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Euclides da Cunha

dezembro 6, 2011

No dia 20 de janeiro de 1866, nasce Euclides Rodrigues da Cunha, na Fazenda da Saudade, em Santa Rita do Rio Negro, atual Euclidelândia, no município de Cantagalo, Rio de Janeiro. Fillho de Manoel Rodrigues Pimenta da Cunha e Eudóxia Alves Moreira, o jovem foi batizado, apenas, no dia 24 de novembro. Entraremos, então, na obra poética, pouco difundida, deste grande escritor brasileiro. Evoé Euclides!

Thunder, thunder, hhhôôôuh! em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

EU QUERO…

Eu quero à doce luz, os vespertinos pálidos,
Lançar-me, apaixonado, entre as sombras das matas -
- Berços feitos de flores e de carvalhos válidos,
Onde a Poesia dorme, aos cantos da cascatas…

Eu quero aí viver – o meu viver funéreo,
Eu quero aí chorar – os tristes prantos meus…
E envolto o coração, nas sombras do mistério,
Sentir minh’alma erguer-se entre a floresta e Deus!…

Eu quero aí unir a voz de meus martírios
C’os trenos, que murmura a brisa nos palmares
- As lágrimas guardar, no seio azul dos lírios,
E os soluços no seio dos trêm’los nenúfares…

Eu quero, da ingazeira – erguida aos galhos úmidos,
Ouvir os cantos virgens – da agreste patativa…
Da natureza eu quero nos grandes seios túmidos
Beber a Calma, o Bem e a Crença – ardente, altiva -

Eu quero, eu quero ouvir o esbravejar das águas
Das ásp’ras cachoeiras que irrompem do sertão…
- E a minh’alma cansada – ao peso atroz das mágoas -
Silente adormecer no colo da solidão…

Em1868, nasce a irmã de Euclides, Adélia, no dia 9 de agosto. Um ano depois, o pequeno Euclides, com apenas três anos de idade, torna-se órfão de mãe, vítima de uma tuberculose. Com isso, em 1870, muda-se com a família para Teresópolis, no Rio de Janeiro, para a casa de seus tios Rosinda e Urbano Gouveia, porém, sua tia, Rosinda, que havia ocupado o posto de mãe em sua criação, também morre.

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O JAGUAR

Livre das selvas que trazes
Na garra – o pavor da terra,
No peito – as canções da guerra
Nos olhos – chamas audazes!

Quando convulso tu bramas
Nas brenhas – bravo, possante -
E o Sol te arranca, ofuscante,
Do olhar – punhados de flamas!…

Quando na raiva sem termos -
Povoas – fremindo forte
Com um poema de morte
A calma mudez dos ermos!;

Lembras o meu coração!…
Livre qual tu, qual tu forte
Freme, palpita sem norte
De meu peito na solidão!…

Salta – estaca – bravo, lesto
Cheio de amor e ódio, deixa
Uma blafêmia uma queixa
Um poema em cada esto…

Se a trevosa e fria vaga
Da desgraça nele bate
Ele blasfema am embate
Crê Satã e ruge a praga!

Jaguar! ida a raiva tua
Imóvel, calmo tu lavas
Do sangrento olhar as lavas
No argênteo clarão da Lua…

Meu coração – ida a dor
Chora e canta – entre a soidade -
- No saltério da saudade
A Eterna harmonia: – o amor!…

Depois da morte de sua tia Rosinda, em 1871, Euclides se muda para São Fidélis, no Rio de Janeiro, com a irmã e passa a morar com os tios Laura e Cândido José Magalhães Garcez, na Fazenda São Joaquim. Um ano depois, matricula-se no Colégio Caldeira, sob direção de Francisco José Caldeira, que era um pedagogo português. Em 1878, mais uma mudança, desta vez, para Salvador, Bahia, para, morar com a avó e passa a estuda no Colégio Bahia.

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OS GRANDES ENJEITADOS

Servis!… dançai, folgai – na régia bacanália…
Quadro-voz essa luz que nos raios espalha
A treva e o crime atrai!…

Valsai – nesse delírio atroz, brutal que assombra -
Folgai… a grande Luz espia-vos na sombra!
Folgai, cantai – valsai!…

Que vos importa – ó vis, caricatos atletas -
Se o povo dorme nu – nas lôbregas sarjetas -
Entre o pântano e os Céus!….

Q’importa se essa luz – faz as noites da História!
Q’importa se os heróis ‘stão entre a lama e a Glória
Entre a miséria e Deus!…

Q’importa-vos a dor; – a lágrima brilhante
Do seio dos heróis -, estrela palpitante
Que ao céu do porvir vai…

Q’importa-vos a honra, a consciência, a crença,
A justiça, o dever!?… ah! vossa febre é imensa! -
Folga, folgai, folgai!…

Q’importa-vos a Pátria…a pátria – é-vos um nome!….
Q’importa-vos o povo – esse galé da fome -
Ó cortesãos, ó rei!?

Se o olhar das barregãs, de amor e febre aceso
Vos ferve dentro d’alma – e se o direito é preso
Nessa grilheta – Lei!

Fazeis bem em rir – ó pequeninos seres…
O crime, o vício e o mal são os vossos deveres -
Avante pois – gozai…

Atufai-vos – rolai ó almas guarida -
No abismo fundo e frio – o seio da perdida!…
– Cantai… cantai, cantai!…

Gritai com força! assim… não percebeis agora
O eco de vossa voz?… – de vossa voz sonora -
Tremer na vastidão!?

Não ouvis as canções que o seu frêmito espalha?…
Ele desce de Deus – ó dourada canalha -
Ele é – Revolução!…

Em 1879, Euclides volta para a região fluminense para morar com seu tio paterno, Antônio Pimenta da Cunha, em uma chácara nas imediações do atual Largo da Carioca e matricula-se no Colégio Anglo-Americano. Em 1880, muda novamente de escola, agora frequenta os colégios Vitório da Costa e Meneses Vieira e faz os preparatórios. Em 1883, inicia estudos no Colégio Aquino sob a supervisão de Benjamin Constant. Com alguns colegas, passa a editar o periódico mensal ‘O Democrata’ lançado em 1884, no qual Euclides publicará seu primeiro trabalho em prosa. Também declama poemas no Centro José de Alencar. São dessa época seus primeiros poemas.

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AO CLARÃO DAS FORJAS

Ó fronte varonil – brônzea, dominadora
Que a palpitante luz das fornalhas aclara…
- Alma – altiva e viril, como o bronze – sonora,
Tão rija como o aço e como as forjas – clara!…

Combatente da paz nas lutas do trabalho,
Tu – que ani’las com o olhar – a fome tenebrosa;
E fazer teu porvir – com o ferro, o fogo e o malho
- Dá-me esta áspera mão dá-me esta mão calosa!…

Esta ásp’ra mão robusta, ardente, válida – esta
Mão – que os malhos levanta e, esplêndida à vibrá-los
- Férrea e grande – produz do progredir a orquestra!
- Dá-me esta mão que veste – uma luva de calos!…

E deixa te dizer em cálida linguagem
Ígnea – como o suor – com o qual a fronte adornas -
Como tu’alma – brava, intérmina, selvagem -
- Ásp’ra como a canção sonora das bigornas…

Não invejes – jamais – aos que a sorte fagueira
As frontes osculou descendo um áureo traço -
Eles têm o futuro e a crença – na algibeira -
Tu – tens a crença n’alma – e o futuro – em teu braço.

Em 1885, Euclides entra na Escola Politécnica no Largo de São Francisco no Rio de Janeiro. Um ano depois assenta na Escola Militar da Praia Vermelha como cadete número 308, estundando com Cândido Rondon e Tasso Fragoso. Datam desta época, poemas filosóficos e melancólicos. Passa a colaborar com artigos e poemas na Revista da Família Acadêmica editada pelos alunos da Escola Militar. Porém, um incidente mudaria seu percurso.

Os ossos em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

VIAM-NO SEMPRE A DIVAGAR TORVADO

Viam-no sempre a divagar torvado
Pelas tabernas vos, – sempre seguido
De um velho cão famélico e ferido,
Bêbado – impuro, torpe e enlameado…

Veio afinal o inverno amaldiçoado!…
No negro quarto o homem enf’recido
E o cão vacilam ante empedernido,
Vil pedaço de pão – duro e gelado…

Ambos têm fome… torvo – lutulento
Ao pão gelado o miserável corre
E atira-o ao companheiro famulento

Do quarto os cantos a tatear percorre
Erguendo uma garrafa – esgota-a lento
E cambaleia e cai e arqueja e – morre!…

Há duas versões para o incidente da Escola Militar de 1888. O primeiro foi que os alunos do terceiro ano, que não haviam recebido promoção, segundo a lei, para o posto de alferes-alunos, dentre eles, Euclides, organizaram um manifesto aberto diante o Ministro da Guerra do Império, Tomás Coelho, para quando visitasse a escola. A segunda versão conta que os alunos aguardavam para assistir ao desembarque de Lopes Trovão, que voltava da Europa. A questão é que uma visita regulamentar de Tomás Coelho foi marcada no mesmo dia para impedir os alunos de irem ao desembarque. Pois bem, durante o desfile, Euclides saiu da forma, e em vez de levantar seu sabre-baioneta de sargento em saudação, tenta quebrá-lo no joelho, joga-o no chão e profere palavras de protesto. Por isso, é preso, expulso da escola, considerado “doente dos nervos”, e se recusa a mentir no depoimento para aliviar sua pena. É expulso do exército e vai para São Paulo, onde começa a escrever para o jornal ‘A Província de S. Paulo’.

O poema Corpo Aberto aqui http://pedrolago.blogspot.com

A RIR

Eu já não creio mais… sombrio e calmo enfrento
- O lábio ermo da prece; o peito ermo da crença -
A estrela – rubra e imensa
De meu destino atroz, aspérrimo e sangrento!…
E embora sobre mim flamívoma suspensa
Em minh’alma os clarões fatais ela concentre
Eu suporto-lhe bem o flamejante baque
- Altivamente calmo – entricheirando-me entre
Uma canção de Byron
E um cálix de cognac…
- Não há dor que resista ao som de uma risada! –
Depois – se me exacerbo
E tremo e choro erguendo a prece à alma magoada
Mais me dói essa dor, mais esse mal é acerbo!
Assim – eu resolvi, indiferente e frio
Cheio de orgulho e spleen – como um banqueiro inglês!
Sepultar na ironia o pranto meu sombrio…
Por isso quando atroz na triste palidez
De minha fronte paira amarga ideia – eu rio!…
E quando pouco a pouco
Essa ideia me abate e vence-me alterosa
De amargores repleta – eu rio como um louco…
E se ela inda dói mais e forte e tenebrosa
Sói a último idela de minh’alma aniilar
E vencer-me de todo
Então – eu me ergo mais – e desvairando o olhar
– Divinamente doido -
Eu rio, rio muito e rio – até chorar!…

Em 1889, Euclides volta ao Rio de Janeiro e presta exames para a Escola Politécnica. No dia 16 de novembro, chega-lhe a notícia da proclamação da República. No mesmo dia, visita o major Solon Ribeiro, e participa de uma reunião em sua casa. Euclides, enfim, é reintegrado ao exército graças ao apoio do novo Ministro da Guerra, seu antigo mestre, Benjamin Constant. Dois dias depois é promovido a alferes-aluno. Publica em ‘A Província de São Paulo’ uma série de oito crônicas intitulada ‘Atos e Palavras’. Seu trabalho com as crônicas se estende, e Euclides assina mais quatro crônicas no mesmo jornal.

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RIMAS

Ontem – quando soberba escarnecias
Dessa minha paixão – louca – suprema
E no teu lábio essa rosada algema
A minha vida – gélida – prendias…

Eu meditava em loucas utopias
Tentava resolver grave problema…
- Como engastar tu’alma num poema? -
E eu não chorava quando tu rias…

Hoje – que vives desse amor ansioso
E és minha – és minha, extraordinária sorte,
Hoje eu sou triste sendo tão ditoso!…

E tremo e choro – pressentindo – forte
Vibrar – dentro em meu peito, fervoroso
Esse excesso de vida – que é a morte…

Em 1890, Euclides matricula-se na Escola Superior da Guerra, no dia 8 de janeiro, e completa, em 11 de fevereiro, o curso de artilharia. Não demora muito a ser promovido a segundo-tenente e, em seguida, oficial do Batalhão Acadêmico. No dia 10 de setembro do mesmo ano, Euclides casa-se com Ana Ribeiro, ou “Saninha”, filha do major Solon Ribeiro. No ano seguinte, recebe um mês de licença para tratamento de saúde e vai para a Fazenda Trindade, de seu pai, em São Paulo. Quando se prepara para fazer os cursos de Estado-Maior e Engenharia Militar na Escola Superior de Guerra, morre sua primeira filha, Eudóxia, semana depois de seu nascimento.

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OS LEMURES

Ó minha musa – imaculada e santa!
Deixa um momento os sonhos teus benditos
Despe os teus véus de noiva do ideal
Deixa-os, despe-os e canta
Sobre as ruínas trágicas do mal
As almas arruinadas dos malditos!…

Em 1892, Euclides conclui os cursos de Estado-Maior e Engenharia Militar na Escola Superior de Guerra e é promovido a tenente do Estado-Maior. Começa a colaborar com O Estado de São Paulo sob o pseudônimo de José Dávila com crônicas. Em novembro deste ano nasce seu primeiro filho Solon e começa a trabalhar na Estrada de Ferro Central do Brasil no trecho entre São Paulo e Caçapava depois de ter solicitado posto a Floriano Peixoto. Em dezembro do ano seguinte, 1893, durante a Revolta da Armada, Euclides é designado a servir provisoriamente na Diretoria de Obras Militares para dirigir a construção de trincheiras no Morro da Saúde, no Rio de Janeiro.

Pedro Lage em http://cartilhadepoesia.wordpress.com

ESTANCIAS

Les beaux yeux sauvent beaux vers!…
V. Hugo

Meu pobre coração tão cedo aniquilado
Na ardência das paixões – ó pálida criança -
Revive à doce luz do teu olhar magoado

E cheio de ilusões, de crenças e esperança
Faz o castelo ideal das louras utopias
- Com os brilhos desse olhar e o ouro de tua trança! -

Quando sobre as sombrias
Ondas – vasto luar esplêndido se espalma
De todo o seu negror, arranca as ardentias

De teu olhos assim à luz divina e calma
Dimanam – cintilando – as ilusões e os versos
Das sombras de minh’alma…

E sonho e canto e rio e me deslumbro… imersos
- No místico luar que sobre mim derramas -
Fulguram como sóis meus ideais dispersos!…

Fulguram como sóis – entre sonoras flamas -
Partindo no meu peito a tétrica penumbra
E o silêncio fatal de dolorosos dramas…

E tudo hoje antes tem luz, tem voz – deslumbra -
Pois – tal como um ideal – uma canção ressumbra -
E em cada uma canção – o teu olhar cintila…

Em 1894, Euclides publica um polêmico artigo na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, replicando o modo punitivo sugerido para a execução dos prisioneiros pelo senador florianista João Cordeiro, do Ceará, durante a revolta da Armada. Os protestos, porém, surtiram efeito contrário e houve desconfiança dos militares que o afastaram, pouco a pouco do campo da ação. Floriano Peixoto e outros jacobinos não o apoiam mais. Ao fim da revolta, é transferido par Campanha, em Minas Gerais, para a reforma do prédio da Santa Casa de Misericórdia. Este período é marcado por estudos. No dia 18 de julho do mesmo ano, nasce seu segundo filho, Euclides, o Quindinho.

A lua em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

D. QUIXOTE

Assim à aldeia volta o da triste figura
Ao tardo caminhar do Rocinante lento;
No arcabouço dobrado um grande desalento,
No entristecido olhar uns laivos de loucura.

Sonhos, a glória, o amor, a alcantilada altura,
Do ideal e da fé, tudo isto num momento,
A rolar, a rolar, num desmoronamento,
Entre risos boçais do bacharel e o cura.

Mas certo, ó D. Quixote, ainda foi clemente,
Contigo a sorte ao pôr neste teu cérebro oco,
O brilho da ilusão do espírito doente;

Porque há cousa pior: é o ir-se pouco a pouco
Perdendo qual perdeste um ideal ardente
E ardentes ilusões e não se ficar louco.

Em 1896, Euclides, já reformado do exército, retorna a São Paulo, onde é nomeado engenheito-ajudante de primeira classe da Superintendência de Obras Públicas do Estado de São Paulo. Neste momento, estreita laços de amizade com Gonzaga de Campos, Teodoro Sampaio e Bueno Andrade. Visita várias cidades do interior paulista, e sobretudo, São José do Rio Pardo. Em novembro deste ano, irrompe o movimento de Canudos.

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PÁGINA VAZIA

Quem volta da região assustadora
De onde eu venho, revendo inda na mente
Muitas cenas do drama comovente
Da Guerra despiedada e aterradora,

Certo não pode ter uma sonora
Estrofe, ou canto ou ditirambo ardente,
Que, possa figurar dignamente
Em vosso Álbum gentil, minha Senhora.

E quando, com fidalga gentileza
Cedestes-me esta página, a nobreza
Da vossa alma iludiu-vos, não previstes

Que quem mais tarde nesta folha lesse
Perguntaria: “Que autor é esse
De uns versos tão mal feitos e tão triste”?!

Em 1897, Euclides publica “Distribuição dos Vegetais no Estado de São Paulo” em O Estado de São Paulo no mês de julho. No mesmo mês, saem a primeira e a segunda parte do primeiro ensaio sobre a guerra de Canudos, “A Nossa Vendéia”. A convite de Júlio Mesquita, proprietário d’O Estado de São Paulo, Euclides aceita realizar reportagem sobre a guerra de Canudos, agregando-se à comitiva militar do Ministro da Guerra, Marechal Bittencourt. Parte de navio para Salvador e passa 23 dias na casa de seu tio, observando os acontecimentos pelos jornais e enviando artigos para São Paulo.

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NESTES TRES DIAS ESPLENDIDOS

Neste três dias esplêndidos
Em que o Prazer tudo arrasa
Desde o cristão ao ateu,
Quem se sente neurastênico
Faz como eu,
Fica em casa.

No dia 30 de agosto de 1897, Euclides deixa o Rio de Janeiro para iniciar a grande jornada pelo sertão baiano: Alagoinhas, Queimadas e Monte Santo, onde chega no dia 6 de setembro e de onde parte no dia 13, para chegar a Canudos no dia 16. Ali escreve as primeiras notas de Os Sertões. Terminada a guerra, parte para o arraial logo em seguida, para depois de dias no local, voltar ao Rio de Janeiro. No início de 1898, assume seu cargo na Superintendência de Obras Públicas de São Paulo. Em janeiro aparecem os primeiros textos públicos de Os Sertões n’O Estado de São Paulo.

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NOTA PROSAICA

Sábio… o título diz que a fantasia
do Juvenal mineiro é vasta; fá-lo
ver em mim a quem só em nome igualo:
o venerando avô da geometria…

Desculpo-o. Quem com tanta galhardia
ergue uma fronte branca feita em halo,
ou nimbo, que nos leva a venerá-lo,
tem jus à mais perfeita cortesia.

Que passe, pois, o sábio; e que os tercetos
(versos de prosador que os faz tão mancos)
Acabem o mais feio dos sonetos,

num cumprimento e nos aplausos francos
de uma velhice de cabelos pretos
à mocidade de cabelos brancos!

Em 1899, em São José do Rio Pardo, Euclides tem o auxílio de Francisco Escobar, um amigo, que disponibiliza sua biblioteca para consulta enquanto Euclides faz crescer o texto de Os Sertões. Nesta época publica o artigo “A Guerra no Sertão” na Revista Brazileira. Em maio de 1900, pede a José Augusto Pereira Pimenta, cabo do destacamento local, para passar a limpo o manuscrito de Os Sertões. Publica o artigo “As Secas do Norte” no Estado de São Paulo. Seu grande livro estaria muito próximo de sair, porém, enfrentaria alguns percalços.

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LE?… NÃO LE. AQUELE AR NÃO É POR CERTO

Lê?… Não lê. Aquele ar não é por certo
De quem medita. É o ar de quem atrai.
E se qualquer de nós, naquelas praias,
Aparecesse, quedaria incerto.

Sem saber distinguir quem mais nos trai
- Entre a insídia de uma onda ou de um afago
Se o velho mar misterioso e vago,
Ou esse abismo de roupão e saia!

Em 1901, nasce, em São José do Rio Pardo, seu terceiro filho, Manuel Afonso. Em dezembro deste ano, após passar um período no interior de São Paulo, Euclides segue para o Rio de Janeiro, com os originais de Os Sertões. É encaminhado para a Livraria Laemmert cujo editor não se interessa pela obra. Euclides então resolve custear parcialmente a primeira edição do livro, pela qual paga um conto e quinhentos mil-réis. Em janeiro de 1902, recebe as primeiras provas do livro. Nos primeiros dias de dezembro deste ano, Euclides recebe carta da editora saudando-o pelo sucesso do livro. A primeira edição esgotara em poucas semanas. O livro fora bem recebido pelos críticos da época, Araripe Júnior, José Veríssimo e Sílvio Romero.

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SE ACASO UMA ALMA SE FOTOGRAFASSE

Se acaso uma alma se fotografasse
De modo que nos mesmos negativos
A mesma luz pusesse em traços vivos
O nosso coração e a nossa face;

E os nossos ideais, e os mais cativos
De nossos sonhos… Se a emoção que nasce
Em nós, também nas chapas se gravasse
Mesmo em ligeiros traços fugitivos.

Poeta! tu terias com certeza
A mais completa e insólita surpresa
Notando, deste grupo bem no meio,

Que o mais belo, o mais forte e o mais ardente
Destes sujeitos, é precisamente
O mais triste, o mais pálido e o mais feio…

No dia 9 de junho de 1903, Euclides lança a segunda parte de Os Sertões. Uma crise orçamentária motivada pela crise do café fez com que o Governo cortasse verbas destinadas à construção e melhoramentos de obras públicas, e por isso, Euclides deixa o posto, obrigado. Porém, no dia 21 de setembro, Euclides é eleito por uma margem de 41 votos, membro da Academia Brasileira de Letras, na cadeira de Valentim Magalhãe, cujo patrono é Castro Alves.

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DESPEDIDA

No momento cruel da despedida,
Gelado o lábio, mudo, hirto, sem ar,
Eu vi sua alma, de ilusões despida,
Tremer à luz de seu tão triste olhar.

E eu não chorei… Seu peito – a alva guarida
De minha alma – chorava em doudo arfar…
E eu não chorei, mas eu senti a vida
Das lágrimas ao peso se curvar!…

Saí, andei, corri, parei cansado.
Voltei-me e longe, longe eu vi asinha
- Garça de amor fugindo pr’a o passado

Branca, pura, ideal, – sua casinha -
E as lágrimas de amor deixei – domado -
Constelarem da dor a noite minha!

Em janeiro de 1904, Euclides é nomeado engenheiro-fiscal da Comissão de Saneamento de Santos, porém, após três meses, por causa de um desentendimento com o gerente da City of Santos Improvements, Hugh Stenhouse, e com Eugênio Lefreve, diretor da Secretária de Obras Públicas, pede demissão. Na falta de dinheiro, volta a escrever para O Estado de São Paulo. Logo depois, Euclides, por indicação, é nomeado chefe de Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus, que estabeleceria a fixação limítrofe entre Brasil e Peru. Nesta oportunidade, conhece o Barão do Rio Branco.

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A CRUZ DA ESTRADA

Ah! que de vezes quando no ar desfila
A treva, e as sombras a amplidão negrejam
E das estrelas que no céu palejam,
O vasto poema aos pés de Deus cintila.

E mil perfumes as campinas pejam
E da floresta o coração destila
Um vago som que em nosso ser instila,
Gerando sonhos que em noss’alma adejam.

Quando há na terra uma magia imensa
Eu – que não tenho a vida d’alma – a crença
Nem uma prece que divina sagre-ma.

Eu (oh! dizei-me o que a solidão exprime!)
Eu rezo um nome – Minha mãe! – sublime
E me ergo a Deus nos brilhos de uma lágrima.

Em 1905, Euclides parte para Manaus para o Purus. Lá contrai forte impaludismo. Em julho deste ano ocorre o banquete de Curanja, em homenagem à duas comissões, onde Euclides discursa lamentando a ausência da bandeira brasileira. Em 1906, volta ao Rio de Janeiro e torna-se adido do Barão do Rio Branco. Publica o artigo “Entre os Seringais” e o “Relatório da Comissão Mista Brasileiro-Peruana de Reconhecimento do Alto Purus. Em julho, nasce quarto filho, Mauro, da esposa com Dilermando de Assis. A criança veio a falecer uma semana depois do nascimento. Em dezembro, toma posse na Academia Brasileira de Letras tendo sido recebido por Sílvio Romero.

Tatu com Tabasco em http://equivocos-pedrolago.blogspo.com

AMOR ALGÉBRICO

Acabo de estudar – da ciência fria e vã
O gelo, o gelo atroz – me gela ainda a mente
Acabo de arrancar a fronte minha ardente
Das páginas cruéis de um livro de Bertrand.

Bem triste e bem cruel de certo foi o ente
Que este Saara atroz – sem auras, sem manhã
A Álgebra criou – a mente a alma mais sã
Nele vacila e cai sem um sonho virente…

Acabo de estudar e pálido, cansado
Dumas dez equações os véus hei arrancado…
Estou cheio de spleen, cheio de tédio e giz

É tempo, é tempo pois de trêmulo ansioso
Ir dela descansar no seio venturoso
E achar de seu olhar o luminoso X!…

Euclides passa todo o ano de 1907 sem cargo fixo, aborrecido, mantendo-se de favores. Em novembro, nasce quinto filho, Luís, de sua esposa com Dilermando. Sua tuberculose volta a se manifestar. Em dezembro presta conferência sobre Castro Alves. Em maio de 1909, presta concurso para a cadeira de Lógica no Ginásio Nacional, onde hoje é o Colégio Pedro II. Fica em segundo lugar, atrás de Farias Brito, porém, Euclides renuncia meses depois.

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MEU POBRE CORAÇÃO TÃO CEDO ANIQUILADO

Meu pobre coração tão cedo aniquilado
Na ardência das paixões, ó pálida criança,
Revive à doce luz do teu olhar magoado;

E cheio de ilusões, de crenças e esperança,
Faz o castelo ideal das loiras utopias
Com a luz do teu olhar e o ouro de tua trança.

Quando pelas sombrias
Ondas do oceano o luar vastíssimo se espalma,
De todo o seu negror desprende as ardentias.

De teus olhos, assim, à luz divina e calma,
Dimanam, fulgurando, as ilusões e os versos
Das sombras da minha alma…

Euclides chega a dar dez aulas na cátedra de Lógica do Ginásio Nacional quando é morto tragicamente com quatro tiros por Dilermando de Assis, amante de sua esposa, na casa número 214 da Estrada Real de Santa Cruz, estação da Piedade, hoje, Quintino Bocaiúva, subúrbio do Rio de Janeiro. Seu enterro foi realizado no cemitério São João Batista, recebendo sua sepultura o número 3.026. Nesta época, Euclides morava em Copacabana. Deixou uma resenha incompleta sobre o Barão Homem de Melo e de Francisco Homem de Melo. Seus restos mortais se encontram em São José do Rio Pardo, São Paulo, e em Cantagalo, Rio de Janeiro. Ficamos por aqui, até a próxima, beijo grande.

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VOLTA À ALDEIA

E assim à aldeia torna el da triste figura.
Acabrunhado e triste, exangue e macilento
Na acorvada postura – em torno desalento
No desvairado olhar – um laivo de loucura.

Dias de Glória! Ideais! A alcantilada altura
De um sonho! Nada mais resta de tal intento.
Essa nossa carcaça vil – o Rocinante lento
E amigos carnais – o bacharel e o cura…

Feliz Herói! Que importa o riso mau das gentes
Se ele não sói entrar dentro de um crânio oco
Repleto das visões dos cérebros doentes…

Há uma coisa pior que é ir-se a pouco a pouco
Perdendo qual perdeste – ideais grandes e ardentes
E ardentes ilusões – e não ficar-se louco!

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