o Diário sob o pseudônimo de Joswald. Neste mesmo ano de 1910, torna-se amigo de Washington Luís, membro da comitiva nacional e futuro presidente. Também monta um ateliê de pintura com Osvaldo Pinheiro. Em 1911, faz viagens constantes para o Rio de Janeiro onde participa da vida boêmia dos escritores. Se torna amigo de Emílio de Menezes, e lança com Voltolino, Dolor Brito Franco e Antônio Define, o semanário O Pirralho, usando o pseudônimo de Annibale Scipione. No fim do ano, interrompe a faculdade de Direito e arrenda a revista a Paulo Setúbal e Babi de Andrade para fazer sua primeira viagem à Europa.

Triiin Thanos em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

BALADA DO ESPLANADA

Ontem à noite
Eu procurei
Ver se aprendia
Como é que se fazia
Uma balada
Antes d’ir
Pro meu hotel

É que este
Coração
Já se cansou
De viver só
E quer então
Morar contigo
No Esplanada

Eu qu’iria
Poder
Encher
Este papel
De versos lindos
É tão distinto
Ser menestrel

No futuro
As gerações
Que passariam
Diriam
É o hotel
Do menestrel

Pra m’inspirar
Abro a janela
Como um jornal
Vou fazer
A balada
Do Esplanada
E ficar sendo
O menestrel
De meu hotel

Mas não há poesia
Num hotel
Mesmo sendo
‘Splanada
Ou Grand-Hotel

Há poesia
Na dor
Na flor
No beija-flor
No elevador

Oferta

Quem sabe
Se algum dia
Traria
O elevador
Até aqui
O teu amor

Em 1921, aos 22 anos, a bordo do navio Martha Washington, Oswald se entusiasma com Carmen Lydia, nome artístico para Landa Kosbach, de treze anos, que viaja para estudar balé em Milão. Oswald conhece a Itália, a Alemanha, a Bélgica, a Inglaterra, a Espanha e a França. Trabalha como correspondente matutino do Correio da Manhã. Em Paris, conhece aquela que viria a ser sua primeira mulher, Henriette Denise Boufflers (Kamiá), com quem retorna ao Brasil. Oswald não consegue rever a mãe, falecida no dia 6 de setembro, nesta época, realiza sua primeira experiência poética ao escrever “O último passeio de um tuberculoso, pela cidade, de bonde”, porém, rasga-o em seguida. No ano seguinte, frequenta as reuniões artísticas da Villa kyrial, no palacete do senador Freitas Valle. Lá conhece o pintor Lasar Segall. Enfim escreve o romance A recusa.

Tradução de Baudelaire em http://pedrolago.blogspot.com

HINA NACIONAL DO PATY DO ALFERES

Eu quero fazer um poema
Rachado e sentimental
Como as bandas de música
De meu país natal

Eu quero fazer um poema
De todo o amor que sinto
Pelas palmas e bandeiras
Do meu país musical

Eu quero fazer um poema
De flores de papel
Laranja azul encarnado
Branco e verdeamarel

Ah! Meu Brasil! Meu Brasil!
Eu já morei foragido
Numa casa rota
Que dava para o mar
Já morei no Normandy de Deauville
E num navio de guerra
E nas ruas e nos portos Das terras imaginárias

Mas quando tu reapareces
Sob o hemisfério estrelado
Esperando a presidência do Dr. Washington Luís
Ó Brasil
Meu coração feito de pedaços
Se unifica
A independência das lágrimas

Fico eleitor
Cidadão vacinado
Solto foguetes
Faço dobrados

Foi assim que eu vim parar
Nas paragens
do Paty do Alferes
E conheci a charanga do Arcozelo
Toda cáqui e preta

Vocês não ouviram
A charanga da fazenda do Arcozelo

É generosa e metálica
A casa é cercada de velhas senzalas
Transfiguradas pela picareta do Progresso
A mão dura de Geraldo
Transformou a terra desabandonada
Numa pátria organizada de gado
E valorizou até as estrelas
Que dividem o céu em sindicatos
Para ouvir os ensaios
Da banda do Arcozelo

Arquitetos de minha terra
Vinde aprender arquitetura
No Paty do Alferes
Donas de casa
Que servis tolamente à francesa
Vinde provar
A mesa saborosa
Do Arcozelo
Bebedores
Vinde gozar a pinga do Paraíso

Como a gente levanta cedo nas fazendas
Antes das primeiras pinceladas
Da pintora Aurora
Vamos dormir
Para sair amanhã
Todos vestidos de cow-boy
E dobrar as quebradas da serra
E deixar o sangue dos pássaros
E das cobras
Nos caminhos

Meu quarto tem três portas
Que dão para outros quartos
Onde ficam as portas
Dos quartos das assombrações

As estrelas são
A estrela d’alva
A estrela do Pastor
Vésper
E o Anjo da Guarda de cada um

As assombrações são
A Inspiração e a Saudade
E os falecidos das nossas relações

Para ver tantas maravilhas
O Cruzeiro do Sul
Espetou a cabeça num morro
E mora aqui
Blefando a rotação universal

E tudo isso
É na fazenda do Arcozelo
Bois arados e rosas
Cavalos e motocicletas

Tudo existindo
E tocando a marcha do Progresso
Que aprenderam com a banda
Da fazenda do Arcozelo

Em 1914, nasce José Oswald Antônio de Andrade, Nonê, filho de Oswald com a francesa Kamiá. Um ano depois, publica, na seção, ‘Lanterna mágica’ de O Pirralho, o artigo, “Em prol de uma pintura nacional”. Nesta época, junto com os colegas da redação, Guilherme de Almeida, Amadeu Amaral, Júlio de Mesquita, Vicente Rao e Pedro Rodrigues de Almeida, cultiva uma vida social intensa. Vai constantemente para o Rio de Janeiro onde participa da boêmia ao lado de Emílio de Menezes, Olegário Mariano, João do Rio e Elói Pontes. Participa de um almoço em homenagem a Olavo Bilac, que visita São Paulo para estimular a campanha cívica. Torna-se membro da Sociedade Brasileira dos Homens de Letras, fundada pelo mesmo Bilac. Nesta época, mantém forte relação com a jovem Carmen Lydia, a quem introduz no meio artístico e financia os estudos.

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BRASIL

O Zé Pereira chegou de caravela
E preguntou pro guarani da mata virgem
– Sois cristão?
– Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte
Teterê tetê Quizá Quizá Quecê!
Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu!
O negro zonzo saído da fornalha
Tomou a palavra e respondeu
– Sim pela graça de Deus
Canhem Babá Canhem Babá Cum Cum!
E fizeram o Carnaval

Em 1917, inspirado pelo envolvimento amoroso com Carmen Lydia, Oswald escreve, em parceria com Guilherme de Almeida, a peça Mon Coeur Balance. Também em francês, assina com Guilherme de Almeida a peça Leuur âme. Em dezembro deste ano, a atriz francesa Suzanne Desprès e Lugné Poe fazem uma leitura dramatizada de um ato de Leur âme no Teatro Municipal de São Paulo. Oswald volta a frequentar a faculdade de Direito e trabalha como redator de O Jornal. Em uma de suas viagens ao Rio, Oswald conhece Isadora Duncan. Assina com o próprio nome os trechos do futuro romance Memórias sentimentais de João Miramar, publicados na revista A Cigarra e começa a escrever o drama O filho do sonho.

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SOLIDÃO

Chove chuva choverando
Que a cidade de meu bem
Está-se toda se lavando

Senhor
Que eu não fique nunca
Como esse velho inglês
Aí do lado
Que dorme numa cadeira
À espera de visitas que não vêm

Chove chuva choverando
Que o jardim de meu bem
Está-se todo se enfeitando

A chuva cai
Cai de bruços
A magnólia abre o para-chuva
Para-sol da cidade
De Mário de Andrade
A chuva cai
Escorre das goteiras do domingo

Chove chuva choverando
Que a casa de meu bem
Está-se toda se molhando

Anoitece sobre os jardins
Jardim da Luz
Jardim da Praça da República
Jardins das platibandas

Noite
Noite de hotel
Chove chuva choverando

Em 1917, Oswald conhece Mário de Andrade e o pintor Di Cavalcanti. As ideias se juntaram, encontraram um no outro uma razão para continuar, algo que começaria ali, assim, os três, mais Guilherme de Almeida e Ribeiro Couto formaram o primeiro grupo modernista. Nesta época também, Oswald aluga uma garçonnière na rua Líbero Badaró 16, onde, faz reuniões intelectuais e, obviamente, amorosas. O grupo modernista se reune lá. Um ano depois, publica no Jornal do Commercio o artigo “A exposição de Anita Malfatti” defendendo as tendências expressionistas em resposta a crítica “Paranoia ou mistificação” de Monteiro Lobato. Ainda sobre a garçonière, Oswald começa a escrever um diário sobre as reuniões com o título de “O perfeito cozinheiro das almas deste mundo”

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CANÇÃO DA ESPERANÇA DE 15 DE NOVEMBRO DE 1926

O céu e o mar
Atira anil
No meu Brasil

Sobre a cidade
Flutua
A bandeira do Porvir

Cada árvore
De estanho
Plantada
Espera
A passagem
Da carruagem
Do Brasil

O céu e o mar
Atira anil
No meu Brasil

Sobre a cidade
Flutua
A bandeira do Porvir

E o povo
Ansioso
Airoso
Sacode no ar
A palheta
Da Esperança
Vendo o dia
Tropical
Que vai passar
Na carruagem
Dos destinos
Do Brasil

À saída da Câmara
Pela boca ardente
De um estudante
Jorra a esperança
Do grandioso
E desordeiro
Povo Brasileiro

E os dragões impacientes
Nos cavalos impacientes
Esperam impacientes
Que o acadêmico exponha
A dedicação
Da gente brasileira
Pelo seu Presidente

Ao lado
Tendo na mão
Espalmada
Os 14 versos brancos
Duma Vitória-Régia

Destaca-se
A Rainha dos Estudantes
Dos Estados Unidos do Brasil

É uma mocinha
Como a futura mãe-pátria

Lá fora as árvores dragonas sacodem os penachos pesados
Dizendo que sim verde

Os cavalos esperam
Os dragões esperam
O povo esperam
Que passe no anil
Entre filas
Do mar e do céu
O Presidente
Do Brasil

Em fevereiro de 1919, Oswald perde seu pai. Começa a ajudar a normalista Maria de Lourdes Castro Dolzabi, Daisy, com quem tivera intenso caso, a se estabelecer em São Paulo. Publica na revista dos estudantes da Faculdade de Direito, Onze de Agosto, “Três capítulos” do romance em confecção Memórias de João Miramar. No dia 15 de agosto, casa-se com Daisy, que estava hospitalizada devido a um aborto mal sucedido. No dia 24 de agosto, Daisy morre, aos dezenove anos e é sepultada no jazigo da família Andrade no Cemitério da Consolação. Conclui o bacharelado em Direito.

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CANÇÃO E CALENDÁRIO

Sol de montanha
Sol esquivo de montanha
Felicidade
Teu nome é
Maria Antonieta d’Alkmin

No fundo do poço
No cimo do monte
Na ponte quebrada
No rego da fonte
Na ponta de lança
No monte profundo
Nevada
Entre os crimes contra mim
Maria Antonieta d’Alkmin

Felicidade forjada nas trevas
Entre os crimes contra mim
Sol de montanha
Maria Antonieta d’Alkmin

Não quero mais as moreninhas de Macedo
Não quero mais as namoradas
Do senhor poeta
Alberto d’Oliveira
Quero você
Não quero mais
Crucificadas em meus cabelos
Quero você

Não quero mais
A inglesa Elena
Não quero mais
A irmã da Nena
A bela Elena
Anabela
Ana Bolena
Quero você

Toma conta do céu
Toma conta da terra
Toma conta do mar
Toma conta de mim
Maria Antonieta d’Alkmin

E se ele vier
Defenderei
E se ela vier
Defenderei
E se eles vierem
Defenderei
E se elas vierem todas
Numa guirlanda de flechas
Defenderei
Defenderei
Defenderei

Cais de minha vida
Partida sete vezes
Cais de minha vida quebrada

Nas prisões
Suada nas ruas
Modelada
Na aurora indecisa dos hospitais

Bonaçosa bonança

Em 1920, começa a trabalhar na revista Papel e Tinta. Escreve o editorial da revista com Menotti Del Pichia, a qual teve colaboração de Mário de Andrade, Monteiro Lobato e Guilherme de Almeida entre outros. Nesta época conhece o escultor Victor Brecheret, a quem encondenda um busto de Daisy. Em 21, profere um discurso no banquete oferecido a Menotti Del Pichia por ocasião do lançamento de um livro, no Trianon. No dia seguinte publica um artigo no Correio Paulistano, onde passa a trabalhar. Apresenta no mesmo jornal a poesia de Mário de Andrade sob o título de “Meu poeta futurista”, criando polêmica com o próprio Mário, que indaga o termo “futurista”. O movimento modernista já existe, e por isso, vai para o Rio de Janeiro com outros escritores em busca novas adesões, se encontra com Ronald de Carvalho, Manuel Bandeira e Sérgio Buarque de Holanda. Logo chegaria a Semana de Arte Moderna.

Drummond em http://cartilhadepoesia.wordpress.com

DOTE

Te ensinarei
O segredo onomatopaico do mundo
Te apresentarei
Thomas Morus
Federico Garcia Lorca
A sombra dos enforcados
O sangue dos fuzilados
Na calçada das cidades inacessíveis
Te mostrarei meus cartões postais
O velho e a criança dos Jardins Públicos
O tutu de dançarina sobre um taxi
Escapados ambos da batalha do Marne
O jacaré andarilho
A amadora de suicídios
A noiva mascarada
A tonta do teatro antigo
A metade da Sulamita
A que o palhaço carregou no carnaval
Enfim, as dezessete luas mecânicas
Que precederam teu uno arrebol

Como consta em todos os registros possíveis, Oswald participa ativamente da Semana de Arte Moderna, realizada de 13 a 17 de fevereiro no Teatro Municipal de São Paulo. Lá, lê fragmentos inéditos de Os Condenados e A estrela de absinto. Integra o grupo modernista da revista recém criada Klaxon. Os condenados é publicado com capa de Anita Malfatti, pela casa editorial de Monteiro Lobato. Faz conferências em banquetes e lançamentos. Nesta época forma o notório “grupo dos cinco” com Mário de Andrade, Anita, Tarsila do Amaral e Menotti Del Pichia. No fim do ano de 22, Oswald viaja para Europa em dezembro, está com 32 anos. Um mês depois, ganha na justiça a custódia do filho Nonê, que viaja com ele à Europa e começa a estudar na Suiça. Passeia com Tarsila pela Espanha e Portugal e, a partir de março, se instala em Paris.

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BLACK-OUT

Girafas tripulantes
Em pára-quedas
A mão do jaburu
Roda a mulher que chora
O leão dá trezentos mil rugidos
Por minuto
O tigre não é mais fera
Nem borboletas
Nem açucenas
A carne apenas
Das anêmonas
Na espingarda
Do peixe espada
Transcontinental ictiossauro
Lambe o mar
Voa, revoa
A moça enastra
Enforca, empala
À espera eterna
Do Natal

Neste mesmo ano de 1923, Oswald conhece o poeta francês Blaise Cendrars. Lá, profere uma conferência na Sorbonne, intitulada “L’Effort intellectuel du Brèsil contemporain”. Participa de um banquete oferecido pelo embaixador Souza Dantas, com a presença de Sérgio Milliet, Jules Romains, Giraudoux, Lhote, Léger e Supervielle. Já está para concluir seu João Miramar. De volta ao Brasil, em 24, desta vez, recebe o poeta francês com quem trava um intensa amizade. No dia 18 de março, publica o “Manifesto da Poesia Pau Brasil”, na Revista do Brasil. Na companhia de Blaise, Mário de Andrade, Tarsila, Paulo Prado, Goffredo da Silva Telles e René Thiollier, forma a famosa caravana modernista, que excursiona pelas cidades históricas de Minas Gerais, durante a Semana Santa. Memórias sentimentais de João Miramar é publicado, enfim. Também expressa suas divergências em relação a Graça Aranha em artigo no Jornal do Commercio.

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MEA CULPA, LEAR

Na hora do fantasma
Entre corujas
Jocasta soluçou
O palácio de fósforo
Múltiplas janelas
Desmaiou

- Por que calaste os sinos?
Meu filho, filho meu!
– Dei, dei, dei
– Onde puseste os reinos e as vitórias
Que minhas estranha serenidade prometia?
– Era usurpação. Paguei
– Passaste fome?
– Muitas vezes comi as marés de meu cérebro

Em 1925, visita o filho Nonê na Suíça. Volta ao Brasil e à Europa e começa a divulgar o modernismo em entrevistas e conferências. Nesta época, Mário de Andrade escreve o poema ‘Tarsivald’ em homenagem ao casal Oswald e Tarsila. Sai o livro de poemas Pau Brasil, com apoio de Blaise Cendrars, pela editora francesa Au Sens Pareil, com ilustrações de Tarsila e prefácio de Paulo Prado. Retorna ao Brasil mais uma vez e publica o artigo “A poesia Pau Brasil” no qual responde ao ataque feito por Tristão de Athayde, no mesmo jornal. Anuncia sua candidatura à Academia Brasileira de Letras na cadeira de Alberto Faria, porém, não a regulariza. Oficializa o noivado com Tarsila e viaja para França com ela. Encontra mais uma vez com Nonê e partem todos para uma excursão no Oriente Médio.

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ANTENA

Aqui todos bem
E aí?
Pega o coleóptero pentâmetro
Lamelicórneo
Escarabídeo de negro marfim
Quem foi que te pegou?
Tata! É meu!
O bizantino escaravelho.

Ainda em 1926, Oswald recebe o poeta italiano Marinetti em viagem à America do Sul e casa-se enfim com Tarsila do Amaral. No ano seguinte, publica, a Estrela de absinto, com capa de Vitor Brecheret. Escreve crônicas de ataque a Plínio Salgado e Menotti Del Pichia, que eram Integralistas e rompem com os Modernistas. Recebe menção honrosa da Academia Brasileira de Letras pelo livro A estrela de absinto. Em 28, como presente de aniversário, recebe de Tarsila um quadro ao qual resolvem chamar de Abaporu, que em língua Tupi quer dizer “aquele que come”. Também é neste mesmo ano que redige e faz uma leitura do “Manifesto Antropófago” na casa de Mário de Andrade e, funda, com Raul Bopp e Antonio Alcântara Machado a Revista de Antropofagia.

Pai e filha em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

A FAMÍLIA DO BURRINHO

- Vamos Joseph fugir
– Para onde Maria ir
Joseph (jocoso) – shall go to Jundi-aí ai!
– Depressa! Sela o Mangarito
Vamos com o vento Sul
Onde serei cesariada?
– Não presepe
– Tenho medo da vaca
– Não chores darling (terno) Sweepstake de Deus!
Maria – Caí na ilegalidade
Porque modéstia à parte
Trago uma trindade no ventre
Nesse tempo não havia ainda as irmãs Dione

Algumas palavras de inglês conhecendo
A família sagrada partiu
Sem saudades levar
Para as bandas do mar
Vermelho
Na poeira da madrugada
Cruzou um olival
O escaravelho
– Quantas dracmas serão precisas?
Exclamou o castiço esposo
Para esta viagem em torno da lei do mundo
Estamos no século III ou IV da fundação
De Roma
E só tenho “argent de poche”
– Não vá faltar Joseph
– Na verdade Deus ajuda…
(os ricos)
– Sonhei que os serafins
Estão bordando uma estrela surda
Para Herodes não ver
Quero reis magos
Trenzinho e monjolo
E o retrato de Shirley Temple
Porque o menino vem
Este mundo salvar
O vento distribuía algodão pelos açudes
Joseph espancou o burrinho
E riu
– Belo mundo ele vem salvar!
(Já havia naquele tempo
Pouco leite para os bebês)
– Se faltar numerário
Eu carrego na centena do Mangarito
E dou um viva ao faraó Hitler…
(Antes que ele faça comigo
O Progrom que fez com Moisés)
– Oportunista! gritou uma nuvem
Joseph fingiu que não ouvia
– A vida é um buraco
Enquanto não vier Maria
A socialização
Dos meios de produção
– Besta! gritou um anjo
São José seguiu pensando
Que os anjos geralmente são reacionários
E as nuvens provocadoras

Em 1929, ano da crise econômica americana, Oswald lança a segunda edição da Revista de Antropofagia, sem a participação dos antigos colaboradores, que passam a criticar a revista. Presta uma homenagem ao palhaço Piolim na quarta feiras de cinzas com o apoio da revista. Ao longo do ano, rompe com os amigos Mário de Andrade, Paulo Prado e Antônio de Alcantara Machado. Com a queda da bolsa, sofre algumas perdas financeiras. Recebe a visita de Le Corbusier, Josephine Baker e Herman Keyerling e mantém uma relação amorosa com Patrícia Galvão, Pagu, com quem escreve o diário “O romance da época anarquista, ou Livro das horas de Pagu que são minhas – o romance romântico – 1929-1931″. No fim do ano, termina com Tarsila e se junta com Pagu. Casa-se com ela em compromisso verbal em frente al jazigo da família Andrade no cemitério da Consolação. Quando vem a Rio de Janeiro assistir à posse de Guilherme de Almeida na ABL, é preso pela polícia sob denúncia de querer agredir ao poeta Olegário Mariano.

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ESTRONDAM EM TI A IARAS

Desde Bilac
Somos internacionalistas e portugueses júniors
Gostamos de Camembert, do Nilo, de Frinéia e de Marx
Carvões do mar
Náufragos entre sustos e paisagens
– “I don’ know my elders!”
Desde Gonzaga e desembargadores
Desde a Prosopopéia
Somos brasileiros

Em 1931, Oswald viaja para o Uruguai para conhecer Luis Carlos Prestes, exilado em Montevidéu. Adere ao comunismo. Lança o jornal O Homem do Povo, com Pagu e Queirós Lima e participa da Conferência Regional do Partido Comunista no Rio de Janeiro. Publica Serafim Ponte Grande e ajuda financeiramente a publicação de Parque industrial de Pagu. Em 1934, Participa do Clube dos Pianistas Modernos e passa a viver com a pianista Pilar Ferrer. Publica a peça O homem e o cavalo e lê cenas no Teatro Experiência de Flávio de Carvalho, mas é interditado pela polícia. Apaixona-se por Julieta Bárbara Guerrini, com quem assina um “contrato antenupcial”. Um ano depois, reuniões na casa de Flávio de Carvalho para programar atividades artísticas e culturais. Conhece através de Julieta, Roger Bastide, Giuseppe Ungaretti e Claude Lévi-Strauss.

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BUENA DICHA

Há quatrocentos anos
Desceste do trópico de Capricórnio
Da tábua carbunculosa
Das velas
Que conduziam pelas estrelas negras
O pálido escaravelho
Dos mares
Cada degredado insone incolor
Como o barro

Criarás o mundo
Dos risos alvares
Das colas infecundas
Dos fartos tigres
Semearás ódios insubmissos lado a lado
De ódios frustrados
Evocarás a humanidade, o orvalho e a rima
Nas lianas construirás o palácio termita
E da terra cercada de cerros
Balida de sinceros cincerros
Na lua subirás
Como a tua esperança

O espaço é um cativeiro

Em 1936, casa-se mais uma vez, agora com Julieta Bárbara Guerrini. Juntos, passam dias na fazenda da família de Julieta onde recebe a visita de Jorge Amado. Publica um volume com duas peças, A morta e O Rei da Vela. Publica também a sátira “Um panorama do fascismo”. Participa das atividades da Frente Negra Brasileira proferindo um discurso sobre Castro Alves no Teatro Municipal. Em 38, obtém o registro # 179 do Sindicado dos Jornalistas de São Paulo. Em 39, ingressa no Pen Club, e vai para a Europa com a mulher para representar o Brasil no Congresso Pen Club, porém, volta ao Brasil devido à guerra. Neste ano, tem problemas de saúde e vai para um retiro na estância São Pedro. Em 40, candidata-se a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras e escreve uma carta aos imortais declarando-se para-quedista contra as candidaturas de Menotti Del Pichia e Manuel Bandeira, que acaba sendo eleito.

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COMO UM MOLE TUFÃO

O imperador está com sinusite
No apartamento 522
Aqui d’el rei!
Viveste milênios
Bajulando a sinusite do imperador
Ou no oboé das barricadas
Nunca acrisolaste tua reputação bancária
Nem na Florença dos Medici
Em Bombaim ou Buenos Aires
Dentro daquele copo da China
Como uma flor de coral
Nunca consolidaste tua revolta
Sem atirar de supetão
Nos tiranos desprevenidos
Daí a tua híbrida
Reputação de jogador
Muita gente te amou sem ser amada

Em 1941, Oswald relança o volume Os condenados, agora, dividido em três partes: Alma, A estrela de absinto e A escada. Nesta época encontra-se com Walt Disney que faz visita a São Paulo e monta com seu filho Nonê, um escritório de imóveis. Em 42, publica na Revista Brasil, o texto “Sombra amarela” dedicado a Orson Wells. Participa do VII Salão do Sindicado dos Artistas Plásticos de São Paulo. Separa-se de Julieta e conhece Maria Antonieta D’Alkmin. Um ano depois, publica A revolução melancólica e participa do II Concurso Literário. Em junho deste ano, casa-se com Maria Antonieta e inicia a coluna “Feira das Sextas” no Diário de São Paulo. Também encontra-se com o escritor argentino Oliverio Girondo.

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EPITÁFIO #2

Não terás os carros dos triunfadores
Nem choros de escravos
Porque quiseste libertar os homens
Estacará diante de ti
A máscara da negação
Lutarás com a vida face a face
Sem subterfúgios nem dolo
E ficará e eco de tua queda

Em 1944, Oswald começa a colaborar para o jornal carioca Correio da Manhã. Em maio deste ano, viaja a Belo Horizonte a convite do prefeito Juscelino Kubitschek, para participar da Primeira Feira de Arte Moderna. Faz conferências sobre pintura e algumas são publicadas. Em 45, participa do I Congresso Brasileiro de Escritores e anuncia Prestes com candidato à presidência, também lança o manifesto da Ala Progressista Brasileira. Porém, discorda da linha política de Prestes e rompe com o Partido Comunista. Recebe o poeta Pablo Neruda e nasce sua filha Antonieta Marília de Oswald de Andrade.

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ERRO DE PORTUGUES

Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português

Em 46, participa das homenagens póstumas a Mario de Andrade e discursa no Centro Acadêmico XI de Agosto em homenagem a Gilberto Freyre. Publica o texto “Mensagem ao Antropófago desconhecido (da França Antártica)”. No ano seguinte, publica O escaravelho de ouro dedicado à sua filha. Perde a eleição para delegado da Associação Brasileira de Escritores e se desliga da entidade. Em 48 nasce seu quarto filho Paulo Marcos Alkmin de Andrade e participa do Primeiro Congresso de Poesia no qual discursa criticando a “geração de 45″ ressaltando as conquista de 22.

Daquele jeito em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

MENSAGEM POÉTICA AO POVO BRASILEIRO

HIP HIP HOOVER!

América do Sul
América do Sol
América do Sal
Do Oceano
Abre a jóia de tuas abras
Guanabara
Para receber os canhões do Utah
Onde vem o Presidente Eleito
Da Grande Democracia Americana
Comboiado no ar
Pelo vôo dos aeroplanos
E por todos os passarinhos
Do Brasil

As corporações
Essas já saíram para as ruas
Na ânsia
De o ver
Hoover!
E este país ficou que nem antes da descoberta
Sem nem um gatuno em casa
Para o ver
Hoover!

Mas que mania
A polícia persegue os operários
Até nesse dia
Em que eles só querem
O ver
Hoover!

Pode ser que a Argentina
Tenha mais farofa na Liga das Nações
Mais crédito nos bancos
Tangos mais cotubas
Pode ser

Mas digam com sinceridade
Quem foi o povo que recebeu melhor
O Presidente Americano
Porque, seu Hoover, o brasileiro é um povo de sentimento
E o senhor sabe que o sentimento é tudo na vida
Toque!

Em 1949, Oswald profere uma conferência no Museu de Arte Moderna, onde fala sobre “As novas dimensões da poesia”. Recebe em julho deste ano Albert Camus em visita ao Brasil e faz com ela uma excursão a Iguape afim de assitir as festas do Divino, relatadas por Camus em “Journaux de Voyage”. A visita termina com uma “feijoada antropofágica” em sua residência. Em 1950, comemora seus sessenta anos e o Jubileu de “Pau Brasil” com um banquete “antropofágico” no Automóvel Club de São Paulo. Lá é homenageado por Sérgio Milliet. Escreve o artigo “Sexagenário não, mas Sex-appeal-genário” para A Manhã. As conferências sobre antropofagia são constantes e Oswald se candidata a deputado federal pelo Partido Republicano Trabalhista com o lema Pão-teto-roupa-saúde-instrução-liberdade.

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GLORIOSO DESTINO DO CAFÉ
para o Germinal Feijó

Pequena árvore
Cheia de xícaras
Te dei
Adubo
Trato
Colono
Céu azul
E tu deste
A safra
Dos meus anos fazendeiros

Depois deste
O desastre
E de borco no chão
Me recusei
A achar desgraçados os meus dias
Senti que como tu
Pequena árvore
Milhões de homens de minha terra
Haviam sido queimados
Decepados dos seus troncos
Para que se salvasse
Sobre a miséria de muitos
O interesse dos imperialismos
E se apaziguasse a gula
De seus sequazes tempestuosos
E deste
Em xícaras
O travo da tua cor madura
Senti no teu calor
Aquecido nos fogareiros pobres
O rubi da revolução

E como muitos me armei
Cavaleiro de ferro
Nos lençóis rasgados
Ds cortiços
E nas praças tumultuosas
E como tu pequena árvore debordada
Debordado do latifúndio
Saí ao encalço da felicidade da terra

Em 1951, Oswald entrega a Cassiano Ricardo um projeto escrito a propósito da reforma de base anunciada por Getúlio Vargas e propõe a organização de um Departamento Nacional de Cultura. Começam as dificuldades financeiras. Em 52, republica o Manifesto da Poesia Pau Brasil no jornal A Manhã. Começa a escrever tratados sobre antropofagia, ensaios, anotações. É internado na clínica São Vicente no Rio de Janeiro. Em 1953, participa do júri pelo Salão das Letras e Artes Carmen Dolores Barbosa e dirige saudação a José Lins do Rego. Sofre nova intervenção hospitalar no Rio de Janeiro. No fim do ano, por problemas financeiros, tenta vender sua coleção de telas estrageiras para o MAM do Rio, e os quadros nacionais para Niomar Muniz.

Jorge Mautner em http://cartilhadepoesia.wordpress.com

O MACAQUINHO E A SENHORA

Um dia uma senhora
De rico parecer
Entrou num velho parque
A fim de espairecer

Olhou todas as flores
Era na Primavera
E pensou nos amores
Pois linda e moça ela era

Eis quando numa gaiola
Depara subitamente
Com feio e pelado bicho
O pobre Macaco Clemente

Vendo-a o filho de Deus
Sorri e se coça todo
Pula gira rodopia
Enfia a cabeça no lodo

Depois trepa, guincha, grita
E pinta o sete e o caneco
Ri-se, assovia, namora
E põe tudo em cacareco

A rica senhora sorri
Pra tal manifestação
Mas ao amor do macaco
Gelado é o seu coração

Desolado, cabisbaixo
Reflete o pobre Clemente
– Assim é a lei inflexível
Do meu destino inclemente!

Meses depois, a senhora
Das sedas e dos brilhantes
Regressa a jardim perdido
Mas não volta como dantes

Na cidade em que vivia
Rebentou a revolução
E o seu querido partiu
À frente de um batalhão

Uma manhã ela viu
O belo amante enforcado
Só a graça e a riqueza
Lhe restou do ano passado

Ávida, ei-la que procura
O triste do macaquinho
Pra ver se ele inda se lembra
Como ficou perdidinho

Mas o Clemente não liga
Às jóias, à seda, ao porte
Da grande e linda senhora.
É assim que muda a sorte!

Põe-se numa gostosa fruta
Preocupado a descascar
Enquanto ela dolorida
Procura o interessar

Moral

Inútil, minha senhora,
Seu macaquinho perdeu
Não troca ele uma banana
Por perfil de camafeu

Tarsila, bela Tarsila
Não vá entornar o caldo
Não perca tempo não perca
Case-se logo com o Oswaldo.

Em 1954, Oswald prepara-se para ministrar um curso de Estudos Brasileiros da Universidade de Upsala, na Suécia, altera a programação para o curso ser dado em Genebra, mas jamais faz essa viagem, pois é internado no hospital Santa Edwiges e escreve o caderno “Livro da convalescença” que é lido por Di Cavalcanto no Encontro de Intelectuais, no Rio de Janeiro. Sofre uma intervenção cirúrgica no Hospital das Clínicas. Faz mais uma conferência e é homenageado no Congresso Internacional de Escritores realizado em São Paulo. Seu reingresso nos quadros da Associação Brasileira de Escritores é aprovado. Em outubro deste ano de 54, Oswald de Andrade é internado e falece no dia 22 sendo sepultado no jazigo da família no cemitério da Consolação. Assim terminamos mais uma antologia. Semana que vem, outro universo poético, outras proposições, outros poemas, outras ideia de poesia.

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PEITINHOS
(poema da era pré-freudiana)

Seu Bonifácio gostava muito de comungar
E como ficava com o estômago fraco
Ia depois tomar café em casa de Dona Sarah
Que era em frente da Igreja

Numa manhã Dona Sarah apareceu com uma blusa de
rendas sobre o corpo sem camisa

Seu Bonifácio quando chegou
Na hora da morte
Aos 78 anos
Comungou pela última vez
Delirando
Com os peitinhos nus de Dona Sarah

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