Pedro Lage
Antônio Pedro Marinho Lage nasceu no dia 7 de março de 1952, no bairro de Botafogo no Rio de Janeiro. Começou o jardim da infância no colégio Santa Rosa de Lima, em Botafogo, vizinho de muro da casa de seu avô, onde passou parte de sua infância. Sua avó materna era grande leitora de Proust, Tolstoi e Machado de Assim, e foi quem o introduziu na leitura ainda na tenra infância. Neste mês, passaremos pela poesia do poeta Pedro Lage.
Turvo turvo turva aqui http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
BATEFORTE
as palavras, como usar?
como ousar dizê-las ternas
no sopro dos meus lábios untados aos teus?
trêmulas, não convencerão:
soarão desculpas, parecerão ridículas,
perecerão em teus olhos noturnos.
teu riso franco as dispersará,
tufão incrédulo sobre a cidade.
as frases cairão imprecisas,
na fuga das águas de um rio,
perdidas no mar.
prefiro o gosto úmido silêncio:
o sentimento, morena,
palavra alguma jamais pode alcançar.
Boa semana!
Foi sua avó quem o introduziu na literatura. Conhecia Paschoal Carlos Magno, poeta, dramaturgo e crítico de teatro. Sua avó o apresentou também ao poeta Manuel Bandeira, numa feira de livros na Cinelândia quando tinha seus dez anos. Pedro, nesta ocasião, perguntou ao poeta: “O senhor foi mesmo para Pasárgada?” Lugar mítico que se tornaria real, quando, aos vinte e cinco anos, Pedro visitaria, Pasárgada, a real, próxima a Isphahan, no Irã, numa viagem pela Eurásia, mas isso, é depois.
Elegia a José de Alencar Adnet Filho em http://pedrolago.blogspot.com
RESÍDUO
a Ruthinha
trago comigo a saudade levo
loura carrego seu peso meço
jamais me esqueço do meu amor
seus traços de sol escuros
roubam o clarão da Lua
na tela da noite fulva
fulmina bate depressa
escravo – meu coração!
Seu avô se chamava José. Era industrial de café. Sua avó, Olga. Seus pai se chamavam Antônio e Carmen, que, além de Pedro, tiveram, Toninho, Olga e Nena, essas duas, mais velhas. Toninho, aos seis anos, prematuramente, faleceu de câncer, e assim, a via seguiu com três irmãos. A casa dos avós era grande, ficava na Voluntários da Pátria, e lá, Pedro, gostava de descobrir esconderijos. Brincava também com suas primas, Mônica, que adorava cantar marchinhas, e Susie. Pedro gostava de jogar bola com o pai e no colégio Santo Inácio, e não tardaria a descobrir uma de suas grandes paixões, o Botafogo.
Paulo Mendes Campos aqui http://cartilhadepoesia.wordpress.com
COZINHA
ao Charles
no hospital há uma sala trancada
proibida a entrada
o brinquedo ali dentro custou ao governo
mais de seis milhões
os doentes não podem ousar o rim eletrônico;
enquanto isso, falta sonda na enfermaria sete
o velhinho, todo nu, agarra-se
às grades da cama, tonto, com medo do
tombo.
Pedro Lage tinha uma madrinha que se chamava “Tia Mary”. Era botafoguense. Levou-o para ver a final do carioca de 57. Botafogo e Fluminense, com direito a Mané Garrincha. Seis a dois para o Botafogo. Dalí em diante, Pedro Lage se tornou alvinegro. Frequentou o Maracanã até 71, quando, viu o Botafogo perder para o mesmo Fluminense “com gol roubado de Lula aos 44 do segundo tempo”. O futebol ficou apenas no colégio Santo Inácio.
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ARREBATE D’AMOR
ao Cacaso
permito-me arremeto fronde
enfrento a fonte de tuas águas
bebo seus sucos
nas narinas teus vapores
fluidos fardos deste amor
maior que todos os amores.
Pedro Lage terminou o segundo grau no Colégio Santo Inácio, onde, em 1970, lidera o motim estudantil da turma de medicina do terceiro ano colegial, em que treze dos trinta e cinco estudantes trocaram o curso pelo Miguel Couto. No Santo Inácio conheceu o poeta Luiz Olavo Fontes, o músico Arnaldo Brandão, o jornalista José Castello, o filósofo Guy van de Beuque, Gustavo Schnor, Antônio Luiz Salgado, Manoel Correia do Lago, e seu grande amigo Antônio Quinet. Naquele tempo, as meninas estudavam no Sion, e as festas de fim de semana, no Clube do Botafogo e no Olímpico, era o que se poderia fazer para encontrá-las.
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ESQUINA
manhã, sol forte, a prática é o critério da verdade
nasce a noite, vai-se a vida rebolando pr’outra parte
nem vale a pena pensar sem malícia e agilidade
tudo pode acontecer? não, tudo irá.
olhos abertos, mãos ávidas agarram-se ao mundo:
o amor e seus cabelos, as ilusões, o coração aprisionado.
o medo existe para ser vencido.
olhar as crianças e aprender o que não foi ensinado.
ensinar? sim… mas, quando?
E saber que, mais cedo ou mais tarde,
nem tudo vai dar errado.
Embora já tivesse aparecido como poeta em recitais/performances em 1972, Pedro Lage publicou seu primeiro livro, ‘Vai que vai’, em 1976. Com ilustrações de Anamaria Caravalho, o livro foi lançado na Oficina de Artes do prof. Hélio Rodrigues. Nesta época, Pedro frequentava o Pedro Lage, onde conheceu muita gente, teve aulas de cinema com Sérgio Santeiro e fez pequenos filmes de animação e aprendeu a discutir todo tipo de assunto. Tempo de formação.
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DESVENTURA
a Manuel Bandeira
janela aberta em meu quarto
brilha a luz de outra noite
eu não compreendo
tento olhar através de seus olhos
descobrir o que se passa
uma estrela, talvez, um amigo,
ou apenas o céu, o mistério infinito . . .
queria encontrar Juquinha sorrindo pra mim
deixar a tristeza de lado, queria voar…
mas a janela é bem alta e, assim, permaneço
com as costas cravadas na palha dura do catre.
somente uma luz me penetra: a luz fria de outra noite
que bebe tranqüilamente mais um pedaço de minha paixão.
Pedro chegou a frequentar a efervescência do Pier de Ipanema. Ficava perto da Laura Alvim. Porém, o lugar onde Pedro, de fato, estendeu sua gama de relações foi no Sol Ipanema. Na época em que publicou seu primeiro livro, Pedro frequentava a casa do Cacaso, onde se reunia uma rapaziada “da pesada”: Charles, Lui, Bia Carneiro, Massoca Fontes, Tony Lins, Chico Alvim e muitos outros. Nesta mesma época saiu a coletânea ’26 poetas hoje’, de Heloisa Buarque de Holanda, que Pedro veio a conhecer meses depois em São Paulo num evento de poesia no Theatro Municipal.
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ENQUANTO TERESA DORME
nasce a estrela fugitiva de outros universos
anunciando o final dos tempos
toca um cambalache doido, explode a guerra
passa a carruagem azul repleta de foragidos
e os corações das ruas estremecem em bombain
sentados na galáxia estrema
dois homens mortos conversam sobre a vida
um incêndio intenso toma conta do pensamento
do mundo, o nada se transforma em cor
as praias de mindano acordam com o maremoto
e as criancinhas fogem apavoradas
o reino do krenkrokren prepara-se para a sesta
um padre vira morcego
a faca mais-que-prateada cruza o espaço exterior
e vai cravar-se no peito da ursa-menor
em passadena os cientistas constroem a centopéia atômica
que irá sondar as rugas dos anéis de saturno
e uma animada partida de hóquei sobre patins
tem lugar nos pátios das escolas de pequim
um pingue-pongue de raios espouca por todos
os lados e as nove escolas-de-samba invadem
de uma só vez todas as avenidas
a lua desfalece sôfrega neste céu americano
e ruma para o japão, enquanto o sol,
vindo de angola, surge e ilumina
é quando teresa acorda,
estremunha quentinha na cama e, tranquila,
caminha nas areias de ipanema
pensando no amor que lhe apressa o coração.
Em 1976, Pedro Lage vai para São Paulo com um grupo de poetas para se apresentar no Theatro Municipal. Tratava-se do Encontro de Arte e Poesia. Nesta época, Pedro já se apresentava com a Nuvem Cigana. O clima não estava muito amigável. Chacal, Xico Chaves, Tavinho Paes, Charles Peixoto. No meio de uma vaia que acontecia, em virtude de um pedido de “um minuto de barulho” do Xico Chaves, Tavinho Paes entrou no palco e mijou. Logo depois, Pedro, entrou com Charles e cada um disse um poema. Em meio às vaias, alguns aplausos.
No calor da hora http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
ÀS CAGARRAS
Hoje, o dia anda cinza e chuvoso.
Não a esperei para o almoço, aliás, nada comi.
O Rio, cidade outrora maravilhosa, chora,
perseguido por fantasmas e temporais.
Já quase nem posso escrever-lhe,
nada lhe posso adiantar além de minha loucura.
Minha mão rouca dispara palavras que nada dizem.
A vida, impassível, se ausenta, e apenas o frio
desta noite sensata me entristece demais.
O tempo escorre, macio, implacável,
envolto em seu manto de quasar…
Não sei como isto vai terminar, continuo aflito.
E, ainda, por cima de tudo,
a inconstância do céu a massacrar
minhas tênues ilusões.
Ficarei por aqui,
posso vê-las do Leme ao Leblon.
O oceano imenso,
meus passos pequenos,
adeus.
Em dezembro de 1976, Pedro parte com seu amigo Lui Fontes para a Ásia. Ficou dois anos fora. Passou pela Itália, Turquia, Irã, Afeganistão, Paquistão. Ficou um ano na Índia, passando pelo Nepal, Ceilão, Cingapura, Birmânia, Tilâdia, Marrocos até voltar pela Europa. Voltou no final do ano de 1978. Esta viagem lhe renderia um livro, mas que não seria publicado imediatamente, antes, em 1981, Pedro publica De Mão em Mão.
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COMEÇO
em pompéia meus olhos desertos
e colunas empinadas como a piroca dos vetti
que custa mille lire apreciar,
as turrbinas do jato monstruoso ainda roncavam
na memória de meus ouvidos apavorados,
- saudades não havia –
e os dias foram-se perdendo pelas fontanas,
pelas vias – del corso superiore, veneto, grimaldi,
e amalfi, siracura, agrigento, cidades
e mais cidades,
até dar, assim por acaso, com os labirintos
de ortygia, onde as nuvens,
refletidas nos espelhos das ruelas submarinas,
se parecem com cabelos,
gaivotas exímias em vôos incríveis sobre
o mar – um chicote -
e a falta de ar vinha também na tarde pura,
hotel garda, via lombardia,
(- que deus te perdõe, meu filho, e te guie,
por esta tua louca aventura!)
viagem pela Europa, Oriente Médio e Índia é cercada de causos e profundas impressões. Lá, Pedro viu muitos mendigos no Irã, aviões de guerra voando baixo pelas praias ao norte do estreito de Ormuz, a repressão da polícia nos carregadores de sacos de arroz ou trigo, os inúmeros shopping-centers de Cingapura e seu horror ao comunismo, o templo de Madurai no sul da Índia, chá de cadeira na entrada do Afeganistão, os space cakes em Kabul, os ônibus kamikases do Paquistão e um jardim coberto de cerejas, cinquenta graus de Lahore, o estranho eclipse de Katmandu, a sensação de estar num planeta distante, a suiça Maya e a impressão de que tudo fora um sonho.
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CARTA
um detalhe,
um canto mais amargo de seu riso
sob a lua da cidade,
palavras sugeridas num sarro dos ombros
enquanto as sombras da noite nos ultrapassavam,
de pouco me recordo, as imagens se apagam,
mesmo a sua ao telefone, indiferente
à partida, ao nosso desejo, ao corte de tudo,
- triste representação!
até logo, uma cerveja, um baseado,
dois, três, cinco cigarros e a parede suja
do quarto quando nada mais parece adiantar,
os ridículos milhares de quilômetros,
este inverno turco,
os pulmões encardidos,
este beco sem saída,
e você?
Quando voltou da Ásia, Pedro foi morar em Santa Tereza, do fim de 79 até 80. Porém, pouco tempo depois, foi morar em Botafogo com Martha da Costa Ribeiro. Permaneceu neste endereço até separar-se, um ano depois. Em 81 publicou o livro De Mão em Mão e foi morar na Rua Icatu, onde, em diferentes meses, dividiu o aparamento com Chacal e com Ledusha. No verão de 81/82, Pedro começa uma experiência com o pessoal do Rajnesh e com o grupo que iniciava o Circo Voador. Pedro ajudou a fundar o Circo, ajudando o Perfeito Fortuna a levantar fundos e até mesmo carregando cadeiras.
Aqueles olhos azuis http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
ABISMO
deste abraço
ao avanço da estrela mais íngreme
- apenas um passo,
os lugares menos reconhecíveis,
as lembranças mais frouxas
e uma voz rouca
fecham sobre mim seus lábios de tempestade
no pálio pálido da madrugada,
é tarde,
te amo
Em 1981, Pedro começa a frequentar as oficinas de teatro do Amir Haddad. Lá conhece Rosa, Sérgio Luz, Aninha Cretton e muitos outros. No meio disso, havia as peladas do Caxinguelê. Lá se reuniam o Vinicius Cantuária, Rodrix, Guabira, Novelli, Didito, Lula Lindeberg, Maurício Maestro. Chacal às vezes jogava. De 79 a 83, foram mais ou menos umas duzentas peladas. Era uma confraternização muito importante, eram encontros. Muitos artistas, sobretudo músicos. Nesta época, Pedro já havia passado por uma experiência na FACHA fazendo Comunicação, porém, não se encaixou. Escolheu a Odontologia como profissão.
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FUTUROS AMANTES
..e quem sabe, então, o Rio será
alguma cidade submersa…
Chico Buarque
Um dia, porém,
quando não mais houver, talvez, nem noites nem dias,
e do Rio restar somente, dissipada a atmosfera,
um indício, uma marca deixada nas pedras,
nas veias calcinadas do planeta;
quando viajantes remotos do Universo
por acaso aqui chegarem
e resolverem buscar algum signo sobrevivente
da história morta desse pequeno mundo,
encontrarão rabiscado no espaço azul do teu quarto,
perdido pelas cinzas da cidade,
um retrato – apenas um traço: a imagem fóssil
do amor inscrito por aquele que viveu louco por ti,
(e vive ainda, na imatéria de outros mundos)
e os amantes siderais, com esse traço,
se lembrarão do que é preciso,
aprenderão que nunca é tarde,
e hão de amar-se assim, perdidamente,
por toda a eternidade.
Pedro se tornou dentista. E por isso, tinha um conflito social: Não conseguia cruzar seus amigos artistas com seus amigos dentistas. Pedro costuma dizer que “Odonto tem um pouco a ver com artes plásticas, com poesia tem muito pouco,embora eu até tenha feito umas ligações, mas, não tenho muito saco pra explorar este filão. Não acho interessante ficar poetizando a “curva de spix” ou a “curva de Wilson”, ou as “polarizações axiais das cúspides de trabalho”. Por ironia, Pedro veio a se tornar o dentista de muitos do pessoal das artes. Sorriso total.
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VER DE TI
ver te quero – imenso trecho de desejo
suores trêmulos
penso, não vejo
te quero dentro
ver-te aqui – névoa sobre mim.
acordar – sair do sonho trágico
o ancorar mágico do dia
trapézio de vidro sobre o fio
da cidade.
de madrugada, os animais morrem
em silêncio, à beira do rio.
manhã fria – o outro lado do verso te espera
morceguiando a esfera sombria
figuras funestas fecham o círculo de ferro
sempre elas, na terra e no céu
casamatas na vista acirrada do artista
salto sobre o nada -
sem a bruma, pela brecha,
com seus peitos de mãe-musa,
cuida de ti em seu leito
e te mata.
de madrugada, os animais morrem
em silêncio, à beira da estrada.
Quando voltou do Marrocos, Pedro foi assistir ‘Trate-me Leão’ montado pelo Asdrúbal Trouxe o Trombone no Morro da Urca. Lá, reencontra com Charles Peixoto e Chacal, da Nuvem Cigana, Perfeito Fortuna e Evandro. Foi morar novamente em Santa Teresa. Nesta época conhece o Milton Machado e Malena Barreto. Também participa da reuniões na casa do Cacaso, onde conhece o Chico Alvim. Inicia uma amizade com Ana Cristina Cesar. Também nesta época houve um recital de poesia na Álvaro Ramos organizado pela Ana e sua prima Grazinska onde foram a Nuvem Cigana e o Ferreira Gullar.
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DUAS FACES
a noite vazia, a noite nua,
um palmo de lua, a noite completa,
sereia lânguida a meio luar,
jogo de sombras, céu a reinar…
mas já o dia mostra suas garras líquidas,
- suas guerras íntimas:
o lado mais louco do despertar,
penhascos a que me aferro – o perigo!
nado bem pouco,
não me afogar é o que persigo,
não me perder nos negros rios do azar,
à revelia da lua, da noite do eterno mar -
o príncipe mar, o rei mar, a deusa mar – amar!
A experiência com o Tá na Rua é do início dos anos 80. Pedro frequentava as oficinas do Amir Haddad. Formou-se um grupo que logo levou o nome de “Instituto”. Em 83, Pedro foi morar no Jardim Botânico. No Tá na Rua, Pedro conhece Rosa Douat e Sérgio Luz, que viriam a ser seus grandes amigos para a vida toda. Era teatro de rua aos domingos, oficinas na casa do estudante às segundas e reuniões nas manhãs de terça e quinta com o grupo que não era o titular do Tá na Rua. A experiência culminou na montagem de “Morrer pela Pátria” no Teatro Villa Lobos em 1985.
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SILENCIO, O SILENCIO, SILENCIO
ouve vozes, se assusta, o meu silêncio.
arrojam-se vozes das torres do dia quente,
o silêncio noturno da alma desprega-se,
abandona o frescor cristalino,
transpira, se alarma, ajeita o nó da bravata,
abre seus grandes olhos insones -
brilhantes olhos, eloquentes de silêncio.
o silêncio vazio da alma estilhaça-se
na lama do dia e sorri respingando de preces,
as vozes, os sonhos, o começo e o fim da condição
humana, não humana, humana.
para onde vai o silêncio no isolamento dos passos
pelo vento áspero da tarde?
quem passa não sabe: ele arde, longe das horas,
das rodas pensantes da horda,
a flor do silêncio sorri tranquilamente
entre a última morte e o próximo encontro
(ou pensamento)
o silêncio se nutre na floresta do deus-mar,
ondulante senhor dos segredos, irmão do tempo sem dono,
o silêncio fio de espada – sem adeus, sem amor, sem engano,
o silêncio apenas, mais nada – amante das ondas-fantasmas:
o Cosmos é a sua morada.
Em 1983, Pedro conhece Juliana Prado Teixeira no Tá na Rua. Não demoraria muito para ficarem juntos, se casarem e terem seu primeiro filho, Manoel. São vinte e oito anos juntos. Viravolta foi publicado em 1985, livro que conta toda a experiência da viagem à Europa e Ásia com seu amigo Luis Olavo Fontes. Poemas e um pouco de prosa. Pedro neste época morava no Jardim Botânico com Juiana e o pequeno Manoel. Permance lá até 1992, quando se muda para Teresópolis.
Há, há, há em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
TEORIA
Poder simplesmente esquecer-te
no instante em que partíssemos
e amar-te com extrema ternura
assim que nos reencontrássemos
Fazer amor aventura como se
nunca de amar nos deixássemos
(um beija flor vem beber
preso a seu vôo de átomo
as gotas-diamantes que explodem
na límpida cachoeira do parque
nego beija-flor na tarde cintila
imerso no perfume das pedras lavadas
com o sêmen da montanha viva)
Há alguns bons anos, Pedro Lage é responsável por um recital de poesia que se chama ‘Conversa Portátil’ em homenagem a um livro do poeta Murilo Mendes. Começou em Teresópolis, no Bar Cottage. Juliana fazia esquetes teatrais todo sábado a noite com Airton Rebelo chamados Teatro a Vapor. Pedro começava com dez minutos falando poemas. O primeiro poeta era Augusto dos Anjos. Já estamos no ano de 1994. Depois Pedro encontra com Henrique Cukierman no ônibus voltando para o Rio e o convidou para participar. Henrique permaneceu no recital por dez anos. Sempre homenageando um poeta com convidados. Jorge de Lima, Murilo Mendes, Maiakovski, Brecht, Lorca e outros tantos. Muitos passaram pelo ‘Conversa Portátil’, muitos, ali, inclusive, recitaram pela primeira vez em público.
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O FINAL
Aí, ela teve que me deixar.
Contra a vontade e tudo o mais.
Amor possuía mas tudo tem um limite,
chega uma hora em que não dá mais, aliás,
elas sempre acabaram me deixando, um dia,
desde às primeiras lembranças.
Laura me largou no meio de uma sessão de cinema;
Rita perdeu-se na Serra, (fui atrás dela,
sofri, dormi ao relento, o diabo);
Dora deixou-me com as calças dependuradas na noite,
fazia frio, vaguei horas na escuridão;
Elizete partiu de repente, nem um bilhete, nada;
Eugênia espetou-me um postal na cortina do quarto;
Mary, uma foto antiga, muita saudade;
Luiza me abandonou de uma maneira radical,
torto, irrecuperável quase.
Ela também me deixou, ora, por que não haveria?
O lançamento de Entrevista com o Chipanzé foi em um bar GLS na Rainha Elizabeth em 1996. Houve um recital com direito a uma pequena banda formada por Gil de Windsor, George Clark e Chico Lá. Depois o lançamento foi no Museu da República até chegar em Teresópolis. Pedro já com dois filhos, Manoel e Nicolau, ambos, fruto do casamento com Juliana. A Conversa Portátil já bem estabelecida e a poesia caminhando bem.
Tradução de Le Bateau Ivre no http://pedrolago.blogspot.com
DO AMOR
A poesia se escreve no silêncio de um quarto vazio
- um parque vazio de estrelas espelhos e sombras,
gruta de beijos-cascatas e sabiás brejeiros que por
ali não passam, mas despejam seu aroma, seu sabor
em algum canto do Universo – e um bilhete na mão.
A poesia se inscreve num olhar de mulher nesse quarto,
a mesma noite de frio – ou no calor de um verão invencível
em que o poeta não se derreta jamais em si mesmo…
A poesia eu não escrevo, eu muito,
o manto desta verdade arde em meus olhos vivos,
tuas lágrimas sem conta, o luar mais triste sobre a canção
feita pra ti, por mim, por todos nós que somos um – e teu,
pra sempre teu.
‘Cal do Cosmos’ foi publicado em 2004. Após quase dez anos sem publicar, Pedro, então com 59 anos, voltaria. Ao longo desse período, desenvolvendo a ‘Conversa Portátil’, percorreu todos os lugares onde ainda se diz poesia no Rio de Janeiro. Passaria também outro hiato de sete anos até seu último livro ‘Dicionário de Estrelas’, lançado na Casa de Cultura Laura Alvim, em 2011. Este, reunindo seus 35 anos de poesia, com seleção de poemas de seus livros e uma penca de inéditos.
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SABER QUE TE AMO
à minha Juju
Saber que te amo – apenas um prisma
da verdade que nos recorta
com sua alameda de abismos,
sua força de vida, seu desespero
de um dia ter de renunciar a esse tesouro.
Saber que te amo -
pôr-do-sol e aurora concorrentes,
um dia recoberto por farinha de estrelas,
neve crepitante de encontros e solidões
sem limite.
Saber que te amo -
entrego-me a este aprisco e me preparo
para a morte deliciosa dos corações que deliram
imersos na certeza de ter somente um amor
verdadeiro.
Saber que temo – que te amo assim,
infinitamente,
por inteiro.
Então, Pedro Lage torna-se avô pela primeira vez. Francisco, ou Chiquinho. E disse que a poesia ficou em suspenso quando ele veio, tamanha era a satisfação, mas, logo depois, voltou aos trabalhos que vieram a compor ‘Dicionário de Estrelas’. E por aqui ficamos nesta pequena antologia ao poeta Pedro Lage. Na semana que vem, outro universo poético, outra biografia, caminho, percalço, liame entre um poema e outro.
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SE PODES
Se podes andar sobre as águas
não és melhor que uma palha,
se podes voar pelo espaço
não és melhor que uma mosca;
conquista teu coração
para que possas tornar-te alguém.
Abdulah Ansari
Se podes exterminar outro,
não és melhor do que um vírus;
es podes destruir uma cidade, uma floresta,
não és melhor do que um míssil, uma motosserra.
Afeiçoa-te primeiro a teu próprio coração
para que possas amar-te e amar alguém:
só assim frutificarás realmente,
e tua vida não terá sido em vão.