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Augusto dos Anjos

setembro 7, 2011

Augusto Carvalho Rodrigues dos Anjos, nasceu no Engenho do Pau D’Arco no município de Cruz do Espírito Santo, no Estado da Paraíba no dia 20 de abril de 1884. Terceiro filho do casal Alexandre Rodrigues dos Anjos e D. Córdula Carvalho Rodrigues dos Anjos, conhecida por Sinhá Mocinha. Consta que recebeu, junto com seus irmãos, a educação primária e secundária por seu pai. Neste mês, tentaremos percorrer a vida e a poesia desta estranha figura da poesia brasileira, alguns relatos, a escassez de detalhes sobre sua infância, sua vida e seu desenvolvimentos como poeta. Voilá, Augusto dos Anjos!

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O MORCEGO
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Meia noite. Ao meu quarto me recolho
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vêde:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela igneo e escaldante molho.
“Vou mandar levantar outra parede…”
- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!
Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A toca-lo. Minha alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!
A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, a noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!
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Da casa onde viveu, recorda sua mãe, Sinha Mocinha “A vasta casa-grande, de muitas salas, a senzala ao lado, o engenho d’água lá embaixo, o canavial na várzea e, pelos altos, o agreste, onde floriam no verão o pau d’arco roxo de outubro e os paus d’arcos amarelos de novembro”. O engenho era sombrio, era de açucar e ficava à aba do rio Una. Alexandre, seu pai, assumiu os engenhos no meio de uma crise de açucar que arrasava as lavouras. Os engenhos, hipotecados, estavam nas mãos de comerciantes da Paraíba, porém, ao contrário dos outros donos de engenho, seu Alexandre era um homem letrado.
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A IDEIA
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De onde ela vem? De que maneira bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?
Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas
Delibera, e, depois, quer a executa!
Vem do encéfalo absconso que a constringe
Chega em seguida às cordas da laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica…
Quebra a força centrípeta que a amarra
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica!
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Dr. Alexandre, como era conhecido, era letrado senhor de engenho e gostava de vagar a cavalo pelos limites de sua terra. Gostava de filosofia, lia muito, e por mais que se esforçasse, não tinha nas mãos a força do mando. Gostava de conversar com as pessoas, com os trabalhadores, procurava manter um clima ameno. Sabia latim, grego e ciências naturais, tinha mãos finas e gostava de escrever. Lia muito Cícero. Costumava dizer que com a casa cheia de meninos querendo estudar, “o tamarindo virava uma escola socrática”, se referindo ao pé de tamarindo que havia no engenho.
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IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA
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Rugia nos meus centros cerebrais
A multidão dos séculos futuros
- Homens que a herança de ímpeto impuros
Tornara etnicamente irracionais! -
Não sei que livro, em letras garrafais
Meus olhos liam! No humus dos monturos,
Realizavam-se os partos mais obscuros
Dentre as genealogias animais!
Como quem esmigalha protozoários
Meti todos os dedos mercenários
Na consciência daquela multidão…
E, em vez de achar a luz que os Céus inflama
Somente achei moléculas de lama
E a mosca alegre da putrefação!
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As informações sobre este período da infância são escassas, por isso, em 1900, Augusto ingressa no Liceu Paraibano. Tinha dezesseis anos e já gozava de uma fama de preparo, de prodígio, que corria pela cidade. Era desembaraçado como afirma Orris Soares, seu amigo dessa época “não soube resistir ao desejo de travar conhecimento com o poeta. Fui imperiosamente atraído, como para um sítio encantado onde a vista se alerta por encontrar movimento. E de tal forma nos acamaradamos, que, dias depois, lhe devia o exame de latim, desembaraçando-me de complicada tradução, numa ode de Horácio”.

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Poema EMPÓRIO dedicado ao Vicente http://pedrolago.blogspot.com
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O DEUS VERME
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Fator universal do transformismo,
Filho da teológica matéria,
Na superabundância ou na miséria
Verme – é o seu nome obscuro de batismo.
Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua diária ocupação funérea,
E vive em contubérnio com a bactéria
Livre das roupas do antropomorfismo.
Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão…
Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!
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Ainda em 1900, na mesma época em que entra no Liceu, Augusto dos Anjos escreve seu primeiro soneto, chamado “Saudade”. Augusto, ainda estudante, gostava de andar recitando, consta que tinha uma voz metálica que continha “complacência e enternecimento”. Nesta época, impressionou muito Orris Soares, de quem se tornaria amigo e que escreveria o texto “Elogio a Augusto dos Anjos”. Em 1901, publica um soneto no jornal O Comércio, e passaria a colaborar com o mesmo. Logo mais, dois anos depois, iria para Recife para se inscrever na faculdade de Direito e lá conhece, enfim, o Carnaval.
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DEBAIXO DO TAMARINDO
No tempo de meu pai, sob estes galhos
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canceira
De inexorabilíssimos trabalhos!
Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,
Guarda, como uma caixa derradeira,
 O passado da Flora Brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!
Quando pararem todos os relógios
De minha vida, e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,
Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade
A minha sombra há de ficar aqui!
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Em 1903, Augusto entra na Faculdade de Direito em Recife. Dois anos depois, em 1905, perde seu pai, Dr. Alexandre. Escreve então três sonetos dedicados ao pai e publica n’O Comércio, que posteriormente fariam parte de seu único livro “Eu”. Nesta época, começa a escrever a “crônica paudarquense” e participa de duas polêmicas. Augusto lia muito os escritos de Charles Darwin, Haeckel, Spencer e Pascal. Em 1907, conclui a faculdade de Direito, para, um ano depois, instalar-se, de vez, na capital da Paraíba.
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Dois poemas meus aqui ao lado de outros poetas http://www.olegalmeida.com/page_25.html
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UMA NOITE NO CAIRO
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Noite no Egito. O céu claro e profundo
Fulgura. A rua é triste. A Lua Cheia
Está sinistra, e, sobre a paz do mundo,
A alma dos Faraós anda e vagueia.
Os mastins negros vão ladrando à lua…
O Cairo é de uma formosura arcaica.
No ângulo mais recôndito da rua
Passa cantando uma mulher hebraica.
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O Egito é sempre assim quando anoitece!
Às vezes das pirâmides o quêdo
E atro perfil, exposto ao luar, parece
Uma sombria interjeição de medo!
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Como um contraste aqueles míseres
Num quiosque em festa a alegre turba grita
E dentro dançam homens e mulheres
Numa aglomeração cosmopolita.
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Tonto do vinho, um saltimbanco da Asia
Convulso e rôto, no apogeu da fúria,
Executando evoluções de razzia
Solta um brado epiléptico de injúria!
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Em derredor duma ampla mesa preta
- Última nota do conúbio infando -
Vêem-se dez jogadores de roleta
Fumando, discutindo, conversando.
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Resplandece a celeste superfície
Dorme soturna a natureza sabia…
Em baixo, na mais próxima planície,
Pasta um cavalo esplêndido da Arábia.
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Vaga no espaço um silfo solitário.
Trôam kinnors! Depois tudo é tranquilo…
Apenas, como um velho stradivario,
Soluça toda a noite a água do Nilo!
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Em 1908, Augustos dos Anjos vai para a capital da Paraíba onde começa a dar aulas particulares. Nesta época, começa a colaborar com o jornal Nonevar e com a revista Terra Natal. Sua mãe, Sinhá Mocinha, ficava no Engenho a esperar por notícias do filho. Eis um relato de sua experiência, em carta, pela “Veneza Brasileira”: “Os três dias de Carnaval nesta capital foram festivos, alegres e esplendorosos. Profusão de clubes carnavalescos, Caraduras, etc, confete, bisnagas, serpentina, danças, e, no entretanto, eu me diverti um pouco. O que é afinal divertimento? Uma fenomenalidade transitória, efêmera, o que fica é a saudade. Saudade! Ora, eu não disposto a ter saudades. Entendo que só devemos acalentar recordações dos entes caros, idolatrados, parcelas de nossa existência, de nossa vida, e esses entes – deixei-os eu aí”.
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A UM MASCARADO
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Rasga esta máscara ótima de seda
E atira à area ancestral dos palimpsestos…
É noite, e, à noite, a escândalos e incestos
É natural que o instinto humano aceda!
Sem que te arranquem da garganta queda
A interjeição danada dos protestos.
Hás de engolir, igual a um porco, os restos
Duma comida horrivelmente azeda!
A sucessão de hebdômadas medonhas
Reduzirá os mundos que tu sonhas
Ao microcosmos do ovo primitivo…
E tu mesmo, após a árdua e atra refrega,
Terás somente uma vontade cega
E uma tendência obscura de ser vivo!
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No mesmo ano de 1908, morre Afrígio Pessoa de Melo, padrasto de sua mãe e patriarca da família, deixando o Engenho em péssima situação financeira. Também começa a lecionar no Instituto Maciel Pinheiro e é nomeado professor do Liceu Paraibano. No ano seguinte, 1909, Augusto publica o poema “Budismo moderno” e outros em A União e num discurso que profere no Teatro Santa Rosa pela comemorações do dia 13 de maio, choca a plateia com seu léxico “incompreensível e bizarro”, logo depois, abandona o Instituo Maciel Pinheiro.
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CONTRASTES
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A antítese do novo e do obsoleto
O Amor e a Paz, o Ódio e a Carnificina,
O que o homem ama e o que o homem abomina,
Tudo convém para o homem ser completo!
O ângulo obtuso, pois, e o ângulo reto,
Uma feição humana e outra divina
São como a eximenina e a endimenina
Que servem ambas para o mesmo feto!
Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes!
Por justaposição destes contrastes,
Junta-se uma hemisfério a outro hemisfério,
Às alegrias juntam-se as tristezas
E o carpinteiro que fabrica as mesas
Faz também os caixões do cemitério!…
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Em 1910, Augusto publica em A União, o poema, “Mistério de um Fósforo” e “Noite de um Visionário”. Mas, o fato mais importante deste ano de 1910, embora, de certa forma avesso às questões do afeto, conhece e casa-se com Ester Fialho. Augusto continua a colaborar com a revista Nonevar até que outro fato marcante, desta vez trágico, acontece na vida do poeta: Sua família, por dificuldades financeiras, vende o Engenho Pau D’Arco. Augusto se atordoa e decide de mudar para o Rio de Janeiro. Embora professor do Liceu Paraibano por dois anos, Augusto quer se tornar poeta conhecido em círculos mais amplos. Então, pega parte de sua herança no Engenho e, com Ester, parte para a capital do país.
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VERSOS DE AMOR
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Parece muito doce aquela cana.
Descasco-a, provo-a, chupo-a… ilusão trêda!!
O amor, poeta, é como a cana azeda,
A toda a boca que o não prova engana.
Quis saber que era o amor, por experiência,
E hoje que, enfim, conheço o seu conteúdo,
Pudera eu ter, eu que idolatro o estudo,
Todas as ciências menos esta ciência!
Certo, este o amor não é que, em ansias, amo
Mas certo, o egoísta amor este é que acinte
Amas, oposto a mim. Por conseguinte
Chamas amor aquilo que eu não chamo.
Oposto ideal ao meu ideal conservas.
Diverso é, pois, o ponto outro de vista
Consoante o qual, observo o amor, do egoísta
Modo de ver, consoante o qual, observas.
Porque o amor, tal como eu o estou amando,
É espírito, é éter, é substância fluida,
É assim como o ar que a gente pega e cuida,
Cuida, entretanto, não o estar pegando!
É a transubstanciação de instintos rudes,
Imponderabilíssima e impalpável,
Que anda acima da carne miserável
Como anda a garça acima dos açudes!
Para reproduzir tal sentimento
Daqui por diante, atenta a orelha cauta,
Como Marsyas – inventor da flauta -
Vou inventar também outro instrumento!
Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo
Ambiciono, que o idioma em que te eu falo
Possam todas as línguas declina-lo
Possam todos os homens compreendê-lo!
Para que, enfim, chegando à última calma
Meu podre coração roto não role
Integralmente desfibrado e mole,
Como um saco vazio dentro da alma!
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No Rio de Janeiro, Augusto e sua mulher Ester, hospedam-se em uma pensão no Largo do Machado mas logo se mudam para a Avenida Central. São constantes as mudanças. O casal vai de pensão em pensão. Augusto termina o ano de 1910 sem conseguir um emprego. No ano seguinte, altos e baixos. Sua mulher engravida, porém, seis meses depois, perde a criança. Augusto é nomeado professor de Geografia, Corografia e Cosmografia no Ginásio Nacional (Pedro II atualmente) e Ester engravida novamente e no fim do ano nasce sua filha Glória.
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DEPOIS DA ORGIA
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O prazer que na orgia a hetaíra goza
Produz no meu sensorium de bacante
O efeito de uma túnica brilhante
Cobrindo ampla apostema escrofulosa!

Troveja! E anelo ter, sôfrega e ansiosa,
O sistema nervoso de um gigante
Para sofrer na minha carne estuante
A dor da força cósmica furiosa.

Apraz-me, enfim, despindo a última alfaia
Que ao comércio dos homens me traz presa,
Livre deste cadeado de peçonha,

Semelhante a um cachorro de atalaia
Às decomposições da Natureza,
Ficar latindo minha dor medonha!

Em 1912, Augusto começa a colaborar com o jornal O Estado e dá aulas na escola Normal. Porém, um dos grandes feitos desse ano vem através da ajuda de seu irmão Odilon, que o ajuda a custear a edição de 1000 exemplares de seu único livro de poemas chamado “Eu” no dia 6 de julho deste ano. O livro é recebido, ora com estranheza, ora, com entusiasmo, as crítica variam muito entre os elogios e a repulsa. De acordo com seu amigo Orris Soares “três fatores fizeram a profunda tristeza de Augusto do Anjos: – um de carater individualíssimo, outro mesológico e o terceiro espiritual”.
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As bodas com sussurro de Blake em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
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A ILHA Do CYPANGO
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Estou sozinho! A estrada se desdobra
Como uma imensa e rutilante cobra
De epiderme finíssima de areia…
E por essa finíssima epiderme
Eis-me passeando como um grande verme
Que, ao sol, em plena podridão, passeia!

A agonia do sol vai ter começo!
Caio de joelhos, trêmulo… Ofereço
Preces a Deus de amor e de respeito
E o Ocaso que nas águas se retrata
Nitidamente reproduz, exata,
A saudade interior que há no meu peito…

Tenho alucinações de toda a sorte…
Impressionado sem cessar com a Morte
E sentindo o que um lázaro não sente,
Em negras nuanças lúgubres e aziagas
Vejo terribilíssimas adagas,
Atravessando os ares bruscamente.

Os olhos volvo para o céu divino
E observo-me pigmeu e pequenino
Através de minúsculos espelhos.
Assim, quem diante duma cordilheira,
Pára, entre assombros, pela vez primeira,
Sente vontade de cair de joelhos!

Soa o rumor fatídico dos ventos,
Anunciando desmoronamentos
De mil lajedos sobre mil lajedos…
E ao longe soam trágicos fracassos
De heróis, partindo e fraturando os braços
Nas pontas escarpadas dos rochedos!

Mas de repente, num enleio doce,
Qual se num sonho arrebatado fosse,
Na ilha encantada de Cypango tombo,
Da qual, no meio, em luz perpétua, brilha
A árvore da perpétua maravilha,
À cuja sombra descansou Colombo!

Foi nessa ilha encantada de Cypango,
Verde, afetando a forma de um losango,
Rica, ostentando amplo floral risonho,
Que Toscanelli viu seu sonho extinto
E como sucedeu a Afonso Quinto
Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho!

Lembro-me bem. Nesse maldito dia
O gênio singular da Fantasia
Convidou-me a sorrir para um passeio…
Iríamos a um país de eternas pazes
Onde em cada deserto há mil oásis
E em cada rocha um cristalino veio.

Gozei numa hora séculos de afagos,
Banhei-me na água de risonhos lagos,
E finalmente me cobri de flores…
Mas veio o vento que a Desgraça espalha
E cobriu-me com o pano da mortalha,
Que estou cosendo para os meus amores!

Desde então para cá fiquei sombrio!
Um penetrante e corrosivo frio
Anestesiou-me a sensibilidade
E as grandes golpes arrancou as raízes
Que prendiam meus dias infelizes
A um sonho antigo de felicidade!

Invoco os Deuses salvadores do erro.
A tarde morre. Passa o seu enterro!…
A luz descreve ziguezagues tortos
Enviando à terra os derradeiros beijos.
Pela estrada feral dois realejos
Estão chorando meus amores mortos!

E a treva ocupa toda a estrada longa…
O Firmamento é uma caverna oblonga
Em cujo fundo a Via-láctea existe.
E como agora a lua cheia brilha!
Ilha maldita vinte vezes a ilha
Que para todo o sempre me fez triste!





Ainda vivendo de pensão em pensão, Augusto pede emprego público aos políticos da Paraíba radicados no Rio de Janeiro. No dia 2 de junho de 1913, nasce seu segundo filho Guilherme Augusto. A péssima situação financeira não permite que Augusto vá com a sua mulher e filha visitar sua mãe na Paraíba. Nesta ocasião Augusto escreve: “minhas ocupações de professor, aliás, mal remuneradas, não me permitem folgas refociladoras dessa natureza”. Augusto continuam a lecionar em diversos lugares, dando inclusive, aulas particulares para obter mais rendimentos.
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MATER


Como a crisálida emergindo do ovo
Para que o campo flórido a concentre,
Assim, oh! Mãe, sujo de sangue, um novo
Ser, entre dores, te emergiu do ventre!
E puseste-lhe, haurindo amplo deleite,
No lábio róseo a grande teta farta
— Fecunda fonte desse mesmo leite —
Que amamentou os éfebos de Sparta. —

Com que avidez ele essa fonte suga!
Ninguém mais com a Beleza está de acordo,
Do que essa pequenina sanguessuga,
Bebendo a vida no teu seio gordo!

Pois, quanto a mim, sem pretensões, comparo,
Essas humanas cousas pequeninas
A um biscuit de quilate muito raro
Exposto aí, à amostra, nas vitrinas.

Mas o ramo fragílimo e venusto
Que hoje nas débeis gêmulas se esboça,
Há de crescer há de tornar-se arbusto
E álamo altivo de ramagem grossa.

Clara, a atmosfera se encherá de aromas,
O Sol virá das épocas sadias…
E o antigo leão, que te esgotou as pomas,
Há de beijar-te as mãos todos os dias!

Quando chegar depois tua velhice
Batida pelos bárbaros invernos!
Relembrarás chorando o que eu te disse,
A sombra dos sicômoros eternos!





O livro “Eu” era considerado estranho. Havia uma excentricidade temática, falava muito da morte, o tratamento da linguagem era cheio de vocábulos e expressões científicas e filosóficas. O léxico era difícil, com rimas ricas, muitas vezes causando espanto. Augusto bebeu muito em Herbert Spencer, Ernst Haeckel e muito Schopenhauer. A Bíblia também foi absorvida por Augusto e, de acordo com alguns exegetas, “a utilização da Bíblia potencializou seu contraponto às ideias iluministas/materialistas que havia em sua época”. Vale conferir.
O MEU NIRVANA


No alheamento da obscura forma humana,
De que, pensando, me desencarcero,
Foi que eu, num grito de emoção, sincero
Encontrei, afinal, o meu Nirvana!
Nessa manumissão schopenhauereana,
Onde a Vida do humano aspecto fero
Se desarraiga, eu, feito força, impero
Na imanência da Ideia Soberana!

Destruída a sensação que oriunda fora
Do tacto — ínfima antena aferidora
Destas tegumentárias mãos plebeias —

Gozo o prazer, que os anos não carcomem,
De haver trocado a minha forma de homem
Pela imortalidade das Ideias!





Parênteses: Por volta do início do século XX, havia no Recife uma espécie de “evolução” no pensamento brasileiro, por ação, sobretudo, de Tobias Barreto. Matins Junior, pelo que consta, foi dos primeiros, senão o primeiro, a introduzir a poesia científica, que não teve seguidores. Esse era o ambiente em que Augusto sorvia. Aprendeu muito com um professor que teve chamado Laurindo Leão, que era um devoto do fenomenismo gnóstico. Augusto passava por tudo isso calado. Emancipou-se intelectualmente da educação católica, de acordo com Horácio de Almeida, influenciado pelos evolucionistas e naturalistas século.

GUERRA

Guerra é esforço, é inquietude, é ânsia, é transporte…

E a dramatização sangrenta e dura

Vir Deus num simples grão de argila errante,

Da avidez com que o Espírito procura

 

É a Subconsciência que se transfigura

Em volição conflagradora… E a coorte

Das raças todas, que se entrega à morte

Para a felicidade da Criatura!

 

É a obsessão de ver sangue, é o instinto horrendo

De subir, na ordem cósmica, descendo

A irracionalidade primitiva…

 

É a Natureza que, no seu arcano,

Precisa de encharcar-se em sangue humano

Para mostrar aos homens que está viva!




Outro parênteses: Augusto não era muito de falar. Ficava quase sempre calado na rodas que se faziam na Paraíba. Inclusive, uma amigo que veio a morar com ele numa pensão na Paraíba, veio a conhecê-lo bem só depois que se formou. Pelos 17 anos escreveu Monólogos da Sombra. Um intelectual chamado Flósculo da Nóbrega, da Academia Paraibana de Letras, quando o encontrou, o achou excessivamente intelectualizado, com o pensamento frio, mas, como já dissemos, seu núcleo emocional, a fonte propriamente dita, se encontrava ainda na memória do Engenho do Pau D’Arco. Mais semana que vem.

HINO À DOR


Dor, saúde dos seres que se fanam,

Riqueza da alma, psíquico tesouro,

Alegria das glândulas do choro

De onde todas as lágrimas emanam..

 

És suprema!  Os meus átomos se ufanam

De pertencer-te, oh!  Dor, ancoradouro

Dos desgraçados, sol do cérebro, ouro

De que as próprias desgraças se engalanam!

 

Sou teu amante!  Ardo em teu corpo abstrato.

Com os corpúsculos mágicos do tacto

Prendo a orquestra de chamas que executas…

 

E, assim, sem convulsão que me alvorece,

Minha maior ventura é estar de posse

De tuas claridades absolutas!




Após alguns meses em busca de um lugar para morar, Augusto e sua família encontram uma casa em Leopoldina. Ali seria então o lugar definitivo, a base. Publica “O lamento das coisa” na Gazeta Leopoldina que é dirigida por seu cunhado, Rômulo Pacheco e também é nomeado diretor do Grupo Escolar de Leopoldina. A vida anunciava tempos calmos na vida do poeta, porém, já há alguns meses que Augusto sofria com uma espécie de tuberculose ou pneuomonia. 

Metendo o malho no Maiacovski em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com


 DANÇA DA PSIQUE


A dança dos encéfalos acesos
Começa. A carne é fogo. A alma arde. A espaços
As cabeças, as mãos, os pés e os braços
Tombara, cedendo à ação de ignotos pesos!
É então que a vaga dos instintos presos
— Mãe de esterilidades e cansaços —
Atira os pensamentos mais devassos
Contra os ossos cranianos indefesos.

Subitamente a cerebral coréa
Pára. O cosmos sintético da Idéa
Surge. Emoções extraordinárias sinto…

Arranco do meu crânio as nebulosas.
E acho um feixe de forças prodigiosas
Sustentando dois monstros: a alma e o instinto!






Após alguns meses doente, mais precisamente, desde o dia 30 de outubro, o poeta Augusto dos Anjos morre, às quatro horas da manhã, do dia 12 de novembro de 1914, aos 30 anos de idade, em Leopoldina, oficialmente de pneumonia. Em carta à Sinha Mocinha, Ester, sua mulher, lamenta: “O mês de outubro já corria em meados quando Augusto dos Anjos adoeceu. O Dr. Custódio Junqueira lhe fez uso de alguns remédios, que não fizeram ceder o mal estar. No dia 29, Augusto caiu na cama com muita febre, frio e dor de cabeça. O Dr. Custódio foi novamente chamado. A base do pulmão direito está congestionada, disse, depois que o examinou [...] A doença abateu o seu corpo franzino, não conseguindo, entretanto, abater-lhe o espírito que se conservou lúcido até 20 minutos antes de expirar… Ele me chamou, despediu-se de mim, dizendo-me: Mande as minhas lágrimas para a minha mãe; mande lembranças para os meus amigos do Rio; trate bem as criancinhas Glória e Guilherme; dê lembranças às meninas do grupo… Recomendou-me que guardasse com cuidado todos os seus versos…”




NOLI ME TANGERE



A exaltação emocional do Gozo,
O Amor, a Glória, a Ciência, a Arte e a Beleza
Servem de combustíveis à ira acesa
Das tempestades do meu ser nervoso!
Eu sou, por conseqüência um ser monstruoso!
Em minha arca encefálica indefesa
Choram as forças más da Natureza
Sem possibilidades de repouso!

Agregados anômalos malditos
Despedaçam-se, mordem-se, dão gritos
Nas minhas camas cerebrais funéreas…

Ai! Não toqueis em minhas faces verdes,
Sob pena, homens felizes, de sofrerdes
A sensação de todas as misérias!





Assim que morreu o poeta, um amigo, alguém que o conhecia e admirava seus versos, foi se lamentar com o Olavo Bilac, que não o conhecia. Pediu para ver alguns versos e, logo após lê-los, disse: “Não lamente, a poesia brasileira não perdeu grande coisa!”. Porém, algo de inesperado aconteceria. Edições de “Eu” foram sendo republicadas e Augusto, não só foi passou a ser lido, como popularizado, sendo recitado, inclusive, em rodas de rua e feiras populares. Mais precisamente a partir de 1920, com introdução do amigo Orris Soares.



MINHA ÁRVORE


Olha: E um triângulo estéril de ínvia estrada!
Como que a erva tem dor… Roem-na amarguras
Talvez humanas, e entre rochas duras
Mostra ao Cosmos a face degradada!
Entre os pedrouços maus dessa morada
É que, às apalpadelas e às escuras,
Hão de encontrar as gerações futuras
Só, minha árvore humana desfolhada!
Mulher nenhuma afagará meu tronco!
Eu não me abalarei, nem mesmo ao ronco
Do. furacão que, rábido, remoinha…
Folhas e frutos, sobre a terra ardente
Hão de encher outras árvores! Somente
Minha desgraça há de ficar sozinha!



Em 1928, a terceira edição do livro “Eu” é lançada no Rio de Janeiro pela Livraria Castilho, com imensa repercussão e sucesso de público e crítica. Augusto dos Anjos é, enfim, reconhecido como grande poeta. Nas palavras de Horácio de Almeida: “Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio. Só muito raramente soltava uma blasfêmia. Por outro lado, não se pode dizer fosse ele um materialista ético. De inflexões mentais sua obra anda cheia. E como era sincero e honesto, virtudes que cultivava com extremado zelo, nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência.”




À MESA

Cedo à sofreguidão do estômago. É a hora
De comer. Coisa hedionda! Corro. E agora,
Antegozando a ensangüentada presa,
Rodeado pelas moscas repugnantes,
Para comer meus próprios semelhantes
Eis-me sentado à mesa!
Como porções de carne morta … Ai! Como
Os que, como eu, têm carne, com este assomo
Que a espécie humana em comer carne tem! …
Como! E pois que a Razão me não reprime,
Possa a terra vingar-se do meu crime
Comendo-me também.





Como não poderia deixar de ser, terminamos este augusto mês de agosto com a descrição de Paulo Soares sobre morte do poeta: “A notícia do falecimento de Augusto dos Anjos logo corre porta a fora, levada não pela dor da mãe desconsolada, mas pela empregada da casa, Dona Ermíria que, ao perceber as lágrimas que longe estão de se conterem em sua fonte, pergunta à patroa enigmática o motivo de tanto desperdício de humor. Ao saber do acontecido, corre a mulher pela calçada a gritar aos que passam: morreu o magro, morreu Augusto, não sei se de tuberculose ou de susto”. Assim terminamos mais uma antologia, na semana que vem, outros poemas, outras proposições e mais deflagrações. Evoé!





REVELAÇÃO I & II


I

Escafandrista de insondado oceano
Sou eu que, aliando Buda ao sibarita,
Penetro a essência plásmica infinita,
- Mãe promíscua do amor e do ódio insano!
Sou eu que, hirto, auscultando o absconso arcano,
Por um poder de acústica esquisita,
Ouço o universo ansioso que se agita
Dentro de cada pensamento humano!
No abstrato abismo equóreo, em que me inundo,
Sou eu que, revolvendo o ego profundo
E a escuridão dos cérebros medonhos,
Restituo triunfalmente à esfera calma
Todos os cosmos que circulam na alma
Sob a forma embriológica de sonhos!

II

Treva e fulguração; sânie e perfume;
Massa palpável e éter; desconforto
E ataraxia; feto vivo e aborto…
- Tudo a unidade do meu ser resume!
Sou eu que, ateando da alma o ocíduo lume,
Apreendo, em cisma abismadora absorto,
A potencialidade do que é morto
E a eficácia prolífica do estrume!
Ah! Sou eu que, transpondo a escarpa angusta
Dos limites orgânicos estreitos,
Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia,
Sinto bater na putrescível crusta
Do tegumento que me cobre os peitos
Toda a imortalidade da Substância!

Um Comentário
  1. PauloSalmaci Link Permanente

    Um videoclipe de Versos a um Coveiro em homenagem ao grande poeta

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