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Alex Hamburger (incompleto)

Alexander Hamburger nasceu no dia 23 de setembro de 1950, em Belgrado, ex-Iugoslávia, hoje, Sérvia. Filho de Franjo Hamburger, judeu austro-húngaro, e Liliana Hamburger, sérvia filha de um russo. Alex, viveu apenas dois meses em Belgrado, que se encontrava em situação muito complicada tornando assim a vida difícil, sobretudo em virtude da Segunda Guerra Mundial. De lá, foram para Jerusalém, Israel, onde, a situação de encontrava um pouco melhor, ocupada pelos ingleses, para depois, se tornar o Estado de Israel.

 
 
 
 
SONHO DALINIANO
 
 
Do interior de claros olhos
fulgem reflexos oníricos
folhagem esparramada ao longo
penumbra cinza d’alameda
 
Sonho no presente, perscruto ecos
desencanto do tempo;
abraço o vazio!
 
Na manhã permaneço,
sugerindo veredas
mesclando odores nem sempre
primevos, inconcluídos,
não experimentados!
 
Nenhuma voz se faz ouvir
ao longo das aléias
vulto mimético
companheiro das tardes-noites
passo dançante desapercebido
gravado nesse devaneio.

 

 

O pai de Alex, Franjo Hamburger, era eletrotécnico. Após o período de cinco anos em Jerusalém, desde sua saída de Belgrado, a família vai para o Brasil. Assim, logo tem a experiência de percorrer o interior do país no rastro das instalações de usinas hidroelétricas, sendo a maioria do sistema de Furnas, sediadas nos municípios de Ibiracy, Passos, Fronteira, Franca e São José do Rio Preto, com estadas alternadas em São Paulo.

 
 
Outros lados do Pessoa em http://cartilhadepoesia.wordpress.com
 
 
FOTOGRAFIA
 
 
 
Na câmara escura
do meu grito mudo
o silêncio de anseios
incontidos
 
Lágrimas veladas
vôo imaginativo?
 
Na câmara escura
do meu apelo ao mundo.
 
Traços delineiam o
quadro, tanto desejado,
noites de insônia
destinos surdos…
 
Quando o sol com seus raios
iluminou o estúdio
o retrato sobre-exposto
na câmara escura
imagem de fundo.
 
O nome, Alexsandar Hamburger, lhe foi dado, inicialmente, em homenagem ao Príncipe Alexsandar I da Sérvia, muito pelo fato de sua mãe e de sua avó materna admirarem muito o príncipe assim como a monarquia existente naquele país desde o século XIX até 1930. O pai de Alex, Franja (pronuncia-se Franha), tinha uma pequena loja de consertos elétricos em Belgrado, a Hamburger & Danon. Sua família foi a Jerusalém, como já foi dito, por causa do precário estado em que se encontrava Belgrado após a Segunda Guerra. Em Israel já havia um movimento de chamar os judeus para irem lá habitar e trabalhar, o que foi feito. Então, a loja Hamburger & Danon, foi transferida Israel. 
 
 
 
 
ATOMICA MUSA
à Noel Nuttels
 
 
Na aurora do homem-máquina
As primaveras dos bardos
São matérias-primas gastas
no tecnificante progresso voraz:
 
     – fontes de concreto
       ninfas de boutique
       lírios de estufa
       e liras megatômicas -
 
Panorama desolador
Na era da “bomba-relógio”
E seu cortejo estampado
nos crispados vespertinos
 
    Tempos irracionais
    dita-me resto de lucidez,
    Ah! se assim o fôsse!
    Mas não! a Razão é o Parnaso!
 
E minha musa, chama-se Atômica,
nascida por ordem da Deusa Bomba.
 
Alex viveu em Jerusalém até os cinco anos de idade. As memórias são poucas, porém, ficaram. “A beleza pétrea daquela cidade ancestral, a primeira vez que vi o mar Mediterrâneo, na cidade portuária de Haifa, e o ensino”. Alex aprendeu a ler e escrever em hebraico, que esqueceria tudo posteriormente por falta de prática. Havia também uma figueira em frente à sua casa, que dava figos no inverno, cujo gosto junto com a neve que caía proporcionavam um prazer inesquecível. 
 
 
 
 
O FIO DA ARANHA
 
 
Obra longa
Teia macia
Mundo polígono
Disparo certeiro
Surpresa artesanal
 
Técnica viva
Emaranhado lapidar
Linha ríspida
Tato infalível
 
Jogo mortal
Abrigo invisível
Estilo (a)temporal
 
Engenho sábio
Sequência instantânea
Tece e avança
 
O fio d’aranha.
 
 
 
O sócio do pai de Alex na loja de reparos elétricos resolveu voltar para a Sérvia, emperrando a continuidade dos serviços, ao mesmo tempo que sua mãe e sua avó materna, cristãs ortodoxas, não conseguiram se adaptar à Israel, e iniciaram um movimento de incentivo a uma mudança para um lugar mais laico, onde pudessem exercer sua religião mais à vontade. Neste momento, notícias sobre o Brasil vinham de amigos, boas notícias, que com o governo Juscelino, desfrutava um bom momento desenvolvimentista. Até em meados de 1955, os “Hamburgers” à bordo do ‘Conte Grande’ para o Brasil, do porto de Haifa para o porto de Santos, e após 21 dias no mar, chegam à São Paulo.
 
 
 
 
FICÇÃO LETAL
 
 
Entre 4 e 100 horas da tarde
A ponta do lápis no meio-fio
Grafite riscando nas ruas
Sem quase figuras nos trilhos
O jornal trás todos os tipos
Na praça ao lado atiçando o coro
Enfim um “hit” total
A um metro do ponto do brilho.
 
 
A família de Alex ficou apenas um ano e meio na capital paulista, porém, esse período foi de grande influência. Foram residir no bairro Bom Retiro, que se tornara um lugar conhecido por receber imigrantes judeus do leste europeu. Lá a família encontrou alguns conterrâneos. Alex nessa época aprendera a falar português sem sotaque, na companhia de outros garotos que o acompanhavam em partidas de futebol de rua. Seu pai arrumara um emprego na Cia Paulista de Força e Luz, hoje, Light. Porém, a cidade experimentava um crescimento voraz, Franja tinha que tomar muitas conduções para ir trabalhar e voltar para casa, até que decide aceitar uma proposta de emprego na Furnas Centrais Elétricas, e passa a viajar com a família pelo interior de São Paulo.
 
 
 
RIMBAUD DE SAIA
 
 
Por acaso era Copacana
olhares cúbicos te espreitando
na filial da Max Factor
poesia de rádio
escapando pela manga
do teu paletó preto
Abissínia de cabelos
travestida em rio elétrico
um reflexo, vitrines
pés, mãos, olhos de areia
manequim de zoom à tira colo
a mala desfeita pro show.
 
 
A mudança da capital para o interior fez com que Alex tivesse experiências juvenis mais bucólicas. Com isso, passou o início da adolescência em lugares onde a natureza predominava, com brincadeiras ao ar livre, futebol com outros garotos da mesma idade, frutas silvestres, riachos, cachoeiras e tudo que se pode pensar. Nessa época, começou a estudar inglês e despertar interesse pelos assuntos internacionais, o que depois viria a ser de extrema importância em sua vida. 
 
 
 
 
A DANÇARINA SEM FÓSFOROS
 
 
Não há quase distância entre
sua meia o bidê e o espaço pretenso
um homem sem chapéu e a falta de temas
desmembração: dança com o atributo
de crimes fáceis línguas que dão crepe
 
A dançarina dos anúncios e ritmos pobres
coleta ações telefônicas
para seu instrutor de gala
contorção para dedos do pé (com em Tarsila)
ri ao quadrado
 
só, no sótão, com uma certa dor de agulha-roxa
 
Alta-tensão que percorre sob o piso de baskete
creiam, a estação de vagos
passos dobles
acontece ao longo das cercas da fama
 
E mesmo quando na plataforma 21 da rodoviárias
haverá reações, tantos às notas, quanto às farpas
que existem da mão corrente
 
Fuga insana de colegiais gymnastas
que o toque de caixa ilegal faz reunir
acima dos voluteios e modelos de pano
 
O desafio/convite em branco permanece
para a peça dos pratos da cozinha marca ideal
 
 
Alex fez os estudos básicos na cidade de Passos, no interior de Minas, há trinta minutos de Furnas, onde morava com a família. Nesta época pode conhecer os textos de Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Sabino, Ávilla e outros. Alex teve muito apreço pelo estudo das Letras e dificuldade na ciências exatas. Redação (que se chamava Dissertação) foi ganhando força nos estudos. Havia também uma matéria que Alex tinha facilidade e prazer, Trabalhos Manuais, o que depois viria a influenciar em seus trabalhos futuros.
 
 
 
DANDY
 
 
Bastariam 5 volts cromáticos
dessa volta à anatomia do passado
hoje os dados são anêmicos
e nada permanece
é no Rápido Zefir que se dá o transporte
vocês provocam com essa face na lapela
vocês provocam a todos com essas faces
que só se percebem em meio às fileiras
queria ter essa sua isenção
esse tipo frigorífico importado do Japão
mas qual…
os assuntos as letras os títulos
surdo, busco na física
nas ciências endêmicas e meio exatas
repetitivo repetitivo
monótono duas rotações
atavio que poucos – lembra? – muito poucos
como esses dandies vagos que ainda
arriscam umas tantas voltas
à frente da artilharia onde
o júri sem vértebras poderá por ti
ser arrebatado
como num qualquer apagar
dos baixos teores que se elevam
mortalmente em novembro

 

 

 

Após a colação do segundo grau, a família de Alex muda-se de cidade novamente, desta vez para São Paulo, em virtude do término da construção da primeira usina hidrelétrica brasileira. Estamos em 1965. O Brasil passava por um processo de avanço tecnológico, sobretudo na área de energia. Assim, vive de perto essa realidade com seu pai, variando entre a capital de São Paulo e o interior. Muitos rios, muitos rios.

 
 
 
SÃO PAULO RH-5087
 
 
- Traças, novamente por todos os lados
pontuais e bem-vindas traças
nem o notário teria percebido
que um número tão significante
carrega para o sub-solo, a cada hora
o meu armário de livros e carimbos
(o nome no notário é Rolet)
coleção amada de carimbos comemorativos
e bilhetes ray-o-til
que carrego nos bolsos de trás das calças
e que para as caras e répteis
já se tornou marca registrada
da minha agência de inaugurações
de tudo tudo um pouco
mas quão ilógico!
contêm mastros, mapas gerais da groenlândia,
limos de aqualuzia,
colapsos percorrendo tubos eternites
de espessuras impróprias
etiquetas devolvidas com o preço fácil
na alinhada gola
e tua tão delicada carta
afirmando (quantas vezes isto se repete!)
a farsa postal
no plano dos dois insistindo
na troca de selos avisos
e finalmente o largo e doce tédio dos dias
 
 
Só para informar a todos que os e-mails com a biografia do nosso querido Alex Hamburger voltarão em breve. Nosso herói está se recuperando de um pequeno percalço e já já continuaremos a percorrer sua bela trajetória. Saravah!
 
 
 
 
GALA REGINA
 
 
 
Gala Ostronowna Regina
de mil maneiras amaverik
qual cedilha que sorri
abalada pela luna
 
Agora um coquetel molotov
regência impedância refúgio
harmonia em si bemol um sequestro
de waltz eletro-acústico saloon-ex
 
minha morte impune
 
Joana D’arcos da Lapa ousa
me oferto a ti em aquedutos
em acordes grandiloquentes para Roland
 
A cada fino risco no disco
 
Navilouca que me arrebata
em 2/4 de doze horas
incendiária malstroom
polinaise vesga que me habita
de cima del quatrocientos y siete dept.
 
Hierática andante
rosa em franca do meu repto
lança luxemburgo
em variações de um corpo que cai
 
Química quasi um encontro em Valencia
e como me atrevo qual outro Cervantes
quero essa marcha andaluz
minha extremada vanguarda
extermínio dos sonhos de las classes

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Bertolt Brecht

Eugen Berthold Friedrich Brecht nasceu no bairro operário de Augsburg, 50 kilômetros ao norte de Munique no dia 10 de fevereiro de 1898. Apesar do bairro ser operário, seu pai era um próspero diretor de um florescente fábrica de papel. Segundo o dramaturgo Arnolt Bronnen, o pai de Bertold era católico, amante da ordem e da hierarquia, avarento, exigente e autoritário. Sua mãe, Sophie Brezing era filha de um alto funcionário da Floresta Negra e fez o pequeno Bertold ser batizado em sua religião protestante. Vamos de Brecht!
 
 
Uma canção sobre um berço http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
 
 
A LENDA DO SOLDADO MORTO
 
 
Durava já seis anos a guerra
E a paz não aparecia
Então decidiu-se o soldado
E morreu como um herói
Mas a guerra não terminava
E o rei vendo morto o soldado
Ficou muito triste e pensou:
Morreu ele antes do fim.
 
O sol esquentava o cemitério
Onde o soldado jazia em paz
Até que um noite chegou ao front
Um médico militar
Tiraram o soldado da cova
Ou o que dele sobrou
E o médico disse
“Tá bom pro serviço
ainda tem muito pra dar!”
 
Saíram levando o soldado
Que já todo apodrecia
Rezavam em seus braços duas freiras
E uma puta qualquer
E como cheirava a morte
Um padre ia à sua frente
Soltando nuvens de incenso
Pra disfarçar o fedor
 
Uma banda puxava o andor
Fazendo bum bum tara trá
Pra que o soldado marchasse
Como no batalhão
Dois enfermeiros o erguiam
Para mantê-lo de pé
Pois se caísse por terra
Virava um monte de lixo!
 
Na frente um homem de fraque
marchava, usando uma gravata
Um bom cidadão consciente
um “Patriota da Pátria Amada”
Tambores e gritos saudavam
A mulher, o padre e um cachorro
O soldado ia morto oscilando
qual um macaco de porre
E quando cruzavam as cidades
Ninguém enxergava o soldado
Mas todos entravam na marcha
Gritando: “Pela Pátria lutar!”
Agitavam bandeiras rasgadas
Para esconder o defunto
Que só se via de cima
Mas em cima só brilham as estrelas…
 
E as estrelas nem sempre aparecem
Foi quando outro dia nasceu
Então de novo o soldado morreu
E foi outra vez enterrado!
 
 
 
Bertold frequentou a escola primária de 1904 a 1908 e o ginásio de 1908 a 1916: “Me aborreci durante 4 anos na escola primária, e nos 9 anos que passei no Realgymnasium de Augsburg, nada consegui aprender de meus professores. Eles não cessaram de estimular meu gosto pelo prazer e pela independência…”. Foi aluno rebelde e esperto. Certa vez precisava de uma nota alta em francês, mas recebeu a prova cheia de correções em caneta vermelha e com nota baixa. Bertold pegou uma caneta vermelha e aumentou o número de correções onde não havia erros. Foi mostrar ao professor que, envergonhado por ter corrigido mal a prova, aumentou a nota.
 
 
 
DO   POBRE   B. B.
 
 
 
Eu, Bertolt Brecht, venho da Floresta Negra.
Minha mãe me trouxe para a cidade ainda em seu ventre.
O frio da floresta ficará em mim até o dia de minha morte.
 
Nas cidades de asfalto estou em casa. Desde o início
Abastecido com os últimos sacramentos:
Jornais, tabaco e aguardente.
Desconfiado, contente e preguiçoso até o fim.
 
Sou gentil com as pessoas. Uso 
um chapéu-coco como eles costumam fazer.
Eu digo: estes animais têm um cheiro estranho.
E digo: isso não importa, eu também tenho.
 
Pelas manhãs, em minha cadeira de balanço
Uma mulher ou outra às vezes faço sentar
E observando-a calmamente lhe digo:
Em mim você não deve, você não pode confiar.
 
À noite, alguns homens se reúnem em minha volta
E entre nós “gentlemen” é o tratamento vigente.
Colocam os pés sobre minha mesa 
E dizem: tudo vai melhorar. E eu não pergunto: –  quando ?
 
Na luz cinzenta da aurora mijam os pinheiros,
E seus parasitas, os pássaros, começam a gritar.
Por esta hora na cidade eu esvazio o meu copo,
Jogo fora o charuto e vou dormir, inquieto.
 
Uma geração leviana, nós nos fechamos em casas
Que acreditávamos indestrutíveis. (Assim 
Construímos aquelas imensas caixas na ilha de Manhattan
e as antenas compridas que conversam por cima do Atlântico. )
 
Dessas cidades, o que restará? O vento que por elas passa!
A casa faz o hóspede alegre, este a esvazia.
Sabemos que somos provisórios e que depois de nós
Nada virá que valha a pena mencionar.
 
Nos terremotos do futuro eu espero
Não abandonar meus charutos, nem achá-los amargos.
Eu, Bertolt Brecht, que fui trazido às cidades de asfalto, 
vindo da floresta negra, no ventre de minha mãe, anos atrás.
 
 
 
Outro episódio interessante no colégio ocorreu em 1915. Empolgado com as vitórias da Alemanha na Primeira Guerra Mundial, o professor pediu que os alunos fizessem uma redação sobre o verso de Horácio “Dulce et dulcorum est pro mori (Doce e honroso é morrer pela pátria). Bertold então escreveu “Essa frase só pode ser entendida como propaganda tendenciosa. Morrer na cama ou no campo de batalha é geralmente difícil para jovens na flor da idade. Só idiotas podem ter a vaidade de falar sobre ‘o pequeno salto através da porta escura’. E isto somente enquanto acreditam estar distantes da hora final”.
 
 
 A LENDA DA PROSTITUTA EVELYN ROE
 
Quando veio a primavera e o mar ficou azul
A bordo chegou
Com a última canoa
A jovem Evlyn Roe.
 
Usava um pano sobre o corpo
Que era bonito, bem vistoso.
Não tinha ouro ou ornamento
Exceto o cabelo generoso.
 
“Seu Capitão, leve-me à Terra Santa
Tenho que ver Jesus Cristo.”
“Venha conosco, pois somos tolos, e é uma mulher
Como não temos visto.”
 
“Ele recompensará. Sou uma pobre garota.
Minha alma pertence a Jesus.”
“Então, pode nos dar seu corpo!
Pois o seu senhor não pode pagar:
Ele já morreu, dizem que  na cruz.”
 
Eles navegaram com sol e vento
E Evlyn Roe amaram.
Ela comia seu pão e bebia seu vinho
E nisso sempre chorava.
 
Eles dançavam à noite, dançavam de dia
Não cuidavam do timão.
Evlyn Roe era tímida e suave:
Eles eram duros e sem coração.
 
A primavera se foi. O verão acabou.
Ela corria à noite, os pés em sujas sapatilhas
De um mastro a outro. Olhando no breu
Procurando praias tranquilas
A pobre Evlyn Roe.
 
Ela dançava à noite, dançava de dia.
E ficou quase doente, cansada.
“Seu Capitão, quando chegaremos
À Cidade Sagrada?”
 
O  capitão estava em seu colo
E sorrindo a beijou:
“De quem é a culpa, se nunca chegamos?
Só pode ser de Evlyn Roe.”
 
Ela dançava à noite, dançava de dia
Até ficar totalmente esgotada.
Do capitão ao mais novo grumete
Todos estavam bem saciados.
 
Usava um vestido de seda
Com uns rasgões e remendos
E na fronte desfigurada trazia
Uma mecha de cabelos sebentos.
 
“Nunca eu te verei, ó Jesus,
Com este corpo pecador.
A uma puta qualquer
Não podes dar teu amor.”
 
De um lado para o outro corria
Os pés e o coração começavam a lhe pesar:
Uma noite, quando já ninguém via
Uma noite desceu para o mar.
 
Isto se deu no fim de Janeiro
Ela nadou muito tempo no frio, pois
O tempo melhora, os ramos florescem
Somente em março ou abril.
 
Abandonou-se às ondas escuras
Que a lavaram por dentro e por fora.
Chegará antes à Terra sagrada
O capitão ainda demora.
 
Ao chegar ao céu, já na primavera,
São Pedro na porta a recusou:
“Deus me disse: não quero aqui
A prostituta Evlyn Roe.”
 
E ao chegar ao inferno
O portão fechado encontrou:
O Diabo gritou: “Não quero aqui
A beata Evlyn Roe.”
 
Assim vagou no vento e no espaço
E nunca mais sossegou.
Num fim de tarde eu a vi passar no campo:
Tropeçava muito, não encontrava descanso
A pobre Evlyn Roe.
 
 
 
 
A partir de 1914, publica prosas curtas e alguns poemas no Augsburg Neusten Nachrichten sob o pseudônimo de ‘Bertold Eugen’. Wilhelm Brustle, chefe da redação do jornal, descreveu-o como um jovem tímido, que falava com dificuldade, mas que experimentava uma enorme ânsia de viver, tinha o espírito vivo e não cedia ao sentimentalismo; na política, inclinava-se para a esquerda. Nesta época, fez amigos que seriam importantes em sua vida, como Caspar Neher, pintor e cenógrafo. Na feira anual de outono, Bertold disse que “a execução do anarquista Ferrer em Madri, Nero contemplando o incêndio de Roma, ou a fuga de Carlos, o temerário – tinha olhos enormes, cheios de angústia, como sentisse o horror daquela situação histórica”.
 
 
 
 
APAGUE AS PEGADAS
 
 

Separe-se de seus amigos na estação

De manhã vá à cidade com o casaco abotoado
Procure alojamento, e quando seu camarada bater:
Não, oh, não abra a porta  //  Mas sim  //  Apague as pegadas!
 
Se encontrar seus pais na cidade de Hamburgo ou em outro lugar
Passe por eles como um estranho, vire na esquina, não os reconheça
Abaixe sobre o rosto o chapéu que eles lhe deram
Não, oh, não mostre seu rosto  /  Mas sim  //  Apague as pegadas!
 
Coma a carne que aí está.  Não poupe.
Entre em qualquer casa quando chover, sente em qualquer cadeira
Mas não permaneça sentado. E não esqueça seu chapéu.
Estou lhe dizendo:    //   Apague as pegadas!
 
O que você disser, não diga duas vezes.
Encontrando o seu pensamento em outra pessoa:  //  negue-o.
Quem não escreveu sua assinatura, quem não deixou retrato,
Quem não estava presente, quem nada falou
Como poderão apanhá-lo ?   //   Apague as pegadas!
 
Cuide, quando pensar em morrer
Para que não haja sepultura revelando onde jaz
Com uma clara inscrição a denunciá-lo
E o ano de sua morte a entregá-lo.
Mais uma vez:   //   Apague as pegadas!
 
(Assim me foi ensinado.)
 
 
 
Ainda sobre o sistema educacional da Alemanha em sua época de estudante, Brecht diria depois que “lá só se aprendia o necessário, a arte de enganar, esconder conhecimentos que não possuíam, assimilar rapidamente os lugares comuns, estar sempre pronto a denunciar os companheiros aos superiores. Os filhos dos burgueses eram mais bem tratados que os dos operários”. Diria também que “um certo professor não fornecia solução para os problemas – limitava-se a colocar o problema com força. Dava imagens da realidade, deixando a nós a tarefa de tirar as conclusões, procedimento incomparavelmente mais fecundo”. Quando  estourou a Grande Guerra, Brecht tinha 16 anos.
 
 
 
 
CONTRA A SEDUÇÃO
 
 
Não se deixe seduzir!
Não há caminho de volta.
O dia se aproxima
E já se sente o frio da noite.
A manhã não virá nunca mais.
 
Não se deixe enganar!
A vida não é muita coisa.
É preciso bebê-la em grandes goles!
Vocês não terão bebido o bastante
Quando chegar a hora de deixá-la.
 
Não se deixem envolver!
Não terão tempo bastante!
Deixem apodrecer os cadáveres.
A vida leva-os sempre
E não se vive senão uma vez.
 
Não se deixem arrastar
Aos trabalhos e às galeras.
De que, então, vocês têm medo?
Como todos os animais, vocês morrerão
E depois da morte não há mais nada.
 
 
 
Em setembro de 1916, Bertold ingressa na faculdade de medicina em Munique. Neste mesmo ano, em Berlim, o dirigente revolucionário Karl Liebknecht, em uniforme militar, grita às massas da Praça Potsdam “Abaixo o governo! Abaixo a guerra! Viva o socialismo!”. A vitória da revolução proletária na rússia e 1917 teve grande influência na Alemanha. Greves saúdam o novo regime e conselhos de deputados e militares são formados nos moldes bolchevistas. Bertold se mobiliza e trabalha num hospital do exército em Augsburg. “Eu fazia curativos, transfusões de sangue, aplicava tintura de iodo. Se o médico ordenava: “Brecht, ampute esta perna!” Eu respondia: “Sim, excelência!”, e cortava a perna. Se me diziam “Faça uma trepanação”, eu abria o crânio do homem e mexia em seus miolos. Via como os médicos remodelavam as pessoas para enviá-los de volta ao front o mais rapidamente possível”. Assim, tornou-se pacifista.
 
 
 
 
SOUBE QUE VOCES NADA QUEREM APRENDER
 
 
Soube que vocês nada querem aprender
Então devo concluir que são milionários.
Seu futuro está garantido – á sua frente
Iluminado. Seus pais
Cuidaram para que seus pés
Não topassem com nenhuma pedra. Neste caso
Vocês nada precisam aprender. Assim como estão
Podem ficar.
 
Havendo dificuldades, pois os tempos
Como ouvi dizer, são incertos
Vocês têm seus líderes, que lhes dizem exatamente
O que têm a fazer para que fiquem bem.
Eles leram aqueles que sabem
As verdades válidas para todos os tempos
E as receitas que sempre funcionam.
Onde há tantos a seu favor
Vocês não precisam levantar um dedo.
Sem dúvida, porém, se fosse diferente
Vocês teriam muito o que aprender.
 
 
 
Em 1918, Bertold escreve seu primeiro poema contundente ‘A lenda do soldado morto’, que lhe rende o quinto lugar na lista das pessoas a serem executadas se o putsch de Hitler em 1923 tivesse saído vitorioso. Em 1919 o movimento operário na Alemanha enfraquece com a morte de Liebknecht e Rosa Luxemburgo num zoológico em Berlim. Em julho é proclamada a República de Weimar. Com isso, Bertold retorna para a faculdade de Medicina e para a vida boêmia de Munique. Nesta época escreve Baal e Nos Tambores da Noite. Todas as traduções foram feitas por Paulo César de Souza.
 
 
 
CANÇÃO DO PINTOR HITLER
 
 
1
 
HItler, o pintor de paredes
Disse: Caros amigos, deixem eu dar uma mão!
E com um balde de tinta fresca
Pintou como nova a casa alemã
Nova a casa alemã.
 
2
 
Hitler, o pintor de paredes
Disse: Fica pronta num instante!
E os buracos, as falhas e as fendas
Ele simplesmente tapou
A merda inteira tapou.
 
3
 
Ó Hitler pintor
Por que não tentou ser pedreiro?
Quando a chuva molha sua tinta
Toda a imundície vem abaixo
Sua casa de merda vem abaixo.
 
4
 
Hitler, o pintor de paredes
Nada estudou senão pintura
E quando lhe deixaram dar uma mão
Tudo o que fez foi um malogro
E a Alemanha inteira ele logrou.
 
 
 
Em 1919 consegue um lugar de dramaturg do Kammerspiele de Munique. O cargo combinava as atividades de dramaturgo da companhia, a de adaptador de peças, leitor de textos e orientador literário da empresa. Em 1921, Bertold foi várias vezes a Berlim tentar publicar suas peças e conheceu Arnolt Bornnen, líder do movimento expressionista, tornaram-se amigos. Nesta época Bertold também conhece outro que seria seu grande amigo, o cômico Karl Valentin, o clown metafísico. Em 1922, Bertold casa-se com a cantora Marianne Zoff.
 
 
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DE QUE SERVE A BONDADE
 
 
1
 
De que ser a bondade
Se os bons são imediatamente liquidados, ou são liquidados
Aqueles para os quais eles são bons?
 
De que ser a liberdade
Se os livres têm que viver entre os não-livres?
 
De que serve a razão
Se somente a desrazão consegue o alimento de que todos necessitam?
 
2
 
Em vez de serem apenas bons, esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne possível a bondade
ou melhor: que a torne supérflua!
 
Em vez de serem apenas livres, esforcem-se
Para criar um estados de coisas que liberte a todos
E também o amor à liberdade
Torne supérfluo!
 
Em vez de serem apenas razoáveis, esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne a desrazão de um indivíduo
Um mau negócio!
 
 
 
Estreia Tambores na Noite em Kammerspiele, em Munique. Um sucesso enorme. “O poeta de 24 anos Bert Brecht mudou do dia para a noite a fisionomia literária da Alemanha. Um novo tom, uma nova melodia, uma nova visão entraram em nossos tempos…” Neste ano, Bertold ganha o Prêmio Kleist de melhor dramaturgo. Em 1923, mais duas peças estreiam, Na selva das cidades e Baal. Esta última, causando enorme polêmica em Leipzig. Suas peças trazem algo especial ao teatro alemão. “Brecht promove a distância em vez da grandeza, não rebaixa os homens, mas priva o ator de sentimentalismo, reclama gestos simples, uma dicção clara e fria”, escreve Karl Valentin.
 
 
TODAS AS TRADUÇÕES DOS POEMAS FORAM FEITAS POR PAULO CESAR DE SOUZA
 
A INSCRIÇÃO INVENCÍVEL
 
 
No tempo da Guerra Mundial
Em uma cela da prisão de San Carlo
Cheia de soldados aprisionados, de bêbados e ladrões
Um soldado socialista riscou na parede com um estilete:
VIVA LENIN!
Bem alto na cela meio escura, pouco visível, mas
Escrito com letras imensas.
Quando os guardas viram, enviaram um pintor com um balde de cal
Que com um pincel de cabo longo cobriu a inscrição ameaçadora.
Mas, como ele apenas acompanhou os traços com cal
Via-se agora em letras brancas, no alto da cela:
VIVA LENIN!
Somente um segundo o pintor cobriu tudo com pincel largo
De modo que durante horas desapareceu, mas pela manhã
Quando a cal secou, destacou-se novamente a inscrição:
VIVA LENIN!
Então enviaram os guardas um pedreiro com uma faca para eliminar a inscrição.
E ele raspou letras por letras, durante uma hora
E quando terminou, lá estava no alto da cela, incolor
Mas gravada fundo na parede, a inscrição invencível:
VIVA LENIN!
Agora derrubem a parede! disse o soldado.
 
 
 
Em 1924, Bretolt muda-se definitivamente para Berlim. Seu casamento anda turbulento e assim ele conhece a atriz Helene Weigel. Apaixonam-se. Passa a trabalhar como dramaturg no Deutsches Theatre junto com Carl Zuckmayer e Erich Engel. A companhia encena Na Sekva das Cidades com direção de Max Reinhardt. Nesta época Bretolt conhece o diretor Erwin Piscator que reorganiza a Volksbuhne, uma associação de espectadores apoiada pelo movimento político e sindical de esquerda. Piscator exerce forte influência em Bertolt e disse que “é o único autor que resolve as necessidades de nossa época. Sartre se orienta pelo mesmo caminho, mas não chega tão longe. Brecht e eu fomos irmãos. Nossa relação foi possível porque tínhamos basicamente a mesma visão de mundo e esperávamos o mesmo teatro”.
 
 
O último suspiro antes do amanhecer http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
 
 
A QUEIMA DE LIVROS
 
 
Quando o regime ordenou que fossem queimados publicamente
Os livros que continham saber pernicioso, e em toda parte
Fizeram bois arrastarem carros de livros
Para as pilhas em fogo, um poeta perseguido
Um dos melhores, estudando a lista dos livros queimados
Descobriu, horrorizado, que os seus
Haviam sido esquecidos. A cólera o fez correr
Célere até sua mesa, e escrever uma carta aos donos do poder.
Queimem-me! Escreveu com pena veloz. Queimem-me!
Não me façam uma coisa dessas! Não me deixem de lado! Eu não
Relatei sempre a verdade em meus livros? E agora tratam-me
Como um mentiroso? Eu lhes ordeno:
Queimem-me!
 
 
 
Em 1926 estreia Mann ist Mann com direção de Jacob Greis e cenário de Caspar Neher, no mesmo ano também há a estreia de Baal, causando confusão entre os espectadores e prepara uma coletânea de poemas chamada Breviário de Bolso. O livro é impresso em papel-bíblia e se parecia muito com uma. Em 1927 é o ano das parcerias com Kurt Weil. Sai nesta época o embrião de Mahagonny. O sucesso veio com A Ópera dos Três Vinténs com direção de E. Engel. O espetáculo tinha Lotte Lenya, então mulher de Weil no elenco. O processo foi desacreditado, ninguém acreditava no êxito da peça, mas, foi um sucesso.
 
 
 
 
AOS QUE VÃO NASCER
 
 
1
 
É verdade, eu vivo em tempos negros.
Palavra inocente é tolice. Uma testa sem rugas
Indica insensibilidade. Aquele que ri
Apenas não recebeu ainda
A terrível notícia.
 
Que tempos são esses, em que
Falar de árvores é quase um crime
Pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?
Aquele que atravessa a rua tranquilo
Não está mais ao alcance de seus amigoa
Necessitados?
 
Sim, ainda ganho meu sustento
Mas acreditem: é puro acaso. Nada do que faço
Me dá direito a comer a fartar.
Por acaso fui poupado. (Se minha sorte acaba, estou perdido.)
 
As pessoas me dizem: Coma e beba! Alegre-se porque tem!
Mas como posso comer e beber, se
Tiro o que como ao que tem fome
E meu copo d’água falta ao que tem sede?
E no entanto eu como e bebo.
 
Eu bem gostaria de ser sábio.
Nos velhos livros se encontra o que é sabedoria:
Manter-se afastado da luta do mundo e a vida breve
Levar sem medo
E passar sem violência
Pagar o mal com o bem
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los
Isto é sábio.
Nada disso sei fazer:
É verdade, eu vivo em tempos negros.
 
2
 
À cidade cheguei em tempo de desordem
Quando reinava a fome.
Entre os homens cheguei em tempo de tumulto
E me revoltei junto com eles.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.
 
A comida comi entre as batalhas
Deitei-me para dormir entre os assassinos
Do amor cuidei displicente
E impaciente contemplei a natureza.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.
 
As ruas de meu tempo conduziam ao pântano.
A linguagem denunciou-me ao carrasco.
Eu pouco podia fazer. Mas os que estavam por cima
Estariam melhor sem mim, disso tive esperança.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.
 
As forças eram mínimas. A meta
Estava bem distante.
Era bem visível, embora para mim
Quase inatingível.
Assim passou o tempo
Que nesta terra me foi dado.
 
3
 
Vocês, que emergirão do dilúvio
Em que afundamos
Pensem
Quando falarem de nossas fraquezas
Também nos tempos negros
De que escaparam.
Andávamos então, trocando de países como de sandálias
Através das lutas de classes, desesperados
Quando havia só injustiça e nenhuma revolta.
 
Entretanto sabemos:
Também o ódio à baixeza
Deforma as feições.
Também a ira pela injustiça
Torna a voz rouca. Ah, e nós
Que queríamos preparar o chão para o amor
Não pudemos nós mesmos ser amigos.
 
Mas vocês, quando chegar o momento
Do homem ser parceiro do homem
Pensem em nós
Com simpatia.
 
 
 
Com o sucesso da Ópera dos Três Vinténs, é produzido o filme Romance dos Três Vinténs, editado em Amsterdam. O filme foi dirigido por Pabst que usou praticamente o mesmo elenco. Também foi um sucesso. Logo depois consegue apoio para produzir Kuhle Vamp, sobre uma área de loteamento nos subúrbios proletários de Berlim. Porém, o Governo proibe o filme. Happy End não obteve o mesmo sucesso que a Ópera, mas curiosamente suas canções se perpetuaram. Em 1932, Bertolt escreve Santa Joana dos Maradouros, que sem teatros para trabalhar, foi apresentada apenas pelo rádio.
 
 
Nas escadas da Cinelândia http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
 
 
MOSTRAR O QUE TEM QUE SER MOSTRADO
 
 
Mostrem que mostram! Entre todas as diferentes atitudes
Que vocês mostram, ao mostrar como os homens se portam
Não devem esquecer a atitude de mostrar.
A atitude de mostrar deve ser a base de todas as atitudes.
Eis o exercício: antes de mostrarem como
Alguém comete traição, ou é tomado pelo ciúme
Ou conclui um negócio, lancem um olhar
À plateia, como se quisessem dizer:
Agora prestem atenção, agora ele trai, e o faz deste modo.
Assim ele fica quando o ciúme o toma, assim ele age
Quando faz negócio. Desta maneira
O seu mostrar conservará a atitude de mostrar
De pôr a nu o já disposto, de concluir
De sempre prosseguir. Então mostram
Que o que mostram, toda noite mostram, já mostraram muito
E a sua atuação ganha algo próprio do mostrar:
Que vocês estão sempre preocupados em facilitar
O assistir, em assegurar a melhor visão
Do que se passa – tornem isso visível! Então
Todo esse trair e enciumar e negociar
Terá algo de uma função cotidiana como comer,
Cumprimentar, trabalhar. (Pois vocês não trabalham?) E
Por trás de seus papéis permanecem
Vocês mesmos visíveis, como aqueles
Que os encenam.
 
 
 
 
Em 1928, no mesmo ano que Hitler publica em grande tiragem o livro Mein Kampf, Bertolt apresenta o texto de Ascensão e Queda da Cidade de Mahagony. A estreia em 1930 é tumultuada e o público de sente ofendido. Desta peça em diante, Bertolt assume definitivamente o marxismo. Frequenta as conferências do Colégio dos Operários Marxistas de Berlim. Nesta época começa a fazer as conhecidas Peças Didáticas. Bertolt rompe com Kurt Weil e trabalha constantemente com Hans Eisler. 
 
 
 
 
O LADRÃO DE CEREJAS
 
 
Bem cedo numa manhã, antes do grito do galo
Fui acordado por um assovio e andei até a janela.
Em minha cerejeiras – a alvorada tomava o jardim -
Estava sentado um jovem de calça remendada
Que colhia alegremente minhas cerejas. Ao me ver
Acenou com a cabeça. Com ambas as mãos
Tirava as cerejas dos ramos e punha nos bolsos.
Ainda por um bom tempo, novamente deitado
Ouvi-o assoviar sua alegre cançãozinha.
 
 
Em 1933, Hitler assume o poder. O Partido Comunista convoca uma greve geral. No dia 31 de janeiro, Hitler discursa ao povo alemão e logo em seguida, o Reischtag, prédio do parlamento é incendiado. Hitler culpa os comunistas. Começa a caça. Primeiro todas as lojas de judeus são marcadas com tinta em suas portas. Depois, por unanimidade, o Partido Nazista proíbe qualquer casamento de alemães com judeus. A partir daí a perseguição fica cada vez maior. Comunistas, intelectuais são perseguidos. Bertolt é o quinto da lista negra. No dia 10 de maio, livros considerados subversivos para os nazistas são queimados em praça pública. É o início do terror. No dia seguinte da ordem de caça, os nazistas já estão em sua casa, porém, horas antes, Bertolt havia fugido com sua família de trem para Praga.
 
 
 
 
O TUFÃO
 
 
Fugindo do pintor, rumo aos Estados Unidos
Notamos de repente que nosso pequeno navio não se movia.
Toda uma noite e um dia inteiro
Permaneceu na altura de Luzon, no Mar da China.
Alguns diziam ser devido a um tufão que rugia no norte
Outros temiam barcos piratas alemães.
Todos
Preferiam o tufão aos alemães.
 
 
 
De Praga, Bertolt segue com sua família para Viena. Não acredita que ficará tanto tempo viajando, o Nazismo, até para o mais paranóico, não parecia que cresceria tanto, tamanho era o absurdo que abordava. Mas isso não aconteceu. Hitler crescia cada vez mais. Anexou a Áustria. O objetivo primeiro era “reunir” os países do antigo Império. Bertolt de Viena vai para Zurich onde encontra com Heinrich Mann e Walter Benjamim. Depois França e então Dinamarca, em Svendborg. Bertolt produz muito nessa época. Algumas Perguntas a um Homem Bom, Os três soldados, Os sete pecados capitais do pequeno burguês e muitas outras. A esta altura se estabelece definitivamente a Segunda Guerra Mundial.
 
 
 
REFLETINDO SOBRE O INFERNO
 
 
Refletindo, ouço dizer, sobre o inferno
Meu irmão Shelley achou ser ele um lugar
Mais ou menos semelhante a Londres. Eu
Que não vivo em Londres, mas em Los Angeles
Acho, refletindo sobre o inferno, que ele deve
Assemelhar-se mais ainda a Los Angeles.
 
Também no inferno
Existem, não tenho dúvidas, esses jardins luxuriantes
Com as flores grande como árvores, que naturalmente fenecem
Sem demora, se não são molhadas com água muito cara. E mercados
de frutas
Com verdadeiros montes de frutos, no entanto
Sem cheiro nem sabor. E intermináveis filas de carros
Mais leves que suas próprias sombras, mais rápidos
Que pensamentos tolos, automóveis reluzentes, nos quais
Gente rosada, vindo de lugar nenhum, vai a nenhum lugar.
E casas construídas para pessoas felizes, portanto vazias
Mesmo quando habitadas.
Também as casas do inferno não são todas feias.
Mas a preocupação de serem lançados na rua
Consome os moradores das mansões não menos que
Os moradores dos barracos.
 
 
 
 
Entre 1932 e 1936, Bertolt trabalha em uma peça sobre o nazismo, Cabeças redondas, Cabeças pontudas. Em 1935, parte para a Rússia e lá encontra amigos como Carola Neher, Piscator e outros. Nesta época também conhece atores chineses e desperta uma profunda relação com a poesia chinesa. A partir daí, muitas estreias em Paris, encontros com Walter Benjamin. Escreve Mãe Coragem e seus filhos e O Processo de Lúculus. Hitler já havia anexado a Tchecoeslováquia e partia para outras frentes. Bertolt continua as viagens, os exílios. 
 
 
 
 
CANÇÃO DE UMA ENAMORADA
 
 
Quando me fazes alegre
Penso por vezes:
Agora poderia morrer
Então seria feliz
Até o fim.
 
E quando envelheceres
E pensares em mim
Estarei como hoje
E terás um amor
Sempre jovem.
 
 
 
 
Em outubro de 1936, Brecht está em Paris onde escreve e encena muitas peças. É nesta época também que surge a primeira versão de A Vida de Galileu. Sempre ligado no avanço nazista, Bertolt parte para a Finlândia em 1940. Em 1941, consegue um visto para os EUA e parte para Moscou onde estão outros amigos. Só que nesse interin, morre de tuberculose sua grande amiga Margareth Steffin. De Moscou para de trem para Vladivostok. Sai o texto A Alma Boa de Setsuan. Morre Walter Benjamin. Assim, Bertolt parte com a família para os EUA a bordo do navio sueco Anni Jonhson. 
 
 
 
 
OS ESPERANÇOSOS
 
 
Pelo que esperam?
Que os surdos se deixem convencer,
Que os insaciáveis lhes devolvam algo?
Os lobos por certo os alimentarão, 
em vez de devorá-los!
E por amizade 
os tigres solicitarão 
que lhes arranquem os dentes!
É por isso que esperam!
 
 
 
Bertolt reúne-se com outros exilados alemães nos EUA. Thomas Mann, Hans Eisler e outros. Lá conhece Charles Chaplin e Aldous Huxley. Passa a maior parte do tempo tentando escrever roteiros para cinema e até se envolve numa produção, quando um de seus roteiros é usado quase que completamente por Fritz Lang mas que não lhe dá o crédito. Decepciona-se profundamente com a América. Tem algumas peças montadas, mas longe do ideal. Até que é chamado a comparecer à Comissão de Atividades Antiamericanas, onde é interrogado longamente sobre sua ligação com o Partido Comunista. Bertolt finge-se de ingênuo e consegue enganar a Comissão, no dia seguinte parte para a Alemanha.
 
 
 
 
A SOLUÇÃO
 
 
Após a revolta de 17 de junho
O secretário da União dos Escritores
Fez distribuir comunicados na Alameda Stalin
Nos quais se lia que o povo
Desmerecera a confiança do governo
E agora só poderia recuperá-la
Pelo trabalho dobrado. Mas não
Seria mais simples o governo
Dissolver o povo
E escolher outro?
 
 
 
Bertolt vai para a Suiça, conhece os atores que encenaram suas peças enquanto esteve nos EUA. Em 1948 volta para Berlim e em 1949 obtêm cidadania austríaca. Em setembro deste ano, funda, o Berliner Ensemble e encena várias peças. Em 1950, volta a trabalhar com vários colaboradores, Hans Eisler, Caspar Neher, Ruth Berlau e muitos outros. Bertolt agora vive numa casa perto do teatro cujo fundo dá para um cemitério onde está enterrado Hegel. Quando morrer quer ser enterrado ao lado dele. Recebe uma casa do Estado onde escreve Os Poemas de Buckow. 
 
 
 
 
NÃO NECESSITO DE PEDRA TUMULAR
 
 
Não necessito de pedra tumular, mas
Se necessitarem de uma para mim
Gostaria que nela estivesse:
Ele fez sugestões
Nós as aceitamos.
Por uma tal inscrição
Estaríamos todos honrados.
 
 
 
 
 
O Berliner Ensemble encena várias peças de Bertolt e segue crescendo. Sua saúde não vai bem e em 1955 escreve sua última adaptação Tambores e Trombetas, baseado em O Oficial Recrutador, de George Farquhar. Participa também do Congresso dos Partidários da Paz, em Dresden e viaja para Moscou para receber o Prêmio Stalin da Paz, antes renegado por Thomas Mann. Em fevereiro de 1956 assiste sua última montagem da Ópera do Três Vinténs em Milão. No dia 10 de agosto vai pela última vez ao Berliner Ensemble e dirige um ensaio, até que no dia 14 do mesmo mês, sofre uma parada cardíaca e morre. É enterrado num túmulo perto de Hegel, como queria. No dia 18 é feita uma homenagem no Berliner Ensemble onde textos são lidos. Assim terminamos o companheiro Bertolt Brecht.
 
 
 
SE FOSSEMOS INFINITOS
 
 
Fôssemos infinitos
Tudo mudaria
Como somos finitos
Muito permanece.
 
 
 
 
 
 

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Pier Paolo Pasolini

pasolini

 

Pier Paolo Pasolini nasceu em Bolonha, na Itália, no dia 5 de março de 1922. Filho mais velho do tenente da infantaria Alberto Pasolini e das professora Susanna Colussi. Seu pai era de uma antiga família nobre de Ravenna, e casou-se com Susanna em 1921, quando foram para Bolonha. Sua mãe, a contrário de seu pai, era de uma família de agricultores que aos poucos se tornaram uma espécie de classe média. Seus avós maternos eram destiladores e piamonteses. Vamos de Pasolini!

AS CINZAS DE GRAMSCI I
Não é de Maio este ar impuro
que torna o jardim sombrio e estrangeiro
ainda mais sombrio, ou o ofusca
com réstias de luz alucinadas… este céu
de baba sobre as mansardas amarelas
que em semicírculos velam como véus
os meandros do Tibre, os montes
turquesa do Lácio… É uma paz mortal,
resignada como os nossos destinos,
a que derrama sobre estes velhos muros
o outonal Maio. Há nele o cinzento do mundo
o fim do decênio em que nos parece
que as ruínas engoliram o profundo
e ingênuo esforço para recriar a vida:
o silêncio, úmido e infecundo…
Tu, jovem, naquele Maio em que errar
era ainda viver, naquele Maio italiano
que à vida ao menos acrescentava ardor,
muito menos descuidado e impuramente são
do que os nossos pais – não pai, mas humilde
irmão – já com a tua magra mão
delineavas o ideal que ilumina
(mas não para nós, que estás morto, e nós
estamos mortos, contigo, no úmido
jardim) este silêncio. Não vês que só
podes repousar em terra
estranha, ainda desterrado? Um tédio
patrício reina à tua volta. E só te chega
um rumor abafado de bigorna
nas oficinas do Testaccio, adormecido
ao anoitecer: por entre míseros telhados,
nus montões de lata, ferro-velho, onde, vicioso,
um operário cantando dá por terminado
o seu dia, e em redor deixa de chover.
Os Pasolinis não ficaram muito tempo em Bolonha. Mudaram-se para Parma, depois Conegliano, Belluno, Idria, Cremona, Bolonha novamente, depois algumas cidades do norte da Itália, fazendo com que o pequeno Pier se torna-se uma espécie de nômade, sem jamais ter tipo umas residência fixa. Numa dessas estadias, em Belluno, nasceu Guido Pasolini. Já desta época, começaram os conflitos com pai. Pier temia a hora do jantar, por sempre haver cenas de seu pai violento. Algumas vezes o pegava à força e o prendia na mesa, sua mãe suportava tudo e Pier começou a sofrer ardência nos olhos.

Todas as traduções são de Maria Jorge Vilar de Figueiredo

AS CINZAS DE GRAMSCI IV
O escândalo de me contradizer, de estar
contigo e contra ti; contigo no coração,
à luz do dia, contra ti na noite das entranhas;
traidor da condição paterna
- em pensamento, numa sombra de ação -
a ela me liguei no ardor
dos instintos da paixão estética;
fascinado por uma vida proletária
muito anterior a ti, a minha religião
é a sua alegria, não a sua luta
de milênios: a sua natureza, não a sua
consciência; só a força originária
do homem, que na ação se perdeu,
lhe dá a embriaguez da nostalgia
e um halo poético: e mais nada
sei dizer, a não ser o que seria
justo, mas não sincero, amor abstrato,
e não dolorida simpatia…
Pobre como os pobres, agarro-me
como eles a esperanças humilhantes,
como eles, para viver me bato
dia a dia. Mas na minha desoladora
condição de deserdado,
possuo a mais exaltante
das posses burguesas, o bem mais absoluto.
Todavia, se possuo a história,
também a história me possui e me ilumina:
mas de que serve a luz?
A carinhosa mãe do pequeno Pier Paolo costumava ler fábulas para ele quando criança. Era uma espécie de Sócrates. Acreditava no heroísmo, na piedade, na caridade, na generosidade, valores que Pasolini viria a dizer que absorveu “quase que patologicamente”. Também teve estreita relação com seu irmão Guido que o admirava por ser bom nos estudos e em jogos. Pier Paolo entrou no ginásio com um ano de antecedência. Em 1928, fez um caderno com colagens de fotografias e escritos poéticos, prontamente seguido pelos colegas de colégio.

O PRANTO DA ESCAVADEIRA VI
Na chama abandonada
do sol matinal – que agora se reacende,
rasando os estaleiros, sobre as fechaduras
que amorna – vibrações
desesperadas rasgam o silêncio
que perdidamente cheira a leite azedo,
a praças vazias, inocência.
Pelo menos desde às sete da manhã, essa vibração
aumenta com o sol. Pobre presença
de uma dúzia de operários já velhos,
lenços e camisolas interiores queimados
de suor, cujas vozes raras,
cujas lutas contra os blocos
dispersos de lama, as vagas de terra,
parecem morrer naquele tremor.
Mas por entre os estrondos teimosos
das garras que cegas trituram, cegas
esboroam, cegas agarram,
como es não tivessem um fim,
um uivo inesperado, humano,
nasce, e a intervalos se repete,
tão louco de dor, que, de repente,
já não parece humano, e volta a ser
estridor mortal. Depois, baixinho,
ressoa, à luz violenta,
entre os prédios ofuscados, novo, igual,
uivo que só quem está a morrer
pode soltar, no derradeiro instante,
sob este sol que cruel ainda brilha
mas já adoçado pelo ar do mar…
Quem assim grita, atormentada
por meses e anos de suores
matutinos – acompanhada
pelo mudo tropel das suas garras -
é a velha escavadora: mas é também o fresco
terriço remexido, ou, no breve espaço
de um horizonte deste século,
o bairro todo… É a cidade,
mergulhada num clarão de festa,
- é o mundo. Chora o que chega ao fim
e recomeça. O que era
campo verde, espaço aberto, e é agora
pátio branco como cera,
emparedado num decoro feito de rancor;
o que parecia uma velha feira
de rebocos frescos, sinuosos, ao sol,
e é agora bairro novo, fervilhante,
numa ordem que é apenas dor calada.
Chora o que muda, mesmo
que seja para ser melhor. A luz
do futuro não deixa um só instante
de nos ferir: está aqui, a arder
nos atos que cumprimos dia a dia,
angústia mesmo na fé
que nos dá vida, no impulso gobettiano
para estes operários, que mudos exibem,
no bairro da outra frente humana,
o seu trapo vermelho de esperança.
Pier Paolo terminou o ensino médio aos 17 anos e matriculou-se no curso de Literatura na Universidade de Bolonha. Lá, criou um grupo literário chamado GIL, ao lado de Luciano Serra, Farolfi Franco, Mauri Fábio e outros. Nessa época surgiram os poemas que vieram a fazer parte de seu primeiro livro, Poesie a Casarsa. Pier também contribuiu com a revista Stroligut e junto com amigos criou a Academiuta di lenga furlana, um dialeto que representou uma espécie de oposição ao regime fascista que estava em pleno vigor e ascensão na época.

NOITE ROMANA PARA AS TERMAS DE CARACALLA
SEXO, CONSOLO DA MISÉRIA
O MEU DESEJO DE RIQUEZA
TRIUNFO DA MORTE
Onde vais pelas ruas de Roma,
nos tróleis ou no elétricos em que as pessoas
voltam para casa? Apressado, obcecado, como se
te aguardasse o trabalho paciente
de onde a esta hora os outros regressam.
É logo a seguir ao jantar, quando o vento
cheira a quentes misérias familiares
perdidas nas mil e uma cozinhas, nas
longas ruas iluminadas,
sobre as quais mais claras espiam as estrelas.
No bairro burguês, reina a paz
que a todos satisfaz em suas casas,
não sem alguma cobardia, e que todos gostariam
que lhes enchesse cada noite da existência.
Ah, ser diferente – num mundo porém
culpado – significa que não se é inocente…
Vá, desce pelas curvas escuras
da avenida que conduz ao Trastevere:
verás que, imóvel e devastada, como
arrancada a uma lama de outras eras
- para satisfazer quem pode roubar
mais um dia à morte e à dor -
tens a teus pés toda a cidade…
Desço, atravesso a Ponte Garibaldi,
rente ao parapeito, passando os nós dos dedos
pelo rebordo de pedra esboroada,
dura no ar morno que a noite
ternamente exala, sobre a copa
quente dos plátanos. Na outra margem,
como lajes em fila descorada,
as mansardas, plúmbeas, rasas, do amarelado casario
enchem o céu deslavado. Caminhando pelo lajedo
deslabrado, de osso, contemplo, ou melhor,
cheiro o grande bairro familiar,
prosaico e ébrio – salpicado de estrelas
envelhecidas e janelas sonoras -:
o Verão escuro e úmido doura-o,
por entre as baforadas sujas
que o vento vindo dos campos
do Lácio espalha com a chuva
sobre carris e fachadas.
E como cheira, no calor tão denso
que é também espaço,
o paredão, aqui em baixo:
desde a ponte Sublicio até o Gianicolo
o fedor mistura-se à embriaguez
da vida que não é vida.
Sinais impuros de que por aqui passaram
velhos bêbados de Ponte, antigas
prostitutas, bandos de malandrins
despudorados: rastos humanos,
impuros que, humanamente infectos,
vêm falar-nos, violentos e pacíficos,
desses homens, dos seus baixos prazeres
inocentes, dos seus míseros desígnios.
Pasolini se envolveu com os movimentos de esquerda ainda na faculdade. Nessa mesma época, retorna a Casarsa, sua casa. O início da Segunda Guerra Mundial foi um período extremamente difícil em sua vida. Foi recrutado em 1943 para o exército em Livorno. No dia 9 de setembro desse ano, desobedeceu uma ordem de entregar suas armas aos alemãs e fugiu. Retornou a Casarsa para rever sua família e se mudou para Versutta, longe dos bombardeios alemães.

NOITE ROMANA
Sexo, consolo da miséria!
A puta é uma rainha, o seu trono
são ruínas, a sua terra um naco
de prado merdoso, o seu cetro
uma bolsa de verniz vermelho:
ladra na noite, porca e feroz
como uma mãe antiga: defende
o seu território e a sua vida.
Os chulos, em redor, em bandos,
soberbos e pálidos, com bigodes
brindesianos ou eslavos, são
chefes, regentes: tramam,
nas trevas, os seus negócios de cem liras,
pestanejando em silêncio, trocando
palavras de ordem: o mundo, excluído, cala-se
à volta deles, que dele estão excluídos,
carcaças silenciosas de aves de rapina.
Mas nos destroços do mundo, nasce
um novo mundo, nascem leis novas
onde não há lei; nasce uma nova
honra onde a honra é desonra…
Nascem poderes e nobrezas,
ferozes, nos montes de tugúrios,
nos lugares perdidos onde se julga
que a cidade acaba, mas onde
recomeça, inimiga, recomeça
por milhares de vezes, com pontes
e labirintos, estaleiros e aterros,
atrás de vagas de arranha-céus
que velam horizontes inteiros.
Na facilidade do amor
o miserável sente-se homem:
firma tanto a fé na vida, que
despreza quem outra vida tem.
Os filhos lançam-se à aventura,
certos de estarem num mundo
que os teme, a eles e ao seu sexo.
A sua piedade é não terem piedade,
a sua força é não terem cuidados,
a sua esperança é não terem esperança.
Ainda em 1943, Guido, irmão de Pier Paolo, se recusou a ficar escondido em Versutta e decidiu juntar-se aos guerrilheiros. Para não levantar suspeitas, Pier Paolo comprou o bilhete para Bolonha e o levou à estação de trem. De Spilimbergo, Guido chegou à Pielungo, onde se juntou à divisão partidária Osoppo. Na guerra, usou o nome de Ermes. Conflitos internos se desenvolveram em vários grupos da resistência anti-fascista. Comunistas da Garibaldian exerceram pressão para que os Friuli se anexassem na Iugoslávia, enquanto a Osoppo queria ir para Friuli. Em fevereiro de 1945, a divisão de Guido foi massacrada em conflito Porzus. Pier Paolo, assim, perdera o irmão na guerra.

Historinha da Historinha em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
CONTINUAÇÃO DA NOITE EM SAN MICHELE
O DESEJO DE RIQUEZA DO SUBPROLETARIADO ROMANO
PROJECÇÃO DE “ROMA CIDADE ABERTA”
NO CINEMA “NUOVO”
Testemunha e participante desta
baixeza, desta miséria, regresso
ao longo do parapeito de coral,
de coração oprimido – ensimesmado,
na sede de saber, na ânsia de compreender,
que, na minha vida, embora febril,
seja repetitiva monotonia, vício
de recair e de voltar a sentir não sei o quê…
E como se Roma ou o mundo começasse
nesta noite antiga, nestes cheiros
milenares, caminho ao longo do precipício
que bárbaro o Tibre abre no meio de dormitórios
sórdidos e ruidosos bairros
de terracota, largos de esplendores
reduzidos a barrocas e céreas
volutas de igreja desconsagrada
e transformada em armazém, por entre as ruelas negras
que o pó, a lua, a velhice, a impiedade
cobrem de brancura – cartilagem
que faz ressoar o lajedo sob os pés.
Meto por San Michele, entre muros
baixos, como de casamatas, praças
granulosas sobre as quais a lua brilha
como sobre gelo decrépito, terraços
onde espia um cravo
ou uma arruda, regados por raparigas
de roupão: e o ar mudo
levas as suas vozes de prisioneiras
por entre paredes de tufo com buracos de portas
e janelas geminadas e tortas. Mas ecoam altivos
os gritos dos homens ainda ternos que
regressam dos primeiros espetáculos, camisolas
interiores e camisetas a esvoaçar sobre
as cinturas estreitas e seminuas… Param na praça,
por baixo da minha casa, à volta do café
já vazio, ou mais longe entre carroças
ou as filas inanimadas de caminhões de ferrugem
onde a lua brilha mais, e os becos,
desembocando, são mais escuros – ou iluminados
apenas para revelarem, de viés,
numa pedra leve e desossada
como esponja, paredes inchadas
incrustadas de rosáceas e bossagens;
e, neste bairro mexicano, o céu reflete
o seu ignorado encanto,
com vapores frescos como casca de maçã,
sobre os pardieiros do proletariado
que, brigão e humilde, festeja o fim do dia.
Ainda sobre a morte de seu irmão. Pier Paolo, sua mãe e Guido foram evacuados de Bolonha para Friuli. Guido, nesta época, entrou direto da Resistência. Pier Paolo era liberal, ainda não tinha lido Marx. Guido lutou bravamente nas montanhas, entre Friuli e a Iugoslávia, onde ocorria parte dos conflitos. A violência era terrível e Guido estava na linha de frente, contra os fascistas iugoslavos e os alemães queriam anexar o território italiano. Guido morreu tentando ajudar seus companheiros e comandantes. Em 1945, Pier Paolo publica Stroligut, onde há um poema sobre a morte de Guido Pasolini.

UMA EDUCAÇÃO SENTIMENTAL
A RESISTENCIA E A SUA LUZ
LÁGRIMAS
Quem fui? Que sentido teve a minha presença
num tempo que este filme evoca
e já tão tristemente fora do tempo?
Não posso fazê-lo agora, mas um dia
vou ter de aprofundar bem esta questão,
até um definitivo alívio…
Eu sei: acabava de ser parido para um mundo
onde a dedicação de um adolescente
- bondoso como sua mãe, imprevidente
e fogoso, monstruosamente
timido, e desconhecendo qualquer cumplicidade
que não fosse ideal – era sinal
aviltante de escândalo, santidade
ridícula. E estava condenada
a converter-se em vício: que a idade corrompe
a mansidão, e do angustiado
dom de si mesmo faz obsessão. E se descobri
de novo uma angustiada pureza
no meu amor, amor nu, sem
futuro. Por demais perdido no turbilhão
do mundo, por demais banhado pela amargura
de um riso embora triste, chapliniano…
É uma rendição. Humilde embriaguez do olhar,
participante, ardente – e inativo.
Redescoberta humilde da alegre permanência
dos outros homens no mal: o real,
vivido por eles num empíreo de lugares
miseráveis, ridentes, nas margens
de alegres torrentes, nos cumes
de montes luminosos, em terras oprimidas
pela antiga fome…
É um sentimento de grandeza o sentimento
que me consome nos mínimos gestos
de cada um dos nossos dias: reconhecimento
por reaparecerem ainda intactos
perante mim, sobrevivente, e ainda banhado
em bafiento pranto…
Anos depois, a morte de Guido seria usada inúmeras vezes por jornais italianos de direita como provocações políticas, sobretudo ao próprio Pasolini, que já era considerado “escritor marxista”. Em 1945, Pier Paolo formou-se em Literatura e estabeleceu-se definitivamente em Friuli. Nesta época começou a atividade política. Em 1947 passou a contribuir para o hebdomadário do Partido Comunista ‘Lotta e lavoro’. Após muito receio, Pier Paolo tornou-se Secretário da Seção de San Giovanni di Casarsa. Porém, este período com o Partido Comunista não seria tão agradável.

A RELIGIÃO DO MEU TEMPO
Dois dias de febre! O bastante
para não poder suportar o exterior,
mesmo levemente renovado pelas nuvens
quentes de Outubro, e agora tão moderno
- que me parece não poder já compreendê-lo -
nos dois rapazes que sobem a rua
lá ao fundo, na alvorada da sua juventude…
Sem graça, ignorados: mas os cabelos
reluzem sob uma festiva camada
de brilhantina – roubada no armário
dos irmãos mais velhos; e a gangue das calças,
desbotadas pelo sol de Ostia e pelo vento,
foi sendo roída por sóis citadinos,
milenares; mas é obra esmerada
a que o pente lhes fez na risca
dos cabelos louros e nas poupas.
Surgem à esquina de um prédio,
eretos, mas cansado da subida,
e o que vejo desaparecer por fim são os jarretes,
à esquina de outro prédio. A vida
é como se nunca tivesse existido.
O sol, a cor do céu, a hostil
suavidade que o ar toldado
por renascidas nuvens dá de novo às coisas,
tudo acontece como numa hora
passada da minha existência: misteriosas
manhãs de Bolonha ou de Casarsa,
doridas e perfeitas como rosas,
renascem aqui, a esta luz vista
por dois olhos tristes de rapaz
que mais não conhece do que a arte
de se perder, claro em fundo escuro.
E eu nunca pequei: sou
puro como um santo velho, mas
também nunca possuí; o dom
desesperado do sexo desapareceu
em fumo: sou bom
como um louco. O passado
é aquilo que tive por destino,
nada mais que vazio desconsolado…
e consolador. Observo, debruçado
da sacada, os dois rapazes que vão, lestos,
ao sol; e aqui estou, como um menino
que não chora apenas por aquilo que não teve,
mas também pelo que não terá…
E nesse pranto o mundo é um odor,
nada mais: violetas, prados, que a minha mãe
tão bem conhece, e em que primaveras…
Um odor que ondula para se tornar, aqui
onde o pranto é doce, matéria
de expressão, tonalidade… voz familiar
desta língua louca e verdadeira
que tive ao nascer e que na vida está imóvel.
A insatisfação de membros do Partido Comunista com a presença de Pasolini aumentava cada vez mais. Acusavam-no de desinteresse pelo regime socialista. Em um texto publicado, Pasolini afirma que “em mim há o sinal de Rimbaud, ou de Campana, ou de Wilde, gostem as pessoas ou não”. Logo em seguida, foi acusado de estar com dois ou três garotos, cujos pais não o processaram, porém, membros do Partido queriam investigar. Foi um período de muitos conflitos ideológicos entre o Partido Comunista e a Democracia Cristã, Pasolini sofria mais por causa de suas ideias anticlericais. Até que em 1949, Pasolini foi expulso do PCI por “indignidade moral”.

A UM PAPA
Poucos dias antes de morreres, a morte
pousou os olhos em alguém da tua idade:
ais vinte anos, tu estudavas, ele era pedreiro,
tu, nobre, rico, ele, um rapazote plebeu:
mas os mesmos dias douraram sobre vós
a velha Roma, voltando a dar-lhe a sua juventude.
Vi os seus despojos, pobre Zucchetto.
Andava de noite, bêbado, à volta dos Mercados,
e um elétrico que vinha de San Paolo atropelou-o
e arrastou-o por uns metros de carris no meio dos plátanos:
durante uma horas ficou ali, sob o rodado:
poucas pessoas se juntaram em redor, olhando-o,
em silêncio: já era tarde, havia pouca gente.
Um dos homens que existem para que tu existas,
um velho policial, desbocado como todos os patifes,
gritava aos que se aproximavam mais: “Larguem-lhe os colhões!”
Depois veio uma ambulância buscá-lo:
as pessoas desapareceram, só ficaram uns grupos aqui e acolá,
e, mais à frente, a dona de um cabaré,
que o conhecia, disse a um recém-chegado
que Zucchetto tinha ficado debaixo de um elétrico, que estava morto.
Poucos dias depois, morrias tu: Zucchetto era um
dos do teu grande rebanho romano e humano,
um pobre bêbado, sem família nem leito,
que andava de noite, vivendo ao deus-dará.
Tu ignoravas: como ignoravas
outros milhares e milhares de cristos como ele.
Talvez seja cruel ao perguntar por que razão
a gente como Zucchetto é indignada do teu amor.
Há lugares infames, na lama de outras eras.
Não muito longe de onde tu viveste,
à vista da bela cúpula de San Pietro,
fica um desses lugares, o Gelsomino…
Um monte cortado ao meio por uma pedreira, e no sopé,
entre um charco e uma fieira de prédios novos,
um montão de tugúrios miseráveis, não casas mas pocilgas.
Bastava um gesto teu, uma palavra,
para esses filhos terem uma casa:
nunca fizeste um gesto, nunca disseste uma palavra.
Ninguém te pedia que perdoasses Marx! Uma vaga
imensa que irrompe sobre milênios de vida
te separava dele, da sua religião:
mas não se fala, na tua religião, de piedade?
Milhares de homens sob o teu pontificado,
diante dos teus olhos, viveram em estábulos e pocilgas.
Tu sabias que pecar não é fazer o mal:
não fazer o bem, isso sim, é que é pecar.
Quanto bem podias tu ter feito! E não fizeste:
não houve quem mais pecasse do que tu.
Desgastado com o Partido Comunista Italiano, envolvido em polêmicas morais e mal visto pelos diretores do Partido, Pasolini resolveu sair de Casarsa e muda-se com sua mãe para Roma, para tentar começar uma vida nova. Uma vez em Roma, Pasolini encontrou dificuldades. Os subúrbios romanos eram uma realidade completamente nova, carentes, pobres. Pasolini não conseguia escrever. Seu pai também foi para Roma encontrá-los, passaram a morar em Ponte Mammolo. No início dos anos cinquenta, Pasolini, com ajuda do poeta Vittori Clemente, conseguiu um emprego de professor em uma escola particular de Ciampino.

POEMAS MUNDANOS
21 DE JUNHO DE 1962
Trabalho todo dia como um monge
e à noite vagueio, como um gato
à cata de amor… Vou sugerir
à Cúria que me santifique.
Com efeito, respondo à mistificação
com a mansidão. Olho com olhos
de imagem os que vão linchar-me.
Observo o meu massacre com a coragem
serena de um sábio. Pareço
sentir ódio, mas escrevo
versos cheios de amor atento.
Estudo a perfídia como um fenômeno
fatal, como se dela não fosse objeto.
Tenho pena dos jovens fascistas,
e aos velhos, que são para mim formas
do mais horrível mal, oponho
apenas a violência da razão.
Passivo como um pássaro que, voando,
tudo vê, e, no seu vôo para o céu,
leva no coração a consciência
que não perdoa.
A situação estava muito complicada em Roma. Desemprego, o pai deprimido, sua mãe com problemas, foi quando Pier Paolo, arrumou um emprego na industria de cinema nos degraus inferior da Cinecittà onde se tornou revisor, e para onde enviou seus escritos. Finalmente, encontra um emprego de professor em Ciampino. Nesta época começou a colaborar com a Parangone, onde, publicou a primeira versão do primeiro capítulo de Ragazzi di Vita. Em 1954, Pier Paolo se mudou para Monteverde Vecchio, bairro pequeno burguês em Roma e publicou La Meglio Gioventu.

SÚPLICA A MINHA MÃE
É difícil dizer com palavras de filho
aquilo a que intimamente bem pouco me pareço.
És a única no mundo que sabe o que esteve sempre
no meu coração, antes de qualquer outro amor.
Por isso tenho de dizer-te o que é horrível sabe:
é na tua graça que nasce a minha angústia.
És insubstituível. Por isso está condenada
à solidão a vida que me deste.
E eu não quero estar só. Tenho uma fome infinita
de amor, do amor de corpos sem alma.
Porque a alma está em ti, és tu, mas tu
és minha mãe e o teu amor é a minha servidão:
vivi a infância como escravo desse sentimento
supremo, irremediável, de um fervor imenso.
Era a única maneira de sentir a vida,
a única cor, a única forma: agora terminou.
Sobrevivemos: e é o caos
de uma vida que renasce fora da razão.
Suplico-te, ah, suplico-te: não queiras morrer.
Estou aqui, sozinho, contigo, num Abril futuro…
Em 1955, Ragazzi di vita fez um certo sucesso em Roma entre o público, porém, o PCI não gostou, julgando-o “de gosto mórbido”, “sujo”, “abjeto”, e prometeu uma ação contra Pier Paolo, que foi absolvido. Passou então a ser o alvo predileto dos jornais que acusavam-no de tudo que era crime, inclusive de mão armada e roubo. Nesta mesma época passou a colaborar com a revista ‘Officina’, publicou os poemas curtos Le Ceneri di Gramsci, e no ano seguinte L’Usigolo della Chiesa Cattolica. Seguido da publicação de Passione e Ideologia, e em 1961, uma edição de La religione del mio ritmo.

PEDRO II
TERÇA-FEIRA, 5 DE MARÇO (MANHÃ)
Ainda há pouco, era o início do dia,
e havia uma luz velha, moribunda, mas depois
veio o azul de um golfo do Sul, no gelo da nortada.
Um dia que só era preciso descobrir pairava sobre nós.
Soberbamente longe de todas as nossas paixões.
Quem dentro em pouco se vai sentar no banco dos réus
olha para esse azul, e sente uma ânsia maravilhosa
de liberdade – como no tempo em que pensar num dia novo,
nascido sobre margens delicadas de rios nórdicos,
evocava um mundo extasiado com o ódio divino
de guerras antigas, e os mantos de flores campestres,
para lá dos becos da periferia das terras venetas,
eram, no gelo do dia que amornava,
povos nus por baixo das lorigas, ao sol de Homero.
Quisestes ter um poeta neste banco
polido pelas calças de tantos pobres cristos?
Pois bem, aí o tendes. Nas greves da Poesia, a Justiça
passa a ser voz cega de andorinhas.
E não porque a Poesia tenha o direito
de delirar com um pouco de azul, um dia mísero
e sublime que nasce com a melancolia da morte.
Mas porque a Poesia é Justiça. Justiça que cresce
em liberdade, nas terras da alma, onde
em paz se cumprem os nascimentos dos dias, as origens
e os fins das religiões, e os atos de cultura
são também atos de barbárie,
e quem julga é sempre inocente.
Em 1957, Pier Paolo, junto com Sérgio Citti, colaboraram para o filme, Le notti di Cabiria, de Federico Fellini, escrevendo um diálogo em dialeto romano. Foi seu primeiro contato com cinema. Cinco anos depois, Pier Paolo fez seu primeiro filme como diretor e roteirista, Accattone. O filme foi proibido para menores de 18 anos e causou muita polêmica no XXII Festival de Veneza. Um ano depois dirigiu Mamma Roma. Esses dois primeiros filmes o empurraram para o exterior, com o primeiro viajou para Índia, com Elsa Morante e Morávia, e com o segundo, para o Sudão e o Quênia.

PEDRO II
QUINTA-FEIRA
7 DE MARÇO
(MANHÃ)
Pois é, fui condenado.
Episódio pessoal, cicuta que terei de beber sozinho.
Como o herói de uma opereta de dor, de coturnos
entre o baixo coro, desço numa noite – morna -
a horrenda escadaria. Os amigos vão jantar.
Sozinho. Com três gatos de fotógrafos, e a pequena
multidão que não olho, herói encolhido na sua dor.
São as ruas que percorro todas as noites
e que agora revelam na sua verdadeira realidade:
não são o meu domínio, a minha paisagem,
a minha intimidade, pertencem a outros,
e o seu valor parece-me agora extremamente estranho.
A tepidez monstruosa de uma Primavera que não há,
a infinita confidência das coisas conhecidas e reencontradas,
as solidões urbanas no ar terno do crepúsculo
imediato, ainda invernal… Esperanças ingênuas,
mitos poéticos de uma alma que é, na realidade,
a hóspede, a visita pobre que ninguém conhece,
e a quem ninguém dá o direito de estar aqui.
Uma insolente certeza revelam, porém, os que agora se dizem
donos desta cidade despojada de poesia:
campeões não de um ideia política, mas de uma classe,
com as suas casas, as suas famílias, as suas amizades,
que aqui têm raízes profundas, com iníquo gosto
e iníqua consciência: mas com pleno direito.
Vi bem de frente essa “classe”, durante um dia inteiro,
e senti o terror que os antigos sentiram pelos monstros.
A descoloração histérica da pele (omissis,
omissis, omissis), os olhos miúdos
embainhados em duas pálpebras uterinas,
a boca mole do napolitano amante
de comida fétida (omissis, omissis,
omissis), em cujo sangue quente
ressuma sangue de vendedores ambulantes.
E esta efígie, que foi pobre, agora,
nesta mudança desproporcional dos valores da história,
é a de um (omissis) homem de Estado:
do Estado pequenos burguês e paterno.
É ele o possuidor desta minha realidade,
e, ao saber isso, a realidade despoja-se,
passa a ser coisa repugnante, nua, como nos sonhos.
Sozinho: eu, e a Baba que o monstro deixa ao passar pelo mundo.
Em 1963, Pier Paolo dirigiu o filme La ricotta. Porém o filme foi confiscado e Pier Paolo foi acusado pelo crime de difamação pública contra a religião e o Estado. Com este filme viajou para Gana, Nigéria, Guiné. A carreira crescia e Pasolini já era um nome conhecido pela audácia e polêmica, o que causava enorme desconforto, tanto na política, quanto na sociedade. Em 1964, dirigiu o notório Il Vangelo secondo Matteo.

UMA VITALIDADE DESESPERADA I
(versão, em “cursus” de “gíria” corrente, do episódio anterior:
Fiumicino, o velho castelo e uma primeira
ideia verdadeira da morte.)
Como num filme de Godard: sozinho
num automóvel que vai pelas auto-estradas
do Neo-Capitalismo latino – de regresso do aeroporto -
[no aeroporto ficou Moravia, puro no meio das bagagens]
    sozinho, “conduzindo seu Alfa Romeo”,
      sob um sol impossível de exprimir em rimas
      não elegíacas, porque celestial
      – o mais belo sol do ano -
como num filme de Godard:
      sob aquele sol que sangrava imóvel
      único,
   o canal do porto de Fiumicino
   – um barco a motor que regressa sem ser visto
   – os marujos napolitanos cobertos de trapos de lã
   – um acidente rodoviário, pouca gente à volta…
- como num filme de Godard – redescoberta
do romantismo numa ótica
de cinismo neo-capitalista, e crueldade -
ao volante
pela estrada de Fiumicino,
e cá está o castelo (que doce
mistério, para o realizador francês,
no toldado e infinito sol secular,
este mamarracho papal, com as seteiras
voltadas para as sebes e os veios do feio campo
dos camponeses servos)…
- sou como um gato queimado vivo,
esmagado pelo pneu de um caminhão,
enforcado por miúdos na figueira,
mas ainda com, pelo menos, seis
das suas sete vidas,
como serpente reduzida a papa de sangue
enguia meio devorada
- faces cavadas sob os olhos abatidos
cabelos horrendamente ralos sobre o crânio
braços magros como os de um menino
- “ao volante do seu Alfa Romeo”, Belmondo
é um gato que não morre
e que na lógica da montagem narcisista
se destaca do tempo, e no tempo se insere
a si mesmo:
em imagens que nada têm a ver
com o tédio das horas em fila…
com o lento e excessivo fulgor da tarde…
A morte não está
em não se poder comunicar
mas em já não se poder ser compreendido.
E este mamarracho papal, não desprovido
de graça – a memória
das rústicas concessões senhoriais,
inocentes, no fundo, como inocente era
a resignação dos servos -
aqui, ao sol que foi,
ao longo dos séculos,
em milhares de tardes,
o único anfitrião,
este mamarracho papal, ameado,
aninhado em choupais de marema,
campos de melancias, diques,
este mamarracho papal blindado
por contrafortes da suave cor de laranja
de Roma, gretados
como construções de etruscos ou romanos,
está prestes a já não poder ser compreendido.
Em 1965, Pier Paolo dirigiu o filme Uccellacci Uccellini. Em 1966, por ocasião da apresentação de Mamma Roma e Accattone no Festival de Cinema de Nova Iorque, fez sua primeira viagem aos Estados Unidos. “Eu nunca caí assim de amor por um país. Exceto a África, talvez. Mas na África eu gostaria de ir, de modo a não me matar. Sim, a África é como uma droga que se toma ao invés de se matar. Por outro lado, Nova Iorque é uma luta que você enfrenta ao invés de matar a si mesmo”.

UMA VITALIDADE DESESPERADA VI
(uma vitória Fascista)
Ela olha-me, com pena.
“E… então você… – [sorriso mundano, ávido,
consciente da sua avidez e exibindo,
sedutor - olhos verdes cintilantes -
um leve e hesitante desprezo infantil
por si mesma] – então você é muito infeliz!”
“Bem (tenho de admitir)
estou muito confuso, menina.
Ao reler o meu livro datilografado
de poemas (este, de que falamos)
tive a visão… oh, se fosse apenas
um caos de contradições – de tranquilizadoras
contradições… Mas não, é a visão
de uma alma confusa…
Qualquer falso sentimento
gera a certeza absoluta de o sentir.
O meu falso sentimento era o…
da saúde. Estranho! ao dizer-lho
- incompreensiva por definição,
com aquele rosto de boneca sem lábios -
verifico com uma clareza clínica
o fato
de nunca ter tido nenhuma clareza.
É certo que por vezes pode bastar,
para se ser são (e claro)
acreditar que se é… Todavia
(escreva, escreva!) a minha confusão
atual é a consequência
de uma vitória fascista
             [novos, incontrolados, fiéis
              furores mortais]
Uma vitória pequena, secundária.
E fácil. Eu estava sozinho:
com estes meus ossos, uma mãe tímida
e aterrorizada, e a minha vontade.
O objetivo era humilhar um humilhado.
Devo dizer-lhe que o conseguiram,
e mesmo sem grande esforço. Se eles
tivessem sabido que seria assim tão simples
talvez se tivessem incomodado menos, e a menos!
(Ai, como vê, utilizo o plural genérico: Eles!
com o amor cúmplice do louco pelo seu próprio mal.)
Os resultados dessa vitória
também contam muito pouco: menos uma assinatura
de peso nos apelos a favor da paz.
Ora, a parte objecti, não é muito.
A parte subjecti… Mas deixemos isso:
já descrevi demasiado
e nunca oralmente
as minhas dores de verme pisado
que ergue a cabeça e se debate
com uma ingenuidade repugnante, etc.
Uma vitória fascista!
Escreva, escreva: eles (eles!) têm de saber que eu sei:
com a consciência de um pássaro ferido
que morre mansamente e não perdoa.”
Na época do lançamento do livro Poesia in forma di rosa, Pier Paolo, que já era cineasta reconhecido, disse que “Como poeta, realizei todos esses filmes. Não me parece oportuno fazer aqui uma análise da equivalência entre o “sentimento poético” provocado por certos excertos dos meus livros de poemas. A tentativa de definir essa equivalência nunca foi feita, a não ser genericamente, remetendo para os conteúdos. Todavia, creio que não se poderá negar que uma determinada forma de sentir qualquer coisa se repete, idêntica, na leitura de alguns dos meus versos e em alguma das minhas filmagens”.

FRAGMENTO DE CARTA PARA  JOVEM CODIGNOLA
Querido rapaz, sim, claro, vamos encontrar-nos,
mas não esperes nada desse encontro.
Quando muito, mais uma decepção, mais um
vazio: daqueles que fazem bem
à dignidade narcisista, como uma dor.
Aos quarenta anos sou como era aos dezessete.
Frustrados, o homem de quarenta anos e o rapaz de dezessete
podem, decerto, encontrar-se, balbuciando
ideias convergentes, sobre questões
separadas por dois decênios, uma vida inteira,
mas que aparentemente são as mesmas.
Até que uma palavra, saída das gargantas hesitantes,
paralisada de pranto e vontade de estar só -
lhes revele a disparidade sem remédio.
E, ao mesmo tempo, terei de fazer de poeta
pai, e refugiar-me na ironia
- que te embaraçará: porque o homem de quarenta anos
é mais alegre e mais jovem do que o rapaz de dezessete,
sendo já senhor da vida.
Para além desta aparência, deste disfarce,
nada mais tenho a dizer-te.
Sou avarento, o pouco que possuo
está bem fechado neste meu coração diabólico.
E os dois palmos de pele entre a face e o queixo
por baixo da boca torcida de tanto sorrir
de timidez, e o olhar que perdeu
a sua doçura, como um figo que azedou,
parecer-te-iam que te faz sofrer,
uma maturidade não fraterna. De que pode servir-te
alguém da tua idade – mas entristecido
na magreza que lhe devora a carne?
O que ele deu, está dado, o resto
é árida piedade.
Em 1968, Pier Paolo concordou em participar do Festival de Veneza desde que não houvesse premiação. Era defensor da Autori Associazione Cinematografici gerenciar o Festival de Veneza. Em setembro passou Teorema no festival para os críticos em um ambiente quente. Pier Paolo interrompeu a projeção para confirmar que o filme estava no festival por pedido do produtor, e pediu para os críticos deixarem a sala. Ninguém o fez. Pier Paolo então não foi à conferência da imprensa e convidou os jornalistas para um jardim do hotel, não para falar do filme, e sim, para discutir o festival.

A MADRUGADA MERIDIONAL
Passeava nas proximidades do hotel – era ao anoitecer -
e quatro ou cinco rapazes surgiram,
na pele de tigre dos campos, sem
um penhasco, uma cova, um resto de vegetação
que fosse abrigo para eventuais disparos: que
Israel estava ali, sobre a mesma pele de tigre,
semeada de casas de cimento e muros
inúteis, como em todos os subúrbios.
Fui ter com eles, àquele lugar absurdo,
longe da estrada, do hotel,
da fronteira. Foi mais uma amizade,
daquelas que duram uma noite
e atormentam depois toda uma vida. Eles,
deserdados, e também crianças
(que, dos deserdados têm o saber
do mal – o furto, a rapina, a mentira -
e, das crianças, o idealismo ingênuo
de sentir que se consagram ao mundo),
tiveram logo a velha luz do amor
- como de gratidão – no fundo dos seus olhos.
E falando, falando, até
cair a noite (e já um me abraçava,
ora dizendo que me odiava, ora que não,
que me amava, me amava), soube, por eles, todas as coisas,
todas as coisas mais simples. Eles eram os deuses,
ou filhos de deuses, que misteriosamente disparavam
por um ódio que os faria descer das montanhas de argila,
como noivos sedentos de sangue, sobre os Kibutz invasores
na outra metade de Jerusalém…
Maltrapilhos, que agora vão dormir
ao relento, no fundo de um baldio dos subúrbios.
Com os irmãos mais velhos, soldados
armados de uma velha espingarda e bigodes
de mercenários resignados com mortes antigas.
São estes os Jordanos, terror de Israel,
este que à minha frente choram
a dor antiga dos foragidos. Um deles,
emissário do ódio, já quase burguês (ao moralismo
chantagista, ao nacionalismo que empalidece de raiva
neurótica) canta-me o velho refrão
que aprendeu na sua rádio, com os seus reis -
outro, no meio dos seus trapos, ouve concordando,
enquanto, como um cachorrinho, se encosta a mim,
não sentindo, naquele campo de fronteira,
no deserto jordano, no mundo,
mais do que um mísero sentimento de amor.
Em 1972 Pier Paolo publicou um livro de críticas chamado Empirismo eretico, baseado, sobretudo, em crítica de cinema. No mesmo ano decidiu apoiar os jovens de Lotta Continua, assinando o documentário Piazza Fontana em Milão: 12 dicembre. Também comprou o que restava de um castelo medieval perto de Viterbo. Por volta de 1973, começou a colaborar com o jornal Corriere della Sera. Desde o fim dos anos sessenta, Pier Paolo já tinha dirigido filmes que se tornariam clássicos como Edipo Rei, Porcile, Medea, Il decameron, Eu racconti de Canterbury e Il Fiore delle Mille e una notte.

Outra tradução de Mauvais Sang em http://pedrolago.blogspot.com
PROJETO DE OBRAS FUTURAS
Oh Marx – tudo é ouro – oh Freud – tudo
é amor – oh Proust – tudo é memória -
oh Einstein – tudo é fim – oh Charlot – tudo
é homem – oh Kafka – tudo é terror -
oh população dos meus irmãos -
oh pátria – oh aquilo que garante a identidade -
oh paz que permite a dor selvagem -
oh marca da infância! Oh destino de ouro
construído sobre o eros e a morte, como
uma distração – e os seus mil e um pretextos,
o riso, a filosofia! Ter ilusões (o amor)
diferencia, mas num círculo consagrado por textos
insubstituíveis. Volto com Israel no coração,
sofrendo pelos seus filhos-irmãos a saudade
da Europa românica, occitânica com o esplendor
um tanto murcho mas cheio de uma poesia atroz
das suas capitais burguesas, sobre os rios ou os mares…
Norma negativa de amor, o verdadeiro caminho
de quem quer ser é desiludir. O que torna todos iguais
entre si, como os mortos:
mas volta a pôr em causa os sagrados
textos dos círculos. Por isso, enquanto se espera
que um novo Grande Judeu surja com um novo TUDO É
- para o qual se volte este enxovalhado mundo -
há que desiludir, na nossa pequenez… Eh!
há que abandonar o nosso lugar ao sol
(e vocês, Judeus!, devem abandonar Israel
que a cegueira do amor
reduz as invenções a instituições,
para reinventar depois só com o coração:
e chega mesmo a unir nações
com a cumplicidade de mãe e filha ao sol
- perseguindo, não?, as oposições…)
Quanto a mim, também (raiva) tendo para esse amor,
religião de um filho elegíaco,
que quer a todo o custo engrandecer-se.
E que aliás também não se esgota no novelo
de vida já vivida a ainda por viver: quer
reduzir tudo à sua qualidade de lírio.
Basta, é ridículo. Ah, obscuras
ambiguidades que conduzem a um “destino de oposição”!
Mas não há outra alternativa para as minhas obras futuras.
“OPOSIÇÃO PURA”, “PAPA JOÃO”, ou “PAIXÃO
(OU ARQUIVO) DOS ANOS SESSENTA”, seja o que for,
o órgão onde primeiro depositarei, em visão
semi-privada, claro está, essas minhas obras futuras,
surge como via sem alternativas, para mim e para a redação
dos imberbes incumbidos da tarefa – minúsculo bando
que quer saber: como por eleição
de sêmen. Oposição de quem não pode
ser amado por ninguém, e que ninguém pode amar, e manifesta
depois o seu amor como um não
pré-estabelecido, o exercício do dever
político como exercício de razão.
Em 1975, Pier Paolo, com Garzanti, publicou a coleção de críticas Scritti corsari, e também uma nova proposta da poesia Friulan com o título La nuova gioventù. Neste mesmo ano termina aquele que seria seu último filme Salò e le 120 Giornate di Sodoma. Na manhã de 2 de novembro de 1975, no litoral romano de Ostia, num campo baldio na Vila dell’idroscalo, uma mulher, Maria Tereza Lollobrigida, descobriu um corpo de um homem morto. Era Pier Paolo Pasolini. Estava cheio de hematomas e feridas de espancamento e atropelamento. Um jovem chamado Giuseppe Pelosi, conhecido como ‘Pino La Rana’ confessou o crime. O jovem alegou que após ter investido sexualmente contra ele, Pasolino começou a xingá-lo violentamente. Tempos depois, houve uma suspeita mais concreta da participação de outras pessoas no assassinato. Nada foi comprovado e o jovem foi preso.
VITTORIA
Onde estão as armas? Só conheço
as armas da minha razão:
e na minha violência não há qualquer lugar
NEM PARA A SOMBRA DE UMA AÇÃO
QUE NÃO SEJA INTELECTUAL. Haverá motivo para rir
se agora, nesta manhã cinzenta
que mortos já viram, e outros morto verão,
mas que para nós é só mais um manhã,
grito palavras de luta
sugeridas pelo sonho? Não sei
o que será de mim ao meio-dia
mas o velho poeta está “ab joy”
e fala, como andorinha ou estorninho
- e como um jovem gostaria de morrer.
Onde estão as armas? Não regressam
os dias antigos, eu sei, o Abril vermelho,
de juventude, passou para sempre.
Só um sonho, de alegria, pode iniciar
uma estação de dor armada.
Eu que fui um resistente sem armas
- um místico, um imberbe Cavaleiro andante -
sinto agora na vida o germe
horrendamente perfumado da Resistência.
Esta manhã, as folhas estão imóveis
como sobre o Tagliamento ou o Livenza:
não é que venha lá um temporal,
ou que a noite esteja prestes a cair, é a ausência
da vida, que se contempla, e se mantém
longe de si mesma, tentando perceber
que terríveis, que serenas
forças a enchem ainda: perfume de Abril!
Um jovem armado por cada fio de erva,
voluntário por vontade de morrer!
“Então, é absolutamente necessário morrer, porque estamos vivos e carentes de sentido, e a linguagem da nossa vida (com a qual expressamos nós mesmos e para qual damos a importância máxima) é intraduzível. um caos de possibilidades. Uma pesquisa das relações e significados sem solução de significados de continuidade faz da morte uma montagem instantânea de nossa vida, ou seja, ela escolhe momentos realmente significativos e coloca-os em sucessão, fazendo de nosso interminável, instável e inseguro presente e por isso não descritível linguisticamente, um passado claro, estável e seguro e assim, linguisticamente descritível. Somente graças à morte a nossa vida é usada por nós para expressar a nós mesmos.”

VITTORIA
(trecho final)
Vão-se embora… Socorro, voltam-nos as costas,
aquelas costas ocultas em heróicos casacos
de mendigos, desertores… Estão tão serenas
as montanhas para onde regressam, bate-lhe
tão ao de leve nas ancas a metralhadora, enquanto vão andando
como se anda ao pôr do sol sobre as intactas
formas de vida –  que volta a ser a mesma no mais vil
e no mais fundo! Socorro, eles vão-se embora! Voltam para o
silencioso mundo de Marzabotto ou Via Tasso…
Com a cabeça desfeita, a nossa cabeça, humilde
tesouro da família, cabeça grande de segundo filho,
o meu irmão volta a mergulhar no seu sono de sangue, sozinho
entre as folhas secas, nos ermos serenos
de um bosque dos Pré-Alpes, perdido no ouro
da paz de um Domingo interminável…
…..
E no entanto, este é um dia de vitória.

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Bocage

Manuel Maria Barbosa du Bocage nasceu em Setúbal, Portugal, a 15 de setembro de 1765. Seu pai, José Luís Soares de Barbosa era bacharel em Cânones e lá trabalhava como advogado. Sua mãe D. Mariana Joaquina Xavier Lestof du Bocage era filha de francês, o vice-almirante da armada portuguêsa Gil Le Doux du Bocage. O casal teve seis filhos e o nosso homenageado do mês foi o quarto a nascer. A sua irmã caçula, D. Maria Francisca, foi-lhe durante a vida inteira uma companheira permanente, e quem, após sua morte, guardou grande parte de seus manuscritos. Senhoras e senhores, com vocês, um dos maiores poetas de nossa língua, o grande Bocage.

O AUTOR AOS SEUS VERSOS

Chorosos versos meus desentoados,

Sem arte, sem beleza e sem brandura,

Urdidos pela mão da Desventura,

Pela baça Tristeza envenenados:

Vede a luz, não busqueis, desesperados,

No mudo esquecimento a sepultura;

Se os ditosos vos lerem sem ternura,

Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:

Não vos inspire, ó versos, cobardia

Da sátira mordaz o furor louco,

Da maldizente voz e tirania:

Desculpa tendes, se valeis tão pouco,

Que não pode cantar com melodia

Um peito de gemer cansado e rouco.

Seu pai, que tinha grande conhecimento literário e gostava muito de poesia, logo percebeu o talento do filho e investiu na sua formação. Aos 14 anos já havia ingressado na infantaria de Setúbal e tinha aulas de latim. Isso, refletiu na sua poesia, sem falar nas traduções de Virgílio e Ovídio. Em 1779, foi para Lisboa para estudar na Academia Real da Marinha, entretanto, foi na capital que conheceu a vida boemia e de dissipação. Foi também nesta época que tomou conhecimento das modinhas brasileiras que dominavam os salões. Acho que é importante frisar esta questão pré-brasileira e boemia, pois poderemos compreender algumas fases de sua poesia. Sempre o Brasil alí no meio.

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VISÃO REALIZADA

Sonhei que a mim correndo o gnídeo nume

Vinha coa Morte, co Ciúme ao lado,

E me bradava: -“Escolhe, desgraçado,

Queres a Morte, ou queres o Ciúme?

Não é pior daquela foice o gume

Que a ponta dos farpões que tens provado;

Mas o monstro voraz, por mim criado,

Quanto horror há no Inferno em si resume.”

Disse; e eu dando um suspiro: “Ah, não m’espantes

Coa a vista dessa fúria!… Amor, clemência!

Antes mil mortes, mil infernos antes!”

Nisto acordei com dor, com impaciência;

E não vos encontrando, olhos brilhantes,

Vi que era a minha morte a vossa ausência!

Em Portugal no fim do século XVIII, não havia individualidade entre os poetas. Os poetas se entregavam à bajulação dos poderosos que se tornavam uma necessidade para que tais poetas tivessem notoriedade, ou até mesmo trabalho. Eram versos encomiásticos, ou seja, que apenas elogiavam os poderosos e, não o fazer, era de certa forma indigno. Bocage foi contra isso, achava uma maneira sedutora de popularizar-se, mesmo podendo sofrer com as possíveis chacotas. Assim, motivado pela situação, viaja para Índia através do Conselho Ultramarino, porém, fazendo escala no Rio de Janeiro. O governador-geral da capital da colonia era Luís de Vasconcelos Sousa Veiga Caminha e Faro, que era conhecido pela ajuda às letras e às ciências. Bocage, agora, já fazia fama no Brasil. Isto era 1786.

PROPOSIÇÃO DAS RIMAS DO POETA

Incultas produções da mocidade

Exponho a vossos olhos, ó leitores:

Vede-as com mágoa, vede-as com piedade,

Que elas buscam piedade, e não louvores:

Ponderai da Fortuna a variedade

Nos meus suspiros, lágrimas e amores;

Notai dos males seus a imensidade,

A curta duração de seus favores:

E se entre versos mil de sentimento

Encontrardes alguns cuja aparência

Indique festival contentamento,

Crede, ó mortais, que foram com violência

Escritos pela mão do Fingimento,

Cantados pela voz da Dependência.

Bocage viveu dois anos em Goa, na Índia, uma ilha que fala nosso português, onde permaneceu sob desalento, nostalgia, tomado pelas intrigas da sociedade local, e chegou a ficar doente. Porém, neste estado, compôs suas melhores sátiras e alguns de seus sonetos mais conhecidos. Atribui-se a sua saída de Goa ao poema erótico-obsceno, A Manteigui, nome da amante do governador local (os poemas deste motivo ficarão para mais tarde). De Goa seguiu para Damão, lá nomeado em 25 de fevereiro de 1789, tenente da infantaria da 5ª Companhia da Guarnição. Mas não suportou o tédio e fugiu para Macau. Ficou por lá alguns meses e foi parar em Cantão, na China. Nosso poeta vai peregrinando e sua poesia vai mudando.

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ACHANDO-SE AVASSALADO PELA FORMOSURA DE JÔNIA

Enquanto o sábio arreiga o pensamento

Nos fenonemos teus, oh Natureza

Ou solta árduo problema, ou sobre a mesa

Volve o subtil geométrico instrumento :

Enquanto, alçando a mais o entendimento,

Estuda os vastos céus, e com certeza

Reconhece dos astros a grandeza,

A distância, o lugar, e o movimento :

Enquanto o sábio, enfim, mais sabiamente,

Se remonta nas asas do sentido

À corte do Senhor omnipresente:

Eu louco, cego, eu mísero, eu perdido

De ti só trago cheia, ó Jonia, a mente :

Do mais, e de mim mesmo ando esquecido ..

Após sua passagem por Macau, em 1790, enfim, consegue retornar a Lisboa. Lá era considerado literalmente um “louco” com talento. Publicou versos, polemizou com os neo-árcades, continuou a ser seguido e perseguido pelo Intendente Manique (uma espécie de Inspetor Javert, grande personagem de Victor Hugo, só que português), interessou-se pela Revolução Francesa, colocando algumas idéias em seus versos, traduziu as Metamorfoses de Ovídio, tem uma briga literária com José Agostinho de Macedo (escritor do tipo polêmico e agressivo, fez um trabalho sobre a maçonaria), até que em 1797 é preso devido à suas declarações antimonárquicas e anticatólicas e, sobretudo, por uma briga com oficiais por estar distribuindo folhetos sobre a Revolução Francesa.

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POETA ASSETEADO POR AMOR

Ó Céus! Que sinto n’alma! Que tormento!

Que repentino frenesi me anseia!

Que veneno a ferver de veia em veia

Me gasta a vida, me desfaz o alento!

Tal era, doce amada, o meu lamento;

Eis que esse deus, que em prantos se recreia,

Me diz: “A que se expõe quem não receia

Contemplar Ursulina um só momento!

Insano! Eu bem te vi dentre a luz pura

De seus olhos travessos, e cum tiro

Puni tua sacrílega loucura:

De morte, por piedade hoje te firo;

Vai pois, vai merecer na sepultura

À tua linda ingrata algum suspiro.”

Deve ter sido muito difícil ser poeta em Portugal depois de Camões. Bocage sabia disso, e guardava uma profunda admiração pelo grande poeta e nele bebeu bastante, porém, o que Bocage não concordava era com a postura de seus poetas contemporâneos. Não havia uma identidade, não havia a coragem guerreira que havia em Camões, e sim, um mar de bajulações. Bocage foi contra tudo isso. Escreveu o que vivia, sem medos nem coerções, algo que se espera de um poeta, por isso sua poesia transcende e hoje estamos aqui para lembrá-lo. Poeta prolixo, escrevia em qualquer situação e o que fosse. Sonetos, odes, canções ou cantos, elegias, epicédios, idílios, cantatas, epístolas, sátiras, odes anacreônticas, quadras, apólogos, adivinhações, sem falar nas traduções e seus conhecidos poemas pornográficos.

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ACHANDO-SE AVASSALADO PELA FORMOSURA DE JÔNIA

Enquanto o sábio arreiga o pensamento

Nos fenômenos teus,ó Natureza,

Ou solta árduo problema,ou sobre a mesa

Volve o subtil geométrico instrumento:

Enquanto,alçando a mais o entendimento,

Estuda os vastos céus,e com certeza

Reconhece dos astros a grandeza,

A distância,o lugar e o movimento:

Enquanto o sábio,enfim,mais sabiamente

Se remonta nas asas do sentido

À corte do Senhor omnipotente:

Eu louco,eu cego,eu mísero,eu perdido,

De ti só trago cheia,ó Jónia,a mente;

Do mais ,e de mim mesmo ando esquecido.

É fato que Bocage não teve uma infância feliz. Seu pai foi preso por dívidas ao Estado quando o poeta tinha seis anos e lá permanceu preso por seis anos. Sua mãe faleceu quando ele tinha dez. Viu na Marinha uma saída e lá fez seus estudos. A poesia veio neste período, como uma necessidade. É notória sua “pena afiada”, parece que o poeta colocou todas as suas indignações na poesia, talvez (opinião minha) que há um tom irônico, muitas vezes sarcástico e erótico em seus versos. Não parou com seu caminho quando enquanto perseguido pela polícia e pelos padres. Fora isso, há também a questão boêmia que lhe custou muitos versos.

GOZO FANTÁSTICO

Debalde um véu cioso, oh Nise, encobre

Intactas perfeições ao meu desejo;

Tudo o que escondes, tudo o que não vejo

A mente audaz e alígera descobre:

Por mais e mais que as sentinelas dobre

A sisuda Modéstia, o cauto Pejo,

Teus braços logro, teus encantos beijo,

Por milagre da idéia afoita, e nobre:

Inda que prêmio teu rigor me negue,

Do pensamento a indômita porfia

Ao mais doce prazer me deixa entregue:

Que pode contra Amor a tirania,

Se as delícias, que a vista não consegue,

Consegue a temerária fantasia?

Bocage era grande admirador de Camões. Nâo somente por sua poesia, mas também pela sua tragetória de vida. Bocage revelara uma vez que Camões era seu modelo, porém, lamentava a comparação “pelos transes da ventura” e não pela grandeza poética. Mas as semelhanças são diversas: Ambos seguiram na marinha, cruzaram o Cabo da Boa Esperança, eram boêmios, tiveram diversos amores, desamores e morreram quase na miséria. Vale lembrar que o conhecido lirismo camoniano nada tem a ver com a ironia bocagiana, e realmente deve ser difícil ser poeta ainda naquela época, depois de Camões, mas Bocage o foi com maestria.

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A CAMÕES, COMPARANDO COM OS DELE SEUS INFORTÚNIOS

Camões, grande Camões, quão semelhante

Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!

Igual causa no fez perdendo o Tejo

Arrostar co sacrílego gigante:

Como tu, junto ao Ganges sussurrante

Da penúria cruel no horror me vejo:

Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,

Também carpindo estou, saudoso amante:

Ludibrio, como tu, da sorte dura

Meu fim demando ao Céu, pela certeza

De que só terei paz na sepultura:

Modelo meu tu és…

Mas, oh tristeza!…

Se te imito nos transes da ventura,

Não te imito nos dons da Natureza.

Como consta, BOcage não era um poeta conceitual, voltado para grandes questões, e sim, pela sua ironia que a poesia se estendeu longínquamente. Fazia sátiras como ninguém, digo, ninguém mesmo, pois Bocage foi o único de sua época, pelo que se sabe até hoje, que foi contra as questões políticas e religiosas de sua época, quase que um gauche, lembrando nosso poeta Carlos. Bocage ridicularizou inúmeras pessoas, com escrita afiada e grande capacidade e grandeza poética. Ontem, conversando com amigas, chegamos a conclusão de que a inveja, em certos níveis, pode causar paixão. Ainda sobre sua admiração por Camões…

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EM LOUVOR DO GRANDE CAMÕES

Sobre os contrários o terror e a morte

Dardeje embora Aquiles denodado,

Ou no rápido carro ensanguentado

Leve arrastos sem vida o Teuco forte:

Embora o bravo Macedónio corte

Coa fulminante espada o nó fadado,

Que eu de mais nobre estímulo tocado,

Nem lhe amo a glória, nem lhe invejo a sorte:

Invejo-te, Camões, o nome honroso;

Da mente criadora o sacro lume,

Que exprime as fúrias de Lieu raivoso:

Os ais de Inês, de Vénus o queixume,

As pragas do gigante proceloso,

O céu de Amor, o inferno do Ciúme.

A modinha é considerada o primeiro estilo de música popular brasileira, como consta por aí, é atribuída a Domingos Caldas Barbosa. Lá pelo século XVII, na Bahia, a modinha era tocada nas ruas, acompanhada por uma viola com marcação em staccato (como também consta, é um tipo de fraseio ou de articulação no qual as notas e os motivos das frase musicais devem ser executadas com suspensões entre elas, ficando as notas com curta duração), cujas letras tinham conteúdo pagão. Algo bem bacante por sinal. Bocage conheceu a modinha quando veio ao Brasil por volta de 1786, quando ainda tinha 20 anos, além da modinha, conheceu outras maravilhas brasileiras também. Creio que para um poeta de 20 anos, português, no século XVII, vir ao Brasil com certeza desencaminha, ou, encaminha.

texto Laranjeiras no blog http://pedrolago.blogspot.com

A UM MULATO JOAQUIM MANUEL, GRANDE TOCADOR DE VIOLA E IMPROVISADOR DE MODINHAS

Esse cabra ou cabrão, que anda na berra,

Que mamou no Brasil surra e mais surra,

O vil estafador da vil bandurra,

O perro, que nas cordas nunca emperra:

O monstro vil que produziste, ó Terra

Onde narizes Natureza esmurra,

Que os seus nadas harmônicos empurra,

Com parda voz, das paciências guerra;

O que sai no focinho à mãe cachorra,

O que néscias aplaudem mais que a “Mirra”,

O que nem veio de prosápia forra;

O que afina inda mais quando se espirra,

Merece à filosófica pachorra

Um corno, um passa-fora, um arre, um irra.

Nesta semana veremos aqueles poemas os quais, pelo que me parece, a grande maioria conhece do poeta Bocage. Escrever poemas pornogáficos, para mim, é um grande questão para o poeta. Pois as emoções geradas pela libido, pela volúpia ou pelos exageros da luxúria são tão fundamentais quanto a necessidade de se falar de amor, por exemplo. Só que o poeta, às vezes, esbarra no medo do vulgar, do mau gosto, da contramão daquilo que se “espera” dele, e aí é que começa o erro. Se o motivo bate a sua porta, não há o que fazer, a não ser abraçá-lo.

texto “Beijos” no blog http://pedrolago.blogspot.com

SONETO IV (MARGINAIS)

Num capote embrulhado, ao pé de Armia,

Que tinha perto a mãe o chá fazendo,

Na linda mão lhe fui (oh céus) metendo

O meu caralho, que de amor fervia:

Entre o susto, entre o pejo a moça ardia;

E eu solapado os beiços remordendo,

Pela fisga da saia a mão crescendo

A chamada sacana lhe vazia:

Entra a vir-se a menina… Ah! que vergonha!

“Que tens?” – lhe diz a mãe sobressaltada:

Não pode ela encobrir na mão langonha:

Sufocada ficou, a mãe corada:

Finda a partida, e mais do que medonha

A noite começou de bofetada.

Quando Drummond enfim publicou seus poemas pornográficos, já era poeta consagrado, mas mesmo assim causou certa estupefação. Vinícius conseguiu um linha onde falava de coisas como “Toquei-lhe a dura pevide/Entre o pêlo que a guardava/Beijando-lhe a coxa fria/Com gosto de cana brava/Senti à pressão do dedo/Desfazer-se desmanchada/Como um dedal de segredo/A pequenina castanha/Gulosa de ser tocada.” sem ser vulgar. Mas ora, por que chamar de vulgar algo tão essencial? Esta é a questão. Tem um da Adélia Prado que é uma beleza que chama-se Objeto de Amar, mas quem quiser ver que procure, já basta aqui o nosso Bocage.

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SONETO XIII (MARGINAIS)

É pau, e rei dos paus, não marmeleiro,

Bem que duas gamboas lhe lobrigo;

Dá leite, sem ser árvore de figo,

Da glande o fruto tem, sem ser sobreiro:

Verga, e não quebra, como zambujeiro;

Oco, qual sabugueiro tem o umbigo;

Brando às vezes, qual vime, está consigo;

Outras vezes mais rijo que um pinheiro:

À roda da raiz produz carqueja:

Todo o resto do tronco é calvo e nu;

Nem cedro, nem pau-santo mais negreja!

Para carvalho ser falta-lhe um U;

Adivinhem agora que pau seja,

E quem adivinhar meta-o no cu.

Isso aí!

Bocage experimentou a vida boêmia em todos os lugares por onde passou. Lisboa, Macau, Goa, Brasil, Damão e, em todos estes lugares, envolveu-se ora com as prostitutas, ora com as mulheres casadas. Me parece que despertava um fascínio nas mulheres casadas, pois, não são poucos seus poemas dedicados à elas, tampouco seus problemas com relação a isso. Nise, citada inúmeras vezes com ternura em outros poemas, aqui se encontra em outro estado. Ela foi apenas mais uma de suas amantes, que como consta, o traira e o abandonara.

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SONETO VI (MARGINAIS)

Não lamentes, oh Nise, o teu estado;

Puta tem sido muita gente boa;

Putíssimas fidalgas tem Lisboa,

Milhões de vezes putas têm reinado:

Dido foi puta, e puta d’um soldado;

Cleópatra por puta alcança a c’roa;

Tu, Lucrécia, com toda a tua proa,

O teu cono não passa por honrado:

Essa da Rússia imperatriz famosa,

Que inda há pouco morreu (diz a Gazeta)

Entre mil porras expirou vaidosa:

Todas no mundo dão a sua greta:

Não fiques pois, oh Nise, duvidosa

Que isso de virgo e honra é tudo peta.

Quando viveu em Goa, Bocage foi alvo de intrigas da sociedade local. Sofria com nostalgias, desalentos, chegando inclusive a ficar doente. Porém, foi lá que compôs das suas melhores sátiras e alguns de seus poemas eróticos mais conhecidos, o que ainda lhe dificultou a vida. Viver na colônia de um país conservador como Portugal e ainda gozar de idéias extremamente liberais foi um pouco demais. Atribui-se a saída de Bocage de Goa à publicação do poema erótico A Manteigui, que era o nome da amante do governador local. Segue alguns trechos.

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A MANTEIGUI (TRECHOS)

Canto a beleza canto a putaria

De um corpo tão gentil como profano;

Corpo que, a ser preciso, engoliria

Pelo vaso os martelos de Vulcano:

Corpo vil, que trabalha mais num dia

Do que Martinho trabalhou num ano;

E que atura as chumbadas e pelouros

De cafres, brancos, maratas, e mouros.

(…)

Seus meigos olhos, que a foder ensinam,

Té nos dedos dos pés tesões acendem;

As mamas, onde as Graças se reclinam,

Por mais alvas que os véus os véus ofendem:

As doces partes, que os desejos minam,

Aos olhos poucas vezes se defendem;

E os amores, de amor por ela ardendo,

As piças pelas mãos lhe vão metendo.

(…)

Mete mete mais… Ah Dom Fulano!

Se o tivesses assim, de graça o tinhas!

Não viveras em um perpétuo engano,

Pois vir-me-ia também quando te vinhas:

Mete mais, meu negrinho, anda, magano;

Chupa-me a língua, mexe nas maminhas…

Morro de amor, desfaço-me em langonha…

Anda, não tenhas susto, nem vergonha…

Vemos claramente que o mito de Bocage não é verdadeiro. Muitos o conhecem apenas pelas suas corajosas sátiras e poemas pornográficos, assunto que interessa a todos, obviamente. Porém, Bocage, foi um dos que melhor sustentou a poesia na língua portuguêsa, e repito, não muito tempo depois de Camões. Soube enxergar seu tempo e seguir suas angústias. Enxergar o tempo pode ou não ser uma “função” poética, uma necessidade do artista, seja ele qual for. Creio que depende muito da necessidade e um pouco de angústia, esta sim, fundamental.

texto “A necessidade contemporânea” no blog http://pedrolago.blogspot.com

SONETO IX (MARGINAIS)

Arreitada donzela em fofo leito

Deixando erguer a virginal camisa,

Sobre as roliças coxas se divisa

Entre sombras sutis pachocho estreito:

De louro pêlo um círculo imperfeito

Os papudos beicinhos lhe matiza;

E a branda crica, nacarada e lisa,

Em pingos verte alvo licor desfeito:

A voraz porra as guelras encrespando

Arruma a focinheira, e entre gemidos

A moça treme, os olhos requebrando:

Como é ainda boçal perde os sentidos;

Porém vai com tal ânsia trabalhando,

Que os homens é que vêm a ser fodidos.

Um dos grandes admiradores e defensores de Bocage foi Olavo Bilac. Em 1917 numa conferência no Teatro Municipal de São Paulo, Bilac afirmou que Bocage “era o melhor metrificador da poesia portuguesa“. Depois, sobre o tempo em que viveu Bocage e da produção de seus contemporâneos, disse que “em Portugal, a arte de fazer versos chegou ao apogeu com Bocage e depois dele decaiu. Da sua geração e das que a precederam, foi ele o máximo cinzelador da métrica. A plástica da língua e do metro; a perícia do ensamblar das orações e no escandir dos versos; a riqueza e graça do vocabulário…” e por aí vai. Palavra de poeta.

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A MACACA

Nos serros do Brasil diz certo autor que havia

Uma namoradeira, uma sagaz bugia.

Milhões de chichisbéus pela taful guinchavam,

E por não terem asa, o rabo lhe arrastavam.

Qual, caindo-lhe aos pés de amores cego e louco,

Nas cabeludas mãos lhe apresentava um coco;

Qual do açúcar brilhante a sumarenta cana;

E qual um ananás, e qual uma banana.

Ela com riso astuto, ela com mil caretas,

Lhe entretinha a paixão, lhe ia doirando as petas;

Os olhos requebrava ao som de um suspirinho:

A todos prometia o mais fiel carinho,

E, se algum lhe rogava especial favor,

À terna petição dizia: “Sim, senhor.”

Mas com muita esperança o fruto era nenhum,

E os pobres animais ficavam em jejum.

Leitores, há mulher tão destra e tão velhaca,

Que nisto não ganha inda a melhor macaca.

Um dos estudos mais completos sobre a vida de Bocage foi feito por Teófilo Braga. No estudo, o autor diz que o povo português só conhece dois poetas: Camões e Bocage. De Camões sabe a lenda do seu amor pela pátria e, de Bocage, repete uma ou outra anedota picaresca. Diz entretanto que que Bocage “é o representante mais completo do século XVIII em Portugal, com o seu erotismo e bajulação áulica, com a galantaria improvisada e com os lampejos revolucionários”.

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ASPIRAÇÕES DO LIBERALISMO, EXCITADAS PELA REVOLUÇÃO FRANCESA, E CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA EM 1797

Liberdade, onde estás? Quem te demora?

Quem faz que o influxo em nós não caia?

Porque (triste de mim)! porque não raia

Já na esfera de Lísia a tua aurora?

Da santa Redenção é vinda a hora

A esta parte do mundo, que desmaia:

Oh! Venha… Oh! Venha, e trêmulo descaia

Despotismo feroz, que nos devora!

Eia! Acode ao mortal, que frio e mudo

Oculta o pátrio amor, torce a vontade,

E em fingir, por temor, empenha estudo:

Movam nossos grilhões tua piedade;

Nosso númen tu és, e glória, e tudo,

Mãe do gênio e prazer, oh Liberdade!

É um pouco difícil enquadrar Bocage em algum movimento. Como consta, Bocage foi um pré-romântico e um pós-barroco. Este úlitom quando evoca deuses, ninfas, elementos de água, vegetais e etc, presente em muitos de seus poemas. O escritor José Lino Grunewald, afirma que “esse barroquismo de Bocage deságua, muitas vezes, em imagens já de caráter rococó – expressões que muito se afinam com o que posteriormente fizeram os grandes seresteiros do Brasil no final da década de 1920″. Essa dificuldade em enquadrá-lo, para mim, torna o poeta mais interessante, pois não se criam imagens, apenas uma incerteza do que virá e um certo espanto, fundamental para poesia, fundamental.

texto “Frio” no blog http://pedrolago.blogspot.com

NA SOLIDÃO DO CÁRCERE

Quando na rósea nuvem sobe o dia

De risos esmaltando a Natureza,

Bem que me aclare as sombras da tristeza

Um tempo sem-sabor me principia:

Quando por entre os véus da noite fria

A máquina celeste observo acesa,

De angústia, de terror a imagens presa

Começa a devorar-me a fantasia.

Por mais ardentes preces, que lhe faço,

Meus ais não ouve o númen sonolento,

Nem prende a minha dor com tênue laço:

No Inferno se me troca o pensamento;

Céus! Porque hei-de existir, porquê, se passo

Dias de enjôo, e noites de tormento?

Em 1804 começou a crise de sua doença. Bocage tinha um aneurisma da carótida que se desenvolvia cada vez mais. Bocage morreu no dia 21 de dezembro de 1805, em Lisboa. Sua obra percorre mais de duas mil páginas sem contar com seus poemas marginais, que vimos aqui deliciosamente. Bocage viveu apenas 40 anos, onde escreveu sobre quase tudo e nas circunstâncias mais variadas. No dia 15 de setembro, dia do seu nascimento, é feriado municipal em Setúbal. Vale o estudo deste grande poeta da língua portuguêsa e fã da atmosfera brasileira.

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DITADO ENTRE AS AGONIAS DE SEU TRÂNSITO FINAL

Já Bocage não sou!… À cova escura

Meu estro vai parar desfeito em vento…

Eu aos céus ultrajei! O meu tormento

Leve me torne sempre a terra dura.

Conheço agora já quão vã figura

Em prosa e verso fez meu louco intento.

Musa!… Tivera algum merecimento,

Se um raio da razão seguisse, pura!

Eu me arrependo; a língua quase fria

Brade em alto pregão à mocidade,

Que atrás do som fantástico corria:

Outro Aretino fui… A santidade

Manchei!… Oh! Se  me creste, gente ímpia,

Rasga meus versos, crê na eternidade!

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Konstantinos Kaváfis

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Konstantinos Kaváfiz nasceu em Alexandria no dia 29 de abril de 1863. Filho de um influente comerciante de Alexandria, que, tendo nascido na Macedônia, conseguiu nacionalidade britânica, após ter trabalhado dez anos na Inglaterra. Sua família, Kaváfis, vem, ao que parece, da região fronteiriça entre a Pérsia e a Armênia. No século XVIII, tal família viria a contar com membros de destaque social, entre eles um governador de província e um arcebispo. Após o hiato, vamos estender os estudos com esse grande poeta grego.

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DESEJOS
 
 
Belos corpos de mortos que nunca envelheceram,
com lágrimas sepultos em mausoléus brilhantes,
jasmim nos pés, cabeça circundada de rosas -
assim são os desejos que um dia feneceram
sem chegar a cumprir-se, sem conhecerem antes
o prazer de uma noite ou a manhã luminosa.
 
O pai de Kaváfis casou-se com Hariclea Photiades, de uma importante família de Quios. Com ela foi morar no Fanar, o velho bairro grego de Constantinopla, à volta do patriarcado ortodoxo, onde se criara, no século XVII, uma nova aristocracia helênica, os fanariotas, na qual o império turco iria recrutar os governantes de suas províncias danubianas. Cinco anos depois, o casal mudou-se para Alexandria, cidade onde a firma Irmãos Kaváfis abrira uma filial. Ali nasceu Konstantinos. Último de sete filhos sobrevivente do casal. Todos homens, embora sua mãe tenha tido uma menina, morta prematuramente. Inclusive, sua mãe sempre tivera o desejo de ter uma menina, e por isso, quando Konstantinos nasceu, vestia-lhe com roupas femininas, deixando os cabelos crescer em cachos.

 
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VOZES
 
 
Vozes queridas, vozes ideais
daqueles que morreram ou daqueles que estão
perdidos para nós, como se mortos.
 
Eles nos falam em sonho, algumas vezes;
outras vezes, em pensamento as escutamos.
 
E, quando soam, por um instante eis que retornam
os sons da poesia primeva em nossa vida,
qual música distante que se perde noite afora.
Hariclea era uma mulher de grande beleza e era cercada de luxo por seu marido, tanto que a casa dos Kaváfis tornou-se um dos centros da alta sociedade de Alexandria. Porém, em 1870, a morte do marido deixa Hariclea em situação difícil. Assim, mudou-se para Liverpool em 1872, onde dois de seus filhos trabalhavam. Konstantinos foi matriculado numa escola inglesa. O irmão mais velho agravou mais a situação financeira fazendo uns maus negócios, assim, voltaram para Alexandria dois anos depois. Em 1881, Konstantinos passou a cursar uma escola de comércio e já demonstrava inteligência precoce, despertando orgulho da mãe e irmãos.

 
 
Todos os poemas são traduzidos por José Paulo Paes
 
 
UM VELHO
 
 
No meio do café ruidoso, sem ninguém,
por companhia, está sentado um velho. Tem
à frente um jornal e se inclina sobre a mesa.
 
Imerso na velhice aviltada e sombria,
pensa quão pouco desfrutou as alegrias
dos anos de vigor, eloquência, beleza.
 
Sabe que envelheceu bastante. Vê, conhece.
No entanto, o seu tempo de moço lhe pertence
ser ainda ontem: faz tão pouco, faz tão pouco…
 
Medita no quanto a Prudência dele rira;
em como acreditara sempre na mentira
do “Deixa para amanhã. Há tempo.” Que louco!
 
Pensa nos ímpetos que teve de conter,
nas alegrias frustras por seu tolo saber,
que cada ocasião perdida agora escarnece.
 
Porém, tanto pensar, tanta recordação,
põem o velho confuso, e sobre a mesa, então,
daquele café, debruçado, ele adormece.
 
O jovem Konstantinos começou a escrever para jornais e pensou em ser articulista político, mas, acabou por ingressar na repartição pública, no Departamento de Irrigação, como funcionários não-pago. Somente após três anos passou a receber pelo trabalho. Ganhava sete libras egípcias por mês, fora o que ganhava na repartição, o que dava para roupas e pagar o empregado pessoal que contratara. Era um funcionário competente, chegou a ser, inclusive, subdiretor. Reservado, era considerado sovina, não contribuía com subscrições de caridade. Gostava de conversar, era entusiasta de assuntos históricos, e por isso, as pessoas gostavam de ouvi-lo.

 
CÍRIOS
 
 
Os dias do futuro se erguem à nossa frente
como círios acesos, em fileira -
círios dourados, cálidos e vivos.
 
Os dias idos ficaram para trás,
triste fila de círios apagados;
os mais próximos ainda fumaceiam,
círios pensos e frios e derretidos.
 
Não quero vê-los, que me aflige os seu aspecto.
Aflige-me lembrar a sua luz de outrora.
Contemplo, adiante, os meus círios acesos.
 
Não quero olhar para trás e, trêmulo, notar
como se alonga depressa a fileira sombria,
como crescem depressa os círios apagados.
Por volta dos vinte anos de idade, Kaváfis reconheceu-se homossexual, quando teve um caso com um primo em Constantinopla. Tal condição fazia com que tivesse uma vida oculta, escondida. Chegava a subornar o criado para desarrumar sua cama quando dormia fora de casa para que sua mãe não desconfiasse. Sofria com isso. Revelou anos depois em seu diário que, embora estivesse “liberto dos preconceitos”, sentia vergonha dos lugares onde ia buscar amor e das bebedeiras que se entregava para superar inibições. Nesta época, a prostituição, tanto masculina, quanto, feminina, eram muito presente em Alexandria.

 
 
O raio que parte a cabeça aqui http://equivocos-pedrolago.blogspot.com.br
 
 
 
À ESPERA DOS BÁRBAROS
 
 
O que esperamos na ágora reunidos?
 
    É que os bárbaros chegam hoje.
 
Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?
 
  É que os bárbaros chegam hoje
  Que leis hão de fazer os senadores?
  Os bárbaros que chegam as farão.
 
Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?
 
  É que os bárbaros chegam hoje.
  O nosso imperador conta saudar
  o chefe deles. Tem ponto para dar-lhe
  um pergaminho no qual estão escritos
  muitos nomes e títulos.
 
Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos,
de ouro e prata finamente cravejados?
 
  É que os bárbaros chegam hoje,
  tais coisas os deslumbram.
 
Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?
 
  É que os bárbaros chegam hoje
  e aborrecem arengas, eloquencias.
 
Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?
 
  Porque é já noite, os bárbaros não vêm
  e gente recém-chegada das fronteiras
  diz que não há mais bárbaros.
 
Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.
 
Em 1897, junto com o irmãos mais velho, Konstantinos fez uma viagem de férias à Inglaterra e à França. Quatro anos depois, graças a um presente de 100 libras dado por um amigo, visitou, pela primeira vez, a Grécia. Nesta época, já tinha escrito um bom volume de poemas, muitos conhecidos até hoje. Sua história com a poesia começa em 1882, porém, analisando sua produção, escolheu o ano de 1911 como início “oficial”. Na Grécia, conheceu Gregorios Xenopoulos, considerado então como o criador do teatro neo-helênico. O dramaturgo seria também o fundador do Nea Estia, o mais importante periódico literário de Atenas.

 
 
 
O REI DEMÉTRIO
 
 
Ao ser deixado pelos macedônios,
os quais mostraram preferir a Pirro,
o rei Demétrio (que a alma tinha
grande) de modo algum – assim disseram -
como rei comportou-se. Foi tirar
as vestimentas de ouro, jogou longe
os calçados de púrpura e, envergando
roupas simples, partiu logo em seguida.
Portou-se exatamente como o ator
que, uma vez o espetáculo acabado,
troca de roupa e vai-se logo embora.
Em 1903, Xenopoulos escreveu em um artigo na revista ateniense Panathea, admirando a arte de Kaváfis. No ano seguinte, Kaváfis publicou um panfleto de poemas, com 13 ao total, para em 1910, publicar outro com 21. Desde 1907, Kaváfis passou a morar no mesmo lugar, a rua Lipsius 10, após a morte de sua mãe em 1899. O apartamento passa a ser um local de peregrinação de jovens escritores. Ficava no segundo lugar de um prédio, onde funcionava um prostíbulo no primeiro. Assim costumava dizer “Eu sou o espírito, abaixo de mim está a carne”.

O DEUS ABANDONA ANTONIO
 
 
Quando, à meia-noite, de súbito escutares
um tiaso invisível a passar
com músicas esplêndidas, com vozes -
a tua Fortuna que se rende, as tuas obras
que malograram, os planos de tua vida
que se mostraram mentirosos, não os chores em vão.
Como se pronto há muito tempo, corajoso,
diz adeus à Alexandria que de ti se afasta.
E sobretudo não te iludas, alegando
que tudo foi um sonho, que teu ouvido te enganou.
Como se pronto há muito tempo, corajoso,
como cumpre a quem mereceu uma cidade assim,
acerca-te com firmeza da janela
e ouve com emoção, mas ouve sem
as lamentações ou as súplicas dos fracos,
num derradeiro prazer, os sons que passam,
os raros instrumentos do místico tiaso,
e diz adeus à Alexandria que ora perdes.
 
Kaváfis jamais estimulou a produção literária de jovens escritores por temer concorrência. Certa vez disse “as pessoas andam sempre ocupadas, muito ocupadas, pelo que não dispõem de tempo para interessar-se pelos vizinhos e semelhantes. Assim, é nosso dever falar de nós mesmos e de nosso trabalho, até fazê-las parar, deixar de lado o que estão fazendo e prestar-nos atenção”. A poesia de Kaváfis causava estranheza pela moralidade pouco canônica. O grupo da revista Nea Zoí era partidário de Palamás, poeta ateniense de mais destaque. Kaváfis não gostava dele. Em 1912, a revista Grâmmata publicou um artigo negando a condição de grande poeta a Kaváfis, acusando-o de, para valorizar sua obra, denegrir outros autores.

 
 
 
OS PERIGOS
 
 
 
Disse Mirtias (estudante sírio
em Alexandria, no reinado
de augusto Constâncio e augusto Constantino,
e que era meio cristão, meio gentio):
“Fortalecido com teoria e com estudo,
eu não hei de temer minhas paixões como um covarde.
Meu corpo entregarei todo ao prazer,
à voluptuosidade entressonhada,
aos desejos eróticos mais audaciosos,
aos ímpetos lascivos do meu sangue, sem
temos algum, porque quando eu quiser
- e vontade terei, alentado
como hei de estar pelo estudo e a teoria -,
reencontrarei no momento preciso
meu espírito ascético de outrora.”
 
Em 1918, um amigo de Kaváfis, Aleko Singopoulos, pronunciou uma conferência sobre sua obra que ficou histórica. Nela, Aleko falou da sensualidade e do hedonismo da obra de Kaváfis para o completo desconforto de quem assistia. Houve, inclusive, uma tentativa de impedir que Aleko falasse sobre a obra de Kaváfis, quando alguns joven o embriagaram, o colocaram em um carro de aluguel ordenando ao motorista que o levasse para longe da cidade, porém o mesmo reconheceu a tramóia e retornou à cidade. A esta altura, Kaváfis já tinha uma reputação escandalosa. Consideraram-no “outro Oscar Wilde”.

 
ÍTACA
 
 
Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.
 
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.
 
Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
 
Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora saber o que significam Ítacas.
Kaváfis foi condecorado com a ordem da Fênix pelo governo grego, mesma condecoração que uma bailarina espanhola, amante, ao que se dizia, do ditador grego. Tal condecoração foi repudiada pelos amigos de Kaváfis, porém, o poeta aceitou. Jamais se interessara por política grega, e por não considerar-se grego, efetivamente, mas heleno, alegou “amar e reverenciar” o Estado grego.

 
Uivo uivo muito mais que uivo http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
 
 
COISA RARA
 
 
É um ancião. Decrépito, curvado,
vencido pelos anos e os excessos,
ele atravessa a passo lento o beco.
Enquanto volta à casa, que lhe oculta
a ruína e a velhice, ele medita
no quinhão reservado ainda aos jovens.
 
Agora adolescentes lêem-lhe os versos.
Seus olhos vivos recriam-lhe as visões,
fremem sua mentes sãs, voluptuosas,
- e suas carnes firmes, bem talhadas -
com a beleza por ele revelada.
Sobre sua experiência burocrática, Kaváfis disse uma vez que “quantas vezes, no trabalho, me ocorre de súbito uma bela ideia, uma imagem rara ou versos inteiros prontos, e eu tenho de deixá-los de lado, porque o serviço não pode ser adiado! Subsequentemente, quando volto para casa e me recomponho e tento recordá-los, eles já se foram. E está certo que assim seja. É como se a Arte me dissesse: ‘Não sou nenhuma criada para que me enxotes quando eu me apresento nem para que me apresente quando me queiras. E se renegas – miserável traidor – pela tua desprezível bela casa, pelas tuas desprezíveis boas roupas e pela tua desprezível posíção social, contenta-te então com elas (mas como poderás?), e, nas poucas vezes em que eu aparecer e estiveres pronto para receber-me, posta-te diante da porta da tua casa à minha espera, como o deverias fazer todos os dias’.”

FUI
 
 
Não me deixei prender. Libertei-me de todo e fui
em busca de volúpias que me parte eram reais,
em parte haviam sido forjadas por meu cérebro;
fui em busca da noite iluminada.
E bebi então vinhos fortes, como
bebem os destemidos no prazer.
Sua casa era o destino de muitos jovens escritores e aspirantes. Os visitantes recordavam dele sempre sentado na penumbra, pois, não gostava de luz elétrica, preferia luz de velas ou de um candeeiro à gasolina, fumando uma longa piteira. Também vestia-se com uma grande capa de chuva e perambulava pelos cafés conversando com todo tipo de pessoa. O romancista inglês E.M Forster escreveu uma vez que Kaváfis era “uma cavalheiro grego, de chapéu de palha, estacionado num ligeiro ângulo de afastamento em relação ao universo”. Forster foi o primeiro a tornar Kaváfis conhecido na Europa.

 
A BATALHA DE MAGNÉSIA
 
 
Perdeu sua paixão, sua audácia de outrora.
O corpo combalido, quase enfermo, é ora
 
tudo quanto o preocupa. O que lhe resta
de vida, há de passá-lo descuidoso. Ao menos esta
 
a intenção de Filipe. Ele hoje à noite joga aos dados
Almeja divertir-se. Por todos os lados
 
da mesa haja rosas, e muitas. Que importa-se afinal
em Magnésia Antíoco arruinou-se? Diz-se que total
 
foi o desbarato do seu exército tão brilhante.
Nem tudo é verdade, talvez. Exagera-se bastante.
 
Prouvera fosse. Embora inimigo, da mesma raça é.
Mas chega um só “prouvera”. Quiçá seja demais até.
 
Filipe não pensa adiar a festa para outro dia.
Malgrado a fadiga da vida, profunda, que o assedia
 
inda um bem conta: boa memória nunca veio a lhe faltar.
Recorda o quanto chorou a Síria, que tipo de pesar
 
sentiu ao ver a Macedônia, mãe, sofrer devastação. -
Comece o festim. Escravos, flautas, iluminação.
Kaváfis também teve contato com os poetas italianos Ungaretti e o futurista Marinetti. Sua rivalidade com o poeta Palamás também era conhecida. Todas as segundas feiras, no chamado “whisky de segunda” que reservava às visitas menos importantes, Kaváfis chamava maldosamente de “whisky Palamás”. Por volta dos anos 30, Kaváfis já estava aposentado do Departamento de Irrigação, quando foi diagnosticado um câncer na garganta.

 
LEMBRA, CORPO…
 
 
Lembra, corpo, não só o quanto foste amado,
não só os leitos onde repousaste,
mas também os desejos que brilharam
por ti em outros olhos, claramente,
e que tornaram a voz trêmula – e que algum
obstáculo casual fez malograr.
Agora que isso tudo perdeu-se no passado,
é quase como se a tais desejos
te entregaras – e como brilhavam,
lembra, nos olhos que te olhavam,
e como por ti na voz tremiam, lembra, corpo.
 
Kaváfis não chegou a publicar um livro em vida, apenas poemas em folhetos literários e jornais, a notoriedade viria depois, através de outros poetas. Sempre reescrevia, sempre reimprimia e enviava a um grupo de pessoas, quase sempre amigos. Assim divulgava sua poesia. Esse sistema “marginal” de divulgação era muit usado pelos rimadóri de Creta ou os pyitárides do Chipre, que andavam pelas ruas a recitar e vender poemas aos aldeões.

 
 
PARA QUE VENHAM
 
 
Uma só vela basta.          Sua luz mortiça
uma atmosfera mais         propícia há de compor,
quando as Sombras vierem,             as Sombras do Amor.
 
Uma vela somente.               Que esta noite o quarto
muita luz não ostente.             Entregue ao devaneio,
e às sugestões do ambiente,         e dessa luz tão pouca -
ao devaneio assim                 entregue, hei de sonhar,
para que as Sombras venham,            as Sombras do Amor.
 
Kaváfis produziu ao longo da vida 154 poemas curtos. Muitos deles, reescritos a cada nova publicação em folhetos e jornais. A língua utilizada por Kaváfis foi o neogrego, isto é, o grego coloquial contemporâneo, vindo direto do koiné, língua comum falada em todo o Oriente helenizado da Antiguidade e do Medievo, que ressurgiu após o longo domínio turco da Grécia continental, a partir de 1823, como língua oficial do país.

MELANCOLIA DE JASÃO, FILHO DE CLEANDRO, POETA EM COMAGENA, 595 D.C
 
 
O envelhecimento do meu corpo, do meu rosto
é a ferida de um punhal terrível.
Como não tenho resignação nenhuma,
recorro a ti, oh Arte da Poesia,
que algo sabes de remédios,
na tentativa de embotar a dor com Fantasias e Verbo.
 
É a ferida de um punhal terrível. -
Dá-me dos teus remédios, Arte da Poesia,
que me fazem – um instante – não sentir a ferida.
 
O interesse de Kaváfis pelo coloquial está na origem da própria literatura da Grécia: foi na poesia oral do seu povo, sobretudo o rico acervo de baladas narrativas das lhas e da península, que Solomós e outros poetas descobriram as raízes de uma arte verdadeiramente nacional, tal como queria o romantismo patriótico na época da libertação da dominação turca. Kaváfis usava o palitikós stíhos, o “verso político”, o metro da poesia folclórica grega, que divide o poema em “duas partes” que se relacionam entre si.

Vi esse aqui embora não saiba mexer direito http://pedrolago.tumblr.com
 
 
A ORIGEM
 
 
O prazer proibido consumou-se.
Eles se erguem do leito e, sem falar-se,
vestem-se à pressa.
Saem da casa em separado, às escondidas; vão-se
um tanto inquietos pela rua, como se
temessem que algo neles revelasse
em que espécie de leito possuíram-se.
 
Mas, do artista, como a vida se enriquece!
Amanhã, no outro dia, anos depois, serão escritos
os versos que aqui têm sua origem.
Como já foi dito, em 1932, foi diagnosticado um câncer em sua garganta. Aleko Singopoulos e sua, Rika, o levaram a Atenas para operar-se. No hospital da Cruz Vermelha foi-lhe feito uma traqueostomia, perdendo assim a voz. A partir daí comunicava-se atrave’s de bilhetes escritos. No ano seguinte, seu estado de saúde se agravou, até que no dia 29 de abril de 1933, no dia de seu aniversário de 70 anos, Kaváfis morreu.

 
DIAS DE 1901
 
 
Passava-se com ele isto de singular:
em meio à sua devassidão
e à sua grande experiência do amor,
se bem, de hábito, o seu comportamento
estivesse de acordo com a idade,
ocorriam momentos – muito raros,
sem dúvida – em que dava impressão
de uma carne quase intacta.
 
A beleza dos seus vinte e nove anos,
tão douta na volúpia, paradoxalmente
lembrava um efebo algo canhestro entregando
ao amor, pela primeira vez, o corpo casto.
 
Assim como outros poetas, a poesia de Kaváfis só ficou conhecida depois de sua morte. Talvez pelo fato de jamais ter publicado um livro em vida, ou pela forte autocrítica e os constantes reajustes nos poemas. O escritor inlgês E.M Forster, empenhou-se, com o auxílio do poeta americano T.S Eliot, a divulgar a obra de Kaváfis, ainda em vida, fazendo com que editores ingleses traduzissem seus poemas, mas tal empenho esbarrou na má vontade de Kaváfis que não julgava sua obra pronta para a publicação definitiva que não queria que sua obra viesse a ser conhecida através de tradução antes de ser conhecida no original. De qualquer forma, isto só ocorreu após sua morte e Kaváfis tornou-se um influente poeta do século XX. Ficamos por aqui.

UM JOVEM ARTISTA DA PALAVRA – 24 ANOS DE IDADE
 
 
Trabalha agora como possas, cérebro. -
Um prazer incompleto o dilacera.
É enervante a sua condição.
Beija o rosto do amado todo dia,
sua mãos lhe acariciam os membros admiráveis.
Jamais na vida amou assim, com tal
paixão. Porém lhe falta a bela plenitude
do amor, a plenitude que há sempre de existir
entre dois amantes com desejos intensos.
 
(Não têm, os dois, igual pendor para os prazeres anômalos,
que só a um domina por inteiro.)
 
E ele se irrita, e ele se atormenta.
Além do mais, está desempregado; e isso conta.
Uma pequenas somas de dinheiro
a duras penas consegue (quase as tem
de mendigar, por vezes) e vive pobremente.
Beija os lábios adorados; sobre
o corpo admirável – que, só agora entende,
apenas consente – se deleita.
E depois bebe e fuma, fuma e bebe,
e pelos cafés arrasta, o dia todo,
com tédio arrasta a dor da sua formosura. -
Trabalha agora como possas, cérebro.
 

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Cruz e Sousa

João da Cruz e Sousa nasceu em Florianópolis, Santa Catarina, no dia 24 de novembro de 1861. Seus pais, negros, eram escravos do Marechal Xavier de Sousa, o qual, quando teve que seguir para a Guerra do Paraguai, os alforriou. O menino foi sempre tratado com todo o carinho pela família do Marechal, o que é de extrema importância para a compreensão do que virá depois. Recebeu boa instrução secundária, tendo tido entre seus mestres o naturalista Fritz Muller. Cruz e Sousa, como é conhecido, poeta simbolista de maior expressão na literatura.

CLAMOR SUPREMO

Vem comigo por estas cordilheiras!
Põe teu manto e bordão e vem comigo,
Atravessa as montanhas sobranceiras
E nada temas do mortal Perigo!

Sigamos para as guerras condoreiras
Vem, resoluto, que eu irei contigo.
Dentre as águias e as chamas feiticeiras
Só tenho a Natureza por abrigo.

Rasga florestas, bebe o sangue todo
Da Terra e transfigura em astros lôdo,
O próprio lôdo torna mais fecundo.

Basta trazer um coração perfeito,
Alma de eleito, Sentimento eleito
Para abalar de lado a lado o mundo!

Cruz e Sousa aprendeu francês, latim e grego, além de ter estudado com seu mestre alemão Matemática e Ciências Naturais. Filho de escravos, adotou o sobrenome de seu ex-senhor Marechal Guilherme Xavier e Sousa. Quando seus protetores morreram, Cruz e Sousa passou a militar na imprensa, correndo o país de sul a norte como ponto de uma companhia dramática.. Participou em sua província natal, Nossa Senhora do Desterro, depois, Florianópolis, da luta abolicionista, dirigindo o jornal Tribuna Popular. Em 1883, lhe foi recusado o cargo de promotor em Laguna por ser negro.

Muito embora as estrelas do Infinito
Lá de cima me acenem carinhosas
E desça das esferas luminosas
A doce graça de um clarão bendito;

Embora o mar, como um revel proscrito,
Chame por mim nas vagas ondulosas
E o vento venha em cóleras medrosas
O meu destino proclamar num grito,

Neste mundo tão trágico, tamanho,
Como eu me sinto fundamente estranho
E o amor e tudo para mim avaro…

Ah! como eu sinto compungidamente,
Por entre tanto horror indiferente,
Um frio sepulcral de desamparo!

Em 1890, Cruz e Sousa muda-se para o Rio de Janeiro. Após três anos de trabalhos na imprensa carioca, obtém um emprego ínfimo na Estrada de Ferro Central. Em 1893, casa-se com uma moça negra chamada Gavita Rosa Gonçalves, de quem teve quatro filhos, dois dos quais morreram ainda em vida do poeta, os outros dois morreram após, todos de tuberculose, o que levou Gavita à loucura. Vale muito ressaltar a vida e o contexto em que viveu o poeta, para admirarmos ainda mais sua poesia, simbolista, etérea, que falaremos mais profundamente ao longo deste mês.

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ASSIM SEJA

Fecha os olhos e morre calmamente!
Morre sereno do Dever cumprido!
Nem o mais leve, nem um só gemido
traia, sequer, o teu Sentir latente.

Morre com alma leal, clarividente,
da Crença errando no Vergel florido
e 
o Pensamento pelos céus brandido
como um gládio soberbo e refulgente.

Vai abrindo sacrário por sacrário
do teu Sonho no templo imaginário,
na hora glacial da negra Morte imensa…

Morre com o teu Dever!
Na alta 
confiança de quem triunfou
e sabe quem descansa desdenhando
de toda a Recompensa!

Cruz e Sousa lançou em verso os seguintes livros: Broquéis de 1893, Faróis de 1900 e Últimos Sonetos de 1905; em prosa, o poeta publicou Tropos e Fantasias em 1885, Missal de 1893, Evocações publicado no ano de 1898. A editora Nova Aguilar em 1961, publicou uma edição com a obra completa do poeta, ainda com os livros O Livro Derradeiro de poesia e Outras Evocações e Dispersos em prosa. Obviamente que hoje, podemos, creio eu, encontrar edições mais novas que esta da Nova Aguilar. Creio também que o interesse por poetas deste período, sobretudo da fase Simbolista, não tenha extinguido, caso o tenha, fazemos com que volte.

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SONHO BRANCO

De linho e rosas brancas vais vestido,
Sonho virgem que cantas no meu peito!…
És do Luar o claro deus eleito,
Das estrelas puríssimas nascido.

Por caminho aromal, enflorescido,
Alvo, sereno, límpido, direito,
Segues radiante, no esplendor perfeito,
No perfeito esplendor indefinido…

As aves sonorizam-te o caminho…
E as vestes frescas, do mais puro linho
E as rosas brancas dão-te um ar nevado…

No entanto, Ó Sonho branco de quermesse!
Nessa alegria em que tu vais, parece
Que vais infantilmente amortalhado!

Cruz e Sousa foi integrante da Academia Catarinense de Letras, cuja cadeira 15 é patrono, entretanto, não é muito conhecido entre os moradores de Florianópolis. Maior prova disso é um erro cometido pelo governo de Santa Catarina que manteve o nome da rua que homenageia o poeta como “Rua Cruz de Sousa” por muitos anos, a ponto de os moradores da própria se surpreenderem quando o erro foi corrigido. Nas escolas, sobretudo nas públicas, pouco se fala de Cruz e Sousa, poeta, que foi traduzido e publicado em pelo menos oito idiomas. Vale lembrar que Cruz e Sousa é tido como o mestre do Simbolismo, comparado inclusive a Mallarmé e Verlaine. Isso, deixamos para depois.

IMORTAL ATITUDE

Abre os olhos à Vida e fica mudo!
Oh! Basta crer indefinidamente
Para ficar iluminado tudo
De uma luz imortal e transcendente.

Crer é sentir, como secreto escudo,
A alma risonha, lúcida, vidente…
E abandonar o sujo deus cornudo,
O sátiro da Carne impenitente.

Abandonar os lânguidos rugidos,
O infinito gemido dos gemidos
Que vai no lodo a carne chafurdando.

Erguer os olhos, levantar os braços
Para o eterno Silêncio dos Espaços
E no Silêncio emudecer olhando…

Cruz e Sousa é um poeta da geração Simbolista. Para entender o Simbolismo Brasileiro, é preciso investigar onde se originou, na França. Em 1885, houve um grupo de poetas que ficaram conhecidos como simbolistas decadentes, que justamente reagiam contra o espírito positivo, objetivo e impessoal e contra a forma precisa, clara escultural da geração parnasiana. Os simbolistas procuraram exprimir as emoções no que elas teem de mais pessoal e ao mesmo tempo vago, numa forma despojada de toda a eloquencia e o mais possível próxima da música. Mallarmé dizia que “é suprimir três quartas partes do gozo do poema, que é feito da felicidade de adivinhar pouco a pouco: sugeri-lo, eis o ideal”.

MUNDO INACCESSÍVEL

Tu’alma lembra um mundo inacessível
Onde só astros e águias vão pairando,
Onde só se escuta, trágica, cantando,
A sinfonia da Amplidão terrível!

Alma nenhuma, que não for sensível,
Que asas não tenha para as ir vibrando,
Essa região secreta desvendando,
Falece, morre, num pavor incrível!

É preciso ter asas e ter garras
Para atingir aos ruídos de fanfarras
Do mundo da tu’alma augusta e forte.

É preciso subir ígneas montanhas
E emudecer, entre visões estranhas,
Num sentimento mais sutil que a Morte!

A época era de diálogo. Os poetas simbolistas da frança sofreram forte influência dos artistas plásticos e do teatro. Não posso dizer que o simbolismo na França foi um movimentos literário. Era um momento de novas proposições, por isso, pode-se inclusive colocar os nomes de Gauguin, Ibsen, Verlaine e Rimbaud na mesma frase. Mas foi na figura de Paul Verlaine que o entusiasmo simbolista aparecia mais. Intuição e sentimento, sem formas e regras, apenas a fluidez de uma arte que representa o “eu profundo”. O Simbolismo teve reações quasee que imediatas no Brasil, mas isso veremos mais tarde.

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O ASSINALADO

Tu és o louco da imortal loucura,
O louco da loucura mais suprema.
A Terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura.

Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tu’alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.

Tu és o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas eternas, pouco a pouco…

Na Natureza prodigiosa e rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!

Como e quando a obra de Mallamé, Verlaine, Rimbaud, Gustave Kahn, Vielé-Griffin, Lautréamont, Laforgue, Stuart Merrill, Remy de Gourmont, Maeterlink, Rodenbach e outros chegou no Brasil? Segundo o crítico literário Tristão de Araripe Junior, foi o poeta e escritor Medeiros e Albuquerque quem recebeu em 1887 de um amigo particular que em Paris mantinha relações com o grupo simbolista livros de Verlaine, Mallarmé, René Ghil, Stuart Merrill, Jean Moréas e revistas onde se começava a esboçar a nova estética. Esse material passou das mãos de Medeiros e Albuquerque para as de Araripe e daí para as de Gama e Rosa, que era protetor de Cruz e Sousa, o qual publicou na Tribuna Liberal uma exposição das idéias da nova escola.

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INVULNERÁVEL

Quando dos carnavais da raça humana
forem caindo as máscaras grotescas
e as atitudes mais funambulescas
se desfizerem no feroz Nirvana;

Quando tudo ruir na febre insana,
nas vertigens bizarras, pitorescas
de um mundo de emoções carnavalescas
que ri da Fé profunda e soberana;

Vendo passar a lúgubre, funérea
galeria sinistra da Miséria,
com as máscaras do rosto descolocadas,

Tu que és o deus, o deus invulnerável,
resiste a tudo e fica formidável,
no Silêncio das noites estreladas!

O contato dos Simbolistas Franceses através de Medeiroes e Albuquerque, Gama Rosa, até chegar enfim aos olhos de Cruz e Sousa deu-se no Rio de Janeiro. Entretanto foi no Paraná que a arte Simbolista chegou com influência mais direta. O crítico de compositor João Itiberê da Cunha, que estudara na Bélgica, onde fora colega de Maeterlinck e Verhaeren, e voltando em 1893 ao Paraná, trouxe consigo informações e obras dos simbolistas franceses e belgas, dentre elas La Damnation de l’Artiste do belga Ivan Gilkin. Seus colegas aqui no Brasil, os poetas, Dario Veloso, Emiliano Perneta, Júlio Perneta e Silveira Neto foram os agraciados pelas novidades e diretamente influenciados, formando depois a revista O Cenáculo, que depois da Folha Popular do Rio, foi o principal orgão do movimento no Brasil.

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FLOR DO MAR

És da origem do mar, vens do secreto,
do estranho mar espumaroso e frio
que põe rede de sonhos ao navio,
e o deixa balouçar, na vaga, inquieto.

Possuis do mar o deslumbrante afeto,
as dormências nervosas e o sombrio
e torvo aspecto aterrador, bravio
das ondas no atro e proceloso aspecto.

Num fundo ideal de púrpuras
e rosas
surges das águas mucilaginosas
como a lua entre a névoa dos espaços…

Trazes na carne o eflorescer das vinhas,
auroras, virgens musicas marinhas,
acres aromas de algas e sargaços…

Foi através destas duas nascentes que o Simbolismo chegou ao Brasil, Rio de Janeiro e Paraná. Assim como se data em 1836, ano da publicação dos Suspiros Poéticos do poeta Gonçalves de Magalhães, o início do movimento romântico no Brasil, é de 1893, ano da publicação dos Broquéis e de Missal de Cruz e Sousa, que se costuma datar o início do simbolismo no Brasil. Entretanto, como disse antes, os anunciadores do movimento foram outros, mas foi Cruz e Sousa, que após a publicação destes livros, quem se tornou a figura mais forte e mais ilustre do movimento, e aquela publicação o grande acontecimento do simbolismo brasileiro. Semana que vem ainda falaremos de simbolismo.

SORRISO INTERIOR

O ser que é ser e que jamais vacila
Nas guerras imortais entra sem susto,
Leva consigo esse brasão augusto
Do grande amor, da nobre fé tranqüila.

Os abismos carnais da triste argila
Ele os vence sem ânsias e sem custo…
Fica sereno, num sorriso justo,
Enquanto tudo em derredor oscila.

Ondas interiores de grandeza
Dão-lhe essa glória em frente à Natureza,
Esse esplendor, todo esse largo eflúvio.

O ser que é ser tranforma tudo em flores…
E para ironizar as próprias dores
Canta por entre as águas do Dilúvio!

Depois da publicação dos livros Broqueis e Missal, Cruz e Sousa tornou-se logo a figura mais forte, mais ilustre e importante do movimento simbolista no Brasil. Mesmo depois de morto, foi em torno de sua obra e da sua pessoa que se popularizou o movimento. Entretanto, Cruz e Sousa e todo movimento simbolista, foi muito atacado pela crítica. O poeta português Eugênio de Castro, após publicar seus livros em Portugal,por volta de 1890, 1891, causou estupefação, fora chamado de “nefelibata”, que quer dizer “que anda nas nuvens”. Aqui no Brasil, não deixaram por menos e o nome foi constantemente utilizado nas críticas aos poetas que “andavam nas nuvens, falando coisas estapafúrdias numa linguagem incompreensível”(!).

BOCA

Boca viçosa, de perfume a lírio,
Da límpida frescura da nevada,
Boca de pompa grega, purpureada,
Da majestade de um damasco assírio.

Boca para deleites e delírio
Da volúpia carnal e alucinada,
Boca de Arcanjo, tentadora e arqueada,
Tentando Arcanjos na amplidão do Empírio,

Boca de Ofélia morta sobre o lago,
Dentre a auréola de luz do sonho vago
E os faunos leves do luar inquietos…

Estranha boca virginal, cheirosa,
Boca de mirra e incensos, milagrosa
Nos filtros e nos tóxicos secretos…

Os Simbolistas foram rudemente atacados pela crítica da época e muito também pelos poetas parnasianos. Um dos maiores críticos da época, José Veríssimo, escreveu em seu Estudos da Literatura Brasileira que os simbolistas eram “a turbamulta dos novos, sem sinceridade, sem crenças, sem gramática, sem instrução e sem bom senso. Reconheceu, depois a importância de Cruz e Sousa e de Alphonsus de Guimarães, mas ainda reiterou que “se não desvencilhar-se das faixas da escola, se persistir em uma corrente que não leva a nada, será apenas mais um estro perdido para a nossa poesia”. Para mim, toda ruptura causa estranheza, sempre foi e sempre será assim, Monteiro Lobato que o diga.

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SONETO

Parece que nasceste, oh! pálida divina,
Para seres o farol, a luz das puras almas!…
Parece que ao estridor, ao frêmito das palmas
Exalças-te feliz a plaga cristalina!…

Parece que se partem, angélica Bambina,
As campas glaciais dos Tassos e dos Talmas,
Lá quando no tablado as turbas sempre calmas
Transmutas em vulcão, em raio que fulmina!…

E quando majestosa, em lance sublimado
Dardejas do olhar, olímpico, sagrado
Mil chispas ideais, titânicas, ardentes!…

Então sente-se n’alma o trêmulo nervoso
Que deve ter o mar, fantástico, espumoso
Nos grossos vagalhões, indômitos, frementes!!…

Ainda falando um pouco sobre o simbolismo, pois, nosso Cruz e Sousa foi figura fundamental, vale ressaltar também a importância do poeta Alphonsus de Guimarães, que assim como Cruz e Sousa, ultrapassou ao movimento e tornou-se uma página importante da poesia brasileira. Entretanto, o simbolismo teve em seu plantel muitos outros poetas que, infelizmente, não são muito conhecidos. São eles: Emiliano Perneta, Mário Pederneiras, Dario Veloso, Azevedo Cruz, Silveira Neto, Carlos D. Fernandes, Pereira da Silva, Saturnino de Meireles, Marcelo Gama, Tristão da Cunha, Maranhão Sobrinho, Feliz Pacheco, José de Abreu Albano, Castro Meneses, Da Costa e Silva, Álvaro Moreyra, Eduardo Guimaraens, Rodrigo Octávio Filho, Rodrigues de Abreu e Onestaldo de Pennafort. Poderemos um dia fazer um homenagem a todos eles.

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AMOR

Nas largas mutações perpétuas do universo
O amor é sempre o vinho enérgico, irritante…
Um lago de luar nervoso e palpitante…
Um sol dentro de tudo altivamente imerso.

Não há para o amor ridículos preâmbulos,
Nem mesmo as convenções as mais superiores;
E vamos pela vida assim como os noctâmbulos
à fresca exalação salúbrica das flores…

E somos uns completos, célebres artistas
Na obra racional do amor — na heroicidade,
Com essa intrepidez dos sábios transformistas.

Cumprimos uma lei que a seiva nos dirige
E amamos com vigor e com vitalidade,
A cor, os tons, a luz que a natureza exige!…

Há uma discussão que envolve a participação de Cruz e Sousa pela causa abolicionista. Alguns críticos dizem que o poeta se ausentou não sendo uma voz ativa na opinião pública da época, o que é considerado um erro grave. Cruz e Sousa nos anos 80 do século XIX, discutia com seu grupo questões de sua contemporaneidade e através da criação de jornais, folhas, semanários e alternativos, exprimiam suas idéias e indignações. O poeta Paulo Leminski foi biógrafo do poeta e nesta disse que “Não lhe bastou ser poeta, foi um jornalista engajado com as lutas de seu tempo”. A discussão sobre esta questão ainda persiste, entretanto, estamos aqui para falar, mesmo 100 anos após sua morte.

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DA SENZALA…

De dentro da senzala escura e lamacenta
Aonde o infeliz

De lágrimas em fel, de ódio se alimenta
Tornando meretriz

A alma que ele tinha, ovante, imaculada
Alegre e sem rancor,

Porém que foi aos poucos sendo transformada
Aos vivos do estertor…

De dentro da senzala

Aonde o crime é rei, e a dor — crânios abala
Em ímpeto ferino;

Não pode sair, não,
Um homem de trabalho, um senso, uma razão…
e sim um assassino!

Se Cruz e Sousa foi um militante pela causa abolicionista, então porque a crítica? É bem verdade que o poeta não sofreu muito com a escravidão, teve uma boa educação e fora criado como qualquer outro branco. Mas foi através de viagens pelo Brasil que Cruz e Sousa tomou conhecimento de outros mundos. Primeiro, viajou com uma companhia de teatro ao Rio Grande do Sul, encantou-se com a vida dos atores e ficou muito conhecido por lá, depois, foi sua vinda ao Rio de Janeiro, onde viu a grande cidade em movimento, só que, quando foi para Bahia, Cruz e Sousa teve realmente o impacto cultural da questão abolicionista. Lá conheceu os versos de Castro Alves, morto ainda a pouco, e muitos militantes abolicionistas, tendo participado inclusive de palestras públicas. Veremos mais.

FONTE DE AMOR

Trago-a à tua presença
Para que vejas a imensa
Mágoa atroz que a devorou.
E saibas, ó flor das flores,

Que a fonte dos seus amores
Eternamente secou.
Foste à fonte buscar água
E tinha secado a fonte.

Aí, flor azul do monte,
Tiveste a primeira mágoa.
Porém se uma alma na frágua

Das dores sem horizonte
Queres ver, sentir defronte
Dos olhos, manda que eu trago-a.

Quando Cruz e Sousa vai a Bahia, a questão abolicionista se torna mais presente. Lá conhece intelectuais abolicionistas, militantes negros, muitos negros, e toma conhecimento de senhores severos, ao contrário do que conhecia quando criança. Lá, através do jornal O Moleque, Cruz e Sousa publica textos abolicionistas e promove conferências. Em uma delas, Cruz e Sousa declara que “estava a disposição de seus irmãos de raça”. Sempre em viagem com a Companhia de Teatro, Cruz e Sousa ainda percorreu por Pernambuco, onde também promoveu palestras. Uma constante que Cruz e Sousa sempre conseguia reverter era a questão de ser alforriado, o que aumentava a admiração, pois o poeta nunca deixou de dizer quem era, apesar de algumas peculiaridades, estas amanhã.

ACROBATA DA DOR

Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta …

Pedem-se bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
nessas macabras piruetas d’aço…

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.

Olha que interessante: Cruz e Sousa tinha obsessão pela cor branca. Há várias evocações do branco em sua obra, o autor Roger Bastide contou 169 em um ensaio. Ele interpreta que é “a expressão de uma imensa nostalgia, a de ser tornar ariano”. O próprio Cruz e Sousa compreendeu bem isso. Antes de se tornar simbolista, começou por ser parnasiano, defendendo os dogmas do parnaso: arte pela arte; a necessidade de seguir regras técnicas mais exigentes na elaboração de um poema. Estes dogmas entraram em confronto com sua herança africana, onde ele mesmo diz: “Eu trazia cadáveres que me andassem funambulescamente amarrados às costas, num inquietante e interminável apodrecimento, todos os empirimos preconceituosos e não sei quanta camada morta, quanta raça d’Africa curiosa desolada…. Surgindo de bárbaros, tinha de domar outros mais bárbaros ainda, cujas plumagens aborígenes àlacremente flutuavam atráves dos estilos…. O temperamento entortava muito para o lado da Africa, era necessário entorta-lo para o lado da Regra, afim de deixa-lo certo como um termómetro”.

SIDERAÇÕES

Para as Estrelas de cristais gelados
As ânsias e os desejos vão subindo,
Galgando azuis e siderais noivados
De nuvens brancas a amplidão vestindo…

Num cortejo de cânticos alados
Os arcanjos, as cítaras ferindo,
Passam, das vestes nos troféus prateados,
As asas de ouro finamente abrindo…

Dos etéreos turíbulos de neve
Claro incenso aromal, límpido e leve,
Ondas nevoentas de Visões levanta…

E as ânsias e os desejos infinitos
Vão com os arcanjos formulando ritos
Da Eternidade que nos Astros canta…

É bem verdade que a poesia simbolista aqui no Brasil era uma arte delicada, preciosa, difícil, requintada, cheia de matizes que se dirige a uma pequena elite e classifica portanto o poeta num grupo seleto de artistas. O próprio Cruz e Sousa admite que essa arte tão específica o separa de suas origens, de sua mãe e das história de seus antepassados. Isso torna o processo ainda mais doloroso, pois ama ternamente sua mãe, entretanto, coloca o culto da beleza acima de tudo. Assim o poeta sentia que a arte era um meio de abolir a fronteira que a sociedade colocava entre os filhos de escravos africanos e os filhos de brancos livres. Por isso pareceu ser “o mais ariano de todos”, pois queria provar a capacidade do negro para o “entendimento artístico”.

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FLOR NIRVANIZADAS

Ó cegos corações, surdos ouvidos,
Bocas inúteis, sem clamor, fechadas,
Almas para os mistérios apagadas,
Sem segredos, sem eco e sem gemidos.

Consciências hirsutas de bandidos,
Vesgas, nefandas e desmanteladas,
Portas de ferro, com furor trancadas,
Dos ócios maus histéricos Vencidos.

Desenterrai-vos das sangrentas furnas
Sinistras, cabalísticas, noturnas
Onde ruge o Pecado caudaloso…

Fazei da Dor, do triste Gozo humano,
A Flor do Sentimento soberano,
A Flor nirvanizada de outro Gozo!

Cruz e Sousa morreu no dia 19 de março de 1898, no município de Antonio Carlos, em um povoado chamado Estação de Sitio em Minas Gerais, vítima de uma tuberculose. Se corpo foi transportado a cavalo para o Rio de Janeiro onde foi enterrado no cemitério São Francisco Xavier. Apenas em 2007, seus restos mortais foram acolhidos para o Museu Histórico de Santa Catarina, no Palácio Cruz e Sousa em Florianópolis. Seu último neto, Silvo Cruz e Sousa, morreu em 1955, foi marinheiro, vendia peixes para sobreviver e sua mulher, Ercy Cruz e Sousa, ainda vive sob um pensão do Governo de Santa Catarina. Pelo menos até onde eu consegui chegar, nenhum de seus outros netos, bisnetos, obteve estudo ou seguiu a carreira artística. Ercy, mulher de Silvio, diz que o marido morreu de desgosto.

A PERFEIÇÃO

A Perfeição é a celeste ciência
Da cristalização de almos encantos,
De abandonar os mórbidos quebrantos
E viver de uma oculta florescência.

Noss’alma fica da clarividência
Dos astros e dos anjos e dos santos,
Fica lavada na lustral dos prantos,
É dos prantos divina e pura essência.

Noss’alma fica como o ser que às lutas
As mãos conserva limpas, impolutas,
Sem as manchas do sangue mau da guerra.

A Perfeição é a alma estar sonhando
Em soluços, soluços, soluçando
As agonias que encontrou na Terra.!

Eis que chegamos ao final de mais uma antologia poética. Espero que tenham gostado de conhecer um pouco da vida e da poesia simbolista do nosso poeta Cruz e Sousa. Negro, filhos de escravos que escolheu uma poesia cheia de imagens e lirismos feéricos para expressar-se, passando por questões abolicionistas, debaixo de críticas e reconhecimentos póstumos. Semana que vem entraremos em mais um universo poético, com outras proposições, outras reflexões e muito mais poesia. Até lá.

FLOR DA NATUREZA

Luz que eu adoro, grande Luz que eu amo,
Movimento vital da Natureza,
Ensina-me os segredos da Beleza
E de todas as vozes por quem chamo.

Mostra-me a Raça, o peregrino Ramo
Dos Fortes e dos Justos da Grandeza,
Ilumina e suaviza esta rudeza
Da vida humana, onde combato e clamo.

Desta minh’alma a solidão de prantos
Cerca com os teus leões de brava crença,
Defende com so teus gládios sacrossantos.

Dá-me enlevos, deslumbra-me, da imensa
Porta esferal, dos constelados mantos
Onde a Fé do meu Sonho se condensa!

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Fernando Pessoa

Fernando António Nogueira Pessoa nasceu no dia 13 de junho de 1888, dia de Santo Antônio, no quarto andar do lado esquerdo do Largo de São Carlos, número 4, às 3 horas da tarde. No mesmo ano de Os Maias de Eça de Queiroz e a Menina Júlia de Strindberg. Filho de Joaquim Seabra Pessoa, pequeno funcionário, mas “inteligente”, consta, que se dedicou também à crítica de música. Sua mãe, Maria Madalena Pinheiro Nogueira era da região dos Açores. Vamos se Pessoa por aqui.

 



QUANDO ELA PASSA


Quando eu me sento à janela
P’los vidros que a neve embaça
Vejo a doce imagem dela
Quando passa… passa … passa…

Lançou-me a mágoa seu véu: – 
Menos um ser neste mundo
E mais um anjo no céu.

Quando eu me sento à janela,
P’los vidros que a neve embaça
Julgo ver a imagem dela
Que já não passa… não passa…
 
 
 
 
Em 1889, data o suposto nascimento de Alberto Caeiro, como Pessoa afirmaria anos depois. Em 1893, nasce Jorge, irmão de Fernando Pessoa. No dia 13 de julho do mesmo ano, morre seu pai, Joaquim, aos 43 anos de idade. No dia 15 de novembro, muda-se com sua mãe para a Rua de S. Marçal, 104, depois de fazer leilão de grande parte de seus pertences. No dia 2 de janeiro de 1894, morre seu irmão Jorge, com apenas 1 ano de idade.
 
 
 

ANÁLISE


Tão abstrata é a ideia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longamente,
E a ideia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.
 
 
 
Em 1894, D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira Pessoa conhece o comandante João Miguel Rosa, que viria a ser o padrasto de Fernando Pessoa. Neste mesmo ano, Pessoa, aos seis anos, cria seu primeiro heterônimo, o Chevalier de Pas. Em 1895, João Miguel Rosa é nomeado cônsul interino em Durban, na África do Sul, para onde segue no mês seguinte. No dia 26 de junho, Pessoa escreve seu primeiro poema, ‘A Minha Querida Mamã’. Em dezembro, casam-se por procuração sua mãe e João Miguel, na Igreja de S. Mamede.
 
 
 
UNS VERSOS QUAISQUER



Vive o momento com saudade dele 
      Já ao vivê-lo… 
Barcas vazias, sempre nos impele 
      Como a um solto cabelo 
Um vento para longe, e não sabemos, 
Ao viver, que sentimos ou queremos…
Demo-nos pois a consciência disto 
      Como de um lago 
Posto em paisagens de torpor mortiço 
      Sob um céu ermo e vago, 
E que a nossa consciência de nós seja 
Uma cousa que nada já deseja…
Assim idênticos à hora toda 
      Em seu pleno sabor, 
Nossa vida será nossa ante-boda: 
      Não nós, mas uma cor, 
Um perfume, um meneio de arvoredo, 
E a morte não virá nem tarde ou cedo…
Porque o que importa é que já nada importe… 
      Nada nos vale 
Que se debruce sobre nós a Sorte, 
      Ou, ténue e longe, cale 
Seus gestos… Tudo é o mesmo… Eis o momento… 
Sejamo-lo… Pra quê o pensamento?…
 
 
 
Em 1896, acompanhados do Tio Cunha, a família parte para a África. Fernando passa a frequentar o convento West Street, em Durban, onde aprende inglês e faz a primeira comunhão. No mesmo ano, morre sua avó, D. Madalena Xavier Pinheiro Nogueira, na Ilha Terceira. Em novembro de 1896, nasce, Henriqueta Madalena, a primeira filha do segundo casamento de sua mãe. Em 1899, Fernando matricula-se no High School, Form II-B, mas logo passa para o Form II-A, para assim, ganhar o Form Prize. Meses depois, Fernando, ganha outro irmão, Luís MIguel. Passa também para o Form III e ganha um prêmio em francês.
 



Ó SINO DA MINHA ALDEIA


Ó sino da minha aldeia
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.
 
 
 
Em 1901, o comandante João Miguel Rosa é nomeado cônsul de Primeira Classe e em junho, Pessoa faz exame da Cape School High Examination. No dia 25 de junho, falece sua irmã, Madalena Henriqueta, primeira filha do casal. Acompanham no barco, sua mãe, Henriqueta Madalena e Luís Miguel, seu irmão. Em janeiro de 1902, nasce João, quarto filho do casal. Também há a liquidação da herança da avó materna de Pessoa. Voltam todos para Durban, onde, Pessoa matricula-se na Commercial School e escreve o poema ‘Quando Ela Passa’. Faz exame para a Universidade do Cabo em 1903 e, no ano seguinte, recebe o Prêmio Rainha Vitória, concedido ao ensaio que fez neste exame. Começa a ler Byron, Poe, Shelley, Keats e Tennyson. Conhece Pope e começa a escrever em inglês, prosa e poesia.
 



 ELA CANTA


Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anônima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enrêdo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p’ra cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente ‘stá pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!
 
 
 
Em 1904 nasce mais uma irmã, Maria Clara, e Pessoa faz exame do Intermediate Examination em Artes na Universidade do Cabo. Em 1905 parte sozinho para Lisboa, a bordo do navio alemão Herzog, para matricular-se no Curso Superior de Letras. Estabelece-se na casa da avó, Dionísia, e duas tias. Nesta época lê muito Milton. Também conhece Baudelaire e Cesário Verde. Ainda escreve em inglês. Em 1906, sua mãe e João Miguel vão para Portugal em férias e ficam na Calçada das Estrelas. Entra, enfim, no curso de Letras e Maria Clara, sua irmã, morre no fim do ano.
 
 
 

PASSOS DA CRUZ XI


Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela
E oculta mão cobra alguém em mim. 
Pus a alma no nexo de perdê-la 
E o meu princípio floresceu em Fim. 

Que importa o tédio que dentro em mim gela, 
E o leve outono, e as galas, e o marfim, 
E a congruência da alma que se vela 
Com os sonhados pálios de cetim? 

Disperso. E a hora como um leque fecha-se… 
Minha alma é um arco tendo ao fundo o mar. 
O tédio? A mágoa? A vida? O sonho? Deixa-se… 

E, abrindo as asas sobre Renovar,
A erma sombra do voo começado
Pestaneja no campo abandonado. 

 
 
 
Em 1907, Pessoa volta para a casa das tias em Lisboa e abandona o curso de Letras após uma greve dos estudantes contra uma medida de João Franco. Viagem a Portalegre para comprar material, para instalar em Lisboa uma tipografia. Logo depois, monta-a na Rua da Conceição da Glória, 38, quarto andar. Dá o nome de “Empresa Ibis – Tipografia Editora – Oficinas a vapor”, porém, mal chega a funcionar. Em 1908, escreve para o Commercio como correspondente estrangeiro. João Miguel Rosa é transferido para Pretória. Também em dezembro de 1910, é fundada, no Porto, a revista A Águia.
 
 
 

A MÚMIA V


Porque abrem as cousas alas para eu passar? 
Tenho medo de passar entre elas, tão paradas conscientes. 
Tenho medo de as deixar atrás de mim a tirarem a Máscara. 
Mas há sempre cousas atrás de mim. 
Sinto a sua ausência de olhos fitar-me, e estremeço.
Sem se mexerem, as paredes vibram-me sentido. 
Falam comigo sem voz de dizerem-me as cadeiras. 
Os desenhos do pano da mesa têm vida, cada um é um abismo. 
Luze a sorrir com visíveis lábios invisíveis 
A porta abrindo-se conscientemente 
Sem que a mão seja mais que o caminho para abrir-se.
De onde é que estão olhando para mim? 
Que cousas incapazes de olhar estão olhando para mim? 
Quem espreita de tudo?
As arestas fitam-me. 
Sorriem realmente as paredes lisas.
Sensação de ser só a minha espinha.
As espadas.
 
 
Em 1911, o inglês Killoge, organiza uma antologia de autores universais, cujo tradutor é Fernando Pessoa. Em janeiro de 1912, é fundada a Renascença Portuguêsa, no Porto. Fernando publica n’A Águia, orgão da Renascença, seu primeiro artigo, ‘A Nova Poesia Portuguêsa Sociológicamente Considerada’, logo depois publica o artigo ‘Reincidindo’. Nesta mesma época, consta, nasce, na mente de Pessoa, Ricardo Reis.
 
 

DORME ENQUANTO EU VELO


Dorme enquanto eu velo…
Deixa-me sonhar…
Nada em mim é risonho.
Quero-te para sonho,
Não para te amar.

A tua carne calma
É fria em meu querer.
Os meus desejos são cansaços.
Nem quero ter nos braços
Meu sonho do teu ser.

Dorme, dorme, dorme,
Vaga em teu sorrir…
Sonho-te tão atento
Que o sonho é encantamento
E eu sonho sem sentir.
 
 
 
Em janeiro de 1913, Pessoa projeta publicar um livro, Gládio. Publica também um artigo na revista Teatro uma crítica ao livro de Afonso Lopes Vieira Bartolomeu Marinheiro, chamado, “Naufrágio de Bartolomeu”. Ainda nesta revista, publica “Cousas estilísticas que Aconteceram”. Anuncia a Álvaro Pinto, secretário de A Águia, Boavida Portugal vai publicar o Inquérito Literário e que ele, Pessoa, prepararia um panfleto de defesa da Renascença Portuguêsa. Nesta mesma época, pensa em publicar um folheto sobre a autoria de Shakespeare.
 
 
 

ELA CANTA, POBRE CEIFEIRA


Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anônima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p’ra cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente ‘stá pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!

Ah, poder, ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!
 
 
 
Ainda em 1913, Pessoa publica em A Águia, o artigo “As Caricaturas de Almada-Negreiros” e inicia uma relação com o poeta. Mário de Sá-Carneiro envia a Pessoa os poemas para o livro Dispersão, para, meses depois, ir para Lisboa conhecê-lo. Outro artigo é publicado “Na Floresta do Alheamento” e um poema dramático chamado “O Marinheiro”. Começa a revisão dos poemas de Sá-Carneiro. No início de 1914, Pessoa publica em A Águia o número único de “Impressões do Crepúsculo” que contém, dentre outros, os poemas O Sino da Minha Aldeia e Pauis. Pessoa também começa a colecionar e publicar traduções para o inglês cerca de 300 provérbios portuguêses. No dia 8 de março de 1914, surge, enfim, Alberto Caeiro.
 
 
 
 
POUCO IMPORTA


Pouco importa de onde a brisa
Traz o olor que nela vem.
O coração não precisa
De saber o que é o bem.

A mim me baste nesta hora
A melodia que embala.
Que importa se, sedutora,
As forças da alma cala?

Quem sou, p’ra que o mundo perca
Com que penso a sonhar?
Se a melodia me cerca
Vivo só o me cercar…
 
 
 
Alberto Caeiro da Silva nasceu em Lisboa no dia 16 de abril de 1889. Poeta ligado à natureza, viria a torna-se mestre ingênuo de Fernando Pessoa e de outros heterônimos, mesmo tendo tido apenas a instrução primária. Órfão de pai e mãe, estudou apenas até a quarta série primária e viveu grande parte de sua vida na região do Ribatejo. 
 
 
 
 
O LUAR QUANDO BATE NA RELVA


O luar quando bate na relva
Não sei que coisa me lembra…
Lembra-me a voz da criada velha
Contando-me contos de fadas.
E de como Nossa Senhora vestida de mendiga
Andava à noite nas estradas
Socorrendo as crianças maltratadas…
Se eu já não posso crer que isso é verdade,
Para que bate o luar na relva?
 
 
 
 
Álvaro de Campos considera Alberto Caeiro um mestre e diz que “Conheci meu mestre em circunstâncias excepcionais, como todas as circunstâncias da vida, e sobretudo as que, não sendo nada em si mesmas, hão de vir a ser tudo nos resultados [...] Vejo-o diante de mim, e vê-lo-ei talvez eternamente como primeiro o vi. Primeiro os olhos azuis de criança que não tem medo; depois, os malares já um pouco salientes, a cor um pouco pálida, e o estranho ar grego, que vinha de dentro e era uma calma, e não de fora, porque não era expressão em feições.”
 
 
 
 
O MISTÉRIO DAS COISAS


O mistério das coisas, onde está ele? 
Onde está ele que não aparece 
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério? 
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore? 
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso? 
Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas, 
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
Porque o único sentido oculto das coisas  
É elas não terem sentido oculto nenhum,   
É mais estranho do que todas as estranhezas  
E do que os sonhos de todos os poetas 
E os pensamentos de todos os filósofos, 
Que as coisas sejam realmente o que parecem ser  
E não haja nada que compreender.
Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: — 
As coisas não têm significação: têm existência. 
As coisas são o único sentido oculto das cousas.
 
 
 
Ainda Álvaro de Campos sobre Alberto Caeiro: “O gesto era branco, o sorriso era como era, a voz era igual, lançada num tom de quem não procura senão dizer o que está dizendo – nem alta nem baixa, clara, livre de intenções, de hesitações, de timidezas. O olhar azul não sabia deixar de fitar. Se a nossa observação estranhava qualquer coisa, encontrava-a: a testa, sem ser alta, era poderosamente branca. Repito: era sua brancura, que parecia maior que a da cara pálida, que tinha majestade. As mãos um pouco delgadas, mas não muito; a palma era larga. A expressão da boca, a última coisa em que se reparava – como se falar fosse, para este homem, menos que existir, – era a de um sorriso como o que se atribui em verso às coisas inanimadas belas, só porque nos agradam”.
 
 
 

DIZES-ME


Dizes-me: tu és mais alguma coisa 
Que uma pedra ou uma planta. 
Dizes-me: sentes, pensas e sabes 
Que pensas e sentes. 
Então as pedras escrevem versos? 
Então as plantas têm ideias sobre o mundo?
Sim: há diferença. 
Mas não é a diferença que encontras;
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as coisas: 
Só me obriga a ser consciente.
Se sou mais que uma pedra ou uma planta?   Não sei. 
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.
Ter consciência é mais que ter cor? 
Pode ser e pode não ser. 
Sei que é diferente apenas. 
Ninguém pode provar que é mais que só diferente.
Sei que a pedra é a real, e que a planta existe. 
Sei isto porque elas existem. 
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram. 
Sei que sou real também. 
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram, 
Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta. 
Não sei mais nada.
Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos. 
Sim, faço ideias sobre o mundo, e a planta nenhumas. 
Mas é que as pedras não são poetas, são pedras; 
E as plantas são plantas só, e não pensadores. 
Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto, 
Como que sou inferior. 
Mas não digo isso: digo da pedra, «é uma pedra», 
Digo da planta, «é uma planta», 
Digo de mim, «sou eu». 
E não digo mais nada. Que mais há a dizer?
 
 
 
Ainda Álvaro de Campos sobre seu mestre: “Nunca vi triste o meu mestre Caeiro. Não sei se estava triste quando morreu, ou nos dias antes. Seria impossível sabê-lo, mas a verdade é que nunca ousei perguntar aos que assistiram à morte qualquer coisa coisa da morte ou de como ele a teve. Em todo o caso, foi uma das angústias da minha vida – das angústias reais em meio de tantas que tem sido fictícias – que Caeiro morresse sem eu estar ao pé dele. Isto é estúpido mas humano, e é assim”.
 
 

HOJE DE MANHÃ


Hoje de manhã saí muito cedo, 
Por ter acordado ainda mais cedo 
E não ter nada que quisesse fazer…
Não sabia que caminho tomar 
Mas o vento soprava forte, 
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas. 
Assim tem sido sempre a minha vida, e assim quero que possa ser sempre — 
Vou onde o vento me leva e não me deixo pensar.
 
 
 
Após um tempo fora, aos 26 anos, Caeiro volta para Lisboa, onde escreve Poemas Inconjuntos, e morre de tuberculose por volta de 1915. Consta que a obra de Caeiro surgiu quase toda em dia só, quando seu criador escreveu quase todos os poemas, de pé, numa escrivaninha. E Álvaro de Campos termina seu relato dizendo que “Nunca vi triste meu mestre Caeiro. Não sei se estava triste quando morreu, ou nos dias antes. Seria impossível sabê-lo, mas a verdade é que nunca ousei perguntar aos que assistiram à morte qualquer coisa da morte ou de como ele a teve. Em todo caso, foi uma das angústias da minha vida – das angústias reais em meio de tantas que têm sido fictícias – que Caeiro morresse sem eu estar ao pé dele. Isto é estúpido mas humano, e é assim”.
 



PRIMEIRO PRENÚNCIO


Primeiro prenúncio da trovoada de depois de amanhã, 
As primeiras nuvens, brancas, pairam baixas no céu mortiço. 
Da trovoada de depois de amanhã? 
Tenho a certeza, mas a certeza é mentira. 
Ter certeza é não estar vendo. 
Depois de amanhã não há. 
O que há é isto: 
Um céu de azul um pouco baço, umas nuvens brancas no horizonte, 
Com um retoque sujo em baixo como se viesse negro depois. 
Isto é o que hoje é, 
E, como hoje por enquanto é tudo, isto é tudo. 
Quem sabe se eu estarei morto depois de amanhã? 
Se eu estiver morto depois de amanhã, a trovoada de depois de amanhã 
Será outra trovoada do que seria se eu não tivesse morrido. 
Bem sei que a trovoada não cai da minha vista, 
Mas se eu não estiver no mundo, o mundo será diferente — 
Haverá eu a menos — 
E a trovoada cairá num mundo diferente e não será a mesma trovoada. 
Seja como for, a que cair é que estará caindo quando cair.
 
 
 
 
Ricardo Reis nasceu no dia 19 de novembro de 1887. Nasceu no Porto. Consta que teve educação clássica num colégio de jesuítas, para, depois, estudar medicina. Profissão que exerceu desde sempre. Foi elaborado pela ideia de se escrever poemas de índole pagã. “O Nosso Ricardo Reis teve uma inspiração feliz se é que ele usa inspiração, pelo menos por fora das explicações, quando reduziu a seis linhas a sua arte poética”.
 
 


DE APOLO O CARRO RODOU PRA FORA


De Apolo o carro rodou pra fora
Da vista.  A poeira que levantara 
Ficou enchendo de leve névoa 
    O horizonte;

A flauta calma de Pã, descendo
Seu tom agudo no ar pausado,
Deu mais tristezas ao moribundo
    Dia suave.

Cálida e loura, núbil e triste,
Tu, mondadeira dos prados quentes, 
Ficas ouvindo, com os teus passos 
    Mais arrastados,

A flauta antiga do deus durando
Com o ar que cresce pra vento leve,
E sei que pensas na deusa clara
    Nada dos mares,

E que vão ondas lá muito adentro 
Do que o teu seio sente alheado 
Enquanto a flauta sorrindo chora 
    Palidamente.
 
 
 
 
Consta também que Ricardo Reis era monárquico, e por isso, expatriou-se espontaneamente desde 1919, para ir viver no Brasil. Tido com “latinista” por formação clássica e “semi-helenista” autodidacta. Ainda Álvaro de Campos, “Não a arte poética, mas a sua. Que ele ponha na mente ativa o esforço só da “altura” (seja isso o que for), concedo, se bem que me pareça estreita uma poesia limitada ao pouco espaço que é próprio dos píncaros”.
 

texto sobre estreia de Mangiare em http://grupopedras.wordpress.com/2012/03/16/mangiare/


TIREM-ME OS DEUSES


 Tirem-me os deuses 
       Em seu arbítrio 
Superior e urdido às escondidas 
       O Amor, glória e riqueza.
       
Tirem, mas deixem-me, 
       Deixem-me apenas 
A consciência lúcida e solene 
       Das coisas e dos seres.
       
Pouco me importa 
       Amor ou glória, 
A riqueza é um metal, a glória é um eco 
       E o amor uma sombra.
       
Mas a concisa 
       Atenção dada 
Às formas e às maneiras dos objectos 
       Tem abrigo seguro.
       
Seus fundamentos 
       São todo o mundo, 
Seu amor é o plácido universo, 
       Sua riqueza a vida. 
 
       A sua glória 
       É a suprema 
Certeza da solene e clara posse 
       Das formas dos objectos.
      
 O resto passa, 
       E teme a morte. 
Só nada teme ou sofre a visão clara 
       E inútil do Universo.
       
Essa a si basta, 
       Nada deseja 
Salvo o orgulho de ver sempre claro 
       Até deixar de ver.
 
 
 
 
Álvaro de Campos segue, “Não concebo, porém, que as emoções, nem mesmo as do Reis, sejam universalmente obrigadas a odes sáficas ou alcaicas, e que o Reis, quer diga a um rapaz que lhe não fuja, quer diga que tem pena ter que morrer, o tenha forçosamente que fazer em frases súbtidas que por duas vezes são mais compridas e por duas vezes mais curtas, e em ritmos escravos que não podem acompanhar as frases súbtidas senão em dez sílabas para as duas primeiras, e em seis sílabas as duas segundas, num graduar de passo desconcertante para a emoção”.
 
 
 

DE NOVO TRAZ AS APARENTES NOVAS


De novo traz as aparentes novas
Flores o verão novo, e novamente
       Verdesce a cor antiga
       Das folhas redivivas.
Não mais, não mais dele o infecundo abismo, 
Que mudo sorve o que mal somos, torna 
       À clara luz superna
       A presença vivida.
Não mais; e a prole a que, pensando, dera 
A vida da razão, em vão o chama,
       Que as nove chaves fecham, 
       Da Stige irreversível.
O que foi como um deus entre os que cantam,
O que do Olimpo as vozes, que chamavam,
       Scutando ouviu, e, ouvindo,
       Entendeu, hoje é nada.
Tecei embora as, que teceis, Grinaldas.
Quem coroais, não coroando a ele?
       Votivas as deponde,
       Fúnebres sem ter culto.  
Fique, porém, livre da leiva e do Orco, 
A fama; e tu, que Ulisses erigira,
       Tu, em teus sete montes,
       Orgulha-te materna,
Igual, desde ele às sete que contendem
Cidades por Homero, ou alcaica Lesbos,
       Ou heptápila Tebas
       Ogígia mãe de Píndaro.
 
 
 
As primeiras obras de Ricardo Reis foram publicadas na revista Athena em 1924, fundada por Pessoa. Depois seguiram oito odes entre 1927 e 1930 na revista Presença, de Coimbra. Todas as outras obras foram publicadas postumamente. Não consta a data de sua morte, e por isso, o escritor José Saramago, munido desta questão, ao escrever O Ano da Morte de Ricardo Reis, fixou sua morte em 1936.
 
 

 O SONO É BOM POIS DESPERTAMOS DELE



O sono é bom pois despertamos dele 
Para saber que é bom. Se a morte é sono 
        Despertaremos dela; 
        Se não, e não é sono,

Conquanto em nós é nosso a refusemos 
Enquanto em nossos corpos condenados 
        Dura, do carcereiro, 
        A licença indecisa.

Lídia, a vida mais vil antes que a morte, 
Que desconheço, quero; e as flores colho 
        Que te entrego, votivas 
        De um pequeno destino.
 
 
 

“Não censuro o Reis mais que a outro qualquer poeta. Aprecio-o, realmente, e para falar verdade, acima de muitos, de muitíssimos. A sua inspiração é estreita e densa, o seu pensamento compactamente sóbrio, a sua emoção real se bem que demasiadamente virada para o ponto cardeal chamado Ricardo Reis. Mas é um grande poeta – aqui o admito – se é que há grandes poetas neste mundo fora do silêncio de seus próprios corações”. 

 
 
 

SE RECORDO QUEM FUI


Se recordo quem fui, outrem me vejo, 
E o passado é o presente na lembrança. 
      Quem fui é alguém que amo 
      Porém somente em sonho. 
E a saudade que me aflige a mente 
Não é de mim nem do passado visto, 
      Senão de quem habito
      Por trás dos olhos cegos. 
Nada, senão o instante, me conhece. 
Minha mesma lembrança é nada, e sinto 
      Que quem sou e quem fui 
      São sonhos diferentes.
 
 
 
Álvaro de Campos nasceu em Tavira da Serra Grande, Portugal, no dia 15 de outubro de 1889. Teve educação clássica de Liceu. Passou toda sua infância em Portugal, e depois foi para Glasgow, Escócia, para estudar Engenharia Naval. Ricardo Reis em um apontamento solto diz que “Não vejo, entre a poesia e a prosa, a diferença fundamental, peculiar da própria disposição da mente, que Campos estabelece. Desde que se usa de palavras, usa-se de um instrumento ao mesmo tempo emotivo e intelectual. A palavra contém uma ideia e uma emoção, Por isso, não há prosa, nem a mais rigidamente científica, que não ressume qualquer suco emotivo.”




NÃO SEI


Não sei. Falta-me um sentido, um tacto
Para a vida, para o amor, para a glória…
Para que serve qualquer história,
Ou qualquer fato?

Estou só, só como ninguém ainda esteve,
Oco dentro de mim, sem depois nem antes.
Parece que passam sem ver-me os instantes,
Mas passam sem que o seu passo seja leve.

Começo a ler, mas cansa-me o que inda não li.
Quero pensar, mas dói-me o que irei concluir.
O sonho pesa-me antes de o ter. Sentir
É tudo uma coisa como qualquer coisa que já vi.

Não ser nada, ser uma figura de romance,
Sem vida, sem morte material, uma ideia,
Qualquer coisa que nada tornasse útil ou feia,
Uma sombra num chão irreal, um sonho num transe.
 
 
 
Consta que Álvaro de Campos era um engenheiro de educação inglesa e de origem inglesa, mas “sempre com a sensação de ser um estrangeiro em qualquer parte da África”. Fez algumas viagens, e numa delas, ao Oriente Médio, escreveu Opiário. Ainda Ricardo Reis, “A poesia é superior à prosa porque exprime, não um grau superior de emoção, mas, por contra, um grau superior do domínio dela, a subordinação do tumulto em que a emoção naturalmente se exprimiria (como verdadeiramente diz Campos) ao ritmo, à rima, à estrofe”.
 
 
 

FARÓIS DISTANTES


Faróis distantes,
De luz subitamente tão acesa,
De noite e ausência tão rapidamente volvida,
Na noite no convés, que consequências aflitas!
Mágoa última dos despedidos,
Ficção de pensar…

Faróis distantes…
Incerteza da vida…
Voltou crescendo a luz acesa avançadamente,
No acaso do olhar perdido…

Faróis distantes…
A vida de nada serve…
Pensar na vida de nada serve…
Pensar de pensar na vida de nada serve…

Vamos para longe e a luz que vem menos grande.
Faróis distantes…
 
 
 
No mesmo apontamento de Ricardo Reis, “no sentido em que Campos diz que são artifícios o ritmo, a rima e a estrofe, se pode dizer que são artifícios a vontade que corrige defeitos, a ordem que policia sociedades, a civilização que reduz os egoísmos à forma sociável [...] o que verdadeiramente Campos faz, quando escreve em verso, é escrever prosa ritmada com pausas maiores marcadas em certos pontos, para fins rítmicos, e esses pontos de pausa maior determina-os ele pelos fins dos versos.”
 
 
 
 
AH, A FRESCURA



Ah, a frescura na face de não cumprir um dever! 
Faltar é positivamente estar no campo! 
Que refúgio o não se poder ter confiança em nós! 
Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros, 
Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo,  
Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que eu saberia que não vinha. 
Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida. 
Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação. 
É tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora, Deliberadamente à mesma hora… 
Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico. 
É tão engraçada esta parte assistente da vida! 
Até não consigo acender o cigarro seguinte…  
Se é um gesto,  
Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.
 
 
 
 
“Campos é um grande prosador, um prosador com uma grande ciência do ritmo; mas o ritmo de que tem ciência, é o ritmo da prosa, e a prosa de pontuação, uma pausa maior e especial, que Campos, como os seus pares anteriores e semelhantes, determinou representar graficamente pela linha quebrada no fim, pela linha disposta como o que se chama um verso”. Não consta nenhuma data de morte de Álvaro de Campos, talvez em 1935, mas isso ainda é muito vago.
 
 
 
NÃO: DEVAGAR


Não: devagar. 
Devagar, porque não sei 
Onde quero ir. 
Há entre mim e os meus passos 
Uma divergência instintiva.
Há entre quem sou e estou 
Uma diferença de verbo 
Que corresponde à realidade. 
Devagar… 
Sim, devagar… 
Quero pensar no que quer dizer 
Este devagar…
Talvez o mundo exterior tenha pressa demais. 
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo. 
Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima… 
Talvez isso tudo… 
Mas o que me preocupa é esta palavra devagar… 
O que é que tem que ser devagar? 
Se calhar é o universo… 
A verdade manda Deus que se diga. 
Mas ouviu alguém isso a Deus?
 
 
 
 
Terminando Campos com Reis, “quase de conclui do que diz Campos, de que o poeta vulgar sente espontâneamente com a largueza que naturalmente projetaria em versos como os que ele escreve; e depois, refletindo, sujeita essa emoção a cortes e retoques e outras mutilações ou alterações, obediência a uma regra exterior. Nenhum homem foi alguma vez poeta assim. A disciplina do ritmo é aprendida até ficar sendo uma parte da alma: o verso que a emoção produz nasce já subordinado a essa disciplina. Uma emoção naturalmente ordenada é uma emoção naturalmente traduzida num ritmo ordenado, pois a emoção dá o ritmo e a ordem que há nela, a ordem que no ritmo há”. 

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DOBRADA À MODA DO PORTO

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo, 
Serviram-me o amor como dobrada fria. 
Disse delicadamente ao missionário da cozinha 
Que a preferia quente, 
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria. 
      
Impacientaram-se comigo. 
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante. 
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta, 
E vim passear para toda a rua. 
      
Quem sabe o que isto quer dizer? 
Eu não sei, e foi comigo… 
      
(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim, 
Particular ou público, ou do vizinho. 
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele. 
E que a tristeza é de hoje). 
      
Sei isso muitas vezes, 
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram 
Dobrada à moda do Porto fria? 
Não é prato que se possa comer frio, 
Mas trouxeram-mo frio. 
Não me queixei, mas estava frio, 
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.
 
 
 
Em março de 1914, Pessoa escreve a ‘Ode Triunfal’, através de Álvaro de Campos. O poema sairia depois na Revista Orfeu, junto com ‘Manucura’ de Mário de Sá-Carneiro. Em maior muda-se para a Rua Pascoal de Melo, para a casa da tia Anica. Meses depois sai os primeiros poemas de Ricardo Reis. Declara em carta a Mário, que atingira a maturidade literária. O grupo da revista modernista Orfeu, que sairia em breve, junto com Pessoa, passa a reunir-se na Cervejaria Jansen, em Lisboa.



EU


Sou louco e tenho por memória
Uma longínqua e infiel lembrança
De qualquer dita transitória
Que sonhei ter quando criança.

Depois, malograda trajetória
Do meu destino sem esperança
Perdi, na névoa da noite inglória
O saber e o ousar da aliança.

Só guardo como um anel pobre
Que a todo o herdado só faz rico
Um frio perdido que me cobre

Como um céu dossel de mendigo,
Na curva inútil em que fico
Da estrada certa que não sigo.
 
 
 
Em 1915, Tia Anica viaja para a Suiça e Pessoa passa a morar na Leiteria Alentejana. Orfeu entra no prelo e Pessoa publica na Galera o artigo ‘Para a Memória de António Nobre’, até que em abril, Orfeu vem a público. Após isso, Pessoa publica uma série de crônicas na Gazeta Boavida Portugal chamada ‘Crônica da Vida que Passa’. Nesta época também saem ‘Ode a Wal Whitman’. Publica um artigo através de Álvaro de Campos criticado o Dr. Afonso Costa, então presidente do conselho do Ministério e é reprimido pelos colegas do grupo de Orfeu, provocando inclusive a saída de Pedro Guisado e António Ferro da revista.
 
 

O AMOR, QUANDO SE REVELA


O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p’ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P’ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala
Fica só inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe, 
O que não lhe ouso contar, 
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…
 
 
 
Em novembro de 1915, morre, possivelmente, Alberto Caeiro. Um mês depois, D. Maria Madalena, mãe de Pessoa, adoece vítima de apoplexia. Em janeiro de 1916, Pessoa estabelece-se como astrólogo em Lisboa, e aparecem fenômenos de mediunidade. Sá-Carneiro pede que Pessoa empenhe um cordão de ouro e o envie dinheiro em Paris, mas, no dia 31 de março, Sá-Carneiro, em carta, anuncia a Pessoa que vai suicidar-se. 27 dias depois, suicida-se em Paris, no Hotel Nice, à Rue Victor Massé, 29. 
 
 
 
CAMINHO A TEU LADO MUDO


Caminho a teu lado mudo. 
Sentes-me, vês-me alheado… 
Perguntas. Sim… Não, nem sei… 
Tenho saudades de tudo… 

Até, porque estás passando 
Do próprio’ mal que passei.
Sim, hoje é um dia feliz. 
Será, não sei, por certo… 

Mas por certo não se vê 
Há um sentido que me diz 
Que este céu azul e aberto 
É só o que nada é…

E lembro-me em amargura 
Do passado, do distante, 
E tudo me é solidão… 

Quem fui nessa noite escura? 
Quem sou nesta morte instante? 
Não pergunto… Tudo é vão.
 
 
 
Em 1917, Pessoa muda-se para a Rua Bernardim Ribeiro e publica textos no único exemplar da revista Portugal Futurista, assim como Álvaro de Campos. Embora tenha anunciado a morte de Alberto Caeiro, assina uma série de poemas com esse nome, e também diz que Ricardo Reis vai para o Brasil. No dia 5 de outubro falece em Pretória o comandante João Miguel Rosa, marido de sua mãe. (perdoem a ausência, sem internet não dá)
 

Texto novo no blog do Grupo Pedras http://grupopedras.wordpress.com


DEPOIS QUE TODOS FORAM



Depois que todos foram 
E foi também o dia
Ficaram entre as sombras 
Das áleas apertadas

Eu e a minha agonia. 
A festa fora alheia 
E depois que acabou 
Ficaram entre as sombras 

Das áleas apertadas 
Quem eu fui e agora sou.
Tudo fora por todos. 
Brincaram, mas enfim 

Ficaram entre as sombras 
Das áleas apertadas 
Só eu, e eu sem mim.
Talvez que ao parque antigo 

A festa volte a ser. 
Ficaram entre as sombras 
Das áleas apertadas 
Eu e quem sei não ser.
 
 
 

Em 1920, o jornal inglês The Athenaeum publica um poema de Pessoa chamado ‘Meantime’. Consta do dia 1 de março desse mesmo ano, sua primeira carta de amor. No mesmo mês, muda-se para a Rua Coelho da Rocha, onde vai habitar com sua mãe e seus irmãos. No fim do mês chega em Lisboa o corpo do padrasto, a bordo do Lourenço Marques. Em outubro, doente, Pessoa pensa em se internar numa casa de saúde.

 
 
 
NA MARGEM VERDE DA ESTRADA



Na margem verde da estrada 
Os malmequeres são meus. 
Já trago a alma cansada — 
Não é disso: é de Deus.
 
Se Deus me quisesse dá-la 
Havia de achar maneira… 
A estrada de cá da vala 
Tem malmequeres à beira.

Se os quero, colho-os e tenho 
Cuidado com os partir 
Cada um que vejo e apanho 
Dá um estalinho ao sair.

São malmequeres aos molhos 
Iguaizinhos para ver 
E nem põe neles os olhos 
Dá a mão p’ra os receber.

Não é esmola que envergonhe, 
Nem coisa dada sem mais. 
É p’ra que a menina os ponha 
Onde o peito dá sinais.

Tirei-os do campo ao lado 
Para a menina os trazer… 
E nem me mostra o agrado 
De um olhar para me ver…

E assim a minha sina. 
Tirei-os de onde iam bem 
Só para os dar à menina, —
E agradeceu-me a ninguém.

 
 
 
Em 1922, aparece o primeiro número da Contemporânea, dirigida por José Pacheco, e sai ‘Banqueiro Anarquista’ de Pessoa. Outros poemas, tanto em português, quanto em inglês, saem nessa revista, inclusive, artigos. Álvaro Maia assina um em ataque a Pessoa chamado ‘Sodoma Divinizada’. Uma carta assinada por Álvaro de Campos dirigida a José Pacheco também é publicada. 
 
 
 

EM OUTRO MUNDO



Em outro mundo, onde a vontade é lei, 
Livremente escolhi aquela vida 
Com que primeiro neste mundo entrei. 
Livre, a ela fiquei preso e eu a paguei 
Com o preço das vidas subsequentes 
De que ela é a causa, o deus; e esses entes, 
Por ser quem fui, serão o que serei.
Porque pesa em meu corpo e minha mente 
Esta miséria de sofrer? Não foi 
Minha a culpa e a razão do que me dói.
 
Não tenho hoje memória, neste sonho 
Que sou de mim, de quanto quis ser eu. 
Nada de nada surge do medonho 
Abismo de quem sou em Deus, do meu 
Ser anterior a mim, a me dizer 
Quem sou, esse que fui quando no céu, 
Ou o que chamam céu, pude querer. 
Sou entre mim e mim o intervalo — 
Eu, o que uso esta forma definida 
De onde para outra ulterior resvalo. 
Em outro mundo                [...]
 
 
 

A revista Contemporânea continua a publicar poemas de Pessoa, ora sob pseudônimos, ora assinando com seu nome. Nesta época, em 1923, um grupo de estudantes de Lisboa formam A Liga de Ação dos Estudantes de Lisboa e atacam Raul Leal com um manifesto. Pessoa, em artigo, sai em defesa se Raul, que se defende também com um artigo. Em 1924, morre o general Henrique Rosa. Pessoa e Ruy Vaz preparam uma revista que sairia logo em outubro de 1924, com mais publicações de poemas e textos de literatura.




TEU PERFIL



Teu perfil, teu olhar real ou feito, 
Lembra-me aquela eterna ocasião 
Em que eu amei Semiramis, eleito 
Daquela plácida visão.

Amei-a, é claro, sem que o tempo e espaço 
Tivessem nada com o meu amor. 
Por isso guardo desse amor escasso 
O meu amor maior.

Mas, ao olhar-te, lembro, e reverbera 
Quem fui em que eu sou. 
Quando eu amei Semiramis, já era 
Tarde no Fado, e o amor passou.

Quanta perdida voz cantou tão bem
Nos séculos perdidos que hoje são
Uma memória irreal do coração!
Quanta voz viva, hoje de ninguém!
 
 
 
 
Em 1924, inicia na França o movimento Surréaliste. Em 1925, é publicado o quinto número de Atena, que seria o último da revista. No dia 17 de março de 1925, falece na Quinta dos Marechais, na Buraca, D. Maria Madalena, mãe de Pessoa. Em 1926, Pessoa requere patente de invenção de um ‘Anuário Indicador Sintético, por Nomes e Outras Quaisquer Classificações, Consultável em Qualquer Língua’, ao mesmo tempo que dirige com o cunhado a Revista de Comércio e Contabilidade. 
 
 
 
 
DEIXEM-ME O SONO



Deixem-me o sono! Sei que é já manhã.
Mas se tão tarde o sono veio, 
Quero, desperto, inda sentir a vã
Sensação do seu vago enleio.

Quero, desperto, não me recusar
A estar dormindo ainda,
E, entre a noção irreal de aqui estar,
Ver essa noção finda.

Quero que me não neguem quem não sou
Nem que, debruçado eu
Da varanda por sobre onde não estou
Nem sequer veja o céu.

Ainda em 1926, Álvaro de Campos responde a um inquérito  do jornal A Publicação e publica no jornal O Sol, um artigo sobre o Conto do Vigário. Sai ainda ‘O Menino de Sua Mãe’. Em 1927, José Régio publica em Presença o artigo ‘Da Geração Modernista’, sendo a primeira referência ao “Mestre” Fernando Pessoa. Também começa a colaborar com a Presença com o poema ‘Marinha’. Em 28, publica O Interregno, manifesto político do Núcleo de Ação Nacional que devia ter saído anônimo.

 
 
 

SOB OS OLHOS QUE NÃO OLHAM


Sob os olhos que não olham – os meus olhos -
Passa o ribeiro, que nem sei se é
Rápido no lento passar incerto ao pé
Dos invisíveis espinhos e abrolhos
Da margem, minha estagnação sem fé.

É como um viandante que passasse
Por um muro de quinta abandonada
E, por não ter que olhá-lo, por ser nada
Para o seu interesse, o não olhasse,
Fiel somente ao nada sem a estrada.
 
 
 
Em 1929, Pessoa começa a publicar na Solução Editora, uma Antologia de Poetas Portuguêses Modernos e é publicado por Gaspar Simões, Temas, primeiro livro sobre a personalidade de Pessoa. Alimenta sair de Lisboa e realizar sua obra definitiva e encontra-se com Aleister Crowley. Meses depois de chegar a Lisboa, Aleister desaparece misteriosamente. Em 1933, Pessoa atravessa uma crise neurastênica.
 
 
 

BRAÇO SEM CORPO BRANDINDO GLÁDIO


Entre a árvore e o vê-la
Onde está o sonho?
Que arco da ponte mais vela
Deus?… E eu fico tristonho
Por não saber se a curva da ponte
É a curva do horizonte…

Entre o que vive e a vida
Pra que lado ocorre o rio?
Árvore de folhas vestida -
Entre isso e Árvore há fio?
Pombas voando – o pombal
Está-lhes sempre à direita, ou é real?

Deus é um grande Intervalo
Mas entre que e quê?…
Entre o que digo e o que calo
Existo? Quem é que me vê?
Erro-me… E o pombal elevado
Está em torno na pomba, ou de lado?
 
 
 
Em 1932, Pessoa concorre para  um cargo de ‘conservador-bibliográfico’ do Museu-Biblioteca do Conde de Castro Guimarães, em Cascais, mas, não é aprovado. Prepara também os originais de ‘Indícios de Oiro’ de Mário de Sá-Carneiro, a ser publicado pela Presença. Um anos depois, em 1934, aparece Mensagem, seu único livro publicado. Com Mensagem, ganha o prêmio da “segunda categoria” do Secretariado de Propaganda Nacional, intitulado ‘Antero de Quental’, cujo primeiro lugar vai para Vasco Reis.
 



NADA SOU


Nada sou, nada posso, nada sigo.
Trago, por ilusão, meu ser comigo.
Não compreendo compreender, nem sei
Se hei de ser, sendo nada, o que serei.

Fora disto, que é nada, sob o azul
Do lato céu um vento vão do sul
Acorda-me e estremece no verdor.
Ter razão, ter vitória, ter amor

Murcharam na haste morta da ilusão.
Sonhar é nada e não saber é vão.
Dorme na sombra, incerto coração.
 
 
 
Em 1935, mais precisamente em janeiro, Pessoa pensa em publicar antes de outubro o seu primeiro grande livro. No dia 29 de novembro é internado com cólica hepática no Hospital de S. Luís, para, no dia seguinte, morrer no mesmo hospital. Três dias depois, o Diário de Notícias publica “Morreu Fernando Pessoa, grande poeta de Portugal”. Pessoa deixou um baú com poemas e textos inéditos, heterônimos e pensamentos que foram sendo publicados ao longo de todo século XX, sobretudo nos anos 60. Cartas de amor à sua única namorada, Ofélia Queiroz, a quem largara por “não dar-lhe tanta atenção quanto à poesia, foram publicadas nos anos 70. Mais ou menos por aí.
 
 

SONHOS


Sonhos, sistemas, mitos, ideais…
Fito a água insistente contra o cais,
E, como flocos de um papel rasgado,
A ela dando-os como a um justo fado,
Sigo-os com olhos em que não há mais
Que um vão desassossêgo resignado.

Eles a mim como consolarão -
A mim, que de inquieto já nem choro;
Que na êrma mente e no êrmo coração
Sombras, só sombras, sombra, rememoro;
A mim, em tudo, sempre em vão,
Cansado até dos deuses que não são?

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