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Poesia francesa

dezembro 18, 2011

Semana de traduções, pois, traduzir é preciso. Un souvenir de Noel. Paul Valéry dizia que “o poema é uma duração, na qual, leitor, respiro uma lei que foi preparada”. Tem aquela importância, não só pelo notável simbolismo, muito influenciado pelo Mallarmé, mas por ter pensado a poesia, a linguagem, o que sustenta. Foi redator no Ministério da Guerra, trabalhou na Primeira Guerra Mundial, para, logo depois, ser aceito na Academia Francesa. Traduzir não é trair, embora a etimologia nos leve para essa máxima. Paul Valéry, 30 de outubro de 1871 a 20 de julho de 1945.

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HELÈNE
de Paul Valéry
tradução de Pedro Lago

Azul! Sou eu… Venho das grutas da morte
Escutar a onda se romper aos degraus sonoros,
E revejo as galés dentro das auroras
Ressucitarem da sombra ao fio dos ramos de ouro.

Minhas solitárias mãos chamam os monarcas
Cuja barba de sal divertia meus dedos puros;
Eu chorava. Eles cantavam seus triunfos obscuros,
E os golfos enterrados às popas de seus barcos,

Eu escuto as conchas profundas e os clarins
Militares ritmarem o vôo dos remos;
O canto claro dos remadores concatenam o tumulto,

E os Deuses, na proa heróica, exaltados,
Em seu sorriso antigo e que a espuma insulta
Levantam sobre mim seus braços indulgentes e esculpidos.

Baudelaire é aquela importância. Viveu apenas 46 anos, o suficiente para grifar tudo que veio depois dele, e cada vez que se volta à sua obra, seu escritor sobre arte, descobre-se que a coisa vai cada vez mais longe. “Bom poeta é aquele que tem boa memória” disse mais ou menos assim na ‘Invenção da Modernidade’. Os poemas em prosa são como crônicas antes da crônica. Só lendo. Hoje, 144 anos após sua morte, com as coisas caminhando para um cenário raso e acelerado, Baudelaire traz a necessidade do espanto, para as novas e velhas gerações. Charles-Pierre Baudelaire (Paris, 9 de abril de 1821 – Paris, 31 de agosto de 1867)

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LXXVII SPLEEN
de Charles Baudelaire
tradução de Pedro Lago

Eu sou como o rei de um país chuvoso
Rico, mas desamparado, jovem e ao mesmo tempo muito velho
Quem de seus mentores desdenha as reverências,
Se aborrece com seus cachorros como o faz com outros bobos.
Nada pode o alegrar, nem um animal de caça, nem um falcão
Nem seu povo morrendo em frente à sacada.
Do bufão favorito a grotesca balada
Não distrai mais a face deste cruel doente;
Sua cama ornada de flores de lis se transforma em túmulo,
E as damas do quarto de dormir, para quem todo príncipe é belo,
Não sabem mais achar o impudico toalete
Para gerar um sorriso deste jovem esqueleto.
O erudito que fê-lo ouro jamais pode
De seu ser remover o elemento corrompido,
E nestes banhos de sangue que os Romanos nos trouxeram
De cujos velhos tempos os poderosos se recordam,
Ele não soube aquecer este cadaver atordoado
Onde corre no lugar de sangue a água verde do Létes.

O diálogo entre as gerações é o que acho que mais fascinante em qualquer linguagem, não importa qual. Foi o que Victor Hugo disse sobre Chateaubriand: “ser Chateaubriand ou nada”. Mal sabia que seria fonte. Mal sabia que sua Notre-Dame de Paris, que seu Quasímodo, pegariam tanta gente boa. De jeito. Fato é que o século XIX foi essa vitória sobre o Échec de poètes que os franceses tanto falam. Victor Hugo ainda seria levantado às alturas pelos seus Misérables e tantos outros. Grandes homens, grandes mesmo. Victor-Marie Hugo (Besançon, 26 de fevereiro de 1802 – Paris, 22 de maio de 1885).

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À VIRGILE
de Victor Hugo
tradução de Pedro Lago

Ó Virgílio! Ó poeta! Ó meu mestre divino!
Venha, deixemos esta cidade ao grito sinistro e vão,
A qual é gigante e jamais fecha a pálpebra,
Esprema uma onda espumante entres seus flancos de pedra,
Lutécia, tão pequena nos tempos de seus Césares,
E que joga hoje, cidade cheia de charretes,
Sobre o nome estridente cujo mundo nomeia,
Mais clareza que Atenas, mais barulho que Roma.

Por você que nos bosques faz, como a água dos céus,
Cair de folha em folha um verso misterioso,
Por você cujo pensamento enche meu devaneio,
Encontrei, numa sombra onde ri uma erva florida,
Entre Buc e Meudon, num profundo esquecimento,
- E quando digo Meudon, suponho Tivoli! -
Encontrei , meu poeta, um vale verde
Nas encostas charmosas displicentemente místicas,
Retrato favorável aos amantes escondidos,
Feito de ondas dormentes e de ramos inclinados,
Onde o belo meio-dia banha em vão com seus raios sem número
A gruta e a floresta, frescos asilos de sombra!

Por você eu a procurei, uma manhã, orgulhoso, feliz,
Com o amor no coração e a madrugada nos olhos;
Por você eu a procurei, acompanhado daquela
Que sabe todos os segredos que minha alma esconde,
E quem, só comigo sobre os bosques hirsutos,
Seria minha Licoris se eu fosse seu Gallus.

Porque ela tem no coração esta flor larga e pura,
O amor misterioso de antiga natureza!
Ela ama como nós, mestre, estas doces vozes
Este barulho de ninhos felizes que saem dos sombrios bosques,
E, a noite, toda ao fundo do vale estreito,
As encostas derrubadas no lago que reverbera,
E, quando o poente triste perdeu seu rubor,
Os pântanos irritados dos passos do viajante,
E o humilde sapê, e o antro obstruído de erva verde,
E que lembra uma boca com o terror aberto,
As águas, os prados, os montes, os refúgios charmosos,
E os grandes horizontes cheios de brilhos!

Mestre! pois eis a estação das pervincas
Se você quiser, cada noite, afastando os galhos,
Sem despertar ecos em nossos passos ousados,
Nós iremos todos os três, quer dizer, todos dois,
Nesse valezinho selvagem e de solidão,
Sonhadores, nós surpreenderemos a secreta atitude.
Na parda clareira onde a árvore ao tronco nodoso
Toma a noite um perfil humano e monstruoso,
Nós deixaremos fumar, à costa de um Falso Ébano,
Algum fogo que se extingue sem pastor que o atiça
E, a orelha esticada à suas vagas canções,
Sobre a sombra, ao luar, a atravessar as moitas,
Ávidos, nós poderemos ver, furtivamente
Os sátiros dançantes que imitam Alfesibéia.

Esse mistério que veio do Uruguai, que escreveu em francês e, como muito se diz, foi precursor do surrealismo, o próprio Breton que disse. Pouco se sabe, mesmo, inclusive como era fisicamente. Há alguns desenhos, um deles, do Artaud. Escreveu Les Chants de Maldoror, onde diz “eu fiz um pacto com a prostituição, para semear a desordem entre as famílias”. Perdeu a mãe francesa com vinte meses de idade. Escolheu um nome para si, Conde de Lautréamont, talvez para homenagear o Marquês de Sade, cruzamento direto, mas, como saber? Fato é que, Lautréamont, é um animal feroz, sem exagero. Isidore Lucien Ducasse, Conde de Lautréamont – Montevidéu, Uruguai, 4 de abril de 1846 – Paris, 24 de novembro de 1870.

Miasmas em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

VIEIL OCÉAN
de Lautréamont
tradução de Pedro Lago

Eu me proponho, sem ser de modo algum comovido, a entoar o canto sério e frio que vocês irão ouvir. Prestem atenção ao que ele contém, e guardem a impressão penosa que vocês não carecerão de deixar, como um estigma, dentro de suas imaginações perturbadas. Não creiam que eu esteja no ponto de morrer, porque eu não sou mais um esqueleto, e a velhice não grudou na minha face. Afastemos adequadamente toda a idéia de comparação com um cisne, no momento onde sua existência se evapora, e não vejam diante de vocês um monstro, do qual eu estou feliz que vocês não possam perceber a cara, mas menos horrível é ela que sua alma!… Entretanto eu não sou mais um criminoso… o bastante sobre este assunto. Há não muito tempo que eu revi o mar e andei até o cais, e minhas memórias estão vívidas como se eu as tivesse abandonado na véspera. Sejam, contudo, se vocês o podem, tão calmos quanto eu nessa leitura da qual eu já me arrependo de oferecer, e não ruborizem ao pensamento do que é o coração humano. Ah! Dazet! Tu, cuja alma é inseparável da minha; tu, o mais belo dos filhos da mulher, embora adolescente ainda; tu, cujo nome se parece ao maior amigo da juventude de Byron; tu em quem reúnem-se nobremente, como em sua residência natural, por um comum acordo, de um laço indestrutível, a doce virtude comunicativa e as graças divinas, porque não és tu comigo, teu peito contra o meu peito, sentados todos os dois sobre algum rochedo da orla, para contemplar este espetáculo que eu adoro.

Velho Oceano, as ondas de cristal, tu te pareces proporcionalmente a essas manchas azuladas que vemos sobre as costas feridas das espumas; tu és um imenso azul sobre os corpos da terra: eu amo esta comparação. Assim, ao teu primeiro aspecto, um sopro prolongado de tristeza, que acreditamos ser o murmúrio de tua brisa suave passa deixando inefáveis traços sobre a alma profundamente abalada, e tu chamas de volta a lembrança de teus amantes, sem que se perceba sempre, os rudes princípios do homem onde ele trava conhecimento com a dor que não o deixa mais. Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, tua forma harmoniosamente esférica, que alegra a face grave da geometria, não me lembra menos do que muitos dos pequenos olhos do homem, parecidos aos do javali para a pequenez, e aos dos pássaros da noite para a perfeição circular do contorno. No entanto, o homem acreditou-se belo em todos os séculos. Eu, suponho, antes de preferência, que o homem não acreditou em sua beleza apenas por amor próprio; mas que ele não é belo realmente e que ele disso duvida; senão por que ele observa a figura de seu semelhante com tanto desprezo? Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, tu és o símbolo da identidade: sempre igual a ti mesmo. Tu não varias de uma maneira essencial, e se tuas ondas estão em alguma parte em fúria, mais ainda em qualquer outra zona elas estão na calma mais completa. Tu não és como um homem, que para na rua para ver dois buldogues se agarrando no pescoço, mas que não para quando um funeral passa; que está nesta manhã acessível e nesta noite de mal humor, que ri hoje e chora amanhã. Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, não haveria nada de impossível no que tu escondes em teus seios de futuras utilidades para o homem. Tu já lhe destes as baleias. Tu não te deixas facilmente adivinhar pelos olhos ávidos das ciências naturais os mil segredos de tua íntima organização: Tu és modesto. O homem se gaba sem cessar e para as minúcias. Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, as diferentes espécies de peixes que tu alimentas, não juraram fraternidade entre elas. Cada espécie vive de sua parte. Os temperamentos e as conformações que variam em cada uma delas, explicam de uma maneira satisfatória; o que parece a princípio uma anomalia. É desse modo um homem que não possui os mesmos motivos de desculpa. Um pedaço de terra é ocupado por trinta milhões de seres humanos, os que se crêem obrigados em não se misturar na existência de seus vizinhos, fixados como raízes sobre o pedaço de terra que perseguem. Descendo do grande ao pequeno, cada homem vive como um selvagem dentro de sua caverna, e saem raramente para visitar seu semelhante agachado igualmente dentro de outra caverna. A grande família universal dos humanos é uma utopia digna da lógica das mais medíocres. Além disso, do espetáculo de tuas tetas fecundas emerge a noção de ingratidão, porque pensa-se imediatamente aos seus parentes numerosos demasiadamente ingratos para com o Criador para abandonar o fruto de sua miserável união. Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, tua grandeza material, não pode ser comparada ao cálculo que se fez do que foi necessário de força ativa para engendrar a totalidade de tua massa. Não se pode te beijar de lampejo. Para te contemplar, é preciso que a paisagem se transforme por um momento contínuo em direção aos quatro pontos do horizonte, igualmente a um matemático que no afã de resolver uma equação algébrica, examina separadamente diversos casos possíveis antes de determinar as dificuldades. O homem come substancias nutritivas e faz outros esforços dignos de uma melhor sorte para parecer alimentado: que ela se inche tanto que ela desejará, esta rã. Sejas tranqüilo, ela não te igualará em dimensão; eu acho, pelo menos. Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, teus olhos são amargos. É exatamente o mesmo gosto da bílis que destila a critica sobre as belas artes, sobretudo as ciências, sobretudo. Se alguém tem a genialidade sobre as ciências, faz-se passar por um idiota; se um outro alguém é belo de corpo, é um corcunda abominável. Certamente, é preciso que o homem sinta com força sua imperfeição, cujos três quartos, aliás, não devem menos que a ele mesmo, para a criticar assim! Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, os homens, apensar da excelência de seus métodos, não são ainda seguros, ajudados pelos meios de investigação da ciência, a medir a profundidade vertiginosa de teus abismos; tu que tens as sondas longas, as mais pesadas reconheceram-se inacessíveis. Aos peixes isto é permitido, não aos homens. Muitas vezes eu me questionei que coisa seria mais fácil a reconhecer: a profundidade do Oceano ou a profundidade do coração humano! Muitas vezes, com a mão ao alcance da testa, em pé diante dos navios, enquanto a lua se balançava entre os mastros de um jeito irregular, eu me surpreendi fazendo abstrações de tudo o que não era o fim que eu perseguia, me esforçando para resolver esse difícil problema! Sim, qual é o mais profundo, o mais impenetrável dos dois, o Oceano ou o coração humano? Se trinta anos de experiência de vida podem até certo ponto inclinar a balança para uma ou outra dessas soluções, me será permitido dizer que, apesar da profundidade do Oceano, não se pode igualar, quanto à comparação sobre esta propriedade, com a profundeza do coração humano. Eu estive em relação com os homens que foram virtuosos. Eles morreram aos sessenta anos, e cada um não deixava de se gabar: “Eles fizeram o bem sobre esta terra, quer dizer, ele praticaram a caridade: eis tudo, isto não é malicioso, cada um pode fazer tanto quanto” Quem compreenderá porque dois amantes que se idolatram na véspera, por uma palavra mal interpretada, se afastam, um em direção ao Oriente, o outro em direção ao Ocidente, com os aguilhões do ódio, da vingança, do amor e do remorso, e não se revêem mais, cada um coberto em seu orgulho solitário. É um milagre que se renova a cada dia e que não é menos miraculoso. Quem compreenderá porque aprecia-se não somente as desgraças gerais de seus semelhantes, mas também, as particularidades de seus mais queridos amigos, mesmo de seu pai e de sua mãe, ao passo que se aflige ao mesmo tempo? Um exemplo incontestável para concluir a série: o homem diz hipocritamente sim e pensa não. É por isso que os homens tem tanta confiança uns nos outros, e não são egoístas. Resta à psicologia mais progresso a fazer. Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, tu és tão poderoso que os homens o aprenderam as suas próprias custas. Eles fazem bom uso de todos os recursos de seu gênio…; incapazes de te dominar. Eles acharam seu mestre. Eu digo que eles encontraram alguma coisa mais forte que eles. É alguma coisa, um nome. Este nome é: O Oceano! O medo que tu os inspiras é tal que eles te respeitam. Apesar disso, tu fazes valsar suas mais pesadas maquinas com graça, elegância e facilidade. Tu os fazes dar saltos ginásticos, até o céu, e dar mergulhos admiráveis até o fundo de teus domínios: um saltimbanco ficaria com inveja. Bem aventurados são eles quando tu não os envelopa definitivamente em tuas camadas espumantes para ir ver, sem trilhos, em tuas entranhas aquáticas, como se portam os peixes, e sobretudo, como se portam eles-mesmos. O homem disse: “Eu sou mais inteligente que o Oceano” É possível, mas o Oceano a ele é mais abominável que ele ao Oceano: é o que não é necessário provar. Este patriarca observador, contemporâneo das primeiras épocas de nosso globo suspenso, sorriu de pena quando viu os combates navais das nações… Eis uma centena de leviathans que saíram das mãos da humanidade! A ordens enfáticas dos superiores, os gritos dos feridos, os tiros de canhão, é o ruído feito com o propósito de aniquilar alguns segundos… O drama termina, o Oceano colocou tudo em seu ventre! Oh! Essa garganta formidável!… Quão grande deve ela ser para baixo, na direção do desconhecido! Para coroar a estúpida comédia, que não é mesmo interessante, vê-se no meio dos ares alguma cegonha atrasada pela fadiga, que se põe a gritar, sem parar a envergadura de seu vôo: “Ei! acho que é ruim! Havia lá embaixo pontos negros. Eu fechei os olhos… eles desapareceram” Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, ó grande celibatário, quando tu atravessas a solidão solene de teus reinos fleumáticos, tu te orgulhas acertadamente de tua magnitude nativa, e os elogios verdadeiros que me apresso em te dar. Balanças voluptuosamente pelos brilhos suaves de tua lentidão majestosa, que é a mais grandiosa entre os atributos cujo soberano poder te gratificou, tu desenrolas, no meio de um sombrio mistério, sobre tua superfície sublime, tuas ondas incomparáveis com o sentimento calmo de teu poder eterno. Elas se acompanham paralelamente, separadas por curtos intervalos. Mal uma diminui, uma outra vai até ela se reencontrar crescendo, acompanhadas elo ruído melancólico da espuma. (desta forma os seres humanos, as ondas vívidas, extinguem uma após a outra de uma maneira monótona, mas sem deixar o barulho espumoso) O pássaro de passagem descansa sobre elas com confiança, e se deixa abandonar a seus movimentos cheios de uma graça orgulhosa, até que os ossos de suas asas tenham recuperado seu vigor acostumado para continuar a peregrinação aérea. Eu gostaria que a dignidade humana não fosse nada menos que uma encarnação do reflexo da tua; eu desejo muito. Este desejo sincero é glorioso para ti. Tua grandeza moral, imagem do infinito, é imensa como a reflexão do filosofo, como o amor da mulher, como a beleza divina do pássaro, com as meditações do poeta. Tu és mais belo que a noite. Responda-me, Oceano, tu queres ser meu irmão? Me agites com impetuosidade, mais… mais ainda, se tu quiseres que eu te compare à vingança de Deus; alongues tuas garras lívidas abrindo um caminho sobre teu próprio seio… é ótimo… Desenroles tuas ondas abomináveis, Oceano repugnante, compreendido por mim somente e diante do qual eu tombo, prosternado a teus joelhos. A dignidade do homem é emprestada; ele não me imporá um ponto. Tu, sim. Oh! Quando tu avanças a alta crista e terrível, cercada de tuas dobras tortuosas como de uma corte, magnetizador e feroz, rolando tuas ondas umas sobre as outras, com a consciência de que tu és, para que tu cresças das profundezas de teu peito, como que comovido de um remorso intenso que eu não pude descobrir, este surdo rugido perpétuo que os homens receiam tanto, mesmo quando eles te contemplam em segurança, trêmulos sobre a margem, então, eu vejo que ele não me pertence, o direito notável de me dizer teu igual. É porque na presença de tua superioridade, eu te daria todo o meu amor (e nulo não sabes a quantidade de amor que contem minha aspirações sobre o belo), se tu não me fizesses dolorosamente pensar aos meus semelhantes, que formam com ti o mais irônico contraste, a antítese mais bufônica que jamais se viu na criação: Eu não posso te amar. Eu te detesto. Porque volto a ti pela milésima vez, em direção a teus braços amigos que se entreabrem para acariciar meu rosto ardente, que vê desaparecer a febre em teu contato! Eu não conheço teu destino escondido: Tudo que te concerne me interessa. Digas para mim então se tu és a morada do Príncipe das Trevas. Dizes para mim, dizes para mim, Oceano (a mim somente para não entristecer os que ainda não conheceram nada menos que ilusões) e se o sopro de Satan criou as tempestades que agitam teus olhos salgados até as nuvens. É preciso que tu me digas, porque eu me alegraria em conhecer o inferno tão perto do homem. Eu quero que esta seja a última estrofe da minha invocação. Assim sendo, uma última vez de novo, eu quero te saldar e te fazer meus adeuses! Velho Oceano, as ondas de cristal… Meus olhos se molham de lágrimas abundantes, e eu não tenho a força de perseguir, pois eu sinto que o momento de voltar para entre os homens chegou, ao aspecto brutal: Mas; coragem! Façamos um grande esforço e terminemos com o sentimento do dever, nosso destino sobre esta terra. Eu te saúdo, velho Oceano!

A apropriação da imagem do Rimbaud pelo movimento punk é um reflexo bem interessante do que ele representa. Hoje, camisas são vendidas na França. Parece também que o “dia mundial do poeta” é comemorado no dia de seu aniversário, dentre muitas outras reverberações. Ecos. E pensar que não fosse pelo Verlaine, talvez, isso não ocorresse. Outra figura importante na divulgação da obra do jovem poeta de Charleville foi Ezra Pound. Rimbaud sofreu muito na mão dos padres de sua infância, suas prosas do início são lindas, menino da província explodindo em Paris, belo e rústico, poeta de técnica impressionante. Depois de explorar tudo, foi viver o corpo, viajou, ganhou dinheiro com armas, foi para a Àfrica, perdeu uma perna, coisas que todos sabemos. Rimbaud é desses poetas de substância concentrada, capaz de nos fazer mudar, ou mais. Jean-Nicolas Arthur Rimbaud, Charleville 20 de outubro de 1854 – Marselha, 10 de novembro de 1891.

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LE BATEU IVRE
de Arthur Rimbaud
tradução de Pedro Lago

Como eu descia os Rios Impassíveis,
Não me senti mais guiado pelos sirgadores.
Os Peles-Vermelhas berrantes os tinham pego para alvo
Tendo-os pregado, nus, nos postes de cores.

Eu estava inconsciente de toda a tripulação,
Carregador de trigo flamengo ou de algodão inglês.
Quando com meus sirgadores terminaram a algazarra
Os Rios me deixaram descer para onde eu queria.

Dentro dos marulhos furiosos das marés,
Eu, outro inverno, mais surdo que os cérebros das crianças,
Corri! E as Penínsulas desamarradas
Não sofreram confusões triunfantes.

A tempestade abençoou meus despertares marítimos.
Mais leve que uma rolha eu dancei sobre as marés
Que chamamos balanço eterno das vítimas,
Dez noites, sem prantear o óleo parvo das lanternas!

Mais doce que as crianças a carne das maçãs ácidas,
A água verde penetrou minha casca de pinho
E as manchas de vinhos azuis e os vômitos
E me lavou, dispersando leme e arpéu.

E desde então, eu me banhei dentro do poema
Do mar, infundido de astros e lactescente,
Devorando os azuis verdes; onde, na flutuação lívida
E cantante, um afogado pensativo às vezes desce;

Onde, tingindo subitamente os azuis delírios
E ritmos lentos sobre os rutilamentos do dia,
Mais fortes que o álcool, mais vastos que vossas liras,
Fermentando os ruivos amargos do amor!

Eu conheço os céus arrebentando em relâmpagos, e as trombas
E as ressacas e as correntes; eu conheço a noite,
A madrugada exaltada assim que um povo de pombas,
Eu vi às vezes o que o homem jamais acreditou ver!

Eu vi o sol baixo manchado de horrores místicos,
Iluminando do alto coágulos violetas,
Semelhante ao dos atores de dramas muito antigos
As ondas rolando ao longe seus frissons de persianas!

Eu sonhei a noite verde às neves ofuscantes,
Beijos subindo aos olhos dos mares com lentidão,
A circulação das seivas inauditas,
E o despertar amarelo e azul dos fósforos cantantes!

Eu segui, de mêses cheios, semelhantes às vacarias
Histéricas, o marulho ao assalto dos recifes,
Sem sonhar que os pés luminosos das Marias
Pudessem forçar o focinho aos Oceanos asmáticos!

Eu colidi, sabe você, de inacreditáveis Floridas
Misturando as flores dos olhos de panteras às peles
Dos homens! Dos arco-íris estendidos como as rédeas
Sobre o horizonte de mares, aos glaucos gados!

Eu vi fermentar os pântanos enormes, nassas
Onde apodreceu dentro dos juncos um inteiro Leviatã!
Os desabamentos de água ao meio das bonanças,
E os longínquos para os abismos cataratantes!

Geleiras, sóis de prata, marés de nácar, céus de brasas!
Fracassos hediondos do fundo dos golfos pardos
Onde as serpentes gigantes devoradas pelos percevejos
Caem das árvores tortas com negros perfumes!

Eu quereria mostrar às crianças esses dourados
Do mar azul, esses peixes de ouro, esses peixes cantantes,
- As espumas de flores abençoaram minhas enseadas
E os inefáveis ventos me fizeram voar por instantes.

Às vezes, martírio laçado dos pólos e das zonas,
O mar cujo soluço fazia meu balanço doce
Subiam sobre mim suas flores de sombras dos ventosos amarelos
E eu ficava, portanto, como uma mulher de joelhos…

Quase-ilha, sobre minhas bordas as querelas
E os excrementos dos pássaros gritantes aos olhos louros.
E eu vogava, quando através meus laços frágeis
De afogadas desciam para dormir, recuando!

Ora, eu, barco perdido sob os cabelos das ansas
Atirado pelo furacão no éter sem pássaro,
Eu cujos Monitores e os veleiros das Hansas
Não queriam pescar de novo a carcassa ébria da água;

Livre, fumando, embarcado de brumas violetas,
Eu que abri um buraco no céu avermelhando como um muro
Que traz, geléias delicadas aos bons poetas,
Liquens de sol e mucos do azul;

Que corria, manchado de lúnulas elétricas,
Prancha louca, escoltado de hipocampos negros,
Quando os julhos faziam desabar a golpes de porrete
Os céus ultramarinos aos ardentes funis;

Eu que tremia, sentindo choramingar à cinquenta lugares
O cio do Béhémots e dos Maelstroms espessos,
Fiandeiro eterno das imobilidades azuis,
Eu anseio a Europa dos antigos parapeitos!

Eu vi os arquipélagos siderais! e ilhas
Cujos céus delirantes são abertos ao navegante:
- São nessas noites sem fundo que você dorme e se exila,
Milhões de pássaros de ouro, ó futuro Vigor?

Mas, na verdade, eu chorei muito! As madrugadas são aflitivas,
Toda lua é atroz e todo sol amargo:
O acre amor me encheu de torpores inebriantes
Ah que minha quilha quebre! Ah que eu vá ao mar!

Se eu desejo uma água da Europa, é a leve
Negra e fria para o crepúsculo embalsamado,
Uma criança agacha cheia de tristeza, solta
Um barco frágil como uma borboleta de maio.

Eu não pude mais, banhado de vossa languidez, ó ondas,
Arrebatar suas esteiras aos carregadores de algodão,
Nem atravessar o orgulho das bandeiras e das flâmulas,
Nem nadar sob os olhos horríveis dos pontões.

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