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Alex Hamburger (incompleto)

Alexander Hamburger nasceu no dia 23 de setembro de 1950, em Belgrado, ex-Iugoslávia, hoje, Sérvia. Filho de Franjo Hamburger, judeu austro-húngaro, e Liliana Hamburger, sérvia filha de um russo. Alex, viveu apenas dois meses em Belgrado, que se encontrava em situação muito complicada tornando assim a vida difícil, sobretudo em virtude da Segunda Guerra Mundial. De lá, foram para Jerusalém, Israel, onde, a situação de encontrava um pouco melhor, ocupada pelos ingleses, para depois, se tornar o Estado de Israel.

 
 
 
 
SONHO DALINIANO
 
 
Do interior de claros olhos
fulgem reflexos oníricos
folhagem esparramada ao longo
penumbra cinza d’alameda
 
Sonho no presente, perscruto ecos
desencanto do tempo;
abraço o vazio!
 
Na manhã permaneço,
sugerindo veredas
mesclando odores nem sempre
primevos, inconcluídos,
não experimentados!
 
Nenhuma voz se faz ouvir
ao longo das aléias
vulto mimético
companheiro das tardes-noites
passo dançante desapercebido
gravado nesse devaneio.

 

 

O pai de Alex, Franjo Hamburger, era eletrotécnico. Após o período de cinco anos em Jerusalém, desde sua saída de Belgrado, a família vai para o Brasil. Assim, logo tem a experiência de percorrer o interior do país no rastro das instalações de usinas hidroelétricas, sendo a maioria do sistema de Furnas, sediadas nos municípios de Ibiracy, Passos, Fronteira, Franca e São José do Rio Preto, com estadas alternadas em São Paulo.

 
 
Outros lados do Pessoa em http://cartilhadepoesia.wordpress.com
 
 
FOTOGRAFIA
 
 
 
Na câmara escura
do meu grito mudo
o silêncio de anseios
incontidos
 
Lágrimas veladas
vôo imaginativo?
 
Na câmara escura
do meu apelo ao mundo.
 
Traços delineiam o
quadro, tanto desejado,
noites de insônia
destinos surdos…
 
Quando o sol com seus raios
iluminou o estúdio
o retrato sobre-exposto
na câmara escura
imagem de fundo.
 
O nome, Alexsandar Hamburger, lhe foi dado, inicialmente, em homenagem ao Príncipe Alexsandar I da Sérvia, muito pelo fato de sua mãe e de sua avó materna admirarem muito o príncipe assim como a monarquia existente naquele país desde o século XIX até 1930. O pai de Alex, Franja (pronuncia-se Franha), tinha uma pequena loja de consertos elétricos em Belgrado, a Hamburger & Danon. Sua família foi a Jerusalém, como já foi dito, por causa do precário estado em que se encontrava Belgrado após a Segunda Guerra. Em Israel já havia um movimento de chamar os judeus para irem lá habitar e trabalhar, o que foi feito. Então, a loja Hamburger & Danon, foi transferida Israel. 
 
 
 
 
ATOMICA MUSA
à Noel Nuttels
 
 
Na aurora do homem-máquina
As primaveras dos bardos
São matérias-primas gastas
no tecnificante progresso voraz:
 
     - fontes de concreto
       ninfas de boutique
       lírios de estufa
       e liras megatômicas -
 
Panorama desolador
Na era da “bomba-relógio”
E seu cortejo estampado
nos crispados vespertinos
 
    Tempos irracionais
    dita-me resto de lucidez,
    Ah! se assim o fôsse!
    Mas não! a Razão é o Parnaso!
 
E minha musa, chama-se Atômica,
nascida por ordem da Deusa Bomba.
 
Alex viveu em Jerusalém até os cinco anos de idade. As memórias são poucas, porém, ficaram. “A beleza pétrea daquela cidade ancestral, a primeira vez que vi o mar Mediterrâneo, na cidade portuária de Haifa, e o ensino”. Alex aprendeu a ler e escrever em hebraico, que esqueceria tudo posteriormente por falta de prática. Havia também uma figueira em frente à sua casa, que dava figos no inverno, cujo gosto junto com a neve que caía proporcionavam um prazer inesquecível. 
 
 
 
 
O FIO DA ARANHA
 
 
Obra longa
Teia macia
Mundo polígono
Disparo certeiro
Surpresa artesanal
 
Técnica viva
Emaranhado lapidar
Linha ríspida
Tato infalível
 
Jogo mortal
Abrigo invisível
Estilo (a)temporal
 
Engenho sábio
Sequência instantânea
Tece e avança
 
O fio d’aranha.
 
 
 
O sócio do pai de Alex na loja de reparos elétricos resolveu voltar para a Sérvia, emperrando a continuidade dos serviços, ao mesmo tempo que sua mãe e sua avó materna, cristãs ortodoxas, não conseguiram se adaptar à Israel, e iniciaram um movimento de incentivo a uma mudança para um lugar mais laico, onde pudessem exercer sua religião mais à vontade. Neste momento, notícias sobre o Brasil vinham de amigos, boas notícias, que com o governo Juscelino, desfrutava um bom momento desenvolvimentista. Até em meados de 1955, os “Hamburgers” à bordo do ‘Conte Grande’ para o Brasil, do porto de Haifa para o porto de Santos, e após 21 dias no mar, chegam à São Paulo.
 
 
 
 
FICÇÃO LETAL
 
 
Entre 4 e 100 horas da tarde
A ponta do lápis no meio-fio
Grafite riscando nas ruas
Sem quase figuras nos trilhos
O jornal trás todos os tipos
Na praça ao lado atiçando o coro
Enfim um “hit” total
A um metro do ponto do brilho.
 
 
A família de Alex ficou apenas um ano e meio na capital paulista, porém, esse período foi de grande influência. Foram residir no bairro Bom Retiro, que se tornara um lugar conhecido por receber imigrantes judeus do leste europeu. Lá a família encontrou alguns conterrâneos. Alex nessa época aprendera a falar português sem sotaque, na companhia de outros garotos que o acompanhavam em partidas de futebol de rua. Seu pai arrumara um emprego na Cia Paulista de Força e Luz, hoje, Light. Porém, a cidade experimentava um crescimento voraz, Franja tinha que tomar muitas conduções para ir trabalhar e voltar para casa, até que decide aceitar uma proposta de emprego na Furnas Centrais Elétricas, e passa a viajar com a família pelo interior de São Paulo.
 
 
 
RIMBAUD DE SAIA
 
 
Por acaso era Copacana
olhares cúbicos te espreitando
na filial da Max Factor
poesia de rádio
escapando pela manga
do teu paletó preto
Abissínia de cabelos
travestida em rio elétrico
um reflexo, vitrines
pés, mãos, olhos de areia
manequim de zoom à tira colo
a mala desfeita pro show.
 
 
A mudança da capital para o interior fez com que Alex tivesse experiências juvenis mais bucólicas. Com isso, passou o início da adolescência em lugares onde a natureza predominava, com brincadeiras ao ar livre, futebol com outros garotos da mesma idade, frutas silvestres, riachos, cachoeiras e tudo que se pode pensar. Nessa época, começou a estudar inglês e despertar interesse pelos assuntos internacionais, o que depois viria a ser de extrema importância em sua vida. 
 
 
 
 
A DANÇARINA SEM FÓSFOROS
 
 
Não há quase distância entre
sua meia o bidê e o espaço pretenso
um homem sem chapéu e a falta de temas
desmembração: dança com o atributo
de crimes fáceis línguas que dão crepe
 
A dançarina dos anúncios e ritmos pobres
coleta ações telefônicas
para seu instrutor de gala
contorção para dedos do pé (com em Tarsila)
ri ao quadrado
 
só, no sótão, com uma certa dor de agulha-roxa
 
Alta-tensão que percorre sob o piso de baskete
creiam, a estação de vagos
passos dobles
acontece ao longo das cercas da fama
 
E mesmo quando na plataforma 21 da rodoviárias
haverá reações, tantos às notas, quanto às farpas
que existem da mão corrente
 
Fuga insana de colegiais gymnastas
que o toque de caixa ilegal faz reunir
acima dos voluteios e modelos de pano
 
O desafio/convite em branco permanece
para a peça dos pratos da cozinha marca ideal
 
 
Alex fez os estudos básicos na cidade de Passos, no interior de Minas, há trinta minutos de Furnas, onde morava com a família. Nesta época pode conhecer os textos de Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Sabino, Ávilla e outros. Alex teve muito apreço pelo estudo das Letras e dificuldade na ciências exatas. Redação (que se chamava Dissertação) foi ganhando força nos estudos. Havia também uma matéria que Alex tinha facilidade e prazer, Trabalhos Manuais, o que depois viria a influenciar em seus trabalhos futuros.
 
 
 
DANDY
 
 
Bastariam 5 volts cromáticos
dessa volta à anatomia do passado
hoje os dados são anêmicos
e nada permanece
é no Rápido Zefir que se dá o transporte
vocês provocam com essa face na lapela
vocês provocam a todos com essas faces
que só se percebem em meio às fileiras
queria ter essa sua isenção
esse tipo frigorífico importado do Japão
mas qual…
os assuntos as letras os títulos
surdo, busco na física
nas ciências endêmicas e meio exatas
repetitivo repetitivo
monótono duas rotações
atavio que poucos – lembra? – muito poucos
como esses dandies vagos que ainda
arriscam umas tantas voltas
à frente da artilharia onde
o júri sem vértebras poderá por ti
ser arrebatado
como num qualquer apagar
dos baixos teores que se elevam
mortalmente em novembro

 

 

 

Após a colação do segundo grau, a família de Alex muda-se de cidade novamente, desta vez para São Paulo, em virtude do término da construção da primeira usina hidrelétrica brasileira. Estamos em 1965. O Brasil passava por um processo de avanço tecnológico, sobretudo na área de energia. Assim, vive de perto essa realidade com seu pai, variando entre a capital de São Paulo e o interior. Muitos rios, muitos rios.

 
 
 
SÃO PAULO RH-5087
 
 
- Traças, novamente por todos os lados
pontuais e bem-vindas traças
nem o notário teria percebido
que um número tão significante
carrega para o sub-solo, a cada hora
o meu armário de livros e carimbos
(o nome no notário é Rolet)
coleção amada de carimbos comemorativos
e bilhetes ray-o-til
que carrego nos bolsos de trás das calças
e que para as caras e répteis
já se tornou marca registrada
da minha agência de inaugurações
de tudo tudo um pouco
mas quão ilógico!
contêm mastros, mapas gerais da groenlândia,
limos de aqualuzia,
colapsos percorrendo tubos eternites
de espessuras impróprias
etiquetas devolvidas com o preço fácil
na alinhada gola
e tua tão delicada carta
afirmando (quantas vezes isto se repete!)
a farsa postal
no plano dos dois insistindo
na troca de selos avisos
e finalmente o largo e doce tédio dos dias
 
 
Só para informar a todos que os e-mails com a biografia do nosso querido Alex Hamburger voltarão em breve. Nosso herói está se recuperando de um pequeno percalço e já já continuaremos a percorrer sua bela trajetória. Saravah!
 
 
 
 
GALA REGINA
 
 
 
Gala Ostronowna Regina
de mil maneiras amaverik
qual cedilha que sorri
abalada pela luna
 
Agora um coquetel molotov
regência impedância refúgio
harmonia em si bemol um sequestro
de waltz eletro-acústico saloon-ex
 
minha morte impune
 
Joana D’arcos da Lapa ousa
me oferto a ti em aquedutos
em acordes grandiloquentes para Roland
 
A cada fino risco no disco
 
Navilouca que me arrebata
em 2/4 de doze horas
incendiária malstroom
polinaise vesga que me habita
de cima del quatrocientos y siete dept.
 
Hierática andante
rosa em franca do meu repto
lança luxemburgo
em variações de um corpo que cai
 
Química quasi um encontro em Valencia
e como me atrevo qual outro Cervantes
quero essa marcha andaluz
minha extremada vanguarda
extermínio dos sonhos de las classes

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Bertolt Brecht

Eugen Berthold Friedrich Brecht nasceu no bairro operário de Augsburg, 50 kilômetros ao norte de Munique no dia 10 de fevereiro de 1898. Apesar do bairro ser operário, seu pai era um próspero diretor de um florescente fábrica de papel. Segundo o dramaturgo Arnolt Bronnen, o pai de Bertold era católico, amante da ordem e da hierarquia, avarento, exigente e autoritário. Sua mãe, Sophie Brezing era filha de um alto funcionário da Floresta Negra e fez o pequeno Bertold ser batizado em sua religião protestante. Vamos de Brecht!
 
 
Uma canção sobre um berço http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
 
 
A LENDA DO SOLDADO MORTO
 
 
Durava já seis anos a guerra
E a paz não aparecia
Então decidiu-se o soldado
E morreu como um herói
Mas a guerra não terminava
E o rei vendo morto o soldado
Ficou muito triste e pensou:
Morreu ele antes do fim.
 
O sol esquentava o cemitério
Onde o soldado jazia em paz
Até que um noite chegou ao front
Um médico militar
Tiraram o soldado da cova
Ou o que dele sobrou
E o médico disse
“Tá bom pro serviço
ainda tem muito pra dar!”
 
Saíram levando o soldado
Que já todo apodrecia
Rezavam em seus braços duas freiras
E uma puta qualquer
E como cheirava a morte
Um padre ia à sua frente
Soltando nuvens de incenso
Pra disfarçar o fedor
 
Uma banda puxava o andor
Fazendo bum bum tara trá
Pra que o soldado marchasse
Como no batalhão
Dois enfermeiros o erguiam
Para mantê-lo de pé
Pois se caísse por terra
Virava um monte de lixo!
 
Na frente um homem de fraque
marchava, usando uma gravata
Um bom cidadão consciente
um “Patriota da Pátria Amada”
Tambores e gritos saudavam
A mulher, o padre e um cachorro
O soldado ia morto oscilando
qual um macaco de porre
E quando cruzavam as cidades
Ninguém enxergava o soldado
Mas todos entravam na marcha
Gritando: “Pela Pátria lutar!”
Agitavam bandeiras rasgadas
Para esconder o defunto
Que só se via de cima
Mas em cima só brilham as estrelas…
 
E as estrelas nem sempre aparecem
Foi quando outro dia nasceu
Então de novo o soldado morreu
E foi outra vez enterrado!
 
 
 
Bertold frequentou a escola primária de 1904 a 1908 e o ginásio de 1908 a 1916: “Me aborreci durante 4 anos na escola primária, e nos 9 anos que passei no Realgymnasium de Augsburg, nada consegui aprender de meus professores. Eles não cessaram de estimular meu gosto pelo prazer e pela independência…”. Foi aluno rebelde e esperto. Certa vez precisava de uma nota alta em francês, mas recebeu a prova cheia de correções em caneta vermelha e com nota baixa. Bertold pegou uma caneta vermelha e aumentou o número de correções onde não havia erros. Foi mostrar ao professor que, envergonhado por ter corrigido mal a prova, aumentou a nota.
 
 
 
DO   POBRE   B. B.
 
 
 
Eu, Bertolt Brecht, venho da Floresta Negra.
Minha mãe me trouxe para a cidade ainda em seu ventre.
O frio da floresta ficará em mim até o dia de minha morte.
 
Nas cidades de asfalto estou em casa. Desde o início
Abastecido com os últimos sacramentos:
Jornais, tabaco e aguardente.
Desconfiado, contente e preguiçoso até o fim.
 
Sou gentil com as pessoas. Uso 
um chapéu-coco como eles costumam fazer.
Eu digo: estes animais têm um cheiro estranho.
E digo: isso não importa, eu também tenho.
 
Pelas manhãs, em minha cadeira de balanço
Uma mulher ou outra às vezes faço sentar
E observando-a calmamente lhe digo:
Em mim você não deve, você não pode confiar.
 
À noite, alguns homens se reúnem em minha volta
E entre nós “gentlemen” é o tratamento vigente.
Colocam os pés sobre minha mesa 
E dizem: tudo vai melhorar. E eu não pergunto: -  quando ?
 
Na luz cinzenta da aurora mijam os pinheiros,
E seus parasitas, os pássaros, começam a gritar.
Por esta hora na cidade eu esvazio o meu copo,
Jogo fora o charuto e vou dormir, inquieto.
 
Uma geração leviana, nós nos fechamos em casas
Que acreditávamos indestrutíveis. (Assim 
Construímos aquelas imensas caixas na ilha de Manhattan
e as antenas compridas que conversam por cima do Atlântico. )
 
Dessas cidades, o que restará? O vento que por elas passa!
A casa faz o hóspede alegre, este a esvazia.
Sabemos que somos provisórios e que depois de nós
Nada virá que valha a pena mencionar.
 
Nos terremotos do futuro eu espero
Não abandonar meus charutos, nem achá-los amargos.
Eu, Bertolt Brecht, que fui trazido às cidades de asfalto, 
vindo da floresta negra, no ventre de minha mãe, anos atrás.
 
 
 
Outro episódio interessante no colégio ocorreu em 1915. Empolgado com as vitórias da Alemanha na Primeira Guerra Mundial, o professor pediu que os alunos fizessem uma redação sobre o verso de Horácio “Dulce et dulcorum est pro mori (Doce e honroso é morrer pela pátria). Bertold então escreveu “Essa frase só pode ser entendida como propaganda tendenciosa. Morrer na cama ou no campo de batalha é geralmente difícil para jovens na flor da idade. Só idiotas podem ter a vaidade de falar sobre ‘o pequeno salto através da porta escura’. E isto somente enquanto acreditam estar distantes da hora final”.
 
 
 A LENDA DA PROSTITUTA EVELYN ROE
 
Quando veio a primavera e o mar ficou azul
A bordo chegou
Com a última canoa
A jovem Evlyn Roe.
 
Usava um pano sobre o corpo
Que era bonito, bem vistoso.
Não tinha ouro ou ornamento
Exceto o cabelo generoso.
 
“Seu Capitão, leve-me à Terra Santa
Tenho que ver Jesus Cristo.”
“Venha conosco, pois somos tolos, e é uma mulher
Como não temos visto.”
 
“Ele recompensará. Sou uma pobre garota.
Minha alma pertence a Jesus.”
“Então, pode nos dar seu corpo!
Pois o seu senhor não pode pagar:
Ele já morreu, dizem que  na cruz.”
 
Eles navegaram com sol e vento
E Evlyn Roe amaram.
Ela comia seu pão e bebia seu vinho
E nisso sempre chorava.
 
Eles dançavam à noite, dançavam de dia
Não cuidavam do timão.
Evlyn Roe era tímida e suave:
Eles eram duros e sem coração.
 
A primavera se foi. O verão acabou.
Ela corria à noite, os pés em sujas sapatilhas
De um mastro a outro. Olhando no breu
Procurando praias tranquilas
A pobre Evlyn Roe.
 
Ela dançava à noite, dançava de dia.
E ficou quase doente, cansada.
“Seu Capitão, quando chegaremos
À Cidade Sagrada?”
 
O  capitão estava em seu colo
E sorrindo a beijou:
“De quem é a culpa, se nunca chegamos?
Só pode ser de Evlyn Roe.”
 
Ela dançava à noite, dançava de dia
Até ficar totalmente esgotada.
Do capitão ao mais novo grumete
Todos estavam bem saciados.
 
Usava um vestido de seda
Com uns rasgões e remendos
E na fronte desfigurada trazia
Uma mecha de cabelos sebentos.
 
“Nunca eu te verei, ó Jesus,
Com este corpo pecador.
A uma puta qualquer
Não podes dar teu amor.”
 
De um lado para o outro corria
Os pés e o coração começavam a lhe pesar:
Uma noite, quando já ninguém via
Uma noite desceu para o mar.
 
Isto se deu no fim de Janeiro
Ela nadou muito tempo no frio, pois
O tempo melhora, os ramos florescem
Somente em março ou abril.
 
Abandonou-se às ondas escuras
Que a lavaram por dentro e por fora.
Chegará antes à Terra sagrada
O capitão ainda demora.
 
Ao chegar ao céu, já na primavera,
São Pedro na porta a recusou:
“Deus me disse: não quero aqui
A prostituta Evlyn Roe.”
 
E ao chegar ao inferno
O portão fechado encontrou:
O Diabo gritou: “Não quero aqui
A beata Evlyn Roe.”
 
Assim vagou no vento e no espaço
E nunca mais sossegou.
Num fim de tarde eu a vi passar no campo:
Tropeçava muito, não encontrava descanso
A pobre Evlyn Roe.
 
 
 
 
A partir de 1914, publica prosas curtas e alguns poemas no Augsburg Neusten Nachrichten sob o pseudônimo de ‘Bertold Eugen’. Wilhelm Brustle, chefe da redação do jornal, descreveu-o como um jovem tímido, que falava com dificuldade, mas que experimentava uma enorme ânsia de viver, tinha o espírito vivo e não cedia ao sentimentalismo; na política, inclinava-se para a esquerda. Nesta época, fez amigos que seriam importantes em sua vida, como Caspar Neher, pintor e cenógrafo. Na feira anual de outono, Bertold disse que “a execução do anarquista Ferrer em Madri, Nero contemplando o incêndio de Roma, ou a fuga de Carlos, o temerário – tinha olhos enormes, cheios de angústia, como sentisse o horror daquela situação histórica”.
 
 
 
 
APAGUE AS PEGADAS
 
 

Separe-se de seus amigos na estação

De manhã vá à cidade com o casaco abotoado
Procure alojamento, e quando seu camarada bater:
Não, oh, não abra a porta  //  Mas sim  //  Apague as pegadas!
 
Se encontrar seus pais na cidade de Hamburgo ou em outro lugar
Passe por eles como um estranho, vire na esquina, não os reconheça
Abaixe sobre o rosto o chapéu que eles lhe deram
Não, oh, não mostre seu rosto  /  Mas sim  //  Apague as pegadas!
 
Coma a carne que aí está.  Não poupe.
Entre em qualquer casa quando chover, sente em qualquer cadeira
Mas não permaneça sentado. E não esqueça seu chapéu.
Estou lhe dizendo:    //   Apague as pegadas!
 
O que você disser, não diga duas vezes.
Encontrando o seu pensamento em outra pessoa:  //  negue-o.
Quem não escreveu sua assinatura, quem não deixou retrato,
Quem não estava presente, quem nada falou
Como poderão apanhá-lo ?   //   Apague as pegadas!
 
Cuide, quando pensar em morrer
Para que não haja sepultura revelando onde jaz
Com uma clara inscrição a denunciá-lo
E o ano de sua morte a entregá-lo.
Mais uma vez:   //   Apague as pegadas!
 
(Assim me foi ensinado.)
 
 
 
Ainda sobre o sistema educacional da Alemanha em sua época de estudante, Brecht diria depois que “lá só se aprendia o necessário, a arte de enganar, esconder conhecimentos que não possuíam, assimilar rapidamente os lugares comuns, estar sempre pronto a denunciar os companheiros aos superiores. Os filhos dos burgueses eram mais bem tratados que os dos operários”. Diria também que “um certo professor não fornecia solução para os problemas – limitava-se a colocar o problema com força. Dava imagens da realidade, deixando a nós a tarefa de tirar as conclusões, procedimento incomparavelmente mais fecundo”. Quando  estourou a Grande Guerra, Brecht tinha 16 anos.
 
 
 
 
CONTRA A SEDUÇÃO
 
 
Não se deixe seduzir!
Não há caminho de volta.
O dia se aproxima
E já se sente o frio da noite.
A manhã não virá nunca mais.
 
Não se deixe enganar!
A vida não é muita coisa.
É preciso bebê-la em grandes goles!
Vocês não terão bebido o bastante
Quando chegar a hora de deixá-la.
 
Não se deixem envolver!
Não terão tempo bastante!
Deixem apodrecer os cadáveres.
A vida leva-os sempre
E não se vive senão uma vez.
 
Não se deixem arrastar
Aos trabalhos e às galeras.
De que, então, vocês têm medo?
Como todos os animais, vocês morrerão
E depois da morte não há mais nada.
 
 
 
Em setembro de 1916, Bertold ingressa na faculdade de medicina em Munique. Neste mesmo ano, em Berlim, o dirigente revolucionário Karl Liebknecht, em uniforme militar, grita às massas da Praça Potsdam “Abaixo o governo! Abaixo a guerra! Viva o socialismo!”. A vitória da revolução proletária na rússia e 1917 teve grande influência na Alemanha. Greves saúdam o novo regime e conselhos de deputados e militares são formados nos moldes bolchevistas. Bertold se mobiliza e trabalha num hospital do exército em Augsburg. “Eu fazia curativos, transfusões de sangue, aplicava tintura de iodo. Se o médico ordenava: “Brecht, ampute esta perna!” Eu respondia: “Sim, excelência!”, e cortava a perna. Se me diziam “Faça uma trepanação”, eu abria o crânio do homem e mexia em seus miolos. Via como os médicos remodelavam as pessoas para enviá-los de volta ao front o mais rapidamente possível”. Assim, tornou-se pacifista.
 
 
 
 
SOUBE QUE VOCES NADA QUEREM APRENDER
 
 
Soube que vocês nada querem aprender
Então devo concluir que são milionários.
Seu futuro está garantido – á sua frente
Iluminado. Seus pais
Cuidaram para que seus pés
Não topassem com nenhuma pedra. Neste caso
Vocês nada precisam aprender. Assim como estão
Podem ficar.
 
Havendo dificuldades, pois os tempos
Como ouvi dizer, são incertos
Vocês têm seus líderes, que lhes dizem exatamente
O que têm a fazer para que fiquem bem.
Eles leram aqueles que sabem
As verdades válidas para todos os tempos
E as receitas que sempre funcionam.
Onde há tantos a seu favor
Vocês não precisam levantar um dedo.
Sem dúvida, porém, se fosse diferente
Vocês teriam muito o que aprender.
 
 
 
Em 1918, Bertold escreve seu primeiro poema contundente ‘A lenda do soldado morto’, que lhe rende o quinto lugar na lista das pessoas a serem executadas se o putsch de Hitler em 1923 tivesse saído vitorioso. Em 1919 o movimento operário na Alemanha enfraquece com a morte de Liebknecht e Rosa Luxemburgo num zoológico em Berlim. Em julho é proclamada a República de Weimar. Com isso, Bertold retorna para a faculdade de Medicina e para a vida boêmia de Munique. Nesta época escreve Baal e Nos Tambores da Noite. Todas as traduções foram feitas por Paulo César de Souza.
 
 
 
CANÇÃO DO PINTOR HITLER
 
 
1
 
HItler, o pintor de paredes
Disse: Caros amigos, deixem eu dar uma mão!
E com um balde de tinta fresca
Pintou como nova a casa alemã
Nova a casa alemã.
 
2
 
Hitler, o pintor de paredes
Disse: Fica pronta num instante!
E os buracos, as falhas e as fendas
Ele simplesmente tapou
A merda inteira tapou.
 
3
 
Ó Hitler pintor
Por que não tentou ser pedreiro?
Quando a chuva molha sua tinta
Toda a imundície vem abaixo
Sua casa de merda vem abaixo.
 
4
 
Hitler, o pintor de paredes
Nada estudou senão pintura
E quando lhe deixaram dar uma mão
Tudo o que fez foi um malogro
E a Alemanha inteira ele logrou.
 
 
 
Em 1919 consegue um lugar de dramaturg do Kammerspiele de Munique. O cargo combinava as atividades de dramaturgo da companhia, a de adaptador de peças, leitor de textos e orientador literário da empresa. Em 1921, Bertold foi várias vezes a Berlim tentar publicar suas peças e conheceu Arnolt Bornnen, líder do movimento expressionista, tornaram-se amigos. Nesta época Bertold também conhece outro que seria seu grande amigo, o cômico Karl Valentin, o clown metafísico. Em 1922, Bertold casa-se com a cantora Marianne Zoff.
 
 
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DE QUE SERVE A BONDADE
 
 
1
 
De que ser a bondade
Se os bons são imediatamente liquidados, ou são liquidados
Aqueles para os quais eles são bons?
 
De que ser a liberdade
Se os livres têm que viver entre os não-livres?
 
De que serve a razão
Se somente a desrazão consegue o alimento de que todos necessitam?
 
2
 
Em vez de serem apenas bons, esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne possível a bondade
ou melhor: que a torne supérflua!
 
Em vez de serem apenas livres, esforcem-se
Para criar um estados de coisas que liberte a todos
E também o amor à liberdade
Torne supérfluo!
 
Em vez de serem apenas razoáveis, esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne a desrazão de um indivíduo
Um mau negócio!
 
 
 
Estreia Tambores na Noite em Kammerspiele, em Munique. Um sucesso enorme. “O poeta de 24 anos Bert Brecht mudou do dia para a noite a fisionomia literária da Alemanha. Um novo tom, uma nova melodia, uma nova visão entraram em nossos tempos…” Neste ano, Bertold ganha o Prêmio Kleist de melhor dramaturgo. Em 1923, mais duas peças estreiam, Na selva das cidades e Baal. Esta última, causando enorme polêmica em Leipzig. Suas peças trazem algo especial ao teatro alemão. “Brecht promove a distância em vez da grandeza, não rebaixa os homens, mas priva o ator de sentimentalismo, reclama gestos simples, uma dicção clara e fria”, escreve Karl Valentin.
 
 
TODAS AS TRADUÇÕES DOS POEMAS FORAM FEITAS POR PAULO CESAR DE SOUZA
 
A INSCRIÇÃO INVENCÍVEL
 
 
No tempo da Guerra Mundial
Em uma cela da prisão de San Carlo
Cheia de soldados aprisionados, de bêbados e ladrões
Um soldado socialista riscou na parede com um estilete:
VIVA LENIN!
Bem alto na cela meio escura, pouco visível, mas
Escrito com letras imensas.
Quando os guardas viram, enviaram um pintor com um balde de cal
Que com um pincel de cabo longo cobriu a inscrição ameaçadora.
Mas, como ele apenas acompanhou os traços com cal
Via-se agora em letras brancas, no alto da cela:
VIVA LENIN!
Somente um segundo o pintor cobriu tudo com pincel largo
De modo que durante horas desapareceu, mas pela manhã
Quando a cal secou, destacou-se novamente a inscrição:
VIVA LENIN!
Então enviaram os guardas um pedreiro com uma faca para eliminar a inscrição.
E ele raspou letras por letras, durante uma hora
E quando terminou, lá estava no alto da cela, incolor
Mas gravada fundo na parede, a inscrição invencível:
VIVA LENIN!
Agora derrubem a parede! disse o soldado.
 
 
 
Em 1924, Bretolt muda-se definitivamente para Berlim. Seu casamento anda turbulento e assim ele conhece a atriz Helene Weigel. Apaixonam-se. Passa a trabalhar como dramaturg no Deutsches Theatre junto com Carl Zuckmayer e Erich Engel. A companhia encena Na Sekva das Cidades com direção de Max Reinhardt. Nesta época Bretolt conhece o diretor Erwin Piscator que reorganiza a Volksbuhne, uma associação de espectadores apoiada pelo movimento político e sindical de esquerda. Piscator exerce forte influência em Bertolt e disse que “é o único autor que resolve as necessidades de nossa época. Sartre se orienta pelo mesmo caminho, mas não chega tão longe. Brecht e eu fomos irmãos. Nossa relação foi possível porque tínhamos basicamente a mesma visão de mundo e esperávamos o mesmo teatro”.
 
 
O último suspiro antes do amanhecer http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
 
 
A QUEIMA DE LIVROS
 
 
Quando o regime ordenou que fossem queimados publicamente
Os livros que continham saber pernicioso, e em toda parte
Fizeram bois arrastarem carros de livros
Para as pilhas em fogo, um poeta perseguido
Um dos melhores, estudando a lista dos livros queimados
Descobriu, horrorizado, que os seus
Haviam sido esquecidos. A cólera o fez correr
Célere até sua mesa, e escrever uma carta aos donos do poder.
Queimem-me! Escreveu com pena veloz. Queimem-me!
Não me façam uma coisa dessas! Não me deixem de lado! Eu não
Relatei sempre a verdade em meus livros? E agora tratam-me
Como um mentiroso? Eu lhes ordeno:
Queimem-me!
 
 
 
Em 1926 estreia Mann ist Mann com direção de Jacob Greis e cenário de Caspar Neher, no mesmo ano também há a estreia de Baal, causando confusão entre os espectadores e prepara uma coletânea de poemas chamada Breviário de Bolso. O livro é impresso em papel-bíblia e se parecia muito com uma. Em 1927 é o ano das parcerias com Kurt Weil. Sai nesta época o embrião de Mahagonny. O sucesso veio com A Ópera dos Três Vinténs com direção de E. Engel. O espetáculo tinha Lotte Lenya, então mulher de Weil no elenco. O processo foi desacreditado, ninguém acreditava no êxito da peça, mas, foi um sucesso.
 
 
 
 
AOS QUE VÃO NASCER
 
 
1
 
É verdade, eu vivo em tempos negros.
Palavra inocente é tolice. Uma testa sem rugas
Indica insensibilidade. Aquele que ri
Apenas não recebeu ainda
A terrível notícia.
 
Que tempos são esses, em que
Falar de árvores é quase um crime
Pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?
Aquele que atravessa a rua tranquilo
Não está mais ao alcance de seus amigoa
Necessitados?
 
Sim, ainda ganho meu sustento
Mas acreditem: é puro acaso. Nada do que faço
Me dá direito a comer a fartar.
Por acaso fui poupado. (Se minha sorte acaba, estou perdido.)
 
As pessoas me dizem: Coma e beba! Alegre-se porque tem!
Mas como posso comer e beber, se
Tiro o que como ao que tem fome
E meu copo d’água falta ao que tem sede?
E no entanto eu como e bebo.
 
Eu bem gostaria de ser sábio.
Nos velhos livros se encontra o que é sabedoria:
Manter-se afastado da luta do mundo e a vida breve
Levar sem medo
E passar sem violência
Pagar o mal com o bem
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los
Isto é sábio.
Nada disso sei fazer:
É verdade, eu vivo em tempos negros.
 
2
 
À cidade cheguei em tempo de desordem
Quando reinava a fome.
Entre os homens cheguei em tempo de tumulto
E me revoltei junto com eles.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.
 
A comida comi entre as batalhas
Deitei-me para dormir entre os assassinos
Do amor cuidei displicente
E impaciente contemplei a natureza.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.
 
As ruas de meu tempo conduziam ao pântano.
A linguagem denunciou-me ao carrasco.
Eu pouco podia fazer. Mas os que estavam por cima
Estariam melhor sem mim, disso tive esperança.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.
 
As forças eram mínimas. A meta
Estava bem distante.
Era bem visível, embora para mim
Quase inatingível.
Assim passou o tempo
Que nesta terra me foi dado.
 
3
 
Vocês, que emergirão do dilúvio
Em que afundamos
Pensem
Quando falarem de nossas fraquezas
Também nos tempos negros
De que escaparam.
Andávamos então, trocando de países como de sandálias
Através das lutas de classes, desesperados
Quando havia só injustiça e nenhuma revolta.
 
Entretanto sabemos:
Também o ódio à baixeza
Deforma as feições.
Também a ira pela injustiça
Torna a voz rouca. Ah, e nós
Que queríamos preparar o chão para o amor
Não pudemos nós mesmos ser amigos.
 
Mas vocês, quando chegar o momento
Do homem ser parceiro do homem
Pensem em nós
Com simpatia.
 
 
 
Com o sucesso da Ópera dos Três Vinténs, é produzido o filme Romance dos Três Vinténs, editado em Amsterdam. O filme foi dirigido por Pabst que usou praticamente o mesmo elenco. Também foi um sucesso. Logo depois consegue apoio para produzir Kuhle Vamp, sobre uma área de loteamento nos subúrbios proletários de Berlim. Porém, o Governo proibe o filme. Happy End não obteve o mesmo sucesso que a Ópera, mas curiosamente suas canções se perpetuaram. Em 1932, Bertolt escreve Santa Joana dos Maradouros, que sem teatros para trabalhar, foi apresentada apenas pelo rádio.
 
 
Nas escadas da Cinelândia http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
 
 
MOSTRAR O QUE TEM QUE SER MOSTRADO
 
 
Mostrem que mostram! Entre todas as diferentes atitudes
Que vocês mostram, ao mostrar como os homens se portam
Não devem esquecer a atitude de mostrar.
A atitude de mostrar deve ser a base de todas as atitudes.
Eis o exercício: antes de mostrarem como
Alguém comete traição, ou é tomado pelo ciúme
Ou conclui um negócio, lancem um olhar
À plateia, como se quisessem dizer:
Agora prestem atenção, agora ele trai, e o faz deste modo.
Assim ele fica quando o ciúme o toma, assim ele age
Quando faz negócio. Desta maneira
O seu mostrar conservará a atitude de mostrar
De pôr a nu o já disposto, de concluir
De sempre prosseguir. Então mostram
Que o que mostram, toda noite mostram, já mostraram muito
E a sua atuação ganha algo próprio do mostrar:
Que vocês estão sempre preocupados em facilitar
O assistir, em assegurar a melhor visão
Do que se passa – tornem isso visível! Então
Todo esse trair e enciumar e negociar
Terá algo de uma função cotidiana como comer,
Cumprimentar, trabalhar. (Pois vocês não trabalham?) E
Por trás de seus papéis permanecem
Vocês mesmos visíveis, como aqueles
Que os encenam.
 
 
 
 
Em 1928, no mesmo ano que Hitler publica em grande tiragem o livro Mein Kampf, Bertolt apresenta o texto de Ascensão e Queda da Cidade de Mahagony. A estreia em 1930 é tumultuada e o público de sente ofendido. Desta peça em diante, Bertolt assume definitivamente o marxismo. Frequenta as conferências do Colégio dos Operários Marxistas de Berlim. Nesta época começa a fazer as conhecidas Peças Didáticas. Bertolt rompe com Kurt Weil e trabalha constantemente com Hans Eisler. 
 
 
 
 
O LADRÃO DE CEREJAS
 
 
Bem cedo numa manhã, antes do grito do galo
Fui acordado por um assovio e andei até a janela.
Em minha cerejeiras – a alvorada tomava o jardim -
Estava sentado um jovem de calça remendada
Que colhia alegremente minhas cerejas. Ao me ver
Acenou com a cabeça. Com ambas as mãos
Tirava as cerejas dos ramos e punha nos bolsos.
Ainda por um bom tempo, novamente deitado
Ouvi-o assoviar sua alegre cançãozinha.
 
 
Em 1933, Hitler assume o poder. O Partido Comunista convoca uma greve geral. No dia 31 de janeiro, Hitler discursa ao povo alemão e logo em seguida, o Reischtag, prédio do parlamento é incendiado. Hitler culpa os comunistas. Começa a caça. Primeiro todas as lojas de judeus são marcadas com tinta em suas portas. Depois, por unanimidade, o Partido Nazista proíbe qualquer casamento de alemães com judeus. A partir daí a perseguição fica cada vez maior. Comunistas, intelectuais são perseguidos. Bertolt é o quinto da lista negra. No dia 10 de maio, livros considerados subversivos para os nazistas são queimados em praça pública. É o início do terror. No dia seguinte da ordem de caça, os nazistas já estão em sua casa, porém, horas antes, Bertolt havia fugido com sua família de trem para Praga.
 
 
 
 
O TUFÃO
 
 
Fugindo do pintor, rumo aos Estados Unidos
Notamos de repente que nosso pequeno navio não se movia.
Toda uma noite e um dia inteiro
Permaneceu na altura de Luzon, no Mar da China.
Alguns diziam ser devido a um tufão que rugia no norte
Outros temiam barcos piratas alemães.
Todos
Preferiam o tufão aos alemães.
 
 
 
De Praga, Bertolt segue com sua família para Viena. Não acredita que ficará tanto tempo viajando, o Nazismo, até para o mais paranóico, não parecia que cresceria tanto, tamanho era o absurdo que abordava. Mas isso não aconteceu. Hitler crescia cada vez mais. Anexou a Áustria. O objetivo primeiro era “reunir” os países do antigo Império. Bertolt de Viena vai para Zurich onde encontra com Heinrich Mann e Walter Benjamim. Depois França e então Dinamarca, em Svendborg. Bertolt produz muito nessa época. Algumas Perguntas a um Homem Bom, Os três soldados, Os sete pecados capitais do pequeno burguês e muitas outras. A esta altura se estabelece definitivamente a Segunda Guerra Mundial.
 
 
 
REFLETINDO SOBRE O INFERNO
 
 
Refletindo, ouço dizer, sobre o inferno
Meu irmão Shelley achou ser ele um lugar
Mais ou menos semelhante a Londres. Eu
Que não vivo em Londres, mas em Los Angeles
Acho, refletindo sobre o inferno, que ele deve
Assemelhar-se mais ainda a Los Angeles.
 
Também no inferno
Existem, não tenho dúvidas, esses jardins luxuriantes
Com as flores grande como árvores, que naturalmente fenecem
Sem demora, se não são molhadas com água muito cara. E mercados
de frutas
Com verdadeiros montes de frutos, no entanto
Sem cheiro nem sabor. E intermináveis filas de carros
Mais leves que suas próprias sombras, mais rápidos
Que pensamentos tolos, automóveis reluzentes, nos quais
Gente rosada, vindo de lugar nenhum, vai a nenhum lugar.
E casas construídas para pessoas felizes, portanto vazias
Mesmo quando habitadas.
Também as casas do inferno não são todas feias.
Mas a preocupação de serem lançados na rua
Consome os moradores das mansões não menos que
Os moradores dos barracos.
 
 
 
 
Entre 1932 e 1936, Bertolt trabalha em uma peça sobre o nazismo, Cabeças redondas, Cabeças pontudas. Em 1935, parte para a Rússia e lá encontra amigos como Carola Neher, Piscator e outros. Nesta época também conhece atores chineses e desperta uma profunda relação com a poesia chinesa. A partir daí, muitas estreias em Paris, encontros com Walter Benjamin. Escreve Mãe Coragem e seus filhos e O Processo de Lúculus. Hitler já havia anexado a Tchecoeslováquia e partia para outras frentes. Bertolt continua as viagens, os exílios. 
 
 
 
 
CANÇÃO DE UMA ENAMORADA
 
 
Quando me fazes alegre
Penso por vezes:
Agora poderia morrer
Então seria feliz
Até o fim.
 
E quando envelheceres
E pensares em mim
Estarei como hoje
E terás um amor
Sempre jovem.
 
 
 
 
Em outubro de 1936, Brecht está em Paris onde escreve e encena muitas peças. É nesta época também que surge a primeira versão de A Vida de Galileu. Sempre ligado no avanço nazista, Bertolt parte para a Finlândia em 1940. Em 1941, consegue um visto para os EUA e parte para Moscou onde estão outros amigos. Só que nesse interin, morre de tuberculose sua grande amiga Margareth Steffin. De Moscou para de trem para Vladivostok. Sai o texto A Alma Boa de Setsuan. Morre Walter Benjamin. Assim, Bertolt parte com a família para os EUA a bordo do navio sueco Anni Jonhson. 
 
 
 
 
OS ESPERANÇOSOS
 
 
Pelo que esperam?
Que os surdos se deixem convencer,
Que os insaciáveis lhes devolvam algo?
Os lobos por certo os alimentarão, 
em vez de devorá-los!
E por amizade 
os tigres solicitarão 
que lhes arranquem os dentes!
É por isso que esperam!
 
 
 
Bertolt reúne-se com outros exilados alemães nos EUA. Thomas Mann, Hans Eisler e outros. Lá conhece Charles Chaplin e Aldous Huxley. Passa a maior parte do tempo tentando escrever roteiros para cinema e até se envolve numa produção, quando um de seus roteiros é usado quase que completamente por Fritz Lang mas que não lhe dá o crédito. Decepciona-se profundamente com a América. Tem algumas peças montadas, mas longe do ideal. Até que é chamado a comparecer à Comissão de Atividades Antiamericanas, onde é interrogado longamente sobre sua ligação com o Partido Comunista. Bertolt finge-se de ingênuo e consegue enganar a Comissão, no dia seguinte parte para a Alemanha.
 
 
 
 
A SOLUÇÃO
 
 
Após a revolta de 17 de junho
O secretário da União dos Escritores
Fez distribuir comunicados na Alameda Stalin
Nos quais se lia que o povo
Desmerecera a confiança do governo
E agora só poderia recuperá-la
Pelo trabalho dobrado. Mas não
Seria mais simples o governo
Dissolver o povo
E escolher outro?
 
 
 
Bertolt vai para a Suiça, conhece os atores que encenaram suas peças enquanto esteve nos EUA. Em 1948 volta para Berlim e em 1949 obtêm cidadania austríaca. Em setembro deste ano, funda, o Berliner Ensemble e encena várias peças. Em 1950, volta a trabalhar com vários colaboradores, Hans Eisler, Caspar Neher, Ruth Berlau e muitos outros. Bertolt agora vive numa casa perto do teatro cujo fundo dá para um cemitério onde está enterrado Hegel. Quando morrer quer ser enterrado ao lado dele. Recebe uma casa do Estado onde escreve Os Poemas de Buckow. 
 
 
 
 
NÃO NECESSITO DE PEDRA TUMULAR
 
 
Não necessito de pedra tumular, mas
Se necessitarem de uma para mim
Gostaria que nela estivesse:
Ele fez sugestões
Nós as aceitamos.
Por uma tal inscrição
Estaríamos todos honrados.
 
 
 
 
 
O Berliner Ensemble encena várias peças de Bertolt e segue crescendo. Sua saúde não vai bem e em 1955 escreve sua última adaptação Tambores e Trombetas, baseado em O Oficial Recrutador, de George Farquhar. Participa também do Congresso dos Partidários da Paz, em Dresden e viaja para Moscou para receber o Prêmio Stalin da Paz, antes renegado por Thomas Mann. Em fevereiro de 1956 assiste sua última montagem da Ópera do Três Vinténs em Milão. No dia 10 de agosto vai pela última vez ao Berliner Ensemble e dirige um ensaio, até que no dia 14 do mesmo mês, sofre uma parada cardíaca e morre. É enterrado num túmulo perto de Hegel, como queria. No dia 18 é feita uma homenagem no Berliner Ensemble onde textos são lidos. Assim terminamos o companheiro Bertolt Brecht.
 
 
 
SE FOSSEMOS INFINITOS
 
 
Fôssemos infinitos
Tudo mudaria
Como somos finitos
Muito permanece.
 
 
 
 
 
 

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Pier Paolo Pasolini

pasolini

 

Pier Paolo Pasolini nasceu em Bolonha, na Itália, no dia 5 de março de 1922. Filho mais velho do tenente da infantaria Alberto Pasolini e das professora Susanna Colussi. Seu pai era de uma antiga família nobre de Ravenna, e casou-se com Susanna em 1921, quando foram para Bolonha. Sua mãe, a contrário de seu pai, era de uma família de agricultores que aos poucos se tornaram uma espécie de classe média. Seus avós maternos eram destiladores e piamonteses. Vamos de Pasolini!

AS CINZAS DE GRAMSCI I
Não é de Maio este ar impuro
que torna o jardim sombrio e estrangeiro
ainda mais sombrio, ou o ofusca
com réstias de luz alucinadas… este céu
de baba sobre as mansardas amarelas
que em semicírculos velam como véus
os meandros do Tibre, os montes
turquesa do Lácio… É uma paz mortal,
resignada como os nossos destinos,
a que derrama sobre estes velhos muros
o outonal Maio. Há nele o cinzento do mundo
o fim do decênio em que nos parece
que as ruínas engoliram o profundo
e ingênuo esforço para recriar a vida:
o silêncio, úmido e infecundo…
Tu, jovem, naquele Maio em que errar
era ainda viver, naquele Maio italiano
que à vida ao menos acrescentava ardor,
muito menos descuidado e impuramente são
do que os nossos pais – não pai, mas humilde
irmão – já com a tua magra mão
delineavas o ideal que ilumina
(mas não para nós, que estás morto, e nós
estamos mortos, contigo, no úmido
jardim) este silêncio. Não vês que só
podes repousar em terra
estranha, ainda desterrado? Um tédio
patrício reina à tua volta. E só te chega
um rumor abafado de bigorna
nas oficinas do Testaccio, adormecido
ao anoitecer: por entre míseros telhados,
nus montões de lata, ferro-velho, onde, vicioso,
um operário cantando dá por terminado
o seu dia, e em redor deixa de chover.
Os Pasolinis não ficaram muito tempo em Bolonha. Mudaram-se para Parma, depois Conegliano, Belluno, Idria, Cremona, Bolonha novamente, depois algumas cidades do norte da Itália, fazendo com que o pequeno Pier se torna-se uma espécie de nômade, sem jamais ter tipo umas residência fixa. Numa dessas estadias, em Belluno, nasceu Guido Pasolini. Já desta época, começaram os conflitos com pai. Pier temia a hora do jantar, por sempre haver cenas de seu pai violento. Algumas vezes o pegava à força e o prendia na mesa, sua mãe suportava tudo e Pier começou a sofrer ardência nos olhos.

Todas as traduções são de Maria Jorge Vilar de Figueiredo

AS CINZAS DE GRAMSCI IV
O escândalo de me contradizer, de estar
contigo e contra ti; contigo no coração,
à luz do dia, contra ti na noite das entranhas;
traidor da condição paterna
- em pensamento, numa sombra de ação -
a ela me liguei no ardor
dos instintos da paixão estética;
fascinado por uma vida proletária
muito anterior a ti, a minha religião
é a sua alegria, não a sua luta
de milênios: a sua natureza, não a sua
consciência; só a força originária
do homem, que na ação se perdeu,
lhe dá a embriaguez da nostalgia
e um halo poético: e mais nada
sei dizer, a não ser o que seria
justo, mas não sincero, amor abstrato,
e não dolorida simpatia…
Pobre como os pobres, agarro-me
como eles a esperanças humilhantes,
como eles, para viver me bato
dia a dia. Mas na minha desoladora
condição de deserdado,
possuo a mais exaltante
das posses burguesas, o bem mais absoluto.
Todavia, se possuo a história,
também a história me possui e me ilumina:
mas de que serve a luz?
A carinhosa mãe do pequeno Pier Paolo costumava ler fábulas para ele quando criança. Era uma espécie de Sócrates. Acreditava no heroísmo, na piedade, na caridade, na generosidade, valores que Pasolini viria a dizer que absorveu “quase que patologicamente”. Também teve estreita relação com seu irmão Guido que o admirava por ser bom nos estudos e em jogos. Pier Paolo entrou no ginásio com um ano de antecedência. Em 1928, fez um caderno com colagens de fotografias e escritos poéticos, prontamente seguido pelos colegas de colégio.

O PRANTO DA ESCAVADEIRA VI
Na chama abandonada
do sol matinal – que agora se reacende,
rasando os estaleiros, sobre as fechaduras
que amorna – vibrações
desesperadas rasgam o silêncio
que perdidamente cheira a leite azedo,
a praças vazias, inocência.
Pelo menos desde às sete da manhã, essa vibração
aumenta com o sol. Pobre presença
de uma dúzia de operários já velhos,
lenços e camisolas interiores queimados
de suor, cujas vozes raras,
cujas lutas contra os blocos
dispersos de lama, as vagas de terra,
parecem morrer naquele tremor.
Mas por entre os estrondos teimosos
das garras que cegas trituram, cegas
esboroam, cegas agarram,
como es não tivessem um fim,
um uivo inesperado, humano,
nasce, e a intervalos se repete,
tão louco de dor, que, de repente,
já não parece humano, e volta a ser
estridor mortal. Depois, baixinho,
ressoa, à luz violenta,
entre os prédios ofuscados, novo, igual,
uivo que só quem está a morrer
pode soltar, no derradeiro instante,
sob este sol que cruel ainda brilha
mas já adoçado pelo ar do mar…
Quem assim grita, atormentada
por meses e anos de suores
matutinos – acompanhada
pelo mudo tropel das suas garras -
é a velha escavadora: mas é também o fresco
terriço remexido, ou, no breve espaço
de um horizonte deste século,
o bairro todo… É a cidade,
mergulhada num clarão de festa,
- é o mundo. Chora o que chega ao fim
e recomeça. O que era
campo verde, espaço aberto, e é agora
pátio branco como cera,
emparedado num decoro feito de rancor;
o que parecia uma velha feira
de rebocos frescos, sinuosos, ao sol,
e é agora bairro novo, fervilhante,
numa ordem que é apenas dor calada.
Chora o que muda, mesmo
que seja para ser melhor. A luz
do futuro não deixa um só instante
de nos ferir: está aqui, a arder
nos atos que cumprimos dia a dia,
angústia mesmo na fé
que nos dá vida, no impulso gobettiano
para estes operários, que mudos exibem,
no bairro da outra frente humana,
o seu trapo vermelho de esperança.
Pier Paolo terminou o ensino médio aos 17 anos e matriculou-se no curso de Literatura na Universidade de Bolonha. Lá, criou um grupo literário chamado GIL, ao lado de Luciano Serra, Farolfi Franco, Mauri Fábio e outros. Nessa época surgiram os poemas que vieram a fazer parte de seu primeiro livro, Poesie a Casarsa. Pier também contribuiu com a revista Stroligut e junto com amigos criou a Academiuta di lenga furlana, um dialeto que representou uma espécie de oposição ao regime fascista que estava em pleno vigor e ascensão na época.

NOITE ROMANA PARA AS TERMAS DE CARACALLA
SEXO, CONSOLO DA MISÉRIA
O MEU DESEJO DE RIQUEZA
TRIUNFO DA MORTE
Onde vais pelas ruas de Roma,
nos tróleis ou no elétricos em que as pessoas
voltam para casa? Apressado, obcecado, como se
te aguardasse o trabalho paciente
de onde a esta hora os outros regressam.
É logo a seguir ao jantar, quando o vento
cheira a quentes misérias familiares
perdidas nas mil e uma cozinhas, nas
longas ruas iluminadas,
sobre as quais mais claras espiam as estrelas.
No bairro burguês, reina a paz
que a todos satisfaz em suas casas,
não sem alguma cobardia, e que todos gostariam
que lhes enchesse cada noite da existência.
Ah, ser diferente – num mundo porém
culpado – significa que não se é inocente…
Vá, desce pelas curvas escuras
da avenida que conduz ao Trastevere:
verás que, imóvel e devastada, como
arrancada a uma lama de outras eras
- para satisfazer quem pode roubar
mais um dia à morte e à dor -
tens a teus pés toda a cidade…
Desço, atravesso a Ponte Garibaldi,
rente ao parapeito, passando os nós dos dedos
pelo rebordo de pedra esboroada,
dura no ar morno que a noite
ternamente exala, sobre a copa
quente dos plátanos. Na outra margem,
como lajes em fila descorada,
as mansardas, plúmbeas, rasas, do amarelado casario
enchem o céu deslavado. Caminhando pelo lajedo
deslabrado, de osso, contemplo, ou melhor,
cheiro o grande bairro familiar,
prosaico e ébrio – salpicado de estrelas
envelhecidas e janelas sonoras -:
o Verão escuro e úmido doura-o,
por entre as baforadas sujas
que o vento vindo dos campos
do Lácio espalha com a chuva
sobre carris e fachadas.
E como cheira, no calor tão denso
que é também espaço,
o paredão, aqui em baixo:
desde a ponte Sublicio até o Gianicolo
o fedor mistura-se à embriaguez
da vida que não é vida.
Sinais impuros de que por aqui passaram
velhos bêbados de Ponte, antigas
prostitutas, bandos de malandrins
despudorados: rastos humanos,
impuros que, humanamente infectos,
vêm falar-nos, violentos e pacíficos,
desses homens, dos seus baixos prazeres
inocentes, dos seus míseros desígnios.
Pasolini se envolveu com os movimentos de esquerda ainda na faculdade. Nessa mesma época, retorna a Casarsa, sua casa. O início da Segunda Guerra Mundial foi um período extremamente difícil em sua vida. Foi recrutado em 1943 para o exército em Livorno. No dia 9 de setembro desse ano, desobedeceu uma ordem de entregar suas armas aos alemãs e fugiu. Retornou a Casarsa para rever sua família e se mudou para Versutta, longe dos bombardeios alemães.

NOITE ROMANA
Sexo, consolo da miséria!
A puta é uma rainha, o seu trono
são ruínas, a sua terra um naco
de prado merdoso, o seu cetro
uma bolsa de verniz vermelho:
ladra na noite, porca e feroz
como uma mãe antiga: defende
o seu território e a sua vida.
Os chulos, em redor, em bandos,
soberbos e pálidos, com bigodes
brindesianos ou eslavos, são
chefes, regentes: tramam,
nas trevas, os seus negócios de cem liras,
pestanejando em silêncio, trocando
palavras de ordem: o mundo, excluído, cala-se
à volta deles, que dele estão excluídos,
carcaças silenciosas de aves de rapina.
Mas nos destroços do mundo, nasce
um novo mundo, nascem leis novas
onde não há lei; nasce uma nova
honra onde a honra é desonra…
Nascem poderes e nobrezas,
ferozes, nos montes de tugúrios,
nos lugares perdidos onde se julga
que a cidade acaba, mas onde
recomeça, inimiga, recomeça
por milhares de vezes, com pontes
e labirintos, estaleiros e aterros,
atrás de vagas de arranha-céus
que velam horizontes inteiros.
Na facilidade do amor
o miserável sente-se homem:
firma tanto a fé na vida, que
despreza quem outra vida tem.
Os filhos lançam-se à aventura,
certos de estarem num mundo
que os teme, a eles e ao seu sexo.
A sua piedade é não terem piedade,
a sua força é não terem cuidados,
a sua esperança é não terem esperança.
Ainda em 1943, Guido, irmão de Pier Paolo, se recusou a ficar escondido em Versutta e decidiu juntar-se aos guerrilheiros. Para não levantar suspeitas, Pier Paolo comprou o bilhete para Bolonha e o levou à estação de trem. De Spilimbergo, Guido chegou à Pielungo, onde se juntou à divisão partidária Osoppo. Na guerra, usou o nome de Ermes. Conflitos internos se desenvolveram em vários grupos da resistência anti-fascista. Comunistas da Garibaldian exerceram pressão para que os Friuli se anexassem na Iugoslávia, enquanto a Osoppo queria ir para Friuli. Em fevereiro de 1945, a divisão de Guido foi massacrada em conflito Porzus. Pier Paolo, assim, perdera o irmão na guerra.

Historinha da Historinha em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
CONTINUAÇÃO DA NOITE EM SAN MICHELE
O DESEJO DE RIQUEZA DO SUBPROLETARIADO ROMANO
PROJECÇÃO DE “ROMA CIDADE ABERTA”
NO CINEMA “NUOVO”
Testemunha e participante desta
baixeza, desta miséria, regresso
ao longo do parapeito de coral,
de coração oprimido – ensimesmado,
na sede de saber, na ânsia de compreender,
que, na minha vida, embora febril,
seja repetitiva monotonia, vício
de recair e de voltar a sentir não sei o quê…
E como se Roma ou o mundo começasse
nesta noite antiga, nestes cheiros
milenares, caminho ao longo do precipício
que bárbaro o Tibre abre no meio de dormitórios
sórdidos e ruidosos bairros
de terracota, largos de esplendores
reduzidos a barrocas e céreas
volutas de igreja desconsagrada
e transformada em armazém, por entre as ruelas negras
que o pó, a lua, a velhice, a impiedade
cobrem de brancura – cartilagem
que faz ressoar o lajedo sob os pés.
Meto por San Michele, entre muros
baixos, como de casamatas, praças
granulosas sobre as quais a lua brilha
como sobre gelo decrépito, terraços
onde espia um cravo
ou uma arruda, regados por raparigas
de roupão: e o ar mudo
levas as suas vozes de prisioneiras
por entre paredes de tufo com buracos de portas
e janelas geminadas e tortas. Mas ecoam altivos
os gritos dos homens ainda ternos que
regressam dos primeiros espetáculos, camisolas
interiores e camisetas a esvoaçar sobre
as cinturas estreitas e seminuas… Param na praça,
por baixo da minha casa, à volta do café
já vazio, ou mais longe entre carroças
ou as filas inanimadas de caminhões de ferrugem
onde a lua brilha mais, e os becos,
desembocando, são mais escuros – ou iluminados
apenas para revelarem, de viés,
numa pedra leve e desossada
como esponja, paredes inchadas
incrustadas de rosáceas e bossagens;
e, neste bairro mexicano, o céu reflete
o seu ignorado encanto,
com vapores frescos como casca de maçã,
sobre os pardieiros do proletariado
que, brigão e humilde, festeja o fim do dia.
Ainda sobre a morte de seu irmão. Pier Paolo, sua mãe e Guido foram evacuados de Bolonha para Friuli. Guido, nesta época, entrou direto da Resistência. Pier Paolo era liberal, ainda não tinha lido Marx. Guido lutou bravamente nas montanhas, entre Friuli e a Iugoslávia, onde ocorria parte dos conflitos. A violência era terrível e Guido estava na linha de frente, contra os fascistas iugoslavos e os alemães queriam anexar o território italiano. Guido morreu tentando ajudar seus companheiros e comandantes. Em 1945, Pier Paolo publica Stroligut, onde há um poema sobre a morte de Guido Pasolini.

UMA EDUCAÇÃO SENTIMENTAL
A RESISTENCIA E A SUA LUZ
LÁGRIMAS
Quem fui? Que sentido teve a minha presença
num tempo que este filme evoca
e já tão tristemente fora do tempo?
Não posso fazê-lo agora, mas um dia
vou ter de aprofundar bem esta questão,
até um definitivo alívio…
Eu sei: acabava de ser parido para um mundo
onde a dedicação de um adolescente
- bondoso como sua mãe, imprevidente
e fogoso, monstruosamente
timido, e desconhecendo qualquer cumplicidade
que não fosse ideal – era sinal
aviltante de escândalo, santidade
ridícula. E estava condenada
a converter-se em vício: que a idade corrompe
a mansidão, e do angustiado
dom de si mesmo faz obsessão. E se descobri
de novo uma angustiada pureza
no meu amor, amor nu, sem
futuro. Por demais perdido no turbilhão
do mundo, por demais banhado pela amargura
de um riso embora triste, chapliniano…
É uma rendição. Humilde embriaguez do olhar,
participante, ardente – e inativo.
Redescoberta humilde da alegre permanência
dos outros homens no mal: o real,
vivido por eles num empíreo de lugares
miseráveis, ridentes, nas margens
de alegres torrentes, nos cumes
de montes luminosos, em terras oprimidas
pela antiga fome…
É um sentimento de grandeza o sentimento
que me consome nos mínimos gestos
de cada um dos nossos dias: reconhecimento
por reaparecerem ainda intactos
perante mim, sobrevivente, e ainda banhado
em bafiento pranto…
Anos depois, a morte de Guido seria usada inúmeras vezes por jornais italianos de direita como provocações políticas, sobretudo ao próprio Pasolini, que já era considerado “escritor marxista”. Em 1945, Pier Paolo formou-se em Literatura e estabeleceu-se definitivamente em Friuli. Nesta época começou a atividade política. Em 1947 passou a contribuir para o hebdomadário do Partido Comunista ‘Lotta e lavoro’. Após muito receio, Pier Paolo tornou-se Secretário da Seção de San Giovanni di Casarsa. Porém, este período com o Partido Comunista não seria tão agradável.

A RELIGIÃO DO MEU TEMPO
Dois dias de febre! O bastante
para não poder suportar o exterior,
mesmo levemente renovado pelas nuvens
quentes de Outubro, e agora tão moderno
- que me parece não poder já compreendê-lo -
nos dois rapazes que sobem a rua
lá ao fundo, na alvorada da sua juventude…
Sem graça, ignorados: mas os cabelos
reluzem sob uma festiva camada
de brilhantina – roubada no armário
dos irmãos mais velhos; e a gangue das calças,
desbotadas pelo sol de Ostia e pelo vento,
foi sendo roída por sóis citadinos,
milenares; mas é obra esmerada
a que o pente lhes fez na risca
dos cabelos louros e nas poupas.
Surgem à esquina de um prédio,
eretos, mas cansado da subida,
e o que vejo desaparecer por fim são os jarretes,
à esquina de outro prédio. A vida
é como se nunca tivesse existido.
O sol, a cor do céu, a hostil
suavidade que o ar toldado
por renascidas nuvens dá de novo às coisas,
tudo acontece como numa hora
passada da minha existência: misteriosas
manhãs de Bolonha ou de Casarsa,
doridas e perfeitas como rosas,
renascem aqui, a esta luz vista
por dois olhos tristes de rapaz
que mais não conhece do que a arte
de se perder, claro em fundo escuro.
E eu nunca pequei: sou
puro como um santo velho, mas
também nunca possuí; o dom
desesperado do sexo desapareceu
em fumo: sou bom
como um louco. O passado
é aquilo que tive por destino,
nada mais que vazio desconsolado…
e consolador. Observo, debruçado
da sacada, os dois rapazes que vão, lestos,
ao sol; e aqui estou, como um menino
que não chora apenas por aquilo que não teve,
mas também pelo que não terá…
E nesse pranto o mundo é um odor,
nada mais: violetas, prados, que a minha mãe
tão bem conhece, e em que primaveras…
Um odor que ondula para se tornar, aqui
onde o pranto é doce, matéria
de expressão, tonalidade… voz familiar
desta língua louca e verdadeira
que tive ao nascer e que na vida está imóvel.
A insatisfação de membros do Partido Comunista com a presença de Pasolini aumentava cada vez mais. Acusavam-no de desinteresse pelo regime socialista. Em um texto publicado, Pasolini afirma que “em mim há o sinal de Rimbaud, ou de Campana, ou de Wilde, gostem as pessoas ou não”. Logo em seguida, foi acusado de estar com dois ou três garotos, cujos pais não o processaram, porém, membros do Partido queriam investigar. Foi um período de muitos conflitos ideológicos entre o Partido Comunista e a Democracia Cristã, Pasolini sofria mais por causa de suas ideias anticlericais. Até que em 1949, Pasolini foi expulso do PCI por “indignidade moral”.

A UM PAPA
Poucos dias antes de morreres, a morte
pousou os olhos em alguém da tua idade:
ais vinte anos, tu estudavas, ele era pedreiro,
tu, nobre, rico, ele, um rapazote plebeu:
mas os mesmos dias douraram sobre vós
a velha Roma, voltando a dar-lhe a sua juventude.
Vi os seus despojos, pobre Zucchetto.
Andava de noite, bêbado, à volta dos Mercados,
e um elétrico que vinha de San Paolo atropelou-o
e arrastou-o por uns metros de carris no meio dos plátanos:
durante uma horas ficou ali, sob o rodado:
poucas pessoas se juntaram em redor, olhando-o,
em silêncio: já era tarde, havia pouca gente.
Um dos homens que existem para que tu existas,
um velho policial, desbocado como todos os patifes,
gritava aos que se aproximavam mais: “Larguem-lhe os colhões!”
Depois veio uma ambulância buscá-lo:
as pessoas desapareceram, só ficaram uns grupos aqui e acolá,
e, mais à frente, a dona de um cabaré,
que o conhecia, disse a um recém-chegado
que Zucchetto tinha ficado debaixo de um elétrico, que estava morto.
Poucos dias depois, morrias tu: Zucchetto era um
dos do teu grande rebanho romano e humano,
um pobre bêbado, sem família nem leito,
que andava de noite, vivendo ao deus-dará.
Tu ignoravas: como ignoravas
outros milhares e milhares de cristos como ele.
Talvez seja cruel ao perguntar por que razão
a gente como Zucchetto é indignada do teu amor.
Há lugares infames, na lama de outras eras.
Não muito longe de onde tu viveste,
à vista da bela cúpula de San Pietro,
fica um desses lugares, o Gelsomino…
Um monte cortado ao meio por uma pedreira, e no sopé,
entre um charco e uma fieira de prédios novos,
um montão de tugúrios miseráveis, não casas mas pocilgas.
Bastava um gesto teu, uma palavra,
para esses filhos terem uma casa:
nunca fizeste um gesto, nunca disseste uma palavra.
Ninguém te pedia que perdoasses Marx! Uma vaga
imensa que irrompe sobre milênios de vida
te separava dele, da sua religião:
mas não se fala, na tua religião, de piedade?
Milhares de homens sob o teu pontificado,
diante dos teus olhos, viveram em estábulos e pocilgas.
Tu sabias que pecar não é fazer o mal:
não fazer o bem, isso sim, é que é pecar.
Quanto bem podias tu ter feito! E não fizeste:
não houve quem mais pecasse do que tu.
Desgastado com o Partido Comunista Italiano, envolvido em polêmicas morais e mal visto pelos diretores do Partido, Pasolini resolveu sair de Casarsa e muda-se com sua mãe para Roma, para tentar começar uma vida nova. Uma vez em Roma, Pasolini encontrou dificuldades. Os subúrbios romanos eram uma realidade completamente nova, carentes, pobres. Pasolini não conseguia escrever. Seu pai também foi para Roma encontrá-los, passaram a morar em Ponte Mammolo. No início dos anos cinquenta, Pasolini, com ajuda do poeta Vittori Clemente, conseguiu um emprego de professor em uma escola particular de Ciampino.

POEMAS MUNDANOS
21 DE JUNHO DE 1962
Trabalho todo dia como um monge
e à noite vagueio, como um gato
à cata de amor… Vou sugerir
à Cúria que me santifique.
Com efeito, respondo à mistificação
com a mansidão. Olho com olhos
de imagem os que vão linchar-me.
Observo o meu massacre com a coragem
serena de um sábio. Pareço
sentir ódio, mas escrevo
versos cheios de amor atento.
Estudo a perfídia como um fenômeno
fatal, como se dela não fosse objeto.
Tenho pena dos jovens fascistas,
e aos velhos, que são para mim formas
do mais horrível mal, oponho
apenas a violência da razão.
Passivo como um pássaro que, voando,
tudo vê, e, no seu vôo para o céu,
leva no coração a consciência
que não perdoa.
A situação estava muito complicada em Roma. Desemprego, o pai deprimido, sua mãe com problemas, foi quando Pier Paolo, arrumou um emprego na industria de cinema nos degraus inferior da Cinecittà onde se tornou revisor, e para onde enviou seus escritos. Finalmente, encontra um emprego de professor em Ciampino. Nesta época começou a colaborar com a Parangone, onde, publicou a primeira versão do primeiro capítulo de Ragazzi di Vita. Em 1954, Pier Paolo se mudou para Monteverde Vecchio, bairro pequeno burguês em Roma e publicou La Meglio Gioventu.

SÚPLICA A MINHA MÃE
É difícil dizer com palavras de filho
aquilo a que intimamente bem pouco me pareço.
És a única no mundo que sabe o que esteve sempre
no meu coração, antes de qualquer outro amor.
Por isso tenho de dizer-te o que é horrível sabe:
é na tua graça que nasce a minha angústia.
És insubstituível. Por isso está condenada
à solidão a vida que me deste.
E eu não quero estar só. Tenho uma fome infinita
de amor, do amor de corpos sem alma.
Porque a alma está em ti, és tu, mas tu
és minha mãe e o teu amor é a minha servidão:
vivi a infância como escravo desse sentimento
supremo, irremediável, de um fervor imenso.
Era a única maneira de sentir a vida,
a única cor, a única forma: agora terminou.
Sobrevivemos: e é o caos
de uma vida que renasce fora da razão.
Suplico-te, ah, suplico-te: não queiras morrer.
Estou aqui, sozinho, contigo, num Abril futuro…
Em 1955, Ragazzi di vita fez um certo sucesso em Roma entre o público, porém, o PCI não gostou, julgando-o “de gosto mórbido”, “sujo”, “abjeto”, e prometeu uma ação contra Pier Paolo, que foi absolvido. Passou então a ser o alvo predileto dos jornais que acusavam-no de tudo que era crime, inclusive de mão armada e roubo. Nesta mesma época passou a colaborar com a revista ‘Officina’, publicou os poemas curtos Le Ceneri di Gramsci, e no ano seguinte L’Usigolo della Chiesa Cattolica. Seguido da publicação de Passione e Ideologia, e em 1961, uma edição de La religione del mio ritmo.

PEDRO II
TERÇA-FEIRA, 5 DE MARÇO (MANHÃ)
Ainda há pouco, era o início do dia,
e havia uma luz velha, moribunda, mas depois
veio o azul de um golfo do Sul, no gelo da nortada.
Um dia que só era preciso descobrir pairava sobre nós.
Soberbamente longe de todas as nossas paixões.
Quem dentro em pouco se vai sentar no banco dos réus
olha para esse azul, e sente uma ânsia maravilhosa
de liberdade – como no tempo em que pensar num dia novo,
nascido sobre margens delicadas de rios nórdicos,
evocava um mundo extasiado com o ódio divino
de guerras antigas, e os mantos de flores campestres,
para lá dos becos da periferia das terras venetas,
eram, no gelo do dia que amornava,
povos nus por baixo das lorigas, ao sol de Homero.
Quisestes ter um poeta neste banco
polido pelas calças de tantos pobres cristos?
Pois bem, aí o tendes. Nas greves da Poesia, a Justiça
passa a ser voz cega de andorinhas.
E não porque a Poesia tenha o direito
de delirar com um pouco de azul, um dia mísero
e sublime que nasce com a melancolia da morte.
Mas porque a Poesia é Justiça. Justiça que cresce
em liberdade, nas terras da alma, onde
em paz se cumprem os nascimentos dos dias, as origens
e os fins das religiões, e os atos de cultura
são também atos de barbárie,
e quem julga é sempre inocente.
Em 1957, Pier Paolo, junto com Sérgio Citti, colaboraram para o filme, Le notti di Cabiria, de Federico Fellini, escrevendo um diálogo em dialeto romano. Foi seu primeiro contato com cinema. Cinco anos depois, Pier Paolo fez seu primeiro filme como diretor e roteirista, Accattone. O filme foi proibido para menores de 18 anos e causou muita polêmica no XXII Festival de Veneza. Um ano depois dirigiu Mamma Roma. Esses dois primeiros filmes o empurraram para o exterior, com o primeiro viajou para Índia, com Elsa Morante e Morávia, e com o segundo, para o Sudão e o Quênia.

PEDRO II
QUINTA-FEIRA
7 DE MARÇO
(MANHÃ)
Pois é, fui condenado.
Episódio pessoal, cicuta que terei de beber sozinho.
Como o herói de uma opereta de dor, de coturnos
entre o baixo coro, desço numa noite – morna -
a horrenda escadaria. Os amigos vão jantar.
Sozinho. Com três gatos de fotógrafos, e a pequena
multidão que não olho, herói encolhido na sua dor.
São as ruas que percorro todas as noites
e que agora revelam na sua verdadeira realidade:
não são o meu domínio, a minha paisagem,
a minha intimidade, pertencem a outros,
e o seu valor parece-me agora extremamente estranho.
A tepidez monstruosa de uma Primavera que não há,
a infinita confidência das coisas conhecidas e reencontradas,
as solidões urbanas no ar terno do crepúsculo
imediato, ainda invernal… Esperanças ingênuas,
mitos poéticos de uma alma que é, na realidade,
a hóspede, a visita pobre que ninguém conhece,
e a quem ninguém dá o direito de estar aqui.
Uma insolente certeza revelam, porém, os que agora se dizem
donos desta cidade despojada de poesia:
campeões não de um ideia política, mas de uma classe,
com as suas casas, as suas famílias, as suas amizades,
que aqui têm raízes profundas, com iníquo gosto
e iníqua consciência: mas com pleno direito.
Vi bem de frente essa “classe”, durante um dia inteiro,
e senti o terror que os antigos sentiram pelos monstros.
A descoloração histérica da pele (omissis,
omissis, omissis), os olhos miúdos
embainhados em duas pálpebras uterinas,
a boca mole do napolitano amante
de comida fétida (omissis, omissis,
omissis), em cujo sangue quente
ressuma sangue de vendedores ambulantes.
E esta efígie, que foi pobre, agora,
nesta mudança desproporcional dos valores da história,
é a de um (omissis) homem de Estado:
do Estado pequenos burguês e paterno.
É ele o possuidor desta minha realidade,
e, ao saber isso, a realidade despoja-se,
passa a ser coisa repugnante, nua, como nos sonhos.
Sozinho: eu, e a Baba que o monstro deixa ao passar pelo mundo.
Em 1963, Pier Paolo dirigiu o filme La ricotta. Porém o filme foi confiscado e Pier Paolo foi acusado pelo crime de difamação pública contra a religião e o Estado. Com este filme viajou para Gana, Nigéria, Guiné. A carreira crescia e Pasolini já era um nome conhecido pela audácia e polêmica, o que causava enorme desconforto, tanto na política, quanto na sociedade. Em 1964, dirigiu o notório Il Vangelo secondo Matteo.

UMA VITALIDADE DESESPERADA I
(versão, em “cursus” de “gíria” corrente, do episódio anterior:
Fiumicino, o velho castelo e uma primeira
ideia verdadeira da morte.)
Como num filme de Godard: sozinho
num automóvel que vai pelas auto-estradas
do Neo-Capitalismo latino – de regresso do aeroporto -
[no aeroporto ficou Moravia, puro no meio das bagagens]
    sozinho, “conduzindo seu Alfa Romeo”,
      sob um sol impossível de exprimir em rimas
      não elegíacas, porque celestial
      – o mais belo sol do ano -
como num filme de Godard:
      sob aquele sol que sangrava imóvel
      único,
   o canal do porto de Fiumicino
   - um barco a motor que regressa sem ser visto
   - os marujos napolitanos cobertos de trapos de lã
   - um acidente rodoviário, pouca gente à volta…
- como num filme de Godard – redescoberta
do romantismo numa ótica
de cinismo neo-capitalista, e crueldade -
ao volante
pela estrada de Fiumicino,
e cá está o castelo (que doce
mistério, para o realizador francês,
no toldado e infinito sol secular,
este mamarracho papal, com as seteiras
voltadas para as sebes e os veios do feio campo
dos camponeses servos)…
- sou como um gato queimado vivo,
esmagado pelo pneu de um caminhão,
enforcado por miúdos na figueira,
mas ainda com, pelo menos, seis
das suas sete vidas,
como serpente reduzida a papa de sangue
enguia meio devorada
- faces cavadas sob os olhos abatidos
cabelos horrendamente ralos sobre o crânio
braços magros como os de um menino
- “ao volante do seu Alfa Romeo”, Belmondo
é um gato que não morre
e que na lógica da montagem narcisista
se destaca do tempo, e no tempo se insere
a si mesmo:
em imagens que nada têm a ver
com o tédio das horas em fila…
com o lento e excessivo fulgor da tarde…
A morte não está
em não se poder comunicar
mas em já não se poder ser compreendido.
E este mamarracho papal, não desprovido
de graça – a memória
das rústicas concessões senhoriais,
inocentes, no fundo, como inocente era
a resignação dos servos -
aqui, ao sol que foi,
ao longo dos séculos,
em milhares de tardes,
o único anfitrião,
este mamarracho papal, ameado,
aninhado em choupais de marema,
campos de melancias, diques,
este mamarracho papal blindado
por contrafortes da suave cor de laranja
de Roma, gretados
como construções de etruscos ou romanos,
está prestes a já não poder ser compreendido.
Em 1965, Pier Paolo dirigiu o filme Uccellacci Uccellini. Em 1966, por ocasião da apresentação de Mamma Roma e Accattone no Festival de Cinema de Nova Iorque, fez sua primeira viagem aos Estados Unidos. “Eu nunca caí assim de amor por um país. Exceto a África, talvez. Mas na África eu gostaria de ir, de modo a não me matar. Sim, a África é como uma droga que se toma ao invés de se matar. Por outro lado, Nova Iorque é uma luta que você enfrenta ao invés de matar a si mesmo”.

UMA VITALIDADE DESESPERADA VI
(uma vitória Fascista)
Ela olha-me, com pena.
“E… então você… – [sorriso mundano, ávido,
consciente da sua avidez e exibindo,
sedutor - olhos verdes cintilantes -
um leve e hesitante desprezo infantil
por si mesma] – então você é muito infeliz!”
“Bem (tenho de admitir)
estou muito confuso, menina.
Ao reler o meu livro datilografado
de poemas (este, de que falamos)
tive a visão… oh, se fosse apenas
um caos de contradições – de tranquilizadoras
contradições… Mas não, é a visão
de uma alma confusa…
Qualquer falso sentimento
gera a certeza absoluta de o sentir.
O meu falso sentimento era o…
da saúde. Estranho! ao dizer-lho
- incompreensiva por definição,
com aquele rosto de boneca sem lábios -
verifico com uma clareza clínica
o fato
de nunca ter tido nenhuma clareza.
É certo que por vezes pode bastar,
para se ser são (e claro)
acreditar que se é… Todavia
(escreva, escreva!) a minha confusão
atual é a consequência
de uma vitória fascista
             [novos, incontrolados, fiéis
              furores mortais]
Uma vitória pequena, secundária.
E fácil. Eu estava sozinho:
com estes meus ossos, uma mãe tímida
e aterrorizada, e a minha vontade.
O objetivo era humilhar um humilhado.
Devo dizer-lhe que o conseguiram,
e mesmo sem grande esforço. Se eles
tivessem sabido que seria assim tão simples
talvez se tivessem incomodado menos, e a menos!
(Ai, como vê, utilizo o plural genérico: Eles!
com o amor cúmplice do louco pelo seu próprio mal.)
Os resultados dessa vitória
também contam muito pouco: menos uma assinatura
de peso nos apelos a favor da paz.
Ora, a parte objecti, não é muito.
A parte subjecti… Mas deixemos isso:
já descrevi demasiado
e nunca oralmente
as minhas dores de verme pisado
que ergue a cabeça e se debate
com uma ingenuidade repugnante, etc.
Uma vitória fascista!
Escreva, escreva: eles (eles!) têm de saber que eu sei:
com a consciência de um pássaro ferido
que morre mansamente e não perdoa.”
Na época do lançamento do livro Poesia in forma di rosa, Pier Paolo, que já era cineasta reconhecido, disse que “Como poeta, realizei todos esses filmes. Não me parece oportuno fazer aqui uma análise da equivalência entre o “sentimento poético” provocado por certos excertos dos meus livros de poemas. A tentativa de definir essa equivalência nunca foi feita, a não ser genericamente, remetendo para os conteúdos. Todavia, creio que não se poderá negar que uma determinada forma de sentir qualquer coisa se repete, idêntica, na leitura de alguns dos meus versos e em alguma das minhas filmagens”.

FRAGMENTO DE CARTA PARA  JOVEM CODIGNOLA
Querido rapaz, sim, claro, vamos encontrar-nos,
mas não esperes nada desse encontro.
Quando muito, mais uma decepção, mais um
vazio: daqueles que fazem bem
à dignidade narcisista, como uma dor.
Aos quarenta anos sou como era aos dezessete.
Frustrados, o homem de quarenta anos e o rapaz de dezessete
podem, decerto, encontrar-se, balbuciando
ideias convergentes, sobre questões
separadas por dois decênios, uma vida inteira,
mas que aparentemente são as mesmas.
Até que uma palavra, saída das gargantas hesitantes,
paralisada de pranto e vontade de estar só -
lhes revele a disparidade sem remédio.
E, ao mesmo tempo, terei de fazer de poeta
pai, e refugiar-me na ironia
- que te embaraçará: porque o homem de quarenta anos
é mais alegre e mais jovem do que o rapaz de dezessete,
sendo já senhor da vida.
Para além desta aparência, deste disfarce,
nada mais tenho a dizer-te.
Sou avarento, o pouco que possuo
está bem fechado neste meu coração diabólico.
E os dois palmos de pele entre a face e o queixo
por baixo da boca torcida de tanto sorrir
de timidez, e o olhar que perdeu
a sua doçura, como um figo que azedou,
parecer-te-iam que te faz sofrer,
uma maturidade não fraterna. De que pode servir-te
alguém da tua idade – mas entristecido
na magreza que lhe devora a carne?
O que ele deu, está dado, o resto
é árida piedade.
Em 1968, Pier Paolo concordou em participar do Festival de Veneza desde que não houvesse premiação. Era defensor da Autori Associazione Cinematografici gerenciar o Festival de Veneza. Em setembro passou Teorema no festival para os críticos em um ambiente quente. Pier Paolo interrompeu a projeção para confirmar que o filme estava no festival por pedido do produtor, e pediu para os críticos deixarem a sala. Ninguém o fez. Pier Paolo então não foi à conferência da imprensa e convidou os jornalistas para um jardim do hotel, não para falar do filme, e sim, para discutir o festival.

A MADRUGADA MERIDIONAL
Passeava nas proximidades do hotel – era ao anoitecer -
e quatro ou cinco rapazes surgiram,
na pele de tigre dos campos, sem
um penhasco, uma cova, um resto de vegetação
que fosse abrigo para eventuais disparos: que
Israel estava ali, sobre a mesma pele de tigre,
semeada de casas de cimento e muros
inúteis, como em todos os subúrbios.
Fui ter com eles, àquele lugar absurdo,
longe da estrada, do hotel,
da fronteira. Foi mais uma amizade,
daquelas que duram uma noite
e atormentam depois toda uma vida. Eles,
deserdados, e também crianças
(que, dos deserdados têm o saber
do mal – o furto, a rapina, a mentira -
e, das crianças, o idealismo ingênuo
de sentir que se consagram ao mundo),
tiveram logo a velha luz do amor
- como de gratidão – no fundo dos seus olhos.
E falando, falando, até
cair a noite (e já um me abraçava,
ora dizendo que me odiava, ora que não,
que me amava, me amava), soube, por eles, todas as coisas,
todas as coisas mais simples. Eles eram os deuses,
ou filhos de deuses, que misteriosamente disparavam
por um ódio que os faria descer das montanhas de argila,
como noivos sedentos de sangue, sobre os Kibutz invasores
na outra metade de Jerusalém…
Maltrapilhos, que agora vão dormir
ao relento, no fundo de um baldio dos subúrbios.
Com os irmãos mais velhos, soldados
armados de uma velha espingarda e bigodes
de mercenários resignados com mortes antigas.
São estes os Jordanos, terror de Israel,
este que à minha frente choram
a dor antiga dos foragidos. Um deles,
emissário do ódio, já quase burguês (ao moralismo
chantagista, ao nacionalismo que empalidece de raiva
neurótica) canta-me o velho refrão
que aprendeu na sua rádio, com os seus reis -
outro, no meio dos seus trapos, ouve concordando,
enquanto, como um cachorrinho, se encosta a mim,
não sentindo, naquele campo de fronteira,
no deserto jordano, no mundo,
mais do que um mísero sentimento de amor.
Em 1972 Pier Paolo publicou um livro de críticas chamado Empirismo eretico, baseado, sobretudo, em crítica de cinema. No mesmo ano decidiu apoiar os jovens de Lotta Continua, assinando o documentário Piazza Fontana em Milão: 12 dicembre. Também comprou o que restava de um castelo medieval perto de Viterbo. Por volta de 1973, começou a colaborar com o jornal Corriere della Sera. Desde o fim dos anos sessenta, Pier Paolo já tinha dirigido filmes que se tornariam clássicos como Edipo Rei, Porcile, Medea, Il decameron, Eu racconti de Canterbury e Il Fiore delle Mille e una notte.

Outra tradução de Mauvais Sang em http://pedrolago.blogspot.com
PROJETO DE OBRAS FUTURAS
Oh Marx – tudo é ouro – oh Freud – tudo
é amor – oh Proust – tudo é memória -
oh Einstein – tudo é fim – oh Charlot – tudo
é homem – oh Kafka – tudo é terror -
oh população dos meus irmãos -
oh pátria – oh aquilo que garante a identidade -
oh paz que permite a dor selvagem -
oh marca da infância! Oh destino de ouro
construído sobre o eros e a morte, como
uma distração – e os seus mil e um pretextos,
o riso, a filosofia! Ter ilusões (o amor)
diferencia, mas num círculo consagrado por textos
insubstituíveis. Volto com Israel no coração,
sofrendo pelos seus filhos-irmãos a saudade
da Europa românica, occitânica com o esplendor
um tanto murcho mas cheio de uma poesia atroz
das suas capitais burguesas, sobre os rios ou os mares…
Norma negativa de amor, o verdadeiro caminho
de quem quer ser é desiludir. O que torna todos iguais
entre si, como os mortos:
mas volta a pôr em causa os sagrados
textos dos círculos. Por isso, enquanto se espera
que um novo Grande Judeu surja com um novo TUDO É
- para o qual se volte este enxovalhado mundo -
há que desiludir, na nossa pequenez… Eh!
há que abandonar o nosso lugar ao sol
(e vocês, Judeus!, devem abandonar Israel
que a cegueira do amor
reduz as invenções a instituições,
para reinventar depois só com o coração:
e chega mesmo a unir nações
com a cumplicidade de mãe e filha ao sol
- perseguindo, não?, as oposições…)
Quanto a mim, também (raiva) tendo para esse amor,
religião de um filho elegíaco,
que quer a todo o custo engrandecer-se.
E que aliás também não se esgota no novelo
de vida já vivida a ainda por viver: quer
reduzir tudo à sua qualidade de lírio.
Basta, é ridículo. Ah, obscuras
ambiguidades que conduzem a um “destino de oposição”!
Mas não há outra alternativa para as minhas obras futuras.
“OPOSIÇÃO PURA”, “PAPA JOÃO”, ou “PAIXÃO
(OU ARQUIVO) DOS ANOS SESSENTA”, seja o que for,
o órgão onde primeiro depositarei, em visão
semi-privada, claro está, essas minhas obras futuras,
surge como via sem alternativas, para mim e para a redação
dos imberbes incumbidos da tarefa – minúsculo bando
que quer saber: como por eleição
de sêmen. Oposição de quem não pode
ser amado por ninguém, e que ninguém pode amar, e manifesta
depois o seu amor como um não
pré-estabelecido, o exercício do dever
político como exercício de razão.
Em 1975, Pier Paolo, com Garzanti, publicou a coleção de críticas Scritti corsari, e também uma nova proposta da poesia Friulan com o título La nuova gioventù. Neste mesmo ano termina aquele que seria seu último filme Salò e le 120 Giornate di Sodoma. Na manhã de 2 de novembro de 1975, no litoral romano de Ostia, num campo baldio na Vila dell’idroscalo, uma mulher, Maria Tereza Lollobrigida, descobriu um corpo de um homem morto. Era Pier Paolo Pasolini. Estava cheio de hematomas e feridas de espancamento e atropelamento. Um jovem chamado Giuseppe Pelosi, conhecido como ‘Pino La Rana’ confessou o crime. O jovem alegou que após ter investido sexualmente contra ele, Pasolino começou a xingá-lo violentamente. Tempos depois, houve uma suspeita mais concreta da participação de outras pessoas no assassinato. Nada foi comprovado e o jovem foi preso.
VITTORIA
Onde estão as armas? Só conheço
as armas da minha razão:
e na minha violência não há qualquer lugar
NEM PARA A SOMBRA DE UMA AÇÃO
QUE NÃO SEJA INTELECTUAL. Haverá motivo para rir
se agora, nesta manhã cinzenta
que mortos já viram, e outros morto verão,
mas que para nós é só mais um manhã,
grito palavras de luta
sugeridas pelo sonho? Não sei
o que será de mim ao meio-dia
mas o velho poeta está “ab joy”
e fala, como andorinha ou estorninho
- e como um jovem gostaria de morrer.
Onde estão as armas? Não regressam
os dias antigos, eu sei, o Abril vermelho,
de juventude, passou para sempre.
Só um sonho, de alegria, pode iniciar
uma estação de dor armada.
Eu que fui um resistente sem armas
- um místico, um imberbe Cavaleiro andante -
sinto agora na vida o germe
horrendamente perfumado da Resistência.
Esta manhã, as folhas estão imóveis
como sobre o Tagliamento ou o Livenza:
não é que venha lá um temporal,
ou que a noite esteja prestes a cair, é a ausência
da vida, que se contempla, e se mantém
longe de si mesma, tentando perceber
que terríveis, que serenas
forças a enchem ainda: perfume de Abril!
Um jovem armado por cada fio de erva,
voluntário por vontade de morrer!
“Então, é absolutamente necessário morrer, porque estamos vivos e carentes de sentido, e a linguagem da nossa vida (com a qual expressamos nós mesmos e para qual damos a importância máxima) é intraduzível. um caos de possibilidades. Uma pesquisa das relações e significados sem solução de significados de continuidade faz da morte uma montagem instantânea de nossa vida, ou seja, ela escolhe momentos realmente significativos e coloca-os em sucessão, fazendo de nosso interminável, instável e inseguro presente e por isso não descritível linguisticamente, um passado claro, estável e seguro e assim, linguisticamente descritível. Somente graças à morte a nossa vida é usada por nós para expressar a nós mesmos.”

VITTORIA
(trecho final)
Vão-se embora… Socorro, voltam-nos as costas,
aquelas costas ocultas em heróicos casacos
de mendigos, desertores… Estão tão serenas
as montanhas para onde regressam, bate-lhe
tão ao de leve nas ancas a metralhadora, enquanto vão andando
como se anda ao pôr do sol sobre as intactas
formas de vida –  que volta a ser a mesma no mais vil
e no mais fundo! Socorro, eles vão-se embora! Voltam para o
silencioso mundo de Marzabotto ou Via Tasso…
Com a cabeça desfeita, a nossa cabeça, humilde
tesouro da família, cabeça grande de segundo filho,
o meu irmão volta a mergulhar no seu sono de sangue, sozinho
entre as folhas secas, nos ermos serenos
de um bosque dos Pré-Alpes, perdido no ouro
da paz de um Domingo interminável…
…..
E no entanto, este é um dia de vitória.

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Bocage

Manuel Maria Barbosa du Bocage nasceu em Setúbal, Portugal, a 15 de setembro de 1765. Seu pai, José Luís Soares de Barbosa era bacharel em Cânones e lá trabalhava como advogado. Sua mãe D. Mariana Joaquina Xavier Lestof du Bocage era filha de francês, o vice-almirante da armada portuguêsa Gil Le Doux du Bocage. O casal teve seis filhos e o nosso homenageado do mês foi o quarto a nascer. A sua irmã caçula, D. Maria Francisca, foi-lhe durante a vida inteira uma companheira permanente, e quem, após sua morte, guardou grande parte de seus manuscritos. Senhoras e senhores, com vocês, um dos maiores poetas de nossa língua, o grande Bocage.

O AUTOR AOS SEUS VERSOS

Chorosos versos meus desentoados,

Sem arte, sem beleza e sem brandura,

Urdidos pela mão da Desventura,

Pela baça Tristeza envenenados:

Vede a luz, não busqueis, desesperados,

No mudo esquecimento a sepultura;

Se os ditosos vos lerem sem ternura,

Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:

Não vos inspire, ó versos, cobardia

Da sátira mordaz o furor louco,

Da maldizente voz e tirania:

Desculpa tendes, se valeis tão pouco,

Que não pode cantar com melodia

Um peito de gemer cansado e rouco.

Seu pai, que tinha grande conhecimento literário e gostava muito de poesia, logo percebeu o talento do filho e investiu na sua formação. Aos 14 anos já havia ingressado na infantaria de Setúbal e tinha aulas de latim. Isso, refletiu na sua poesia, sem falar nas traduções de Virgílio e Ovídio. Em 1779, foi para Lisboa para estudar na Academia Real da Marinha, entretanto, foi na capital que conheceu a vida boemia e de dissipação. Foi também nesta época que tomou conhecimento das modinhas brasileiras que dominavam os salões. Acho que é importante frisar esta questão pré-brasileira e boemia, pois poderemos compreender algumas fases de sua poesia. Sempre o Brasil alí no meio.

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VISÃO REALIZADA

Sonhei que a mim correndo o gnídeo nume

Vinha coa Morte, co Ciúme ao lado,

E me bradava: -”Escolhe, desgraçado,

Queres a Morte, ou queres o Ciúme?

Não é pior daquela foice o gume

Que a ponta dos farpões que tens provado;

Mas o monstro voraz, por mim criado,

Quanto horror há no Inferno em si resume.”

Disse; e eu dando um suspiro: “Ah, não m’espantes

Coa a vista dessa fúria!… Amor, clemência!

Antes mil mortes, mil infernos antes!”

Nisto acordei com dor, com impaciência;

E não vos encontrando, olhos brilhantes,

Vi que era a minha morte a vossa ausência!

Em Portugal no fim do século XVIII, não havia individualidade entre os poetas. Os poetas se entregavam à bajulação dos poderosos que se tornavam uma necessidade para que tais poetas tivessem notoriedade, ou até mesmo trabalho. Eram versos encomiásticos, ou seja, que apenas elogiavam os poderosos e, não o fazer, era de certa forma indigno. Bocage foi contra isso, achava uma maneira sedutora de popularizar-se, mesmo podendo sofrer com as possíveis chacotas. Assim, motivado pela situação, viaja para Índia através do Conselho Ultramarino, porém, fazendo escala no Rio de Janeiro. O governador-geral da capital da colonia era Luís de Vasconcelos Sousa Veiga Caminha e Faro, que era conhecido pela ajuda às letras e às ciências. Bocage, agora, já fazia fama no Brasil. Isto era 1786.

PROPOSIÇÃO DAS RIMAS DO POETA

Incultas produções da mocidade

Exponho a vossos olhos, ó leitores:

Vede-as com mágoa, vede-as com piedade,

Que elas buscam piedade, e não louvores:

Ponderai da Fortuna a variedade

Nos meus suspiros, lágrimas e amores;

Notai dos males seus a imensidade,

A curta duração de seus favores:

E se entre versos mil de sentimento

Encontrardes alguns cuja aparência

Indique festival contentamento,

Crede, ó mortais, que foram com violência

Escritos pela mão do Fingimento,

Cantados pela voz da Dependência.

Bocage viveu dois anos em Goa, na Índia, uma ilha que fala nosso português, onde permaneceu sob desalento, nostalgia, tomado pelas intrigas da sociedade local, e chegou a ficar doente. Porém, neste estado, compôs suas melhores sátiras e alguns de seus sonetos mais conhecidos. Atribui-se a sua saída de Goa ao poema erótico-obsceno, A Manteigui, nome da amante do governador local (os poemas deste motivo ficarão para mais tarde). De Goa seguiu para Damão, lá nomeado em 25 de fevereiro de 1789, tenente da infantaria da 5ª Companhia da Guarnição. Mas não suportou o tédio e fugiu para Macau. Ficou por lá alguns meses e foi parar em Cantão, na China. Nosso poeta vai peregrinando e sua poesia vai mudando.

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ACHANDO-SE AVASSALADO PELA FORMOSURA DE JÔNIA

Enquanto o sábio arreiga o pensamento

Nos fenonemos teus, oh Natureza

Ou solta árduo problema, ou sobre a mesa

Volve o subtil geométrico instrumento :

Enquanto, alçando a mais o entendimento,

Estuda os vastos céus, e com certeza

Reconhece dos astros a grandeza,

A distância, o lugar, e o movimento :

Enquanto o sábio, enfim, mais sabiamente,

Se remonta nas asas do sentido

À corte do Senhor omnipresente:

Eu louco, cego, eu mísero, eu perdido

De ti só trago cheia, ó Jonia, a mente :

Do mais, e de mim mesmo ando esquecido ..

Após sua passagem por Macau, em 1790, enfim, consegue retornar a Lisboa. Lá era considerado literalmente um “louco” com talento. Publicou versos, polemizou com os neo-árcades, continuou a ser seguido e perseguido pelo Intendente Manique (uma espécie de Inspetor Javert, grande personagem de Victor Hugo, só que português), interessou-se pela Revolução Francesa, colocando algumas idéias em seus versos, traduziu as Metamorfoses de Ovídio, tem uma briga literária com José Agostinho de Macedo (escritor do tipo polêmico e agressivo, fez um trabalho sobre a maçonaria), até que em 1797 é preso devido à suas declarações antimonárquicas e anticatólicas e, sobretudo, por uma briga com oficiais por estar distribuindo folhetos sobre a Revolução Francesa.

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POETA ASSETEADO POR AMOR

Ó Céus! Que sinto n’alma! Que tormento!

Que repentino frenesi me anseia!

Que veneno a ferver de veia em veia

Me gasta a vida, me desfaz o alento!

Tal era, doce amada, o meu lamento;

Eis que esse deus, que em prantos se recreia,

Me diz: “A que se expõe quem não receia

Contemplar Ursulina um só momento!

Insano! Eu bem te vi dentre a luz pura

De seus olhos travessos, e cum tiro

Puni tua sacrílega loucura:

De morte, por piedade hoje te firo;

Vai pois, vai merecer na sepultura

À tua linda ingrata algum suspiro.”

Deve ter sido muito difícil ser poeta em Portugal depois de Camões. Bocage sabia disso, e guardava uma profunda admiração pelo grande poeta e nele bebeu bastante, porém, o que Bocage não concordava era com a postura de seus poetas contemporâneos. Não havia uma identidade, não havia a coragem guerreira que havia em Camões, e sim, um mar de bajulações. Bocage foi contra tudo isso. Escreveu o que vivia, sem medos nem coerções, algo que se espera de um poeta, por isso sua poesia transcende e hoje estamos aqui para lembrá-lo. Poeta prolixo, escrevia em qualquer situação e o que fosse. Sonetos, odes, canções ou cantos, elegias, epicédios, idílios, cantatas, epístolas, sátiras, odes anacreônticas, quadras, apólogos, adivinhações, sem falar nas traduções e seus conhecidos poemas pornográficos.

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ACHANDO-SE AVASSALADO PELA FORMOSURA DE JÔNIA

Enquanto o sábio arreiga o pensamento

Nos fenômenos teus,ó Natureza,

Ou solta árduo problema,ou sobre a mesa

Volve o subtil geométrico instrumento:

Enquanto,alçando a mais o entendimento,

Estuda os vastos céus,e com certeza

Reconhece dos astros a grandeza,

A distância,o lugar e o movimento:

Enquanto o sábio,enfim,mais sabiamente

Se remonta nas asas do sentido

À corte do Senhor omnipotente:

Eu louco,eu cego,eu mísero,eu perdido,

De ti só trago cheia,ó Jónia,a mente;

Do mais ,e de mim mesmo ando esquecido.

É fato que Bocage não teve uma infância feliz. Seu pai foi preso por dívidas ao Estado quando o poeta tinha seis anos e lá permanceu preso por seis anos. Sua mãe faleceu quando ele tinha dez. Viu na Marinha uma saída e lá fez seus estudos. A poesia veio neste período, como uma necessidade. É notória sua “pena afiada”, parece que o poeta colocou todas as suas indignações na poesia, talvez (opinião minha) que há um tom irônico, muitas vezes sarcástico e erótico em seus versos. Não parou com seu caminho quando enquanto perseguido pela polícia e pelos padres. Fora isso, há também a questão boêmia que lhe custou muitos versos.

GOZO FANTÁSTICO

Debalde um véu cioso, oh Nise, encobre

Intactas perfeições ao meu desejo;

Tudo o que escondes, tudo o que não vejo

A mente audaz e alígera descobre:

Por mais e mais que as sentinelas dobre

A sisuda Modéstia, o cauto Pejo,

Teus braços logro, teus encantos beijo,

Por milagre da idéia afoita, e nobre:

Inda que prêmio teu rigor me negue,

Do pensamento a indômita porfia

Ao mais doce prazer me deixa entregue:

Que pode contra Amor a tirania,

Se as delícias, que a vista não consegue,

Consegue a temerária fantasia?

Bocage era grande admirador de Camões. Nâo somente por sua poesia, mas também pela sua tragetória de vida. Bocage revelara uma vez que Camões era seu modelo, porém, lamentava a comparação “pelos transes da ventura” e não pela grandeza poética. Mas as semelhanças são diversas: Ambos seguiram na marinha, cruzaram o Cabo da Boa Esperança, eram boêmios, tiveram diversos amores, desamores e morreram quase na miséria. Vale lembrar que o conhecido lirismo camoniano nada tem a ver com a ironia bocagiana, e realmente deve ser difícil ser poeta ainda naquela época, depois de Camões, mas Bocage o foi com maestria.

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A CAMÕES, COMPARANDO COM OS DELE SEUS INFORTÚNIOS

Camões, grande Camões, quão semelhante

Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!

Igual causa no fez perdendo o Tejo

Arrostar co sacrílego gigante:

Como tu, junto ao Ganges sussurrante

Da penúria cruel no horror me vejo:

Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,

Também carpindo estou, saudoso amante:

Ludibrio, como tu, da sorte dura

Meu fim demando ao Céu, pela certeza

De que só terei paz na sepultura:

Modelo meu tu és…

Mas, oh tristeza!…

Se te imito nos transes da ventura,

Não te imito nos dons da Natureza.

Como consta, BOcage não era um poeta conceitual, voltado para grandes questões, e sim, pela sua ironia que a poesia se estendeu longínquamente. Fazia sátiras como ninguém, digo, ninguém mesmo, pois Bocage foi o único de sua época, pelo que se sabe até hoje, que foi contra as questões políticas e religiosas de sua época, quase que um gauche, lembrando nosso poeta Carlos. Bocage ridicularizou inúmeras pessoas, com escrita afiada e grande capacidade e grandeza poética. Ontem, conversando com amigas, chegamos a conclusão de que a inveja, em certos níveis, pode causar paixão. Ainda sobre sua admiração por Camões…

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EM LOUVOR DO GRANDE CAMÕES

Sobre os contrários o terror e a morte

Dardeje embora Aquiles denodado,

Ou no rápido carro ensanguentado

Leve arrastos sem vida o Teuco forte:

Embora o bravo Macedónio corte

Coa fulminante espada o nó fadado,

Que eu de mais nobre estímulo tocado,

Nem lhe amo a glória, nem lhe invejo a sorte:

Invejo-te, Camões, o nome honroso;

Da mente criadora o sacro lume,

Que exprime as fúrias de Lieu raivoso:

Os ais de Inês, de Vénus o queixume,

As pragas do gigante proceloso,

O céu de Amor, o inferno do Ciúme.

A modinha é considerada o primeiro estilo de música popular brasileira, como consta por aí, é atribuída a Domingos Caldas Barbosa. Lá pelo século XVII, na Bahia, a modinha era tocada nas ruas, acompanhada por uma viola com marcação em staccato (como também consta, é um tipo de fraseio ou de articulação no qual as notas e os motivos das frase musicais devem ser executadas com suspensões entre elas, ficando as notas com curta duração), cujas letras tinham conteúdo pagão. Algo bem bacante por sinal. Bocage conheceu a modinha quando veio ao Brasil por volta de 1786, quando ainda tinha 20 anos, além da modinha, conheceu outras maravilhas brasileiras também. Creio que para um poeta de 20 anos, português, no século XVII, vir ao Brasil com certeza desencaminha, ou, encaminha.

texto Laranjeiras no blog http://pedrolago.blogspot.com

A UM MULATO JOAQUIM MANUEL, GRANDE TOCADOR DE VIOLA E IMPROVISADOR DE MODINHAS

Esse cabra ou cabrão, que anda na berra,

Que mamou no Brasil surra e mais surra,

O vil estafador da vil bandurra,

O perro, que nas cordas nunca emperra:

O monstro vil que produziste, ó Terra

Onde narizes Natureza esmurra,

Que os seus nadas harmônicos empurra,

Com parda voz, das paciências guerra;

O que sai no focinho à mãe cachorra,

O que néscias aplaudem mais que a “Mirra”,

O que nem veio de prosápia forra;

O que afina inda mais quando se espirra,

Merece à filosófica pachorra

Um corno, um passa-fora, um arre, um irra.

Nesta semana veremos aqueles poemas os quais, pelo que me parece, a grande maioria conhece do poeta Bocage. Escrever poemas pornogáficos, para mim, é um grande questão para o poeta. Pois as emoções geradas pela libido, pela volúpia ou pelos exageros da luxúria são tão fundamentais quanto a necessidade de se falar de amor, por exemplo. Só que o poeta, às vezes, esbarra no medo do vulgar, do mau gosto, da contramão daquilo que se “espera” dele, e aí é que começa o erro. Se o motivo bate a sua porta, não há o que fazer, a não ser abraçá-lo.

texto “Beijos” no blog http://pedrolago.blogspot.com

SONETO IV (MARGINAIS)

Num capote embrulhado, ao pé de Armia,

Que tinha perto a mãe o chá fazendo,

Na linda mão lhe fui (oh céus) metendo

O meu caralho, que de amor fervia:

Entre o susto, entre o pejo a moça ardia;

E eu solapado os beiços remordendo,

Pela fisga da saia a mão crescendo

A chamada sacana lhe vazia:

Entra a vir-se a menina… Ah! que vergonha!

“Que tens?” – lhe diz a mãe sobressaltada:

Não pode ela encobrir na mão langonha:

Sufocada ficou, a mãe corada:

Finda a partida, e mais do que medonha

A noite começou de bofetada.

Quando Drummond enfim publicou seus poemas pornográficos, já era poeta consagrado, mas mesmo assim causou certa estupefação. Vinícius conseguiu um linha onde falava de coisas como “Toquei-lhe a dura pevide/Entre o pêlo que a guardava/Beijando-lhe a coxa fria/Com gosto de cana brava/Senti à pressão do dedo/Desfazer-se desmanchada/Como um dedal de segredo/A pequenina castanha/Gulosa de ser tocada.” sem ser vulgar. Mas ora, por que chamar de vulgar algo tão essencial? Esta é a questão. Tem um da Adélia Prado que é uma beleza que chama-se Objeto de Amar, mas quem quiser ver que procure, já basta aqui o nosso Bocage.

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SONETO XIII (MARGINAIS)

É pau, e rei dos paus, não marmeleiro,

Bem que duas gamboas lhe lobrigo;

Dá leite, sem ser árvore de figo,

Da glande o fruto tem, sem ser sobreiro:

Verga, e não quebra, como zambujeiro;

Oco, qual sabugueiro tem o umbigo;

Brando às vezes, qual vime, está consigo;

Outras vezes mais rijo que um pinheiro:

À roda da raiz produz carqueja:

Todo o resto do tronco é calvo e nu;

Nem cedro, nem pau-santo mais negreja!

Para carvalho ser falta-lhe um U;

Adivinhem agora que pau seja,

E quem adivinhar meta-o no cu.

Isso aí!

Bocage experimentou a vida boêmia em todos os lugares por onde passou. Lisboa, Macau, Goa, Brasil, Damão e, em todos estes lugares, envolveu-se ora com as prostitutas, ora com as mulheres casadas. Me parece que despertava um fascínio nas mulheres casadas, pois, não são poucos seus poemas dedicados à elas, tampouco seus problemas com relação a isso. Nise, citada inúmeras vezes com ternura em outros poemas, aqui se encontra em outro estado. Ela foi apenas mais uma de suas amantes, que como consta, o traira e o abandonara.

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SONETO VI (MARGINAIS)

Não lamentes, oh Nise, o teu estado;

Puta tem sido muita gente boa;

Putíssimas fidalgas tem Lisboa,

Milhões de vezes putas têm reinado:

Dido foi puta, e puta d’um soldado;

Cleópatra por puta alcança a c’roa;

Tu, Lucrécia, com toda a tua proa,

O teu cono não passa por honrado:

Essa da Rússia imperatriz famosa,

Que inda há pouco morreu (diz a Gazeta)

Entre mil porras expirou vaidosa:

Todas no mundo dão a sua greta:

Não fiques pois, oh Nise, duvidosa

Que isso de virgo e honra é tudo peta.

Quando viveu em Goa, Bocage foi alvo de intrigas da sociedade local. Sofria com nostalgias, desalentos, chegando inclusive a ficar doente. Porém, foi lá que compôs das suas melhores sátiras e alguns de seus poemas eróticos mais conhecidos, o que ainda lhe dificultou a vida. Viver na colônia de um país conservador como Portugal e ainda gozar de idéias extremamente liberais foi um pouco demais. Atribui-se a saída de Bocage de Goa à publicação do poema erótico A Manteigui, que era o nome da amante do governador local. Segue alguns trechos.

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A MANTEIGUI (TRECHOS)

Canto a beleza canto a putaria

De um corpo tão gentil como profano;

Corpo que, a ser preciso, engoliria

Pelo vaso os martelos de Vulcano:

Corpo vil, que trabalha mais num dia

Do que Martinho trabalhou num ano;

E que atura as chumbadas e pelouros

De cafres, brancos, maratas, e mouros.

(…)

Seus meigos olhos, que a foder ensinam,

Té nos dedos dos pés tesões acendem;

As mamas, onde as Graças se reclinam,

Por mais alvas que os véus os véus ofendem:

As doces partes, que os desejos minam,

Aos olhos poucas vezes se defendem;

E os amores, de amor por ela ardendo,

As piças pelas mãos lhe vão metendo.

(…)

Mete mete mais… Ah Dom Fulano!

Se o tivesses assim, de graça o tinhas!

Não viveras em um perpétuo engano,

Pois vir-me-ia também quando te vinhas:

Mete mais, meu negrinho, anda, magano;

Chupa-me a língua, mexe nas maminhas…

Morro de amor, desfaço-me em langonha…

Anda, não tenhas susto, nem vergonha…

Vemos claramente que o mito de Bocage não é verdadeiro. Muitos o conhecem apenas pelas suas corajosas sátiras e poemas pornográficos, assunto que interessa a todos, obviamente. Porém, Bocage, foi um dos que melhor sustentou a poesia na língua portuguêsa, e repito, não muito tempo depois de Camões. Soube enxergar seu tempo e seguir suas angústias. Enxergar o tempo pode ou não ser uma “função” poética, uma necessidade do artista, seja ele qual for. Creio que depende muito da necessidade e um pouco de angústia, esta sim, fundamental.

texto “A necessidade contemporânea” no blog http://pedrolago.blogspot.com

SONETO IX (MARGINAIS)

Arreitada donzela em fofo leito

Deixando erguer a virginal camisa,

Sobre as roliças coxas se divisa

Entre sombras sutis pachocho estreito:

De louro pêlo um círculo imperfeito

Os papudos beicinhos lhe matiza;

E a branda crica, nacarada e lisa,

Em pingos verte alvo licor desfeito:

A voraz porra as guelras encrespando

Arruma a focinheira, e entre gemidos

A moça treme, os olhos requebrando:

Como é ainda boçal perde os sentidos;

Porém vai com tal ânsia trabalhando,

Que os homens é que vêm a ser fodidos.

Um dos grandes admiradores e defensores de Bocage foi Olavo Bilac. Em 1917 numa conferência no Teatro Municipal de São Paulo, Bilac afirmou que Bocage “era o melhor metrificador da poesia portuguesa“. Depois, sobre o tempo em que viveu Bocage e da produção de seus contemporâneos, disse que “em Portugal, a arte de fazer versos chegou ao apogeu com Bocage e depois dele decaiu. Da sua geração e das que a precederam, foi ele o máximo cinzelador da métrica. A plástica da língua e do metro; a perícia do ensamblar das orações e no escandir dos versos; a riqueza e graça do vocabulário…” e por aí vai. Palavra de poeta.

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A MACACA

Nos serros do Brasil diz certo autor que havia

Uma namoradeira, uma sagaz bugia.

Milhões de chichisbéus pela taful guinchavam,

E por não terem asa, o rabo lhe arrastavam.

Qual, caindo-lhe aos pés de amores cego e louco,

Nas cabeludas mãos lhe apresentava um coco;

Qual do açúcar brilhante a sumarenta cana;

E qual um ananás, e qual uma banana.

Ela com riso astuto, ela com mil caretas,

Lhe entretinha a paixão, lhe ia doirando as petas;

Os olhos requebrava ao som de um suspirinho:

A todos prometia o mais fiel carinho,

E, se algum lhe rogava especial favor,

À terna petição dizia: “Sim, senhor.”

Mas com muita esperança o fruto era nenhum,

E os pobres animais ficavam em jejum.

Leitores, há mulher tão destra e tão velhaca,

Que nisto não ganha inda a melhor macaca.

Um dos estudos mais completos sobre a vida de Bocage foi feito por Teófilo Braga. No estudo, o autor diz que o povo português só conhece dois poetas: Camões e Bocage. De Camões sabe a lenda do seu amor pela pátria e, de Bocage, repete uma ou outra anedota picaresca. Diz entretanto que que Bocage “é o representante mais completo do século XVIII em Portugal, com o seu erotismo e bajulação áulica, com a galantaria improvisada e com os lampejos revolucionários”.

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ASPIRAÇÕES DO LIBERALISMO, EXCITADAS PELA REVOLUÇÃO FRANCESA, E CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA EM 1797

Liberdade, onde estás? Quem te demora?

Quem faz que o influxo em nós não caia?

Porque (triste de mim)! porque não raia

Já na esfera de Lísia a tua aurora?

Da santa Redenção é vinda a hora

A esta parte do mundo, que desmaia:

Oh! Venha… Oh! Venha, e trêmulo descaia

Despotismo feroz, que nos devora!

Eia! Acode ao mortal, que frio e mudo

Oculta o pátrio amor, torce a vontade,

E em fingir, por temor, empenha estudo:

Movam nossos grilhões tua piedade;

Nosso númen tu és, e glória, e tudo,

Mãe do gênio e prazer, oh Liberdade!

É um pouco difícil enquadrar Bocage em algum movimento. Como consta, Bocage foi um pré-romântico e um pós-barroco. Este úlitom quando evoca deuses, ninfas, elementos de água, vegetais e etc, presente em muitos de seus poemas. O escritor José Lino Grunewald, afirma que “esse barroquismo de Bocage deságua, muitas vezes, em imagens já de caráter rococó – expressões que muito se afinam com o que posteriormente fizeram os grandes seresteiros do Brasil no final da década de 1920″. Essa dificuldade em enquadrá-lo, para mim, torna o poeta mais interessante, pois não se criam imagens, apenas uma incerteza do que virá e um certo espanto, fundamental para poesia, fundamental.

texto “Frio” no blog http://pedrolago.blogspot.com

NA SOLIDÃO DO CÁRCERE

Quando na rósea nuvem sobe o dia

De risos esmaltando a Natureza,

Bem que me aclare as sombras da tristeza

Um tempo sem-sabor me principia:

Quando por entre os véus da noite fria

A máquina celeste observo acesa,

De angústia, de terror a imagens presa

Começa a devorar-me a fantasia.

Por mais ardentes preces, que lhe faço,

Meus ais não ouve o númen sonolento,

Nem prende a minha dor com tênue laço:

No Inferno se me troca o pensamento;

Céus! Porque hei-de existir, porquê, se passo

Dias de enjôo, e noites de tormento?

Em 1804 começou a crise de sua doença. Bocage tinha um aneurisma da carótida que se desenvolvia cada vez mais. Bocage morreu no dia 21 de dezembro de 1805, em Lisboa. Sua obra percorre mais de duas mil páginas sem contar com seus poemas marginais, que vimos aqui deliciosamente. Bocage viveu apenas 40 anos, onde escreveu sobre quase tudo e nas circunstâncias mais variadas. No dia 15 de setembro, dia do seu nascimento, é feriado municipal em Setúbal. Vale o estudo deste grande poeta da língua portuguêsa e fã da atmosfera brasileira.

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DITADO ENTRE AS AGONIAS DE SEU TRÂNSITO FINAL

Já Bocage não sou!… À cova escura

Meu estro vai parar desfeito em vento…

Eu aos céus ultrajei! O meu tormento

Leve me torne sempre a terra dura.

Conheço agora já quão vã figura

Em prosa e verso fez meu louco intento.

Musa!… Tivera algum merecimento,

Se um raio da razão seguisse, pura!

Eu me arrependo; a língua quase fria

Brade em alto pregão à mocidade,

Que atrás do som fantástico corria:

Outro Aretino fui… A santidade

Manchei!… Oh! Se  me creste, gente ímpia,

Rasga meus versos, crê na eternidade!

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Konstantinos Kaváfis

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Konstantinos Kaváfiz nasceu em Alexandria no dia 29 de abril de 1863. Filho de um influente comerciante de Alexandria, que, tendo nascido na Macedônia, conseguiu nacionalidade britânica, após ter trabalhado dez anos na Inglaterra. Sua família, Kaváfis, vem, ao que parece, da região fronteiriça entre a Pérsia e a Armênia. No século XVIII, tal família viria a contar com membros de destaque social, entre eles um governador de província e um arcebispo. Após o hiato, vamos estender os estudos com esse grande poeta grego.

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DESEJOS
 
 
Belos corpos de mortos que nunca envelheceram,
com lágrimas sepultos em mausoléus brilhantes,
jasmim nos pés, cabeça circundada de rosas -
assim são os desejos que um dia feneceram
sem chegar a cumprir-se, sem conhecerem antes
o prazer de uma noite ou a manhã luminosa.
 
O pai de Kaváfis casou-se com Hariclea Photiades, de uma importante família de Quios. Com ela foi morar no Fanar, o velho bairro grego de Constantinopla, à volta do patriarcado ortodoxo, onde se criara, no século XVII, uma nova aristocracia helênica, os fanariotas, na qual o império turco iria recrutar os governantes de suas províncias danubianas. Cinco anos depois, o casal mudou-se para Alexandria, cidade onde a firma Irmãos Kaváfis abrira uma filial. Ali nasceu Konstantinos. Último de sete filhos sobrevivente do casal. Todos homens, embora sua mãe tenha tido uma menina, morta prematuramente. Inclusive, sua mãe sempre tivera o desejo de ter uma menina, e por isso, quando Konstantinos nasceu, vestia-lhe com roupas femininas, deixando os cabelos crescer em cachos.

 
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VOZES
 
 
Vozes queridas, vozes ideais
daqueles que morreram ou daqueles que estão
perdidos para nós, como se mortos.
 
Eles nos falam em sonho, algumas vezes;
outras vezes, em pensamento as escutamos.
 
E, quando soam, por um instante eis que retornam
os sons da poesia primeva em nossa vida,
qual música distante que se perde noite afora.
Hariclea era uma mulher de grande beleza e era cercada de luxo por seu marido, tanto que a casa dos Kaváfis tornou-se um dos centros da alta sociedade de Alexandria. Porém, em 1870, a morte do marido deixa Hariclea em situação difícil. Assim, mudou-se para Liverpool em 1872, onde dois de seus filhos trabalhavam. Konstantinos foi matriculado numa escola inglesa. O irmão mais velho agravou mais a situação financeira fazendo uns maus negócios, assim, voltaram para Alexandria dois anos depois. Em 1881, Konstantinos passou a cursar uma escola de comércio e já demonstrava inteligência precoce, despertando orgulho da mãe e irmãos.

 
 
Todos os poemas são traduzidos por José Paulo Paes
 
 
UM VELHO
 
 
No meio do café ruidoso, sem ninguém,
por companhia, está sentado um velho. Tem
à frente um jornal e se inclina sobre a mesa.
 
Imerso na velhice aviltada e sombria,
pensa quão pouco desfrutou as alegrias
dos anos de vigor, eloquência, beleza.
 
Sabe que envelheceu bastante. Vê, conhece.
No entanto, o seu tempo de moço lhe pertence
ser ainda ontem: faz tão pouco, faz tão pouco…
 
Medita no quanto a Prudência dele rira;
em como acreditara sempre na mentira
do “Deixa para amanhã. Há tempo.” Que louco!
 
Pensa nos ímpetos que teve de conter,
nas alegrias frustras por seu tolo saber,
que cada ocasião perdida agora escarnece.
 
Porém, tanto pensar, tanta recordação,
põem o velho confuso, e sobre a mesa, então,
daquele café, debruçado, ele adormece.
 
O jovem Konstantinos começou a escrever para jornais e pensou em ser articulista político, mas, acabou por ingressar na repartição pública, no Departamento de Irrigação, como funcionários não-pago. Somente após três anos passou a receber pelo trabalho. Ganhava sete libras egípcias por mês, fora o que ganhava na repartição, o que dava para roupas e pagar o empregado pessoal que contratara. Era um funcionário competente, chegou a ser, inclusive, subdiretor. Reservado, era considerado sovina, não contribuía com subscrições de caridade. Gostava de conversar, era entusiasta de assuntos históricos, e por isso, as pessoas gostavam de ouvi-lo.

 
CÍRIOS
 
 
Os dias do futuro se erguem à nossa frente
como círios acesos, em fileira -
círios dourados, cálidos e vivos.
 
Os dias idos ficaram para trás,
triste fila de círios apagados;
os mais próximos ainda fumaceiam,
círios pensos e frios e derretidos.
 
Não quero vê-los, que me aflige os seu aspecto.
Aflige-me lembrar a sua luz de outrora.
Contemplo, adiante, os meus círios acesos.
 
Não quero olhar para trás e, trêmulo, notar
como se alonga depressa a fileira sombria,
como crescem depressa os círios apagados.
Por volta dos vinte anos de idade, Kaváfis reconheceu-se homossexual, quando teve um caso com um primo em Constantinopla. Tal condição fazia com que tivesse uma vida oculta, escondida. Chegava a subornar o criado para desarrumar sua cama quando dormia fora de casa para que sua mãe não desconfiasse. Sofria com isso. Revelou anos depois em seu diário que, embora estivesse “liberto dos preconceitos”, sentia vergonha dos lugares onde ia buscar amor e das bebedeiras que se entregava para superar inibições. Nesta época, a prostituição, tanto masculina, quanto, feminina, eram muito presente em Alexandria.

 
 
O raio que parte a cabeça aqui http://equivocos-pedrolago.blogspot.com.br
 
 
 
À ESPERA DOS BÁRBAROS
 
 
O que esperamos na ágora reunidos?
 
    É que os bárbaros chegam hoje.
 
Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?
 
  É que os bárbaros chegam hoje
  Que leis hão de fazer os senadores?
  Os bárbaros que chegam as farão.
 
Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?
 
  É que os bárbaros chegam hoje.
  O nosso imperador conta saudar
  o chefe deles. Tem ponto para dar-lhe
  um pergaminho no qual estão escritos
  muitos nomes e títulos.
 
Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos,
de ouro e prata finamente cravejados?
 
  É que os bárbaros chegam hoje,
  tais coisas os deslumbram.
 
Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?
 
  É que os bárbaros chegam hoje
  e aborrecem arengas, eloquencias.
 
Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?
 
  Porque é já noite, os bárbaros não vêm
  e gente recém-chegada das fronteiras
  diz que não há mais bárbaros.
 
Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.
 
Em 1897, junto com o irmãos mais velho, Konstantinos fez uma viagem de férias à Inglaterra e à França. Quatro anos depois, graças a um presente de 100 libras dado por um amigo, visitou, pela primeira vez, a Grécia. Nesta época, já tinha escrito um bom volume de poemas, muitos conhecidos até hoje. Sua história com a poesia começa em 1882, porém, analisando sua produção, escolheu o ano de 1911 como início “oficial”. Na Grécia, conheceu Gregorios Xenopoulos, considerado então como o criador do teatro neo-helênico. O dramaturgo seria também o fundador do Nea Estia, o mais importante periódico literário de Atenas.

 
 
 
O REI DEMÉTRIO
 
 
Ao ser deixado pelos macedônios,
os quais mostraram preferir a Pirro,
o rei Demétrio (que a alma tinha
grande) de modo algum – assim disseram -
como rei comportou-se. Foi tirar
as vestimentas de ouro, jogou longe
os calçados de púrpura e, envergando
roupas simples, partiu logo em seguida.
Portou-se exatamente como o ator
que, uma vez o espetáculo acabado,
troca de roupa e vai-se logo embora.
Em 1903, Xenopoulos escreveu em um artigo na revista ateniense Panathea, admirando a arte de Kaváfis. No ano seguinte, Kaváfis publicou um panfleto de poemas, com 13 ao total, para em 1910, publicar outro com 21. Desde 1907, Kaváfis passou a morar no mesmo lugar, a rua Lipsius 10, após a morte de sua mãe em 1899. O apartamento passa a ser um local de peregrinação de jovens escritores. Ficava no segundo lugar de um prédio, onde funcionava um prostíbulo no primeiro. Assim costumava dizer “Eu sou o espírito, abaixo de mim está a carne”.

O DEUS ABANDONA ANTONIO
 
 
Quando, à meia-noite, de súbito escutares
um tiaso invisível a passar
com músicas esplêndidas, com vozes -
a tua Fortuna que se rende, as tuas obras
que malograram, os planos de tua vida
que se mostraram mentirosos, não os chores em vão.
Como se pronto há muito tempo, corajoso,
diz adeus à Alexandria que de ti se afasta.
E sobretudo não te iludas, alegando
que tudo foi um sonho, que teu ouvido te enganou.
Como se pronto há muito tempo, corajoso,
como cumpre a quem mereceu uma cidade assim,
acerca-te com firmeza da janela
e ouve com emoção, mas ouve sem
as lamentações ou as súplicas dos fracos,
num derradeiro prazer, os sons que passam,
os raros instrumentos do místico tiaso,
e diz adeus à Alexandria que ora perdes.
 
Kaváfis jamais estimulou a produção literária de jovens escritores por temer concorrência. Certa vez disse “as pessoas andam sempre ocupadas, muito ocupadas, pelo que não dispõem de tempo para interessar-se pelos vizinhos e semelhantes. Assim, é nosso dever falar de nós mesmos e de nosso trabalho, até fazê-las parar, deixar de lado o que estão fazendo e prestar-nos atenção”. A poesia de Kaváfis causava estranheza pela moralidade pouco canônica. O grupo da revista Nea Zoí era partidário de Palamás, poeta ateniense de mais destaque. Kaváfis não gostava dele. Em 1912, a revista Grâmmata publicou um artigo negando a condição de grande poeta a Kaváfis, acusando-o de, para valorizar sua obra, denegrir outros autores.

 
 
 
OS PERIGOS
 
 
 
Disse Mirtias (estudante sírio
em Alexandria, no reinado
de augusto Constâncio e augusto Constantino,
e que era meio cristão, meio gentio):
“Fortalecido com teoria e com estudo,
eu não hei de temer minhas paixões como um covarde.
Meu corpo entregarei todo ao prazer,
à voluptuosidade entressonhada,
aos desejos eróticos mais audaciosos,
aos ímpetos lascivos do meu sangue, sem
temos algum, porque quando eu quiser
- e vontade terei, alentado
como hei de estar pelo estudo e a teoria -,
reencontrarei no momento preciso
meu espírito ascético de outrora.”
 
Em 1918, um amigo de Kaváfis, Aleko Singopoulos, pronunciou uma conferência sobre sua obra que ficou histórica. Nela, Aleko falou da sensualidade e do hedonismo da obra de Kaváfis para o completo desconforto de quem assistia. Houve, inclusive, uma tentativa de impedir que Aleko falasse sobre a obra de Kaváfis, quando alguns joven o embriagaram, o colocaram em um carro de aluguel ordenando ao motorista que o levasse para longe da cidade, porém o mesmo reconheceu a tramóia e retornou à cidade. A esta altura, Kaváfis já tinha uma reputação escandalosa. Consideraram-no “outro Oscar Wilde”.

 
ÍTACA
 
 
Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.
 
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.
 
Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
 
Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora saber o que significam Ítacas.
Kaváfis foi condecorado com a ordem da Fênix pelo governo grego, mesma condecoração que uma bailarina espanhola, amante, ao que se dizia, do ditador grego. Tal condecoração foi repudiada pelos amigos de Kaváfis, porém, o poeta aceitou. Jamais se interessara por política grega, e por não considerar-se grego, efetivamente, mas heleno, alegou “amar e reverenciar” o Estado grego.

 
Uivo uivo muito mais que uivo http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
 
 
COISA RARA
 
 
É um ancião. Decrépito, curvado,
vencido pelos anos e os excessos,
ele atravessa a passo lento o beco.
Enquanto volta à casa, que lhe oculta
a ruína e a velhice, ele medita
no quinhão reservado ainda aos jovens.
 
Agora adolescentes lêem-lhe os versos.
Seus olhos vivos recriam-lhe as visões,
fremem sua mentes sãs, voluptuosas,
- e suas carnes firmes, bem talhadas -
com a beleza por ele revelada.
Sobre sua experiência burocrática, Kaváfis disse uma vez que “quantas vezes, no trabalho, me ocorre de súbito uma bela ideia, uma imagem rara ou versos inteiros prontos, e eu tenho de deixá-los de lado, porque o serviço não pode ser adiado! Subsequentemente, quando volto para casa e me recomponho e tento recordá-los, eles já se foram. E está certo que assim seja. É como se a Arte me dissesse: ‘Não sou nenhuma criada para que me enxotes quando eu me apresento nem para que me apresente quando me queiras. E se renegas – miserável traidor – pela tua desprezível bela casa, pelas tuas desprezíveis boas roupas e pela tua desprezível posíção social, contenta-te então com elas (mas como poderás?), e, nas poucas vezes em que eu aparecer e estiveres pronto para receber-me, posta-te diante da porta da tua casa à minha espera, como o deverias fazer todos os dias’.”

FUI
 
 
Não me deixei prender. Libertei-me de todo e fui
em busca de volúpias que me parte eram reais,
em parte haviam sido forjadas por meu cérebro;
fui em busca da noite iluminada.
E bebi então vinhos fortes, como
bebem os destemidos no prazer.
Sua casa era o destino de muitos jovens escritores e aspirantes. Os visitantes recordavam dele sempre sentado na penumbra, pois, não gostava de luz elétrica, preferia luz de velas ou de um candeeiro à gasolina, fumando uma longa piteira. Também vestia-se com uma grande capa de chuva e perambulava pelos cafés conversando com todo tipo de pessoa. O romancista inglês E.M Forster escreveu uma vez que Kaváfis era “uma cavalheiro grego, de chapéu de palha, estacionado num ligeiro ângulo de afastamento em relação ao universo”. Forster foi o primeiro a tornar Kaváfis conhecido na Europa.

 
A BATALHA DE MAGNÉSIA
 
 
Perdeu sua paixão, sua audácia de outrora.
O corpo combalido, quase enfermo, é ora
 
tudo quanto o preocupa. O que lhe resta
de vida, há de passá-lo descuidoso. Ao menos esta
 
a intenção de Filipe. Ele hoje à noite joga aos dados
Almeja divertir-se. Por todos os lados
 
da mesa haja rosas, e muitas. Que importa-se afinal
em Magnésia Antíoco arruinou-se? Diz-se que total
 
foi o desbarato do seu exército tão brilhante.
Nem tudo é verdade, talvez. Exagera-se bastante.
 
Prouvera fosse. Embora inimigo, da mesma raça é.
Mas chega um só “prouvera”. Quiçá seja demais até.
 
Filipe não pensa adiar a festa para outro dia.
Malgrado a fadiga da vida, profunda, que o assedia
 
inda um bem conta: boa memória nunca veio a lhe faltar.
Recorda o quanto chorou a Síria, que tipo de pesar
 
sentiu ao ver a Macedônia, mãe, sofrer devastação. -
Comece o festim. Escravos, flautas, iluminação.
Kaváfis também teve contato com os poetas italianos Ungaretti e o futurista Marinetti. Sua rivalidade com o poeta Palamás também era conhecida. Todas as segundas feiras, no chamado “whisky de segunda” que reservava às visitas menos importantes, Kaváfis chamava maldosamente de “whisky Palamás”. Por volta dos anos 30, Kaváfis já estava aposentado do Departamento de Irrigação, quando foi diagnosticado um câncer na garganta.

 
LEMBRA, CORPO…
 
 
Lembra, corpo, não só o quanto foste amado,
não só os leitos onde repousaste,
mas também os desejos que brilharam
por ti em outros olhos, claramente,
e que tornaram a voz trêmula – e que algum
obstáculo casual fez malograr.
Agora que isso tudo perdeu-se no passado,
é quase como se a tais desejos
te entregaras – e como brilhavam,
lembra, nos olhos que te olhavam,
e como por ti na voz tremiam, lembra, corpo.
 
Kaváfis não chegou a publicar um livro em vida, apenas poemas em folhetos literários e jornais, a notoriedade viria depois, através de outros poetas. Sempre reescrevia, sempre reimprimia e enviava a um grupo de pessoas, quase sempre amigos. Assim divulgava sua poesia. Esse sistema “marginal” de divulgação era muit usado pelos rimadóri de Creta ou os pyitárides do Chipre, que andavam pelas ruas a recitar e vender poemas aos aldeões.

 
 
PARA QUE VENHAM
 
 
Uma só vela basta.          Sua luz mortiça
uma atmosfera mais         propícia há de compor,
quando as Sombras vierem,             as Sombras do Amor.
 
Uma vela somente.               Que esta noite o quarto
muita luz não ostente.             Entregue ao devaneio,
e às sugestões do ambiente,         e dessa luz tão pouca -
ao devaneio assim                 entregue, hei de sonhar,
para que as Sombras venham,            as Sombras do Amor.
 
Kaváfis produziu ao longo da vida 154 poemas curtos. Muitos deles, reescritos a cada nova publicação em folhetos e jornais. A língua utilizada por Kaváfis foi o neogrego, isto é, o grego coloquial contemporâneo, vindo direto do koiné, língua comum falada em todo o Oriente helenizado da Antiguidade e do Medievo, que ressurgiu após o longo domínio turco da Grécia continental, a partir de 1823, como língua oficial do país.

MELANCOLIA DE JASÃO, FILHO DE CLEANDRO, POETA EM COMAGENA, 595 D.C
 
 
O envelhecimento do meu corpo, do meu rosto
é a ferida de um punhal terrível.
Como não tenho resignação nenhuma,
recorro a ti, oh Arte da Poesia,
que algo sabes de remédios,
na tentativa de embotar a dor com Fantasias e Verbo.
 
É a ferida de um punhal terrível. -
Dá-me dos teus remédios, Arte da Poesia,
que me fazem – um instante – não sentir a ferida.
 
O interesse de Kaváfis pelo coloquial está na origem da própria literatura da Grécia: foi na poesia oral do seu povo, sobretudo o rico acervo de baladas narrativas das lhas e da península, que Solomós e outros poetas descobriram as raízes de uma arte verdadeiramente nacional, tal como queria o romantismo patriótico na época da libertação da dominação turca. Kaváfis usava o palitikós stíhos, o “verso político”, o metro da poesia folclórica grega, que divide o poema em “duas partes” que se relacionam entre si.

Vi esse aqui embora não saiba mexer direito http://pedrolago.tumblr.com
 
 
A ORIGEM
 
 
O prazer proibido consumou-se.
Eles se erguem do leito e, sem falar-se,
vestem-se à pressa.
Saem da casa em separado, às escondidas; vão-se
um tanto inquietos pela rua, como se
temessem que algo neles revelasse
em que espécie de leito possuíram-se.
 
Mas, do artista, como a vida se enriquece!
Amanhã, no outro dia, anos depois, serão escritos
os versos que aqui têm sua origem.
Como já foi dito, em 1932, foi diagnosticado um câncer em sua garganta. Aleko Singopoulos e sua, Rika, o levaram a Atenas para operar-se. No hospital da Cruz Vermelha foi-lhe feito uma traqueostomia, perdendo assim a voz. A partir daí comunicava-se atrave’s de bilhetes escritos. No ano seguinte, seu estado de saúde se agravou, até que no dia 29 de abril de 1933, no dia de seu aniversário de 70 anos, Kaváfis morreu.

 
DIAS DE 1901
 
 
Passava-se com ele isto de singular:
em meio à sua devassidão
e à sua grande experiência do amor,
se bem, de hábito, o seu comportamento
estivesse de acordo com a idade,
ocorriam momentos – muito raros,
sem dúvida – em que dava impressão
de uma carne quase intacta.
 
A beleza dos seus vinte e nove anos,
tão douta na volúpia, paradoxalmente
lembrava um efebo algo canhestro entregando
ao amor, pela primeira vez, o corpo casto.
 
Assim como outros poetas, a poesia de Kaváfis só ficou conhecida depois de sua morte. Talvez pelo fato de jamais ter publicado um livro em vida, ou pela forte autocrítica e os constantes reajustes nos poemas. O escritor inlgês E.M Forster, empenhou-se, com o auxílio do poeta americano T.S Eliot, a divulgar a obra de Kaváfis, ainda em vida, fazendo com que editores ingleses traduzissem seus poemas, mas tal empenho esbarrou na má vontade de Kaváfis que não julgava sua obra pronta para a publicação definitiva que não queria que sua obra viesse a ser conhecida através de tradução antes de ser conhecida no original. De qualquer forma, isto só ocorreu após sua morte e Kaváfis tornou-se um influente poeta do século XX. Ficamos por aqui.

UM JOVEM ARTISTA DA PALAVRA – 24 ANOS DE IDADE
 
 
Trabalha agora como possas, cérebro. -
Um prazer incompleto o dilacera.
É enervante a sua condição.
Beija o rosto do amado todo dia,
sua mãos lhe acariciam os membros admiráveis.
Jamais na vida amou assim, com tal
paixão. Porém lhe falta a bela plenitude
do amor, a plenitude que há sempre de existir
entre dois amantes com desejos intensos.
 
(Não têm, os dois, igual pendor para os prazeres anômalos,
que só a um domina por inteiro.)
 
E ele se irrita, e ele se atormenta.
Além do mais, está desempregado; e isso conta.
Uma pequenas somas de dinheiro
a duras penas consegue (quase as tem
de mendigar, por vezes) e vive pobremente.
Beija os lábios adorados; sobre
o corpo admirável – que, só agora entende,
apenas consente – se deleita.
E depois bebe e fuma, fuma e bebe,
e pelos cafés arrasta, o dia todo,
com tédio arrasta a dor da sua formosura. -
Trabalha agora como possas, cérebro.
 

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Cruz e Sousa

João da Cruz e Sousa nasceu em Florianópolis, Santa Catarina, no dia 24 de novembro de 1861. Seus pais, negros, eram escravos do Marechal Xavier de Sousa, o qual, quando teve que seguir para a Guerra do Paraguai, os alforriou. O menino foi sempre tratado com todo o carinho pela família do Marechal, o que é de extrema importância para a compreensão do que virá depois. Recebeu boa instrução secundária, tendo tido entre seus mestres o naturalista Fritz Muller. Cruz e Sousa, como é conhecido, poeta simbolista de maior expressão na literatura.

CLAMOR SUPREMO

Vem comigo por estas cordilheiras!
Põe teu manto e bordão e vem comigo,
Atravessa as montanhas sobranceiras
E nada temas do mortal Perigo!

Sigamos para as guerras condoreiras
Vem, resoluto, que eu irei contigo.
Dentre as águias e as chamas feiticeiras
Só tenho a Natureza por abrigo.

Rasga florestas, bebe o sangue todo
Da Terra e transfigura em astros lôdo,
O próprio lôdo torna mais fecundo.

Basta trazer um coração perfeito,
Alma de eleito, Sentimento eleito
Para abalar de lado a lado o mundo!

Cruz e Sousa aprendeu francês, latim e grego, além de ter estudado com seu mestre alemão Matemática e Ciências Naturais. Filho de escravos, adotou o sobrenome de seu ex-senhor Marechal Guilherme Xavier e Sousa. Quando seus protetores morreram, Cruz e Sousa passou a militar na imprensa, correndo o país de sul a norte como ponto de uma companhia dramática.. Participou em sua província natal, Nossa Senhora do Desterro, depois, Florianópolis, da luta abolicionista, dirigindo o jornal Tribuna Popular. Em 1883, lhe foi recusado o cargo de promotor em Laguna por ser negro.

Muito embora as estrelas do Infinito
Lá de cima me acenem carinhosas
E desça das esferas luminosas
A doce graça de um clarão bendito;

Embora o mar, como um revel proscrito,
Chame por mim nas vagas ondulosas
E o vento venha em cóleras medrosas
O meu destino proclamar num grito,

Neste mundo tão trágico, tamanho,
Como eu me sinto fundamente estranho
E o amor e tudo para mim avaro…

Ah! como eu sinto compungidamente,
Por entre tanto horror indiferente,
Um frio sepulcral de desamparo!

Em 1890, Cruz e Sousa muda-se para o Rio de Janeiro. Após três anos de trabalhos na imprensa carioca, obtém um emprego ínfimo na Estrada de Ferro Central. Em 1893, casa-se com uma moça negra chamada Gavita Rosa Gonçalves, de quem teve quatro filhos, dois dos quais morreram ainda em vida do poeta, os outros dois morreram após, todos de tuberculose, o que levou Gavita à loucura. Vale muito ressaltar a vida e o contexto em que viveu o poeta, para admirarmos ainda mais sua poesia, simbolista, etérea, que falaremos mais profundamente ao longo deste mês.

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ASSIM SEJA

Fecha os olhos e morre calmamente!
Morre sereno do Dever cumprido!
Nem o mais leve, nem um só gemido
traia, sequer, o teu Sentir latente.

Morre com alma leal, clarividente,
da Crença errando no Vergel florido
e 
o Pensamento pelos céus brandido
como um gládio soberbo e refulgente.

Vai abrindo sacrário por sacrário
do teu Sonho no templo imaginário,
na hora glacial da negra Morte imensa…

Morre com o teu Dever!
Na alta 
confiança de quem triunfou
e sabe quem descansa desdenhando
de toda a Recompensa!

Cruz e Sousa lançou em verso os seguintes livros: Broquéis de 1893, Faróis de 1900 e Últimos Sonetos de 1905; em prosa, o poeta publicou Tropos e Fantasias em 1885, Missal de 1893, Evocações publicado no ano de 1898. A editora Nova Aguilar em 1961, publicou uma edição com a obra completa do poeta, ainda com os livros O Livro Derradeiro de poesia e Outras Evocações e Dispersos em prosa. Obviamente que hoje, podemos, creio eu, encontrar edições mais novas que esta da Nova Aguilar. Creio também que o interesse por poetas deste período, sobretudo da fase Simbolista, não tenha extinguido, caso o tenha, fazemos com que volte.

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SONHO BRANCO

De linho e rosas brancas vais vestido,
Sonho virgem que cantas no meu peito!…
És do Luar o claro deus eleito,
Das estrelas puríssimas nascido.

Por caminho aromal, enflorescido,
Alvo, sereno, límpido, direito,
Segues radiante, no esplendor perfeito,
No perfeito esplendor indefinido…

As aves sonorizam-te o caminho…
E as vestes frescas, do mais puro linho
E as rosas brancas dão-te um ar nevado…

No entanto, Ó Sonho branco de quermesse!
Nessa alegria em que tu vais, parece
Que vais infantilmente amortalhado!

Cruz e Sousa foi integrante da Academia Catarinense de Letras, cuja cadeira 15 é patrono, entretanto, não é muito conhecido entre os moradores de Florianópolis. Maior prova disso é um erro cometido pelo governo de Santa Catarina que manteve o nome da rua que homenageia o poeta como “Rua Cruz de Sousa” por muitos anos, a ponto de os moradores da própria se surpreenderem quando o erro foi corrigido. Nas escolas, sobretudo nas públicas, pouco se fala de Cruz e Sousa, poeta, que foi traduzido e publicado em pelo menos oito idiomas. Vale lembrar que Cruz e Sousa é tido como o mestre do Simbolismo, comparado inclusive a Mallarmé e Verlaine. Isso, deixamos para depois.

IMORTAL ATITUDE

Abre os olhos à Vida e fica mudo!
Oh! Basta crer indefinidamente
Para ficar iluminado tudo
De uma luz imortal e transcendente.

Crer é sentir, como secreto escudo,
A alma risonha, lúcida, vidente…
E abandonar o sujo deus cornudo,
O sátiro da Carne impenitente.

Abandonar os lânguidos rugidos,
O infinito gemido dos gemidos
Que vai no lodo a carne chafurdando.

Erguer os olhos, levantar os braços
Para o eterno Silêncio dos Espaços
E no Silêncio emudecer olhando…

Cruz e Sousa é um poeta da geração Simbolista. Para entender o Simbolismo Brasileiro, é preciso investigar onde se originou, na França. Em 1885, houve um grupo de poetas que ficaram conhecidos como simbolistas decadentes, que justamente reagiam contra o espírito positivo, objetivo e impessoal e contra a forma precisa, clara escultural da geração parnasiana. Os simbolistas procuraram exprimir as emoções no que elas teem de mais pessoal e ao mesmo tempo vago, numa forma despojada de toda a eloquencia e o mais possível próxima da música. Mallarmé dizia que “é suprimir três quartas partes do gozo do poema, que é feito da felicidade de adivinhar pouco a pouco: sugeri-lo, eis o ideal”.

MUNDO INACCESSÍVEL

Tu’alma lembra um mundo inacessível
Onde só astros e águias vão pairando,
Onde só se escuta, trágica, cantando,
A sinfonia da Amplidão terrível!

Alma nenhuma, que não for sensível,
Que asas não tenha para as ir vibrando,
Essa região secreta desvendando,
Falece, morre, num pavor incrível!

É preciso ter asas e ter garras
Para atingir aos ruídos de fanfarras
Do mundo da tu’alma augusta e forte.

É preciso subir ígneas montanhas
E emudecer, entre visões estranhas,
Num sentimento mais sutil que a Morte!

A época era de diálogo. Os poetas simbolistas da frança sofreram forte influência dos artistas plásticos e do teatro. Não posso dizer que o simbolismo na França foi um movimentos literário. Era um momento de novas proposições, por isso, pode-se inclusive colocar os nomes de Gauguin, Ibsen, Verlaine e Rimbaud na mesma frase. Mas foi na figura de Paul Verlaine que o entusiasmo simbolista aparecia mais. Intuição e sentimento, sem formas e regras, apenas a fluidez de uma arte que representa o “eu profundo”. O Simbolismo teve reações quasee que imediatas no Brasil, mas isso veremos mais tarde.

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O ASSINALADO

Tu és o louco da imortal loucura,
O louco da loucura mais suprema.
A Terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura.

Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tu’alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.

Tu és o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas eternas, pouco a pouco…

Na Natureza prodigiosa e rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!

Como e quando a obra de Mallamé, Verlaine, Rimbaud, Gustave Kahn, Vielé-Griffin, Lautréamont, Laforgue, Stuart Merrill, Remy de Gourmont, Maeterlink, Rodenbach e outros chegou no Brasil? Segundo o crítico literário Tristão de Araripe Junior, foi o poeta e escritor Medeiros e Albuquerque quem recebeu em 1887 de um amigo particular que em Paris mantinha relações com o grupo simbolista livros de Verlaine, Mallarmé, René Ghil, Stuart Merrill, Jean Moréas e revistas onde se começava a esboçar a nova estética. Esse material passou das mãos de Medeiros e Albuquerque para as de Araripe e daí para as de Gama e Rosa, que era protetor de Cruz e Sousa, o qual publicou na Tribuna Liberal uma exposição das idéias da nova escola.

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INVULNERÁVEL

Quando dos carnavais da raça humana
forem caindo as máscaras grotescas
e as atitudes mais funambulescas
se desfizerem no feroz Nirvana;

Quando tudo ruir na febre insana,
nas vertigens bizarras, pitorescas
de um mundo de emoções carnavalescas
que ri da Fé profunda e soberana;

Vendo passar a lúgubre, funérea
galeria sinistra da Miséria,
com as máscaras do rosto descolocadas,

Tu que és o deus, o deus invulnerável,
resiste a tudo e fica formidável,
no Silêncio das noites estreladas!

O contato dos Simbolistas Franceses através de Medeiroes e Albuquerque, Gama Rosa, até chegar enfim aos olhos de Cruz e Sousa deu-se no Rio de Janeiro. Entretanto foi no Paraná que a arte Simbolista chegou com influência mais direta. O crítico de compositor João Itiberê da Cunha, que estudara na Bélgica, onde fora colega de Maeterlinck e Verhaeren, e voltando em 1893 ao Paraná, trouxe consigo informações e obras dos simbolistas franceses e belgas, dentre elas La Damnation de l’Artiste do belga Ivan Gilkin. Seus colegas aqui no Brasil, os poetas, Dario Veloso, Emiliano Perneta, Júlio Perneta e Silveira Neto foram os agraciados pelas novidades e diretamente influenciados, formando depois a revista O Cenáculo, que depois da Folha Popular do Rio, foi o principal orgão do movimento no Brasil.

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FLOR DO MAR

És da origem do mar, vens do secreto,
do estranho mar espumaroso e frio
que põe rede de sonhos ao navio,
e o deixa balouçar, na vaga, inquieto.

Possuis do mar o deslumbrante afeto,
as dormências nervosas e o sombrio
e torvo aspecto aterrador, bravio
das ondas no atro e proceloso aspecto.

Num fundo ideal de púrpuras
e rosas
surges das águas mucilaginosas
como a lua entre a névoa dos espaços…

Trazes na carne o eflorescer das vinhas,
auroras, virgens musicas marinhas,
acres aromas de algas e sargaços…

Foi através destas duas nascentes que o Simbolismo chegou ao Brasil, Rio de Janeiro e Paraná. Assim como se data em 1836, ano da publicação dos Suspiros Poéticos do poeta Gonçalves de Magalhães, o início do movimento romântico no Brasil, é de 1893, ano da publicação dos Broquéis e de Missal de Cruz e Sousa, que se costuma datar o início do simbolismo no Brasil. Entretanto, como disse antes, os anunciadores do movimento foram outros, mas foi Cruz e Sousa, que após a publicação destes livros, quem se tornou a figura mais forte e mais ilustre do movimento, e aquela publicação o grande acontecimento do simbolismo brasileiro. Semana que vem ainda falaremos de simbolismo.

SORRISO INTERIOR

O ser que é ser e que jamais vacila
Nas guerras imortais entra sem susto,
Leva consigo esse brasão augusto
Do grande amor, da nobre fé tranqüila.

Os abismos carnais da triste argila
Ele os vence sem ânsias e sem custo…
Fica sereno, num sorriso justo,
Enquanto tudo em derredor oscila.

Ondas interiores de grandeza
Dão-lhe essa glória em frente à Natureza,
Esse esplendor, todo esse largo eflúvio.

O ser que é ser tranforma tudo em flores…
E para ironizar as próprias dores
Canta por entre as águas do Dilúvio!

Depois da publicação dos livros Broqueis e Missal, Cruz e Sousa tornou-se logo a figura mais forte, mais ilustre e importante do movimento simbolista no Brasil. Mesmo depois de morto, foi em torno de sua obra e da sua pessoa que se popularizou o movimento. Entretanto, Cruz e Sousa e todo movimento simbolista, foi muito atacado pela crítica. O poeta português Eugênio de Castro, após publicar seus livros em Portugal,por volta de 1890, 1891, causou estupefação, fora chamado de “nefelibata”, que quer dizer “que anda nas nuvens”. Aqui no Brasil, não deixaram por menos e o nome foi constantemente utilizado nas críticas aos poetas que “andavam nas nuvens, falando coisas estapafúrdias numa linguagem incompreensível”(!).

BOCA

Boca viçosa, de perfume a lírio,
Da límpida frescura da nevada,
Boca de pompa grega, purpureada,
Da majestade de um damasco assírio.

Boca para deleites e delírio
Da volúpia carnal e alucinada,
Boca de Arcanjo, tentadora e arqueada,
Tentando Arcanjos na amplidão do Empírio,

Boca de Ofélia morta sobre o lago,
Dentre a auréola de luz do sonho vago
E os faunos leves do luar inquietos…

Estranha boca virginal, cheirosa,
Boca de mirra e incensos, milagrosa
Nos filtros e nos tóxicos secretos…

Os Simbolistas foram rudemente atacados pela crítica da época e muito também pelos poetas parnasianos. Um dos maiores críticos da época, José Veríssimo, escreveu em seu Estudos da Literatura Brasileira que os simbolistas eram “a turbamulta dos novos, sem sinceridade, sem crenças, sem gramática, sem instrução e sem bom senso. Reconheceu, depois a importância de Cruz e Sousa e de Alphonsus de Guimarães, mas ainda reiterou que “se não desvencilhar-se das faixas da escola, se persistir em uma corrente que não leva a nada, será apenas mais um estro perdido para a nossa poesia”. Para mim, toda ruptura causa estranheza, sempre foi e sempre será assim, Monteiro Lobato que o diga.

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SONETO

Parece que nasceste, oh! pálida divina,
Para seres o farol, a luz das puras almas!…
Parece que ao estridor, ao frêmito das palmas
Exalças-te feliz a plaga cristalina!…

Parece que se partem, angélica Bambina,
As campas glaciais dos Tassos e dos Talmas,
Lá quando no tablado as turbas sempre calmas
Transmutas em vulcão, em raio que fulmina!…

E quando majestosa, em lance sublimado
Dardejas do olhar, olímpico, sagrado
Mil chispas ideais, titânicas, ardentes!…

Então sente-se n’alma o trêmulo nervoso
Que deve ter o mar, fantástico, espumoso
Nos grossos vagalhões, indômitos, frementes!!…

Ainda falando um pouco sobre o simbolismo, pois, nosso Cruz e Sousa foi figura fundamental, vale ressaltar também a importância do poeta Alphonsus de Guimarães, que assim como Cruz e Sousa, ultrapassou ao movimento e tornou-se uma página importante da poesia brasileira. Entretanto, o simbolismo teve em seu plantel muitos outros poetas que, infelizmente, não são muito conhecidos. São eles: Emiliano Perneta, Mário Pederneiras, Dario Veloso, Azevedo Cruz, Silveira Neto, Carlos D. Fernandes, Pereira da Silva, Saturnino de Meireles, Marcelo Gama, Tristão da Cunha, Maranhão Sobrinho, Feliz Pacheco, José de Abreu Albano, Castro Meneses, Da Costa e Silva, Álvaro Moreyra, Eduardo Guimaraens, Rodrigo Octávio Filho, Rodrigues de Abreu e Onestaldo de Pennafort. Poderemos um dia fazer um homenagem a todos eles.

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AMOR

Nas largas mutações perpétuas do universo
O amor é sempre o vinho enérgico, irritante…
Um lago de luar nervoso e palpitante…
Um sol dentro de tudo altivamente imerso.

Não há para o amor ridículos preâmbulos,
Nem mesmo as convenções as mais superiores;
E vamos pela vida assim como os noctâmbulos
à fresca exalação salúbrica das flores…

E somos uns completos, célebres artistas
Na obra racional do amor — na heroicidade,
Com essa intrepidez dos sábios transformistas.

Cumprimos uma lei que a seiva nos dirige
E amamos com vigor e com vitalidade,
A cor, os tons, a luz que a natureza exige!…

Há uma discussão que envolve a participação de Cruz e Sousa pela causa abolicionista. Alguns críticos dizem que o poeta se ausentou não sendo uma voz ativa na opinião pública da época, o que é considerado um erro grave. Cruz e Sousa nos anos 80 do século XIX, discutia com seu grupo questões de sua contemporaneidade e através da criação de jornais, folhas, semanários e alternativos, exprimiam suas idéias e indignações. O poeta Paulo Leminski foi biógrafo do poeta e nesta disse que “Não lhe bastou ser poeta, foi um jornalista engajado com as lutas de seu tempo”. A discussão sobre esta questão ainda persiste, entretanto, estamos aqui para falar, mesmo 100 anos após sua morte.

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DA SENZALA…

De dentro da senzala escura e lamacenta
Aonde o infeliz

De lágrimas em fel, de ódio se alimenta
Tornando meretriz

A alma que ele tinha, ovante, imaculada
Alegre e sem rancor,

Porém que foi aos poucos sendo transformada
Aos vivos do estertor…

De dentro da senzala

Aonde o crime é rei, e a dor — crânios abala
Em ímpeto ferino;

Não pode sair, não,
Um homem de trabalho, um senso, uma razão…
e sim um assassino!

Se Cruz e Sousa foi um militante pela causa abolicionista, então porque a crítica? É bem verdade que o poeta não sofreu muito com a escravidão, teve uma boa educação e fora criado como qualquer outro branco. Mas foi através de viagens pelo Brasil que Cruz e Sousa tomou conhecimento de outros mundos. Primeiro, viajou com uma companhia de teatro ao Rio Grande do Sul, encantou-se com a vida dos atores e ficou muito conhecido por lá, depois, foi sua vinda ao Rio de Janeiro, onde viu a grande cidade em movimento, só que, quando foi para Bahia, Cruz e Sousa teve realmente o impacto cultural da questão abolicionista. Lá conheceu os versos de Castro Alves, morto ainda a pouco, e muitos militantes abolicionistas, tendo participado inclusive de palestras públicas. Veremos mais.

FONTE DE AMOR

Trago-a à tua presença
Para que vejas a imensa
Mágoa atroz que a devorou.
E saibas, ó flor das flores,

Que a fonte dos seus amores
Eternamente secou.
Foste à fonte buscar água
E tinha secado a fonte.

Aí, flor azul do monte,
Tiveste a primeira mágoa.
Porém se uma alma na frágua

Das dores sem horizonte
Queres ver, sentir defronte
Dos olhos, manda que eu trago-a.

Quando Cruz e Sousa vai a Bahia, a questão abolicionista se torna mais presente. Lá conhece intelectuais abolicionistas, militantes negros, muitos negros, e toma conhecimento de senhores severos, ao contrário do que conhecia quando criança. Lá, através do jornal O Moleque, Cruz e Sousa publica textos abolicionistas e promove conferências. Em uma delas, Cruz e Sousa declara que “estava a disposição de seus irmãos de raça”. Sempre em viagem com a Companhia de Teatro, Cruz e Sousa ainda percorreu por Pernambuco, onde também promoveu palestras. Uma constante que Cruz e Sousa sempre conseguia reverter era a questão de ser alforriado, o que aumentava a admiração, pois o poeta nunca deixou de dizer quem era, apesar de algumas peculiaridades, estas amanhã.

ACROBATA DA DOR

Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta …

Pedem-se bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
nessas macabras piruetas d’aço…

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.

Olha que interessante: Cruz e Sousa tinha obsessão pela cor branca. Há várias evocações do branco em sua obra, o autor Roger Bastide contou 169 em um ensaio. Ele interpreta que é “a expressão de uma imensa nostalgia, a de ser tornar ariano”. O próprio Cruz e Sousa compreendeu bem isso. Antes de se tornar simbolista, começou por ser parnasiano, defendendo os dogmas do parnaso: arte pela arte; a necessidade de seguir regras técnicas mais exigentes na elaboração de um poema. Estes dogmas entraram em confronto com sua herança africana, onde ele mesmo diz: “Eu trazia cadáveres que me andassem funambulescamente amarrados às costas, num inquietante e interminável apodrecimento, todos os empirimos preconceituosos e não sei quanta camada morta, quanta raça d’Africa curiosa desolada…. Surgindo de bárbaros, tinha de domar outros mais bárbaros ainda, cujas plumagens aborígenes àlacremente flutuavam atráves dos estilos…. O temperamento entortava muito para o lado da Africa, era necessário entorta-lo para o lado da Regra, afim de deixa-lo certo como um termómetro”.

SIDERAÇÕES

Para as Estrelas de cristais gelados
As ânsias e os desejos vão subindo,
Galgando azuis e siderais noivados
De nuvens brancas a amplidão vestindo…

Num cortejo de cânticos alados
Os arcanjos, as cítaras ferindo,
Passam, das vestes nos troféus prateados,
As asas de ouro finamente abrindo…

Dos etéreos turíbulos de neve
Claro incenso aromal, límpido e leve,
Ondas nevoentas de Visões levanta…

E as ânsias e os desejos infinitos
Vão com os arcanjos formulando ritos
Da Eternidade que nos Astros canta…

É bem verdade que a poesia simbolista aqui no Brasil era uma arte delicada, preciosa, difícil, requintada, cheia de matizes que se dirige a uma pequena elite e classifica portanto o poeta num grupo seleto de artistas. O próprio Cruz e Sousa admite que essa arte tão específica o separa de suas origens, de sua mãe e das história de seus antepassados. Isso torna o processo ainda mais doloroso, pois ama ternamente sua mãe, entretanto, coloca o culto da beleza acima de tudo. Assim o poeta sentia que a arte era um meio de abolir a fronteira que a sociedade colocava entre os filhos de escravos africanos e os filhos de brancos livres. Por isso pareceu ser “o mais ariano de todos”, pois queria provar a capacidade do negro para o “entendimento artístico”.

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FLOR NIRVANIZADAS

Ó cegos corações, surdos ouvidos,
Bocas inúteis, sem clamor, fechadas,
Almas para os mistérios apagadas,
Sem segredos, sem eco e sem gemidos.

Consciências hirsutas de bandidos,
Vesgas, nefandas e desmanteladas,
Portas de ferro, com furor trancadas,
Dos ócios maus histéricos Vencidos.

Desenterrai-vos das sangrentas furnas
Sinistras, cabalísticas, noturnas
Onde ruge o Pecado caudaloso…

Fazei da Dor, do triste Gozo humano,
A Flor do Sentimento soberano,
A Flor nirvanizada de outro Gozo!

Cruz e Sousa morreu no dia 19 de março de 1898, no município de Antonio Carlos, em um povoado chamado Estação de Sitio em Minas Gerais, vítima de uma tuberculose. Se corpo foi transportado a cavalo para o Rio de Janeiro onde foi enterrado no cemitério São Francisco Xavier. Apenas em 2007, seus restos mortais foram acolhidos para o Museu Histórico de Santa Catarina, no Palácio Cruz e Sousa em Florianópolis. Seu último neto, Silvo Cruz e Sousa, morreu em 1955, foi marinheiro, vendia peixes para sobreviver e sua mulher, Ercy Cruz e Sousa, ainda vive sob um pensão do Governo de Santa Catarina. Pelo menos até onde eu consegui chegar, nenhum de seus outros netos, bisnetos, obteve estudo ou seguiu a carreira artística. Ercy, mulher de Silvio, diz que o marido morreu de desgosto.

A PERFEIÇÃO

A Perfeição é a celeste ciência
Da cristalização de almos encantos,
De abandonar os mórbidos quebrantos
E viver de uma oculta florescência.

Noss’alma fica da clarividência
Dos astros e dos anjos e dos santos,
Fica lavada na lustral dos prantos,
É dos prantos divina e pura essência.

Noss’alma fica como o ser que às lutas
As mãos conserva limpas, impolutas,
Sem as manchas do sangue mau da guerra.

A Perfeição é a alma estar sonhando
Em soluços, soluços, soluçando
As agonias que encontrou na Terra.!

Eis que chegamos ao final de mais uma antologia poética. Espero que tenham gostado de conhecer um pouco da vida e da poesia simbolista do nosso poeta Cruz e Sousa. Negro, filhos de escravos que escolheu uma poesia cheia de imagens e lirismos feéricos para expressar-se, passando por questões abolicionistas, debaixo de críticas e reconhecimentos póstumos. Semana que vem entraremos em mais um universo poético, com outras proposições, outras reflexões e muito mais poesia. Até lá.

FLOR DA NATUREZA

Luz que eu adoro, grande Luz que eu amo,
Movimento vital da Natureza,
Ensina-me os segredos da Beleza
E de todas as vozes por quem chamo.

Mostra-me a Raça, o peregrino Ramo
Dos Fortes e dos Justos da Grandeza,
Ilumina e suaviza esta rudeza
Da vida humana, onde combato e clamo.

Desta minh’alma a solidão de prantos
Cerca com os teus leões de brava crença,
Defende com so teus gládios sacrossantos.

Dá-me enlevos, deslumbra-me, da imensa
Porta esferal, dos constelados mantos
Onde a Fé do meu Sonho se condensa!

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Fernando Pessoa

Fernando António Nogueira Pessoa nasceu no dia 13 de junho de 1888, dia de Santo Antônio, no quarto andar do lado esquerdo do Largo de São Carlos, número 4, às 3 horas da tarde. No mesmo ano de Os Maias de Eça de Queiroz e a Menina Júlia de Strindberg. Filho de Joaquim Seabra Pessoa, pequeno funcionário, mas “inteligente”, consta, que se dedicou também à crítica de música. Sua mãe, Maria Madalena Pinheiro Nogueira era da região dos Açores. Vamos se Pessoa por aqui.

 



QUANDO ELA PASSA


Quando eu me sento à janela
P’los vidros que a neve embaça
Vejo a doce imagem dela
Quando passa… passa … passa…

Lançou-me a mágoa seu véu: - 
Menos um ser neste mundo
E mais um anjo no céu.

Quando eu me sento à janela,
P’los vidros que a neve embaça
Julgo ver a imagem dela
Que já não passa… não passa…
 
 
 
 
Em 1889, data o suposto nascimento de Alberto Caeiro, como Pessoa afirmaria anos depois. Em 1893, nasce Jorge, irmão de Fernando Pessoa. No dia 13 de julho do mesmo ano, morre seu pai, Joaquim, aos 43 anos de idade. No dia 15 de novembro, muda-se com sua mãe para a Rua de S. Marçal, 104, depois de fazer leilão de grande parte de seus pertences. No dia 2 de janeiro de 1894, morre seu irmão Jorge, com apenas 1 ano de idade.
 
 
 

ANÁLISE


Tão abstrata é a ideia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longamente,
E a ideia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.
 
 
 
Em 1894, D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira Pessoa conhece o comandante João Miguel Rosa, que viria a ser o padrasto de Fernando Pessoa. Neste mesmo ano, Pessoa, aos seis anos, cria seu primeiro heterônimo, o Chevalier de Pas. Em 1895, João Miguel Rosa é nomeado cônsul interino em Durban, na África do Sul, para onde segue no mês seguinte. No dia 26 de junho, Pessoa escreve seu primeiro poema, ‘A Minha Querida Mamã’. Em dezembro, casam-se por procuração sua mãe e João Miguel, na Igreja de S. Mamede.
 
 
 
UNS VERSOS QUAISQUER



Vive o momento com saudade dele 
      Já ao vivê-lo… 
Barcas vazias, sempre nos impele 
      Como a um solto cabelo 
Um vento para longe, e não sabemos, 
Ao viver, que sentimos ou queremos…
Demo-nos pois a consciência disto 
      Como de um lago 
Posto em paisagens de torpor mortiço 
      Sob um céu ermo e vago, 
E que a nossa consciência de nós seja 
Uma cousa que nada já deseja…
Assim idênticos à hora toda 
      Em seu pleno sabor, 
Nossa vida será nossa ante-boda: 
      Não nós, mas uma cor, 
Um perfume, um meneio de arvoredo, 
E a morte não virá nem tarde ou cedo…
Porque o que importa é que já nada importe… 
      Nada nos vale 
Que se debruce sobre nós a Sorte, 
      Ou, ténue e longe, cale 
Seus gestos… Tudo é o mesmo… Eis o momento… 
Sejamo-lo… Pra quê o pensamento?…
 
 
 
Em 1896, acompanhados do Tio Cunha, a família parte para a África. Fernando passa a frequentar o convento West Street, em Durban, onde aprende inglês e faz a primeira comunhão. No mesmo ano, morre sua avó, D. Madalena Xavier Pinheiro Nogueira, na Ilha Terceira. Em novembro de 1896, nasce, Henriqueta Madalena, a primeira filha do segundo casamento de sua mãe. Em 1899, Fernando matricula-se no High School, Form II-B, mas logo passa para o Form II-A, para assim, ganhar o Form Prize. Meses depois, Fernando, ganha outro irmão, Luís MIguel. Passa também para o Form III e ganha um prêmio em francês.
 



Ó SINO DA MINHA ALDEIA


Ó sino da minha aldeia
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.
 
 
 
Em 1901, o comandante João Miguel Rosa é nomeado cônsul de Primeira Classe e em junho, Pessoa faz exame da Cape School High Examination. No dia 25 de junho, falece sua irmã, Madalena Henriqueta, primeira filha do casal. Acompanham no barco, sua mãe, Henriqueta Madalena e Luís Miguel, seu irmão. Em janeiro de 1902, nasce João, quarto filho do casal. Também há a liquidação da herança da avó materna de Pessoa. Voltam todos para Durban, onde, Pessoa matricula-se na Commercial School e escreve o poema ‘Quando Ela Passa’. Faz exame para a Universidade do Cabo em 1903 e, no ano seguinte, recebe o Prêmio Rainha Vitória, concedido ao ensaio que fez neste exame. Começa a ler Byron, Poe, Shelley, Keats e Tennyson. Conhece Pope e começa a escrever em inglês, prosa e poesia.
 



 ELA CANTA


Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anônima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enrêdo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p’ra cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente ‘stá pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!
 
 
 
Em 1904 nasce mais uma irmã, Maria Clara, e Pessoa faz exame do Intermediate Examination em Artes na Universidade do Cabo. Em 1905 parte sozinho para Lisboa, a bordo do navio alemão Herzog, para matricular-se no Curso Superior de Letras. Estabelece-se na casa da avó, Dionísia, e duas tias. Nesta época lê muito Milton. Também conhece Baudelaire e Cesário Verde. Ainda escreve em inglês. Em 1906, sua mãe e João Miguel vão para Portugal em férias e ficam na Calçada das Estrelas. Entra, enfim, no curso de Letras e Maria Clara, sua irmã, morre no fim do ano.
 
 
 

PASSOS DA CRUZ XI


Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela
E oculta mão cobra alguém em mim. 
Pus a alma no nexo de perdê-la 
E o meu princípio floresceu em Fim. 

Que importa o tédio que dentro em mim gela, 
E o leve outono, e as galas, e o marfim, 
E a congruência da alma que se vela 
Com os sonhados pálios de cetim? 

Disperso. E a hora como um leque fecha-se… 
Minha alma é um arco tendo ao fundo o mar. 
O tédio? A mágoa? A vida? O sonho? Deixa-se… 

E, abrindo as asas sobre Renovar,
A erma sombra do voo começado
Pestaneja no campo abandonado. 

 
 
 
Em 1907, Pessoa volta para a casa das tias em Lisboa e abandona o curso de Letras após uma greve dos estudantes contra uma medida de João Franco. Viagem a Portalegre para comprar material, para instalar em Lisboa uma tipografia. Logo depois, monta-a na Rua da Conceição da Glória, 38, quarto andar. Dá o nome de “Empresa Ibis – Tipografia Editora – Oficinas a vapor”, porém, mal chega a funcionar. Em 1908, escreve para o Commercio como correspondente estrangeiro. João Miguel Rosa é transferido para Pretória. Também em dezembro de 1910, é fundada, no Porto, a revista A Águia.
 
 
 

A MÚMIA V


Porque abrem as cousas alas para eu passar? 
Tenho medo de passar entre elas, tão paradas conscientes. 
Tenho medo de as deixar atrás de mim a tirarem a Máscara. 
Mas há sempre cousas atrás de mim. 
Sinto a sua ausência de olhos fitar-me, e estremeço.
Sem se mexerem, as paredes vibram-me sentido. 
Falam comigo sem voz de dizerem-me as cadeiras. 
Os desenhos do pano da mesa têm vida, cada um é um abismo. 
Luze a sorrir com visíveis lábios invisíveis 
A porta abrindo-se conscientemente 
Sem que a mão seja mais que o caminho para abrir-se.
De onde é que estão olhando para mim? 
Que cousas incapazes de olhar estão olhando para mim? 
Quem espreita de tudo?
As arestas fitam-me. 
Sorriem realmente as paredes lisas.
Sensação de ser só a minha espinha.
As espadas.
 
 
Em 1911, o inglês Killoge, organiza uma antologia de autores universais, cujo tradutor é Fernando Pessoa. Em janeiro de 1912, é fundada a Renascença Portuguêsa, no Porto. Fernando publica n’A Águia, orgão da Renascença, seu primeiro artigo, ‘A Nova Poesia Portuguêsa Sociológicamente Considerada’, logo depois publica o artigo ‘Reincidindo’. Nesta mesma época, consta, nasce, na mente de Pessoa, Ricardo Reis.
 
 

DORME ENQUANTO EU VELO


Dorme enquanto eu velo…
Deixa-me sonhar…
Nada em mim é risonho.
Quero-te para sonho,
Não para te amar.

A tua carne calma
É fria em meu querer.
Os meus desejos são cansaços.
Nem quero ter nos braços
Meu sonho do teu ser.

Dorme, dorme, dorme,
Vaga em teu sorrir…
Sonho-te tão atento
Que o sonho é encantamento
E eu sonho sem sentir.
 
 
 
Em janeiro de 1913, Pessoa projeta publicar um livro, Gládio. Publica também um artigo na revista Teatro uma crítica ao livro de Afonso Lopes Vieira Bartolomeu Marinheiro, chamado, “Naufrágio de Bartolomeu”. Ainda nesta revista, publica “Cousas estilísticas que Aconteceram”. Anuncia a Álvaro Pinto, secretário de A Águia, Boavida Portugal vai publicar o Inquérito Literário e que ele, Pessoa, prepararia um panfleto de defesa da Renascença Portuguêsa. Nesta mesma época, pensa em publicar um folheto sobre a autoria de Shakespeare.
 
 
 

ELA CANTA, POBRE CEIFEIRA


Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anônima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p’ra cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente ‘stá pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!

Ah, poder, ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!
 
 
 
Ainda em 1913, Pessoa publica em A Águia, o artigo “As Caricaturas de Almada-Negreiros” e inicia uma relação com o poeta. Mário de Sá-Carneiro envia a Pessoa os poemas para o livro Dispersão, para, meses depois, ir para Lisboa conhecê-lo. Outro artigo é publicado “Na Floresta do Alheamento” e um poema dramático chamado “O Marinheiro”. Começa a revisão dos poemas de Sá-Carneiro. No início de 1914, Pessoa publica em A Águia o número único de “Impressões do Crepúsculo” que contém, dentre outros, os poemas O Sino da Minha Aldeia e Pauis. Pessoa também começa a colecionar e publicar traduções para o inglês cerca de 300 provérbios portuguêses. No dia 8 de março de 1914, surge, enfim, Alberto Caeiro.
 
 
 
 
POUCO IMPORTA


Pouco importa de onde a brisa
Traz o olor que nela vem.
O coração não precisa
De saber o que é o bem.

A mim me baste nesta hora
A melodia que embala.
Que importa se, sedutora,
As forças da alma cala?

Quem sou, p’ra que o mundo perca
Com que penso a sonhar?
Se a melodia me cerca
Vivo só o me cercar…
 
 
 
Alberto Caeiro da Silva nasceu em Lisboa no dia 16 de abril de 1889. Poeta ligado à natureza, viria a torna-se mestre ingênuo de Fernando Pessoa e de outros heterônimos, mesmo tendo tido apenas a instrução primária. Órfão de pai e mãe, estudou apenas até a quarta série primária e viveu grande parte de sua vida na região do Ribatejo. 
 
 
 
 
O LUAR QUANDO BATE NA RELVA


O luar quando bate na relva
Não sei que coisa me lembra…
Lembra-me a voz da criada velha
Contando-me contos de fadas.
E de como Nossa Senhora vestida de mendiga
Andava à noite nas estradas
Socorrendo as crianças maltratadas…
Se eu já não posso crer que isso é verdade,
Para que bate o luar na relva?
 
 
 
 
Álvaro de Campos considera Alberto Caeiro um mestre e diz que “Conheci meu mestre em circunstâncias excepcionais, como todas as circunstâncias da vida, e sobretudo as que, não sendo nada em si mesmas, hão de vir a ser tudo nos resultados [...] Vejo-o diante de mim, e vê-lo-ei talvez eternamente como primeiro o vi. Primeiro os olhos azuis de criança que não tem medo; depois, os malares já um pouco salientes, a cor um pouco pálida, e o estranho ar grego, que vinha de dentro e era uma calma, e não de fora, porque não era expressão em feições.”
 
 
 
 
O MISTÉRIO DAS COISAS


O mistério das coisas, onde está ele? 
Onde está ele que não aparece 
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério? 
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore? 
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso? 
Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas, 
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
Porque o único sentido oculto das coisas  
É elas não terem sentido oculto nenhum,   
É mais estranho do que todas as estranhezas  
E do que os sonhos de todos os poetas 
E os pensamentos de todos os filósofos, 
Que as coisas sejam realmente o que parecem ser  
E não haja nada que compreender.
Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: — 
As coisas não têm significação: têm existência. 
As coisas são o único sentido oculto das cousas.
 
 
 
Ainda Álvaro de Campos sobre Alberto Caeiro: “O gesto era branco, o sorriso era como era, a voz era igual, lançada num tom de quem não procura senão dizer o que está dizendo – nem alta nem baixa, clara, livre de intenções, de hesitações, de timidezas. O olhar azul não sabia deixar de fitar. Se a nossa observação estranhava qualquer coisa, encontrava-a: a testa, sem ser alta, era poderosamente branca. Repito: era sua brancura, que parecia maior que a da cara pálida, que tinha majestade. As mãos um pouco delgadas, mas não muito; a palma era larga. A expressão da boca, a última coisa em que se reparava – como se falar fosse, para este homem, menos que existir, – era a de um sorriso como o que se atribui em verso às coisas inanimadas belas, só porque nos agradam”.
 
 
 

DIZES-ME


Dizes-me: tu és mais alguma coisa 
Que uma pedra ou uma planta. 
Dizes-me: sentes, pensas e sabes 
Que pensas e sentes. 
Então as pedras escrevem versos? 
Então as plantas têm ideias sobre o mundo?
Sim: há diferença. 
Mas não é a diferença que encontras;
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as coisas: 
Só me obriga a ser consciente.
Se sou mais que uma pedra ou uma planta?   Não sei. 
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.
Ter consciência é mais que ter cor? 
Pode ser e pode não ser. 
Sei que é diferente apenas. 
Ninguém pode provar que é mais que só diferente.
Sei que a pedra é a real, e que a planta existe. 
Sei isto porque elas existem. 
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram. 
Sei que sou real também. 
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram, 
Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta. 
Não sei mais nada.
Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos. 
Sim, faço ideias sobre o mundo, e a planta nenhumas. 
Mas é que as pedras não são poetas, são pedras; 
E as plantas são plantas só, e não pensadores. 
Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto, 
Como que sou inferior. 
Mas não digo isso: digo da pedra, «é uma pedra», 
Digo da planta, «é uma planta», 
Digo de mim, «sou eu». 
E não digo mais nada. Que mais há a dizer?
 
 
 
Ainda Álvaro de Campos sobre seu mestre: “Nunca vi triste o meu mestre Caeiro. Não sei se estava triste quando morreu, ou nos dias antes. Seria impossível sabê-lo, mas a verdade é que nunca ousei perguntar aos que assistiram à morte qualquer coisa coisa da morte ou de como ele a teve. Em todo o caso, foi uma das angústias da minha vida – das angústias reais em meio de tantas que tem sido fictícias – que Caeiro morresse sem eu estar ao pé dele. Isto é estúpido mas humano, e é assim”.
 
 

HOJE DE MANHÃ


Hoje de manhã saí muito cedo, 
Por ter acordado ainda mais cedo 
E não ter nada que quisesse fazer…
Não sabia que caminho tomar 
Mas o vento soprava forte, 
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas. 
Assim tem sido sempre a minha vida, e assim quero que possa ser sempre — 
Vou onde o vento me leva e não me deixo pensar.
 
 
 
Após um tempo fora, aos 26 anos, Caeiro volta para Lisboa, onde escreve Poemas Inconjuntos, e morre de tuberculose por volta de 1915. Consta que a obra de Caeiro surgiu quase toda em dia só, quando seu criador escreveu quase todos os poemas, de pé, numa escrivaninha. E Álvaro de Campos termina seu relato dizendo que “Nunca vi triste meu mestre Caeiro. Não sei se estava triste quando morreu, ou nos dias antes. Seria impossível sabê-lo, mas a verdade é que nunca ousei perguntar aos que assistiram à morte qualquer coisa da morte ou de como ele a teve. Em todo caso, foi uma das angústias da minha vida – das angústias reais em meio de tantas que têm sido fictícias – que Caeiro morresse sem eu estar ao pé dele. Isto é estúpido mas humano, e é assim”.
 



PRIMEIRO PRENÚNCIO


Primeiro prenúncio da trovoada de depois de amanhã, 
As primeiras nuvens, brancas, pairam baixas no céu mortiço. 
Da trovoada de depois de amanhã? 
Tenho a certeza, mas a certeza é mentira. 
Ter certeza é não estar vendo. 
Depois de amanhã não há. 
O que há é isto: 
Um céu de azul um pouco baço, umas nuvens brancas no horizonte, 
Com um retoque sujo em baixo como se viesse negro depois. 
Isto é o que hoje é, 
E, como hoje por enquanto é tudo, isto é tudo. 
Quem sabe se eu estarei morto depois de amanhã? 
Se eu estiver morto depois de amanhã, a trovoada de depois de amanhã 
Será outra trovoada do que seria se eu não tivesse morrido. 
Bem sei que a trovoada não cai da minha vista, 
Mas se eu não estiver no mundo, o mundo será diferente — 
Haverá eu a menos — 
E a trovoada cairá num mundo diferente e não será a mesma trovoada. 
Seja como for, a que cair é que estará caindo quando cair.
 
 
 
 
Ricardo Reis nasceu no dia 19 de novembro de 1887. Nasceu no Porto. Consta que teve educação clássica num colégio de jesuítas, para, depois, estudar medicina. Profissão que exerceu desde sempre. Foi elaborado pela ideia de se escrever poemas de índole pagã. “O Nosso Ricardo Reis teve uma inspiração feliz se é que ele usa inspiração, pelo menos por fora das explicações, quando reduziu a seis linhas a sua arte poética”.
 
 


DE APOLO O CARRO RODOU PRA FORA


De Apolo o carro rodou pra fora
Da vista.  A poeira que levantara 
Ficou enchendo de leve névoa 
    O horizonte;

A flauta calma de Pã, descendo
Seu tom agudo no ar pausado,
Deu mais tristezas ao moribundo
    Dia suave.

Cálida e loura, núbil e triste,
Tu, mondadeira dos prados quentes, 
Ficas ouvindo, com os teus passos 
    Mais arrastados,

A flauta antiga do deus durando
Com o ar que cresce pra vento leve,
E sei que pensas na deusa clara
    Nada dos mares,

E que vão ondas lá muito adentro 
Do que o teu seio sente alheado 
Enquanto a flauta sorrindo chora 
    Palidamente.
 
 
 
 
Consta também que Ricardo Reis era monárquico, e por isso, expatriou-se espontaneamente desde 1919, para ir viver no Brasil. Tido com “latinista” por formação clássica e “semi-helenista” autodidacta. Ainda Álvaro de Campos, “Não a arte poética, mas a sua. Que ele ponha na mente ativa o esforço só da “altura” (seja isso o que for), concedo, se bem que me pareça estreita uma poesia limitada ao pouco espaço que é próprio dos píncaros”.
 

texto sobre estreia de Mangiare em http://grupopedras.wordpress.com/2012/03/16/mangiare/


TIREM-ME OS DEUSES


 Tirem-me os deuses 
       Em seu arbítrio 
Superior e urdido às escondidas 
       O Amor, glória e riqueza.
       
Tirem, mas deixem-me, 
       Deixem-me apenas 
A consciência lúcida e solene 
       Das coisas e dos seres.
       
Pouco me importa 
       Amor ou glória, 
A riqueza é um metal, a glória é um eco 
       E o amor uma sombra.
       
Mas a concisa 
       Atenção dada 
Às formas e às maneiras dos objectos 
       Tem abrigo seguro.
       
Seus fundamentos 
       São todo o mundo, 
Seu amor é o plácido universo, 
       Sua riqueza a vida. 
 
       A sua glória 
       É a suprema 
Certeza da solene e clara posse 
       Das formas dos objectos.
      
 O resto passa, 
       E teme a morte. 
Só nada teme ou sofre a visão clara 
       E inútil do Universo.
       
Essa a si basta, 
       Nada deseja 
Salvo o orgulho de ver sempre claro 
       Até deixar de ver.
 
 
 
 
Álvaro de Campos segue, “Não concebo, porém, que as emoções, nem mesmo as do Reis, sejam universalmente obrigadas a odes sáficas ou alcaicas, e que o Reis, quer diga a um rapaz que lhe não fuja, quer diga que tem pena ter que morrer, o tenha forçosamente que fazer em frases súbtidas que por duas vezes são mais compridas e por duas vezes mais curtas, e em ritmos escravos que não podem acompanhar as frases súbtidas senão em dez sílabas para as duas primeiras, e em seis sílabas as duas segundas, num graduar de passo desconcertante para a emoção”.
 
 
 

DE NOVO TRAZ AS APARENTES NOVAS


De novo traz as aparentes novas
Flores o verão novo, e novamente
       Verdesce a cor antiga
       Das folhas redivivas.
Não mais, não mais dele o infecundo abismo, 
Que mudo sorve o que mal somos, torna 
       À clara luz superna
       A presença vivida.
Não mais; e a prole a que, pensando, dera 
A vida da razão, em vão o chama,
       Que as nove chaves fecham, 
       Da Stige irreversível.
O que foi como um deus entre os que cantam,
O que do Olimpo as vozes, que chamavam,
       Scutando ouviu, e, ouvindo,
       Entendeu, hoje é nada.
Tecei embora as, que teceis, Grinaldas.
Quem coroais, não coroando a ele?
       Votivas as deponde,
       Fúnebres sem ter culto.  
Fique, porém, livre da leiva e do Orco, 
A fama; e tu, que Ulisses erigira,
       Tu, em teus sete montes,
       Orgulha-te materna,
Igual, desde ele às sete que contendem
Cidades por Homero, ou alcaica Lesbos,
       Ou heptápila Tebas
       Ogígia mãe de Píndaro.
 
 
 
As primeiras obras de Ricardo Reis foram publicadas na revista Athena em 1924, fundada por Pessoa. Depois seguiram oito odes entre 1927 e 1930 na revista Presença, de Coimbra. Todas as outras obras foram publicadas postumamente. Não consta a data de sua morte, e por isso, o escritor José Saramago, munido desta questão, ao escrever O Ano da Morte de Ricardo Reis, fixou sua morte em 1936.
 
 

 O SONO É BOM POIS DESPERTAMOS DELE



O sono é bom pois despertamos dele 
Para saber que é bom. Se a morte é sono 
        Despertaremos dela; 
        Se não, e não é sono,

Conquanto em nós é nosso a refusemos 
Enquanto em nossos corpos condenados 
        Dura, do carcereiro, 
        A licença indecisa.

Lídia, a vida mais vil antes que a morte, 
Que desconheço, quero; e as flores colho 
        Que te entrego, votivas 
        De um pequeno destino.
 
 
 

“Não censuro o Reis mais que a outro qualquer poeta. Aprecio-o, realmente, e para falar verdade, acima de muitos, de muitíssimos. A sua inspiração é estreita e densa, o seu pensamento compactamente sóbrio, a sua emoção real se bem que demasiadamente virada para o ponto cardeal chamado Ricardo Reis. Mas é um grande poeta – aqui o admito – se é que há grandes poetas neste mundo fora do silêncio de seus próprios corações”. 

 
 
 

SE RECORDO QUEM FUI


Se recordo quem fui, outrem me vejo, 
E o passado é o presente na lembrança. 
      Quem fui é alguém que amo 
      Porém somente em sonho. 
E a saudade que me aflige a mente 
Não é de mim nem do passado visto, 
      Senão de quem habito
      Por trás dos olhos cegos. 
Nada, senão o instante, me conhece. 
Minha mesma lembrança é nada, e sinto 
      Que quem sou e quem fui 
      São sonhos diferentes.
 
 
 
Álvaro de Campos nasceu em Tavira da Serra Grande, Portugal, no dia 15 de outubro de 1889. Teve educação clássica de Liceu. Passou toda sua infância em Portugal, e depois foi para Glasgow, Escócia, para estudar Engenharia Naval. Ricardo Reis em um apontamento solto diz que “Não vejo, entre a poesia e a prosa, a diferença fundamental, peculiar da própria disposição da mente, que Campos estabelece. Desde que se usa de palavras, usa-se de um instrumento ao mesmo tempo emotivo e intelectual. A palavra contém uma ideia e uma emoção, Por isso, não há prosa, nem a mais rigidamente científica, que não ressume qualquer suco emotivo.”




NÃO SEI


Não sei. Falta-me um sentido, um tacto
Para a vida, para o amor, para a glória…
Para que serve qualquer história,
Ou qualquer fato?

Estou só, só como ninguém ainda esteve,
Oco dentro de mim, sem depois nem antes.
Parece que passam sem ver-me os instantes,
Mas passam sem que o seu passo seja leve.

Começo a ler, mas cansa-me o que inda não li.
Quero pensar, mas dói-me o que irei concluir.
O sonho pesa-me antes de o ter. Sentir
É tudo uma coisa como qualquer coisa que já vi.

Não ser nada, ser uma figura de romance,
Sem vida, sem morte material, uma ideia,
Qualquer coisa que nada tornasse útil ou feia,
Uma sombra num chão irreal, um sonho num transe.
 
 
 
Consta que Álvaro de Campos era um engenheiro de educação inglesa e de origem inglesa, mas “sempre com a sensação de ser um estrangeiro em qualquer parte da África”. Fez algumas viagens, e numa delas, ao Oriente Médio, escreveu Opiário. Ainda Ricardo Reis, “A poesia é superior à prosa porque exprime, não um grau superior de emoção, mas, por contra, um grau superior do domínio dela, a subordinação do tumulto em que a emoção naturalmente se exprimiria (como verdadeiramente diz Campos) ao ritmo, à rima, à estrofe”.
 
 
 

FARÓIS DISTANTES


Faróis distantes,
De luz subitamente tão acesa,
De noite e ausência tão rapidamente volvida,
Na noite no convés, que consequências aflitas!
Mágoa última dos despedidos,
Ficção de pensar…

Faróis distantes…
Incerteza da vida…
Voltou crescendo a luz acesa avançadamente,
No acaso do olhar perdido…

Faróis distantes…
A vida de nada serve…
Pensar na vida de nada serve…
Pensar de pensar na vida de nada serve…

Vamos para longe e a luz que vem menos grande.
Faróis distantes…
 
 
 
No mesmo apontamento de Ricardo Reis, “no sentido em que Campos diz que são artifícios o ritmo, a rima e a estrofe, se pode dizer que são artifícios a vontade que corrige defeitos, a ordem que policia sociedades, a civilização que reduz os egoísmos à forma sociável [...] o que verdadeiramente Campos faz, quando escreve em verso, é escrever prosa ritmada com pausas maiores marcadas em certos pontos, para fins rítmicos, e esses pontos de pausa maior determina-os ele pelos fins dos versos.”
 
 
 
 
AH, A FRESCURA



Ah, a frescura na face de não cumprir um dever! 
Faltar é positivamente estar no campo! 
Que refúgio o não se poder ter confiança em nós! 
Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros, 
Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo,  
Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que eu saberia que não vinha. 
Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida. 
Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação. 
É tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora, Deliberadamente à mesma hora… 
Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico. 
É tão engraçada esta parte assistente da vida! 
Até não consigo acender o cigarro seguinte…  
Se é um gesto,  
Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.
 
 
 
 
“Campos é um grande prosador, um prosador com uma grande ciência do ritmo; mas o ritmo de que tem ciência, é o ritmo da prosa, e a prosa de pontuação, uma pausa maior e especial, que Campos, como os seus pares anteriores e semelhantes, determinou representar graficamente pela linha quebrada no fim, pela linha disposta como o que se chama um verso”. Não consta nenhuma data de morte de Álvaro de Campos, talvez em 1935, mas isso ainda é muito vago.
 
 
 
NÃO: DEVAGAR


Não: devagar. 
Devagar, porque não sei 
Onde quero ir. 
Há entre mim e os meus passos 
Uma divergência instintiva.
Há entre quem sou e estou 
Uma diferença de verbo 
Que corresponde à realidade. 
Devagar… 
Sim, devagar… 
Quero pensar no que quer dizer 
Este devagar…
Talvez o mundo exterior tenha pressa demais. 
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo. 
Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima… 
Talvez isso tudo… 
Mas o que me preocupa é esta palavra devagar… 
O que é que tem que ser devagar? 
Se calhar é o universo… 
A verdade manda Deus que se diga. 
Mas ouviu alguém isso a Deus?
 
 
 
 
Terminando Campos com Reis, “quase de conclui do que diz Campos, de que o poeta vulgar sente espontâneamente com a largueza que naturalmente projetaria em versos como os que ele escreve; e depois, refletindo, sujeita essa emoção a cortes e retoques e outras mutilações ou alterações, obediência a uma regra exterior. Nenhum homem foi alguma vez poeta assim. A disciplina do ritmo é aprendida até ficar sendo uma parte da alma: o verso que a emoção produz nasce já subordinado a essa disciplina. Uma emoção naturalmente ordenada é uma emoção naturalmente traduzida num ritmo ordenado, pois a emoção dá o ritmo e a ordem que há nela, a ordem que no ritmo há”. 

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DOBRADA À MODA DO PORTO

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo, 
Serviram-me o amor como dobrada fria. 
Disse delicadamente ao missionário da cozinha 
Que a preferia quente, 
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria. 
      
Impacientaram-se comigo. 
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante. 
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta, 
E vim passear para toda a rua. 
      
Quem sabe o que isto quer dizer? 
Eu não sei, e foi comigo… 
      
(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim, 
Particular ou público, ou do vizinho. 
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele. 
E que a tristeza é de hoje). 
      
Sei isso muitas vezes, 
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram 
Dobrada à moda do Porto fria? 
Não é prato que se possa comer frio, 
Mas trouxeram-mo frio. 
Não me queixei, mas estava frio, 
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.
 
 
 
Em março de 1914, Pessoa escreve a ‘Ode Triunfal’, através de Álvaro de Campos. O poema sairia depois na Revista Orfeu, junto com ‘Manucura’ de Mário de Sá-Carneiro. Em maior muda-se para a Rua Pascoal de Melo, para a casa da tia Anica. Meses depois sai os primeiros poemas de Ricardo Reis. Declara em carta a Mário, que atingira a maturidade literária. O grupo da revista modernista Orfeu, que sairia em breve, junto com Pessoa, passa a reunir-se na Cervejaria Jansen, em Lisboa.



EU


Sou louco e tenho por memória
Uma longínqua e infiel lembrança
De qualquer dita transitória
Que sonhei ter quando criança.

Depois, malograda trajetória
Do meu destino sem esperança
Perdi, na névoa da noite inglória
O saber e o ousar da aliança.

Só guardo como um anel pobre
Que a todo o herdado só faz rico
Um frio perdido que me cobre

Como um céu dossel de mendigo,
Na curva inútil em que fico
Da estrada certa que não sigo.
 
 
 
Em 1915, Tia Anica viaja para a Suiça e Pessoa passa a morar na Leiteria Alentejana. Orfeu entra no prelo e Pessoa publica na Galera o artigo ‘Para a Memória de António Nobre’, até que em abril, Orfeu vem a público. Após isso, Pessoa publica uma série de crônicas na Gazeta Boavida Portugal chamada ‘Crônica da Vida que Passa’. Nesta época também saem ‘Ode a Wal Whitman’. Publica um artigo através de Álvaro de Campos criticado o Dr. Afonso Costa, então presidente do conselho do Ministério e é reprimido pelos colegas do grupo de Orfeu, provocando inclusive a saída de Pedro Guisado e António Ferro da revista.
 
 

O AMOR, QUANDO SE REVELA


O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p’ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P’ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala
Fica só inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe, 
O que não lhe ouso contar, 
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…
 
 
 
Em novembro de 1915, morre, possivelmente, Alberto Caeiro. Um mês depois, D. Maria Madalena, mãe de Pessoa, adoece vítima de apoplexia. Em janeiro de 1916, Pessoa estabelece-se como astrólogo em Lisboa, e aparecem fenômenos de mediunidade. Sá-Carneiro pede que Pessoa empenhe um cordão de ouro e o envie dinheiro em Paris, mas, no dia 31 de março, Sá-Carneiro, em carta, anuncia a Pessoa que vai suicidar-se. 27 dias depois, suicida-se em Paris, no Hotel Nice, à Rue Victor Massé, 29. 
 
 
 
CAMINHO A TEU LADO MUDO


Caminho a teu lado mudo. 
Sentes-me, vês-me alheado… 
Perguntas. Sim… Não, nem sei… 
Tenho saudades de tudo… 

Até, porque estás passando 
Do próprio’ mal que passei.
Sim, hoje é um dia feliz. 
Será, não sei, por certo… 

Mas por certo não se vê 
Há um sentido que me diz 
Que este céu azul e aberto 
É só o que nada é…

E lembro-me em amargura 
Do passado, do distante, 
E tudo me é solidão… 

Quem fui nessa noite escura? 
Quem sou nesta morte instante? 
Não pergunto… Tudo é vão.
 
 
 
Em 1917, Pessoa muda-se para a Rua Bernardim Ribeiro e publica textos no único exemplar da revista Portugal Futurista, assim como Álvaro de Campos. Embora tenha anunciado a morte de Alberto Caeiro, assina uma série de poemas com esse nome, e também diz que Ricardo Reis vai para o Brasil. No dia 5 de outubro falece em Pretória o comandante João Miguel Rosa, marido de sua mãe. (perdoem a ausência, sem internet não dá)
 

Texto novo no blog do Grupo Pedras http://grupopedras.wordpress.com


DEPOIS QUE TODOS FORAM



Depois que todos foram 
E foi também o dia
Ficaram entre as sombras 
Das áleas apertadas

Eu e a minha agonia. 
A festa fora alheia 
E depois que acabou 
Ficaram entre as sombras 

Das áleas apertadas 
Quem eu fui e agora sou.
Tudo fora por todos. 
Brincaram, mas enfim 

Ficaram entre as sombras 
Das áleas apertadas 
Só eu, e eu sem mim.
Talvez que ao parque antigo 

A festa volte a ser. 
Ficaram entre as sombras 
Das áleas apertadas 
Eu e quem sei não ser.
 
 
 

Em 1920, o jornal inglês The Athenaeum publica um poema de Pessoa chamado ‘Meantime’. Consta do dia 1 de março desse mesmo ano, sua primeira carta de amor. No mesmo mês, muda-se para a Rua Coelho da Rocha, onde vai habitar com sua mãe e seus irmãos. No fim do mês chega em Lisboa o corpo do padrasto, a bordo do Lourenço Marques. Em outubro, doente, Pessoa pensa em se internar numa casa de saúde.

 
 
 
NA MARGEM VERDE DA ESTRADA



Na margem verde da estrada 
Os malmequeres são meus. 
Já trago a alma cansada — 
Não é disso: é de Deus.
 
Se Deus me quisesse dá-la 
Havia de achar maneira… 
A estrada de cá da vala 
Tem malmequeres à beira.

Se os quero, colho-os e tenho 
Cuidado com os partir 
Cada um que vejo e apanho 
Dá um estalinho ao sair.

São malmequeres aos molhos 
Iguaizinhos para ver 
E nem põe neles os olhos 
Dá a mão p’ra os receber.

Não é esmola que envergonhe, 
Nem coisa dada sem mais. 
É p’ra que a menina os ponha 
Onde o peito dá sinais.

Tirei-os do campo ao lado 
Para a menina os trazer… 
E nem me mostra o agrado 
De um olhar para me ver…

E assim a minha sina. 
Tirei-os de onde iam bem 
Só para os dar à menina, —
E agradeceu-me a ninguém.

 
 
 
Em 1922, aparece o primeiro número da Contemporânea, dirigida por José Pacheco, e sai ‘Banqueiro Anarquista’ de Pessoa. Outros poemas, tanto em português, quanto em inglês, saem nessa revista, inclusive, artigos. Álvaro Maia assina um em ataque a Pessoa chamado ‘Sodoma Divinizada’. Uma carta assinada por Álvaro de Campos dirigida a José Pacheco também é publicada. 
 
 
 

EM OUTRO MUNDO



Em outro mundo, onde a vontade é lei, 
Livremente escolhi aquela vida 
Com que primeiro neste mundo entrei. 
Livre, a ela fiquei preso e eu a paguei 
Com o preço das vidas subsequentes 
De que ela é a causa, o deus; e esses entes, 
Por ser quem fui, serão o que serei.
Porque pesa em meu corpo e minha mente 
Esta miséria de sofrer? Não foi 
Minha a culpa e a razão do que me dói.
 
Não tenho hoje memória, neste sonho 
Que sou de mim, de quanto quis ser eu. 
Nada de nada surge do medonho 
Abismo de quem sou em Deus, do meu 
Ser anterior a mim, a me dizer 
Quem sou, esse que fui quando no céu, 
Ou o que chamam céu, pude querer. 
Sou entre mim e mim o intervalo — 
Eu, o que uso esta forma definida 
De onde para outra ulterior resvalo. 
Em outro mundo                [...]
 
 
 

A revista Contemporânea continua a publicar poemas de Pessoa, ora sob pseudônimos, ora assinando com seu nome. Nesta época, em 1923, um grupo de estudantes de Lisboa formam A Liga de Ação dos Estudantes de Lisboa e atacam Raul Leal com um manifesto. Pessoa, em artigo, sai em defesa se Raul, que se defende também com um artigo. Em 1924, morre o general Henrique Rosa. Pessoa e Ruy Vaz preparam uma revista que sairia logo em outubro de 1924, com mais publicações de poemas e textos de literatura.




TEU PERFIL



Teu perfil, teu olhar real ou feito, 
Lembra-me aquela eterna ocasião 
Em que eu amei Semiramis, eleito 
Daquela plácida visão.

Amei-a, é claro, sem que o tempo e espaço 
Tivessem nada com o meu amor. 
Por isso guardo desse amor escasso 
O meu amor maior.

Mas, ao olhar-te, lembro, e reverbera 
Quem fui em que eu sou. 
Quando eu amei Semiramis, já era 
Tarde no Fado, e o amor passou.

Quanta perdida voz cantou tão bem
Nos séculos perdidos que hoje são
Uma memória irreal do coração!
Quanta voz viva, hoje de ninguém!
 
 
 
 
Em 1924, inicia na França o movimento Surréaliste. Em 1925, é publicado o quinto número de Atena, que seria o último da revista. No dia 17 de março de 1925, falece na Quinta dos Marechais, na Buraca, D. Maria Madalena, mãe de Pessoa. Em 1926, Pessoa requere patente de invenção de um ‘Anuário Indicador Sintético, por Nomes e Outras Quaisquer Classificações, Consultável em Qualquer Língua’, ao mesmo tempo que dirige com o cunhado a Revista de Comércio e Contabilidade. 
 
 
 
 
DEIXEM-ME O SONO



Deixem-me o sono! Sei que é já manhã.
Mas se tão tarde o sono veio, 
Quero, desperto, inda sentir a vã
Sensação do seu vago enleio.

Quero, desperto, não me recusar
A estar dormindo ainda,
E, entre a noção irreal de aqui estar,
Ver essa noção finda.

Quero que me não neguem quem não sou
Nem que, debruçado eu
Da varanda por sobre onde não estou
Nem sequer veja o céu.

Ainda em 1926, Álvaro de Campos responde a um inquérito  do jornal A Publicação e publica no jornal O Sol, um artigo sobre o Conto do Vigário. Sai ainda ‘O Menino de Sua Mãe’. Em 1927, José Régio publica em Presença o artigo ‘Da Geração Modernista’, sendo a primeira referência ao “Mestre” Fernando Pessoa. Também começa a colaborar com a Presença com o poema ‘Marinha’. Em 28, publica O Interregno, manifesto político do Núcleo de Ação Nacional que devia ter saído anônimo.

 
 
 

SOB OS OLHOS QUE NÃO OLHAM


Sob os olhos que não olham – os meus olhos -
Passa o ribeiro, que nem sei se é
Rápido no lento passar incerto ao pé
Dos invisíveis espinhos e abrolhos
Da margem, minha estagnação sem fé.

É como um viandante que passasse
Por um muro de quinta abandonada
E, por não ter que olhá-lo, por ser nada
Para o seu interesse, o não olhasse,
Fiel somente ao nada sem a estrada.
 
 
 
Em 1929, Pessoa começa a publicar na Solução Editora, uma Antologia de Poetas Portuguêses Modernos e é publicado por Gaspar Simões, Temas, primeiro livro sobre a personalidade de Pessoa. Alimenta sair de Lisboa e realizar sua obra definitiva e encontra-se com Aleister Crowley. Meses depois de chegar a Lisboa, Aleister desaparece misteriosamente. Em 1933, Pessoa atravessa uma crise neurastênica.
 
 
 

BRAÇO SEM CORPO BRANDINDO GLÁDIO


Entre a árvore e o vê-la
Onde está o sonho?
Que arco da ponte mais vela
Deus?… E eu fico tristonho
Por não saber se a curva da ponte
É a curva do horizonte…

Entre o que vive e a vida
Pra que lado ocorre o rio?
Árvore de folhas vestida -
Entre isso e Árvore há fio?
Pombas voando – o pombal
Está-lhes sempre à direita, ou é real?

Deus é um grande Intervalo
Mas entre que e quê?…
Entre o que digo e o que calo
Existo? Quem é que me vê?
Erro-me… E o pombal elevado
Está em torno na pomba, ou de lado?
 
 
 
Em 1932, Pessoa concorre para  um cargo de ‘conservador-bibliográfico’ do Museu-Biblioteca do Conde de Castro Guimarães, em Cascais, mas, não é aprovado. Prepara também os originais de ‘Indícios de Oiro’ de Mário de Sá-Carneiro, a ser publicado pela Presença. Um anos depois, em 1934, aparece Mensagem, seu único livro publicado. Com Mensagem, ganha o prêmio da “segunda categoria” do Secretariado de Propaganda Nacional, intitulado ‘Antero de Quental’, cujo primeiro lugar vai para Vasco Reis.
 



NADA SOU


Nada sou, nada posso, nada sigo.
Trago, por ilusão, meu ser comigo.
Não compreendo compreender, nem sei
Se hei de ser, sendo nada, o que serei.

Fora disto, que é nada, sob o azul
Do lato céu um vento vão do sul
Acorda-me e estremece no verdor.
Ter razão, ter vitória, ter amor

Murcharam na haste morta da ilusão.
Sonhar é nada e não saber é vão.
Dorme na sombra, incerto coração.
 
 
 
Em 1935, mais precisamente em janeiro, Pessoa pensa em publicar antes de outubro o seu primeiro grande livro. No dia 29 de novembro é internado com cólica hepática no Hospital de S. Luís, para, no dia seguinte, morrer no mesmo hospital. Três dias depois, o Diário de Notícias publica “Morreu Fernando Pessoa, grande poeta de Portugal”. Pessoa deixou um baú com poemas e textos inéditos, heterônimos e pensamentos que foram sendo publicados ao longo de todo século XX, sobretudo nos anos 60. Cartas de amor à sua única namorada, Ofélia Queiroz, a quem largara por “não dar-lhe tanta atenção quanto à poesia, foram publicadas nos anos 70. Mais ou menos por aí.
 
 

SONHOS


Sonhos, sistemas, mitos, ideais…
Fito a água insistente contra o cais,
E, como flocos de um papel rasgado,
A ela dando-os como a um justo fado,
Sigo-os com olhos em que não há mais
Que um vão desassossêgo resignado.

Eles a mim como consolarão -
A mim, que de inquieto já nem choro;
Que na êrma mente e no êrmo coração
Sombras, só sombras, sombra, rememoro;
A mim, em tudo, sempre em vão,
Cansado até dos deuses que não são?

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Florbela Espanca

Florbela d’Alma da Conceição Espanca nasceu no dia 8 de dezembro de 1894, em Vila Viçosa, Alentejo, na casa de sua mãe Antónia da Conceição Lobo. A casa ficava localizada na Rua do Angerino. Seu pai era republicano e se chamava João Maria Espanca, e era casado com Mariana do Carmo Ingleza. Após o nascimento de Florbela, João faz com que sua esposa torne-se madrinha de batismo na filha. Nos registros da Igreja Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, Florbela está registrada como “filha ilegítima de pai incógnito”. Vamos por aqui.




SONHOS


Sonhei que era a tua amante querida,
A tua amante feliz e invejada;
Sonhei que tinha uma casita branca
À beira dum regato edificada…

Tu vinhas ver-me, misteriosamente,
A horas mortas quando a terra é monge
Que reza. Eu sentia, doidamente,
Bater o coração quando de longe

Te ouvia os passos. E anelante,
Estava nos teus braços num instante,
Fitando com amor os olhos teus!

E, vê tu, meu encanto, a doce mágoa:
Acordei com os olhos rasos d’água,
Ouvindo a tua voz num longo adeus!
.
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Florbela teve um irmão, Apeles, também filho da mesma mãe e pai com o mesmo registro de “filho ilegítimo de pai incógnito”. Em 1899, Florbela faz os estudos primários em Vila Viçosa. O pai trabalha com antiquário, viajando muito, até que em 1900 torna-se um dos introdutores do cinematógrafo em Portugal, projetando para todo o país, filmes em salas particulares com o “Vitascópio de Edson”. Apaixonado por fotografia, chega a abrir um estúdio em Évora, chamado “Photo Calypolense de J.M.Espanca”. Com isso, Florbela desenvolve um imenso gosto por fotografia e tornando-se a modelo preferida de seu pai.
FLORES DE ROSA
Todas as prendas que me deste, um dia,
Guardei-as, meu encanto, quase a medo,
E quando a noite espreita o pôr-do-sol,
Eu vou falar com elas em segredo…
E falo-lhes d’amores e de ilusões,
Choro e rio com elas, mansamente…
Pouco a pouco o perfume de outrora
Flutua em volta delas, docemente…
Pelo copinho de cristal e prata
Bebo uma saudade estranha e vaga,
Uma saudade imensa e infinita
Que, triste, me deslumbra e m’embriaga.
O espelho de prata cinzelada,
A doce oferta que eu amava tanto,
Que refletia outrora tantos risos,
E agora reflete apenas pranto,
E o colar de pedras preciosas,
De lágrimas e estrelas constelado,
Resumem em seus brilhos o que tenho
De vago e de feliz no meu passado…
Mas de todas as prendas, a mais rara,
Aquela que mais fala à fantasia,
São as folhas daquela rosa branca
Que a meus pés desfolhaste, aquele dia…
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Em diversas ocasiões, pai de Florbela e o pai de Milburges Ferreira, sua vizinha e amiga Buja, republicanos, foram perseguidos por serem considerados inimigos do regime monárquico. Em 1903, no dia 11 de novembro, data provável do primeiro poema escrito por Florbela, “A vida e a morte”, aos nove anos de idade. Poema feito na tenra infância, que consta “como uma forma de aproximação e devoção ao pai e ao irmão”.



FADO


Corre a noite, de manso num murmúrio,
Abre a rosa bendita do luar…
Soluçam ais estranhos de guitarra…
Oiço, ao longe, não sei que voz chorar…

Há um repoiso imenso em toda a terra,
Parece a própria noite a escutar…
E o canto continua mais profundo
Que a página sentida de Mozart!

É o fado. A canção das violetas:
Almas de tristes, almas de poetas,
Pra quem a vida foi uma agonia!

Minha doce canção dos deserdados,
Meu fado que alivias desgraçados,
Bendito sejas tu! Ave Maria!…
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No dia 1 de fevereiro de 1908, dia do aniversário de João Maria Espanca, o rei D. Carlos e o príncipe herdeiro D. Luís Felipe são assassinados em Lisboa. A partir desse acontecimento, não demoraria para a instauração da República em Portugal. Nesta época, Florbela ingressa no Liceu de Évora, onde ficaria até 1912. Para ajudar, a família de muda para Évora. Ainda no mesmo ano de 1908, falece em Vila Viçosa, a mãe de Florbela, Antónia da Conceição Lobo, com 29 anos de idade.


VERDADES CRUÉIS


Acreditar em mulheres
É coisa que ninguém faz;
Tudo quanto amor constrói
A inconstância desfaz.

Hoje amam, amanhã ‘squecem,
Ora dores, ora alegrias;
E o seu eternamente
Dura sempre uns oito dias


Li um dia, não sei onde,
Que em todos os namorados
Uns amam muito, e os outros
Contentam-se em ser amados.

Fico a cismar pensativa
Neste mistério encantado…
Digo pra mim: de nós dois
Quem ama e quem é amado?…
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Em 1913, Florbela batiza o primo Túlio Espanca, a quem se dedicará como assídua madrinha. Túlio se tornaria  um importante intelectual português. No mesmo ano, no dia de seu aniversário, aos dezenove anos, Florbela casa-se na Conservadoria do Registro Civil de Vila Viçosa, com Alberto de Jesus Moutinho, antigo amigo do primário. No ano seguinte, Florbela e o marido vão morar em Redondo. Tempos difíceis, falta dinheiro, as aulas para alunos particulares não são suficientes, então, em 1915, o casal volta para Évora para viver na casa do pai de Florbela.


A poesia de Guimarães Rosa http://cartilhadepoesia.wordpress.com


MENTIRAS


“Ai quem me dera uma feliz mentira
Que fosse uma verdade para mim”
J. Dantas


Tu julgas que eu não sei que tu me mentes
Quando o teu doce olhar poisa no meu?
Pois julgas que eu não sei o que tu sentes?
Qual a imagem que alberga o peito teu?

Ai, se o sei, meu amor! Eu bem distingo
O bom sonho da feroz realidade…
Não palpita d’amor, um coração
Que anda vogando em ondas de saudade!

Embora mintas bem, não te acredito;
Perpassa nos teus olhos desleais,
O gelo do teu peito de granito…

Mas finjo-me enganada, meu encanto,
Que um engano feliz vale bem mais
Que um desengano que nos custa tanto!
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Em 1914, Mariana Ingleza encontra-se doente e o pai de Florbela passa a viver livremente com a empregada Henriqueta de Almeida, se divorciaria anos depois para se casar com a nova mulher. Em 1916, Florbela reune poemas para formar o projeto de Trocando Olhares, 88 ao todo. Neste mesmo ano colabora com os suplementos, Notícias de Évora e A Voz Pública, com poemas. Com a entrada de Portugal na Primeira Guerra Mundial, Florbela, entusiasmada com a causa republicana, inicia o projeto de Alma de Portugal.



 Tradução de Mauvais Sang, de Saison en Enfer de Rimbaud aqui http://pedrolago.blogspot.com


DESALENTO


Às vezes oiço rir, e ‘ma agonia
Queima-me a alma como estranha brasa.
Tenho ódio à luz e tenho raiva ao dia
Que me põe n’alma o fogo que m’abrasa!

Tenho sede d’amar a humanidade…
Eu ando embriagada… entorpecida…
O roxo de meus lábios é saudade
Duns beijos que me deram noutra vida!

Eu não gosto do Sol, eu tenho medo
Que me vejam nos olhos o segredo
De só saber chorar, de ser assim…

Gosto da noite, negra, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim!
.
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Florbela envia os originais de Primeiros Passos a Raul Proença, por intermédio do pai. Raul é o primeiro crítico a reconhecer a personalidade poética de Florbela, o que seria fundamental para seu caminho. Logo após, Florbela também engendra novo projeto de livro, com Minha Terra, Meu Amor. A esta altura, Florbela é explicadora do mesmo colégio e conclui o Curso Complementar de Letras, em 1917. Em novembro de 1917, Florbela, vivendo em Lisboa, subsidiada pelo pai, matricu-la-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Dos 347 alunos, 14 são mulheres.


Gotas e outras constatações http://equivocos-pedrolago.blogspo.com


LÁGRIMAS OCULTAS


Se me ponho a cismar e outras eras
Em que ri e cantei, em que era qu’rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida…

E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago…
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim…

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!
.
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Em 1918, Florbela encontra-se adoentada e segue com o marido para Quelfes (Algarve) para uma temporada de repouso. Neste período inicia o projeto de Livro de Mágoas, que, em junho de 1919 sai pela Tipografia Maurício de Lisboa. Logo depois, Florbela começa a trabalhar em Livro do Nosso Amor e Claustro de Quimeras. Em 1921, é decretado o divórcio entre Florbela e Moutinho. Meses depois, casa-se novamente, com alferes de artilharia da Guarda Republicana, António José Marques Guimarães. O casal se muda para Lisboa.

A FLOR DO SONHO


A Flor do Sonho alvíssima, divina
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína.

Pende em meu seio a haste banda e fina.
E não posso entender como é que, enfim,
Essa tão rara flor abriu assim!…
Milagre… fantasia… ou talvez, sina…

Ó Flor que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amor de ti?!…

Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa da minh’alma
E nunca, nunca mais eu me entendi…
 .
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Apeles sobe patentes na Marinha e presta serviços no cruzador “Carvalho-Araújo” que transporta de Portugal para o Brasil um dos aviões utilizados por Gago Coutinho e Sacadura Cabral na travessia aérea sobre o Atlântico. Florbela acompanha tudo pelos jornais e cartas. Em janeiro de 1923, sai Soror de Saudade. No fim do mesmo ano, mais uma doença. Em 1924, António Guimarães entra com pedido de divórcio contra Florbela, seu segundo. Fato curioso é que do espólio de António se encontrava o mais abundante material sobre Florbela publicado depois de sua morte.


PARA QUE?!…


Tudo é vaidade neste mundo vão…
Tudo é tristeza; tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!

Até o amor nos mente, essa canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão!…

Beijos d’amor! Pra quê?!… Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!

Só acredita neles quem é louca!
Beijos d’amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta!…
.
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Em outubro de 1925, Florbela casa-se novamente, no civil, com Mário Pereira Lage, médico, tinha 32 anos. O casal passa a morar em Esmoriz e depois para a casa dos pais de Mário, em Matosinhos. Em 1926, é publicado o decreto ditatorial que dissolve o Congresso da República. Apeles torna-se primeiro-tenente da Marinha. Durante o ano de 1927, Florbela passa a colaborar no D.Nuno de Vila Viçosa, com poemas. Passa também a traduzir romances franceses para a Civilização do Porto.


SAUDADES


Saudades! Sim… talvez…e por que não?…
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?… Ah, como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-os ser sagrado como o pão!

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem dera fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!
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No dia 6 de junho de 1927, Apeles, mergulha no Tejo em treino num hidroavião, morre, assim como havia exposto para Florbela em carta, tragicamente após a morte de sua mulher em 1925. Florbela começa a produzir um livro de contos à memória do irmão. Apesar do esforço, Florbela inicia uma fase de depressão, doente dos nervos, fumando em demasia e emagracendo sensivelmente.


Fumaças e Presenças em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com


SE TU VIESSES VER-ME


Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses todas nos teus braços…

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca…o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte… os teus abraços…
Os teus beijos…a tua mão na minha…

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braços se estendem para ti…
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Em 1930, Florbela começa a colaborar com o recém fundado Portugal Feminino com poemas e contos. De vez em quando vai para Lisboa e Évora onde participa de reuniões da revista feminina. Há inclusive uma imagem de Florbela ao lado de outras intelectuais e feministas portuguesas como Elina Guimarães, Maria Amélia Teixeira, Branca da Gonta Colaço e outras. Florbela mostra sua solidão em Diário do último ano “o olhar dum bicho comove-me mais que um olhar humano. Há lá dentro uma alma que quer falar que não pode, princesa encantada por qualquer fada má [...] Ah, ter quatro patas e compreender a súplica humilde, a angustiosa ansiedade daquele olhar!”



A NOSSA CASA



A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onde está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!
Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?
Sonho… que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,
Num país de ilusão que nunca vi…
E que eu moro — tão bom! — dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim…
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No dia 18 de junho de 1930, Florbela inicia correspondência com Guido Battelli, com quem revisa e discute aspectos estéticos de Charneca em Flor, seu último projeto. A está altura, certo decadentismo toma conta de seus temas, algo que predomina, embora não tomando por completo a obra da poeta. Porém, Florbela encerra o diário em 2 de dezembro de 1930 com uma única frase “e não haver gestos novos nem palavras novas!”.



CHOPIN


Não se acende hoje a luz… Todo o luar
Fique lá fora. Bem aparecidas
As estrelas miudinhas, dando no ar
As voltas dum cordão de margaridas!

Entram falenas meio entontecidas…
Lusco-fusco… Um morcego, a palpitar,
Passa… torna a passar… torna a passar…
As coisas têm o ar de adormecidas…

Mansinho… Roça os dedos p’lo teclado,
No vago arfar que tudo alteia e doira,
Alma, Sacrário de Almas, meu Amado!

E, enquanto o piano a doce queixa exala,
Divina e triste, a grande sombra loira,
Vem para mim da escuridão da sala…

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Na passagem de 7 para 8 de dezembro, no dia de seu aniversário, Florbela D’Alma da Conceição Espanca suicida-se em Matosinhos, aos 36 anos, ingerindo dois frascos de Veronal, uma espécie de sedativo e sonífero. Foi enterrada no mesmo dia no Cemitério de Sedim. No dia 17 de maio de 1964, seus restos mortais são transportados para o Cemitério de Vila Viçosa, “a terra alentejana a que entranhadamente quero”, como se referiu em carta a José Emídio Amaro em 15 de maio de 1927. Florbela foi homenageada por muitos poetas, dentre eles Manuel da Fonseca e Fernando Pessoa, que escreve “alma sonhadora/Irmã gêmea da minha”. Assim, terminamos essa antologia. Bom Carnaval para todos!

AMOR QUE MORRE


O nosso amor morreu… Quem o diria!
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta.
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!

Bem estava a sentir que ele morria…
E outro clarão, ao longe, já desponta!
Um engano que morre… e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia…

Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer
E são precisos sonhos pra partir.

Eu bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
Doutro amor impossível que há de vir!

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.
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.

 

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Guimarães Rosa

João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, no dia 27 de junho de 1908. Canceriano. Primeiro filho de Florduardo Pinto Rosa, Seu Fulô, e Francisca Guimarães Rosa, D. Chiquitinha. Seu pai era comerciante, juiz de paz, caçador de onças e contador de estórias. O casal teve mais cinco filhos além de Joãozito, como era conhecido. Ainda jovem, se mudou para a casa do avós, em Belo Horizonte, para estudar. Notavelmente, aos sete anos, começou a estudar francês sozinho.

Aqui os mortos deixam seus ossos http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

OU…OU

A moça atrás da vidraça
espia o moço passar.
O moço nem viu a moça,
ele é de outro lugar.

O que a moça ouvir
o moço sabe contar:
ah, se ele a visse agora,
bem que havia de parar.

Atrás da vidraça, a moça
deixa o peito suspirar.
O moço passou, depressa,
ou a vida vai devagar?

Com a chegada do Frei Canísio Zoetmulder, frade franciscano holandês, o pequeno João pode iniciar-se nos estudos da língua holandesa e prosseguir com os estudos no francês, agora, com a supervisão do frei. Terminou o curso primário no Colégio Afonso Pena, em Belo Horizonte. Iniciou os estudos secundários no Colégio Santo Antônio, em São João Del Rey, em regime de internato, porém, logo saiu, pois não se adaptou, detestava a comida.


Tradução de Une Saison en Enfer aqui http://pedrolago.blogspot.com


PESCARIA


O peixe no anzol
é kierkegaardiano
(O pescador não sabe,
só está ufano).

O caniço é a tese,
a linha é pesquisa:
o pescador pesca
em mangas de camisa.

O rio passa,
por isso é impassível:
o que a água faz
é querer seu nível.

O pescador ao sol,
o peixe no rio:
dos dois, ele só
guarda o sangue frio.

O caniço, então,
se sente infeliz:
é o traço de união
entre dois imbecis…
 .
 .
 .

Parte da família de João é de origem portuguesa, porém, o sobrenome é suevo. Os suevos, assim como os celtas, foram um povo emigrante, que também não fixaram raízes, tendo, de certa forma, desaparecido. O nome da família também designava a capital de um estado suevo na Lusitânia, Guimaranes, hoje, ao Norte de Portugal, Guimarães, na província do Minho, perto de Braga, antiga cidade real e de peregrinação.

Poetas traduzidos e outros http://cartilhadepoesia.wordpress.com

TEOREMA


Malmequer falhado,
cão madrugador,
pôde simples fado:
tem amado.

Malmequer maior,
deus decapitado;
se cumprido for,
viverá de amor.

Malmequer e bem,
com porquê e a quem:
severo exercício,
amar é transgredir-se.
 .
 .
 .

Saindo de São João Del Rey e de volta à Belo Horizonte, João matricula-se no Colégio Arnaldo, de padres alemães. Logo inicia o estudo da língua alemã que, notavelmente, aprende com rapidez. Começava sua relação com as línguas. Anos depois, disse numa entrevista: “falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituânio, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do tcheco, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração.”



Encontre o grão perdido aqui http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

ALONGO-ME


O rio nasce
toda a vida.
Dá-se
ao mar a alma vivida.
A água amadurecida,
a face
ida.
O rio sempre renasce
A morte é vida.
 .
 .
 .

Em 1925, entre 16 e 17 anos, João matricula-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais. Fato interessante para quem conhece sua biografia ocorreu no velório da lamentável morte de um estudante por febre amarela. Segundo Dr. Ismael de Faria, antigo colega de turma, João teria dito “as pessoas não morrem, ficam encantadas” neste velório. Frase que ficaria conhecida quarenta e um anos depois no discurso de posse na Academia Brasileira de Letras.


OS TRES BURRICOS


Por estradas de montanha
vou: os três burricos que sou.
Será que alguém me acompanha?

Também não sei se é uma ida
ao inverso: se regresso.
Muito é o nada nesta vida.

E, dos três, que eram eu mesmo
ora pois, morreram dois;
fiquei só, andando a esmo.

Mortos, mas, vindo comigo
a pesar. E carregar
a ambos é o meu castigo?

Pois a estrada por onde eu ia
findou. Agora, onde estou?
Já cheguei, e não sabia?

Três vezes terei chegado
eu – o só, que não morreu
e um morto eu de cada lado.

Sendo bem isso, ou então
será: morto o que vivo está.
E os vivos, que longe vão?
 .
 .
 .

Rosa estreou na literatura em 1929, quando ainda era estudante. Escreveu quatro contos: Caçador de Camurças, Chronos Kai Anagke (título grego para Tempo e Destino), O mistério de Highmore Hall e Makiné para um concurso da revista O Cruzeiro. Todos os contos foram premiados e publicados com ilustrações em 1929 e 1930. Rosa ganhou 100 contos de réis como premiação. Tempos depois, confessou que, nessa época, escrevia friamente, sem paixão.


MULHER MAR MORTE


Devoro-me de a mais a
imagem indesmanchável
desfazendo-me – eis e
vôos entes e sei – vagas
em mim despedaçadamente
vasto a
som sal soledade
aos
céu e céu
olhos leste-oeste olhos
onde entre onde
me movo
morro-me e
me arranco de ti
a ti: a
amarga.
 .
 .
 .

No dia 27 de junho de 1930, Rosa, aos 22 anos, casa-se com Ligia Cabral Penna, que tinha 16 anos. Com ela tem duas filhas: Vilma e Agnes. Porém dura pouco seu casamento, que se desfaz poucos anos depois. No mesmo ano, forma-se na Faculdade de Medicina e é escolhido para ser o orador da turma, tendo sido aclamado por mais de trinta e cinco colegas. Viaja para Itaguara, em Itaúna, onde exercerá a profissão de médico. Lá permanece cerca de dois anos. Relaciona-se intensamente com a comunidade, com raizeiros e receitadores e faz um grande amigo, Manoel Rodrigues de Carvalho, Seu Nequinha, que morava num grotão enfurnado entre morros.




SAUDADE SEMPRE

Sem mim
me agarro a um tanto de mim
não aqui
já existente
sobre tudo e abismo.
Horas são outrora
além-de. O
muito em mim me faz:
som de solidão.
 .
 .
 .

Curiosidade: “Seu Nequinha” era espírita e, ao que as suposições indicam, parece ter inspirado o personagem Cumpadre meu Quelémem, do Grande Sertão: Veredas. Eis que Guimarães Rosa afasta-se da Medicina diante a incapacidade de mudar a vida de uma cidade que não tinha nem energia elétrica. Rosa também teve que assistir a um dos partos de sua mulher diante a ausência do médico e do farmacêutico que não haviam chegado. Mistura de decepção com sensibilidade vocacional.

SAUDADE, SEMPRE
(versão aflita)


Alma é dor escondida.
O coração existe
animal a um canto
- o triste.
Posso pecar contra ti
ingenuamente:
há fogo, o fundo
o instante; não,
o esquecimento
é voluntária covardia.
 .
 .
 .

Rosa trabalha como voluntário na Força Pública durante a Revolução Constitucionalista de 1932. Logo depois, efetiva-se através de concurso. Em 1933 vai para Barbacena como Oficial Médico do 9º Batalhão de Infantaria. Segundo Mário Palmério, “o quartel pouco exigia de Guimarães Rosa, algumas visitas médicas rotineiras, algumas viagens a cavalo e, às vezes, era escolhido como orador da corporação em solenidades de dias cívicos.” Assim, tinha tempo para o estudo de línguas estrangeiras. Fazia também demoradas pesquisas no quartel e convivia com velhos milicianos, com quem obteve informações valiosas sobre o jaguncismo barranqueiro que até por volta de 1930, existiu na região do Rio São Francisco.



A AUSENTE PERFEITA


Mal refletida em multidão de espelhos,
traída pela carne de meus olhos,
pressentida
uma ou outra vez, quando
consigo gastar um quanto da minha
pesada consolação transitória - 
poderás ser:
a ave
a água
a alma?
 .
 .
 .

Um entusiasmado amigo, espantado com sua cultura, erudição e conhecimento de línguas, incentiva Rosa a fazer prova para o Itamarati. Fez a prova no Rio de Janeiro e tirou segundo lugar. Reconhece também sua falta de vocação para a medicina “repugna-me qualquer trabalho material, só posso agir por satisfeito no terreno das teorias, dos textos, do raciocínio puro, do subjetivismo”. Em 1936 recebe um prêmio de poesia da Academia Brasileira de Letras com o livro Magma, de poemas. Seu primeiro livro. Um ano depois, concorre ao Prêmio Humberto de Campos, sob o pseudônimo “Viator” com um volume intitulado “Contos”, livro que anos depois, após uma revisão de Rosa, se transformaria em Sagarana.


A ESPANTADA ESTÓRIA


O relógio o
crustáceo
de dentro de pólo-norte
e escudos de vidro
em dar remedido
desfechos indivisos
cirúrgicas mandíbulas
desoras antenas;
ele entranha e em torno e erra
o milagre monótono

intacto em colméias;
nem e sempre outro adeus
me não-usa, gasta o
fim não fim:
repete antecipadamente
meu único momento?

…nele
eternizo
agonizo
metalicamente
maquinalmente
sobressaltada
mente
ciente.
 .
 .
 .

Em 1938, Rosa é nomeado Cônsul Adjunto em Hamburgo, e segue viagem para a Europa. Lá conhece sua segunda mulher Aracy Moebius de Carvalho. Sua história com o misticismo e o ocultismo ganham mais força nessa época. Escapa algumas vezes da morte durante a guerra. Certa vez, de noite, encontra sua casa em escombros, bombardeada.  Respeita curandeiros, feiticeiros, umbanda, quimbanda, kardecismo e na força da lua. Uma vez, protegeu a facilitou a fuga de judeus perseguidos, com a ajuda de Aracy, cedendo vistos e indicando caminhos. Seria, em 1985, homenageado pelo Governo de Israel por esses atos.





DISTANCIA


Um cavaleiro e um cachorro
viajam para a paisagem.
Conseguiram que esse morro
não lhes barrasse a passagem.
Conseguiram um riacho
com seus goles, com sua margem.
Conseguiram boa sede.
Constataram:
cai a tarde.

Sobre a tarde, cai a noite,
sobre a noite a madrugada.
Imagino o cavaleiro
esta orvalhada e estrelada.
O pensar do cavaleiro
talvez o amar, ou nem nada.
Imagino o cachorrinho
imaginário na estrada.
Caía a tarde.

Para a tarde o cavaleiro
ia, conforme avistado.
Após, também o cachorro.
Todos – iam, de bom grado,
à tarde do cavaleiro
do cachorro, do outro lado
- que na tarde se perderam,
no morro, no ar, no contato.
Caiu a tarde.
 .
 .
 .

Em 1942, quando o Brasil rompe relações com a Alemanha, Rosa é internado em Baden-Baden, junto com outro brasileiros, dentre os quais, Cícero Dias. Ficam retidos durante quatro meses até serem trocados por oficiais alemães. Volta ao Brasil e segue para Bogotá, como Secretário da Embaixada. A altitude da cidade lhe inspira o conto Páramo. Em 45 volta ao Brasil. No ano seguinte é nomeado chefe-de-gabinete João das Neves da Fontoura e vai a Paris como membro da delegação à Conferência de Paz. Em 48, novamente na Colômbia, ocorre o assassinato do líder popular Jorge Eliécer Gaitán, fundador do partido Unión Nacional Izquierdista Revolucionaria.

RECAPÍTULO


Neste dia
quieto e repartido em tédio e falta de coragem,
não mereci a música que sofro na memória,:
não me doeram a fuga, o espesso, o pesado, o opaco;
não respondi.
Apenas fui feliz?
 .
 .
 .

Em 1951, Rosa faz uma excursão ao Mato Grosso que lhe rende uma reportagem poética: Com o vaqueiro Mariano. O mesmo Mariano que se tornaria personagem da novela Uma estória de amor, dentro do volume Manuelzão e Miguilim. Mariano disse que Rosa “perguntava mais que padre”. Com ele fez extensa pesquisa sobre fauna, flora, animais, superstições e etc. Em 1956 sai Corpo de Baile. A está altura, após Sagarana, Rosa já é considerado autor criador de moderna linha de ficção regional brasileira. O livro obtém ensaio de Ivan Teixeira que o define como “talvez o mais enigmático da literatura brasileira”.


CONTRATEMA


A lua luz em veludo
    barba longa
    respingada de violetas.

Perdidos todos os verdes
    – cor que dorme -
    desconforme
    se escoa o mundo no abandono.

Eis que belos animais,
    quente resplandor nos olhos,
    quente vida com maldade,
    vêm das sombras.

Assim o sol
    seu rio alto,
    novos ouros, novas horas,
    revolve agudas lembranças.

Fria, a noite fecha as asas
    – mundo erguido, céu profundo -
    sol a sol
    ou sono a sono?
 .
 .
 .

Em Maio de 1956, Rosa publica seu terceiro romance: Grande Sertão: Veredas. Que se estende numa narrativa de mais ou menos 600 páginas, após dois anos de intensa pesquisa e desenvolvimento. O livro logo causa grande impacto na cena literária brasileira, sendo traduzido para várias línguas. Em meio à críticas vorazes e elogios, o livro torna-se sucesso comercial e recebe três prêmios: Machado de Assis, do Instituto Nacional do Livro, Carmen Dolores Barbosa, de São Paulo, e Paula Brito, do Rio de Janeiro. Rosa, com o livro, passa a figurar entre os autores mais aclamados da terceira geração do modernismo, ao lado de João Cabral e Clarice Lispector. Em 1961, recebe um prêmio Machado de Assis, pelo conjunto da obra, pela Academia Brasileiras de Letras.


ROTA


Antes que me vissem triste
ou que outras voltas me dessem
entendi contrário rumo
desci esta rua até o fim
concedi-os aos prólogos:

a nuvem válida
a estátua de alma
a véspera de véspera
o cenho da calma
o fogo, imágico
o doer intacto
a santa no armário
o cume calabouço
a lembrança do peixe
o celeumatário
o outro anão
a mulher de pés no chão
as senhas vagas
o homem enrodilhado
a ânfora e a âncora
o jacto de madrugada
a folga
a força.
 .
 .
 .

Em 1962, Rosa assume a chefia do Serviço de Demarcação de Fronteiras, cargo que assume com empenho. Participa dos casos Pico da Neblina e das Sete Quedas. Anos depois, o pico culminante da Cordilheira do Curupira, recebe seu nome, devido ao desempenho de seu trabalho. Em 1958, Rosa viaja para Brasília, nova capital, e se encanta com o lugar “Em começo de junho estive em Brasília, pela segunda vez lá passei uns dias. O clima da nova capital é simplesmente delicioso, tanto no inverno quanto no verão. E os trabalhos de construção se adiantam num ritmo e entusiasmo inacreditáveis: parece coisa de russos ou de norte-americanos”… “Mas eu acordava cada manhã para assistir ao nascer do sol e ver um enorme tucano colorido, belíssimo, que vinha, pelo relógio, às 6 hs 15’, comer frutinhas, na copa da alta árvore pegada à casa, uma tucaneira’, como por lá dizem. As chegadas e saídas desse tucano foram uma das cenas mais bonitas e inesquecíveis de minha vida”.





ÁRIA


Em meio ao som da cachoeira
hei-de ouvir-me, a vida inteira
dar teu nome.
Tudo o mais levam águas,
mágoas vagas
para a foz.
Vida que o viver consome.
Um rio, e, do rio à beira,
tua imagem. Minha voz.
A cachoeira
diz teu nome.
 .
 .
 .

A partir de 1958, Rosa começa a apresentar problemas de saúde. Hipertensão arterial e notórias consequencias do tabagismo. Certa vez, em carta ao amigo Paulo Dantas, confessa que “também estive mesmo doente, com apertos de alergia nas vias respiratórias; daí, tive de deixar de fumar (coisa tenebrosa!) e, até hoje (cabo de 34 dias!), a falta de fumar me bota vazio, vago, incapaz de escrever cartas, só no inerte letargo árido dessas fases de desintoxicação. Oh coisa feroz. Enfim, hoje, por causa do Natal chegando e de mais mil-e-tantos motivos, aqui estou eu, heróico e pujante, desafiando a fome-e-sede tabágica das pobrezinhas das células cerebrais. Não repare.”



Antes que tudo fosse tudo http://equivocos-pedrolago.blogsot.com


QUERENCIA

Um vaga-lume
muge
na noite e distância
de uma chuva que estiou, chuvinha,
de uma porteira que bate, que range e que bate,
de um cheiro de únicos úmidos verdes inventos
de amigas árvores, agradadas,
de uma marulho de riacho,
de muitos e matinais pássaros,
de uma
esperança-e-vida-e-velhice e morte
que faz em mim.
 .
 .
 .

Rosa passa a incluir em suas leituras espirituais, texto e publicações sobre a Ciência Cristã, a Christian Science, religião criada nos EUA, em 1866, por Mrs. Mary Baker Eddy, que afirma a totalidade do espírito sobre a matéria. Em 1962, Rosa lança Primeiras Estórias, com 21 contos pequenos. Em maio de 63, candidata-se pela segunda vez à Academia Brasileiras de Letras (a primeira fora em 1957, com apenas 10 votos), desta vez, para a vaga deixada por João Neves Fontoura. É eleito por unanimidade, porém, a posse tinha sido adiada, sine die.


TORNAMENTO


I

A viagem dos teus cabelos -
este cabelos povoariam legião de poemas
e as borboletas circulam indagando tua cintura,
incertamente. Teu corpo em movimento
detém uma significação de perfume.
O som de um violino conseguiria dissolver
um copo de ouro?

II

Houve reis que construíram seus nomes milenários
e poetas que governam palácios em caminhos.
Povos. Proêmios. Penas.
Mas toda você, um gosto só, matar-me-ia a sede
e teus pés e rosas.

III

Às vezes – o destino não se esquece -
as grades estão abertas,
as almas estão despertas:
às vezes,
quando quanda,
quando à hora,
quando os deuses,
de repente
- antes-
a gente
se encontra.
 .
 .
 .

Em janeiro de 1965, Rosa participa do Congresso de Escritores Latino Americanos em Gênova. Logo após o congresso foi criada a Primeira Sociedade Latino Americana de Escritores, com Rosa e o guatemalteco Miguel Angel Asturias (Nobel de 1967) como vice-presidentes. Em 1967, publica aquele que seria seu último livro, Tutaméia, de contos. O livro teve muito sucesso e divide a crítica. Rosa então resolve assumir na Academia Brasileira de Letras, quatro anos após ser eleito. O temor pela emoção que sentiria foi o motivo da espera, temia algo, “a gente morre, para provar que viveu…”.



MARJOLININHA


Ai de mim -
te vejo…
esmolinha que me dás:
uma aurora
e um
seixo;
e quanto digas
quanto faças
quanto és
- Princesa! -
como ruidoso é o mundo
e redondo o mar.

As estrelas são boizinhos
que de dia vão pastar.

Carlinhos me deste;
de ti vou dizer:
maria me aria
quero teu pensar
quero teu celeste
quero teu terrestre
quero teu viver.

Onde, onde, onde
estás?

Vou medir teus gestos
vou saber teus passos
maria do centro 
maria do sempre
maria do amar:

em ti quero estar.
 .
 .
 .

No dia 16 de novembro de 1967, Rosa faz discurso de posse na Academia, com a voz embargada, frágil. O tema foi João Neves da Fontoura, como é de costume na academia falar do antecessor. Porém, o final ficaria mais conhecido “Alegremo-nos, suspensas ingentes lâmpadas. E: “Sobe a luz sobre o justo e dá-se ao teso coração alegria!” – desfere-se então o salmo. As pessoas não morrem, ficam encantadas. Soprem-se as oitenta velinhas. Mais eu murmure e diga, ante macios morros e fortes gerais estrelas, verde o mugibundo buriti, buriti, e a sempre-viva-dos-gerais que miúdo viça e enfeita. O mundo é mágico. Ministro, está aqui CORDISBURGO!”.


PRESENÇA E PERFIL DA MOÇA DE CHAPEUZINHO CôNICO


Em primeiro lugar
ela não está presente;
vizinha de mim
indefinidamente.

Tudo o mais, isto sim,
ela representa:
representa o fim
de qualquer começo.

(Do chapéu, não me esqueço)

Seu perfil repensa
um outro pensamento.

(A moça pousada
no meu pensamento.)

Repetindo o inédito
ela se representa.
 .
 .
 .

Três dias após a posse na Academia Brasileira de Letras, Rosa, morre, sozinho, em sua casa em Copacabana, no dia 19 de novembro de 1967. Rosa seria indicado ao prêmio Nobel de Literatura por seus editores na Alemanha, França e Italia. “Penso dessa forma: cada homem tem seu lugar no mundo e no tempo que lhe é concedido. Sua tarefa nunca é maior que sua capacidade para poder cumpri-la. Ela consiste em preencher seu lugar, em servir à verdade e aos homens. Conheço meu lugar e minha tarefa; muitos homens não conhecem, ou chegam a fazê-lo quando é demasiado tarde. Por isso, tudo é muito simples para mim, e só espero fazer justiça a esse lugar e a essa tarefa. Veja como meu credo é simples. Mas quero ainda ressaltar que credo e poética são a mesma coisa. Não deve haver nenhuma diferença entre homens e escritores”. Assim terminamos mais uma antologia poética.

MARJOLININHA 9


Correi, meninas, que o prado
pede vosso bailado.

Bailai, meninas,
eis, sim, que o prado
sempre é um chamado
por vós outras – flores,
pés multicores:
- o amor desejado
o alado.
Ide.
Voai, meninas,
o amor voz pede.

Sabei que os verdes do prado
só estão fugindo.
Sabei, oh flores, meninas.
Correi.

Se as flores do prado, só estão fingindo,
é o amor esperado que já vem vindo.

Bailai, meninas.

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Poesia francesa

Semana de traduções, pois, traduzir é preciso. Un souvenir de Noel. Paul Valéry dizia que “o poema é uma duração, na qual, leitor, respiro uma lei que foi preparada”. Tem aquela importância, não só pelo notável simbolismo, muito influenciado pelo Mallarmé, mas por ter pensado a poesia, a linguagem, o que sustenta. Foi redator no Ministério da Guerra, trabalhou na Primeira Guerra Mundial, para, logo depois, ser aceito na Academia Francesa. Traduzir não é trair, embora a etimologia nos leve para essa máxima. Paul Valéry, 30 de outubro de 1871 a 20 de julho de 1945.

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HELÈNE
de Paul Valéry
tradução de Pedro Lago

Azul! Sou eu… Venho das grutas da morte
Escutar a onda se romper aos degraus sonoros,
E revejo as galés dentro das auroras
Ressucitarem da sombra ao fio dos ramos de ouro.

Minhas solitárias mãos chamam os monarcas
Cuja barba de sal divertia meus dedos puros;
Eu chorava. Eles cantavam seus triunfos obscuros,
E os golfos enterrados às popas de seus barcos,

Eu escuto as conchas profundas e os clarins
Militares ritmarem o vôo dos remos;
O canto claro dos remadores concatenam o tumulto,

E os Deuses, na proa heróica, exaltados,
Em seu sorriso antigo e que a espuma insulta
Levantam sobre mim seus braços indulgentes e esculpidos.

Baudelaire é aquela importância. Viveu apenas 46 anos, o suficiente para grifar tudo que veio depois dele, e cada vez que se volta à sua obra, seu escritor sobre arte, descobre-se que a coisa vai cada vez mais longe. “Bom poeta é aquele que tem boa memória” disse mais ou menos assim na ‘Invenção da Modernidade’. Os poemas em prosa são como crônicas antes da crônica. Só lendo. Hoje, 144 anos após sua morte, com as coisas caminhando para um cenário raso e acelerado, Baudelaire traz a necessidade do espanto, para as novas e velhas gerações. Charles-Pierre Baudelaire (Paris, 9 de abril de 1821 – Paris, 31 de agosto de 1867)

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LXXVII SPLEEN
de Charles Baudelaire
tradução de Pedro Lago

Eu sou como o rei de um país chuvoso
Rico, mas desamparado, jovem e ao mesmo tempo muito velho
Quem de seus mentores desdenha as reverências,
Se aborrece com seus cachorros como o faz com outros bobos.
Nada pode o alegrar, nem um animal de caça, nem um falcão
Nem seu povo morrendo em frente à sacada.
Do bufão favorito a grotesca balada
Não distrai mais a face deste cruel doente;
Sua cama ornada de flores de lis se transforma em túmulo,
E as damas do quarto de dormir, para quem todo príncipe é belo,
Não sabem mais achar o impudico toalete
Para gerar um sorriso deste jovem esqueleto.
O erudito que fê-lo ouro jamais pode
De seu ser remover o elemento corrompido,
E nestes banhos de sangue que os Romanos nos trouxeram
De cujos velhos tempos os poderosos se recordam,
Ele não soube aquecer este cadaver atordoado
Onde corre no lugar de sangue a água verde do Létes.

O diálogo entre as gerações é o que acho que mais fascinante em qualquer linguagem, não importa qual. Foi o que Victor Hugo disse sobre Chateaubriand: “ser Chateaubriand ou nada”. Mal sabia que seria fonte. Mal sabia que sua Notre-Dame de Paris, que seu Quasímodo, pegariam tanta gente boa. De jeito. Fato é que o século XIX foi essa vitória sobre o Échec de poètes que os franceses tanto falam. Victor Hugo ainda seria levantado às alturas pelos seus Misérables e tantos outros. Grandes homens, grandes mesmo. Victor-Marie Hugo (Besançon, 26 de fevereiro de 1802 – Paris, 22 de maio de 1885).

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À VIRGILE
de Victor Hugo
tradução de Pedro Lago

Ó Virgílio! Ó poeta! Ó meu mestre divino!
Venha, deixemos esta cidade ao grito sinistro e vão,
A qual é gigante e jamais fecha a pálpebra,
Esprema uma onda espumante entres seus flancos de pedra,
Lutécia, tão pequena nos tempos de seus Césares,
E que joga hoje, cidade cheia de charretes,
Sobre o nome estridente cujo mundo nomeia,
Mais clareza que Atenas, mais barulho que Roma.

Por você que nos bosques faz, como a água dos céus,
Cair de folha em folha um verso misterioso,
Por você cujo pensamento enche meu devaneio,
Encontrei, numa sombra onde ri uma erva florida,
Entre Buc e Meudon, num profundo esquecimento,
- E quando digo Meudon, suponho Tivoli! -
Encontrei , meu poeta, um vale verde
Nas encostas charmosas displicentemente místicas,
Retrato favorável aos amantes escondidos,
Feito de ondas dormentes e de ramos inclinados,
Onde o belo meio-dia banha em vão com seus raios sem número
A gruta e a floresta, frescos asilos de sombra!

Por você eu a procurei, uma manhã, orgulhoso, feliz,
Com o amor no coração e a madrugada nos olhos;
Por você eu a procurei, acompanhado daquela
Que sabe todos os segredos que minha alma esconde,
E quem, só comigo sobre os bosques hirsutos,
Seria minha Licoris se eu fosse seu Gallus.

Porque ela tem no coração esta flor larga e pura,
O amor misterioso de antiga natureza!
Ela ama como nós, mestre, estas doces vozes
Este barulho de ninhos felizes que saem dos sombrios bosques,
E, a noite, toda ao fundo do vale estreito,
As encostas derrubadas no lago que reverbera,
E, quando o poente triste perdeu seu rubor,
Os pântanos irritados dos passos do viajante,
E o humilde sapê, e o antro obstruído de erva verde,
E que lembra uma boca com o terror aberto,
As águas, os prados, os montes, os refúgios charmosos,
E os grandes horizontes cheios de brilhos!

Mestre! pois eis a estação das pervincas
Se você quiser, cada noite, afastando os galhos,
Sem despertar ecos em nossos passos ousados,
Nós iremos todos os três, quer dizer, todos dois,
Nesse valezinho selvagem e de solidão,
Sonhadores, nós surpreenderemos a secreta atitude.
Na parda clareira onde a árvore ao tronco nodoso
Toma a noite um perfil humano e monstruoso,
Nós deixaremos fumar, à costa de um Falso Ébano,
Algum fogo que se extingue sem pastor que o atiça
E, a orelha esticada à suas vagas canções,
Sobre a sombra, ao luar, a atravessar as moitas,
Ávidos, nós poderemos ver, furtivamente
Os sátiros dançantes que imitam Alfesibéia.

Esse mistério que veio do Uruguai, que escreveu em francês e, como muito se diz, foi precursor do surrealismo, o próprio Breton que disse. Pouco se sabe, mesmo, inclusive como era fisicamente. Há alguns desenhos, um deles, do Artaud. Escreveu Les Chants de Maldoror, onde diz “eu fiz um pacto com a prostituição, para semear a desordem entre as famílias”. Perdeu a mãe francesa com vinte meses de idade. Escolheu um nome para si, Conde de Lautréamont, talvez para homenagear o Marquês de Sade, cruzamento direto, mas, como saber? Fato é que, Lautréamont, é um animal feroz, sem exagero. Isidore Lucien Ducasse, Conde de Lautréamont – Montevidéu, Uruguai, 4 de abril de 1846 – Paris, 24 de novembro de 1870.

Miasmas em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

VIEIL OCÉAN
de Lautréamont
tradução de Pedro Lago

Eu me proponho, sem ser de modo algum comovido, a entoar o canto sério e frio que vocês irão ouvir. Prestem atenção ao que ele contém, e guardem a impressão penosa que vocês não carecerão de deixar, como um estigma, dentro de suas imaginações perturbadas. Não creiam que eu esteja no ponto de morrer, porque eu não sou mais um esqueleto, e a velhice não grudou na minha face. Afastemos adequadamente toda a idéia de comparação com um cisne, no momento onde sua existência se evapora, e não vejam diante de vocês um monstro, do qual eu estou feliz que vocês não possam perceber a cara, mas menos horrível é ela que sua alma!… Entretanto eu não sou mais um criminoso… o bastante sobre este assunto. Há não muito tempo que eu revi o mar e andei até o cais, e minhas memórias estão vívidas como se eu as tivesse abandonado na véspera. Sejam, contudo, se vocês o podem, tão calmos quanto eu nessa leitura da qual eu já me arrependo de oferecer, e não ruborizem ao pensamento do que é o coração humano. Ah! Dazet! Tu, cuja alma é inseparável da minha; tu, o mais belo dos filhos da mulher, embora adolescente ainda; tu, cujo nome se parece ao maior amigo da juventude de Byron; tu em quem reúnem-se nobremente, como em sua residência natural, por um comum acordo, de um laço indestrutível, a doce virtude comunicativa e as graças divinas, porque não és tu comigo, teu peito contra o meu peito, sentados todos os dois sobre algum rochedo da orla, para contemplar este espetáculo que eu adoro.

Velho Oceano, as ondas de cristal, tu te pareces proporcionalmente a essas manchas azuladas que vemos sobre as costas feridas das espumas; tu és um imenso azul sobre os corpos da terra: eu amo esta comparação. Assim, ao teu primeiro aspecto, um sopro prolongado de tristeza, que acreditamos ser o murmúrio de tua brisa suave passa deixando inefáveis traços sobre a alma profundamente abalada, e tu chamas de volta a lembrança de teus amantes, sem que se perceba sempre, os rudes princípios do homem onde ele trava conhecimento com a dor que não o deixa mais. Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, tua forma harmoniosamente esférica, que alegra a face grave da geometria, não me lembra menos do que muitos dos pequenos olhos do homem, parecidos aos do javali para a pequenez, e aos dos pássaros da noite para a perfeição circular do contorno. No entanto, o homem acreditou-se belo em todos os séculos. Eu, suponho, antes de preferência, que o homem não acreditou em sua beleza apenas por amor próprio; mas que ele não é belo realmente e que ele disso duvida; senão por que ele observa a figura de seu semelhante com tanto desprezo? Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, tu és o símbolo da identidade: sempre igual a ti mesmo. Tu não varias de uma maneira essencial, e se tuas ondas estão em alguma parte em fúria, mais ainda em qualquer outra zona elas estão na calma mais completa. Tu não és como um homem, que para na rua para ver dois buldogues se agarrando no pescoço, mas que não para quando um funeral passa; que está nesta manhã acessível e nesta noite de mal humor, que ri hoje e chora amanhã. Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, não haveria nada de impossível no que tu escondes em teus seios de futuras utilidades para o homem. Tu já lhe destes as baleias. Tu não te deixas facilmente adivinhar pelos olhos ávidos das ciências naturais os mil segredos de tua íntima organização: Tu és modesto. O homem se gaba sem cessar e para as minúcias. Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, as diferentes espécies de peixes que tu alimentas, não juraram fraternidade entre elas. Cada espécie vive de sua parte. Os temperamentos e as conformações que variam em cada uma delas, explicam de uma maneira satisfatória; o que parece a princípio uma anomalia. É desse modo um homem que não possui os mesmos motivos de desculpa. Um pedaço de terra é ocupado por trinta milhões de seres humanos, os que se crêem obrigados em não se misturar na existência de seus vizinhos, fixados como raízes sobre o pedaço de terra que perseguem. Descendo do grande ao pequeno, cada homem vive como um selvagem dentro de sua caverna, e saem raramente para visitar seu semelhante agachado igualmente dentro de outra caverna. A grande família universal dos humanos é uma utopia digna da lógica das mais medíocres. Além disso, do espetáculo de tuas tetas fecundas emerge a noção de ingratidão, porque pensa-se imediatamente aos seus parentes numerosos demasiadamente ingratos para com o Criador para abandonar o fruto de sua miserável união. Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, tua grandeza material, não pode ser comparada ao cálculo que se fez do que foi necessário de força ativa para engendrar a totalidade de tua massa. Não se pode te beijar de lampejo. Para te contemplar, é preciso que a paisagem se transforme por um momento contínuo em direção aos quatro pontos do horizonte, igualmente a um matemático que no afã de resolver uma equação algébrica, examina separadamente diversos casos possíveis antes de determinar as dificuldades. O homem come substancias nutritivas e faz outros esforços dignos de uma melhor sorte para parecer alimentado: que ela se inche tanto que ela desejará, esta rã. Sejas tranqüilo, ela não te igualará em dimensão; eu acho, pelo menos. Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, teus olhos são amargos. É exatamente o mesmo gosto da bílis que destila a critica sobre as belas artes, sobretudo as ciências, sobretudo. Se alguém tem a genialidade sobre as ciências, faz-se passar por um idiota; se um outro alguém é belo de corpo, é um corcunda abominável. Certamente, é preciso que o homem sinta com força sua imperfeição, cujos três quartos, aliás, não devem menos que a ele mesmo, para a criticar assim! Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, os homens, apensar da excelência de seus métodos, não são ainda seguros, ajudados pelos meios de investigação da ciência, a medir a profundidade vertiginosa de teus abismos; tu que tens as sondas longas, as mais pesadas reconheceram-se inacessíveis. Aos peixes isto é permitido, não aos homens. Muitas vezes eu me questionei que coisa seria mais fácil a reconhecer: a profundidade do Oceano ou a profundidade do coração humano! Muitas vezes, com a mão ao alcance da testa, em pé diante dos navios, enquanto a lua se balançava entre os mastros de um jeito irregular, eu me surpreendi fazendo abstrações de tudo o que não era o fim que eu perseguia, me esforçando para resolver esse difícil problema! Sim, qual é o mais profundo, o mais impenetrável dos dois, o Oceano ou o coração humano? Se trinta anos de experiência de vida podem até certo ponto inclinar a balança para uma ou outra dessas soluções, me será permitido dizer que, apesar da profundidade do Oceano, não se pode igualar, quanto à comparação sobre esta propriedade, com a profundeza do coração humano. Eu estive em relação com os homens que foram virtuosos. Eles morreram aos sessenta anos, e cada um não deixava de se gabar: “Eles fizeram o bem sobre esta terra, quer dizer, ele praticaram a caridade: eis tudo, isto não é malicioso, cada um pode fazer tanto quanto” Quem compreenderá porque dois amantes que se idolatram na véspera, por uma palavra mal interpretada, se afastam, um em direção ao Oriente, o outro em direção ao Ocidente, com os aguilhões do ódio, da vingança, do amor e do remorso, e não se revêem mais, cada um coberto em seu orgulho solitário. É um milagre que se renova a cada dia e que não é menos miraculoso. Quem compreenderá porque aprecia-se não somente as desgraças gerais de seus semelhantes, mas também, as particularidades de seus mais queridos amigos, mesmo de seu pai e de sua mãe, ao passo que se aflige ao mesmo tempo? Um exemplo incontestável para concluir a série: o homem diz hipocritamente sim e pensa não. É por isso que os homens tem tanta confiança uns nos outros, e não são egoístas. Resta à psicologia mais progresso a fazer. Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, tu és tão poderoso que os homens o aprenderam as suas próprias custas. Eles fazem bom uso de todos os recursos de seu gênio…; incapazes de te dominar. Eles acharam seu mestre. Eu digo que eles encontraram alguma coisa mais forte que eles. É alguma coisa, um nome. Este nome é: O Oceano! O medo que tu os inspiras é tal que eles te respeitam. Apesar disso, tu fazes valsar suas mais pesadas maquinas com graça, elegância e facilidade. Tu os fazes dar saltos ginásticos, até o céu, e dar mergulhos admiráveis até o fundo de teus domínios: um saltimbanco ficaria com inveja. Bem aventurados são eles quando tu não os envelopa definitivamente em tuas camadas espumantes para ir ver, sem trilhos, em tuas entranhas aquáticas, como se portam os peixes, e sobretudo, como se portam eles-mesmos. O homem disse: “Eu sou mais inteligente que o Oceano” É possível, mas o Oceano a ele é mais abominável que ele ao Oceano: é o que não é necessário provar. Este patriarca observador, contemporâneo das primeiras épocas de nosso globo suspenso, sorriu de pena quando viu os combates navais das nações… Eis uma centena de leviathans que saíram das mãos da humanidade! A ordens enfáticas dos superiores, os gritos dos feridos, os tiros de canhão, é o ruído feito com o propósito de aniquilar alguns segundos… O drama termina, o Oceano colocou tudo em seu ventre! Oh! Essa garganta formidável!… Quão grande deve ela ser para baixo, na direção do desconhecido! Para coroar a estúpida comédia, que não é mesmo interessante, vê-se no meio dos ares alguma cegonha atrasada pela fadiga, que se põe a gritar, sem parar a envergadura de seu vôo: “Ei! acho que é ruim! Havia lá embaixo pontos negros. Eu fechei os olhos… eles desapareceram” Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, ó grande celibatário, quando tu atravessas a solidão solene de teus reinos fleumáticos, tu te orgulhas acertadamente de tua magnitude nativa, e os elogios verdadeiros que me apresso em te dar. Balanças voluptuosamente pelos brilhos suaves de tua lentidão majestosa, que é a mais grandiosa entre os atributos cujo soberano poder te gratificou, tu desenrolas, no meio de um sombrio mistério, sobre tua superfície sublime, tuas ondas incomparáveis com o sentimento calmo de teu poder eterno. Elas se acompanham paralelamente, separadas por curtos intervalos. Mal uma diminui, uma outra vai até ela se reencontrar crescendo, acompanhadas elo ruído melancólico da espuma. (desta forma os seres humanos, as ondas vívidas, extinguem uma após a outra de uma maneira monótona, mas sem deixar o barulho espumoso) O pássaro de passagem descansa sobre elas com confiança, e se deixa abandonar a seus movimentos cheios de uma graça orgulhosa, até que os ossos de suas asas tenham recuperado seu vigor acostumado para continuar a peregrinação aérea. Eu gostaria que a dignidade humana não fosse nada menos que uma encarnação do reflexo da tua; eu desejo muito. Este desejo sincero é glorioso para ti. Tua grandeza moral, imagem do infinito, é imensa como a reflexão do filosofo, como o amor da mulher, como a beleza divina do pássaro, com as meditações do poeta. Tu és mais belo que a noite. Responda-me, Oceano, tu queres ser meu irmão? Me agites com impetuosidade, mais… mais ainda, se tu quiseres que eu te compare à vingança de Deus; alongues tuas garras lívidas abrindo um caminho sobre teu próprio seio… é ótimo… Desenroles tuas ondas abomináveis, Oceano repugnante, compreendido por mim somente e diante do qual eu tombo, prosternado a teus joelhos. A dignidade do homem é emprestada; ele não me imporá um ponto. Tu, sim. Oh! Quando tu avanças a alta crista e terrível, cercada de tuas dobras tortuosas como de uma corte, magnetizador e feroz, rolando tuas ondas umas sobre as outras, com a consciência de que tu és, para que tu cresças das profundezas de teu peito, como que comovido de um remorso intenso que eu não pude descobrir, este surdo rugido perpétuo que os homens receiam tanto, mesmo quando eles te contemplam em segurança, trêmulos sobre a margem, então, eu vejo que ele não me pertence, o direito notável de me dizer teu igual. É porque na presença de tua superioridade, eu te daria todo o meu amor (e nulo não sabes a quantidade de amor que contem minha aspirações sobre o belo), se tu não me fizesses dolorosamente pensar aos meus semelhantes, que formam com ti o mais irônico contraste, a antítese mais bufônica que jamais se viu na criação: Eu não posso te amar. Eu te detesto. Porque volto a ti pela milésima vez, em direção a teus braços amigos que se entreabrem para acariciar meu rosto ardente, que vê desaparecer a febre em teu contato! Eu não conheço teu destino escondido: Tudo que te concerne me interessa. Digas para mim então se tu és a morada do Príncipe das Trevas. Dizes para mim, dizes para mim, Oceano (a mim somente para não entristecer os que ainda não conheceram nada menos que ilusões) e se o sopro de Satan criou as tempestades que agitam teus olhos salgados até as nuvens. É preciso que tu me digas, porque eu me alegraria em conhecer o inferno tão perto do homem. Eu quero que esta seja a última estrofe da minha invocação. Assim sendo, uma última vez de novo, eu quero te saldar e te fazer meus adeuses! Velho Oceano, as ondas de cristal… Meus olhos se molham de lágrimas abundantes, e eu não tenho a força de perseguir, pois eu sinto que o momento de voltar para entre os homens chegou, ao aspecto brutal: Mas; coragem! Façamos um grande esforço e terminemos com o sentimento do dever, nosso destino sobre esta terra. Eu te saúdo, velho Oceano!

A apropriação da imagem do Rimbaud pelo movimento punk é um reflexo bem interessante do que ele representa. Hoje, camisas são vendidas na França. Parece também que o “dia mundial do poeta” é comemorado no dia de seu aniversário, dentre muitas outras reverberações. Ecos. E pensar que não fosse pelo Verlaine, talvez, isso não ocorresse. Outra figura importante na divulgação da obra do jovem poeta de Charleville foi Ezra Pound. Rimbaud sofreu muito na mão dos padres de sua infância, suas prosas do início são lindas, menino da província explodindo em Paris, belo e rústico, poeta de técnica impressionante. Depois de explorar tudo, foi viver o corpo, viajou, ganhou dinheiro com armas, foi para a Àfrica, perdeu uma perna, coisas que todos sabemos. Rimbaud é desses poetas de substância concentrada, capaz de nos fazer mudar, ou mais. Jean-Nicolas Arthur Rimbaud, Charleville 20 de outubro de 1854 – Marselha, 10 de novembro de 1891.

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LE BATEU IVRE
de Arthur Rimbaud
tradução de Pedro Lago

Como eu descia os Rios Impassíveis,
Não me senti mais guiado pelos sirgadores.
Os Peles-Vermelhas berrantes os tinham pego para alvo
Tendo-os pregado, nus, nos postes de cores.

Eu estava inconsciente de toda a tripulação,
Carregador de trigo flamengo ou de algodão inglês.
Quando com meus sirgadores terminaram a algazarra
Os Rios me deixaram descer para onde eu queria.

Dentro dos marulhos furiosos das marés,
Eu, outro inverno, mais surdo que os cérebros das crianças,
Corri! E as Penínsulas desamarradas
Não sofreram confusões triunfantes.

A tempestade abençoou meus despertares marítimos.
Mais leve que uma rolha eu dancei sobre as marés
Que chamamos balanço eterno das vítimas,
Dez noites, sem prantear o óleo parvo das lanternas!

Mais doce que as crianças a carne das maçãs ácidas,
A água verde penetrou minha casca de pinho
E as manchas de vinhos azuis e os vômitos
E me lavou, dispersando leme e arpéu.

E desde então, eu me banhei dentro do poema
Do mar, infundido de astros e lactescente,
Devorando os azuis verdes; onde, na flutuação lívida
E cantante, um afogado pensativo às vezes desce;

Onde, tingindo subitamente os azuis delírios
E ritmos lentos sobre os rutilamentos do dia,
Mais fortes que o álcool, mais vastos que vossas liras,
Fermentando os ruivos amargos do amor!

Eu conheço os céus arrebentando em relâmpagos, e as trombas
E as ressacas e as correntes; eu conheço a noite,
A madrugada exaltada assim que um povo de pombas,
Eu vi às vezes o que o homem jamais acreditou ver!

Eu vi o sol baixo manchado de horrores místicos,
Iluminando do alto coágulos violetas,
Semelhante ao dos atores de dramas muito antigos
As ondas rolando ao longe seus frissons de persianas!

Eu sonhei a noite verde às neves ofuscantes,
Beijos subindo aos olhos dos mares com lentidão,
A circulação das seivas inauditas,
E o despertar amarelo e azul dos fósforos cantantes!

Eu segui, de mêses cheios, semelhantes às vacarias
Histéricas, o marulho ao assalto dos recifes,
Sem sonhar que os pés luminosos das Marias
Pudessem forçar o focinho aos Oceanos asmáticos!

Eu colidi, sabe você, de inacreditáveis Floridas
Misturando as flores dos olhos de panteras às peles
Dos homens! Dos arco-íris estendidos como as rédeas
Sobre o horizonte de mares, aos glaucos gados!

Eu vi fermentar os pântanos enormes, nassas
Onde apodreceu dentro dos juncos um inteiro Leviatã!
Os desabamentos de água ao meio das bonanças,
E os longínquos para os abismos cataratantes!

Geleiras, sóis de prata, marés de nácar, céus de brasas!
Fracassos hediondos do fundo dos golfos pardos
Onde as serpentes gigantes devoradas pelos percevejos
Caem das árvores tortas com negros perfumes!

Eu quereria mostrar às crianças esses dourados
Do mar azul, esses peixes de ouro, esses peixes cantantes,
- As espumas de flores abençoaram minhas enseadas
E os inefáveis ventos me fizeram voar por instantes.

Às vezes, martírio laçado dos pólos e das zonas,
O mar cujo soluço fazia meu balanço doce
Subiam sobre mim suas flores de sombras dos ventosos amarelos
E eu ficava, portanto, como uma mulher de joelhos…

Quase-ilha, sobre minhas bordas as querelas
E os excrementos dos pássaros gritantes aos olhos louros.
E eu vogava, quando através meus laços frágeis
De afogadas desciam para dormir, recuando!

Ora, eu, barco perdido sob os cabelos das ansas
Atirado pelo furacão no éter sem pássaro,
Eu cujos Monitores e os veleiros das Hansas
Não queriam pescar de novo a carcassa ébria da água;

Livre, fumando, embarcado de brumas violetas,
Eu que abri um buraco no céu avermelhando como um muro
Que traz, geléias delicadas aos bons poetas,
Liquens de sol e mucos do azul;

Que corria, manchado de lúnulas elétricas,
Prancha louca, escoltado de hipocampos negros,
Quando os julhos faziam desabar a golpes de porrete
Os céus ultramarinos aos ardentes funis;

Eu que tremia, sentindo choramingar à cinquenta lugares
O cio do Béhémots e dos Maelstroms espessos,
Fiandeiro eterno das imobilidades azuis,
Eu anseio a Europa dos antigos parapeitos!

Eu vi os arquipélagos siderais! e ilhas
Cujos céus delirantes são abertos ao navegante:
- São nessas noites sem fundo que você dorme e se exila,
Milhões de pássaros de ouro, ó futuro Vigor?

Mas, na verdade, eu chorei muito! As madrugadas são aflitivas,
Toda lua é atroz e todo sol amargo:
O acre amor me encheu de torpores inebriantes
Ah que minha quilha quebre! Ah que eu vá ao mar!

Se eu desejo uma água da Europa, é a leve
Negra e fria para o crepúsculo embalsamado,
Uma criança agacha cheia de tristeza, solta
Um barco frágil como uma borboleta de maio.

Eu não pude mais, banhado de vossa languidez, ó ondas,
Arrebatar suas esteiras aos carregadores de algodão,
Nem atravessar o orgulho das bandeiras e das flâmulas,
Nem nadar sob os olhos horríveis dos pontões.

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Euclides da Cunha

No dia 20 de janeiro de 1866, nasce Euclides Rodrigues da Cunha, na Fazenda da Saudade, em Santa Rita do Rio Negro, atual Euclidelândia, no município de Cantagalo, Rio de Janeiro. Fillho de Manoel Rodrigues Pimenta da Cunha e Eudóxia Alves Moreira, o jovem foi batizado, apenas, no dia 24 de novembro. Entraremos, então, na obra poética, pouco difundida, deste grande escritor brasileiro. Evoé Euclides!

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EU QUERO…

Eu quero à doce luz, os vespertinos pálidos,
Lançar-me, apaixonado, entre as sombras das matas -
- Berços feitos de flores e de carvalhos válidos,
Onde a Poesia dorme, aos cantos da cascatas…

Eu quero aí viver – o meu viver funéreo,
Eu quero aí chorar – os tristes prantos meus…
E envolto o coração, nas sombras do mistério,
Sentir minh’alma erguer-se entre a floresta e Deus!…

Eu quero aí unir a voz de meus martírios
C’os trenos, que murmura a brisa nos palmares
- As lágrimas guardar, no seio azul dos lírios,
E os soluços no seio dos trêm’los nenúfares…

Eu quero, da ingazeira – erguida aos galhos úmidos,
Ouvir os cantos virgens – da agreste patativa…
Da natureza eu quero nos grandes seios túmidos
Beber a Calma, o Bem e a Crença – ardente, altiva -

Eu quero, eu quero ouvir o esbravejar das águas
Das ásp’ras cachoeiras que irrompem do sertão…
- E a minh’alma cansada – ao peso atroz das mágoas -
Silente adormecer no colo da solidão…

Em1868, nasce a irmã de Euclides, Adélia, no dia 9 de agosto. Um ano depois, o pequeno Euclides, com apenas três anos de idade, torna-se órfão de mãe, vítima de uma tuberculose. Com isso, em 1870, muda-se com a família para Teresópolis, no Rio de Janeiro, para a casa de seus tios Rosinda e Urbano Gouveia, porém, sua tia, Rosinda, que havia ocupado o posto de mãe em sua criação, também morre.

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O JAGUAR

Livre das selvas que trazes
Na garra – o pavor da terra,
No peito – as canções da guerra
Nos olhos – chamas audazes!

Quando convulso tu bramas
Nas brenhas – bravo, possante -
E o Sol te arranca, ofuscante,
Do olhar – punhados de flamas!…

Quando na raiva sem termos -
Povoas – fremindo forte
Com um poema de morte
A calma mudez dos ermos!;

Lembras o meu coração!…
Livre qual tu, qual tu forte
Freme, palpita sem norte
De meu peito na solidão!…

Salta – estaca – bravo, lesto
Cheio de amor e ódio, deixa
Uma blafêmia uma queixa
Um poema em cada esto…

Se a trevosa e fria vaga
Da desgraça nele bate
Ele blasfema am embate
Crê Satã e ruge a praga!

Jaguar! ida a raiva tua
Imóvel, calmo tu lavas
Do sangrento olhar as lavas
No argênteo clarão da Lua…

Meu coração – ida a dor
Chora e canta – entre a soidade -
- No saltério da saudade
A Eterna harmonia: – o amor!…

Depois da morte de sua tia Rosinda, em 1871, Euclides se muda para São Fidélis, no Rio de Janeiro, com a irmã e passa a morar com os tios Laura e Cândido José Magalhães Garcez, na Fazenda São Joaquim. Um ano depois, matricula-se no Colégio Caldeira, sob direção de Francisco José Caldeira, que era um pedagogo português. Em 1878, mais uma mudança, desta vez, para Salvador, Bahia, para, morar com a avó e passa a estuda no Colégio Bahia.

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OS GRANDES ENJEITADOS

Servis!… dançai, folgai – na régia bacanália…
Quadro-voz essa luz que nos raios espalha
A treva e o crime atrai!…

Valsai – nesse delírio atroz, brutal que assombra -
Folgai… a grande Luz espia-vos na sombra!
Folgai, cantai – valsai!…

Que vos importa – ó vis, caricatos atletas -
Se o povo dorme nu – nas lôbregas sarjetas -
Entre o pântano e os Céus!….

Q’importa se essa luz – faz as noites da História!
Q’importa se os heróis ‘stão entre a lama e a Glória
Entre a miséria e Deus!…

Q’importa-vos a dor; – a lágrima brilhante
Do seio dos heróis -, estrela palpitante
Que ao céu do porvir vai…

Q’importa-vos a honra, a consciência, a crença,
A justiça, o dever!?… ah! vossa febre é imensa! -
Folga, folgai, folgai!…

Q’importa-vos a Pátria…a pátria – é-vos um nome!….
Q’importa-vos o povo – esse galé da fome -
Ó cortesãos, ó rei!?

Se o olhar das barregãs, de amor e febre aceso
Vos ferve dentro d’alma – e se o direito é preso
Nessa grilheta – Lei!

Fazeis bem em rir – ó pequeninos seres…
O crime, o vício e o mal são os vossos deveres -
Avante pois – gozai…

Atufai-vos – rolai ó almas guarida -
No abismo fundo e frio – o seio da perdida!…
– Cantai… cantai, cantai!…

Gritai com força! assim… não percebeis agora
O eco de vossa voz?… – de vossa voz sonora -
Tremer na vastidão!?

Não ouvis as canções que o seu frêmito espalha?…
Ele desce de Deus – ó dourada canalha -
Ele é – Revolução!…

Em 1879, Euclides volta para a região fluminense para morar com seu tio paterno, Antônio Pimenta da Cunha, em uma chácara nas imediações do atual Largo da Carioca e matricula-se no Colégio Anglo-Americano. Em 1880, muda novamente de escola, agora frequenta os colégios Vitório da Costa e Meneses Vieira e faz os preparatórios. Em 1883, inicia estudos no Colégio Aquino sob a supervisão de Benjamin Constant. Com alguns colegas, passa a editar o periódico mensal ‘O Democrata’ lançado em 1884, no qual Euclides publicará seu primeiro trabalho em prosa. Também declama poemas no Centro José de Alencar. São dessa época seus primeiros poemas.

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AO CLARÃO DAS FORJAS

Ó fronte varonil – brônzea, dominadora
Que a palpitante luz das fornalhas aclara…
- Alma – altiva e viril, como o bronze – sonora,
Tão rija como o aço e como as forjas – clara!…

Combatente da paz nas lutas do trabalho,
Tu – que ani’las com o olhar – a fome tenebrosa;
E fazer teu porvir – com o ferro, o fogo e o malho
- Dá-me esta áspera mão dá-me esta mão calosa!…

Esta ásp’ra mão robusta, ardente, válida – esta
Mão – que os malhos levanta e, esplêndida à vibrá-los
- Férrea e grande – produz do progredir a orquestra!
- Dá-me esta mão que veste – uma luva de calos!…

E deixa te dizer em cálida linguagem
Ígnea – como o suor – com o qual a fronte adornas -
Como tu’alma – brava, intérmina, selvagem -
- Ásp’ra como a canção sonora das bigornas…

Não invejes – jamais – aos que a sorte fagueira
As frontes osculou descendo um áureo traço -
Eles têm o futuro e a crença – na algibeira -
Tu – tens a crença n’alma – e o futuro – em teu braço.

Em 1885, Euclides entra na Escola Politécnica no Largo de São Francisco no Rio de Janeiro. Um ano depois assenta na Escola Militar da Praia Vermelha como cadete número 308, estundando com Cândido Rondon e Tasso Fragoso. Datam desta época, poemas filosóficos e melancólicos. Passa a colaborar com artigos e poemas na Revista da Família Acadêmica editada pelos alunos da Escola Militar. Porém, um incidente mudaria seu percurso.

Os ossos em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

VIAM-NO SEMPRE A DIVAGAR TORVADO

Viam-no sempre a divagar torvado
Pelas tabernas vos, – sempre seguido
De um velho cão famélico e ferido,
Bêbado – impuro, torpe e enlameado…

Veio afinal o inverno amaldiçoado!…
No negro quarto o homem enf’recido
E o cão vacilam ante empedernido,
Vil pedaço de pão – duro e gelado…

Ambos têm fome… torvo – lutulento
Ao pão gelado o miserável corre
E atira-o ao companheiro famulento

Do quarto os cantos a tatear percorre
Erguendo uma garrafa – esgota-a lento
E cambaleia e cai e arqueja e – morre!…

Há duas versões para o incidente da Escola Militar de 1888. O primeiro foi que os alunos do terceiro ano, que não haviam recebido promoção, segundo a lei, para o posto de alferes-alunos, dentre eles, Euclides, organizaram um manifesto aberto diante o Ministro da Guerra do Império, Tomás Coelho, para quando visitasse a escola. A segunda versão conta que os alunos aguardavam para assistir ao desembarque de Lopes Trovão, que voltava da Europa. A questão é que uma visita regulamentar de Tomás Coelho foi marcada no mesmo dia para impedir os alunos de irem ao desembarque. Pois bem, durante o desfile, Euclides saiu da forma, e em vez de levantar seu sabre-baioneta de sargento em saudação, tenta quebrá-lo no joelho, joga-o no chão e profere palavras de protesto. Por isso, é preso, expulso da escola, considerado “doente dos nervos”, e se recusa a mentir no depoimento para aliviar sua pena. É expulso do exército e vai para São Paulo, onde começa a escrever para o jornal ‘A Província de S. Paulo’.

O poema Corpo Aberto aqui http://pedrolago.blogspot.com

A RIR

Eu já não creio mais… sombrio e calmo enfrento
- O lábio ermo da prece; o peito ermo da crença -
A estrela – rubra e imensa
De meu destino atroz, aspérrimo e sangrento!…
E embora sobre mim flamívoma suspensa
Em minh’alma os clarões fatais ela concentre
Eu suporto-lhe bem o flamejante baque
- Altivamente calmo – entricheirando-me entre
Uma canção de Byron
E um cálix de cognac…
- Não há dor que resista ao som de uma risada! –
Depois – se me exacerbo
E tremo e choro erguendo a prece à alma magoada
Mais me dói essa dor, mais esse mal é acerbo!
Assim – eu resolvi, indiferente e frio
Cheio de orgulho e spleen – como um banqueiro inglês!
Sepultar na ironia o pranto meu sombrio…
Por isso quando atroz na triste palidez
De minha fronte paira amarga ideia – eu rio!…
E quando pouco a pouco
Essa ideia me abate e vence-me alterosa
De amargores repleta – eu rio como um louco…
E se ela inda dói mais e forte e tenebrosa
Sói a último idela de minh’alma aniilar
E vencer-me de todo
Então – eu me ergo mais – e desvairando o olhar
– Divinamente doido -
Eu rio, rio muito e rio – até chorar!…

Em 1889, Euclides volta ao Rio de Janeiro e presta exames para a Escola Politécnica. No dia 16 de novembro, chega-lhe a notícia da proclamação da República. No mesmo dia, visita o major Solon Ribeiro, e participa de uma reunião em sua casa. Euclides, enfim, é reintegrado ao exército graças ao apoio do novo Ministro da Guerra, seu antigo mestre, Benjamin Constant. Dois dias depois é promovido a alferes-aluno. Publica em ‘A Província de São Paulo’ uma série de oito crônicas intitulada ‘Atos e Palavras’. Seu trabalho com as crônicas se estende, e Euclides assina mais quatro crônicas no mesmo jornal.

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RIMAS

Ontem – quando soberba escarnecias
Dessa minha paixão – louca – suprema
E no teu lábio essa rosada algema
A minha vida – gélida – prendias…

Eu meditava em loucas utopias
Tentava resolver grave problema…
- Como engastar tu’alma num poema? -
E eu não chorava quando tu rias…

Hoje – que vives desse amor ansioso
E és minha – és minha, extraordinária sorte,
Hoje eu sou triste sendo tão ditoso!…

E tremo e choro – pressentindo – forte
Vibrar – dentro em meu peito, fervoroso
Esse excesso de vida – que é a morte…

Em 1890, Euclides matricula-se na Escola Superior da Guerra, no dia 8 de janeiro, e completa, em 11 de fevereiro, o curso de artilharia. Não demora muito a ser promovido a segundo-tenente e, em seguida, oficial do Batalhão Acadêmico. No dia 10 de setembro do mesmo ano, Euclides casa-se com Ana Ribeiro, ou “Saninha”, filha do major Solon Ribeiro. No ano seguinte, recebe um mês de licença para tratamento de saúde e vai para a Fazenda Trindade, de seu pai, em São Paulo. Quando se prepara para fazer os cursos de Estado-Maior e Engenharia Militar na Escola Superior de Guerra, morre sua primeira filha, Eudóxia, semana depois de seu nascimento.

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OS LEMURES

Ó minha musa – imaculada e santa!
Deixa um momento os sonhos teus benditos
Despe os teus véus de noiva do ideal
Deixa-os, despe-os e canta
Sobre as ruínas trágicas do mal
As almas arruinadas dos malditos!…

Em 1892, Euclides conclui os cursos de Estado-Maior e Engenharia Militar na Escola Superior de Guerra e é promovido a tenente do Estado-Maior. Começa a colaborar com O Estado de São Paulo sob o pseudônimo de José Dávila com crônicas. Em novembro deste ano nasce seu primeiro filho Solon e começa a trabalhar na Estrada de Ferro Central do Brasil no trecho entre São Paulo e Caçapava depois de ter solicitado posto a Floriano Peixoto. Em dezembro do ano seguinte, 1893, durante a Revolta da Armada, Euclides é designado a servir provisoriamente na Diretoria de Obras Militares para dirigir a construção de trincheiras no Morro da Saúde, no Rio de Janeiro.

Pedro Lage em http://cartilhadepoesia.wordpress.com

ESTANCIAS

Les beaux yeux sauvent beaux vers!…
V. Hugo

Meu pobre coração tão cedo aniquilado
Na ardência das paixões – ó pálida criança -
Revive à doce luz do teu olhar magoado

E cheio de ilusões, de crenças e esperança
Faz o castelo ideal das louras utopias
- Com os brilhos desse olhar e o ouro de tua trança! -

Quando sobre as sombrias
Ondas – vasto luar esplêndido se espalma
De todo o seu negror, arranca as ardentias

De teu olhos assim à luz divina e calma
Dimanam – cintilando – as ilusões e os versos
Das sombras de minh’alma…

E sonho e canto e rio e me deslumbro… imersos
- No místico luar que sobre mim derramas -
Fulguram como sóis meus ideais dispersos!…

Fulguram como sóis – entre sonoras flamas -
Partindo no meu peito a tétrica penumbra
E o silêncio fatal de dolorosos dramas…

E tudo hoje antes tem luz, tem voz – deslumbra -
Pois – tal como um ideal – uma canção ressumbra -
E em cada uma canção – o teu olhar cintila…

Em 1894, Euclides publica um polêmico artigo na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, replicando o modo punitivo sugerido para a execução dos prisioneiros pelo senador florianista João Cordeiro, do Ceará, durante a revolta da Armada. Os protestos, porém, surtiram efeito contrário e houve desconfiança dos militares que o afastaram, pouco a pouco do campo da ação. Floriano Peixoto e outros jacobinos não o apoiam mais. Ao fim da revolta, é transferido par Campanha, em Minas Gerais, para a reforma do prédio da Santa Casa de Misericórdia. Este período é marcado por estudos. No dia 18 de julho do mesmo ano, nasce seu segundo filho, Euclides, o Quindinho.

A lua em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

D. QUIXOTE

Assim à aldeia volta o da triste figura
Ao tardo caminhar do Rocinante lento;
No arcabouço dobrado um grande desalento,
No entristecido olhar uns laivos de loucura.

Sonhos, a glória, o amor, a alcantilada altura,
Do ideal e da fé, tudo isto num momento,
A rolar, a rolar, num desmoronamento,
Entre risos boçais do bacharel e o cura.

Mas certo, ó D. Quixote, ainda foi clemente,
Contigo a sorte ao pôr neste teu cérebro oco,
O brilho da ilusão do espírito doente;

Porque há cousa pior: é o ir-se pouco a pouco
Perdendo qual perdeste um ideal ardente
E ardentes ilusões e não se ficar louco.

Em 1896, Euclides, já reformado do exército, retorna a São Paulo, onde é nomeado engenheito-ajudante de primeira classe da Superintendência de Obras Públicas do Estado de São Paulo. Neste momento, estreita laços de amizade com Gonzaga de Campos, Teodoro Sampaio e Bueno Andrade. Visita várias cidades do interior paulista, e sobretudo, São José do Rio Pardo. Em novembro deste ano, irrompe o movimento de Canudos.

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PÁGINA VAZIA

Quem volta da região assustadora
De onde eu venho, revendo inda na mente
Muitas cenas do drama comovente
Da Guerra despiedada e aterradora,

Certo não pode ter uma sonora
Estrofe, ou canto ou ditirambo ardente,
Que, possa figurar dignamente
Em vosso Álbum gentil, minha Senhora.

E quando, com fidalga gentileza
Cedestes-me esta página, a nobreza
Da vossa alma iludiu-vos, não previstes

Que quem mais tarde nesta folha lesse
Perguntaria: “Que autor é esse
De uns versos tão mal feitos e tão triste”?!

Em 1897, Euclides publica “Distribuição dos Vegetais no Estado de São Paulo” em O Estado de São Paulo no mês de julho. No mesmo mês, saem a primeira e a segunda parte do primeiro ensaio sobre a guerra de Canudos, “A Nossa Vendéia”. A convite de Júlio Mesquita, proprietário d’O Estado de São Paulo, Euclides aceita realizar reportagem sobre a guerra de Canudos, agregando-se à comitiva militar do Ministro da Guerra, Marechal Bittencourt. Parte de navio para Salvador e passa 23 dias na casa de seu tio, observando os acontecimentos pelos jornais e enviando artigos para São Paulo.

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NESTES TRES DIAS ESPLENDIDOS

Neste três dias esplêndidos
Em que o Prazer tudo arrasa
Desde o cristão ao ateu,
Quem se sente neurastênico
Faz como eu,
Fica em casa.

No dia 30 de agosto de 1897, Euclides deixa o Rio de Janeiro para iniciar a grande jornada pelo sertão baiano: Alagoinhas, Queimadas e Monte Santo, onde chega no dia 6 de setembro e de onde parte no dia 13, para chegar a Canudos no dia 16. Ali escreve as primeiras notas de Os Sertões. Terminada a guerra, parte para o arraial logo em seguida, para depois de dias no local, voltar ao Rio de Janeiro. No início de 1898, assume seu cargo na Superintendência de Obras Públicas de São Paulo. Em janeiro aparecem os primeiros textos públicos de Os Sertões n’O Estado de São Paulo.

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NOTA PROSAICA

Sábio… o título diz que a fantasia
do Juvenal mineiro é vasta; fá-lo
ver em mim a quem só em nome igualo:
o venerando avô da geometria…

Desculpo-o. Quem com tanta galhardia
ergue uma fronte branca feita em halo,
ou nimbo, que nos leva a venerá-lo,
tem jus à mais perfeita cortesia.

Que passe, pois, o sábio; e que os tercetos
(versos de prosador que os faz tão mancos)
Acabem o mais feio dos sonetos,

num cumprimento e nos aplausos francos
de uma velhice de cabelos pretos
à mocidade de cabelos brancos!

Em 1899, em São José do Rio Pardo, Euclides tem o auxílio de Francisco Escobar, um amigo, que disponibiliza sua biblioteca para consulta enquanto Euclides faz crescer o texto de Os Sertões. Nesta época publica o artigo “A Guerra no Sertão” na Revista Brazileira. Em maio de 1900, pede a José Augusto Pereira Pimenta, cabo do destacamento local, para passar a limpo o manuscrito de Os Sertões. Publica o artigo “As Secas do Norte” no Estado de São Paulo. Seu grande livro estaria muito próximo de sair, porém, enfrentaria alguns percalços.

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LE?… NÃO LE. AQUELE AR NÃO É POR CERTO

Lê?… Não lê. Aquele ar não é por certo
De quem medita. É o ar de quem atrai.
E se qualquer de nós, naquelas praias,
Aparecesse, quedaria incerto.

Sem saber distinguir quem mais nos trai
- Entre a insídia de uma onda ou de um afago
Se o velho mar misterioso e vago,
Ou esse abismo de roupão e saia!

Em 1901, nasce, em São José do Rio Pardo, seu terceiro filho, Manuel Afonso. Em dezembro deste ano, após passar um período no interior de São Paulo, Euclides segue para o Rio de Janeiro, com os originais de Os Sertões. É encaminhado para a Livraria Laemmert cujo editor não se interessa pela obra. Euclides então resolve custear parcialmente a primeira edição do livro, pela qual paga um conto e quinhentos mil-réis. Em janeiro de 1902, recebe as primeiras provas do livro. Nos primeiros dias de dezembro deste ano, Euclides recebe carta da editora saudando-o pelo sucesso do livro. A primeira edição esgotara em poucas semanas. O livro fora bem recebido pelos críticos da época, Araripe Júnior, José Veríssimo e Sílvio Romero.

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SE ACASO UMA ALMA SE FOTOGRAFASSE

Se acaso uma alma se fotografasse
De modo que nos mesmos negativos
A mesma luz pusesse em traços vivos
O nosso coração e a nossa face;

E os nossos ideais, e os mais cativos
De nossos sonhos… Se a emoção que nasce
Em nós, também nas chapas se gravasse
Mesmo em ligeiros traços fugitivos.

Poeta! tu terias com certeza
A mais completa e insólita surpresa
Notando, deste grupo bem no meio,

Que o mais belo, o mais forte e o mais ardente
Destes sujeitos, é precisamente
O mais triste, o mais pálido e o mais feio…

No dia 9 de junho de 1903, Euclides lança a segunda parte de Os Sertões. Uma crise orçamentária motivada pela crise do café fez com que o Governo cortasse verbas destinadas à construção e melhoramentos de obras públicas, e por isso, Euclides deixa o posto, obrigado. Porém, no dia 21 de setembro, Euclides é eleito por uma margem de 41 votos, membro da Academia Brasileira de Letras, na cadeira de Valentim Magalhãe, cujo patrono é Castro Alves.

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DESPEDIDA

No momento cruel da despedida,
Gelado o lábio, mudo, hirto, sem ar,
Eu vi sua alma, de ilusões despida,
Tremer à luz de seu tão triste olhar.

E eu não chorei… Seu peito – a alva guarida
De minha alma – chorava em doudo arfar…
E eu não chorei, mas eu senti a vida
Das lágrimas ao peso se curvar!…

Saí, andei, corri, parei cansado.
Voltei-me e longe, longe eu vi asinha
- Garça de amor fugindo pr’a o passado

Branca, pura, ideal, – sua casinha -
E as lágrimas de amor deixei – domado -
Constelarem da dor a noite minha!

Em janeiro de 1904, Euclides é nomeado engenheiro-fiscal da Comissão de Saneamento de Santos, porém, após três meses, por causa de um desentendimento com o gerente da City of Santos Improvements, Hugh Stenhouse, e com Eugênio Lefreve, diretor da Secretária de Obras Públicas, pede demissão. Na falta de dinheiro, volta a escrever para O Estado de São Paulo. Logo depois, Euclides, por indicação, é nomeado chefe de Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus, que estabeleceria a fixação limítrofe entre Brasil e Peru. Nesta oportunidade, conhece o Barão do Rio Branco.

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A CRUZ DA ESTRADA

Ah! que de vezes quando no ar desfila
A treva, e as sombras a amplidão negrejam
E das estrelas que no céu palejam,
O vasto poema aos pés de Deus cintila.

E mil perfumes as campinas pejam
E da floresta o coração destila
Um vago som que em nosso ser instila,
Gerando sonhos que em noss’alma adejam.

Quando há na terra uma magia imensa
Eu – que não tenho a vida d’alma – a crença
Nem uma prece que divina sagre-ma.

Eu (oh! dizei-me o que a solidão exprime!)
Eu rezo um nome – Minha mãe! – sublime
E me ergo a Deus nos brilhos de uma lágrima.

Em 1905, Euclides parte para Manaus para o Purus. Lá contrai forte impaludismo. Em julho deste ano ocorre o banquete de Curanja, em homenagem à duas comissões, onde Euclides discursa lamentando a ausência da bandeira brasileira. Em 1906, volta ao Rio de Janeiro e torna-se adido do Barão do Rio Branco. Publica o artigo “Entre os Seringais” e o “Relatório da Comissão Mista Brasileiro-Peruana de Reconhecimento do Alto Purus. Em julho, nasce quarto filho, Mauro, da esposa com Dilermando de Assis. A criança veio a falecer uma semana depois do nascimento. Em dezembro, toma posse na Academia Brasileira de Letras tendo sido recebido por Sílvio Romero.

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AMOR ALGÉBRICO

Acabo de estudar – da ciência fria e vã
O gelo, o gelo atroz – me gela ainda a mente
Acabo de arrancar a fronte minha ardente
Das páginas cruéis de um livro de Bertrand.

Bem triste e bem cruel de certo foi o ente
Que este Saara atroz – sem auras, sem manhã
A Álgebra criou – a mente a alma mais sã
Nele vacila e cai sem um sonho virente…

Acabo de estudar e pálido, cansado
Dumas dez equações os véus hei arrancado…
Estou cheio de spleen, cheio de tédio e giz

É tempo, é tempo pois de trêmulo ansioso
Ir dela descansar no seio venturoso
E achar de seu olhar o luminoso X!…

Euclides passa todo o ano de 1907 sem cargo fixo, aborrecido, mantendo-se de favores. Em novembro, nasce quinto filho, Luís, de sua esposa com Dilermando. Sua tuberculose volta a se manifestar. Em dezembro presta conferência sobre Castro Alves. Em maio de 1909, presta concurso para a cadeira de Lógica no Ginásio Nacional, onde hoje é o Colégio Pedro II. Fica em segundo lugar, atrás de Farias Brito, porém, Euclides renuncia meses depois.

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MEU POBRE CORAÇÃO TÃO CEDO ANIQUILADO

Meu pobre coração tão cedo aniquilado
Na ardência das paixões, ó pálida criança,
Revive à doce luz do teu olhar magoado;

E cheio de ilusões, de crenças e esperança,
Faz o castelo ideal das loiras utopias
Com a luz do teu olhar e o ouro de tua trança.

Quando pelas sombrias
Ondas do oceano o luar vastíssimo se espalma,
De todo o seu negror desprende as ardentias.

De teus olhos, assim, à luz divina e calma,
Dimanam, fulgurando, as ilusões e os versos
Das sombras da minha alma…

Euclides chega a dar dez aulas na cátedra de Lógica do Ginásio Nacional quando é morto tragicamente com quatro tiros por Dilermando de Assis, amante de sua esposa, na casa número 214 da Estrada Real de Santa Cruz, estação da Piedade, hoje, Quintino Bocaiúva, subúrbio do Rio de Janeiro. Seu enterro foi realizado no cemitério São João Batista, recebendo sua sepultura o número 3.026. Nesta época, Euclides morava em Copacabana. Deixou uma resenha incompleta sobre o Barão Homem de Melo e de Francisco Homem de Melo. Seus restos mortais se encontram em São José do Rio Pardo, São Paulo, e em Cantagalo, Rio de Janeiro. Ficamos por aqui, até a próxima, beijo grande.

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VOLTA À ALDEIA

E assim à aldeia torna el da triste figura.
Acabrunhado e triste, exangue e macilento
Na acorvada postura – em torno desalento
No desvairado olhar – um laivo de loucura.

Dias de Glória! Ideais! A alcantilada altura
De um sonho! Nada mais resta de tal intento.
Essa nossa carcaça vil – o Rocinante lento
E amigos carnais – o bacharel e o cura…

Feliz Herói! Que importa o riso mau das gentes
Se ele não sói entrar dentro de um crânio oco
Repleto das visões dos cérebros doentes…

Há uma coisa pior que é ir-se a pouco a pouco
Perdendo qual perdeste – ideais grandes e ardentes
E ardentes ilusões – e não ficar-se louco!

1 comentário

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Pedro Lage

Antônio Pedro Marinho Lage nasceu no dia 7 de março de 1952, no bairro de Botafogo no Rio de Janeiro. Começou o jardim da infância no colégio Santa Rosa de Lima, em Botafogo, vizinho de muro da casa de seu avô, onde passou parte de sua infância. Sua avó materna era grande leitora de Proust, Tolstoi e Machado de Assim, e foi quem o introduziu na leitura ainda na tenra infância. Neste mês, passaremos pela poesia do poeta Pedro Lage.

Turvo turvo turva aqui http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

BATEFORTE

as palavras, como usar?
como ousar dizê-las ternas
no sopro dos meus lábios untados aos teus?
trêmulas, não convencerão:
soarão desculpas, parecerão ridículas,
perecerão em teus olhos noturnos.
teu riso franco as dispersará,
tufão incrédulo sobre a cidade.
as frases cairão imprecisas,
na fuga das águas de um rio,
perdidas no mar.
prefiro o gosto úmido silêncio:
o sentimento, morena,
palavra alguma jamais pode alcançar.

Boa semana!
:-)

Foi sua avó quem o introduziu na literatura. Conhecia Paschoal Carlos Magno, poeta, dramaturgo e crítico de teatro. Sua avó o apresentou também ao poeta Manuel Bandeira, numa feira de livros na Cinelândia quando tinha seus dez anos. Pedro, nesta ocasião, perguntou ao poeta: “O senhor foi mesmo para Pasárgada?” Lugar mítico que se tornaria real, quando, aos vinte e cinco anos, Pedro visitaria, Pasárgada, a real, próxima a Isphahan, no Irã, numa viagem pela Eurásia, mas isso, é depois.

Elegia a José de Alencar Adnet Filho em http://pedrolago.blogspot.com

RESÍDUO

a Ruthinha

trago comigo a saudade levo
loura carrego seu peso meço
jamais me esqueço do meu amor
seus traços de sol escuros
roubam o clarão da Lua
na tela da noite fulva
fulmina bate depressa
escravo – meu coração!

Seu avô se chamava José. Era industrial de café. Sua avó, Olga. Seus pai se chamavam Antônio e Carmen, que, além de Pedro, tiveram, Toninho, Olga e Nena, essas duas, mais velhas. Toninho, aos seis anos, prematuramente, faleceu de câncer, e assim, a via seguiu com três irmãos. A casa dos avós era grande, ficava na Voluntários da Pátria, e lá, Pedro, gostava de descobrir esconderijos. Brincava também com suas primas, Mônica, que adorava cantar marchinhas, e Susie. Pedro gostava de jogar bola com o pai e no colégio Santo Inácio, e não tardaria a descobrir uma de suas grandes paixões, o Botafogo.

Paulo Mendes Campos aqui http://cartilhadepoesia.wordpress.com

COZINHA

ao Charles

no hospital há uma sala trancada
proibida a entrada
o brinquedo ali dentro custou ao governo
mais de seis milhões
os doentes não podem ousar o rim eletrônico;

enquanto isso, falta sonda na enfermaria sete
o velhinho, todo nu, agarra-se
às grades da cama, tonto, com medo do
tombo.

Pedro Lage tinha uma madrinha que se chamava “Tia Mary”. Era botafoguense. Levou-o para ver a final do carioca de 57. Botafogo e Fluminense, com direito a Mané Garrincha. Seis a dois para o Botafogo. Dalí em diante, Pedro Lage se tornou alvinegro. Frequentou o Maracanã até 71, quando, viu o Botafogo perder para o mesmo Fluminense “com gol roubado de Lula aos 44 do segundo tempo”. O futebol ficou apenas no colégio Santo Inácio.

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ARREBATE D’AMOR
ao Cacaso

permito-me arremeto fronde
enfrento a fonte de tuas águas
bebo seus sucos
nas narinas teus vapores
fluidos fardos deste amor
maior que todos os amores.

Pedro Lage terminou o segundo grau no Colégio Santo Inácio, onde, em 1970, lidera o motim estudantil da turma de medicina do terceiro ano colegial, em que treze dos trinta e cinco estudantes trocaram o curso pelo Miguel Couto. No Santo Inácio conheceu o poeta Luiz Olavo Fontes, o músico Arnaldo Brandão, o jornalista José Castello, o filósofo Guy van de Beuque, Gustavo Schnor, Antônio Luiz Salgado, Manoel Correia do Lago, e seu grande amigo Antônio Quinet. Naquele tempo, as meninas estudavam no Sion, e as festas de fim de semana, no Clube do Botafogo e no Olímpico, era o que se poderia fazer para encontrá-las.

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ESQUINA

manhã, sol forte, a prática é o critério da verdade
nasce a noite, vai-se a vida rebolando pr’outra parte
nem vale a pena pensar sem malícia e agilidade
tudo pode acontecer? não, tudo irá.
olhos abertos, mãos ávidas agarram-se ao mundo:
o amor e seus cabelos, as ilusões, o coração aprisionado.
o medo existe para ser vencido.
olhar as crianças e aprender o que não foi ensinado.
ensinar? sim… mas, quando?
E saber que, mais cedo ou mais tarde,
nem tudo vai dar errado.

Embora já tivesse aparecido como poeta em recitais/performances em 1972, Pedro Lage publicou seu primeiro livro, ‘Vai que vai’, em 1976. Com ilustrações de Anamaria Caravalho, o livro foi lançado na Oficina de Artes do prof. Hélio Rodrigues. Nesta época, Pedro frequentava o Pedro Lage, onde conheceu muita gente, teve aulas de cinema com Sérgio Santeiro e fez pequenos filmes de animação e aprendeu a discutir todo tipo de assunto. Tempo de formação.

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DESVENTURA

a Manuel Bandeira

janela aberta em meu quarto
brilha a luz de outra noite
eu não compreendo
tento olhar através de seus olhos
descobrir o que se passa
uma estrela, talvez, um amigo,
ou apenas o céu, o mistério infinito . . .

queria encontrar Juquinha sorrindo pra mim
deixar a tristeza de lado, queria voar…
mas a janela é bem alta e, assim, permaneço
com as costas cravadas na palha dura do catre.
somente uma luz me penetra: a luz fria de outra noite
que bebe tranqüilamente mais um pedaço de minha paixão.

Pedro chegou a frequentar a efervescência do Pier de Ipanema. Ficava perto da Laura Alvim. Porém, o lugar onde Pedro, de fato, estendeu sua gama de relações foi no Sol Ipanema. Na época em que publicou seu primeiro livro, Pedro frequentava a casa do Cacaso, onde se reunia uma rapaziada “da pesada”: Charles, Lui, Bia Carneiro, Massoca Fontes, Tony Lins, Chico Alvim e muitos outros. Nesta mesma época saiu a coletânea ’26 poetas hoje’, de Heloisa Buarque de Holanda, que Pedro veio a conhecer meses depois em São Paulo num evento de poesia no Theatro Municipal.

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ENQUANTO TERESA DORME

nasce a estrela fugitiva de outros universos
anunciando o final dos tempos
toca um cambalache doido, explode a guerra
passa a carruagem azul repleta de foragidos
e os corações das ruas estremecem em bombain
sentados na galáxia estrema
dois homens mortos conversam sobre a vida
um incêndio intenso toma conta do pensamento
do mundo, o nada se transforma em cor
as praias de mindano acordam com o maremoto
e as criancinhas fogem apavoradas
o reino do krenkrokren prepara-se para a sesta
um padre vira morcego
a faca mais-que-prateada cruza o espaço exterior
e vai cravar-se no peito da ursa-menor

em passadena os cientistas constroem a centopéia atômica
que irá sondar as rugas dos anéis de saturno
e uma animada partida de hóquei sobre patins
tem lugar nos pátios das escolas de pequim
um pingue-pongue de raios espouca por todos
os lados e as nove escolas-de-samba invadem
de uma só vez todas as avenidas
a lua desfalece sôfrega neste céu americano
e ruma para o japão, enquanto o sol,
vindo de angola, surge e ilumina

é quando teresa acorda,
estremunha quentinha na cama e, tranquila,
caminha nas areias de ipanema
pensando no amor que lhe apressa o coração.

Em 1976, Pedro Lage vai para São Paulo com um grupo de poetas para se apresentar no Theatro Municipal. Tratava-se do Encontro de Arte e Poesia. Nesta época, Pedro já se apresentava com a Nuvem Cigana. O clima não estava muito amigável. Chacal, Xico Chaves, Tavinho Paes, Charles Peixoto. No meio de uma vaia que acontecia, em virtude de um pedido de “um minuto de barulho” do Xico Chaves, Tavinho Paes entrou no palco e mijou. Logo depois, Pedro, entrou com Charles e cada um disse um poema. Em meio às vaias, alguns aplausos.

No calor da hora http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

ÀS CAGARRAS

Hoje, o dia anda cinza e chuvoso.
Não a esperei para o almoço, aliás, nada comi.
O Rio, cidade outrora maravilhosa, chora,
perseguido por fantasmas e temporais.
Já quase nem posso escrever-lhe,
nada lhe posso adiantar além de minha loucura.
Minha mão rouca dispara palavras que nada dizem.
A vida, impassível, se ausenta, e apenas o frio
desta noite sensata me entristece demais.
O tempo escorre, macio, implacável,
envolto em seu manto de quasar…
Não sei como isto vai terminar, continuo aflito.
E, ainda, por cima de tudo,
a inconstância do céu a massacrar
minhas tênues ilusões.
Ficarei por aqui,
posso vê-las do Leme ao Leblon.
O oceano imenso,
meus passos pequenos,
adeus.

Em dezembro de 1976, Pedro parte com seu amigo Lui Fontes para a Ásia. Ficou dois anos fora. Passou pela Itália, Turquia, Irã, Afeganistão, Paquistão. Ficou um ano na Índia, passando pelo Nepal, Ceilão, Cingapura, Birmânia, Tilâdia, Marrocos até voltar pela Europa. Voltou no final do ano de 1978. Esta viagem lhe renderia um livro, mas que não seria publicado imediatamente, antes, em 1981, Pedro publica De Mão em Mão.

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COMEÇO

em pompéia meus olhos desertos
e colunas empinadas como a piroca dos vetti
que custa mille lire apreciar,
as turrbinas do jato monstruoso ainda roncavam
na memória de meus ouvidos apavorados,

- saudades não havia –

e os dias foram-se perdendo pelas fontanas,
pelas vias – del corso superiore, veneto, grimaldi,
e amalfi, siracura, agrigento, cidades
e mais cidades,
até dar, assim por acaso, com os labirintos
de ortygia, onde as nuvens,
refletidas nos espelhos das ruelas submarinas,
se parecem com cabelos,

gaivotas exímias em vôos incríveis sobre
o mar – um chicote -
e a falta de ar vinha também na tarde pura,
hotel garda, via lombardia,
(- que deus te perdõe, meu filho, e te guie,
por esta tua louca aventura!)

viagem pela Europa, Oriente Médio e Índia é cercada de causos e profundas impressões. Lá, Pedro viu muitos mendigos no Irã, aviões de guerra voando baixo pelas praias ao norte do estreito de Ormuz, a repressão da polícia nos carregadores de sacos de arroz ou trigo, os inúmeros shopping-centers de Cingapura e seu horror ao comunismo, o templo de Madurai no sul da Índia, chá de cadeira na entrada do Afeganistão, os space cakes em Kabul, os ônibus kamikases do Paquistão e um jardim coberto de cerejas, cinquenta graus de Lahore, o estranho eclipse de Katmandu, a sensação de estar num planeta distante, a suiça Maya e a impressão de que tudo fora um sonho.

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CARTA

um detalhe,
um canto mais amargo de seu riso
sob a lua da cidade,
palavras sugeridas num sarro dos ombros
enquanto as sombras da noite nos ultrapassavam,

de pouco me recordo, as imagens se apagam,
mesmo a sua ao telefone, indiferente
à partida, ao nosso desejo, ao corte de tudo,
- triste representação!

até logo, uma cerveja, um baseado,
dois, três, cinco cigarros e a parede suja
do quarto quando nada mais parece adiantar,
os ridículos milhares de quilômetros,
este inverno turco,
os pulmões encardidos,
este beco sem saída,
e você?

Quando voltou da Ásia, Pedro foi morar em Santa Tereza, do fim de 79 até 80. Porém, pouco tempo depois, foi morar em Botafogo com Martha da Costa Ribeiro. Permaneceu neste endereço até separar-se, um ano depois. Em 81 publicou o livro De Mão em Mão e foi morar na Rua Icatu, onde, em diferentes meses, dividiu o aparamento com Chacal e com Ledusha. No verão de 81/82, Pedro começa uma experiência com o pessoal do Rajnesh e com o grupo que iniciava o Circo Voador. Pedro ajudou a fundar o Circo, ajudando o Perfeito Fortuna a levantar fundos e até mesmo carregando cadeiras.

Aqueles olhos azuis http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

ABISMO

deste abraço
ao avanço da estrela mais íngreme
- apenas um passo,

os lugares menos reconhecíveis,
as lembranças mais frouxas
e uma voz rouca
fecham sobre mim seus lábios de tempestade
no pálio pálido da madrugada,

é tarde,
te amo

Em 1981, Pedro começa a frequentar as oficinas de teatro do Amir Haddad. Lá conhece Rosa, Sérgio Luz, Aninha Cretton e muitos outros. No meio disso, havia as peladas do Caxinguelê. Lá se reuniam o Vinicius Cantuária, Rodrix, Guabira, Novelli, Didito, Lula Lindeberg, Maurício Maestro. Chacal às vezes jogava. De 79 a 83, foram mais ou menos umas duzentas peladas. Era uma confraternização muito importante, eram encontros. Muitos artistas, sobretudo músicos. Nesta época, Pedro já havia passado por uma experiência na FACHA fazendo Comunicação, porém, não se encaixou. Escolheu a Odontologia como profissão.

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FUTUROS AMANTES

..e quem sabe, então, o Rio será
alguma cidade submersa…
Chico Buarque

Um dia, porém,
quando não mais houver, talvez, nem noites nem dias,
e do Rio restar somente, dissipada a atmosfera,
um indício, uma marca deixada nas pedras,
nas veias calcinadas do planeta;
quando viajantes remotos do Universo
por acaso aqui chegarem
e resolverem buscar algum signo sobrevivente
da história morta desse pequeno mundo,
encontrarão rabiscado no espaço azul do teu quarto,
perdido pelas cinzas da cidade,
um retrato – apenas um traço: a imagem fóssil
do amor inscrito por aquele que viveu louco por ti,
(e vive ainda, na imatéria de outros mundos)
e os amantes siderais, com esse traço,
se lembrarão do que é preciso,
aprenderão que nunca é tarde,
e hão de amar-se assim, perdidamente,
por toda a eternidade.

Pedro se tornou dentista. E por isso, tinha um conflito social: Não conseguia cruzar seus amigos artistas com seus amigos dentistas. Pedro costuma dizer que “Odonto tem um pouco a ver com artes plásticas, com poesia tem muito pouco,embora eu até tenha feito umas ligações, mas, não tenho muito saco pra explorar este filão. Não acho interessante ficar poetizando a “curva de spix” ou a “curva de Wilson”, ou as “polarizações axiais das cúspides de trabalho”. Por ironia, Pedro veio a se tornar o dentista de muitos do pessoal das artes. Sorriso total.

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VER DE TI

ver te quero – imenso trecho de desejo
suores trêmulos
penso, não vejo
te quero dentro
ver-te aqui – névoa sobre mim.
acordar – sair do sonho trágico
o ancorar mágico do dia
trapézio de vidro sobre o fio
da cidade.
de madrugada, os animais morrem
em silêncio, à beira do rio.

manhã fria – o outro lado do verso te espera
morceguiando a esfera sombria
figuras funestas fecham o círculo de ferro
sempre elas, na terra e no céu
casamatas na vista acirrada do artista
salto sobre o nada -
sem a bruma, pela brecha,
com seus peitos de mãe-musa,
cuida de ti em seu leito
e te mata.
de madrugada, os animais morrem
em silêncio, à beira da estrada.

Quando voltou do Marrocos, Pedro foi assistir ‘Trate-me Leão’ montado pelo Asdrúbal Trouxe o Trombone no Morro da Urca. Lá, reencontra com Charles Peixoto e Chacal, da Nuvem Cigana, Perfeito Fortuna e Evandro. Foi morar novamente em Santa Teresa. Nesta época conhece o Milton Machado e Malena Barreto. Também participa da reuniões na casa do Cacaso, onde conhece o Chico Alvim. Inicia uma amizade com Ana Cristina Cesar. Também nesta época houve um recital de poesia na Álvaro Ramos organizado pela Ana e sua prima Grazinska onde foram a Nuvem Cigana e o Ferreira Gullar.

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DUAS FACES

a noite vazia, a noite nua,
um palmo de lua, a noite completa,
sereia lânguida a meio luar,
jogo de sombras, céu a reinar…
mas já o dia mostra suas garras líquidas,
- suas guerras íntimas:
o lado mais louco do despertar,
penhascos a que me aferro – o perigo!
nado bem pouco,
não me afogar é o que persigo,
não me perder nos negros rios do azar,
à revelia da lua, da noite do eterno mar -
o príncipe mar, o rei mar, a deusa mar – amar!

A experiência com o Tá na Rua é do início dos anos 80. Pedro frequentava as oficinas do Amir Haddad. Formou-se um grupo que logo levou o nome de “Instituto”. Em 83, Pedro foi morar no Jardim Botânico. No Tá na Rua, Pedro conhece Rosa Douat e Sérgio Luz, que viriam a ser seus grandes amigos para a vida toda. Era teatro de rua aos domingos, oficinas na casa do estudante às segundas e reuniões nas manhãs de terça e quinta com o grupo que não era o titular do Tá na Rua. A experiência culminou na montagem de “Morrer pela Pátria” no Teatro Villa Lobos em 1985.

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SILENCIO, O SILENCIO, SILENCIO

ouve vozes, se assusta, o meu silêncio.
arrojam-se vozes das torres do dia quente,
o silêncio noturno da alma desprega-se,
abandona o frescor cristalino,
transpira, se alarma, ajeita o nó da bravata,
abre seus grandes olhos insones -
brilhantes olhos, eloquentes de silêncio.
o silêncio vazio da alma estilhaça-se
na lama do dia e sorri respingando de preces,
as vozes, os sonhos, o começo e o fim da condição
humana, não humana, humana.
para onde vai o silêncio no isolamento dos passos
pelo vento áspero da tarde?
quem passa não sabe: ele arde, longe das horas,
das rodas pensantes da horda,
a flor do silêncio sorri tranquilamente
entre a última morte e o próximo encontro
(ou pensamento)
o silêncio se nutre na floresta do deus-mar,
ondulante senhor dos segredos, irmão do tempo sem dono,
o silêncio fio de espada – sem adeus, sem amor, sem engano,
o silêncio apenas, mais nada – amante das ondas-fantasmas:
o Cosmos é a sua morada.

Em 1983, Pedro conhece Juliana Prado Teixeira no Tá na Rua. Não demoraria muito para ficarem juntos, se casarem e terem seu primeiro filho, Manoel. São vinte e oito anos juntos. Viravolta foi publicado em 1985, livro que conta toda a experiência da viagem à Europa e Ásia com seu amigo Luis Olavo Fontes. Poemas e um pouco de prosa. Pedro neste época morava no Jardim Botânico com Juiana e o pequeno Manoel. Permance lá até 1992, quando se muda para Teresópolis.

Há, há, há em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

TEORIA

Poder simplesmente esquecer-te
no instante em que partíssemos
e amar-te com extrema ternura
assim que nos reencontrássemos

Fazer amor aventura como se
nunca de amar nos deixássemos

(um beija flor vem beber
preso a seu vôo de átomo
as gotas-diamantes que explodem
na límpida cachoeira do parque

nego beija-flor na tarde cintila
imerso no perfume das pedras lavadas
com o sêmen da montanha viva)

Há alguns bons anos, Pedro Lage é responsável por um recital de poesia que se chama ‘Conversa Portátil’ em homenagem a um livro do poeta Murilo Mendes. Começou em Teresópolis, no Bar Cottage. Juliana fazia esquetes teatrais todo sábado a noite com Airton Rebelo chamados Teatro a Vapor. Pedro começava com dez minutos falando poemas. O primeiro poeta era Augusto dos Anjos. Já estamos no ano de 1994. Depois Pedro encontra com Henrique Cukierman no ônibus voltando para o Rio e o convidou para participar. Henrique permaneceu no recital por dez anos. Sempre homenageando um poeta com convidados. Jorge de Lima, Murilo Mendes, Maiakovski, Brecht, Lorca e outros tantos. Muitos passaram pelo ‘Conversa Portátil’, muitos, ali, inclusive, recitaram pela primeira vez em público.

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O FINAL

Aí, ela teve que me deixar.
Contra a vontade e tudo o mais.
Amor possuía mas tudo tem um limite,
chega uma hora em que não dá mais, aliás,
elas sempre acabaram me deixando, um dia,
desde às primeiras lembranças.

Laura me largou no meio de uma sessão de cinema;
Rita perdeu-se na Serra, (fui atrás dela,
sofri, dormi ao relento, o diabo);
Dora deixou-me com as calças dependuradas na noite,
fazia frio, vaguei horas na escuridão;
Elizete partiu de repente, nem um bilhete, nada;
Eugênia espetou-me um postal na cortina do quarto;
Mary, uma foto antiga, muita saudade;
Luiza me abandonou de uma maneira radical,
torto, irrecuperável quase.

Ela também me deixou, ora, por que não haveria?

O lançamento de Entrevista com o Chipanzé foi em um bar GLS na Rainha Elizabeth em 1996. Houve um recital com direito a uma pequena banda formada por Gil de Windsor, George Clark e Chico Lá. Depois o lançamento foi no Museu da República até chegar em Teresópolis. Pedro já com dois filhos, Manoel e Nicolau, ambos, fruto do casamento com Juliana. A Conversa Portátil já bem estabelecida e a poesia caminhando bem.

Tradução de Le Bateau Ivre no http://pedrolago.blogspot.com

DO AMOR

A poesia se escreve no silêncio de um quarto vazio
- um parque vazio de estrelas espelhos e sombras,
gruta de beijos-cascatas e sabiás brejeiros que por
ali não passam, mas despejam seu aroma, seu sabor
em algum canto do Universo – e um bilhete na mão.

A poesia se inscreve num olhar de mulher nesse quarto,
a mesma noite de frio – ou no calor de um verão invencível
em que o poeta não se derreta jamais em si mesmo…

A poesia eu não escrevo, eu muito,
o manto desta verdade arde em meus olhos vivos,
tuas lágrimas sem conta, o luar mais triste sobre a canção
feita pra ti, por mim, por todos nós que somos um – e teu,
pra sempre teu.

‘Cal do Cosmos’ foi publicado em 2004. Após quase dez anos sem publicar, Pedro, então com 59 anos, voltaria. Ao longo desse período, desenvolvendo a ‘Conversa Portátil’, percorreu todos os lugares onde ainda se diz poesia no Rio de Janeiro. Passaria também outro hiato de sete anos até seu último livro ‘Dicionário de Estrelas’, lançado na Casa de Cultura Laura Alvim, em 2011. Este, reunindo seus 35 anos de poesia, com seleção de poemas de seus livros e uma penca de inéditos.

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SABER QUE TE AMO

à minha Juju

Saber que te amo – apenas um prisma
da verdade que nos recorta
com sua alameda de abismos,
sua força de vida, seu desespero
de um dia ter de renunciar a esse tesouro.

Saber que te amo -
pôr-do-sol e aurora concorrentes,
um dia recoberto por farinha de estrelas,
neve crepitante de encontros e solidões
sem limite.

Saber que te amo -
entrego-me a este aprisco e me preparo
para a morte deliciosa dos corações que deliram
imersos na certeza de ter somente um amor
verdadeiro.

Saber que temo – que te amo assim,
infinitamente,
por inteiro.

Então, Pedro Lage torna-se avô pela primeira vez. Francisco, ou Chiquinho. E disse que a poesia ficou em suspenso quando ele veio, tamanha era a satisfação, mas, logo depois, voltou aos trabalhos que vieram a compor ‘Dicionário de Estrelas’. E por aqui ficamos nesta pequena antologia ao poeta Pedro Lage. Na semana que vem, outro universo poético, outra biografia, caminho, percalço, liame entre um poema e outro.

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SE PODES

Se podes andar sobre as águas
não és melhor que uma palha,
se podes voar pelo espaço
não és melhor que uma mosca;
conquista teu coração
para que possas tornar-te alguém.
Abdulah Ansari

Se podes exterminar outro,
não és melhor do que um vírus;
es podes destruir uma cidade, uma floresta,
não és melhor do que um míssil, uma motosserra.
Afeiçoa-te primeiro a teu próprio coração
para que possas amar-te e amar alguém:
só assim frutificarás realmente,
e tua vida não terá sido em vão.

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Paulo Mendes Campos

Paulo Mendes Campos nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, no dia 22 de fevereiro de 1922. Era Carnaval. Escapou de ser bissexto por um dia, pois, naquele ano, haveria o 29. Filho do médico e escritor Mário Mendes Campos e de D. Maria José de Lima Campos. Tinha nove irmãos, sendo ele, o quinto homem. Seu pai trabalhava no município de Dom Silvério, hoje, Saúde, no interior de Minas, onde passou o início da infância. Neste mês, o poeta Paulo Mendes Campos. Evoé!

Nos píncaros da paranóia em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

OS DOMINGOS

Todas as funções da alma estão perfeitas neste domingo.
O tempo inunda a sala, os quadros, a fruteira.
Não há um crédito desmedido de esperança
Nem a verdade dos supremos desconsolos -
Simplesmente a tarde transparente,
Os vidros fáceis das horas preguiçosas,
Adolescência das cores, preciosas andorinhas.

Na tarde – lembro – uma árvore parada,
A alma caminhava para os montes,
Onde o verde das distâncias invencidas
Inventava o mistério de morrer pela beleza.
Domingo – lembro – era o instante das pausas,
O pouso dos tristes, o porto do insofrido.
Na tarde, uma valsa; na ponte, um trem de carga;
No mar, a desilusão dos que longe se buscaram;
No declive da encosta, onde a vista não vai,
Os laranjais de infindáveis doçuras geométricas;
Na alma, os azuis dos que se afastam,
O cristal intocado, a rosa que destoa.
Dos meus domingos sempre fiz um claustro.
As pétalas caíam no dorso das campinas,
A noite aclarava os sofrimentos,
As crianças nasciam, os mortos se esqueciam mortos,
Os ásperos se calavam, os suicidas se matavam.
Eu, prisioneiro, lia poemas nos parques,
Procurando palavras que espelhassem os domingos.
E uma esperança que não tenho.

Paulo nasceu na Rua dos Otoni em Belo Horinzonto, mas, quando Paulo fez dois aos de idade, seus pais foram para o interior de Minas. Seu pai precisava trabalhar. Antes disso, Guimarães Rosa, estudante e vizinho de Paulo, o carregava para sua república, onde esperava que fizesse gracinhas, revelou-lhe a história 25 anos depois. Paulo abriu o olhos para vida na cidade de Saúde, onde, viu “o automóvel, um cavalo, um caçador de perna de pau, a morte dentro de casa, rasgou as pernas no arame farpado e tomei sorvete pela primeira vez”. Para Paulo, Saúde, hoje, Dom Silvério, “é um album de estampas”.

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MADRIGAL 1942

Mulher
que interrompe a primavera de um exército
repartindo cartas suicidas e peixes solitários
que insinuas o desespero sem vigência
e os amoralismos cruciais do coração
fantasma de organdi e nuvens enigmas
viajando para os lados de um soluço
mulher fatal como o quadro instantâneo
que realeja na memória um céu especial
comício de poemas obscuros
ausente dos acampamentos da madrugada
carne dominical falsamente casta
intrusa das salas dos concertos sinfônicos
mulher cem vezes mulher
cem vezes mulher de meu poema
retórica dos madrigais de ternura precipitada
ladra sobretudo dos propósitos pacíficos
alto e sorridente eflúvio de repente
mulher
carta enlutada mentida de rosa
amargura corrosiva das raízes
Em ti me crucificara
como um pássaro
sem ti os jardins não são poemas
os hemisférios da alma não se entendem
em ti
mil vezes em ti eu remo para mais adiante
pesquisador vencido catedral abstrata
por ti perdi-me mendigo nos parques
e nos comboios irremediáveis
que fogem gotejando um tempo lento e venenoso
por ti os telefones floresciam
ou se cobriam de lutos e mistérios
por ti colecionando tardes e alvoradas
eu nadava para o delta dos sortilégios
e alevantava-se um clamor maior que a esperança
dos lados de onde me chegam flores mortuárias
um sentimento de chamas
e um prelúdio infinito.

Em 1929, pula de um bonde na rua da Bahia, em Belo Horizonte, cai no chão, quebrando o braço, com um carro parando em cima. Ainda no colégio, Paulo ouviu de um padre professor entusiasmado com seu desempenho nas aulas de português “Ainda vai ser um escritor!”. Após este período em Dom Silvério, aos seis anos de idade, Paulo volta a Belo Horizonte com os pais, no ano seguinte ingressa no Ginásio. As mudanças de cidade são constantes e Paulo faz o Ginásio em três colégios, em três cidades: Belo Horizonte, Cachoeira do Campo e, enfim, São João Del Rey, onde, conhece, aluno de outro ginásio, um que viria a se tornar um grande amigo, Otto Lara Resende.

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NO VERÃO

Inventaremos no verão os gritos
Verberados na carta episcopal.
Somos apenas pássaros aflitos
Que nada informam da questão moral.

Tens os olhos audazes, infinitos,
E eu sinto em mim o deus verde do mal,
De nossas almas nascerão os mitos,
De nossas bocas uma flor de sal.

Deitaremos raízes sobre a praia
A jogar com palavras inexatas
O desespero de se ter um lar.

E quando para nós enfim se esvaia
O demônio das coisas insensatas
Nossa grandeza brilhará no mar.

Paulo tinha o sonho de ser aviador. Pouco tempo depois de terminar o ginásio, em Belo Horizonte, Paulo, que ficara amigo de Otto em São João Del Rey, ingressa no grupo literário adolescente de que Otto fazia parte. Lá conhece João Etienne Filho, Hélio Pellegrino e Fernando Sabino. “Foi um deslumbramento” recorda. Paulo, desde a infância, já escrevia alguma coisa, contos e alguns poemas. Através desse grupo literário, Paulo começa a publicar alguns textos em pequenos jornais. Já com dezenove anos, descobre Mário de Andrade, Maiakovski, Baudelaire, Rimbaud e outros, “triste e impenetrável como um cisne de feltro”.

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SENTIMENTO DO TEMPO

Os sapatos envelheceram depois de usados
mas fui por mim mesmo aos mesmos descampados
E as borboletas pousavam nos dedos de meus pés.
As coisas estavam mortas, muito mortas,
Mas a vida tem outras portas, muitas portas.
Na terra, três ossos repousavam
Mas há imagens que não podia explicar; me ultrapassavam.
As lágrimas correndo podiam incomodar
Mas ninguém sabe dizer por que deve passar
Como um afogado entre as correntes do mar.
Ninguém sabe dizer por que o eco embrulha a voz
Quando somos crianças e ele corre atrás de nós.
Fizeram muitas vezes minha fotografia
Mas meus pais não souberam impedir
Que o sorriso se mudasse em zombaria
E um coração ardente em coisa fria.
Sempre foi assim: vejo um quarto escuro
Onde só existe a cal de um muro.
Costumo ver nos guindastes do porto
O esqueleto funesto de outro mundo morto
Mas não sei ver coisas mais simples como a água.
Fugi e encontrei a cruz do assassinado
Mas quando voltei, como se não houvesse voltado,
Comecei a ler um livro e nunca mais tive descanso.
Meus pássaros caíam sem sentidos.
No olhar do gato passavam muitas horas
Mas não entendia o tempo àquele como agora.
Não sabia que o tempo cava na face
Um caminho escuro, onde a formiga passe
Lutando com a folha.
O tempo é meu disfarce.

Em 1945, Paulo tinha vinte e três anos. Largou todos seu pequenos empregos em Belo Horizonte e foi “com mãos abanando” para o Rio de Janeiro no trem noturno. Antes, chegou a dirigir o suplemento literário da Folha de Minas e até a trabalhar na construção civil de um tio. Seu amigo Fernando Sabino já estava no Rio de Janeiro e Paulo veio encontrá-lo, e também para conhecer o poeta chileno Pablo Neruda, em viagem na, então, capital do país. O Otto e o Fernando vieram depois.

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RENASCIMENTO

Mais fria do que o sono do meu túmulo
É minha soledade, quando cúmulo
Da carícia mortal se esvai, essência.
Vértice perigoso da inocência,
Entrega-me a manhã seu cemitério,
Quando, extintas espadas, sigo sério
Sorrindo para quem foi num momento
Chama que se desfez nas mãos do vento,
Belo animal que foge ternamente
E em lento movimento está presente
Nos círculos que pensam no meu ser.
Descobre-me a luz crua do prazer
E a sombra do langor se arrasta lenta
No sulcos de meu rosto; se ela tenta,
Beijando-me, apagar a minha face,
Onde o seu lábio vai, a voz renasce,
Nítida, calma, quase com tristeza.
A escuridão despede-se, e a certeza
De um deus fere a vidraça, verdes chamas,
Labaredas do céu, fogo nas ramas
De uma roseira que sobe à janela.
Depois, se o sol maduro se rebela
No mar, sobre as espumas, nós, constantes
Da memória das vagas inconstantes
Vamos colher a flor do tempo. Ausentes
Nos beijamos, tranquilos, transparentes.

Paulo começou a fazer faculdade de Odontologia, dois anos. Depois fez um pouco de Direito e mais um pouco de Veterinária. Queria também ser aviador, o que também não conseguiu fazer. Gostava de dizer que “diploma mesmo, só o de datilógrafo”. Dizia que “deveria ter estudado filologia”. Mas o que gostava mesmo era de literatura, das palavras e da maquina de escrever. Já no Rio de Janeiro, começou a colaborar para O Jornal, O Correio da Manhã e para o Diário Carioca. Em 1947, foi admitido no IPASE e foi fiscal de obras daquele orgão. Neste período trabalhou também como Diretor da Divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional.

poema que fiz para o meu pai http://pedrolago.blogspot.com

A MORTE

Ontem sonhei com a morte
Por duas horas desertas:
As pálpebras não se fecharam,
Antes ficaram abertas.
Os olhos esbugalhados
Cravados num ponto incerto,
Por fora desesperados,
Por dentro o mal do deserto.
Todo de preto vestido
Me aparteava a nudez
De estar ali sem sentido
De um mundo que se desfez.
Se alguém quisesse podia
Cuspir-me em cima do rosto
O nojo que lhe subia
De ver-me assim tão composto.
Talvez um ríctus na boca
O meu segredo explicasse,
Foi-me sempre a vida pouca
E era a morte o meu disfarce.
Vi-me no esquife hediondo,
As mãos cruzadas de vez,
Vi-me só me decompondo,
Doído de lucidez.
Senti o cheiro das flores,
As velas que crepitavam,
O enjôo forte das cores
Que minha morte enfeitavam.
Vi um remorso ingente
Chegar ao pé do caixão,
Um animal repelente
Feito de amor e paixão.
Um padre de voz plangente
Depois de orar disse amém,
Em torno os olhos da gente
Me sepultavam também.
Sei que tudo era aflição
No meu destino acabado:
O terror da solidão
Ia comigo deitado.

Em 1951, Paulo publicou seu primeiro livro de poemas, ‘A palavra escrita’, no mesmo ano em que se casou com Joan, de ascendência inglesa. Com ela teve dois filhos, Gabriela e Daniel. Paulo participou, nesta época e até o fim de sua vida, da boêmia carioca do cafés do centro da cidade, Vermelhinho, onde, iam figuras como Carlos Castelo Branco, Carlos Drummond de Andrade e Tomás Santa Rosa. Eram os anos cinquenta, e Paulo, com seus vinte anos, começava a ganhar a vida.

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JOSETTE

Colunas de tu corpo. O real
Das coxas longas onde se implanta o ventre
Leve. O branco do seio
Dando o leite do sonho ao animal
Da noite acostumado a sofrer sede.
Teu perfil tem a linha imaginária
Das mais felizes frases literárias.
És quem tu és, és a rosa e o rosicler.
Quando caminhas vais frisando a rua
De uma sequencia clara de escultura.
És sol agora, ontem na praia foste a lua.
És tudo o que quiser o meu poema,
Mas não és o orvalho que roreja nem és pura.
Possuis a elegância de uma ave
De pés espapaçados (as mais belas)
E tens do mar o frescor suave e a voz tão grave.
Como a vaga empinada que se espraia
Abres equestres movimentos no vento. Teus cabelos
São as últimas lembranças lúcidas que me restam.
Calmarias de ilhas verdes, teus olhos,
Ah,
São teus olhos.

Paulo teve vários pequenos empregos. Desde sua infância e adolescência em Minas Gerais, trabalhando com o tio, depois, contribuindo para alguns jornais. Costumava dizer que o dinheiro durava para viver quinze dias. No Rio, procurava qualquer coisa para sobreviver. Foi morar numa pensão no Leme chamada Palacete de Mon Rêve, cuja comida era horrível. E foi Drummond quem o arranjou dois empregos e o emprestou uma máquina escrever. Primeiro no Instituto Nacional do Livro onde começou a trabalhar para um dicionário da literatura brasileira. Trabalhava com uma mulher chamada Eneida.

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POEMA DIDÁTICO

Não vou sofrer mais sobre as armações metálicas do mundo
Como o fiz outrora, quando ainda me perturbava a rosa.
Minhas rugas são prantos da véspera, caminhos esquecidos,
Minha imaginação apodreceu sobre os lodos do Orco.
No alto, à vista de todos, onde sem equilíbrio precipitei-me,
Clown de meus próprios fantasmas, sonhei-me,
Morto do meu próprio pensamento, destruí-me,
Pausa repentina, vocação de mentira, dispersei-me,
Quem sofreria agora sobre as armações metálicas do mundo,
Como o fiz outrora, espreitando a grande cruz sombria
Que se deita sobre a cidade, olhando a ferrovia, a fábrica,
E do outro lado da tarde o mundo enigmático dos quintais.
Quem, como eu outrora, andaria cheio de uma vontade infeliz,
Vazio de naturalidade, entre as ruas poentas do subúrbio
E montes cujas vertentes descem infalíveis ao porto de mar ?

Meu instante agora é uma supressão de saudades. instante
Parado e opaco. Difícil se me vai tornando transpor este rio
Que me confundiu outrora. Já deixei de amar os desencontros.
Cansei-me de ser visão, agora sei que sou real em um mundo real.
Então, desprezando o outrora, impedi que a rosa me perturbasse.
E não olhei a ferrovia – mas o homem que sangrou na ferrovia -
E não olhei a fábrica – mas o homem que se consumiu na fábrica -
E não olhei mais a estrela – mas o rosto que refletiu o seu fulgor.
Quem agora estará absorto? Quem agora estará morto ?
O mundo, companheiro, decerto não é um desenho
De metafísicas magnificas (como imaginei outrora)
Mas um desencontro de frustrações em combate.
nele, como causa primeira, existe o corpo do homem
- cabeça, tronco, membros, as pirações e bem estar…

E só depois consolações, jogos e amarguras do espírito.
Não é um vago hálito de inefável ansiedade poética
Ou vaga advinhação de poderes ocultos, rosa
Que se sustentasse sem haste, imaginada, como o fiz outrora.
O mundo nasceu das necesidades. O caos, ou o Senhor,
Não filtraria no escuro um homem inconsequente,
Que apenas palpitasse no sopro da imaginação. O homem
É um gesto que se faz ou não se faz. Seu absurdo -
Se podemos admiti-lo – não se redime em injustiça.
Doou-nos a terra um fruto. Força é reparti-lo
Entre os filhos da terra. Força – aos que o herdaram -
É fazer esse gesto, disputar esse fruto. Outrora,
Quando ainda sofria sobre as armações metálicas do mundo,
Acuado como um cão metafísico, eu gania para a eternidade,
sem compreender que, pelo simples teorema do egoísmo,
A vida enganou a vida, o homem enganou o homem.
Por isso, agora, organizei meu sofrimento ao sofrimento
De todos: se multipliquei a minha dor,
Também multipliquei a minha esperança.

O segundo emprego que Drummond arranjou para Paulo foi numa publicação trimestral da Câmara de Comércio chileno-brasileira sob a direção de Sílvio Cunha. Mas quando a verba do Instituto do Livro que o sustentava acabou e a revista da Câmara do Comércio resultou insolvente, o poeta Augusto Frederico Schmidt, também ajudou Paulo arranjando-lhe um lugar no Correio da Manhã. Embora “apadrinhado” Paulo teve que mostrar que sabia escrever uma reportagem, pois, Paulo Bittencourt, quando soube que era parente de um amigo seu, não podia acreditar que Paulo soubesse redigir uma oração com sujeito, verbo e complemento.

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LITOGRAVURA

Eu voltava cansado como um rio.
No Sumaré altíssimo pulsava
a torre da tevê, tristonha, flava.
Não: voltava humilhado como um tio
bêbado chega à casa de um sobrinho.
Pela ravina, lento, lentamente,
feria-se o luar, num desalinho
de prata sobre a Gávea de meus dias.
Os cães quedaram quietos bruscamente.
Foi no tempo dos bondes: vi um deles
raiar pelo Bar Vinte, borboleta
flamante, touro rútilo, cometa
que se atrasa no cosmo e desespera:
negra, na jaula em fuga, uma pantera.

Passei a mão nos olhos: suntuosa,
negra, na jaula em fuga, ia uma rosa.

Quando era fiscal de obras do IPASE, Paulo passava duas ou três noites por semana no planejamento de um grande negócio: Uma livraria de alta classe em Copacabana. Levou-se meses discutindo se uisque, chá ou sorvete seria servido na livraria. O investimento viria de Carlos Lacerda, Marcelo Garcia e de Fernando Sabino. Mas não chego-se a conclusão nenhuma e a livraria não foi aberta. Paulo dizia que queria trabalhar na China após a guerra na UNRRA (United Nations Relief e Rehabilitations Agency) mas, como não havia feito o curso de paraquedista, não deu. Verdade ou não, vale lembrar.

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CANTIGA PARA TOM JOBIM

Quem for além simplesmente
deste espelho transparente
há de sumir? ou se ver?
relembrar? ou esquecer?
Quem for além simplesmente
deste espelho transparente
há de sentir? ou sonhar?
prosseguir? ou regressar?
Mas quem achar uma seta
que lhe apontar o sentido
neste espelho, há de se achar
no paraíso, perdido,
onde achará o poeta
de repente ou devagar.

Com o livro de poemas ‘O Domingo azul do mar’, de 1958, Paulo recebe o Prêmio Alphonsus de Guimaraens do Ministério da Educação. Em 1960, Paulo publica seu primeiro livro de crônicas reunidas. São crônicas datadas de 1946, anos 50 e início dos anos 60 publicadas no Diário Carioca, revista Manchete e de alguns jornais dos Estados. A esta altura, seguindo de certa forma a ênfase do capixaba Rubem Braga, Paulo se dedica à escrita de crônicas, algumas antológicas, que poderiam ser consideradas como pequenos contos.

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BALADA DE AMOR NA PRAIA

Ai como sofre o corpo que se esfrega
no corpo que se entrega e não se entrega

é como a convulsão da preamar
a querer atirar o mar no ar

a onda rija bate como espada
nos musgos da mulher ensolarada

guelras arfantes pernas semifusas
grifam sombras morenas de medusas

e a verde rocha em V vê o duelo
do peixe azul fisgado no amarelo

compondo um bicho humano sobre a praia
que se desfaz em rendas e cambraia

moluscos musculares do desejo
decápode do homem – caranguejo

anêmonas e polvos complacentes
a resvalar abismos inocentes

como se amar no mar fosse encontrar
nossa animalidade elementar

ou fosse o ser na praia (duplicado
de amor) bicho de amor do mar gerado

cujas garras fatais persuasivas
deslizam pelas angras sensitivas

pelos quadris que dançam pelos frisos
conjugais – ziguezague de mil guizos –

garras que buscam a melhor textura
no ventre no pescoço na cintura

já quase a devorar a lua cheia
no litoral do céu feito de areia

e o sol diz nomes feios para a lua
pedindo que ela entenda e fique nua

para que possa a coisa hermafrodita
mudar a vida breve e infinita

e quando enfim de amor o bicho – arraia
na confusão voraz freme e se espraia

é como a convulsão da preamar
que conseguiu jogar o mar no ar

A revista Manchete era comprada, curiosamente, por pessoas que, de fato, não eram do interesse da revista, porém, lá dentro havia um objeto de desejo: a crônica de Paulo Mendes Campos. Paulo desenvolveu-se na crônica. Algumas autobiográficas e célebres, como a que lembra do tempo em que morava no Palacete Mon Rêve, no Leme, uma espécie de cortiço, e ouviu, no quarto ao lado, uma briga de dois namorados sob o tema da infidelidade. Muitas delas faziam um cruzamento entre sua vida e a literatura, algumas eram prosas poéticas. Em 1962, Paulo publica outra reunião de crônicas ‘Homenzinho na Ventania’, três anos depois, ‘O Colunista do Morro’.

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SALA DE JANTAR

Faltava um tema a nossa companhia,
Faltava a nossa mesa certo espaço:

O mar em nossa casa não bramia,
Mar de gravura dá certo embaraço.

A chuva de repente era alegria,
À falta de amplidão para o fracasso:

A serra do curral nos elidia,
Só o céu nos abria seu compasso:

Só o dente do sal nos conhecia,
Só no prato de sopa era o sargaço.

So no pano um brigue estremecia.
Só na vaga do vento nosso abraço.

Em 1966, Paulo republica os livros de poemas ‘Testamento do Brasil’ e ‘Domingo Azul do Mar’. Todas elas pela Editora do Autor, que vinha publicando todos os contemporâneos. Paulo já fazia parte de uma “geração”, tanto de mineiros, ao lado de Fernado Sabino, Murilo Rubião, João Etienne Filho, Carlos Castello Branco, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino, quanto de cronistas, com Rubem Braga, e alguns dos supracitados. Em 1967, publica a reunião de crônicas ‘A Hora do Recreio’ pela Editora Sabiá.

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VARANDA

De lá de via um muro transparente
E além uns mares lentos e facundos,
Roteiros retorcidos, submundos
De porões recriados num repente
De luz das vesperais de antigamente,
Trilhas navais, romances vagabundos,
Entrelaçados mares oriundos
De ser a gente um ente diferente
Que só pretende o que não vê e vê
De olhos limpos aquilo que não há,
Gente desmedida que descrê
De quanto existe para ver e está
Sempre eludindo o muro e que demanda
O céu a terra o mar de uma varanda.

Sobre o Rio de Janeiro, Paulo dizia que “descobri que amo esta cidade por me sentir exilado em outras” [...] “Amo o bairro de Ipanema. Foi Álvaro Moreyra o primeiro a dizer que a cidade do Rio nasceu velha e aos poucos virou menina, contanto o tempo às avessas. Podemos contemplar essa observação no próprio espaço. O Centro do Rio representou a velhice da cidade: o morro do Castelo, os conventos, os prédios burocráticos dos reinados. Flamengo e Botafogo foram a maturidade do Rio. Copacabana foi a louca adolescência. Ipanema e Leblon: eis a infância da cidade. Preciso dessa meninice de Ipanema, onde tenho meu lar, o meu mar e o meu bar”.

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TANQUE DE ROUPA: SCHERZO

Era uma tarde pastoril mineira,
Eram cirros e cúmulos mentais,
Era o dolce staccato da torneira,
Virações de Offenbach pelos varais,
Eram trêmulos barrocos de roseira,
Trissos de amor nas frinchas dos beirais,
Era uma tarde abril à brasileira,
Era uma tarde ardil Minas Gerais.

E era na tarde tarde redundante
- longe vestígio em meigo pergaminho -
Um refluir azul de mar distante.

Era uma tarde estática de Deus

Mas a boca da noite de mansinho…

E a tarde anil rendeu alma. Adeus.

A relação de Paulo com Ipanema é longa. Muitas de suas crônicas são sobre um bairro. Paulo intitulou um livro com o nome de uma delas chamado ‘O Cego de Ipanema’. Frequentava a boêmia do bairro, Veloso, Pizzaiolo, e outros bares. Seus contemporâneos de bar eram Vinicius de Moraes, Lucio Cardoso, Carlinhos Oliveira, Lucio Rangel, Roniquito, Tarso de Castro, Hugo Bidet, Zequinha Estelita, Narceu de Almeida e muitos outros. Em 1967, Paulo publica ‘Hora do Recreio’ pela Sabiá e em 1969, ‘O Anjo Bêbado’, também pela Sabiá.

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TEMPO-ETERNIDADE

La sensualité, chère amie, consiste simplement à
considerer comme une fin et non comme un moyen
l’objet présent et la vie presente.
André Gide

O instante é tudo para mim que ausente
Do segredo que os dias encadeia
Me abismo na canção que pastoreia
As infinitas nuvens do presente.

Pobre do tempo, fico transparente
À luz desta canção que me rodeia
Como se a carne se fizesse alheia
À nossa opacidade descontente.

Nos meus olhos o tempo é uma cegueira
E a minha eternidade uma bandeira
Aberta em céu azul de solidões.

Sem margens, sem destino, sem história
O tempo que se esvai é minha glória
E o susto de minh’alma sem razões.

Em 1962, Paulo, na presença do Dr. Murilo Pereira Gomes, tomou ácido lisérgico em um apartamento da rua General Glicério em Laranjeiras. Paulo, que em 1954, lera ‘As portas da percepção’ do Aldous Huxley logo após sua publicação, fez-se de cobaia desta experiência. Tinha já seus quarenta anos. Paulo descreveu os efeitos de sua experiência em crônicas memoráveis. “Apurando os ouvidos, poderia se ouvir a parede”, descobriu que “como se dentro da delicadeza, houvesse uma segunda delicadeza e, dentro desta, uma terceira, uma quarta, uma quinta e, só lá no fundo de não sei qual película sutil, estivesse, intacta, a verdadeira delicadeza”.

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SONHO DE UMA INFANCIA

Meu sonho, breve emoção,
A tarde deitada no limoeiro,
Paralelas de aço se agarrando no longe.
Há muito tempo que fui infeliz
E desconhecia meu corpo embrulhando nas vestes.
Um cisne repetia o facílimo soneto do exílio.
Animais do ar esvoaçavam,
Flores se assustavam, muito altas, olhando o momento.
Nascia por nascer a vida tímida.
Os minutos respiravam cadenciados
Como a criança próxima à grande cachoeira.
Breve emoção da pedra, meu sonho
Ficava difícil,
Sol entre constelações remotas.
Sempre a palavra de um poema se perdia.
Um barco remava entre chamas, um coração se consumia,
A noite erguida apagava o meu desejo de pensar.
Vi como se desprende de um pântano a garça nua,
Vi a fantasia e a tristeza de meu ser.
Foi há muito, entre o mineral silencioso
Há muito tempo que nasci da infância para crescer
Entre milícias douradas que marchavam cantando.

Deixarei meu destino como a pátria.
Renovando a aventura, reinarei entre vós,
Sonhos fiéis.
Sobe a fumaça na caligem de uma tarde chuvosa.
Sinto o aroma feliz do bife,
A friagem do ladrilho onde estraçalho um besouro,
O tinir da louça, a água caindo no zinco.
Estamos grandes, do tamanho de um defunto.
Morte, emoção de meu sonho,
Surda floresta que voa no vendaval e se esfacela.

Paulo chamou a viagem de ácido de teve de “purificação do consciente pelo inconsciente”. Ficou deliciado com o paladar de uma azeitona que demorou horas para comer, “a quantidade de caldo, com a ternura, com o mistério do caroço”. Seu único medo era ser trazido de volta pelo consciente. Quando saiu do apartamento, ainda no efeito, tomou um táxi e foi a uma reunião numa casa de amigos. Disse que todos (o motorista, o porteiro, os amigos) o tratavam com delicadeza. Descreveu a experiência, primeiramente, no livro ‘O colunista do morro’ e depois em outros meios. Hoje, estão todas no livro ‘Cisne de Feltro’ com outra crônicas autobiográficas.

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O BEBADO

Já vomita no mar a lua pálida.
Bondes trazem de longe a madrugada
E entre golfos de sombra resplandecem
Fantásticas piscinas de luz crua.
Os ruídos do dia vão nascendo
Da noite que abandona o céu. Tilinta
Real a campainha de um ciclista,
Dobra irreal o sino de um convento.
A própria luz a caminhar cicia
Nos trilhos azulados da manhã.
A espaços, o silêncio coagula
O soturno alarido da ressaca.
O bêbado caminha em direção
De um luzir qualquer no lusco-fusco,
Onde grita a luz fulva dos açougues.
Do mais alto beiral nasce uma pomba
Que voa rente ao asfalto orvalhado,
Ensurdecendo a claridade triste
Do bêbado. Do esforço alvar das vagas
Nascem as gaivotas tresnoitadas.
Cavalos mal dormidos vão surgindo
Nas esquinas, enquanto os operários
Passam numa cadência primitiva.
O bêbado quer morrer, de desfazer,
Andando sem vontade sobre a terra
Que oferece a seus pés o espaço hostil.
Seu ideal é simples, geométrico,
E o sorriso em que fala ao transeunte
É um sorriso de paz e de ironia.

Nós que andamos certos e orgulhosos na manhã
E nos apossamos do dia como nosso território natural,
Como entenderemos este ser obscuro
Cujos passos se extraviam e se afastam de nós
E se aproximam de novo e se perdem em atropelo.
Quando seu rosto se inclina para o chão
E outra vez se levanta com um sorriso de paz e de ironia,
Sentimos uma luz de mentira em seus olhos
E tontos de lucidez nos disfarçamos.

A relação de Paulo com o álcool se estendia para suas crônicas. “Os os bares morrem numa quarta feira” e Paulo falava da boêmia carioca, de anedotas de bares, dizia que “não bebo tanto quando mereço”. Seus vinte últimos anos de vida foram um pouco difíceis. Por motivos variados, mas, com o álcool como centro. Paulo virou um sujeito irritado, muitas vezes evitados nas ruas, chegando a ser, inclusive, impedido de entrar em alguns bares. Paulo dizia que se tornara “um homem entornado”.

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A MÁRIO DE ANDRADE

Não sei que mãos teceram teu silêncio.
Morto. Estás morto. Sonhas morto? Morto.
Espantalho fatal, onde flutuas
Acordas borboletas tresvairadas.

Tua morte chegou nas folhas secas
Mas nada vi no ventre da noitinha,
Que não interpretei nas alegrias
Tua razão mais bela de acabar.

A noite está coalhada de formigas.
A cruz amarga a fé desesperada.
Há formigas na treva de tua morte
E em mim erram punhais entrefechados.

O simples tempo agora abre a vidraça.
Desarmaram nos campos a barraca.
Chega do canteiro a razão – flor
Para agravar sinais do inevitável.

O silêncio borbulha nos esgotos.
Bebamos o licor de tua morte.
Enquanto se suporta a solidão.
Tua morte foi servida numa salva.

Cisnes feridos, franzem meu destino.
Os convivas, as moças, as vitrinas
Não sabem que paraste. Mas eu sofro
O sono vegetal dos passarinhos.

Mas eu sofro. Eu e o morto que conduzo
Vamos sofrer até de manhãzinha.
Vamos velar aflitos sobre a terra
Que desviou o teu olhar das rosas.

Em 1984, Paulo publica ‘Trinca de Copas’, seria seu último livro publicado. No dia 1 de julho de 1991, Paulo morre no Rio de Janeiro. Seu amigo Otto Lara Resende, escreve na Folha de São Paulo: “Paulo morreu. Não, não estamos preparados. Confuso sentimento de que era preciso ter feito alguma coisa. Sim, era previsível. Mas não precisava ser irreparável”. Anos depois, no fim da década de noventa, a Editora Civilização Brasileira inicia um trabalho de republicação de sua obra. Paulo, que ficara por algum tempo esquecido da literatura brasileira, volta.

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NESTE SONETO

Neste soneto, meu amor, eu digo,
Um pouco à moda de Tomás Gonzaga,
Que muita coisa bela o verso indaga
Mas poucos belos versos eu consigo.
Igual à fonte escassa no deserto,
Minha emoção é muita, a forma, pouca.
Se o verso errado sempre vem-me à boca,
Só no meu peito vive o verso certo.
Ouço uma voz soprar à frase dura
Umas palavras brandas, entretanto,
Não sei caber as falas de meu canto
Dentro de forma fácil e segura.
E louvo aqui aqueles grandes mestres
Das emoções do céu e das terrestres.

Paulo Mendes Campos tinha um sonho sólido: Morar definitivamente na serra de Petrópolis, visitar a Europa mais uma vez e passear com frequencia nas velhas cidades de Minas. Dizia que “na carreira literária, a glória está no começo, o resto da vida é aprendizado intensivo, para o anonimato, para o ouvido [...] O sucesso não me interessa. Faço questão de fracassar [...] Aqui jaz Paulo Mendes Campos. Por favor, engavetem-me com a máxima simplicidade e do lado da sombra [...] No mais, é como dizia Freud: morreu, babau”. Até a próxima antologia.

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BALADA DE AMOR PERFEITO

Pelo pés das goiabeiras,
pelo braços das mangueiras,
pelas ervas fratricidas,
pelas pimentas ardidas,
fui me aflorando.

Pelos girassóis que comem
giestas de sol e somem,
por marias-sem-vergonha,
dos entretons de quem sonha
fui te aspirando.

Por surpresas balsaminas,
entre as ferrugens de Minas,
por tantas voltas lunárias,
tantas manhãs cineárias,
fui te esperando.

Por miosótis lacustres,
por teus cântaros ilustres,
pelos súbitos espantos
de teus olhos agapantos,
fui te encontrando.

Pelas estampas arcanas
do amor das flores humanas,
pelas legendas candentes
que trazemos nas sementes,
fui te avivando.

Me evadindo das molduras,
de minhas albas escuras,
pelas tuas sensitivas,
açucenas, sempre-vivas,
fui te virando.

Pela rosa e o resedá,
pelo trevo que não há,
pela torta linha reta
da cravina do poeta,
fui te levando.

Pelas frestas das lianas
de tuas crespas pestanas,
pela trança rebelada
sobre o paredão do nada,
fui te enredando.

Pelas braçadas de malvas,
pelas assembléias alvas
de teus dentes comovidos
pelo caule dos gemidos
fui te enflorando.

Pelas fímbrias de teu húmus,
pelos reclames dos sumos,
sobre as umbelas pequenas
de tuas tensas verbenas,
fui me plantando.

Por tuas arestas góticas,
pelas orquídeas eróticas,
por tuas hastes ossudas,
pelas ânforas carnudas,
fui te escalando.

Por teus pistilos eretos,
por teus acúleos secretos,
pelas úsneas clandestinas
das virilhas de boninas,
fui me criando.

Pelos favores mordentes
das ogivas redolentes,
pelo sereno das zínias,
pelos lábios de glicínias,
fui te sugando.

Pelas tardes de perfil,
pelos pasmados de abril,
pelos parques do que somos,
com seus bruscos cinamomos,
fui me espaçando.

Pelas violas do fim,
nas esquinas do jasmim,
pela chama dos encantos
de fugazes amarantos,
fui me apagando.

Afetando ares e mares
pelas mimosas vulgares
pelos fungos do meu mal,
do teu reino vegetal
fui me afastando.

Pelas gloxínias vivazes,
com seus labelos vorazes,
pelo flor que desata,
pela lélia purpurata,
fui me arrastando.

Pelas papoulas da cama,
que vão fumando quem ama,
pelas dúvidas rasteiras
de volúveis trepadeiras
fui te deixando.

Pelas brenhas, pelas damas
de uma noite, pelos dramas
das raízes retorcidas,
pelas sultanas cuspidas,
fui te olvidando.

Pelas atonalidades
das perpétuas, das saudades,
pelos goivos do meu peito,
pela luz do amor perfeito,
vou te buscando.

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Augusto dos Anjos

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Augusto Carvalho Rodrigues dos Anjos, nasceu no Engenho do Pau D’Arco no município de Cruz do Espírito Santo, no Estado da Paraíba no dia 20 de abril de 1884. Terceiro filho do casal Alexandre Rodrigues dos Anjos e D. Córdula Carvalho Rodrigues dos Anjos, conhecida por Sinhá Mocinha. Consta que recebeu, junto com seus irmãos, a educação primária e secundária por seu pai. Neste mês, tentaremos percorrer a vida e a poesia desta estranha figura da poesia brasileira, alguns relatos, a escassez de detalhes sobre sua infância, sua vida e seu desenvolvimentos como poeta. Voilá, Augusto dos Anjos!

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O MORCEGO
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Meia noite. Ao meu quarto me recolho
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vêde:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela igneo e escaldante molho.
“Vou mandar levantar outra parede…”
- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!
Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A toca-lo. Minha alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!
A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, a noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!
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Da casa onde viveu, recorda sua mãe, Sinha Mocinha “A vasta casa-grande, de muitas salas, a senzala ao lado, o engenho d’água lá embaixo, o canavial na várzea e, pelos altos, o agreste, onde floriam no verão o pau d’arco roxo de outubro e os paus d’arcos amarelos de novembro”. O engenho era sombrio, era de açucar e ficava à aba do rio Una. Alexandre, seu pai, assumiu os engenhos no meio de uma crise de açucar que arrasava as lavouras. Os engenhos, hipotecados, estavam nas mãos de comerciantes da Paraíba, porém, ao contrário dos outros donos de engenho, seu Alexandre era um homem letrado.
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A IDEIA
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De onde ela vem? De que maneira bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?
Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas
Delibera, e, depois, quer a executa!
Vem do encéfalo absconso que a constringe
Chega em seguida às cordas da laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica…
Quebra a força centrípeta que a amarra
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica!
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Dr. Alexandre, como era conhecido, era letrado senhor de engenho e gostava de vagar a cavalo pelos limites de sua terra. Gostava de filosofia, lia muito, e por mais que se esforçasse, não tinha nas mãos a força do mando. Gostava de conversar com as pessoas, com os trabalhadores, procurava manter um clima ameno. Sabia latim, grego e ciências naturais, tinha mãos finas e gostava de escrever. Lia muito Cícero. Costumava dizer que com a casa cheia de meninos querendo estudar, “o tamarindo virava uma escola socrática”, se referindo ao pé de tamarindo que havia no engenho.
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IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA
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Rugia nos meus centros cerebrais
A multidão dos séculos futuros
- Homens que a herança de ímpeto impuros
Tornara etnicamente irracionais! -
Não sei que livro, em letras garrafais
Meus olhos liam! No humus dos monturos,
Realizavam-se os partos mais obscuros
Dentre as genealogias animais!
Como quem esmigalha protozoários
Meti todos os dedos mercenários
Na consciência daquela multidão…
E, em vez de achar a luz que os Céus inflama
Somente achei moléculas de lama
E a mosca alegre da putrefação!
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As informações sobre este período da infância são escassas, por isso, em 1900, Augusto ingressa no Liceu Paraibano. Tinha dezesseis anos e já gozava de uma fama de preparo, de prodígio, que corria pela cidade. Era desembaraçado como afirma Orris Soares, seu amigo dessa época “não soube resistir ao desejo de travar conhecimento com o poeta. Fui imperiosamente atraído, como para um sítio encantado onde a vista se alerta por encontrar movimento. E de tal forma nos acamaradamos, que, dias depois, lhe devia o exame de latim, desembaraçando-me de complicada tradução, numa ode de Horácio”.

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Poema EMPÓRIO dedicado ao Vicente http://pedrolago.blogspot.com
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O DEUS VERME
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Fator universal do transformismo,
Filho da teológica matéria,
Na superabundância ou na miséria
Verme – é o seu nome obscuro de batismo.
Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua diária ocupação funérea,
E vive em contubérnio com a bactéria
Livre das roupas do antropomorfismo.
Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão…
Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!
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Ainda em 1900, na mesma época em que entra no Liceu, Augusto dos Anjos escreve seu primeiro soneto, chamado “Saudade”. Augusto, ainda estudante, gostava de andar recitando, consta que tinha uma voz metálica que continha “complacência e enternecimento”. Nesta época, impressionou muito Orris Soares, de quem se tornaria amigo e que escreveria o texto “Elogio a Augusto dos Anjos”. Em 1901, publica um soneto no jornal O Comércio, e passaria a colaborar com o mesmo. Logo mais, dois anos depois, iria para Recife para se inscrever na faculdade de Direito e lá conhece, enfim, o Carnaval.
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DEBAIXO DO TAMARINDO
No tempo de meu pai, sob estes galhos
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canceira
De inexorabilíssimos trabalhos!
Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,
Guarda, como uma caixa derradeira,
 O passado da Flora Brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!
Quando pararem todos os relógios
De minha vida, e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,
Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade
A minha sombra há de ficar aqui!
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Em 1903, Augusto entra na Faculdade de Direito em Recife. Dois anos depois, em 1905, perde seu pai, Dr. Alexandre. Escreve então três sonetos dedicados ao pai e publica n’O Comércio, que posteriormente fariam parte de seu único livro “Eu”. Nesta época, começa a escrever a “crônica paudarquense” e participa de duas polêmicas. Augusto lia muito os escritos de Charles Darwin, Haeckel, Spencer e Pascal. Em 1907, conclui a faculdade de Direito, para, um ano depois, instalar-se, de vez, na capital da Paraíba.
.
Dois poemas meus aqui ao lado de outros poetas http://www.olegalmeida.com/page_25.html
.
UMA NOITE NO CAIRO
.
Noite no Egito. O céu claro e profundo
Fulgura. A rua é triste. A Lua Cheia
Está sinistra, e, sobre a paz do mundo,
A alma dos Faraós anda e vagueia.
Os mastins negros vão ladrando à lua…
O Cairo é de uma formosura arcaica.
No ângulo mais recôndito da rua
Passa cantando uma mulher hebraica.
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O Egito é sempre assim quando anoitece!
Às vezes das pirâmides o quêdo
E atro perfil, exposto ao luar, parece
Uma sombria interjeição de medo!
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Como um contraste aqueles míseres
Num quiosque em festa a alegre turba grita
E dentro dançam homens e mulheres
Numa aglomeração cosmopolita.
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Tonto do vinho, um saltimbanco da Asia
Convulso e rôto, no apogeu da fúria,
Executando evoluções de razzia
Solta um brado epiléptico de injúria!
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Em derredor duma ampla mesa preta
- Última nota do conúbio infando -
Vêem-se dez jogadores de roleta
Fumando, discutindo, conversando.
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Resplandece a celeste superfície
Dorme soturna a natureza sabia…
Em baixo, na mais próxima planície,
Pasta um cavalo esplêndido da Arábia.
.
Vaga no espaço um silfo solitário.
Trôam kinnors! Depois tudo é tranquilo…
Apenas, como um velho stradivario,
Soluça toda a noite a água do Nilo!
.
Em 1908, Augustos dos Anjos vai para a capital da Paraíba onde começa a dar aulas particulares. Nesta época, começa a colaborar com o jornal Nonevar e com a revista Terra Natal. Sua mãe, Sinhá Mocinha, ficava no Engenho a esperar por notícias do filho. Eis um relato de sua experiência, em carta, pela “Veneza Brasileira”: “Os três dias de Carnaval nesta capital foram festivos, alegres e esplendorosos. Profusão de clubes carnavalescos, Caraduras, etc, confete, bisnagas, serpentina, danças, e, no entretanto, eu me diverti um pouco. O que é afinal divertimento? Uma fenomenalidade transitória, efêmera, o que fica é a saudade. Saudade! Ora, eu não disposto a ter saudades. Entendo que só devemos acalentar recordações dos entes caros, idolatrados, parcelas de nossa existência, de nossa vida, e esses entes – deixei-os eu aí”.
.
.
A UM MASCARADO
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Rasga esta máscara ótima de seda
E atira à area ancestral dos palimpsestos…
É noite, e, à noite, a escândalos e incestos
É natural que o instinto humano aceda!
Sem que te arranquem da garganta queda
A interjeição danada dos protestos.
Hás de engolir, igual a um porco, os restos
Duma comida horrivelmente azeda!
A sucessão de hebdômadas medonhas
Reduzirá os mundos que tu sonhas
Ao microcosmos do ovo primitivo…
E tu mesmo, após a árdua e atra refrega,
Terás somente uma vontade cega
E uma tendência obscura de ser vivo!
.
No mesmo ano de 1908, morre Afrígio Pessoa de Melo, padrasto de sua mãe e patriarca da família, deixando o Engenho em péssima situação financeira. Também começa a lecionar no Instituto Maciel Pinheiro e é nomeado professor do Liceu Paraibano. No ano seguinte, 1909, Augusto publica o poema “Budismo moderno” e outros em A União e num discurso que profere no Teatro Santa Rosa pela comemorações do dia 13 de maio, choca a plateia com seu léxico “incompreensível e bizarro”, logo depois, abandona o Instituo Maciel Pinheiro.
.
.
CONTRASTES
.
A antítese do novo e do obsoleto
O Amor e a Paz, o Ódio e a Carnificina,
O que o homem ama e o que o homem abomina,
Tudo convém para o homem ser completo!
O ângulo obtuso, pois, e o ângulo reto,
Uma feição humana e outra divina
São como a eximenina e a endimenina
Que servem ambas para o mesmo feto!
Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes!
Por justaposição destes contrastes,
Junta-se uma hemisfério a outro hemisfério,
Às alegrias juntam-se as tristezas
E o carpinteiro que fabrica as mesas
Faz também os caixões do cemitério!…
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Em 1910, Augusto publica em A União, o poema, “Mistério de um Fósforo” e “Noite de um Visionário”. Mas, o fato mais importante deste ano de 1910, embora, de certa forma avesso às questões do afeto, conhece e casa-se com Ester Fialho. Augusto continua a colaborar com a revista Nonevar até que outro fato marcante, desta vez trágico, acontece na vida do poeta: Sua família, por dificuldades financeiras, vende o Engenho Pau D’Arco. Augusto se atordoa e decide de mudar para o Rio de Janeiro. Embora professor do Liceu Paraibano por dois anos, Augusto quer se tornar poeta conhecido em círculos mais amplos. Então, pega parte de sua herança no Engenho e, com Ester, parte para a capital do país.
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VERSOS DE AMOR
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Parece muito doce aquela cana.
Descasco-a, provo-a, chupo-a… ilusão trêda!!
O amor, poeta, é como a cana azeda,
A toda a boca que o não prova engana.
Quis saber que era o amor, por experiência,
E hoje que, enfim, conheço o seu conteúdo,
Pudera eu ter, eu que idolatro o estudo,
Todas as ciências menos esta ciência!
Certo, este o amor não é que, em ansias, amo
Mas certo, o egoísta amor este é que acinte
Amas, oposto a mim. Por conseguinte
Chamas amor aquilo que eu não chamo.
Oposto ideal ao meu ideal conservas.
Diverso é, pois, o ponto outro de vista
Consoante o qual, observo o amor, do egoísta
Modo de ver, consoante o qual, observas.
Porque o amor, tal como eu o estou amando,
É espírito, é éter, é substância fluida,
É assim como o ar que a gente pega e cuida,
Cuida, entretanto, não o estar pegando!
É a transubstanciação de instintos rudes,
Imponderabilíssima e impalpável,
Que anda acima da carne miserável
Como anda a garça acima dos açudes!
Para reproduzir tal sentimento
Daqui por diante, atenta a orelha cauta,
Como Marsyas – inventor da flauta -
Vou inventar também outro instrumento!
Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo
Ambiciono, que o idioma em que te eu falo
Possam todas as línguas declina-lo
Possam todos os homens compreendê-lo!
Para que, enfim, chegando à última calma
Meu podre coração roto não role
Integralmente desfibrado e mole,
Como um saco vazio dentro da alma!
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No Rio de Janeiro, Augusto e sua mulher Ester, hospedam-se em uma pensão no Largo do Machado mas logo se mudam para a Avenida Central. São constantes as mudanças. O casal vai de pensão em pensão. Augusto termina o ano de 1910 sem conseguir um emprego. No ano seguinte, altos e baixos. Sua mulher engravida, porém, seis meses depois, perde a criança. Augusto é nomeado professor de Geografia, Corografia e Cosmografia no Ginásio Nacional (Pedro II atualmente) e Ester engravida novamente e no fim do ano nasce sua filha Glória.
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DEPOIS DA ORGIA
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O prazer que na orgia a hetaíra goza
Produz no meu sensorium de bacante
O efeito de uma túnica brilhante
Cobrindo ampla apostema escrofulosa!

Troveja! E anelo ter, sôfrega e ansiosa,
O sistema nervoso de um gigante
Para sofrer na minha carne estuante
A dor da força cósmica furiosa.

Apraz-me, enfim, despindo a última alfaia
Que ao comércio dos homens me traz presa,
Livre deste cadeado de peçonha,

Semelhante a um cachorro de atalaia
Às decomposições da Natureza,
Ficar latindo minha dor medonha!

Em 1912, Augusto começa a colaborar com o jornal O Estado e dá aulas na escola Normal. Porém, um dos grandes feitos desse ano vem através da ajuda de seu irmão Odilon, que o ajuda a custear a edição de 1000 exemplares de seu único livro de poemas chamado “Eu” no dia 6 de julho deste ano. O livro é recebido, ora com estranheza, ora, com entusiasmo, as crítica variam muito entre os elogios e a repulsa. De acordo com seu amigo Orris Soares “três fatores fizeram a profunda tristeza de Augusto do Anjos: – um de carater individualíssimo, outro mesológico e o terceiro espiritual”.
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As bodas com sussurro de Blake em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
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A ILHA Do CYPANGO
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Estou sozinho! A estrada se desdobra
Como uma imensa e rutilante cobra
De epiderme finíssima de areia…
E por essa finíssima epiderme
Eis-me passeando como um grande verme
Que, ao sol, em plena podridão, passeia!

A agonia do sol vai ter começo!
Caio de joelhos, trêmulo… Ofereço
Preces a Deus de amor e de respeito
E o Ocaso que nas águas se retrata
Nitidamente reproduz, exata,
A saudade interior que há no meu peito…

Tenho alucinações de toda a sorte…
Impressionado sem cessar com a Morte
E sentindo o que um lázaro não sente,
Em negras nuanças lúgubres e aziagas
Vejo terribilíssimas adagas,
Atravessando os ares bruscamente.

Os olhos volvo para o céu divino
E observo-me pigmeu e pequenino
Através de minúsculos espelhos.
Assim, quem diante duma cordilheira,
Pára, entre assombros, pela vez primeira,
Sente vontade de cair de joelhos!

Soa o rumor fatídico dos ventos,
Anunciando desmoronamentos
De mil lajedos sobre mil lajedos…
E ao longe soam trágicos fracassos
De heróis, partindo e fraturando os braços
Nas pontas escarpadas dos rochedos!

Mas de repente, num enleio doce,
Qual se num sonho arrebatado fosse,
Na ilha encantada de Cypango tombo,
Da qual, no meio, em luz perpétua, brilha
A árvore da perpétua maravilha,
À cuja sombra descansou Colombo!

Foi nessa ilha encantada de Cypango,
Verde, afetando a forma de um losango,
Rica, ostentando amplo floral risonho,
Que Toscanelli viu seu sonho extinto
E como sucedeu a Afonso Quinto
Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho!

Lembro-me bem. Nesse maldito dia
O gênio singular da Fantasia
Convidou-me a sorrir para um passeio…
Iríamos a um país de eternas pazes
Onde em cada deserto há mil oásis
E em cada rocha um cristalino veio.

Gozei numa hora séculos de afagos,
Banhei-me na água de risonhos lagos,
E finalmente me cobri de flores…
Mas veio o vento que a Desgraça espalha
E cobriu-me com o pano da mortalha,
Que estou cosendo para os meus amores!

Desde então para cá fiquei sombrio!
Um penetrante e corrosivo frio
Anestesiou-me a sensibilidade
E as grandes golpes arrancou as raízes
Que prendiam meus dias infelizes
A um sonho antigo de felicidade!

Invoco os Deuses salvadores do erro.
A tarde morre. Passa o seu enterro!…
A luz descreve ziguezagues tortos
Enviando à terra os derradeiros beijos.
Pela estrada feral dois realejos
Estão chorando meus amores mortos!

E a treva ocupa toda a estrada longa…
O Firmamento é uma caverna oblonga
Em cujo fundo a Via-láctea existe.
E como agora a lua cheia brilha!
Ilha maldita vinte vezes a ilha
Que para todo o sempre me fez triste!





Ainda vivendo de pensão em pensão, Augusto pede emprego público aos políticos da Paraíba radicados no Rio de Janeiro. No dia 2 de junho de 1913, nasce seu segundo filho Guilherme Augusto. A péssima situação financeira não permite que Augusto vá com a sua mulher e filha visitar sua mãe na Paraíba. Nesta ocasião Augusto escreve: “minhas ocupações de professor, aliás, mal remuneradas, não me permitem folgas refociladoras dessa natureza”. Augusto continuam a lecionar em diversos lugares, dando inclusive, aulas particulares para obter mais rendimentos.
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MATER


Como a crisálida emergindo do ovo
Para que o campo flórido a concentre,
Assim, oh! Mãe, sujo de sangue, um novo
Ser, entre dores, te emergiu do ventre!
E puseste-lhe, haurindo amplo deleite,
No lábio róseo a grande teta farta
— Fecunda fonte desse mesmo leite —
Que amamentou os éfebos de Sparta. —
Com que avidez ele essa fonte suga!
Ninguém mais com a Beleza está de acordo,
Do que essa pequenina sanguessuga,
Bebendo a vida no teu seio gordo!
Pois, quanto a mim, sem pretensões, comparo,
Essas humanas cousas pequeninas
A um biscuit de quilate muito raro
Exposto aí, à amostra, nas vitrinas.Mas o ramo fragílimo e venusto
Que hoje nas débeis gêmulas se esboça,
Há de crescer há de tornar-se arbusto
E álamo altivo de ramagem grossa.

Clara, a atmosfera se encherá de aromas,
O Sol virá das épocas sadias…
E o antigo leão, que te esgotou as pomas,
Há de beijar-te as mãos todos os dias!

Quando chegar depois tua velhice
Batida pelos bárbaros invernos!
Relembrarás chorando o que eu te disse,
A sombra dos sicômoros eternos!





O livro “Eu” era considerado estranho. Havia uma excentricidade temática, falava muito da morte, o tratamento da linguagem era cheio de vocábulos e expressões científicas e filosóficas. O léxico era difícil, com rimas ricas, muitas vezes causando espanto. Augusto bebeu muito em Herbert Spencer, Ernst Haeckel e muito Schopenhauer. A Bíblia também foi absorvida por Augusto e, de acordo com alguns exegetas, “a utilização da Bíblia potencializou seu contraponto às ideias iluministas/materialistas que havia em sua época”. Vale conferir.
O MEU NIRVANA


No alheamento da obscura forma humana,
De que, pensando, me desencarcero,
Foi que eu, num grito de emoção, sincero
Encontrei, afinal, o meu Nirvana!
Nessa manumissão schopenhauereana,
Onde a Vida do humano aspecto fero
Se desarraiga, eu, feito força, impero
Na imanência da Ideia Soberana!
Destruída a sensação que oriunda fora
Do tacto — ínfima antena aferidora
Destas tegumentárias mãos plebeias
—Gozo o prazer, que os anos não carcomem,
De haver trocado a minha forma de homem
Pela imortalidade das Ideias!




Parênteses: Por volta do início do século XX, havia no Recife uma espécie de “evolução” no pensamento brasileiro, por ação, sobretudo, de Tobias Barreto. Matins Junior, pelo que consta, foi dos primeiros, senão o primeiro, a introduzir a poesia científica, que não teve seguidores. Esse era o ambiente em que Augusto sorvia. Aprendeu muito com um professor que teve chamado Laurindo Leão, que era um devoto do fenomenismo gnóstico. Augusto passava por tudo isso calado. Emancipou-se intelectualmente da educação católica, de acordo com Horácio de Almeida, influenciado pelos evolucionistas e naturalistas século.

GUERRA

Guerra é esforço, é inquietude, é ânsia, é transporte…
E a dramatização sangrenta e dura
Da avidez com que o Espírito procura
Ser perfeito, ser máximo, ser forte!

E a Subconsciência que se transfigura
Em volição conflagradora… É a coorte
Das raças todas, que se entrega à morte
Para a felicidade da Criatura!

E a obsessão de ver sangue, é o instinto horrendo
De subir, na ordem cósmica, descendo
À irracionalidade primitiva.

E a Natureza que, no seu arcano,
Precisa de encharcar-se em sangue humano
Para mostrar aos homens que está viva!


Outro parênteses: Augusto não era muito de falar. Ficava quase sempre calado na rodas que se faziam na Paraíba. Inclusive, uma amigo que veio a morar com ele numa pensão na Paraíba, veio a conhecê-lo bem só depois que se formou. Pelos 17 anos escreveu Monólogos da Sombra. Um intelectual chamado Flósculo da Nóbrega, da Academia Paraibana de Letras, quando o encontrou, o achou excessivamente intelectualizado, com o pensamento frio, mas, como já dissemos, seu núcleo emocional, a fonte propriamente dita, se encontrava ainda na memória do Engenho do Pau D’Arco. Mais semana que vem.

HINO À DOR


Dor, saúde dos seres que se fanam,
Riqueza da alma, psíquico tesouro,
Alegria das glândulas do choro
De onde todas as lágrimas emanam…

És suprema! Os meus átomos se ufanam
Da pertencer-te, oh! Dor, ancoradouro
Dos desgraçados, sol do cérebro, ouro
De que as próprias desgraças se engalanam!

Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato.
Com os corpúsculos mágicos do tato
Prendo a orquestra de chamas que executas…

E, assim, sem convulsão que me alvoroce,
Minha maior ventura é estar de posse
De tuas claridades absolutas!


Após alguns meses em busca de um lugar para morar, Augusto e sua família encontram uma casa em Leopoldina. Ali seria então o lugar definitivo, a base. Publica “O lamento das coisa” na Gazeta Leopoldina que é dirigida por seu cunhado, Rômulo Pacheco e também é nomeado diretor do Grupo Escolar de Leopoldina. A vida anunciava tempos calmos na vida do poeta, porém, já há alguns meses que Augusto sofria com uma espécie de tuberculose ou pneuomonia. 

Metendo o malho no Maiacovski em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com


 DANÇA DA PSIQUE


A dança dos encéfalos acesos
Começa. A carne é fogo. A alma arde. A espaços
As cabeças, as mãos, os pés e os braços
Tombara, cedendo à ação de ignotos pesos!
É então que a vaga dos instintos presos
— Mãe de esterilidades e cansaços —
Atira os pensamentos mais devassos
Contra os ossos cranianos indefesos.
Subitamente a cerebral coréa
Pára. O cosmos sintético da Idéa
Surge. Emoções extraordinárias sinto…
Arranco do meu crânio as nebulosas.
E acho um feixe de forças prodigiosas
Sustentando dois monstros: a alma e o instinto!





Após alguns meses doente, mais precisamente, desde o dia 30 de outubro, o poeta Augusto dos Anjos morre, às quatro horas da manhã, do dia 12 de novembro de 1914, aos 30 anos de idade, em Leopoldina, oficialmente de pneumonia. Em carta à Sinha Mocinha, Ester, sua mulher, lamenta: “O mês de outubro já corria em meados quando Augusto dos Anjos adoeceu. O Dr. Custódio Junqueira lhe fez uso de alguns remédios, que não fizeram ceder o mal estar. No dia 29, Augusto caiu na cama com muita febre, frio e dor de cabeça. O Dr. Custódio foi novamente chamado. A base do pulmão direito está congestionada, disse, depois que o examinou [...] A doença abateu o seu corpo franzino, não conseguindo, entretanto, abater-lhe o espírito que se conservou lúcido até 20 minutos antes de expirar… Ele me chamou, despediu-se de mim, dizendo-me: Mande as minhas lágrimas para a minha mãe; mande lembranças para os meus amigos do Rio; trate bem as criancinhas Glória e Guilherme; dê lembranças às meninas do grupo… Recomendou-me que guardasse com cuidado todos os seus versos…”




NOLI ME TANGERE



A exaltação emocional do Gozo,
O Amor, a Glória, a Ciência, a Arte e a Beleza
Servem de combustíveis à ira acesa
Das tempestades do meu ser nervoso!
Eu sou, por conseqüência um ser monstruoso!
Em minha arca encefálica indefesa
Choram as forças más da Natureza
Sem possibilidades de repouso!
Agregados anômalos malditos
Despedaçam-se, mordem-se, dão gritos
Nas minhas camas cerebrais funéreas…
Ai! Não toqueis em minhas faces verdes,
Sob pena, homens felizes, de sofrerdes
A sensação de todas as misérias!




Assim que morreu o poeta, um amigo, alguém que o conhecia e admirava seus versos, foi se lamentar com o Olavo Bilac, que não o conhecia. Pediu para ver alguns versos e, logo após lê-los, disse: “Não lamente, a poesia brasileira não perdeu grande coisa!”. Porém, algo de inesperado aconteceria. Edições de “Eu” foram sendo republicadas e Augusto, não só foi passou a ser lido, como popularizado, sendo recitado, inclusive, em rodas de rua e feiras populares. Mais precisamente a partir de 1920, com introdução do amigo Orris Soares.



MINHA ÁRVORE


Olha: E um triângulo estéril de ínvia estrada!
Como que a erva tem dor… Roem-na amarguras
Talvez humanas, e entre rochas duras
Mostra ao Cosmos a face degradada!
Entre os pedrouços maus dessa morada
É que, às apalpadelas e às escuras,
Hão de encontrar as gerações futuras
Só, minha árvore humana desfolhada!
Mulher nenhuma afagará meu tronco!
Eu não me abalarei, nem mesmo ao ronco
Do. furacão que, rábido, remoinha…
Folhas e frutos, sobre a terra ardente
Hão de encher outras árvores! Somente
Minha desgraça há de ficar sozinha!



Em 1928, a terceira edição do livro “Eu” é lançada no Rio de Janeiro pela Livraria Castilho, com imensa repercussão e sucesso de público e crítica. Augusto dos Anjos é, enfim, reconhecido como grande poeta. Nas palavras de Horácio de Almeida: “Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio. Só muito raramente soltava uma blasfêmia. Por outro lado, não se pode dizer fosse ele um materialista ético. De inflexões mentais sua obra anda cheia. E como era sincero e honesto, virtudes que cultivava com extremado zelo, nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência.”




À MESA

Cedo à sofreguidão do estômago. É a hora
De comer. Coisa hedionda! Corro. E agora,
Antegozando a ensangüentada presa,
Rodeado pelas moscas repugnantes,
Para comer meus próprios semelhantes
Eis-me sentado à mesa!
Como porções de carne morta … Ai! Como
Os que, como eu, têm carne, com este assomo
Que a espécie humana em comer carne tem! …
Como! E pois que a Razão me não reprime,
Possa a terra vingar-se do meu crime
Comendo-me também.




Como não poderia deixar de ser, terminamos este augusto mês de agosto com a descrição de Paulo Soares sobre morte do poeta: “A notícia do falecimento de Augusto dos Anjos logo corre porta a fora, levada não pela dor da mãe desconsolada, mas pela empregada da casa, Dona Ermíria que, ao perceber as lágrimas que longe estão de se conterem em sua fonte, pergunta à patroa enigmática o motivo de tanto desperdício de humor. Ao saber do acontecido, corre a mulher pela calçada a gritar aos que passam: morreu o magro, morreu Augusto, não sei se de tuberculose ou de susto”. Assim terminamos mais uma antologia, na semana que vem, outros poemas, outras proposições e mais deflagrações. Evoé!





REVELAÇÃO I & II


I

Escafandrista de insondado oceano
Sou eu que, aliando Buda ao sibarita,
Penetro a essência plásmica infinita,
- Mãe promíscua do amor e do ódio insano!
Sou eu que, hirto, auscultando o absconso arcano,
Por um poder de acústica esquisita,
Ouço o universo ansioso que se agita
Dentro de cada pensamento humano!
No abstrato abismo equóreo, em que me inundo,
Sou eu que, revolvendo o ego profundo
E a escuridão dos cérebros medonhos,
Restituo triunfalmente à esfera calma
Todos os cosmos que circulam na alma
Sob a forma embriológica de sonhos!

II

Treva e fulguração; sânie e perfume;
Massa palpável e éter; desconforto
E ataraxia; feto vivo e aborto…
- Tudo a unidade do meu ser resume!
Sou eu que, ateando da alma o ocíduo lume,
Apreendo, em cisma abismadora absorto,
A potencialidade do que é morto
E a eficácia prolífica do estrume!
Ah! Sou eu que, transpondo a escarpa angusta
Dos limites orgânicos estreitos,
Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia,
Sinto bater na putrescível crusta
Do tegumento que me cobre os peitos
Toda a imortalidade da Substância!

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Oswald de Andrade

 

José Oswald de Andrade nasceu no dia 11 de janeiro de 1890 em São Paulo. Filho de José Oswald Nogueira de Andrade e Inês Henriqueta de Souza Andrade. A família de sua mãe descende de uma das famílias fundadoras do Estado do Pará, estabelecida no porto de Óbidos. Também é sobrinho do jurista e escritor Herculano Marques Inglês de Souza. Já a sua família paterna descende de uma família de fazendeiros mineiros de Baependi. O jovem Oswald passa sua infâcia na segurança de uma casa confortável na rua Barão de Itapetiniga, em São Paulo. Neste mês vamos poesia adentro desta grande figura da nossa cultura. Vamos de Oswald de Andrade. Evoé!

Naquela mesa do canto na parte de cima http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

BRINQUEDO

Roda roda São Paulo
Mando tiro tiro lá

Da minha janela eu avistava
Uma cidade pequena
Pouca gente passava
Nas ruas. Era uma pena

Desceram das montanhas
Carochinhas e pastoras
Por dormir em meus olhos
Me levaram pra abrolhos

Os bondes da Light bateram
Telefones na ciranda
Os automóveis correram
Em redor da varanda

Roda roda São Paulo
Mando tiro tiro lá

Brinquedos de comadre
Começaram pela vida
Pela vida começaram
Comadres e mexericos

Roda roda São Paulo
Mando tiro tiro lá

Depois entrou no brinquedo
Um menino grandão
Foi o primeiro arranha-céu
Que rodou no meu céu

Do quintal eu avistei
Casas torres e pontes
Rodaram como gigantes
Até que enfim parei

Roda roda São Paulo
Mando tiro tiro lá
Hoje a roda cresceu
Até que bateu no céu
É gente grande que roda
Mando tiro tiro lá

O menino Oswald inicia seus estudos em 1900 com professores particulares, porém, depois, ingressa no ensino público matriculando-se na Escola Modelo Caetano de Campos. Em 1902, cursa o Ginásio Nossa Senhora do Carmos, agora, já com doze anos. Os relatos de sua infância abrangem “ruas pacatas” e “brincadeiras”, pontos até então, normais, para um menino de São Paulo no início do século. Já em 1905, aos 15 anos, vai para o Colégio São Bento, e recebe um tradicional ensino religioso. Lá conhece Guilherme de Almeida e se torna seu amigo, e também conhece o poeta Ricardo Gonçalves.

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MEUS SETE ANOS

Papai vinha tarde
Da faina de labutar
Eu esperava na calçada
Papai era gerente
D Banco Popular
Eu aprendia com ele
Os nomes dos negócios
Juros hipotecas
Prazo amortização
Papai era gerente
Do Banco Popular
Mas descontava cheques
No guichê do coração

A casa dos Andrade tinha rigorosa formação católica. Dona Inês, fazia com que o pequeno Oswald se vestisse de anjo nas pequenas procissões que seguiam pela Barão de Itapetininga. O menino es tornou superticioso na infância, batia na madeira três vezes para espantar maus pensamentos, passava vinho na orelha e entrava em casa sempre com o pé direito. Ficou conhecido na família como “Oswaldinho”. Sua mãe sempre enfatizou a pronúncia correta de seu nome, “Osváld” e não “ôsvald” como até hoje muitos o chamam. Inclusive, o crítico Antônio Cândido escreveu um artigo sobre a pronúncia correta do nome de Oswald. A entrada de Oswald no Colégio Nossa Senhora do Carmo se dá por causa de uma frase que Oswald desfere no antigo colégio, “Deus é Natureza”, para o pânico de sua mãe devota de São José.

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MEUS OITO ANOS

Oh que saudades eu tenho
Da aurora de minha vida
Das horas
De minha infância
Que os anos não trazem mais
Naquele quintal de terra
Da Rua de Santo Antônio
Debaixo da bananeira
Sem nenhum laranjais

Eu tinha doces visões
Da cocaína da infância
Nos banhos de astro-rei
Do quintal de minha ânsia
A cidade progredia
Em roda de minha casa
Que os anos não trazem mais
Debaixo da bananeira
Sem nenhum laranjais

Em 1908, Oswald conclui o Colégio São Bento, nesta época, por causa de um professor chamado Gervásio Araújo, que o apresenta a Victor Hugo, através dos Miseráveis e também lê Carlos Magno, Julio Verne, Castro Alves e alguns outros. O pequeno Oswald confessa que gosta da poesia do poeta baiano, mas não entende. Olavo Bilac e Lima Barreto são leituras essenciais desta época, assim como Coelho Neto, ou seja, todos os cânones. Nesta época, também conhece Monteiro Lobato e Ricardo Gonçalves. Se envereda também em Dostoiévski, Shakespeare e Eugênio de Castro. Muitas leituras para o jovem promissor e aluno irregular.

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HISTÓRIA DA PÁTRIA

Lá vai uma barquinha carregada de
Aventureiros
Lá vai uma barquinha carregada de
Bacharéis
Lá vai uma barquinha carregada de
Cruzes de Cristo
Lá vai uma barquinha carregada de
Donatários
Lá vai uma barquinha carregada de
Espanhóis

Paga prenda
Prenda os espanhóis!
Lá vai uma barquinha carregada de
Flibusteiros
Lá vai uma barquinha carregada de
Governadores
Lá vai uma barquinha carregada de
Holandeses

Lá vem uma barquinha cheinha de índios
Outra de degradados
Outra de pau de tinta

Até que o mar inteiro
Se coalhou de transatlânticos
E as barquinhas ficaram
Jogando prenda coa raça misturada
No litoral azul de meu Brasil.

Em 1908, Oswald termina o ginásio no Colégio São Bento e toma a “vacina obrigatória”. Incentivados pelos amigos e pela família, um ano depois, ingressa na Faculdade de Direito. De cara, se impressiona com a violência do trote. Nesta época, Oswald se interessa pelo jornalismo e já entra no Diário Popular como repórter e redator. Emprego este que conseguiu atravá da influência do pai, seu salário é de sessenta mil réis. Assina algumas matérias e críticas de cinema e teatro. Fica muito amigo do ator Giovanni Grasso, inclusive o acompanha no Rio e em São Paulo e namora algumas atrizes do grupo. Oswald passa a vivenciar intensamente a cena teatral paulista.

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A DESCOBERTA

Seguimos nosso caminho por este mar de longo
Até a oitava da Páscoa
Topamos aves
E houvemos vista de terra
os selvagens
Mostraram-lhes uma galinha
Quase haviam medo dela
E não queriam por a mão
E depois a tomaram como espantados
primeiro chá
Depois de dançarem
Diogo Dias
Fez o salto real
as meninas da gare
Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis
Com cabelos mui pretos pelas espáduas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito bem olharmos
Não tínhamos nenhuma vergonha.

Oswald escrevia para o Diário sob o pseudônimo de Joswald. Neste mesmo ano de 1910, torna-se amigo de Washington Luís, membro da comitiva nacional e futuro presidente. Também monta um ateliê de pintura com Osvaldo Pinheiro. Em 1911, faz viagens constantes para o Rio de Janeiro onde participa da vida boêmia dos escritores. Se torna amigo de Emílio de Menezes, e lança com Voltolino, Dolor Brito Franco e Antônio Define, o semanário O Pirralho, usando o pseudônimo de Annibale Scipione. No fim do ano, interrompe a faculdade de Direito e arrenda a revista a Paulo Setúbal e Babi de Andrade para fazer sua primeira viagem à Europa.

Triiin Thanos em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

BALADA DO ESPLANADA

Ontem à noite
Eu procurei
Ver se aprendia
Como é que se fazia
Uma balada
Antes d’ir
Pro meu hotel

É que este
Coração
Já se cansou
De viver só
E quer então
Morar contigo
No Esplanada

Eu qu’iria
Poder
Encher
Este papel
De versos lindos
É tão distinto
Ser menestrel

No futuro
As gerações
Que passariam
Diriam
É o hotel
Do menestrel

Pra m’inspirar
Abro a janela
Como um jornal
Vou fazer
A balada
Do Esplanada
E ficar sendo
O menestrel
De meu hotel

Mas não há poesia
Num hotel
Mesmo sendo
‘Splanada
Ou Grand-Hotel

Há poesia
Na dor
Na flor
No beija-flor
No elevador

Oferta

Quem sabe
Se algum dia
Traria
O elevador
Até aqui
O teu amor

Em 1921, aos 22 anos, a bordo do navio Martha Washington, Oswald se entusiasma com Carmen Lydia, nome artístico para Landa Kosbach, de treze anos, que viaja para estudar balé em Milão. Oswald conhece a Itália, a Alemanha, a Bélgica, a Inglaterra, a Espanha e a França. Trabalha como correspondente matutino do Correio da Manhã. Em Paris, conhece aquela que viria a ser sua primeira mulher, Henriette Denise Boufflers (Kamiá), com quem retorna ao Brasil. Oswald não consegue rever a mãe, falecida no dia 6 de setembro, nesta época, realiza sua primeira experiência poética ao escrever “O último passeio de um tuberculoso, pela cidade, de bonde”, porém, rasga-o em seguida. No ano seguinte, frequenta as reuniões artísticas da Villa kyrial, no palacete do senador Freitas Valle. Lá conhece o pintor Lasar Segall. Enfim escreve o romance A recusa.

Tradução de Baudelaire em http://pedrolago.blogspot.com

HINA NACIONAL DO PATY DO ALFERES

Eu quero fazer um poema
Rachado e sentimental
Como as bandas de música
De meu país natal

Eu quero fazer um poema
De todo o amor que sinto
Pelas palmas e bandeiras
Do meu país musical

Eu quero fazer um poema
De flores de papel
Laranja azul encarnado
Branco e verdeamarel

Ah! Meu Brasil! Meu Brasil!
Eu já morei foragido
Numa casa rota
Que dava para o mar
Já morei no Normandy de Deauville
E num navio de guerra
E nas ruas e nos portos Das terras imaginárias

Mas quando tu reapareces
Sob o hemisfério estrelado
Esperando a presidência do Dr. Washington Luís
Ó Brasil
Meu coração feito de pedaços
Se unifica
A independência das lágrimas

Fico eleitor
Cidadão vacinado
Solto foguetes
Faço dobrados

Foi assim que eu vim parar
Nas paragens
do Paty do Alferes
E conheci a charanga do Arcozelo
Toda cáqui e preta

Vocês não ouviram
A charanga da fazenda do Arcozelo

É generosa e metálica
A casa é cercada de velhas senzalas
Transfiguradas pela picareta do Progresso
A mão dura de Geraldo
Transformou a terra desabandonada
Numa pátria organizada de gado
E valorizou até as estrelas
Que dividem o céu em sindicatos
Para ouvir os ensaios
Da banda do Arcozelo

Arquitetos de minha terra
Vinde aprender arquitetura
No Paty do Alferes
Donas de casa
Que servis tolamente à francesa
Vinde provar
A mesa saborosa
Do Arcozelo
Bebedores
Vinde gozar a pinga do Paraíso

Como a gente levanta cedo nas fazendas
Antes das primeiras pinceladas
Da pintora Aurora
Vamos dormir
Para sair amanhã
Todos vestidos de cow-boy
E dobrar as quebradas da serra
E deixar o sangue dos pássaros
E das cobras
Nos caminhos

Meu quarto tem três portas
Que dão para outros quartos
Onde ficam as portas
Dos quartos das assombrações

As estrelas são
A estrela d’alva
A estrela do Pastor
Vésper
E o Anjo da Guarda de cada um

As assombrações são
A Inspiração e a Saudade
E os falecidos das nossas relações

Para ver tantas maravilhas
O Cruzeiro do Sul
Espetou a cabeça num morro
E mora aqui
Blefando a rotação universal

E tudo isso
É na fazenda do Arcozelo
Bois arados e rosas
Cavalos e motocicletas

Tudo existindo
E tocando a marcha do Progresso
Que aprenderam com a banda
Da fazenda do Arcozelo

Em 1914, nasce José Oswald Antônio de Andrade, Nonê, filho de Oswald com a francesa Kamiá. Um ano depois, publica, na seção, ‘Lanterna mágica’ de O Pirralho, o artigo, “Em prol de uma pintura nacional”. Nesta época, junto com os colegas da redação, Guilherme de Almeida, Amadeu Amaral, Júlio de Mesquita, Vicente Rao e Pedro Rodrigues de Almeida, cultiva uma vida social intensa. Vai constantemente para o Rio de Janeiro onde participa da boêmia ao lado de Emílio de Menezes, Olegário Mariano, João do Rio e Elói Pontes. Participa de um almoço em homenagem a Olavo Bilac, que visita São Paulo para estimular a campanha cívica. Torna-se membro da Sociedade Brasileira dos Homens de Letras, fundada pelo mesmo Bilac. Nesta época, mantém forte relação com a jovem Carmen Lydia, a quem introduz no meio artístico e financia os estudos.

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BRASIL

O Zé Pereira chegou de caravela
E preguntou pro guarani da mata virgem
- Sois cristão?
- Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte
Teterê tetê Quizá Quizá Quecê!
Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu!
O negro zonzo saído da fornalha
Tomou a palavra e respondeu
- Sim pela graça de Deus
Canhem Babá Canhem Babá Cum Cum!
E fizeram o Carnaval

Em 1917, inspirado pelo envolvimento amoroso com Carmen Lydia, Oswald escreve, em parceria com Guilherme de Almeida, a peça Mon Coeur Balance. Também em francês, assina com Guilherme de Almeida a peça Leuur âme. Em dezembro deste ano, a atriz francesa Suzanne Desprès e Lugné Poe fazem uma leitura dramatizada de um ato de Leur âme no Teatro Municipal de São Paulo. Oswald volta a frequentar a faculdade de Direito e trabalha como redator de O Jornal. Em uma de suas viagens ao Rio, Oswald conhece Isadora Duncan. Assina com o próprio nome os trechos do futuro romance Memórias sentimentais de João Miramar, publicados na revista A Cigarra e começa a escrever o drama O filho do sonho.

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SOLIDÃO

Chove chuva choverando
Que a cidade de meu bem
Está-se toda se lavando

Senhor
Que eu não fique nunca
Como esse velho inglês
Aí do lado
Que dorme numa cadeira
À espera de visitas que não vêm

Chove chuva choverando
Que o jardim de meu bem
Está-se todo se enfeitando

A chuva cai
Cai de bruços
A magnólia abre o para-chuva
Para-sol da cidade
De Mário de Andrade
A chuva cai
Escorre das goteiras do domingo

Chove chuva choverando
Que a casa de meu bem
Está-se toda se molhando

Anoitece sobre os jardins
Jardim da Luz
Jardim da Praça da República
Jardins das platibandas

Noite
Noite de hotel
Chove chuva choverando

Em 1917, Oswald conhece Mário de Andrade e o pintor Di Cavalcanti. As ideias se juntaram, encontraram um no outro uma razão para continuar, algo que começaria ali, assim, os três, mais Guilherme de Almeida e Ribeiro Couto formaram o primeiro grupo modernista. Nesta época também, Oswald aluga uma garçonnière na rua Líbero Badaró 16, onde, faz reuniões intelectuais e, obviamente, amorosas. O grupo modernista se reune lá. Um ano depois, publica no Jornal do Commercio o artigo “A exposição de Anita Malfatti” defendendo as tendências expressionistas em resposta a crítica “Paranoia ou mistificação” de Monteiro Lobato. Ainda sobre a garçonière, Oswald começa a escrever um diário sobre as reuniões com o título de “O perfeito cozinheiro das almas deste mundo”

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CANÇÃO DA ESPERANÇA DE 15 DE NOVEMBRO DE 1926

O céu e o mar
Atira anil
No meu Brasil

Sobre a cidade
Flutua
A bandeira do Porvir

Cada árvore
De estanho
Plantada
Espera
A passagem
Da carruagem
Do Brasil

O céu e o mar
Atira anil
No meu Brasil

Sobre a cidade
Flutua
A bandeira do Porvir

E o povo
Ansioso
Airoso
Sacode no ar
A palheta
Da Esperança
Vendo o dia
Tropical
Que vai passar
Na carruagem
Dos destinos
Do Brasil

À saída da Câmara
Pela boca ardente
De um estudante
Jorra a esperança
Do grandioso
E desordeiro
Povo Brasileiro

E os dragões impacientes
Nos cavalos impacientes
Esperam impacientes
Que o acadêmico exponha
A dedicação
Da gente brasileira
Pelo seu Presidente

Ao lado
Tendo na mão
Espalmada
Os 14 versos brancos
Duma Vitória-Régia

Destaca-se
A Rainha dos Estudantes
Dos Estados Unidos do Brasil

É uma mocinha
Como a futura mãe-pátria

Lá fora as árvores dragonas sacodem os penachos pesados
Dizendo que sim verde

Os cavalos esperam
Os dragões esperam
O povo esperam
Que passe no anil
Entre filas
Do mar e do céu
O Presidente
Do Brasil

Em fevereiro de 1919, Oswald perde seu pai. Começa a ajudar a normalista Maria de Lourdes Castro Dolzabi, Daisy, com quem tivera intenso caso, a se estabelecer em São Paulo. Publica na revista dos estudantes da Faculdade de Direito, Onze de Agosto, “Três capítulos” do romance em confecção Memórias de João Miramar. No dia 15 de agosto, casa-se com Daisy, que estava hospitalizada devido a um aborto mal sucedido. No dia 24 de agosto, Daisy morre, aos dezenove anos e é sepultada no jazigo da família Andrade no Cemitério da Consolação. Conclui o bacharelado em Direito.

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CANÇÃO E CALENDÁRIO

Sol de montanha
Sol esquivo de montanha
Felicidade
Teu nome é
Maria Antonieta d’Alkmin

No fundo do poço
No cimo do monte
Na ponte quebrada
No rego da fonte
Na ponta de lança
No monte profundo
Nevada
Entre os crimes contra mim
Maria Antonieta d’Alkmin

Felicidade forjada nas trevas
Entre os crimes contra mim
Sol de montanha
Maria Antonieta d’Alkmin

Não quero mais as moreninhas de Macedo
Não quero mais as namoradas
Do senhor poeta
Alberto d’Oliveira
Quero você
Não quero mais
Crucificadas em meus cabelos
Quero você

Não quero mais
A inglesa Elena
Não quero mais
A irmã da Nena
A bela Elena
Anabela
Ana Bolena
Quero você

Toma conta do céu
Toma conta da terra
Toma conta do mar
Toma conta de mim
Maria Antonieta d’Alkmin

E se ele vier
Defenderei
E se ela vier
Defenderei
E se eles vierem
Defenderei
E se elas vierem todas
Numa guirlanda de flechas
Defenderei
Defenderei
Defenderei

Cais de minha vida
Partida sete vezes
Cais de minha vida quebrada

Nas prisões
Suada nas ruas
Modelada
Na aurora indecisa dos hospitais

Bonaçosa bonança

Em 1920, começa a trabalhar na revista Papel e Tinta. Escreve o editorial da revista com Menotti Del Pichia, a qual teve colaboração de Mário de Andrade, Monteiro Lobato e Guilherme de Almeida entre outros. Nesta época conhece o escultor Victor Brecheret, a quem encondenda um busto de Daisy. Em 21, profere um discurso no banquete oferecido a Menotti Del Pichia por ocasião do lançamento de um livro, no Trianon. No dia seguinte publica um artigo no Correio Paulistano, onde passa a trabalhar. Apresenta no mesmo jornal a poesia de Mário de Andrade sob o título de “Meu poeta futurista”, criando polêmica com o próprio Mário, que indaga o termo “futurista”. O movimento modernista já existe, e por isso, vai para o Rio de Janeiro com outros escritores em busca novas adesões, se encontra com Ronald de Carvalho, Manuel Bandeira e Sérgio Buarque de Holanda. Logo chegaria a Semana de Arte Moderna.

Drummond em http://cartilhadepoesia.wordpress.com

DOTE

Te ensinarei
O segredo onomatopaico do mundo
Te apresentarei
Thomas Morus
Federico Garcia Lorca
A sombra dos enforcados
O sangue dos fuzilados
Na calçada das cidades inacessíveis
Te mostrarei meus cartões postais
O velho e a criança dos Jardins Públicos
O tutu de dançarina sobre um taxi
Escapados ambos da batalha do Marne
O jacaré andarilho
A amadora de suicídios
A noiva mascarada
A tonta do teatro antigo
A metade da Sulamita
A que o palhaço carregou no carnaval
Enfim, as dezessete luas mecânicas
Que precederam teu uno arrebol

Como consta em todos os registros possíveis, Oswald participa ativamente da Semana de Arte Moderna, realizada de 13 a 17 de fevereiro no Teatro Municipal de São Paulo. Lá, lê fragmentos inéditos de Os Condenados e A estrela de absinto. Integra o grupo modernista da revista recém criada Klaxon. Os condenados é publicado com capa de Anita Malfatti, pela casa editorial de Monteiro Lobato. Faz conferências em banquetes e lançamentos. Nesta época forma o notório “grupo dos cinco” com Mário de Andrade, Anita, Tarsila do Amaral e Menotti Del Pichia. No fim do ano de 22, Oswald viaja para Europa em dezembro, está com 32 anos. Um mês depois, ganha na justiça a custódia do filho Nonê, que viaja com ele à Europa e começa a estudar na Suiça. Passeia com Tarsila pela Espanha e Portugal e, a partir de março, se instala em Paris.

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BLACK-OUT

Girafas tripulantes
Em pára-quedas
A mão do jaburu
Roda a mulher que chora
O leão dá trezentos mil rugidos
Por minuto
O tigre não é mais fera
Nem borboletas
Nem açucenas
A carne apenas
Das anêmonas
Na espingarda
Do peixe espada
Transcontinental ictiossauro
Lambe o mar
Voa, revoa
A moça enastra
Enforca, empala
À espera eterna
Do Natal

Neste mesmo ano de 1923, Oswald conhece o poeta francês Blaise Cendrars. Lá, profere uma conferência na Sorbonne, intitulada “L’Effort intellectuel du Brèsil contemporain”. Participa de um banquete oferecido pelo embaixador Souza Dantas, com a presença de Sérgio Milliet, Jules Romains, Giraudoux, Lhote, Léger e Supervielle. Já está para concluir seu João Miramar. De volta ao Brasil, em 24, desta vez, recebe o poeta francês com quem trava um intensa amizade. No dia 18 de março, publica o “Manifesto da Poesia Pau Brasil”, na Revista do Brasil. Na companhia de Blaise, Mário de Andrade, Tarsila, Paulo Prado, Goffredo da Silva Telles e René Thiollier, forma a famosa caravana modernista, que excursiona pelas cidades históricas de Minas Gerais, durante a Semana Santa. Memórias sentimentais de João Miramar é publicado, enfim. Também expressa suas divergências em relação a Graça Aranha em artigo no Jornal do Commercio.

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MEA CULPA, LEAR

Na hora do fantasma
Entre corujas
Jocasta soluçou
O palácio de fósforo
Múltiplas janelas
Desmaiou

- Por que calaste os sinos?
Meu filho, filho meu!
- Dei, dei, dei
- Onde puseste os reinos e as vitórias
Que minhas estranha serenidade prometia?
- Era usurpação. Paguei
- Passaste fome?
- Muitas vezes comi as marés de meu cérebro

Em 1925, visita o filho Nonê na Suíça. Volta ao Brasil e à Europa e começa a divulgar o modernismo em entrevistas e conferências. Nesta época, Mário de Andrade escreve o poema ‘Tarsivald’ em homenagem ao casal Oswald e Tarsila. Sai o livro de poemas Pau Brasil, com apoio de Blaise Cendrars, pela editora francesa Au Sens Pareil, com ilustrações de Tarsila e prefácio de Paulo Prado. Retorna ao Brasil mais uma vez e publica o artigo “A poesia Pau Brasil” no qual responde ao ataque feito por Tristão de Athayde, no mesmo jornal. Anuncia sua candidatura à Academia Brasileira de Letras na cadeira de Alberto Faria, porém, não a regulariza. Oficializa o noivado com Tarsila e viaja para França com ela. Encontra mais uma vez com Nonê e partem todos para uma excursão no Oriente Médio.

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ANTENA

Aqui todos bem
E aí?
Pega o coleóptero pentâmetro
Lamelicórneo
Escarabídeo de negro marfim
Quem foi que te pegou?
Tata! É meu!
O bizantino escaravelho.

Ainda em 1926, Oswald recebe o poeta italiano Marinetti em viagem à America do Sul e casa-se enfim com Tarsila do Amaral. No ano seguinte, publica, a Estrela de absinto, com capa de Vitor Brecheret. Escreve crônicas de ataque a Plínio Salgado e Menotti Del Pichia, que eram Integralistas e rompem com os Modernistas. Recebe menção honrosa da Academia Brasileira de Letras pelo livro A estrela de absinto. Em 28, como presente de aniversário, recebe de Tarsila um quadro ao qual resolvem chamar de Abaporu, que em língua Tupi quer dizer “aquele que come”. Também é neste mesmo ano que redige e faz uma leitura do “Manifesto Antropófago” na casa de Mário de Andrade e, funda, com Raul Bopp e Antonio Alcântara Machado a Revista de Antropofagia.

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A FAMÍLIA DO BURRINHO

- Vamos Joseph fugir
- Para onde Maria ir
Joseph (jocoso) – shall go to Jundi-aí ai!
- Depressa! Sela o Mangarito
Vamos com o vento Sul
Onde serei cesariada?
- Não presepe
- Tenho medo da vaca
- Não chores darling (terno) Sweepstake de Deus!
Maria – Caí na ilegalidade
Porque modéstia à parte
Trago uma trindade no ventre
Nesse tempo não havia ainda as irmãs Dione

Algumas palavras de inglês conhecendo
A família sagrada partiu
Sem saudades levar
Para as bandas do mar
Vermelho
Na poeira da madrugada
Cruzou um olival
O escaravelho
- Quantas dracmas serão precisas?
Exclamou o castiço esposo
Para esta viagem em torno da lei do mundo
Estamos no século III ou IV da fundação
De Roma
E só tenho “argent de poche”
- Não vá faltar Joseph
- Na verdade Deus ajuda…
(os ricos)
- Sonhei que os serafins
Estão bordando uma estrela surda
Para Herodes não ver
Quero reis magos
Trenzinho e monjolo
E o retrato de Shirley Temple
Porque o menino vem
Este mundo salvar
O vento distribuía algodão pelos açudes
Joseph espancou o burrinho
E riu
- Belo mundo ele vem salvar!
(Já havia naquele tempo
Pouco leite para os bebês)
- Se faltar numerário
Eu carrego na centena do Mangarito
E dou um viva ao faraó Hitler…
(Antes que ele faça comigo
O Progrom que fez com Moisés)
- Oportunista! gritou uma nuvem
Joseph fingiu que não ouvia
- A vida é um buraco
Enquanto não vier Maria
A socialização
Dos meios de produção
- Besta! gritou um anjo
São José seguiu pensando
Que os anjos geralmente são reacionários
E as nuvens provocadoras

Em 1929, ano da crise econômica americana, Oswald lança a segunda edição da Revista de Antropofagia, sem a participação dos antigos colaboradores, que passam a criticar a revista. Presta uma homenagem ao palhaço Piolim na quarta feiras de cinzas com o apoio da revista. Ao longo do ano, rompe com os amigos Mário de Andrade, Paulo Prado e Antônio de Alcantara Machado. Com a queda da bolsa, sofre algumas perdas financeiras. Recebe a visita de Le Corbusier, Josephine Baker e Herman Keyerling e mantém uma relação amorosa com Patrícia Galvão, Pagu, com quem escreve o diário “O romance da época anarquista, ou Livro das horas de Pagu que são minhas – o romance romântico – 1929-1931″. No fim do ano, termina com Tarsila e se junta com Pagu. Casa-se com ela em compromisso verbal em frente al jazigo da família Andrade no cemitério da Consolação. Quando vem a Rio de Janeiro assistir à posse de Guilherme de Almeida na ABL, é preso pela polícia sob denúncia de querer agredir ao poeta Olegário Mariano.

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ESTRONDAM EM TI A IARAS

Desde Bilac
Somos internacionalistas e portugueses júniors
Gostamos de Camembert, do Nilo, de Frinéia e de Marx
Carvões do mar
Náufragos entre sustos e paisagens
- “I don’ know my elders!”
Desde Gonzaga e desembargadores
Desde a Prosopopéia
Somos brasileiros

Em 1931, Oswald viaja para o Uruguai para conhecer Luis Carlos Prestes, exilado em Montevidéu. Adere ao comunismo. Lança o jornal O Homem do Povo, com Pagu e Queirós Lima e participa da Conferência Regional do Partido Comunista no Rio de Janeiro. Publica Serafim Ponte Grande e ajuda financeiramente a publicação de Parque industrial de Pagu. Em 1934, Participa do Clube dos Pianistas Modernos e passa a viver com a pianista Pilar Ferrer. Publica a peça O homem e o cavalo e lê cenas no Teatro Experiência de Flávio de Carvalho, mas é interditado pela polícia. Apaixona-se por Julieta Bárbara Guerrini, com quem assina um “contrato antenupcial”. Um ano depois, reuniões na casa de Flávio de Carvalho para programar atividades artísticas e culturais. Conhece através de Julieta, Roger Bastide, Giuseppe Ungaretti e Claude Lévi-Strauss.

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BUENA DICHA

Há quatrocentos anos
Desceste do trópico de Capricórnio
Da tábua carbunculosa
Das velas
Que conduziam pelas estrelas negras
O pálido escaravelho
Dos mares
Cada degredado insone incolor
Como o barro

Criarás o mundo
Dos risos alvares
Das colas infecundas
Dos fartos tigres
Semearás ódios insubmissos lado a lado
De ódios frustrados
Evocarás a humanidade, o orvalho e a rima
Nas lianas construirás o palácio termita
E da terra cercada de cerros
Balida de sinceros cincerros
Na lua subirás
Como a tua esperança

O espaço é um cativeiro

Em 1936, casa-se mais uma vez, agora com Julieta Bárbara Guerrini. Juntos, passam dias na fazenda da família de Julieta onde recebe a visita de Jorge Amado. Publica um volume com duas peças, A morta e O Rei da Vela. Publica também a sátira “Um panorama do fascismo”. Participa das atividades da Frente Negra Brasileira proferindo um discurso sobre Castro Alves no Teatro Municipal. Em 38, obtém o registro # 179 do Sindicado dos Jornalistas de São Paulo. Em 39, ingressa no Pen Club, e vai para a Europa com a mulher para representar o Brasil no Congresso Pen Club, porém, volta ao Brasil devido à guerra. Neste ano, tem problemas de saúde e vai para um retiro na estância São Pedro. Em 40, candidata-se a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras e escreve uma carta aos imortais declarando-se para-quedista contra as candidaturas de Menotti Del Pichia e Manuel Bandeira, que acaba sendo eleito.

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COMO UM MOLE TUFÃO

O imperador está com sinusite
No apartamento 522
Aqui d’el rei!
Viveste milênios
Bajulando a sinusite do imperador
Ou no oboé das barricadas
Nunca acrisolaste tua reputação bancária
Nem na Florença dos Medici
Em Bombaim ou Buenos Aires
Dentro daquele copo da China
Como uma flor de coral
Nunca consolidaste tua revolta
Sem atirar de supetão
Nos tiranos desprevenidos
Daí a tua híbrida
Reputação de jogador
Muita gente te amou sem ser amada

Em 1941, Oswald relança o volume Os condenados, agora, dividido em três partes: Alma, A estrela de absinto e A escada. Nesta época encontra-se com Walt Disney que faz visita a São Paulo e monta com seu filho Nonê, um escritório de imóveis. Em 42, publica na Revista Brasil, o texto “Sombra amarela” dedicado a Orson Wells. Participa do VII Salão do Sindicado dos Artistas Plásticos de São Paulo. Separa-se de Julieta e conhece Maria Antonieta D’Alkmin. Um ano depois, publica A revolução melancólica e participa do II Concurso Literário. Em junho deste ano, casa-se com Maria Antonieta e inicia a coluna “Feira das Sextas” no Diário de São Paulo. Também encontra-se com o escritor argentino Oliverio Girondo.

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EPITÁFIO #2

Não terás os carros dos triunfadores
Nem choros de escravos
Porque quiseste libertar os homens
Estacará diante de ti
A máscara da negação
Lutarás com a vida face a face
Sem subterfúgios nem dolo
E ficará e eco de tua queda

Em 1944, Oswald começa a colaborar para o jornal carioca Correio da Manhã. Em maio deste ano, viaja a Belo Horizonte a convite do prefeito Juscelino Kubitschek, para participar da Primeira Feira de Arte Moderna. Faz conferências sobre pintura e algumas são publicadas. Em 45, participa do I Congresso Brasileiro de Escritores e anuncia Prestes com candidato à presidência, também lança o manifesto da Ala Progressista Brasileira. Porém, discorda da linha política de Prestes e rompe com o Partido Comunista. Recebe o poeta Pablo Neruda e nasce sua filha Antonieta Marília de Oswald de Andrade.

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ERRO DE PORTUGUES

Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português

Em 46, participa das homenagens póstumas a Mario de Andrade e discursa no Centro Acadêmico XI de Agosto em homenagem a Gilberto Freyre. Publica o texto “Mensagem ao Antropófago desconhecido (da França Antártica)”. No ano seguinte, publica O escaravelho de ouro dedicado à sua filha. Perde a eleição para delegado da Associação Brasileira de Escritores e se desliga da entidade. Em 48 nasce seu quarto filho Paulo Marcos Alkmin de Andrade e participa do Primeiro Congresso de Poesia no qual discursa criticando a “geração de 45″ ressaltando as conquista de 22.

Daquele jeito em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

MENSAGEM POÉTICA AO POVO BRASILEIRO

HIP HIP HOOVER!

América do Sul
América do Sol
América do Sal
Do Oceano
Abre a jóia de tuas abras
Guanabara
Para receber os canhões do Utah
Onde vem o Presidente Eleito
Da Grande Democracia Americana
Comboiado no ar
Pelo vôo dos aeroplanos
E por todos os passarinhos
Do Brasil

As corporações
Essas já saíram para as ruas
Na ânsia
De o ver
Hoover!
E este país ficou que nem antes da descoberta
Sem nem um gatuno em casa
Para o ver
Hoover!

Mas que mania
A polícia persegue os operários
Até nesse dia
Em que eles só querem
O ver
Hoover!

Pode ser que a Argentina
Tenha mais farofa na Liga das Nações
Mais crédito nos bancos
Tangos mais cotubas
Pode ser

Mas digam com sinceridade
Quem foi o povo que recebeu melhor
O Presidente Americano
Porque, seu Hoover, o brasileiro é um povo de sentimento
E o senhor sabe que o sentimento é tudo na vida
Toque!

Em 1949, Oswald profere uma conferência no Museu de Arte Moderna, onde fala sobre “As novas dimensões da poesia”. Recebe em julho deste ano Albert Camus em visita ao Brasil e faz com ela uma excursão a Iguape afim de assitir as festas do Divino, relatadas por Camus em “Journaux de Voyage”. A visita termina com uma “feijoada antropofágica” em sua residência. Em 1950, comemora seus sessenta anos e o Jubileu de “Pau Brasil” com um banquete “antropofágico” no Automóvel Club de São Paulo. Lá é homenageado por Sérgio Milliet. Escreve o artigo “Sexagenário não, mas Sex-appeal-genário” para A Manhã. As conferências sobre antropofagia são constantes e Oswald se candidata a deputado federal pelo Partido Republicano Trabalhista com o lema Pão-teto-roupa-saúde-instrução-liberdade.

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GLORIOSO DESTINO DO CAFÉ
para o Germinal Feijó

Pequena árvore
Cheia de xícaras
Te dei
Adubo
Trato
Colono
Céu azul
E tu deste
A safra
Dos meus anos fazendeiros

Depois deste
O desastre
E de borco no chão
Me recusei
A achar desgraçados os meus dias
Senti que como tu
Pequena árvore
Milhões de homens de minha terra
Haviam sido queimados
Decepados dos seus troncos
Para que se salvasse
Sobre a miséria de muitos
O interesse dos imperialismos
E se apaziguasse a gula
De seus sequazes tempestuosos
E deste
Em xícaras
O travo da tua cor madura
Senti no teu calor
Aquecido nos fogareiros pobres
O rubi da revolução

E como muitos me armei
Cavaleiro de ferro
Nos lençóis rasgados
Ds cortiços
E nas praças tumultuosas
E como tu pequena árvore debordada
Debordado do latifúndio
Saí ao encalço da felicidade da terra

Em 1951, Oswald entrega a Cassiano Ricardo um projeto escrito a propósito da reforma de base anunciada por Getúlio Vargas e propõe a organização de um Departamento Nacional de Cultura. Começam as dificuldades financeiras. Em 52, republica o Manifesto da Poesia Pau Brasil no jornal A Manhã. Começa a escrever tratados sobre antropofagia, ensaios, anotações. É internado na clínica São Vicente no Rio de Janeiro. Em 1953, participa do júri pelo Salão das Letras e Artes Carmen Dolores Barbosa e dirige saudação a José Lins do Rego. Sofre nova intervenção hospitalar no Rio de Janeiro. No fim do ano, por problemas financeiros, tenta vender sua coleção de telas estrageiras para o MAM do Rio, e os quadros nacionais para Niomar Muniz.

Jorge Mautner em http://cartilhadepoesia.wordpress.com

O MACAQUINHO E A SENHORA

Um dia uma senhora
De rico parecer
Entrou num velho parque
A fim de espairecer

Olhou todas as flores
Era na Primavera
E pensou nos amores
Pois linda e moça ela era

Eis quando numa gaiola
Depara subitamente
Com feio e pelado bicho
O pobre Macaco Clemente

Vendo-a o filho de Deus
Sorri e se coça todo
Pula gira rodopia
Enfia a cabeça no lodo

Depois trepa, guincha, grita
E pinta o sete e o caneco
Ri-se, assovia, namora
E põe tudo em cacareco

A rica senhora sorri
Pra tal manifestação
Mas ao amor do macaco
Gelado é o seu coração

Desolado, cabisbaixo
Reflete o pobre Clemente
- Assim é a lei inflexível
Do meu destino inclemente!

Meses depois, a senhora
Das sedas e dos brilhantes
Regressa a jardim perdido
Mas não volta como dantes

Na cidade em que vivia
Rebentou a revolução
E o seu querido partiu
À frente de um batalhão

Uma manhã ela viu
O belo amante enforcado
Só a graça e a riqueza
Lhe restou do ano passado

Ávida, ei-la que procura
O triste do macaquinho
Pra ver se ele inda se lembra
Como ficou perdidinho

Mas o Clemente não liga
Às jóias, à seda, ao porte
Da grande e linda senhora.
É assim que muda a sorte!

Põe-se numa gostosa fruta
Preocupado a descascar
Enquanto ela dolorida
Procura o interessar

Moral

Inútil, minha senhora,
Seu macaquinho perdeu
Não troca ele uma banana
Por perfil de camafeu

Tarsila, bela Tarsila
Não vá entornar o caldo
Não perca tempo não perca
Case-se logo com o Oswaldo.

Em 1954, Oswald prepara-se para ministrar um curso de Estudos Brasileiros da Universidade de Upsala, na Suécia, altera a programação para o curso ser dado em Genebra, mas jamais faz essa viagem, pois é internado no hospital Santa Edwiges e escreve o caderno “Livro da convalescença” que é lido por Di Cavalcanto no Encontro de Intelectuais, no Rio de Janeiro. Sofre uma intervenção cirúrgica no Hospital das Clínicas. Faz mais uma conferência e é homenageado no Congresso Internacional de Escritores realizado em São Paulo. Seu reingresso nos quadros da Associação Brasileira de Escritores é aprovado. Em outubro deste ano de 54, Oswald de Andrade é internado e falece no dia 22 sendo sepultado no jazigo da família no cemitério da Consolação. Assim terminamos mais uma antologia. Semana que vem, outro universo poético, outras proposições, outros poemas, outras ideia de poesia.

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PEITINHOS
(poema da era pré-freudiana)

Seu Bonifácio gostava muito de comungar
E como ficava com o estômago fraco
Ia depois tomar café em casa de Dona Sarah
Que era em frente da Igreja

Numa manhã Dona Sarah apareceu com uma blusa de
rendas sobre o corpo sem camisa

Seu Bonifácio quando chegou
Na hora da morte
Aos 78 anos
Comungou pela última vez
Delirando
Com os peitinhos nus de Dona Sarah

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Jorge Mautner

 

Henrique George Mautner nasceu no Rio de Janeiro no dia 17 de janeiro de 1941, filho de Paul Mautner e Anna Illichi. De acordo com sua mãe, George nasceu às 9 horas da noite, na hora em que abria o Cassino da Urca. Sua mãe era origem iugoslava e católica, ao passo que seu pai, era judeu austríaco. O menino nasceu pouco tempo depois de seus pais desembarcarem no Brasil fugindo do holocausto, do nazismo. Neste mês, percorreremos a poesia deste notável artista brasileiro. Sua relação com o Tropicalismo, com a música, com a prosa e, sobretudo, com a poesia brasileira. Evoé!

Segurando a pipa amarela em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

POEMA V

E houve um estranho amor
que quase me custou a vida
e que hoje me crucifica
e que na verdade
me tortura, ah! romântico!
A lua brilhava que nem prata
em cima da praia de novo
e eu andava sozinho
com meus velhos blue-jeans
e o meu Brasil
como eu te amo Brasil!
Sofria a fome e os pescadores e trabalhadores
e criancinhas esperam um dia melhor
quando a bandeira vermelha
for nossa bandeira pelo céu
azul e cinza chuvoso dessa terra
maravilhosa e triste
e nós os tristes, os deslocados,
os que são vermelhos por causa do sngue do
coração e da paixão lutaremos por isto!
Mas deixa viver com minha saudade
em meu peito!
Ela é minha!
É coitadinha
é a única coisa que tenho
(pois não tenho amor)
e ela é vermelha
como a bandeira que nos une!
É porque tudo isto é
o sangue, a paixão,
o amor.
Palavra linda! Quase sacra.
O sol nasce por aí
e o mar se ilumina
e o calor produz a febre
e a febre me faz escrever
inventar cantar lutar!
Luto no amor e na vida.
Ah! Os rocks dão-me forças
tenho uma espada na mão que não vejo
mas meu peito tem um coração
que tem FÉ que encontrei
depois de muito tempo perdida.
Eu e meus companheiros
vamos marchar por aí.
É o que resta.
Estandarte do Kaos!
Marxismo existencial!
Coisa nova!
Viva o mundo
o sangue vai correr
do nosso coração
ela já escorre!

Seu pai, Paul Mautner, era um homem extremamente culto. Quando veio ao Brasil, Paul se tornou logo simpatizante de Getúlio Vargas e começou a trabalhar com a comunicação da agência de resistência judaica anti-nazista. Um ano depois, em 42, um choque: Sua irmã, Susana Mautner, não consegue vir da Áustria para o Brasil para se juntar aos pais, fato este que marca muito sua mãe, Anna Illich, que passa a sofrer de uma paralisia nas mãos. O pequeno Jorge, então George, passa a ser educado pela sua babá, Lúcia, que era Yalorixá. Lúcia passa a levar o menino para terreiros de candomblé, onda há uma natural familiarização com o batuque.

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ECOLOGIA

a ecologia
se chamava um dia
deusa harmonia
e era a filosofia
doa gregos e de todos os eternos astronautas
que somos todos nós jamais a sós com todas nossas faltas
só os sonhadores
vivem os grandes amores
ciência e paciência
viva a coexistência!

hoje em dia
a ideologia
do terror
morreu de puro amor
e da morte dela nascem sem parar tão lindos frutos
novas ideologias todos os dias a cada três minutos
coisas muito jóias
Sem as paranóias
e sem radicalismo
ou totalitarismo

ó coração
por que razão
choras e choras
se a revolução
brasileira é multi-racial super original
só nossa como o samba e a palhoça e este carnaval
ela é nossa
como a bossa
o luar de prata
e ela é bem mulata!

e a soja
que é a comida
e a própria vida
que nós daremos
pra boca de uma faminta superpopulação que vai pintar aí
pra boca da superpopulação terrestre que vem aí
essa a missão sagrada do país em que nasci
e acabar com o tédio
do primeiro mundo
e dar o remédio
que é este negro batuque tão profundo

Em 1948, quando tinha seis anos, Mautner presencia a separação dos pais. O menino fica com a mãe, Anna Illich, que se casa, então, com Henri Muller, um violinista, e se muda para São Paulo. Mautner foi junto. O contato com seu pai e com a babá Lúcia se perde, ambos continuam a viver no Rio de Janeiro. Henri Muller, que se torna o primeiro violino da Orquestra Sinfônica de São Paulo, tem papel fundamental na vida do jovem George Mautner, quando ensina-o a tocar o instrumento, e assim, Mautner descobre o violino. Seu padrasto, além da orquestra, também faz pequenos trabalhos, ou “bicos”, participando de programas da Rádio Nacional, e nesse tempo, o menino tem a oportunidade de conviver entre grandes artistas da rádio, como Aracy de Almeida, Nelson Gonçalves, BlackOut, Jorge Veiga, Tonico e Tinoco, Elizeth Cardoso, Inezita Barroso, Marlene, Emilinha Borba e muitos outros.

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DESAFIO E DESAFIO
(trecho)

No infinito-finito universo einstaniano
Ou na afro-indígena vertigem da cultura da suprema doçura
Da negritude de todo território americano
Mas ainda tenho fome
Daquilo que não tem nome
Às vezes a poesia para
Para ser mais odara
Mesmo quando se afunda
Arranha céus
Arranha véus
E a peleja de Deus com o diabo
Eu a vejo como réu
Como coisa de outro estado
Que não o estado em que você tem estado
Mas aquele
Apenas aquele
Que foi conquistado
Violões acústicos
São corações tão rústicos

Em 1950, Mautner vai estudar no Colégio Dante Alighieri, em São Paulo, e lá conhece duas figuras que se tornariam, além de grandes amigos, personagens de seus livros: Arthur de Mello Guimarães e José Roberto Aguilar. Este segundo, disse uma vez que “a minha primeira impressão dele, pelo que me lembro, era que, na terceira série ginasial, ele era um CDF. Tinha um paletó de lã de camelo ou sei lá, e era muito discreto, mas no recreio tocava samba, e isso meio que congregava as pessoas. Eu me lembro de ter visto isso e pensado: “puxa, até que esse cara não é tão certinho quanto eu imaginava”. Basicamente ele era uma pessoa muito isolada da classe. Sei lá, você chega numa classe e sempre tem alguma coisa pra falar…aquela identificação imediata entre todo mundo. Mas o Mautner não: ele era um estrangeiro.”

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CANTO I

Sinto que sou alguém
Que para remediar a dor de cotovelo
Escreveu tudo isso pro nada e pro ninguém
E só queria era estar beijando teu cabelo

Tudo que eu desejo e quero
É habitar com você e mesma paisagem
Onde se houve rock-samba-bolero
E vive-se rindo, só rindo, falando bobagem
Penso nos meus planos tão insanos
A programar minhas atividades
Cantaríamos e nos gostaríamos todos os dias dos anos
Até o infinito da embriagues das eternidades

A eternidade fica onde desejamos
Que ela fique como sendo a realidade
É só querer e nos amamos e nos chupamos
Sendo que é isso que eu entendo por única e absoluta felicidade

Teus olhos são poços
Onde quero pescar a finíssima truta
Quero pescar esse peixe, me deixe! Roer teus ossos
E teus nervos e tua medula como uma fruta!

Os sons do teu violão ecoam
E estremecem as luzes da cidade
Eles são como mantras e koans
E cheios de coisas freios e eletricidade

Perfuro o ventre da escuridão
Onde as coisas se escondem
Porque estão cheias de sim e de não e de confusão
E quando pergunto sobre qualquer assunto nunca respondem

São como coisas presas ao labirinto
Com algemas nos pulsos e tudo
São cinco pras cinco e eu já me sinto
Dentro do seu não e de um caixão de veludo

Toca teu samba, toca
E tortura meu ser com prazer de ser
A tortura como aquela coisa que nos choca
Onde a alegria me enganava se dizendo a alegria do não Ter

Não ter o quê?
Ora, tá na cara
Não ter é não ter você
Seja como grilo, ou seja odara

Luas de prata conseguem
Fazer com que lentamente
As sensações das emoções naveguem
E invadam como as fadas minha mente

Doem-me todas as cicatrizes
E sinto as rugas das verrugas
Sei que és como atores e atrizes
E que sempre atacas quem te quer por em fugas

Tocas então mil serenatas
E antigas cantigas e rondós
Depois mijas no chão como os cães vira latas
E ficas falando de ti quando estamos a sós

É por isso que sinto todos estes e aquelas
Dores incolores e na garganta como nós
Nem as cores de óleos, hologramas ou aquarelas
Poderiam expressar tão bem quanto esses meus ós, ós, ós!

Estou muito sozinho
Na realidade agora
Falta o seu carinho
E a hora da aurora de quem namora

Gostaria de fazer poesia sem rima
E finalizar por aqui
Mas não consigo deixar de pensar no verso acima
Que sem rima não me deixa dormir

Queria naufragar te beijando
Mas sei que é possível
Por que e até quando
Será meu destino tão horrível?

Desprezaste e usaste todos o meu ser
Agora cansado me viro pro lado
E calado nem consigo ir pro meu eu antigo e morrer
É tudo como se fosse uma visão – suplício – calculado

As barras da minha prisão
São feitas de chocolate
E dentro do meu coraçÃo
Tem um órgão que bate, bate

Que energia é essa
Que não tem pressa nem vai a lugar nenhum?
Que sempre é esse promessa que recomeça
Mesmo quando o jogo é fogo e está um a um?

Eis que vem do além o trem do abismo
É uma questão de vida ou de morte
Pessimismo ou otimismo?
Ou simplesmente, democraticamente, alta falta de sorte?

Ainda sobre este período no início da adolescência, José Roberto Aguilar diz que “O que eu lembro mesmo da época em que conheci o Mautner é desse universo absolutamente mítico. Você entrava na casa dele – que era na rua Itapeva, 187 – e de repente se encontrava num espaço absolutamente diferente, apartado do mundo [...] De vez em quando o Paul (Mautner, pai de Jorge), dava aulas de física quântica, ou então a gente ficava lendo a História da Civilização Ocidental do Bertrand Russel ou os pré-Socráticos. Eram altas aventuras. Por exemplo: ler textos de Somerset Maughan, Hemingway, Faulkner, Kafka, Dostoiévski, era uma aventura absoluta que se abria [...] Esse contexto é muito importante, todo mundo naquela casa contava histórias em nível mítico. O Jorge e a convivência com a babá negra, por exemplo, é uma narrativa mítica.”

Tradução que fiz de Lautréamont em http://pedrolago.blogspot.com

CANTO III

Sinfonia ligeira
Não chega ao fim
Queira ou não queira
Eu sou é assim

Te dei meu corpo
Te dei minha pele
Mesmo depois de morto
Essa força me impede

Força dos grandes destinos
Que estão muito além
Dos hinos e dos sinos
E do aum e/ou do om e do amém

Mas te amo, te amo, te amo
Como nunca se amou na Terra
Nem no Brasil, no Vietnã ou no oceano
Nem na China nem na Inglaterra

Monstro dourado
De amor e dengue
Sou eternamente gamado
Nestes quadris que dançam merengue

Fico feliz
Quando tu chegas
És a matriz
Das minhas horas mais negras

De onde tu vens?
De onde? De onde?
Será que tu és quem tens
O ouro do conde?

Falo bobagem
Começo a ser fragmento
A grande chantagem
É a morte a todo momento

Em 1956, Jorge Mautner começa a escrever sua primeira grande obra: O Deus da Chuva e da Morte. No ano seguinte, nasce sua irmã, Jane Liliane Muller, filha de Ana com Henri Muller. Mas é em 1958, que sua vida literária tem seu primeiro momento, quando, aos 18 anos, tem pela primeira vez seu texto publicado numa revista. Descoberto por Paulo Bonfim, Jorge é comentado no #13 da revista filosófica Diálogo, dirigida por Vicente Ferreira da Silva. Neste mesmo ano, começa suas composições musicais como Iluminação, Olhar Bestial, O Vampiro e outras. Neste ano, também, começa a praticar tai-chi chuan.

Bolero em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

CANTO IX

Nosso amor, esta ilusão
Está encerrado e frio
Acolchoado no colchão
E ainda assim eu me rio

Gozo às vezes e poso
De ser acima do Bem e do Mal
Mas quando convém me entroso
Sou mais sincero que o real do real

Cabelos cacheados
Cabelos lindos
Cabelos revoltados
São fios de antenas tinindo

Açucar doce
Café amargo
Antes eu me fosse
Mas não vou pois não me largo

Pois mesmo o calafrio é
Também tesão afeto
Quer tomar café?
É meu divertimento predileto

Esta cena é ambulante
Como um cigarro e assim eu brinco
No sarro em que te amarro que é amante e apaixonante
E com o qual, bem ou mal, eu brinco

A maçaneta
Não é o trinco
Assim como a corneta
Toca às cinco pras cinco

Te amo no poste
Ou na banheira
Quero você goste
Ou não goste, como queira

Manda ver o chicote
A noite inteira
Depois quero que você me bote
Na minha boca tua língua inteira

Em 1962, Jorge Mautner (agora, enfim, Jorge), publica seu primeiro livro: O Deus da Chuva e da Morte, editado pela Martins Fontes e recebe o Prêmio Jabuti de Literatura. O livro segue uma narrativa simples, porém, intensa e recebe ótimo elogios. Paulo Bonfim disse que “este é um livro diferente. Em suas páginas o leitor encontrará a mensagem genial de um moço de dezenove anos [...] não conhecemos em nossa literatura documento tão impressionante sobre a angústia, o amor e a morte de uma geração tragicamente solitária e incompreendida”. Caetano Veloso aponta que “Jorge Mautner começou a escrevê-lo em sua adolescência, nos anos cinquenta, quando por aqui se cristalizavam as experiências da construção de Brasília, da poesia concreta e da bossa nova, e, nos Estados Unidos, a da literatura beatnik”. E assim Mautner apareceu.

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SANSÃO E DALILA

Sansão e Dalila
A canção que repercute, dali lá
Escute, vê se entendes meus prantos
Ó Ruth caligut Mendes dos Santos

Flechas como os pigmeus
Feitas de segredos meus
Para corações ateus
E para os crentes do divino Deus

Flechas saem do meu coração
Não sei pra onde elas vão
Só sei que às vezes elas vem
Bater el alguém sem coração

Depende só da ocasião
Umas flechas que só vem
Outras flechas que só vão
O porque disso aí
Justamente não sei não
Juro que… não!

Elas vem envenenadas
De coisas apaixonadas
Que o bruxo do amor que eu sou
Com carinho preparou

Outro dia numa oração
Flecharam a cruz da emoção
No altar cheio de luz
De Nossa Senhora da Conceição

Um dia numa ocasião
Mil flechas em profusão
Atingiram um espelho
Aí se deu a confusão

Me apaixonei só por mim mesmo
Num egoísmo muito vesgo
(num egoísmo tão a esmo)
Mas agora não
Sei bem o que é essa boba ilusão

Outra vez num quarto escuro
Voaram setas pro futuro
Furando aquele longo muro
Que aprisiona a solidão

Flechas que saíram em fila
Num filme que pra ver eu fiz fila
Do coração de Dalila pro coração de Sansão

Com o Brasil em ebulição e após a publicação e o sucesso de ‘Deus de da Chuva de da Morte’, Mautner funda o Partido do Kaos, porém, logo adere ao Partido Comunista e é prontamente convidado pelo professor Mario Schenberg para participar junto com o José Roberto Aguilar de uma célula cultural no Comitê Central. Em 1963, mantém uma coluna diária intitulada Bilhetes do Kaos, no jornal Última Hora, até o dia do Golpe Militar. Comenta sua visão de mundo baseada no “sexo, sangue e futebol”. Logo depois, publica, Kaos, seu segundo livro, com orelha de José Roberto Aguilar. Tinha já seus vinte e um anos e pretendia escrever uma trilogia, começando com o ‘Deus…”, depois com Kaos. “O Partido do Kaos existe no coração de todos”.

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POEMA I & II

I

salve minha linda palmeira brasileira
Que vive prisioneira
Por entre os quatro cantos do prédio da cidade
Nasceu como pequena semente
No ponto mais quente
Do nosso país continental tropical
Veio morar por aqui
No subúrbio desta Capital
E apesar de toda poluição infernal
Vive como antigamente
A irradiar ondas redondas serenamente
Como se fosse tudo natural
É com grande amizade
Que nos comunicamos e amamos de verdade
Eu do reino animal
Ela do reino vegetal
Nós dois, pois, do superimpério democrático social

II

João Alfredo muito cedo partiu pro vigésimo nono andar
Sem medo
Sem anel de bacharel no dedo
Subiu-partiu para o ar frio das vidraças cheias de poluição
Fumaça-prédio-limpar
Foi com a pureza de uma criança
Para trabalhar pendurado (coitado!) quase no ar
No bolso levava um sanduíche de banana com salame
Podia Ter morrido de velho como o lulú ou o totó da madame
Mas morreu como uma pomba
Que tomba embriagada de uma festa de arromba e que se esqueceu de voar
Caiu lá de cima do carro de feira do feirante imigrante Manoel
Veio como um espantalho para o céu
Ao lado do alho, da cebola e do bugalho
Mais um acidente de trabalho

Tanto ‘Deus da Chuva…’ quanto ‘Kaos’ causaram muita impressão nos jovens, sobretudo de São Paulo. Houve um certo movimento intelectual, conhecer Mautner se tornou uma coisa incrivelmente alternativa e exclusiva. Uma espécie de “cult”, ou algo parecido. As críticas forma bem divididas e causaram polêmica. Mautner dizia que: “Nego-me a responder perguntas sobre estilo ou forma. Considero-as estéreis, e o que vale é a força do indivíduo: se minha obra tem valor, ela repercutirá, e isto é o que vale, já disse: não sou parnasiano imbecil burilador. Mas algo eu digo: esta força que minha obra tem, esta repercussão nos espíritos jovens e revoltados que ela encontra é o que vale, e um dia meus inimigos engolirão com sangue minhas respostas finais”.

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AMORA

Sou o pai que te adora
Ó doce filhinha Amora
Só quero que você me escute
Ó cigana rainha Ruth

Nosso amor assassinado e milhões de vezes ressuscitado
É quem me dá certeza na eternidade do que foi testemunhado
Quase dois mil anos atrás
Por um alguém
Que morreu e ressuscitou
Perto de Jerusalém

1964. Golpe Militar. Jorge Mautner é preso e enviado para Barretos. Segundo o Exército, sua prisão seria “uma forma de proteção contra as organizações pára-militares”, que poderiam vitimá-lo por seu envolvimento com o ideário comunista. É solto sob a condição de se “expressar mais cuidadosamente em suas futuras obras”. No ano seguinte, publica a terceira parte da Trilogia do Kaos, com o livro ‘Narciso em Tarde Cinza’. Publica também ‘O Vigarista Jorge’, pela editora Von Schmidt, com prefácio de Mário Schenberg. Embora pareça, o livro não é autobiográfico, mesmo com discurso político provocador com o personagem principal de nome ‘Jorge’. Na música, lança os compactos das música de protesto ‘Radioatividade’; ‘Não, não, não’ e também os conjunto ‘Os Seis – Suicida Apocalipse’ como uma prévia d’Os Mutantes.

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ANTENAS

O artista cisma
Que é marginal
Mas não sabe
Que o que lhe cabe
É o maior problema
De ser um Mandarim do sistema
Líder antena
Igual
Talvez abaixo (eu acho)
Apenas do cientista
Na verdade lista
De importância
Na sociedade da suprema ânsia
De ganâcia e extravagância
Onde o cruel é o mel e a fragrância
E o terrível já começa na infância
O bebê nasce no hospital onde tem uma ambulância
E a multidão te viu
Na Tevê
Que te vê
E te viu
Na Ti, Vi
Que é Tevê
Em inglês
Que todos nós
A esmo
Mesmo na escassez
Se vê, não vê?
E que de antevê
E te fez tudo saber
Ainda como bebê
Ou até mesmo antes de nascer
Sem saber raciocinar
Ou aquela coisa
De escrever e ler

Em 1966, Jorge foi incluído na Lei de Segurança Nacional por causa do conteúdo provocador do livro ‘O Vigarista Jorge’ e das letras do Compacto. A situação ficou bem difícil no Brasil, então, Jorge se exilou nos Estados Unidos. Lá começou a trabalhar na UNESCO. Porém, para ganhar um dinheiro extra, Jorge traduzia livros brasileiros para o inglês e dava palestras sobre os mesmos para a Sociedade Interamericana de Literatura, que ficava na Park Avenue, no mesmo prédio onde havia sido a Embaixada Soviética. Recebia 20 dólares por livro e traduziu muitas obras.

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MOVIMENTO UNIVERSALISTA DO KAOS

O partido do Kaos com k
É o mais querido
O que é que há?
É Kaos com k. KK! Colorido destemido

Vai nascer
E já nasceu
Vai ser o ser
Do ABC do plá do anjo e do Zebedeu

Vai brotar nas águas
Como Vênus-Afrodite
Ou Iemanjá e levar as mágoas
De quem como eu é como o povo e como a elite

Estamos iniciando
O movimento que tal, em paz
Amamos e estamos amando
Todo o tempo do tempo e o mal, aliás, jaz no jamais

E no espaço e no vento
Nos ciclones e vendavais
Eu sou o aço do abraço e o documento
Dos nomes e fomes e se és dos homens e lobisomens e dos etcétera e tais

Movimento Universalista
Do Kaos com k
É o movimento no universo sensualista
Do Tao e do som de eon do balafon e do elétron no tom do bom e do plá do plá

É como a canção
Do Jackson do Pandeiro
É o Rei Momo e o não da emoção
O dõ do kendô do Aikido do amor de Xangô e do verdadeiro brasileiro

Universal
E nacionalista de um neo-nacionalismo
Tolerante e democrático social-existencial-global-sensual
E futurista-realista-surrealista de um mel de humanismo

Mistura fina
De cultura pagã
E aventura-doçura-procura-latina
De cura e de anti-linha dura de qualquer ditadura sã e super saudável

Em 1967 Jorge é convidado para participar do Simpósio Interamericano em Caracas, na Venezuela. Lá conhece e já começa a trabalhar como secretário literário do escritor americano Robert Lowell. Conhece também o teólogo da nova-esquerda do anarquismo pacifista, Paul Goodman, de quem recebe as maiores influências sobre ecologia. Compõe duas músicas com a cantora de jazz Carla Bay. Segue a vida para o ano de 1968, quando volta para o Brasil para receber o Greencard e conhece Ruth Mendes, com que viveria futuramente. Ajuda a fazer o roteiro do filme ‘Jardim de Guerra’ de Neville D’Almeida. O filme é duramente censurado pela Ditadura Militar. Um grande viagem estaria por vir.

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RAIOS DE AMOR

Amor é relâmpago mútuo
Por que será que só eu
Quando todo mundo da luz se esqueceu
Sou um raio que é penugem
Me levanto da nuvem e caio
Com vertigem na penugem
Me levanto da nuvem e caio
Com vertigem na folia
Sou a tua tempestade?
Sou como cavalo baio em pleno céu azul de maio
Com a força da maldade da saudade?
Se nosso amor está de luto
É só por causa da tua vontade
Se você quiser em menos de um minuto
Existirá o ah ah ah da alegria do meio dia
Da harmonia da eterna eternidade
Com total perenidade
E imensa felicidade
Eu sempre te escuto
Mesmo quando você está ausente no presente
Dentro ou fora dos esconderijos da cidade
É como a fumaça que passa e sai e se vai de um charuto
Que some e se consome e que tem o nome de felicidade
É como a bola que eu chuto
Com atletismo e num gol de máxima penalidade
Mesmo assim por teu amor e por você eu luto
Com toda a minha capacidade
O que eu sonho eu executo
Espero que assim você goste de mim
Como eu cujo amor atômico
E eletrônico é igual ao rugir
E crescer e surgir e nascer
De toda uma nova humana humanidade
Que se ama com sincera sinceridade
Como se fosse a eterna e doce primavera
Que sopra na copa de todos os coqueiros
E nos tambores de todas as cores
Flores e amores de nossos e vossos terreiros
Brasileiros da nova religiosidade
Que é a grande novidade
Com toda honestidade
Dos tempos atuais
Dos mais iluminados astrais
Que vem pra cima de nós e de vós
E de sei lá mais quem
Como o mais puro eterno futuro riso do neném
E da força do amém e da luz de Jesus lá no além da insanidade
De paixão no coração de velocidade
Para ela que caminha na velocidade da luz
Que tem todas as cores
E é invisível
É tudo ação e são maravilhas e horrores
Tudo é terrível e incrível
E nunca jamais o samba-jazz
A guerra e a paz ou os vampiros em seus retiros
Não tem história contada
Nem sabida ou conhecida ou considerada
Mas existe como toda coisa triste
E como toda lebre que corre vida afora
Toda hora bem alegre
Pois é acima do Bem e do Mal
Num espaço maluco onde ao mesmo tempo
De uma só vez o bem tem que vencer o Mal
No fim do fim enfim e assim sim afinal
Pois assim o quis
O quer e quererá
Aquele cujo nome não se diz
Nem ninguém nunca saberá
Pois já no tempo do Faraó
Passando por Jó e até o Bozó
Tudo é tudo e nada é nada numa coisa só
Até que surgisse
Alguém que disse:
“Misturando água com pó
Eu farei alguém que não tenha nem dó
Nem piedade
E a este ser não ser sequer darei o nome
De toda fome ciclone e no fim de mim
Sairão uma mulher e um “home”
Só por pura loucura divina
Que rima
É o que nos conta
Informação-explosão
Que deixa minha alma sem calma e tonta tanta
É a recente
E mais consciente
Mensagem
Que pode parecer bobagem
Mas vem provada com paciência
Pela nossa super-ciência
Da atualidade
Será que é mesmo?
Vive-se a esmo?
Que fatalidade!
E os problemas demográficos?
E os temas geográficos?
Tudo no fundo é imundo
Tudo cenas de cinema
Teatro ou tragi-comédia
Em Caixas ou em Ipanema
Mas o que mais importa
É que a grande porta
É a estrada da batucada morena
Que abriu uma avenida pelos céus celestiais
Nos guia como a melodia do uivo de uma hiena
O riso de um chacal
A voz da namorada pequena
E o tom do cantor de sambas e muamba tropical
Assim caminhamos
E trabalhamos e nos odiamos e amamos
Nada mal, como ponto final, etcétera e tal
O etcétera
E o idem-ipsa-ípsilon
Teve tem e terá
Tudo isso está e o todo é o um
O um menos dois
Igual a um
Quatro mais cinco = 1941

Em 1970, Mautner viaja para Londres onde estão, exilados, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Se aproximam. Lá, dirige e participa do filme ‘O Demiurgo’ na casa de seu amigo Arthur de Mello Guimarães com participação de Caetano, Gil, José Roberto Aguilar, Péricles Cavalcanti, Leilah Assunção. O filme é censurado para exposição pública, então, Jorge passa a exibí-lo após seus show ao público. Gkauber Rocha declara que o filme é o melhor “do” e “sobre” o exílio. Jorge volta ao Brasil e para a escrever para o Pasquim. E é por essa época que Jorge conhece uma figura que se tornaria seu grande amigo e parceiro musical: Nelson Jacobina.

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PISAM TEU SOLO

pisam teu solo
e te descubro coberta de tabus
paralelepípedos
encobrem a nudez
que a mãe terra te deixou,
sentindo o recato (falso)
que te enlaça
te estraga
te amordaça,
não te deixando fluir
nem mostrar aos chegantes
despencados
desgarrados,
oâmago de você

Pobre princesa minha
Aprisionada.

Em 1972, Mautner lança o LP Para Iluminar a Cidade e o compacto Planeta dos Macacos, pelo selo Pirata. O disco é lançado por um preço abaixo do mercado e é boicotado pelas lojas. O selo some. Começa uma série de shows em penitenciárias e na Casa da Palmeiras, de Nise da Silveira. No ano seguinte publica Fragmentos de Sabonete e participa de uma comemoração patrocinada pela ONU pelos direitos humanos onde foi criado o Território Livre, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro no notório show O Banquete dos Mendigos, com a participação de muitos artistas. Em 74, lança o LP Jorge Mautner, com participação e direção musical de Gilberto Gil. É dispensado d’O Pasquim como parte do movimento anti-baiano do jornal, se revolta, e sai atacando grande nomes como Millor Fernandes e outros.

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GAMO O GAMAR

Amo o amar
Só adianta
Quem canta
E se espanta e espanta
A besteira que é tanta
Vamos aprender a amar
O nosso lar e lar e mar e dar e amar e estar
Jamais aprisionar e subjugar-controlar-manipular
Mas sim, aliás, se emocionar com o Brás
Com a onça e toda a nossa bossa e tudo que se possa
Na nossa joça ser algo que adoça e que coça
E remoça pois é nossa como a carroça e a palhoça
E a roça e a onça de novo com toda geringonça
E a nossa anta capivara
E arara e curupira que pira
E Saci-Pererê e você e toda planta
Que tem tanta
E tudo mesmo que é mudo
É coisa santa quando canta
E isso é isso e só isso adianta
E viu e sentiu a farra no Farol da Barra
E a festa da raça multidão como floresta na praça
Todo sutil significado de país de céu de anil
Momento fugaz num zás-trás
A alma secreta e repleta de tão completa do Brasil
Da selva sem fim até o mar por onde deságua o grande rio
Quente atmosfera
Sente átomos na esfera
Da gente quando era
Mais filho que avô
Mais direto que fingidor
Objeto direto, direto na dor
Passatempo predileto era curtir naquele tempo
Com vento lento tormento do ciúme
Estrume e talvez simples costume
Do amor sem destino
Sem meta só desatino
Salada completa
Mas nada recordo
Só essa madrugada é predileta
Como a grana do bacana na carteira
Como o trono da coroa do décimo nono Rei Momo
E que durante o ano era mordomo
Levou cano no cotidiano
Se não me engano
Mais do que quem pratica crimes de caráter insano
Já foi rei e guarda-civil é gordo mais sutil
Já está adiante do mais intrigante instante
Apavorante
Chocante
Este gordo rei Baco-Dionisius de nossa carne-naval
Para os deuses e deusas do paganismo a ressureição
Por aqui não foi nada mal
Tem até caráter brasileiramente legal
Burocratizada e institucional
Já se está adiante
Nem que adiante
Mesmo não querendo estar tão avante
Vá adiante com esse brilho
De filho ou dos trilhos
Das novas ferrovias que são urgentes
Para que nossa crescente agro-pecuária alimente
A nós em primeiro lugar e depois todas as outras gentes
É a noite da noite dentro do dia a dia
É a alegria do riso que ria
Assim como a garganta que canta
E que assim se liberta
Dessa coisa que aperta
E que só adianta o que se canta
E é preciso até ser preciso no impreciso
E dizer é não ao não do vacilo ou do bacilo
Mas sim à imperfeição do humano
Pois sua perfeição inclui o engano
É preciso o que eu preciso
É preciso precisar pisar teu piso
Liso no riso e com juízo
Com aquele amor que é preciso
Como diz o samba imortal para entrar no paraíso
Com sorriso sem prejuízo corrosivo
Ou totalitarismo agressivo
Ou como Narciso
Que se evaporou como beija flor
E a ninguém amou
Assim não seremos, não sou!
Sabemos
Que somos
E seremos
Supremos
Vencendo combatendo
(sempre entendendo)
Os venenos
Supremos
Seremos
Serenos
E assim teremos
Os amores que queremos
Nessa terra santa
Onde tem tanta anta que canta
Como só canta
E levanta
E adianta
Quem se encanta
E que se alevante
O supermaracatu elefante
Democratizante!
Aqui é mesmo o final
Abaixo o nazismo universal!
“Ciau”
Jorge Mau
Ou bem
Jorge Ben?!

O Tropicalismo surgiu e Jorge estava no meio dele. Sobre sua impressão com a música de Jorge, Gilberto Gil disse que “Eu acho que o despojamento formal, a desconstrução de uma construção lógica clássica, de um universo arquitetônico arrumado, com edifícios construídos andar sobre andar, primeiro sobre o chão, o segundo sobre o primeiro, essa construção lógica desconstruída no versejar e arrumar os versos, ou arrumar as ideias dentro dos versos, de trazer universos pra dentro dos versos. Essa construção lógica havia sido bombardeada pelo Tropicalismo. Mas quando eu ouvi pela primeira vez Maracatú Atômico, construído daquele jeito tão absurdo, quer dizer, como um edifício de pedras cósmicas, construído à semelhança das estações espaciais, com um sistema de acoplagem onde se encaixam peças vindas de todos os lados, debaixo, do alto, da esquerda e da direita, foi um espanto. Isso para mim era um avanço, não só na poética, mas também na música que o Jacobina e o Mautner criaram”.

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ILUMINAÇÃO FELINA: POSTURA DO SENTIR

A guerra mundial não será o fim da humanidade, ou também poderá ser o fim. Que será
será…Sou um religioso, místico, irracionalista. Intensificar a sensibilidade intuitiva, sensorial,
visual. Aprender a ver tudo de novo, sob um novo ângulo, a partir de um novo foco. Ser profeta.
Ouvir o que ninguém ouve. Desprezar o conhecimento racional ao ponto, apenas, de considerá-lo
15% de nossa capacidade…A iluminação começa quando se descobre que a maior coisa é ser gato.
E quando a gente começa a aprender a respirar como o gato, e andar como os felinos, e a sentir o
cheio das coisas mais do que compreender as coisas, é neste dia que você entra no reino da ilumi-
-nação. Quando a gente é gato, a gente age quando nos nervos dá vontade de agir. Raramente a
gente pensa. A gente desliza como tigres, tudo é sensual, e não há sentido nenhum, meta nenhuma,
objetivo nenhum, apenas desliza vagarosamente com os nervos registrando tudo. Eu, como gato,
às vezes falo com os homens. Alguns deles são simpáticos mas querem sempre explicar coisas.
E eles me falam de revoluções e teorias. E depois que Trotsky morreu assassinado no México,
com machadadas na cabeça e seu sangue correu. Imaginem aquele velhinho, personagem da
tragédia grega, com aqueles óculos e aquela barbicha e aquele olhar ao mesmo tempo doce, duro,
com o crânio arrebentado. A revolução acabou. Depois eu vou procurar meus amigos gatos, com os
quais não preciso falar, pois a gente se entende por gestos e olhares.

Em 1975, nasce sua filha com Ruth Mendes, Amora Mautner. Alegria alegria. Um ano depois lança o LP Mil e uma noites em Bagdá. Em 1978 o início da revisão de alguns textos, com a republicação de Narciso em Tarde Cinza e o livro de Panfletos da Nova Era, que haviam sido publicados no Diário de São Paulo. em capítulos. Lança também um compacto pela CBS com a canções Filho Predileto de Xangô e O Boi e Caetano Veloso grava “Vampiro” no LP Cinema Transcedental. A música chama um pouco mais que a literatura, porém, Jorge não para de escrever. Porém, algumas duras perdas mudariam um pouco as coisas.

Antes antes Fernandez em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

O SILENCIO DE BUDA

o cristianismo nasceu
das palavras de jesus
o zen nasceu
de um silêncio de buda
quando um dia iluminado
em lugar do sermão
apresentou aos discípulos
uma flor
sem dizer palavra
um único discípulo entendeu
mahakasyapa
primeiro patriarca do zen
a doutrina da meditação silenciosa
da concentração descontraída
da dança não dançada
da voz sem voz
da iluminação súbita
da luz interior
da superação dialética dos contrários
na vida diária

Em 1981, Jorge lança o LP Bomba de Estrelas, seu primeiro disco pela gravadora Warner. A música O Encantador de Serpentes fica em quarto lugar no Festival da Globo e, enfim, Mautner lança seu livro de poemas ‘Poesia de Amor e Morte’, base desta antologia. Um ano depois, lança o livro Sexo do Crepúsculo, porém, duas perdas: Seu padrasto, que lhe ensinou o violino, Henri Muller, morre aos 76. Um ano depois, em 1986, Mautner perde seu pai, Paul Mautner. “E os vegetais, as plantas sentem e se comunicam, isso é uma lição de amor & comunicação universal: por quê? Não sei, mas é algo de tão espantoso que a ciência descobriu (e eu a cultura negra do canbomblé e a cultura dos índios sempre soube) que me chocou e conduziu cinco passos a mais no caminho da alegria do Amor Universal. Tudo interligado, através de vibrações, frequencias que são energias, memórias, o Tempo são bolhas que viajam pelo espaço, e a energia é um outro nome para amor” JM.

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O SILENCIO DE PITÁGORAS

para pitágoras
tudo é número
tudo é harmonia
tudo é música
os astros obedecem a uma matemática
essa matemática é uma música
não ouvimos a música das estrelas
porque nossos ouvidos são impuros
a culminância da experiência pitagórica
de purificação
e ascenção nas noites estreladas
a sinfonia vinda das esferas
o silêncio dos astros
nasce da nossa surdez

Em 1985 Mautner relança o livro Narciso em Tarde Cinza e lança o disco Antimaldito com direção musical de Caetano Veloso. Um ano depois lança o livro Fundamentos dos Kaos e faz muitos shows, sobretudo contra o Apartheid da África e pela Revolução na Nicarágua. Em 1987, junto com Gilberto Gil, lança o movimento Figa Brasil no show ‘O Poeta e o Esfomeado’ que tem uma adesão de mais de 7000 inscrições. Esse movimento tinha como objetivo discutir a cultura no Brasil, cruzava com o Kaos do próprio Mautner e propunha uma nova abolição na sociedade brasileira.

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O SILENCIO DE PASCAL

“o silêncio desses espaços infinitos
me apavora”
os pensamentos estraçalhados de pascal
é a crise de uma consciência excepcional
no limiar de uma nova era
o místico pascal
contempla o céu estrelado
numa vã espera de vozes
o céu calou-se
estamos sós no infinito
deus nos abandonou
“daquela estrela à outra
a noite se encarcera
em turbinosa vazia desmesura
daquela solidão de estrela
àquela solidão de estrela” (leopardi/via h campos)
nenhum ufo
no close contact of the third kind
a solidão “cósmica” de pascal
é o pendant do vazio de sua classe social
cuja hegemonia está para terminar
os germes da revolução francesa
que vai derrubar a nobreza
e colocar a burguesia no poder
já estão no ar
pascal ouve nos céus
o tremendo silêncio
de uma classe que já disse
tudo que tinha que dizer
pela boca da história

Em 1988, após lançar o CD Árvore da Vida, Mautner se candidata a vereador em São Paulo pelo Partido Verde. Não faz nenhuma propaganda política e acaba não se elegendo por apenas 300 votos. Logo em seguida, viaja para a Bahia, a convite de Gilberto Gil, para trabalhar como seu Chefe de Gabinete, Gil, havia sido eleito vereador naquelas eleições. Porém, em 1990, Mautner viaja para Áustria completamente desiludido com o país após a vitória de Fernando Collor para a Presidência da República. Lá, lança o disco independente Pedra Bruta e faz shows em Viena, Alemanha e Suiça, neste meso disco, Jorge lança o cantor Celso Sim. No mesmo ano de 1990, Jorge perde sua mãe Anna Illich aos 76 anos, assim, volta para o Brasil.

Hecatombes e Ravel em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

OUÇO AGORA

Ouço agora lá longe
Os acordes finais
Como os hinos de um monge
No templo dos samurais

Espinhos e rosas
Rosas e espinhos
Como é que tu gozas
E não tens nem dás carinhos?

Vagueio no meio
De muitas pessoas e gentes
Só não sei se sou lindo ou feio
E se existem mais de três continentes

Como se fazem versos?
Como se fazem mundos?
Assim como se fazem universos
Em segundos vagabundos?

Entenda:
Meu lema
É não se venda
E não tema

Cavaleiros
Medievais
Feiticeiros
E bacanais

Meu desejo não quer esperar, como eu erro!
Leva você pra longe de mim
Vou dar aquele grito, aquele berro
Eu vou chamar o Anjo Serafim

Que é como um Arcanjo
E é amante do Arlequim
Todos tocam seus banjos
Só eu toco bandolim

Na ECO 92, Gilberto Gil enfatiza o pioneirismo ecológico de Mautner e das ONGs desde 1956. No ano seguinte, lança o livro Miséria Dourada. Em 1995, relança o livro Fragmentos de Sabonete com fragmentos inéditos. A gravadora Warner relança o disco Bomba de Estrelas após o sucesso de uma campanha publicitária de Washington Olivetto que tinha como trilha a canção O encantador de Serpentes como trilha. No ano seguinte, uma incrível homenagem: a Fundação Nacional de Arte (Funarte) inaugura em sua sede de São Paulo a ala Jorge Mautner, multidisciplinar direcionada a jovens artistas brasileiros.

poemas e traduções http://pedrolago.blogspot.com
prosa estranha http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
arquivo da correspondência http//cartilhadepoesia.wordpress.com

PERFURO O VENTRE DA ESCURIDÃO

Perfuro o ventre da escuridão
onde as coisas se escondem
porque estão cheias de sim e de não e de confusão
e quando pergunto sobre qualquer assunto nunca
respondem
São como coisas presas ao labirinto
com algemas nos pulsos e tudo
são cinco pras cinco e eu já me sinto
dentro do seu não e de um caixão de veludo

Toca teu samba, toca
e tortura meu ser com prazer de ser
a tortura como aquela coisa que nos choca
onde a alegria me enganava se dizendo a alegria de não ter

Não ter o quê?
Ora, tá na cara
não ter é não ter você
seja com grilo ou seja odara

Luas de prata conseguem
fazer com que lentamente
as sensações das emoções naveguem
e invadam como as fadas minha mente

Doem-me todas as cicatrizes
e sinto as rugas das verrugas
Sei que és como atores e atrizes
e que sempre atacas quem te quer por em fugas

Tocas então mil serenatas
e antigas cantigas e rondós
depois mijas no chão como os cães vira-latas
e ficas falando de ti quando estamos a sós

É por isso que sinto todos estes e aquelas
dores incolores e na garganta estes nós
Nem as cores de óleos, hologramas ou aquarelas
poderiam expressar tão bem estes meus ós, ós, ós!

Em 1997, Jorge lança o disco Estilhaços de Paixão com direção de seu parceiro Nelson Jacobina. No ano seguinte faz shows em Amsterdã, Lisboa, Abrantes e Londres. Também faz shows na rede SESC de São Paulo, celebrando os 100 anos de Bertold Brecht, também dá aulas de literatura nas escolas públicas da periferia de São Paulo. Os discos não para e Jorge lança mais um: O Ser da Tempestade, duplo, com participações de Gil, Caetano, Gal, Zé Ramalho, Chico Science, Moraes Moreira e outros. Abre o novo milênio participando do programa Musikaos na TV Cultura e segue fazendo shows com Jacobina por todo o Brasil.

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O SILENCIO DE HERMES

é o silêncio hermético
o silêncio dos sinais difíceis de ler
o silêncio da poesia de vanguarda
o claro silêncio de mallarmé
e da poesia de vanguarda
o silêncio de ilegibilidade de hoje
que vai aliementar a legibilidade superior de amanhã
hermes é o deus que conduz as almas
até seu destino
o deus que tira o sentido das mensagens mortas
e as conduz à vida do entendimento
o silêncio “incompreensível para as massas”
a grande acusação contra maiakovski
o silêncio lance de dados
o acaso
uma chance até o absoluto

2002 foi um ano muito importante para a renovação de seu trabalho e para a apresentação de sua obra para as gerações mais jovens. Lançou o disco e a caixa com todos os livros e comentários de artistas e amigos, Mitologia do Kaos, e também lançou o disco com Caetano Veloso ‘Eu não peço desculpa’ de grande sucesso. Em 2003, foi homenageado pela Câmara de Vereadores de São Paulo e recebe a Cruz de Honra da Áustria para a Ciência e Cultura, concedida pelo presidente da Áustria. Recebeu também o título de Comendador pela Ordem de Mérito Cultural já no Governo Lula. No mesmo ano, ganhou o Grammy Latino por ‘Eu não peço desculpa’.

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PELAS RUAS

Estou adorando andar pelas ruas
como quem não quer nada
debaixo do sol
debaixo das luas
que são mais de duas
porque tem as artificiais
e no mais
não tem nada de mais
só a felicidade
como névoa brilhante
por cima da cidade
em paz
(breque: vade retro satanás)

Em 2004, Jorge recebe a bolsa Vitae para escrever o livro ‘O filho do Holocausto, dos jardins do Catete ao Colégio Dante Alighieri’. Também escreve o livro ‘Diálogos com o Ministro Gilberto Gil’ com tradução e edição simultânea em diversos países. Desde então, Jorge tem feito shows, programas de televisão, participou da peça “Deus é química” com texto Fernanda Torres, com Francisco Cuoco e Luis Fernando Guimarães no elenco. “Jorge Mautner é um homem, forte como um rochedo, claro como a água, leve como o vento. Os fios elétricos, a bola de borracha, os buracos da flauta, a sola do sapato, as patas do mosquito, e o palito no meio do pirulito. Jorge Mautner pode ser qualquer coisa. Porque ele quer ser qualquer coisa. Tudo. Claro que tudo é tudo e todo mundo é, diria você; mas Jorge realiza, em si, a caminhada para a consciência deste TUDO; é como ele brinca com as pedras do caminho!” Gilberto Gil.

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FILOSOFIA

Filosofia
três ramos
fiscalizante
apreciadora
do todo
ética!

Língua
árvore
distância
macaco
homem
ereto
homem
ave.

Palavra
sujeito
verbo
erro
crasso
fotossíntese
está raiando
está chovendo
deuses.

Grego
pensante
maldita
lógica!

Erro
crasso
de novo
modernos
infernos
experiência.

Galileu
já morreu
foi a lei
que ele disse
o fantasma
1500
de Aristóteles
contradisse.

Foi o erro!
Erro crasso
da lógica
outra vez.

Acabou
quem ganhou
também
morreu
(queimado)
Sputniks
ó lembrança
ó Galileu.

No sono
o tempo
contratempo
não existe.

Tu partiste
podias ter vindo
o tambor
durou um dia
um minuto
estou de luto há duas horas
apenas um minuto.

Platão
chatão
caverna
amarrado
cego
olhava na parede
vêde!
Não via nada!
via sombras.

Maia
que se aproxima
do meu sonho
momentâneo

século vinte!
que acinte!
Aceitar ideia
que já foi de índio.

“Sob o signo de Dionísio, o pensamento de Mautner é uma mistura vertiginosa de Nietzsche, filosofia beatnik e hippie, contracultura, candomblé, zen, antropofagia, tropicalismo e existencialismo. No olho do ciclone da vertigem entre todas essas coisas. Mautner vê no negro e na música a fonte de toda a força. É o que há de mais forte e bonito na América, dos Estados Unidos ao Brasil. É o jazz, o mambo, a rumba, o chachachá, o samba. Os negros são os filhos diletos de Dionísio. Sua sabedoria está gravada, não em pedras nem em placas de bronze, mas em ritmos. Uma sabedoria rítmica milenar, chamando todos os homens para a dança, a alegria, a felicidade. Alienado? O conceito de alienação precisa ser revisto, imediatamente. Ele é penal. O conceito de “alienação” sempre acaba na polícia” E o Paulo Leminski se estende um pouco mais, porém, viemos até aqui.

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FOI O SAMBA

Foi o samba quem tudo me ensinou. A negritude é uma cultura tão profunda se não for
mais que a chamada caucasiana, ocidental, fáustica. Heidegger, Mozart, iguais se não
pouco inferiores a: batuques, maracatus e blues. Orixás e axé! Um dia, brevemente, os
tambores dos terreiros ecoarão em Londres, Paris, Viena, até mesmo em Buenos Aires,
alimentando os pálidos vampiros que necessitam de nosso sangue, vitamina B12 para
sobreviver e rir e ter alegria.
Nós fabricamos o plasma mundial. Brasília é o lugar de pouso de discos-voadores. A fé
sempre foi apenas a mais rigorosa das ciências. Só os mais ousados a possuem. Ela
está exatamente no meio da diagonal formada pelas forças gravitacionais que se instalam
em ambos os aparentes extremos de nosso universo elíptico. Emanam a força da gravidade
cuja velocidade é maior que a da luz e é essa força que é o magnetismo do teu olhar a invadir
oceanos como flecha de algum Oxossim voador.

Eis que chegamos ao final de mais uma antologia. Vimos aí um pouco da poesia desta grande figura, Jorge Mautner, um artista brasileiro, antropófago nato. Na semana que vem, entraremos em um outro universo poético, pois, esta correspondência se faz justamente por essa necessidade de conhecer os poetas do Brasil, assim, sempre que puder, mapearemos esse lugar que tanto excita. O que leva um leitor a buscar um poema? O que ele busca num poema? O que faz um poeta escrever um poema? Não importa, não sou exegeta, tampouco formalista, vamos em frente que a poesia brasileira é imensa. Evoé!

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DIONISIUS

Zagreus despedaçado por bacantes adolescentes. Fundo aqui agora este Kaos com k, uma
nova além religião. É já uma super religiosidade. Tomará conta do Brasil no fim do século XX
para o XXI, e depois como coisa sem nome, sei que só ousa sem lembrar-temer-gemer-odiar,
enfim assim sem fim dominaremos seremos o Poder apenas como potência chefiando como
chefia de um comando sob minha liderança carismática do destino e tendo na mão a chave
de um arrebol, a clave de sol que está por enquanto nas mãos de profunda luz negra do anjo
guardião da chave do abismo. Eu sou o gavião e a pomba, a ação que tomba e assombra,
a luz e a sombra, a cruz e a festa de arromba da miromba na onda redonda das ondulações
de surf galático de rondas e girondas, de emanações sem paranóia, sem braço na tipóia,
sem aço no cansaço da bóia fria ou jibóia da ironia ou tramóia da mesquinharia ou agonia
da escória do fracasso, sem bóia ou abraço de uma história de glória suposta memória basta
de anti história na qual ahchacal, eu me me caço a mim mesmo que nem nenen do joaquim
torresmo tamborim.
Cristo-Dionisius, Baco-Rei Momo-pai-de-santo-painho-cae-gil-eu-jorge-mautner, e você filho
da virgem maria e da vertigem da harmonia da fuligem com a origem e a azia da tia e da que
exigem a redigem a ordem desordem do dia a dia noite a noite açoite ardia como arderia a noite
que aceitou-te como Deus o fez no nono adeus da insensatez.
A missão do PK é tomar o Poder de todas as vias de comunicação. Orações: de ataulfo alves,
“pai joaquim” e “Ogum de angola”.

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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Dummond de Andrade nasceu em Itabira do Mato Dentro em Minas Gerais no dia 31 de outubro de 1902. É o nono filho de Carlos de Paula Andrade e D. Julieta Augusta Drummond de Andrade. Seu pai era fazendeiro e a família Drummond gozava de certo prestígio social em Itabira. Ali, nasceu e cresceu o jovem Carlos. Magro, sisudo e franzino, que depois viria a se tornar um dos mais respeitados poetas brasileiros. Neste mês tetaremos fazer um pequeno panorama detalhado da vida e da poesia de Drummond, sem querer ser professoral, tampouco exegeta e crítico. Evoé!

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SENTIMENTAL

Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria, cheia de escamas
e debruçado na mesa, todos contemplam
esse romântico trabalho.

Desgraçadamente falta uma letra,
uma letra somente
para acabar teu nome!

- Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!

Eu estava sonhando…
E há em todas as consciências um cartas amarelo:
“Neste país é proibido sonhar”.

Itabira localiza-se a 194 kilômetros de Belo Horizonte. Hoje é apelidada pelos habitantes como “cidade da poesia”, porém, também é a “cidade do ferro”. O nome “Itabira” vem do guarani, que significa “pedra que brilha” (itá é pedra) (bira é que brilha). Chamava-se Vila Itabira do Mato Dentro, era uma província que em 1848, foi elevada à categoria de cidade. Em 1907, foi fundada a primeira escola de Itabira, Escola Municipal Coronel José Batista. Itabira também tinha uma residência que preparava alunos para serem admitidos no Seminário de Caraça e de Mariana. Itabira tem um time de futebol que se chama, Valeriodoce Esporte Clube. Foi nessa cidade que Drummond nasceu.

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JARDIM DA PRAÇA DA LIBERDADE
a Gustavo Capanema

Verdes bulindo.
Sonata cariciosa da água
fugindo entre rosas geométricas.
Ventos elísios.
Macio.
Jardim tão pouco brasileiro… mas tão lindo.

Paisagem sem fundo.
A terra não sofreu para dar estas flores.
Sem ressonância.
O minuto que passa
desabrochando em floração inconsciente.
Bonito demais. Sem humanidade.
Literário demais.

(Pobres jardins do meu sertão,
atrás da Serra do Curral!
Nem repuxos frios nem tanques langues,
nem bombas nem jardineiros oficiais.
Só o mato crescendo indiferente entre sempre-vivas desbotadas
e o olhar desditoso da moça desfolhando malmequeres.)

Jardim da Praça da Liberdade,
Versailles entre bondes.
Na moldura das Secretarias compenetradas
a graça inteligente da relva
compõe o sonho dos verdes.

PROIBIDO PISAR NO GRAMADO
Talvez fosse melhor dizer:
PROIBIDO COMER O GRAMADO
A prefeitura vigilante
vela a soneca das ervinhas.
E o capote preto do guarda é uma bandeira na noite estrelada de funcionários.

De repente uma banda preta
vermelha retinta suando
bate um dobrado batuta
na doçura
do jardim.

Repuxos espavoridos fugindo.

Em 1910, aos oito anos, o jovem Drummond inicia o curso primário no Grupo Escolar Dr. Carvalho Brito, em Belo Horizonte. Lá conhece duas figuras que viriam a ser seus grandes amigos para a vida inteira: Gustavo Capanema e Afonso Arinos de Melo Franco. Lá estuda até o início da adolescência. Drummond, desde criança, até mesmo antes de aprender a ler, era fascinado pela forma da palavra, pela letra. Gostava de folhear jornais e livros para procurar formas, quando aprendeu a ler, já “conhecia” muitas delas. Logo mais, Drummond se enveredaria mais intensamente nos estudos primários.

Paulicéia sempre sempre ela no http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

UM HOMEM E SEU CARNAVAL

Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensões.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.

O pandeiro bate
é dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.

Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.

Em 1916, aos quatorze anos, Drummond se torna interno do Colégio Arnaldo, da Congregação do Verbo Divino, em Belo Horizonte. Curiosidade: A Congregação do Verbo Divino é essencialmente religiosa católica fundada em Steyl, às margens do rio Rosa nos Países Baixos em 1875 pelo padre alemão Arnaldo Janssen. A congregação seria feita na Alemanha, porém, por causa da perseguição do, então, Chanceler do Império Alemão, Otto von Bismarck aos católicos através da Kulturkampf, uma espécie de movimento coercitivo nacionalista contra a religião católica, teve que ser feita nos Países Baixos. Drummond tinha um contato mais direto com a religião católica.

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SOMBRA DAS MOÇAS EM FLOR

À sombra doce das moças em flor,
gosto de deitar para descansar.
É uma sombra verde, macia, vã,
fruto escasso à beira da mão.
A mão não colhe… A sombra das moças
esparramada cobre todo o chão.

As moças sorriem fora de você.
Dentro de você há um desejo torto
que elas não sabem. As moças em flor
estão rindo, dançando, flutuando no ar.
O nome delas é uma carícia
disfarçada.

As moças vão casar e não é com você.
Elas casam mesmo, inútil protestar.
No meio da praça, no meio da roda
há um cego querendo pegar um braço,
todos os braços formam um laço,
mas não se enforque nem se disperse
em mil análises proustianas,
meu filho.

No meio da roda, debaixo da árvore,
a sombra das moças penetra no cego,
e o dia que nasce atrás das pupilas
é vago e tranquilo como um domingo.
E todos os sinos batem no cego
e todos os desejos morrem na sombra,
frutos maduros es esborrachando
no chão.

Em 1917, o jovem Drummond começa a tomar aulas particulares com o professor Emílio Magalhães, em Itabira. No ano seguinte, vira interno do Colégio Anchieta da Companhia de Jesus em Nova Friburgo, onde é laureado com “certames literários”. A poesia, o escrever poemas, surge com mais força nesse período, com quinze anos de idade. Publica um poema em prosa chamado “Onda” no jornal ‘Maio’ de um único número. Começa ler o escritores céticos, e alguns surrealistas, o que teria, e teve, grande importância no desprendimento consciente das ideias religiosas. Isso, também, viria lhe custar caro.

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PRIVILÉGIO DO MAR

Neste terraço mediocremente confortável,
bebemos cerveja e olhamos o mar.
Sabemos que nada nos acontecerá.

O edifício é sólido e o mundo também.

Sabemos que cada edifício abriga mil corpos
labutando em mil compartimentos iguais.
Às vezes, alguns se inserem fatigados no elevador
e vêm cá em cima respirar a brisa do oceano,
o que é privilégio dos edifícios.

O mundo é mesmo de cimento armado.

Certamente, se houvesse um cruzador louco,
fundeado na baía em frente da cidade,
a vida seria incerta… improvável…

Mas nas águas tranquilas só há marinheiros fiéis.
Como a esquadra é cordial!

Podemos beber honradamente nossa cerveja.

Em 1919, Drummond é expulso do Colégio Anchieta da Companhia de Jesus por “insubordinação mental”. Drummond já tinha dezessete anos e um fato como esse grifa muito a história de um sujeito. Um ano depois, muda-se para Belo Horizonte com a família e começa a publicar seus trabalhos na seção “Sociais” do Diário de Minas. Nessa época, Drummond estende suas amizades conhecendo figuras como Milton Campos, Emílio Moura, Alberto Campos, João Alphonsus, Batista Santiago, Aníbal Machado, Pedro Nava (que viria a ser seu grande amigo), Heitor de Sousa e muitos outros. Todos eles frequentadores do Café Estrela e da Livraria Alves, em Belo Horizonte.

A espada em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

PALAVRAS NO MAR

Escrita nas ondas
a palavra Encanto
balança os náufragos,
embala os suicidas.
Lá dentro, os navios
são algas e pedras
em total olvido.
Há também tesouros
que se derramaram
e cartas de amor
circulando frias
por entre medusas.
Verdes solidões,
merencórios prantos,
queixumes de outrora,
tudo passa rápido
e os peixes devoram
e a memória apaga
e somente um palor
de lua embruxada
fica pervagando
no mar condenado.
O último hipocampo
deixa-se prender
num receptáculo
de coral e lágrimas
- do Oceano Atlântico
ou de tua boca,
triste por acaso,
por demais amarga.

A palavra Encanto
recolhe-se ao livro,
entre mil palavras
inertes à espera.

Em 1922, aos vinte anos, o primeiro “retorno”: Drummond ganha cinquenta mil réis como prêmio pelo conto “Joaquim do telhado”, no concurso Novela Mineira. No mesmo ano publica alguns trabalhos nas revistas Todos e Ilustração Brasileira. No ano seguinte, curiosamente, entra para a Escola de Odontologia e Farmácia em Belo Horizonte. Seguiu caminho semelhante de seu grande amigo e médico Pedro Nava, ao escolher a área de saúde, ao contrário de muitos outros jovens escritores que optaram pelo Direito. Em contrapartida, Drummond inicia sua extensa e intensa correspondência com Manuel Bandeira, manifestando-lhe sua admiração. Os conhecimentos aumentam ao conhecer o poeta Blaise Cendras, e parte do grupo modernista através Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Tarsila do Amaral. Pouco depois, inicia também longa correspondência com Mário de Andrade.

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FRAGILIDADE

Este verso, apenas um arabesco
em torno do elemento essencial – inatingível.
Fogem nuvens de verão, passam aves, navios, ondas,
e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento,
ai! já brincou, e tudo se fez imóvel, quantidades e quantidades
de sono se depositam sobre a terra esfacelada.
Não mais o desejo de explicar, e múltiplas palavras em feixe
subindo, e o espírito que escolhe, o olho que visita, a música
feita de depurações e depurações, a delicada modelagem
de um cristal de mil suspiros límpidos e frígidos: não mais
que um arabesco, apenas um arabesco
abraça as coisas, sem reduzi-las.

A correspondência com Mário de Andrade foi extensa e intensa. Quase tudo (ou tudo) foi colocado à disposição do público em livros. Mário era conhecido por suas cartas e pela generosidade dentro delas. Em 1924, Mário, assim responde ao jovem Drummond em uma delas: “Tudo está em gostar da vida e saber vivê-la. Só há um jeito feliz de viver a vida: é ter espírito religioso. Explico melhor: não se trata de ter espírito católico ou budista, trata-se de ter espírito religioso pra com a vida, isto é, viver com religião a vida. Eu sempre gostei muito de viver, de maneira que nenhuma manifestação da vida me é indiferente. Eu tanto aprecio uma boa caminhada a pé até o alto da Lapa como uma tocata de Bach e ponho tanto entusiasmo e carinho no escrever um dístico que vai figurar nas paredes dum bailarico e morrer no lixo depois como um romance a que darei a impossível eternidade da impressão. Eu acho, Drummond, pensando bem, que o que falta pra certos moços de tendência modernista brasileiros é isso: gostarem de verdade da vida”.

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ESTANCIAS

Amor? Amar? Vozes que ouvi, já não me lembra
onde: talvez entre grades solenes, num
calcinado e pungitivo lugar que regamos de fúria,
êxtase, adoração, temor. Talvez no mínimo
território acuado entre a espuma e o gnaisse, onde respira
- mas que assustada! uma criança apenas. E que presságios
de seus cabelos se desenrolam! Sim, ouvi de amor, em hora
infinda, se bem que sepultada na mais rangente areia
que os pés pisam, pisam, e por sua vez – é lei – desaparecem.
E ouvi amar, como de um dom a poucos ofertado; ou de um crime.

De novo essa vozes, peço-te. Escande-as em tom sóbrio,
ou senão, grita-as à face dos homens; desata os petrificados; aturde
os caules no ato de crescer; repete: amor, amar.
O ar se crispa, de ouvi-las; e para além do tempo ressoam, remos
de ouro batendo a água transfigurada; correntes
tombam. Em nós ressurge o antigo; o novo; o que de nada
extrai forma de vida; e não de confiança, de desassossego se nutre.
Eis que a posse abolida na de hoje se reflete, e confundem-se,
e quantos desse mal um dia (estão mortos) soluçaram,
habitam nosso corpo reunido e soluçam conosco.

Em outra carta escrita para Drummond, Mário de Andrade diz que ” (…) toda a gente acha graça na minha alegria e como eu me divirto quando estou na festa mais pau. Creio que essa riqueza me vem de eu compreender a vida e vivê-la em toda a variedade dela. Quando vou na festa sei que a festa é pra gente se divertir e qualquer coisa me diverte extraordinariamente. Quando vou… na dor sei que a dor é pra gente sofrer e sofro pra burro, sofro sério, sofro sofrendo e não espetacularmente, é lógico. Que sucede? a minha variedade de viver é tão incomensurável que não me fatigo dela nunca. (…) A correspondência entre Mário e Carlos se deu até a morte de Mário.

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UM BOI VE OS HOMENS

Tão delicados (mais que um arbusto) e correm
e correm de um para o outro lado, sempre esquecidos
de alguma coisa. Certamente, falta-lhes
não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres
e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves,
até sinistros. Coitados, dir-se-ia não se escutam
nem o canto do ar nem os segredos do feno,
como também parecem não enxergar o que é visível
e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes
e no rasto da tristeza chegam à crueldade.
Toda a expressão deles mora nos olhos – e perde-se
a um simples baixar de cílios, a uma sombra.
Nada nos pêlos, nos extremos de inconcebível fragilidade,
e como neles há pouca montanha,
e que secura e que reentrâncias e que
impossibilidade de se organizarem em formas calmas,
permanentes e necessárias. Têm, talvez,
certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem
perdoar a agitação incômoda e o translúcido
vazio interior que os torna tão pobres e carecidos
de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme
(que sabemos nós?), sons que se despedaçam e tombam no campo
como pedras aflitas e queimam a erva e a água,
e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.

Em 1925, Drummond se casa com Dolores Dutra de Morais. O próprio Drummond dizia que ela tinha sido a primeira, ou segunda mulher a trabalhar num emprego (como contadora numa fábrica de sapatos) em Belo Horizonte. No mesmo ano, funda junto com Emílio Moura e Gregoriano Canedo, A Revista. Órgão essencialmente modernista, do qual saem três números. E também conclui o curso de Farmácia, porém, jamais exerce a profissão, dizendo querer “preservar a saúde dos outros”. Em carta a Mario de Andrade diz: “Mário, acabei os exames e sou agora farmacêutico. Não sei bem o que é isso. Durante o curso todo nunca pensei nisso. E ainda não tive o tempo de pensar.” Em uma outra revela: “Minha última carta de 1925 é pra você. Dei um tiro no meu diploma de farmacopila. Vou ser fazendeiro, se Deus quiser. Lugar: Itabira do Mato Dentro, Minas. É pra lá que você deve me escrever, daqui a um mês mais ou menos”.

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CARTA

Bem quisera escrevê-la
com palavras sabidas,
as mesmas, triviais,
embora estremecessem
a um toque de paixão.
Perfurando os obscuros
canais de argila e sombra,
ela iria contando
que vou bem, e amo sempre
e amo cada vez mais
a essa minha maneira
torcida e reticente,
e espero uma resposta,
mas que não tarde; e peço
um objeto minúsculo
só para dar prazer
a quem pode ofertá-lo;
diria ela do tempo
que faz do nosso lado;
as chuvas já secaram,
as crianças estudam,
uma última invenção
(inda não é perfeita)
faz ler nos corações,
mas todos esperamos
rever-nos bem depressa.
Muito depressa, não.
Vai-se tornando o tempo
estranhamente longo
à medida que encurta.
O que ontem disparava,
desbordado alazão,
hoje se paralisa
em esfinge de mármore,
e até o sono, o sono
que era grato, e era absurdo
é um dormir acordado
numa planície grave.
Rápido é o sonho, apenas,
que se vai, de mandar
notícias amorosas
quando não há amor
a dar ou receber;
quando só há lembrança,
ainda menos, pó,
menos ainda, nada,
nada de nada em tudo,
em mim mais do que em tudo,
e não vale acordar
que acaso repouse
na colina sem árvores.
Contudo, esta é uma carta.

Em 1926, Drummond começa a lecionar Geografia e Português no Ginásio Sul-Americano de Itabira, porém, seu retorno à cidade natal é interrompido, pois, por iniciativa de Alberto Campos, volta para Belo Horizonte para trabalhar como redator-chefe do Diário de Minas. No mesmo ano, uma honra: Heitor Villa Lobos, sem conhecê-lo, compõe uma seresta sobre o poema “Cantiga de Viúvo”. Um ano depois, uma fatalidade: No dia 22 de março, nasce seu filho Carlos Flávio, que, infelizmente, devido a complicações respiratórias, falece meia hora depois do parto.

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MAIO NO LEBLON

Entre os desmaios de maio,
azula o céu carioca
e o sol recolhe seu raio.

Macio maio! Bem vindo
aos que, de pupila doente,
refugiavam-se, no poente,
dos revérberos da praia.

Um frio azul se derrama
e colhe de rama em rama
toda cantiga de pássaro.
É doce, ficar na cama.

O níquel das bicicletas
- ante a franja turmalina -
se desenrola nas retas
sem fustigar as retinas.

Luz de seda! Nos vestidos
anda um prenúncio de lãs
e de agasalhos transidos.
Inverno, prepara as cãs.

Vou lagartear-me na areia
de onde emigram, neste maio,
as gentes de formas feias,
e descobrir nela côncavo
dos pés de Lúcia Sampaio.

Mês de colóquio e surpresa,
em que, sereno, o olhar gaio
se infiltra na natureza
e se perde, achando-se… Amai-o.

Em 1928, aos vinte e seis anos, após a trágica morte prematura de seu primeiro filho, nasce, enfim, Maria Julieta. Ela se tornaria sua grande amiga e confidente para a vida inteira. No mesmo ano publica na Revista de Antropofagia, órgão oriundo do Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade, o poema “No meio do caminho”, que se tornaria o grande escândalo da literatura brasileira na época. A Revista tinha direção de Alcântara Machado e Raul Bopp. Dentre seus principais colaboradores, temos o próprio Drummond, Mário de Andrade, Plínio Salgado, Manuel Bandeira, Menotti Del Picchia, Murilo Mendes, Pedro Nava e alguns outros. Havia duas linhas distintas que escreviam na revista: a de Mário e Oswald e a do grupo nacionalista e integralista Anta.

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PORTINARI

De um baú de folha-de-flandres no caminho da roça
um baú que os pintores desprezaram
mas que anjos vêm cobrir de flores namoradeiras
salta João Cândido trajado de arco-íris
saltam garimpeiros, mártires da liberdade São João da Cruz
salta o galo escarlate bicando o pranto de Jeremias
saltam cavalos-marinhos em fila azul e ritmada
saltam orquídeas humanas, seringais, poetas de e sem óculos, transfigurados
saltam caprichos do Nordeste – nosso tempo
(nele uma angústia purificada na alegria do volume justo e da cor autêntica
salta o mundo de Portinari que fica lá no fundo
maginando novas surpresas

Em 1929, Drummond deixa o Diário de Minas para trabalhar no Minas Gerais, órgão oficial do Estado, como auxiliar de redação e pouco depois como redator, sob a direção de Anibal Machado. Um ano depois, enfim, aos vinte e oito anos, Drummond publica seu primeiro livro, Alguma poesia, em edição de 500 exemplares paga pelo autor, sob o selo imaginário Edições Pindorama, criado por Eduardo Frieiro. Embora tenha sido o primeiro, no livro, há poemas que se tornaram uma espécie de “clássico” em toda sua vasta obra. No mesmo ano, torna-se auxiliar de gabinete do Secretário de Interior, quando, seu amigo, Gustavo Capanema, substitui Cristiano Machado na função.

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LETRA AMARGA PARA MODINHA

Gosto de ti com desgosto.
Quando contemplo teu rosto
nele vejo um rosto outro
com o qual maduras teu gosto.
Por um mandamento imposto
sofro de ti em meu corpo
quando contemplo teu rosto.

Quando contemplo teu rosto
este amor a contragosto
fermenta de ácido mosto
e no meu cavername rouco
um dó de mim, um a-gosto
me punge, queima de agosto.

Se te contemplo, em teu rosto
não me contemplo a meu gosto
pois teu semblante está posto
numa linha de sol-posto
em que por dentro me morro.
Morro de ver em teu rosto
o fel de teu anti-rosto.

Quando contemplo teu rosto
meu gosto é puro desgosto.

Em 1931, Drummond perde seu pai, Carlos de Paula Andrade. Dois anos depois, torna-se redator de A Tribuna e mais uma vez acompanha Gustavo Capanema quando este é nomeado Interventor Federal em Minas Gerais. A grande mudança acontece em 1934. Começa trabalhando como redator nos jornais Minas Gerais, Estado de Minas e Diário da Tarde, simultaneamente. Depois publica Brejo das almas, em edição de 200 exemplares pela cooperativa Os Amigos do Livro, e finalmente, muda-se com sua mulher, Dolores, e sua filha, Maria Julieta, para o Rio de Janeiro, onde, passa a trabalhar como chefe de gabinete de Gustavo Capanema, agora, Ministro da Educação e da Saúde Pública.

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O QUARTO EM DESORDEM

Na curva perigosa dos cinquenta
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor

que não se sabe como é feita: amor,
na quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gosto de colher e amar

a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais defeso, corpo! corpo, corpo,

verdade tão final, sede tão vária,
e esse cavalo solto pela cama,
a passear o peito de quem ama.

Em 1935, Drummond se torna membro da Comissão de Eficiência do Ministério da Educação. Dois anos passam sem muitas novidades literárias até que em 37, começa a colaborar na Revista Acadêmica, de Murilo Miranda. De acordo com Mário Faustino, os poemas que Drummond publica em revistas e jornais não são os seus “melhores”. Mário acreditava que, ali, Drummond fazia uma espécie de laboratório com poemas de menor expressão. Certo, ou não, em 1940, Drummond publica seu famoso Sentimento do mundo, em tiragem de 150 exemplares, apenas, distribuídos entre amigos.

Arquivo desta “coluna” para consulta aqui http://cartilhadepoesia.wordpress.com

PROCURA

Procurar sem notícia, nos lugares
onde nunca passou;
inquirir, gente não, porém textura,
chamar à fala muros de nascença,
os que não são nem sabem, elementos
de uma composição estrangulada.

Não renunciar, entre possíveis,
feitos de cimento do impossível,
e ao sol-menino opor a antiga busca,
e de tal modo revolver a morte
que ela caia em fragmentos, devolvendo
seus intatos reféns – e aquele volte.

Venha igual a si mesmo, e ao tão-mudado,
que o interroga, insinue
a sigla de uma armário cristalino,
além do qual, pascendo beatitudes,
os seres-bois completos, se transitem,
ou mugidoramente se abençoem.

Depois, colóquios instantâneos
liguem Amor, Conhecimento,
como fora de espaço e tempo hão de ligar-se,
e breves despedidas
sem lenços e sem mãos
restaurem – para outros – na esplanada
o império do real, que não existe.

Em 1941, assina sob o pseudônimo de “O Observador Literário”, a seção “Conversa Literária” da revista Euclides. Ao mesmo tempo que colabora para o suplemente literário de A Manhã, dirigido por Múcio Leão e mais tarde por Jorge Lacerda. Em 1942, um grande acontecimento: José Olympio, publica Poesias, através de sua Livraria José Olympio Editora. É o primeiro editor que, de fato, publica Drummond. Agora tinha um canal, uma editora que o lançaria definitivamente, pois, já era, a esta altura, considerado como grande poeta, sobretudo, entre poetas. Nessa época, também, envereda-se pela tradução e publica a obra Thérèse Desqueyroux, de François Mauriac, sob o título de Uma gota de veneno.

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A CARLITO

Velho Chaplin:
as crianças do mundo te saúdam.
Não adiantou te esconderes na casa de areia dos setenta anos,
refletida no lago suíço.
Nem trocares tua roupa e sapatos heróicos
pela comum indumentária mundial.
Um guri te descobre e diz: Carlito
CARLITO – ressoa o coro em primavera.

Homens apressados estacam. E readquirem-se.
Estavas enrolado neles como bola de gude de quinze cores,
concentração do lúdico infinito.
Pulas intato da algibeira.
Uma guerra e outra guerra não bastaram
para secar em nós a eterna linfa
em que, peixe, modulas teu bailado.

O filme de 16 milímetros entra em casa
por um dia alugado
e com ele a graça de existir
mesmo entre os equívocos, o medo, a solitude mais solita.
Agora é confidencial o teu ensino,
pessoa por pessoa,
ternura por ternura,
e desligado de ti e da rede internacional de cinemas,
o mito cresce.

O mito cresce Chaplin, a nossos olhos
feridos de pesadelo cotidiano.
O mundo vai acabar por mão dos homens?
A vida renega a vida?
Não restará ninguém para pregar
o último rabo de papel na túnica do rei?
Ninguém para recordar
que houve pelas estradas um errante poeta desengonçado,
a todos resumindo em seu despojamento?

Perguntas suspensas no céu cortado
de pressentimentos e foguetes
cedem à maior pergunta
que o homem dirige às estrelas.
Velho Chaplin, a vida está apenas alvorecendo
e as crianças do mundo te saúdam.

Em 1944, Drummond publica Confissões de Minas, por iniciativa de Álvaro Lins, mas, um ano depois, um grande e marcante lançamento: A Rosa do Povo, sai pela José Olympio. A novela O gerente sai pela Edições Horizonte. Começa a colaborar no suplemente literário do Correio da Manhã e na Folha Carioca. Preservando a boa relação que tinha com Gustavo Capanema, Drummond deixa a chefia do gabinete a convite de Luís Carlos Prestes, e se torna co-editor do jornal comunista, Tribuna Popular, junto com Pedro Mota Lima, Álvaro Moreyra, Aydano do Couto Ferraz e Dalcídio Jurandir. Meses depois, se afasta do jornal por discordar da orientação do mesmo. Neste época Drummond frequenta o café Vermelhinho, no centro do Rio, onde se reuniam intelectuais e poetas como João Cabral (que foi ao Rio conhecer Drummond), Santa Rosa, Carlos Castelo Branco e alguns outros.

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DESFILE

Já fatigado de escrever em prosa,
este vago cronista pede ao verso
que de mansinho desabroche em rosa
e a Raquel de Queiroz hoje se oferte
pelo muito que amamos os seus livros
fraternos e pungentes, seres vivos.
Uma rosa a Raquel? Mas é tão pouco
uma flor por um mundo que começa
no Ceará e chega às Três Marias!
Falta evidentemente paridade,
como hoje se diz em cada esquina,
praia, bar, escritório da cidade.
- Falar nisso: qual é o seu salário,
meu doutor-marechal? quinhentos mil?
- Eu mesmo já nem sei, mas vou a jato
saber o último abono extraordinário
e daquele projeto que aposenta
o servidor com um dia de exercício
para ceder lugar a mais quarenta.
Ainda bem que entre tudo que nos falta,
falta igualmente número ao Congresso…
Mas quem pode aguentar meia semana
em Brasília, onde a vida anda em recesso?
Se a Capital não volta para o Rio,
pois nem o Rio a quer (Inês é morta),
e na praça tristonha dos Três Poderes
semelham um deserto fundo de horta,
o jeito, Juscelino, é por decreto
extinguir-se o governo da República,
o que não faz lá muita diferença
e formalmente fica mais correto.
Difícil é extinguir essa doença
chamada camarite vereadora,
ou, dizendo melhor, devoradora,
que já no corpo em flor da Guanabara,
perfumado a lavanda de esperanças,
coloca a nódoa espúria de uma tara.
Aproveitando a rima: e as duas Franças?
Uma, livre, querendo livre a Argélia,
outra, buscando em ferros conservá-la.
Ai, ganância cruel que assim repele a
voz da razão e o senso de justiça!
O que vibra na gente de sensível,
de reto e inconformado, neste mundo
indeciso entre trágicos destinos,
o que há de mais leal e mais profundo,
pulsa convosco, amigos argelinos.
E nessa americana poranduba,
um verso irmão lá vai, direto de Cuba,
onde o sonho dos homens se elabora,
confuso, dolorido…até que um dia
a vida, se não doce como cana,
pelo menos se torne mais humana.

Após sair do hebdomadário comunista, Drummond é chamado por Rodrigo M. F. de Andrade para trabalhar na diretoria do Patrimônio Histórico Artístico Nacional, onde mais tarde se tornará chefe da Seção de História, na Divisão de Estudos e Tombamento. Em 1946, recebe o Prêmio pelo Conjunto da Obra, da Sociedade Felipe d’Oliveira. Um prêmio importante e seu primeiro. Outro acontecimento interessante: Sua filha, Maria Julieta, publica, aos dezessete anos de idade, a novela, A busca, pela José Olympio. Um ano depois, outra tradução: Les Liaisons dangereuses, de Choderlos De Laclos, sob o título de As relação perigosas.

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CORPORAL

O arabesco em forma de mulher
balança folhas tenras no alvo
da pele.
Transverte coxas em ritmos,
joelhos em tulipas. E dança
repousando. Agora se inclina
em túrgidas, promitentes colinas.

Todo se deita: é uma terra
semeada de minérios redondos,
braceletes, anéis multiplicados,
bandolins de doces nádegas cantantes.

Onde finda o movimento, nasce
espontânea a parábola,
e um círculo, um seio, uma enseada
fazem fluir, ininterruptamente,
a modulação da linha.

De cinco, dez sentidos, infla-se
o arabesco, maçã
polida no orvalho
de corpos a enlaçar-se e desatar-se
em curva curva curva bem-amada,
e o que o corpo inventa é coisa alada.

Em 1948, Drummond publica seu Poesia até agora, com poemas que também se tornariam clássicos. Colabora em Política e Letras, de Odylo Costa, filho. Porém, no mesmo ano, uma grande perda: Falece sua mãe, Julieta Drummond de Andrade. O poeta comparece ao enterro em Itabira ao mesmo tempo em que é executada no Theatro Municipal do Rio de Janeiro a obra “Poema de Itabira”, de Heitor Villa Lobos, composta sobre seu poema “Viagem na família”. Um ano depois volta a escrever no jornal Minas Gerais. Sua filha, Maria Julieta, casa-se com o escritor e advogado argentino Manuel Graña Etcheverry e passa a morar em Buenos Aires, onde, desempenhará, ao longo de sua vida, um importante trabalho de divulgação da cultura brasileira.

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A DUPLA SITUAÇÃO

Um silêncio tão perfeito
como o que baixou agora:
sinal que já morremos
ou nem chegamos ainda à Terra.

Acabamos de sentir a morte
nas veias substituir o sangue.
Circulamos na atmosfera,
somos, corpo e brisa, um só.

Ou flutuamos no possível
sem pressa de, sem desejo de
atingir o irretratável
movimento do nascimento.

Este silêncio tão completo
em si, em nós, em nossa volta,
converte-nos em transparente
esfera
contemplada contemplativa.

Em 1950, Drummond se torna avô de Carlos Manuel, filho de Maria Julieta, nascido em Buenos Aires. Um ano depois, publica Claro enigma, Contos de aprendiz e A mesa. É também publicado em Madrid através do livro Poemas. No ano seguinte, em 1952, já com cinquenta anos, publica Passeios na ilha e Viola de bolso. 1953, mais uma mudança de trabalho. Exonera-se do cargo de redator do Minas Gerais, ao ser estabilizada sua situação de funcionário do DPHAN. Se torna avô pela segunda vez, agora, de Luis Maurício, a quem dedica do poema “Luis Maurício infante”. Seu genro, o escritor Manuel Graña Etcheverry, traduz seus poemas e o publica com o livro Dos poemas, em Buenos Aires.

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A MÚSICA DA TERRA

A dor que habita em nós, o cravo a ignora.
A vida, uma gavota? Pura dança
o amor? No minueto de Lully
cabe a dificuldade de existir?

Quinta-essência do angélico, no caos,
paira a graça de Mozart sobre o abismo,
sem devassá-lo – pássaro de nuvem.
O tempo é outro metal, a comburir-nos.

Urge romper o gosto, a norma límpida,
e sangrentas estilhas do momento
passar à forma nobre da sonata.
Urge extrair do piano o som dramático.

E suscitar o diálogo patético
entre piano e violino qual se escuta,
na penumbra da alma, a duas vozes,
um rumor de paixão se entretecendo.

Eis que a música deixa de ser pura.
Os serafins e os elfos se despedem.
A terra é lar dos homens, não dos mitos.
Há que desmascarar nosso destino.

Em tatear incessante, no conflito
corpo a corpo entre o ser e a contingência,
nova música, ungida de tristeza
mas radiante de força, vem ao mundo.

Luta o homem na área desolada
de sua solidão; luta no palco
fremente de contrastes, percebendo
que pouco a pouco cerram-se os espaços

da percepção, e tudo se limita
à captação interna, de sinais
silentes, impalpáveis, invisíveis,
nunca porém tão vivos se captados.

À proporção que a dor aumenta, e em volta
nega-lhes o amor seus bálsamos terrestres,
ganha requinte a fábrica sonora
de eternizar a vida breve em arte.

Es muss sein! É preciso! Na amargura,
na derrota do corpo, sublimada,
a canção do heroísmo e a da alegria
resgatam nossa mísera passagem.

E entreabre a sinfonia suas palmas
imensas, a conter todos o rebanho
de perplexos irmãos, de angustiados
prospectores de rumo e de sentido

para a sorte geral. O homem revela-se
na torrente melódica, suplanta
seu escuro nascer, sua insegura
visão do além, turva de morte e medo.

Ó Beethoven, tu nos mostraste o alvorecer.

Em 1954, Drummond publica seu Fazendeiro do ar e Poesia até agora. Traduz Les paysans de Balzac e realiza na Rádio Ministério de Educação, em diálogo com Lya Cavalcanti, a série de palestras “Quase memórias”. Inicia também um trabalho de duraria quinzes anos, o de cronistas do Correio da Manhã intitulada “Imagens”. Um ano depois, publica Viola de bolso novamente encordoada. Em Cadernos de Cultura, que o Ministério da Educação fazia, com célebres textos de João Cabral, Otávio de Faria, Mário Pedrosa, Lucio Costa, Paulo Mendes Campos e muitos outros, publica o 50 poemas escolhidos pelo autor, com poemas até então, fora de sua lista de mais populares.

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QUARTO ESCURO

Por que este nome, ao sol? Tudo escurece
de súbito na casa. Estou sem olhos.
Aqui decerto guardam-se guardados
sem forma, sem sentido. É quarto feito
pensadamente para me intrigar.
O que nele se põe assume outra matéria
e nunca mais regressa ao que era antes.
Eu mesmo, se transponho
o umbral enigmático,
fico a ser, de mim desconhecido.
Sou coisa inanimada, bicho preso
em jaula de esquecer, que se afastou
de movimento e fome. Esta pesada
cobertura de sombra nega o tato,
o olfato, o ouvido. Exalo-me. Enoiteço.
O quarto escuro em mim habita. Sou
o quarto escuro. Sem lucarna.
Sem óculo. Os antigos
condenam-me a esta forma de castigo.

Drummond continua com as traduções, desta vez, traduz Albertine disparue, da célebre À la recherche du temps perdu, de Marcel Proust. Em 1957, publica, Fala, amendoreira, e Ciclo. Ano seguinte, no incrível ano de 1958 (em todos os aspectos), outra publicação em Buenos Aires, só que desta vez na coleção “Poetas del siglo viente”. Drummond tem sua primeira “experiência” teatral com a montagem de sua tradução de Doña Rosita la soltera de Federico Garcia Lorca, pela qual recebe o Prêmio Padre Ventura, do Círculo Independente de Críticos Teatrais. Até que, no ano seguinte, nasce seu terceiro neto, Pedro Augusto. Através de Biblioteca Nacional, é publicada a sua tradução de Oiseaux-Mouches orthorynques du Brèsil, de Descourtilz. Colabora também em Mundo Ilustrado.

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PASSEIAM AS BELAS

Passeiam as belas, à tarde, na Avenida
que não é avenida, é longo caminho branco
onde os vestidos cor de rosa vão deixando,
não, não deixam sombra alguma, em mim é que eles deixam.

Passeiam, à tarde, as belas na Avenida.
São tão belas como as vejo, ou mais ainda?
Só de passar, só de lembrar que passam, a beleza
nelas se crava eternamente, adaga de ouro.

Passeiam na Avenida, à tarde, as belas,
as sempre belas no futuro mais remoto.
Pisam com sola fina e saltos altos
de seus sapatos de cetim o tempo e o sonho.

À tarde, na Avenida, passeiam as belas,
seios cuidadosamente ocultos mas arfantes,
pernas recatadas, mas sabe Deus as linhas perturbadoras
que criam ritmos, e o caminho branco é todo ritmo.

Na Avenida, passeiam as belas, à tarde,
no alto da cidade que entre árvores se apresta
para o sono das oito da noite e não sabe que as belas
deixam insone, a noite inteira, uma criança deslumbrada.

No início dos anos sessenta, Drummond começa a colaborar para o programa Quadrante da Rádio Ministério da Educação, instituído por Murilo Miranda. No mesmo ano, uma perda, falece seu irmão Altivo. As publicações não param e ao mesmo tempo saem Lição das coisas, Antologia poética e A bolsa & a vida. Em 1962 é demolida a cada da Rua Joaquim Nabuco 81, onde viveu durante 21 anos. Desde então, passa a residir em apartamento. Saem mais traduções suas de L’Oiseau bleu, de Maurice Maeterlinck e de Les Fouberies de Scapin, de Molière, a qual é encenada no Teatro do Tablado do Rio de Janeiro, e recebe o Prêmio Padre Ventura. No mesmo ano, aposenta-se como Chefe de Seção da DPHAN, após 35 anos de serviço público, recebendo carta de louvor do ministro da Educação, Oliveira Brito.

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A MOÇA FERRADA

Falam tanto dessa moça. Ninguém viu,
todos juram.
Cada qual conta coisa diferente,
e todas concordantes.
Dizem que à noite, ela. Ela o quê?
E com quem? Com viajantes
que somem sem rastro
gabando no caminho
os espasmos secretos (tão públicos) da moça.

Sobe a moça
a ladeira da igreja
para reza de todas as tardes.
De branco perfeitíssimo,
alta, superior, inabordável
(luxúria de mil-folhas sob o véu,
murmura alguém).
À noite é que acontecem coisas
no quarto escuro. Ganidos de prazer,
escutados por quem? se ninguém passa
na rua de altas horas-muro?

Pouco importa, a moça está marcada,
marca de rês na anca, ferro em brasa
de língua popular.

Nos anos sessenta continuam as publicações e prêmios: Tradução de Sult (Fome) de Knut Hamsun; Prêmio Fernando Chinaglia da União Brasileira de Escritores, e Luisa Cláudio de Sousa, do PEN Clube do Brasil, ambos por Lição das coisas; Obra completa, pela Aguilar; Antologia Poética em Portugal; In the Middle of the Road, nos Estados Unidos, Poesie, na Alemanha; Rio de Janeiro em prosa & verso em parceria com Manuel Bandeira; Cadeira de Balanço; traduções de seus livros na Suécia, Praga e Argentina. Em 1968, seu longo e célebre Boitempo. Começa a escrever para o Jornal do Brasil em 1969. Drummond parece colher frutos de tanta dedicação à poesia. Publica Reunião, Caminhos de João Brandão e Seleta em prosa e verso, já no início dos anos setenta. E começando bem esta década nova, publica Poemas em Cuba.

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APONTAMENTOS

O deslizante cisne destas águas
nem simbolista nem parnasiano;
a tartaruga em si mesma trancada;
as rêmiges de fogo no viveiro;
o cris da areia em solas transeuntes;
o guarda que de inerte se assemelha
às árvores, e árvore é com sua farda;
o macaco brincando de ser gente;
a foto de jornal sobre o canteiro;
essa flor que nasceu sem dar aviso
nos ferros rendilhados do gradil;
a caixa envidraçada de empadinhas
e cocadas baianas logo à entrada;
o ver, em si, como ato de viver;
o perder-se e encontrar-se nas aléias,
no entrelaçar de curvas sombreadas,
de onde espero surgir alguma ninfa
sem que surja nenhuma (e continuo
procurando a metáfora do sonho);
o barquinho alugado por sessenta
minutos, e o perfume, que é gratuito,
de resinosos troncos tutelares
desta gentil paisagem recolhida;
uma cantiga – ó minha Carabu…
entoada à distância e logo extinta;
o torpor que a meu ser eis se afeiçoa
na vontade de relva, de reflexo,
de sopro, de sussurro me tornar;
a ausência de relógio e de colégio,
de obrigação, de ação, de tudo vão.

Os anos setenta correm e Drummond publica muito: O poder ultrajovem, em Buenos Aires; As impurezas do branco; Menino antigo; Boitempo II; Lá bolsa y la vida, em Buenos Aires; Réunion, em Paris. Recebe o Prêmio de Poesia da Associação Paulista de Críticos Literários e se torna membro da American Association of Teachers os Spanish and Portuguese, nos Estados Unidos. Publica também Amor, amores e recebe o Prêmio Nacional Walmap de Literatura, e recusa, por motivo de consciência, o Prêmio Brasília de Literatura, da Fundação Cultural do Distrito Federal. Em 77, aparecem sua gravações de 42 poemas em dois long plays. Sai também UYBETBO BA CHETA (Sentimento do mundo) em Búlgaro. Em 79, viaja para Buenos Aires urgentemente, pois, sua filha Maria Julieta se encontrava doente.

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MORTO VIVENDO

Aquele morreu amando.
Nem sentiu chegar a morte
quando à vida se abraçava
nem a morte o castigou.
Enquanto beijava o amor
a morte o foi transportando
nos braços do amor gozoso
sem desatar-se a cadeia
de vida enganchada em vida.
Aquele morreu? Quem sabe
o que foi feito do amante
alçado em coche de chamas
ou carruagem de cinzas
no ato pleno de amar?
Não corrigiu a postura,
não voltou aos intervalos
de solitude a espera,
não repetiu mais os gestos
fora do ritmo amoroso.
Morreu completo, no êxtase
de estar no mundo e extramundo.
Que sabe a morte do abraço
paralisado na luz
do quarto aberto ao amor
e defeso a tudo mais?
E se continua vivo
e mais do que vivo amando
sem paredes e sem ossos
nos vazios espaciais,
não sei como, não sei quem?

No início dos anos oitenta, Drummond recebe o Prêmio Estácio se Sá, de jornalismo, e Morgado Mateus, de poesia, em Portugal. Lança Paixão Medida, e faz uma noite de autógrafos na Livraria José Olympio junto com Um buquê de alcachofras de sua filha Maria Julieta Drummond de Andrade. Mais lançamentos em países, Estados Unidos e Holanda. Em 82, faz 80 anos. São realizadas exposições comemorativas na Biblioteca Nacional e na Casa Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Os principais jornais do Brasil publicam suplementos em homenagem ao poeta. Recebe o título Doutor Honoris Causa, pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Cartazes são feitos e distribuidos pela cidade e sai o imenso livro de cartas entre Drummond e Mário de Andrade. Publica também Carmina drummondiana, com seus poemas traduzidos para o latim. Após 41 anos, muda de editora, sai da José Olympio e assina com a Record. Despede-se também do Jornal do Brasil com a crônica ‘Ciao’.

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ANTEPASSADO

Só te conheço de retrato,
não te conheço de verdade,
mas teu sangue bole em meu sangue
e sem saber te vivo em mim
e sem saber vou copiando
tuas imprevistas maneiras,
mais do que isso: teu fremente
modo de ser, enclausurado
entre ferros de conveniência
ou aranhóis da burguesia,
vou descobrindo o que me deste
sem saber que o davas, na líquida
transmissão de taras e dons,
vou te compreendendo, somente
de esmerilar em teu retrato
o que a pacatez de um retrato
ou o seu vago negtivo,
nele implícito e reticente,
filtra de um homem; sua face
oculta de si mesmo; impulso
primitivo; paixão insone
e mais trevosas intenções
que jamais assumiram ato
nem mesmo sombra de palavra,
mas ficaram dentro de ti
cozinhadas em lenha surda.
Acabei descobrindo tudo
que teus papéis não confessaram
nem a memória de família
transmitiu como fato histórico
e agora te conheço mais
do que a mim próprio me conheço,
pois sou teu vaso e transcendência,
teu duende mal encarnado.
Refaço os gestos que o retrato
não pode ter, aqueles gestos
que ficaram em ti à espera
de tardia repetição,
e tão meus eles se tornaram,
tão aderentes ao meu ser
que suponho tu os copiaste
de mim antes que eu os fizesse,
e furtando-me a iniciativa,
meu ladrão, roubaste-me o espírito.

Em 1986, Drummond escreve 21 poemas para a edição do centenário de Manuel Bandeira, ‘Bandeira a vida inteira’, com um disco. No mesmo ano, sofre um infarto e é internado durante 21 dias. No dia 31 de janeiro de 1987, escreve seu último poema, ‘Elegia a um tucano morto’ que passa a intergrar o livro Farewell, último livro organizado por ele mesmo. Vira tema da Estação Primeira de Mangueira com o samba enredo ‘No reino das palavras’ que vence o Carnaval. Porém, um duro golpe: Após dois meses internada, falece sua filha, Maria Julieta, vítima de câncer. “Assim terminou a vida da pessoa que mais amei no mundo”. Saem publicações em Cuba, Nova York. A vida estava terminando, porém, só por um instante.

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A HORA DO CANSAÇO

As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nos cansamos, por um ou outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

Do sonho de eterno fica esse gosto acre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

Carlos Drummond de Andrade falece no dia 17 de agosto de 1987, exatamente 12 dias depois da morte de sua filha Maria Julieta. Drummond foi enterrado junto a ela no Cemitério São João Batista do Rio de Janeiro. O poeta deixa obras inéditas como O avesso das coisas; Moça deitada na grama; O amor natural; Viola de bolso III; Farewell; e Arte em exposição, além de crônicas, dedicatórias em verso e um texto para um espetáculo musical. Alguns de seus livros são logo reeditados, tanto no Brasil quanto em outros países. Em 88, ‘Poesia errante’ recebe o Prêmio Padre Ventura pela Record. Em 89, Fernando Py organiza Auto-retrato e outras crônicas e uma série de novos livros. A Casa da Moeda homenageia o poeta emitindo uma nota de 50 cruzados.

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O AMOR ANTIGO

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

São muitas as homenagens. O Centro Cultural Banco do Brasil organiza uma grande exposição comemorativa dos 60 anos do livro Alguma poesia. Há palestras de Manuel Graña Etcheverry e Afonso Romano de Sant’Anna. Tônia Carrero encena ‘Mundo, vasto mundo’ com o coral Garganta Profunda sob direção de Paulo Autran. Também no CCBB, é encenado o espetáculo ‘Crônica viva’, com adaptação de João Brandão e Pedro Drummond. Em 1993, o livro O amor natural recebe o Prêmio Jabuti e no dia 2 de julho de 1994, falece Dolores Morais Drummond de Andrade, viúva de Drummond. Em 1996, o livro Farewell também recebe o Prêmio Jabuti. Em 1998, é inaugurado o Museu de Território Caminhos Drummondianos em Itabira e no ano 2000, é inaugurada a Biblioteca Carlos Drummond de Andrade do Colégio Arnaldo de Belo Horizonte em Minas Gerais. Tudo isto dentre muitos outros movimentos.

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NO PEQUENO MUSEU SENTIMENTAL

No pequeno museu sentimental
os fios de cabelo religados
por laços mínimos de fita
são tudo que dos montes hoje resta,
visitados por mim, montes de Vênus.

Apalpo, acaricio a flora negra,
e negra continua, nesse branco
total do tempo extinto
em que eu, pastor felante, apascentava
caracóis perfumados, anéis negros,
cobrinhas passionais, junto do espelho
que com elas rimava, num clarão.

Os movimentos vivos no pretérito
enroscam-se nos fios que em falam
de perdidos arquejos renascentes
em beijos que da boca deslizavam
para o abismo de flores e resinas.

Vou beijando a memória desses beijos.

Eis que chegamos ao final de mais uma antologia. Nessas cinco semanas que passaram, percorremos a vida e a obra de um dos mais importantes poetas brasileiros. Drummond, menino franzino de Itabira. Itabira do Mato Dentro. Espero que tenham gostado de rever ou conhecer o trabalho deste grande poeta. Na semana que vem entraremos em um outro universo poético, com outras proposições, outras possibilidades, outros poemas. Salve Carlos Drummond de Andrade! Salve a poesia nacional! E sobretudo, Salve a poesia contemporânea.

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APARIÇÃO AMOROSA

Doce fantasma, por que me visitas
como em outros tempos nossos corpos se visitavam?
Tua transparência roça-me a pele, convida
a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca
um beijo recebeu de rosto consumido.

Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,
mesma voz, mesmo timbre,
mesmas leves sílabas,
e aquele mesmo longo arquejo
em que te esvaías de prazer,
e nosso final descanso de camurça.

Então, convicto,
ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve
e continua existindo, puro som.

Aperto…o quê? A massa de ar em que te converteste
e beijo, beijo intensamente o nada.

Amado ser destruído, por que voltas
e és tão real assim tão ilusório?
Já nem distingo mais se és sombra
ou sombra sempre foste, e nossa história
invenção de livro soletrado
sob pestanas sonolentas.
Terei um dia conhecido
teu vero corpo como hoje o sei
de enlaçar o vapor como se enlaça
uma ideia platônica no espaço?

O desejo perdura em ti que já não és,
querida ausente, a perseguir-me suave?
Nunca pensei que os mortos
o mesmo ardor tivessem de outros dias
e no-lo transmitissem com chupadas
de fogo aceso e gelo matizados.

Tua visita ardente em consola.
Tua visita, ardente me desola.
Tua visita, apenas uma esmola.

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Tavinho Paes

Luiz Octávio Paes de Oliveira nasceu no Rio de Janeiro no dia 26 de janeiro de 1955, às 6:01hs, sendo, aquariano com ascendente em aquário. Nasceria na Pro-Mater, porém, acabou por ser pelas mãos de uma parteira, no Catumbi. Filho de Geraldo Paes de Oliveira e Wanda Machado de Oliveira. A família de sua mãe veio de Cascadura, sua avó Odette era telefonista e seu avô Zeca era operário de um fábrica de sapatos. Anos depois, sua mãe veio a lhe contar que, talvez, o lugar onde nasceu, numa vila no Catumbi, fora posta abaixo para dar lugar ao Sambódromo. Muito bem, nestas próximas semanas, entraremos na vida desta ímpar figura, deste nosso poeta, o inquieto Tavinho Paes.

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O TAMBOR
a pele de um bicho esticada
a casca de uma árvore podada
o eco da caverna viva
ôca oca de pigmeus
uivando vozes da terra
girando no espaço
como obra de deus
em festa ou em guerra
seja de que lado for
lá estará ele
o tambor!
rufando a vitória
gingando na roda
com seu toque de coração
soando sinos de domingo
pingo de chuva no chão
batucada e explosão!
seja como for
lá está ele como seu humor
sua majestade: o tambor!
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A avó, Odette, levava o pequeno Luiz Octávio nos terreirões dos Chorões de Cascadura e em blocos de rancho. Essas experiências com o choro e o rancho causavam muita impressão ao menino, tais marcas teriam grande importância depois. Seu avô costumava levá-lo ao Maracanã, a primeira vez tinha quatro anos de idade. O avô queria que fosse flamenguista, porém, num domingo de rodada dupla com um Flamengo e Vasco no horário principal, no jogo Botafogo e Madureira, o menino Luiz Octávio se encantou com um jogador do Botafogo fazendo estripulias com a bola, dribles inacreditáveis. O nome do jogador era Garrincha. Desde então, não teve mais dúvidas, torceria para o Botafogo. 
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Álvares de Azevedo para consulta no http://cartilhadepoesia. wordpress.com
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FISSÃO À FRIO
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nada aristocrático: erístico sou
quando pelo que sei sedado estou
e à minha sede, um pingo de suor dou
numa cama de amor com poesia e dor
genético ingênuo gênio
jogo tudo no nada que tenho
genérico geômetra, cogito versos
no poema genoma que engenho
para cubista como a cruz do cristo
ressuscitar rabo de lagartixa ou fígado
equivocadamente, invocando o tagarela
que iludido pelo que na fala revela
acende velas e faz da cela capela
até que no amor em que o isolo
calado encontre no colo o elo
que o amamenta cozinha e come
dando-lhe vida com idade e nome
num poema que o destino atropela
com o calor que a palavra congela
miasmo o fantasma que me amansa
vedando a tomada mnemônica
do mínimo amor que em máximos amei
vedanta que me inventa nirvanas
com meu poema pé de lama
num mundo que nele diz-se maya
ao Mayakovski que desmaiado chego
qual Kant à moda do noema
fazendo poema noeseando um mesmo tema
em mitos que imito cena a cena
através de filmes que filmo vendo cinema
.
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A avó de Tavinho, Ilka Paes de Almeida Leite era uma aristocrata. Mesmo tendo tido problema de catarata no fim da vida, sabia, pelo tato, as diferenças dos guardanapos de linho dos demais e corrigia tudo que enconrava de errado na mesa. Foi ela quem deu as primeiras leituras para Tavinho, Olavo Bilac, Fagundes Varella, Casimiro de Abreu, Fernando Pessoa e Vinicius. Tavinho decorava alguns poemas. A grande leitura mesmo foi Monteiro Lobato. Tavinho aprendeu a ler aos cinco anos e sua avó ainda enxergava. Ela lia com ele Os 12 Trabalhos de Hércules, As reinações de Narizinho, Saci e todos os outros. A querida avó também lhe apresentou aos Irmãos Grimm e La Fontaine. Ela também dava uns trocados escondidos para que Tavinho comprasse gibis. O Fantasma, O Brasinha, O Príncipe Valente. E por fim, teve mania de booklets da Editora Brugera (que ficava em Bonsucesso, e que depois viriam a influenciar suas primeiras publicações) de Marcial Lafuente Stephania e os clássimo Giselle Monfort da espiã nua que abalou Paris.
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BRINQUEDOS
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poesia é uma lembrança
da infância
que toda criança
inocentemente não sabe
que um dia
há de se acabar
é por uma instintiva esperança
que essa mesma criança
inventa brinquedos
que serão seus segredos
com os quais
no futuro
continuará a brincar
a poesia é um brinquedo
que não quebra nas mãos
de quem com ele
souber brincar.
.
.
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O pai de Tavinho adorava cavalos, cassinos e carteados. Com a questão do jogo do pai, Tavinho acabou por morar em vários lugares durante a infância. Cascadura, Largo do Machado, Ipanema, Ramos, Méier, Flamengo, Grajaú, Madureira… Em um mês de sua vida, Tavinho, morando em uma casa na Aníbal de Mendonça em Ipanema, por exemplo, teve que se mudar da noite para o dia para uma casa em Jacarépaguá, onde havia um pomar, porém, em dois dias, teve que se mudar para a Urca. O pai de Tavinho teve o registro de jornalista cassado quando veio o não muito falado AI 15. Uns homens invadiram sua casa em Cascadura e levaram seu pai. Então, Tavinho, dos 13 aos 17, morou em Bonsucesso. Nessa época, estudava no antológico colégio Amaro Cavalcanti no Largo do Machado em Laranjeiras, perto do Catete.
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HIERÓGLIFO
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vou disparar num tiro
um novo profano encanto
antigo e atual de propósito
à propósito do que na poesia imanto
suponha que tomo em mãos um taco
e que na bola que rebato
canto de galo
matando cobra
mostrando o que falo ao falo
retornando calado à caverna
onde ao fogo uma sombra revela
um gigante como um elefante
que ionesco como rinoceronte
conclama os que são finos
a se tornarem elegantes
zombando sem um pingo de piedade
dos que são legalmente ignorantes
sem perdoar a estupidez
que os mantêm abobalhados
literalmente párias insignificantes
todos a caminho da sepultura
felizes filósofos farfalhando falas
arrulhando dogmas arrogantes
contando com dinheiro bastante
para fazerem as contas se pagarem
fazendo de conta
que viveram vidas nababescas
num ritmo alucinante
burro! cretino! tapado!
tal é o peixe que vejo
sentindo sede
fisgado no anzol
engasgado no molinete
prisioneiro por inteiro da rede
sufocando com tanto ar fora d’água
debatendo-se com as guelras molhadas
perto da morte e da frígida frigideira
em que será assado frito e temperado
antes de ser servido num banquete
a um preço melancolicamente salgado
que só será totalmente pago
se o jejum de quem o devorar
aprová-lo na língua e no paladar
para depois ejetá-lo
misturado como cimento e barro
obrado numa privada
de um banheiro fedorento
numa louça sem ralo
eis a esfinge que poema invento
com ávaras metáforas frescas
metonimicamente invocadas
em sacrifício retórico total
nele: a poesia é lótus na lama
flor imaculada
sem perfume
sem nada
decifra-a ou morra com ela
na língua encalacrada
ou ignore-a
veperino vate ignorante
e deixe toda a poesia
dita ou escrita
longe da tua maldita
burrice ululante
.
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Tavinho morou por alguns anos, de favor, na casa de uma tia no Conjunto do Jardim Ipê na Avenida Itararé, próximo do que hoje é conhecido por Complexo do Alemão. Ali, Tavinho teve uma infâcia lúdica, soltando pipas e brincando na rua, na essência “moleque” que o Nelson Rodrigues tanto admirava. Perto de onde brincava, havia uma fábrica de calcinhas e sutiãs chamada Poesi! Tavinho admirava as operárias sendo revistadas antes de entrar na fábrica. Tinha naquilo uma espécie de experiência de encantamento com a mulher. Voltando aos livros, Tavinho teve muita impressão dos livros O Clube de Sr. Pickwick de Charles Dickens e Don Quixote de Cervantes. Um pouco de Machado também, e Eça de Queiroz em A Ilustre casa de Ramires.
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A NATUREZA DE DEUS
a natureza não se programa
mas ela reprograma interferências
em suas insondáveis programações
quer saber se isto é coisa de deus?
então pergunte aos vulcões
a que horas ferverão como o sol…
entenda-se com furacões e tornados
que vão para onde querem
e a qualquer hora mudam de lado…
informe-se com as tsunamis
e cuide-se para não ficar molhado…
não indague a natureza
a nada ela responde
a tudo: reage
invisível que nem miragem
não se expõe nem se esconde
magnífica mirabolante
máxima mínima selvagem
quer saber a quanto tempo é assim?
então pergunte ao passado
quando não havia nem pátria nem língua
e as grandes conquistas dos animais
tinham a ver com almoço e jantar
não adianta insistir nem regatear
a natureza não responde nenhuma pergunta
não fala nada sobre nada
a natureza é muda
a natureza muda
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Tavinho era estudante da PUC nos anos setenta e lá conheceu muita gente interessante que teria grande influência em sua vida. Começou a escrever poemas por essa época. Os poemas eram para amigas de faculdade, com especial devoção para duas: Laís Chamma e Angela Góis. Um grupo interessante também se formou na PUC com Alfredo Herkenhoff, Demétrio de Oliveira Gomes e Rosana, que tinha um fusca que se chamava Valente Valentina, pois só andava com seis dentro. Tempos felizes. De grupos importantes na vida de Tavinho ainda havia o da boêmia do boteco Billy’s com Chicão, Kiki, Torquato Mendonça, Goga e Patrícia Cazé, que viria a ser noiva do Cazuza e chamou-o para a turma. A turma da Cobal também era boa com o Abel Silva, Aldir Blanc, João Paulo de Andrade, Antônio Pedro, Macalé e Tom Jobim. Vida que segue.
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POESIA MENINA
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amo as mulheres crianças
de alma infantil e cabeça na dança
com as quais posso brincar de médico
gosto das que topam soltar pipa
das que pulam amarelinhas
jogam bolas de gude
tomam banho de rio, mar e açude
reconhecendo nelas yaras
yemanjás, oxuns e iansãs
brincando de pera, uva e maça
amo as mulheres meninas
em especial: as bem agitadinhas
as capacitadas pelo espírito
a agirem livres na hora do rito
que nos rituais de passagem
passam a limpo
os segredos que omito
sem perderem a viagem
amo as mulheres que passam
pela minha vida
montadas num cavalo alado
em direção ao futuro
sempre presentes no meu passado
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Tulipa Negra foi o primeiro livro mimeografado de Tavinho Paes. Publicado em 1973, foram cinquenta exemplares, sem design. Porém, após a publicação do primeiro, Tavinho descobriu que o mimeógrafo também imprimia imagens, fotos e desenhos. Assim, os livros sempre teriam algo a mais. Começava aí o início com o diálogo com as artes plásticas, que viria depois a influenciar nas performances. Os títulos saíam em ritmo acelerado: A maçã podre; Pelotão de fuzilamento; P(r)onto para A(r)mar; A Pin-up do Marinheiro; Hamburger do Coração; Frágil Tarzan e por aí vai, até 1975, quando Tavinho inaugura sua fase de booklets, pequenos livros de bolso, com Travesti Bossal. A partir de então, a produção poética variava entre os booklets e os planfletos. Tavinho vendia em tudo que era lugar e pagava todas as contas.
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JAZZ
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não saberia precisar o preciso momento
em que meu impreciso sonho sonhou o seu
nem se foi de amor o sentimento
que senti como quem sente o tempo
soprar moinhos de um imaginário catavento
começando o que não tem começo
talvez nem lembre seu nome
te chamando com pronomes
pelos quais você responde
em nome do que nem tem nome
quem sabe o silêncio soe assobio
revelando o nome oculto
que te nomeia alguém sem nome
enquanto teu corpo dança
música de um sonho meu
sem perder a inocência
que de mim já se perdeu
sola este jazz de tesão paixão desejo
no sonho em que te vejo e me vejo
sem pedir nem mais nem menos
nem ao primeiro nem ao último beijo
jazz que me nina menino no colo
me adormece e me devolve
ao sonho meu que agora é seu
antes que eu acorde entre os acordes
e te ame só pela música que você me deu
.
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A abordagem dos leitores nos anos setenta fazia parte do que Tavinho chama de “ato poético”. O poeta diz que o objeto-livro, sobretudo entre jovens poetas, praticamente não existia, e por isso, era necessária uma intervenção performática para as vendas. Tavinho desenvolveu bem isso. Chamava de “parangolé portátil” e tinha o tamanho de um maço de cigarro. Porém, Tavinho também fazia lançamentos. Em um deles, do booklet Luau! O lançamento foi no bar Lual que ficava na curva do Joá. Tavinho achou o bar à beira da falência e chamou uma penca de pessoas para um sarau com canjas de música. Divulgação bico calado no boca a boca pois a polícia não era nada fácil. Apareceram lá Caetano Veloso, Paula Gaetan (que viriam numa limosine) Marina Lima, Richtie, Romi de Vitti (a Marilyn Monroe do Leblon) Lobão e outros jovens ilustres. Cazuza que ainda não cantava ficou sendo o responsável pelas “especiarias proibidas”. Tudo ia bem, até o jornalista Nelson Mota deu uma nota numa coluna da qual era responsável. Resultado: às onze da noite já estava lotado. Neville D’Almeida e Bebel Gilberto não conseguiram entrar. Noite memorável. Coisas aconteceram ali que só quem esteve lá sabe.
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CAÍ DO CÉU
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eu sou a lira de um anjo festeiro
caí na terra, era noite de São João
assiti missa e casamento e quadrilha
o fogo da fogueira esquentou meu coração
fiquei na terra procurando um bom amigo
amei o vento e o vento vai para onde quer
as minhas flechas são as flechas do Cupido
quando chegam no alvo atingem alma de mulher
eu tenho asas de um anjo bagunceiro
sou brasileiro: eu me misturo na multidão
a minha luz é a de um sol de fevereiro
e o carnaval na rua é a minha procissão
se você quer que eu proteja o seu destino
faça-me amor com amor no coração
eu sou um anjo carente de carinho
seu eu cruzar o teu caminho
me pega
e me leva pela mão
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Tavinho conheceu o mimeógrafo através de Jamari França, nos diretórios acadêmicos da PUC no início dos anos setenta. Ficou ainda mais fascinado quando descobriu que a máquina fora inventada pelo Thomas Edison, o inventor da lâmpada elétrica. “O mimeógrafo, para mim, era uma luz!”. O livros iam na linha de Preço da Passagem de Chacal e Travessa Bertalha de Charles Peixoto, porém, consta, sem tê-los visto os produziu pela primeira vez. A relação da Tavinho com as Artes Plásticas se deu muito através das revistas de arte que o Paulo Herkenhoff disponibilizava na pensão que morava em Botafogo com seu irmão Alfredo. Como não havia eventos de poesia, as exposições de fotografias eram um lugar para encontrar as pessoas, inclusive os poetas. Tavinho bebeu muito em Anna Bella Geiger, Ligia Pape, Ligia Clark, Vito Acconci, Josef Beyus e, sobretudo, em Chris Burden, que criou o conceito Art-Action. Sempre com a coisa de expor o corpo em suas proposições, assim, Tavinho pensava que expondo seu corpo na venda de seus livros, corria um risco maior ainda por causa da ditadura.
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AZUL
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aviões e bombas voam como urubus
discos voadores levitam que nem hindus
morcegos escutam de longe
o que de perto nem enxergam
e as paixões humanas
quando não voam: cegam!
o sexo dos anjos está nas asas
como o de mulheres dando a luz
vampiros adoram virgens complicadas
preferem que elas tenham sangue azul
tudo que voa
vê lá de cima o que quer
mas só vento vai para onde quiser
assobia nas frestas
das portas e janelas
invisível como fantasma
sua alma vai e volta
será que vem do norte?
ou terá vindo do sul?
trará consigo a sorte
como traz paz para os hindus?
para muitos anunciará a morte
mas só para uns poucos
esta morte será azul
como o céu da terra
como a terra
azul
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Certa vez, quando foi fazer um curso pré-vestibular em São Paulo, Tavinho, que estava com alguns planfletos nas mãos, estava no pátio da GAZETA e foi detido pela polícia nas escadarias da gazeta. Os inspetor não sabia do que se tratava e acabou por pedir que o removessem de lá. Levaram-no para o DOPS na Estação da Luz e o colocaram numa sala. Tavinho ficou lá por algumas horas, apavorado, quando sentiu vontade de ir ao banheiro. Foi até a porta e descobriu que ela sempre esteve aberta. Saiu da sala e perguntou a um homem cheio de pastas onde era o WC. O homem lhe mandou descer as escadas pois o banheiro do andar estava entupido. Tavinho desceu, não havia ninguém. Passou pelos corredores, sentinelas até chegar na saída. Foi embora sem ninguém ter notado.
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O MENSAGEIRO
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quem vai te dizer
que eu te amo
não há de ser
uma carta
um recado
uma fofoca
um telefonema
nem os versos
deste vago poema
quem vai te dizer
que eu te amo
vai ser o tempo
o mensageiro
que nunca chega tarde
e sempre
pede a quem o aceita
para que tenha paciência
e o aguarde
ele é o mensageiro
que voa volúvel no vento
e leva consigo
o que num eu te amo
longe das palavras
é puro sentimento
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As primeiras parcerias musicais de Tavinho foram meio forçadas, com o cantor Léo Jaime. Tavinho gostava de rock e tinha desejos de escrever algum tipo de jazz, mas não entendia muito de letras de música. Assim nasceu Enfant Terrible, gravada pelo Eduardo Dusek. Tavinho tinha um grupo de performance chamado Poema Terror, com Torquato Mendonça, Demétrio de Oliveira Gomes, Divana, Soninha Toda Pura e Steve Quest. Depois disso compôs, em parceria tripla, Gata Todo Dia, gravada pela Marina Lima. O dinheiro pintou e Tavinho gostou da ideia. Até que na virada de 82 para 83, apareceu um de seus grandes parceiros, Arnaldo Brandão. Ele já tinha musicado um poema de um livreto de Tavinho, O Caso de Jane e Julia e a parceria firmou. Daí vieram Rádio Blá, Totalmente Demais, Renascença Rock, Carência Não!, Partido Verde Alemão e Plic-Plic.
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UTILIDADE
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se a poesia não existisse
as borboletas não sairiam dos casulos
o zero seria nulo
as flores perderiam seus odores
o arco-íris não teria sete cores
nem haveria sol na lua
se o poema não existisse
amar seria tão triste
quanto um deserto sem oásis
ou um luar sem eclipse
se o poeta não existisse
as musas não seriam lindas
os amantes não amariam o próximo
e o próximo amor seria o último
talvez a poesia só exista
para derreter corações de gelo
afinar o piano humano
ser humana e sacana
sentimental como o medo
no dia a dia, sua serventia
é das mais vulgares
ela invoca e coloca
os imbecis e os idiotas
bem junto de seus pares
tranquilamente
em seus devidos lugares
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Moacyr Albuquerque foi outro grande parceiro musical de Tavinho, com quem fez ‘Rumba Louca’, gravada pela Gal Costa e Com Certeza, gravada pela Maria Bethânia. Tânia Alves, Mariana também foram cantoras que gravaram músicas de Tavinho. Nesse momento, meio dos anos 80, Tavinho já é bem conhecido como letrista e, por isso, procurado também. Trabalhou também com Marina Lima por alguns anos, que gravou ‘Acho que dá’, dentre outras. Tavinho tinha mais ou menos umas dez canções realmente gravadas, só que oito delas estavam censuradas. ‘Totalmente Demais’ por “apologia ao homossexualismo”. Em 1985, Tavinho e Arnaldo Brandão criam o Hanói Hanói e regravam a música, que é novamente censurada por “apologia às drogas”. Até que Caetano Veloso fez um show no Copacabana Palace cantando a música, aparecendo na TV Cultura. Tavinho era apresentado à classe média e à pequena burguesia. Nessa época era editor d’O Pasquim e iniciou uma campanha “ricos podem ouvir, pobre não pode?”, pela liberação da música. Vem mais por aí.
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ENIGMA-ME
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diga que não sabe
porque gosta de mim
que não compreende
como sou quem sou
que não sabe onde vai
nem porque contigo vou
verifique e indique problemas
que eu nem sei se tenho
chama-me de maluco
confuso e inseguro
provando a + b
que eu não me entendo
nem me compreendo
acusa-me de doente demente
acuda-me com sua ajuda impaciente
reclama do meu jeito de ser
cria-me um mistério
que eu não possa resolver
e faz amor comigo
decifrando minha esfinge
enxergando o que não posso ver
vem, amor que me domina
apresenta-me à minha própria sina
confunda a anima que me anima
corrói-me de ciúmes
domina-me com mandingas
me execra, me arranha e me xinga
torna-me teu teorema
e por amor ao poema: enigma-me!
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Sexy Yemanjah foi tirada de um livreto por Pepeu Gomes e teve muito sucesso, chegou a abrir a novela Mulheres de Areia. Em 1989, logo após o enterro de seu pai, Cazuza convidou o poeta para um fim-de-semana na casa da Fazenda Inglesa, com uma turma na qual estava a atriz Maria Zilda Bethlen, Fernando Gabeira e Ezequiel Neves. Na ocasião, Tavinho Paes foi indicado para escrever sua biografia e apresentado ao editor Caio Graco (Brasiliense) que já tinha um contrato para o tal livro, sob o título de 13 anos de Loucura. Para evitar a pressão o editor pagou uma ida de Tavinho a Paris, durante o bicentenário da Revolução Francesa, viajando num avião com Anna Maria Tornaghi e Joãozinho 30… Quando ele voltou, a família fez o que pode para evitar que tal projeto fosse realizado. No início de 1994, depois de um acordo de cavalheiro com João Araújo, o problema acabou e tavinho teve a sorte de voltar ao sistema Globo de Rádio e Televisão, abrindo a novela das 8, Mulheres de Areia com a canção Sexy Yemanjah.
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CIDADE GRANDE
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num solitário escritório
vedado à vidro fumê
no último piso
do suntuoso arranha-céus
no centro de uma grande cidade
em pleno século vinte e um
um executivo excelente
contente em ser gerente
subitamente
sente-te gente
encerrando o expediente
telefonando à portaria
para saber se no térreo
faz chuva
ou brilha um sol
artificial
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De volta de Paris, 6 meses depois, Tavinho teve que lidar com vpários problemas, tal foi o desconforto nos pais de cazuza quando souberam que o poeta fizera tudo à sua maneira e resolveu escrever um livro sobre a geração de Cazuza. Foi um bafafá: fofoca de todo tipo prenunciavam um livro escandaloso, embora Tavinho insistisse que estaria usando o esquema da pequena e da grande morte  (tirado do livro A insustentável leveza do ser) e feito uma pesquisa sobre a AIDS (que se chamava preconceituosamente GRID – Gay Related Defficience Sindrome). Foram tantas as aporrinhações que Tavinho, sob acordo então sigiloso, teve que dar os originais à família. Consta que o pai do Cazuza não gostou e jogou tudo na lareira, mas, como nada foi oficialmente confirmado; pode ser, mesmo que muito remotamente, tais escritos ainda possam vir a tona e serem checados pelo público. Ainda há tal necessidade e quiçás tais originais (uma caixa com mais de 800 folhas manuscritas) não tenham se perdido…
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QUANDO O PODER DÁ AS CARTAS
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quando o poder dá as cartas
falta um coringa no baralho
os ases se sentem reis
as rainhas andam com valetes
a sueca vira buraco
onde cada canastrão bate
pega o morto
e sai atrás de ouros
onde sobram copas, paus e espadas
até perder o que era pra ganhar
sem saber o que foi apostado
quando o poder dá as cartas
o baralho está sempre marcado
joga-se a paixão contra a ilusão
e quem tem as cartas na mão
nem sempre tem a sorte
ao seu lado
e trapaceia
por pura falta de opção
quando o poder dá as cartas
o jogo vira trabalho
a carta que cada um tem na manga
é sempre aquele coringa
que falta no baralho
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Terminando o capítulo das letras de música com um dia de atraso. Tavinho se enveredou por um caminho muito interessante e corajoso. Em 1984, Xuxa saía da Manchete para ir para a Rede Globo. A emissora, que já tinha os direitos do desenho animado He-Men, comprou os direitos de She-Ra. Tavinho já havia feito alguma letras para Xuxa, porém, esta despontou como grande sucesso. A música foi feita Joe Athanásio e tinha uma roupagem bossa nova, porém, o produtor Guto Graça Melo a transformou em rock. Era mais fácil para Xuxa cantar. Tavinho não sabia no que ia dar, estava um pouco desconfiado, até receber o primeiro pagamento de direitos autorais. Ao receber o dinheiro, Tavinho atravessou a rua, entrou numa loja de passagens e dois dias depois foi torrar 20 mil dólares nos USA, indo de Nova York a Chicago, gastando literalmente tudo em 3 meses! A música entrou em algumas coletâneas até receber uma paródia de uma banda chamada Testículos de Mary. Depois disso, Xuxa desautorizou a veiculação da música em coletâneas. Desta música, saiu o jargão beijinho, beijinho, tchau, tchau.
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ROLAVA UMA GRANA
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foi uma festa muito doida
bancada pela primeira dama
aniversário de uma amiga mui amiga
de carecas e peruas cafonas
rolava uma grana
que o sócio do marido emprestou
brindes de champagne
entre anões e mafiosos tarados
mil negócios dando certo
e outros tantos que iam sendo acertados
rolava uma grana
até pra quem nunca trabalhou
a elite da roça
zanzava num jardim encantado
som sertanejo na vitrola
e, no lago, jet-skis importados
rolava uma grana,
que ninguém sabe bem quem pagou
besame mucho
ministros dançam apaixonados…
um fantasma assina um cheque
e compra um carro para o seu namorado
rolava uma grana
e a festa era um problema de estado
tá tudo em cima e animado
mas o caçula ficou enciumado
acusou o irmão por tabela
e brigou com seu advogado…
rolava uma grana
dinheiro ali não valia nada
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Em 1975, 76, Tavinho teve uma namorada chamada Cecília Baptista cujo apelido carinhoso era Crushinha (por causa do refrigerante), os primeiros grandes poemas foram para ela. Poucos anos depois, Tavinho foi praticamente casado com Luisa Ribeiro Costa com quem fez algumas performances e trabalhos de arte ao ar livre, infelizmente, sem registros. Nos ano 90, montou com ela a exposição C.EGO com booklets antigos e quadros. A música Linda Demais foi para ela. Em 1981, Tavinho se casa com Eliana Brito Sena com quem teve três filhos: Elvis Paes (obviamente por causa do Elvis Presley), Dianna Rosa (por causa da Dianna Ross com quem Tavinho dividiu um taxi em Nova York e depois foi a um churrasco de hamburgers em sua casa) e Pedro Gabriel (por causa de Peter Gabriel). Elvis é advogado, Dianna se formou em economia em Londres e Pedro estuda Direito e é surfista conhecido no Arpoador. Mais amor amanhã.
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Como antes só que agora em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
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CINEMASCOPE
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fazer cinema
é desenhar um poema
a nankim
sobre um cubo de gelo
que bóia à deriva
nas águas de um rio
em movimento
fazer cinema
é acreditar em desejos
que só e desejam
diante de estrelas cadentes
mergulhando incandescentes
onde o sol encontra seu poente
fazer cinema
é ter a alegria da prova dos nove
recolocando as estrelas
no céu na terra que se move
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Getzi foi uma paixão efêmera que Tavinho viveu em 1981 em Nova York. Era alemã, tinha mais ou menos uns 26 anos e Tavinho passou dois meses com ela. Tavinho a conheceu numa sessão do NY Institute for Films and Art no Soho, quando Tavinho entrou numa cabine individual, por engano, e lá estava ela, vendo Ninotschka, com Greta Garbo. Moravam em um loft e todas as noites se divertiam em bares, porém, todas as quartas e sextas, o Joffrey Ballet ensaiava e, por isso, era quase impossível dormir. Foi a primeira vez que Tavinho conheceu uma mulher, de fato, independente. Era casada com um homem e tinha uma namorada e, jamais misturou as coisas. Certa vez, foram expulsos do Museu de História Natural. Getzi queria tirar uma foto (era proibido) em frente a um dos fósseis de dinossauro beijando na boca de Tavinho. O segurança chegou no meio do beijo. Getzi ria, agarrando Tavinho enquanto eram interrogados. O segurança desistiu. A despedida foi numa calçada do Central Park, com o sol refletindo nas lentes do Ray Ban de Getzi. Faltava só uma música e a cena estava pronta.
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ESTRELA GUIA
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toda lua cheia
tem uma estrela guia
que quando brilha
enche a lua de prazer
é como o sol
dando luz ao meio-dia
ou um anjo da guarda
que veio te proteger
pode ser uma pessoa amiga
uma alma gêmea
um fã
um grande amor
é sempre alguém
que te traz luz e alegria
ama tudo que você faz
vai aonde você for
se atrás de um grande homem
há sempre uma grande mulher
é porque sozinho
nesta vida
ninguém faz tudo que quer
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Nos anos 80, Tavinho teve uma experiência muito interessante nos EUA. Passava um tempo em Nova York, na mesma viagem que conheceu Getzi, a alemã. Tinha apenas 320 dólares na carteira, o que lhe permitia passar, no máximo, uma semana. Porém, ficou quatro meses e meio. Como? Vendendo livretos na rua. Do Soho à Sutton Place e em áreas nobres do West Side. Nesta ocasião, viu o começo dos rappers com seus grandes rádios na rua. Dos livretos, Tavinho tinha dois preferidos: Bang the Boeing, sobre o acidente do boeing civil 007 da Korean Airlines, que fora abatido por caças ruas sobrevoando instalações soviéticas na península de Kamatshka, o qual causou desconforto em certos veteranos, e Too Soft, com poemas de amor. Nesta mesma viagem, houve um show do Lobão e os Ronaldos, onde, muitos cantaram o que estava no panfleto que haviam comprado. Tavinho usava máquinas de xerox para seus livretos. E assim caminhava.
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SAUDADE
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saudade é perfume raro
cheiro de gente
para quem tem faro
sentimento que independe
de consentimento
emoção que nunca é descartável
carta que sente falta do baralho
saudade é chuva
que só chove no molhado
assunto delicado
que não dá para negociar
ninguém leva vantagem
em esquecer
de quem deve lembrar
nem com quem deve sonhar
mas, será que há alguém
que tem coragem de sonhar
com alguém que ama
…e acordar?
neste mundo existem milhões
que nunca disseram a ninguém
EU TE AMO
além de outros zilhões
que nunca ouviram isto de alguém
e mesmo assim
saudade todo mundo tem
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Nos anos 2000, Tavinho promoveu uma série de eventos de poesia, dentre eles o Poesia Voa, no Circo Voador. Participou do grupo que formou o CEP 20000 que até hoje resiste da cena carioca. Também participou do coletivo Voluntários da Pátria ao lado de outros artistas, apresentando-se em diversos lugares O fato interessante nisso tudo é que publicou seu primeiro livro de poesia em uma editora em 2007, os Momossexuais, com poemas e letras de música, inclusive, marchinhas. Um ano depois publicou Buzinaí Naif, ambos os livros pela Ibis Libris. Depois, publicou uma série de livretos: Paixão Inventada, Facebook e outros, jamais deixando de publicar em sua forma primeira, os livros pessoais, como objetos de arte.
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NO MAR DO AMOR
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pode ser
que no mar
o amor flutue
como ondina
na espuma
da onda que quebra
quando sua onda te pega
você tem que decidir
se afunda ou se navega
conforme as ondas
e a resistência do cais
o amor do teu mar
com seu leva-e-traz
quando resolve te pegar
faz com que você
queira se afogar
independente das marés
das caravelas e das galés
vai ser nesse mar revolto
que você se encontrará
cara a cara contigo mesmo
com quem pensa que no fundo és
e com aquele netuno
que te desobedecerá
abre teu peito e ama
a sereia que lhe encantar
se ela não lhe fizer feliz
nem contigo gozar
pelo menos com ela
vê se aprende a nadar
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Conheci Tavinho Paes numa pizzaria no Leblon onde havia o sarau Corujão da Poesia. Fui apresentado pelo João Luiz Sousa que me disse: “Você conhece o Tavinho Paes? Uma lenda vida da poesia”. Falei uns poemas lá e ficamos amigos. Logo o inclui no grupo de poesia pela internet, e ele amou. Me disse algo sobre cartilhas para o ensino médio. Por causa dele criei o blog http://cartilhadepoesia.wordpress.com, onde armazeno tudo para consulta. Passei a encontrá-lo em vários lugares. É muito importante haver poetas, como ele, que dialogam com as novas gerações, mostra para o jovem que é possível, estimula. E assim terminamos mais uma antologia, espero que tenham gostado de conhecer um pouco da poesia desta grande figura que dedica sua vida ao fazer poético constante. Semana que vem entraremos em um outro universo poético, outros poemas, outras proposições.
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SERENATA
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absolutamente de quatro por você
não posso te esquecer
exijo você de volta
e sua vida ao meu lado
ultrapassamos nossos limites
já que ultrapassados por eles
somos dois fracassados
cada um ao seu modo
cada qual com seu passado
pode chamar de orgulho bobo
esse meu pedido de socorro
expresso como um grito de agonia
nesta serenata fria
que canto
enquanto sofrendo morro
morro de amores por você
sem querer poder te dizer
que tudo que eu quero de ti
é o fogo do teu jogo
só assim acabo de vez
com esse sufoco
só assim resgato em mim
o que sempre fui
deixando de ser
este incomodo estorvo
só assim recuperarei o fôlego
de volta à tona de meu íntimo abismo
até que por amor
me deixe afogar de novo
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Vinicius de Moraes

Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes nasceu no Rio de Janeiro, na Gávea, na Rua Lopes Quintas, no dia 19 de outubro de 1913. Filho de D. Lydia Cruz de Moraes e Clodoaldo Pereira da Silva Moraes. Seu pai era sobrinho do poeta, cronista e folclorista Mello Moraes Filho e neto do historiador Alexandre José de Mello Moraes. Vinicius nasceu pelas mãos de uma vizinha a quem o pai chamara para acompanhar o parto. Neste mês, percorreremos a poesia de um dos grandes e notáveis poetas brasileiros, sua trajetória, suas influências e algumas curiosidades que conheço. Vinicius foi o poeta que inaugurou este espécie de coluna há mais ou menos quatro anos. Até o Carnaval vamos de Vinicius. Saravah!




ÂNSIA


Na treva que se fez em torno a mim
Eu vi a carne.
Eu senti a carne que me afogava o peito
E me trazia à boca o beijo maldito.
Eu gritei.
De horror eu gritei que a perdição me possuía a alma
E ninguém me atendeu.
Eu me debati em ânsias impuras
A treva ficou rubra em torno a mim
E eu caí!

As horas longas passaram.
O pavor da morte me possuiu.
No vazio interior ouvi gritos lúgubres
Mas a boca beijada não respondeu aos gritos.

Tudo quebrou na prostração.

O movimento da treva cessou ante mim.

A carne fugiu
Desapareceu devagar, sombria, indistinta
Mas na boca ficou o beijo morto.
A carne desapareceu na treva
E eu senti que desaparecia na dor
Que eu tinha a dor em mim como tivera a carne
Na violência da posse.

Olhos que olharam a carne
Por que chorais?
Chorais talvez a carne que foi
Ou chorais a carne que jamais voltará?
Lábios que beijaram a carne
Por que tremeis?
Não vos bastou o afago de outros lábios
Tremeis pelo prazer que eles trouxeram
Ou tremeis no balbucio da oração?
Carne que possui a carne
Onde o frio?
Lá fora a noite é quente e o vento é tépido
Gritam luxúria nesse vento
Onde o frio?

Pela noite quente eu caminhei…
Caminhei sem rumo, para o ruído longínquo
Que eu ouvia, do mar.
Caminhei talvez para a carne
Que vira fugir de mim.

No desespero das árvores paradas busquei consolação
E no silêncio das folhas que caíam senti o ódio
Nos ruídos do mar ouvi o grito de revolta
E de pavor fugi.

Nada mais existe para mim
Só talvez tu, Senhor.
Mas eu sinto em mim o aniquilamento…

Dá-me apenas a aurora, Senhor
Já que eu não poderei jamais ver a luz do dia.




Vinicius tinha três irmãos: Laetitia, Helius e Lygia. Lygia foi uma grande companheira de infância do jovem Vinicius. Sua bisavó escrevia poesia, assim como seu pai, Clodoaldo. Em 1916, a família se muda para Botafogo, para a rua Voluntários da Pátria. Um ano depois, a residência seria na rua da Passagem. Vinicius fez o primário na escola Afrânio Peixoto, junto com sua irmã Lygia. Em 1920, mais uma mudança, agora para a Real Grandeza. No mesmo ano, Vinicius é batizado na maçonaria por influência de seu avô materno. Consta que teve grande impressão na cerimônia. Dois anos depois, sua última residência em Botafogo, desta vez para a mesma Voluntários da Pátria. 


O POETA


A vida do poeta tem um ritmo diferente
É um contínuo de dor angustiante.
O poeta é o destinado do sofrimento
Do sofrimento que lhe clareia a visão de beleza
E a sua alma é uma parcela do infinito distante
O infinito que ninguém sonda e ninguém compreende.

Ele é o etemo errante dos caminhos
Que vai, pisando a terra e olhando o céu
Preso pelos extremos intangíveis
Clareando como um raio de sol a paisagem da vida.
O poeta tem o coração claro das aves
E a sensibilidade das crianças.
O poeta chora.
Chora de manso, com lágrimas doces, com lágrimas tristes
Olhando o espaço imenso da sua alma.
O poeta sorri.
Sorri à vida e à beleza e à amizade
Sorri com a sua mocidade a todas as mulheres que passam.
O poeta é bom.
Ele ama as mulheres castas e as mulheres impuras
Sua alma as compreende na luz e na lama
Ele é cheio de amor para as coisas da vida
E é cheio de respeito para as coisas da morte.
O poeta não teme a morte.
Seu espírito penetra a sua visão silenciosa
E a sua alma de artista possui-a cheia de um novo mistério.
A sua poesia é a razão da sua existência
Ela o faz puro e grande e nobre
E o consola da dor e o consola da angústia.

A vida do poeta tem um ritmo diferente
Ela o conduz errante pelos caminhos, pisando a terra e olhando o céu
Preso, eternamente preso pelos extremos intangíveis.



Em 1923, Vinicius faz a primeira comunhão. Um ano depois, começa a estudar no colégio Santo Inácio e começa a cantar no coro. Faz dois grandes amigos: Moacyr Veloso Cardoso de Oliveira e Renato Pompéia da Fonseca Guimarães, sobrinho de Raul Pompéia. A escrita inicia dentro de casa, fazendo quadras sobre cenas familiares. Vinicius, aos cinco anos, desenvolve uma interessante percepção de palco quando prepara uma “apresentação” para os colegas da rua, de surpresa, colocando um rolo de música no piano, fingindo tocar, quando todos passavam pela rua. Alvoroço na janela. No colégio, Vinicius se associa aos mais levados, dando trabalho às professoras, mesmo sendo um bom aluno. Aos cinco anos, também, Vinicius se esconde debaixo da mesa de jantar para alisar as pernas de uma amiga de sua mãe.



A QUE HÁ DE VIR


Aquela que dormirá comigo todas as luas
É a desejada de minha alma.
Ela me dará o amor do seu coração
E me dará o amor da sua carne.

Ela abandonará pai, mãe, filho, esposo
E virá a mim com os peitos e virá a mim com os lábios
Ela é a querida da minha alma
Que me fará longos carinhos nos olhos
Que me beijará longos beijos nos ouvidos
Que rirá no meu pranto e rirá no meu riso.
Ela só verá minhas alegrias e minhas tristezas
Temerá minha cólera e se aninhará no meu sossego
Ela abandonará filho e esposo
Abandonará o mundo e o prazer do mundo
Abandonará Deus e a Igreja de Deus
E virá a mim me olhando de olhos claros
Se oferecendo à minha posse
Rasgando o véu da nudez sem falso pudor
Cheia de uma pureza luminosa.
Ela é a amada sempre nova do meu coração
Ela ficará me olhando calada
Que ela só crerá em mim
Far-me-á a razão suprema das coisas.
Ela é a amada da minha alma triste
É a que dará o peito casto
Onde os meus lábios pousados viverão a vida do seu coração
Ela é a minha poesia e a minha mocidade
É a mulher que se guardou para o amado de sua alma
Que ela sentia vir porque ia ser dela e ela dele.

Ela é o amor vivendo de si mesmo.
É a que dormirá comigo todas as luas
E a quem eu protegerei contra os males do mundo.

Ela é a anunciada da minha poesia
Que eu sinto vindo a mim com os lábios e com os peitos
E que será minha, só minha, como a força é do forte e a poesia é do poeta.




Fato interessante: Vinicius escrevia pequenos quartetos para os irmãos para dar de aniversário. Sempre o fazia. Péssimo aluno de matemática, certa vez, obrigou a irmã, Laetitia (ou Letícia) a namorar o sardento menino que lhe dava cola. De fato, a infância de Vinicius na Ilha do Governador foi muito importante. Ia para lá nos fins de semana. Era calmo e havia o mar. Havia também música e muitas figuras. Lá aprendeu a nadar e, nas areias de uma praia, debutou nas águas mornas do amor. No ginásio, fez amizade com os irmãos Paulo e Haroldo Tapajós, com quem começa a compor. Lá por 1927, monta com os amigos um coro e se apresenta em festinhas. Vinicius era muito esportivo, jogava no time de futebol do colégio Santo Inácio e também participava, como ator principal, de sketches teatrais nos fins de ano no colégio. Vinicius também se experimentava escrevendo peças para serem montadas no colégio. Numas delas, O Bilhete de Loteria, quase teve profundos problemas com os cardeais do Santo Inácio.


MINHA MÃE


Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Tenho medo da vida, minha mãe.
Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fronte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.

Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: – Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão, que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu.

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
Dize que eu parta, ó mãe, para a saudade.
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe.




Vinicius, quando menino, despertou certo fascínio por cinema. Dirigia pequenos “filmes” com os irmãos em frente a um lençol branco e luz. Era um cinema de silhuetas cujas histórias eram quase sempre de boxe ou tiroteio. Vinicius também frequentava muito o cinema Guanabara. Também se dedicou ao desenho, chegando, inclusive, a elaborar um desenho animado com gravuras em série. Era a criatividade se desenvolvendo. Brincava de tudo com os irmãos. Formavam quadrilha, fumavam cigarro de goiaba, liam Conan Doyle. Em sua adolescência, Vinicius brigava muito e ensaiava namoricos com as meninas da rua. Não parava em casa. Em 1929, sua família muda-se definitivamente para a Ilha do Governador e, Vinicius, após período semi-interno no Santo Inácio, forma-se no ginásio e logo depois entra para a Faculdade de Direito.


O POETA NA MADRUGADA


Quando o poeta chegou à cidade
A aurora vinha clareando o céu distante
E as primeiras mulheres passavam levando cântaros cheios.
Os olhos do poeta tinham as claridades da aurora
E ele cantou a beleza da nova madrugada.
As mulheres beijaram a fronte do poeta
E rogaram o seu amor.
O poeta sorriu.
Mostrou-lhes no céu claro o pássaro que voava
E disse que a visão da beleza era da poesia
O poeta tem a alegria que vive na luz
E tem a mocidade que nasce da luz.
As mulheres seguiram o poeta
Oferecendo a tristeza do seu amor e a alegria da sua carne
O poeta amou a carne das mulheres
Mas não envelheceu no amor que elas lhe davam.
O poeta quando ama
É como a flor que murcha sem seiva
Porque o amor do poeta
É a seiva do mundo
E se o poeta amasse
Ele não viveria eternamente jovem, brilhando na luz.

Quando a nova madrugada raiou no céu distante
O poeta já tinha partido
E seguindo o poeta as mulheres de peitos fartos e de cântaros cheios
Falavam de ardentes promessas de amor.



Em 1929, Vinicius entra para a Faculdade de Direito do Catete e a família se muda para a Ilha do Governador. Tempos felizes. Nessa época a leitura dos clássicos foi intensa. Vinicius lia e passava aos irmãos. Dostoiévski, Tolstoi, Proust, Bernanos, Mauriac, Katherine Mansfield (autora que seria grande influência em sua obra), Lawrence e muitos outros. Vinicius já havia aceitado a condição de poeta. Na Faculdade de Direito, Vinicius continua a amizade com os amigos de colégio Renato Pompéia e Moacyr Velloso, e conhece aquele que seria uma das pessoas mais fundamentais na sua formação de poeta, o escritor Octávio de Faria. Foi Octávio quem primeiro viu e acreditou na poesia que havia em Vinicius. Octávio era escritor e jornalista. Também era filho do imortal Alberto de Faria, o qual também era sogro de Afrânio Peixoto e Alceu Amoroso Lima. Vinicius tinha em Octávio um mentor e grande amigo.




ILHA DO GOVERNADOR


Esse ruído dentro do mar invisível são barcos passando
Esse 
ei-ou que ficou nos meus ouvidos são os pescadores esquecidos
Eles vêm remando sob o peso de grandes mágoas
Vêm de longe e murmurando desaparecem no escuro quieto.
De onde chega essa voz que canta a juventude calma?
De onde sai esse som de piano antigo sonhando a “
Berceuse“?
Por que vieram as grandes carroças entornando cal no barro molhado?

Os olhos de Susana eram doces mas Eli tinha seios bonitos
Eu sofria junto de Susana – ela era a contemplação das tardes longas
Eli era o beijo ardente sobre a areia úmida.
Eu me admirava horas e horas no espelho.

Um dia mandei: “Susana, esquece-me, não sou digno de ti – sempre teu…”
Depois, eu e Eli fomos andando… – ela tremia no meu braço
Eu tremia no braço dela, os seios dela tremiam
A noite tremia nos ei-ou dos pescadores…
Meus amigos se chamavam Mário e Quincas, eram humildes, não sabiam
Com eles aprendi a rachar lenha e ir buscar conchas sonoras no mar fundo
Comigo eles aprenderam a conquistar as jovens praianas tímidas e risonhas.
Eu mostrava meus sonetos aos meus amigos – eles mostravam os grandes olhos abertos
E gratos me traziam mangas maduras roubadas nos caminhos.

Um dia eu li Alexandre Dumas e esqueci os meus amigos.
Depois recebi um saco de mangas
Toda a afeição da ausência…

Como não lembrar essas noites cheias de mar batendo?
Como não lembrar Susana e Eli?
Como esquecer os amigos pobres?
Eles são essa memória que é sempre sofrimento
Vêm da noite inquieta que agora me cobre.
São o olhar de Clara e o beijo de Carmem
São os novos amigos, os que roubaram luz e me trouxeram.
Como esquecer isso que foi a primeira angústia
Se o murmúrio do mar está sempre nos meus ouvidos
Se o barco que eu não via é a vida passando
Se o ei-ou dos pescadores é o gemido de angústia de todas as noites?




Vinicius de Moraes e Octávio de Faria viveram uma amizade intensa. Chegavam a andar quase que diariamente do centro da cidade à Gávea, à pé, discutindo questões relacionadas à morte, vida, Deus, o mal e outras coisas. Às vezes, ficavam tão cansados que dormiam na praia. Através de Octávio, Vinicius conheceu o poeta Augusto Frederico Schmidt, ficaram amigos. Na faculdade de Direito, Vinicius faz amizade com Mário Vieira de Mello, José Arthur da Frota Moreira e Almir Castro. Formou-se um grupo. Reuniam-se na casa de Vinicius ou no sítio de Octávio em Itatiaia. Certa vez, a sobrinha de Octávio, Maria Lucia Proença, ainda menina, perguntou a Octávio o que eles comiam nessas reuniões, Octávio respondeu: “Nada, só conversamos”. Ela compreenderia anos mais tarde.


O CADAFALSO


Eu caí de joelhos diante do amor transtornado do teu rosto
Estavas alta e imóvel – mas teus seios vieram sobre mim e me feriram os olhos
E trouxeram sangue ao ar onde a tempestade agonizava.
Subitamente cresci e me multipliquei ao peso de tanta carne
Cresci sentindo que a pureza escorria de mim como a chuva dos galhos
E me deixava parado, vazio para a contemplação da tua face.
Longe do mistério do teu amor, curvado, eu fiquei ante tuas partes intocadas
Cheio de desejo e inquietação, com uma enorme vontade de chorar no teu vestido.
Para desvendar as tuas formas nas minhas lágrimas
Agoniado abracei-te e ocultei o meu sopro quente no teu ventre
E logo te senti como um cepo e em torno a mim eram monges brancos em ofício de mortos
E também – quem chorou? – Vozes como lamentações se repetindo.
No horror da treva cravou-se em meus olhos uma estranha máscara de dois gumes
E sobre o meu peito e sobre os meus braços, tenazes de fogo, e sob os meus pés piras ardendo.
Oh, tudo era martírio dentro daquelas vozes soluçando
Tudo era dor e escura angústia dentro da noite despertada!
“Me salvem – gritei – me salvem que não sou eu!” – e as ladainhas repetia – me salvem que não sou eu!
E veio então uma mulher como uma visão sangrenta de revolta
Que com mão de gigante colheu o que de sexo havia em mim e o espremeu amargamente
E que separou a minha cabeça violentameme do meu corpo.

Nesse momento eu tive de partir e todos fugiam aterrados
Porque misteriosamente meu corpo transportava minha cabeça para o inferno…




Aos vinte anos, Vincius se apaixona por uma moça burguesa paulista cujos pais não apreciavam a ideia dela se casar com um jovem formado, porém, desempregado e ainda indeciso sobre seu futuro. Houve uma ruptura, porém, o início de uma caminhada lírica. Em 1933, forma-se em Direito, finaliza o Curso de Oficial da Reserva e, estimulado por Octávio de faria, publica seu primeiro livro: O caminho para a distância. Dois anos depois, em 1935, seu primeiro grande êxito literário: o livro Forma e Exegese, com o qual ganha o Prêmio Felipe d’Oliveira, disputando com o Mar Morto de Jorge Amado. Agora estava mais maduro. Em 1936, publica o poema Ariana, a mulher e substitui Prudente de Moraes Neto no cargo de representante do Ministério da Educação junto à censura cinematográfica. Também conhece Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Ficam logo amigos. Nos dois primeiros livros, a incrível influência da poesia francesa em Arthur Rimbaud, Baudelaire, Mallarmé, André Gide e do tcheco Rainer Maria Rilke.

A IMPOSSÍVEL PARTIDA

Como poder-te penetrar, ó noite erma, se os meus olhos cegaram nas luzes da cidade 
E se o sangue que corre no meu corpo ficou branco ao contato da carne indesejada?… 
Como poder viver misteriosamente os teus recônditos sentidos 
Se os meus sentidos foram murchando como vão murchando as rosas colhidas 
E se a minha inquietação iria temer a tua eloqüência silenciosa?… 
Eu sonhei!… Sonhei cidades desaparecidas nos desertos pálidos 
Sonhei civilizações mortas na contemplação imutável 
Os rios mortos… as sombras mortas… as vozes mortas… 
…o homem parado, envolto em branco sobre a areia branca e a quietude na face… 
Como poder rasgar, noite, o véu constelado do teu mistério 
Se a minha tez é branca e se no meu coração não mais existem os nervos calmos 
Que sustentavam os braços dos Incas horas inteiras no êxtase da tua visão?… 
Eu sonhei!… Sonhei mundos passando como pássaros 
Luzes voando ao vento como folhas 
Nuvens como vagas afogando luas adolescentes… 
Sons… o último suspiro dos condenados vagando em busca de vida… 
O frêmito lúgubre dos corpos penados girando no espaço… 
Imagens… a cor verde dos perfumes se desmanchando na essência das coisas… 
As virgens das auroras dançando suspensas nas gazes da bruma 
Soprando de manso na boca vermelha dos astros… 
Como poder abrir no teu seio, oh noite erma, o pórtico sagrado do Grande Templo 
Se eu estou preso ao passado como a criança ao colo materno 
E se é preciso adormecer na lembrança boa antes que as mãos desconhecidas me arrebatem?…



Em 1938, Vinicius publica o livro Novos Poemas, com o qual é agraciado com a primeira bolsa do Conselho Britânico para língua e literatura inglesa em Oxford, para onde parte em agosto do mesmo ano. Nesse período, conhece, na casa de Augusto Frederico Schmidt, outro que seria de enorme influência em sua vida, o poeta e compositor, Jayme Ovalle. Anos mais tarde, Vinicius entrevista Jayme Ovalle para o semanário Flan, ficaram dois dias dentro de um quarto de hotel onde conversaram sobre tudo. NUm dado momento, Vinicius perguntou a Jayme: “A Poesia, Ovalle, que é a Poesia?” e ele responde: “É a coisa mais importante do mundo. Todo mundo nasce com ela, porque ela é a própria vida. Todo mundo é criado com o dom da poesia, e só deixa de ser poeta porque perde a inocência. Quanto mais um homem cresce carregando, consigo a sua inocência, maior poeta ele é. No fundo, esse pessoal que se torna banqueiro, ou senador, ou Presidente da República, só faz isso porque deixou de ser poeta, ou porque é poeta frustrado.”



VIAGEM À SOMBRA


Tua casa sozinha – lassidão dos devaneios, dos segredos. Frocos verdes de perfume sobre a malva penumbra (e a tua carne em pianíssimo, grande gata branca de fala moribunda) e o fumo branco da cidade inatingível, e o fumo branco, e a tua boca áspera, onde há dentes de inocência ainda.

És, de qualquer modo, a Mulher. Há teu ventre que se cobre, invisível, de odor marítimo dos brigues selvagens que eu não tive; há teus olhos mansos de louca, ó louca! e há tua face obscura, dolorosa, talhada na pedra que quis falar. Nos teus seios de juventude, o ruído misterioso dos duendes ordenhando o leite pálido da tristeza do desejo.

E na espera da música, o vaivém infantil dos gestos de magia. Sim, é dança! – o colo que aflora oferecido é a melodiosa recusa das mãos, a anca que irrompe à carícia é o ungido pudor dos olhos, há um sorriso de infinita graça, também, frio sobre os lábios que se consomem. Ah! onde o mar e as trágicas aves da tempestade, para ser transportado, a face pousada sobre o abismo?

Que se abram as portas, que se abram as janelas e se afastem as coisas aos ventos. Se alguém me pôs nas mãos este chicote de aço, eu te castigarei, fêmea! – Vem, pousa-te aqui! Adormece tuas íris de ágata, dança! – teu corpo barroco em bolero e rumba. – Mais! – dança! dança! – canta, rouxinol! (Oh, tuas coxas são pântanos de cal viva, misteriosa como a carne dos batráquios…)

Tu que só és o balbucio, o voto, a súplica – oh mulher, anjo, cadáver da minha angústia! – sê minha! minha! minha! no ermo deste momento, no momento desta sombra, na sombra desta agonia – minha – minha – minha – oh mulher, garça mansa, resto orvalhado de nuvem…

Pudesse passar o tempo e tu restares horizontalmente, fraco animal, as pernas atiradas à dor da monstruosa gestação! Eu te fecundaria com um simples pensamento de amor, ai de mim!

Mas ficarás com o teu destino.




Em 1939, Vinicius, casa-se por procuração com Beatriz Azevedo de Mello, sua primeira mulher. Tati, como era chamada, era de uma família de São Paulo. Vinicius, que estava em Oxford, em virtude da II Guerra Mundial, é obrigado a sair da Inglaterra e vai para Portugal. Lá encontra seu amigo Oswald de Andrade, com quem volta para o Brasil. A esta altura, Tati, já esperava seu primeiro filho, ou filha, Susana, que nasce em 1940. Susana nasceu na rua das Acácias, na Gávea. No mesmo ano, passa longa temporada em São Paulo, onde, torna-se amigo próximo de Mário de Andrade. Passa então a trabalhar no A Manhã como redator do Suplemento Literário, escrevendo, também, crítica de cinema. No Suplemento, também participavam Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Rineiro de Couto e Afonso Arinos de Melo Franco, orientados por Múcio Leão e Cassiano Ricardo. Vinicius ansiava por um trabalho que fosse mais livre.

SONETO À LUA


Por que tens, por que tens olhos escuros
E mãos lânguidas, loucas e sem fim
Quem és, quem és tu, não eu, e estás em mim
Impuro, como o bem que está nos puros?

Que paixão fez-te os lábios tão maduros
Num rosto como o teu criança assim
Quem te criou tão boa para o ruim
E tão fatal para os meus versos duros?

Fugaz, com que direito tens-me presa
A alma que por ti soluça nua
E não és Tatiana e nem Teresa:

E és tampouco a mulher que anda na rua
Vagabunda, patética, indefesa
Ó minha branca e pequenina lua!




Vinicius buscava um trabalho que pudesse ser bem remunerado e lhe permitisse deixar a literatura mais livre. Muitas figuras da literatura se encontravam na diplomacia e, para lá, Vinicius foi. Gostava da ideia de viajar. Depois de longos e intensos cursos, em 1941, Vinicius submete-se à prova do Itamarati, porém, não passou. Em 1942, Vinicius participa dos debates sobre cinema mudo e cinema falado. Vinicius era a favor do primeiro. Os debates contaram com a participação de Ribeiro Couto, Orson Welles e madame Falconetti. No mesmo ano, nasce seus segundo filho, Pedro de Moraes. A pedido do presidente Juscelino Kubitschek, chefia uma caravana de escritores para Minas Gerais, onde, conhece e fica amigo dos mineiros Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Hélio Pelegrino. Muito mais. Também inicia, com Rubem Braga, a roda literária do Café Vermelhinho, onde, se misturam jovens arquitetos e artistas plásticos da época como Oscar Niemeyer, Carlos Leão, Alfredo Ceschiatti, Santa Rosa, Pancetti, Djanira e Bruno Giorgi. Frequenta também as domingueiras na casa de Anibal Machado. Faz um longa viagem ao nordeste acompanhando o escritor americano Waldo Frank e, conhece o poeta João Cabral de Melo Neto, de quem se torna amigo. Vinicius era ligado ao movimento de extrema direita Integralista, porém, após essa viagem ao nordeste, muda completamente sua visão política.


POESIA E VIDA


A lua projetava o seu perfil azul
Sobre os velhos arabescos das flores calmas
A pequena varanda era como o ninho futuro
E as ramadas escorriam gotas que não havia.

Na rua ignorada anjos brincavam de roda…
- Ninguém sabia, mas nós estávamos ali.
Só os perfumes teciam a renda da tristeza
Porque as corolas eram alegres como frutos
E uma inocente pintura brotava do desenho das cores

Eu me pus a sonhar o poema da hora.
E, talvez ao olhar meu rosto exasperado
Pela ânsia de te ter tão vagamente amiga
Talvez ao pressentir na carne misteriosa
A germinacão estranha do meu indizível apelo
Ouvi bruscamente a claridade do teu riso
Num gorjeio de gorgulhos de água enluarada.
E ele era tão belo, tão mais belo do que a noite
Tão mais doce que o mel dourado dos teus olhos
Que ao vê-lo trilar sobre os teus dentes como um címbalo
E se escorrer sobre os teus lábios como um suco
E marulhar entre os teus seios como uma onda
Eu chorei docemente na concha de minhas mãos vazias
De que me tivesses possuído antes do amor.




Em 1943, após muito estudar, Vinicius, enfim, passa para a carreira diplomática. No mesmo ano, a pedido de Manuel Bandeira, Otávio de Faria e Aníbal Machado, publica o livro Cinco Elegias. Vinicius colabora em vários jornais, com artigos e críticas de cinema e, em 1945, conhece o poeta Pablo Neruda. No mesmo ano, sofre um grave desastre em um hidro-avião no Uruguai, mas tudo sai bem. Até que em 1946 é chamado para servir no consulado de Los Angeles. A partir de então sua vida muda. Esse período é de extrema importância. Lá, conhece cineastas como Walt Disney, estrelas como Carmen Miranda, Aurora, músicos de jazz, participa de sets de filmagem. Estuda cinema com Orson Welles e Gregg Toland. Viaja com a família toda. Publica também o livro Poemas, Sonetos e Baladas com ilustrações de Carlos Leão. 

Do Chopp ao Suco de Laranja em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com


SONETO A KATHERINE MANSFIELD


O teu perfume, amada – em tuas cartas
Renasce, azul… – são tuas mãos sentidas!
Relembro-as brancas, leves, fenecidas
Pendendo ao longo de corolas fartas.

Relembro-as, vou… nas terras percorridas
Torno a aspirá-lo, aqui e ali desperto
Paro; e tão perto sinto-te, tão perto
Como se numa foram duas vidas.

Pranto, tão pouca dor! tanto quisera
Tanto rever-te, tanto! … e a primavera
Vem já tão próxima! … (Nunca te apartas

Primavera, dos sonhos e das preces!)
E no perfume preso em tuas cartas
À primavera surges e esvaneces. 




Em 1949, em Barcelona, o poeta João Cabral de Melo Neto tira, numa prensa manual que tinha, cinquenta exemplares do poema Pátria Minha. A esta altura, Vinicius se embrenha nos assuntos do cotidiano, com especial devoção ao amor, deixando de lado, aos poucos, o sentimento do sublime. No ano seguinte, viaja para o México para visitar seu amigo Pablo Neruda, que se encontrava gravemente enfermo. Nesta viagem, conhece o pintor David Siqueiros e reencontra seu grande amigo Di Cavalcanti. Porém, seu pai, Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, morre. Vinicius depois escreveria o belo “Elegia na morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes.” Recebe a notícia pelo telefone e começaria “A morte veio pelo interurbano, de repente, não tinha mais pai”. Retorna ao Brasil. Casamento conturbado. Um novo amor apareceria.


O FALSO MENDIGO


Minha mãe, manda comprar um quilo de papel almaço na venda
Quero fazer uma poesia.
Diz a Amélia para preparar um refresco bem gelado
E me trazer muito devagarinho.
Não corram, não falem, fechem todas as portas a chave
Quero fazer uma poesia.
Se me telefonarem, só estou para Maria
Se for o Ministro, só recebo amanhã
Se for um trote, me chama depressa
Tenho um tédio enorme da vida.
Diz a Amélia para procurar a “Patética” no rádio
Se houver um grande desastre vem logo contar
Se o aneurisma de dona Ângela arrebentar, me avisa
Tenho um tédio enorme da vida.
Liga para vovó Neném, pede a ela uma idéia bem inocente
Quero fazer uma grande poesia.
Quando meu pai chegar tragam-me logo os jornais da tarde
Se eu dormir, pelo amor de Deus, me acordem
Não quero perder nada na vida.
Fizeram bicos de rouxinol para o meu jantar?
Puseram no lugar meu cachimbo e meus poetas?
Tenho um tédio enorme da vida.
Minha mãe estou com vontade de chorar
Estou com taquicardia, me dá um remédio
Não, antes me deixa morrer, quero morrer, a vida
Já não me diz mais nada
Tenho horror da vida, quero fazer a maior poesia do mundo
Quero morrer imediatamente.
Fala com o Presidente para fecharem todos os cinemas
Não agüento mais ser censor.
Ah, pensa uma coisa, minha mãe, para distrair teu filho
Teu falso, teu miserável, teu sórdido filho
Que estala em força, sacrifício, violência, devotamento
Que podia britar pedra alegremente
Ser negociante cantando
Fazer advocacia com o sorriso exato
Se com isso não perdesse o que por fatalidade de amor
Sabe ser o melhor, o mais doce e o mais eterno da tua puríssima carícia.




Vinicius conheceu Lila Maria Esquerdo Bôscoli numa festa, através do cronista e amigo, Rubem Braga. “Vinicius, está é Lila, Lila, este é Vinicius, e seja o que Deus quiser”. Apaixonaram-se e, em 1951, se casam. Lila era irmã do jornalista e compositor Ronaldo Bôscoli, era acostumada à boêmia e à vida artística, se tornou uma grande parceira neste período. No mesmo ano, começa a colaborar para o jornal Última Hora, a convite de Samuel Wainer, como cronista diário e crítico de cinema. No ano seguinte, percorre as cidades mineiras compondo os trechos de Aleijadinho para um filme com seus primos José e Humberto Franceschi, encomendado pelo diretor Alberto Cavalcanti. Também é nomeado delegado junto ao Festival de Punta del Este, fazendo paralelamente sua cobertura para o Última Hora.

A PARTIDA


Quero ir-me embora pra estrela
Que vi luzindo no céu
Na várzea do setestrelo.
Sairei de casa à tarde
Na hora crepuscular
Em minha rua deserta
Nem uma janela aberta
Ninguém para me espiar
De vivo verei apenas
Duas mulheres serenas
Me acenando devagar.
Será meu corpo sozinho
Que há de me acompanhar
Que a alma estará vagando
Entre os amigos, num bar.
Ninguém ficará chorando
Que mãe já não terei mais
E a mulher que outrora tinha
Mais que ser minha mulher
É mãe de uma filha minha.
Irei embora sozinho
Sem angústia nem pesar
Antes contente da vida
Que não pedi, tão sofrida
Mas não perdi por ganhar.
Verei a cidade morta
Ir ficando para trás
E em frente se abrirem campos
Em flores e pirilampos
Como a miragem de tantos
Que tremeluzem no alto.
Num ponto qualquer da treva
Um vento me envolverá
Sentirei a voz molhada
Da noite que vem do mar
Chegar-me-ão falas tristes
Como a querer me entristar
Mas não serei mais lembrança
Nada me surpreenderá:
Passarei lúcido e frio
Compreensivo e singular
Como um cadáver num rio
E quando, de algum lugar
Chegar-me o apelo vazio
De uma mulher a chorar
Só então me voltarei
Mas nem adeus lhe darei
No oco raio estelar
Libertado subirei.



Ainda em 1952, Vinicius viaja para Paris e conhece o tradutor Jean Georges Rueff, com quem trabalha na tradução de Cinco Elegias, em Estrasbrugo. No ano seguinte, nasce seu terceiro filho, uma filha, Georgiana, filha de Lila. Cinq Elégies sai em edição com gravuras de Pierre Seguers. Vinicius, então, já era um conhecido bom poeta brasileiro. Liga-se de amizade com o poeta cubano Nicolás Guillén e, para um início promissor, compõe seu primeiro samba Quando Tu Passas Por Mim, música e letra. A convite de Joel Silveira, contribui para a revista Flan e para o jornal A Vanguarda. As viagens não param e Vinicius vai para Paris, novamente, só que desta vez como segundo secretário da Embaixada. Eis que Vinicius, começa a trabalhar na adaptação do mito de Orfeu e Eurídice para o teatro. Precisava de um músico. Já tinha ouvido falar de um jovem promissor chamado Antônio Carlos Jobim. Certa vez, o viu tocando numa boate e Copacabana, porém, a apresentação “oficial” foi feita por Lúcio Rangel. Recém apresentados, Vinicius explica o conceito da peça, como deveria ser a música, até que no fim, o jovem Antônio pergunta: “E não tem um dinheirinho nisso não?”, gafe, desfeita, começa a parceria.



CANTICO


Não, tu não és um sonho, és a existência
Tens carne, tens fadiga e tens pudor
No calmo peito teu. Tu és a estrela
Sem nome, és a morada, és a cantiga
Do amor, és luz, és lírio, namorada!
Tu és todo o esplendor, o último claustro
Da elegia sem fim, anjo! mendiga
Do triste verso meu. Ah, fosses nunca
Minha, fosses a idéia, o sentimento
Em mim, fosses a aurora, o céu da aurora
Ausente, amiga, eu não te perderia!
Amada! onde te deixas, onde vagas
Entre as vagas flores? e por que dormes
Entre os vagos rumores do mar? Tu
Primeira, última, trágica, esquecida
De mim! És linda, és alta! és sorridente
És como o verde do trigal maduro
Teus olhos têm a cor do firmamento
Céu castanho da tarde – são teus olhos!
Teu passo arrasta a doce poesia
Do amor! prende o poema em forma e cor
No espaço; para o astro do poente
És o levante, és o Sol! eu sou o gira
O gira, o girassol. És a soberba
Também, a jovem rosa purpurina
És rápida também, como a andorinha!
Doçura! lisa e murmurante… a água
Que corre no chão morno da montanha
És tu; tens muitas emoções; o pássaro
Do trópico inventou teu meigo nome
Duas vezes, de súbito encantado!
Dona do meu amor! sede constante
Do meu corpo de homem! melodia
Da minha poesia extraordinária!
Por que me arrastas? Por que me fascinas?
Por que me ensinas a morrer? teu sonho
Me leva o verso à sombra e à claridade.
Sou teu irmão, és minha irmã; padeço
De ti, sou teu cantor humilde e terno
Teu silêncio, teu trêmulo sossego
Triste, onde se arrastam nostalgias
Melancólicas, ah, tão melancólicas…
Amiga, entra de súbito, pergunta
Por mim, se eu continuo a amar-te; ri
Esse riso que é tosse de ternura
Carrega-me em teu seio, louca! sinto
A infância em teu amor! cresçamos juntos
Como se fora agora, e sempre; demos
Nomes graves às coisas impossíveis
Recriemos a mágica do sonho
Lânguida! ah, que o destino nada pode
Contra esse teu langor; és o penúltimo
Lirismo! encosta a tua face fresca
Sobre o meu peito nu, ouves? é cedo
Quanto mais tarde for, mais cedo! a calma
É o último suspiro da poesia
O mar é nosso, a rosa tem seu nome
E recende mais pura ao seu chamado.
Julieta! Carlota! Beatriz!
Oh, deixa-me brincar, que te amo tanto
Que se não brinco, choro, e desse pranto
Desse pranto sem dor, que é o único amigo
Das horas más em que não estás comigo.



No dia 25 de setembro de 1956, estreia Orfeu da Conceição no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Com cenário de Oscar Niemeyer, música de Antônio Carlos Jobim, texto e letras de Vinicius de Moraes, com Haroldo Costa como Orfeu e Luiz Bonfá executando o violão do mesmo. Lila Bôscoli fez os figurinos e a coreografia dos bailarinos de Lina de Luca. Carlos Scliar fez os toques finais na arte e da edição em livro. A peça ficou em cartaz apenas um mês, porém, com grande impressão a todos, sobretudo aos jovens que assistiram. Desta peça saíram canções que se tornaram clássicos como Se Todos Fossem Iguais a Você, Mulher, Sempre Mulher e Lamento no Morro. Foi lançado um disco pela Odeon com Roberto Paiva cantando. Ao mesmo tempo, iniciam-se os trabalhos para a adaptação de Orfeu para o cinema pelo diretor francês Marcel Camus. Em 1956, nasce seu quarto filho, ou sua terceira filha, Luciana de Moraes. 



ROSÁRIO


E eu que era um menino puro
Não fui perder minha infância
No mangue daquela carne!
Dizia que era morena
Sabendo que era mulata
Dizia que era donzela
Nem isso não era ela
Era uma moça que dava.
Deixava… mesmo no mar
Onde se fazia em água
Onde de um peixe que era
Em mil se multiplicava
Onde suas mãos de alga
Sobre meu corpo boiavam
Trazendo à tona águas-vivas
Onde antes não tinha nada.
Quanto meus olhos não viram
No céu da areia da praia
Duas estrelas escuras
Brilhando entre aquelas duas
Nebulosas desmanchadas
E não beberam meus beijos
Aqueles olhos noturnos
Luzindo de luz parada
Na imensa noite da ilha!
Era minha namorada
Primeiro nome de amada
Primeiro chamar de filha…
Grande filha de uma vaca!
Como não me seduzia
Como não me alucinava
Como deixava, fingindo
Fingindo que não deixava!
Aquela noite entre todas
Que cica os cajus! travavam!
Como era quieto o sossego
Cheirando a jasmim-do-cabo!
Lembro que nem se mexia
O luar esverdeado
Lembro que longe, nos Ionges
Um gramofone tocava
Lembro dos seus anos vinte
Junto aos meus quinze deitados
Sob a luz verde da lua.
Ergueu a saia de um gesto
Por sobre a perna dobrada
Mordendo a carne da mão
Me olhando sem dizer nada
Enquanto jazente eu via
Como uma anêmona na água
A coisa que se movia
Ao vento que a farfalhava.
Toquei-lhe a dura pevide
Entre o pêlo que a guardava
Beijando-lhe a coxa fria
Com gosto de cana brava.
Senti à pressão do dedo
Desfazer-se desmanchada
Como um dedal de segredo
A pequenina castanha
Gulosa de ser tocada.
Era uma dança morena
Era uma dança mulata
Era o cheiro de amarugem
Era a lua cor de prata
Mas foi só naquela noite!
Passava dando risada
Carregando os peitos loucos
Quem sabe para quem, quem sabe?
Mas como me seduzia
A negra visão escrava
Daquele feixe de águas
Que sabia ela guardava
No fundo das coxas frias!
Mas como me desbragava
Na areia mole e macia!
A areia me recebia
E eu baixinho me entregava
Com medo que Deus ouvisse
Os gemidos que não dava!
Os gemidos que não dava…
Por amor do que ela dava
Aos outros de mais idade
Que a carregaram da ilha
Para as ruas da cidade
Meu grande sonho da infância
Angústia da mocidade.



Após longo período em Paris, Vinicius retorna ao Brasil numa licença-prêmio. A convite de seu amigo Jorge Amado, colabora com o semanário Para Todos onde publica o poema O operário em construção. Porém, o período no Brasil termina e Vinicius precisa voltar para seu posto em Paris, desta vez, junto à UNESCO. A produção do filme Orfeu Negro se aprimora, desta vez entra em cena o produtor Sasha Gordine. Seu casamento com Lila Bôscoli titubeia e Vinicius se vê mais uma vez solitário. Porém, uma incrível história de amor iria lhe acontecer. A sobrinha de Octávio de Faria, que muito o admirava quando menina, que com ele, num jantar, havia trocado olhares voluptuosos a ponto de fazer com que o, então marido da moça, ir embora, aquela que faria seu coração cantar novamente, apareceria, “por acaso” numa avenida em Paris. A partir daí, muita coisa mudaria.


BALADA DE PEDRO NAVA I


(O anjo e o túmulo)

I

Meu amigo Pedro Nava
Em que navio embarcou:
A bordo do Westphalia
Ou a bordo do 
Lidador?

Em que antárticas espumas
Navega o navegador
Em que brahmas, em que brumas

Pedro Nava se afogou?

Juro que estava comigo
Há coisa de não faz muito
Enchendo bem a caveira
Ao seu eterno defunto.

Ou não era Pedro Nava
Quem me falava aqui junto
Não era o Nava de fato
Nem era o Nava defunto?…

Se o tivesse aqui comigo
Tudo se solucionava
Diria ao garçom: Escanção!
Uma pedra a Pedro Nava!

Uma pedra a Pedro Nava
Nessa pedra uma inscrição:
“- deste que muito te amava
teu amigo, teu irmão
…”

Mas oh, não! que ele não morra
Sem escutar meu segredo
Estou nas garras da Cachorra
Vou ficar louco de medo

Preciso muito falar-lhe
Antes que chegue amanhã:
Pedro Nava, meu amigo
DESCEU O LEVIATÃ! 




Maria Lúcia de Faria Proença, Lucinha, era casada e tinha um filho. Conhecia Vinicius ainda menina por causa de seu tio Octávio de Faria. Foram apresentados em Paris, em um restaurante, pelo próprio Octávio, em 1939. Anos depois, reencontraram-se na casa de um amigo de Lucinha, onde, foi lida a peça Orfeu da Conceição, com Tom Jobim ao piano. Impressões. Até que, em 1958, novamente em Paris, Vinicius, sabendo que Lucinha estava lá, e ambos casados, convida-a para um jantar na sexta-feira, era a Sexta-Feira da Paixão! Lucinha voltou para o Brasil apaixonada e Vinicius também. Vinicius vai para Montevideo e alguns meses de cartas e telefonemas passam até que, em Petrópolis, Vinicius sobre um acidente de carro com o Almirante Dario Azambuja, e fica muito machucado. Lucinha vai visitá-lo no sanatório Santa Maria de Petrópolis e decide não mais voltar para casa. Decidiram que iam ficar juntos, que a paixão iniciada dezenove anos antes aconteceria. Casam-se no mesmo ano que sai o LP Canção do Amor Demais. 


 O TEMPO NOS PARQUES


O tempo nos parques é íntimo, inadiável, imparticipante, imarcescível.
Medita nas altas frondes, na última palma da palmeira
Na grande pedra intacta, o tempo nos parques.
O tempo nos parques cisma no olhar cego dos lagos
Dorme nas furnas, isola-se nos quiosques
Oculta-se no torso muscular dos fícus, o tempo nos parques.
O tempo nos parques gera o silêncio do piar dos pássaros
Do passar dos passos, da cor que se move ao longe.
É alto, antigo, presciente o tempo nos parques
É incorruptível; o prenúncio de uma aragem
A agonia de uma folha, o abrir-se de uma flor
Deixam um frêmito no espaço do tempo nos parques.
O tempo nos parques envolve de redomas invisíveis
Os que se amam; eterniza os anseios, petrifica
Os gestos, anestesia os sonhos, o tempo nos parques.
Nos homens dormentes, nas pontes que fogem, na franja
Dos chorões, na cúpula azul o tempo perdura
Nos parques; e a pequenina cutia surpreende
A imobilidade anterior desse tempo no mundo
Porque imóvel, elementar, autêntico, profundo
É o tempo nos parques.



Vinicius e Lucinha passam um período em Montevidéu, onde se casam. É um dos períodos mais importantes e fecundos na vida do poeta que se embrenha definitivamente nas composições e letras de música. Em 1959, o filme Orfeu Negro é laureado com o Oscar de melhor filme estrangeiro e ganha a Palma de Ouro em Cannes. No mesmo ano publica Novos Poemas II e sua filha Susana se casa. As parcerias aparecem e a produção é intensa. Compõe com Pixinguinha, Carlos Lyra, muito mais com Tom Jobim e inaugura uma fase interessante na vida artística e boemia do carioca: as casas abertas. Festas musicais. Tanto no Rio quanto na casa de Lucinha em Petrópolis, a condição é ficar junto e fazer música. A peça Orfeu da Conceição é traduzida para o italiano e alguns poemas para o francês. Em 1962 surge uma parceria importante: Baden Powell. O violonista vai morar na casa de Lucinha por três meses e, sem sair de casa nesse período, compõem o que ficou conhecido por Afro-Sambas. No mesmo ano, surge a comédia-musical Pobre Menina Rica com Carlos Lyra, que leva pela primeira vez ao palco a cantora Nara Leão. Curiosidade: O poema de hoje, Lucinha recebe na bandeja do café da manhã no dia de seu aniversário.

POEMA DE ANIVERSÁRIO
Porque fizeste anos, Bem-Amada, e a asa do tempo roçou teus cabelos negros, e teus grandes olhos calmos miraram por um momento o inescrutável Norte…
Eu quisera dar-te, ademais dos beijos e das rosas, tudo o que nunca foi dado por um homem à sua Amada, eu que tão pouco te posso ofertar. Quisera dar-te, por exemplo, o instante em que nasci, marcado pela fatalidade de tua vinda. Verias, então, em mim, na transparência do meu peito, a sombra de tua forma anterior a ti mesma.
Quisera dar-te também o mar onde nadei menino, o tranqüilo mar de ilha em que perdia e em que mergulhava, e de onde trazia a forma elementar de tudo o que existe no espaço acima – estrelas mortas, meteoritos submersos, o plancto das galáxias, a placenta do Infinito.
E mais, quisera dar-te as minhas loucas carreiras à toa, por certo em premonitória busca de teus braços, e a vontade de grimpar tudo de alto, e transpor tudo de proibido, e os elásticos saltos dançarinos para alcançar folhas, aves, estrelas – e a ti mesma, luminosa Lucina, e derramar claridade em mim menino.
Ah, pudesse eu dar-te o meu primeiro medo e a minha primeira coragem; o meu primeiro medo à treva e a minha primeira coragem de enfrentá-la, e o primeiro arrepio sentido ao ser tocado de leve pela mão invisível da Morte.
E o que não daria eu para ofertar-te o instante em que, jazente e sozinho no mundo, enquanto soava em prece o cantochão da noite, vi tua forma emergir do meu flanco, e se esforçar, imensa ondina arquejante, para se desprender de mim; e eu te pari gritando, em meio a temporais desencadeados, roto e imundo do pó da terra.
Gostaria de dar-te, Namorada, aquela madrugada em que, pela primeira vez, as brancas moléculas do papel diante de mim dilataram-se ante o mistério da poesia subitamente incorporada; e dá-Ia com tudo o que nela havia de silencioso e inefável – o pasmo das estrelas, o mudo assombro das casas, o murmúrio místico das árvores a se tocarem sob a Lua.
E também o instante anterior à tua vinda, quando, esperando-te chegar, relembrei-te adolescente naquela mesma cidade em que te reencontrava anos depois; e a certeza que tive, ao te olhar, da fatalidade insigne do nosso encontro, e de que eu estava, de um só golpe, perdido e salvo.
Quisera dar-te, sobretudo, Amada minha, o instante da minha morte; e que ele fosse também o instante da tua morte, de modo que nós, por tanto tempo em vida separados, vivêssemos em nosso decesso uma só eternidade; e que nossos corpos fossem embalsamados e sepultados juntos e acima da terra; e que todos aqueles que ainda se vão amar pudessem ir mirar-nos em nosso último leito; e que sobre nossa lápide comum jazesse a estátua de um homem parindo uma mulher do seu flanco; e que nela houvesse apenas, como epitáfio, estes versos finais de uma cançâo que te dediquei:

… dorme, que assim
dormirás um dia
na minha poesia
de um sono sem fim…



Errata: Ontem disse que Nara Leão havia pisado no palco pela primeira vez na comédia-musical Pobre Menina Rica ao lado de Vinicius e Carlos Lyra. Engano total. Em 13 de novembro 1959, Nara já havia cantado no show da Escola Naval, que contou com algumas figuras que comporiam a Bossa Nova depois. Voltando ao poeta: Em agosto de 1962, na boite Au Bon Gourmet, acontece, enfim, o show que seria o grande acontecimento para a Bossa Nova. Tom Jobim, João Gilberto, Os Cariocas e Vinicius de Moraes. Foi o lançamento oficial da Garota de Ipanema e do Samba da Benção. Esta última, composta por Baden e Vinicius na casa de Lucinha no Parque Guinle com um improviso de Saravahs. No mesmo ano Vinicius compõe com Ary Barroso o Rancho das Namoradas “já vem raiando a madrugada…” e sai o livro dedicado a Lucinha Para Viver um Grande Amor. Inicia também uma parceria com Edu Lobo que viria a resultar em canções como Arrastão. Vinicius sempre foi fascinado por Marlene Dietrich, desde menino. Quando a mesma veio cantar no Brasil em 1959, Vinicius ficou alvoroçadíssimmo. O show seria no Golden Room no Copacabana Palace. Vinicius foi com Lucinha. Lá dentro, as luzes se apagam. Entra Marlene fabulosa e diz: “Good evening ladys and gentleman, now i’m going to sing Lili marlene” e Vinicius, de súbito, levanta-se da cadeira e grita: “Please, in german!”. Há uma estupefação geral. Marlene ouve e diz: “For that gentleman overthere, i’m going to sing in german”. Este foi o primeiro ciúme que Lucinha sentiu por Vinicius.


A ÚLTIMA VIAGEM DE JAYME OVALLE


Ovalle não queria a Morte
Mas era dele tão querida
Que o amor da Morte foi mais forte
Que o amor do Ovalle à vida.

E foi assim que a Morte, um dia
Levou-o em bela carruagem
A viajar – ah, que alegria!
Ovalle sempre adora viagem!

Foram por montes e por vales
E tanto a Morte se aprazia
Que fosse o mundo só de Ovalles
E nunca mais ninguém morria.

A cada vez que a Morte, a sério
Com cicerônica prestança
Mostrava a Ovalle um cemitério
Ele apontava uma criança.

A Morte, em Londres e Paris
Levou-o à forca e à guilhotina
Porém em Roma, Ovalle quis
Tomar a sua canjebrina.

Mostrou-lhe a Morte as catacumbas
E suas ósseas prateleiras
Mas riu-se muito, tais zabumbas
Fazia Ovalle nas caveiras.

Mais tarde, Ovalle satisfeito
Declara à Morte, ambos de porre:
- Quero enterrar-me, que é um direito
Inalienável de quem morre!

Custou-lhe esforço sobre-humano
Chegar à última morada
De vez que a Morte, a todo pano
Queria dar uma esticada.

Diz o guardião do campo-santo
Que, noite alta, ainda se ouvia
À voz da Morte, um tanto ou quanto
Que ria, ria, ria, ria…




Em 1963, por alguns fortes motivos, Lucinha termina com Vinicius e eles se separam. Vinicius entra num período bastante difícil. Conhece uma jovem moça chamada Nelita Abreu Rocha, apaixona-se e casa-se com ela no mesmo ano. Agora Vinicius colabora para a revista Fatos e Fotos e faz crônicas sobre música para o Diário Carioca. No mesmo ano, começa a compor com um jovem, então estudante de arquitetura, chamado Francis Hime. Também é o ano de um show de muito sucesso na boate Zum-Zum com Dorival Caymmi, onde, junto com o Quarteto em Cy, faz do show um disco. A música se torna definitivamente um caminho e em 1965, vence o Festival de Música Popular de São Paulo da TV Record com o primeito e o segundo lugar com, respectivamente, Arrastão com Edu Lobo cantada por Elis Regina e Valsa do Amor que Não Vem com Baden Powell cantada por Elizete Cardoso. Nesse momento, a carreira ganha força e há a possibilidade de fazer um filme chamado Arrastão, porém, em Paris, indispõe-se com o diretor e tira todas as suas músicas do projeto. Vai para Los Angeles para encontrar Tom Jobim. Tudo caminhando bem na vida profissional. 



A extraordinária viagem do palhaço Petrushka pelas veredas do Carnaval carioca em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com


CARTA DO AUSENTE


Meus amigos, se durante o meu recesso virem por acaso passar a minha amada
Peçam silêncio geral. Depois
Apontem para o infinito. Ela deve ir
Como uma sonâmbula, envolta numa aura
De tristeza, pois seus olhos
Só verão a minha ausência. Ela deve
Estar cega a tudo o que não seja o meu amor (esse indizível
Amor que vive trancado em mim como num cárcere
Mirando empós seu rastro).
Se for à tarde, comprem e desfolhem rosas
À sua melancólica passagem, e se puderem
Entoem 
cantus-primus. Que cesse totalmente o tráfego
E silenciem as buzinas de modo que se ouça longamente
O ruído de seus passos. Ah, meus amigos
Ponham as mãos em prece e roguem, não importa a que ser ou divindade
Por que bem-haja a rninha grande amada
Durante o meu recesso, pois sua vida
É minha vida, sua morte a minha morte. Sendo possível
Soltem pombas brancas em quantidade suficiente para que se faça em torno
A suave penumbra que lhe apraz. Se houver por perto
Uma hi-fi, coloquem o “Noturno em si bemol” de Chopin; e se porventura
Ela se puser a chorar, oh recolham-lhe as lágrimas em pequenos frascos de opalina
A me serem mandados regularmente pela mala diplomática.
Meus amigos, meus irmãos (e todos
Os que amam a minha poesia)
Se por acaso virem passar a minha amada
Salmodiem versos meus. Ela estará sobre uma nuvem
Envolta numa aura de tristeza
O coração em luz transverberado. Ela é aquela
Que eu não pensava mais possível, nascida
Do meu desespero de não encontrá-la. Ela é aquela
Por quem caminham as minhas pernas e para quem foram feitos os meus braços
Ela é aquela que eu amo no meu tempo
E que amarei na minha eternidade – a amada
Una e impretérita. Por isso
Procedam com discrição mas eficiência: que ela
Não sinta o seu caminho, e que este, ademais
Ofereça a maior segurança. Seria sem dúvida de grande acerto
Não se locomovesse ela de todo, de maneira
A evitar os perigos inerentes às leis da gravidade
E do 
momentum dos corpos, e principalmente aqueles devidos
À falibilidade dos reflexos humanos. Sim, seria extremamente preferível
Se mantivesse ela reclusa em andar térreo e intramuros
Num ambiente azul de paz e música. Ó, que ela evite
Sobretudo dirigir à noite e estar sujeita aos imprevistos
Da loucura dos tempos. Que ela se proteja, a minha amada
Contra os males terríveis desta ausência
Com música e equanil. Que ela pense, agora e sempre
Em mim que longe dela ando vagando
Pelos jardins noturnos da paixão
E da melancolia. Que ela se defenda, a minha amiga
Contra tudo o que anda, voa, corre e nada, e que se lembre
Que devemos nos encontrar, e para tanto
É preciso que estejamos íntegros, e acontece
Que os perigos são máximos, e o amor de repente, de tão grande
Tornou tudo frágil, extremamente, extremamente frágil.



Em 1966, há um encontro na casa do amigo e cronista Rubem Braga que gera a célebre fotografia de Vinicius ao lado de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana e Paulo Mendes Campos. O encontro também contou com a presença de Sérgio Porto. A poesia brasileira em imagens. No mesmo ano são feitos documentários sobre Vinicius para televisões americana, alemã, italiana e francesa, com os dois últimos sendo feitos pelos diretores Gianni Amico e Pierre Cast. Algumas de suas crônicas são reunidas no livro Para uma menina com uma flor. O Samba da Benção, parceria com Baden Powell, entra no filme francês Un Homme et Une Femme, dirigido por Claude Lelouch, com versão do ator Pierre Barouh, que também atua no filme. Un Homme et Une Femme vence a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Vinicius torna-se, definitivamente, um poeta de extremo prestígio internacional, elevando nome de nossa poesia.


OLHE AQUI, MR. BUSTER


Este poema é dedicado a um americano simpático, extrovertido e podre de rico, em cuja casa estive poucos dias antes de minha volta ao Brasil, depois de cinco anos de Los Angeles, EUA. Mr. Buster não podia compreender como é que eu, tendo ainda o direito de permanecer mais um ano na Califórnia, preferia, com grande prejuízo financeiro, voltar para a “Latin America”, como dizia ele. Eis aqui a explicação, que Mr. Buster certamente não receberá, a não ser que esteja morto e esse negócio de espiritismo funcione. 

Olhe aqui, Mr. Buster: está muito certo
Que o Sr. tenha um apartamento em Park Avenue e uma casa em Beverly Hills.
Está muito certo que em seu apartamento de Park Avenue
O Sr. tenha um caco de friso do Partenon, e no quintal de sua casa em Hollywood
Um poço de petróleo trabalhando de dia para lhe dar dinheiro e de noite para lhe dar insônia
Está muito certo que em ambas as residências
O Sr. tenha geladeiras gigantescas capazes de conservar o seu preconceito racial
Por muitos anos a vir, e vacuum-cleaners com mais chupo
Que um beijo de Marilyn Monroe, e máquinas de lavar
Capazes de apagar a mancha de seu desgosto de ter posto tanto dinheiro em vão na guerra da
Coréia.
Está certo que em sua mesa as torradas saltem nervosamente de torradeiras automáticas
E suas portas se abram com célula fotelétrica. Está muito certo
Que o Sr. tenha cinema em casa para os meninos verem filmes de mocinho
Isto sem falar nos quatro aparelhos de televisão e na fabulosa hi-fi
Com alto-falantes espalhados por todos os andares, inclusive nos banheiros.
Está muito certo que a Sra. Buster seja citada uma vez por mês por Elsa Maxwell
E tenha dois psiquiatras: um em Nova York, outro em Los Angeles, para as duas “estações” do
ano.
Está tudo muito certo, Mr. Buster – o Sr. ainda acabará governador do seu estado
E sem dúvida presidente de muitas companhias de petróleo, aço e consciências enlatadas.
Mas me diga uma coisa, Mr. Buster
Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:
O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?
O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?
O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?




Em 1968, ano marcante no mundo todo pelo notório mês de maio, Vinicius perde sua mãe Lydia Cruz de Moraes. Atenciosa e, em suas próprias palavras, vaidosa mulher que tanto lhe deu carinho, Dona Lydia foi-se em fevereiro, deixando muitas saudades aos filhos e netos. No mesmo ano, aparece Obra Completa pela Companhia José Aguilar Editora. Seus poemas são traduzidos para o italiano pelo poeta Giuseppe Ungaretti, que viria a falecer dois anos depois. Mais uma vez seu casamento titubeia. Um ano depois, em 1969, a derradeira facada do Governo Federal: Vinicius é exonerado do Itamaraty numa onda de expurgos motivada pelo combate à corrupção, ao homossexualismo e à subversão, e foi nesta última categoria que encaixaram Vinicius. Em contrapartida, Vinicius conhece uma moça, bem mais jovem, apaixona-se e casa-se, se chamava Cristina Gurjão.


NAMORADOS DO MIRANTE


Eles eram mais antigos que o silêncio
A perscrutar-se intimamente os sonhos
Tal como duas súbitas estátuas
Em que apenas o olhar restasse humano.
Qualquer toque, por certo, desfaria
Os seus corpos sem tempo em pura cinza.
Remontavam às origens – a realidade
Neles se fez, de substância, imagem.
Dela a face era fria, a que o desejo
Como um hictus, houvesse adormecido
Dele apenas restava o eterno grito
Da espécie – tudo mais tinha morrido.
Caíam lentamente na voragem
Como duas estrelas que gravitam
Juntas para, depois, num grande abraço
Rolarem pelo espaço e se perderem
Transformadas no magma incandescente
Que milênios mais tarde explode em amor
E da matéria reproduz o tempo
Nas galáxias da vida no infinito.

Eles eram mais antigos que o silêncio…





O casamento com a bem mais jovem Cristina Gurjão dura menos de um ano. Vinicius se encontra mais uma vez num período muito difícil. Porém, o ano de 1970 reserva uma plena recuperação para Vinicius. No antigo e célebre bar em Ipanema chamado Pizzaiollo, Vinicius conhece através da jovem Maria Bethânia a atriz Gesse Gessy. Apaixona-se de cara e deseja ir com ela para Buenos Aires. Não menos espantada ficou Maria Bethânia com a súbita volúpia. Casam-se no mesmo ano e mudam-se para Bahia para uma casa que mandaram construir. O casamento foi uma estranha mistura de candomblé, com festa e ritual que incomodou alguns amigos, sobretudo, Rubem Braga. A casa tinha objetos estranhos para olhos ordinários, porém, ali Vinicius viveria uma vida pacata ao lado de bichos. Vinicius conhece um jovem rapaz de vinte e poucos anos, um violonista ex-aluno de Paulinho Nogueira que, contra as críticas e o esquecimentos entre o público jovem que Vinicius começava a entrar, seria seu grande parceiro e, com ele, retornaria ao trabalho. O jovem era conhecido pelo nome de Toquinho.

SONETO A PABLO NERUDA
Quantos caminhos não fizemos juntos
Neruda, me irmão, meu companheiro…
Mas este encontro súbito, entre muitos
Não foi ele o mais belo e verdadeiro?
Canto maior, canto menor – dois cantos
Fazem-se agora ouvir sob o Cruzeiro
E em seu recesso as cóleras e os prantos
Do homem chileno e do homem brasileiro
E o seu amor – o amor que hoje encontramos…
Por isso, ao se tocarem nossos ramos
Celebro-te ainda além, Cantor Geral
Porque como eu, bicho pesado, voas
Mas mais alto e melhor do céu entoas
Teu furioso canto material!
Fato é que Vinicius não se encontrava em bom momento de crítica no início dos anos setenta logo que começa sua parceria com Toquinho. Vinicius já era uma figura felliniana, sobretudo para os jovens poetas da época, porém, sem despertar grandes amores da crítica, sobretudo musical. Porém, com Toquinho, surgem canções que o trariam de volta, como Tarde em Itapuã e Como Dizia o Poeta. Toquinho que antes da parceria com Vinicius, já havia composto canções com Chico Buarque e Jorge Ben, grava com Vinicius um disco de muito sucesso oriundo de um show em Buenos Aires com a cantora Maria Creuza, chamado Vinicius de Moraes en La Fusa com Maria Creuza y Toquinho. Antes disso, gravou na Italia La vita, amico, é l’arte dell’incontro. A parceria duraria onze anos, 25 discos e mais de 120 canções.

Arquivo deste e-mail de Bruno Tolentino a Mário Faustino em http://cartilhadepoesia.wordpress.com
NA ESPERANÇA DE TEUS OLHOS
Eu ouvi no meu silêncio o prenúncio de teus passos
Penetrando lentamente as solidões da minha espera
E tu eras, Coisa Linda, me chegando nos espaços
Como a vinda impressentida de uma nova primavera.
Vinhas cheia de alegria, coroada de guirlandas
Com sorrisos onde havia burburinhos de água clara
Cada gesto que fazias semeava uma esperança
E existiam mil estrelas nos olhares que me davas.
Ai de mim, eu pus-me amar-te, pus-me a amar-te mais ainda
Porque a vida no meu peito se fizera num deserto
E tu apenas me sorrias, me sorrias, Coisa Linda
Como a fonte inacessível que de súbito está perto.
Pelas rútilas ameias do teu riso entreaberto
Fui subindo, fui subindo no desejo de teus olhos
E o que vi era tão lindo, tão alegre, tão desperto
Que do alburno do meu tronco despontaram folhas novas.
Eu te juro, Coisa Linda: vi nascer a madrugada
Entre os bordos delicados de tuas pálpebras meninas
E perdi-me em plena noite, luminosa e espiralada
Ao cair no negro vórtice letal de tuas retinas.
E é por isso que eu te peço: resta um pouco em minha vida
Que meus deuses estão mortos, minhas musas estão findas
E de ti eu só quisera fosses minha primavera
E só espero, Coisa Linda, dar-te muitas coisas lindas…
Em 1971, muda-se definitivamente para Bahia onde vive uma espécie de vida-hippie-temporão. Compõe muito com Toquinho, e faz um show em Mar del Plata com a jovem Maria Bethânia, na mesma boate La Fusa. O show gera um disco. No mesmo ano, viaja para Italia com Toquinho para gravar Per vivere un grande amore. Em 1973, Vinicius publica A elegia que vem de longe, livro em homenagem a seu grande amigo Pablo Neruda, que morrera naquele ano. Um breve retorno à literatura que estava adormecida. 73 também é o ano do show Poeta, Moça e o Violão com Toquinho e Clara Nunes. Os shows com encontros sempre dão certo. No ano seguinte começa a trabalhar no roteiro de um filme chamado Polichinelo, porém, ficando inacabado. Vinicius vai se tornando essa figura feliniana que havia dito, e as canções com Toquinho vão aparecendo: Sei lá, Um homem chamado Alfredo, Veja Você, O Velho e a Flor.

BREVE CONSIDERAÇÃO
à margem do ano assassino de 1973
Que ano mais sem critério
Esse de setenta e três…
Levou para o cemitério
Três Pablos de uma só vez.
Três Pablões, não três pablinhos
No tempo como no espaço
Pablos de muitos caminhos:
Neruda, Casals, Picasso.
Três Pablos que se empenharam
Contra o fascismo espanhol
Três Pablos que muito amaram
Três Pablos cheios de Sol.
Um trio de imensos Pablos
Em gênio e demonstração
Feita de engenho, trabalho
Pincel, arco e escrita à mão.
Três publicíssimos Pablos
Picasso, Casals, Neruda
Três Pablos de muita agenda
Três Pablos de muita ajuda.
Três líderes cuja morte
O mundo inteiro sentiu…
ô ano triste e sem sorte…
- VÁ PRA PUTA QUE O PARIU!
Em 1976, seu casamento novamente declina e Vinicius se separa. Escreve as letras do disco “Deus lhe pague” em parceria com Edu Lobo e, no mesmo ano, casa-se com a argentina Marta Rodrigues Santamaria, porém, o casamento dura apenas um ano. O ano de 1977 é marcado por um show antológico no Canecão com Tom Jobim, Miucha e Toquinho, ficando sete meses em cartaz (!). Um sucesso imenso. Vinicius saía do show, se internava na São Vicente para se recuperar e voltava no dia seguinte. A saúde não andava bem. O que não o impediu de fazer uma turnê pela Europa com Toquinho, tocando em vários países. Em 1978, Vinicius, se casa com Gilda de Queirós Mattoso, que conhecera em Paris. Gilda se torna uma grande companheira, cuidando de sua saúde além de tudo. A Rede Globo prepara um programa com todos os parceiros de Vinicius. Algo se anunciava. No ano seguinte, Vinicius, a pedido do, então, líder sindical, Luis Inácio Lula da Silva, lê poemas no Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. Voltando de uma viagem da Europa, no mesmo ano, Vinicius sobre um derrame cerebral. Nesta ocasião, perdem-se os originais de Roteiro lírico e sentimental da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Onde agora é noite (ou dia) em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
O SACRIFÍCIO DO VINHO
Contra o crepúsculo
O vinho assoma, exulta, sobreleva
Muda o cristal da tarde em rubra pompa
Ganha som, ganha sangue, ganha seios
Contra o crepúsculo o vinho
Menstrua a tarde.
Ah, eu quero beber o vinho em grandes haustos
Eu quero os longos dedos líquidos
Sobre meus olhos, eu quero
A úmida língua…
O céu da minha boca
É uma cúpula imensa para a acústica
Do vinho, e seu eco de púrpura…
O cantochão do vinho
Cresce, vermelho, entre muralhas súbitas
Carregado de incenso e paciência.
As sinetas litúrgicas
Erguem a taça ardente contra a tarde
E o vinho, transubstanciado, bate asas
Voa para o poente
O vinho…
Uma coisa é o vinho branco
O primeiro vinho, linfa da aurora impúbere
Sobre a morte dos peixes.
Mas contra a noite ei-lo que se levanta
Varado pelas setas do poente
Transverberado, o vinho…
E o seu sangue se espalha pelas ruas
Inunda as casas, pinta os muros, fere
As serpentes do tédio; dentro
Da noite o vinho
Luta como um Lacoonte
O vinho…
Ah, eu quero beijar a boca moribunda
Fechar os olhos pânicos
Beber a áspera morte
Do vinho.
No dia 17 de abril de 1980, Vinicius é operado para a instalação de um dreno cerebral, porém, três meses depois, no dia 9 de julho, morre, em sua casa, na Gávea, na banheira. Um edema pulmonar foi a causa anunciada. Estavam lá, sua mulher Gilda e Toquinho. No dia 11 de julho o prefeito Julio Coutinho publica o decreto de que a rua Montenegro, em Ipanema, passaria a se chamar rua Vinicius de Moraes. No dia 12 de julho, a rua é inaugurada. Vinicius viveu e produziu o que produziu em 67 anos de existência, mostrando, na minha opinião, as imensas possibilidades do poeta. Poema, música, teatro, prosa com todos os seus desmembramentos. Eis que chegamos ao final de mais uma antologia, espero que tenham gostado de passar essas semanas ao lado deste grande poeta brasileiro. Semana que vem, entraremos em um outro universo poético, com outras proposições, situações e vivências. Evoé!


O HAVER

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo:
- Perdoai! – eles não têm culpa de ter nascido…

Resta esse antigo respeito pela noite, essa falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem 
Cheia de mansidão para com tudo que existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira de quem quer balbuciar o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta composição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano, ou essa súbita alegria
Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória…

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de sua inútil poesia e sua inútil.

Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa tola capacidade
de rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem de comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi com será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
E transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
Na busca desesperada de alguma porta quem sabe inexistente
E essa coragem indizível diante do Grande Medo
E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem história
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão de seu reino.

Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
Essa abandono sem remissão à sua voragem insaciável
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio
Pelo momento a vir, quando, emocionada
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada.




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Chacal

Ricardo de Carvalho Duarte, ou Chacal, nasceu no Rio de Janeiro no dia 24 de maio de 1951. Seu pai, Marcial Galdino, saiu do Rio Grande do Sul com o exército gaúcho para o Rio de Janeiro na Revolução Constitucionalista de 1932, e por aqui ficou. Ricardo nasceu nos dourados anos 50 e passou sua infância, ora no apartamento onde morava em Copacabana, ora no sítio da família em Cinco Lagos, um vilarejo próximo de Mendes, no interior do Estado do Rio de Janeiro. Neste mês, percorreremos a poesia deste grande poeta carioca. Muito prazer, Chacal!

Tem texto do dia 31 aqui http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
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SÓTÃO
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o sótão ficava entre o céu e o inferno.
um escada nos ligava ao banheiro e ao mundo.
degraus silenciosos.
o telhado mostrava seus segredos
de um buraco eterno no teto.
um armário com todos os livros/chaves
guardava cumplicidade e cupins ruminados.
os filhos malditos disfarçavam en/cruz/ilhadas
bem queimadinhos.
o sol amanhecia esperanças
amarelas e vermelhas nas janelas antigas.
e a vida foi vivida como mando o figurino.
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O jovem Ricardo foi criado em apartamento. O prédio ficava a cinco quadras da praia de Copacabana onde o menino pegava jacaré. Entre a praia e o prédio, ficava o Colégio Mallet Soares, onde estudou. Ali jogou futebol, voley e gostou do Fluminense. Seu amigo Sérgio Liuzzi, fora convocado para jogar voley no Botafogo, e depois o levou para o time. Fez um teste, foi aprovado. Após um treino, Ricardo se atrasou no vestiario e chegou na cantina para comer com o resto do time, após observar a todos, quietos, comendo, diante o silêncio que havia, exclamou: “Que onda chacal!”. Era uma gíria da época. Seu amigo Sérgio gostou, levou para a turma da praça e o apelido pegou. Assim, nascia o Chacal.
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NA PORTA LÁ DE CASA
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na porta lá de casa
tem dizendo lar romi lar
uma bandeira de papel
na porta lá de casa
as crianças passam
e se atiram no chão
e se olham por dentro
das bocas das palavras
na falta de qualquer espelho
na porta lá de casa
passa o amor o calor
de cada um que passa
na porta lá de casa
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Ao entrar no curso secundário do Colégio Estadual André Maurois, no Leblon, Chacal descobre novas percepções. Tudo era falado abertamente sob o lema “liberdade com responsabilidade”. Através do professor Ivo Barbieri, Chacal começa a ler avidamente Guimarães Rosa. Descobriu que “palavras tinham molas, dobravam esquinas”. Entrou num grupo de estudos sobre o materialismo dialético. No mesmo tempo, Chacal, foi fazer segurança de uma colega de classe chamada Gracinha numa manifestação política. Ficou estupefato com a mobilização dos estudantes, intelectuais e artistas contra o governo militar. Viu os comícios-relâmpagos de Marcos Medeiros, Vladimir Palmeira e outros. O contato com essas “performances políticas” viria a ter muita influência nos recitais da vida.
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CENA LONGA
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as pedras estão em cima da terra.
capas de disco espalhadas ao acaso.
a última vez que falou ela falou – eu não vou mais
atrás de você.
desde então só soluços. a terceira e a quarta pessoas
pareciam distraídas, amistosas, jogavam dados
viciados.
era quase de manhã. o nono trago turvou a vista de
orlando, aquele que tacapau. daí desfoca forçado.
olívia contrafeita com seu vestido de gaze vem em
quando botava uma azeitona no copo e acompanhava
o lento movimento de imersão. vez em quando pulava
no sofá dragoflex. pulava e fazia caretas sem graça. a
terceira e a quarta pessoa trepavam no último andar
no beliche à direita.
- esse é um bom disco. gosto dele como de você.
- fala sério?!
- não. gosto mais de você.
- cascata
- gosto mais do disco.
- você me dá asco.
orlando acompanha o som com os dedos nos dentes.
o disco pára.
- muda o disco…
ela se levanta e zangada disca algumas voltas no
telefone.
a terra iniciará um novo dia. raios na janela.
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Em 1970, aos dezenove anos, Chacal entra para a ECO, Escola de Comunicação da UFRJ. Queria estudar Economia, pois gostava de história, geografia, sociologia e matemática. Foi mal em matemática no vestibular e acabou entrando na Comunicação. Nessa época, Chacal conhece três figuras fundamentais para sua trajetória: Charles Peixoto, Virgínia Sabino e Guilherme Mandaro. Charles era neto do poeta Ronald de Carvalho e conhecia muita poesia. Virgínia era neta de Benedito Valladares e filha do Fernando Sabino. Logo depois, veio Guilherme. Formou-se um grupo. Iam muito para a casa de Virgínia em Correias, Petrópolis, e para a casa de Charles em Teresópolis. O grupo mergulhou fundo na contemporaneidade musical, na poesia e na filosofia. Algo começava.
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TRIP TROP
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capitaneando a nau capitânea compartilha
compartimento com diva divina corista de revista
orgias a bombordo o litoral aponta farol canhão
lunetas disparates o barco é ferido no nariz e faz
água orlando dá ordem à desordem embarcando
a tripulação no submarino para o casos como esse
no bico do colosso semi afundado orlandes barriga
encolhida farda de gala assovia o hino da esquadra
e pula. o resto da nau eram bolhas. rio maracanã
banheira de d. moema largo do boticário praias
cariocas o dirigível estaciona numa sarjeta sórdida
de niterói pegam a barca pro rio orlando asseclas
partner desviam a cantareira rumo à lagoa rodrigo
dos peixes exilados com falta de ar e área. barcarola
ancorada os tripulantes raptados são atirados aos
tubarões de mandíbulas os reféns pra trabalhar e
a trip tropa trota corte cantagalo acima abaixo na
final visita cordial ao pequeno canto do céu que
ela veio pra se lembrar.
bunda mole e dedo duro tanto treme quanto entrega
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Certo dia, Charles Peixoto apresentou a Chacal um livro que lhe mudaria completamente. Era um pequeno livro, desses de bolso, com poemas do Oswald de Andrade. Chacal já conhecia o poeta através da montagem do Rei da Vela dirigida pelo Zé Celso, mas, após o livro, tudo mudaria. Em 1971, Chacal iniciava uma série de escritos em três pequenos cadernos, com ilustrações. Começava ali sua trajetória. No mesmo ano, os três, Chacal, Charles e Virgínia, mais uns oito companheiro de enveredaram numa viagem pelo rio São Francisco. Mais amanhã. On the road, man!
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ESPERE BABY NÃO DESESPERE
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espere baby não desespere
não me venha com propostas tão fora de propósito
não acene com planos mirabolantes mas tão distantes
espere baby não desespere
vamos tomar mais um e falar sobre os mistérios
da lua vaga
dylan na vitrola dedo nas teclas
canto invento enquanto o vento marasma
espere baby não desespere
temos um quarto uma eletrola uma cartola
vamos puxar um coelho um baralho
e um castelo de cartas
vamos viver o tempo esquecido do mago merlin
vamos montar o espelho partido da vida como ela é
espere baby não desespere
a lagoa há de secar
e nós não ficaremos mais a ver navios
e nós não ficaremos mais a roer o fio da vida
e nós não ficaremos mais a temer a asa negra do fim
espere baby não desespere
porque nesse dia soprará o vento da ventura
porque nesse dia chegará a roda da fortuna
porque nesse dia se ouvirá o canto do amor
e meu dedo não mais ferirá o silêncio da noite
com estampidos perdidos
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No início de 71, Chacal, Charles e Virgínia fizeram uma viagem pelo rio São Francisco, de Pirapora até Petrolina. Muitas descobertas e causos interessantes pelos interiores do Brasil. Depois da viagem, Chacal passou um tempo em Arembepe, na Bahia. Depois de algum tempo enraizado, voltou para o Rio de Janeiro. De volta à rotina da ECO, e através dos estudos sobre Semiótica e Linguística, Chacal descobre a linguagem. Percebeu ali que poderia se comunicar com o mundo, com as pessoas e, sobretudo, se divertir. Pensou em estudar fora do país, porém, resolveu ficar no Brasil e ser poeta, “era mais barato”. Logo depois, Muito Prazer.
E-mails desta pequena coluna em http://cartilhadepoesia.wordpress.com
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BURACOS NO CÉU
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quando tempo e espaço se cortam
quando nosso corpo se encontra
diga que eu perdi a cabeça
diga que eu sou uma bolha de alka seltzer
quando chove meteoro
quando os buracos se cruzam
caem fagulhas na terra
correm agulhas no sangue
desorganizado saio de casa
com um guarda-chuva de cheeseburger
com uma capa de amianto
e não me espanto
entretanto descobri:
a loucura é um sopro no ouvido
.
Chacal estava com um bom volume de poemas. Coloriu três cadernos de poemas com caneta pilot. Mostrava aos amigos o resultado, até que mostrou para Waly Salomão, que gostou. Guilherme perguntou se ele não gostaria de publicar em mimeógrafo. Chacal aceitou. Da mesma forma, Charles fez o livro dele, Travessa Bertalha, com a ajuda de Guilherme. Muito prazer saiu com cem cópias mimeografadas cada um.Ali começava a vender sua poesia. Após ter participado de alguns pequenos jornais e revistas alternativas da época, eis que sai uma resenha sobre Muito prazer na coluna de Torquato Neto, Geleia Geral, por Waly Salomão. Um bom começo.
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PRIMA
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não me interessam as últimas notícias
nem as primeiras nem as penúltimas
me importa apenas estar perto de você
já não quero saber que dia a guerra vai estourar
como está o novo espetáculo
quanto foi o último jogo
não.
só me importa a sua presença no meio de tudo
que lhe enfeita de manchetes desinteressantes
você é matéria-prima e una
você cumpre sua trajetória na planeta diário
só para me transtornar
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Chacal foi vivendo a ebulição dos anos 70. Novos Baianos surgindo com tudo, Píer de Ipanema, onde levava Muito prazer, a turma toda das areias, Gal, Waly, Scarlet Moon, Nelson Jacobina, Mautner, Neville, eram as “Dunas do barato”. Foi nessa época, verão de 72, que Chacal, Jards Macalé, Rogério Duarte e Duda compuseram Boneca Semiótica. Preço da passagem, seu segundo livro, foi elaborado nesse mesmo 72, entre uma desagradável experiência na rua Montenegro, em Ipanema, e uma indizível vontade de sair e conhecer o mundo. Fez mil exemplares de Preço da passagem, lançou no MAM na coletiva Ex-Posição. Não vendeu muito. Logo depois participou de um show da Gal dizendo um poema (importante experiência de palco) e com uma salvadora ajuda de seus pais, Chacal embarca para Londres.
Elegia para João Jorge Proença Vargas de Andrade no blog http://pedrolago.blogspot.com
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SONHOS
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sonhos que se desfazem de manhã como se fossem pura bruma
sinais de fumaça de um mundo distante enevoado nebuloso
sonhos que se desfazem de manhã feito bolha bulhufas
sinais que a vida tem campos apenas esboçados farejados
sonhos que se desfazem de manhã como tênue vibração
sinais que nem só na terra existe vida extraterrestre
sonhos que se desfazem de manhã como alga marinha mel
sinais de quimeras como falava quampérius, o zumbi.
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Viagem para Londres. Chacal passa onze meses se enveredando por aquelas bandas de lá. Stones, sementes de girassol, Grand Magic Circus de Jérôme Savary e festival internacional de poesia no Queen’s Elizabeth Hall, onde, Chacal vê ninguém menos que Allen Ginsberg se apresentar. Chacal ficou estupefato com a dicção de Allen, seria uma referência. Depois, Amsterdã, Portugal e muitas experiências que o levaram a escrever América, seu terceiro livro. Chegando ao Brasil, Chacal conhece Cacaso e outros poetas da coleção Frenesi: Ana Cristina Cesar, Chico Alvim, Geraldo Carneiro, Roberto Schwartz e outros. América foi lançado em 75 e já apresentava poemas com mais consistência. Logo mais surgiria, A Nuvem Cigana.
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JABU
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jabuticaba jabuti jaburu jabuco
que é a corruptela de joaquim nabuco
tudo jabuca todos jabam ou jabotam
ainda mais quando estão com vontade
de jabutir ou jaburar
quampérius jogava com jadir na zaga
do jabaquara já vai jaca
zagarreava jabaculejava zarababava
no jaleco do avante vavá
e como era javali talvez jamantão
não dava colher pra nenhum vadio
nenhum valente nenhum valete
nem vascaíno quampa era jabu
jamaicano jamais violento
e sempre jabu porque uma vez jabu
sempre jabu jabu jaburu jaboatão
lalando samba canção…
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Nuvem Cigana veio de uma ideia do poeta Ronaldo Bastos, que pensava criar um grupo de ação artística na cidade. Algo que pudesse juntar tudo ao mesmo tempo: Produzir discos, livros, shows, fazer distribuição. Como a Apple com os Beatles. Ronaldo juntou o pessoal que participava da pelada no Caxinguelê, campo de futebol no Horto onde as pessoas faziam encontros, para tratar de muitas outras coisa além de futebol. Junto com Pedro Cascardo e Dionísio de Oliveira, a Nuvem Cigana havia começado. Chacal também se reunia no Sol Ipanema com outros poetas (depois viria a ser o Posto 9) e de noite no Baixo Leblon, isso já é 76, 77. Muita coisa importante acontecia, encontros, sempre encontros. Nesse período, Chacal foi morar em Santa Tereza, perto da “sede” do Nuvem Cigana. Alguns bons livros foram lançados por Bernardo Vilhena, Ronaldo Santos, Charles Peixoto e outros.
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PINGOS & GOTAS
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a chuva lambe a rua dos pingos dela.
a gota só pinga no banheiro do 403.
os pingos são pisados / atropelados e
é como se não estivessem nem aí.
já a gota grila, me esgota a gota.
e nem se liga
(não sei se repararam que:
a – a gota pinga e o pingo pinga.
b – a tinta pinta e uma pinta pinta
e despinta)
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Em 1975, Rui Campos, convida o Nuvem Cigana para uma feira de artes na galeria da livraria Muro. Seria a Artimanha. A feira (que logo viraria uma festa) teria música, batucada, dança, audiovisual. A poesia não estava encaixando. O que fazer? Ninguém falava poesia em público no Rio de Janeiro. OK. A primeira Artimanha aconteceu com exposição do Vergara com fotos do Cacique de Ramos, o bloco. Estava escuro, Chacal estava inquieto, quando lembrou do Allen Ginsberg e, de súbito, no meio da exibição das fotos, entrou e mandou um poema. Abriram as portas da poesia. Depois disso, todo mundo entrou para falar. Foi ali, por exemplo, que Tavinho Paes se experimentou também. Cinepoema de Flávio Nascimento, Grupo Bela Boca e muitos outros. Foi um importantíssimo evento para tudo que aconteceu depois. Mesmo.
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UM POETA NÃO SE FAZ COM VERSOS
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o poeta se faz do sabor
de se saber poeta
de não ter direito a outro ofício
de se achar de real utilidade pública
no cumprimento de sua missão sobre a terra
escrevendo tocando criando
o que pesa é não se achar louco
patético quixote inútil
como quem fala sozinho
como quem luta sozinho
o que pesa é ter que criar
não a palavra
mas a estrutura onde ela ressoe
não o versinho lindo
mas o jeitinho dele ser lido por você
não o panfleto
mas o jeito de distribuir
quanto a você meu camarada
que à noite verseja pra de dia
cumprir seu dever como água parada
fica aqui uma sugestão:
- se engaveta junto com os seus sonetos
porque muito sangue vai rolar e não
fica bem você manchar tão imaculadas páginas.
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A poesia marginal tinha um nome e corpo e contava com duas importantes figuras para seu amadurecimento: Heloisa Buarque de Hollanda e Cacaso. Chacal estava no meio disso tudo. Em 1976, viaja para São Paulo com Tavinho Paes, Pedro Lage, Xico Chaves e outros poetas para fazer apresentações. A artimanhas e a Nuvem ia crescendo. Em 77, Chacal se forma em Editoração e Teoria da Comunicação. Passou a trabalhar com iluminação de shows até que sai a aguardada antologia de Heloisa Buarque de Hollanda, 26 poetas hoje. Logo depois, Chacal publica seu quarto livro Quampérius. Cria também, ao lado de Luiz Eduardo Resende, o Rola Bola, uma banquinha ambulante de livros que marcava ponto no saguão dos teatros do Rio, deu certo. Momento importante foi o convívio com o Asdrúbal Trouxe o Trombone, com quem, logo mais, criaria a peça Aquele Coisa Toda. Em 79, Chacal publica Olhos vermelhos, Nariz Aniz e Boca Roxa, uma trilogia.
Curta metragem de Victor Steinberg que participei  http://vimeo.com/18830348
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CARA DE CAVEIRA
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minha cara é de caveira
meus olhos são de vidro
e vocês não me dizem nada
no meu corpo tem um sangue
amargo e verde
meu coração é à prova de choque
e vocês não sabem de nada
tenho pés de andar em qualquer chão
as mãos livres sem argolas
e vocês tremem por nada
minha memória guarda coisas bem curtidas
eu sou minha memória bem curtido
e vocês não são de nada
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No fim da década de 70, Chacal sofre um duro golpe: Seu amigo, Guilherme Mandaro, poeta da Nuvem Cigana, se atira pela janela e morre. Houve um abalo geral e, aos poucos, também por outros motivos, a Nuvem foi se dissipando. Chacal tentou trabalhar com publicidade, jornalismo, mas não se encaixava. Letra de música também não. Até que junta tudo e vai para Brasília. Uma nova vida se dava. Se envolveu com o movimento artístico da cidade. No Correio Brasiliense, ajudou a criar o Encarte e trabalhou como cronista. Depois, passa um tempo no sul da Bahia até voltar para o Rio. Fica na casa do Pedro Lage no Largo dos Leões. Volta a frequentar o Parque Lage e conhece uma rapaziada legal que fazia teatro lá com o Hamilton Vaz Pereira e, sobretudo, nas oficinas do Asdrubal. Fausto Fawcett, Cazuza, Bebel Gilberto, Alice Andrade e muitos outros. Tinha também o Perfeito Fortuna que já era uma figura aglutinadora. Como essa gente toda, querendo fazer coisas, havia a necessidade de um espaço. Até que no dia 15 de janeiro de 1982, veio para o mundo o Circo Voador.
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VALHALLA
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está tudo fosforecente
parece um campo de força
uma cápsula lunar
está tudo vago, muito vago
estou nas fronteiras dos campos da paz celestial
não ando.
nado submerso no mar egeu.
sossobro estabanado no mar da tranquilidade
ferido em batalha adentro o valhalla
e desfruto o hidromel das walkyrias
queres? querias.
parece que me transmutei em alguém
esses cabelos não são meus
esse tom de pele, eu desconheço em mim
algo acontece e você não sabe o que é, mr. jones
eu sou o subtítulo de uma obra inacabada
sou o sol de uma sinfonia atonal
passei por um buraco no céu:
a loucura é um sopro no ouvido.
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O início dos anos oitenta foi marcado pela efervescência do Circo Voador. Muita gente boa saiu dali e Chacal estava no meio deles. Entre apresentações da Blitz, Asdrúbal, Manhas & Manias e shows com a Stella Miranda e Duardo Dusek, muita coisa ia acontecendo. Foi um verão incrível. Após a desativação do Circo, Chacal escreve um livro de crônicas chamado Tontas Coisas. Nesse livro havia apenas um poema chamado Cândida. Este poema foi escrito no Prado, em 1981, e é um longo poema de amor. Logo depois Chacal escreve a peça Alguns Anos-luz-além a pedido do Barrão, seu grande amigo que pertencia ao grupo Lua me Dá Colo. Tontas coisas obteve algumas boa críticas até que em 1983, Chacal publica o Drops de Abril. Naquele momento, já se experimentava também com letras de música, algo inconcebível anos antes. Blitz, Lulu Santos, Hanoi Hanoi, 14 Bis e Paralamas.
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CALEIDOSCÓPIO CINEMASCOPE
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a vida é um cristal
que se reflete em pedaços
a vida como ela é
é a coleção dos cacos
vi um filme que aladim
da lâmpada tirava um gênio
ele era james dean
e tinha a cabeça a prêmio
eu parti do irajá
passando por paraty
eu ainda chego lá
até onde quero ir
vi um filme que fellini
fez um ensaio de orquestra
tinha tiro de canhão
e acabava numa festa
se no mato me perdi
nesse mato me acharei
entre mais de mil picadas
numa delas sou o rei
eu vi deus e o diabo
dançando na terra do sol
glauber rocha era o máximo
tão bom quanto rock and roll
minha estrada é um filme
cheio de amor e ódio
pra onde quer que me vire
cinemascope caleidoscópio
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Em 1985 houve o I Festival de Poesia do Circo Voador, organizado por Perfeito Fortuna e Alice Andrade. Foi nesse festival, por exemplo, onde Renato Russo mostrou seu “Faroeste Caboclo” pela primeira fez. Chacal ajuda na organização e participa. Kátia Flávia, conhecido trabalho de Fausto Fawcett com sua banda Robês Efêmeros também surge lá. O Circo armaria sua lona na Lapa. Depois disso, o Circo voou para Guadalajara no meio da Copa do Mundo para uma pequena aventura, Chacal foi junto. O fim dos anos 80 apresenta um certo declínio na sustentação. A competição, o sistema que favorecia somente ao extremo sucesso, um período difícil. Em contrapartida, as performances eram mais constantes e muito se desenvolveu ali. Em 88, Chacal trabalha como roteirista de videoclipe na Rede Globo. Chacal também chegou a escrever o último capítulo da “Armação Ilimitada” como frila e depois para o seriado “Juba e Lula”. Anos 80 é isso aí.
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POP ART
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ande logo seja breve leve love
por art: use abuse e descarte
breve leve now ou never leve love
pop art art pop
é melhor e dá ibope
pop pop pop art
art art art pop
pop art é cultura
aproveite enquanto dura
pop art em toda parte
agora também em marte
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Início dos anos noventa. Chacal, que acabara de sair da Rede Globo e de comprar seu primeiro carro em 36 anos, uma Fusca 67 vermelho, se encontrava novamente em situação difícil. Fazia meditação no Jardim Botânico e natação no Flamengo. Estava meio parado. Então foi convidado para lançar o Quampérius nos jardins da ECO, não falava em público há tempos, mas mesmo assim foi. Até que lhe aparece o Guilherme Zarvos, então, jovem produtor de um evento na Faculdade da Cidade chamado “Terças Poéticas”. Toda terça, havia uma mesa com um poeta de renome como Gullar, Cabral, Gerardo de Mello Mourão, Antonio Houaiss, Antonio Carlos Secchin, com convidados da nova geração, rapaziada mesmo. Chacal fora convidado por Zarvos para falar no mesmo dia da Heloisa Buarque de Hollanda sobre a poesia marginal e no fim de tudo, houve uma apresentação do grupo, então iniciante, Boato. Logo mais, algo surgiria.
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FALA PALAVRA
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fala palavra
tu que és velhíssima
no entanto uma gata
meus afagos
agarrar queria eu teu lombo bom
mas és limo na pedra de imolar amantes
feliz seria se te flagrasse no banho
mas me afogaria na areia movediça
do texto da tua tez
só me resta te cantar
como um cego
que sabe a luz tão próxima
mas impossível
ou como um mudo que sabe
um a um todos os tons
mas incapaz
fala palavra
furta-cor de tudo e todos
apenas passas
                      dás o nome
                                       e vais a caça
                                       bela e fera
                                       pantera
estanca o delírio romântico
nesse coração de poeta
cala em mim a paixão de te cantar
como um louco
que me vale saber tuas sonoridades
                          teu tom de cristal
se no meio desse hospital
                          fico tão impaciente
fala palavra
               fluido flerte
és versátil volúvel volátil
                                 diabólica
fala palavra
                mercúria sombra do nada
.
Com o fim do “Terças poéticas” Chacal procura o Zarvos para uma conversa propondo a continuação do evento. Zarvos diz que não gostaria de continuar com a necessidade de chamar sempre um poeta conhecido, julgava difícil agendar, Chacal achava que deveria ser de noite também. Após uma viagem para Berlim, Zarvos, que lá tinha visto um evento parecido, volta com a ideia de fazer algo semelhante, envolvendo poesia e música. Numa conversa entre Chacal, Zarvos e Carlos Emílio, chegam à ideia do CEP 20000. O primeiro foi marcado na última quarta feira de agosto no Espaço Sérgio Porto em 1990. Zarvos, Chacal, Tavinho Paes, Alex Hamburguer, junto com a garotada do Boato, Guilherme Levi e quem aparecesse. O cartaz foi feito pelo André Britto. Chovia muito. Meio vazio, teve fechamento do Boato, que era formado por Celão, Cabelo, Dado Amaral, Beto, Montanha e Justo D’Ávila. Mais ou menos assim teve início o CEP 20000 que duraria 20 anos, ou melhor, está aí há vinte anos. Ainda bem.
.
SOBREPOESIA
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a velha pergunta se instala
na sala do meu dia a dia:
pra que serve poesia?
pra decorar cerimônia
pra debelar a insônia
para dar nume ao nome
ou para cantar meu amor
operísticamente?
novas respostas se agitam
em busca de uma saída:
a poesia é precisa
pelo sim e pelo não
pelo que do não é til
pelo que ainda é talvez
pela energia sutil
a poesia é assim.
de novo o problema aparece
e uma ruga se materializa:
como viver de poesia?
de fazer reclame anúncio
de letrar o que é melodia
de ficcionar o que é pedra
ou posando de poeta
oportunista lente?
enfim a solução transparece
em súbita luz muito viva:
a poesia se vive
sem meias medidas
no transitivo direto
sem tênis adidas
no infinitivo descalço
a poesia é o fim.
.
Logo após a criação do CEP, Chacal, começa a dar oficinas no Galpão das Artes do MAM. O museu passava por um momento difícil com a crise econômica do governo Collor, então, artistas foram convidados para dar oficinas. Antonio Cícero, Regina Miranda, Paulo Fortes e Chacal, que, inclusive, chegou a editar o Jornal do MAM. Com novo gás, Chacal entra com tudo no CEP. Lá se vão vinte anos e muitos passaram por lá: Marcia X, Pedro Luiz e a Parede, Arthur Omar, Chelpa Ferro, Hapax, Michel Melamed e dezenas de outros. Depois de um tempo, havia o CEP do Chacal e o CEP do Zarvos, todos frequentavam todos e com isso, todos ganhavam. O CEP reunia a rapaziada do Posto 9, do Baixo Gávea, do Baixo Leblon e muita gente que ouvia falar nesse lugar onde tudo acontecia. Liberdade sempre. O CEP virou a tese de doutorado do Zarvos e referência para os novos, inclusive este que vos escreve. Nestes mesmos anos 90, Chacal passa a morar no Baixo Gávea, que era frequentado por jovens interessados em artes, o CEP era divulgado lá, obviamente. Outro ponto de encontro era a casa do Zarvos. Por aí vai.
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LÚCIFER
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- Lúcifer! lúcifer! retornai de onde vos exilastes
diante da hipocrisia dos homens, vinde lá das
entranhas das trevas nos dar tua luz, encarnada luz,
único farol possível no meio desassossego. lúcifer!
lúcifer! lúcifer!
Acordo no meio da noite com o nome do príncipe
das trevas ecoando. vejo uma luz que vem como
uma golfada vermelha de dentro do tenebrião para
dar direção a minhas imagens pânicas. perdido no
lusco-fusco, essa íntima aurora boreal clareia meus
passos nesse labirinto. em toda baía, meu barco baila
bêbado e a grande lua com seus reflexos prismáticos
me desorienta dezoito pressentimentos. fujo de um,
atravessando o charco em desespero para naufragar
em outro, sibila tenebrosa, movediço pântano que me
quer devorar com suas garras crustáceas. aí de dentro
de mim, do fundo da noite eterna, um único grito
brota

- Lúcifer!

Então uma onda de fogo e luz me aquece e ilumina e o
louco lago se rasga. do seu leito seco, nasce um olho
aceso que sabe onde pisar. sim, senhor das trevas,
agora acredito na força das imagens primordiais. sim,
pastor da noite, tenho fé nas vozes que emergem das
minhas vísceras. sim, mestre ctônico, agora olho as
serpentes, os cães, os gatos, com olhar numinoso
de quem vê os encaminhadores. e todos rendem
homenagem à luz que vem de onde não se vê, ao calor
que brota das águas geladas, e todos tecem loas ao
lendário andarilho vagabundo que crepita em toda
lenha e repercute carnaval
- Lúcifer, sebgor dos caminhos! iluminai nossas
veredas. desencadeai a ígnea tempestade para que o
mais humano entre os deuses, o mais santo entre os
mortais, possa de novo caminhar à luz do dia, com
seus chifres, cetro e rabo. lúcifer! lúcifer! imperai!
.
Em 2001 surge o FalaPalavra. Grupo performático formado Chacal, Pedro Rocha, Ericson Pires, Viviane Mosé, Guilherme Levi, Paulista, Michel Melamed e Éber Inácio. Foram algumas apresentações no Planetário da Gávea e no próprio Sérgio Porto. O FalaPalavra é o maior exemplo de desmembramentos do CEP, que também se deu em outros grupos. Nos 10 anos do CEP houve uma grande homenagem na Revista Trip, com um cd e grande máteria. Nesse meio, Chacal organiza o Humaitá Pra Peixe, com música e poesia. Quando o Sérgio Porto fecha para obras, Chacal ajuda a criar um bloco de carnaval. A ideia foi crescendo, até que surge o Bangalafumenga, com Pedro Luís e outros. Os shows eram no Planetário e deram certo. O carnaval de rua do Rio voltava a ser o que era.
.
TEMPO
.
no início era o começo
o depois veio vindo devagar.
o antes veio depois do depois.
só antes quando esse se estabeleceu.
no princípio era o agora.
isso demorou até que
tudo virou antes e depois.
então numa revolução peluda
o agora voltou ao trono.
antes e depois viraram
falta do que fazer.
e tanto fizeram
que o agora virou tudo
e o tudo, nada.
de volta ao princípio
o agora agora congelou.
o antes fica ora depois.
.
Profunda errata: Ontem esqueci do Guilherme Zarvos no coro do FalaPalavra, que acontecia em 2000. Depois, houve um lapso de tempo com relação ao Humaitá Pra Peixe que ocorreu em 1992. Fora isso, em 2000, houve o Miscelânea Odeon, evento que começava nas portas do cinema e terminava lá dentro com muita festa. Chacal organizou quatro. Já há muito tempo, Chacal, se tornara referência para eventos de poesia envolvendo outras linguagens. Chacal já era cinquentenário. Chacal também participou da organização do Freezone, evento multiartes patrocinado pela Souza Cruz que acontecia em várias cidades. Grande proporções. Chacal já estava há oito anos sem publicar, até que surgiu a vontade fazer “A vida é curta para ser pequena”, que além de um belo livro, virou uma peça dirigida pela Cristina Flores. Chacal em cena.
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PALAVRA CORPO
.
a palavra vive no papel
com vírgulas hífens crases reticências
leva uma vida reclusa de carmelita descalça
corpo palavra
o corpo aprendeu a ler na rua
com manchetes de jornais
jogadas na cara pelo vento
com gírias palavrões
zoando no ouvido
com gritos sussurros
impressos na pele
palavra corpo
a palavra que sair de si
a palavra quer cair no mundo
a palavra quer soar por aí
a palavra que ir mais fundo
a palavra funda
a palavra quer
a palavra fala:
- eu quero um corpo!
corpo palavra
o corpo sabe letras com gosto
de carne osso unha e gente
o corpo lê nas entrelinhas
o corpo conhece os sinais
o corpo não mente
o corpo quer dizer o que sabe
o corpo sabe
o corpo quer
o corpo diz:
- fala palavra!!!
palavracorpo corpopalavra
.
Em 2003 a RioArte foi fechada pela Prefeitura. Algumas companhias de dança e de teatro ficaram sem apoio e houve uma grande revolta. Gilberto Gil assume o Ministério da Cultura e a Lei Rouanet é posta em questão. Chacal luta pelo 1% no orçamento para a Cultura. De um lado havia o grande teatro e do outro os grupos experimentais. No Largo do Machado, houve um grande manifesto com a participação de alguns grupos teatrais e de dança, Chacal, junto com Fábio Ferreira, redigiu o Manifesto 1. Em 2006, Chacal, após aprender os caminhos da produção cultural, cria o Bendita Palavra Maldita, no SESC. Performances com poesia e artes plásticas envolvendo gerações diferentes. Nessa época, Chacal começa a receber convites para se apresentar em outros países, Argentina e depois Estados Unidos. Em Nova York, Chacal faz uma performance no Bowery Club, porém, uma triste notícia do Brasil: O Sérgio Porto pega fogo.
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ESSE ANIMAL
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o poeta é de carne e osso
tem olhos, boca, nariz, pescoço
tem pressa, humor, desejo e calma
o poeta é de corpo e alma
o poeta é de osso e carne
sendo a vida vivda o osso
a carne o que lhe dá a palavra
o poeta é alguém que se lavra
tem poeta mais carne que osso
tem o tecido adiposo de quem
entre livros letras ditados
vê a vida passar ao largo
tem poeta carne de pescoço
traz o esqueleto no rosto
não sabe dar carne ao poema
preso no fundo do poço
o poeta é um animal que fuma
.
Belvedere é o livro que contém toda a sua poesia reunida. Também é o nome de um mirante na subida da Serra. O livro tem treze livros em 35 anos de estrada. Saiu em 2007, numa bela edição. O lançamento foi na FLIP do mesmo ano. Por essa época, Chacal faz algumas viagens para São Paulo, com recitais e encenações de seus poemas na Praça Roosevelt pelo grupo Os Satyros. Houve também o CEP 20000 na mesma praça e Chacal percorre o Circuito SESC das Artes. Em 2010, Chacal publica Uma História à Margem, autobiografia que é, para mim, um documento de extrema importância para todos os jovens poetas do Rio de Janeiro, ou para os que queiram entender como a coisa toda funcionou e funciona por aqui. O CEP se renovou e hoje volta a ser procurado, volta a ser um ponto de encontro, como sempre foi e Chacal, um dos seus grande responsáveis.
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DOIS PONTO TRES LISBOA
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tô sem ideia. sem vontade descrever. de nada. não
tenho a mínima ideia do que virá a seguir. inércia é
meu sobrenome. ando tão feio. tão sem assunto. me
assusto. ninguém mais há em minha volta. tô cansado
da minha companhia. só falo besteira. não digo nada
com nada. preciso exercitar a pena. se ela se move que
seja na minha mão. trêmula e bolorenta. mesmo que
seja para ser mais um papel sujo. se isso fosse uma folha
em branco, você podia desenhar, descansar a vista. ou
escrever um bilhete suicida. mas eu passei primeiro
e… se você não se importa, rabisque por cima. por mim
tanto faz. acho até que vou tomar um bagaço e ver
no que dá. vou à torre de Belém olhar o Tejo. matar o
tempo pra não me matar, esse é o meu nome. fiquei nos
quartos dessa casa em Benfica o dia todo, ouvindo rock
lendo história em quadrinho. boa noite. talvez alguém
leia e curta isso aqui. tanto faz. embora tudo que mais
quero nessa porca vida é te botar feliz. bagaço nasta o
meu e o da uva.
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Eis que chegamos ao final de mais uma antologia. Desta vez, percorremos a poesia do poeta Ricardo de Carvalho Duarte, o Chacal. Poeta nervo do tempo da geração da marginal, do dizer poesia, do diálogo com a nova geração, dos eventos de poesia, quem começou tudo isso que nós vemos e vivemos hoje no cenário poético do Rio de Janeiro. Da Nuvem Cigana, Artmanhas, Circo Voador, ao CEP 20000 e o FalaPalavra. Lembrando Manuel Bandeira, o sexagenário Chacal, (dia 24 de maio fará 60 anos) é, de fato, umas das figuras mais notáveis da poesia brasileira, com especial devoção ao Rio de Janeiro, cidade onde cresceu e desenvolveu sua voz, seu grito. Semana que vem entraremos numa outra questão, numa outra proposição poética, em outros poemas, outra trajetória, só para lembrar que a poesia pode mudar tudo de uma hora para outra, e o poema é uma das chaves para isso. Evoé!
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SOBRE O SILENCIO
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hoje não viemos discutir projetos
hoje não viemos pedir
hoje viemos como alguém que visita sua casa
que vem dizer pra família
sobre as dificuldades de se tecer a invenção
sobre o abismo que se abre para além do entretenimento
sobre o prazer que é lutar pelo que se acredita
hoje viemos dizer pra família
que não vamos mais terminar os estudos
e que nossa carne curtida, nosso olho vermelho,
nosso sorriso encarnado e, principalmente, nosso silêncio
dizem tudo.

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José Saramago

José de Sousa Saramago nasceu em Azinhaga, vilarejo do conselho de Golegã, que fica localizada na antiga província de Ribatejo em Portugal no dia 16 de novembro de 1922. Cresceu “numa família de camponeses em terra” como uma vez escreveu. Neste mês, percorreremos a poesia, pouca conhecida, deste grande e laureado escritor da língua portuguesa cuja prosa todos conhecemos. Com muita honra que determino: Agora é Saramago!

ÁGUA AZUL

Altos segredos escondem dentro de água
O reverso da carne, corpo ainda.
Como um punho fechado ou um bastão,
Abro o líquido azul, a espuma branca,
E por fundos de areia e madrepérola,
Desço o véu sobre os olhos assombrados.

(Na medida do gesto, a largueza do mar
E a concha do suspiro que se enrola.)

Vem a onda de longe, e foi um espasmo,
Vem o salto na pedra, outro grito:
Depois a água azul desvenda as milhas,
Enquanto um longo, e longo, e branco peixe
Desce ao fundo do mar onde nascem as ilhas.

 

 

Foi “numa família de camponeses sem terra” que Saramago nasceu. Consta que o nome ‘Saramago’ vem de uma planta espontânea que servia de alimento aos pobres. Em 1924, aos dois anos de idade, a família se muda para Lisboa. O pai resolvera abandonar o trabalho no campo para exercer a profissão de policial na capital. Meses depois da mudança, seu irmão, Francisco, de quatro anos de idade, faleceria. As condições eram precárias, a família viveu em vários lugares, sempre em quartos alugados na ruas de Lisboa.

TEU CORPO DE TERRA E ÁGUA

Teu corpo de terra e água
Onde a quilha do meu barco
Onde a relha do arado
Abrem rotas e caminho.

Teu ventre de seivas brancas
Tuas rosas paralelas
Tuas colunas teu centro
Teu fogo de verde pinho

Tua boca verdadeira
Teu destino minha alma
Tua balança de prata
Teus olhos de mel e vinho

Bem que o mundo não seria
Se o nosso amor lhe faltasse
Mas as manhãs que não temos
São nossos lençóis de linho

José Saramago fez a instrução básica nas escolas primarias da Rua Martens Ferrão e do Largo do Leão, em Lisboa. A família o havia matriculado numa escola chamada Liceu Gil Vicente, onde fez boa parte do colegial, divido na época em Portugal, em liceu e técnico. Porém, por dificuldades econômicas, foi obrigado a transferir-se para a Escola Industrial de Afonso Domingues, onde estudou, durante cinco anos, o ofício de serralheiro mecânico.

PASSO NUM GESTO QUE EU SEI

Passo num gesto que eu sei
Deste mundo agoniado para o espaço
Onde sou quanto serei
No tempo que sobra escasso

No outro mundo sou rei
E o meu rosto de cristal e puro aço
É o espelho que forjei
Com suor pena e cansaço

E se o mundo que deixei
Tem as marcas desenhadas do meu passo
São baralhas que enredei
São teias e vidro baço

Tantas provas cá terei
Tantas vezes do pescoço solto o laço
Se me sagraram em rei
Aceitem a lei que eu faço

Vem a ser que o homem novo
Está na verdade que movo

 

À noite, o jovem Saramago frequentava a biblioteca municipal do Palácio das Galveias, como ele próprio diria “lendo ao acaso de encontros e de catálogos, sem orientação, sem ninguém que me aconselhasse, como o mesmo assombro criador do navegante que vai inventando cada lugar que descobre”. Foi assim, “guiado pela curiosidade e pela vontade de aprender” que desenvolveu o gosto pela leitura e o gosto especial por Kafka, Gogol, Cervantes, Montaigne, Raul Brandão e Padre Antônio Vieira.

DISSERAM QUE HAVIA SOL

Disseram que havia sol
Que todo o céu descobria
Que nas ramagens pousavam
Os cantos das aves loucas

Disseram que havia risos
Que as rosas se desdobravam
Que no silêncio dos campos
Se davam corpos e bocas

Mais disseram que era tarde
Que a tarde já descaía
Que ao amor não lhe bastavam
Estas nossas vidas poucas

E disseram que ao acento
De tão geral harmonia
Faltava a simples canção
Das nossas gargantas roucas

Ó meu amor estas vozes
São os avisos do tempo

 

 

Avançando na vida do jovem José Saramago, em 1944, aos 22 anos, casa-se com a pintora Ilda Reis. Neste momento, já havia mudado sua atividade, do emprego de serralheiro mecânico, agora, trabalharia como empregado administrativo, primeiro nos Hospitais Civis de Lisboa, depois, na Caixa de Abono da Família do Pessoal de Industria e Cerâmica, de onde foi afastado, mais tarde, em 1947, por razões políticas, quando apoiou o candidato da oposição General Norton de Matos, nas eleições da presidência da República.

DE PAZ E DE GUERRA

Na mão serena que num gesto de onda
Em estátua musical o ar modela.

Na mão torcida que num frio de gelo
A parede do tempo em fundos gritos risca.

Na mão de febre que num suor de chama
Em cinzas vai tornando quanto toca.

Na mão de seda que num afago de asa
Faz abrir os sonhos como fontes de água.

Na tua mão de paz, na tua mão de guerra,
Se já nasceu amor, faz ninho a mágoa.

 

 

Em 1947, nasce sua primeira e única filha, Violante, é também o ano da publicação de seu primeiro livro, Terra do Pecado, intitulado inicialmente, A Viúva. Graças à intervenção de seu antigo professor Jorge O’Neil, começou a trabalhar na Caixa de Previdência do Pessoal da Companhia de Previdente, fazendo cálculo de subsídios e de pensões. Nessa época, já escrevia poemas e contos, alguns deles publicados em algumas revistas e jornais. Outro romance, literário, viria.

RETRATO DO POETA QUANDO JOVEM

Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.

Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brandas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.

Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.

Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.

 

 

Em 1953, Saramago concluía o romance, até hoje inédito, Clarabóia, que seu amigo, o pintor Figueiredo Sobral, enviou para Empresa Nacional de Publicidade e de que esta só deu notícia em 1990 (!). Sobre este caso, Saramago disse que “sempre tive a consciência que não se perdeu grande coisa em não ter sido publicado”. Depois disso, consta que Saramago passaria dezenove anos sem escrever nada, quase duas décadas de silêncio, “achava que não tinha nada pra dizer”, dizia.


EM VIOLINO FADO


Ponho as mãos no teu corpo musical
Onde esperam os sons adormecidos.
Em silêncio começo, que pressente
A brusca irrupção do tom real.
E quando a alma ascendendo canta
Ao percorrer a escala dos sentidos,
Não mente a alma nem o corpo mente.
Não é por culpa nossa se a garganta
Enrouquece e se cala de repente
Em cruas dissonâncias, em rangidos
Exasperantes de acorde errado.


Se no silêncio em que a canção esmorece
Outro tom se insinua, recordado,
Não tarda que se extinga, emudece:
Não se consente em violino fado.

 

 

Saramago começou a trabalhar na editora Estúdios Cor, como responsável pela produção, o que lhe permitiu conhecer e fazer amizades com os principais escritores portugueses daquele momento. Nesta época, 1955, para melhorar os rendimentos da família, e também por gosto pessoal, Saramago inicia um trabalho de tradução literária. A partir daí, se envolve com Collete, Par Lagerkvist, Jean Cassou, Maupassant, André Bonnard, Tolstoi, Baudelaire, Étienne Balibar, Nicos Poulantzas, Henri Focillon, Jacques Roumain, Hegel e Raymond Bayer. Por aí vai.

TAXIDERMA OU POÉTICAMENTE HIPÓCRITA
Posso falar de morte enquanto vivo?
Posso ganir de fome imaginada?
Posso lutar nos versos escondido?
Posso fingir de tudo, sendo nada?
Posso tirar verdades de mentiras,
Ou inundar de fontes um deserto?
Posso mudar de cordas e de liras,
E fazer de má noite sol aberto?
Se tudo a vãs palavras se reduz
E com elas me tapo a retirada,
Do poleiro da sombra nego a luz
Como a canção se nega embalsamada.
Olhos de vidro e asas prisioneiras,
Fiquei-me pelo gasto de palavras
Como rasto das coisas verdadeiras.

Em 1966, Saramago publicou seu primeiro livro de poesia, Os Poemas Possíveis, cujos poemas percorremos nessa semana. Paralelamente, entre maio de 67 e novembro de 68, colaborou como crítico literário na revista Seara Nova, analisando vinte e três livros de ficção, dentre os quais, Jorge de Sena, Agustina Bessa Luís, Alice Sampaio, Augusto Abelaira, Urbano Tavares Rodrigues, José Cardoso Pires, Rentes Carvalho, Nelson de Matos e Manuel Campos Pereira. Saramago definiu Agustina como “genial”. Publicou crônicas no jornal A Capital, que depois seriam reunidas no livro Deste Mundo e de Outro.

MITOLOGIA

Os deuses, noutros tempos, eram nossos
Porque entre nós amavam. Afrodite
Ao pastor se entregava sob os ramos
Que os ciúmes de Hefesto iludiam.

Da plumagem do cisne as mãos de Leda,
O seu peito mortal, o seu regaço,
A semente de Zeus, dóceis, colhiam.

Entre o céu e a terra, presidindo

Aos amores de humanos e divinos,

O sorriso de Apolo refulgia.

Quando castos os deuses se tornaram,

O grande Pã morreu, e órfãos dele,

Os homens não souberam e pecaram.

 

 

Em 1970, José Saramago se divorcia de Ilda Reis e inicia, logo após, uma relação que duraria dezesseis anos com a escritora Isabel da Nóbrega. No mesmo ano publica seu segundo livro de poemas Provavelmente Alegria. Saramago sai da editora Estúdios Cor, onde trabalhava, e foi ser editorialista e coordenador de um suplemento cultural do Diário de Lisboa. Colaborava também com o Jornal do Fundão.

OUVINDO BEETHOVEN

Venham leis e homens de balanças,
Mandamentos daquém e dalém mundo,
Venham ordens, decretos e vinganças,
Desça o juiz em nós até ao fundo.

Nos cruzamentos todos da cidade,
Brilhe, vermelha, a luz inquisidora,
Risquem no chão os dentes da vaidade
E mandem que os lavemos a vassoura.

A quantas mãos existam, peçam dedos,
Para sujar nas fichas dos arquivos,
Não respeitem mistérios nem segredos,
Que é natural nos homens serem esquivos.

Ponham livros de ponto em toda a parte,
Relógios a marcar a hora exacta,
Não aceitem nem votem outra arte
Que a prosa de registo, o verso data.

Mas quando nos julgarem bem seguros,
Cercados de bastões e fortalezas,
Hão-de cair em estrondo os altos muros
E chegará o dia das surpresas.

 

Em 1973, José Saramago publica O Embargo e o segundo livro de crônicas jornalísticas e publicadas no Jornal do Fundão e em A Capital com o título de A Bagagem do Viajante. Em abril de 1974 vem a Revolução dos Cravos e, Saramago, que já dirigia o suplemento literário do Diário de Lisboa e colaborava com a revista Arquitectura, torna-se uma espécie de “operário das palavras”, é nomeado diretor-adjunto do Diário de Notícias durante o período de governo chefiados pelo General Vasco Gonçalves. Saramago já havia coordenado uma equipe do Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis, dependente do Ministério da Educação. Editou também seu primeiro livro de crônicas políticas: As Opiniões que DL teve.

texto Lá vem Juvenal! no http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
AOS DEUSES SEM FIÉIS

Talvez a hora escura, a chuva lenta,
Ou esta solidão inconformada.

Talvez porque a vontade se recolha
Neste findar de tarde sem remédio.

Finjo no chão as marcas dos joelhos
E desenho o meu vulto em penitente.

Aos deuses sem fiéis invoco e rezo,
E pergunto a que venho e o que sou.

Ouvem-me calados os deuses e prudentes,
Sem um gesto de paz ou de recusa.

Entre as mãos vagarosas vão passando
A joeira do tempo irrecusável.

Um sorriso, por fim, passa furtivo
Nos seus rostos de fumo e de poeira.

Entre os lábios ressecos brilham dentes
De rilhar carne humana desgastados.

Nada mais que o sorriso retribui
O corpo ajoelhado em que não estou.

Anoitece de todo, os deuses mordem,
Com seus dentes de névoa e de bolor,
A resposta que aos lábios não chegou.

 

 

O verão quente de 75 foi turbulento, os tempos estavam confusos e Portugal, como muitos diziam, beirava uma guerra civil. No Diário de Notícias, onde Saramago trabalhava, consta que sentia-se o clima braço de ferro entre os tidos como “radicais” envolvidos no processo revolucionário de acordo com a linha política do Partido Comunista Português (PCP) do qual Saramago fazia parte desde 66, e com os mais “moderados”. A linha editorial do jornal foi posta em causa por trinta jornalistas que defendiam a revisão, ou seja, uma espécie de censura, através de uma abaixo-assinado, e exigiam a publicação do mesmo no próprio jornal.

POEMA A BOCA FECHADA

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é doutra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vasa de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais boiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quanto me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

 

 

 

O processo de censura dentro do Diário de Notícias apareceu logo no dia seguinte no jornal Expresso, assim como na BBC. No jornal, para qualquer tipo de decisão era preciso convocar o Conselho Nacional de Trabalhadores, onde, em certa noite, fora decidido que 24 jornalistas seriam afastados após uma intervenção eloquente de Saramago. Porém, no governo seguinte, Saramago, que fora alvo de uma espécie de “saneamento”, foi definitivamente afastado do cargo e o jornal suspenso sem qualquer apoio do Partido Comunista.

ESTUDO DE NU

Essa linha que nasce nos teus ombros,
Que se prolonga em braço, depois mão,
Esses círculos tangentes, geminados,
Cujo centro em cones se resolve,
Agudamente erguidos para os lábios
Que dos teus se desprenderam, ansiosos.

Essas duas parábolas que te apertam.
No quebrar onduloso da cintura,
As calipígias ciclóides sobrepostas
Ao risco das colunas invertidas:
Tépidas coxas de linhas envolventes,
Contornada espiral que não se extingue.

Essa curva quase nada que desenha
No teu ventre um arco repousado,
Esse triângulo de treva cintilante,
Caminho e selo da porta do teu corpo,
Onde o estudo de nu que vou fazendo
Se transforma no quadro terminado.

 

 

Mais uma vez desempregado e com as portas completamente fechadas para qualquer possibilidade de emprego no contexto político, José Saramago dedica-se por completo à escrita e à tradução, vertendo para o português cerca de vinte e sete obras, quase todas de caráter político. Ganhava pouco dinheiro, porém, não desistia do ofício. Fez parte do Movimento Unitário dos Trabalhadores Intelectuais para a Defesa da Revolução (MUTI) e publicou até o final de 1976 o livro O Ano de 1993, Apontamentos, que se tratava de uma reunião de crônicas do Diário de Notícias e também publicou o romance Manual de Pintura de Caligrafia.

Graças ao incentivo de Tavinho Paes, arquivo deste mailing para pesquisa em http://cartilhadepoesia.wordpress.com
EXERCÍCIO MILITAR

És campo de batalha, ou simples mapa?
És combate geral, ou de guerrilhas?
Na cortina de fumo que te tapa,
É paz que vem, ou novas armadilhas?

Fechado neste posto de comando,
Avanço as minhas tropas ao acaso
E tão depressa forço como abrando:
Capitão sem poder, soldado raso.

A lutar com fantasmas e desejos,
Nem sequer sinto as balas disparadas,
E disponho as bandeiras dos meus beijos
Em vez de abrir crateras a dentadas.

 

A infância marcada pelas dificuldades financeiras seria, mais tarde, lembrada num momento de glória do escritor e, aqui, poeta. Terminado o curso, conseguiu seu primeiro emprego como serralheiro mecânico nas oficinas dos Hospitais Civis de Lisboa. Desde cedo, adquiriu o hábito de ser pon