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	<title>Cartilhadepoesia&#039;s Blog</title>
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	<description>Pequenas antologias</description>
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		<title>Poesia francesa</title>
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		<pubDate>Sun, 18 Dec 2011 15:32:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cartilhadepoesia</dc:creator>
				<category><![CDATA[TODOS OS POETAS AQUI]]></category>

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		<description><![CDATA[Semana de traduções, pois, traduzir é preciso. Un souvenir de Noel. Paul Valéry dizia que &#8220;o poema é uma duração, na qual, leitor, respiro uma lei que foi preparada&#8221;. Tem aquela importância, não só pelo notável simbolismo, muito influenciado pelo Mallarmé, mas por ter pensado a poesia, a linguagem, o que sustenta. Foi redator no [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=149&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Semana de traduções, pois, traduzir é preciso. Un souvenir de Noel. Paul Valéry dizia que &#8220;o poema é uma duração, na qual, leitor, respiro uma lei que foi preparada&#8221;. Tem aquela importância, não só pelo notável simbolismo, muito influenciado pelo Mallarmé, mas por ter pensado a poesia, a linguagem, o que sustenta. Foi redator no Ministério da Guerra, trabalhou na Primeira Guerra Mundial, para, logo depois, ser aceito na Academia Francesa. Traduzir não é trair, embora a etimologia nos leve para essa máxima. Paul Valéry, 30 de outubro de 1871 a 20 de julho de 1945.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>HELÈNE<br />
de Paul Valéry<br />
tradução de Pedro Lago</p>
<p>Azul! Sou eu… Venho das grutas da morte<br />
Escutar a onda se romper aos degraus sonoros,<br />
E revejo as galés dentro das auroras<br />
Ressucitarem da sombra ao fio dos ramos de ouro.</p>
<p>Minhas solitárias mãos chamam os monarcas<br />
Cuja barba de sal divertia meus dedos puros;<br />
Eu chorava. Eles cantavam seus triunfos obscuros,<br />
E os golfos enterrados às popas de seus barcos,</p>
<p>Eu escuto as conchas profundas e os clarins<br />
Militares ritmarem o vôo dos remos;<br />
O canto claro dos remadores concatenam o tumulto,</p>
<p>E os Deuses, na proa heróica, exaltados,<br />
Em seu sorriso antigo e que a espuma insulta<br />
Levantam sobre mim seus braços indulgentes e esculpidos.</p>
<p>Baudelaire é aquela importância. Viveu apenas 46 anos, o suficiente para grifar tudo que veio depois dele, e cada vez que se volta à sua obra, seu escritor sobre arte, descobre-se que a coisa vai cada vez mais longe. &#8220;Bom poeta é aquele que tem boa memória&#8221; disse mais ou menos assim na &#8216;Invenção da Modernidade&#8217;. Os poemas em prosa são como crônicas antes da crônica. Só lendo. Hoje, 144 anos após sua morte, com as coisas caminhando para um cenário raso e acelerado, Baudelaire traz a necessidade do espanto, para as novas e velhas gerações. Charles-Pierre Baudelaire (Paris, 9 de abril de 1821 &#8211; Paris, 31 de agosto de 1867)</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>LXXVII SPLEEN<br />
de Charles Baudelaire<br />
tradução de Pedro Lago</p>
<p>Eu sou como o rei de um país chuvoso<br />
Rico, mas desamparado, jovem e ao mesmo tempo muito velho<br />
Quem de seus mentores desdenha as reverências,<br />
Se aborrece com seus cachorros como o faz com outros bobos.<br />
Nada pode o alegrar, nem um animal de caça, nem um falcão<br />
Nem seu povo morrendo em frente à sacada.<br />
Do bufão favorito a grotesca balada<br />
Não distrai mais a face deste cruel doente;<br />
Sua cama ornada de flores de lis se transforma em túmulo,<br />
E as damas do quarto de dormir, para quem todo príncipe é belo,<br />
Não sabem mais achar o impudico toalete<br />
Para gerar um sorriso deste jovem esqueleto.<br />
O erudito que fê-lo ouro jamais pode<br />
De seu ser remover o elemento corrompido,<br />
E nestes banhos de sangue que os Romanos nos trouxeram<br />
De cujos velhos tempos os poderosos se recordam,<br />
Ele não soube aquecer este cadaver atordoado<br />
Onde corre no lugar de sangue a água verde do Létes.</p>
<p>O diálogo entre as gerações é o que acho que mais fascinante em qualquer linguagem, não importa qual. Foi o que Victor Hugo disse sobre Chateaubriand: &#8220;ser Chateaubriand ou nada&#8221;. Mal sabia que seria fonte. Mal sabia que sua Notre-Dame de Paris, que seu Quasímodo, pegariam tanta gente boa. De jeito. Fato é que o século XIX foi essa vitória sobre o Échec de poètes que os franceses tanto falam. Victor Hugo ainda seria levantado às alturas pelos seus Misérables e tantos outros. Grandes homens, grandes mesmo. Victor-Marie Hugo (Besançon, 26 de fevereiro de 1802 &#8211; Paris, 22 de maio de 1885).</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>À VIRGILE<br />
de Victor Hugo<br />
tradução de Pedro Lago</p>
<p>Ó Virgílio! Ó poeta! Ó meu mestre divino!<br />
Venha, deixemos esta cidade ao grito sinistro e vão,<br />
A qual é gigante e jamais fecha a pálpebra,<br />
Esprema uma onda espumante entres seus flancos de pedra,<br />
Lutécia, tão pequena nos tempos de seus Césares,<br />
E que joga hoje, cidade cheia de charretes,<br />
Sobre o nome estridente cujo mundo nomeia,<br />
Mais clareza que Atenas, mais barulho que Roma.</p>
<p>Por você que nos bosques faz, como a água dos céus,<br />
Cair de folha em folha um verso misterioso,<br />
Por você cujo pensamento enche meu devaneio,<br />
Encontrei, numa sombra onde ri uma erva florida,<br />
Entre Buc e Meudon, num profundo esquecimento,<br />
- E quando digo Meudon, suponho Tivoli! -<br />
Encontrei , meu poeta, um vale verde<br />
Nas encostas charmosas displicentemente místicas,<br />
Retrato favorável aos amantes escondidos,<br />
Feito de ondas dormentes e de ramos inclinados,<br />
Onde o belo meio-dia banha em vão com seus raios sem número<br />
A gruta e a floresta, frescos asilos de sombra!</p>
<p>Por você eu a procurei, uma manhã, orgulhoso, feliz,<br />
Com o amor no coração e a madrugada nos olhos;<br />
Por você eu a procurei, acompanhado daquela<br />
Que sabe todos os segredos que minha alma esconde,<br />
E quem, só comigo sobre os bosques hirsutos,<br />
Seria minha Licoris se eu fosse seu Gallus.</p>
<p>Porque ela tem no coração esta flor larga e pura,<br />
O amor misterioso de antiga natureza!<br />
Ela ama como nós, mestre, estas doces vozes<br />
Este barulho de ninhos felizes que saem dos sombrios bosques,<br />
E, a noite, toda ao fundo do vale estreito,<br />
As encostas derrubadas no lago que reverbera,<br />
E, quando o poente triste perdeu seu rubor,<br />
Os pântanos irritados dos passos do viajante,<br />
E o humilde sapê, e o antro obstruído de erva verde,<br />
E que lembra uma boca com o terror aberto,<br />
As águas, os prados, os montes, os refúgios charmosos,<br />
E os grandes horizontes cheios de brilhos!</p>
<p>Mestre! pois eis a estação das pervincas<br />
Se você quiser, cada noite, afastando os galhos,<br />
Sem despertar ecos em nossos passos ousados,<br />
Nós iremos todos os três, quer dizer, todos dois,<br />
Nesse valezinho selvagem e de solidão,<br />
Sonhadores, nós surpreenderemos a secreta atitude.<br />
Na parda clareira onde a árvore ao tronco nodoso<br />
Toma a noite um perfil humano e monstruoso,<br />
Nós deixaremos fumar, à costa de um Falso Ébano,<br />
Algum fogo que se extingue sem pastor que o atiça<br />
E, a orelha esticada à suas vagas canções,<br />
Sobre a sombra, ao luar, a atravessar as moitas,<br />
Ávidos, nós poderemos ver, furtivamente<br />
Os sátiros dançantes que imitam Alfesibéia.</p>
<p>Esse mistério que veio do Uruguai, que escreveu em francês e, como muito se diz, foi precursor do surrealismo, o próprio Breton que disse. Pouco se sabe, mesmo, inclusive como era fisicamente. Há alguns desenhos, um deles, do Artaud. Escreveu Les Chants de Maldoror, onde diz &#8220;eu fiz um pacto com a prostituição, para semear a desordem entre as famílias&#8221;. Perdeu a mãe francesa com vinte meses de idade. Escolheu um nome para si, Conde de Lautréamont, talvez para homenagear o Marquês de Sade, cruzamento direto, mas, como saber? Fato é que, Lautréamont, é um animal feroz, sem exagero. Isidore Lucien Ducasse, Conde de Lautréamont &#8211; Montevidéu, Uruguai, 4 de abril de 1846 &#8211; Paris, 24 de novembro de 1870.</p>
<p>Miasmas em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>VIEIL OCÉAN<br />
de Lautréamont<br />
tradução de Pedro Lago</p>
<p>Eu me proponho, sem ser de modo algum comovido, a entoar o canto sério e frio que vocês irão ouvir. Prestem atenção ao que ele contém, e guardem a impressão penosa que vocês não carecerão de deixar, como um estigma, dentro de suas imaginações perturbadas. Não creiam que eu esteja no ponto de morrer, porque eu não sou mais um esqueleto, e a velhice não grudou na minha face. Afastemos adequadamente toda a idéia de comparação com um cisne, no momento onde sua existência se evapora, e não vejam diante de vocês um monstro, do qual eu estou feliz que vocês não possam perceber a cara, mas menos horrível é ela que sua alma!&#8230; Entretanto eu não sou mais um criminoso&#8230; o bastante sobre este assunto. Há não muito tempo que eu revi o mar e andei até o cais, e minhas memórias estão vívidas como se eu as tivesse abandonado na véspera. Sejam, contudo, se vocês o podem, tão calmos quanto eu nessa leitura da qual eu já me arrependo de oferecer, e não ruborizem ao pensamento do que é o coração humano. Ah! Dazet! Tu, cuja alma é inseparável da minha; tu, o mais belo dos filhos da mulher, embora adolescente ainda; tu, cujo nome se parece ao maior amigo da juventude de Byron; tu em quem reúnem-se nobremente, como em sua residência natural, por um comum acordo, de um laço indestrutível, a doce virtude comunicativa e as graças divinas, porque não és tu comigo, teu peito contra o meu peito, sentados todos os dois sobre algum rochedo da orla, para contemplar este espetáculo que eu adoro.</p>
<p>Velho Oceano, as ondas de cristal, tu te pareces proporcionalmente a essas manchas azuladas que vemos sobre as costas feridas das espumas; tu és um imenso azul sobre os corpos da terra: eu amo esta comparação. Assim, ao teu primeiro aspecto, um sopro prolongado de tristeza, que acreditamos ser o murmúrio de tua brisa suave passa deixando inefáveis traços sobre a alma profundamente abalada, e tu chamas de volta a lembrança de teus amantes, sem que se perceba sempre, os rudes princípios do homem onde ele trava conhecimento com a dor que não o deixa mais. Eu te saúdo, velho Oceano!</p>
<p>Velho Oceano, tua forma harmoniosamente esférica, que alegra a face grave da geometria, não me lembra menos do que muitos dos pequenos olhos do homem, parecidos aos do javali para a pequenez, e aos dos pássaros da noite para a perfeição circular do contorno. No entanto, o homem acreditou-se belo em todos os séculos. Eu, suponho, antes de preferência, que o homem não acreditou em sua beleza apenas por amor próprio; mas que ele não é belo realmente e que ele disso duvida; senão por que ele observa a figura de seu semelhante com tanto desprezo? Eu te saúdo, velho Oceano!</p>
<p>Velho Oceano, tu és o símbolo da identidade: sempre igual a ti mesmo. Tu não varias de uma maneira essencial, e se tuas ondas estão em alguma parte em fúria, mais ainda em qualquer outra zona elas estão na calma mais completa. Tu não és como um homem, que para na rua para ver dois buldogues se agarrando no pescoço, mas que não para quando um funeral passa; que está nesta manhã acessível e nesta noite de mal humor, que ri hoje e chora amanhã. Eu te saúdo, velho Oceano!</p>
<p>Velho Oceano, não haveria nada de impossível no que tu escondes em teus seios de futuras utilidades para o homem. Tu já lhe destes as baleias. Tu não te deixas facilmente adivinhar pelos olhos ávidos das ciências naturais os mil segredos de tua íntima organização: Tu és modesto. O homem se gaba sem cessar e para as minúcias. Eu te saúdo, velho Oceano!</p>
<p>Velho Oceano, as diferentes espécies de peixes que tu alimentas, não juraram fraternidade entre elas. Cada espécie vive de sua parte. Os temperamentos e as conformações que variam em cada uma delas, explicam de uma maneira satisfatória; o que parece a princípio uma anomalia. É desse modo um homem que não possui os mesmos motivos de desculpa. Um pedaço de terra é ocupado por trinta milhões de seres humanos, os que se crêem obrigados em não se misturar na existência de seus vizinhos, fixados como raízes sobre o pedaço de terra que perseguem. Descendo do grande ao pequeno, cada homem vive como um selvagem dentro de sua caverna, e saem raramente para visitar seu semelhante agachado igualmente dentro de outra caverna. A grande família universal dos humanos é uma utopia digna da lógica das mais medíocres. Além disso, do espetáculo de tuas tetas fecundas emerge a noção de ingratidão, porque pensa-se imediatamente aos seus parentes numerosos demasiadamente ingratos para com o Criador para abandonar o fruto de sua miserável união. Eu te saúdo, velho Oceano!</p>
<p>Velho Oceano, tua grandeza material, não pode ser comparada ao cálculo que se fez do que foi necessário de força ativa para engendrar a totalidade de tua massa. Não se pode te beijar de lampejo. Para te contemplar, é preciso que a paisagem se transforme por um momento contínuo em direção aos quatro pontos do horizonte, igualmente a um matemático que no afã de resolver uma equação algébrica, examina separadamente diversos casos possíveis antes de determinar as dificuldades. O homem come substancias nutritivas e faz outros esforços dignos de uma melhor sorte para parecer alimentado: que ela se inche tanto que ela desejará, esta rã. Sejas tranqüilo, ela não te igualará em dimensão; eu acho, pelo menos. Eu te saúdo, velho Oceano!</p>
<p>Velho Oceano, teus olhos são amargos. É exatamente o mesmo gosto da bílis que destila a critica sobre as belas artes, sobretudo as ciências, sobretudo. Se alguém tem a genialidade sobre as ciências, faz-se passar por um idiota; se um outro alguém é belo de corpo, é um corcunda abominável. Certamente, é preciso que o homem sinta com força sua imperfeição, cujos três quartos, aliás, não devem menos que a ele mesmo, para a criticar assim! Eu te saúdo, velho Oceano!</p>
<p>Velho Oceano, os homens, apensar da excelência de seus métodos, não são ainda seguros, ajudados pelos meios de investigação da ciência, a medir a profundidade vertiginosa de teus abismos; tu que tens as sondas longas, as mais pesadas reconheceram-se inacessíveis. Aos peixes isto é permitido, não aos homens. Muitas vezes eu me questionei que coisa seria mais fácil a reconhecer: a profundidade do Oceano ou a profundidade do coração humano! Muitas vezes, com a mão ao alcance da testa, em pé diante dos navios, enquanto a lua se balançava entre os mastros de um jeito irregular, eu me surpreendi fazendo abstrações de tudo o que não era o fim que eu perseguia, me esforçando para resolver esse difícil problema! Sim, qual é o mais profundo, o mais impenetrável dos dois, o Oceano ou o coração humano? Se trinta anos de experiência de vida podem até certo ponto inclinar a balança para uma ou outra dessas soluções, me será permitido dizer que, apesar da profundidade do Oceano, não se pode igualar, quanto à comparação sobre esta propriedade, com a profundeza do coração humano. Eu estive em relação com os homens que foram virtuosos. Eles morreram aos sessenta anos, e cada um não deixava de se gabar: “Eles fizeram o bem sobre esta terra, quer dizer, ele praticaram a caridade: eis tudo, isto não é malicioso, cada um pode fazer tanto quanto” Quem compreenderá porque dois amantes que se idolatram na véspera, por uma palavra mal interpretada, se afastam, um em direção ao Oriente, o outro em direção ao Ocidente, com os aguilhões do ódio, da vingança, do amor e do remorso, e não se revêem mais, cada um coberto em seu orgulho solitário. É um milagre que se renova a cada dia e que não é menos miraculoso. Quem compreenderá porque aprecia-se não somente as desgraças gerais de seus semelhantes, mas também, as particularidades de seus mais queridos amigos, mesmo de seu pai e de sua mãe, ao passo que se aflige ao mesmo tempo? Um exemplo incontestável para concluir a série: o homem diz hipocritamente sim e pensa não. É por isso que os homens tem tanta confiança uns nos outros, e não são egoístas. Resta à psicologia mais progresso a fazer. Eu te saúdo, velho Oceano!</p>
<p>Velho Oceano, tu és tão poderoso que os homens o aprenderam as suas próprias custas. Eles fazem bom uso de todos os recursos de seu gênio&#8230;; incapazes de te dominar. Eles acharam seu mestre. Eu digo que eles encontraram alguma coisa mais forte que eles. É alguma coisa, um nome. Este nome é: O Oceano! O medo que tu os inspiras é tal que eles te respeitam. Apesar disso, tu fazes valsar suas mais pesadas maquinas com graça, elegância e facilidade. Tu os fazes dar saltos ginásticos, até o céu, e dar mergulhos admiráveis até o fundo de teus domínios: um saltimbanco ficaria com inveja. Bem aventurados são eles quando tu não os envelopa definitivamente em tuas camadas espumantes para ir ver, sem trilhos, em tuas entranhas aquáticas, como se portam os peixes, e sobretudo, como se portam eles-mesmos. O homem disse: “Eu sou mais inteligente que o Oceano” É possível, mas o Oceano a ele é mais abominável que ele ao Oceano: é o que não é necessário provar. Este patriarca observador, contemporâneo das primeiras épocas de nosso globo suspenso, sorriu de pena quando viu os combates navais das nações&#8230; Eis uma centena de leviathans que saíram das mãos da humanidade! A ordens enfáticas dos superiores, os gritos dos feridos, os tiros de canhão, é o ruído feito com o propósito de aniquilar alguns segundos&#8230; O drama termina, o Oceano colocou tudo em seu ventre! Oh! Essa garganta formidável!&#8230; Quão grande deve ela ser para baixo, na direção do desconhecido! Para coroar a estúpida comédia, que não é mesmo interessante, vê-se no meio dos ares alguma cegonha atrasada pela fadiga, que se põe a gritar, sem parar a envergadura de seu vôo: “Ei! acho que é ruim! Havia lá embaixo pontos negros. Eu fechei os olhos&#8230; eles desapareceram” Eu te saúdo, velho Oceano!</p>
<p>Velho Oceano, ó grande celibatário, quando tu atravessas a solidão solene de teus reinos fleumáticos, tu te orgulhas acertadamente de tua magnitude nativa, e os elogios verdadeiros que me apresso em te dar. Balanças voluptuosamente pelos brilhos suaves de tua lentidão majestosa, que é a mais grandiosa entre os atributos cujo soberano poder te gratificou, tu desenrolas, no meio de um sombrio mistério, sobre tua superfície sublime, tuas ondas incomparáveis com o sentimento calmo de teu poder eterno. Elas se acompanham paralelamente, separadas por curtos intervalos. Mal uma diminui, uma outra vai até ela se reencontrar crescendo, acompanhadas elo ruído melancólico da espuma. (desta forma os seres humanos, as ondas vívidas, extinguem uma após a outra de uma maneira monótona, mas sem deixar o barulho espumoso) O pássaro de passagem descansa sobre elas com confiança, e se deixa abandonar a seus movimentos cheios de uma graça orgulhosa, até que os ossos de suas asas tenham recuperado seu vigor acostumado para continuar a peregrinação aérea. Eu gostaria que a dignidade humana não fosse nada menos que uma encarnação do reflexo da tua; eu desejo muito. Este desejo sincero é glorioso para ti. Tua grandeza moral, imagem do infinito, é imensa como a reflexão do filosofo, como o amor da mulher, como a beleza divina do pássaro, com as meditações do poeta. Tu és mais belo que a noite. Responda-me, Oceano, tu queres ser meu irmão? Me agites com impetuosidade, mais&#8230; mais ainda, se tu quiseres que eu te compare à vingança de Deus; alongues tuas garras lívidas abrindo um caminho sobre teu próprio seio&#8230; é ótimo&#8230; Desenroles tuas ondas abomináveis, Oceano repugnante, compreendido por mim somente e diante do qual eu tombo, prosternado a teus joelhos. A dignidade do homem é emprestada; ele não me imporá um ponto. Tu, sim. Oh! Quando tu avanças a alta crista e terrível, cercada de tuas dobras tortuosas como de uma corte, magnetizador e feroz, rolando tuas ondas umas sobre as outras, com a consciência de que tu és, para que tu cresças das profundezas de teu peito, como que comovido de um remorso intenso que eu não pude descobrir, este surdo rugido perpétuo que os homens receiam tanto, mesmo quando eles te contemplam em segurança, trêmulos sobre a margem, então, eu vejo que ele não me pertence, o direito notável de me dizer teu igual. É porque na presença de tua superioridade, eu te daria todo o meu amor (e nulo não sabes a quantidade de amor que contem minha aspirações sobre o belo), se tu não me fizesses dolorosamente pensar aos meus semelhantes, que formam com ti o mais irônico contraste, a antítese mais bufônica que jamais se viu na criação: Eu não posso te amar. Eu te detesto. Porque volto a ti pela milésima vez, em direção a teus braços amigos que se entreabrem para acariciar meu rosto ardente, que vê desaparecer a febre em teu contato! Eu não conheço teu destino escondido: Tudo que te concerne me interessa. Digas para mim então se tu és a morada do Príncipe das Trevas. Dizes para mim, dizes para mim, Oceano (a mim somente para não entristecer os que ainda não conheceram nada menos que ilusões) e se o sopro de Satan criou as tempestades que agitam teus olhos salgados até as nuvens. É preciso que tu me digas, porque eu me alegraria em conhecer o inferno tão perto do homem. Eu quero que esta seja a última estrofe da minha invocação.  Assim sendo, uma última vez de novo, eu quero te saldar e te fazer meus adeuses! Velho Oceano, as ondas de cristal&#8230; Meus olhos se molham de lágrimas abundantes, e eu não tenho a força de perseguir, pois eu sinto que o momento de voltar para entre os homens chegou, ao aspecto brutal: Mas; coragem! Façamos um grande esforço e terminemos com o sentimento do dever, nosso destino sobre esta terra. Eu te saúdo, velho Oceano!</p>
<p>A apropriação da imagem do Rimbaud pelo movimento punk é um reflexo bem interessante do que ele representa. Hoje, camisas são vendidas na França. Parece também que o &#8220;dia mundial do poeta&#8221; é comemorado no dia de seu aniversário, dentre muitas outras reverberações. Ecos. E pensar que não fosse pelo Verlaine, talvez, isso não ocorresse. Outra figura importante na divulgação da obra do jovem poeta de Charleville foi Ezra Pound. Rimbaud sofreu muito na mão dos padres de sua infância, suas prosas do início são lindas, menino da província explodindo em Paris, belo e rústico, poeta de técnica impressionante. Depois de explorar tudo, foi viver o corpo, viajou, ganhou dinheiro com armas, foi para a Àfrica, perdeu uma perna, coisas que todos sabemos. Rimbaud é desses poetas de substância concentrada, capaz de nos fazer mudar, ou mais. Jean-Nicolas Arthur Rimbaud, Charleville 20 de outubro de 1854 &#8211; Marselha, 10 de novembro de 1891.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>LE BATEU IVRE<br />
de Arthur Rimbaud<br />
tradução de Pedro Lago</p>
<p>Como eu descia os Rios Impassíveis,<br />
Não me senti mais guiado pelos sirgadores.<br />
Os Peles-Vermelhas berrantes os tinham pego para alvo<br />
Tendo-os pregado, nus, nos postes de cores.</p>
<p>Eu estava inconsciente de toda a tripulação,<br />
Carregador de trigo flamengo ou de algodão inglês.<br />
Quando com meus sirgadores terminaram a algazarra<br />
Os Rios me deixaram descer para onde eu queria.</p>
<p>Dentro dos marulhos furiosos das marés,<br />
Eu, outro inverno, mais surdo que os cérebros das crianças,<br />
Corri! E as Penínsulas desamarradas<br />
Não sofreram confusões triunfantes.</p>
<p>A tempestade abençoou meus despertares marítimos.<br />
Mais leve que uma rolha eu dancei sobre as marés<br />
Que chamamos balanço eterno das vítimas,<br />
Dez noites, sem prantear o óleo parvo das lanternas!</p>
<p>Mais doce que as crianças a carne das maçãs ácidas,<br />
A água verde penetrou minha casca de pinho<br />
E as manchas de vinhos azuis e os vômitos<br />
E me lavou, dispersando leme e arpéu.</p>
<p>E desde então, eu me banhei dentro do poema<br />
Do mar, infundido de astros e lactescente,<br />
Devorando os azuis verdes; onde, na flutuação lívida<br />
E cantante, um afogado pensativo às vezes desce;</p>
<p>Onde, tingindo subitamente os azuis delírios<br />
E ritmos lentos sobre os rutilamentos do dia,<br />
Mais fortes que o álcool, mais vastos que vossas liras,<br />
Fermentando os ruivos amargos do amor!</p>
<p>Eu conheço os céus arrebentando em relâmpagos, e as trombas<br />
E as ressacas e as correntes; eu conheço a noite,<br />
A madrugada exaltada assim que um povo de pombas,<br />
Eu vi às vezes o que o homem jamais acreditou ver!</p>
<p>Eu vi o sol baixo manchado de horrores místicos,<br />
Iluminando do alto coágulos violetas,<br />
Semelhante ao dos atores de dramas muito antigos<br />
As ondas rolando ao longe seus frissons de persianas!</p>
<p>Eu sonhei a noite verde às neves ofuscantes,<br />
Beijos subindo aos olhos dos mares com lentidão,<br />
A circulação das seivas inauditas,<br />
E o despertar amarelo e azul dos fósforos cantantes!</p>
<p>Eu segui, de mêses cheios, semelhantes às vacarias<br />
Histéricas, o marulho ao assalto dos recifes,<br />
Sem sonhar que os pés luminosos das Marias<br />
Pudessem forçar o focinho aos Oceanos asmáticos!</p>
<p>Eu colidi, sabe você, de inacreditáveis Floridas<br />
Misturando as flores dos olhos de panteras às peles<br />
Dos homens! Dos arco-íris estendidos como as rédeas<br />
Sobre o horizonte de mares, aos glaucos gados!</p>
<p>Eu vi fermentar os pântanos enormes, nassas<br />
Onde apodreceu dentro dos juncos um inteiro Leviatã!<br />
Os desabamentos de água ao meio das bonanças,<br />
E os longínquos para os abismos cataratantes!</p>
<p>Geleiras, sóis de prata, marés de nácar, céus de brasas!<br />
Fracassos hediondos do fundo dos golfos pardos<br />
Onde as serpentes gigantes devoradas pelos percevejos<br />
Caem das árvores tortas com negros perfumes!</p>
<p>Eu quereria mostrar às crianças esses dourados<br />
Do mar azul, esses peixes de ouro, esses peixes cantantes,<br />
- As espumas de flores abençoaram minhas enseadas<br />
E os inefáveis ventos me fizeram voar por instantes.</p>
<p>Às vezes, martírio laçado dos pólos e das zonas,<br />
O mar cujo soluço fazia meu balanço doce<br />
Subiam sobre mim suas flores de sombras dos ventosos amarelos<br />
E eu ficava, portanto, como uma mulher de joelhos&#8230;</p>
<p>Quase-ilha, sobre minhas bordas as querelas<br />
E os excrementos dos pássaros gritantes aos olhos louros.<br />
E eu vogava, quando através meus laços frágeis<br />
De afogadas desciam para dormir, recuando!</p>
<p>Ora, eu, barco perdido sob os cabelos das ansas<br />
Atirado pelo furacão no éter sem pássaro,<br />
Eu cujos Monitores e os veleiros das Hansas<br />
Não queriam pescar de novo a carcassa ébria da água;</p>
<p>Livre, fumando, embarcado de brumas violetas,<br />
Eu que abri um buraco no céu avermelhando como um muro<br />
Que traz, geléias delicadas aos bons poetas,<br />
Liquens de sol e mucos do azul;</p>
<p>Que corria, manchado de lúnulas elétricas,<br />
Prancha louca, escoltado de hipocampos negros,<br />
Quando os julhos faziam desabar a golpes de porrete<br />
Os céus ultramarinos aos ardentes funis;</p>
<p>Eu que tremia, sentindo choramingar à cinquenta lugares<br />
O cio do Béhémots e dos Maelstroms espessos,<br />
Fiandeiro eterno das imobilidades azuis,<br />
Eu anseio a Europa dos antigos parapeitos!</p>
<p>Eu vi os arquipélagos siderais! e ilhas<br />
Cujos céus delirantes são abertos ao navegante:<br />
- São nessas noites sem fundo que você dorme e se exila,<br />
Milhões de pássaros de ouro, ó futuro Vigor?</p>
<p>Mas, na verdade, eu chorei muito! As madrugadas são aflitivas,<br />
Toda lua é atroz e todo sol amargo:<br />
O acre amor me encheu de torpores inebriantes<br />
Ah que minha quilha quebre! Ah que eu vá ao mar!</p>
<p>Se eu desejo uma água da Europa, é a leve<br />
Negra e fria para o crepúsculo embalsamado,<br />
Uma criança agacha cheia de tristeza, solta<br />
Um barco frágil como uma borboleta de maio.</p>
<p>Eu não pude mais, banhado de vossa languidez, ó ondas,<br />
Arrebatar suas esteiras aos carregadores de algodão,<br />
Nem atravessar o orgulho das bandeiras e das flâmulas,<br />
Nem nadar sob os olhos horríveis dos pontões.</p>
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		<title>Euclides da Cunha</title>
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		<pubDate>Tue, 06 Dec 2011 12:17:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cartilhadepoesia</dc:creator>
				<category><![CDATA[TODOS OS POETAS AQUI]]></category>

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		<description><![CDATA[No dia 20 de janeiro de 1866, nasce Euclides Rodrigues da Cunha, na Fazenda da Saudade, em Santa Rita do Rio Negro, atual Euclidelândia, no município de Cantagalo, Rio de Janeiro. Fillho de Manoel Rodrigues Pimenta da Cunha e Eudóxia Alves Moreira, o jovem foi batizado, apenas, no dia 24 de novembro. Entraremos, então, na [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=143&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No dia 20 de janeiro de 1866, nasce Euclides Rodrigues da Cunha, na Fazenda da Saudade, em Santa Rita do Rio Negro, atual Euclidelândia, no município de Cantagalo, Rio de Janeiro. Fillho de Manoel Rodrigues Pimenta da Cunha e Eudóxia Alves Moreira, o jovem foi batizado, apenas, no dia 24 de novembro. Entraremos, então, na obra poética, pouco difundida, deste grande escritor brasileiro. Evoé Euclides!</p>
<p>Thunder, thunder, hhhôôôuh! em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>EU QUERO&#8230;</p>
<p>Eu quero à doce luz, os vespertinos pálidos,<br />
Lançar-me, apaixonado, entre as sombras das matas -<br />
- Berços feitos de flores e de carvalhos válidos,<br />
Onde a Poesia dorme, aos cantos da cascatas&#8230;</p>
<p>Eu quero aí viver &#8211; o meu viver funéreo,<br />
Eu quero aí chorar &#8211; os tristes prantos meus&#8230;<br />
E envolto o coração, nas sombras do mistério,<br />
Sentir minh&#8217;alma erguer-se entre a floresta e Deus!&#8230;</p>
<p>Eu quero aí unir a voz de meus martírios<br />
C&#8217;os trenos, que murmura a brisa nos palmares<br />
- As lágrimas guardar, no seio azul dos lírios,<br />
E os soluços no seio dos trêm&#8217;los nenúfares&#8230;</p>
<p>Eu quero, da ingazeira &#8211; erguida aos galhos úmidos,<br />
Ouvir os cantos virgens &#8211; da agreste patativa&#8230;<br />
Da natureza eu quero nos grandes seios túmidos<br />
Beber a Calma, o Bem e a Crença &#8211; ardente, altiva -</p>
<p>Eu quero, eu quero ouvir o esbravejar das águas<br />
Das ásp&#8217;ras cachoeiras que irrompem do sertão&#8230;<br />
- E a minh&#8217;alma cansada &#8211; ao peso atroz das mágoas -<br />
Silente adormecer no colo da solidão&#8230;</p>
<p>Em1868, nasce a irmã de Euclides, Adélia, no dia 9 de agosto. Um ano depois, o pequeno Euclides, com apenas três anos de idade, torna-se órfão de mãe, vítima de uma tuberculose. Com isso, em 1870, muda-se com a família para Teresópolis, no Rio de Janeiro, para a casa de seus tios Rosinda e Urbano Gouveia, porém, sua tia, Rosinda, que havia ocupado o posto de mãe em sua criação, também morre.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>O JAGUAR</p>
<p>Livre das selvas que trazes<br />
Na garra &#8211; o pavor da terra,<br />
No peito &#8211;  as canções da guerra<br />
Nos olhos &#8211; chamas audazes!</p>
<p>Quando convulso tu bramas<br />
Nas brenhas &#8211; bravo, possante -<br />
E o Sol te arranca, ofuscante,<br />
Do olhar &#8211; punhados de flamas!&#8230;</p>
<p>Quando na raiva sem termos -<br />
Povoas &#8211; fremindo forte<br />
Com um poema de morte<br />
A calma mudez dos ermos!;</p>
<p>Lembras o meu coração!&#8230;<br />
Livre qual tu, qual tu forte<br />
Freme, palpita sem norte<br />
De meu peito na solidão!&#8230;</p>
<p>Salta &#8211; estaca &#8211; bravo, lesto<br />
Cheio de amor e ódio, deixa<br />
Uma blafêmia uma queixa<br />
Um poema em cada esto&#8230;</p>
<p>Se a trevosa e fria vaga<br />
Da desgraça nele bate<br />
Ele blasfema am embate<br />
Crê Satã e ruge a praga!</p>
<p>Jaguar! ida a raiva tua<br />
Imóvel, calmo tu lavas<br />
Do sangrento olhar as lavas<br />
No argênteo clarão da Lua&#8230;</p>
<p>Meu coração &#8211; ida a dor<br />
Chora e canta &#8211; entre a soidade -<br />
- No saltério da saudade<br />
A Eterna harmonia: &#8211; o amor!&#8230;</p>
<p>Depois da morte de sua tia Rosinda, em 1871, Euclides se muda para São Fidélis, no Rio de Janeiro, com a irmã e passa a morar com os tios Laura e Cândido José Magalhães Garcez, na Fazenda São Joaquim. Um ano depois, matricula-se no Colégio Caldeira, sob direção de Francisco José Caldeira, que era um pedagogo português. Em 1878, mais uma mudança, desta vez, para Salvador, Bahia, para, morar com a avó e passa a estuda no Colégio Bahia.</p>
<p>http://cartilhadepoesia.wordpress.com</p>
<p>OS GRANDES ENJEITADOS</p>
<p>Servis!&#8230; dançai, folgai &#8211; na régia bacanália&#8230;<br />
Quadro-voz essa luz que nos raios espalha<br />
    A treva e o crime atrai!&#8230;</p>
<p>Valsai &#8211; nesse delírio atroz, brutal que assombra -<br />
Folgai&#8230; a grande Luz espia-vos na sombra!<br />
    Folgai, cantai &#8211; valsai!&#8230;</p>
<p>Que vos importa &#8211; ó vis, caricatos atletas -<br />
Se o povo dorme nu &#8211; nas lôbregas sarjetas -<br />
    Entre o pântano e os Céus!&#8230;.</p>
<p>Q&#8217;importa se essa luz &#8211; faz as noites da História!<br />
Q&#8217;importa se os heróis &#8216;stão entre a lama e a Glória<br />
    Entre a miséria e Deus!&#8230;</p>
<p>Q&#8217;importa-vos a dor; &#8211; a lágrima brilhante<br />
Do seio dos heróis -, estrela palpitante<br />
    Que ao céu do porvir vai&#8230;</p>
<p>Q&#8217;importa-vos a honra, a consciência, a crença,<br />
A justiça, o dever!?&#8230; ah! vossa febre é imensa! -<br />
    Folga, folgai, folgai!&#8230;</p>
<p>Q&#8217;importa-vos a Pátria&#8230;a pátria &#8211; é-vos um nome!&#8230;.<br />
Q&#8217;importa-vos o povo &#8211; esse galé da fome -<br />
    Ó cortesãos, ó rei!?</p>
<p>Se o olhar das barregãs, de amor e febre aceso<br />
Vos ferve dentro d&#8217;alma &#8211; e se o direito é preso<br />
    Nessa grilheta &#8211; Lei!</p>
<p>Fazeis bem em rir &#8211; ó pequeninos seres&#8230;<br />
O crime, o vício e o mal são os vossos deveres -<br />
    Avante pois &#8211; gozai&#8230;</p>
<p>Atufai-vos &#8211; rolai ó almas guarida -<br />
No abismo fundo e frio &#8211; o seio da perdida!&#8230;<br />
    &#8211; Cantai&#8230; cantai, cantai!&#8230;</p>
<p>Gritai com força! assim&#8230; não percebeis agora<br />
O eco de vossa voz?&#8230; &#8211; de vossa voz sonora -<br />
    Tremer na vastidão!?</p>
<p>Não ouvis as canções que o seu frêmito espalha?&#8230;<br />
Ele desce de Deus &#8211; ó dourada canalha -<br />
    Ele é &#8211; Revolução!&#8230;</p>
<p>Em 1879, Euclides volta para a região fluminense para morar com seu tio paterno, Antônio Pimenta da Cunha, em uma chácara nas imediações do atual Largo da Carioca e matricula-se no Colégio Anglo-Americano. Em 1880, muda novamente de escola, agora frequenta os colégios Vitório da Costa e Meneses Vieira e faz os preparatórios. Em 1883, inicia estudos no Colégio Aquino sob a supervisão de Benjamin Constant. Com alguns colegas, passa a editar o periódico mensal &#8216;O Democrata&#8217; lançado em 1884, no qual Euclides publicará seu primeiro trabalho em prosa. Também declama poemas no Centro José de Alencar. São dessa época seus primeiros poemas.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>AO CLARÃO DAS FORJAS</p>
<p>Ó fronte varonil &#8211; brônzea, dominadora<br />
Que a palpitante luz das fornalhas aclara&#8230;<br />
- Alma &#8211; altiva e viril, como o bronze &#8211; sonora,<br />
Tão rija como o aço e como as forjas &#8211; clara!&#8230;</p>
<p>Combatente da paz nas lutas do trabalho,<br />
Tu &#8211; que ani&#8217;las com o olhar &#8211; a fome tenebrosa;<br />
E fazer teu porvir &#8211; com o ferro, o fogo e o malho<br />
- Dá-me esta áspera mão dá-me esta mão calosa!&#8230;</p>
<p>Esta ásp&#8217;ra mão robusta, ardente, válida &#8211; esta<br />
Mão &#8211;  que os malhos levanta e, esplêndida à vibrá-los<br />
- Férrea e grande &#8211; produz do progredir a orquestra!<br />
- Dá-me esta mão que veste &#8211; uma luva de calos!&#8230;</p>
<p>E deixa te dizer em cálida linguagem<br />
Ígnea &#8211; como o suor &#8211;  com o qual a fronte adornas -<br />
Como tu&#8217;alma &#8211; brava, intérmina, selvagem -<br />
- Ásp&#8217;ra como a canção sonora das bigornas&#8230;</p>
<p>Não invejes &#8211; jamais &#8211; aos que a sorte fagueira<br />
As frontes osculou descendo um áureo traço -<br />
Eles têm o futuro e a crença &#8211; na algibeira -<br />
Tu &#8211; tens a crença n&#8217;alma &#8211;  e o futuro &#8211; em teu braço.</p>
<p>Em 1885, Euclides entra na Escola Politécnica no Largo de São Francisco no Rio de Janeiro. Um ano depois assenta na Escola Militar da Praia Vermelha como cadete número 308, estundando com Cândido Rondon e Tasso Fragoso. Datam desta época, poemas filosóficos e melancólicos. Passa a colaborar  com artigos e poemas na Revista da Família Acadêmica editada pelos alunos da Escola Militar. Porém, um incidente mudaria seu percurso.</p>
<p>Os ossos em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>VIAM-NO SEMPRE A DIVAGAR TORVADO</p>
<p>Viam-no sempre a divagar torvado<br />
Pelas tabernas vos, &#8211; sempre seguido<br />
De um velho cão famélico e ferido,<br />
Bêbado &#8211; impuro, torpe e enlameado&#8230;</p>
<p>Veio afinal o inverno amaldiçoado!&#8230;<br />
No negro quarto o homem enf&#8217;recido<br />
E o cão vacilam ante empedernido,<br />
Vil pedaço de pão &#8211; duro e gelado&#8230;</p>
<p>Ambos têm fome&#8230; torvo &#8211; lutulento<br />
Ao pão gelado o miserável corre<br />
E atira-o ao companheiro famulento</p>
<p>Do quarto os cantos a tatear percorre<br />
Erguendo uma garrafa &#8211; esgota-a lento<br />
E cambaleia e cai e arqueja e &#8211; morre!&#8230;</p>
<p>Há duas versões para o incidente da Escola Militar de 1888. O primeiro foi que os alunos do terceiro ano, que não haviam recebido promoção, segundo a lei, para o posto de alferes-alunos, dentre eles, Euclides, organizaram um manifesto aberto diante o Ministro da Guerra do Império, Tomás Coelho, para quando visitasse a escola. A segunda versão conta que os alunos aguardavam para assistir ao desembarque de Lopes Trovão, que voltava da Europa. A questão é que uma visita regulamentar de Tomás Coelho foi marcada no mesmo dia para impedir os alunos de irem ao desembarque. Pois bem, durante o desfile, Euclides saiu da forma, e em vez de levantar seu sabre-baioneta de sargento em saudação, tenta quebrá-lo no joelho, joga-o no chão e profere palavras de protesto. Por isso, é preso, expulso da escola, considerado &#8220;doente dos nervos&#8221;, e se recusa a mentir no depoimento para aliviar sua pena. É expulso do exército e vai para São Paulo, onde começa a escrever para o jornal &#8216;A Província de S. Paulo&#8217;.</p>
<p>O poema Corpo Aberto aqui http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>A RIR</p>
<p>Eu já não creio mais&#8230; sombrio e calmo enfrento<br />
- O lábio ermo da prece; o peito ermo da crença -<br />
        A estrela &#8211; rubra e imensa<br />
De meu destino atroz, aspérrimo e sangrento!&#8230;<br />
E embora sobre mim flamívoma suspensa<br />
Em minh&#8217;alma os clarões fatais ela concentre<br />
Eu suporto-lhe bem o flamejante baque<br />
- Altivamente calmo &#8211; entricheirando-me entre<br />
        Uma canção de Byron<br />
        E um cálix de cognac&#8230;<br />
- Não há dor que resista ao som de uma risada! &#8211;<br />
        Depois &#8211;  se me exacerbo<br />
E tremo e choro erguendo a prece à alma magoada<br />
Mais me dói essa dor, mais esse mal é acerbo!<br />
Assim &#8211; eu resolvi, indiferente e frio<br />
Cheio de orgulho e spleen &#8211; como um banqueiro inglês!<br />
Sepultar na ironia o pranto meu sombrio&#8230;<br />
Por isso quando atroz na triste palidez<br />
De minha fronte paira amarga ideia &#8211; eu rio!&#8230;<br />
        E quando pouco a pouco<br />
Essa ideia me abate e vence-me alterosa<br />
De amargores repleta &#8211; eu rio como um louco&#8230;<br />
E se ela inda dói mais e forte e tenebrosa<br />
Sói a último idela de minh&#8217;alma aniilar<br />
        E vencer-me de todo<br />
Então &#8211; eu me ergo mais &#8211; e desvairando o olhar<br />
        &#8211; Divinamente doido -<br />
Eu rio, rio muito e rio &#8211; até chorar!&#8230;</p>
<p>Em 1889, Euclides volta ao Rio de Janeiro e presta exames para a Escola Politécnica. No dia 16 de novembro, chega-lhe a notícia da proclamação da República. No mesmo dia, visita o major Solon Ribeiro, e participa de uma reunião em sua casa. Euclides, enfim, é reintegrado ao exército graças ao apoio do novo Ministro da Guerra, seu antigo mestre, Benjamin Constant. Dois dias depois é promovido a alferes-aluno. Publica em &#8216;A Província de São Paulo&#8217; uma série de oito crônicas intitulada &#8216;Atos e Palavras&#8217;. Seu trabalho com as crônicas se estende, e Euclides assina mais quatro crônicas no mesmo jornal.</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>RIMAS</p>
<p>Ontem &#8211; quando soberba escarnecias<br />
Dessa minha paixão &#8211; louca &#8211; suprema<br />
E no teu lábio essa rosada algema<br />
A minha vida &#8211; gélida &#8211; prendias&#8230;</p>
<p>Eu meditava em loucas utopias<br />
Tentava resolver grave problema&#8230;<br />
- Como engastar tu&#8217;alma num poema? -<br />
E eu não chorava quando tu rias&#8230;</p>
<p>Hoje &#8211; que vives desse amor ansioso<br />
E és minha &#8211; és minha, extraordinária sorte,<br />
Hoje eu sou triste sendo tão ditoso!&#8230;</p>
<p>E tremo e choro &#8211; pressentindo &#8211; forte<br />
Vibrar &#8211; dentro em meu peito, fervoroso<br />
Esse excesso de vida &#8211; que é a morte&#8230;</p>
<p>Em 1890, Euclides matricula-se na Escola Superior da Guerra, no dia 8 de janeiro, e completa, em 11 de fevereiro, o curso de artilharia. Não demora muito a ser promovido a segundo-tenente e, em seguida, oficial do Batalhão Acadêmico. No dia 10 de setembro do mesmo ano, Euclides casa-se com Ana Ribeiro, ou &#8220;Saninha&#8221;, filha do major Solon Ribeiro. No ano seguinte, recebe um mês de licença para tratamento de saúde e vai para a Fazenda Trindade, de seu pai, em São Paulo. Quando se prepara para fazer os cursos de Estado-Maior e Engenharia Militar na Escola Superior de Guerra, morre sua primeira filha, Eudóxia, semana depois de seu nascimento.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>OS LEMURES</p>
<p>Ó minha musa &#8211; imaculada e santa!<br />
Deixa um momento os sonhos teus benditos<br />
Despe os teus véus de noiva do ideal<br />
      Deixa-os, despe-os e canta<br />
Sobre as ruínas trágicas do mal<br />
As almas arruinadas dos malditos!&#8230;</p>
<p>Em 1892, Euclides conclui os cursos de Estado-Maior e Engenharia Militar na Escola Superior de Guerra e é promovido a tenente do Estado-Maior. Começa a colaborar com O Estado de São Paulo sob o pseudônimo de José Dávila com crônicas. Em novembro deste ano nasce seu primeiro filho Solon e começa a trabalhar na Estrada de Ferro Central do Brasil no trecho entre São Paulo e Caçapava depois de ter solicitado posto a Floriano Peixoto. Em dezembro do ano seguinte, 1893, durante a Revolta da Armada, Euclides é designado a servir provisoriamente na Diretoria de Obras Militares para dirigir a construção de trincheiras no Morro da Saúde, no Rio de Janeiro.</p>
<p>Pedro Lage em http://cartilhadepoesia.wordpress.com</p>
<p>ESTANCIAS</p>
<p>Les beaux yeux sauvent beaux vers!&#8230;<br />
                                          V. Hugo</p>
<p>Meu pobre coração tão cedo aniquilado<br />
Na ardência das paixões &#8211; ó pálida criança -<br />
Revive à doce luz do teu olhar magoado</p>
<p>E cheio de ilusões, de crenças e esperança<br />
Faz o castelo ideal das louras utopias<br />
- Com os brilhos desse olhar e o ouro de tua trança! -</p>
<p>        Quando sobre as sombrias<br />
Ondas &#8211; vasto luar esplêndido se espalma<br />
De todo o seu negror, arranca as ardentias</p>
<p>De teu olhos assim à luz divina e calma<br />
Dimanam &#8211; cintilando &#8211; as ilusões e os versos<br />
       Das sombras de minh&#8217;alma&#8230;</p>
<p>E sonho e canto e rio e me deslumbro&#8230; imersos<br />
- No místico luar que sobre mim derramas -<br />
Fulguram como sóis meus ideais dispersos!&#8230;</p>
<p>Fulguram como sóis &#8211; entre sonoras flamas -<br />
Partindo no meu peito a tétrica penumbra<br />
E o silêncio fatal de dolorosos dramas&#8230;</p>
<p>E tudo hoje antes tem luz, tem voz &#8211; deslumbra -<br />
Pois &#8211; tal como um ideal &#8211; uma canção ressumbra -<br />
E em cada uma canção &#8211; o teu olhar cintila&#8230;</p>
<p>Em 1894, Euclides publica um polêmico artigo na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, replicando o modo punitivo sugerido para a execução dos prisioneiros pelo senador florianista João Cordeiro, do Ceará, durante a revolta da Armada. Os protestos, porém, surtiram efeito contrário e houve desconfiança dos militares que o afastaram, pouco a pouco do campo da ação. Floriano Peixoto e outros jacobinos não o apoiam mais. Ao fim da revolta, é transferido par Campanha, em Minas Gerais, para a reforma do prédio da Santa Casa de Misericórdia. Este período é marcado por estudos. No dia 18 de julho do mesmo ano, nasce seu segundo filho, Euclides, o Quindinho.</p>
<p>A lua em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>D. QUIXOTE</p>
<p>Assim à aldeia volta o da triste figura<br />
Ao tardo caminhar do Rocinante lento;<br />
No arcabouço dobrado um grande desalento,<br />
No entristecido olhar uns laivos de loucura.</p>
<p>Sonhos, a glória, o amor, a alcantilada altura,<br />
Do ideal e da fé, tudo isto num momento,<br />
A rolar, a rolar, num desmoronamento,<br />
Entre risos boçais do bacharel e o cura.</p>
<p>Mas certo, ó D. Quixote, ainda foi clemente,<br />
Contigo a sorte ao pôr neste teu cérebro oco,<br />
O brilho da ilusão do espírito doente;</p>
<p>Porque há cousa pior: é o ir-se pouco a pouco<br />
Perdendo qual perdeste um ideal ardente<br />
E ardentes ilusões e não se ficar louco.</p>
<p>Em 1896, Euclides, já reformado do exército, retorna a São Paulo, onde é nomeado engenheito-ajudante de primeira classe da Superintendência de Obras Públicas do Estado de São Paulo. Neste momento, estreita laços de amizade com Gonzaga de Campos, Teodoro Sampaio e Bueno Andrade. Visita várias cidades do interior paulista, e sobretudo, São José do Rio Pardo. Em novembro deste ano, irrompe o movimento de Canudos. </p>
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<p>PÁGINA VAZIA</p>
<p>Quem volta da região assustadora<br />
De onde eu venho, revendo inda na mente<br />
Muitas cenas do drama comovente<br />
Da Guerra despiedada e aterradora,</p>
<p>    Certo não pode ter uma sonora<br />
    Estrofe, ou canto ou ditirambo ardente,<br />
    Que, possa figurar dignamente<br />
    Em vosso Álbum gentil, minha Senhora.</p>
<p>    E quando, com fidalga gentileza<br />
    Cedestes-me esta página, a nobreza<br />
    Da vossa alma iludiu-vos, não previstes</p>
<p>    Que quem mais tarde nesta folha lesse<br />
    Perguntaria: &#8220;Que autor é esse<br />
    De uns versos tão mal feitos e tão triste&#8221;?!</p>
<p>Em 1897, Euclides publica &#8220;Distribuição dos Vegetais no Estado de São Paulo&#8221; em O Estado de São Paulo no mês de julho. No mesmo mês, saem a primeira e a segunda parte do primeiro ensaio sobre a guerra de Canudos, &#8220;A Nossa Vendéia&#8221;. A convite de Júlio Mesquita, proprietário d&#8217;O Estado de São Paulo, Euclides aceita realizar reportagem sobre a guerra de Canudos, agregando-se à comitiva militar do Ministro da Guerra, Marechal Bittencourt. Parte de navio para Salvador e passa 23 dias na casa de seu tio, observando os acontecimentos pelos jornais e enviando artigos para São Paulo. </p>
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<p>NESTES TRES DIAS ESPLENDIDOS</p>
<p>Neste três dias esplêndidos<br />
Em que o Prazer tudo arrasa<br />
Desde o cristão ao ateu,<br />
Quem se sente neurastênico<br />
    Faz como eu,<br />
    Fica em casa.</p>
<p>No dia 30 de agosto de 1897, Euclides deixa o Rio de Janeiro para iniciar a grande jornada pelo sertão baiano: Alagoinhas, Queimadas e Monte Santo, onde chega no dia 6 de setembro e de onde parte no dia 13, para chegar a Canudos no dia 16. Ali escreve as primeiras notas de Os Sertões. Terminada a guerra, parte para o arraial logo em seguida, para depois de dias no local, voltar ao Rio de Janeiro. No início de 1898, assume seu cargo na Superintendência de Obras Públicas de São Paulo. Em janeiro aparecem os primeiros textos públicos de Os Sertões n&#8217;O Estado de São Paulo.</p>
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<p>NOTA PROSAICA</p>
<p>Sábio&#8230; o título diz que a fantasia<br />
do Juvenal mineiro é vasta; fá-lo<br />
ver em mim a quem só em nome igualo:<br />
o venerando avô da geometria&#8230;</p>
<p>Desculpo-o. Quem com tanta galhardia<br />
ergue uma fronte branca feita em halo,<br />
ou nimbo, que nos leva a venerá-lo,<br />
tem jus à mais perfeita cortesia.</p>
<p>Que passe, pois, o sábio; e que os tercetos<br />
(versos de prosador que os faz tão mancos)<br />
Acabem o mais feio dos sonetos,</p>
<p>num cumprimento e nos aplausos francos<br />
de uma velhice de cabelos pretos<br />
à mocidade de cabelos brancos!</p>
<p>Em 1899, em São José do Rio Pardo, Euclides tem o auxílio de Francisco Escobar, um amigo, que disponibiliza sua biblioteca para consulta enquanto Euclides faz crescer o texto de Os Sertões. Nesta época publica o artigo &#8220;A Guerra no Sertão&#8221; na Revista Brazileira. Em maio de 1900, pede a José Augusto Pereira Pimenta, cabo do destacamento local, para passar a limpo o manuscrito de Os Sertões. Publica o artigo &#8220;As Secas do Norte&#8221; no Estado de São Paulo. Seu grande livro estaria muito próximo de sair, porém, enfrentaria alguns percalços. </p>
<p>Santo santo santo http://equivocos-pedrolago. blogspot.com</p>
<p>LE?&#8230; NÃO LE. AQUELE AR NÃO É POR CERTO</p>
<p>Lê?&#8230; Não lê. Aquele ar não é por certo<br />
De quem medita. É o ar de quem atrai.<br />
E se qualquer de nós, naquelas praias,<br />
Aparecesse, quedaria incerto.</p>
<p>Sem saber distinguir quem mais nos trai<br />
- Entre a insídia de uma onda ou de um afago<br />
Se o velho mar misterioso e vago,<br />
Ou esse abismo de roupão e saia!</p>
<p>Em 1901, nasce, em São José do Rio Pardo, seu terceiro filho, Manuel Afonso. Em dezembro deste ano, após passar um período no interior de São Paulo, Euclides segue para o Rio de Janeiro, com os originais de Os Sertões. É encaminhado para a Livraria Laemmert cujo editor não se interessa pela obra. Euclides então resolve custear parcialmente a primeira edição do livro, pela qual paga um conto e quinhentos mil-réis. Em janeiro de 1902, recebe as primeiras provas do livro. Nos primeiros dias de dezembro deste ano, Euclides recebe carta da editora saudando-o pelo sucesso do livro. A primeira edição esgotara em poucas semanas. O livro fora bem recebido pelos críticos da época, Araripe Júnior, José Veríssimo e Sílvio Romero.</p>
<p>http;//equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>SE ACASO UMA ALMA SE FOTOGRAFASSE</p>
<p>Se acaso uma alma se fotografasse<br />
De modo que nos mesmos negativos<br />
A mesma luz pusesse em traços vivos<br />
O nosso coração e a nossa face;</p>
<p>E os nossos ideais, e os mais cativos<br />
De nossos sonhos&#8230; Se a emoção que nasce<br />
Em nós, também nas chapas se gravasse<br />
Mesmo em ligeiros traços fugitivos.</p>
<p>Poeta! tu terias com certeza<br />
A mais completa e insólita surpresa<br />
Notando, deste grupo bem no meio,</p>
<p>Que o mais belo, o mais forte e o mais ardente<br />
Destes sujeitos, é precisamente<br />
O mais triste, o mais pálido e o mais feio&#8230;</p>
<p>No dia 9 de junho de 1903, Euclides lança a segunda parte de Os Sertões. Uma crise orçamentária motivada pela crise do café fez com que o Governo cortasse verbas destinadas à construção e melhoramentos de obras públicas, e por isso, Euclides deixa o posto, obrigado. Porém, no dia 21 de setembro, Euclides é eleito por uma margem de 41 votos, membro da Academia Brasileira de Letras, na cadeira de Valentim Magalhãe, cujo patrono é Castro Alves. </p>
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<p>DESPEDIDA</p>
<p>No momento cruel da despedida,<br />
Gelado o lábio, mudo, hirto, sem ar,<br />
Eu vi sua alma, de ilusões despida,<br />
Tremer à luz de seu tão triste olhar.</p>
<p>E eu não chorei&#8230; Seu peito &#8211; a alva guarida<br />
De minha alma &#8211; chorava em doudo arfar&#8230;<br />
E eu não chorei, mas eu senti a vida<br />
Das lágrimas ao peso se curvar!&#8230;</p>
<p>Saí, andei, corri, parei cansado.<br />
Voltei-me e longe, longe eu vi asinha<br />
- Garça de amor fugindo pr&#8217;a o passado</p>
<p>Branca, pura, ideal, &#8211; sua casinha -<br />
E as lágrimas de amor deixei &#8211; domado -<br />
Constelarem da dor a noite minha!</p>
<p>Em janeiro de 1904, Euclides é nomeado engenheiro-fiscal da Comissão de Saneamento de Santos, porém, após três meses, por causa de um desentendimento com o gerente da City of Santos Improvements, Hugh Stenhouse, e com Eugênio Lefreve, diretor da Secretária de Obras Públicas, pede demissão. Na falta de dinheiro, volta a escrever para O Estado de São Paulo. Logo depois, Euclides, por indicação, é nomeado chefe de Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus, que estabeleceria a fixação limítrofe entre Brasil e Peru. Nesta oportunidade, conhece o Barão do Rio Branco.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>A CRUZ DA ESTRADA</p>
<p>Ah! que de vezes quando no ar desfila<br />
A treva, e as sombras a amplidão negrejam<br />
E das estrelas que no céu palejam,<br />
O vasto poema aos pés de Deus cintila.</p>
<p>E mil perfumes as campinas pejam<br />
E da floresta o coração destila<br />
Um vago som que em nosso ser instila,<br />
Gerando sonhos que em noss&#8217;alma adejam.</p>
<p>Quando há na terra uma magia imensa<br />
Eu &#8211; que não tenho a vida d&#8217;alma &#8211;  a crença<br />
Nem uma prece que divina sagre-ma.</p>
<p>Eu (oh! dizei-me o que a solidão exprime!)<br />
Eu rezo um nome &#8211; Minha mãe! &#8211; sublime<br />
E me ergo a Deus nos brilhos de uma lágrima.</p>
<p>Em 1905, Euclides parte para Manaus para o Purus. Lá contrai forte impaludismo. Em julho deste ano ocorre o banquete de Curanja, em homenagem à duas comissões, onde Euclides discursa lamentando a ausência da bandeira brasileira. Em 1906, volta ao Rio de Janeiro e torna-se adido do Barão do Rio Branco. Publica o artigo &#8220;Entre os Seringais&#8221; e o &#8220;Relatório da Comissão Mista Brasileiro-Peruana de Reconhecimento do Alto Purus. Em julho, nasce quarto filho, Mauro, da esposa com Dilermando de Assis. A criança veio a falecer uma semana depois do nascimento. Em dezembro, toma posse na Academia Brasileira de Letras tendo sido recebido por Sílvio Romero.</p>
<p>Tatu com Tabasco em http://equivocos-pedrolago.blogspo.com</p>
<p>AMOR ALGÉBRICO</p>
<p>Acabo de estudar &#8211; da ciência fria e vã<br />
O gelo, o gelo atroz &#8211; me gela ainda a mente<br />
Acabo de arrancar a fronte minha ardente<br />
Das páginas cruéis de um livro de Bertrand.</p>
<p>Bem triste e bem cruel de certo foi o ente<br />
Que este Saara atroz &#8211; sem auras, sem manhã<br />
A Álgebra criou &#8211; a mente a alma mais sã<br />
Nele vacila e cai sem um sonho virente&#8230;</p>
<p>Acabo de estudar e pálido, cansado<br />
Dumas dez equações os véus hei arrancado&#8230;<br />
Estou cheio de spleen, cheio de tédio e giz</p>
<p>É tempo, é tempo pois de trêmulo ansioso<br />
Ir dela descansar no seio venturoso<br />
E achar de seu olhar o luminoso X!&#8230;</p>
<p>Euclides passa todo o ano de 1907 sem cargo fixo, aborrecido, mantendo-se de favores. Em novembro, nasce quinto filho, Luís, de sua esposa com Dilermando. Sua tuberculose volta a se manifestar. Em dezembro presta conferência sobre Castro Alves. Em maio de 1909, presta concurso para a cadeira de Lógica no Ginásio Nacional, onde hoje é o Colégio Pedro II. Fica em segundo lugar, atrás de Farias Brito, porém, Euclides renuncia meses depois. </p>
<p>http://equivocos-pedrolago. blogspot.com</p>
<p>MEU POBRE CORAÇÃO TÃO CEDO ANIQUILADO</p>
<p>Meu pobre coração tão cedo aniquilado<br />
Na ardência das paixões, ó pálida criança,<br />
Revive à doce luz do teu olhar magoado;</p>
<p>E cheio de ilusões, de crenças e esperança,<br />
Faz o castelo ideal das loiras utopias<br />
Com a luz do teu olhar e o ouro de tua trança.</p>
<p>     Quando pelas sombrias<br />
Ondas do oceano o luar vastíssimo se espalma,<br />
De todo o seu negror desprende as ardentias.</p>
<p>De teus olhos, assim, à luz divina e calma,<br />
Dimanam, fulgurando, as ilusões e os versos<br />
     Das sombras da minha alma&#8230;</p>
<p>Euclides chega a dar dez aulas na cátedra de Lógica do Ginásio Nacional quando é morto tragicamente com quatro tiros por Dilermando de Assis, amante de sua esposa, na casa número 214 da Estrada Real de Santa Cruz, estação da Piedade, hoje, Quintino Bocaiúva, subúrbio do Rio de Janeiro. Seu enterro foi realizado no cemitério São João Batista, recebendo sua sepultura o número 3.026. Nesta época, Euclides morava em Copacabana. Deixou uma resenha incompleta sobre o Barão Homem de Melo e de Francisco Homem de Melo. Seus restos mortais se encontram em São José do Rio Pardo, São Paulo, e em Cantagalo, Rio de Janeiro. Ficamos por aqui, até a próxima, beijo grande.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>VOLTA À ALDEIA</p>
<p>E assim à aldeia torna el da triste figura.<br />
Acabrunhado e triste, exangue e macilento<br />
Na acorvada postura &#8211; em torno desalento<br />
No desvairado olhar &#8211; um laivo de loucura.</p>
<p>Dias de Glória! Ideais! A alcantilada altura<br />
De um sonho! Nada mais resta de tal intento.<br />
Essa nossa carcaça vil &#8211; o Rocinante lento<br />
E amigos carnais &#8211; o bacharel e o cura&#8230;</p>
<p>Feliz Herói! Que importa o riso mau das gentes<br />
Se ele não sói entrar dentro de um crânio oco<br />
Repleto das visões dos cérebros doentes&#8230;</p>
<p>Há uma coisa pior que é ir-se a pouco a pouco<br />
Perdendo qual perdeste &#8211; ideais grandes e ardentes<br />
E ardentes ilusões &#8211; e não ficar-se louco!</p>
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	</item>
		<item>
		<title>Pedro Lage</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Nov 2011 12:11:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cartilhadepoesia</dc:creator>
				<category><![CDATA[TODOS OS POETAS AQUI]]></category>

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		<description><![CDATA[Antônio Pedro Marinho Lage nasceu no dia 7 de março de 1952, no bairro de Botafogo no Rio de Janeiro. Começou o jardim da infância no colégio Santa Rosa de Lima, em Botafogo, vizinho de muro da casa de seu avô, onde passou parte de sua infância. Sua avó materna era grande leitora de Proust, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=136&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Antônio Pedro Marinho Lage nasceu no dia 7 de março de 1952, no bairro de Botafogo no Rio de Janeiro. Começou o jardim da infância no colégio Santa Rosa de Lima, em Botafogo, vizinho de muro da casa de seu avô, onde passou parte de sua infância. Sua avó materna era grande leitora de Proust, Tolstoi e Machado de Assim, e foi quem o introduziu na leitura ainda na tenra infância. Neste mês, passaremos pela poesia do poeta Pedro Lage.</p>
<p>Turvo turvo turva aqui http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>BATEFORTE</p>
<p>as palavras, como usar?<br />
como ousar dizê-las ternas<br />
no sopro dos meus lábios untados aos teus?<br />
trêmulas, não convencerão:<br />
soarão desculpas, parecerão ridículas,<br />
perecerão em teus olhos noturnos.<br />
teu riso franco as dispersará,<br />
tufão incrédulo sobre a cidade.<br />
as frases cairão imprecisas,<br />
na fuga das águas de um rio,<br />
perdidas no mar.<br />
prefiro o gosto úmido silêncio:<br />
o sentimento, morena,<br />
palavra alguma jamais pode alcançar.</p>
<p>Boa semana!<br />
 <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':-)' class='wp-smiley' /> </p>
<p>Foi sua avó quem o introduziu na literatura. Conhecia Paschoal Carlos Magno, poeta, dramaturgo e crítico de teatro. Sua avó o apresentou também ao poeta Manuel Bandeira, numa feira de livros na Cinelândia quando tinha seus dez anos. Pedro, nesta ocasião, perguntou ao poeta: &#8220;O senhor foi mesmo para Pasárgada?&#8221; Lugar mítico que se tornaria real, quando, aos vinte e cinco anos, Pedro visitaria, Pasárgada, a real, próxima a Isphahan, no Irã, numa viagem pela Eurásia, mas isso, é depois.</p>
<p>Elegia a José de Alencar Adnet Filho em http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>RESÍDUO</p>
<p>a Ruthinha</p>
<p>trago comigo a saudade levo<br />
loura carrego seu peso meço<br />
jamais me esqueço do meu amor<br />
seus traços de sol escuros<br />
roubam o clarão da Lua<br />
na tela da noite fulva<br />
fulmina bate depressa<br />
escravo – meu coração!</p>
<p>Seu avô se chamava José. Era industrial de café. Sua avó, Olga. Seus pai se chamavam Antônio e Carmen, que, além de Pedro, tiveram, Toninho, Olga e Nena, essas duas, mais velhas. Toninho, aos seis anos, prematuramente, faleceu de câncer, e assim, a via seguiu com três irmãos. A casa dos avós era grande, ficava na Voluntários da Pátria, e lá, Pedro, gostava de descobrir esconderijos. Brincava também com suas primas, Mônica, que adorava cantar marchinhas, e Susie. Pedro gostava de jogar bola com o pai e no colégio Santo Inácio, e não tardaria a descobrir uma de suas grandes paixões, o Botafogo.</p>
<p>Paulo Mendes Campos aqui http://cartilhadepoesia.wordpress.com</p>
<p>COZINHA</p>
<p>ao Charles</p>
<p>no hospital há uma sala trancada<br />
proibida a entrada<br />
o brinquedo ali dentro custou ao governo<br />
mais de seis milhões<br />
os doentes não podem ousar o rim eletrônico;</p>
<p>enquanto isso, falta sonda na enfermaria sete<br />
o velhinho, todo nu, agarra-se<br />
às grades da cama, tonto, com medo do<br />
tombo.</p>
<p>Pedro Lage tinha uma madrinha que se chamava &#8220;Tia Mary&#8221;. Era botafoguense. Levou-o para ver a final do carioca de 57. Botafogo e Fluminense, com direito a Mané Garrincha. Seis a dois para o Botafogo. Dalí em diante, Pedro Lage se tornou alvinegro. Frequentou o Maracanã até 71, quando, viu o Botafogo perder para o mesmo Fluminense &#8220;com gol roubado de Lula aos 44 do segundo tempo&#8221;. O futebol ficou apenas no colégio Santo Inácio. </p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>ARREBATE D&#8217;AMOR<br />
ao Cacaso</p>
<p>permito-me arremeto fronde<br />
enfrento a fonte de tuas águas<br />
bebo seus sucos<br />
nas narinas teus vapores<br />
fluidos fardos deste amor<br />
maior que todos os amores.</p>
<p>Pedro Lage terminou o segundo grau no Colégio Santo Inácio, onde, em 1970, lidera o motim estudantil da turma de medicina do terceiro ano colegial, em que treze dos trinta e cinco estudantes trocaram o curso pelo Miguel Couto. No Santo Inácio conheceu o poeta Luiz Olavo Fontes, o músico Arnaldo Brandão, o jornalista José Castello, o filósofo Guy van de Beuque, Gustavo Schnor, Antônio Luiz Salgado, Manoel Correia do Lago, e seu grande amigo Antônio Quinet. Naquele tempo, as meninas estudavam no Sion, e as festas de fim de semana, no Clube do Botafogo e no Olímpico, era o que se poderia fazer para encontrá-las. </p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>ESQUINA</p>
<p>manhã, sol forte, a prática é o critério da verdade<br />
                                    nasce a noite, vai-se a vida rebolando pr’outra parte<br />
                                    nem vale a pena pensar sem malícia e agilidade<br />
                                    tudo pode acontecer?  não, tudo irá.<br />
                                    olhos abertos, mãos ávidas agarram-se ao mundo:<br />
                                    o amor e seus cabelos, as ilusões, o coração aprisionado.<br />
                                    o medo existe para ser vencido.<br />
                                    olhar as crianças e aprender o que não foi ensinado.<br />
                                    ensinar? sim&#8230;  mas, quando?<br />
                                    E saber que, mais cedo ou mais tarde,<br />
                                                                                  nem tudo vai dar errado.</p>
<p>Embora já tivesse aparecido como poeta em recitais/performances em 1972, Pedro Lage publicou seu primeiro livro, &#8216;Vai que vai&#8217;, em 1976. Com ilustrações de Anamaria Caravalho, o livro foi lançado na Oficina de Artes do prof. Hélio Rodrigues. Nesta época, Pedro frequentava o Pedro Lage, onde conheceu muita gente, teve aulas de cinema com Sérgio Santeiro e fez pequenos filmes de animação  e aprendeu a discutir todo tipo de assunto. Tempo de formação.</p>
<p>http://cartillhadepoesia.wordpress.com</p>
<p>DESVENTURA</p>
<p>a Manuel Bandeira</p>
<p>                        janela aberta em meu quarto<br />
                        brilha a luz de outra noite<br />
                        eu não compreendo<br />
                        tento olhar através de seus olhos<br />
                        descobrir o que se passa<br />
                        uma estrela, talvez, um amigo,<br />
                        ou apenas o céu, o mistério infinito . . .</p>
<p>                        queria encontrar Juquinha sorrindo pra mim<br />
                        deixar a tristeza de lado, queria voar&#8230;<br />
                        mas a janela é bem alta e, assim, permaneço<br />
                        com as costas cravadas na palha dura do catre.<br />
                        somente uma luz me penetra: a luz fria de outra noite<br />
                        que bebe tranqüilamente mais um pedaço de minha paixão.</p>
<p>Pedro chegou a frequentar a efervescência do Pier de Ipanema. Ficava perto da Laura Alvim. Porém, o lugar onde Pedro, de fato, estendeu sua gama de relações foi no Sol Ipanema. Na época em que publicou seu primeiro livro, Pedro frequentava a casa do Cacaso, onde se reunia uma rapaziada &#8220;da pesada&#8221;: Charles, Lui, Bia Carneiro, Massoca Fontes, Tony Lins, Chico Alvim e muitos outros. Nesta mesma época saiu a coletânea &#8217;26 poetas hoje&#8217;, de Heloisa Buarque de Holanda, que Pedro veio a conhecer meses depois em São Paulo num evento de poesia no Theatro Municipal.</p>
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<p>ENQUANTO TERESA DORME</p>
<p>nasce a estrela fugitiva de outros universos<br />
anunciando o final dos tempos<br />
toca um cambalache doido, explode a guerra<br />
passa a carruagem azul repleta de foragidos<br />
e os corações das ruas estremecem em bombain<br />
sentados na galáxia estrema<br />
dois homens mortos conversam sobre a vida<br />
um incêndio intenso toma conta do pensamento<br />
do mundo, o nada se transforma em cor<br />
as praias de mindano acordam com o maremoto<br />
e as criancinhas fogem apavoradas<br />
o reino do krenkrokren prepara-se para a sesta<br />
um padre vira morcego<br />
a faca mais-que-prateada cruza o espaço exterior<br />
e vai cravar-se no peito da ursa-menor</p>
<p>em passadena os cientistas constroem a centopéia atômica<br />
que irá sondar as rugas dos anéis de saturno<br />
e uma animada partida de hóquei sobre patins<br />
tem lugar nos pátios das escolas de pequim<br />
um pingue-pongue de raios espouca por todos<br />
os lados e as nove escolas-de-samba invadem<br />
de uma só vez todas as avenidas<br />
a lua desfalece sôfrega neste céu americano<br />
e ruma para o japão, enquanto o sol,<br />
vindo de angola, surge e ilumina</p>
<p>é quando teresa acorda,<br />
estremunha quentinha na cama e, tranquila,<br />
caminha nas areias de ipanema<br />
pensando no amor que lhe apressa o coração.</p>
<p>Em 1976, Pedro Lage vai para São Paulo com um grupo de poetas para se apresentar no Theatro Municipal. Tratava-se do Encontro de Arte e Poesia. Nesta época, Pedro já se apresentava com a Nuvem Cigana. O clima não estava muito amigável. Chacal, Xico Chaves, Tavinho Paes, Charles Peixoto. No meio de uma vaia que acontecia, em virtude de um pedido de &#8220;um minuto de barulho&#8221; do Xico Chaves, Tavinho Paes entrou no palco e mijou. Logo depois, Pedro, entrou com Charles e cada um disse um poema. Em meio às vaias, alguns aplausos.</p>
<p>No calor da hora http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>ÀS CAGARRAS</p>
<p>Hoje, o dia anda cinza e chuvoso.<br />
Não a esperei para o almoço, aliás, nada comi.<br />
O Rio, cidade outrora maravilhosa, chora,<br />
perseguido por fantasmas e temporais.<br />
Já quase nem posso escrever-lhe,<br />
nada lhe posso adiantar além de minha loucura.<br />
Minha mão rouca dispara palavras que nada dizem.<br />
A vida, impassível, se ausenta, e apenas o frio<br />
desta noite sensata me entristece demais.<br />
O tempo escorre, macio, implacável,<br />
envolto em seu manto de quasar&#8230;<br />
Não sei como isto vai terminar, continuo aflito.<br />
E, ainda, por cima de tudo,<br />
a inconstância do céu a massacrar<br />
minhas tênues ilusões.<br />
Ficarei por aqui,<br />
posso vê-las do Leme ao Leblon.<br />
O oceano imenso,<br />
meus passos pequenos,<br />
adeus.</p>
<p>Em dezembro de 1976, Pedro parte com seu amigo Lui Fontes para a Ásia. Ficou dois anos fora. Passou pela Itália, Turquia, Irã, Afeganistão, Paquistão. Ficou um ano na Índia, passando pelo Nepal, Ceilão, Cingapura, Birmânia, Tilâdia, Marrocos até voltar pela Europa. Voltou no final do ano de 1978. Esta viagem lhe renderia um livro, mas que não seria publicado imediatamente, antes, em 1981, Pedro publica De Mão em Mão.</p>
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<p>COMEÇO</p>
<p>em pompéia meus olhos desertos<br />
e colunas empinadas como a piroca dos vetti<br />
que custa mille lire apreciar,<br />
as turrbinas do jato monstruoso ainda roncavam<br />
na memória de meus ouvidos apavorados,</p>
<p>- saudades não havia &#8211; </p>
<p>e os dias foram-se perdendo pelas fontanas,<br />
pelas vias &#8211; del corso superiore, veneto, grimaldi,<br />
e amalfi, siracura, agrigento, cidades<br />
e mais cidades,<br />
até dar, assim por acaso, com os labirintos<br />
de ortygia, onde as nuvens,<br />
refletidas nos espelhos das ruelas submarinas,<br />
se parecem com cabelos,</p>
<p>gaivotas exímias em vôos incríveis sobre<br />
o mar &#8211; um chicote -<br />
e a falta de ar vinha também na tarde pura,<br />
hotel garda, via lombardia,<br />
(- que deus te perdõe, meu filho, e te guie,<br />
por esta tua louca aventura!)</p>
<p> viagem pela Europa, Oriente Médio e Índia é cercada de causos e profundas impressões. Lá, Pedro viu muitos mendigos no Irã, aviões de guerra voando baixo pelas praias ao norte do estreito de Ormuz, a repressão da polícia nos carregadores de sacos de arroz ou trigo, os inúmeros shopping-centers de Cingapura e seu horror ao comunismo, o templo de Madurai no sul da Índia, chá de cadeira na entrada do Afeganistão, os space cakes em Kabul, os ônibus kamikases do Paquistão e um jardim coberto de cerejas, cinquenta graus de Lahore, o estranho eclipse de Katmandu, a sensação de estar num planeta distante, a suiça Maya e a impressão de que tudo fora um sonho.</p>
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<p>CARTA</p>
<p>um detalhe,<br />
um canto mais amargo de seu riso<br />
sob a lua da cidade,<br />
palavras sugeridas num sarro dos ombros<br />
enquanto as sombras da noite nos ultrapassavam,</p>
<p>de pouco me recordo, as imagens se apagam,<br />
mesmo a sua ao telefone, indiferente<br />
à partida, ao nosso desejo, ao corte de tudo,<br />
- triste representação!</p>
<p>até logo, uma cerveja, um baseado,<br />
dois, três, cinco cigarros e a parede suja<br />
do quarto quando nada mais parece adiantar,<br />
os ridículos milhares de quilômetros,<br />
este inverno turco,<br />
os pulmões encardidos,<br />
este beco sem saída,<br />
                                e você?</p>
<p>Quando voltou da Ásia, Pedro foi morar em Santa Tereza, do fim de 79 até 80. Porém, pouco tempo depois, foi morar em Botafogo com Martha da Costa Ribeiro. Permaneceu neste endereço até separar-se, um ano depois. Em 81 publicou o livro De Mão em Mão e foi morar na Rua Icatu, onde, em diferentes meses, dividiu o aparamento com Chacal e com Ledusha. No verão de 81/82, Pedro começa uma experiência com o pessoal do Rajnesh e com o grupo que iniciava o Circo Voador. Pedro ajudou a fundar o Circo, ajudando o Perfeito Fortuna a levantar fundos e até mesmo carregando cadeiras.</p>
<p>Aqueles olhos azuis http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>ABISMO</p>
<p>deste abraço<br />
ao avanço da estrela mais íngreme<br />
- apenas um passo,</p>
<p>os lugares menos reconhecíveis,<br />
as lembranças mais frouxas<br />
e uma voz rouca<br />
fecham sobre mim seus lábios de tempestade<br />
no pálio pálido da madrugada,</p>
<p>é tarde,<br />
           te amo</p>
<p>Em 1981, Pedro começa a frequentar as oficinas de teatro do Amir Haddad. Lá conhece Rosa, Sérgio Luz, Aninha Cretton e muitos outros. No meio disso, havia as peladas do Caxinguelê. Lá se reuniam o Vinicius Cantuária, Rodrix, Guabira, Novelli, Didito, Lula Lindeberg, Maurício Maestro. Chacal às vezes jogava. De 79 a 83, foram mais ou menos umas duzentas peladas. Era uma confraternização muito importante, eram encontros. Muitos artistas, sobretudo músicos. Nesta época, Pedro já havia passado por uma experiência na FACHA fazendo Comunicação, porém, não se encaixou. Escolheu a Odontologia como profissão.</p>
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<p>FUTUROS AMANTES</p>
<p>..e quem sabe, então, o Rio será<br />
alguma cidade submersa&#8230;<br />
                                       Chico Buarque</p>
<p>Um dia, porém,<br />
quando não mais houver, talvez, nem noites nem dias,<br />
e do Rio restar somente, dissipada a atmosfera,<br />
um indício, uma marca deixada nas pedras,<br />
nas veias calcinadas do planeta;<br />
quando viajantes remotos do Universo<br />
por acaso aqui chegarem<br />
e resolverem buscar algum signo sobrevivente<br />
da história morta desse pequeno mundo,<br />
encontrarão rabiscado no espaço azul do teu quarto,<br />
perdido pelas cinzas da cidade,<br />
um retrato &#8211; apenas um traço: a imagem fóssil<br />
do amor inscrito por aquele que viveu louco por ti,<br />
(e vive ainda, na imatéria de outros mundos)<br />
e os amantes siderais, com esse traço,<br />
se lembrarão do que é preciso,<br />
aprenderão que nunca é tarde,<br />
e hão de amar-se assim, perdidamente,<br />
por toda a eternidade.</p>
<p>Pedro se tornou dentista. E por isso, tinha um conflito social: Não conseguia cruzar seus amigos artistas com seus amigos dentistas. Pedro costuma dizer que &#8220;Odonto tem um pouco a ver com artes plásticas, com poesia tem muito pouco,embora eu até tenha feito umas ligações, mas, não tenho muito saco pra explorar este filão. Não acho interessante ficar poetizando a &#8220;curva de spix&#8221; ou a &#8220;curva de Wilson&#8221;, ou as &#8220;polarizações axiais das cúspides de trabalho&#8221;. Por ironia, Pedro veio a se tornar o dentista de muitos do pessoal das artes. Sorriso total.</p>
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<p>VER DE TI</p>
<p>ver te quero &#8211; imenso trecho de desejo<br />
suores trêmulos<br />
penso, não vejo<br />
te quero dentro<br />
ver-te aqui &#8211; névoa sobre mim.<br />
acordar &#8211; sair do sonho trágico<br />
o ancorar mágico do dia<br />
trapézio de vidro sobre o fio<br />
da cidade.<br />
              de madrugada, os animais morrem<br />
              em silêncio, à beira do rio.</p>
<p>manhã fria &#8211; o outro lado do verso te espera<br />
morceguiando a esfera sombria<br />
figuras funestas fecham o círculo de ferro<br />
sempre elas, na terra e no céu<br />
casamatas na vista acirrada do artista<br />
salto sobre o nada -<br />
sem a bruma, pela brecha,<br />
com seus peitos de mãe-musa,<br />
cuida de ti em seu leito<br />
e te mata.<br />
              de madrugada, os animais morrem<br />
              em silêncio, à beira da estrada.</p>
<p>Quando voltou do Marrocos, Pedro foi assistir &#8216;Trate-me Leão&#8217; montado pelo Asdrúbal Trouxe o Trombone no Morro da Urca. Lá, reencontra com Charles Peixoto e Chacal, da Nuvem Cigana, Perfeito Fortuna e Evandro. Foi morar novamente em Santa Teresa. Nesta época conhece o Milton Machado e Malena Barreto. Também participa da reuniões na casa do Cacaso, onde conhece o Chico Alvim. Inicia uma amizade com Ana Cristina Cesar. Também nesta época houve um recital de poesia na Álvaro Ramos organizado pela Ana e sua prima Grazinska onde foram a Nuvem Cigana e o Ferreira Gullar. </p>
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<p>DUAS FACES</p>
<p>a noite vazia, a noite nua,<br />
um palmo de lua, a noite completa,<br />
sereia lânguida a meio luar,<br />
jogo de sombras, céu a reinar&#8230;<br />
mas já o dia mostra suas garras líquidas,<br />
- suas guerras íntimas:<br />
o lado mais louco do despertar,<br />
penhascos a que me aferro &#8211; o perigo!<br />
nado bem pouco,<br />
não me afogar é o que persigo,<br />
não me perder nos negros rios do azar,<br />
à revelia da lua, da noite do eterno mar -<br />
o príncipe mar, o rei mar, a deusa mar &#8211; amar!</p>
<p>A experiência com o Tá na Rua é do início dos anos 80. Pedro frequentava as oficinas do Amir Haddad. Formou-se um grupo que logo levou o nome de &#8220;Instituto&#8221;. Em 83, Pedro foi morar no Jardim Botânico. No Tá na Rua, Pedro conhece Rosa Douat e Sérgio Luz, que viriam a ser seus grandes amigos para a vida toda. Era teatro de rua aos domingos, oficinas na casa do estudante às segundas e reuniões nas manhãs de terça e quinta com o grupo que não era o titular do Tá na Rua. A experiência culminou na montagem de &#8220;Morrer pela Pátria&#8221; no Teatro Villa Lobos em 1985. </p>
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<p>SILENCIO, O SILENCIO, SILENCIO</p>
<p>ouve vozes, se assusta, o meu silêncio.<br />
arrojam-se vozes das torres do dia quente,<br />
o silêncio noturno da alma desprega-se,<br />
abandona o frescor cristalino,<br />
transpira, se alarma, ajeita o nó da bravata,<br />
abre seus grandes olhos insones -<br />
brilhantes olhos, eloquentes de silêncio.<br />
o silêncio vazio da alma estilhaça-se<br />
na lama do dia e sorri respingando de preces,<br />
as vozes, os sonhos, o começo e o fim da condição<br />
humana, não humana, humana.<br />
para onde vai o silêncio no isolamento dos passos<br />
pelo vento áspero da tarde?<br />
quem passa não sabe: ele arde, longe das horas,<br />
das rodas pensantes da horda,<br />
a flor do silêncio sorri tranquilamente<br />
entre a última morte e o próximo encontro<br />
(ou pensamento)<br />
o silêncio se nutre na floresta do deus-mar,<br />
ondulante senhor dos segredos, irmão do tempo sem dono,<br />
o silêncio fio de espada &#8211; sem adeus, sem amor, sem engano,<br />
o silêncio apenas, mais nada &#8211; amante das ondas-fantasmas:<br />
o Cosmos é a sua morada.</p>
<p>Em 1983, Pedro conhece Juliana Prado Teixeira no Tá na Rua. Não demoraria muito para ficarem juntos, se casarem e terem seu primeiro filho, Manoel. São vinte e oito anos juntos. Viravolta foi publicado em 1985, livro que conta toda a experiência da viagem à Europa e Ásia com seu amigo Luis Olavo Fontes. Poemas e um pouco de prosa. Pedro neste época morava no Jardim Botânico com Juiana e o pequeno Manoel. Permance lá até 1992, quando se muda para Teresópolis.</p>
<p>Há, há, há em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>TEORIA</p>
<p>Poder simplesmente esquecer-te<br />
no instante em que partíssemos<br />
e amar-te com extrema ternura<br />
assim que nos reencontrássemos</p>
<p>Fazer amor aventura como se<br />
nunca de amar nos deixássemos</p>
<p>(um beija flor vem beber<br />
preso a seu vôo de átomo<br />
as gotas-diamantes que explodem<br />
na límpida cachoeira do parque</p>
<p>nego beija-flor na tarde cintila<br />
imerso no perfume das pedras lavadas<br />
com o sêmen da montanha viva)</p>
<p>Há alguns bons anos, Pedro Lage é responsável por um recital de poesia que se chama &#8216;Conversa Portátil&#8217; em homenagem a um livro do poeta Murilo Mendes. Começou em Teresópolis, no Bar Cottage. Juliana fazia esquetes teatrais todo sábado a noite com Airton Rebelo chamados Teatro a Vapor. Pedro começava com dez minutos falando poemas. O primeiro poeta era Augusto dos Anjos. Já estamos no ano de 1994. Depois Pedro encontra com Henrique Cukierman no ônibus voltando para o Rio e o convidou para participar. Henrique permaneceu no recital por dez anos. Sempre homenageando um poeta com convidados. Jorge de Lima, Murilo Mendes, Maiakovski, Brecht, Lorca e outros tantos. Muitos passaram pelo &#8216;Conversa Portátil&#8217;, muitos, ali, inclusive, recitaram pela primeira vez em público.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>O FINAL</p>
<p>Aí, ela teve que me deixar.<br />
Contra a vontade e tudo o mais.<br />
Amor possuía mas tudo tem um limite,<br />
chega uma hora em que não dá mais, aliás,<br />
elas sempre acabaram me deixando, um dia,<br />
desde às primeiras lembranças.</p>
<p>Laura me largou no meio de uma sessão de cinema;<br />
Rita perdeu-se na Serra, (fui atrás dela,<br />
sofri, dormi ao relento, o diabo);<br />
Dora deixou-me com as calças dependuradas na noite,<br />
fazia frio, vaguei horas na escuridão;<br />
Elizete partiu de repente, nem um bilhete, nada;<br />
Eugênia espetou-me um postal na cortina do quarto;<br />
Mary, uma foto antiga, muita saudade;<br />
Luiza me abandonou de uma maneira radical,<br />
torto, irrecuperável quase.</p>
<p>Ela também me deixou, ora, por que não haveria?</p>
<p>O lançamento de Entrevista com o Chipanzé foi em um bar GLS na Rainha Elizabeth em 1996. Houve um recital com direito a uma pequena banda formada por Gil de Windsor, George Clark e Chico Lá. Depois o lançamento foi no Museu da República até chegar em Teresópolis. Pedro já com dois filhos, Manoel e Nicolau, ambos, fruto do casamento com Juliana. A Conversa Portátil já bem estabelecida e a poesia caminhando bem.</p>
<p>Tradução de Le Bateau Ivre no http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>DO AMOR</p>
<p>A poesia se escreve no silêncio de um quarto vazio<br />
- um parque vazio de estrelas espelhos e sombras,<br />
gruta de beijos-cascatas e sabiás brejeiros que por<br />
ali não passam, mas despejam seu aroma, seu sabor<br />
em algum canto do Universo &#8211; e um bilhete na mão.</p>
<p>A poesia se inscreve num olhar de mulher nesse quarto,<br />
a mesma noite de frio &#8211; ou no calor de um verão invencível<br />
em que o poeta não se derreta jamais em si mesmo&#8230;</p>
<p>A poesia eu não escrevo, eu muito,<br />
o manto desta verdade arde em meus olhos vivos,<br />
tuas lágrimas sem conta, o luar mais triste sobre a canção<br />
feita pra ti, por mim, por todos nós que somos um &#8211; e teu,<br />
pra sempre teu.</p>
<p>&#8216;Cal do Cosmos&#8217; foi publicado em 2004. Após quase dez anos sem publicar, Pedro, então com 59 anos, voltaria. Ao longo desse período, desenvolvendo a &#8216;Conversa Portátil&#8217;, percorreu todos os lugares onde ainda se diz poesia no Rio de Janeiro. Passaria também outro hiato de sete anos até seu último livro &#8216;Dicionário de Estrelas&#8217;, lançado na Casa de Cultura Laura Alvim, em 2011. Este, reunindo seus 35 anos de poesia, com seleção de poemas de seus livros e uma penca de inéditos.</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>SABER QUE TE AMO</p>
<p>à minha Juju</p>
<p>Saber que te amo &#8211; apenas um prisma<br />
da verdade que nos recorta<br />
com sua alameda de abismos,<br />
sua força de vida, seu desespero<br />
de um dia ter de renunciar a esse tesouro.</p>
<p>Saber que te amo -<br />
pôr-do-sol e aurora concorrentes,<br />
um dia recoberto por farinha de estrelas,<br />
neve crepitante de encontros e solidões<br />
sem limite.</p>
<p>Saber que te amo -<br />
entrego-me a este aprisco e me preparo<br />
para a morte deliciosa dos corações que deliram<br />
imersos na certeza de ter somente um amor<br />
verdadeiro.</p>
<p>Saber que temo &#8211; que te amo assim,<br />
infinitamente,<br />
por inteiro.</p>
<p>Então, Pedro Lage torna-se avô pela primeira vez. Francisco, ou Chiquinho. E disse que a poesia ficou em suspenso quando ele veio, tamanha era a satisfação, mas, logo depois, voltou aos trabalhos que vieram a compor &#8216;Dicionário de Estrelas&#8217;. E por aqui ficamos nesta pequena antologia ao poeta Pedro Lage. Na semana que vem, outro universo poético, outra biografia, caminho, percalço, liame entre um poema e outro.</p>
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<p>SE PODES</p>
<p>Se podes andar sobre as águas<br />
não és melhor que uma palha,<br />
se podes voar pelo espaço<br />
não és melhor que uma mosca;<br />
conquista teu coração<br />
para que possas tornar-te alguém.<br />
                             Abdulah Ansari</p>
<p>Se podes exterminar outro,<br />
não és melhor do que um vírus;<br />
es podes destruir uma cidade, uma floresta,<br />
não és melhor do que um míssil, uma motosserra.<br />
Afeiçoa-te primeiro a teu próprio coração<br />
para que possas amar-te e amar alguém:<br />
só assim frutificarás realmente,<br />
e tua vida não terá sido em vão.</p>
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		<item>
		<title>Paulo Mendes Campos</title>
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		<pubDate>Sun, 02 Oct 2011 17:39:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cartilhadepoesia</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Paulo Mendes Campos nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, no dia 22 de fevereiro de 1922. Era Carnaval. Escapou de ser bissexto por um dia, pois, naquele ano, haveria o 29. Filho do médico e escritor Mário Mendes Campos e de D. Maria José de Lima Campos. Tinha nove irmãos, sendo ele, o quinto homem. [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=130&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Paulo Mendes Campos nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, no dia 22 de fevereiro de 1922. Era Carnaval. Escapou de ser bissexto por um dia, pois, naquele ano, haveria o 29. Filho do médico e escritor Mário Mendes Campos e de D. Maria José de Lima Campos. Tinha nove irmãos, sendo ele, o quinto homem. Seu pai trabalhava no município de Dom Silvério, hoje, Saúde, no interior de Minas, onde passou o início da infância. Neste mês, o poeta Paulo Mendes Campos. Evoé!</p>
<p>Nos píncaros da paranóia em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>OS DOMINGOS</p>
<p>Todas as funções da alma estão perfeitas neste domingo.<br />
O tempo inunda a sala, os quadros, a fruteira.<br />
Não há um crédito desmedido de esperança<br />
Nem a verdade dos supremos desconsolos -<br />
Simplesmente a tarde transparente,<br />
Os vidros fáceis das horas preguiçosas,<br />
Adolescência das cores, preciosas andorinhas.</p>
<p>Na tarde &#8211; lembro &#8211; uma árvore parada,<br />
A alma caminhava para os montes,<br />
Onde o verde das distâncias invencidas<br />
Inventava o mistério de morrer pela beleza.<br />
Domingo &#8211; lembro &#8211; era o instante das pausas,<br />
O pouso dos tristes, o porto do insofrido.<br />
Na tarde, uma valsa; na ponte, um trem de carga;<br />
No mar, a desilusão dos que longe se buscaram;<br />
No declive da encosta, onde a vista não vai,<br />
Os laranjais de infindáveis doçuras geométricas;<br />
Na alma, os azuis dos que se afastam,<br />
O cristal intocado, a rosa que destoa.<br />
Dos meus domingos sempre fiz um claustro.<br />
As pétalas caíam no dorso das campinas,<br />
A noite aclarava os sofrimentos,<br />
As crianças nasciam, os mortos se esqueciam mortos,<br />
Os ásperos se calavam, os suicidas se matavam.<br />
Eu, prisioneiro, lia poemas nos parques,<br />
Procurando palavras que espelhassem os domingos.<br />
E uma esperança que não tenho.</p>
<p>Paulo nasceu na Rua dos Otoni em Belo Horinzonto, mas, quando Paulo fez dois aos de idade, seus pais foram para o interior de Minas. Seu pai precisava trabalhar. Antes disso, Guimarães Rosa, estudante e vizinho de Paulo, o carregava para sua república, onde esperava que fizesse gracinhas, revelou-lhe a história 25 anos depois. Paulo abriu o olhos para vida na cidade de Saúde, onde, viu &#8220;o automóvel, um cavalo, um caçador de perna de pau, a morte dentro de casa, rasgou as pernas no arame farpado e tomei sorvete pela primeira vez&#8221;. Para Paulo, Saúde, hoje, Dom Silvério, &#8220;é um album de estampas&#8221;.</p>
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<p>MADRIGAL 1942</p>
<p>Mulher<br />
que interrompe a primavera de um exército<br />
repartindo cartas suicidas e peixes solitários<br />
que insinuas o desespero sem vigência<br />
e os amoralismos cruciais do coração<br />
fantasma de organdi e nuvens enigmas<br />
viajando para os lados de um soluço<br />
mulher fatal como o quadro instantâneo<br />
que realeja na memória um céu especial<br />
comício de poemas obscuros<br />
ausente dos acampamentos da madrugada<br />
carne dominical falsamente casta<br />
intrusa das salas dos concertos sinfônicos<br />
mulher cem vezes mulher<br />
cem vezes mulher de meu poema<br />
retórica dos madrigais de ternura precipitada<br />
ladra sobretudo dos propósitos pacíficos<br />
alto e sorridente eflúvio de repente<br />
mulher<br />
carta enlutada mentida de rosa<br />
amargura corrosiva das raízes<br />
Em ti me crucificara<br />
como um pássaro<br />
sem ti os jardins não são poemas<br />
os hemisférios da alma não se entendem<br />
em ti<br />
mil vezes em ti eu remo para mais adiante<br />
pesquisador vencido catedral abstrata<br />
por ti perdi-me mendigo nos parques<br />
e nos comboios irremediáveis<br />
que fogem gotejando um tempo lento e venenoso<br />
por ti os telefones floresciam<br />
ou se cobriam de lutos e mistérios<br />
por ti colecionando tardes e alvoradas<br />
eu nadava para o delta dos sortilégios<br />
e alevantava-se um clamor maior que a esperança<br />
dos lados de onde me chegam flores mortuárias<br />
um sentimento de chamas<br />
e um prelúdio infinito.</p>
<p>Em 1929, pula de um bonde na rua da Bahia, em Belo Horizonte, cai no chão, quebrando o braço, com um carro parando em cima. Ainda no colégio, Paulo ouviu de um padre professor entusiasmado com seu desempenho nas aulas de português &#8220;Ainda vai ser um escritor!&#8221;. Após este período em Dom Silvério, aos seis anos de idade, Paulo volta a Belo Horizonte com os pais, no ano seguinte ingressa no Ginásio. As mudanças de cidade são constantes e Paulo faz o Ginásio em três colégios, em três cidades: Belo Horizonte, Cachoeira do Campo e, enfim, São João Del Rey, onde, conhece, aluno de outro ginásio, um que viria a se tornar um grande amigo, Otto Lara Resende.</p>
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<p>NO VERÃO</p>
<p>Inventaremos no verão os gritos<br />
Verberados na carta episcopal.<br />
Somos apenas pássaros aflitos<br />
Que nada informam da questão moral.</p>
<p>Tens os olhos audazes, infinitos,<br />
E eu sinto em mim o deus verde do mal,<br />
De nossas almas nascerão os mitos,<br />
De nossas bocas uma flor de sal.</p>
<p>Deitaremos raízes sobre a praia<br />
A jogar com palavras inexatas<br />
O desespero de se ter um lar.</p>
<p>E quando para nós enfim se esvaia<br />
O demônio das coisas insensatas<br />
Nossa grandeza brilhará no mar.</p>
<p>Paulo tinha o sonho de ser aviador. Pouco tempo depois de terminar o ginásio, em Belo Horizonte, Paulo, que ficara amigo de Otto em São João Del Rey, ingressa no grupo literário adolescente de que Otto fazia parte. Lá conhece João Etienne Filho, Hélio Pellegrino e Fernando Sabino. &#8220;Foi um deslumbramento&#8221; recorda. Paulo, desde a infância, já escrevia alguma coisa, contos e alguns poemas. Através desse grupo literário, Paulo começa a publicar alguns textos em pequenos jornais. Já com dezenove anos, descobre Mário de Andrade, Maiakovski, Baudelaire, Rimbaud e outros, &#8220;triste e impenetrável como um cisne de feltro&#8221;.</p>
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<p>SENTIMENTO DO TEMPO</p>
<p>Os sapatos envelheceram depois de usados<br />
mas fui por mim mesmo aos mesmos descampados<br />
E as borboletas pousavam nos dedos de meus pés.<br />
As coisas estavam mortas, muito mortas,<br />
Mas a vida tem outras portas, muitas portas.<br />
Na terra, três ossos repousavam<br />
Mas há imagens que não podia explicar; me ultrapassavam.<br />
As lágrimas correndo podiam incomodar<br />
Mas ninguém sabe dizer por que deve passar<br />
Como um afogado entre as correntes do mar.<br />
Ninguém sabe dizer por que o eco embrulha a voz<br />
Quando somos crianças e ele corre atrás de nós.<br />
Fizeram muitas vezes minha fotografia<br />
Mas meus pais não souberam impedir<br />
Que o sorriso se mudasse em zombaria<br />
E um coração ardente em coisa fria.<br />
Sempre foi assim: vejo um quarto escuro<br />
Onde só existe a cal de um muro.<br />
Costumo ver nos guindastes do porto<br />
O esqueleto funesto de outro mundo morto<br />
Mas não sei ver coisas mais simples como a água.<br />
Fugi e encontrei a cruz do assassinado<br />
Mas quando voltei, como se não houvesse voltado,<br />
Comecei a ler um livro e nunca mais tive descanso.<br />
Meus pássaros caíam sem sentidos.<br />
No olhar do gato passavam muitas horas<br />
Mas não entendia o tempo àquele como agora.<br />
Não sabia que o tempo cava na face<br />
Um caminho escuro, onde a formiga passe<br />
Lutando com a folha.<br />
O tempo é meu disfarce.</p>
<p>Em 1945, Paulo tinha vinte e três anos. Largou todos seu pequenos empregos em Belo Horizonte e foi &#8220;com mãos abanando&#8221; para o Rio de Janeiro no trem noturno. Antes, chegou a dirigir o suplemento literário da Folha de Minas e até a trabalhar na construção civil de um tio. Seu amigo Fernando Sabino já estava no Rio de Janeiro e Paulo veio encontrá-lo, e também para conhecer o poeta chileno Pablo Neruda, em viagem na, então, capital do país. O Otto e o Fernando vieram depois.</p>
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<p>RENASCIMENTO</p>
<p>Mais fria do que o sono do meu túmulo<br />
É minha soledade, quando cúmulo<br />
Da carícia mortal se esvai, essência.<br />
Vértice perigoso da inocência,<br />
Entrega-me a manhã seu cemitério,<br />
Quando, extintas espadas, sigo sério<br />
Sorrindo para quem foi num momento<br />
Chama que se desfez nas mãos do vento,<br />
Belo animal que foge ternamente<br />
E em lento movimento está presente<br />
Nos círculos que pensam no meu ser.<br />
Descobre-me a luz crua do prazer<br />
E a sombra do langor se arrasta lenta<br />
No sulcos de meu rosto; se ela tenta,<br />
Beijando-me, apagar a minha face,<br />
Onde o seu lábio vai, a voz renasce,<br />
Nítida, calma, quase com tristeza.<br />
A escuridão despede-se, e a certeza<br />
De um deus fere a vidraça, verdes chamas,<br />
Labaredas do céu, fogo nas ramas<br />
De uma roseira que sobe à janela.<br />
Depois, se o sol maduro se rebela<br />
No mar, sobre as espumas, nós, constantes<br />
Da memória das vagas inconstantes<br />
Vamos colher a flor do tempo. Ausentes<br />
Nos beijamos, tranquilos, transparentes.</p>
<p>Paulo começou a fazer faculdade de Odontologia, dois anos. Depois fez um pouco de Direito e mais um pouco de Veterinária. Queria também ser aviador, o que também não conseguiu fazer. Gostava de dizer que &#8220;diploma mesmo, só o de datilógrafo&#8221;. Dizia que &#8220;deveria ter estudado filologia&#8221;. Mas o que gostava mesmo era de literatura, das palavras e da maquina de escrever. Já no Rio de Janeiro, começou a colaborar para O Jornal, O Correio da Manhã e para o Diário Carioca. Em 1947, foi admitido no IPASE e foi fiscal de obras daquele orgão. Neste período trabalhou também como Diretor da Divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional. </p>
<p>poema que fiz para o meu pai http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>A MORTE</p>
<p>Ontem sonhei com a morte<br />
Por duas horas desertas:<br />
As pálpebras não se fecharam,<br />
Antes ficaram abertas.<br />
Os olhos esbugalhados<br />
Cravados num ponto incerto,<br />
Por fora desesperados,<br />
Por dentro o mal do deserto.<br />
Todo de preto vestido<br />
Me aparteava a nudez<br />
De estar ali sem sentido<br />
De um mundo que se desfez.<br />
Se alguém quisesse podia<br />
Cuspir-me em cima do rosto<br />
O nojo que lhe subia<br />
De ver-me assim tão composto.<br />
Talvez um ríctus na boca<br />
O meu segredo explicasse,<br />
Foi-me sempre a vida pouca<br />
E era a morte o meu disfarce.<br />
Vi-me no esquife hediondo,<br />
As mãos cruzadas de vez,<br />
Vi-me só me decompondo,<br />
Doído de lucidez.<br />
Senti o cheiro das flores,<br />
As velas que crepitavam,<br />
O enjôo forte das cores<br />
Que minha morte enfeitavam.<br />
Vi um remorso ingente<br />
Chegar ao pé do caixão,<br />
Um animal repelente<br />
Feito de amor e paixão.<br />
Um padre de voz plangente<br />
Depois de orar disse amém,<br />
Em torno os olhos da gente<br />
Me sepultavam também.<br />
Sei que tudo era aflição<br />
No meu destino acabado:<br />
O terror da solidão<br />
Ia comigo deitado.</p>
<p>Em 1951, Paulo publicou seu primeiro livro de poemas, &#8216;A palavra escrita&#8217;, no mesmo ano em que se casou com Joan, de ascendência inglesa. Com ela teve dois filhos, Gabriela e Daniel. Paulo participou, nesta época e até o fim de sua vida, da boêmia carioca do cafés do centro da cidade, Vermelhinho, onde, iam figuras como Carlos Castelo Branco, Carlos Drummond de Andrade e Tomás Santa Rosa. Eram os anos cinquenta, e Paulo, com seus vinte anos, começava a ganhar a vida.</p>
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<p>JOSETTE</p>
<p>Colunas de tu corpo. O real<br />
Das coxas longas onde se implanta o ventre<br />
Leve. O branco do seio<br />
Dando o leite do sonho ao animal<br />
Da noite acostumado a sofrer sede.<br />
Teu perfil tem a linha imaginária<br />
Das mais felizes frases literárias.<br />
És quem tu és, és a rosa e o rosicler.<br />
Quando caminhas vais frisando a rua<br />
De uma sequencia clara de escultura.<br />
És sol agora, ontem na praia foste a lua.<br />
És tudo o que quiser o meu poema,<br />
Mas não és o orvalho que roreja nem és pura.<br />
Possuis a elegância de uma ave<br />
De pés espapaçados (as mais belas)<br />
E tens do mar o frescor suave e a voz tão grave.<br />
Como a vaga empinada que se espraia<br />
Abres equestres movimentos no vento. Teus cabelos<br />
São as últimas lembranças lúcidas que me restam.<br />
Calmarias de ilhas verdes, teus olhos,<br />
Ah,<br />
São teus olhos.</p>
<p>Paulo teve vários pequenos empregos. Desde sua infância e adolescência em Minas Gerais, trabalhando com o tio, depois, contribuindo para alguns jornais. Costumava dizer que o dinheiro durava para viver quinze dias. No Rio, procurava qualquer coisa para sobreviver. Foi morar numa pensão no Leme chamada Palacete de Mon Rêve, cuja comida era horrível. E foi Drummond quem o arranjou dois empregos e o emprestou uma máquina escrever. Primeiro no Instituto Nacional do Livro onde começou a trabalhar para um dicionário da literatura brasileira. Trabalhava com uma mulher chamada Eneida.</p>
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<p>POEMA DIDÁTICO</p>
<p>Não vou sofrer mais sobre as armações metálicas do mundo<br />
Como o fiz outrora, quando ainda me perturbava a rosa.<br />
Minhas rugas são prantos da véspera, caminhos esquecidos,<br />
Minha imaginação apodreceu sobre os lodos do Orco.<br />
No alto, à vista de todos, onde sem equilíbrio precipitei-me,<br />
Clown de meus próprios fantasmas, sonhei-me,<br />
Morto do meu próprio pensamento, destruí-me,<br />
Pausa repentina, vocação de mentira, dispersei-me,<br />
Quem sofreria agora sobre as armações metálicas do mundo,<br />
Como o fiz outrora, espreitando a grande cruz sombria<br />
Que se deita sobre a cidade, olhando a ferrovia, a fábrica,<br />
E do outro lado da tarde o mundo enigmático dos quintais.<br />
Quem, como eu outrora, andaria cheio de uma vontade infeliz,<br />
Vazio de naturalidade, entre as ruas poentas do subúrbio<br />
E montes cujas vertentes descem infalíveis ao porto de mar ?</p>
<p>Meu instante agora é uma supressão de saudades. instante<br />
Parado e opaco. Difícil se me vai tornando transpor este rio<br />
Que me confundiu outrora. Já deixei de amar os desencontros.<br />
Cansei-me de ser visão, agora sei que sou real em um mundo real.<br />
Então, desprezando o outrora, impedi que a rosa me perturbasse.<br />
E não olhei a ferrovia &#8211; mas o homem que sangrou na ferrovia -<br />
E não olhei a fábrica &#8211; mas o homem que se consumiu na fábrica -<br />
E não olhei mais a estrela &#8211; mas o rosto que refletiu o seu fulgor.<br />
Quem agora estará absorto? Quem agora estará morto ?<br />
O mundo, companheiro, decerto não é um desenho<br />
De metafísicas magnificas (como imaginei outrora)<br />
Mas um desencontro de frustrações em combate.<br />
nele, como causa primeira, existe o corpo do homem<br />
- cabeça, tronco, membros, as		pirações e bem estar&#8230;</p>
<p>E só depois consolações, jogos e amarguras do espírito.<br />
Não é um vago hálito de inefável ansiedade poética<br />
Ou vaga advinhação de poderes ocultos, rosa<br />
Que se sustentasse sem haste, imaginada, como o fiz outrora.<br />
O mundo nasceu das necesidades.  O caos, ou o Senhor,<br />
Não filtraria no escuro um homem inconsequente,<br />
Que apenas palpitasse no sopro da imaginação. O homem<br />
É um gesto que se faz ou não se faz.  Seu absurdo -<br />
Se podemos admiti-lo &#8211; não se redime em injustiça.<br />
Doou-nos a terra um fruto.  Força é reparti-lo<br />
Entre os filhos da terra.  Força  &#8211; aos que o herdaram -<br />
É fazer esse gesto, disputar esse fruto.  Outrora,<br />
Quando ainda sofria sobre as armações metálicas do mundo,<br />
Acuado como um cão metafísico, eu gania para a eternidade,<br />
sem compreender que, pelo simples teorema do egoísmo,<br />
A vida enganou a vida, o homem enganou o homem.<br />
Por isso, agora, organizei meu sofrimento ao sofrimento<br />
De todos: se multipliquei a minha dor,<br />
Também multipliquei a minha esperança.</p>
<p>O segundo emprego que Drummond arranjou para Paulo foi numa publicação trimestral da Câmara de Comércio chileno-brasileira sob a direção de Sílvio Cunha. Mas quando a verba do Instituto do Livro que o sustentava acabou e a revista da Câmara do Comércio resultou insolvente, o poeta Augusto Frederico Schmidt, também ajudou Paulo arranjando-lhe um lugar no Correio da Manhã. Embora &#8220;apadrinhado&#8221; Paulo teve que mostrar que sabia escrever uma reportagem, pois, Paulo Bittencourt, quando soube que era parente de um amigo seu, não podia acreditar que Paulo soubesse redigir uma oração com sujeito, verbo e complemento.</p>
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<p>LITOGRAVURA</p>
<p>Eu voltava cansado como um rio.<br />
No Sumaré altíssimo pulsava<br />
a torre da tevê, tristonha, flava.<br />
Não: voltava humilhado como um tio<br />
bêbado chega à casa de um sobrinho.<br />
Pela ravina, lento, lentamente,<br />
feria-se o luar, num desalinho<br />
de prata sobre a Gávea de meus dias.<br />
Os cães quedaram quietos bruscamente.<br />
Foi no tempo dos bondes: vi um deles<br />
raiar pelo Bar Vinte, borboleta<br />
flamante, touro rútilo, cometa<br />
que se atrasa no cosmo e desespera:<br />
negra, na jaula em fuga, uma pantera.</p>
<p>Passei a mão nos olhos: suntuosa,<br />
negra, na jaula em fuga, ia uma rosa.</p>
<p>Quando era fiscal de obras do IPASE, Paulo passava duas ou três noites por semana no planejamento de um grande negócio: Uma livraria de alta classe em Copacabana. Levou-se meses discutindo se uisque, chá ou sorvete seria servido na livraria. O investimento viria de Carlos Lacerda, Marcelo Garcia e de Fernando Sabino. Mas não chego-se a conclusão nenhuma e a livraria não foi aberta. Paulo dizia que queria trabalhar na China após a guerra na UNRRA (United Nations Relief e Rehabilitations Agency) mas, como não havia feito o curso de paraquedista, não deu. Verdade ou não, vale lembrar.</p>
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<p>CANTIGA PARA TOM JOBIM</p>
<p>Quem for além simplesmente<br />
deste espelho transparente<br />
há de sumir? ou se ver?<br />
relembrar? ou esquecer?<br />
Quem for além simplesmente<br />
deste espelho transparente<br />
há de sentir? ou sonhar?<br />
prosseguir? ou regressar?<br />
Mas quem achar uma seta<br />
que lhe apontar o sentido<br />
neste espelho, há de se achar<br />
no paraíso, perdido,<br />
onde achará o poeta<br />
de repente ou devagar.</p>
<p>Com o livro de poemas &#8216;O Domingo azul do mar&#8217;, de 1958, Paulo recebe o Prêmio Alphonsus de Guimaraens do Ministério da Educação. Em 1960, Paulo publica seu primeiro livro de crônicas reunidas. São crônicas datadas de 1946, anos 50 e início dos anos 60 publicadas no Diário Carioca, revista Manchete e de alguns jornais dos Estados. A esta altura, seguindo de certa forma a ênfase do capixaba Rubem Braga, Paulo se dedica à escrita de crônicas, algumas antológicas, que poderiam ser consideradas como pequenos contos. </p>
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<p>BALADA DE AMOR NA PRAIA</p>
<p>Ai como sofre o corpo que se esfrega<br />
no corpo que se entrega e não se entrega</p>
<p>é como a convulsão da preamar<br />
a querer atirar o mar no ar</p>
<p>a onda rija bate como espada<br />
nos musgos da mulher ensolarada</p>
<p>guelras arfantes pernas semifusas<br />
grifam sombras morenas de medusas</p>
<p>e a verde rocha em V vê o duelo<br />
do peixe azul fisgado no amarelo</p>
<p>compondo um bicho humano sobre a praia<br />
que se desfaz em rendas e cambraia</p>
<p>moluscos musculares do desejo<br />
decápode do homem &#8211; caranguejo</p>
<p>anêmonas e polvos complacentes<br />
a resvalar abismos inocentes</p>
<p>como se amar no mar fosse encontrar<br />
nossa animalidade elementar</p>
<p>ou fosse o ser na praia (duplicado<br />
de amor) bicho de amor do mar gerado</p>
<p>cujas garras fatais persuasivas<br />
deslizam pelas angras sensitivas</p>
<p>pelos quadris que dançam pelos frisos<br />
conjugais &#8211; ziguezague de mil guizos &#8211; </p>
<p>garras que buscam a melhor textura<br />
no ventre no pescoço na cintura</p>
<p>já quase a devorar a lua cheia<br />
no litoral do céu feito de areia</p>
<p>e o sol diz nomes feios para a lua<br />
pedindo que ela entenda e fique nua</p>
<p>para que possa a coisa hermafrodita<br />
mudar a vida breve e infinita</p>
<p>e quando enfim de amor o bicho &#8211; arraia<br />
na confusão voraz freme e se espraia</p>
<p>é como a convulsão da preamar<br />
que conseguiu jogar o mar no ar</p>
<p>A revista Manchete era comprada, curiosamente, por pessoas que, de fato, não eram do interesse da revista, porém, lá dentro havia um objeto de desejo: a crônica de Paulo Mendes Campos. Paulo desenvolveu-se na crônica. Algumas autobiográficas e célebres, como a que lembra do tempo em que morava no Palacete Mon Rêve, no Leme, uma espécie de cortiço, e ouviu, no quarto ao lado, uma briga de dois namorados sob o tema da infidelidade. Muitas delas faziam um cruzamento entre sua vida e a literatura, algumas eram prosas poéticas. Em 1962, Paulo publica outra reunião de crônicas &#8216;Homenzinho na Ventania&#8217;, três anos depois, &#8216;O Colunista do Morro&#8217;.</p>
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<p>SALA DE JANTAR</p>
<p>Faltava um tema a nossa companhia,<br />
Faltava a nossa mesa certo espaço:</p>
<p>O mar em nossa casa não bramia,<br />
Mar de gravura dá certo embaraço.</p>
<p>A chuva de repente era alegria,<br />
À falta de amplidão para o fracasso:</p>
<p>A serra do curral nos elidia,<br />
Só o céu nos abria seu compasso:</p>
<p>Só o dente do sal nos conhecia,<br />
Só no prato de sopa era o sargaço.</p>
<p>So no pano um brigue estremecia.<br />
Só na vaga do vento nosso abraço.</p>
<p>Em 1966, Paulo republica os livros de poemas &#8216;Testamento do Brasil&#8217; e &#8216;Domingo Azul do Mar&#8217;. Todas elas pela Editora do Autor, que vinha publicando todos os contemporâneos. Paulo já fazia parte de uma &#8220;geração&#8221;, tanto de mineiros, ao lado de Fernado Sabino, Murilo Rubião, João Etienne Filho, Carlos Castello Branco, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino, quanto de cronistas, com Rubem Braga, e alguns dos supracitados. Em 1967, publica a reunião de crônicas &#8216;A Hora do Recreio&#8217; pela Editora Sabiá.</p>
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<p>VARANDA</p>
<p>De lá de via um muro transparente<br />
E além uns mares lentos e facundos,<br />
Roteiros retorcidos, submundos<br />
De porões recriados num repente<br />
De luz das vesperais de antigamente,<br />
Trilhas navais, romances vagabundos,<br />
Entrelaçados mares oriundos<br />
De ser a gente um ente diferente<br />
Que só pretende o que não vê e vê<br />
De olhos limpos aquilo que não há,<br />
Gente desmedida que descrê<br />
De quanto existe para ver e está<br />
Sempre eludindo o muro e que demanda<br />
O céu a terra o mar de uma varanda.</p>
<p>Sobre o Rio de Janeiro, Paulo dizia que &#8220;descobri que amo esta cidade por me sentir exilado em outras&#8221; [...] &#8220;Amo o bairro de Ipanema. Foi Álvaro Moreyra o primeiro a dizer que a cidade do Rio nasceu velha e aos poucos virou menina, contanto o tempo às avessas. Podemos contemplar essa observação no próprio espaço. O Centro do Rio representou a velhice da cidade: o morro do Castelo, os conventos, os prédios burocráticos dos reinados. Flamengo e Botafogo foram a maturidade do Rio. Copacabana foi a louca adolescência. Ipanema e Leblon: eis a infância da cidade. Preciso dessa meninice de Ipanema, onde tenho meu lar, o meu mar e o meu bar&#8221;.</p>
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<p>TANQUE DE ROUPA: SCHERZO</p>
<p>Era uma tarde pastoril mineira,<br />
Eram cirros e cúmulos mentais,<br />
Era o dolce staccato da torneira,<br />
Virações de Offenbach pelos varais,<br />
Eram trêmulos barrocos de roseira,<br />
Trissos de amor nas frinchas dos beirais,<br />
Era uma tarde abril à brasileira,<br />
Era uma tarde ardil Minas Gerais.</p>
<p>E era na tarde tarde redundante<br />
- longe vestígio em meigo pergaminho -<br />
Um refluir azul de mar distante.</p>
<p>Era uma tarde estática de Deus</p>
<p>Mas a boca da noite de mansinho&#8230;</p>
<p>E a tarde anil rendeu alma. Adeus.</p>
<p>A relação de Paulo com Ipanema é longa. Muitas de suas crônicas são sobre um bairro. Paulo intitulou um livro com o nome de uma delas chamado &#8216;O Cego de Ipanema&#8217;. Frequentava a boêmia do bairro, Veloso, Pizzaiolo, e outros bares. Seus contemporâneos de bar eram Vinicius de Moraes, Lucio Cardoso, Carlinhos Oliveira, Lucio Rangel, Roniquito, Tarso de Castro, Hugo Bidet, Zequinha Estelita, Narceu de Almeida e muitos outros. Em 1967, Paulo publica &#8216;Hora do Recreio&#8217; pela Sabiá e em 1969, &#8216;O Anjo Bêbado&#8217;, também pela Sabiá. </p>
<p>Outro assunto em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>TEMPO-ETERNIDADE</p>
<p>La sensualité, chère amie, consiste simplement à<br />
considerer comme une fin et non comme un moyen<br />
l&#8217;objet présent et la vie presente.<br />
                                                  André Gide</p>
<p>O instante é tudo para mim que ausente<br />
Do segredo que os dias encadeia<br />
Me abismo na canção que pastoreia<br />
As infinitas nuvens do presente.</p>
<p>Pobre do tempo, fico transparente<br />
À luz desta canção que me rodeia<br />
Como se a carne se fizesse alheia<br />
À nossa opacidade descontente.</p>
<p>Nos meus olhos o tempo é uma cegueira<br />
E a minha eternidade uma bandeira<br />
Aberta em céu azul de solidões.</p>
<p>Sem margens, sem destino, sem história<br />
O tempo que se esvai é minha glória<br />
E o susto de minh&#8217;alma sem razões.</p>
<p>Em 1962, Paulo, na presença do Dr. Murilo Pereira Gomes, tomou ácido lisérgico em um apartamento da rua General Glicério em Laranjeiras. Paulo, que em 1954, lera &#8216;As portas da percepção&#8217; do Aldous Huxley logo após sua publicação, fez-se de cobaia desta experiência. Tinha já seus quarenta anos. Paulo descreveu os efeitos de sua experiência em crônicas memoráveis. &#8220;Apurando os ouvidos, poderia se ouvir a parede&#8221;, descobriu que &#8220;como se dentro da delicadeza, houvesse uma segunda delicadeza e, dentro desta, uma terceira, uma quarta, uma quinta e, só lá no fundo de não sei qual película sutil, estivesse, intacta, a verdadeira delicadeza&#8221;.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>SONHO DE UMA INFANCIA</p>
<p>Meu sonho, breve emoção,<br />
A tarde deitada no limoeiro,<br />
Paralelas de aço se agarrando no longe.<br />
Há muito tempo que fui infeliz<br />
E desconhecia meu corpo embrulhando nas vestes.<br />
Um cisne repetia o facílimo soneto do exílio.<br />
Animais do ar esvoaçavam,<br />
Flores se assustavam, muito altas, olhando o momento.<br />
Nascia por nascer a vida tímida.<br />
Os minutos respiravam cadenciados<br />
Como a criança próxima à grande cachoeira.<br />
Breve emoção da pedra, meu sonho<br />
Ficava difícil,<br />
Sol entre constelações remotas.<br />
Sempre a palavra de um poema se perdia.<br />
Um barco remava entre chamas, um coração se consumia,<br />
A noite erguida apagava o meu desejo de pensar.<br />
Vi como se desprende de um pântano a garça nua,<br />
Vi a fantasia e a tristeza de meu ser.<br />
Foi há muito, entre o mineral silencioso<br />
Há muito tempo que nasci da infância para crescer<br />
Entre milícias douradas que marchavam cantando.</p>
<p>Deixarei meu destino como a pátria.<br />
Renovando a aventura, reinarei entre vós,<br />
Sonhos fiéis.<br />
Sobe a fumaça na caligem de uma tarde chuvosa.<br />
Sinto o aroma feliz do bife,<br />
A friagem do ladrilho onde estraçalho um besouro,<br />
O tinir da louça, a água caindo no zinco.<br />
Estamos grandes, do tamanho de um defunto.<br />
Morte, emoção de meu sonho,<br />
Surda floresta que voa no vendaval e se esfacela.</p>
<p>Paulo chamou a viagem de ácido de teve de &#8220;purificação do consciente pelo inconsciente&#8221;. Ficou deliciado com o paladar de uma azeitona que demorou horas para comer, &#8220;a quantidade de caldo, com a ternura, com o mistério do caroço&#8221;. Seu único medo era ser trazido de volta pelo consciente. Quando saiu do apartamento, ainda no efeito, tomou um táxi e foi a uma reunião numa casa de amigos. Disse que todos (o motorista, o porteiro, os amigos) o tratavam com delicadeza. Descreveu a experiência, primeiramente, no livro &#8216;O colunista do morro&#8217; e depois em outros meios. Hoje, estão todas no livro &#8216;Cisne de Feltro&#8217; com outra crônicas autobiográficas.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>O BEBADO</p>
<p>Já vomita no mar a lua pálida.<br />
Bondes trazem de longe a madrugada<br />
E entre golfos de sombra resplandecem<br />
Fantásticas piscinas de luz crua.<br />
Os ruídos do dia vão nascendo<br />
Da noite que abandona o céu. Tilinta<br />
Real a campainha de um ciclista,<br />
Dobra irreal o sino de um convento.<br />
A própria luz a caminhar cicia<br />
Nos trilhos azulados da manhã.<br />
A espaços, o silêncio coagula<br />
O soturno alarido da ressaca.<br />
O bêbado caminha em direção<br />
De um luzir qualquer no lusco-fusco,<br />
Onde grita a luz fulva dos açougues.<br />
Do mais alto beiral nasce uma pomba<br />
Que voa rente ao asfalto orvalhado,<br />
Ensurdecendo a claridade triste<br />
Do bêbado. Do esforço alvar das vagas<br />
Nascem as gaivotas tresnoitadas.<br />
Cavalos mal dormidos vão surgindo<br />
Nas esquinas, enquanto os operários<br />
Passam numa cadência primitiva.<br />
O bêbado quer morrer, de desfazer,<br />
Andando sem vontade sobre a terra<br />
Que oferece a seus pés o espaço hostil.<br />
Seu ideal é simples, geométrico,<br />
E o sorriso em que fala ao transeunte<br />
É um sorriso de paz e de ironia.</p>
<p>Nós que andamos certos e orgulhosos na manhã<br />
E nos apossamos do dia como nosso território natural,<br />
Como entenderemos este ser obscuro<br />
Cujos passos se extraviam e se afastam de nós<br />
E se aproximam de novo e se perdem em atropelo.<br />
Quando seu rosto se inclina para o chão<br />
E outra vez se levanta com um sorriso de paz e de ironia,<br />
Sentimos uma luz de mentira em seus olhos<br />
E tontos de lucidez nos disfarçamos.</p>
<p>A relação de Paulo com o álcool se estendia para suas crônicas. &#8220;Os os bares morrem numa quarta feira&#8221; e Paulo falava da boêmia carioca, de anedotas de bares, dizia que &#8220;não bebo tanto quando mereço&#8221;. Seus vinte últimos anos de vida foram um pouco difíceis. Por motivos variados, mas, com o álcool como centro. Paulo virou um sujeito irritado, muitas vezes evitados nas ruas, chegando a ser, inclusive, impedido de entrar em alguns bares. Paulo dizia que se tornara &#8220;um homem entornado&#8221;. </p>
<p>http://cartilhadepoesia.wordpress.com</p>
<p> A MÁRIO DE ANDRADE</p>
<p>Não sei que mãos teceram teu silêncio.<br />
Morto. Estás morto. Sonhas morto? Morto.<br />
Espantalho fatal, onde flutuas<br />
Acordas borboletas tresvairadas.</p>
<p>Tua morte chegou nas folhas secas<br />
Mas nada vi no ventre da noitinha,<br />
Que não interpretei nas alegrias<br />
Tua razão mais bela de acabar.</p>
<p>A noite está coalhada de formigas.<br />
A cruz amarga a fé desesperada.<br />
Há formigas na treva de tua morte<br />
E em mim erram punhais entrefechados.</p>
<p>O simples tempo agora abre a vidraça.<br />
Desarmaram nos campos a barraca.<br />
Chega do canteiro a razão &#8211; flor<br />
Para agravar sinais do inevitável.</p>
<p>O silêncio borbulha nos esgotos.<br />
Bebamos o licor de tua morte.<br />
Enquanto se suporta a solidão.<br />
Tua morte foi servida numa salva.</p>
<p>Cisnes feridos, franzem meu destino.<br />
Os convivas, as moças, as vitrinas<br />
Não sabem que paraste. Mas eu sofro<br />
O sono vegetal dos passarinhos.</p>
<p>Mas eu sofro. Eu e o morto que conduzo<br />
Vamos sofrer até de manhãzinha.<br />
Vamos velar aflitos sobre a terra<br />
Que desviou o teu olhar das rosas.</p>
<p>Em 1984, Paulo publica &#8216;Trinca de Copas&#8217;, seria seu último livro publicado. No dia 1 de julho de 1991, Paulo morre no Rio de Janeiro. Seu amigo Otto Lara Resende, escreve na Folha de São Paulo: &#8220;Paulo morreu. Não, não estamos preparados. Confuso sentimento de que era preciso ter feito alguma coisa. Sim, era previsível. Mas não precisava ser irreparável&#8221;. Anos depois, no fim da década de noventa, a Editora Civilização Brasileira inicia um trabalho de republicação de sua obra. Paulo, que ficara por algum tempo esquecido da literatura brasileira, volta.</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>NESTE SONETO</p>
<p>Neste soneto, meu amor, eu digo,<br />
Um pouco à moda de Tomás Gonzaga,<br />
Que muita coisa bela o verso indaga<br />
Mas poucos belos versos eu consigo.<br />
Igual à fonte escassa no deserto,<br />
Minha emoção é muita, a forma, pouca.<br />
Se o verso errado sempre vem-me à boca,<br />
Só no meu peito vive o verso certo.<br />
Ouço uma voz soprar à frase dura<br />
Umas palavras brandas, entretanto,<br />
Não sei caber as falas de meu canto<br />
Dentro de forma fácil e segura.<br />
E louvo aqui aqueles grandes mestres<br />
Das emoções do céu e das terrestres.</p>
<p>Paulo Mendes Campos tinha um sonho sólido: Morar definitivamente na serra de Petrópolis, visitar a Europa mais uma vez e passear com frequencia nas velhas cidades de Minas. Dizia que &#8220;na carreira literária, a glória está no começo, o resto da vida é aprendizado intensivo, para o anonimato, para o ouvido [...] O sucesso não me interessa. Faço questão de fracassar [...] Aqui jaz Paulo Mendes Campos. Por favor, engavetem-me com a máxima simplicidade e do lado da sombra [...] No mais, é como dizia Freud: morreu, babau&#8221;. Até a próxima antologia.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>BALADA DE AMOR PERFEITO</p>
<p>Pelo pés das goiabeiras,<br />
pelo braços das mangueiras,<br />
pelas ervas fratricidas,<br />
pelas pimentas ardidas,<br />
     fui me aflorando.</p>
<p>Pelos girassóis que comem<br />
giestas de sol e somem,<br />
por marias-sem-vergonha,<br />
dos entretons de quem sonha<br />
    fui te aspirando.</p>
<p>Por surpresas balsaminas,<br />
entre as ferrugens de Minas,<br />
por tantas voltas lunárias,<br />
tantas manhãs cineárias,<br />
    fui te esperando.</p>
<p>Por miosótis lacustres,<br />
por teus cântaros ilustres,<br />
pelos súbitos espantos<br />
de teus olhos agapantos,<br />
    fui te encontrando.</p>
<p>Pelas estampas arcanas<br />
do amor das flores humanas,<br />
pelas legendas candentes<br />
que trazemos nas sementes,<br />
    fui te avivando.</p>
<p>Me evadindo das molduras,<br />
de minhas albas escuras,<br />
pelas tuas sensitivas,<br />
açucenas, sempre-vivas,<br />
    fui te virando.</p>
<p>Pela rosa e o resedá,<br />
pelo trevo que não há,<br />
pela torta linha reta<br />
da cravina do poeta,<br />
    fui te levando.</p>
<p>Pelas frestas das lianas<br />
de tuas crespas pestanas,<br />
pela trança rebelada<br />
sobre o paredão do nada,<br />
    fui te enredando.</p>
<p>Pelas braçadas de malvas,<br />
pelas assembléias alvas<br />
de teus dentes comovidos<br />
pelo caule dos gemidos<br />
    fui te enflorando.</p>
<p>Pelas fímbrias de teu húmus,<br />
pelos reclames dos sumos,<br />
sobre as umbelas pequenas<br />
de tuas tensas verbenas,<br />
    fui me plantando.</p>
<p>Por tuas arestas góticas,<br />
pelas orquídeas eróticas,<br />
por tuas hastes ossudas,<br />
pelas ânforas carnudas,<br />
    fui te escalando.</p>
<p>Por teus pistilos eretos,<br />
por teus acúleos secretos,<br />
pelas úsneas clandestinas<br />
das virilhas de boninas,<br />
    fui me criando.</p>
<p>Pelos favores mordentes<br />
das ogivas redolentes,<br />
pelo sereno das zínias,<br />
pelos lábios de glicínias,<br />
    fui te sugando.</p>
<p>Pelas tardes de perfil,<br />
pelos pasmados de abril,<br />
pelos parques do que somos,<br />
com seus bruscos cinamomos,<br />
    fui me espaçando.</p>
<p>Pelas violas do fim,<br />
nas esquinas do jasmim,<br />
pela chama dos encantos<br />
de fugazes amarantos,<br />
    fui me apagando.</p>
<p>Afetando ares e mares<br />
pelas mimosas vulgares<br />
pelos fungos do meu mal,<br />
do teu reino vegetal<br />
    fui me afastando.</p>
<p>Pelas gloxínias vivazes,<br />
com seus labelos vorazes,<br />
pelo flor que desata,<br />
pela lélia purpurata,<br />
fui me arrastando.</p>
<p>Pelas papoulas da cama,<br />
que vão fumando quem ama,<br />
pelas dúvidas rasteiras<br />
de volúveis trepadeiras<br />
    fui te deixando.</p>
<p>Pelas brenhas, pelas damas<br />
de uma noite, pelos dramas<br />
das raízes retorcidas,<br />
pelas sultanas cuspidas,<br />
    fui te olvidando.</p>
<p>Pelas atonalidades<br />
das perpétuas, das saudades,<br />
pelos goivos do meu peito,<br />
pela luz do amor perfeito,<br />
    vou te buscando.</p>
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	</item>
		<item>
		<title>Augusto dos Anjos</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Sep 2011 14:25:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cartilhadepoesia</dc:creator>
				<category><![CDATA[TODOS OS POETAS AQUI]]></category>
		<category><![CDATA[Augusto dos Anjos]]></category>

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		<description><![CDATA[Augusto Carvalho Rodrigues dos Anjos, nasceu no Engenho do Pau D&#8217;Arco no município de Cruz do Espírito Santo, no Estado da Paraíba no dia 20 de abril de 1884. Terceiro filho do casal Alexandre Rodrigues dos Anjos e D. Córdula Carvalho Rodrigues dos Anjos, conhecida por Sinhá Mocinha. Consta que recebeu, junto com seus irmãos, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=115&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Augusto Carvalho Rodrigues dos Anjos, nasceu no Engenho do Pau D&#8217;Arco no município de Cruz do Espírito Santo, no Estado da Paraíba no dia 20 de abril de 1884. Terceiro filho do casal Alexandre Rodrigues dos Anjos e D. Córdula Carvalho Rodrigues dos Anjos, conhecida por Sinhá Mocinha. Consta que recebeu, junto com seus irmãos, a educação primária e secundária por seu pai. Neste mês, tentaremos percorrer a vida e a poesia desta estranha figura da poesia brasileira, alguns relatos, a escassez de detalhes sobre sua infância, sua vida e seu desenvolvimentos como poeta. Voilá, Augusto dos Anjos!</p>
<div>Jorge Mautner aqui <a href="http://cartilhadepoesia.wordpress.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://cartilhadepoesia.wordpress.com</a></div>
<div></div>
<div>.</div>
<div>O MORCEGO</div>
<div>.</div>
<div>Meia noite. Ao meu quarto me recolho</div>
<div>Meu Deus! E este morcego! E, agora, vêde:</div>
<div>Na bruta ardência orgânica da sede,</div>
<div>Morde-me a goela igneo e escaldante molho.</div>
<div>&#8220;Vou mandar levantar outra parede&#8230;&#8221;</div>
<div>- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho</div>
<div>E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,</div>
<div>Circularmente sobre a minha rede!</div>
<div>Pego de um pau. Esforços faço. Chego</div>
<div>A toca-lo. Minha alma se concentra.</div>
<div>Que ventre produziu tão feio parto?!</div>
<div>A Consciência Humana é este morcego!</div>
<div>Por mais que a gente faça, a noite, ele entra</div>
<div>Imperceptivelmente em nosso quarto!</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>Da casa onde viveu, recorda sua mãe, Sinha Mocinha &#8220;A vasta casa-grande, de muitas salas, a senzala ao lado, o engenho d&#8217;água lá embaixo, o canavial na várzea e, pelos altos, o agreste, onde floriam no verão o pau d&#8217;arco roxo de outubro e os paus d&#8217;arcos amarelos de novembro&#8221;. O engenho era sombrio, era de açucar e ficava à aba do rio Una. Alexandre, seu pai, assumiu os engenhos no meio de uma crise de açucar que arrasava as lavouras. Os engenhos, hipotecados, estavam nas mãos de comerciantes da Paraíba, porém, ao contrário dos outros donos de engenho, seu Alexandre era um homem letrado.</div>
<div>
<div>.</div>
<div>Sobre Máscaras em <a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div>.</div>
<div>A IDEIA</div>
<div>.</div>
<div>De onde ela vem? De que maneira bruta</div>
<div>Vem essa luz que sobre as nebulosas</div>
<div>Cai de incógnitas criptas misteriosas</div>
<div>Como as estalactites duma gruta?</div>
<div>Vem da psicogenética e alta luta</div>
<div>Do feixe de moléculas nervosas,</div>
<div>Que, em desintegrações maravilhosas</div>
<div>Delibera, e, depois, quer a executa!</div>
<div>Vem do encéfalo absconso que a constringe</div>
<div>Chega em seguida às cordas da laringe,</div>
<div>Tísica, tênue, mínima, raquítica&#8230;</div>
<div>Quebra a força centrípeta que a amarra</div>
<div>Mas, de repente, e quase morta, esbarra</div>
<div>No mulambo da língua paralítica!</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>Dr. Alexandre, como era conhecido, era letrado senhor de engenho e gostava de vagar a cavalo pelos limites de sua terra. Gostava de filosofia, lia muito, e por mais que se esforçasse, não tinha nas mãos a força do mando. Gostava de conversar com as pessoas, com os trabalhadores, procurava manter um clima ameno. Sabia latim, grego e ciências naturais, tinha mãos finas e gostava de escrever. Lia muito Cícero. Costumava dizer que com a casa cheia de meninos querendo estudar, &#8220;o tamarindo virava uma escola socrática&#8221;, se referindo ao pé de tamarindo que havia no engenho.</div>
<div>.</div>
<div>
<div></div>
<div></div>
<div><a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div></div>
<div>.</div>
<div>IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA</div>
<div>.</div>
<div>Rugia nos meus centros cerebrais</div>
<div>A multidão dos séculos futuros</div>
<div>- Homens que a herança de ímpeto impuros</div>
<div>Tornara etnicamente irracionais! -</div>
<div>Não sei que livro, em letras garrafais</div>
<div>Meus olhos liam! No humus dos monturos,</div>
<div>Realizavam-se os partos mais obscuros</div>
<div>Dentre as genealogias animais!</div>
<div>Como quem esmigalha protozoários</div>
<div>Meti todos os dedos mercenários</div>
<div>Na consciência daquela multidão&#8230;</div>
<div>E, em vez de achar a luz que os Céus inflama</div>
<div>Somente achei moléculas de lama</div>
<div>E a mosca alegre da putrefação!</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>As informações sobre este período da infância são escassas, por isso, em 1900, Augusto ingressa no Liceu Paraibano. Tinha dezesseis anos e já gozava de uma fama de preparo, de prodígio, que corria pela cidade. Era desembaraçado como afirma Orris Soares, seu amigo dessa época &#8220;não soube resistir ao desejo de travar conhecimento com o poeta. Fui imperiosamente atraído, como para um sítio encantado onde a vista se alerta por encontrar movimento. E de tal forma nos acamaradamos, que, dias depois, lhe devia o exame de latim, desembaraçando-me de complicada tradução, numa ode de Horácio&#8221;.</p>
<div>.</div>
<div>Poema EMPÓRIO dedicado ao Vicente <a href="http://pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div>.</div>
<div>O DEUS VERME</div>
<div>.</div>
<div>Fator universal do transformismo,</div>
<div>Filho da teológica matéria,</div>
<div>Na superabundância ou na miséria</div>
<div>Verme &#8211; é o seu nome obscuro de batismo.</div>
<div>Jamais emprega o acérrimo exorcismo</div>
<div>Em sua diária ocupação funérea,</div>
<div>E vive em contubérnio com a bactéria</div>
<div>Livre das roupas do antropomorfismo.</div>
<div>Almoça a podridão das drupas agras,</div>
<div>Janta hidrópicos, rói vísceras magras</div>
<div>E dos defuntos novos incha a mão&#8230;</div>
<div>Ah! Para ele é que a carne podre fica,</div>
<div>E no inventário da matéria rica</div>
<div>Cabe aos seus filhos a maior porção!</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>Ainda em 1900, na mesma época em que entra no Liceu, Augusto dos Anjos escreve seu primeiro soneto, chamado &#8220;Saudade&#8221;. Augusto, ainda estudante, gostava de andar recitando, consta que tinha uma voz metálica que continha &#8220;complacência e enternecimento&#8221;. Nesta época, impressionou muito Orris Soares, de quem se tornaria amigo e que escreveria o texto &#8220;Elogio a Augusto dos Anjos&#8221;. Em 1901, publica um soneto no jornal O Comércio, e passaria a colaborar com o mesmo. Logo mais, dois anos depois, iria para Recife para se inscrever na faculdade de Direito e lá conhece, enfim, o Carnaval.</div>
<div>.</div>
<div>
<div><a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div></div>
<div>.</div>
<div>DEBAIXO DO TAMARINDO</div>
<div>No tempo de meu pai, sob estes galhos</div>
<div>Como uma vela fúnebre de cera,</div>
<div>Chorei bilhões de vezes com a canceira</div>
<div>De inexorabilíssimos trabalhos!</div>
<div>Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,</div>
<div>Guarda, como uma caixa derradeira,</div>
<div> O passado da Flora Brasileira</div>
<div>E a paleontologia dos Carvalhos!</div>
<div>Quando pararem todos os relógios</div>
<div>De minha vida, e a voz dos necrológios</div>
<div>Gritar nos noticiários que eu morri,</div>
<div>Voltando à pátria da homogeneidade,</div>
<div>Abraçada com a própria Eternidade</div>
<div>A minha sombra há de ficar aqui!</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>Em 1903, Augusto entra na Faculdade de Direito em Recife. Dois anos depois, em 1905, perde seu pai, Dr. Alexandre. Escreve então três sonetos dedicados ao pai e publica n&#8217;O Comércio, que posteriormente fariam parte de seu único livro &#8220;Eu&#8221;. Nesta época, começa a escrever a &#8220;crônica paudarquense&#8221; e participa de duas polêmicas. Augusto lia muito os escritos de Charles Darwin, Haeckel, Spencer e Pascal. Em 1907, conclui a faculdade de Direito, para, um ano depois, instalar-se, de vez, na capital da Paraíba.</div>
<div>.</div>
<div>
<div>Dois poemas meus aqui ao lado de outros poetas <a href="http://www.olegalmeida.com/page_25.html" rel="nofollow" target="_blank">http://www.olegalmeida.com/page_25.html</a></div>
<div></div>
<div>.</div>
<div>UMA NOITE NO CAIRO</div>
<div>.</div>
<div>Noite no Egito. O céu claro e profundo</div>
<div>Fulgura. A rua é triste. A Lua Cheia</div>
<div>Está sinistra, e, sobre a paz do mundo,</div>
<div>A alma dos Faraós anda e vagueia.</div>
<div>Os mastins negros vão ladrando à lua&#8230;</div>
<div>O Cairo é de uma formosura arcaica.</div>
<div>No ângulo mais recôndito da rua</div>
<div>Passa cantando uma mulher hebraica.</div>
<div>.</div>
<div>O Egito é sempre assim quando anoitece!</div>
<div>Às vezes das pirâmides o quêdo</div>
<div>E atro perfil, exposto ao luar, parece</div>
<div>Uma sombria interjeição de medo!</div>
<div>.</div>
<div>Como um contraste aqueles míseres</div>
<div>Num quiosque em festa a alegre turba grita</div>
<div>E dentro dançam homens e mulheres</div>
<div>Numa aglomeração cosmopolita.</div>
<div>.</div>
<div>Tonto do vinho, um saltimbanco da Asia</div>
<div>Convulso e rôto, no apogeu da fúria,</div>
<div>Executando evoluções de <em>razzia</em></div>
<div>Solta um brado epiléptico de injúria!</div>
<div>.</div>
<div>Em derredor duma ampla mesa preta</div>
<div>- Última nota do conúbio infando -</div>
<div>Vêem-se dez jogadores de roleta</div>
<div>Fumando, discutindo, conversando.</div>
<div>.</div>
<div>Resplandece a celeste superfície</div>
<div>Dorme soturna a natureza sabia&#8230;</div>
<div>Em baixo, na mais próxima planície,</div>
<div>Pasta um cavalo esplêndido da Arábia.</div>
<div>.</div>
<div>Vaga no espaço um silfo solitário.</div>
<div>Trôam kinnors! Depois tudo é tranquilo&#8230;</div>
<div>Apenas, como um velho stradivario,</div>
<div>Soluça toda a noite a água do Nilo!</div>
<div>.</div>
<div>Em 1908, Augustos dos Anjos vai para a capital da Paraíba onde começa a dar aulas particulares. Nesta época, começa a colaborar com o jornal Nonevar e com a revista Terra Natal. Sua mãe, Sinhá Mocinha, ficava no Engenho a esperar por notícias do filho. Eis um relato de sua experiência, em carta, pela &#8220;Veneza Brasileira&#8221;: &#8220;Os três dias de Carnaval nesta capital foram festivos, alegres e esplendorosos. Profusão de clubes carnavalescos, Caraduras, etc, confete, bisnagas, serpentina, danças, e, no entretanto, eu me diverti um pouco. O que é afinal divertimento? Uma fenomenalidade transitória, efêmera, o que fica é a saudade. Saudade! Ora, eu não disposto a ter saudades. Entendo que só devemos acalentar recordações dos entes caros, idolatrados, parcelas de nossa existência, de nossa vida, e esses entes &#8211; deixei-os eu aí&#8221;.</div>
<div>.</div>
<div>
<div>Noite adentro aqui<a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank"> http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div></div>
<div>.</div>
<div>A UM MASCARADO</div>
<div>.</div>
<div>Rasga esta máscara ótima de seda</div>
<div>E atira à area ancestral dos palimpsestos&#8230;</div>
<div>É noite, e, à noite, a escândalos e incestos</div>
<div>É natural que o instinto humano aceda!</div>
<div>Sem que te arranquem da garganta queda</div>
<div>A interjeição danada dos protestos.</div>
<div>Hás de engolir, igual a um porco, os restos</div>
<div>Duma comida horrivelmente azeda!</div>
<div>A sucessão de hebdômadas medonhas</div>
<div>Reduzirá os mundos que tu sonhas</div>
<div>Ao microcosmos do ovo primitivo&#8230;</div>
<div>E tu mesmo, após a árdua e atra refrega,</div>
<div>Terás somente uma vontade cega</div>
<div>E uma tendência obscura de ser vivo!</div>
<div>.</div>
<div>No mesmo ano de 1908, morre Afrígio Pessoa de Melo, padrasto de sua mãe e patriarca da família, deixando o Engenho em péssima situação financeira. Também começa a lecionar no Instituto Maciel Pinheiro e é nomeado professor do Liceu Paraibano. No ano seguinte, 1909, Augusto publica o poema &#8220;Budismo moderno&#8221; e outros em A União e num discurso que profere no Teatro Santa Rosa pela comemorações do dia 13 de maio, choca a plateia com seu léxico &#8220;incompreensível e bizarro&#8221;, logo depois, abandona o Instituo Maciel Pinheiro.</div>
<div>.</div>
<div>
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<div>.</div>
<div>CONTRASTES</div>
<div>.</div>
<div>A antítese do novo e do obsoleto</div>
<div>O Amor e a Paz, o Ódio e a Carnificina,</div>
<div>O que o homem ama e o que o homem abomina,</div>
<div>Tudo convém para o homem ser completo!</div>
<div>O ângulo obtuso, pois, e o ângulo reto,</div>
<div>Uma feição humana e outra divina</div>
<div>São como a eximenina e a endimenina</div>
<div>Que servem ambas para o mesmo feto!</div>
<div>Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes!</div>
<div>Por justaposição destes contrastes,</div>
<div>Junta-se uma hemisfério a outro hemisfério,</div>
<div>Às alegrias juntam-se as tristezas</div>
<div>E o carpinteiro que fabrica as mesas</div>
<div>Faz também os caixões do cemitério!&#8230;</div>
<div>.</div>
<div>Em 1910, Augusto publica em A União, o poema, &#8220;Mistério de um Fósforo&#8221; e &#8220;Noite de um Visionário&#8221;. Mas, o fato mais importante deste ano de 1910, embora, de certa forma avesso às questões do afeto, conhece e casa-se com Ester Fialho. Augusto continua a colaborar com a revista Nonevar até que outro fato marcante, desta vez trágico, acontece na vida do poeta: Sua família, por dificuldades financeiras, vende o Engenho Pau D&#8217;Arco. Augusto se atordoa e decide de mudar para o Rio de Janeiro. Embora professor do Liceu Paraibano por dois anos, Augusto quer se tornar poeta conhecido em círculos mais amplos. Então, pega parte de sua herança no Engenho e, com Ester, parte para a capital do país.</div>
<div>.</div>
<div>
<div><a href="http://cartilhadepoesia.wordpress.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://cartilhadepoesia.wordpress.com</a></div>
<div></div>
<div>.</div>
<div>VERSOS DE AMOR</div>
<div>.</div>
<div>Parece muito doce aquela cana.</div>
<div>Descasco-a, provo-a, chupo-a&#8230; ilusão trêda!!</div>
<div>O amor, poeta, é como a cana azeda,</div>
<div>A toda a boca que o não prova engana.</div>
<div>Quis saber que era o amor, por experiência,</div>
<div>E hoje que, enfim, conheço o seu conteúdo,</div>
<div>Pudera eu ter, eu que idolatro o estudo,</div>
<div>Todas as ciências menos esta ciência!</div>
<div>Certo, este o amor não é que, em ansias, amo</div>
<div>Mas certo, o egoísta amor este é que acinte</div>
<div>Amas, oposto a mim. Por conseguinte</div>
<div>Chamas amor aquilo que eu não chamo.</div>
<div>Oposto ideal ao meu ideal conservas.</div>
<div>Diverso é, pois, o ponto outro de vista</div>
<div>Consoante o qual, observo o amor, do egoísta</div>
<div>Modo de ver, consoante o qual, observas.</div>
<div>Porque o amor, tal como eu o estou amando,</div>
<div>É espírito, é éter, é substância fluida,</div>
<div>É assim como o ar que a gente pega e cuida,</div>
<div>Cuida, entretanto, não o estar pegando!</div>
<div>É a transubstanciação de instintos rudes,</div>
<div>Imponderabilíssima e impalpável,</div>
<div>Que anda acima da carne miserável</div>
<div>Como anda a garça acima dos açudes!</div>
<div>Para reproduzir tal sentimento</div>
<div>Daqui por diante, atenta a orelha cauta,</div>
<div>Como Marsyas &#8211; inventor da flauta -</div>
<div>Vou inventar também outro instrumento!</div>
<div>Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo</div>
<div>Ambiciono, que o idioma em que te eu falo</div>
<div>Possam todas as línguas declina-lo</div>
<div>Possam todos os homens compreendê-lo!</div>
<div>Para que, enfim, chegando à última calma</div>
<div>Meu podre coração roto não role</div>
<div>Integralmente desfibrado e mole,</div>
<div>Como um saco vazio dentro da alma!</div>
<div>.</div>
<div>No Rio de Janeiro, Augusto e sua mulher Ester, hospedam-se em uma pensão no Largo do Machado mas logo se mudam para a Avenida Central. São constantes as mudanças. O casal vai de pensão em pensão. Augusto termina o ano de 1910 sem conseguir um emprego. No ano seguinte, altos e baixos. Sua mulher engravida, porém, seis meses depois, perde a criança. Augusto é nomeado professor de Geografia, Corografia e Cosmografia no Ginásio Nacional (Pedro II atualmente) e Ester engravida novamente e no fim do ano nasce sua filha Glória.</div>
<div>.</div>
<div>
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<div></div>
<div>.</div>
<div>DEPOIS DA ORGIA</div>
<div>.</div>
<div>O prazer que na orgia a hetaíra goza<br />
Produz no meu sensorium de bacante<br />
O efeito de uma túnica brilhante<br />
Cobrindo ampla apostema escrofulosa!</div>
<div>
<p>Troveja! E anelo ter, sôfrega e ansiosa,<br />
O sistema nervoso de um gigante<br />
Para sofrer na minha carne estuante<br />
A dor da força cósmica furiosa.</p>
<p>Apraz-me, enfim, despindo a última alfaia<br />
Que ao comércio dos homens me traz presa,<br />
Livre deste cadeado de peçonha,</p>
<p>Semelhante a um cachorro de atalaia<br />
Às decomposições da Natureza,<br />
Ficar latindo minha dor medonha!</p>
</div>
<div>Em 1912, Augusto começa a colaborar com o jornal O Estado e dá aulas na escola Normal. Porém, um dos grandes feitos desse ano vem através da ajuda de seu irmão Odilon, que o ajuda a custear a edição de 1000 exemplares de seu único livro de poemas chamado &#8220;Eu&#8221; no dia 6 de julho deste ano. O livro é recebido, ora com estranheza, ora, com entusiasmo, as crítica variam muito entre os elogios e a repulsa. De acordo com seu amigo Orris Soares &#8220;três fatores fizeram a profunda tristeza de Augusto do Anjos: &#8211; um de carater individualíssimo, outro mesológico e o terceiro espiritual&#8221;.</div>
<div>.</div>
<div>
<div>As bodas com sussurro de Blake em <a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank"><span style="color:#3333ff;">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</span></a></div>
<div></div>
<div>.</div>
<div>A ILHA Do CYPANGO</div>
<div>.</div>
<div></div>
<div></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="color:#000000;">Estou sozinho! A estrada se desdobra<br />
Como uma imensa e rutilante cobra<br />
De epiderme finíssima de areia&#8230;<br />
E por essa finíssima epiderme<br />
Eis-me passeando como um grande verme<br />
Que, ao sol, em plena podridão, passeia!</span></span></div>
<div>
<p>A agonia do sol vai ter começo!<br />
Caio de joelhos, trêmulo&#8230; Ofereço<br />
Preces a Deus de amor e de respeito<br />
E o Ocaso que nas águas se retrata<br />
Nitidamente reproduz, exata,<br />
A saudade interior que há no meu peito&#8230;</p>
<p>Tenho alucinações de toda a sorte&#8230;<br />
Impressionado sem cessar com a Morte<br />
E sentindo o que um lázaro não sente,<br />
Em negras nuanças lúgubres e aziagas<br />
Vejo terribilíssimas adagas,<br />
Atravessando os ares bruscamente.</p>
<p>Os olhos volvo para o céu divino<br />
E observo-me pigmeu e pequenino<br />
Através de minúsculos espelhos.<br />
Assim, quem diante duma cordilheira,<br />
Pára, entre assombros, pela vez primeira,<br />
Sente vontade de cair de joelhos!</p>
<p>Soa o rumor fatídico dos ventos,<br />
Anunciando desmoronamentos<br />
De mil lajedos sobre mil lajedos&#8230;<br />
E ao longe soam trágicos fracassos<br />
De heróis, partindo e fraturando os braços<br />
Nas pontas escarpadas dos rochedos!</p>
<p>Mas de repente, num enleio doce,<br />
Qual se num sonho arrebatado fosse,<br />
Na ilha encantada de Cypango tombo,<br />
Da qual, no meio, em luz perpétua, brilha<br />
A árvore da perpétua maravilha,<br />
À cuja sombra descansou Colombo!</p>
<p>Foi nessa ilha encantada de Cypango,<br />
Verde, afetando a forma de um losango,<br />
Rica, ostentando amplo floral risonho,<br />
Que Toscanelli viu seu sonho extinto<br />
E como sucedeu a Afonso Quinto<br />
Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho!</p>
<p>Lembro-me bem. Nesse maldito dia<br />
O gênio singular da Fantasia<br />
Convidou-me a sorrir para um passeio&#8230;<br />
Iríamos a um país de eternas pazes<br />
Onde em cada deserto há mil oásis<br />
E em cada rocha um cristalino veio.</p>
<p>Gozei numa hora séculos de afagos,<br />
Banhei-me na água de risonhos lagos,<br />
E finalmente me cobri de flores&#8230;<br />
Mas veio o vento que a Desgraça espalha<br />
E cobriu-me com o pano da mortalha,<br />
Que estou cosendo para os meus amores!</p>
<p>Desde então para cá fiquei sombrio!<br />
Um penetrante e corrosivo frio<br />
Anestesiou-me a sensibilidade<br />
E as grandes golpes arrancou as raízes<br />
Que prendiam meus dias infelizes<br />
A um sonho antigo de felicidade!</p>
<p>Invoco os Deuses salvadores do erro.<br />
A tarde morre. Passa o seu enterro!&#8230;<br />
A luz descreve ziguezagues tortos<br />
Enviando à terra os derradeiros beijos.<br />
Pela estrada feral dois realejos<br />
Estão chorando meus amores mortos!</p>
<p>E a treva ocupa toda a estrada longa&#8230;<br />
O Firmamento é uma caverna oblonga<br />
Em cujo fundo a Via-láctea existe.<br />
E como agora a lua cheia brilha!<br />
Ilha maldita vinte vezes a ilha<br />
Que para todo o sempre me fez triste!</p>
</div>
<div><span style="color:#000000;"><br />
</span></div>
<div><span style="color:#000000;"><br />
</span></div>
<div><span style="color:#000000;"><br />
</span></div>
<div><span style="color:#000000;"><br />
</span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="color:#000000;">Ainda vivendo de pensão em pensão, Augusto pede emprego público aos políticos da Paraíba radicados no Rio de Janeiro. No dia 2 de junho de 1913, nasce seu segundo filho Guilherme Augusto. A péssima situação financeira não permite que Augusto vá com a sua mulher e filha visitar sua mãe na Paraíba. Nesta ocasião Augusto escreve: &#8220;minhas ocupações de professor, aliás, mal remuneradas, não me permitem folgas refociladoras dessa natureza&#8221;. Augusto continuam a lecionar em diversos lugares, dando inclusive, aulas particulares para obter mais rendimentos.</span></span></div>
<div></div>
<div>
<div>.</div>
<div>Oswald de Andrade aqui <a href="http://cartilhadepoesia.wordpress.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://cartilhadepoesia.wordpress.com</a></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">MATER</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Como a crisálida emergindo do ovo<br />
Para que o campo flórido a concentre,<br />
Assim, oh! Mãe, sujo de sangue, um novo<br />
Ser, entre dores, te emergiu do ventre!</span></span>E puseste-lhe, haurindo amplo deleite,<br />
No lábio róseo a grande teta farta<br />
— Fecunda fonte desse mesmo leite —<br />
Que amamentou os éfebos de Sparta. —</p>
<p>Com que avidez ele essa fonte suga!<br />
Ninguém mais com a Beleza está de acordo,<br />
Do que essa pequenina sanguessuga,<br />
Bebendo a vida no teu seio gordo!</p>
<p>Pois, quanto a mim, sem pretensões, comparo,<br />
Essas humanas cousas pequeninas<br />
A um <em>biscuit</em> de quilate muito raro<br />
Exposto aí, à amostra, nas vitrinas.</p>
<p>Mas o ramo fragílimo e venusto<br />
Que hoje nas débeis gêmulas se esboça,<br />
Há de crescer há de tornar-se arbusto<br />
E álamo altivo de ramagem grossa.</p>
<p>Clara, a atmosfera se encherá de aromas,<br />
O Sol virá das épocas sadias&#8230;<br />
E o antigo leão, que te esgotou as pomas,<br />
Há de beijar-te as mãos todos os dias!</p>
<p>Quando chegar depois tua velhice<br />
Batida pelos bárbaros invernos!<br />
Relembrarás chorando o que eu te disse,<br />
A sombra dos sicômoros eternos!</p>
</div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">O livro &#8220;Eu&#8221; era considerado estranho. Havia uma excentricidade temática, falava muito da morte, o tratamento da linguagem era cheio de vocábulos e expressões científicas e filosóficas. O léxico era difícil, com rimas ricas, muitas vezes causando espanto. Augusto bebeu muito em Herbert Spencer, Ernst Haeckel e muito Schopenhauer. A Bíblia também foi absorvida por Augusto e, de acordo com alguns exegetas, &#8220;a utilização da Bíblia potencializou seu contraponto às ideias iluministas/materialistas que havia em sua época&#8221;. Vale conferir.</span></span></div>
<div></div>
<div>
<div></div>
<div></div>
<div><a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div></div>
<div></div>
<div></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">O MEU NIRVANA</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">No alheamento da obscura forma humana,<br />
De que, pensando, me desencarcero,<br />
Foi que eu, num grito de emoção, sincero<br />
Encontrei, afinal, o meu Nirvana!</span></span>Nessa manumissão schopenhauereana,<br />
Onde a Vida do humano aspecto fero<br />
Se desarraiga, eu, feito força, impero<br />
Na imanência da Ideia Soberana!</p>
<p>Destruída a sensação que oriunda fora<br />
Do tacto — ínfima antena aferidora<br />
Destas tegumentárias mãos plebeias —</p>
<p>Gozo o prazer, que os anos não carcomem,<br />
De haver trocado a minha forma de homem<br />
Pela imortalidade das Ideias!</p>
</div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Parênteses: Por volta do início do século XX, havia no Recife uma espécie de &#8220;evolução&#8221; no pensamento brasileiro, por ação, sobretudo, de Tobias Barreto. Matins Junior, pelo que consta, foi dos primeiros, senão o primeiro, a introduzir a poesia científica, que não teve seguidores. Esse era o ambiente em que Augusto sorvia. Aprendeu muito com um professor que teve chamado Laurindo Leão, que era um devoto do fenomenismo gnóstico. Augusto passava por tudo isso calado. Emancipou-se intelectualmente da educação católica, de acordo com Horácio de Almeida, influenciado pelos evolucionistas e naturalistas século.</span></span></p>
<div><a href="http://pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div>GUERRA</div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div>
<h4><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Guerra é esforço, é inquietude, é ânsia, é transporte&#8230;</span></h4>
<h4><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">E a dramatização sangrenta e dura</span></h4>
<h4><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Vir Deus num simples grão de argila errante,</span></h4>
<h4><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Da avidez com que o Espírito procura</span></h4>
<h4><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"> </span></h4>
<h4>É a Subconsciência que se transfigura</h4>
<h4><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Em volição conflagradora&#8230; E a coorte</span></h4>
<h4><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Das raças todas, que se entrega à morte</span></h4>
<h4><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Para a felicidade da Criatura!</span></h4>
<h4><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"> </span></h4>
<h4><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">É a obsessão de ver sangue, é o instinto horrendo</span></h4>
<h4><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">De subir, na ordem cósmica, descendo</span></h4>
<h4><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">A irracionalidade primitiva&#8230;</span></h4>
<h4><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"> </span></h4>
<h4>É a Natureza que, no seu arcano,</h4>
<h4><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Precisa de encharcar-se em sangue humano</span></h4>
<h4><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Para mostrar aos homens que está viva!</span></h4>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Outro parênteses: Augusto não era muito de falar. Ficava quase sempre calado na rodas que se faziam na Paraíba. Inclusive, uma amigo que veio a morar com ele numa pensão na Paraíba, veio a conhecê-lo bem só depois que se formou. Pelos 17 anos escreveu Monólogos da Sombra. Um intelectual chamado Flósculo da Nóbrega, da Academia Paraibana de Letras, quando o encontrou, o achou excessivamente intelectualizado, com o pensamento frio, mas, como já dissemos, seu núcleo emocional, a fonte propriamente dita, se encontrava ainda na memória do Engenho do Pau D&#8217;Arco. Mais semana que vem.</span></span></p>
<div><a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">HINO À DOR</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div>
<h4><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Dor, saúde dos seres que se fanam,</span></h4>
<h4><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Riqueza da alma, psíquico tesouro,</span></h4>
<h4><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Alegria das glândulas do choro</span></h4>
<h4><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">De onde todas as lágrimas emanam..</span></h4>
<h4><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"> </span></h4>
<h4>És suprema!  Os meus átomos se ufanam</h4>
<h4><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">De pertencer-te, oh!  Dor, ancoradouro</span></h4>
<h4><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Dos desgraçados, sol do cérebro, ouro</span></h4>
<h4><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">De que as próprias desgraças se engalanam!</span></h4>
<h4><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"> </span></h4>
<h4>Sou teu amante!  Ardo em teu corpo abstrato.</h4>
<h4><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Com os corpúsculos mágicos do tacto</span></h4>
<h4><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Prendo a orquestra de chamas que executas&#8230;</span></h4>
<h4><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"> </span></h4>
<h4>E, assim, sem convulsão que me alvorece,</h4>
<h4><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Minha maior ventura é estar de posse</span></h4>
<h4><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">De tuas claridades absolutas!</span></h4>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Após alguns meses em busca de um lugar para morar, Augusto e sua família encontram uma casa em Leopoldina. Ali seria então o lugar definitivo, a base. Publica &#8220;O lamento das coisa&#8221; na Gazeta Leopoldina que é dirigida por seu cunhado, Rômulo Pacheco e também é nomeado diretor do Grupo Escolar de Leopoldina. A vida anunciava tempos calmos na vida do poeta, porém, já há alguns meses que Augusto sofria com uma espécie de tuberculose ou pneuomonia. </span></span></p>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Metendo o malho no Maiacovski em </span><a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</span></a></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"> DANÇA DA PSIQUE</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">A dança dos encéfalos acesos<br />
Começa. A carne é fogo. A alma arde. A espaços<br />
As cabeças, as mãos, os pés e os braços<br />
Tombara, cedendo à ação de ignotos pesos!</span></span>É então que a vaga dos instintos presos<br />
— Mãe de esterilidades e cansaços —<br />
Atira os pensamentos mais devassos<br />
Contra os ossos cranianos indefesos.</p>
<p>Subitamente a cerebral coréa<br />
Pára. O cosmos sintético da Idéa<br />
Surge. Emoções extraordinárias sinto&#8230;</p>
<p>Arranco do meu crânio as nebulosas.<br />
E acho um feixe de forças prodigiosas<br />
Sustentando dois monstros: a alma e o instinto!</p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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</div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Após alguns meses doente, mais precisamente, desde o dia 30 de outubro, o poeta Augusto dos Anjos morre, às quatro horas da manhã, do dia 12 de novembro de 1914, aos 30 anos de idade, em Leopoldina, oficialmente de pneumonia. Em carta à Sinha Mocinha, Ester, sua mulher, lamenta: &#8220;<span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">O mês de outubro já corria em meados quando Augusto dos Anjos adoeceu. O Dr. Custódio Junqueira lhe fez uso de alguns remédios, que não fizeram ceder o mal estar. No dia 29, Augusto caiu na cama com muita febre, frio e dor de cabeça. O Dr. Custódio foi novamente chamado. A base do pulmão direito está congestionada, disse, depois que o examinou [...] </span><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">A doença abateu o seu corpo franzino, não conseguindo, entretanto, abater-lhe o espírito que se conservou lúcido até 20 minutos antes de expirar&#8230; Ele me chamou, despediu-se de mim, dizendo-me: Mande as minhas lágrimas para a minha mãe; mande lembranças para os meus amigos do Rio; trate bem as criancinhas Glória e Guilherme; dê lembranças às meninas do grupo&#8230; Recomendou-me que guardasse com cuidado todos os seus versos&#8230;&#8221;</span></span></span></p>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">NOLI ME TANGERE</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">A exaltação emocional do Gozo,<br />
O Amor, a Glória, a Ciência, a Arte e a Beleza<br />
Servem de combustíveis à ira acesa<br />
Das tempestades do meu ser nervoso!</span></span>Eu sou, por conseqüência um ser monstruoso!<br />
Em minha arca encefálica indefesa<br />
Choram as forças más da Natureza<br />
Sem possibilidades de repouso!</p>
<p>Agregados anômalos malditos<br />
Despedaçam-se, mordem-se, dão gritos<br />
Nas minhas camas cerebrais funéreas&#8230;</p>
<p>Ai! Não toqueis em minhas faces verdes,<br />
Sob pena, homens felizes, de sofrerdes<br />
A sensação de todas as misérias!</p>
</div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Assim que morreu o poeta, um amigo, alguém que o conhecia e admirava seus versos, foi se lamentar com o Olavo Bilac, que não o conhecia. Pediu para ver alguns versos e, logo após lê-los, disse: &#8220;Não lamente, a poesia brasileira não perdeu grande coisa!&#8221;. Porém, algo de inesperado aconteceria. Edições de &#8220;Eu&#8221; foram sendo republicadas e Augusto, não só foi passou a ser lido, como popularizado, sendo recitado, inclusive, em rodas de rua e feiras populares. Mais precisamente a partir de 1920, com introdução do amigo Orris Soares.</span></span></p>
<div><a href="http://pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">MINHA ÁRVORE</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;">Olha: E um triângulo estéril de ínvia estrada!<br />
Como que a erva tem dor&#8230; Roem-na amarguras<br />
Talvez humanas, e entre rochas duras<br />
Mostra ao Cosmos a face degradada!</span></span></div>
<div></div>
<div></div>
<div></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;">Entre os pedrouços maus dessa morada<br />
É que, às apalpadelas e às escuras,<br />
Hão de encontrar as gerações futuras<br />
Só, minha árvore humana desfolhada!</span></span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;">Mulher nenhuma afagará meu tronco!<br />
Eu não me abalarei, nem mesmo ao ronco<br />
Do. furacão que, rábido, remoinha&#8230;</span></span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;">Folhas e frutos, sobre a terra ardente<br />
Hão de encher outras árvores! Somente<br />
Minha desgraça há de ficar sozinha!</span></span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;"><br />
</span></span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;"><br />
</span></span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;"><br />
</span></span></div>
</div>
</div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Em 1928, a terceira edição do livro &#8220;Eu&#8221; é lançada no Rio de Janeiro pela Livraria Castilho, com imensa repercussão e sucesso de público e crítica. Augusto dos Anjos é, enfim, reconhecido como grande poeta. Nas palavras de Horácio de Almeida: &#8220;<span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio. Só muito raramente soltava uma blasfêmia. Por outro lado, não se pode dizer fosse ele um materialista ético. De inflexões mentais sua obra anda cheia. E como era sincero e honesto, virtudes que cultivava com extremado zelo, nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência.&#8221;</span></span></span></p>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">À MESA</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Cedo à sofreguidão do estômago. É a hora<br />
De comer. Coisa hedionda! Corro. E agora,<br />
Antegozando a ensangüentada presa,<br />
Rodeado pelas moscas repugnantes,<br />
Para comer meus próprios semelhantes<br />
Eis-me sentado à mesa!</span></span>Como porções de carne morta &#8230; Ai! Como<br />
Os que, como eu, têm carne, com este assomo<br />
Que a espécie humana em comer carne tem! &#8230;<br />
Como! E pois que a Razão me não reprime,<br />
Possa a terra vingar-se do meu crime<br />
Comendo-me também.</p>
</div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Como não poderia deixar de ser, terminamos este augusto mês de agosto com a descrição de Paulo Soares sobre morte do poeta: &#8220;<span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">A notícia do falecimento de Augusto dos Anjos logo corre porta a fora, levada não pela dor da mãe desconsolada, mas pela empregada da casa, Dona Ermíria que, ao perceber as lágrimas que longe estão de se conterem em sua fonte, pergunta à patroa enigmática o motivo de tanto desperdício de humor. Ao saber do acontecido, corre a mulher pela calçada a gritar aos que passam: morreu o magro, morreu Augusto, não sei se de tuberculose ou de susto&#8221;. Assim terminamos mais uma antologia, na semana que vem, outros poemas, outras proposições e mais deflagrações. Evoé!</span></span></span></p>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><a href="http://cartilhadepoesia.wordpress.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://cartilhadepoesia.wordpress.com</a></span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">REVELAÇÃO I &amp; II</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">I</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Escafandrista de insondado oceano<br />
Sou eu que, aliando Buda ao sibarita,<br />
Penetro a essência plásmica infinita,<br />
- Mãe promíscua do amor e do ódio insano!</span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Sou eu que, hirto, auscultando o absconso arcano,<br />
Por um poder de acústica esquisita,<br />
Ouço o universo ansioso que se agita<br />
Dentro de cada pensamento humano!</span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">No abstrato abismo equóreo, em que me inundo,<br />
Sou eu que, revolvendo o ego profundo<br />
E a escuridão dos cérebros medonhos,</span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Restituo triunfalmente à esfera calma<br />
Todos os cosmos que circulam na alma<br />
Sob a forma embriológica de sonhos!</span></span></div>
<h3><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">II</span></span></h3>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Treva e fulguração; sânie e perfume;<br />
Massa palpável e éter; desconforto<br />
E ataraxia; feto vivo e aborto&#8230;<br />
- Tudo a unidade do meu ser resume!</span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Sou eu que, ateando da alma o ocíduo lume,<br />
Apreendo, em cisma abismadora absorto,<br />
A potencialidade do que é morto<br />
E a eficácia prolífica do estrume!</span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Ah! Sou eu que, transpondo a escarpa angusta<br />
Dos limites orgânicos estreitos,<br />
Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia,</span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Sinto bater na putrescível crusta<br />
Do tegumento que me cobre os peitos<br />
Toda a imortalidade da Substância!</span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></span></div>
</div>
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<br />Filed under: <a href='http://cartilhadepoesia.wordpress.com/category/todos-os-poetas-aqui/'>TODOS OS POETAS AQUI</a> Tagged: <a href='http://cartilhadepoesia.wordpress.com/tag/augusto-dos-anjos/'>Augusto dos Anjos</a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/cartilhadepoesia.wordpress.com/115/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/cartilhadepoesia.wordpress.com/115/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/cartilhadepoesia.wordpress.com/115/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/cartilhadepoesia.wordpress.com/115/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/cartilhadepoesia.wordpress.com/115/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/cartilhadepoesia.wordpress.com/115/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/cartilhadepoesia.wordpress.com/115/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/cartilhadepoesia.wordpress.com/115/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/cartilhadepoesia.wordpress.com/115/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/cartilhadepoesia.wordpress.com/115/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/cartilhadepoesia.wordpress.com/115/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/cartilhadepoesia.wordpress.com/115/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/cartilhadepoesia.wordpress.com/115/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/cartilhadepoesia.wordpress.com/115/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=115&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>Oswald de Andrade</title>
		<link>http://cartilhadepoesia.wordpress.com/2011/08/21/oswald-de-andrade/</link>
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		<pubDate>Sun, 21 Aug 2011 16:11:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cartilhadepoesia</dc:creator>
				<category><![CDATA[TODOS OS POETAS AQUI]]></category>
		<category><![CDATA[Oswald de Andrade]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160; José Oswald de Andrade nasceu no dia 11 de janeiro de 1890 em São Paulo. Filho de José Oswald Nogueira de Andrade e Inês Henriqueta de Souza Andrade. A família de sua mãe descende de uma das famílias fundadoras do Estado do Pará, estabelecida no porto de Óbidos. Também é sobrinho do jurista e [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=109&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
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<div></div>
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<p>José Oswald de Andrade nasceu no dia 11 de janeiro de 1890 em São Paulo. Filho de José Oswald Nogueira de Andrade e Inês Henriqueta de Souza Andrade. A família de sua mãe descende de uma das famílias fundadoras do Estado do Pará, estabelecida no porto de Óbidos. Também é sobrinho do jurista e escritor Herculano Marques Inglês de Souza. Já a sua família paterna descende de uma família de fazendeiros mineiros de Baependi. O jovem Oswald passa sua infâcia na segurança de uma casa confortável na rua Barão de Itapetiniga, em São Paulo. Neste mês vamos poesia adentro desta grande figura da nossa cultura. Vamos de Oswald de Andrade. Evoé!</p>
<p>Naquela mesa do canto na parte de cima http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>BRINQUEDO</p>
<p>Roda roda São Paulo<br />
Mando tiro tiro lá</p>
<p>Da minha janela eu avistava<br />
Uma cidade pequena<br />
Pouca gente passava<br />
Nas ruas. Era uma pena</p>
<p>Desceram das montanhas<br />
Carochinhas e pastoras<br />
Por dormir em meus olhos<br />
Me levaram pra abrolhos</p>
<p>Os bondes da Light bateram<br />
Telefones na ciranda<br />
Os automóveis correram<br />
Em redor da varanda</p>
<p>Roda roda São Paulo<br />
Mando tiro tiro lá</p>
<p>Brinquedos de comadre<br />
Começaram pela vida<br />
Pela vida começaram<br />
Comadres e mexericos</p>
<p>Roda roda São Paulo<br />
Mando tiro tiro lá</p>
<p>Depois entrou no brinquedo<br />
Um menino grandão<br />
Foi o primeiro arranha-céu<br />
Que rodou no meu céu</p>
<p>Do quintal eu avistei<br />
Casas torres e pontes<br />
Rodaram como gigantes<br />
Até que enfim parei</p>
<p>Roda roda São Paulo<br />
Mando tiro tiro lá<br />
Hoje a roda cresceu<br />
Até que bateu no céu<br />
É gente grande que roda<br />
Mando tiro tiro lá</p>
<p>O menino Oswald inicia seus estudos em 1900 com professores particulares, porém, depois, ingressa no ensino público matriculando-se na Escola Modelo Caetano de Campos. Em 1902, cursa o Ginásio Nossa Senhora do Carmos, agora, já com doze anos. Os relatos de sua infância abrangem &#8220;ruas pacatas&#8221; e &#8220;brincadeiras&#8221;, pontos até então, normais, para um menino de São Paulo no início do século. Já em 1905, aos 15 anos, vai para o Colégio São Bento, e recebe um tradicional ensino religioso. Lá conhece Guilherme de Almeida e se torna seu amigo, e também conhece o poeta Ricardo Gonçalves.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>MEUS SETE ANOS</p>
<p>Papai vinha tarde<br />
Da faina de labutar<br />
Eu esperava na calçada<br />
Papai era gerente<br />
D Banco Popular<br />
Eu aprendia com ele<br />
Os nomes dos negócios<br />
Juros hipotecas<br />
Prazo amortização<br />
Papai era gerente<br />
Do Banco Popular<br />
Mas descontava cheques<br />
No guichê do coração</p>
<p>A casa dos Andrade tinha rigorosa formação católica. Dona Inês, fazia com que o pequeno Oswald se vestisse de anjo nas pequenas procissões que seguiam pela Barão de Itapetininga. O menino es tornou superticioso na infância, batia na madeira três vezes para espantar maus pensamentos, passava vinho na orelha e entrava em casa sempre com o pé direito. Ficou conhecido na família como &#8220;Oswaldinho&#8221;. Sua mãe sempre enfatizou a pronúncia correta de seu nome, &#8220;Osváld&#8221; e não &#8220;ôsvald&#8221; como até hoje muitos o chamam. Inclusive, o crítico Antônio Cândido escreveu um artigo sobre a pronúncia correta do nome de Oswald. A entrada de Oswald no Colégio Nossa Senhora do Carmo se dá por causa de uma frase que Oswald desfere no antigo colégio, &#8220;Deus é Natureza&#8221;, para o pânico de sua mãe devota de São José.</p>
<p>http://cartilhadepoesia.wordpress.com</p>
<p>MEUS OITO ANOS</p>
<p>Oh que saudades eu tenho<br />
Da aurora de minha vida<br />
Das horas<br />
De minha infância<br />
Que os anos não trazem mais<br />
Naquele quintal de terra<br />
Da Rua de Santo Antônio<br />
Debaixo da bananeira<br />
Sem nenhum laranjais</p>
<p>Eu tinha doces visões<br />
Da cocaína da infância<br />
Nos banhos de astro-rei<br />
Do quintal de minha ânsia<br />
A cidade progredia<br />
Em roda de minha casa<br />
Que os anos não trazem mais<br />
Debaixo da bananeira<br />
Sem nenhum laranjais</p>
<p>Em 1908, Oswald conclui o Colégio São Bento, nesta época, por causa de um professor chamado Gervásio Araújo, que o apresenta a Victor Hugo, através dos Miseráveis e também lê Carlos Magno, Julio Verne, Castro Alves e alguns outros. O pequeno Oswald confessa que gosta da poesia do poeta baiano, mas não entende. Olavo Bilac e Lima Barreto são leituras essenciais desta época, assim como Coelho Neto, ou seja, todos os cânones. Nesta época, também conhece Monteiro Lobato e Ricardo Gonçalves. Se envereda também em Dostoiévski, Shakespeare e Eugênio de Castro. Muitas leituras para o jovem promissor e aluno irregular.</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>HISTÓRIA DA PÁTRIA</p>
<p>Lá vai uma barquinha carregada de<br />
                                               Aventureiros<br />
Lá vai uma barquinha carregada de<br />
                                               Bacharéis<br />
Lá vai uma barquinha carregada de<br />
                                              Cruzes de Cristo<br />
Lá vai uma barquinha carregada de<br />
                                              Donatários<br />
Lá vai uma barquinha carregada de<br />
                                              Espanhóis</p>
<p>                                              Paga prenda<br />
                                              Prenda os espanhóis!<br />
Lá vai uma barquinha carregada de<br />
                                             Flibusteiros<br />
Lá vai uma barquinha carregada de<br />
                                             Governadores<br />
Lá vai uma barquinha carregada de<br />
                                            Holandeses</p>
<p>Lá vem uma barquinha cheinha de índios<br />
Outra de degradados<br />
Outra de pau de tinta</p>
<p>Até que o mar inteiro<br />
Se coalhou de transatlânticos<br />
E as barquinhas ficaram<br />
Jogando prenda coa raça misturada<br />
No litoral azul de meu Brasil.</p>
<p>Em 1908, Oswald termina o ginásio no Colégio São Bento e toma a &#8220;vacina obrigatória&#8221;. Incentivados pelos amigos e pela família, um ano depois, ingressa na Faculdade de Direito. De cara, se impressiona com a violência do trote. Nesta época, Oswald se interessa pelo jornalismo e já entra no Diário Popular como repórter e redator. Emprego este que conseguiu atravá da influência do pai, seu salário é de sessenta mil réis.  Assina algumas matérias e críticas de cinema e teatro. Fica muito amigo do ator Giovanni Grasso, inclusive o acompanha no Rio e em São Paulo e namora algumas atrizes do grupo. Oswald passa a vivenciar intensamente a cena teatral paulista.</p>
<p>http://cartilhadepoesia.wordpress.com</p>
<p>A DESCOBERTA</p>
<p>Seguimos nosso caminho por este mar de longo<br />
Até a oitava da Páscoa<br />
Topamos aves<br />
E houvemos vista de terra<br />
os selvagens<br />
Mostraram-lhes uma galinha<br />
Quase haviam medo dela<br />
E não queriam por a mão<br />
E depois a tomaram como espantados<br />
primeiro chá<br />
Depois de dançarem<br />
Diogo Dias<br />
Fez o salto real<br />
as meninas da gare<br />
Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis<br />
Com cabelos mui pretos pelas espáduas<br />
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas<br />
Que de nós as muito bem olharmos<br />
Não tínhamos nenhuma vergonha.</p>
<p>Oswald escrevia para o Diário sob o pseudônimo de Joswald. Neste mesmo ano de 1910, torna-se amigo de Washington Luís, membro da comitiva nacional e futuro presidente. Também monta um ateliê de pintura com Osvaldo Pinheiro. Em 1911, faz viagens constantes para o Rio de Janeiro onde participa da vida boêmia dos escritores. Se torna amigo de Emílio de Menezes, e lança com Voltolino, Dolor Brito Franco e Antônio Define, o semanário O Pirralho, usando o pseudônimo de Annibale Scipione. No fim do ano, interrompe a faculdade de Direito e arrenda a revista a Paulo Setúbal e Babi de Andrade para fazer sua primeira viagem à Europa.</p>
<p>Triiin Thanos em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>BALADA DO ESPLANADA</p>
<p>Ontem à noite<br />
Eu procurei<br />
Ver se aprendia<br />
Como é que se fazia<br />
Uma balada<br />
Antes d&#8217;ir<br />
Pro meu hotel</p>
<p>É que este<br />
Coração<br />
Já se cansou<br />
De viver só<br />
E quer então<br />
Morar contigo<br />
No Esplanada</p>
<p>Eu qu&#8217;iria<br />
Poder<br />
Encher<br />
Este papel<br />
De versos lindos<br />
É tão distinto<br />
Ser menestrel</p>
<p>No futuro<br />
As gerações<br />
Que passariam<br />
Diriam<br />
É o hotel<br />
Do menestrel</p>
<p>Pra m&#8217;inspirar<br />
Abro a janela<br />
Como um jornal<br />
Vou fazer<br />
A balada<br />
Do Esplanada<br />
E ficar sendo<br />
O menestrel<br />
De meu hotel</p>
<p>Mas não há poesia<br />
Num hotel<br />
Mesmo sendo<br />
&#8216;Splanada<br />
Ou Grand-Hotel</p>
<p>Há poesia<br />
Na dor<br />
Na flor<br />
No beija-flor<br />
No elevador</p>
<p>               Oferta</p>
<p>Quem sabe<br />
Se algum dia<br />
Traria<br />
O elevador<br />
Até aqui<br />
O teu amor</p>
<p>Em 1921, aos 22 anos, a bordo do navio Martha Washington, Oswald se entusiasma com Carmen Lydia, nome artístico para Landa Kosbach, de treze anos, que viaja para estudar balé em Milão. Oswald conhece a Itália, a Alemanha, a Bélgica, a Inglaterra, a Espanha e a França. Trabalha como correspondente matutino do Correio da Manhã. Em Paris, conhece aquela que viria a ser sua primeira mulher, Henriette Denise Boufflers (Kamiá), com quem retorna ao Brasil. Oswald não consegue rever a mãe, falecida no dia 6 de setembro, nesta época, realiza sua primeira experiência poética ao escrever &#8220;O último passeio de um tuberculoso, pela cidade, de bonde&#8221;, porém, rasga-o em seguida. No ano seguinte, frequenta as reuniões artísticas da Villa kyrial, no palacete do senador Freitas Valle. Lá conhece o pintor Lasar Segall. Enfim escreve o romance A recusa.</p>
<p>Tradução de Baudelaire em http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>HINA NACIONAL DO PATY DO ALFERES</p>
<p>Eu quero fazer um poema<br />
Rachado e sentimental<br />
Como as bandas de música<br />
De meu país natal</p>
<p>Eu quero fazer um poema<br />
De todo o amor que sinto<br />
Pelas palmas e bandeiras<br />
Do meu país musical</p>
<p>Eu quero fazer um poema<br />
De flores de papel<br />
Laranja azul encarnado<br />
Branco e verdeamarel</p>
<p>Ah! Meu Brasil! Meu Brasil!<br />
Eu já morei foragido<br />
Numa casa rota<br />
Que dava para o mar<br />
Já morei no Normandy de Deauville<br />
E num navio de guerra<br />
E nas ruas e nos portos Das terras imaginárias</p>
<p>Mas quando tu reapareces<br />
Sob o hemisfério estrelado<br />
Esperando a presidência do Dr. Washington Luís<br />
Ó Brasil<br />
Meu coração feito de pedaços<br />
Se unifica<br />
A independência das lágrimas</p>
<p>Fico eleitor<br />
Cidadão vacinado<br />
Solto foguetes<br />
Faço dobrados</p>
<p>Foi assim que eu vim parar<br />
Nas paragens<br />
do Paty do Alferes<br />
E conheci a charanga do Arcozelo<br />
Toda cáqui e preta</p>
<p>Vocês não ouviram<br />
A charanga da fazenda do Arcozelo</p>
<p>É generosa e metálica<br />
A casa é cercada de velhas senzalas<br />
Transfiguradas pela picareta do Progresso<br />
A mão dura de Geraldo<br />
Transformou a terra desabandonada<br />
Numa pátria organizada de gado<br />
E valorizou até as estrelas<br />
Que dividem o céu em sindicatos<br />
Para ouvir os ensaios<br />
Da banda do Arcozelo</p>
<p>Arquitetos de minha terra<br />
Vinde aprender arquitetura<br />
No Paty do Alferes<br />
Donas de casa<br />
Que servis tolamente à francesa<br />
Vinde provar<br />
A mesa saborosa<br />
Do Arcozelo<br />
Bebedores<br />
Vinde gozar a pinga do Paraíso</p>
<p>Como a gente levanta cedo nas fazendas<br />
Antes das primeiras pinceladas<br />
Da pintora Aurora<br />
Vamos dormir<br />
Para sair amanhã<br />
Todos vestidos de cow-boy<br />
E dobrar as quebradas da serra<br />
E deixar o sangue dos pássaros<br />
E das cobras<br />
Nos caminhos</p>
<p>Meu quarto tem três portas<br />
Que dão para outros quartos<br />
Onde ficam as portas<br />
Dos quartos das assombrações</p>
<p>As estrelas são<br />
A estrela d&#8217;alva<br />
A estrela do Pastor<br />
Vésper<br />
E o Anjo da Guarda de cada um</p>
<p>As assombrações são<br />
A Inspiração e a Saudade<br />
E os falecidos das nossas relações</p>
<p>Para ver tantas maravilhas<br />
O Cruzeiro do Sul<br />
Espetou a cabeça num morro<br />
E mora aqui<br />
Blefando a rotação universal</p>
<p>E tudo isso<br />
É na fazenda do Arcozelo<br />
Bois arados e rosas<br />
Cavalos e motocicletas</p>
<p>Tudo existindo<br />
E tocando a marcha do Progresso<br />
Que aprenderam com a banda<br />
Da fazenda do Arcozelo</p>
<p>Em 1914, nasce José Oswald Antônio de Andrade, Nonê, filho de Oswald com a francesa Kamiá. Um ano depois, publica, na seção, &#8216;Lanterna mágica&#8217; de O Pirralho, o artigo, &#8220;Em prol de uma pintura nacional&#8221;. Nesta época, junto com os colegas da redação, Guilherme de Almeida, Amadeu Amaral, Júlio de Mesquita, Vicente Rao e Pedro Rodrigues de Almeida, cultiva uma vida social intensa. Vai constantemente para o Rio de Janeiro onde participa da boêmia ao lado de Emílio de Menezes, Olegário Mariano, João do Rio e Elói Pontes. Participa de um almoço em homenagem a Olavo Bilac, que visita São Paulo para estimular a campanha cívica. Torna-se membro da Sociedade Brasileira dos Homens de Letras, fundada pelo mesmo Bilac. Nesta época, mantém forte relação com a jovem Carmen Lydia, a quem introduz no meio artístico e financia os estudos.</p>
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<p>BRASIL</p>
<p>O Zé Pereira chegou de caravela<br />
E preguntou pro guarani da mata virgem<br />
- Sois cristão?<br />
- Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte<br />
Teterê tetê Quizá Quizá Quecê!<br />
Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu!<br />
O negro zonzo saído da fornalha<br />
Tomou a palavra e respondeu<br />
- Sim pela graça de Deus<br />
Canhem Babá Canhem Babá Cum Cum!<br />
E fizeram o Carnaval</p>
<p>Em 1917, inspirado pelo envolvimento amoroso com Carmen Lydia, Oswald escreve, em parceria com Guilherme de Almeida, a peça Mon Coeur Balance. Também em francês, assina com Guilherme de Almeida a peça Leuur âme. Em dezembro deste ano, a atriz francesa Suzanne Desprès e Lugné Poe fazem uma leitura dramatizada de um ato de Leur âme no Teatro Municipal de São Paulo. Oswald volta a frequentar a faculdade de Direito e trabalha como redator de O Jornal. Em uma de suas viagens ao Rio, Oswald conhece Isadora Duncan. Assina com o próprio nome os trechos do futuro romance Memórias sentimentais de João Miramar, publicados na revista A Cigarra e começa a escrever o drama O filho do sonho. </p>
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<p>SOLIDÃO</p>
<p>Chove chuva choverando<br />
Que a cidade de meu bem<br />
Está-se toda se lavando</p>
<p>Senhor<br />
Que eu não fique nunca<br />
Como esse velho inglês<br />
Aí do lado<br />
Que dorme numa cadeira<br />
À espera de visitas que não vêm</p>
<p>Chove chuva choverando<br />
Que o jardim de meu bem<br />
Está-se todo se enfeitando</p>
<p>A chuva cai<br />
Cai de bruços<br />
A magnólia abre o para-chuva<br />
Para-sol da cidade<br />
De Mário de Andrade<br />
A chuva cai<br />
Escorre das goteiras do domingo</p>
<p>Chove chuva choverando<br />
Que a casa de meu bem<br />
Está-se toda se molhando</p>
<p>Anoitece sobre os jardins<br />
Jardim da Luz<br />
Jardim da Praça da República<br />
Jardins das platibandas</p>
<p>Noite<br />
Noite de hotel<br />
Chove chuva choverando</p>
<p>Em 1917, Oswald conhece Mário de Andrade e o pintor Di Cavalcanti. As ideias se juntaram, encontraram um no outro uma razão para continuar, algo que começaria ali, assim, os três, mais Guilherme de Almeida e Ribeiro Couto formaram o primeiro grupo modernista. Nesta época também, Oswald aluga uma garçonnière na rua Líbero Badaró 16, onde, faz reuniões intelectuais e, obviamente, amorosas. O grupo modernista se reune lá. Um ano depois, publica no Jornal do Commercio o artigo &#8220;A exposição de Anita Malfatti&#8221; defendendo as tendências expressionistas em resposta a crítica &#8220;Paranoia ou mistificação&#8221; de Monteiro Lobato. Ainda sobre a garçonière, Oswald começa a escrever um diário sobre as reuniões com o título de &#8220;O perfeito cozinheiro das almas deste mundo&#8221;</p>
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<p>CANÇÃO DA ESPERANÇA DE 15 DE NOVEMBRO DE 1926</p>
<p>O céu e o mar<br />
Atira anil<br />
No meu Brasil</p>
<p>Sobre a cidade<br />
Flutua<br />
A bandeira do Porvir</p>
<p>Cada árvore<br />
De estanho<br />
Plantada<br />
Espera<br />
A passagem<br />
Da carruagem<br />
Do Brasil</p>
<p>O céu e o mar<br />
Atira anil<br />
No meu Brasil</p>
<p>Sobre a cidade<br />
Flutua<br />
A bandeira do Porvir</p>
<p>E o povo<br />
Ansioso<br />
Airoso<br />
Sacode no ar<br />
A palheta<br />
Da Esperança<br />
Vendo o dia<br />
Tropical<br />
Que vai passar<br />
Na carruagem<br />
Dos destinos<br />
Do Brasil</p>
<p>À saída da Câmara<br />
Pela boca ardente<br />
De um estudante<br />
Jorra a esperança<br />
Do grandioso<br />
E desordeiro<br />
Povo Brasileiro</p>
<p>E os dragões impacientes<br />
Nos cavalos impacientes<br />
Esperam impacientes<br />
Que o acadêmico exponha<br />
A dedicação<br />
Da gente brasileira<br />
Pelo seu Presidente</p>
<p>Ao lado<br />
Tendo na mão<br />
Espalmada<br />
Os 14 versos brancos<br />
Duma Vitória-Régia</p>
<p>Destaca-se<br />
A Rainha dos Estudantes<br />
Dos Estados Unidos do Brasil</p>
<p>É uma mocinha<br />
Como a futura mãe-pátria</p>
<p>Lá fora as árvores dragonas sacodem os penachos pesados<br />
Dizendo que sim verde</p>
<p>Os cavalos esperam<br />
Os dragões esperam<br />
O povo esperam<br />
Que passe no anil<br />
Entre filas<br />
Do mar e do céu<br />
O Presidente<br />
Do Brasil</p>
<p>Em fevereiro de 1919, Oswald perde seu pai. Começa a ajudar a normalista Maria de Lourdes Castro Dolzabi, Daisy, com quem tivera intenso caso, a se estabelecer em São Paulo. Publica na revista dos estudantes da Faculdade de Direito, Onze de Agosto, &#8220;Três capítulos&#8221; do romance em confecção Memórias de João Miramar. No dia 15 de agosto, casa-se com Daisy, que estava hospitalizada devido a um aborto mal sucedido. No dia 24 de agosto, Daisy morre, aos dezenove anos e é sepultada no jazigo da família Andrade no Cemitério da Consolação. Conclui o bacharelado em Direito.</p>
<p>Round About Midnight http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>CANÇÃO E CALENDÁRIO</p>
<p>Sol de montanha<br />
Sol esquivo de montanha<br />
Felicidade<br />
Teu nome é<br />
Maria Antonieta d&#8217;Alkmin</p>
<p>No fundo do poço<br />
No cimo do monte<br />
Na ponte quebrada<br />
No rego da fonte<br />
Na ponta de lança<br />
No monte profundo<br />
Nevada<br />
Entre os crimes contra mim<br />
Maria Antonieta d&#8217;Alkmin</p>
<p>Felicidade forjada nas trevas<br />
Entre os crimes contra mim<br />
Sol de montanha<br />
Maria Antonieta d&#8217;Alkmin</p>
<p>Não quero mais as moreninhas de Macedo<br />
Não quero mais as namoradas<br />
Do senhor poeta<br />
Alberto d&#8217;Oliveira<br />
Quero você<br />
Não quero mais<br />
Crucificadas em meus cabelos<br />
Quero você</p>
<p>Não quero mais<br />
A inglesa Elena<br />
Não quero mais<br />
A irmã da Nena<br />
A bela Elena<br />
Anabela<br />
Ana Bolena<br />
Quero você</p>
<p>Toma conta do céu<br />
Toma conta da terra<br />
Toma conta do mar<br />
Toma conta de mim<br />
Maria Antonieta d&#8217;Alkmin</p>
<p>E se ele vier<br />
Defenderei<br />
E se ela vier<br />
Defenderei<br />
E se eles vierem<br />
Defenderei<br />
E se elas vierem todas<br />
Numa guirlanda de flechas<br />
Defenderei<br />
Defenderei<br />
Defenderei</p>
<p>Cais de minha vida<br />
Partida sete vezes<br />
Cais de minha vida quebrada</p>
<p>Nas prisões<br />
Suada nas ruas<br />
Modelada<br />
Na aurora indecisa dos hospitais</p>
<p>Bonaçosa bonança</p>
<p>Em 1920, começa a trabalhar na revista Papel e Tinta. Escreve o editorial da revista com Menotti Del Pichia, a qual teve colaboração de Mário de Andrade, Monteiro Lobato e Guilherme de Almeida entre outros. Nesta época conhece o escultor Victor Brecheret, a quem encondenda um busto de Daisy. Em 21, profere um discurso no banquete oferecido a Menotti Del Pichia por ocasião do lançamento de um livro, no Trianon. No dia seguinte publica um artigo no Correio Paulistano, onde passa a trabalhar. Apresenta no mesmo jornal a poesia de Mário de Andrade sob o título de &#8220;Meu poeta futurista&#8221;, criando polêmica com o próprio Mário, que indaga o termo &#8220;futurista&#8221;. O movimento modernista já existe, e por isso, vai para o Rio de Janeiro com outros escritores em busca novas adesões, se encontra com Ronald de Carvalho, Manuel Bandeira e Sérgio Buarque de Holanda. Logo chegaria a Semana de Arte Moderna.</p>
<p>Drummond em http://cartilhadepoesia.wordpress.com</p>
<p>DOTE</p>
<p>Te ensinarei<br />
O segredo onomatopaico do mundo<br />
Te apresentarei<br />
Thomas Morus<br />
Federico Garcia Lorca<br />
A sombra dos enforcados<br />
O sangue dos fuzilados<br />
Na calçada das cidades inacessíveis<br />
Te mostrarei meus cartões postais<br />
O velho e a criança dos Jardins Públicos<br />
O tutu de dançarina sobre um taxi<br />
Escapados ambos da batalha do Marne<br />
O jacaré andarilho<br />
A amadora de suicídios<br />
A noiva mascarada<br />
A tonta do teatro antigo<br />
A metade da Sulamita<br />
A que o palhaço carregou no carnaval<br />
Enfim, as dezessete luas mecânicas<br />
Que precederam teu uno arrebol</p>
<p>Como consta em todos os registros possíveis, Oswald participa ativamente da Semana de Arte Moderna, realizada de 13 a 17 de fevereiro no Teatro Municipal de São Paulo. Lá, lê fragmentos inéditos de Os Condenados e A estrela de absinto. Integra o grupo modernista da revista recém criada Klaxon. Os condenados é publicado com capa de Anita Malfatti, pela casa editorial de Monteiro Lobato. Faz conferências em banquetes e lançamentos. Nesta época forma o notório &#8220;grupo dos cinco&#8221; com Mário de Andrade, Anita, Tarsila do Amaral e Menotti Del Pichia. No fim do ano de 22, Oswald viaja para Europa em dezembro, está com 32 anos. Um mês depois, ganha na justiça a custódia do filho Nonê, que viaja com ele à Europa e começa a estudar na Suiça. Passeia com Tarsila pela Espanha e Portugal e, a partir de março, se instala em Paris.</p>
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<p>BLACK-OUT</p>
<p>Girafas tripulantes<br />
Em pára-quedas<br />
A mão do jaburu<br />
Roda a mulher que chora<br />
O leão dá trezentos mil rugidos<br />
Por minuto<br />
O tigre não é mais fera<br />
Nem borboletas<br />
Nem açucenas<br />
A carne apenas<br />
Das anêmonas<br />
Na espingarda<br />
Do peixe espada<br />
Transcontinental ictiossauro<br />
Lambe o mar<br />
Voa, revoa<br />
A moça enastra<br />
Enforca, empala<br />
À espera eterna<br />
Do Natal</p>
<p>Neste mesmo ano de 1923, Oswald conhece o poeta francês Blaise Cendrars. Lá, profere uma conferência na Sorbonne, intitulada &#8220;L&#8217;Effort intellectuel du Brèsil contemporain&#8221;. Participa de um banquete oferecido pelo embaixador Souza Dantas, com a presença de Sérgio Milliet, Jules Romains, Giraudoux, Lhote, Léger e Supervielle. Já está para concluir seu João Miramar. De volta ao Brasil, em 24, desta vez, recebe o poeta francês com quem trava um intensa amizade. No dia 18 de março, publica o &#8220;Manifesto da Poesia Pau Brasil&#8221;, na Revista do Brasil. Na companhia de Blaise, Mário de Andrade, Tarsila, Paulo Prado, Goffredo da Silva Telles e René Thiollier, forma a famosa caravana modernista, que excursiona pelas cidades históricas de Minas Gerais, durante a Semana Santa. Memórias sentimentais de João Miramar é publicado, enfim. Também expressa suas divergências em relação a Graça Aranha em artigo no Jornal do Commercio.</p>
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<p>MEA CULPA, LEAR</p>
<p>Na hora do fantasma<br />
Entre corujas<br />
Jocasta soluçou<br />
O palácio de fósforo<br />
Múltiplas janelas<br />
Desmaiou</p>
<p>- Por que calaste os sinos?<br />
Meu filho, filho meu!<br />
- Dei, dei, dei<br />
- Onde puseste os reinos e as vitórias<br />
Que minhas estranha serenidade prometia?<br />
- Era usurpação. Paguei<br />
- Passaste fome?<br />
- Muitas vezes comi as marés de meu cérebro</p>
<p>Em 1925, visita o filho Nonê na Suíça. Volta ao Brasil e à Europa e começa a divulgar o modernismo em entrevistas e conferências. Nesta época, Mário de Andrade escreve o poema &#8216;Tarsivald&#8217; em homenagem ao casal Oswald e Tarsila. Sai o livro de poemas Pau Brasil, com apoio de Blaise Cendrars, pela editora francesa Au Sens Pareil, com ilustrações de Tarsila e prefácio de Paulo Prado. Retorna ao Brasil mais uma vez e publica o artigo &#8220;A poesia Pau Brasil&#8221; no qual responde ao ataque feito por Tristão de Athayde, no mesmo jornal. Anuncia sua candidatura à Academia Brasileira de Letras na cadeira de Alberto Faria, porém, não a regulariza. Oficializa o noivado com Tarsila e viaja para França com ela. Encontra mais uma vez com Nonê e partem todos para uma excursão no Oriente Médio.</p>
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<p>ANTENA</p>
<p>Aqui todos bem<br />
E aí?<br />
Pega o coleóptero pentâmetro<br />
Lamelicórneo<br />
Escarabídeo de negro marfim<br />
Quem foi que te pegou?<br />
Tata! É meu!<br />
O bizantino escaravelho.</p>
<p>Ainda em 1926, Oswald recebe o poeta italiano Marinetti em viagem à America do Sul e casa-se enfim com Tarsila do Amaral. No ano seguinte, publica, a Estrela de absinto, com capa de Vitor Brecheret. Escreve crônicas de ataque a Plínio Salgado e Menotti Del Pichia, que eram Integralistas e rompem com os Modernistas. Recebe menção honrosa da Academia Brasileira de Letras pelo livro A estrela de absinto. Em 28, como presente de aniversário, recebe de Tarsila um quadro ao qual resolvem chamar de Abaporu, que em língua Tupi quer dizer &#8220;aquele que come&#8221;. Também é neste mesmo ano que redige e faz uma leitura do &#8220;Manifesto Antropófago&#8221; na casa de Mário de Andrade e, funda, com Raul Bopp e Antonio Alcântara Machado a Revista de Antropofagia.</p>
<p>Pai e filha em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>A FAMÍLIA DO BURRINHO</p>
<p>- Vamos Joseph fugir<br />
- Para onde Maria ir<br />
Joseph (jocoso) &#8211; shall go to Jundi-aí ai!<br />
- Depressa! Sela o Mangarito<br />
Vamos com o vento Sul<br />
Onde serei cesariada?<br />
- Não presepe<br />
- Tenho medo da vaca<br />
- Não chores darling (terno) Sweepstake de Deus!<br />
Maria &#8211; Caí na ilegalidade<br />
Porque modéstia à parte<br />
Trago uma trindade no ventre<br />
Nesse tempo não havia ainda as irmãs Dione</p>
<p>Algumas palavras de inglês conhecendo<br />
A família sagrada partiu<br />
Sem saudades levar<br />
Para as bandas do mar<br />
Vermelho<br />
Na poeira da madrugada<br />
Cruzou um olival<br />
O escaravelho<br />
- Quantas dracmas serão precisas?<br />
Exclamou o castiço esposo<br />
Para esta viagem em torno da lei do mundo<br />
Estamos no século III ou IV da fundação<br />
De Roma<br />
E só tenho &#8220;argent de poche&#8221;<br />
- Não vá faltar Joseph<br />
- Na verdade Deus ajuda&#8230;<br />
(os ricos)<br />
- Sonhei que os serafins<br />
Estão bordando uma estrela surda<br />
Para Herodes não ver<br />
Quero reis magos<br />
Trenzinho e monjolo<br />
E o retrato de Shirley Temple<br />
Porque o menino vem<br />
Este mundo salvar<br />
O vento distribuía algodão pelos açudes<br />
Joseph espancou o burrinho<br />
E riu<br />
- Belo mundo ele vem salvar!<br />
(Já havia naquele tempo<br />
Pouco leite para os bebês)<br />
- Se faltar numerário<br />
Eu carrego na centena do Mangarito<br />
E dou um viva ao faraó Hitler&#8230;<br />
(Antes que ele faça comigo<br />
O Progrom que fez com Moisés)<br />
- Oportunista! gritou uma nuvem<br />
Joseph fingiu que não ouvia<br />
- A vida é um buraco<br />
Enquanto não vier Maria<br />
A socialização<br />
Dos meios de produção<br />
- Besta! gritou um anjo<br />
São José seguiu pensando<br />
Que os anjos geralmente são reacionários<br />
E as nuvens provocadoras</p>
<p>Em 1929, ano da crise econômica americana, Oswald lança a segunda edição da Revista de Antropofagia, sem a participação dos antigos colaboradores, que passam a criticar a revista. Presta uma homenagem ao palhaço Piolim na quarta feiras de cinzas com o apoio da revista. Ao longo do ano, rompe com os amigos Mário de Andrade, Paulo Prado e Antônio de Alcantara Machado. Com a queda da bolsa, sofre algumas perdas financeiras. Recebe a visita de Le Corbusier, Josephine Baker e Herman Keyerling e mantém uma relação amorosa com Patrícia Galvão, Pagu, com quem escreve o diário &#8220;O romance da época anarquista, ou Livro das horas de Pagu que são minhas &#8211; o romance romântico &#8211; 1929-1931&#8243;. No fim do ano, termina com Tarsila e se junta com Pagu. Casa-se com ela em compromisso verbal em frente al jazigo da família Andrade no cemitério da Consolação. Quando vem a Rio de Janeiro assistir à posse de Guilherme de Almeida na ABL, é preso pela polícia sob denúncia de querer agredir ao poeta Olegário Mariano.</p>
<p>http://cartilhadepoesia.wordpress.com</p>
<p>ESTRONDAM EM TI A IARAS</p>
<p>Desde Bilac<br />
Somos internacionalistas e portugueses júniors<br />
Gostamos de Camembert, do Nilo, de Frinéia e de Marx<br />
Carvões do mar<br />
Náufragos entre sustos e paisagens<br />
- &#8220;I don&#8217; know my elders!&#8221;<br />
Desde Gonzaga e desembargadores<br />
Desde a Prosopopéia<br />
Somos brasileiros</p>
<p>Em 1931, Oswald viaja para o Uruguai para conhecer Luis Carlos Prestes, exilado em Montevidéu. Adere ao comunismo. Lança o jornal O Homem do Povo, com Pagu e Queirós Lima e participa da Conferência Regional do Partido Comunista no Rio de Janeiro. Publica Serafim Ponte Grande e ajuda financeiramente a publicação de Parque industrial de Pagu. Em 1934, Participa do Clube dos Pianistas Modernos e passa a viver com a pianista Pilar Ferrer. Publica a peça O homem e o cavalo e lê cenas no Teatro Experiência de Flávio de Carvalho, mas é interditado pela polícia. Apaixona-se por Julieta Bárbara Guerrini, com quem assina um &#8220;contrato antenupcial&#8221;. Um ano depois, reuniões na casa de Flávio de Carvalho para programar atividades artísticas e culturais. Conhece através de Julieta, Roger Bastide, Giuseppe Ungaretti e Claude Lévi-Strauss.</p>
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<p>BUENA DICHA</p>
<p>Há quatrocentos anos<br />
Desceste do trópico de Capricórnio<br />
Da tábua carbunculosa<br />
Das velas<br />
Que conduziam pelas estrelas negras<br />
O pálido escaravelho<br />
Dos mares<br />
Cada degredado insone incolor<br />
Como o barro</p>
<p>Criarás o mundo<br />
Dos risos alvares<br />
Das colas infecundas<br />
Dos fartos tigres<br />
Semearás ódios insubmissos lado a lado<br />
De ódios frustrados<br />
Evocarás a humanidade, o orvalho e a rima<br />
Nas lianas construirás o palácio termita<br />
E da terra cercada de cerros<br />
Balida de sinceros cincerros<br />
Na lua subirás<br />
Como a tua esperança</p>
<p>O espaço é um cativeiro</p>
<p>Em 1936, casa-se mais uma vez, agora com Julieta Bárbara Guerrini. Juntos, passam dias na fazenda da família de Julieta onde recebe a visita de Jorge Amado. Publica um volume com duas peças, A morta e O Rei da Vela. Publica também a sátira &#8220;Um panorama do fascismo&#8221;. Participa das atividades da Frente Negra Brasileira proferindo um discurso sobre Castro Alves no Teatro Municipal. Em 38, obtém o registro # 179 do Sindicado dos Jornalistas de São Paulo. Em 39, ingressa no Pen Club, e vai para a Europa com a mulher para representar o Brasil no Congresso Pen Club, porém, volta ao Brasil devido à guerra. Neste ano, tem problemas de saúde e vai para um retiro na estância São Pedro. Em 40, candidata-se a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras e escreve uma carta aos imortais declarando-se para-quedista contra as candidaturas de Menotti Del Pichia e Manuel Bandeira, que acaba sendo eleito. </p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>COMO UM MOLE TUFÃO</p>
<p>O imperador está com sinusite<br />
No apartamento 522<br />
Aqui d&#8217;el rei!<br />
Viveste milênios<br />
Bajulando a sinusite do imperador<br />
Ou no oboé das barricadas<br />
Nunca acrisolaste tua reputação bancária<br />
Nem na Florença dos Medici<br />
Em Bombaim ou Buenos Aires<br />
Dentro daquele copo da China<br />
Como uma flor de coral<br />
Nunca consolidaste tua revolta<br />
Sem atirar de supetão<br />
Nos tiranos desprevenidos<br />
Daí a tua híbrida<br />
Reputação de jogador<br />
Muita gente te amou sem ser amada</p>
<p>Em 1941, Oswald relança o volume Os condenados, agora, dividido em três partes: Alma, A estrela de absinto e A escada. Nesta época encontra-se com Walt Disney que faz visita a São Paulo e monta com seu filho Nonê, um escritório de imóveis. Em 42, publica na Revista Brasil, o texto &#8220;Sombra amarela&#8221; dedicado a Orson Wells. Participa do VII Salão do Sindicado dos Artistas Plásticos de São Paulo. Separa-se de Julieta e conhece Maria Antonieta D&#8217;Alkmin. Um ano depois, publica A revolução melancólica e participa do II Concurso Literário. Em junho deste ano, casa-se com Maria Antonieta e inicia a coluna &#8220;Feira das Sextas&#8221; no Diário de São Paulo. Também encontra-se com o escritor argentino Oliverio Girondo.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>EPITÁFIO #2</p>
<p>Não terás os carros dos triunfadores<br />
Nem choros de escravos<br />
Porque quiseste libertar os homens<br />
Estacará diante de ti<br />
A máscara da negação<br />
Lutarás com a vida face a face<br />
Sem subterfúgios nem dolo<br />
E ficará e eco de tua queda</p>
<p>Em 1944, Oswald começa a colaborar para o jornal carioca Correio da Manhã. Em maio deste ano, viaja a Belo Horizonte a convite do prefeito Juscelino Kubitschek, para participar da Primeira Feira de Arte Moderna. Faz conferências sobre pintura e algumas são publicadas. Em 45, participa do I Congresso Brasileiro de Escritores e anuncia Prestes com candidato à presidência, também lança o manifesto da Ala Progressista Brasileira. Porém, discorda da linha política de Prestes e rompe com o Partido Comunista. Recebe o poeta Pablo Neruda e nasce sua filha Antonieta Marília de Oswald de Andrade.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>ERRO DE PORTUGUES</p>
<p>Quando o português chegou<br />
Debaixo duma bruta chuva<br />
Vestiu o índio<br />
Que pena!<br />
Fosse uma manhã de sol<br />
O índio tinha despido<br />
O português</p>
<p>Em 46, participa das homenagens póstumas a Mario de Andrade e discursa no Centro Acadêmico XI de Agosto em homenagem a Gilberto Freyre. Publica o texto &#8220;Mensagem ao Antropófago desconhecido (da França Antártica)&#8221;. No ano seguinte, publica O escaravelho de ouro dedicado à sua filha. Perde a eleição para delegado da Associação Brasileira de Escritores e se desliga da entidade. Em 48 nasce seu quarto filho Paulo Marcos Alkmin de Andrade e participa do Primeiro Congresso de Poesia no qual discursa criticando a &#8220;geração de 45&#8243; ressaltando as conquista de 22.</p>
<p>Daquele jeito em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>MENSAGEM POÉTICA AO POVO BRASILEIRO</p>
<p>HIP HIP HOOVER!</p>
<p>América do Sul<br />
América do Sol<br />
América do Sal<br />
Do Oceano<br />
Abre a jóia de tuas abras<br />
Guanabara<br />
Para receber os canhões do Utah<br />
Onde vem o Presidente Eleito<br />
Da Grande Democracia Americana<br />
Comboiado no ar<br />
Pelo vôo dos aeroplanos<br />
E por todos os passarinhos<br />
Do Brasil</p>
<p>As corporações<br />
Essas já saíram para as ruas<br />
Na ânsia<br />
De o ver<br />
Hoover!<br />
E este país ficou que nem antes da descoberta<br />
Sem nem um gatuno em casa<br />
Para o ver<br />
Hoover!</p>
<p>Mas que mania<br />
A polícia persegue os operários<br />
Até nesse dia<br />
Em que eles só querem<br />
O ver<br />
Hoover!</p>
<p>Pode ser que a Argentina<br />
Tenha mais farofa na Liga das Nações<br />
Mais crédito nos bancos<br />
Tangos mais cotubas<br />
Pode ser</p>
<p>Mas digam com sinceridade<br />
Quem foi o povo que recebeu melhor<br />
O Presidente Americano<br />
Porque, seu Hoover, o brasileiro é um povo de sentimento<br />
E o senhor sabe que o sentimento é tudo na vida<br />
Toque!</p>
<p>Em 1949, Oswald profere uma conferência no Museu de Arte Moderna, onde fala sobre &#8220;As novas dimensões da poesia&#8221;. Recebe em julho deste ano Albert Camus em visita ao Brasil e faz com ela uma excursão a Iguape afim de assitir as festas do Divino, relatadas por Camus em &#8220;Journaux de Voyage&#8221;. A visita termina com uma &#8220;feijoada antropofágica&#8221; em sua residência. Em 1950, comemora seus sessenta anos e o Jubileu de &#8220;Pau Brasil&#8221; com um banquete &#8220;antropofágico&#8221; no Automóvel Club de São Paulo. Lá é homenageado por Sérgio Milliet. Escreve o artigo &#8220;Sexagenário não, mas Sex-appeal-genário&#8221; para A Manhã. As conferências sobre antropofagia são constantes e Oswald se candidata a deputado federal pelo Partido Republicano Trabalhista com o lema Pão-teto-roupa-saúde-instrução-liberdade.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>GLORIOSO DESTINO DO CAFÉ<br />
para o Germinal Feijó</p>
<p>Pequena árvore<br />
Cheia de xícaras<br />
Te dei<br />
Adubo<br />
Trato<br />
Colono<br />
Céu azul<br />
E tu deste<br />
A safra<br />
Dos meus anos fazendeiros</p>
<p>Depois deste<br />
O desastre<br />
E de borco no chão<br />
Me recusei<br />
A achar desgraçados os meus dias<br />
Senti que como tu<br />
Pequena árvore<br />
Milhões de homens de minha terra<br />
Haviam sido queimados<br />
Decepados dos seus troncos<br />
Para que se salvasse<br />
Sobre a miséria de muitos<br />
O interesse dos imperialismos<br />
E se apaziguasse a gula<br />
De seus sequazes tempestuosos<br />
E deste<br />
Em xícaras<br />
O travo da tua cor madura<br />
Senti no teu calor<br />
Aquecido nos fogareiros pobres<br />
O rubi da revolução</p>
<p>E como muitos me armei<br />
Cavaleiro de ferro<br />
Nos lençóis rasgados<br />
Ds cortiços<br />
E nas praças tumultuosas<br />
E como tu pequena árvore debordada<br />
Debordado do latifúndio<br />
Saí ao encalço da felicidade da terra</p>
<p>Em 1951, Oswald entrega a Cassiano Ricardo um projeto escrito a propósito da reforma de base anunciada por Getúlio Vargas e propõe a organização de um Departamento Nacional de Cultura. Começam as dificuldades financeiras. Em 52, republica o Manifesto da Poesia Pau Brasil no jornal A Manhã. Começa a escrever tratados sobre antropofagia, ensaios, anotações. É internado na clínica São Vicente no Rio de Janeiro. Em 1953, participa do júri pelo Salão das Letras e Artes Carmen Dolores Barbosa e dirige saudação a José Lins do Rego. Sofre nova intervenção hospitalar no Rio de Janeiro. No fim do ano, por problemas financeiros, tenta vender sua coleção de telas estrageiras para o MAM do Rio, e os quadros nacionais para Niomar Muniz.</p>
<p>Jorge Mautner em http://cartilhadepoesia.wordpress.com</p>
<p>O MACAQUINHO E A SENHORA</p>
<p>Um dia uma senhora<br />
De rico parecer<br />
Entrou num velho parque<br />
A fim de espairecer</p>
<p>Olhou todas as flores<br />
Era na Primavera<br />
E pensou nos amores<br />
Pois linda e moça ela era</p>
<p>Eis quando numa gaiola<br />
Depara subitamente<br />
Com feio e pelado bicho<br />
O pobre Macaco Clemente</p>
<p>Vendo-a o filho de Deus<br />
Sorri e se coça todo<br />
Pula gira rodopia<br />
Enfia a cabeça no lodo</p>
<p>Depois trepa, guincha, grita<br />
E pinta o sete e o caneco<br />
Ri-se, assovia, namora<br />
E põe tudo em cacareco</p>
<p>A rica senhora sorri<br />
Pra tal manifestação<br />
Mas ao amor do macaco<br />
Gelado é o seu coração</p>
<p>Desolado, cabisbaixo<br />
Reflete o pobre Clemente<br />
- Assim é a lei inflexível<br />
Do meu destino inclemente!</p>
<p>Meses depois, a senhora<br />
Das sedas e dos brilhantes<br />
Regressa a jardim perdido<br />
Mas não volta como dantes</p>
<p>Na cidade em que vivia<br />
Rebentou a revolução<br />
E o seu querido partiu<br />
À frente de um batalhão</p>
<p>Uma manhã ela viu<br />
O belo amante enforcado<br />
Só a graça e a riqueza<br />
Lhe restou do ano passado</p>
<p>Ávida, ei-la que procura<br />
O triste do macaquinho<br />
Pra ver se ele inda se lembra<br />
Como ficou perdidinho</p>
<p>Mas o Clemente não liga<br />
Às jóias, à seda, ao porte<br />
Da grande e linda senhora.<br />
É assim que muda a sorte!</p>
<p>Põe-se numa gostosa fruta<br />
Preocupado a descascar<br />
Enquanto ela dolorida<br />
Procura o interessar</p>
<p>Moral</p>
<p>Inútil, minha senhora,<br />
Seu macaquinho perdeu<br />
Não troca ele uma banana<br />
Por perfil de camafeu</p>
<p>Tarsila, bela Tarsila<br />
Não vá entornar o caldo<br />
Não perca tempo não perca<br />
Case-se logo com o Oswaldo.</p>
<p>Em 1954, Oswald prepara-se para ministrar um curso de Estudos Brasileiros da Universidade de Upsala, na Suécia, altera a programação para o curso ser dado em Genebra, mas jamais faz essa viagem, pois é internado no hospital Santa Edwiges e escreve o caderno &#8220;Livro da convalescença&#8221; que é lido por Di Cavalcanto no Encontro de Intelectuais, no Rio de Janeiro. Sofre uma intervenção cirúrgica no Hospital das Clínicas. Faz mais uma conferência e é homenageado no Congresso Internacional de Escritores realizado em São Paulo. Seu reingresso nos quadros da Associação Brasileira de Escritores é aprovado. Em outubro deste ano de 54, Oswald de Andrade é internado e falece no dia 22 sendo sepultado no jazigo da família no cemitério da Consolação. Assim terminamos mais uma antologia. Semana que vem, outro universo poético, outras proposições, outros poemas, outras ideia de poesia.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>PEITINHOS<br />
(poema da era pré-freudiana)</p>
<p>Seu Bonifácio gostava muito de comungar<br />
E como ficava com o estômago fraco<br />
Ia depois tomar café em casa de Dona Sarah<br />
Que era em frente da Igreja</p>
<p>Numa manhã Dona Sarah apareceu com uma blusa de<br />
rendas sobre o corpo sem camisa</p>
<p>Seu Bonifácio quando chegou<br />
Na hora da morte<br />
Aos 78 anos<br />
Comungou pela última vez<br />
Delirando<br />
Com os peitinhos nus de Dona Sarah</p>
<br />Filed under: <a href='http://cartilhadepoesia.wordpress.com/category/todos-os-poetas-aqui/'>TODOS OS POETAS AQUI</a> Tagged: <a href='http://cartilhadepoesia.wordpress.com/tag/oswald-de-andrade/'>Oswald de Andrade</a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/cartilhadepoesia.wordpress.com/109/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/cartilhadepoesia.wordpress.com/109/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/cartilhadepoesia.wordpress.com/109/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/cartilhadepoesia.wordpress.com/109/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/cartilhadepoesia.wordpress.com/109/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/cartilhadepoesia.wordpress.com/109/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/cartilhadepoesia.wordpress.com/109/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/cartilhadepoesia.wordpress.com/109/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/cartilhadepoesia.wordpress.com/109/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/cartilhadepoesia.wordpress.com/109/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/cartilhadepoesia.wordpress.com/109/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/cartilhadepoesia.wordpress.com/109/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/cartilhadepoesia.wordpress.com/109/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/cartilhadepoesia.wordpress.com/109/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=109&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>Jorge Mautner</title>
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		<comments>http://cartilhadepoesia.wordpress.com/2011/08/03/jorge-mautner/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 03 Aug 2011 15:50:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cartilhadepoesia</dc:creator>
				<category><![CDATA[TODOS OS POETAS AQUI]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160; Henrique George Mautner nasceu no Rio de Janeiro no dia 17 de janeiro de 1941, filho de Paul Mautner e Anna Illichi. De acordo com sua mãe, George nasceu às 9 horas da noite, na hora em que abria o Cassino da Urca. Sua mãe era origem iugoslava e católica, ao passo que seu [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=101&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<div></div>
<p>Henrique George Mautner nasceu no Rio de Janeiro no dia 17 de janeiro de 1941, filho de Paul Mautner e Anna Illichi. De acordo com sua mãe, George nasceu às 9 horas da noite, na hora em que abria o Cassino da Urca. Sua mãe era origem iugoslava e católica, ao passo que seu pai, era judeu austríaco. O menino nasceu pouco tempo depois de seus pais desembarcarem no Brasil fugindo do holocausto, do nazismo. Neste mês, percorreremos a poesia deste notável artista brasileiro. Sua relação com o Tropicalismo, com a música, com a prosa e, sobretudo, com a poesia brasileira. Evoé!</p>
<p>Segurando a pipa amarela em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>POEMA V</p>
<p>E houve um estranho amor<br />
que quase me custou a vida<br />
e que hoje me crucifica<br />
e que na verdade<br />
me tortura, ah! romântico!<br />
A lua brilhava que nem prata<br />
em cima da praia de novo<br />
e eu andava sozinho<br />
com meus velhos blue-jeans<br />
e o meu Brasil<br />
como eu te amo Brasil!<br />
Sofria a fome e os pescadores e trabalhadores<br />
e criancinhas esperam um dia melhor<br />
quando a bandeira vermelha<br />
for nossa bandeira pelo céu<br />
azul e cinza chuvoso dessa terra<br />
maravilhosa e triste<br />
e nós os tristes, os deslocados,<br />
os que são vermelhos por causa do sngue do<br />
coração e da paixão lutaremos por isto!<br />
Mas deixa viver com minha saudade<br />
em meu peito!<br />
Ela é minha!<br />
É coitadinha<br />
é a única coisa que tenho<br />
(pois não tenho amor)<br />
e ela é vermelha<br />
como a bandeira que nos une!<br />
É porque tudo isto é<br />
o sangue, a paixão,<br />
o amor.<br />
Palavra linda! Quase sacra.<br />
O sol nasce por aí<br />
e o mar se ilumina<br />
e o calor produz a febre<br />
e a febre me faz escrever<br />
inventar cantar lutar!<br />
Luto no amor e na vida.<br />
Ah! Os rocks dão-me forças<br />
tenho uma espada na mão que não vejo<br />
mas meu peito tem um coração<br />
que tem FÉ que encontrei<br />
depois de muito tempo perdida.<br />
Eu e meus companheiros<br />
vamos marchar por aí.<br />
É o que resta.<br />
Estandarte do Kaos!<br />
Marxismo existencial!<br />
Coisa nova!<br />
Viva o mundo<br />
o sangue vai correr<br />
do nosso coração<br />
ela já escorre!</p>
<p>Seu pai, Paul Mautner, era um homem extremamente culto. Quando veio ao Brasil, Paul se tornou logo simpatizante de Getúlio Vargas e começou a trabalhar com a comunicação da agência de resistência judaica anti-nazista. Um ano depois, em 42, um choque: Sua irmã, Susana Mautner, não consegue vir da Áustria para o Brasil para se juntar aos pais, fato este que marca muito sua mãe, Anna Illich, que passa a sofrer de uma paralisia nas mãos. O pequeno Jorge, então George, passa a ser educado pela sua babá, Lúcia, que era Yalorixá. Lúcia passa a levar o menino para terreiros de candomblé, onda há uma natural familiarização com o batuque.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>ECOLOGIA</p>
<p>a ecologia<br />
se chamava um dia<br />
deusa harmonia<br />
e era a filosofia<br />
doa gregos e de todos os eternos astronautas<br />
que somos todos nós jamais a sós com todas nossas faltas<br />
só os sonhadores<br />
vivem os grandes amores<br />
ciência e paciência<br />
viva a coexistência!</p>
<p>&#8230;</p>
<p>hoje em dia<br />
a ideologia<br />
do terror<br />
morreu de puro amor<br />
e da morte dela nascem sem parar tão lindos frutos<br />
novas ideologias todos os dias a cada três minutos<br />
coisas muito jóias<br />
Sem as paranóias<br />
e sem radicalismo<br />
ou totalitarismo</p>
<p>&#8230;</p>
<p>ó coração<br />
por que razão<br />
choras e choras<br />
se a revolução<br />
brasileira é multi-racial super original<br />
só nossa como o samba e a palhoça e este carnaval<br />
ela é nossa<br />
como a bossa<br />
o luar de prata<br />
e ela é bem mulata!</p>
<p>&#8230;</p>
<p>e a soja<br />
que é a comida<br />
e a própria vida<br />
que nós daremos<br />
pra boca de uma faminta superpopulação que vai pintar aí<br />
pra boca da superpopulação terrestre que vem aí<br />
essa a missão sagrada do país em que nasci<br />
e acabar com o tédio<br />
do primeiro mundo<br />
e dar o remédio<br />
que é este negro batuque tão profundo</p>
<p>&#8230;</p>
<p>Em 1948, quando tinha seis anos, Mautner presencia a separação dos pais. O menino fica com a mãe, Anna Illich, que se casa, então, com Henri Muller, um violinista, e se muda para São Paulo. Mautner foi junto. O contato com seu pai e com a babá Lúcia se perde, ambos continuam a viver no Rio de Janeiro. Henri Muller, que se torna o primeiro violino da Orquestra Sinfônica de São Paulo, tem papel fundamental na vida do jovem George Mautner, quando ensina-o a tocar o instrumento, e assim, Mautner descobre o violino. Seu padrasto, além da orquestra, também faz pequenos trabalhos, ou &#8220;bicos&#8221;, participando de programas da Rádio Nacional, e nesse tempo, o menino tem a oportunidade de conviver entre grandes artistas da rádio, como Aracy de Almeida, Nelson Gonçalves, BlackOut, Jorge Veiga, Tonico e Tinoco, Elizeth Cardoso, Inezita Barroso, Marlene, Emilinha Borba e muitos outros.</p>
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<p>DESAFIO E DESAFIO<br />
(trecho)</p>
<p>No infinito-finito universo einstaniano<br />
Ou na afro-indígena vertigem da cultura da suprema doçura<br />
Da negritude de todo território americano<br />
Mas ainda tenho fome<br />
Daquilo que não tem nome<br />
Às vezes a poesia para<br />
Para ser mais odara<br />
Mesmo quando se afunda<br />
Arranha céus<br />
Arranha véus<br />
E a peleja de Deus com o diabo<br />
Eu a vejo como réu<br />
Como coisa de outro estado<br />
Que não o estado em que você tem estado<br />
Mas aquele<br />
Apenas aquele<br />
Que foi conquistado<br />
Violões acústicos<br />
São corações tão rústicos</p>
<p>Em 1950, Mautner vai estudar no Colégio Dante Alighieri, em São Paulo, e lá conhece duas figuras que se tornariam, além de grandes amigos, personagens de seus livros: Arthur de Mello Guimarães e José Roberto Aguilar. Este segundo, disse uma vez que &#8220;a minha primeira impressão dele, pelo que me lembro, era que, na terceira série ginasial, ele era um CDF. Tinha um paletó de lã de camelo ou sei lá, e era muito discreto, mas no recreio tocava samba, e isso meio que congregava as pessoas. Eu me lembro de ter visto isso e pensado: &#8220;puxa, até que esse cara não é tão certinho quanto eu imaginava&#8221;. Basicamente ele era uma pessoa muito isolada da classe. Sei lá, você chega numa classe e sempre tem alguma coisa pra falar&#8230;aquela identificação imediata entre todo mundo. Mas o Mautner não: ele era um estrangeiro.&#8221;</p>
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<p>CANTO I</p>
<p>Sinto que sou alguém<br />
Que para remediar a dor de cotovelo<br />
Escreveu tudo isso pro nada e pro ninguém<br />
E só queria era estar beijando teu cabelo</p>
<p>Tudo que eu desejo e quero<br />
É habitar com você e mesma paisagem<br />
Onde se houve rock-samba-bolero<br />
E vive-se rindo, só rindo, falando bobagem<br />
Penso nos meus planos tão insanos<br />
A programar minhas atividades<br />
Cantaríamos e nos gostaríamos todos os dias dos anos<br />
Até o infinito da embriagues das eternidades</p>
<p>A eternidade fica onde desejamos<br />
Que ela fique como sendo a realidade<br />
É só querer e nos amamos e nos chupamos<br />
Sendo que é isso que eu entendo por única e absoluta felicidade</p>
<p>Teus olhos são poços<br />
Onde quero pescar a finíssima truta<br />
Quero pescar esse peixe, me deixe! Roer teus ossos<br />
E teus nervos e tua medula como uma fruta!</p>
<p>Os sons do teu violão ecoam<br />
E estremecem as luzes da cidade<br />
Eles são como mantras e koans<br />
E cheios de coisas freios e eletricidade</p>
<p>Perfuro o ventre da escuridão<br />
Onde as coisas se escondem<br />
Porque estão cheias de sim e de não e de confusão<br />
E quando pergunto sobre qualquer assunto nunca respondem</p>
<p>São como coisas presas ao labirinto<br />
Com algemas nos pulsos e tudo<br />
São cinco pras cinco e eu já me sinto<br />
Dentro do seu não e de um caixão de veludo</p>
<p>Toca teu samba, toca<br />
E tortura meu ser com prazer de ser<br />
A tortura como aquela coisa que nos choca<br />
Onde a alegria me enganava se dizendo a alegria do não Ter</p>
<p>Não ter o quê?<br />
Ora, tá na cara<br />
Não ter é não ter você<br />
Seja como grilo, ou seja odara</p>
<p>Luas de prata conseguem<br />
Fazer com que lentamente<br />
As sensações das emoções naveguem<br />
E invadam como as fadas minha mente</p>
<p>Doem-me todas as cicatrizes<br />
E sinto as rugas das verrugas<br />
Sei que és como atores e atrizes<br />
E que sempre atacas quem te quer por em fugas</p>
<p>Tocas então mil serenatas<br />
E antigas cantigas e rondós<br />
Depois mijas no chão como os cães vira latas<br />
E ficas falando de ti quando estamos a sós</p>
<p>É por isso que sinto todos estes e aquelas<br />
Dores incolores e na garganta como nós<br />
Nem as cores de óleos, hologramas ou aquarelas<br />
Poderiam expressar tão bem quanto esses meus ós, ós, ós!</p>
<p>Estou muito sozinho<br />
Na realidade agora<br />
Falta o seu carinho<br />
E a hora da aurora de quem namora</p>
<p>Gostaria de fazer poesia sem rima<br />
E finalizar por aqui<br />
Mas não consigo deixar de pensar no verso acima<br />
Que sem rima não me deixa dormir</p>
<p>Queria naufragar te beijando<br />
Mas sei que é possível<br />
Por que e até quando<br />
Será meu destino tão horrível?</p>
<p>Desprezaste e usaste todos o meu ser<br />
Agora cansado me viro pro lado<br />
E calado nem consigo ir pro meu eu antigo e morrer<br />
É tudo como se fosse uma visão &#8211; suplício &#8211; calculado</p>
<p>As barras da minha prisão<br />
São feitas de chocolate<br />
E dentro do meu coraçÃo<br />
Tem um órgão que bate, bate</p>
<p>Que energia é essa<br />
Que não tem pressa nem vai a lugar nenhum?<br />
Que sempre é esse promessa que recomeça<br />
Mesmo quando o jogo é fogo e está um a um?</p>
<p>Eis que vem do além o trem do abismo<br />
É uma questão de vida ou de morte<br />
Pessimismo ou otimismo?<br />
Ou simplesmente, democraticamente, alta falta de sorte?</p>
<p>Ainda sobre este período no início da adolescência, José Roberto Aguilar diz que &#8220;O que eu lembro mesmo da época em que conheci o Mautner é desse universo absolutamente mítico. Você entrava na casa dele &#8211; que era na rua Itapeva, 187 &#8211; e de repente se encontrava num espaço absolutamente diferente, apartado do mundo [...] De vez em quando o Paul (Mautner, pai de Jorge), dava aulas de física quântica, ou então a gente ficava lendo a História da Civilização Ocidental do Bertrand Russel ou os pré-Socráticos. Eram altas aventuras. Por exemplo: ler textos de Somerset Maughan, Hemingway, Faulkner, Kafka, Dostoiévski, era uma aventura absoluta que se abria [...] Esse contexto é muito importante, todo mundo naquela casa contava histórias em nível mítico. O Jorge e a convivência com a babá negra, por exemplo, é uma narrativa mítica.&#8221;</p>
<p>Tradução que fiz de Lautréamont em http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>CANTO III</p>
<p>Sinfonia ligeira<br />
Não chega ao fim<br />
Queira ou não queira<br />
Eu sou é assim</p>
<p>Te dei meu corpo<br />
Te dei minha pele<br />
Mesmo depois de morto<br />
Essa força me impede</p>
<p>Força dos grandes destinos<br />
Que estão muito além<br />
Dos hinos e dos sinos<br />
E do aum e/ou do om e do amém</p>
<p>Mas te amo, te amo, te amo<br />
Como nunca se amou na Terra<br />
Nem no Brasil, no Vietnã ou no oceano<br />
Nem na China nem na Inglaterra</p>
<p>Monstro dourado<br />
De amor e dengue<br />
Sou eternamente gamado<br />
Nestes quadris que dançam merengue</p>
<p>Fico feliz<br />
Quando tu chegas<br />
És a matriz<br />
Das minhas horas mais negras</p>
<p>De onde tu vens?<br />
De onde? De onde?<br />
Será que tu és quem tens<br />
O ouro do conde?</p>
<p>Falo bobagem<br />
Começo a ser fragmento<br />
A grande chantagem<br />
É a morte a todo momento</p>
<p>Em 1956, Jorge Mautner começa a escrever sua primeira grande obra: O Deus da Chuva e da Morte. No ano seguinte, nasce sua irmã, Jane Liliane Muller, filha de Ana com Henri Muller. Mas é em 1958, que sua vida literária tem seu primeiro momento, quando, aos 18 anos, tem pela primeira vez seu texto publicado numa revista. Descoberto por Paulo Bonfim, Jorge é comentado no #13 da revista filosófica Diálogo, dirigida por Vicente Ferreira da Silva. Neste mesmo ano, começa suas composições musicais como Iluminação, Olhar Bestial, O Vampiro e outras. Neste ano, também, começa a praticar tai-chi chuan.</p>
<p>Bolero em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>CANTO IX</p>
<p>Nosso amor, esta ilusão<br />
Está encerrado e frio<br />
Acolchoado no colchão<br />
E ainda assim eu me rio</p>
<p>Gozo às vezes e poso<br />
De ser acima do Bem e do Mal<br />
Mas quando convém me entroso<br />
Sou mais sincero que o real do real</p>
<p>Cabelos cacheados<br />
Cabelos lindos<br />
Cabelos revoltados<br />
São fios de antenas tinindo</p>
<p>Açucar doce<br />
Café amargo<br />
Antes eu me fosse<br />
Mas não vou pois não me largo</p>
<p>Pois mesmo o calafrio é<br />
Também tesão afeto<br />
Quer tomar café?<br />
É meu divertimento predileto</p>
<p>Esta cena é ambulante<br />
Como um cigarro e assim eu brinco<br />
No sarro em que te amarro que é amante e apaixonante<br />
E com o qual, bem ou mal, eu brinco</p>
<p>A maçaneta<br />
Não é o trinco<br />
Assim como a corneta<br />
Toca às cinco pras cinco</p>
<p>Te amo no poste<br />
Ou na banheira<br />
Quero você goste<br />
Ou não goste, como queira</p>
<p>Manda ver o chicote<br />
A noite inteira<br />
Depois quero que você me bote<br />
Na minha boca tua língua inteira</p>
<p>Em 1962, Jorge Mautner (agora, enfim, Jorge), publica seu primeiro livro: O Deus da Chuva e da Morte, editado pela Martins Fontes e recebe o Prêmio Jabuti de Literatura. O livro segue uma narrativa simples, porém, intensa e recebe ótimo elogios. Paulo Bonfim disse que &#8220;este é um livro diferente. Em suas páginas o leitor encontrará a mensagem genial de um moço de dezenove anos [...] não conhecemos em nossa literatura documento tão impressionante sobre a angústia, o amor e a morte de uma geração tragicamente solitária e incompreendida&#8221;. Caetano Veloso aponta que &#8220;Jorge Mautner começou a escrevê-lo em sua adolescência, nos anos cinquenta, quando por aqui se cristalizavam as experiências da construção de Brasília, da poesia concreta e da bossa nova, e, nos Estados Unidos, a da literatura beatnik&#8221;. E assim Mautner apareceu.</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>SANSÃO E DALILA</p>
<p>Sansão e Dalila<br />
A canção que repercute, dali lá<br />
Escute, vê se entendes meus prantos<br />
Ó Ruth caligut Mendes dos Santos</p>
<p>Flechas como os pigmeus<br />
Feitas de segredos meus<br />
Para corações ateus<br />
E para os crentes do divino Deus</p>
<p>Flechas saem do meu coração<br />
Não sei pra onde elas vão<br />
Só sei que às vezes elas vem<br />
Bater el alguém sem coração</p>
<p>Depende só da ocasião<br />
Umas flechas que só vem<br />
Outras flechas que só vão<br />
O porque disso aí<br />
Justamente não sei não<br />
Juro que&#8230; não!</p>
<p>Elas vem envenenadas<br />
De coisas apaixonadas<br />
Que o bruxo do amor que eu sou<br />
Com carinho preparou</p>
<p>Outro dia numa oração<br />
Flecharam a cruz da emoção<br />
No altar cheio de luz<br />
De Nossa Senhora da Conceição</p>
<p>Um dia numa ocasião<br />
Mil flechas em profusão<br />
Atingiram um espelho<br />
Aí se deu a confusão</p>
<p>Me apaixonei só por mim mesmo<br />
Num egoísmo muito vesgo<br />
(num egoísmo tão a esmo)<br />
Mas agora não<br />
Sei bem o que é essa boba ilusão</p>
<p>Outra vez num quarto escuro<br />
Voaram setas pro futuro<br />
Furando aquele longo muro<br />
Que aprisiona a solidão</p>
<p>Flechas que saíram em fila<br />
Num filme que pra ver eu fiz fila<br />
Do coração de Dalila pro coração de Sansão</p>
<p>Com o Brasil em ebulição e após a publicação e o sucesso de &#8216;Deus de da Chuva de da Morte&#8217;, Mautner funda o Partido do Kaos, porém, logo adere ao Partido Comunista e é prontamente convidado pelo professor Mario Schenberg para participar junto com o José Roberto Aguilar de uma célula cultural no Comitê Central. Em 1963, mantém uma coluna diária intitulada Bilhetes do Kaos, no jornal Última Hora, até o dia do Golpe Militar. Comenta sua visão de mundo baseada no &#8220;sexo, sangue e futebol&#8221;. Logo depois, publica, Kaos, seu segundo livro, com orelha de José Roberto Aguilar. Tinha já seus vinte e um anos e pretendia escrever uma trilogia, começando com o &#8216;Deus&#8230;&#8221;, depois com Kaos. &#8220;O Partido do Kaos existe no coração de todos&#8221;.</p>
<p>http://cartilhadepoesia.wordpress.com</p>
<p>POEMA I &amp; II</p>
<p>I</p>
<p>salve minha linda palmeira brasileira<br />
Que vive prisioneira<br />
Por entre os quatro cantos do prédio da cidade<br />
Nasceu como pequena semente<br />
No ponto mais quente<br />
Do nosso país continental tropical<br />
Veio morar por aqui<br />
No subúrbio desta Capital<br />
E apesar de toda poluição infernal<br />
Vive como antigamente<br />
A irradiar ondas redondas serenamente<br />
Como se fosse tudo natural<br />
É com grande amizade<br />
Que nos comunicamos e amamos de verdade<br />
Eu do reino animal<br />
Ela do reino vegetal<br />
Nós dois, pois, do superimpério democrático social</p>
<p>II</p>
<p>João Alfredo muito cedo partiu pro vigésimo nono andar<br />
Sem medo<br />
Sem anel de bacharel no dedo<br />
Subiu-partiu para o ar frio das vidraças cheias de poluição<br />
Fumaça-prédio-limpar<br />
Foi com a pureza de uma criança<br />
Para trabalhar pendurado (coitado!) quase no ar<br />
No bolso levava um sanduíche de banana com salame<br />
Podia Ter morrido de velho como o lulú ou o totó da madame<br />
Mas morreu como uma pomba<br />
Que tomba embriagada de uma festa de arromba e que se esqueceu de voar<br />
Caiu lá de cima do carro de feira do feirante imigrante Manoel<br />
Veio como um espantalho para o céu<br />
Ao lado do alho, da cebola e do bugalho<br />
Mais um acidente de trabalho</p>
<p>Tanto &#8216;Deus da Chuva&#8230;&#8217; quanto &#8216;Kaos&#8217; causaram muita impressão nos jovens, sobretudo de São Paulo. Houve um certo movimento intelectual, conhecer Mautner se tornou uma coisa incrivelmente alternativa e exclusiva. Uma espécie de &#8220;cult&#8221;, ou algo parecido. As críticas forma bem divididas e causaram polêmica. Mautner dizia que: &#8220;Nego-me a responder perguntas sobre estilo ou forma. Considero-as estéreis, e o que vale é a força do indivíduo: se minha obra tem valor, ela repercutirá, e isto é o que vale, já disse: não sou parnasiano imbecil burilador. Mas algo eu digo: esta força que minha obra tem, esta repercussão nos espíritos jovens e revoltados que ela encontra é o que vale, e um dia meus inimigos engolirão com sangue minhas respostas finais&#8221;.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>AMORA</p>
<p>Sou o pai que te adora<br />
Ó doce filhinha Amora<br />
Só quero que você me escute<br />
Ó cigana rainha Ruth</p>
<p>Nosso amor assassinado e milhões de vezes ressuscitado<br />
É quem me dá certeza na eternidade do que foi testemunhado<br />
Quase dois mil anos atrás<br />
Por um alguém<br />
Que morreu e ressuscitou<br />
Perto de Jerusalém</p>
<p>1964. Golpe Militar. Jorge Mautner é preso e enviado para Barretos. Segundo o Exército, sua prisão seria &#8220;uma forma de proteção contra as organizações pára-militares&#8221;, que poderiam vitimá-lo por seu envolvimento com o ideário comunista. É solto sob a condição de se &#8220;expressar mais cuidadosamente em suas futuras obras&#8221;. No ano seguinte, publica a terceira parte da Trilogia do Kaos, com o livro &#8216;Narciso em Tarde Cinza&#8217;. Publica também &#8216;O Vigarista Jorge&#8217;, pela editora Von Schmidt, com prefácio de Mário Schenberg. Embora pareça, o livro não é autobiográfico, mesmo com discurso político provocador com o personagem principal de nome &#8216;Jorge&#8217;. Na música, lança os compactos das música de protesto &#8216;Radioatividade&#8217;; &#8216;Não, não, não&#8217; e também os conjunto &#8216;Os Seis &#8211; Suicida Apocalipse&#8217; como uma prévia d&#8217;Os Mutantes.</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>ANTENAS</p>
<p>O artista cisma<br />
Que é marginal<br />
Mas não sabe<br />
Que o que lhe cabe<br />
É o maior problema<br />
De ser um Mandarim do sistema<br />
Líder antena<br />
Igual<br />
Talvez abaixo (eu acho)<br />
Apenas do cientista<br />
Na verdade lista<br />
De importância<br />
Na sociedade da suprema ânsia<br />
De ganâcia e extravagância<br />
Onde o cruel é o mel e a fragrância<br />
E o terrível já começa na infância<br />
O bebê nasce no hospital onde tem uma ambulância<br />
E a multidão te viu<br />
Na Tevê<br />
Que te vê<br />
E te viu<br />
Na Ti, Vi<br />
Que é Tevê<br />
Em inglês<br />
Que todos nós<br />
A esmo<br />
Mesmo na escassez<br />
Se vê, não vê?<br />
E que de antevê<br />
E te fez tudo saber<br />
Ainda como bebê<br />
Ou até mesmo antes de nascer<br />
Sem saber raciocinar<br />
Ou aquela coisa<br />
De escrever e ler</p>
<p>Em 1966, Jorge foi incluído na Lei de Segurança Nacional por causa do conteúdo provocador do livro &#8216;O Vigarista Jorge&#8217; e das letras do Compacto. A situação ficou bem difícil no Brasil, então, Jorge se exilou nos Estados Unidos. Lá começou a trabalhar na UNESCO. Porém, para ganhar um dinheiro extra, Jorge traduzia livros brasileiros para o inglês e dava palestras sobre os mesmos para a Sociedade Interamericana de Literatura, que ficava na Park Avenue, no mesmo prédio onde havia sido a Embaixada Soviética. Recebia 20 dólares por livro e traduziu muitas obras. </p>
<p>A primeira bailarina do Municipal em http://equivocos-pedrolago.blogdpot.com</p>
<p>MOVIMENTO UNIVERSALISTA DO KAOS</p>
<p>O partido do Kaos com k<br />
É o mais querido<br />
O que é que há?<br />
É Kaos com k. KK! Colorido destemido</p>
<p>Vai nascer<br />
E já nasceu<br />
Vai ser o ser<br />
Do ABC do plá do anjo e do Zebedeu</p>
<p>Vai brotar nas águas<br />
Como Vênus-Afrodite<br />
Ou Iemanjá e levar as mágoas<br />
De quem como eu é como o povo e como a elite</p>
<p>Estamos iniciando<br />
O movimento que tal, em paz<br />
Amamos e estamos amando<br />
Todo o tempo do tempo e o mal, aliás, jaz no jamais</p>
<p>E no espaço e no vento<br />
Nos ciclones e vendavais<br />
Eu sou o aço do abraço e o documento<br />
Dos nomes e fomes e se és dos homens e lobisomens e dos etcétera e tais</p>
<p>Movimento Universalista<br />
Do Kaos com k<br />
É o movimento no universo sensualista<br />
Do Tao e do som de eon do balafon e do elétron no tom do bom e do plá do plá</p>
<p>É como a canção<br />
Do Jackson do Pandeiro<br />
É o Rei Momo e o não da emoção<br />
O dõ do kendô do Aikido do amor de Xangô e do verdadeiro brasileiro</p>
<p>Universal<br />
E nacionalista de um neo-nacionalismo<br />
Tolerante e democrático social-existencial-global-sensual<br />
E futurista-realista-surrealista de um mel de humanismo</p>
<p>Mistura fina<br />
De cultura pagã<br />
E aventura-doçura-procura-latina<br />
De cura e de anti-linha dura de qualquer ditadura sã e super saudável</p>
<p>Em 1967 Jorge é convidado para participar do Simpósio Interamericano em Caracas, na Venezuela. Lá conhece e já começa a trabalhar como secretário literário do escritor americano Robert Lowell. Conhece também o teólogo da nova-esquerda do anarquismo pacifista, Paul Goodman, de quem recebe as maiores influências sobre ecologia. Compõe duas músicas com a cantora de jazz Carla Bay. Segue a vida para o ano de 1968, quando volta para o Brasil para receber o Greencard e conhece Ruth Mendes, com que viveria futuramente. Ajuda a fazer o roteiro do filme &#8216;Jardim de Guerra&#8217; de Neville D&#8217;Almeida. O filme é duramente censurado pela Ditadura Militar. Um grande viagem estaria por vir.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>RAIOS DE AMOR</p>
<p>Amor é relâmpago mútuo<br />
Por que será que só eu<br />
Quando todo mundo da luz se esqueceu<br />
Sou um raio que é penugem<br />
Me levanto da nuvem e caio<br />
Com vertigem na penugem<br />
Me levanto da nuvem e caio<br />
Com vertigem na folia<br />
Sou a tua tempestade?<br />
Sou como cavalo baio em pleno céu azul de maio<br />
Com a força da maldade da saudade?<br />
Se nosso amor está de luto<br />
É só por causa da tua vontade<br />
Se você quiser em menos de um minuto<br />
Existirá o ah ah ah da alegria do meio dia<br />
Da harmonia da eterna eternidade<br />
Com total perenidade<br />
E imensa felicidade<br />
Eu sempre te escuto<br />
Mesmo quando você está ausente no presente<br />
Dentro ou fora dos esconderijos da cidade<br />
É como a fumaça que passa e sai e se vai de um charuto<br />
Que some e se consome e que tem o nome de felicidade<br />
É como a bola que eu chuto<br />
Com atletismo e num gol de máxima penalidade<br />
Mesmo assim por teu amor e por você eu luto<br />
Com toda a minha capacidade<br />
O que eu sonho eu executo<br />
Espero que assim você goste de mim<br />
Como eu cujo amor atômico<br />
E eletrônico é igual ao rugir<br />
E crescer e surgir e nascer<br />
De toda uma nova humana humanidade<br />
Que se ama com sincera sinceridade<br />
Como se fosse a eterna e doce primavera<br />
Que sopra na copa de todos os coqueiros<br />
E nos tambores de todas as cores<br />
Flores e amores de nossos e vossos terreiros<br />
Brasileiros da nova religiosidade<br />
Que é a grande novidade<br />
Com toda honestidade<br />
Dos tempos atuais<br />
Dos mais iluminados astrais<br />
Que vem pra cima de nós e de vós<br />
E de sei lá mais quem<br />
Como o mais puro eterno futuro riso do neném<br />
E da força do amém e da luz de Jesus lá no além da insanidade<br />
De paixão no coração de velocidade<br />
Para ela que caminha na velocidade da luz<br />
Que tem todas as cores<br />
E é invisível<br />
É tudo ação e são maravilhas e horrores<br />
Tudo é terrível e incrível<br />
E nunca jamais o samba-jazz<br />
A guerra e a paz ou os vampiros em seus retiros<br />
Não tem história contada<br />
Nem sabida ou conhecida ou considerada<br />
Mas existe como toda coisa triste<br />
E como toda lebre que corre vida afora<br />
Toda hora bem alegre<br />
Pois é acima do Bem e do Mal<br />
Num espaço maluco onde ao mesmo tempo<br />
De uma só vez o bem tem que vencer o Mal<br />
No fim do fim enfim e assim sim afinal<br />
Pois assim o quis<br />
O quer e quererá<br />
Aquele cujo nome não se diz<br />
Nem ninguém nunca saberá<br />
Pois já no tempo do Faraó<br />
Passando por Jó e até o Bozó<br />
Tudo é tudo e nada é nada numa coisa só<br />
Até que surgisse<br />
Alguém que disse:<br />
&#8220;Misturando água com pó<br />
Eu farei alguém que não tenha nem dó<br />
Nem piedade<br />
E a este ser não ser sequer darei o nome<br />
De toda fome ciclone e no fim de mim<br />
Sairão uma mulher e um &#8220;home&#8221;<br />
Só por pura loucura divina<br />
Que rima<br />
É o que nos conta<br />
Informação-explosão<br />
Que deixa minha alma sem calma e tonta tanta<br />
É a recente<br />
E mais consciente<br />
Mensagem<br />
Que pode parecer bobagem<br />
Mas vem provada com paciência<br />
Pela nossa super-ciência<br />
Da atualidade<br />
Será que é mesmo?<br />
Vive-se a esmo?<br />
Que fatalidade!<br />
E os problemas demográficos?<br />
E os temas geográficos?<br />
Tudo no fundo é imundo<br />
Tudo cenas de cinema<br />
Teatro ou tragi-comédia<br />
Em Caixas ou em Ipanema<br />
Mas o que mais importa<br />
É que a grande porta<br />
É a estrada da batucada morena<br />
Que abriu uma avenida pelos céus celestiais<br />
Nos guia como a melodia do uivo de uma hiena<br />
O riso de um chacal<br />
A voz da namorada pequena<br />
E o tom do cantor de sambas e muamba tropical<br />
Assim caminhamos<br />
E trabalhamos e nos odiamos e amamos<br />
Nada mal, como ponto final, etcétera e tal<br />
O etcétera<br />
E o idem-ipsa-ípsilon<br />
Teve tem e terá<br />
Tudo isso está e o todo é o um<br />
O um menos dois<br />
Igual a um<br />
Quatro mais cinco = 1941</p>
<p>Em 1970, Mautner viaja para Londres onde estão, exilados, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Se aproximam. Lá, dirige e participa do filme &#8216;O Demiurgo&#8217; na casa de seu amigo Arthur de Mello Guimarães com participação de Caetano, Gil, José Roberto Aguilar, Péricles Cavalcanti, Leilah Assunção. O filme é censurado para exposição pública, então, Jorge passa a exibí-lo após seus show ao público. Gkauber Rocha declara que o filme é o melhor &#8220;do&#8221; e &#8220;sobre&#8221; o exílio. Jorge volta ao Brasil e para a escrever para o Pasquim. E é por essa época que Jorge conhece uma figura que se tornaria seu grande amigo e parceiro musical: Nelson Jacobina. </p>
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<p>PISAM TEU SOLO</p>
<p>pisam teu solo<br />
e te descubro coberta de tabus<br />
          paralelepípedos<br />
          encobrem a nudez<br />
         que a mãe terra te deixou,<br />
sentindo o recato (falso)<br />
que te enlaça<br />
  te estraga<br />
  te amordaça,<br />
não te deixando fluir<br />
nem mostrar aos chegantes<br />
                           despencados<br />
                           desgarrados,<br />
oâmago de você</p>
<p>Pobre princesa minha<br />
Aprisionada.</p>
<p>Em 1972, Mautner lança o LP Para Iluminar a Cidade e o compacto Planeta dos Macacos, pelo selo Pirata. O disco é lançado por um preço abaixo do mercado e é boicotado pelas lojas. O selo some. Começa uma série de shows em penitenciárias e na Casa da Palmeiras, de Nise da Silveira. No ano seguinte publica Fragmentos de Sabonete e participa de uma comemoração patrocinada pela ONU pelos direitos humanos onde foi criado o Território Livre, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro no notório show O Banquete dos Mendigos, com a participação de muitos artistas. Em 74, lança o LP Jorge Mautner, com participação e direção musical de Gilberto Gil. É dispensado d&#8217;O Pasquim como parte do movimento anti-baiano do jornal, se revolta, e sai atacando grande nomes como Millor Fernandes e outros.</p>
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<p>GAMO O GAMAR</p>
<p>Amo o amar<br />
Só adianta<br />
Quem canta<br />
E se espanta e espanta<br />
A besteira que é tanta<br />
Vamos aprender a amar<br />
O nosso lar e lar e mar e dar e amar e estar<br />
Jamais aprisionar e subjugar-controlar-manipular<br />
Mas sim, aliás, se emocionar com o Brás<br />
Com a onça e toda a nossa bossa e tudo que se possa<br />
Na nossa joça ser algo que adoça e que coça<br />
E remoça pois é nossa como a carroça e a palhoça<br />
E a roça e a onça de novo com toda geringonça<br />
E a nossa anta capivara<br />
E arara e curupira que pira<br />
E Saci-Pererê e você e toda planta<br />
Que tem tanta<br />
E tudo mesmo que é mudo<br />
É coisa santa quando canta<br />
E isso é isso e só isso adianta<br />
E viu e sentiu a farra no Farol da Barra<br />
E a festa da raça multidão como floresta na praça<br />
Todo sutil significado de país de céu de anil<br />
Momento fugaz num zás-trás<br />
A alma secreta e repleta de tão completa do Brasil<br />
Da selva sem fim até o mar por onde deságua o grande rio<br />
Quente atmosfera<br />
Sente átomos na esfera<br />
Da gente quando era<br />
Mais filho que avô<br />
Mais direto que fingidor<br />
Objeto direto, direto na dor<br />
Passatempo predileto era curtir naquele tempo<br />
Com vento lento tormento do ciúme<br />
Estrume e talvez simples costume<br />
Do amor sem destino<br />
Sem meta só desatino<br />
Salada completa<br />
Mas nada recordo<br />
Só essa madrugada é predileta<br />
Como a grana do bacana na carteira<br />
Como o trono da coroa do décimo nono Rei Momo<br />
E que durante o ano era mordomo<br />
Levou cano no cotidiano<br />
Se não me engano<br />
Mais do que quem pratica crimes de caráter insano<br />
Já foi rei e guarda-civil é gordo mais sutil<br />
Já está adiante do mais intrigante instante<br />
Apavorante<br />
Chocante<br />
Este gordo rei Baco-Dionisius de nossa carne-naval<br />
Para os deuses e deusas do paganismo a ressureição<br />
Por aqui não foi nada mal<br />
Tem até caráter brasileiramente legal<br />
Burocratizada e institucional<br />
Já se está adiante<br />
Nem que adiante<br />
Mesmo não querendo estar tão avante<br />
Vá adiante com esse brilho<br />
De filho ou dos trilhos<br />
Das novas ferrovias que são urgentes<br />
Para que nossa crescente agro-pecuária alimente<br />
A nós em primeiro lugar e depois todas as outras gentes<br />
É a noite da noite dentro do dia a dia<br />
É a alegria do riso que ria<br />
Assim como a garganta que canta<br />
E que assim se liberta<br />
Dessa coisa que aperta<br />
E que só adianta o que se canta<br />
E é preciso até ser preciso no impreciso<br />
E dizer é não ao não do vacilo ou do bacilo<br />
Mas sim à imperfeição do humano<br />
Pois sua perfeição inclui o engano<br />
É preciso o que eu preciso<br />
É preciso precisar pisar teu piso<br />
Liso no riso e com juízo<br />
Com aquele amor que é preciso<br />
Como diz o samba imortal para entrar no paraíso<br />
Com sorriso sem prejuízo corrosivo<br />
Ou totalitarismo agressivo<br />
Ou como Narciso<br />
Que se evaporou como beija flor<br />
E a ninguém amou<br />
Assim não seremos, não sou!<br />
Sabemos<br />
Que somos<br />
E seremos<br />
Supremos<br />
Vencendo combatendo<br />
(sempre entendendo)<br />
Os venenos<br />
Supremos<br />
Seremos<br />
Serenos<br />
E assim teremos<br />
Os amores que queremos<br />
Nessa terra santa<br />
Onde tem tanta anta que canta<br />
Como só canta<br />
E levanta<br />
E adianta<br />
Quem se encanta<br />
E que se alevante<br />
O supermaracatu elefante<br />
Democratizante!<br />
Aqui é mesmo o final<br />
Abaixo o nazismo universal!<br />
&#8220;Ciau&#8221;<br />
Jorge Mau<br />
Ou bem<br />
Jorge Ben?!</p>
<p>O Tropicalismo surgiu e Jorge estava no meio dele. Sobre sua impressão com a música de Jorge, Gilberto Gil disse que &#8220;Eu acho que o despojamento formal, a desconstrução de uma construção lógica clássica, de um universo arquitetônico arrumado, com edifícios construídos andar sobre andar, primeiro sobre o chão, o segundo sobre o primeiro, essa construção lógica desconstruída no versejar e arrumar os versos, ou arrumar as ideias dentro dos versos, de trazer universos pra dentro dos versos. Essa construção lógica havia sido bombardeada pelo Tropicalismo. Mas quando eu ouvi pela primeira vez Maracatú Atômico, construído daquele jeito tão absurdo, quer dizer, como um edifício de pedras cósmicas, construído à semelhança das estações espaciais, com um sistema de acoplagem onde se encaixam peças vindas de todos os lados, debaixo, do alto, da esquerda e da direita, foi um espanto. Isso para mim era um avanço, não só na poética, mas também na música que o Jacobina e o Mautner criaram&#8221;.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>ILUMINAÇÃO FELINA: POSTURA DO SENTIR</p>
<p>A guerra mundial não será o fim da humanidade, ou também poderá ser o fim. Que será<br />
será&#8230;Sou um religioso, místico, irracionalista. Intensificar a sensibilidade intuitiva, sensorial,<br />
visual. Aprender a ver tudo de novo, sob um novo ângulo, a partir de um novo foco. Ser profeta.<br />
Ouvir o que ninguém ouve. Desprezar o conhecimento racional ao ponto, apenas, de considerá-lo<br />
15% de nossa capacidade&#8230;A iluminação começa quando se descobre que a maior coisa é ser gato.<br />
E quando a gente começa a aprender a respirar como o gato, e andar como os felinos, e a sentir o<br />
cheio das coisas mais do que compreender as coisas, é neste dia que você entra no reino da ilumi-<br />
-nação. Quando a gente é gato, a gente age quando nos nervos dá vontade de agir. Raramente a<br />
gente pensa. A gente desliza como tigres, tudo é sensual, e não há sentido nenhum, meta nenhuma,<br />
objetivo nenhum, apenas desliza vagarosamente com os nervos registrando tudo. Eu, como gato,<br />
às vezes falo com os homens. Alguns deles são simpáticos mas querem sempre explicar coisas.<br />
E eles me falam de revoluções e teorias. E depois que Trotsky morreu assassinado no México,<br />
com machadadas na cabeça e seu sangue correu. Imaginem aquele velhinho, personagem da<br />
tragédia grega, com aqueles óculos e aquela barbicha e aquele olhar ao mesmo tempo doce, duro,<br />
com o crânio arrebentado. A revolução acabou. Depois eu vou procurar meus amigos gatos, com os<br />
quais não preciso falar, pois a gente se entende por gestos e olhares.</p>
<p>Em 1975, nasce sua filha com Ruth Mendes, Amora Mautner. Alegria alegria. Um ano depois lança o LP Mil e uma noites em Bagdá. Em 1978 o início da revisão de alguns textos, com a republicação de Narciso em Tarde Cinza e o livro de Panfletos da Nova Era, que haviam sido publicados no Diário de São Paulo. em capítulos. Lança também um compacto pela CBS com a canções Filho Predileto de Xangô e O Boi e Caetano Veloso grava &#8220;Vampiro&#8221; no LP Cinema Transcedental. A música chama um pouco mais que a literatura, porém, Jorge não para de escrever. Porém, algumas duras perdas mudariam um pouco as coisas.</p>
<p>Antes antes Fernandez em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>O SILENCIO DE BUDA</p>
<p>o cristianismo nasceu<br />
das palavras de jesus<br />
o zen nasceu<br />
de um silêncio de buda<br />
quando um dia iluminado<br />
em lugar do sermão<br />
apresentou aos discípulos<br />
uma flor<br />
sem dizer palavra<br />
um único discípulo entendeu<br />
mahakasyapa<br />
primeiro patriarca do zen<br />
a doutrina da meditação silenciosa<br />
da concentração descontraída<br />
da dança não dançada<br />
da voz sem voz<br />
da iluminação súbita<br />
da luz interior<br />
da superação dialética dos contrários<br />
na vida diária</p>
<p>Em 1981, Jorge lança o LP Bomba de Estrelas, seu primeiro disco pela gravadora Warner. A música O Encantador de Serpentes fica em quarto lugar no Festival da Globo e, enfim, Mautner lança seu livro de poemas &#8216;Poesia de Amor e Morte&#8217;, base desta antologia. Um ano depois, lança o livro Sexo do Crepúsculo, porém, duas perdas: Seu padrasto, que lhe ensinou o violino, Henri Muller, morre aos 76. Um ano depois, em 1986, Mautner perde seu pai, Paul Mautner. &#8220;E os vegetais, as plantas sentem e se comunicam, isso é uma lição de amor &amp; comunicação universal: por quê? Não sei, mas é algo de tão espantoso que a ciência descobriu (e eu a cultura negra do canbomblé e a cultura dos índios sempre soube) que me chocou e conduziu cinco passos a mais no caminho da alegria do Amor Universal. Tudo interligado, através de vibrações, frequencias que são energias, memórias, o Tempo são bolhas que viajam pelo espaço, e a energia é um outro nome para amor&#8221; JM.</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>O SILENCIO DE PITÁGORAS</p>
<p>para pitágoras<br />
tudo é número<br />
tudo é harmonia<br />
tudo é música<br />
os astros obedecem a uma matemática<br />
essa matemática é uma música<br />
não ouvimos a música das estrelas<br />
porque nossos ouvidos são impuros<br />
a culminância da experiência pitagórica<br />
de purificação<br />
e ascenção nas noites estreladas<br />
a sinfonia vinda das esferas<br />
o silêncio dos astros<br />
nasce da nossa surdez</p>
<p>Em 1985 Mautner relança o livro Narciso em Tarde Cinza e lança o disco Antimaldito com direção musical de Caetano Veloso. Um ano depois lança o livro Fundamentos dos Kaos e faz muitos shows, sobretudo contra o Apartheid da África e pela Revolução na Nicarágua. Em 1987, junto com Gilberto Gil, lança o movimento Figa Brasil no show &#8216;O Poeta e o Esfomeado&#8217; que tem uma adesão de mais de 7000 inscrições. Esse movimento tinha como objetivo discutir a cultura no Brasil, cruzava com o Kaos do próprio Mautner e propunha uma nova abolição na sociedade brasileira.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>O SILENCIO DE PASCAL</p>
<p>&#8220;o silêncio desses espaços infinitos<br />
me apavora&#8221;<br />
os pensamentos estraçalhados de pascal<br />
é a crise de uma consciência excepcional<br />
no limiar de uma nova era<br />
o místico pascal<br />
contempla o céu estrelado<br />
numa vã espera de vozes<br />
o céu calou-se<br />
estamos sós no infinito<br />
deus nos abandonou<br />
&#8220;daquela estrela à outra<br />
a noite se encarcera<br />
em turbinosa vazia desmesura<br />
daquela solidão de estrela<br />
àquela solidão de estrela&#8221; (leopardi/via h campos)<br />
nenhum ufo<br />
no close contact of the third kind<br />
a solidão &#8220;cósmica&#8221; de pascal<br />
é o pendant do vazio de sua classe social<br />
cuja hegemonia está para terminar<br />
os germes da revolução francesa<br />
que vai derrubar a nobreza<br />
e colocar a burguesia no poder<br />
já estão no ar<br />
pascal ouve nos céus<br />
o tremendo silêncio<br />
de uma classe que já disse<br />
tudo que tinha que dizer<br />
pela boca da história</p>
<p>Em 1988, após lançar o CD Árvore da Vida, Mautner se candidata a vereador em São Paulo pelo Partido Verde. Não faz nenhuma propaganda política e acaba não se elegendo por apenas 300 votos. Logo em seguida, viaja para a Bahia, a convite de Gilberto Gil, para trabalhar como seu Chefe de Gabinete, Gil, havia sido eleito vereador naquelas eleições. Porém, em 1990, Mautner viaja para Áustria completamente desiludido com o país após a vitória de Fernando Collor para a Presidência da República. Lá, lança o disco independente Pedra Bruta e faz shows em Viena, Alemanha e Suiça, neste meso disco, Jorge lança o cantor Celso Sim. No mesmo ano de 1990, Jorge perde sua mãe Anna Illich aos 76 anos, assim, volta para o Brasil.</p>
<p>Hecatombes e Ravel em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>OUÇO AGORA</p>
<p>Ouço agora lá longe<br />
Os acordes finais<br />
Como os hinos de um monge<br />
No templo dos samurais</p>
<p>Espinhos e rosas<br />
Rosas e espinhos<br />
Como é que tu gozas<br />
E não tens nem dás carinhos?</p>
<p>Vagueio no meio<br />
De muitas pessoas e gentes<br />
Só não sei se sou lindo ou feio<br />
E se existem mais de três continentes</p>
<p>Como se fazem versos?<br />
Como se fazem mundos?<br />
Assim como se fazem universos<br />
Em segundos vagabundos?</p>
<p>Entenda:<br />
Meu lema<br />
É não se venda<br />
E não tema</p>
<p>Cavaleiros<br />
Medievais<br />
Feiticeiros<br />
E bacanais</p>
<p>Meu desejo não quer esperar, como eu erro!<br />
Leva você pra longe de mim<br />
Vou dar aquele grito, aquele berro<br />
Eu vou chamar o Anjo Serafim</p>
<p>Que é como um Arcanjo<br />
E é amante do Arlequim<br />
Todos tocam seus banjos<br />
Só eu toco bandolim </p>
<p>Na ECO 92, Gilberto Gil enfatiza o pioneirismo ecológico de Mautner e das ONGs desde 1956. No ano seguinte, lança o livro Miséria Dourada. Em 1995, relança o livro Fragmentos de Sabonete com fragmentos inéditos. A gravadora Warner relança o disco Bomba de Estrelas após o sucesso de uma campanha publicitária de Washington Olivetto que tinha como trilha a canção O encantador de Serpentes como trilha. No ano seguinte, uma incrível homenagem: a Fundação Nacional de Arte (Funarte) inaugura em sua sede de São Paulo a ala Jorge Mautner, multidisciplinar direcionada a jovens artistas brasileiros. </p>
<p>poemas e traduções http://pedrolago.blogspot.com<br />
prosa estranha http://equivocos-pedrolago.blogspot.com<br />
arquivo da correspondência http//cartilhadepoesia.wordpress.com</p>
<p>PERFURO O VENTRE DA ESCURIDÃO</p>
<p>Perfuro o ventre da escuridão<br />
onde as coisas se escondem<br />
porque estão cheias de sim e de não e de confusão<br />
e quando pergunto sobre qualquer assunto nunca<br />
         respondem<br />
São como coisas presas ao labirinto<br />
com algemas nos pulsos e tudo<br />
são cinco pras cinco e eu já me sinto<br />
dentro do seu não e de um caixão de veludo</p>
<p>Toca teu samba, toca<br />
e tortura meu ser com prazer de ser<br />
a tortura como aquela coisa que nos choca<br />
onde a alegria me enganava se dizendo a alegria de não ter</p>
<p>Não ter o quê?<br />
Ora, tá na cara<br />
não ter é não ter você<br />
seja com grilo ou seja odara</p>
<p>Luas de prata conseguem<br />
fazer com que lentamente<br />
as sensações das emoções naveguem<br />
e invadam como as fadas minha mente</p>
<p>Doem-me todas as cicatrizes<br />
e sinto as rugas das verrugas<br />
Sei que és como atores e atrizes<br />
e que sempre atacas quem te quer por em fugas</p>
<p>Tocas então mil serenatas<br />
e antigas cantigas e rondós<br />
depois mijas no chão como os cães vira-latas<br />
e ficas falando de ti quando estamos a sós</p>
<p>É por isso que sinto todos estes e aquelas<br />
dores incolores e na garganta estes nós<br />
Nem as cores de óleos, hologramas ou aquarelas<br />
poderiam expressar tão bem estes meus ós, ós, ós!</p>
<p>Em 1997, Jorge lança o disco Estilhaços de Paixão com direção de seu parceiro Nelson Jacobina. No ano seguinte faz shows em Amsterdã, Lisboa, Abrantes e Londres. Também faz shows na rede SESC de São Paulo, celebrando os 100 anos de Bertold Brecht, também dá aulas de literatura nas escolas públicas da periferia de São Paulo. Os discos não para e Jorge lança mais um: O Ser da Tempestade, duplo, com participações de Gil, Caetano, Gal, Zé Ramalho, Chico Science, Moraes Moreira e outros. Abre o novo milênio participando do programa Musikaos na TV Cultura e segue fazendo shows com Jacobina por todo o Brasil.</p>
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<p>O SILENCIO DE HERMES</p>
<p>é o silêncio hermético<br />
o silêncio dos sinais difíceis de ler<br />
o silêncio da poesia de vanguarda<br />
o claro silêncio de mallarmé<br />
e da poesia de vanguarda<br />
o silêncio de ilegibilidade de hoje<br />
que vai aliementar a legibilidade superior de amanhã<br />
hermes é o deus que conduz as almas<br />
até seu destino<br />
o deus que tira o sentido das mensagens mortas<br />
e as conduz à vida do entendimento<br />
o silêncio &#8220;incompreensível para as massas&#8221;<br />
a grande acusação contra maiakovski<br />
o silêncio lance de dados<br />
o acaso<br />
uma chance até o absoluto</p>
<p>2002 foi um ano muito importante para a renovação de seu trabalho e para a apresentação de sua obra para as gerações mais jovens. Lançou o disco e a caixa com todos os livros e comentários de artistas e amigos, Mitologia do Kaos, e também lançou o disco com Caetano Veloso &#8216;Eu não peço desculpa&#8217; de grande sucesso. Em 2003, foi homenageado pela Câmara de Vereadores de São Paulo e recebe a Cruz de Honra da Áustria para a Ciência e Cultura, concedida pelo presidente da Áustria. Recebeu também o título de Comendador pela Ordem de Mérito Cultural já no Governo Lula. No mesmo ano, ganhou o Grammy Latino por &#8216;Eu não peço desculpa&#8217;.</p>
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<p>PELAS RUAS</p>
<p>Estou adorando andar pelas ruas<br />
como quem não quer nada<br />
debaixo do sol<br />
debaixo das luas<br />
que são mais de duas<br />
porque tem as artificiais<br />
e no mais<br />
não tem nada de mais<br />
só a felicidade<br />
como névoa brilhante<br />
por cima da cidade<br />
em paz<br />
(breque: vade retro satanás)</p>
<p>Em 2004, Jorge recebe a bolsa Vitae para escrever o livro &#8216;O filho do Holocausto, dos jardins do Catete ao Colégio Dante Alighieri&#8217;. Também escreve o livro &#8216;Diálogos com o Ministro Gilberto Gil&#8217; com tradução e edição simultânea em diversos países. Desde então, Jorge tem feito shows, programas de televisão, participou da peça &#8220;Deus é química&#8221; com texto Fernanda Torres, com Francisco Cuoco e Luis Fernando Guimarães no elenco. &#8220;Jorge Mautner é um homem, forte como um rochedo, claro como a água, leve como o vento. Os fios elétricos, a bola de borracha, os buracos da flauta, a sola do sapato, as patas do mosquito, e o palito no meio do pirulito. Jorge Mautner pode ser qualquer coisa. Porque ele quer ser qualquer coisa. Tudo. Claro que tudo é tudo e todo mundo é, diria você; mas Jorge realiza, em si, a caminhada para a consciência deste TUDO; é como ele brinca com as pedras do caminho!&#8221; Gilberto Gil.</p>
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<p>FILOSOFIA</p>
<p>Filosofia<br />
três ramos<br />
fiscalizante<br />
apreciadora<br />
do todo<br />
ética!</p>
<p>Língua<br />
árvore<br />
distância<br />
macaco<br />
homem<br />
ereto<br />
homem<br />
ave.</p>
<p>Palavra<br />
sujeito<br />
verbo<br />
erro<br />
crasso<br />
fotossíntese<br />
está raiando<br />
está chovendo<br />
deuses.</p>
<p>Grego<br />
pensante<br />
maldita<br />
lógica!</p>
<p>Erro<br />
crasso<br />
de novo<br />
modernos<br />
infernos<br />
experiência.</p>
<p>Galileu<br />
já morreu<br />
foi a lei<br />
que ele disse<br />
o fantasma<br />
1500<br />
de Aristóteles<br />
contradisse.</p>
<p>Foi o erro!<br />
Erro crasso<br />
da lógica<br />
outra vez.</p>
<p>Acabou<br />
quem ganhou<br />
também<br />
morreu<br />
(queimado)<br />
Sputniks<br />
ó lembrança<br />
ó Galileu.</p>
<p>No sono<br />
o tempo<br />
contratempo<br />
não existe.</p>
<p>Tu partiste<br />
podias ter vindo<br />
o tambor<br />
durou um dia<br />
um minuto<br />
estou de luto há duas horas<br />
apenas um minuto.</p>
<p>Platão<br />
chatão<br />
caverna<br />
amarrado<br />
cego<br />
olhava na parede<br />
vêde!<br />
Não via nada!<br />
via sombras.</p>
<p>Maia<br />
que se aproxima<br />
do meu sonho<br />
momentâneo</p>
<p>século vinte!<br />
que acinte!<br />
Aceitar ideia<br />
que já foi de índio.</p>
<p>&#8220;Sob o signo de Dionísio, o pensamento de Mautner é uma mistura vertiginosa de Nietzsche, filosofia beatnik e hippie, contracultura, candomblé, zen, antropofagia, tropicalismo e existencialismo. No olho do ciclone da vertigem entre todas essas coisas. Mautner vê no negro e na música a fonte de toda a força. É o que há de mais forte e bonito na América, dos Estados Unidos ao Brasil. É o jazz, o mambo, a rumba, o chachachá, o samba. Os negros são os filhos diletos de Dionísio. Sua sabedoria está gravada, não em pedras nem em placas de bronze, mas em ritmos. Uma sabedoria rítmica milenar, chamando todos os homens para a dança, a alegria, a felicidade. Alienado? O conceito de alienação precisa ser revisto, imediatamente. Ele é penal. O conceito de &#8220;alienação&#8221; sempre acaba na polícia&#8221; E o Paulo Leminski se estende um pouco mais, porém, viemos até aqui.</p>
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<p>FOI O SAMBA</p>
<p>Foi o samba quem tudo me ensinou. A negritude é uma cultura tão profunda se não for<br />
mais que a chamada caucasiana, ocidental, fáustica. Heidegger, Mozart, iguais se não<br />
pouco inferiores a: batuques, maracatus e blues. Orixás e axé! Um dia, brevemente, os<br />
tambores dos terreiros ecoarão em Londres, Paris, Viena, até mesmo em Buenos Aires,<br />
alimentando os pálidos vampiros que necessitam de nosso sangue, vitamina B12 para<br />
sobreviver e rir e ter alegria.<br />
Nós fabricamos o plasma mundial. Brasília é o lugar de pouso de discos-voadores. A fé<br />
sempre foi apenas a mais rigorosa das ciências. Só os mais ousados a possuem. Ela<br />
está exatamente no meio da diagonal formada pelas forças gravitacionais que se instalam<br />
em ambos os aparentes extremos de nosso universo elíptico. Emanam a força da gravidade<br />
cuja velocidade é maior que a da luz e é essa força que é o magnetismo do teu olhar a invadir<br />
oceanos como flecha de algum Oxossim voador.</p>
<p>Eis que chegamos ao final de mais uma antologia. Vimos aí um pouco da poesia desta grande figura, Jorge Mautner, um artista brasileiro, antropófago nato. Na semana que vem, entraremos em um outro universo poético, pois, esta correspondência se faz justamente por essa necessidade de conhecer os poetas do Brasil, assim, sempre que puder, mapearemos esse lugar que tanto excita. O que leva um leitor a buscar um poema? O que ele busca num poema? O que faz um poeta escrever um poema? Não importa, não sou exegeta, tampouco formalista, vamos em frente que a poesia brasileira é imensa. Evoé!</p>
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<p>DIONISIUS</p>
<p>Zagreus despedaçado por bacantes adolescentes. Fundo aqui agora este Kaos com k, uma<br />
nova além religião. É já uma super religiosidade. Tomará conta do Brasil no fim do século XX<br />
para o XXI, e depois como coisa sem nome, sei que só ousa sem lembrar-temer-gemer-odiar,<br />
enfim assim sem fim dominaremos seremos o Poder apenas como potência chefiando como<br />
chefia de um comando sob minha liderança carismática do destino e tendo na mão a chave<br />
de um arrebol, a clave de sol que está por enquanto nas mãos de profunda luz negra do anjo<br />
guardião da chave do abismo. Eu sou o gavião e a pomba, a ação que tomba e assombra,<br />
a luz e a sombra, a cruz e a festa de arromba da miromba na onda redonda das ondulações<br />
de surf galático de rondas e girondas, de emanações sem paranóia, sem braço na tipóia,<br />
sem aço no cansaço da bóia fria ou jibóia da ironia ou tramóia da mesquinharia ou agonia<br />
da escória do fracasso, sem bóia ou abraço de uma história de glória suposta memória basta<br />
de anti história na qual ahchacal, eu me me caço a mim mesmo que nem nenen do joaquim<br />
torresmo tamborim.<br />
Cristo-Dionisius, Baco-Rei Momo-pai-de-santo-painho-cae-gil-eu-jorge-mautner, e você filho<br />
da virgem maria e da vertigem da harmonia da fuligem com a origem e a azia da tia e da que<br />
exigem a redigem a ordem desordem do dia a dia noite a noite açoite ardia como arderia a noite<br />
que aceitou-te como Deus o fez no nono adeus da insensatez.<br />
A missão do PK é tomar o Poder de todas as vias de comunicação. Orações: de ataulfo alves,<br />
&#8220;pai joaquim&#8221; e &#8220;Ogum de angola&#8221;.</p>
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		<item>
		<title>Carlos Drummond de Andrade</title>
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		<pubDate>Sun, 17 Jul 2011 15:03:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cartilhadepoesia</dc:creator>
				<category><![CDATA[TODOS OS POETAS AQUI]]></category>

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		<description><![CDATA[Carlos Dummond de Andrade nasceu em Itabira do Mato Dentro em Minas Gerais no dia 31 de outubro de 1902. É o nono filho de Carlos de Paula Andrade e D. Julieta Augusta Drummond de Andrade. Seu pai era fazendeiro e a família Drummond gozava de certo prestígio social em Itabira. Ali, nasceu e cresceu [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=95&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Carlos Dummond de Andrade nasceu em Itabira do Mato Dentro em Minas Gerais no dia 31 de outubro de 1902. É o nono filho de Carlos de Paula Andrade e D. Julieta Augusta Drummond de Andrade. Seu pai era fazendeiro e a família Drummond gozava de certo prestígio social em Itabira. Ali, nasceu e cresceu o jovem Carlos. Magro, sisudo e franzino, que depois viria a se tornar um dos mais respeitados poetas brasileiros. Neste mês tetaremos fazer um pequeno panorama detalhado da vida e da poesia de Drummond, sem querer ser professoral, tampouco exegeta e crítico. Evoé!</p>
<p>http://cartilhadepoesia.wordpress.com</p>
<p>SENTIMENTAL</p>
<p>Ponho-me a escrever teu nome<br />
com letras de macarrão.<br />
No prato, a sopa esfria, cheia de escamas<br />
e debruçado na mesa, todos contemplam<br />
esse romântico trabalho.</p>
<p>Desgraçadamente falta uma letra,<br />
uma letra somente<br />
para acabar teu nome!</p>
<p>- Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!</p>
<p>Eu estava sonhando&#8230;<br />
E há em todas as consciências um cartas amarelo:<br />
&#8220;Neste país é proibido sonhar&#8221;.</p>
<p>Itabira localiza-se a 194 kilômetros de Belo Horizonte. Hoje é apelidada pelos habitantes como &#8220;cidade da poesia&#8221;, porém, também é a &#8220;cidade do ferro&#8221;. O nome &#8220;Itabira&#8221; vem do guarani, que significa &#8220;pedra que brilha&#8221; (itá é pedra) (bira é que brilha). Chamava-se Vila Itabira do Mato Dentro, era uma província que em 1848, foi elevada à categoria de cidade. Em 1907, foi fundada a primeira escola de Itabira, Escola Municipal Coronel José Batista. Itabira também tinha uma residência que preparava alunos para serem admitidos no Seminário de Caraça e de Mariana. Itabira tem um time de futebol que se chama, Valeriodoce Esporte Clube. Foi nessa cidade que Drummond nasceu.</p>
<p>http://cartilhadepoesia.wordpress.com</p>
<p>JARDIM DA PRAÇA DA LIBERDADE<br />
a Gustavo Capanema</p>
<p>Verdes bulindo.<br />
Sonata cariciosa da água<br />
fugindo entre rosas geométricas.<br />
Ventos elísios.<br />
Macio.<br />
Jardim tão pouco brasileiro&#8230; mas tão lindo.</p>
<p>Paisagem sem fundo.<br />
A terra não sofreu para dar estas flores.<br />
Sem ressonância.<br />
O minuto que passa<br />
desabrochando em floração inconsciente.<br />
Bonito demais. Sem humanidade.<br />
Literário demais.</p>
<p>(Pobres jardins do meu sertão,<br />
atrás da Serra do Curral!<br />
Nem repuxos frios nem tanques langues,<br />
nem bombas nem jardineiros oficiais.<br />
Só o mato crescendo indiferente entre sempre-vivas desbotadas<br />
e o olhar desditoso da moça desfolhando malmequeres.)</p>
<p>Jardim da Praça da Liberdade,<br />
Versailles entre bondes.<br />
Na moldura das Secretarias compenetradas<br />
a graça inteligente da relva<br />
compõe o sonho dos verdes.</p>
<p>PROIBIDO PISAR NO GRAMADO<br />
Talvez fosse melhor dizer:<br />
PROIBIDO COMER O GRAMADO<br />
A prefeitura vigilante<br />
vela a soneca das ervinhas.<br />
E o capote preto do guarda é uma bandeira na noite estrelada de funcionários.</p>
<p>De repente uma banda preta<br />
vermelha retinta suando<br />
bate um dobrado batuta<br />
na doçura<br />
do jardim.</p>
<p>Repuxos espavoridos fugindo.</p>
<p>Em 1910, aos oito anos, o jovem Drummond inicia o curso primário no Grupo Escolar Dr. Carvalho Brito, em Belo Horizonte. Lá conhece duas figuras que viriam a ser seus grandes amigos para a vida inteira: Gustavo Capanema e Afonso Arinos de Melo Franco. Lá estuda até o início da adolescência. Drummond, desde criança, até mesmo antes de aprender a ler, era fascinado pela forma da palavra, pela letra. Gostava de folhear jornais e livros para procurar formas, quando aprendeu a ler, já &#8220;conhecia&#8221; muitas delas. Logo mais, Drummond se enveredaria mais intensamente nos estudos primários.</p>
<p>Paulicéia sempre sempre ela no http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>UM HOMEM E SEU CARNAVAL</p>
<p>Deus me abandonou<br />
no meio da orgia<br />
entre uma baiana e uma egípcia.<br />
Estou perdido.<br />
Sem olhos, sem boca<br />
sem dimensões.<br />
As fitas, as cores, os barulhos<br />
passam por mim de raspão.<br />
Pobre poesia.</p>
<p>O pandeiro bate<br />
é dentro do peito<br />
mas ninguém percebe.<br />
Estou lívido, gago.<br />
Eternas namoradas<br />
riem para mim<br />
demonstrando os corpos,<br />
os dentes.<br />
Impossível perdoá-las,<br />
sequer esquecê-las.</p>
<p>Deus me abandonou<br />
no meio do rio.<br />
Estou me afogando<br />
peixes sulfúreos<br />
ondas de éter<br />
curvas curvas curvas<br />
bandeiras de préstitos<br />
pneus silenciosos<br />
grandes abraços largos espaços<br />
eternamente.</p>
<p>Em 1916, aos quatorze anos, Drummond se torna interno do Colégio Arnaldo, da Congregação do Verbo Divino, em Belo Horizonte. Curiosidade: A Congregação do Verbo Divino é essencialmente religiosa católica fundada em Steyl, às margens do rio Rosa nos Países Baixos em 1875 pelo padre alemão Arnaldo Janssen. A congregação seria feita na Alemanha, porém, por causa da perseguição do, então, Chanceler do Império Alemão, Otto von Bismarck aos católicos através da Kulturkampf, uma espécie de movimento coercitivo nacionalista contra a religião católica, teve que ser feita nos Países Baixos. Drummond tinha um contato mais direto com a religião católica.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>SOMBRA DAS MOÇAS EM FLOR</p>
<p>À sombra doce das moças em flor,<br />
gosto de deitar para descansar.<br />
É uma sombra verde, macia, vã,<br />
fruto escasso à beira da mão.<br />
A mão não colhe&#8230; A sombra das moças<br />
esparramada cobre todo o chão.</p>
<p>As moças sorriem fora de você.<br />
Dentro de você há um desejo torto<br />
que elas não sabem. As moças em flor<br />
estão rindo, dançando, flutuando no ar.<br />
O nome delas é uma carícia<br />
disfarçada.</p>
<p>As moças vão casar e não é com você.<br />
Elas casam mesmo, inútil protestar.<br />
No meio da praça, no meio da roda<br />
há um cego querendo pegar um braço,<br />
todos os braços formam um laço,<br />
mas não se enforque nem se disperse<br />
em mil análises proustianas,<br />
meu filho.</p>
<p>No meio da roda, debaixo da árvore,<br />
a sombra das moças penetra no cego,<br />
e o dia que nasce atrás das pupilas<br />
é vago e tranquilo como um domingo.<br />
E todos os sinos batem no cego<br />
e todos os desejos morrem na sombra,<br />
frutos maduros es esborrachando<br />
no chão.</p>
<p>Em 1917, o jovem Drummond começa a tomar aulas particulares com o professor Emílio Magalhães, em Itabira. No ano seguinte, vira interno do Colégio Anchieta da Companhia de Jesus em Nova Friburgo, onde é laureado com &#8220;certames literários&#8221;. A poesia, o escrever poemas, surge com mais força nesse período, com quinze anos de idade. Publica um poema em prosa chamado &#8220;Onda&#8221; no jornal &#8216;Maio&#8217; de um único número. Começa ler o escritores céticos, e alguns surrealistas, o que teria, e teve, grande importância no desprendimento consciente das ideias religiosas. Isso, também, viria lhe custar caro.</p>
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<p>PRIVILÉGIO DO MAR</p>
<p>Neste terraço mediocremente confortável,<br />
bebemos cerveja e olhamos o mar.<br />
Sabemos que nada nos acontecerá.</p>
<p>O edifício é sólido e o mundo também.</p>
<p>Sabemos que cada edifício abriga mil corpos<br />
labutando em mil compartimentos iguais.<br />
Às vezes, alguns se inserem fatigados no elevador<br />
e vêm cá em cima respirar a brisa do oceano,<br />
o que é privilégio dos edifícios.</p>
<p>O mundo é mesmo de cimento armado.</p>
<p>Certamente, se houvesse um cruzador louco,<br />
fundeado na baía em frente da cidade,<br />
a vida seria incerta&#8230; improvável&#8230;</p>
<p>Mas nas águas tranquilas só há marinheiros fiéis.<br />
Como a esquadra é cordial!</p>
<p>Podemos beber honradamente nossa cerveja.</p>
<p>Em 1919, Drummond é expulso do Colégio Anchieta da Companhia de Jesus por &#8220;insubordinação mental&#8221;. Drummond já tinha dezessete anos e um fato como esse grifa muito a história de um sujeito. Um ano depois, muda-se para Belo Horizonte com a família e começa a publicar seus trabalhos na seção &#8220;Sociais&#8221; do Diário de Minas. Nessa época, Drummond estende suas amizades conhecendo figuras como Milton Campos, Emílio Moura, Alberto Campos, João Alphonsus, Batista Santiago, Aníbal Machado, Pedro Nava (que viria a ser seu grande amigo), Heitor de Sousa e muitos outros. Todos eles frequentadores do Café Estrela e da Livraria Alves, em Belo Horizonte.</p>
<p>A espada em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>PALAVRAS NO MAR</p>
<p>Escrita nas ondas<br />
a palavra Encanto<br />
balança os náufragos,<br />
embala os suicidas.<br />
Lá dentro, os navios<br />
são algas e pedras<br />
em total olvido.<br />
Há também tesouros<br />
que se derramaram<br />
e cartas de amor<br />
circulando frias<br />
por entre medusas.<br />
Verdes solidões,<br />
merencórios prantos,<br />
queixumes de outrora,<br />
tudo passa rápido<br />
e os peixes devoram<br />
e a memória apaga<br />
e somente um palor<br />
de lua embruxada<br />
fica pervagando<br />
no mar condenado.<br />
O último hipocampo<br />
deixa-se prender<br />
num receptáculo<br />
de coral e lágrimas<br />
- do Oceano Atlântico<br />
ou de tua boca,<br />
triste por acaso,<br />
por demais amarga.</p>
<p>A palavra Encanto<br />
recolhe-se ao livro,<br />
entre mil palavras<br />
inertes à espera.</p>
<p>Em 1922, aos vinte anos, o primeiro &#8220;retorno&#8221;: Drummond ganha cinquenta mil réis como prêmio pelo conto &#8220;Joaquim do telhado&#8221;, no concurso Novela Mineira. No mesmo ano publica alguns trabalhos nas revistas Todos e Ilustração Brasileira. No ano seguinte, curiosamente, entra para a Escola de Odontologia e Farmácia em Belo Horizonte. Seguiu caminho semelhante de seu grande amigo e médico Pedro Nava, ao escolher a área de saúde, ao contrário de muitos outros jovens escritores que optaram pelo Direito. Em contrapartida, Drummond inicia sua extensa e intensa correspondência com Manuel Bandeira, manifestando-lhe sua admiração. Os conhecimentos aumentam ao conhecer o poeta Blaise Cendras, e parte do grupo modernista através Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Tarsila do Amaral. Pouco depois, inicia também longa correspondência com Mário de Andrade.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>FRAGILIDADE</p>
<p>Este verso, apenas um arabesco<br />
em torno do elemento essencial &#8211; inatingível.<br />
Fogem nuvens de verão, passam aves, navios, ondas,<br />
e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento,<br />
ai! já brincou, e tudo se fez imóvel, quantidades e quantidades<br />
de sono se depositam sobre a terra esfacelada.<br />
Não mais o desejo de explicar, e múltiplas palavras em feixe<br />
subindo, e o espírito que escolhe, o olho que visita, a música<br />
feita de depurações e depurações, a delicada modelagem<br />
de um cristal de mil suspiros límpidos e frígidos: não mais<br />
que um arabesco, apenas um arabesco<br />
abraça as coisas, sem reduzi-las.</p>
<p>A correspondência com Mário de Andrade foi extensa e intensa. Quase tudo (ou tudo) foi colocado à disposição do público em livros. Mário era conhecido por suas cartas e pela generosidade dentro delas. Em 1924, Mário, assim responde ao jovem Drummond em uma delas: &#8220;Tudo está em gostar da vida e saber vivê-la. Só há um jeito feliz de viver a vida: é ter espírito religioso. Explico melhor: não se trata de ter espírito católico ou budista, trata-se de ter espírito religioso pra com a vida, isto é, viver com religião a vida. Eu sempre gostei muito de viver, de maneira que nenhuma manifestação da vida me é indiferente. Eu tanto aprecio uma boa caminhada a pé até o alto da Lapa como uma tocata de Bach e ponho tanto entusiasmo e carinho no escrever um dístico que vai figurar nas paredes dum bailarico e morrer no lixo depois como um romance a que darei a impossível eternidade da impressão. Eu acho, Drummond, pensando bem, que o que falta pra certos moços de tendência modernista brasileiros é isso: gostarem de verdade da vida&#8221;.</p>
<p>Chacal na Cartilha http://cartilhadepoesia.wordpress.com</p>
<p>ESTANCIAS</p>
<p>Amor? Amar? Vozes que ouvi, já não me lembra<br />
onde: talvez entre grades solenes, num<br />
calcinado e pungitivo lugar que regamos de fúria,<br />
êxtase, adoração, temor. Talvez no mínimo<br />
território acuado entre a espuma e o gnaisse, onde respira<br />
- mas que assustada! uma criança apenas. E que presságios<br />
de seus cabelos se desenrolam! Sim, ouvi de amor, em hora<br />
infinda, se bem que sepultada na mais rangente areia<br />
que os pés pisam, pisam, e por sua vez &#8211;  é lei &#8211; desaparecem.<br />
E ouvi amar, como de um dom a poucos ofertado; ou de um crime.</p>
<p>De novo essa vozes, peço-te. Escande-as em tom sóbrio,<br />
ou senão, grita-as à face dos homens; desata os petrificados; aturde<br />
os caules no ato de crescer; repete: amor, amar.<br />
O ar se crispa, de ouvi-las; e para além do tempo ressoam, remos<br />
de ouro batendo a água transfigurada; correntes<br />
tombam. Em nós ressurge o antigo; o novo; o que de nada<br />
extrai forma de vida; e não de confiança, de desassossego se nutre.<br />
Eis que a posse abolida na de hoje se reflete, e confundem-se,<br />
e quantos desse mal um dia (estão mortos) soluçaram,<br />
habitam nosso corpo reunido e soluçam conosco.</p>
<p>Em outra carta escrita para Drummond, Mário de Andrade diz que &#8221; (&#8230;) toda a gente acha graça na minha alegria e como eu me divirto quando estou na festa mais pau. Creio que essa riqueza me vem de eu compreender a vida e vivê-la em toda a variedade dela. Quando vou na festa sei que a festa é pra gente se divertir e qualquer coisa me diverte extraordinariamente. Quando vou&#8230; na dor sei que a dor é pra gente sofrer e sofro pra burro, sofro sério, sofro sofrendo e não espetacularmente, é lógico. Que sucede? a minha variedade de viver é tão incomensurável que não me fatigo dela nunca. (&#8230;) A correspondência entre Mário e Carlos se deu até a morte de Mário.</p>
<p>http://cartilhadepoesia.wordpress.com</p>
<p>UM BOI VE OS HOMENS</p>
<p>Tão delicados (mais que um arbusto) e correm<br />
e correm de um para o outro lado, sempre esquecidos<br />
de alguma coisa. Certamente, falta-lhes<br />
não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres<br />
e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves,<br />
até sinistros. Coitados, dir-se-ia não se escutam<br />
nem o canto do ar nem os segredos do feno,<br />
como também parecem não enxergar o que é visível<br />
e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes<br />
e no rasto da tristeza chegam à crueldade.<br />
Toda a expressão deles mora nos olhos &#8211; e perde-se<br />
a um simples baixar de cílios, a uma sombra.<br />
Nada nos pêlos, nos extremos de inconcebível fragilidade,<br />
e como neles há pouca montanha,<br />
e que secura e que reentrâncias e que<br />
impossibilidade de se organizarem em formas calmas,<br />
permanentes e necessárias. Têm, talvez,<br />
certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem<br />
perdoar a agitação incômoda e o translúcido<br />
vazio interior que os torna tão pobres e carecidos<br />
de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme<br />
(que sabemos nós?), sons que se despedaçam e tombam no campo<br />
como pedras aflitas e queimam a erva e a água,<br />
e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.</p>
<p>Em 1925, Drummond se casa com Dolores Dutra de Morais. O próprio Drummond dizia que ela tinha sido a primeira, ou segunda mulher a trabalhar num emprego (como contadora numa fábrica de sapatos) em Belo Horizonte. No mesmo ano, funda junto com Emílio Moura e Gregoriano Canedo, A Revista. Órgão essencialmente modernista, do qual saem três números. E também conclui o curso de Farmácia, porém, jamais exerce a profissão, dizendo querer &#8220;preservar a saúde dos outros&#8221;. Em carta a Mario de Andrade diz: &#8220;Mário, acabei os exames e sou agora farmacêutico. Não sei bem o que é isso. Durante o curso todo nunca pensei nisso. E ainda não tive o tempo de pensar.&#8221; Em uma outra revela: &#8220;Minha última carta de 1925 é pra você. Dei um tiro no meu diploma de farmacopila. Vou ser fazendeiro, se Deus quiser. Lugar: Itabira do Mato Dentro, Minas. É pra lá que você deve me escrever, daqui a um mês mais ou menos&#8221;.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>CARTA</p>
<p>Bem quisera escrevê-la<br />
com palavras sabidas,<br />
as mesmas, triviais,<br />
embora estremecessem<br />
a um toque de paixão.<br />
Perfurando os obscuros<br />
canais de argila e sombra,<br />
ela iria contando<br />
que vou bem, e amo sempre<br />
e amo cada vez mais<br />
a essa minha maneira<br />
torcida e reticente,<br />
e espero uma resposta,<br />
mas que não tarde; e peço<br />
um objeto minúsculo<br />
só para dar prazer<br />
a quem pode ofertá-lo;<br />
diria ela do tempo<br />
que faz do nosso lado;<br />
as chuvas já secaram,<br />
as crianças estudam,<br />
uma última invenção<br />
(inda não é perfeita)<br />
faz ler nos corações,<br />
mas todos esperamos<br />
rever-nos bem depressa.<br />
Muito depressa, não.<br />
Vai-se tornando o tempo<br />
estranhamente longo<br />
à medida que encurta.<br />
O que ontem disparava,<br />
desbordado alazão,<br />
hoje se paralisa<br />
em esfinge de mármore,<br />
e até o sono, o sono<br />
que era grato, e era absurdo<br />
é um dormir acordado<br />
numa planície grave.<br />
Rápido é o sonho, apenas,<br />
que se vai, de mandar<br />
notícias amorosas<br />
quando não há amor<br />
a dar ou receber;<br />
quando só há lembrança,<br />
ainda menos, pó,<br />
menos ainda, nada,<br />
nada de nada em tudo,<br />
em mim mais do que em tudo,<br />
e não vale acordar<br />
que acaso repouse<br />
na colina sem árvores.<br />
Contudo, esta é uma carta.</p>
<p>Em 1926, Drummond começa a lecionar Geografia e Português no Ginásio Sul-Americano de Itabira, porém, seu retorno à cidade natal é interrompido, pois, por iniciativa de Alberto Campos, volta para Belo Horizonte para trabalhar como redator-chefe do Diário de Minas. No mesmo ano, uma honra: Heitor Villa Lobos, sem conhecê-lo, compõe uma seresta sobre o poema &#8220;Cantiga de Viúvo&#8221;. Um ano depois, uma fatalidade: No dia 22 de março, nasce seu filho Carlos Flávio, que, infelizmente, devido a complicações respiratórias, falece meia hora depois do parto.</p>
<p>http://cartilhadepoesia.wordpress.com</p>
<p>MAIO NO LEBLON</p>
<p>Entre os desmaios de maio,<br />
azula o céu carioca<br />
e o sol recolhe seu raio.</p>
<p>Macio maio! Bem vindo<br />
aos que, de pupila doente,<br />
refugiavam-se, no poente,<br />
dos revérberos da praia.</p>
<p>Um frio azul se derrama<br />
e colhe de rama em rama<br />
toda cantiga de pássaro.<br />
É doce, ficar na cama.</p>
<p>O níquel das bicicletas<br />
- ante a franja turmalina -<br />
se desenrola nas retas<br />
sem fustigar as retinas.</p>
<p>Luz de seda! Nos vestidos<br />
anda um prenúncio de lãs<br />
e de agasalhos transidos.<br />
Inverno, prepara as cãs.</p>
<p>Vou lagartear-me na areia<br />
de onde emigram, neste maio,<br />
as gentes de formas feias,<br />
e descobrir nela côncavo<br />
dos pés de Lúcia Sampaio.</p>
<p>Mês de colóquio e surpresa,<br />
em que, sereno, o olhar gaio<br />
se infiltra na natureza<br />
e se perde, achando-se&#8230; Amai-o.</p>
<p>Em 1928, aos vinte e seis anos, após a trágica morte prematura de seu primeiro filho, nasce, enfim, Maria Julieta. Ela se tornaria sua grande amiga e confidente para a vida inteira. No mesmo ano publica na Revista de Antropofagia, órgão oriundo do Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade, o poema &#8220;No meio do caminho&#8221;, que se tornaria o grande escândalo da literatura brasileira na época. A Revista tinha direção de Alcântara Machado e Raul Bopp. Dentre seus principais colaboradores, temos o próprio Drummond, Mário de Andrade, Plínio Salgado, Manuel Bandeira, Menotti Del Picchia, Murilo Mendes, Pedro Nava e alguns outros. Havia duas linhas distintas que escreviam na revista: a de Mário e Oswald e a do grupo nacionalista e integralista Anta.</p>
<p>Olha aí rapaz! em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>PORTINARI</p>
<p>De um baú de folha-de-flandres no caminho da roça<br />
um baú que os pintores desprezaram<br />
mas que anjos vêm cobrir de flores namoradeiras<br />
salta João Cândido trajado de arco-íris<br />
saltam garimpeiros, mártires da liberdade São João da Cruz<br />
salta o galo escarlate bicando o pranto de Jeremias<br />
saltam cavalos-marinhos em fila azul e ritmada<br />
saltam orquídeas humanas, seringais, poetas de e sem óculos, transfigurados<br />
saltam caprichos do Nordeste &#8211; nosso tempo<br />
(nele uma angústia purificada na alegria do volume justo e da cor autêntica<br />
salta o mundo de Portinari que fica lá no fundo<br />
maginando novas surpresas</p>
<p>Em 1929, Drummond deixa o Diário de Minas para trabalhar no Minas Gerais, órgão oficial do Estado, como auxiliar de redação e pouco depois como redator, sob a direção de Anibal Machado. Um ano depois, enfim, aos vinte e oito anos, Drummond publica seu primeiro livro, Alguma poesia, em edição de 500 exemplares paga pelo autor, sob o selo imaginário Edições Pindorama, criado por Eduardo Frieiro. Embora tenha sido o primeiro, no livro, há poemas que se tornaram uma espécie de &#8220;clássico&#8221; em toda sua vasta obra. No mesmo ano, torna-se auxiliar de gabinete do Secretário de Interior, quando, seu amigo, Gustavo Capanema, substitui Cristiano Machado na função.</p>
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<p>LETRA AMARGA PARA MODINHA</p>
<p>Gosto de ti com desgosto.<br />
Quando contemplo teu rosto<br />
nele vejo um rosto outro<br />
com o qual maduras teu gosto.<br />
Por um mandamento imposto<br />
sofro de ti em meu corpo<br />
quando contemplo teu rosto.</p>
<p>Quando contemplo teu rosto<br />
este amor a contragosto<br />
fermenta de ácido mosto<br />
e no meu cavername rouco<br />
um dó de mim, um a-gosto<br />
me punge, queima de agosto.</p>
<p>Se te contemplo, em teu rosto<br />
não me contemplo a meu gosto<br />
pois teu semblante está posto<br />
numa linha de sol-posto<br />
em que por dentro me morro.<br />
Morro de ver em teu rosto<br />
o fel de teu anti-rosto.</p>
<p>Quando contemplo teu rosto<br />
meu gosto é puro desgosto.</p>
<p>Em 1931, Drummond perde seu pai, Carlos de Paula Andrade. Dois anos depois, torna-se redator de A Tribuna e mais uma vez acompanha Gustavo Capanema quando este é nomeado Interventor Federal em Minas Gerais. A grande mudança acontece em 1934. Começa trabalhando como redator nos jornais Minas Gerais, Estado de Minas e Diário da Tarde, simultaneamente. Depois publica Brejo das almas, em edição de 200 exemplares pela cooperativa Os Amigos do Livro, e finalmente, muda-se com sua mulher, Dolores, e sua filha, Maria Julieta, para o Rio de Janeiro, onde, passa a trabalhar como chefe de gabinete de Gustavo Capanema, agora, Ministro da Educação e da Saúde Pública.</p>
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<p>O QUARTO EM DESORDEM</p>
<p>Na curva perigosa dos cinquenta<br />
derrapei neste amor. Que dor! que pétala<br />
sensível e secreta me atormenta<br />
e me provoca à síntese da flor</p>
<p>que não se sabe como é feita: amor,<br />
na quinta-essência da palavra, e mudo<br />
de natural silêncio já não cabe<br />
em tanto gosto de colher e amar</p>
<p>a nuvem que de ambígua se dilui<br />
nesse objeto mais vago do que nuvem<br />
e mais defeso, corpo! corpo, corpo,</p>
<p>verdade tão final, sede tão vária,<br />
e esse cavalo solto pela cama,<br />
a passear o peito de quem ama.</p>
<p>Em 1935, Drummond se torna membro da Comissão de Eficiência do Ministério da Educação. Dois anos passam sem muitas novidades literárias até que em 37, começa a colaborar na Revista Acadêmica, de Murilo Miranda. De acordo com Mário Faustino, os poemas que Drummond publica em revistas e jornais não são os seus &#8220;melhores&#8221;. Mário acreditava que, ali, Drummond fazia uma espécie de laboratório com poemas de menor expressão. Certo, ou não, em 1940, Drummond publica seu famoso Sentimento do mundo, em tiragem de 150 exemplares, apenas, distribuídos entre amigos.</p>
<p>Arquivo desta &#8220;coluna&#8221; para consulta aqui http://cartilhadepoesia.wordpress.com</p>
<p>PROCURA</p>
<p>Procurar sem notícia, nos lugares<br />
onde nunca passou;<br />
inquirir, gente não, porém textura,<br />
chamar à fala muros de nascença,<br />
os que não são nem sabem, elementos<br />
de uma composição estrangulada.</p>
<p>Não renunciar, entre possíveis,<br />
feitos de cimento do impossível,<br />
e ao sol-menino opor a antiga busca,<br />
e de tal modo revolver a morte<br />
que ela caia em fragmentos, devolvendo<br />
seus intatos reféns &#8211; e aquele volte.</p>
<p>Venha igual a si mesmo, e ao tão-mudado,<br />
que o interroga, insinue<br />
a sigla de uma armário cristalino,<br />
além do qual, pascendo beatitudes,<br />
os seres-bois completos, se transitem,<br />
ou mugidoramente se abençoem.</p>
<p>Depois, colóquios instantâneos<br />
liguem Amor, Conhecimento,<br />
como fora de espaço e tempo hão de ligar-se,<br />
e breves despedidas<br />
sem lenços e sem mãos<br />
restaurem &#8211; para outros &#8211; na esplanada<br />
o império do real, que não existe.</p>
<p>Em 1941, assina sob o pseudônimo de &#8220;O Observador Literário&#8221;, a seção &#8220;Conversa Literária&#8221; da revista Euclides. Ao mesmo tempo que colabora para o suplemente literário de A Manhã, dirigido por Múcio Leão e mais tarde por Jorge Lacerda. Em 1942, um grande acontecimento: José Olympio, publica Poesias, através de sua Livraria José Olympio Editora. É o primeiro editor que, de fato, publica Drummond. Agora tinha um canal, uma editora que o lançaria definitivamente, pois, já era, a esta altura, considerado como grande poeta, sobretudo, entre poetas. Nessa época, também, envereda-se pela tradução e publica a obra Thérèse Desqueyroux, de François Mauriac, sob o título de Uma gota de veneno.</p>
<p>http://cartilhadepoesia.wordpress.com</p>
<p>A CARLITO</p>
<p>Velho Chaplin:<br />
as crianças do mundo te saúdam.<br />
Não adiantou te esconderes na casa de areia dos setenta anos,<br />
refletida no lago suíço.<br />
Nem trocares tua roupa e sapatos heróicos<br />
pela comum indumentária mundial.<br />
Um guri te descobre e diz: Carlito<br />
CARLITO &#8211; ressoa o coro em primavera.</p>
<p>Homens apressados estacam. E readquirem-se.<br />
Estavas enrolado neles como bola de gude de quinze cores,<br />
concentração do lúdico infinito.<br />
Pulas intato da algibeira.<br />
Uma guerra e outra guerra não bastaram<br />
para secar em nós a eterna linfa<br />
em que, peixe, modulas teu bailado.</p>
<p>O filme de 16 milímetros entra em casa<br />
por um dia alugado<br />
e com ele a graça de existir<br />
mesmo entre os equívocos, o medo, a solitude mais solita.<br />
Agora é confidencial o teu ensino,<br />
pessoa por pessoa,<br />
ternura por ternura,<br />
e desligado de ti e da rede internacional de cinemas,<br />
o mito cresce.</p>
<p>O mito cresce Chaplin, a nossos olhos<br />
feridos de pesadelo cotidiano.<br />
O mundo vai acabar por mão dos homens?<br />
A vida renega a vida?<br />
Não restará ninguém para pregar<br />
o último rabo de papel na túnica do rei?<br />
Ninguém para recordar<br />
que houve pelas estradas um errante poeta desengonçado,<br />
a todos resumindo em seu despojamento?</p>
<p>Perguntas suspensas no céu cortado<br />
de pressentimentos e foguetes<br />
cedem à maior pergunta<br />
que o homem dirige às estrelas.<br />
Velho Chaplin, a vida está apenas alvorecendo<br />
e as crianças do mundo te saúdam.</p>
<p>Em 1944, Drummond publica Confissões de Minas, por iniciativa de Álvaro Lins, mas, um ano depois, um grande e marcante lançamento: A Rosa do Povo, sai pela José Olympio. A novela O gerente sai pela Edições Horizonte. Começa a colaborar no suplemente literário do Correio da Manhã e na Folha Carioca. Preservando a boa relação que tinha com Gustavo Capanema, Drummond deixa a chefia do gabinete a convite de Luís Carlos Prestes, e se torna co-editor do jornal comunista, Tribuna Popular, junto com Pedro Mota Lima, Álvaro Moreyra, Aydano do Couto Ferraz e Dalcídio Jurandir. Meses depois, se afasta do jornal por discordar da orientação do mesmo. Neste época Drummond frequenta o café Vermelhinho, no centro do Rio, onde se reuniam intelectuais e poetas como João Cabral (que foi ao Rio conhecer Drummond), Santa Rosa, Carlos Castelo Branco e alguns outros.</p>
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<p>DESFILE</p>
<p>Já fatigado de escrever em prosa,<br />
este vago cronista pede ao verso<br />
que de mansinho desabroche em rosa<br />
e a Raquel de Queiroz hoje se oferte<br />
pelo muito que amamos os seus livros<br />
fraternos e pungentes, seres vivos.<br />
Uma rosa a Raquel? Mas é tão pouco<br />
uma flor por um mundo que começa<br />
no Ceará e chega às Três Marias!<br />
Falta evidentemente paridade,<br />
como hoje se diz em cada esquina,<br />
praia, bar, escritório da cidade.<br />
- Falar nisso: qual é o seu salário,<br />
meu doutor-marechal? quinhentos mil?<br />
- Eu mesmo já nem sei, mas vou a jato<br />
saber o último abono extraordinário<br />
e daquele projeto que aposenta<br />
o servidor com um dia de exercício<br />
para ceder lugar a mais quarenta.<br />
Ainda bem que entre tudo que nos falta,<br />
falta igualmente número ao Congresso&#8230;<br />
Mas quem pode aguentar meia semana<br />
em Brasília, onde a vida anda em recesso?<br />
Se a Capital não volta para o Rio,<br />
pois nem o Rio a quer (Inês é morta),<br />
e na praça tristonha dos Três Poderes<br />
semelham um deserto fundo de horta,<br />
o jeito, Juscelino, é por decreto<br />
extinguir-se o governo da República,<br />
o que não faz lá muita diferença<br />
e formalmente fica mais correto.<br />
Difícil é extinguir essa doença<br />
chamada camarite vereadora,<br />
ou, dizendo melhor, devoradora,<br />
que já no corpo em flor da Guanabara,<br />
perfumado a lavanda de esperanças,<br />
coloca a nódoa espúria de uma tara.<br />
Aproveitando a rima: e as duas Franças?<br />
Uma, livre, querendo livre a Argélia,<br />
outra, buscando em ferros conservá-la.<br />
Ai, ganância cruel que assim repele a<br />
voz da razão e o senso de justiça!<br />
O que vibra na gente de sensível,<br />
de reto e inconformado, neste mundo<br />
indeciso entre trágicos destinos,<br />
o que há de mais leal e mais profundo,<br />
pulsa convosco, amigos argelinos.<br />
E nessa americana poranduba,<br />
um verso irmão lá vai, direto de Cuba,<br />
onde o sonho dos homens se elabora,<br />
confuso, dolorido&#8230;até que um dia<br />
a vida, se não doce como cana,<br />
pelo menos se torne mais humana.</p>
<p>Após sair do hebdomadário comunista, Drummond é chamado por Rodrigo M. F. de Andrade para trabalhar na diretoria do Patrimônio Histórico Artístico Nacional, onde mais tarde se tornará chefe da Seção de História, na Divisão de Estudos e Tombamento. Em 1946, recebe o Prêmio pelo Conjunto da Obra, da Sociedade Felipe d&#8217;Oliveira. Um prêmio importante e seu primeiro. Outro acontecimento interessante: Sua filha, Maria Julieta, publica, aos dezessete anos de idade, a novela, A busca, pela José Olympio. Um ano depois, outra tradução: Les Liaisons dangereuses, de Choderlos De Laclos, sob o título de As relação perigosas.</p>
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<p>CORPORAL</p>
<p>O arabesco em forma de mulher<br />
balança folhas tenras no alvo<br />
da pele.<br />
Transverte coxas em ritmos,<br />
joelhos em tulipas. E dança<br />
repousando. Agora se inclina<br />
em túrgidas, promitentes colinas.</p>
<p>Todo se deita: é uma terra<br />
semeada de minérios redondos,<br />
braceletes, anéis multiplicados,<br />
bandolins de doces nádegas cantantes.</p>
<p>Onde finda o movimento, nasce<br />
espontânea a parábola,<br />
e um círculo, um seio, uma enseada<br />
fazem fluir, ininterruptamente,<br />
a modulação da linha.</p>
<p>De cinco, dez sentidos, infla-se<br />
o arabesco, maçã<br />
polida no orvalho<br />
de corpos a enlaçar-se e desatar-se<br />
em curva curva curva bem-amada,<br />
e o que o corpo inventa é coisa alada.</p>
<p>Em 1948, Drummond publica seu Poesia até agora, com poemas que também se tornariam clássicos. Colabora em Política e Letras, de Odylo Costa, filho. Porém, no mesmo ano, uma grande perda: Falece sua mãe, Julieta Drummond de Andrade. O poeta comparece ao enterro em Itabira ao mesmo tempo em que é executada no Theatro Municipal do Rio de Janeiro a obra &#8220;Poema de Itabira&#8221;, de Heitor Villa Lobos, composta sobre seu poema &#8220;Viagem na família&#8221;. Um ano depois volta a escrever no jornal Minas Gerais. Sua filha, Maria Julieta, casa-se com o escritor e advogado argentino Manuel Graña Etcheverry e passa a morar em Buenos Aires, onde, desempenhará, ao longo de sua vida, um importante trabalho de divulgação da cultura brasileira.</p>
<p>O monstro de pedra em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>A DUPLA SITUAÇÃO</p>
<p>Um silêncio tão perfeito<br />
como o que baixou agora:<br />
sinal que já morremos<br />
ou nem chegamos ainda à Terra.</p>
<p>Acabamos de sentir a morte<br />
nas veias substituir o sangue.<br />
Circulamos na atmosfera,<br />
somos, corpo e brisa, um só.</p>
<p>Ou flutuamos no possível<br />
sem pressa de, sem desejo de<br />
atingir o irretratável<br />
movimento do nascimento.</p>
<p>Este silêncio tão completo<br />
em si, em nós, em nossa volta,<br />
converte-nos em transparente<br />
esfera<br />
contemplada contemplativa.</p>
<p>Em 1950, Drummond se torna avô de Carlos Manuel, filho de Maria Julieta, nascido em Buenos Aires. Um ano depois, publica Claro enigma, Contos de aprendiz e A mesa. É também publicado em Madrid através do livro Poemas. No ano seguinte, em 1952, já com cinquenta anos, publica Passeios na ilha e Viola de bolso. 1953, mais uma mudança de trabalho. Exonera-se do cargo de redator do Minas Gerais, ao ser estabilizada sua situação de funcionário do DPHAN. Se torna avô pela segunda vez, agora, de Luis Maurício, a quem dedica do poema &#8220;Luis Maurício infante&#8221;. Seu genro, o escritor Manuel Graña Etcheverry, traduz seus poemas e o publica com o livro Dos poemas, em Buenos Aires.</p>
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<p>A MÚSICA DA TERRA</p>
<p>A dor que habita em nós, o cravo a ignora.<br />
A vida, uma gavota? Pura dança<br />
o amor? No minueto de Lully<br />
cabe a dificuldade de existir?</p>
<p>Quinta-essência do angélico, no caos,<br />
paira a graça de Mozart sobre o abismo,<br />
sem devassá-lo &#8211; pássaro de nuvem.<br />
O tempo é outro metal, a comburir-nos.</p>
<p>Urge romper o gosto, a norma límpida,<br />
e sangrentas estilhas do momento<br />
passar à forma nobre da sonata.<br />
Urge extrair do piano o som dramático.</p>
<p>E suscitar o diálogo patético<br />
entre piano e violino qual se escuta,<br />
na penumbra da alma, a duas vozes,<br />
um rumor de paixão se entretecendo.</p>
<p>Eis que a música deixa de ser pura.<br />
Os serafins e os elfos se despedem.<br />
A terra é lar dos homens, não dos mitos.<br />
Há que desmascarar nosso destino.</p>
<p>Em tatear incessante, no conflito<br />
corpo a corpo entre o ser e a contingência,<br />
nova música, ungida de tristeza<br />
mas radiante de força, vem ao mundo.</p>
<p>Luta o homem na área desolada<br />
de sua solidão; luta no palco<br />
fremente de contrastes, percebendo<br />
que pouco a pouco cerram-se os espaços</p>
<p>da percepção, e tudo se limita<br />
à captação interna, de sinais<br />
silentes, impalpáveis, invisíveis,<br />
nunca porém tão vivos se captados.</p>
<p>À proporção que a dor aumenta, e em volta<br />
nega-lhes o amor seus bálsamos terrestres,<br />
ganha requinte a fábrica sonora<br />
de eternizar a vida breve em arte.</p>
<p>Es muss sein! É preciso! Na amargura,<br />
na derrota do corpo, sublimada,<br />
a canção do heroísmo e a da alegria<br />
resgatam nossa mísera passagem.</p>
<p>E entreabre a sinfonia suas palmas<br />
imensas, a conter todos o rebanho<br />
de perplexos irmãos, de angustiados<br />
prospectores de rumo e de sentido</p>
<p>para a sorte geral. O homem revela-se<br />
na torrente melódica, suplanta<br />
seu escuro nascer, sua insegura<br />
visão do além, turva de morte e medo.</p>
<p>Ó Beethoven, tu nos mostraste o alvorecer.</p>
<p>Em 1954, Drummond publica seu Fazendeiro do ar e Poesia até agora. Traduz Les paysans de Balzac e realiza na Rádio Ministério de Educação, em diálogo com Lya Cavalcanti, a série de palestras &#8220;Quase memórias&#8221;. Inicia também um trabalho de duraria quinzes anos, o de cronistas do Correio da Manhã intitulada &#8220;Imagens&#8221;. Um ano depois, publica Viola de bolso novamente encordoada. Em Cadernos de Cultura, que o Ministério da Educação fazia, com célebres textos de João Cabral, Otávio de Faria, Mário Pedrosa, Lucio Costa, Paulo Mendes Campos e muitos outros, publica o 50 poemas escolhidos pelo autor, com poemas até então, fora de sua lista de mais populares.</p>
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<p>QUARTO ESCURO</p>
<p>Por que este nome, ao sol? Tudo escurece<br />
de súbito na casa. Estou sem olhos.<br />
Aqui decerto guardam-se guardados<br />
sem forma, sem sentido. É quarto feito<br />
pensadamente para me intrigar.<br />
O que nele se põe assume outra matéria<br />
e nunca mais regressa ao que era antes.<br />
Eu mesmo, se transponho<br />
o umbral enigmático,<br />
fico a ser, de mim desconhecido.<br />
Sou coisa inanimada, bicho preso<br />
em jaula de esquecer, que se afastou<br />
de movimento e fome. Esta pesada<br />
cobertura de sombra nega o tato,<br />
o olfato, o ouvido. Exalo-me. Enoiteço.<br />
O quarto escuro em mim habita. Sou<br />
o quarto escuro. Sem lucarna.<br />
Sem óculo. Os antigos<br />
condenam-me a esta forma de castigo.</p>
<p>Drummond continua com as traduções, desta vez, traduz Albertine disparue, da célebre À la recherche du temps perdu, de Marcel Proust. Em 1957, publica, Fala, amendoreira, e Ciclo. Ano seguinte, no incrível ano de 1958 (em todos os aspectos), outra publicação em Buenos Aires, só que desta vez na coleção &#8220;Poetas del siglo viente&#8221;. Drummond tem sua primeira &#8220;experiência&#8221; teatral com a montagem de sua tradução de Doña Rosita la soltera de Federico Garcia Lorca, pela qual recebe o Prêmio Padre Ventura, do Círculo Independente de Críticos Teatrais. Até que, no ano seguinte, nasce seu terceiro neto, Pedro Augusto. Através de Biblioteca Nacional, é publicada a sua tradução de Oiseaux-Mouches orthorynques du Brèsil, de Descourtilz. Colabora também em Mundo Ilustrado.</p>
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<p>PASSEIAM AS BELAS</p>
<p>Passeiam as belas, à tarde, na Avenida<br />
que não é avenida, é longo caminho branco<br />
onde os vestidos cor de rosa vão deixando,<br />
não, não deixam sombra alguma, em mim é que eles deixam.</p>
<p>Passeiam, à tarde, as belas na Avenida.<br />
São tão belas como as vejo, ou mais ainda?<br />
Só de passar, só de lembrar que passam, a beleza<br />
nelas se crava eternamente, adaga de ouro.</p>
<p>Passeiam na Avenida, à tarde, as belas,<br />
as sempre belas no futuro mais remoto.<br />
Pisam com sola fina e saltos altos<br />
de seus sapatos de cetim o tempo e o sonho.</p>
<p>À tarde, na Avenida, passeiam as belas,<br />
seios cuidadosamente ocultos mas arfantes,<br />
pernas recatadas, mas sabe Deus as linhas perturbadoras<br />
que criam ritmos, e o caminho branco é todo ritmo.</p>
<p>Na Avenida, passeiam as belas, à tarde,<br />
no alto da cidade que entre árvores se apresta<br />
para o sono das oito da noite e não sabe que as belas<br />
deixam insone, a noite inteira, uma criança deslumbrada.</p>
<p>No início dos anos sessenta, Drummond começa a colaborar para o programa Quadrante da Rádio Ministério da Educação, instituído por Murilo Miranda. No mesmo ano, uma perda, falece seu irmão Altivo. As publicações não param e ao mesmo tempo saem Lição das coisas, Antologia poética e A bolsa &amp; a vida. Em 1962 é demolida a cada da Rua Joaquim Nabuco 81, onde viveu durante 21 anos. Desde então, passa a residir em apartamento. Saem mais traduções suas de L&#8217;Oiseau bleu, de Maurice Maeterlinck e de Les Fouberies de Scapin, de Molière, a qual é encenada no Teatro do Tablado do Rio de Janeiro, e recebe o Prêmio Padre Ventura. No mesmo ano, aposenta-se como Chefe de Seção da DPHAN, após 35 anos de serviço público, recebendo carta de louvor do ministro da Educação, Oliveira Brito.</p>
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<p>A MOÇA FERRADA</p>
<p>Falam tanto dessa moça. Ninguém viu,<br />
todos juram.<br />
Cada qual conta coisa diferente,<br />
e todas concordantes.<br />
Dizem que à noite, ela. Ela o quê?<br />
E com quem? Com viajantes<br />
que somem sem rastro<br />
gabando no caminho<br />
os espasmos secretos (tão públicos) da moça.</p>
<p>Sobe a moça<br />
a ladeira da igreja<br />
para reza de todas as tardes.<br />
De branco perfeitíssimo,<br />
alta, superior, inabordável<br />
(luxúria de mil-folhas sob o véu,<br />
murmura alguém).<br />
À noite é que acontecem coisas<br />
no quarto escuro. Ganidos de prazer,<br />
escutados por quem? se ninguém passa<br />
na rua de altas horas-muro?</p>
<p>Pouco importa, a moça está marcada,<br />
marca de rês na anca, ferro em brasa<br />
de língua popular.</p>
<p>Nos anos sessenta continuam as publicações e prêmios: Tradução de Sult (Fome) de Knut Hamsun; Prêmio Fernando Chinaglia da União Brasileira de Escritores, e Luisa Cláudio de Sousa, do PEN Clube do Brasil, ambos por Lição das coisas; Obra completa, pela Aguilar; Antologia Poética em Portugal; In the Middle of the Road, nos Estados Unidos, Poesie, na Alemanha; Rio de Janeiro em prosa &amp; verso em parceria com Manuel Bandeira; Cadeira de Balanço; traduções de seus livros na Suécia, Praga e Argentina. Em 1968, seu longo e célebre Boitempo. Começa a escrever para o Jornal do Brasil em 1969. Drummond parece colher frutos de tanta dedicação à poesia. Publica Reunião, Caminhos de João Brandão e Seleta em prosa e verso, já no início dos anos setenta. E começando bem esta década nova, publica Poemas em Cuba.</p>
<p>Arquivo para consulta desta coluna em http://catilhadepoesia.wordpress.com</p>
<p>APONTAMENTOS</p>
<p>O deslizante cisne destas águas<br />
nem simbolista nem parnasiano;<br />
a tartaruga em si mesma trancada;<br />
as rêmiges de fogo no viveiro;<br />
o cris da areia em solas transeuntes;<br />
o guarda que de inerte se assemelha<br />
às árvores, e árvore é com sua farda;<br />
o macaco brincando de ser gente;<br />
a foto de jornal sobre o canteiro;<br />
essa flor que nasceu sem dar aviso<br />
nos ferros rendilhados do gradil;<br />
a caixa envidraçada de empadinhas<br />
e cocadas baianas logo à entrada;<br />
o ver, em si, como ato de viver;<br />
o perder-se e encontrar-se nas aléias,<br />
no entrelaçar de curvas sombreadas,<br />
de onde espero surgir alguma ninfa<br />
sem que surja nenhuma (e continuo<br />
procurando a metáfora do sonho);<br />
o barquinho alugado por sessenta<br />
minutos, e o perfume, que é gratuito,<br />
de resinosos troncos tutelares<br />
desta gentil paisagem recolhida;<br />
uma cantiga &#8211; ó minha Carabu&#8230;<br />
entoada à distância e logo extinta;<br />
o torpor que a meu ser eis se afeiçoa<br />
na vontade de relva, de reflexo,<br />
de sopro, de sussurro me tornar;<br />
a ausência de relógio e de colégio,<br />
de obrigação, de ação, de tudo vão.</p>
<p>Os anos setenta correm e Drummond publica muito: O poder ultrajovem, em Buenos Aires; As impurezas do branco; Menino antigo; Boitempo II; Lá bolsa y la vida, em Buenos Aires; Réunion, em Paris. Recebe o Prêmio de Poesia da Associação Paulista de Críticos Literários e se torna membro da American Association of Teachers os Spanish and Portuguese, nos Estados Unidos. Publica também Amor, amores e recebe o Prêmio Nacional Walmap de Literatura, e recusa, por motivo de consciência, o Prêmio Brasília de Literatura, da Fundação Cultural do Distrito Federal. Em 77, aparecem sua gravações de 42 poemas em dois long plays. Sai também UYBETBO BA CHETA (Sentimento do mundo) em Búlgaro. Em 79, viaja para Buenos Aires urgentemente, pois, sua filha Maria Julieta se encontrava doente.</p>
<p>O cabaço em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p> MORTO VIVENDO</p>
<p>Aquele morreu amando.<br />
Nem sentiu chegar a morte<br />
quando à vida se abraçava<br />
nem a morte o castigou.<br />
Enquanto beijava o amor<br />
a morte o foi transportando<br />
nos braços do amor gozoso<br />
sem desatar-se a cadeia<br />
de vida enganchada em vida.<br />
Aquele morreu? Quem sabe<br />
o que foi feito do amante<br />
alçado em coche de chamas<br />
ou carruagem de cinzas<br />
no ato pleno de amar?<br />
Não corrigiu a postura,<br />
não voltou aos intervalos<br />
de solitude a espera,<br />
não repetiu mais os gestos<br />
fora do ritmo amoroso.<br />
Morreu completo, no êxtase<br />
de estar no mundo e extramundo.<br />
Que sabe a morte do abraço<br />
paralisado na luz<br />
do quarto aberto ao amor<br />
e defeso a tudo mais?<br />
E se continua vivo<br />
e mais do que vivo amando<br />
sem paredes e sem ossos<br />
nos vazios espaciais,<br />
não sei como, não sei quem?</p>
<p>No início dos anos oitenta, Drummond recebe o Prêmio Estácio se Sá, de jornalismo, e Morgado Mateus, de poesia, em Portugal. Lança Paixão Medida, e faz uma noite de autógrafos na Livraria José Olympio junto com Um buquê de alcachofras de sua filha Maria Julieta Drummond de Andrade. Mais lançamentos em países, Estados Unidos e Holanda. Em 82, faz 80 anos. São realizadas exposições comemorativas na Biblioteca Nacional e na Casa Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Os principais jornais do Brasil publicam suplementos em homenagem ao poeta. Recebe o título Doutor Honoris Causa, pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Cartazes são feitos e distribuidos pela cidade e sai o imenso livro de cartas entre Drummond e Mário de Andrade. Publica também Carmina drummondiana, com seus poemas traduzidos para o latim. Após 41 anos, muda de editora, sai da José Olympio e assina com a Record. Despede-se também do Jornal do Brasil com a crônica &#8216;Ciao&#8217;.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>ANTEPASSADO</p>
<p>Só te conheço de retrato,<br />
não te conheço de verdade,<br />
mas teu sangue bole em meu sangue<br />
e sem saber te vivo em mim<br />
e sem saber vou copiando<br />
tuas imprevistas maneiras,<br />
mais do que isso: teu fremente<br />
modo de ser, enclausurado<br />
entre ferros de conveniência<br />
ou aranhóis da burguesia,<br />
vou descobrindo o que me deste<br />
sem saber que o davas, na líquida<br />
transmissão de taras e dons,<br />
vou te compreendendo, somente<br />
de esmerilar em teu retrato<br />
o que a pacatez de um retrato<br />
ou o seu vago negtivo,<br />
nele implícito e reticente,<br />
filtra de um homem; sua face<br />
oculta de si mesmo; impulso<br />
primitivo; paixão insone<br />
e mais trevosas intenções<br />
que jamais assumiram ato<br />
nem mesmo sombra de palavra,<br />
mas ficaram dentro de ti<br />
cozinhadas em lenha surda.<br />
Acabei descobrindo tudo<br />
que teus papéis não confessaram<br />
nem a memória de família<br />
transmitiu como fato histórico<br />
e agora te conheço mais<br />
do que a mim próprio me conheço,<br />
pois sou teu vaso e transcendência,<br />
teu duende mal encarnado.<br />
Refaço os gestos que o retrato<br />
não pode ter, aqueles gestos<br />
que ficaram em ti à espera<br />
de tardia repetição,<br />
e tão meus eles se tornaram,<br />
tão aderentes ao meu ser<br />
que suponho tu os copiaste<br />
de mim antes que eu os fizesse,<br />
e furtando-me a iniciativa,<br />
meu ladrão, roubaste-me o espírito.</p>
<p>Em 1986, Drummond escreve 21 poemas para a edição do centenário de Manuel Bandeira, &#8216;Bandeira a vida inteira&#8217;, com um disco. No mesmo ano, sofre um infarto e é internado durante 21 dias. No dia 31 de janeiro de 1987, escreve seu último poema, &#8216;Elegia a um tucano morto&#8217; que passa a intergrar o livro Farewell, último livro organizado por ele mesmo. Vira tema da Estação Primeira de Mangueira com o samba enredo &#8216;No reino das palavras&#8217; que vence o Carnaval. Porém, um duro golpe: Após dois meses internada, falece sua filha, Maria Julieta, vítima de câncer. &#8220;Assim terminou a vida da pessoa que mais amei no mundo&#8221;. Saem publicações em Cuba, Nova York. A vida estava terminando, porém, só por um instante.</p>
<p>http://cartilhadepoesia.wordpress.com</p>
<p>A HORA DO CANSAÇO</p>
<p>As coisas que amamos,<br />
as pessoas que amamos<br />
são eternas até certo ponto.<br />
Duram o infinito variável<br />
no limite de nosso poder<br />
de respirar a eternidade.</p>
<p>Pensá-las é pensar que não acabam nunca,<br />
dar-lhes moldura de granito.<br />
De outra matéria se tornam, absoluta,<br />
numa outra (maior) realidade.</p>
<p>Começam a esmaecer quando nos cansamos,<br />
e todos nos cansamos, por um ou outro itinerário,<br />
de aspirar a resina do eterno.<br />
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.<br />
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,<br />
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.</p>
<p>Do sonho de eterno fica esse gosto acre<br />
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.</p>
<p>Carlos Drummond de Andrade falece no dia 17 de agosto de 1987, exatamente 12 dias depois da morte de sua filha Maria Julieta. Drummond foi enterrado junto a ela no Cemitério São João Batista do Rio de Janeiro. O poeta deixa obras inéditas como O avesso das coisas; Moça deitada na grama; O amor natural; Viola de bolso III; Farewell; e Arte em exposição, além de crônicas, dedicatórias em verso e um texto para um espetáculo musical. Alguns de seus livros são logo reeditados, tanto no Brasil quanto em outros países. Em 88, &#8216;Poesia errante&#8217; recebe o Prêmio Padre Ventura pela Record. Em 89, Fernando Py organiza Auto-retrato e outras crônicas e uma série de novos livros. A Casa da Moeda homenageia o poeta emitindo uma nota de 50 cruzados.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>O AMOR ANTIGO</p>
<p>O amor antigo vive de si mesmo,<br />
não de cultivo alheio ou de presença.<br />
Nada exige nem pede. Nada espera,<br />
mas do destino vão nega a sentença.</p>
<p>O amor antigo tem raízes fundas,<br />
feitas de sofrimento e de beleza.<br />
Por aquelas mergulha no infinito,<br />
e por estas suplanta a natureza.</p>
<p>Se em toda parte o tempo desmorona<br />
aquilo que foi grande e deslumbrante,<br />
o antigo amor, porém, nunca fenece<br />
e a cada dia surge mais amante.</p>
<p>Mais ardente, mas pobre de esperança.<br />
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,<br />
e resplandece no seu canto obscuro,<br />
tanto mais velho quanto mais amor.</p>
<p>São muitas as homenagens. O Centro Cultural Banco do Brasil organiza uma grande exposição comemorativa dos 60 anos do livro Alguma poesia. Há palestras de Manuel Graña Etcheverry e Afonso Romano de Sant&#8217;Anna. Tônia Carrero encena &#8216;Mundo, vasto mundo&#8217; com o coral Garganta Profunda sob direção de Paulo Autran. Também no CCBB, é encenado o espetáculo &#8216;Crônica viva&#8217;, com adaptação de João Brandão e Pedro Drummond. Em 1993, o livro O amor natural recebe o Prêmio Jabuti e no dia 2 de julho de 1994, falece Dolores Morais Drummond de Andrade, viúva de Drummond. Em 1996, o livro Farewell também recebe o Prêmio Jabuti. Em 1998, é inaugurado o Museu de Território Caminhos Drummondianos em Itabira e no ano 2000, é inaugurada a Biblioteca Carlos Drummond de Andrade do Colégio Arnaldo de Belo Horizonte em Minas Gerais. Tudo isto dentre muitos outros movimentos.</p>
<p>http://cartilhadepoesia.wordpress.com</p>
<p>NO PEQUENO MUSEU SENTIMENTAL</p>
<p>No pequeno museu sentimental<br />
os fios de cabelo religados<br />
por laços mínimos de fita<br />
são tudo que dos montes hoje resta,<br />
visitados por mim, montes de Vênus.</p>
<p>Apalpo, acaricio a flora negra,<br />
e negra continua, nesse branco<br />
total do tempo extinto<br />
em que eu, pastor felante, apascentava<br />
caracóis perfumados, anéis negros,<br />
cobrinhas passionais, junto do espelho<br />
que com elas rimava, num clarão.</p>
<p>Os movimentos vivos no pretérito<br />
enroscam-se nos fios que em falam<br />
de perdidos arquejos renascentes<br />
em beijos que da boca deslizavam<br />
para o abismo de flores e resinas.</p>
<p>Vou beijando a memória desses beijos.</p>
<p>Eis que chegamos ao final de mais uma antologia. Nessas cinco semanas que passaram, percorremos a vida e a obra de um dos mais importantes poetas brasileiros. Drummond, menino franzino de Itabira. Itabira do Mato Dentro. Espero que tenham gostado de rever ou conhecer o trabalho deste grande poeta. Na semana que vem entraremos em um outro universo poético, com outras proposições, outras possibilidades, outros poemas. Salve Carlos Drummond de Andrade! Salve a poesia nacional! E sobretudo, Salve a poesia contemporânea.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>APARIÇÃO AMOROSA</p>
<p>Doce fantasma, por que me visitas<br />
como em outros tempos nossos corpos se visitavam?<br />
Tua transparência roça-me a pele, convida<br />
a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca<br />
um beijo recebeu de rosto consumido.</p>
<p>Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,<br />
mesma voz, mesmo timbre,<br />
mesmas leves sílabas,<br />
e aquele mesmo longo arquejo<br />
em que te esvaías de prazer,<br />
e nosso final descanso de camurça.</p>
<p>Então, convicto,<br />
ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve<br />
e continua existindo, puro som.</p>
<p>Aperto&#8230;o quê? A massa de ar em que te converteste<br />
e beijo, beijo intensamente o nada.</p>
<p>Amado ser destruído, por que voltas<br />
e és tão real assim tão ilusório?<br />
Já nem distingo mais se és sombra<br />
ou sombra sempre foste, e nossa história<br />
invenção de livro soletrado<br />
sob pestanas sonolentas.<br />
Terei um dia conhecido<br />
teu vero corpo como hoje o sei<br />
de enlaçar o vapor como se enlaça<br />
uma ideia platônica no espaço?</p>
<p>O desejo perdura em ti que já não és,<br />
querida ausente, a perseguir-me suave?<br />
Nunca pensei que os mortos<br />
o mesmo ardor tivessem de outros dias<br />
e no-lo transmitissem com chupadas<br />
de fogo aceso e gelo matizados.</p>
<p>Tua visita ardente em consola.<br />
Tua visita, ardente me desola.<br />
Tua visita, apenas uma esmola.</p>
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		<title>Tavinho Paes</title>
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		<pubDate>Thu, 30 Jun 2011 16:07:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cartilhadepoesia</dc:creator>
				<category><![CDATA[TODOS OS POETAS AQUI]]></category>

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		<description><![CDATA[Luiz Octávio Paes de Oliveira nasceu no Rio de Janeiro no dia 26 de janeiro de 1955, às 6:01hs, sendo, aquariano com ascendente em aquário. Nasceria na Pro-Mater, porém, acabou por ser pelas mãos de uma parteira, no Catumbi. Filho de Geraldo Paes de Oliveira e Wanda Machado de Oliveira. A família de sua mãe [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=86&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Luiz Octávio Paes de Oliveira nasceu no Rio de Janeiro no dia 26 de janeiro de 1955, às 6:01hs, sendo, aquariano com ascendente em aquário. Nasceria na Pro-Mater, porém, acabou por ser pelas mãos de uma parteira, no Catumbi. Filho de Geraldo Paes de Oliveira e Wanda Machado de Oliveira. A família de sua mãe veio de Cascadura, sua avó Odette era telefonista e seu avô Zeca era operário de um fábrica de sapatos. Anos depois, sua mãe veio a lhe contar que, talvez, o lugar onde nasceu, numa vila no Catumbi, fora posta abaixo para dar lugar ao Sambódromo. Muito bem, nestas próximas semanas, entraremos na vida desta ímpar figura, deste nosso poeta, o inquieto Tavinho Paes.</p>
<div>poeta novo da cartilha <a href="http://cartilhadepoesia.wordpress.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://cartilhadepoesia.wordpress.com</a></div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>O TAMBOR</div>
<div>a pele de um bicho esticada</div>
<div>a casca de uma árvore podada</div>
<div>o eco da caverna viva</div>
<div>ôca oca de pigmeus</div>
<div>uivando vozes da terra</div>
<div>girando no espaço</div>
<div>como obra de deus</div>
<div>em festa ou em guerra</div>
<div>seja de que lado for</div>
<div>lá estará ele</div>
<div><em>o tambor!</em></div>
<div>rufando a vitória</div>
<div>gingando na roda</div>
<div>com seu toque de coração</div>
<div>soando sinos de domingo</div>
<div>pingo de chuva no chão</div>
<div><em>batucada e explosão!</em></div>
<div>seja como for</div>
<div>lá está ele como seu humor</div>
<div>sua majestade: <em>o tambor!</em></div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div><em><em><span class="Apple-style-span" style="font-style:normal;">A avó, Odette, levava o pequeno Luiz Octávio nos terreirões dos Chorões de Cascadura e em blocos de rancho. Essas experiências com o choro e o rancho causavam muita impressão ao menino, tais marcas teriam grande importância depois. Seu avô costumava levá-lo ao Maracanã, a primeira vez tinha quatro anos de idade. O avô queria que fosse flamenguista, porém, num domingo de rodada dupla com um Flamengo e Vasco no horário principal, no jogo Botafogo e Madureira, o menino Luiz Octávio se encantou com um jogador do Botafogo fazendo estripulias com a bola, dribles inacreditáveis. O nome do jogador era Garrincha. Desde então, não teve mais dúvidas, torceria para o Botafogo. </span></em></em></div>
<div>
<div>.</div>
<div>Álvares de Azevedo para consulta no <a href="http://cartilhadepoesia.wordpress.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://cartilhadepoesia. wordpress.com</a></div>
<div>.</div>
<div>FISSÃO À FRIO</div>
<div>.</div>
<div>nada aristocrático: erístico sou</div>
<div>quando pelo que sei sedado estou</div>
<div>e à minha sede, um pingo de suor dou</div>
<div>numa cama de amor com poesia e dor</div>
<div>genético ingênuo gênio</div>
<div>jogo tudo no nada que tenho</div>
<div>genérico geômetra, cogito versos</div>
<div>no poema genoma que engenho</div>
<div>para cubista como a cruz do cristo</div>
<div>ressuscitar rabo de lagartixa ou fígado</div>
<div>equivocadamente, invocando o tagarela</div>
<div>que iludido pelo que na fala revela</div>
<div>acende velas e faz da cela capela</div>
<div>até que no amor em que o isolo</div>
<div>calado encontre no colo o elo</div>
<div>que o amamenta cozinha e come</div>
<div>dando-lhe vida com idade e nome</div>
<div>num poema que o destino atropela</div>
<div>com o calor que a palavra congela</div>
<div>miasmo o fantasma que me amansa</div>
<div>vedando a tomada mnemônica</div>
<div>do mínimo amor que em máximos amei</div>
<div>vedanta que me inventa nirvanas</div>
<div>com meu poema pé de lama</div>
<div>num mundo que nele diz-se maya</div>
<div>ao Mayakovski que desmaiado chego</div>
<div>qual Kant à moda do noema</div>
<div>fazendo poema noeseando um mesmo tema</div>
<div>em mitos que imito cena a cena</div>
<div>através de filmes que filmo vendo cinema</div>
</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>A avó de Tavinho, Ilka Paes de Almeida Leite era uma aristocrata. Mesmo tendo tido problema de catarata no fim da vida, sabia, pelo tato, as diferenças dos guardanapos de linho dos demais e corrigia tudo que enconrava de errado na mesa. Foi ela quem deu as primeiras leituras para Tavinho, Olavo Bilac, Fagundes Varella, Casimiro de Abreu, Fernando Pessoa e Vinicius. Tavinho decorava alguns poemas. A grande leitura mesmo foi Monteiro Lobato. Tavinho aprendeu a ler aos cinco anos e sua avó ainda enxergava. Ela lia com ele Os 12 Trabalhos de Hércules, As reinações de Narizinho, Saci e todos os outros. A querida avó também lhe apresentou aos Irmãos Grimm e La Fontaine. Ela também dava uns trocados escondidos para que Tavinho comprasse gibis. O Fantasma, O Brasinha, O Príncipe Valente. E por fim, teve mania de booklets da Editora Brugera (que ficava em Bonsucesso, e que depois viriam a influenciar suas primeiras publicações) de Marcial Lafuente Stephania e os clássimo Giselle Monfort da espiã nua que abalou Paris.</div>
<div>.</div>
<div>
<div><a href="http://pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div>.</div>
<div>BRINQUEDOS</div>
<div>.</div>
<div>poesia é uma lembrança</div>
<div>da infância</div>
<div>que toda criança</div>
<div>inocentemente não sabe</div>
<div>que um dia</div>
<div>há de se acabar</div>
<div>é por uma instintiva esperança</div>
<div>que essa mesma criança</div>
<div>inventa brinquedos</div>
<div>que serão seus segredos</div>
<div>com os quais</div>
<div>no futuro</div>
<div>continuará a brincar</div>
<div>a poesia é um brinquedo</div>
<div>que não quebra nas mãos</div>
<div>de quem com ele</div>
<div>souber brincar.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>O pai de Tavinho adorava cavalos, cassinos e carteados. Com a questão do jogo do pai, Tavinho acabou por morar em vários lugares durante a infância. Cascadura, Largo do Machado, Ipanema, Ramos, Méier, Flamengo, Grajaú, Madureira&#8230; Em um mês de sua vida, Tavinho, morando em uma casa na Aníbal de Mendonça em Ipanema, por exemplo, teve que se mudar da noite para o dia para uma casa em Jacarépaguá, onde havia um pomar, porém, em dois dias, teve que se mudar para a Urca. O pai de Tavinho teve o registro de jornalista cassado quando veio o não muito falado AI 15. Uns homens invadiram sua casa em Cascadura e levaram seu pai. Então, Tavinho, dos 13 aos 17, morou em Bonsucesso. Nessa época, estudava no antológico colégio Amaro Cavalcanti no Largo do Machado em Laranjeiras, perto do Catete.</div>
<div>.</div>
<div>
<div>Parla! em <a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div>.</div>
<div>HIERÓGLIFO</div>
<div>.</div>
<div>vou disparar num tiro</div>
<div>um novo profano encanto</div>
<div>antigo e atual de propósito</div>
<div>à propósito do que na poesia imanto</div>
<div>suponha que tomo em mãos um taco</div>
<div>e que na bola que rebato</div>
<div>canto de galo</div>
<div>matando cobra</div>
<div>mostrando o que falo ao falo</div>
<div>retornando calado à caverna</div>
<div>onde ao fogo uma sombra revela</div>
<div>um gigante como um elefante</div>
<div>que ionesco como rinoceronte</div>
<div>conclama os que são finos</div>
<div>a se tornarem elegantes</div>
<div>zombando sem um pingo de piedade</div>
<div>dos que são legalmente ignorantes</div>
<div>sem perdoar a estupidez</div>
<div>que os mantêm abobalhados</div>
<div>literalmente párias insignificantes</div>
<div>todos a caminho da sepultura</div>
<div>felizes filósofos farfalhando falas</div>
<div>arrulhando dogmas arrogantes</div>
<div>contando com dinheiro bastante</div>
<div>para fazerem as contas se pagarem</div>
<div>fazendo de conta</div>
<div>que viveram vidas nababescas</div>
<div>num ritmo alucinante</div>
<div>burro! cretino! tapado!</div>
<div>tal é o peixe que vejo</div>
<div>sentindo sede</div>
<div>fisgado no anzol</div>
<div>engasgado no molinete</div>
<div>prisioneiro por inteiro da rede</div>
<div>sufocando com tanto ar fora d&#8217;água</div>
<div>debatendo-se com as guelras molhadas</div>
<div>perto da morte e da frígida frigideira</div>
<div>em que será assado frito e temperado</div>
<div>antes de ser servido num banquete</div>
<div>a um preço melancolicamente salgado</div>
<div>que só será totalmente pago</div>
<div>se o jejum de quem o devorar</div>
<div>aprová-lo na língua e no paladar</div>
<div>para depois ejetá-lo</div>
<div>misturado como cimento e barro</div>
<div>obrado numa privada</div>
<div>de um banheiro fedorento</div>
<div>numa louça sem ralo</div>
<div>eis a esfinge que poema invento</div>
<div>com ávaras metáforas frescas</div>
<div>metonimicamente invocadas</div>
<div>em sacrifício retórico total</div>
<div>nele: a poesia é lótus na lama</div>
<div>flor imaculada</div>
<div>sem perfume</div>
<div>sem nada</div>
<div>decifra-a ou morra com ela</div>
<div>na língua encalacrada</div>
<div>ou ignore-a</div>
<div>veperino vate ignorante</div>
<div>e deixe toda a poesia</div>
<div>dita ou escrita</div>
<div>longe da tua maldita</div>
<div>burrice ululante</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>Tavinho morou por alguns anos, de favor, na casa de uma tia no Conjunto do Jardim Ipê na Avenida Itararé, próximo do que hoje é conhecido por Complexo do Alemão. Ali, Tavinho teve uma infâcia lúdica, soltando pipas e brincando na rua, na essência &#8220;moleque&#8221; que o Nelson Rodrigues tanto admirava. Perto de onde brincava, havia uma fábrica de calcinhas e sutiãs chamada Poesi! Tavinho admirava as operárias sendo revistadas antes de entrar na fábrica. Tinha naquilo uma espécie de experiência de encantamento com a mulher. Voltando aos livros, Tavinho teve muita impressão dos livros O Clube de Sr. Pickwick de Charles Dickens e Don Quixote de Cervantes. Um pouco de Machado também, e Eça de Queiroz em A Ilustre casa de Ramires.</div>
<div>.</div>
<div>
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<div>.</div>
<div>A NATUREZA DE DEUS</div>
<div>a natureza não se programa</div>
<div>mas ela reprograma interferências</div>
<div>em suas insondáveis programações</div>
<div>quer saber se isto é coisa de deus?</div>
<div>então pergunte aos vulcões</div>
<div>a que horas ferverão como o sol&#8230;</div>
<div>entenda-se com furacões e tornados</div>
<div>que vão para onde querem</div>
<div>e a qualquer hora mudam de lado&#8230;</div>
<div>informe-se com as tsunamis</div>
<div>e cuide-se para não ficar molhado&#8230;</div>
<div>não indague a natureza</div>
<div>a nada ela responde</div>
<div>a tudo: reage</div>
<div>invisível que nem miragem</div>
<div>não se expõe nem se esconde</div>
<div>magnífica mirabolante</div>
<div>máxima mínima selvagem</div>
<div>quer saber a quanto tempo é assim?</div>
<div>então pergunte ao passado</div>
<div>quando não havia nem pátria nem língua</div>
<div>e as grandes conquistas dos animais</div>
<div>tinham a ver com almoço e jantar</div>
<div>não adianta insistir nem regatear</div>
<div>a natureza não responde nenhuma pergunta</div>
<div>não fala nada sobre nada</div>
<div>a natureza é muda</div>
<div>a natureza muda</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>Tavinho era estudante da PUC nos anos setenta e lá conheceu muita gente interessante que teria grande influência em sua vida. Começou a escrever poemas por essa época. Os poemas eram para amigas de faculdade, com especial devoção para duas: Laís Chamma e Angela Góis. Um grupo interessante também se formou na PUC com Alfredo Herkenhoff, Demétrio de Oliveira Gomes e Rosana, que tinha um fusca que se chamava Valente Valentina, pois só andava com seis dentro. Tempos felizes. De grupos importantes na vida de Tavinho ainda havia o da boêmia do boteco Billy&#8217;s com Chicão, Kiki, Torquato Mendonça, Goga e Patrícia Cazé, que viria a ser noiva do Cazuza e chamou-o para a turma. A turma da Cobal também era boa com o Abel Silva, Aldir Blanc, João Paulo de Andrade, Antônio Pedro, Macalé e Tom Jobim. Vida que segue.</div>
<div>.</div>
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<div>Paranóia no <a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div>.</div>
<div>POESIA MENINA</div>
<div>.</div>
<div>amo as mulheres crianças</div>
<div>de alma infantil e cabeça na dança</div>
<div>com as quais posso brincar de médico</div>
<div>gosto das que topam soltar pipa</div>
<div>das que pulam amarelinhas</div>
<div>jogam bolas de gude</div>
<div>tomam banho de rio, mar e açude</div>
<div>reconhecendo nelas yaras</div>
<div>yemanjás, oxuns e iansãs</div>
<div>brincando de pera, uva e maça</div>
<div>amo as mulheres meninas</div>
<div>em especial: as bem agitadinhas</div>
<div>as capacitadas pelo espírito</div>
<div>a agirem livres na hora do rito</div>
<div>que nos rituais de passagem</div>
<div>passam a limpo</div>
<div>os segredos que omito</div>
<div>sem perderem a viagem</div>
<div>amo as mulheres que passam</div>
<div>pela minha vida</div>
<div>montadas num cavalo alado</div>
<div>em direção ao futuro</div>
<div>sempre presentes no meu passado</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>Tulipa Negra foi o primeiro livro mimeografado de Tavinho Paes. Publicado em 1973, foram cinquenta exemplares, sem design. Porém, após a publicação do primeiro, Tavinho descobriu que o mimeógrafo também imprimia imagens, fotos e desenhos. Assim, os livros sempre teriam algo a mais. Começava aí o início com o diálogo com as artes plásticas, que viria depois a influenciar nas performances. Os títulos saíam em ritmo acelerado: A maçã podre; Pelotão de fuzilamento; P(r)onto para A(r)mar; A Pin-up do Marinheiro; Hamburger do Coração; Frágil Tarzan e por aí vai, até 1975, quando Tavinho inaugura sua fase de booklets, pequenos livros de bolso, com Travesti Bossal. A partir de então, a produção poética variava entre os booklets e os planfletos. Tavinho vendia em tudo que era lugar e pagava todas as contas.</div>
<div>.</div>
<div>
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<div>.</div>
<div>JAZZ</div>
<div>.</div>
<div>não saberia precisar o preciso momento</div>
<div>em que meu impreciso sonho sonhou o seu</div>
<div>nem se foi de amor o sentimento</div>
<div>que senti como quem sente o tempo</div>
<div>soprar moinhos de um imaginário catavento</div>
<div>começando o que não tem começo</div>
<div>talvez nem lembre seu nome</div>
<div>te chamando com pronomes</div>
<div>pelos quais você responde</div>
<div>em nome do que nem tem nome</div>
<div>quem sabe o silêncio soe assobio</div>
<div>revelando o nome oculto</div>
<div>que te nomeia alguém sem nome</div>
<div>enquanto teu corpo dança</div>
<div>música de um sonho meu</div>
<div>sem perder a inocência</div>
<div>que de mim já se perdeu</div>
<div>sola este jazz de tesão paixão desejo</div>
<div>no sonho em que te vejo e me vejo</div>
<div>sem pedir nem mais nem menos</div>
<div>nem ao primeiro nem ao último beijo</div>
<div>jazz que me nina menino no colo</div>
<div>me adormece e me devolve</div>
<div>ao sonho meu que agora é seu</div>
<div>antes que eu acorde entre os acordes</div>
<div>e te ame só pela música que você me deu</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>A abordagem dos leitores nos anos setenta fazia parte do que Tavinho chama de &#8220;ato poético&#8221;. O poeta diz que o objeto-livro, sobretudo entre jovens poetas, praticamente não existia, e por isso, era necessária uma intervenção performática para as vendas. Tavinho desenvolveu bem isso. Chamava de &#8220;parangolé portátil&#8221; e tinha o tamanho de um maço de cigarro. Porém, Tavinho também fazia lançamentos. Em um deles, do booklet Luau! O lançamento foi no bar Lual que ficava na curva do Joá. Tavinho achou o bar à beira da falência e chamou uma penca de pessoas para um sarau com canjas de música. Divulgação bico calado no boca a boca pois a polícia não era nada fácil. Apareceram lá Caetano Veloso, Paula Gaetan (que viriam numa limosine) Marina Lima, Richtie, Romi de Vitti (a Marilyn Monroe do Leblon) Lobão e outros jovens ilustres. Cazuza que ainda não cantava ficou sendo o responsável pelas &#8220;especiarias proibidas&#8221;. Tudo ia bem, até o jornalista Nelson Mota deu uma nota numa coluna da qual era responsável. Resultado: às onze da noite já estava lotado. Neville D&#8217;Almeida e Bebel Gilberto não conseguiram entrar. Noite memorável. Coisas aconteceram ali que só quem esteve lá sabe.</div>
<div>.</div>
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<div>.</div>
<div>CAÍ DO CÉU</div>
<div>.</div>
<div>eu sou a lira de um anjo festeiro</div>
<div>caí na terra, era noite de São João</div>
<div>assiti missa e casamento e quadrilha</div>
<div>o fogo da fogueira esquentou meu coração</div>
<div>fiquei na terra procurando um bom amigo</div>
<div>amei o vento e o vento vai para onde quer</div>
<div>as minhas flechas são as flechas do Cupido</div>
<div>quando chegam no alvo atingem alma de mulher</div>
<div>eu tenho asas de um anjo bagunceiro</div>
<div>sou brasileiro: eu me misturo na multidão</div>
<div>a minha luz é a de um sol de fevereiro</div>
<div>e o carnaval na rua é a minha procissão</div>
<div>se você quer que eu proteja o seu destino</div>
<div>faça-me amor com amor no coração</div>
<div>eu sou um anjo carente de carinho</div>
<div>seu eu cruzar o teu caminho</div>
<div>me pega</div>
<div>e me leva pela mão</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>Tavinho conheceu o mimeógrafo através de Jamari França, nos diretórios acadêmicos da PUC no início dos anos setenta. Ficou ainda mais fascinado quando descobriu que a máquina fora inventada pelo Thomas Edison, o inventor da lâmpada elétrica. &#8220;O mimeógrafo, para mim, era uma luz!&#8221;. O livros iam na linha de Preço da Passagem de Chacal e Travessa Bertalha de Charles Peixoto, porém, consta, sem tê-los visto os produziu pela primeira vez. A relação da Tavinho com as Artes Plásticas se deu muito através das revistas de arte que o Paulo Herkenhoff disponibilizava na pensão que morava em Botafogo com seu irmão Alfredo. Como não havia eventos de poesia, as exposições de fotografias eram um lugar para encontrar as pessoas, inclusive os poetas. Tavinho bebeu muito em Anna Bella Geiger, Ligia Pape, Ligia Clark, Vito Acconci, Josef Beyus e, sobretudo, em Chris Burden, que criou o conceito Art-Action. Sempre com a coisa de expor o corpo em suas proposições, assim, Tavinho pensava que expondo seu corpo na venda de seus livros, corria um risco maior ainda por causa da ditadura.</div>
<div>.</div>
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<div>.</div>
<div>AZUL</div>
<div>.</div>
<div>aviões e bombas voam como urubus</div>
<div>discos voadores levitam que nem hindus</div>
<div>morcegos escutam de longe</div>
<div>o que de perto nem enxergam</div>
<div>e as paixões humanas</div>
<div>quando não voam: cegam!</div>
<div>o sexo dos anjos está nas asas</div>
<div>como o de mulheres dando a luz</div>
<div>vampiros adoram virgens complicadas</div>
<div>preferem que elas tenham sangue azul</div>
<div>tudo que voa</div>
<div>vê lá de cima o que quer</div>
<div>mas só vento vai para onde quiser</div>
<div>assobia nas frestas</div>
<div>das portas e janelas</div>
<div>invisível como fantasma</div>
<div>sua alma vai e volta</div>
<div>será que vem do norte?</div>
<div>ou terá vindo do sul?</div>
<div>trará consigo a sorte</div>
<div>como traz paz para os hindus?</div>
<div>para muitos anunciará a morte</div>
<div>mas só para uns poucos</div>
<div>esta morte será azul</div>
<div>como o céu da terra</div>
<div>como a terra</div>
<div>azul</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>Certa vez, quando foi fazer um curso pré-vestibular em São Paulo, Tavinho, que estava com alguns planfletos nas mãos, estava no pátio da GAZETA e foi detido pela polícia nas escadarias da gazeta. Os inspetor não sabia do que se tratava e acabou por pedir que o removessem de lá. Levaram-no para o DOPS na Estação da Luz e o colocaram numa sala. Tavinho ficou lá por algumas horas, apavorado, quando sentiu vontade de ir ao banheiro. Foi até a porta e descobriu que ela sempre esteve aberta. Saiu da sala e perguntou a um homem cheio de pastas onde era o WC. O homem lhe mandou descer as escadas pois o banheiro do andar estava entupido. Tavinho desceu, não havia ninguém. Passou pelos corredores, sentinelas até chegar na saída. Foi embora sem ninguém ter notado.</div>
<div>.</div>
<div>
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<div>.</div>
<div>O MENSAGEIRO</div>
<div>.</div>
<div>quem vai te dizer</div>
<div>que <em>eu te amo</em></div>
<div>não há de ser</div>
<div>uma carta</div>
<div>um recado</div>
<div>uma fofoca</div>
<div>um telefonema</div>
<div>nem os versos</div>
<div>deste vago poema</div>
<div>quem vai te dizer</div>
<div>que <em>eu te amo</em></div>
<div>vai ser o tempo</div>
<div>o mensageiro</div>
<div>que nunca chega tarde</div>
<div>e sempre</div>
<div>pede a quem o aceita</div>
<div>para que tenha paciência</div>
<div>e o aguarde</div>
<div>ele é o mensageiro</div>
<div>que voa volúvel no vento</div>
<div>e leva consigo</div>
<div>o que num <em>eu te amo</em></div>
<div>longe das palavras</div>
<div>é puro sentimento</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>
<div>As primeiras parcerias musicais de Tavinho foram meio forçadas, com o cantor Léo Jaime. Tavinho gostava de rock e tinha desejos de escrever algum tipo de jazz, mas não entendia muito de letras de música. Assim nasceu Enfant Terrible, gravada pelo Eduardo Dusek. Tavinho tinha um grupo de performance chamado Poema Terror, com Torquato Mendonça, Demétrio de Oliveira Gomes, Divana, Soninha Toda Pura e Steve Quest. Depois disso compôs, em parceria tripla, Gata Todo Dia, gravada pela Marina Lima. O dinheiro pintou e Tavinho gostou da ideia. Até que na virada de 82 para 83, apareceu um de seus grandes parceiros, Arnaldo Brandão. Ele já tinha musicado um poema de um livreto de Tavinho, O Caso de Jane e Julia e a parceria firmou. Daí vieram Rádio Blá, Totalmente Demais, Renascença Rock, Carência Não!, Partido Verde Alemão e Plic-Plic.</div>
<div>.</div>
<div>Carta ao primeiro em <a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div>.</div>
<div>UTILIDADE</div>
<div>.</div>
<div>se a poesia não existisse</div>
<div>as borboletas não sairiam dos casulos</div>
<div>o zero seria nulo</div>
<div>as flores perderiam seus odores</div>
<div>o arco-íris não teria sete cores</div>
<div>nem haveria sol na lua</div>
<div>se o poema não existisse</div>
<div>amar seria tão triste</div>
<div>quanto um deserto sem oásis</div>
<div>ou um luar sem eclipse</div>
<div>se o poeta não existisse</div>
<div>as musas não seriam lindas</div>
<div>os amantes não amariam o próximo</div>
<div>e o próximo amor seria o último</div>
<div>talvez a poesia só exista</div>
<div>para derreter corações de gelo</div>
<div>afinar o piano humano</div>
<div>ser humana e sacana</div>
<div>sentimental como o medo</div>
<div>no dia a dia, sua serventia</div>
<div>é das mais vulgares</div>
<div>ela invoca e coloca</div>
<div>os imbecis e os idiotas</div>
<div>bem junto de seus pares</div>
<div>tranquilamente</div>
<div>em seus devidos lugares</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>Moacyr Albuquerque foi outro grande parceiro musical de Tavinho, com quem fez &#8216;Rumba Louca&#8217;, gravada pela Gal Costa e Com Certeza, gravada pela Maria Bethânia. Tânia Alves, Mariana também foram cantoras que gravaram músicas de Tavinho. Nesse momento, meio dos anos 80, Tavinho já é bem conhecido como letrista e, por isso, procurado também. Trabalhou também com Marina Lima por alguns anos, que gravou &#8216;Acho que dá&#8217;, dentre outras. Tavinho tinha mais ou menos umas dez canções realmente gravadas, só que oito delas estavam censuradas. &#8216;Totalmente Demais&#8217; por &#8220;apologia ao homossexualismo&#8221;. Em 1985, Tavinho e Arnaldo Brandão criam o Hanói Hanói e regravam a música, que é novamente censurada por &#8220;apologia às drogas&#8221;. Até que Caetano Veloso fez um show no Copacabana Palace cantando a música, aparecendo na TV Cultura. Tavinho era apresentado à classe média e à pequena burguesia. Nessa época era editor d&#8217;O Pasquim e iniciou uma campanha &#8220;ricos podem ouvir, pobre não pode?&#8221;, pela liberação da música. Vem mais por aí.</div>
<div>.</div>
<div>
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<div>.</div>
<div>ENIGMA-ME</div>
<div>.</div>
<div>diga que não sabe</div>
<div>porque gosta de mim</div>
<div>que não compreende</div>
<div>como sou quem sou</div>
<div>que não sabe onde vai</div>
<div>nem porque contigo vou</div>
<div>verifique e indique problemas</div>
<div>que eu nem sei se tenho</div>
<div>chama-me de maluco</div>
<div>confuso e inseguro</div>
<div>provando a + b</div>
<div>que eu não me entendo</div>
<div>nem me compreendo</div>
<div>acusa-me de doente demente</div>
<div>acuda-me com sua ajuda impaciente</div>
<div>reclama do meu jeito de ser</div>
<div>cria-me um mistério</div>
<div>que eu não possa resolver</div>
<div>e faz amor comigo</div>
<div>decifrando minha esfinge</div>
<div>enxergando o que não posso ver</div>
<div>vem, amor que me domina</div>
<div>apresenta-me à minha própria sina</div>
<div>confunda a anima que me anima</div>
<div>corrói-me de ciúmes</div>
<div>domina-me com mandingas</div>
<div>me execra, me arranha e me xinga</div>
<div>torna-me teu teorema</div>
<div>e por amor ao poema: enigma-me!</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>Sexy Yemanjah foi tirada de um livreto por Pepeu Gomes e teve muito sucesso, chegou a abrir a novela Mulheres de Areia. Em 1989, logo após o enterro de seu pai, Cazuza convidou o poeta para um fim-de-semana na casa da Fazenda Inglesa, com uma turma na qual estava a atriz Maria Zilda Bethlen, Fernando Gabeira e Ezequiel Neves. Na ocasião, Tavinho Paes foi indicado para escrever sua biografia e apresentado ao editor Caio Graco (Brasiliense) que já tinha um contrato para o tal livro, sob o título de 13 anos de Loucura. Para evitar a pressão o editor pagou uma ida de Tavinho a Paris, durante o bicentenário da Revolução Francesa, viajando num avião com Anna Maria Tornaghi e Joãozinho 30&#8230; Quando ele voltou, a família fez o que pode para evitar que tal projeto fosse realizado. No início de 1994, depois de um acordo de cavalheiro com João Araújo, o problema acabou e tavinho teve a sorte de voltar ao sistema Globo de Rádio e Televisão, abrindo a novela das 8, Mulheres de Areia com a canção Sexy Yemanjah.<br />
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<div>.</div>
<div>CIDADE GRANDE</div>
<div>.</div>
<div>num solitário escritório</div>
<div>vedado à vidro fumê</div>
<div>no último piso</div>
<div>do suntuoso arranha-céus</div>
<div>no centro de uma grande cidade</div>
<div>em pleno século vinte e um</div>
<div>um executivo excelente</div>
<div>contente em ser gerente</div>
<div>subitamente</div>
<div>sente-te gente</div>
<div>encerrando o expediente</div>
<div>telefonando à portaria</div>
<div>para saber se no térreo</div>
<div>faz chuva</div>
<div>ou brilha um sol</div>
<div>artificial</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>De volta de Paris, 6 meses depois, Tavinho teve que lidar com vpários problemas, tal foi o desconforto nos pais de cazuza quando souberam que o poeta fizera tudo à sua maneira e resolveu escrever um livro sobre a geração de Cazuza. Foi um bafafá: fofoca de todo tipo prenunciavam um livro escandaloso, embora Tavinho insistisse que estaria usando o esquema da pequena e da grande morte  (tirado do livro A insustentável leveza do ser) e feito uma pesquisa sobre a AIDS (que se chamava preconceituosamente GRID &#8211; Gay Related Defficience Sindrome). Foram tantas as aporrinhações que Tavinho, sob acordo então sigiloso, teve que dar os originais à família. Consta que o pai do Cazuza não gostou e jogou tudo na lareira, mas, como nada foi oficialmente confirmado; pode ser, mesmo que muito remotamente, tais escritos<em> ainda possam vir a tona</em> e serem checados pelo público. Ainda há tal necessidade e quiçás tais originais (uma caixa com mais de 800 folhas manuscritas) não tenham se perdido&#8230;<br />
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<div>.</div>
<div>QUANDO O PODER DÁ AS CARTAS</div>
<div>.</div>
<div>quando o poder dá as cartas</div>
<div>falta um coringa no baralho</div>
<div>os ases se sentem reis</div>
<div>as rainhas andam com valetes</div>
<div>a sueca vira buraco</div>
<div>onde cada canastrão bate</div>
<div>pega o morto</div>
<div>e sai atrás de ouros</div>
<div>onde sobram copas, paus e espadas</div>
<div>até perder o que era pra ganhar</div>
<div>sem saber o que foi apostado</div>
<div>quando o poder dá as cartas</div>
<div>o baralho está sempre marcado</div>
<div>joga-se a paixão contra a ilusão</div>
<div>e quem tem as cartas na mão</div>
<div>nem sempre tem a sorte</div>
<div>ao seu lado</div>
<div>e trapaceia</div>
<div>por pura falta de opção</div>
<div>quando o poder dá as cartas</div>
<div>o jogo vira trabalho</div>
<div>a carta que cada um tem na manga</div>
<div>é sempre aquele coringa</div>
<div>que falta no baralho</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>Terminando o capítulo das letras de música com um dia de atraso. Tavinho se enveredou por um caminho muito interessante e corajoso. Em 1984, Xuxa saía da Manchete para ir para a Rede Globo. A emissora, que já tinha os direitos do desenho animado He-Men, comprou os direitos de She-Ra. Tavinho já havia feito alguma letras para Xuxa, porém, esta despontou como grande sucesso. A música foi feita Joe Athanásio e tinha uma roupagem bossa nova, porém, o produtor Guto Graça Melo a transformou em rock. Era mais fácil para Xuxa cantar. Tavinho não sabia no que ia dar, estava um pouco desconfiado, até receber o primeiro pagamento de direitos autorais. Ao receber o dinheiro, Tavinho atravessou a rua, entrou numa loja de passagens e dois dias depois foi torrar 20 mil dólares nos USA, indo de Nova York a Chicago, gastando literalmente tudo em 3 meses! A música entrou em algumas coletâneas até receber uma paródia de uma banda chamada Testículos de Mary. Depois disso, Xuxa desautorizou a veiculação da música em coletâneas. Desta música, saiu o jargão beijinho, beijinho, tchau, tchau.</div>
<div>.</div>
<div>
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<div>.</div>
<div>ROLAVA UMA GRANA</div>
<div>.</div>
<div>foi uma festa muito doida</div>
<div>bancada pela primeira dama</div>
<div>aniversário de uma amiga mui amiga</div>
<div>de carecas e peruas cafonas</div>
<div>rolava uma grana</div>
<div>que o sócio do marido emprestou</div>
<div>brindes de champagne</div>
<div>entre anões e mafiosos tarados</div>
<div>mil negócios dando certo</div>
<div>e outros tantos que iam sendo acertados</div>
<div>rolava uma grana</div>
<div>até pra quem nunca trabalhou</div>
<div>a elite da roça</div>
<div>zanzava num jardim encantado</div>
<div>som sertanejo na vitrola</div>
<div>e, no lago, jet-skis importados</div>
<div>rolava uma grana,</div>
<div>que ninguém sabe bem quem pagou</div>
<div>besame mucho</div>
<div>ministros dançam apaixonados&#8230;</div>
<div>um fantasma assina um cheque</div>
<div>e compra um carro para o seu namorado</div>
<div>rolava uma grana</div>
<div>e a festa era um problema de estado</div>
<div>tá tudo em cima e animado</div>
<div>mas o caçula ficou enciumado</div>
<div>acusou o irmão por tabela</div>
<div>e brigou com seu advogado&#8230;</div>
<div>rolava uma grana</div>
<div>dinheiro ali não valia nada</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>Em 1975, 76, Tavinho teve uma namorada chamada Cecília Baptista cujo apelido carinhoso era Crushinha (por causa do refrigerante), os primeiros grandes poemas foram para ela. Poucos anos depois, Tavinho foi praticamente casado com Luisa Ribeiro Costa com quem fez algumas performances e trabalhos de arte ao ar livre, infelizmente, sem registros. Nos ano 90, montou com ela a exposição C.EGO com booklets antigos e quadros. A música Linda Demais foi para ela. Em 1981, Tavinho se casa com Eliana Brito Sena com quem teve três filhos: Elvis Paes (obviamente por causa do Elvis Presley), Dianna Rosa (por causa da Dianna Ross com quem Tavinho dividiu um taxi em Nova York e depois foi a um churrasco de hamburgers em sua casa) e Pedro Gabriel (por causa de Peter Gabriel). Elvis é advogado, Dianna se formou em economia em Londres e Pedro estuda Direito e é surfista conhecido no Arpoador. Mais amor amanhã.</div>
<div>.</div>
<div>
<div>Como antes só que agora em <a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div>.</div>
<div>CINEMASCOPE</div>
<div>.</div>
<div>fazer cinema</div>
<div>é desenhar um poema</div>
<div>a nankim</div>
<div>sobre um cubo de gelo</div>
<div>que bóia à deriva</div>
<div>nas águas de um rio</div>
<div>em movimento</div>
<div>fazer cinema</div>
<div>é acreditar em desejos</div>
<div>que só e desejam</div>
<div>diante de estrelas cadentes</div>
<div>mergulhando incandescentes</div>
<div>onde o sol encontra seu poente</div>
<div>fazer cinema</div>
<div>é ter a alegria da prova dos nove</div>
<div>recolocando as estrelas</div>
<div>no céu na terra que se move</div>
</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>Getzi foi uma paixão efêmera que Tavinho viveu em 1981 em Nova York. Era alemã, tinha mais ou menos uns 26 anos e Tavinho passou dois meses com ela. Tavinho a conheceu numa sessão do NY Institute for Films and Art no Soho, quando Tavinho entrou numa cabine individual, por engano, e lá estava ela, vendo Ninotschka, com Greta Garbo. Moravam em um loft e todas as noites se divertiam em bares, porém, todas as quartas e sextas, o Joffrey Ballet ensaiava e, por isso, era quase impossível dormir. Foi a primeira vez que Tavinho conheceu uma mulher, de fato, independente. Era casada com um homem e tinha uma namorada e, jamais misturou as coisas. Certa vez, foram expulsos do Museu de História Natural. Getzi queria tirar uma foto (era proibido) em frente a um dos fósseis de dinossauro beijando na boca de Tavinho. O segurança chegou no meio do beijo. Getzi ria, agarrando Tavinho enquanto eram interrogados. O segurança desistiu. A despedida foi numa calçada do Central Park, com o sol refletindo nas lentes do Ray Ban de Getzi. Faltava só uma música e a cena estava pronta.</div>
<div>.</div>
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<div><a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div>.</div>
<div>ESTRELA GUIA</div>
<div>.</div>
<div>toda lua cheia</div>
<div>tem uma estrela guia</div>
<div>que quando brilha</div>
<div>enche a lua de prazer</div>
<div>é como o sol</div>
<div>dando luz ao meio-dia</div>
<div>ou um anjo da guarda</div>
<div>que veio te proteger</div>
<div>pode ser uma pessoa amiga</div>
<div>uma alma gêmea</div>
<div>um fã</div>
<div>um grande amor</div>
<div>é sempre alguém</div>
<div>que te traz luz e alegria</div>
<div>ama tudo que você faz</div>
<div>vai aonde você for</div>
<div>se atrás de um grande homem</div>
<div>há sempre uma grande mulher</div>
<div>é porque sozinho</div>
<div>nesta vida</div>
<div>ninguém faz tudo que quer</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>Nos anos 80, Tavinho teve uma experiência muito interessante nos EUA. Passava um tempo em Nova York, na mesma viagem que conheceu Getzi, a alemã. Tinha apenas 320 dólares na carteira, o que lhe permitia passar, no máximo, uma semana. Porém, ficou quatro meses e meio. Como? Vendendo livretos na rua. Do Soho à Sutton Place e em áreas nobres do West Side. Nesta ocasião, viu o começo dos rappers com seus grandes rádios na rua. Dos livretos, Tavinho tinha dois preferidos: Bang the Boeing, sobre o acidente do boeing civil 007 da Korean Airlines, que fora abatido por caças ruas sobrevoando instalações soviéticas na península de Kamatshka, o qual causou desconforto em certos veteranos, e Too Soft, com poemas de amor. Nesta mesma viagem, houve um show do Lobão e os Ronaldos, onde, muitos cantaram o que estava no panfleto que haviam comprado. Tavinho usava máquinas de xerox para seus livretos. E assim caminhava.</div>
<div>.</div>
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<div><a href="http://cartilhadepoesia.wordpress.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://cartilhadepoesia.wordpress.com</a></div>
<div>.</div>
<div>SAUDADE</div>
<div>.</div>
<div>saudade é perfume raro</div>
<div>cheiro de gente</div>
<div>para quem tem faro</div>
<div>sentimento que independe</div>
<div>de consentimento</div>
<div>emoção que nunca é descartável</div>
<div>carta que sente falta do baralho</div>
<div>saudade é chuva</div>
<div>que só chove no molhado</div>
<div>assunto delicado</div>
<div>que não dá para negociar</div>
<div>ninguém leva vantagem</div>
<div>em esquecer</div>
<div>de quem deve lembrar</div>
<div>nem com quem deve sonhar</div>
<div>mas, será que há alguém</div>
<div>que tem coragem de sonhar</div>
<div>com alguém que ama</div>
<div>&#8230;e acordar?</div>
<div>neste mundo existem milhões</div>
<div>que nunca disseram a ninguém</div>
<div>EU TE AMO</div>
<div>além de outros zilhões</div>
<div>que nunca ouviram isto de alguém</div>
<div>e mesmo assim</div>
<div>saudade todo mundo tem</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>Nos anos 2000, Tavinho promoveu uma série de eventos de poesia, dentre eles o Poesia Voa, no Circo Voador. Participou do grupo que formou o CEP 20000 que até hoje resiste da cena carioca. Também participou do coletivo Voluntários da Pátria ao lado de outros artistas, apresentando-se em diversos lugares O fato interessante nisso tudo é que publicou seu primeiro livro de poesia em uma editora em 2007, os Momossexuais, com poemas e letras de música, inclusive, marchinhas. Um ano depois publicou Buzinaí Naif, ambos os livros pela Ibis Libris. Depois, publicou uma série de livretos: Paixão Inventada, Facebook e outros, jamais deixando de publicar em sua forma primeira, os livros pessoais, como objetos de arte.</div>
<div>.</div>
<div>
<div><a href="http://pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div>.</div>
<div>NO MAR DO AMOR</div>
<div>.</div>
<div>pode ser</div>
<div>que no mar</div>
<div>o amor flutue</div>
<div>como ondina</div>
<div>na espuma</div>
<div>da onda que quebra</div>
<div>quando sua onda te pega</div>
<div>você tem que decidir</div>
<div>se afunda ou se navega</div>
<div>conforme as ondas</div>
<div>e a resistência do cais</div>
<div>o amor do teu mar</div>
<div>com seu leva-e-traz</div>
<div>quando resolve te pegar</div>
<div>faz com que você</div>
<div>queira se afogar</div>
<div>independente das marés</div>
<div>das caravelas e das galés</div>
<div>vai ser nesse mar revolto</div>
<div>que você se encontrará</div>
<div>cara a cara contigo mesmo</div>
<div>com quem pensa que no fundo és</div>
<div>e com aquele netuno</div>
<div>que te desobedecerá</div>
<div>abre teu peito e ama</div>
<div>a sereia que lhe encantar</div>
<div>se ela não lhe fizer feliz</div>
<div>nem contigo gozar</div>
<div>pelo menos com ela</div>
<div>vê se aprende a nadar</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>Conheci Tavinho Paes numa pizzaria no Leblon onde havia o sarau Corujão da Poesia. Fui apresentado pelo João Luiz Sousa que me disse: &#8220;Você conhece o Tavinho Paes? Uma lenda vida da poesia&#8221;. Falei uns poemas lá e ficamos amigos. Logo o inclui no grupo de poesia pela internet, e ele amou. Me disse algo sobre cartilhas para o ensino médio. Por causa dele criei o blog <a href="http://cartilhadepoesia.wordpress.co/" rel="nofollow" target="_blank">http://cartilhadepoesia.wordpress.</a><a href="http://cartilhadepoesia.wordpress.com/" rel="nofollow" target="_blank">com</a>, onde armazeno tudo para consulta. Passei a encontrá-lo em vários lugares. É muito importante haver poetas, como ele, que dialogam com as novas gerações, mostra para o jovem que é possível, estimula. E assim terminamos mais uma antologia, espero que tenham gostado de conhecer um pouco da poesia desta grande figura que dedica sua vida ao fazer poético constante. Semana que vem entraremos em um outro universo poético, outros poemas, outras proposições.</div>
<div>.</div>
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<div><a href="http://pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div>.</div>
<div>SERENATA</div>
<div>.</div>
<div>absolutamente de quatro por você</div>
<div>não posso te esquecer</div>
<div>exijo você de volta</div>
<div>e sua vida ao meu lado</div>
<div>ultrapassamos nossos limites</div>
<div>já que ultrapassados por eles</div>
<div>somos dois fracassados</div>
<div>cada um ao seu modo</div>
<div>cada qual com seu passado</div>
<div>pode chamar de orgulho bobo</div>
<div>esse meu pedido de socorro</div>
<div>expresso como um grito de agonia</div>
<div>nesta serenata fria</div>
<div>que canto</div>
<div>enquanto sofrendo morro</div>
<div>morro de amores por você</div>
<div>sem querer poder te dizer</div>
<div>que tudo que eu quero de ti</div>
<div>é o fogo do teu jogo</div>
<div>só assim acabo de vez</div>
<div>com esse sufoco</div>
<div>só assim resgato em mim</div>
<div>o que sempre fui</div>
<div>deixando de ser</div>
<div>este incomodo estorvo</div>
<div>só assim recuperarei o fôlego</div>
<div>de volta à tona de meu íntimo abismo</div>
<div>até que por amor</div>
<div>me deixe afogar de novo</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>.</div>
</div>
</div>
</div>
</div>
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<br />Filed under: <a href='http://cartilhadepoesia.wordpress.com/category/todos-os-poetas-aqui/'>TODOS OS POETAS AQUI</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/cartilhadepoesia.wordpress.com/86/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/cartilhadepoesia.wordpress.com/86/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/cartilhadepoesia.wordpress.com/86/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/cartilhadepoesia.wordpress.com/86/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/cartilhadepoesia.wordpress.com/86/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/cartilhadepoesia.wordpress.com/86/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/cartilhadepoesia.wordpress.com/86/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/cartilhadepoesia.wordpress.com/86/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/cartilhadepoesia.wordpress.com/86/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/cartilhadepoesia.wordpress.com/86/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/cartilhadepoesia.wordpress.com/86/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/cartilhadepoesia.wordpress.com/86/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/cartilhadepoesia.wordpress.com/86/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/cartilhadepoesia.wordpress.com/86/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=86&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>Vinicius de Moraes</title>
		<link>http://cartilhadepoesia.wordpress.com/2011/05/17/vinicius-de-moraes/</link>
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		<pubDate>Tue, 17 May 2011 13:35:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cartilhadepoesia</dc:creator>
				<category><![CDATA[TODOS OS POETAS AQUI]]></category>

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		<description><![CDATA[Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes nasceu no Rio de Janeiro, na Gávea, na Rua Lopes Quintas, no dia 19 de outubro de 1913. Filho de D. Lydia Cruz de Moraes e Clodoaldo Pereira da Silva Moraes. Seu pai era sobrinho do poeta, cronista e folclorista Mello Moraes Filho e neto do historiador Alexandre [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=81&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes nasceu no Rio de Janeiro, na Gávea, na Rua Lopes Quintas, no dia 19 de outubro de 1913. Filho de D. Lydia Cruz de Moraes e Clodoaldo Pereira da Silva Moraes. Seu pai era sobrinho do poeta, cronista e folclorista Mello Moraes Filho e neto do historiador Alexandre José de Mello Moraes. Vinicius nasceu pelas mãos de uma vizinha a quem o pai chamara para acompanhar o parto. Neste mês, percorreremos a poesia de um dos grandes e notáveis poetas brasileiros, sua trajetória, suas influências e algumas curiosidades que conheço. Vinicius foi o poeta que inaugurou este espécie de coluna há mais ou menos quatro anos. Até o Carnaval vamos de Vinicius. Saravah!</p>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">O Galo do parque em </span><a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#ff0000;">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</span></span></a></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">ÂNSIA</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Na treva que se fez em torno a mim<br />
Eu vi a carne.<br />
Eu senti a carne que me afogava o peito<br />
E me trazia à boca o beijo maldito.<br />
Eu gritei.<br />
De horror eu gritei que a perdição me possuía a alma<br />
E ninguém me atendeu.<br />
Eu me debati em ânsias impuras<br />
A treva ficou rubra em torno a mim<br />
E eu caí!</p>
<p>As horas longas passaram.<br />
O pavor da morte me possuiu.<br />
No vazio interior ouvi gritos lúgubres<br />
Mas a boca beijada não respondeu aos gritos.</p>
<p>Tudo quebrou na prostração.</p>
<p>O movimento da treva cessou ante mim.</p>
<p>A carne fugiu<br />
Desapareceu devagar, sombria, indistinta<br />
Mas na boca ficou o beijo morto.<br />
A carne desapareceu na treva<br />
E eu senti que desaparecia na dor<br />
Que eu tinha a dor em mim como tivera a carne<br />
Na violência da posse.</p>
<p>Olhos que olharam a carne<br />
Por que chorais?<br />
Chorais talvez a carne que foi<br />
Ou chorais a carne que jamais voltará?<br />
Lábios que beijaram a carne<br />
Por que tremeis?<br />
Não vos bastou o afago de outros lábios<br />
Tremeis pelo prazer que eles trouxeram<br />
Ou tremeis no balbucio da oração?<br />
Carne que possui a carne<br />
Onde o frio?<br />
Lá fora a noite é quente e o vento é tépido<br />
Gritam luxúria nesse vento<br />
Onde o frio?</p>
<p>Pela noite quente eu caminhei&#8230;<br />
Caminhei sem rumo, para o ruído longínquo<br />
Que eu ouvia, do mar.<br />
Caminhei talvez para a carne<br />
Que vira fugir de mim.</p>
<p>No desespero das árvores paradas busquei consolação<br />
E no silêncio das folhas que caíam senti o ódio<br />
Nos ruídos do mar ouvi o grito de revolta<br />
E de pavor fugi.</p>
<p>Nada mais existe para mim<br />
Só talvez tu, Senhor.<br />
Mas eu sinto em mim o aniquilamento&#8230;</p>
<p>Dá-me apenas a aurora, Senhor<br />
Já que eu não poderei jamais ver a luz do dia.</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Vinicius tinha três irmãos: Laetitia, Helius e Lygia. Lygia foi uma grande companheira de infância do jovem Vinicius. Sua bisavó escrevia poesia, assim como seu pai, Clodoaldo. Em 1916, a família se muda para Botafogo, para a rua Voluntários da Pátria. Um ano depois, a residência seria na rua da Passagem. Vinicius fez o primário na escola Afrânio Peixoto, junto com sua irmã Lygia. Em 1920, mais uma mudança, agora para a Real Grandeza. No mesmo ano, Vinicius é batizado na maçonaria por influência de seu avô materno. Consta que teve grande impressão na cerimônia. Dois anos depois, sua última residência em Botafogo, desta vez para a mesma Voluntários da Pátria. </span></span></p>
<div><a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://equivocos-pedrolago. blogspot.com</a></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">O POETA</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">A vida do poeta tem um ritmo diferente<br />
É um contínuo de dor angustiante.<br />
O poeta é o destinado do sofrimento<br />
Do sofrimento que lhe clareia a visão de beleza<br />
E a sua alma é uma parcela do infinito distante<br />
O infinito que ninguém sonda e ninguém compreende.</p>
<p>Ele é o etemo errante dos caminhos<br />
Que vai, pisando a terra e olhando o céu<br />
Preso pelos extremos intangíveis<br />
Clareando como um raio de sol a paisagem da vida.<br />
O poeta tem o coração claro das aves<br />
E a sensibilidade das crianças.<br />
O poeta chora.<br />
Chora de manso, com lágrimas doces, com lágrimas tristes<br />
Olhando o espaço imenso da sua alma.<br />
O poeta sorri.<br />
Sorri à vida e à beleza e à amizade<br />
Sorri com a sua mocidade a todas as mulheres que passam.<br />
O poeta é bom.<br />
Ele ama as mulheres castas e as mulheres impuras<br />
Sua alma as compreende na luz e na lama<br />
Ele é cheio de amor para as coisas da vida<br />
E é cheio de respeito para as coisas da morte.<br />
O poeta não teme a morte.<br />
Seu espírito penetra a sua visão silenciosa<br />
E a sua alma de artista possui-a cheia de um novo mistério.<br />
A sua poesia é a razão da sua existência<br />
Ela o faz puro e grande e nobre<br />
E o consola da dor e o consola da angústia.</p>
<p>A vida do poeta tem um ritmo diferente<br />
Ela o conduz errante pelos caminhos, pisando a terra e olhando o céu<br />
Preso, eternamente preso pelos extremos intangíveis.</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Em 1923, Vinicius faz a primeira comunhão. Um ano depois, começa a estudar no colégio Santo Inácio e começa a cantar no coro. Faz dois grandes amigos: Moacyr Veloso Cardoso de Oliveira e Renato Pompéia da Fonseca Guimarães, sobrinho de Raul Pompéia. A escrita inicia dentro de casa, fazendo quadras sobre cenas familiares. Vinicius, aos cinco anos, desenvolve uma interessante percepção de palco quando prepara uma &#8220;apresentação&#8221; para os colegas da rua, de surpresa, colocando um rolo de música no piano, fingindo tocar, quando todos passavam pela rua. Alvoroço na janela. No colégio, Vinicius se associa aos mais levados, dando trabalho às professoras, mesmo sendo um bom aluno. Aos cinco anos, também, Vinicius se esconde debaixo da mesa de jantar para alisar as pernas de uma amiga de sua mãe.</span></span></p>
<div><a href="http://cartilhadepoesia.wordpress.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://cartilhadepoesia.wordpress.com</a></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">A QUE HÁ DE VIR</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Aquela que dormirá comigo todas as luas<br />
É a desejada de minha alma.<br />
Ela me dará o amor do seu coração<br />
E me dará o amor da sua carne.</p>
<p>Ela abandonará pai, mãe, filho, esposo<br />
E virá a mim com os peitos e virá a mim com os lábios<br />
Ela é a querida da minha alma<br />
Que me fará longos carinhos nos olhos<br />
Que me beijará longos beijos nos ouvidos<br />
Que rirá no meu pranto e rirá no meu riso.<br />
Ela só verá minhas alegrias e minhas tristezas<br />
Temerá minha cólera e se aninhará no meu sossego<br />
Ela abandonará filho e esposo<br />
Abandonará o mundo e o prazer do mundo<br />
Abandonará Deus e a Igreja de Deus<br />
E virá a mim me olhando de olhos claros<br />
Se oferecendo à minha posse<br />
Rasgando o véu da nudez sem falso pudor<br />
Cheia de uma pureza luminosa.<br />
Ela é a amada sempre nova do meu coração<br />
Ela ficará me olhando calada<br />
Que ela só crerá em mim<br />
Far-me-á a razão suprema das coisas.<br />
Ela é a amada da minha alma triste<br />
É a que dará o peito casto<br />
Onde os meus lábios pousados viverão a vida do seu coração<br />
Ela é a minha poesia e a minha mocidade<br />
É a mulher que se guardou para o amado de sua alma<br />
Que ela sentia vir porque ia ser dela e ela dele.</p>
<p>Ela é o amor vivendo de si mesmo.<br />
É a que dormirá comigo todas as luas<br />
E a quem eu protegerei contra os males do mundo.</p>
<p>Ela é a anunciada da minha poesia<br />
Que eu sinto vindo a mim com os lábios e com os peitos<br />
E que será minha, só minha, como a força é do forte e a poesia é do poeta.</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Fato interessante: Vinicius escrevia pequenos quartetos para os irmãos para dar de aniversário. Sempre o fazia. Péssimo aluno de matemática, certa vez, obrigou a irmã, Laetitia (ou Letícia) a namorar o sardento menino que lhe dava cola. De fato, a infância de Vinicius na Ilha do Governador foi muito importante. Ia para lá nos fins de semana. Era calmo e havia o mar. Havia também música e muitas figuras. Lá aprendeu a nadar e, nas areias de uma praia, debutou nas águas mornas do amor. No ginásio, fez amizade com os irmãos Paulo e Haroldo Tapajós, com quem começa a compor. Lá por 1927, monta com os amigos um coro e se apresenta em festinhas. Vinicius era muito esportivo, jogava no time de futebol do colégio Santo Inácio e também participava, como ator principal, de sketches teatrais nos fins de ano no colégio. Vinicius também se experimentava escrevendo peças para serem montadas no colégio. Numas delas, O Bilhete de Loteria, quase teve profundos problemas com os cardeais do Santo Inácio.</span></span></p>
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">MINHA MÃE</span></div>
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo<br />
Tenho medo da vida, minha mãe.<br />
Canta a doce cantiga que cantavas<br />
Quando eu corria doido ao teu regaço<br />
Com medo dos fantasmas do telhado.<br />
Nina o meu sono cheio de inquietude<br />
Batendo de levinho no meu braço<br />
Que estou com muito medo, minha mãe.<br />
Repousa a luz amiga dos teus olhos<br />
Nos meus olhos sem luz e sem repouso<br />
Dize à dor que me espera eternamente<br />
Para ir embora. Expulsa a angústia imensa<br />
Do meu ser que não quer e que não pode<br />
Dá-me um beijo na fronte dolorida<br />
Que ela arde de febre, minha mãe.</p>
<p>Aninha-me em teu colo como outrora<br />
Dize-me bem baixo assim: &#8211; Filho, não temas<br />
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.<br />
Dorme. Os que de há muito te esperavam<br />
Cansados já se foram para longe.<br />
Perto de ti está tua mãezinha<br />
Teu irmão, que o estudo adormeceu<br />
Tuas irmãs pisando de levinho<br />
Para não despertar o sono teu.<br />
Dorme, meu filho, dorme no meu peito<br />
Sonha a felicidade. Velo eu.</p>
<p>Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo<br />
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique<br />
Dize que eu parta, ó mãe, para a saudade.<br />
Afugenta este espaço que me prende<br />
Afugenta o infinito que me chama<br />
Que eu estou com muito medo, minha mãe.</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Vinicius, quando menino, despertou certo fascínio por cinema. Dirigia pequenos &#8220;filmes&#8221; com os irmãos em frente a um lençol branco e luz. Era um cinema de silhuetas cujas histórias eram quase sempre de boxe ou tiroteio. Vinicius também frequentava muito o cinema Guanabara. Também se dedicou ao desenho, chegando, inclusive, a elaborar um desenho animado com gravuras em série. Era a criatividade se desenvolvendo. Brincava de tudo com os irmãos. Formavam quadrilha, fumavam cigarro de goiaba, liam Conan Doyle. Em sua adolescência, Vinicius brigava muito e ensaiava namoricos com as meninas da rua. Não parava em casa. Em 1929, sua família muda-se definitivamente para a Ilha do Governador e, Vinicius, após período semi-interno no Santo Inácio, forma-se no ginásio e logo depois entra para a Faculdade de Direito.</span></span></p>
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">O POETA NA MADRUGADA</span></div>
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Quando o poeta chegou à cidade<br />
A aurora vinha clareando o céu distante<br />
E as primeiras mulheres passavam levando cântaros cheios.<br />
Os olhos do poeta tinham as claridades da aurora<br />
E ele cantou a beleza da nova madrugada.<br />
As mulheres beijaram a fronte do poeta<br />
E rogaram o seu amor.<br />
O poeta sorriu.<br />
Mostrou-lhes no céu claro o pássaro que voava<br />
E disse que a visão da beleza era da poesia<br />
O poeta tem a alegria que vive na luz<br />
E tem a mocidade que nasce da luz.<br />
As mulheres seguiram o poeta<br />
Oferecendo a tristeza do seu amor e a alegria da sua carne<br />
O poeta amou a carne das mulheres<br />
Mas não envelheceu no amor que elas lhe davam.<br />
O poeta quando ama<br />
É como a flor que murcha sem seiva<br />
Porque o amor do poeta<br />
É a seiva do mundo<br />
E se o poeta amasse<br />
Ele não viveria eternamente jovem, brilhando na luz.</p>
<p>Quando a nova madrugada raiou no céu distante<br />
O poeta já tinha partido<br />
E seguindo o poeta as mulheres de peitos fartos e de cântaros cheios<br />
Falavam de ardentes promessas de amor.</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Em 1929, Vinicius entra para a Faculdade de Direito do Catete e a família se muda para a Ilha do Governador. Tempos felizes. Nessa época a leitura dos clássicos foi intensa. Vinicius lia e passava aos irmãos. Dostoiévski, Tolstoi, Proust, Bernanos, Mauriac, Katherine Mansfield (autora que seria grande influência em sua obra), Lawrence e muitos outros. Vinicius já havia aceitado a condição de poeta. Na Faculdade de Direito, Vinicius continua a amizade com os amigos de colégio Renato Pompéia e Moacyr Velloso, e conhece aquele que seria uma das pessoas mais fundamentais na sua formação de poeta, o escritor Octávio de Faria. Foi Octávio quem primeiro viu e acreditou na poesia que havia em Vinicius. Octávio era escritor e jornalista. Também era filho do imortal Alberto de Faria, o qual também era sogro de Afrânio Peixoto e Alceu Amoroso Lima. Vinicius tinha em Octávio um mentor e grande amigo.</span></span></p>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">NO FIM DA FAIXA em </span><a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</span></a></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">ILHA DO GOVERNADOR</span></div>
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;">Esse ruído dentro do mar invisível são barcos passando<br />
Esse </span></span><em><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;">ei-ou</span></span></em><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;"> que ficou nos meus ouvidos são os pescadores esquecidos<br />
Eles vêm remando sob o peso de grandes mágoas<br />
Vêm de longe e murmurando desaparecem no escuro quieto.<br />
De onde chega essa voz que canta a juventude calma?<br />
De onde sai esse som de piano antigo sonhando a &#8220;</span></span><em><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;">Berceuse</span></span></em><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;">&#8220;?<br />
Por que vieram as grandes carroças entornando cal no barro molhado?</p>
<p>Os olhos de Susana eram doces mas Eli tinha seios bonitos<br />
Eu sofria junto de Susana &#8211; ela era a contemplação das tardes longas<br />
Eli era o beijo ardente sobre a areia úmida.<br />
Eu me admirava horas e horas no espelho.</p>
<p>Um dia mandei: &#8220;Susana, esquece-me, não sou digno de ti &#8211; sempre teu…&#8221;<br />
Depois, eu e Eli fomos andando… &#8211; ela tremia no meu braço<br />
Eu tremia no braço dela, os seios dela tremiam<br />
A noite tremia nos </span></span><em><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;">ei-ou</span></span></em><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;"> dos pescadores…<br />
Meus amigos se chamavam Mário e Quincas, eram humildes, não sabiam<br />
Com eles aprendi a rachar lenha e ir buscar conchas sonoras no mar fundo<br />
Comigo eles aprenderam a conquistar as jovens praianas tímidas e risonhas.<br />
Eu mostrava meus sonetos aos meus amigos &#8211; eles mostravam os grandes olhos abertos<br />
E gratos me traziam mangas maduras roubadas nos caminhos.</p>
<p>Um dia eu li Alexandre Dumas e esqueci os meus amigos.<br />
Depois recebi um saco de mangas<br />
Toda a afeição da ausência…</p>
<p>Como não lembrar essas noites cheias de mar batendo?<br />
Como não lembrar Susana e Eli?<br />
Como esquecer os amigos pobres?<br />
Eles são essa memória que é sempre sofrimento<br />
Vêm da noite inquieta que agora me cobre.<br />
São o olhar de Clara e o beijo de Carmem<br />
São os novos amigos, os que roubaram luz e me trouxeram.<br />
Como esquecer isso que foi a primeira angústia<br />
Se o murmúrio do mar está sempre nos meus ouvidos<br />
Se o barco que eu não via é a vida passando<br />
Se o </span></span><em><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;">ei-ou</span></span></em><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;"> dos pescadores é o gemido de angústia de todas as noites?</span></span></p>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;"><br />
</span></span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;"><br />
</span></span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;"><br />
</span></span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;">Vinicius de Moraes e Octávio de Faria viveram uma amizade intensa. Chegavam a andar quase que diariamente do centro da cidade à Gávea, à pé, discutindo questões relacionadas à morte, vida, Deus, o mal e outras coisas. Às vezes, ficavam tão cansados que dormiam na praia. Através de Octávio, Vinicius conheceu o poeta Augusto Frederico Schmidt, ficaram amigos. Na faculdade de Direito, Vinicius faz amizade com Mário Vieira de Mello, José Arthur da Frota Moreira e Almir Castro. Formou-se um grupo. Reuniam-se na casa de Vinicius ou no sítio de Octávio em Itatiaia. Certa vez, a sobrinha de Octávio, Maria Lucia Proença, ainda menina, perguntou a Octávio o que eles comiam nessas reuniões, Octávio respondeu: &#8220;Nada, só conversamos&#8221;. Ela compreenderia anos mais tarde.</span></span></span></p>
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">O CADAFALSO</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Eu caí de joelhos diante do amor transtornado do teu rosto<br />
Estavas alta e imóvel &#8211; mas teus seios vieram sobre mim e me feriram os olhos<br />
E trouxeram sangue ao ar onde a tempestade agonizava.<br />
Subitamente cresci e me multipliquei ao peso de tanta carne<br />
Cresci sentindo que a pureza escorria de mim como a chuva dos galhos<br />
E me deixava parado, vazio para a contemplação da tua face.<br />
Longe do mistério do teu amor, curvado, eu fiquei ante tuas partes intocadas<br />
Cheio de desejo e inquietação, com uma enorme vontade de chorar no teu vestido.<br />
Para desvendar as tuas formas nas minhas lágrimas<br />
Agoniado abracei-te e ocultei o meu sopro quente no teu ventre<br />
E logo te senti como um cepo e em torno a mim eram monges brancos em ofício de mortos<br />
E também &#8211; quem chorou? &#8211; Vozes como lamentações se repetindo.<br />
No horror da treva cravou-se em meus olhos uma estranha máscara de dois gumes<br />
E sobre o meu peito e sobre os meus braços, tenazes de fogo, e sob os meus pés piras ardendo.<br />
Oh, tudo era martírio dentro daquelas vozes soluçando<br />
Tudo era dor e escura angústia dentro da noite despertada!<br />
&#8220;Me salvem &#8211; gritei &#8211; me salvem que não sou eu!&#8221; &#8211; e as ladainhas repetia &#8211; me salvem que não sou eu!<br />
E veio então uma mulher como uma visão sangrenta de revolta<br />
Que com mão de gigante colheu o que de sexo havia em mim e o espremeu amargamente<br />
E que separou a minha cabeça violentameme do meu corpo.</p>
<p>Nesse momento eu tive de partir e todos fugiam aterrados<br />
Porque misteriosamente meu corpo transportava minha cabeça para o inferno&#8230;</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Aos vinte anos, Vincius se apaixona por uma moça burguesa paulista cujos pais não apreciavam a ideia dela se casar com um jovem formado, porém, desempregado e ainda indeciso sobre seu futuro. Houve uma ruptura, porém, o início de uma caminhada lírica. Em 1933, forma-se em Direito, finaliza o Curso de Oficial da Reserva e, estimulado por Octávio de faria, publica seu primeiro livro: O caminho para a distância. Dois anos depois, em 1935, seu primeiro grande êxito literário: o livro Forma e Exegese, com o qual ganha o Prêmio Felipe d&#8217;Oliveira, disputando com o Mar Morto de Jorge Amado. Agora estava mais maduro. Em 1936, publica o poema Ariana, a mulher e substitui Prudente de Moraes Neto no cargo de representante do Ministério da Educação junto à censura cinematográfica. Também conhece Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Ficam logo amigos. Nos dois primeiros livros, a incrível influência da poesia francesa em Arthur Rimbaud, Baudelaire, Mallarmé, André Gide e do tcheco Rainer Maria Rilke.</span></span></p>
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<div>A IMPOSSÍVEL PARTIDA</div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Como poder-te penetrar, ó noite erma, se os meus olhos cegaram nas luzes da cidade </span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">E se o sangue que corre no meu corpo ficou branco ao contato da carne indesejada?… </span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Como poder viver misteriosamente os teus recônditos sentidos </span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Se os meus sentidos foram murchando como vão murchando as rosas colhidas </span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">E se a minha inquietação iria temer a tua eloqüência silenciosa?… </span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Eu sonhei!&#8230; Sonhei cidades desaparecidas nos desertos pálidos </span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Sonhei civilizações mortas na contemplação imutável </span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Os rios mortos&#8230; as sombras mortas&#8230; as vozes mortas&#8230; </span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">…o homem parado, envolto em branco sobre a areia branca e a quietude na face&#8230; </span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Como poder rasgar, noite, o véu constelado do teu mistério </span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Se a minha tez é branca e se no meu coração não mais existem os nervos calmos </span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Que sustentavam os braços dos Incas horas inteiras no êxtase da tua visão?&#8230; </span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Eu sonhei!&#8230; Sonhei mundos passando como pássaros </span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Luzes voando ao vento como folhas </span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Nuvens como vagas afogando luas adolescentes&#8230; </span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Sons… o último suspiro dos condenados vagando em busca de vida&#8230; </span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">O frêmito lúgubre dos corpos penados girando no espaço&#8230; </span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Imagens&#8230; a cor verde dos perfumes se desmanchando na essência das coisas&#8230; </span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">As virgens das auroras dançando suspensas nas gazes da bruma </span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Soprando de manso na boca vermelha dos astros&#8230; </span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Como poder abrir no teu seio, oh noite erma, o pórtico sagrado do Grande Templo </span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Se eu estou preso ao passado como a criança ao colo materno </span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">E se é preciso adormecer na lembrança boa antes que as mãos desconhecidas me arrebatem?&#8230;</span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Em 1938, Vinicius publica o livro Novos Poemas, com o qual é agraciado com a primeira bolsa do Conselho Britânico para língua e literatura inglesa em Oxford, para onde parte em agosto do mesmo ano. Nesse período, conhece, na casa de Augusto Frederico Schmidt, outro que seria de enorme influência em sua vida, o poeta e compositor, Jayme Ovalle. Anos mais tarde, Vinicius entrevista Jayme Ovalle para o semanário Flan, ficaram dois dias dentro de um quarto de hotel onde conversaram sobre tudo. NUm dado momento, Vinicius perguntou a Jayme: &#8220;A Poesia, Ovalle, que é a Poesia?&#8221; e ele responde: &#8220;É a coisa mais importante do mundo. Todo mundo nasce com ela, porque ela é a própria vida. Todo mundo é criado com o dom da poesia, e só deixa de ser poeta porque perde a inocência. Quanto mais um homem cresce carregando, consigo a sua inocência, maior poeta ele é. No fundo, esse pessoal que se torna banqueiro, ou senador, ou Presidente da República, só faz isso porque deixou de ser poeta, ou porque é poeta frustrado.&#8221;</span></span></span></p>
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">VIAGEM À SOMBRA</span></div>
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Tua casa sozinha &#8211; lassidão dos devaneios, dos segredos. Frocos verdes de perfume sobre a malva penumbra (e a tua carne em pianíssimo, grande gata branca de fala moribunda) e o fumo branco da cidade inatingível, e o fumo branco, e a tua boca áspera, onde há dentes de inocência ainda.</p>
<p>És, de qualquer modo, a Mulher. Há teu ventre que se cobre, invisível, de odor marítimo dos brigues selvagens que eu não tive; há teus olhos mansos de louca, ó louca! e há tua face obscura, dolorosa, talhada na pedra que quis falar. Nos teus seios de juventude, o ruído misterioso dos duendes ordenhando o leite pálido da tristeza do desejo.</p>
<p>E na espera da música, o vaivém infantil dos gestos de magia. Sim, é dança! &#8211; o colo que aflora oferecido é a melodiosa recusa das mãos, a anca que irrompe à carícia é o ungido pudor dos olhos, há um sorriso de infinita graça, também, frio sobre os lábios que se consomem. Ah! onde o mar e as trágicas aves da tempestade, para ser transportado, a face pousada sobre o abismo?</p>
<p>Que se abram as portas, que se abram as janelas e se afastem as coisas aos ventos. Se alguém me pôs nas mãos este chicote de aço, eu te castigarei, fêmea! &#8211; Vem, pousa-te aqui! Adormece tuas íris de ágata, dança! &#8211; teu corpo barroco em bolero e rumba. &#8211; Mais! &#8211; dança! dança! &#8211; canta, rouxinol! (Oh, tuas coxas são pântanos de cal viva, misteriosa como a carne dos batráquios&#8230;)</p>
<p>Tu que só és o balbucio, o voto, a súplica &#8211; oh mulher, anjo, cadáver da minha angústia! &#8211; sê minha! minha! minha! no ermo deste momento, no momento desta sombra, na sombra desta agonia &#8211; minha &#8211; minha &#8211; minha &#8211; oh mulher, garça mansa, resto orvalhado de nuvem&#8230;</p>
<p>Pudesse passar o tempo e tu restares horizontalmente, fraco animal, as pernas atiradas à dor da monstruosa gestação! Eu te fecundaria com um simples pensamento de amor, ai de mim!</p>
<p>Mas ficarás com o teu destino.</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="color:#333333;font-family:Arial, Helvetica;"><span style="color:#333333;font-family:Arial, Helvetica;"><span style="color:#000000;font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Em 1939, Vinicius, casa-se por procuração com Beatriz Azevedo de Mello, sua primeira mulher. Tati, como era chamada, era de uma família de São Paulo. Vinicius, que estava em Oxford, em virtude da II Guerra Mundial, é obrigado a sair da Inglaterra e vai para Portugal. Lá encontra seu amigo Oswald de Andrade, com quem volta para o Brasil. A esta altura, Tati, já esperava seu primeiro filho, ou filha, Susana, que nasce em 1940. Susana nasceu na rua das Acácias, na Gávea. No mesmo ano, passa longa temporada em São Paulo, onde, torna-se amigo próximo de Mário de Andrade. Passa então a trabalhar no A Manhã como redator do Suplemento Literário, escrevendo, também, crítica de cinema. No Suplemento, também participavam Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Rineiro de Couto e Afonso Arinos de Melo Franco, orientados por Múcio Leão e Cassiano Ricardo. Vinicius ansiava por um trabalho que fosse mais livre.</span></span></span></p>
<div><a href="http://cartilhadepoesia.wordpress.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://cartilhadepoesia.wordpress.com</a></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">SONETO À LUA</span></div>
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</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div>
<p><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Por que tens, por que tens olhos escuros<br />
E mãos lânguidas, loucas e sem fim<br />
Quem és, quem és tu, não eu, e estás em mim<br />
Impuro, como o bem que está nos puros?</p>
<p>Que paixão fez-te os lábios tão maduros<br />
Num rosto como o teu criança assim<br />
Quem te criou tão boa para o ruim<br />
E tão fatal para os meus versos duros?</p>
<p>Fugaz, com que direito tens-me presa<br />
A alma que por ti soluça nua<br />
E não és Tatiana e nem Teresa:</p>
<p>E és tampouco a mulher que anda na rua<br />
Vagabunda, patética, indefesa<br />
Ó minha branca e pequenina lua!</span></span></p>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></span></div>
<div><span style="color:#000000;"><span style="color:#000000;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Vinicius buscava um trabalho que pudesse ser bem remunerado e lhe permitisse deixar a literatura mais livre. Muitas figuras da literatura se encontravam na diplomacia e, para lá, Vinicius foi. Gostava da ideia de viajar. Depois de longos e intensos cursos, em 1941, Vinicius submete-se à prova do Itamarati, porém, não passou. Em 1942, Vinicius participa dos debates sobre cinema mudo e cinema falado. Vinicius era a favor do primeiro. Os debates contaram com a participação de Ribeiro Couto, Orson Welles e madame Falconetti. No mesmo ano, nasce seus segundo filho, Pedro de Moraes. A pedido do presidente Juscelino Kubitschek, chefia uma caravana de escritores para Minas Gerais, onde, conhece e fica amigo dos mineiros Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Hélio Pelegrino. Muito mais. Também inicia, com Rubem Braga, a roda literária do Café Vermelhinho, onde, se misturam jovens arquitetos e artistas plásticos da época como Oscar Niemeyer, Carlos Leão, Alfredo Ceschiatti, Santa Rosa, Pancetti, Djanira e Bruno Giorgi. Frequenta também as domingueiras na casa de Anibal Machado. Faz um longa viagem ao nordeste acompanhando o escritor americano Waldo Frank e, conhece o poeta João Cabral de Melo Neto, de quem se torna amigo. Vinicius era ligado ao movimento de extrema direita Integralista, porém, após essa viagem ao nordeste, muda completamente sua visão política.</span></span></span></p>
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">POESIA E VIDA</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">A lua projetava o seu perfil azul<br />
Sobre os velhos arabescos das flores calmas<br />
A pequena varanda era como o ninho futuro<br />
E as ramadas escorriam gotas que não havia.</p>
<p>Na rua ignorada anjos brincavam de roda&#8230;<br />
- Ninguém sabia, mas nós estávamos ali.<br />
Só os perfumes teciam a renda da tristeza<br />
Porque as corolas eram alegres como frutos<br />
E uma inocente pintura brotava do desenho das cores</p>
<p>Eu me pus a sonhar o poema da hora.<br />
E, talvez ao olhar meu rosto exasperado<br />
Pela ânsia de te ter tão vagamente amiga<br />
Talvez ao pressentir na carne misteriosa<br />
A germinacão estranha do meu indizível apelo<br />
Ouvi bruscamente a claridade do teu riso<br />
Num gorjeio de gorgulhos de água enluarada.<br />
E ele era tão belo, tão mais belo do que a noite<br />
Tão mais doce que o mel dourado dos teus olhos<br />
Que ao vê-lo trilar sobre os teus dentes como um címbalo<br />
E se escorrer sobre os teus lábios como um suco<br />
E marulhar entre os teus seios como uma onda<br />
Eu chorei docemente na concha de minhas mãos vazias<br />
De que me tivesses possuído antes do amor.</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Em 1943, após muito estudar, Vinicius, enfim, passa para a carreira diplomática. No mesmo ano, a pedido de Manuel Bandeira, Otávio de Faria e Aníbal Machado, publica o livro Cinco Elegias. Vinicius colabora em vários jornais, com artigos e críticas de cinema e, em 1945, conhece o poeta Pablo Neruda. No mesmo ano, sofre um grave desastre em um hidro-avião no Uruguai, mas tudo sai bem. Até que em 1946 é chamado para servir no consulado de Los Angeles. A partir de então sua vida muda. Esse período é de extrema importância. Lá, conhece cineastas como Walt Disney, estrelas como Carmen Miranda, Aurora, músicos de jazz, participa de sets de filmagem. Estuda cinema com Orson Welles e Gregg Toland. Viaja com a família toda. Publica também o livro Poemas, Sonetos e Baladas com ilustrações de Carlos Leão. </span></span></p>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Do Chopp ao Suco de Laranja em </span><a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#3366ff;">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</span></span></a></div>
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">SONETO A KATHERINE MANSFIELD</span></div>
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">O teu perfume, amada &#8211; em tuas cartas<br />
Renasce, azul&#8230; &#8211; são tuas mãos sentidas!<br />
Relembro-as brancas, leves, fenecidas<br />
Pendendo ao longo de corolas fartas.</p>
<p>Relembro-as, vou&#8230; nas terras percorridas<br />
Torno a aspirá-lo, aqui e ali desperto<br />
Paro; e tão perto sinto-te, tão perto<br />
Como se numa foram duas vidas.</p>
<p>Pranto, tão pouca dor! tanto quisera<br />
Tanto rever-te, tanto! &#8230; e a primavera<br />
Vem já tão próxima! &#8230; (Nunca te apartas</p>
<p>Primavera, dos sonhos e das preces!)<br />
E no perfume preso em tuas cartas<br />
À primavera surges e esvaneces. </span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Em 1949, em Barcelona, o poeta João Cabral de Melo Neto tira, numa prensa manual que tinha, cinquenta exemplares do poema Pátria Minha. A esta altura, Vinicius se embrenha nos assuntos do cotidiano, com especial devoção ao amor, deixando de lado, aos poucos, o sentimento do sublime. No ano seguinte, viaja para o México para visitar seu amigo Pablo Neruda, que se encontrava gravemente enfermo. Nesta viagem, conhece o pintor David Siqueiros e reencontra seu grande amigo Di Cavalcanti. Porém, seu pai, Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, morre. Vinicius depois escreveria o belo &#8220;Elegia na morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes.&#8221; Recebe a notícia pelo telefone e começaria &#8220;A morte veio pelo interurbano, de repente, não tinha mais pai&#8221;. Retorna ao Brasil. Casamento conturbado. Um novo amor apareceria.</span></span></p>
<div><a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">O FALSO MENDIGO</span></div>
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;">Minha mãe, manda comprar um quilo de papel almaço na venda<br />
Quero fazer uma poesia.<br />
Diz a Amélia para preparar um refresco bem gelado<br />
E me trazer muito devagarinho.<br />
Não corram, não falem, fechem todas as portas a chave<br />
Quero fazer uma poesia.<br />
Se me telefonarem, só estou para Maria<br />
Se for o Ministro, só recebo amanhã<br />
Se for um trote, me chama depressa<br />
Tenho um tédio enorme da vida.<br />
Diz a Amélia para procurar a &#8220;Patética&#8221; no rádio<br />
Se houver um grande desastre vem logo contar<br />
Se o aneurisma de dona Ângela arrebentar, me avisa<br />
Tenho um tédio enorme da vida.<br />
Liga para vovó Neném, pede a ela uma idéia bem inocente<br />
Quero fazer uma grande poesia.<br />
Quando meu pai chegar tragam-me logo os jornais da tarde<br />
Se eu dormir, pelo amor de Deus, me acordem<br />
Não quero perder nada na vida.<br />
Fizeram bicos de rouxinol para o meu jantar?<br />
Puseram no lugar meu cachimbo e meus poetas?<br />
Tenho um tédio enorme da vida.<br />
Minha mãe estou com vontade de chorar<br />
Estou com taquicardia, me dá um remédio<br />
Não, antes me deixa morrer, quero morrer, a vida<br />
Já não me diz mais nada<br />
Tenho horror da vida, quero fazer a maior poesia do mundo<br />
Quero morrer imediatamente.<br />
Fala com o Presidente para fecharem todos os cinemas<br />
Não agüento mais ser censor.<br />
Ah, pensa uma coisa, minha mãe, para distrair teu filho<br />
Teu falso, teu miserável, teu sórdido filho<br />
Que estala em força, sacrifício, violência, devotamento<br />
Que podia britar pedra alegremente<br />
Ser negociante cantando<br />
Fazer advocacia com o sorriso exato<br />
Se com isso não perdesse o que por fatalidade de amor<br />
Sabe ser o melhor, o mais doce e o mais eterno da tua puríssima carícia.</span></span></p>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;"><br />
</span></span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;"><br />
</span></span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;"><br />
</span></span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;">Vinicius conheceu Lila Maria Esquerdo Bôscoli numa festa, através do cronista e amigo, Rubem Braga. &#8220;Vinicius, está é Lila, Lila, este é Vinicius, e seja o que Deus quiser&#8221;. Apaixonaram-se e, em 1951, se casam. Lila era irmã do jornalista e compositor Ronaldo Bôscoli, era acostumada à boêmia e à vida artística, se tornou uma grande parceira neste período. No mesmo ano, começa a colaborar para o jornal Última Hora, a convite de Samuel Wainer, como cronista diário e crítico de cinema. No ano seguinte, percorre as cidades mineiras compondo os trechos de Aleijadinho para um filme com seus primos José e Humberto Franceschi, encomendado pelo diretor Alberto Cavalcanti. Também é nomeado delegado junto ao Festival de Punta del Este, fazendo paralelamente sua cobertura para o Última Hora.</span></span></span></p>
<div><a href="http://pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">A PARTIDA</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Quero ir-me embora pra estrela<br />
Que vi luzindo no céu<br />
Na várzea do setestrelo.<br />
Sairei de casa à tarde<br />
Na hora crepuscular<br />
Em minha rua deserta<br />
Nem uma janela aberta<br />
Ninguém para me espiar<br />
De vivo verei apenas<br />
Duas mulheres serenas<br />
Me acenando devagar.<br />
Será meu corpo sozinho<br />
Que há de me acompanhar<br />
Que a alma estará vagando<br />
Entre os amigos, num bar.<br />
Ninguém ficará chorando<br />
Que mãe já não terei mais<br />
E a mulher que outrora tinha<br />
Mais que ser minha mulher<br />
É mãe de uma filha minha.<br />
Irei embora sozinho<br />
Sem angústia nem pesar<br />
Antes contente da vida<br />
Que não pedi, tão sofrida<br />
Mas não perdi por ganhar.<br />
Verei a cidade morta<br />
Ir ficando para trás<br />
E em frente se abrirem campos<br />
Em flores e pirilampos<br />
Como a miragem de tantos<br />
Que tremeluzem no alto.<br />
Num ponto qualquer da treva<br />
Um vento me envolverá<br />
Sentirei a voz molhada<br />
Da noite que vem do mar<br />
Chegar-me-ão falas tristes<br />
Como a querer me entristar<br />
Mas não serei mais lembrança<br />
Nada me surpreenderá:<br />
Passarei lúcido e frio<br />
Compreensivo e singular<br />
Como um cadáver num rio<br />
E quando, de algum lugar<br />
Chegar-me o apelo vazio<br />
De uma mulher a chorar<br />
Só então me voltarei<br />
Mas nem adeus lhe darei<br />
No oco raio estelar<br />
Libertado subirei.</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Ainda em 1952, Vinicius viaja para Paris e conhece o tradutor Jean Georges Rueff, com quem trabalha na tradução de Cinco Elegias, em Estrasbrugo. No ano seguinte, nasce seu terceiro filho, uma filha, Georgiana, filha de Lila. Cinq Elégies sai em edição com gravuras de Pierre Seguers. Vinicius, então, já era um conhecido bom poeta brasileiro. Liga-se de amizade com o poeta cubano Nicolás Guillén e, para um início promissor, compõe seu primeiro samba <em>Quando Tu Passas Por Mim</em>, música e letra. A convite de Joel Silveira, contribui para a revista Flan e para o jornal A Vanguarda. As viagens não param e Vinicius vai para Paris, novamente, só que desta vez como segundo secretário da Embaixada. Eis que Vinicius, começa a trabalhar na adaptação do mito de Orfeu e Eurídice para o teatro. Precisava de um músico. Já tinha ouvido falar de um jovem promissor chamado Antônio Carlos Jobim. Certa vez, o viu tocando numa boate e Copacabana, porém, a apresentação &#8220;oficial&#8221; foi feita por Lúcio Rangel. Recém apresentados, Vinicius explica o conceito da peça, como deveria ser a música, até que no fim, o jovem Antônio pergunta: &#8220;E não tem um dinheirinho nisso não?&#8221;, gafe, desfeita, começa a parceria.</span></span></p>
<div><a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">CANTICO</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Não, tu não és um sonho, és a existência<br />
Tens carne, tens fadiga e tens pudor<br />
No calmo peito teu. Tu és a estrela<br />
Sem nome, és a morada, és a cantiga<br />
Do amor, és luz, és lírio, namorada!<br />
Tu és todo o esplendor, o último claustro<br />
Da elegia sem fim, anjo! mendiga<br />
Do triste verso meu. Ah, fosses nunca<br />
Minha, fosses a idéia, o sentimento<br />
Em mim, fosses a aurora, o céu da aurora<br />
Ausente, amiga, eu não te perderia!<br />
Amada! onde te deixas, onde vagas<br />
Entre as vagas flores? e por que dormes<br />
Entre os vagos rumores do mar? Tu<br />
Primeira, última, trágica, esquecida<br />
De mim! És linda, és alta! és sorridente<br />
És como o verde do trigal maduro<br />
Teus olhos têm a cor do firmamento<br />
Céu castanho da tarde &#8211; são teus olhos!<br />
Teu passo arrasta a doce poesia<br />
Do amor! prende o poema em forma e cor<br />
No espaço; para o astro do poente<br />
És o levante, és o Sol! eu sou o gira<br />
O gira, o girassol. És a soberba<br />
Também, a jovem rosa purpurina<br />
És rápida também, como a andorinha!<br />
Doçura! lisa e murmurante&#8230; a água<br />
Que corre no chão morno da montanha<br />
És tu; tens muitas emoções; o pássaro<br />
Do trópico inventou teu meigo nome<br />
Duas vezes, de súbito encantado!<br />
Dona do meu amor! sede constante<br />
Do meu corpo de homem! melodia<br />
Da minha poesia extraordinária!<br />
Por que me arrastas? Por que me fascinas?<br />
Por que me ensinas a morrer? teu sonho<br />
Me leva o verso à sombra e à claridade.<br />
Sou teu irmão, és minha irmã; padeço<br />
De ti, sou teu cantor humilde e terno<br />
Teu silêncio, teu trêmulo sossego<br />
Triste, onde se arrastam nostalgias<br />
Melancólicas, ah, tão melancólicas&#8230;<br />
Amiga, entra de súbito, pergunta<br />
Por mim, se eu continuo a amar-te; ri<br />
Esse riso que é tosse de ternura<br />
Carrega-me em teu seio, louca! sinto<br />
A infância em teu amor! cresçamos juntos<br />
Como se fora agora, e sempre; demos<br />
Nomes graves às coisas impossíveis<br />
Recriemos a mágica do sonho<br />
Lânguida! ah, que o destino nada pode<br />
Contra esse teu langor; és o penúltimo<br />
Lirismo! encosta a tua face fresca<br />
Sobre o meu peito nu, ouves? é cedo<br />
Quanto mais tarde for, mais cedo! a calma<br />
É o último suspiro da poesia<br />
O mar é nosso, a rosa tem seu nome<br />
E recende mais pura ao seu chamado.<br />
Julieta! Carlota! Beatriz!<br />
Oh, deixa-me brincar, que te amo tanto<br />
Que se não brinco, choro, e desse pranto<br />
Desse pranto sem dor, que é o único amigo<br />
Das horas más em que não estás comigo.</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">No dia 25 de setembro de 1956, estreia Orfeu da Conceição no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Com cenário de Oscar Niemeyer, música de Antônio Carlos Jobim, texto e letras de Vinicius de Moraes, com Haroldo Costa como Orfeu e Luiz Bonfá executando o violão do mesmo. Lila Bôscoli fez os figurinos e a coreografia dos bailarinos de Lina de Luca. Carlos Scliar fez os toques finais na arte e da edição em livro. A peça ficou em cartaz apenas um mês, porém, com grande impressão a todos, sobretudo aos jovens que assistiram. Desta peça saíram canções que se tornaram clássicos como Se Todos Fossem Iguais a Você, Mulher, Sempre Mulher e Lamento no Morro. Foi lançado um disco pela Odeon com Roberto Paiva cantando. Ao mesmo tempo, iniciam-se os trabalhos para a adaptação de Orfeu para o cinema pelo diretor francês Marcel Camus. Em 1956, nasce seu quarto filho, ou sua terceira filha, Luciana de Moraes. </span></span></p>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">O visitante em </span><a href="http://pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#3333ff;">http://pedrolago.blogspot.com</span></span></a></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">ROSÁRIO</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">E eu que era um menino puro<br />
Não fui perder minha infância<br />
No mangue daquela carne!<br />
Dizia que era morena<br />
Sabendo que era mulata<br />
Dizia que era donzela<br />
Nem isso não era ela<br />
Era uma moça que dava.<br />
Deixava&#8230; mesmo no mar<br />
Onde se fazia em água<br />
Onde de um peixe que era<br />
Em mil se multiplicava<br />
Onde suas mãos de alga<br />
Sobre meu corpo boiavam<br />
Trazendo à tona águas-vivas<br />
Onde antes não tinha nada.<br />
Quanto meus olhos não viram<br />
No céu da areia da praia<br />
Duas estrelas escuras<br />
Brilhando entre aquelas duas<br />
Nebulosas desmanchadas<br />
E não beberam meus beijos<br />
Aqueles olhos noturnos<br />
Luzindo de luz parada<br />
Na imensa noite da ilha!<br />
Era minha namorada<br />
Primeiro nome de amada<br />
Primeiro chamar de filha&#8230;<br />
Grande filha de uma vaca!<br />
Como não me seduzia<br />
Como não me alucinava<br />
Como deixava, fingindo<br />
Fingindo que não deixava!<br />
Aquela noite entre todas<br />
Que cica os cajus! travavam!<br />
Como era quieto o sossego<br />
Cheirando a jasmim-do-cabo!<br />
Lembro que nem se mexia<br />
O luar esverdeado<br />
Lembro que longe, nos Ionges<br />
Um gramofone tocava<br />
Lembro dos seus anos vinte<br />
Junto aos meus quinze deitados<br />
Sob a luz verde da lua.<br />
Ergueu a saia de um gesto<br />
Por sobre a perna dobrada<br />
Mordendo a carne da mão<br />
Me olhando sem dizer nada<br />
Enquanto jazente eu via<br />
Como uma anêmona na água<br />
A coisa que se movia<br />
Ao vento que a farfalhava.<br />
Toquei-lhe a dura pevide<br />
Entre o pêlo que a guardava<br />
Beijando-lhe a coxa fria<br />
Com gosto de cana brava.<br />
Senti à pressão do dedo<br />
Desfazer-se desmanchada<br />
Como um dedal de segredo<br />
A pequenina castanha<br />
Gulosa de ser tocada.<br />
Era uma dança morena<br />
Era uma dança mulata<br />
Era o cheiro de amarugem<br />
Era a lua cor de prata<br />
Mas foi só naquela noite!<br />
Passava dando risada<br />
Carregando os peitos loucos<br />
Quem sabe para quem, quem sabe?<br />
Mas como me seduzia<br />
A negra visão escrava<br />
Daquele feixe de águas<br />
Que sabia ela guardava<br />
No fundo das coxas frias!<br />
Mas como me desbragava<br />
Na areia mole e macia!<br />
A areia me recebia<br />
E eu baixinho me entregava<br />
Com medo que Deus ouvisse<br />
Os gemidos que não dava!<br />
Os gemidos que não dava&#8230;<br />
Por amor do que ela dava<br />
Aos outros de mais idade<br />
Que a carregaram da ilha<br />
Para as ruas da cidade<br />
Meu grande sonho da infância<br />
Angústia da mocidade.</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Após longo período em Paris, Vinicius retorna ao Brasil numa licença-prêmio. A convite de seu amigo Jorge Amado, colabora com o semanário Para Todos onde publica o poema O operário em construção. Porém, o período no Brasil termina e Vinicius precisa voltar para seu posto em Paris, desta vez, junto à UNESCO. A produção do filme Orfeu Negro se aprimora, desta vez entra em cena o produtor Sasha Gordine. Seu casamento com Lila Bôscoli titubeia e Vinicius se vê mais uma vez solitário. Porém, uma incrível história de amor iria lhe acontecer. A sobrinha de Octávio de Faria, que muito o admirava quando menina, que com ele, num jantar, havia trocado olhares voluptuosos a ponto de fazer com que o, então marido da moça, ir embora, aquela que faria seu coração cantar novamente, apareceria, &#8220;por acaso&#8221; numa avenida em Paris. A partir daí, muita coisa mudaria.</span></span></p>
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">BALADA DE PEDRO NAVA I</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">(O anjo e o túmulo)</span><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"></p>
<p></span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">I</span><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"></p>
<p>Meu amigo Pedro Nava<br />
Em que navio embarcou:<br />
A bordo do </span><em><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Westphalia</span></em><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
Ou a bordo do </span><em><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Lidador</span></em><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">?</p>
<p>Em que antárticas espumas<br />
Navega o navegador<br />
Em que brahmas, em que brumas</p>
<p>Pedro Nava se afogou?</p>
<p>Juro que estava comigo<br />
Há coisa de não faz muito<br />
Enchendo bem a caveira<br />
Ao seu eterno defunto.</p>
<p>Ou não era Pedro Nava<br />
Quem me falava aqui junto<br />
Não era o Nava de fato<br />
Nem era o Nava defunto?&#8230;</p>
<p>Se o tivesse aqui comigo<br />
Tudo se solucionava<br />
Diria ao garçom: Escanção!<br />
Uma </span><em><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">pedra</span></em><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"> a Pedro Nava!</p>
<p>Uma pedra a Pedro Nava<br />
Nessa pedra uma inscrição:<br />
&#8220;- </span><em><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">deste que muito te amava<br />
teu amigo, teu irmão</span></em><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">&#8230;&#8221;</p>
<p>Mas oh, não! que ele não morra<br />
Sem escutar meu segredo<br />
Estou nas garras da Cachorra<br />
Vou ficar louco de medo</p>
<p>Preciso muito falar-lhe<br />
Antes que chegue amanhã:<br />
Pedro Nava, meu amigo<br />
DESCEU O LEVIATÃ! </span></p>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Maria Lúcia de Faria Proença, Lucinha, era casada e tinha um filho. Conhecia Vinicius ainda menina por causa de seu tio Octávio de Faria. Foram apresentados em Paris, em um restaurante, pelo próprio Octávio, em 1939. Anos depois, reencontraram-se na casa de um amigo de Lucinha, onde, foi lida a peça Orfeu da Conceição, com Tom Jobim ao piano. Impressões. Até que, em 1958, novamente em Paris, Vinicius, sabendo que Lucinha estava lá, e ambos casados, convida-a para um jantar na sexta-feira, era a Sexta-Feira da Paixão! Lucinha voltou para o Brasil apaixonada e Vinicius também. Vinicius vai para Montevideo e alguns meses de cartas e telefonemas passam até que, em Petrópolis, Vinicius sobre um acidente de carro com o Almirante Dario Azambuja, e fica muito machucado. Lucinha vai visitá-lo no sanatório Santa Maria de Petrópolis e decide não mais voltar para casa. Decidiram que iam ficar juntos, que a paixão iniciada dezenove anos antes aconteceria. Casam-se no mesmo ano que sai o LP Canção do Amor Demais. </span></span></p>
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"> O TEMPO NOS PARQUES</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">O tempo nos parques é íntimo, inadiável, imparticipante, imarcescível.<br />
Medita nas altas frondes, na última palma da palmeira<br />
Na grande pedra intacta, o tempo nos parques.<br />
O tempo nos parques cisma no olhar cego dos lagos<br />
Dorme nas furnas, isola-se nos quiosques<br />
Oculta-se no torso muscular dos fícus, o tempo nos parques.<br />
O tempo nos parques gera o silêncio do piar dos pássaros<br />
Do passar dos passos, da cor que se move ao longe.<br />
É alto, antigo, presciente o tempo nos parques<br />
É incorruptível; o prenúncio de uma aragem<br />
A agonia de uma folha, o abrir-se de uma flor<br />
Deixam um frêmito no espaço do tempo nos parques.<br />
O tempo nos parques envolve de redomas invisíveis<br />
Os que se amam; eterniza os anseios, petrifica<br />
Os gestos, anestesia os sonhos, o tempo nos parques.<br />
Nos homens dormentes, nas pontes que fogem, na franja<br />
Dos chorões, na cúpula azul o tempo perdura<br />
Nos parques; e a pequenina cutia surpreende<br />
A imobilidade anterior desse tempo no mundo<br />
Porque imóvel, elementar, autêntico, profundo<br />
É o tempo nos parques.</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Vinicius e Lucinha passam um período em Montevidéu, onde se casam. É um dos períodos mais importantes e fecundos na vida do poeta que se embrenha definitivamente nas composições e letras de música. Em 1959, o filme Orfeu Negro é laureado com o Oscar de melhor filme estrangeiro e ganha a Palma de Ouro em Cannes. No mesmo ano publica Novos Poemas II e sua filha Susana se casa. As parcerias aparecem e a produção é intensa. Compõe com Pixinguinha, Carlos Lyra, muito mais com Tom Jobim e inaugura uma fase interessante na vida artística e boemia do carioca: as casas abertas. Festas musicais. Tanto no Rio quanto na casa de Lucinha em Petrópolis, a condição é ficar junto e fazer música. A peça Orfeu da Conceição é traduzida para o italiano e alguns poemas para o francês. Em 1962 surge uma parceria importante: Baden Powell. O violonista vai morar na casa de Lucinha por três meses e, sem sair de casa nesse período, compõem o que ficou conhecido por Afro-Sambas. No mesmo ano, surge a comédia-musical Pobre Menina Rica com Carlos Lyra, que leva pela primeira vez ao palco a cantora Nara Leão. Curiosidade: O poema de hoje, Lucinha recebe na bandeja do café da manhã no dia de seu aniversário.</span></span></p>
<div>Tudo junto em <a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div>POEMA DE ANIVERSÁRIO</div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Porque fizeste anos, Bem-Amada, e a asa do tempo roçou teus cabelos negros, e teus grandes olhos calmos miraram por um momento o inescrutável Norte&#8230;<br />
Eu quisera dar-te, ademais dos beijos e das rosas, tudo o que nunca foi dado por um homem à sua Amada, eu que tão pouco te posso ofertar. Quisera dar-te, por exemplo, o instante em que nasci, marcado pela fatalidade de tua vinda. Verias, então, em mim, na transparência do meu peito, a sombra de tua forma anterior a ti mesma.<br />
Quisera dar-te também o mar onde nadei menino, o tranqüilo mar de ilha em que perdia e em que mergulhava, e de onde trazia a forma elementar de tudo o que existe no espaço acima &#8211; estrelas mortas, meteoritos submersos, o plancto das galáxias, a placenta do Infinito.<br />
E mais, quisera dar-te as minhas loucas carreiras à toa, por certo em premonitória busca de teus braços, e a vontade de grimpar tudo de alto, e transpor tudo de proibido, e os elásticos saltos dançarinos para alcançar folhas, aves, estrelas &#8211; e a ti mesma, luminosa Lucina, e derramar claridade em mim menino.<br />
Ah, pudesse eu dar-te o meu primeiro medo e a minha primeira coragem; o meu primeiro medo à treva e a minha primeira coragem de enfrentá-la, e o primeiro arrepio sentido ao ser tocado de leve pela mão invisível da Morte.<br />
E o que não daria eu para ofertar-te o instante em que, jazente e sozinho no mundo, enquanto soava em prece o cantochão da noite, vi tua forma emergir do meu flanco, e se esforçar, imensa ondina arquejante, para se desprender de mim; e eu te pari gritando, em meio a temporais desencadeados, roto e imundo do pó da terra.<br />
Gostaria de dar-te, Namorada, aquela madrugada em que, pela primeira vez, as brancas moléculas do papel diante de mim dilataram-se ante o mistério da poesia subitamente incorporada; e dá-Ia com tudo o que nela havia de silencioso e inefável &#8211; o pasmo das estrelas, o mudo assombro das casas, o murmúrio místico das árvores a se tocarem sob a Lua.<br />
E também o instante anterior à tua vinda, quando, esperando-te chegar, relembrei-te adolescente naquela mesma cidade em que te reencontrava anos depois; e a certeza que tive, ao te olhar, da fatalidade insigne do nosso encontro, e de que eu estava, de um só golpe, perdido e salvo.<br />
Quisera dar-te, sobretudo, Amada minha, o instante da minha morte; e que ele fosse também o instante da tua morte, de modo que nós, por tanto tempo em vida separados, vivêssemos em nosso decesso uma só eternidade; e que nossos corpos fossem embalsamados e sepultados juntos e acima da terra; e que todos aqueles que ainda se vão amar pudessem ir mirar-nos em nosso último leito; e que sobre nossa lápide comum jazesse a estátua de um homem parindo uma mulher do seu flanco; e que nela houvesse apenas, como epitáfio, estes versos finais de uma cançâo que te dediquei:</p>
<p>&#8230; dorme, que assim<br />
dormirás um dia<br />
na minha poesia<br />
de um sono sem fim&#8230;</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Errata: Ontem disse que Nara Leão havia pisado no palco pela primeira vez na comédia-musical Pobre Menina Rica ao lado de Vinicius e Carlos Lyra. Engano total. Em 13 de novembro 1959, Nara já havia cantado no show da Escola Naval, que contou com algumas figuras que comporiam a Bossa Nova depois. Voltando ao poeta: Em agosto de 1962, na boite Au Bon Gourmet, acontece, enfim, o show que seria o grande acontecimento para a Bossa Nova. Tom Jobim, João Gilberto, Os Cariocas e Vinicius de Moraes. Foi o lançamento oficial da Garota de Ipanema e do Samba da Benção. Esta última, composta por Baden e Vinicius na casa de Lucinha no Parque Guinle com um improviso de Saravahs. No mesmo ano Vinicius compõe com Ary Barroso o Rancho das Namoradas &#8220;já vem raiando a madrugada&#8230;&#8221; e sai o livro dedicado a Lucinha Para Viver um Grande Amor. Inicia também uma parceria com Edu Lobo que viria a resultar em canções como Arrastão. Vinicius sempre foi fascinado por Marlene Dietrich, desde menino. Quando a mesma veio cantar no Brasil em 1959, Vinicius ficou alvoroçadíssimmo. O show seria no Golden Room no Copacabana Palace. Vinicius foi com Lucinha. Lá dentro, as luzes se apagam. Entra Marlene fabulosa e diz: &#8220;Good evening ladys and gentleman, now i&#8217;m going to sing Lili marlene&#8221; e Vinicius, de súbito, levanta-se da cadeira e grita: &#8220;Please, in german!&#8221;. Há uma estupefação geral. Marlene ouve e diz: &#8220;For that gentleman overthere, i&#8217;m going to sing in german&#8221;. Este foi o primeiro ciúme que Lucinha sentiu por Vinicius.</span></span></p>
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">A ÚLTIMA VIAGEM DE JAYME OVALLE</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Ovalle não queria a Morte<br />
Mas era dele tão querida<br />
Que o amor da Morte foi mais forte<br />
Que o amor do Ovalle à vida.</p>
<p>E foi assim que a Morte, um dia<br />
Levou-o em bela carruagem<br />
A viajar &#8211; ah, que alegria!<br />
Ovalle sempre adora viagem!</p>
<p>Foram por montes e por vales<br />
E tanto a Morte se aprazia<br />
Que fosse o mundo só de Ovalles<br />
E nunca mais ninguém morria.</p>
<p>A cada vez que a Morte, a sério<br />
Com cicerônica prestança<br />
Mostrava a Ovalle um cemitério<br />
Ele apontava uma criança.</p>
<p>A Morte, em Londres e Paris<br />
Levou-o à forca e à guilhotina<br />
Porém em Roma, Ovalle quis<br />
Tomar a sua canjebrina.</p>
<p>Mostrou-lhe a Morte as catacumbas<br />
E suas ósseas prateleiras<br />
Mas riu-se muito, tais zabumbas<br />
Fazia Ovalle nas caveiras.</p>
<p>Mais tarde, Ovalle satisfeito<br />
Declara à Morte, ambos de porre:<br />
- Quero enterrar-me, que é um direito<br />
Inalienável de quem morre!</p>
<p>Custou-lhe esforço sobre-humano<br />
Chegar à última morada<br />
De vez que a Morte, a todo pano<br />
Queria dar uma esticada.</p>
<p>Diz o guardião do campo-santo<br />
Que, noite alta, ainda se ouvia<br />
À voz da Morte, um tanto ou quanto<br />
Que ria, ria, ria, ria&#8230;</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Em 1963, por alguns fortes motivos, Lucinha termina com Vinicius e eles se separam. Vinicius entra num período bastante difícil. Conhece uma jovem moça chamada Nelita Abreu Rocha, apaixona-se e casa-se com ela no mesmo ano. Agora Vinicius colabora para a revista Fatos e Fotos e faz crônicas sobre música para o Diário Carioca. No mesmo ano, começa a compor com um jovem, então estudante de arquitetura, chamado Francis Hime. Também é o ano de um show de muito sucesso na boate Zum-Zum com Dorival Caymmi, onde, junto com o Quarteto em Cy, faz do show um disco. A música se torna definitivamente um caminho e em 1965, vence o Festival de Música Popular de São Paulo da TV Record com o primeito e o segundo lugar com, respectivamente, Arrastão com Edu Lobo cantada por Elis Regina e Valsa do Amor que Não Vem com Baden Powell cantada por Elizete Cardoso. Nesse momento, a carreira ganha força e há a possibilidade de fazer um filme chamado Arrastão, porém, em Paris, indispõe-se com o diretor e tira todas as suas músicas do projeto. Vai para Los Angeles para encontrar Tom Jobim. Tudo caminhando bem na vida profissional. </span></span></span></p>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">A extraordinária viagem do palhaço Petrushka pelas veredas do Carnaval carioca em </span><a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</span></a></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">CARTA DO AUSENTE</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Meus amigos, se durante o meu recesso virem por acaso passar a minha amada<br />
Peçam silêncio geral. Depois<br />
Apontem para o infinito. Ela deve ir<br />
Como uma sonâmbula, envolta numa aura<br />
De tristeza, pois seus olhos<br />
Só verão a minha ausência. Ela deve<br />
Estar cega a tudo o que não seja o meu amor (esse indizível<br />
Amor que vive trancado em mim como num cárcere<br />
Mirando empós seu rastro).<br />
Se for à tarde, comprem e desfolhem rosas<br />
À sua melancólica passagem, e se puderem<br />
Entoem </span><em><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">cantus-primus</span></em><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">. Que cesse totalmente o tráfego<br />
E silenciem as buzinas de modo que se ouça longamente<br />
O ruído de seus passos. Ah, meus amigos<br />
Ponham as mãos em prece e roguem, não importa a que ser ou divindade<br />
Por que bem-haja a rninha grande amada<br />
Durante o meu recesso, pois sua vida<br />
É minha vida, sua morte a minha morte. Sendo possível<br />
Soltem pombas brancas em quantidade suficiente para que se faça em torno<br />
A suave penumbra que lhe apraz. Se houver por perto<br />
Uma hi-fi, coloquem o &#8220;Noturno em si bemol&#8221; de Chopin; e se porventura<br />
Ela se puser a chorar, oh recolham-lhe as lágrimas em pequenos frascos de opalina<br />
A me serem mandados regularmente pela mala diplomática.<br />
Meus amigos, meus irmãos (e todos<br />
Os que amam a minha poesia)<br />
Se por acaso virem passar a minha amada<br />
Salmodiem versos meus. Ela estará sobre uma nuvem<br />
Envolta numa aura de tristeza<br />
O coração em luz transverberado. Ela é aquela<br />
Que eu não pensava mais possível, nascida<br />
Do meu desespero de não encontrá-la. Ela é aquela<br />
Por quem caminham as minhas pernas e para quem foram feitos os meus braços<br />
Ela é aquela que eu amo no meu tempo<br />
E que amarei na minha eternidade &#8211; a amada<br />
Una e impretérita. Por isso<br />
Procedam com discrição mas eficiência: que ela<br />
Não sinta o seu caminho, e que este, ademais<br />
Ofereça a maior segurança. Seria sem dúvida de grande acerto<br />
Não se locomovesse ela de todo, de maneira<br />
A evitar os perigos inerentes às leis da gravidade<br />
E do </span><em><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">momentum</span></em><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"> dos corpos, e principalmente aqueles devidos<br />
À falibilidade dos reflexos humanos. Sim, seria extremamente preferível<br />
Se mantivesse ela reclusa em andar térreo e intramuros<br />
Num ambiente azul de paz e música. Ó, que ela evite<br />
Sobretudo dirigir à noite e estar sujeita aos imprevistos<br />
Da loucura dos tempos. Que ela se proteja, a minha amada<br />
Contra os males terríveis desta ausência<br />
Com música e equanil. Que ela pense, agora e sempre<br />
Em mim que longe dela ando vagando<br />
Pelos jardins noturnos da paixão<br />
E da melancolia. Que ela se defenda, a minha amiga<br />
Contra tudo o que anda, voa, corre e nada, e que se lembre<br />
Que devemos nos encontrar, e para tanto<br />
É preciso que estejamos íntegros, e acontece<br />
Que os perigos são máximos, e o amor de repente, de tão grande<br />
Tornou tudo frágil, extremamente, extremamente frágil.</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Em 1966, há um encontro na casa do amigo e cronista Rubem Braga que gera a célebre fotografia de Vinicius ao lado de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana e Paulo Mendes Campos. O encontro também contou com a presença de Sérgio Porto. A poesia brasileira em imagens. No mesmo ano são feitos documentários sobre Vinicius para televisões americana, alemã, italiana e francesa, com os dois últimos sendo feitos pelos diretores Gianni Amico e Pierre Cast. Algumas de suas crônicas são reunidas no livro Para uma menina com uma flor. O Samba da Benção, parceria com Baden Powell, entra no filme francês Un Homme et Une Femme, dirigido por Claude Lelouch, com versão do ator Pierre Barouh, que também atua no filme. Un Homme et Une Femme vence a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Vinicius torna-se, definitivamente, um poeta de extremo prestígio internacional, elevando nome de nossa poesia.</span></span></p>
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">OLHE AQUI, MR. BUSTER</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;"><em>Este poema é dedicado a um americano simpático, extrovertido e podre de rico, em cuja casa estive poucos dias antes de minha volta ao Brasil, depois de cinco anos de Los Angeles, EUA. Mr. Buster não podia compreender como é que eu, tendo ainda o direito de permanecer mais um ano na Califórnia, preferia, com grande prejuízo financeiro, voltar para a &#8220;Latin America&#8221;, como dizia ele. Eis aqui a explicação, que Mr. Buster certamente não receberá, a não ser que esteja morto e esse negócio de espiritismo funcione.</em></span></span><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;"><em> </em></p>
<p>Olhe aqui, Mr. Buster: está muito certo<br />
Que o Sr. tenha um apartamento em Park Avenue e uma casa em Beverly Hills.<br />
Está muito certo que em seu apartamento de Park Avenue<br />
O Sr. tenha um caco de friso do Partenon, e no quintal de sua casa em Hollywood<br />
Um poço de petróleo trabalhando de dia para lhe dar dinheiro e de noite para lhe dar insônia<br />
Está muito certo que em ambas as residências<br />
O Sr. tenha geladeiras gigantescas capazes de conservar o seu preconceito racial<br />
Por muitos anos a vir, e </span></span><em><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;">vacuum-cleaners</span></span></em><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;"> com mais chupo<br />
Que um beijo de Marilyn Monroe, e máquinas de lavar<br />
Capazes de apagar a mancha de seu desgosto de ter posto tanto dinheiro em vão na guerra da<br />
Coréia.<br />
Está certo que em sua mesa as torradas saltem nervosamente de torradeiras automáticas<br />
E suas portas se abram com célula fotelétrica. Está muito certo<br />
Que o Sr. tenha cinema em casa para os meninos verem filmes de mocinho<br />
Isto sem falar nos quatro aparelhos de televisão e na fabulosa hi-fi<br />
Com alto-falantes espalhados por todos os andares, inclusive nos banheiros.<br />
Está muito certo que a Sra. Buster seja citada uma vez por mês por Elsa Maxwell<br />
E tenha dois psiquiatras: um em Nova York, outro em Los Angeles, para as duas &#8220;estações&#8221; do<br />
ano.<br />
Está tudo muito certo, Mr. Buster &#8211; o Sr. ainda acabará governador do seu estado<br />
E sem dúvida presidente de muitas companhias de petróleo, aço e consciências enlatadas.<br />
Mas me diga uma coisa, Mr. Buster<br />
Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:<br />
O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?<br />
O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?<br />
O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?</span></span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;"><br />
</span></span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;"><br />
</span></span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;"><br />
</span></span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="color:#000000;">Em 1968, ano marcante no mundo todo pelo notório mês de maio, Vinicius perde sua mãe Lydia Cruz de Moraes. Atenciosa e, em suas próprias palavras, vaidosa mulher que tanto lhe deu carinho, Dona Lydia foi-se em fevereiro, deixando muitas saudades aos filhos e netos. No mesmo ano, aparece Obra Completa pela Companhia José Aguilar Editora. Seus poemas são traduzidos para o italiano pelo poeta Giuseppe Ungaretti, que viria a falecer dois anos depois. Mais uma vez seu casamento titubeia. Um ano depois, em 1969, a derradeira facada do Governo Federal: Vinicius é exonerado do Itamaraty numa onda de expurgos motivada pelo combate à corrupção, ao homossexualismo e à subversão, e foi nesta última categoria que encaixaram Vinicius. Em contrapartida, Vinicius conhece uma moça, bem mais jovem, apaixona-se e casa-se, se chamava Cristina Gurjão.</span></span></p>
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">NAMORADOS DO MIRANTE</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Eles eram mais antigos que o silêncio<br />
A perscrutar-se intimamente os sonhos<br />
Tal como duas súbitas estátuas<br />
Em que apenas o olhar restasse humano.<br />
Qualquer toque, por certo, desfaria<br />
Os seus corpos sem tempo em pura cinza.<br />
Remontavam às origens &#8211; a realidade<br />
Neles se fez, de substância, imagem.<br />
Dela a face era fria, a que o desejo<br />
Como um hictus, houvesse adormecido<br />
Dele apenas restava o eterno grito<br />
Da espécie &#8211; tudo mais tinha morrido.<br />
Caíam lentamente na voragem<br />
Como duas estrelas que gravitam<br />
Juntas para, depois, num grande abraço<br />
Rolarem pelo espaço e se perderem<br />
Transformadas no magma incandescente<br />
Que milênios mais tarde explode em amor<br />
E da matéria reproduz o tempo<br />
Nas galáxias da vida no infinito.</p>
<p>Eles eram mais antigos que o silêncio&#8230;<br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">O casamento com a bem mais jovem Cristina Gurjão dura menos de um ano. Vinicius se encontra mais uma vez num período muito difícil. Porém, o ano de 1970 reserva uma plena recuperação para Vinicius. No antigo e célebre bar em Ipanema chamado Pizzaiollo, Vinicius conhece através da jovem Maria Bethânia a atriz Gesse Gessy. Apaixona-se de cara e deseja ir com ela para Buenos Aires. Não menos espantada ficou Maria Bethânia com a súbita volúpia. Casam-se no mesmo ano e mudam-se para Bahia para uma casa que mandaram construir. O casamento foi uma estranha mistura de candomblé, com festa e ritual que incomodou alguns amigos, sobretudo, Rubem Braga. A casa tinha objetos estranhos para olhos ordinários, porém, ali Vinicius viveria uma vida pacata ao lado de bichos. Vinicius conhece um jovem rapaz de vinte e poucos anos, um violonista ex-aluno de Paulinho Nogueira que, contra as críticas e o esquecimentos entre o público jovem que Vinicius começava a entrar, seria seu grande parceiro e, com ele, retornaria ao trabalho. O jovem era conhecido pelo nome de Toquinho.</span></span></p>
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<div>SONETO A PABLO NERUDA</div>
<div>Quantos caminhos não fizemos juntos</div>
<div>Neruda, me irmão, meu companheiro&#8230;</div>
<div>Mas este encontro súbito, entre muitos</div>
<div>Não foi ele o mais belo e verdadeiro?</div>
<div>Canto maior, canto menor &#8211; dois cantos</div>
<div>Fazem-se agora ouvir sob o Cruzeiro</div>
<div>E em seu recesso as cóleras e os prantos</div>
<div>Do homem chileno e do homem brasileiro</div>
<div>E o seu amor &#8211; o amor que hoje encontramos&#8230;</div>
<div>Por isso, ao se tocarem nossos ramos</div>
<div>Celebro-te ainda além, Cantor Geral</div>
<div>Porque como eu, bicho pesado, voas</div>
<div>Mas mais alto e melhor do céu entoas</div>
<div>Teu furioso canto material!</div>
<div>Fato é que Vinicius não se encontrava em bom momento de crítica no início dos anos setenta logo que começa sua parceria com Toquinho. Vinicius já era uma figura felliniana, sobretudo para os jovens poetas da época, porém, sem despertar grandes amores da crítica, sobretudo musical. Porém, com Toquinho, surgem canções que o trariam de volta, como Tarde em Itapuã e Como Dizia o Poeta. Toquinho que antes da parceria com Vinicius, já havia composto canções com Chico Buarque e Jorge Ben, grava com Vinicius um disco de muito sucesso oriundo de um show em Buenos Aires com a cantora Maria Creuza, chamado Vinicius de Moraes en La Fusa com Maria Creuza y Toquinho. Antes disso, gravou na Italia La vita, amico, é l&#8217;arte dell&#8217;incontro. A parceria duraria onze anos, 25 discos e mais de 120 canções.</p>
<div>Arquivo deste e-mail de Bruno Tolentino a Mário Faustino em <a href="http://cartilhadepoesia.wordpress.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://cartilhadepoesia.wordpress.com</a></div>
<div>NA ESPERANÇA DE TEUS OLHOS</div>
<div>Eu ouvi no meu silêncio o prenúncio de teus passos</div>
<div>Penetrando lentamente as solidões da minha espera</div>
<div>E tu eras, Coisa Linda, me chegando nos espaços</div>
<div>Como a vinda impressentida de uma nova primavera.</div>
<div>Vinhas cheia de alegria, coroada de guirlandas</div>
<div>Com sorrisos onde havia burburinhos de água clara</div>
<div>Cada gesto que fazias semeava uma esperança</div>
<div>E existiam mil estrelas nos olhares que me davas.</div>
<div>Ai de mim, eu pus-me amar-te, pus-me a amar-te mais ainda</div>
<div>Porque a vida no meu peito se fizera num deserto</div>
<div>E tu apenas me sorrias, me sorrias, Coisa Linda</div>
<div>Como a fonte inacessível que de súbito está perto.</div>
<div>Pelas rútilas ameias do teu riso entreaberto</div>
<div>Fui subindo, fui subindo no desejo de teus olhos</div>
<div>E o que vi era tão lindo, tão alegre, tão desperto</div>
<div>Que do alburno do meu tronco despontaram folhas novas.</div>
<div>Eu te juro, Coisa Linda: vi nascer a madrugada</div>
<div>Entre os bordos delicados de tuas pálpebras meninas</div>
<div>E perdi-me em plena noite, luminosa e espiralada</div>
<div>Ao cair no negro vórtice letal de tuas retinas.</div>
<div>E é por isso que eu te peço: resta um pouco em minha vida</div>
<div>Que meus deuses estão mortos, minhas musas estão findas</div>
<div>E de ti eu só quisera fosses minha primavera</div>
<div>E só espero, Coisa Linda, dar-te muitas coisas lindas&#8230;</div>
<div>Em 1971, muda-se definitivamente para Bahia onde vive uma espécie de vida-hippie-temporão. Compõe muito com Toquinho, e faz um show em Mar del Plata com a jovem Maria Bethânia, na mesma boate La Fusa. O show gera um disco. No mesmo ano, viaja para Italia com Toquinho para gravar Per vivere un grande amore. Em 1973, Vinicius publica A elegia que vem de longe, livro em homenagem a seu grande amigo Pablo Neruda, que morrera naquele ano. Um breve retorno à literatura que estava adormecida. 73 também é o ano do show Poeta, Moça e o Violão com Toquinho e Clara Nunes. Os shows com encontros sempre dão certo. No ano seguinte começa a trabalhar no roteiro de um filme chamado Polichinelo, porém, ficando inacabado. Vinicius vai se tornando essa figura feliniana que havia dito, e as canções com Toquinho vão aparecendo: Sei lá, Um homem chamado Alfredo, Veja Você, O Velho e a Flor.</p>
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<div>BREVE CONSIDERAÇÃO</div>
<div>à margem do ano assassino de 1973</div>
<div>Que ano mais sem critério</div>
<div>Esse de setenta e três&#8230;</div>
<div>Levou para o cemitério</div>
<div>Três Pablos de uma só vez.</div>
<div>Três Pablões, não três pablinhos</div>
<div>No tempo como no espaço</div>
<div>Pablos de muitos caminhos:</div>
<div>Neruda, Casals, Picasso.</div>
<div>Três Pablos que se empenharam</div>
<div>Contra o fascismo espanhol</div>
<div>Três Pablos que muito amaram</div>
<div>Três Pablos cheios de Sol.</div>
<div>Um trio de imensos Pablos</div>
<div>Em gênio e demonstração</div>
<div>Feita de engenho, trabalho</div>
<div>Pincel, arco e escrita à mão.</div>
<div>Três publicíssimos Pablos</div>
<div>Picasso, Casals, Neruda</div>
<div>Três Pablos de muita agenda</div>
<div>Três Pablos de muita ajuda.</div>
<div>Três líderes cuja morte</div>
<div>O mundo inteiro sentiu&#8230;</div>
<div>ô ano triste e sem sorte&#8230;</div>
<div>- VÁ PRA PUTA QUE O PARIU!</div>
<div>Em 1976, seu casamento novamente declina e Vinicius se separa. Escreve as letras do disco &#8220;Deus lhe pague&#8221; em parceria com Edu Lobo e, no mesmo ano, casa-se com a argentina Marta Rodrigues Santamaria, porém, o casamento dura apenas um ano. O ano de 1977 é marcado por um show antológico no Canecão com Tom Jobim, Miucha e Toquinho, ficando sete meses em cartaz (!). Um sucesso imenso. Vinicius saía do show, se internava na São Vicente para se recuperar e voltava no dia seguinte. A saúde não andava bem. O que não o impediu de fazer uma turnê pela Europa com Toquinho, tocando em vários países. Em 1978, Vinicius, se casa com Gilda de Queirós Mattoso, que conhecera em Paris. Gilda se torna uma grande companheira, cuidando de sua saúde além de tudo. A Rede Globo prepara um programa com todos os parceiros de Vinicius. Algo se anunciava. No ano seguinte, Vinicius, a pedido do, então, líder sindical, Luis Inácio Lula da Silva, lê poemas no Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. Voltando de uma viagem da Europa, no mesmo ano, Vinicius sobre um derrame cerebral. Nesta ocasião, perdem-se os originais de Roteiro lírico e sentimental da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.</p>
<div>Onde agora é noite (ou dia) em <a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div>O SACRIFÍCIO DO VINHO</div>
<div>Contra o crepúsculo</div>
<div>O vinho assoma, exulta, sobreleva</div>
<div>Muda o cristal da tarde em rubra pompa</div>
<div>Ganha som, ganha sangue, ganha seios</div>
<div>Contra o crepúsculo o vinho</div>
<div>Menstrua a tarde.</div>
<div>Ah, eu quero beber o vinho em grandes haustos</div>
<div>Eu quero os longos dedos líquidos</div>
<div>Sobre meus olhos, eu quero</div>
<div>A úmida língua&#8230;</div>
<div>O céu da minha boca</div>
<div>É uma cúpula imensa para a acústica</div>
<div>Do vinho, e seu eco de púrpura&#8230;</div>
<div>O cantochão do vinho</div>
<div>Cresce, vermelho, entre muralhas súbitas</div>
<div>Carregado de incenso e paciência.</div>
<div>As sinetas litúrgicas</div>
<div>Erguem a taça ardente contra a tarde</div>
<div>E o vinho, transubstanciado, bate asas</div>
<div>Voa para o poente</div>
<div>O vinho&#8230;</div>
<div>Uma coisa é o vinho branco</div>
<div>O primeiro vinho, linfa da aurora impúbere</div>
<div>Sobre a morte dos peixes.</div>
<div>Mas contra a noite ei-lo que se levanta</div>
<div>Varado pelas setas do poente</div>
<div>Transverberado, o vinho&#8230;</div>
<div>E o seu sangue se espalha pelas ruas</div>
<div>Inunda as casas, pinta os muros, fere</div>
<div>As serpentes do tédio; dentro</div>
<div>Da noite o vinho</div>
<div>Luta como um Lacoonte</div>
<div>O vinho&#8230;</div>
<div>Ah, eu quero beijar a boca moribunda</div>
<div>Fechar os olhos pânicos</div>
<div>Beber a áspera morte</div>
<div>Do vinho.</div>
<div>No dia 17 de abril de 1980, Vinicius é operado para a instalação de um dreno cerebral, porém, três meses depois, no dia 9 de julho, morre, em sua casa, na Gávea, na banheira. Um edema pulmonar foi a causa anunciada. Estavam lá, sua mulher Gilda e Toquinho. No dia 11 de julho o prefeito Julio Coutinho publica o decreto de que a rua Montenegro, em Ipanema, passaria a se chamar rua Vinicius de Moraes. No dia 12 de julho, a rua é inaugurada. Vinicius viveu e produziu o que produziu em 67 anos de existência, mostrando, na minha opinião, as imensas possibilidades do poeta. Poema, música, teatro, prosa com todos os seus desmembramentos. Eis que chegamos ao final de mais uma antologia, espero que tenham gostado de passar essas semanas ao lado deste grande poeta brasileiro. Semana que vem, entraremos em um outro universo poético, com outras proposições, situações e vivências. Evoé!</p>
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">O HAVER</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Essa intimidade perfeita com o silêncio</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo:</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">- Perdoai! &#8211; eles não têm culpa de ter nascido&#8230;</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Resta esse antigo respeito pela noite, essa falar baixo</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Essa mão que tateia antes de ter, esse medo</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">De ferir tocando, essa forte mão de homem </span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Cheia de mansidão para com tudo que existe.</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Resta essa imobilidade, essa economia de gestos</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Essa inércia cada vez maior diante do Infinito</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Essa gagueira de quem quer balbuciar o inexprimível</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Essa irredutível recusa à poesia não vivida.</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Do tempo, essa lenta composição poética</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Resta esse coração queimando como um círio</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Numa catedral em ruínas, essa tristeza</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Diante do cotidiano, ou essa súbita alegria</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória&#8230;</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Resta essa vontade de chorar diante da beleza</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Piedade de sua inútil poesia e sua inútil.</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">De pequenos absurdos, essa tola capacidade</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">de rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">E essa coragem de comprometer-se sem necessidade.</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">De quem sabe que tudo já foi com será no vir-a-ser</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm ontem nem hoje.</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Resta essa faculdade incoercível de sonhar</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">E transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">De aceitá-la tal como é, e essa visão</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">E desnecessária presciência, e essa memória anterior</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">De mundos inexistentes, e esse heroísmo</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Estático, e essa pequenina luz indecifrável</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Resta essa obstinação em não fugir do labirinto</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Na busca desesperada de alguma porta quem sabe inexistente</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">E essa coragem indizível diante do Grande Medo</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva.</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Resta esse desejo de sentir-se igual a todos</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem história</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">De não querer ser príncipe senão de seu reino.</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Essa abandono sem remissão à sua voragem insaciável</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Pelo momento a vir, quando, emocionada</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Ela virá me abrir a porta como uma velha amante</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Sem saber que é a minha mais nova namorada.</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
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		<title>Chacal</title>
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		<pubDate>Mon, 25 Apr 2011 02:17:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cartilhadepoesia</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ricardo de Carvalho Duarte, ou Chacal, nasceu no Rio de Janeiro no dia 24 de maio de 1951. Seu pai, Marcial Galdino, saiu do Rio Grande do Sul com o exército gaúcho para o Rio de Janeiro na Revolução Constitucionalista de 1932, e por aqui ficou. Ricardo nasceu nos dourados anos 50 e passou sua [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=73&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ricardo de Carvalho Duarte, ou Chacal, nasceu no Rio de Janeiro no dia 24 de maio de 1951. Seu pai, Marcial Galdino, saiu do Rio Grande do Sul com o exército gaúcho para o Rio de Janeiro na Revolução Constitucionalista de 1932, e por aqui ficou. Ricardo nasceu nos dourados anos 50 e passou sua infância, ora no apartamento onde morava em Copacabana, ora no sítio da família em Cinco Lagos, um vilarejo próximo de Mendes, no interior do Estado do Rio de Janeiro. Neste mês, percorreremos a poesia deste grande poeta carioca. Muito prazer, Chacal!</p>
<div>Tem texto do dia 31 aqui <a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div></div>
<div>.</div>
<div>.</div>
<div>SÓTÃO</div>
<div>.</div>
<div>o sótão ficava entre o céu e o inferno.</div>
<div>um escada nos ligava ao banheiro e ao mundo.</div>
<div>degraus silenciosos.</div>
<div>o telhado mostrava seus segredos</div>
<div>de um buraco eterno no teto.</div>
<div>um armário com todos os livros/chaves</div>
<div>guardava cumplicidade e cupins ruminados.</div>
<div>os filhos malditos disfarçavam en/cruz/ilhadas</div>
<div>bem queimadinhos.</div>
<div>o sol amanhecia esperanças</div>
<div>amarelas e vermelhas nas janelas antigas.</div>
<div>e a vida foi vivida como mando o figurino.</div>
<div>.</div>
<div>O jovem Ricardo foi criado em apartamento. O prédio ficava a cinco quadras da praia de Copacabana onde o menino pegava jacaré. Entre a praia e o prédio, ficava o Colégio Mallet Soares, onde estudou. Ali jogou futebol, voley e gostou do Fluminense. Seu amigo Sérgio Liuzzi, fora convocado para jogar voley no Botafogo, e depois o levou para o time. Fez um teste, foi aprovado. Após um treino, Ricardo se atrasou no vestiario e chegou na cantina para comer com o resto do time, após observar a todos, quietos, comendo, diante o silêncio que havia, exclamou: &#8220;Que onda chacal!&#8221;. Era uma gíria da época. Seu amigo Sérgio gostou, levou para a turma da praça e o apelido pegou. Assim, nascia o Chacal.</div>
<div>
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<div></div>
<div>.</div>
<div>NA PORTA LÁ DE CASA</div>
<div>.</div>
<div>na porta lá de casa</div>
<div>tem dizendo lar romi lar</div>
<div>uma bandeira de papel</div>
<div>na porta lá de casa</div>
<div>as crianças passam</div>
<div>e se atiram no chão</div>
<div>e se olham por dentro</div>
<div>das bocas das palavras</div>
<div>na falta de qualquer espelho</div>
<div>na porta lá de casa</div>
<div>passa o amor o calor</div>
<div>de cada um que passa</div>
<div>na porta lá de casa</div>
<div>.</div>
</div>
<div>Ao entrar no curso secundário do Colégio Estadual André Maurois, no Leblon, Chacal descobre novas percepções. Tudo era falado abertamente sob o lema &#8220;liberdade com responsabilidade&#8221;. Através do professor Ivo Barbieri, Chacal começa a ler avidamente Guimarães Rosa. Descobriu que &#8220;palavras tinham molas, dobravam esquinas&#8221;. Entrou num grupo de estudos sobre o materialismo dialético. No mesmo tempo, Chacal, foi fazer segurança de uma colega de classe chamada Gracinha numa manifestação política. Ficou estupefato com a mobilização dos estudantes, intelectuais e artistas contra o governo militar. Viu os comícios-relâmpagos de Marcos Medeiros, Vladimir Palmeira e outros. O contato com essas &#8220;performances políticas&#8221; viria a ter muita influência nos recitais da vida.</div>
<div>.</div>
<div>
<div>Move on, man! no <a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div></div>
<div>.</div>
<div>CENA LONGA</div>
<div>.</div>
<div>as pedras estão em cima da terra.</div>
<div>capas de disco espalhadas ao acaso.</div>
<div>a última vez que falou ela falou &#8211; eu não vou mais</div>
<div>atrás de você.</div>
<div>desde então só soluços. a terceira e a quarta pessoas</div>
<div>pareciam distraídas, amistosas, jogavam dados</div>
<div>viciados.</div>
<div>era quase de manhã. o nono trago turvou a vista de</div>
<div>orlando, aquele que tacapau. daí desfoca forçado.</div>
<div>olívia contrafeita com seu vestido de gaze vem em</div>
<div>quando botava uma azeitona no copo e acompanhava</div>
<div>o lento movimento de imersão. vez em quando pulava</div>
<div>no sofá dragoflex. pulava e fazia caretas sem graça. a</div>
<div>terceira e a quarta pessoa trepavam no último andar</div>
<div>no beliche à direita.</div>
<div>- esse é um bom disco. gosto dele como de você.</div>
<div>- fala sério?!</div>
<div>- não. gosto mais de você.</div>
<div>- cascata</div>
<div>- gosto mais do disco.</div>
<div>- você me dá asco.</div>
<div>orlando acompanha o som com os dedos nos dentes.</div>
<div>o disco pára.</div>
<div>- muda o disco&#8230;</div>
<div>ela se levanta e zangada disca algumas voltas no</div>
<div>telefone.</div>
<div>a terra iniciará um novo dia. raios na janela.</div>
<div>.</div>
</div>
<div>Em 1970, aos dezenove anos, Chacal entra para a ECO, Escola de Comunicação da UFRJ. Queria estudar Economia, pois gostava de história, geografia, sociologia e matemática. Foi mal em matemática no vestibular e acabou entrando na Comunicação. Nessa época, Chacal conhece três figuras fundamentais para sua trajetória: Charles Peixoto, Virgínia Sabino e Guilherme Mandaro. Charles era neto do poeta Ronald de Carvalho e conhecia muita poesia. Virgínia era neta de Benedito Valladares e filha do Fernando Sabino. Logo depois, veio Guilherme. Formou-se um grupo. Iam muito para a casa de Virgínia em Correias, Petrópolis, e para a casa de Charles em Teresópolis. O grupo mergulhou fundo na contemporaneidade musical, na poesia e na filosofia. Algo começava.</div>
<div>
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<div>.</div>
<div>TRIP TROP</div>
<div>.</div>
<div>capitaneando a nau capitânea compartilha</div>
<div>compartimento com diva divina corista de revista</div>
<div>orgias a bombordo o litoral aponta farol canhão</div>
<div>lunetas disparates o barco é ferido no nariz e faz</div>
<div>água orlando dá ordem à desordem embarcando</div>
<div>a tripulação no submarino para o casos como esse</div>
<div>no bico do colosso semi afundado orlandes barriga</div>
<div>encolhida farda de gala assovia o hino da esquadra</div>
<div>e pula. o resto da nau eram bolhas. rio maracanã</div>
<div>banheira de d. moema largo do boticário praias</div>
<div>cariocas o dirigível estaciona numa sarjeta sórdida</div>
<div>de niterói pegam a barca pro rio orlando asseclas</div>
<div>partner desviam a cantareira rumo à lagoa rodrigo</div>
<div>dos peixes exilados com falta de ar e área. barcarola</div>
<div>ancorada os tripulantes raptados são atirados aos</div>
<div>tubarões de mandíbulas os reféns pra trabalhar e</div>
<div>a trip tropa trota corte cantagalo acima abaixo na</div>
<div>final visita cordial ao pequeno canto do céu que</div>
<div>ela veio pra se lembrar.</div>
<div><em>bunda mole e dedo duro tanto treme quanto entrega</em></div>
<div>.</div>
<div><em><em>Certo dia, Charles Peixoto apresentou a Chacal um livro que lhe mudaria completamente. Era um pequeno livro, desses de bolso, com poemas do Oswald de Andrade. Chacal já conhecia o poeta através da montagem do Rei da Vela dirigida pelo Zé Celso, mas, após o livro, tudo mudaria. Em 1971, Chacal iniciava uma série de escritos em três pequenos cadernos, com ilustrações. Começava ali sua trajetória. No mesmo ano, os três, Chacal, Charles e Virgínia, mais uns oito companheiro de enveredaram numa viagem pelo rio São Francisco. Mais amanhã. On the road, man!</em></em></div>
<div>
<div>Uma Elegia em <a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div>.</div>
<div>ESPERE BABY NÃO DESESPERE</div>
<div>.</div>
<div>espere baby não desespere</div>
<div>não me venha com propostas tão fora de propósito</div>
<div>não acene com planos mirabolantes mas tão distantes</div>
<div>espere baby não desespere</div>
<div>vamos tomar mais um e falar sobre os mistérios</div>
<div>da lua vaga</div>
<div>dylan na vitrola dedo nas teclas</div>
<div>canto invento enquanto o vento marasma</div>
<div>espere baby não desespere</div>
<div>temos um quarto uma eletrola uma cartola</div>
<div>vamos puxar um coelho um baralho</div>
<div>e um castelo de cartas</div>
<div>vamos viver o tempo esquecido do mago merlin</div>
<div>vamos montar o espelho partido da vida como ela é</div>
<div>espere baby não desespere</div>
<div>a lagoa há de secar</div>
<div>e nós não ficaremos mais a ver navios</div>
<div>e nós não ficaremos mais a roer o fio da vida</div>
<div>e nós não ficaremos mais a temer a asa negra do fim</div>
<div>espere baby não desespere</div>
<div>porque nesse dia soprará o vento da ventura</div>
<div>porque nesse dia chegará a roda da fortuna</div>
<div>porque nesse dia se ouvirá o canto do amor</div>
<div>e meu dedo não mais ferirá o silêncio da noite</div>
<div>com estampidos perdidos</div>
</div>
</div>
<div>.</div>
<div>No início de 71, Chacal, Charles e Virgínia fizeram uma viagem pelo rio São Francisco, de Pirapora até Petrolina. Muitas descobertas e causos interessantes pelos interiores do Brasil. Depois da viagem, Chacal passou um tempo em Arembepe, na Bahia. Depois de algum tempo enraizado, voltou para o Rio de Janeiro. De volta à rotina da ECO, e através dos estudos sobre Semiótica e Linguística, Chacal descobre a linguagem. Percebeu ali que poderia se comunicar com o mundo, com as pessoas e, sobretudo, se divertir. Pensou em estudar fora do país, porém, resolveu ficar no Brasil e ser poeta, &#8220;era mais barato&#8221;. Logo depois, Muito Prazer.</div>
<div>
<div>E-mails desta pequena coluna em <a href="http://cartilhadepoesia.wordpress.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://cartilhadepoesia.wordpress.com</a></div>
<div>.</div>
<div>BURACOS NO CÉU</div>
<div>.</div>
<div>quando tempo e espaço se cortam</div>
<div>quando nosso corpo se encontra</div>
<div>diga que eu perdi a cabeça</div>
<div>diga que eu sou uma bolha de alka seltzer</div>
<div>quando chove meteoro</div>
<div>quando os buracos se cruzam</div>
<div>caem fagulhas na terra</div>
<div>correm agulhas no sangue</div>
<div>desorganizado saio de casa</div>
<div>com um guarda-chuva de cheeseburger</div>
<div>com uma capa de amianto</div>
<div>e não me espanto</div>
<div>entretanto descobri:</div>
<div>a loucura é um sopro no ouvido</div>
</div>
<div>.</div>
<div>Chacal estava com um bom volume de poemas. Coloriu três cadernos de poemas com caneta pilot. Mostrava aos amigos o resultado, até que mostrou para Waly Salomão, que gostou. Guilherme perguntou se ele não gostaria de publicar em mimeógrafo. Chacal aceitou. Da mesma forma, Charles fez o livro dele, Travessa Bertalha, com a ajuda de Guilherme. Muito prazer saiu com cem cópias mimeografadas cada um.Ali começava a vender sua poesia. Após ter participado de alguns pequenos jornais e revistas alternativas da época, eis que sai uma resenha sobre Muito prazer na coluna de Torquato Neto, Geleia Geral, por Waly Salomão. Um bom começo.</div>
<div>
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<div>.</div>
<div>PRIMA</div>
<div>.</div>
<div>não me interessam as últimas notícias</div>
<div>nem as primeiras nem as penúltimas</div>
<div>me importa apenas estar perto de você</div>
<div>já não quero saber que dia a guerra vai estourar</div>
<div>como está o novo espetáculo</div>
<div>quanto foi o último jogo</div>
<div>não.</div>
<div>só me importa a sua presença no meio de tudo</div>
<div>que lhe enfeita de manchetes desinteressantes</div>
<div>você é matéria-prima e una</div>
<div>você cumpre sua trajetória na planeta diário</div>
<div>só para me transtornar</div>
</div>
<div>.</div>
<div>Chacal foi vivendo a ebulição dos anos 70. Novos Baianos surgindo com tudo, Píer de Ipanema, onde levava Muito prazer, a turma toda das areias, Gal, Waly, Scarlet Moon, Nelson Jacobina, Mautner, Neville, eram as &#8220;Dunas do barato&#8221;. Foi nessa época, verão de 72, que Chacal, Jards Macalé, Rogério Duarte e Duda compuseram Boneca Semiótica. Preço da passagem, seu segundo livro, foi elaborado nesse mesmo 72, entre uma desagradável experiência na rua Montenegro, em Ipanema, e uma indizível vontade de sair e conhecer o mundo. Fez mil exemplares de Preço da passagem, lançou no MAM na coletiva Ex-Posição. Não vendeu muito. Logo depois participou de um show da Gal dizendo um poema (importante experiência de palco) e com uma salvadora ajuda de seus pais, Chacal embarca para Londres.</div>
<div>
<div>Elegia para João Jorge Proença Vargas de Andrade no <a href="http://pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">blog http://pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div>.</div>
<div>SONHOS</div>
<div>.</div>
<div>sonhos que se desfazem de manhã como se fossem pura bruma</div>
<div>sinais de fumaça de um mundo distante enevoado nebuloso</div>
<div>sonhos que se desfazem de manhã feito bolha bulhufas</div>
<div>sinais que a vida tem campos apenas esboçados farejados</div>
<div>sonhos que se desfazem de manhã como tênue vibração</div>
<div>sinais que nem só na terra existe vida extraterrestre</div>
<div>sonhos que se desfazem de manhã como alga marinha mel</div>
<div>sinais de quimeras como falava quampérius, o zumbi.</div>
</div>
<div>.</div>
<div>Viagem para Londres. Chacal passa onze meses se enveredando por aquelas bandas de lá. Stones, sementes de girassol, Grand Magic Circus de Jérôme Savary e festival internacional de poesia no Queen&#8217;s Elizabeth Hall, onde, Chacal vê ninguém menos que Allen Ginsberg se apresentar. Chacal ficou estupefato com a dicção de Allen, seria uma referência. Depois, Amsterdã, Portugal e muitas experiências que o levaram a escrever América, seu terceiro livro. Chegando ao Brasil, Chacal conhece Cacaso e outros poetas da coleção Frenesi: Ana Cristina Cesar, Chico Alvim, Geraldo Carneiro, Roberto Schwartz e outros. América foi lançado em 75 e já apresentava poemas com mais consistência. Logo mais surgiria, A Nuvem Cigana.</div>
<div>
<div><a href="http://pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div>.</div>
<div>JABU</div>
<div>.</div>
<div>jabuticaba jabuti jaburu jabuco</div>
<div>que é a corruptela de joaquim nabuco</div>
<div>tudo jabuca todos jabam ou jabotam</div>
<div>ainda mais quando estão com vontade</div>
<div>de jabutir ou jaburar</div>
<div>quampérius jogava com jadir na zaga</div>
<div>do jabaquara já vai jaca</div>
<div>zagarreava jabaculejava zarababava</div>
<div>no jaleco do avante vavá</div>
<div>e como era javali talvez jamantão</div>
<div>não dava colher pra nenhum vadio</div>
<div>nenhum valente nenhum valete</div>
<div>nem vascaíno quampa era jabu</div>
<div>jamaicano jamais violento</div>
<div>e sempre jabu porque uma vez jabu</div>
<div>sempre jabu jabu jaburu jaboatão</div>
<div>lalando samba canção&#8230;</div>
</div>
<div>.</div>
<div>Nuvem Cigana veio de uma ideia do poeta Ronaldo Bastos, que pensava criar um grupo de ação artística na cidade. Algo que pudesse juntar tudo ao mesmo tempo: Produzir discos, livros, shows, fazer distribuição. Como a Apple com os Beatles. Ronaldo juntou o pessoal que participava da pelada no Caxinguelê, campo de futebol no Horto onde as pessoas faziam encontros, para tratar de muitas outras coisa além de futebol. Junto com Pedro Cascardo e Dionísio de Oliveira, a Nuvem Cigana havia começado. Chacal também se reunia no Sol Ipanema com outros poetas (depois viria a ser o Posto 9) e de noite no Baixo Leblon, isso já é 76, 77. Muita coisa importante acontecia, encontros, sempre encontros. Nesse período, Chacal foi morar em Santa Tereza, perto da &#8220;sede&#8221; do Nuvem Cigana. Alguns bons livros foram lançados por Bernardo Vilhena, Ronaldo Santos, Charles Peixoto e outros.</div>
<div>
<div>texto Cavalos no <a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div>.</div>
<div>PINGOS &amp; GOTAS</div>
<div>.</div>
<div>a chuva lambe a rua dos pingos dela.</div>
<div>a gota só pinga no banheiro do 403.</div>
<div>os pingos são pisados / atropelados e</div>
<div>é como se não estivessem nem aí.</div>
<div>já a gota grila, me esgota a gota.</div>
<div>e nem se liga</div>
<div>(não sei se repararam que:</div>
<div>a &#8211; a gota pinga e o pingo pinga.</div>
<div>b &#8211; a tinta pinta e uma pinta pinta</div>
<div>e despinta)</div>
</div>
<div>.</div>
<div>Em 1975, Rui Campos, convida o Nuvem Cigana para uma feira de artes na galeria da livraria Muro. Seria a Artimanha. A feira (que logo viraria uma festa) teria música, batucada, dança, audiovisual. A poesia não estava encaixando. O que fazer? Ninguém falava poesia em público no Rio de Janeiro. OK. A primeira Artimanha aconteceu com exposição do Vergara com fotos do Cacique de Ramos, o bloco. Estava escuro, Chacal estava inquieto, quando lembrou do Allen Ginsberg e, de súbito, no meio da exibição das fotos, entrou e mandou um poema. Abriram as portas da poesia. Depois disso, todo mundo entrou para falar. Foi ali, por exemplo, que Tavinho Paes se experimentou também. Cinepoema de Flávio Nascimento, Grupo Bela Boca e muitos outros. Foi um importantíssimo evento para tudo que aconteceu depois. Mesmo.</div>
<div>
<div><a href="http://pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div>.</div>
<div>UM POETA NÃO SE FAZ COM VERSOS</div>
<div>.</div>
<div>o poeta se faz do sabor</div>
<div>de se saber poeta</div>
<div>de não ter direito a outro ofício</div>
<div>de se achar de real utilidade pública</div>
<div>no cumprimento de sua missão sobre a terra</div>
<div>escrevendo tocando criando</div>
<div>o que pesa é não se achar louco</div>
<div>patético quixote inútil</div>
<div>como quem fala sozinho</div>
<div>como quem luta sozinho</div>
<div>o que pesa é ter que criar</div>
<div>não a palavra</div>
<div>mas a estrutura onde ela ressoe</div>
<div>não o versinho lindo</div>
<div>mas o jeitinho dele ser lido por você</div>
<div>não o panfleto</div>
<div>mas o jeito de distribuir</div>
<div>quanto a você meu camarada</div>
<div>que à noite verseja pra de dia</div>
<div>cumprir seu dever como água parada</div>
<div>fica aqui uma sugestão:</div>
<div>- se engaveta junto com os seus sonetos</div>
<div>porque muito sangue vai rolar e não</div>
<div>fica bem você manchar tão imaculadas páginas.</div>
</div>
<div>.</div>
<div>A poesia marginal tinha um nome e corpo e contava com duas importantes figuras para seu amadurecimento: Heloisa Buarque de Hollanda e Cacaso. Chacal estava no meio disso tudo. Em 1976, viaja para São Paulo com Tavinho Paes, Pedro Lage, Xico Chaves e outros poetas para fazer apresentações. A artimanhas e a Nuvem ia crescendo. Em 77, Chacal se forma em Editoração e Teoria da Comunicação. Passou a trabalhar com iluminação de shows até que sai a aguardada antologia de Heloisa Buarque de Hollanda, 26 poetas hoje. Logo depois, Chacal publica seu quarto livro Quampérius. Cria também, ao lado de Luiz Eduardo Resende, o Rola Bola, uma banquinha ambulante de livros que marcava ponto no saguão dos teatros do Rio, deu certo. Momento importante foi o convívio com o Asdrúbal Trouxe o Trombone, com quem, logo mais, criaria a peça Aquele Coisa Toda. Em 79, Chacal publica Olhos vermelhos, Nariz Aniz e Boca Roxa, uma trilogia.</div>
<div>
<div>Curta metragem de Victor Steinberg que participei <a href="http://vimeo.com/18830348" rel="nofollow" target="_blank"> http://vimeo.com/18830348</a></div>
<div>.</div>
<div>CARA DE CAVEIRA</div>
<div>.</div>
<div>minha cara é de caveira</div>
<div>meus olhos são de vidro</div>
<div>e vocês não me dizem nada</div>
<div>no meu corpo tem um sangue</div>
<div>amargo e verde</div>
<div>meu coração é à prova de choque</div>
<div>e vocês não sabem de nada</div>
<div>tenho pés de andar em qualquer chão</div>
<div>as mãos livres sem argolas</div>
<div>e vocês tremem por nada</div>
<div>minha memória guarda coisas bem curtidas</div>
<div>eu sou minha memória bem curtido</div>
<div>e vocês não são de nada</div>
</div>
<div>.</div>
<div>No fim da década de 70, Chacal sofre um duro golpe: Seu amigo, Guilherme Mandaro, poeta da Nuvem Cigana, se atira pela janela e morre. Houve um abalo geral e, aos poucos, também por outros motivos, a Nuvem foi se dissipando. Chacal tentou trabalhar com publicidade, jornalismo, mas não se encaixava. Letra de música também não. Até que junta tudo e vai para Brasília. Uma nova vida se dava. Se envolveu com o movimento artístico da cidade. No Correio Brasiliense, ajudou a criar o Encarte e trabalhou como cronista. Depois, passa um tempo no sul da Bahia até voltar para o Rio. Fica na casa do Pedro Lage no Largo dos Leões. Volta a frequentar o Parque Lage e conhece uma rapaziada legal que fazia teatro lá com o Hamilton Vaz Pereira e, sobretudo, nas oficinas do Asdrubal. Fausto Fawcett, Cazuza, Bebel Gilberto, Alice Andrade e muitos outros. Tinha também o Perfeito Fortuna que já era uma figura aglutinadora. Como essa gente toda, querendo fazer coisas, havia a necessidade de um espaço. Até que no dia 15 de janeiro de 1982, veio para o mundo o Circo Voador.</div>
<div>
<div><a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div>.</div>
<div>VALHALLA</div>
<div>.</div>
<div>está tudo fosforecente</div>
<div>parece um campo de força</div>
<div>uma cápsula lunar</div>
<div>está tudo vago, muito vago</div>
<div>estou nas fronteiras dos campos da paz celestial</div>
<div>não ando.</div>
<div>nado submerso no mar egeu.</div>
<div>sossobro estabanado no mar da tranquilidade</div>
<div>ferido em batalha adentro o valhalla</div>
<div>e desfruto o hidromel das walkyrias</div>
<div>queres? querias.</div>
<div>parece que me transmutei em alguém</div>
<div>esses cabelos não são meus</div>
<div>esse tom de pele, eu desconheço em mim</div>
<div>algo acontece e você não sabe o que é, mr. jones</div>
<div>eu sou o subtítulo de uma obra inacabada</div>
<div>sou o sol de uma sinfonia atonal</div>
<div>passei por um buraco no céu:</div>
<div>a loucura é um sopro no ouvido.</div>
</div>
<div>.</div>
<div>O início dos anos oitenta foi marcado pela efervescência do Circo Voador. Muita gente boa saiu dali e Chacal estava no meio deles. Entre apresentações da Blitz, Asdrúbal, Manhas &amp; Manias e shows com a Stella Miranda e Duardo Dusek, muita coisa ia acontecendo. Foi um verão incrível. Após a desativação do Circo, Chacal escreve um livro de crônicas chamado Tontas Coisas. Nesse livro havia apenas um poema chamado Cândida. Este poema foi escrito no Prado, em 1981, e é um longo poema de amor. Logo depois Chacal escreve a peça Alguns Anos-luz-além a pedido do Barrão, seu grande amigo que pertencia ao grupo Lua me Dá Colo. Tontas coisas obteve algumas boa críticas até que em 1983, Chacal publica o Drops de Abril. Naquele momento, já se experimentava também com letras de música, algo inconcebível anos antes. Blitz, Lulu Santos, Hanoi Hanoi, 14 Bis e Paralamas.</div>
<div>
<div><a href="http://pedrolago.blogpost.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://pedrolago.blogpost.com</a></div>
<div>.</div>
<div>CALEIDOSCÓPIO CINEMASCOPE</div>
<div>.</div>
<div>a vida é um cristal</div>
<div>que se reflete em pedaços</div>
<div>a vida como ela é</div>
<div>é a coleção dos cacos</div>
<div>vi um filme que aladim</div>
<div>da lâmpada tirava um gênio</div>
<div>ele era james dean</div>
<div>e tinha a cabeça a prêmio</div>
<div>eu parti do irajá</div>
<div>passando por paraty</div>
<div>eu ainda chego lá</div>
<div>até onde quero ir</div>
<div>vi um filme que fellini</div>
<div>fez um ensaio de orquestra</div>
<div>tinha tiro de canhão</div>
<div>e acabava numa festa</div>
<div>se no mato me perdi</div>
<div>nesse mato me acharei</div>
<div>entre mais de mil picadas</div>
<div>numa delas sou o rei</div>
<div>eu vi deus e o diabo</div>
<div>dançando na terra do sol</div>
<div>glauber rocha era o máximo</div>
<div>tão bom quanto rock and roll</div>
<div>minha estrada é um filme</div>
<div>cheio de amor e ódio</div>
<div>pra onde quer que me vire</div>
<div>cinemascope caleidoscópio</div>
</div>
<div>.</div>
<div>Em 1985 houve o I Festival de Poesia do Circo Voador, organizado por Perfeito Fortuna e Alice Andrade. Foi nesse festival, por exemplo, onde Renato Russo mostrou seu &#8220;Faroeste Caboclo&#8221; pela primeira fez. Chacal ajuda na organização e participa. Kátia Flávia, conhecido trabalho de Fausto Fawcett com sua banda Robês Efêmeros também surge lá. O Circo armaria sua lona na Lapa. Depois disso, o Circo voou para Guadalajara no meio da Copa do Mundo para uma pequena aventura, Chacal foi junto. O fim dos anos 80 apresenta um certo declínio na sustentação. A competição, o sistema que favorecia somente ao extremo sucesso, um período difícil. Em contrapartida, as performances eram mais constantes e muito se desenvolveu ali. Em 88, Chacal trabalha como roteirista de videoclipe na Rede Globo. Chacal também chegou a escrever o último capítulo da &#8220;Armação Ilimitada&#8221; como frila e depois para o seriado &#8220;Juba e Lula&#8221;. Anos 80 é isso aí.</div>
<div>
<div>Ió em <a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div>.</div>
<div>POP ART</div>
<div>.</div>
<div>ande logo seja breve leve love</div>
<div>por art: use abuse e descarte</div>
<div>breve leve now ou never leve love</div>
<div>pop art art pop</div>
<div>é melhor e dá ibope</div>
<div>pop pop pop art</div>
<div>art art art pop</div>
<div>pop art é cultura</div>
<div>aproveite enquanto dura</div>
<div>pop art em toda parte</div>
<div>agora também em marte</div>
</div>
<div>.</div>
<div>Início dos anos noventa. Chacal, que acabara de sair da Rede Globo e de comprar seu primeiro carro em 36 anos, uma Fusca 67 vermelho, se encontrava novamente em situação difícil. Fazia meditação no Jardim Botânico e natação no Flamengo. Estava meio parado. Então foi convidado para lançar o Quampérius nos jardins da ECO, não falava em público há tempos, mas mesmo assim foi. Até que lhe aparece o Guilherme Zarvos, então, jovem produtor de um evento na Faculdade da Cidade chamado &#8220;Terças Poéticas&#8221;. Toda terça, havia uma mesa com um poeta de renome como Gullar, Cabral, Gerardo de Mello Mourão, Antonio Houaiss, Antonio Carlos Secchin, com convidados da nova geração, rapaziada mesmo. Chacal fora convidado por Zarvos para falar no mesmo dia da Heloisa Buarque de Hollanda sobre a poesia marginal e no fim de tudo, houve uma apresentação do grupo, então iniciante, Boato. Logo mais, algo surgiria.</div>
<div>
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<div>.</div>
<div>FALA PALAVRA</div>
<div>.</div>
<div>fala palavra</div>
<div>tu que és velhíssima</div>
<div>no entanto uma gata</div>
<div>meus afagos</div>
<div>agarrar queria eu teu lombo bom</div>
<div>mas és limo na pedra de imolar amantes</div>
<div>feliz seria se te flagrasse no banho</div>
<div>mas me afogaria na areia movediça</div>
<div>do texto da tua tez</div>
<div>só me resta te cantar</div>
<div>como um cego</div>
<div>que sabe a luz tão próxima</div>
<div>mas impossível</div>
<div>ou como um mudo que sabe</div>
<div>um a um todos os tons</div>
<div>mas incapaz</div>
<div>fala palavra</div>
<div>furta-cor de tudo e todos</div>
<div>apenas passas</div>
<div>                      dás o nome</div>
<div>                                       e vais a caça</div>
<div>                                       bela e fera</div>
<div>                                       pantera</div>
<div>estanca o delírio romântico</div>
<div>nesse coração de poeta</div>
<div>cala em mim a paixão de te cantar</div>
<div>como um louco</div>
<div>que me vale saber tuas sonoridades</div>
<div>                          teu tom de cristal</div>
<div>se no meio desse hospital</div>
<div>                          fico tão impaciente</div>
<div>fala palavra</div>
<div>               fluido flerte</div>
<div>és versátil volúvel volátil</div>
<div>                                 diabólica</div>
<div>fala palavra</div>
<div>                mercúria sombra do nada</div>
</div>
<div>.</div>
<div>Com o fim do &#8220;Terças poéticas&#8221; Chacal procura o Zarvos para uma conversa propondo a continuação do evento. Zarvos diz que não gostaria de continuar com a necessidade de chamar sempre um poeta conhecido, julgava difícil agendar, Chacal achava que deveria ser de noite também. Após uma viagem para Berlim, Zarvos, que lá tinha visto um evento parecido, volta com a ideia de fazer algo semelhante, envolvendo poesia e música. Numa conversa entre Chacal, Zarvos e Carlos Emílio, chegam à ideia do CEP 20000. O primeiro foi marcado na última quarta feira de agosto no Espaço Sérgio Porto em 1990. Zarvos, Chacal, Tavinho Paes, Alex Hamburguer, junto com a garotada do Boato, Guilherme Levi e quem aparecesse. O cartaz foi feito pelo André Britto. Chovia muito. Meio vazio, teve fechamento do Boato, que era formado por Celão, Cabelo, Dado Amaral, Beto, Montanha e Justo D&#8217;Ávila. Mais ou menos assim teve início o CEP 20000 que duraria 20 anos, ou melhor, está aí há vinte anos. Ainda bem.</div>
<div>
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<div>.</div>
<div>SOBREPOESIA</div>
<div>.</div>
<div>a velha pergunta se instala</div>
<div>na sala do meu dia a dia:</div>
<div>pra que serve poesia?</div>
<div>pra decorar cerimônia</div>
<div>pra debelar a insônia</div>
<div>para dar nume ao nome</div>
<div>ou para cantar meu amor</div>
<div>operísticamente?</div>
<div>novas respostas se agitam</div>
<div>em busca de uma saída:</div>
<div>a poesia é precisa</div>
<div>pelo sim e pelo não</div>
<div>pelo que do não é til</div>
<div>pelo que ainda é talvez</div>
<div>pela energia sutil</div>
<div>a poesia é assim.</div>
<div>de novo o problema aparece</div>
<div>e uma ruga se materializa:</div>
<div>como viver de poesia?</div>
<div>de fazer reclame anúncio</div>
<div>de letrar o que é melodia</div>
<div>de ficcionar o que é pedra</div>
<div>ou posando de poeta</div>
<div>oportunista lente?</div>
<div>enfim a solução transparece</div>
<div>em súbita luz muito viva:</div>
<div>a poesia se vive</div>
<div>sem meias medidas</div>
<div>no transitivo direto</div>
<div>sem tênis adidas</div>
<div>no infinitivo descalço</div>
<div>a poesia é o fim.</div>
</div>
<div>.</div>
<div>Logo após a criação do CEP, Chacal, começa a dar oficinas no Galpão das Artes do MAM. O museu passava por um momento difícil com a crise econômica do governo Collor, então, artistas foram convidados para dar oficinas. Antonio Cícero, Regina Miranda, Paulo Fortes e Chacal, que, inclusive, chegou a editar o Jornal do MAM. Com novo gás, Chacal entra com tudo no CEP. Lá se vão vinte anos e muitos passaram por lá: Marcia X, Pedro Luiz e a Parede, Arthur Omar, Chelpa Ferro, Hapax, Michel Melamed e dezenas de outros. Depois de um tempo, havia o CEP do Chacal e o CEP do Zarvos, todos frequentavam todos e com isso, todos ganhavam. O CEP reunia a rapaziada do Posto 9, do Baixo Gávea, do Baixo Leblon e muita gente que ouvia falar nesse lugar onde tudo acontecia. Liberdade sempre. O CEP virou a tese de doutorado do Zarvos e referência para os novos, inclusive este que vos escreve. Nestes mesmos anos 90, Chacal passa a morar no Baixo Gávea, que era frequentado por jovens interessados em artes, o CEP era divulgado lá, obviamente. Outro ponto de encontro era a casa do Zarvos. Por aí vai.</div>
<div>
<div><a href="http://cartilhadepoesia.wordpress.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://cartilhadepoesia.wordpress.com</a></div>
<div>.</div>
<div>LÚCIFER</div>
<div>
<div>.</div>
<div>- Lúcifer! lúcifer! retornai de onde vos exilastes</div>
<div>diante da hipocrisia dos homens, vinde lá das</div>
<div>entranhas das trevas nos dar tua luz, encarnada luz,</div>
<div>único farol possível no meio desassossego. lúcifer!</div>
<div>lúcifer! lúcifer!</div>
<div>Acordo no meio da noite com o nome do príncipe</div>
<div>das trevas ecoando. vejo uma luz que vem como</div>
<div>uma golfada vermelha de dentro do tenebrião para</div>
<div>dar direção a minhas imagens pânicas. perdido no</div>
<div>lusco-fusco, essa íntima aurora boreal clareia meus</div>
<div>passos nesse labirinto. em toda baía, meu barco baila</div>
<div>bêbado e a grande lua com seus reflexos prismáticos</div>
<div>me desorienta dezoito pressentimentos. fujo de um,</div>
<div>atravessando o charco em desespero para naufragar</div>
<div>em outro, sibila tenebrosa, movediço pântano que me</div>
<div>quer devorar com suas garras crustáceas. aí de dentro</div>
<div>de mim, do fundo da noite eterna, um único grito</div>
<div>brota</div>
<p>- Lúcifer!</p>
<div>Então uma onda de fogo e luz me aquece e ilumina e o</div>
<div>louco lago se rasga. do seu leito seco, nasce um olho</div>
<div>aceso que sabe onde pisar. sim, senhor das trevas,</div>
<div>agora acredito na força das imagens primordiais. sim,</div>
<div>pastor da noite, tenho fé nas vozes que emergem das</div>
<div>minhas vísceras. sim, mestre ctônico, agora olho as</div>
<div>serpentes, os cães, os gatos, com olhar numinoso</div>
<div>de quem vê os encaminhadores. e todos rendem</div>
<div>homenagem à luz que vem de onde não se vê, ao calor</div>
<div>que brota das águas geladas, e todos tecem loas ao</div>
<div>lendário andarilho vagabundo que crepita em toda</div>
<div>lenha e repercute carnaval</div>
<div>- Lúcifer, sebgor dos caminhos! iluminai nossas</div>
<div>veredas. desencadeai a ígnea tempestade para que o</div>
<div>mais humano entre os deuses, o mais santo entre os</div>
<div>mortais, possa de novo caminhar à luz do dia, com</div>
<div>seus chifres, cetro e rabo. lúcifer! lúcifer! imperai!</div>
</div>
</div>
<div>.</div>
<div>Em 2001 surge o FalaPalavra. Grupo performático formado Chacal, Pedro Rocha, Ericson Pires, Viviane Mosé, Guilherme Levi, Paulista, Michel Melamed e Éber Inácio. Foram algumas apresentações no Planetário da Gávea e no próprio Sérgio Porto. O FalaPalavra é o maior exemplo de desmembramentos do CEP, que também se deu em outros grupos. Nos 10 anos do CEP houve uma grande homenagem na Revista Trip, com um cd e grande máteria. Nesse meio, Chacal organiza o Humaitá Pra Peixe, com música e poesia. Quando o Sérgio Porto fecha para obras, Chacal ajuda a criar um bloco de carnaval. A ideia foi crescendo, até que surge o Bangalafumenga, com Pedro Luís e outros. Os shows eram no Planetário e deram certo. O carnaval de rua do Rio voltava a ser o que era.</div>
<div>
<div><a href="http://pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div>.</div>
<div>TEMPO</div>
<div>.</div>
<div>no início era o começo</div>
<div>o depois veio vindo devagar.</div>
<div>o antes veio depois do depois.</div>
<div>só antes quando esse se estabeleceu.</div>
<div>no princípio era o agora.</div>
<div>isso demorou até que</div>
<div>tudo virou antes e depois.</div>
<div>então numa revolução peluda</div>
<div>o agora voltou ao trono.</div>
<div>antes e depois viraram</div>
<div>falta do que fazer.</div>
<div>e tanto fizeram</div>
<div>que o agora virou tudo</div>
<div>e o tudo, nada.</div>
<div>de volta ao princípio</div>
<div>o agora agora congelou.</div>
<div>o antes fica ora depois.</div>
</div>
<div>.</div>
<div>Profunda errata: Ontem esqueci do Guilherme Zarvos no coro do FalaPalavra, que acontecia em 2000. Depois, houve um lapso de tempo com relação ao Humaitá Pra Peixe que ocorreu em 1992. Fora isso, em 2000, houve o Miscelânea Odeon, evento que começava nas portas do cinema e terminava lá dentro com muita festa. Chacal organizou quatro. Já há muito tempo, Chacal, se tornara referência para eventos de poesia envolvendo outras linguagens. Chacal já era cinquentenário. Chacal também participou da organização do Freezone, evento multiartes patrocinado pela Souza Cruz que acontecia em várias cidades. Grande proporções. Chacal já estava há oito anos sem publicar, até que surgiu a vontade fazer &#8220;A vida é curta para ser pequena&#8221;, que além de um belo livro, virou uma peça dirigida pela Cristina Flores. Chacal em cena.</div>
<div>
<div>Chama o Raí em <a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div>.</div>
<div>PALAVRA CORPO</div>
<div>.</div>
<div>a palavra vive no papel</div>
<div>com vírgulas hífens crases reticências</div>
<div>leva uma vida reclusa de carmelita descalça</div>
<div>corpo palavra</div>
<div>o corpo aprendeu a ler na rua</div>
<div>com manchetes de jornais</div>
<div>jogadas na cara pelo vento</div>
<div>com gírias palavrões</div>
<div>zoando no ouvido</div>
<div>com gritos sussurros</div>
<div>impressos na pele</div>
<div>palavra corpo</div>
<div>a palavra que sair de si</div>
<div>a palavra quer cair no mundo</div>
<div>a palavra quer soar por aí</div>
<div>a palavra que ir mais fundo</div>
<div>a palavra funda</div>
<div>a palavra quer</div>
<div>a palavra fala:</div>
<div>- eu quero um corpo!</div>
<div>corpo palavra</div>
<div>o corpo sabe letras com gosto</div>
<div>de carne osso unha e gente</div>
<div>o corpo lê nas entrelinhas</div>
<div>o corpo conhece os sinais</div>
<div>o corpo não mente</div>
<div>o corpo quer dizer o que sabe</div>
<div>o corpo sabe</div>
<div>o corpo quer</div>
<div>o corpo diz:</div>
<div>- fala palavra!!!</div>
<div>palavracorpo corpopalavra</div>
</div>
<div>.</div>
<div>Em 2003 a RioArte foi fechada pela Prefeitura. Algumas companhias de dança e de teatro ficaram sem apoio e houve uma grande revolta. Gilberto Gil assume o Ministério da Cultura e a Lei Rouanet é posta em questão. Chacal luta pelo 1% no orçamento para a Cultura. De um lado havia o grande teatro e do outro os grupos experimentais. No Largo do Machado, houve um grande manifesto com a participação de alguns grupos teatrais e de dança, Chacal, junto com Fábio Ferreira, redigiu o Manifesto 1. Em 2006, Chacal, após aprender os caminhos da produção cultural, cria o Bendita Palavra Maldita, no SESC. Performances com poesia e artes plásticas envolvendo gerações diferentes. Nessa época, Chacal começa a receber convites para se apresentar em outros países, Argentina e depois Estados Unidos. Em Nova York, Chacal faz uma performance no Bowery Club, porém, uma triste notícia do Brasil: O Sérgio Porto pega fogo.</div>
<div>
<div><a href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div>.</div>
<div>ESSE ANIMAL</div>
<div>.</div>
<div>o poeta é de carne e osso</div>
<div>tem olhos, boca, nariz, pescoço</div>
<div>tem pressa, humor, desejo e calma</div>
<div>o poeta é de corpo e alma</div>
<div>o poeta é de osso e carne</div>
<div>sendo a vida vivda o osso</div>
<div>a carne o que lhe dá a palavra</div>
<div>o poeta é alguém que se lavra</div>
<div>tem poeta mais carne que osso</div>
<div>tem o tecido adiposo de quem</div>
<div>entre livros letras ditados</div>
<div>vê a vida passar ao largo</div>
<div>tem poeta carne de pescoço</div>
<div>traz o esqueleto no rosto</div>
<div>não sabe dar carne ao poema</div>
<div>preso no fundo do poço</div>
<div>o poeta é um animal que fuma</div>
</div>
<div>.</div>
<div>Belvedere é o livro que contém toda a sua poesia reunida. Também é o nome de um mirante na subida da Serra. O livro tem treze livros em 35 anos de estrada. Saiu em 2007, numa bela edição. O lançamento foi na FLIP do mesmo ano. Por essa época, Chacal faz algumas viagens para São Paulo, com recitais e encenações de seus poemas na Praça Roosevelt pelo grupo Os Satyros. Houve também o CEP 20000 na mesma praça e Chacal percorre o Circuito SESC das Artes. Em 2010, Chacal publica Uma História à Margem, autobiografia que é, para mim, um documento de extrema importância para todos os jovens poetas do Rio de Janeiro, ou para os que queiram entender como a coisa toda funcionou e funciona por aqui. O CEP se renovou e hoje volta a ser procurado, volta a ser um ponto de encontro, como sempre foi e Chacal, um dos seus grande responsáveis.</div>
<div>
<div><a href="http://cartilhadepoesia.wordpress.com/" rel="nofollow" target="_blank">http://cartilhadepoesia.wordpress.com</a></div>
<div>.</div>
<div>DOIS PONTO TRES LISBOA</div>
<div>.</div>
<div>tô sem ideia. sem vontade descrever. de nada. não</div>
<div>tenho a mínima ideia do que virá a seguir. inércia é</div>
<div>meu sobrenome. ando tão feio. tão sem assunto. me</div>
<div>assusto. ninguém mais há em minha volta. tô cansado</div>
<div>da minha companhia. só falo besteira. não digo nada</div>
<div>com nada. preciso exercitar a pena. se ela se move que</div>
<div>seja na minha mão. trêmula e bolorenta. mesmo que</div>
<div>seja para ser mais um papel sujo. se isso fosse uma folha</div>
<div>em branco, você podia desenhar, descansar a vista. ou</div>
<div>escrever um bilhete suicida. mas eu passei primeiro</div>
<div>e&#8230; se você não se importa, rabisque por cima. por mim</div>
<div>tanto faz. acho até que vou tomar um bagaço e ver</div>
<div>no que dá. vou à torre de Belém olhar o Tejo. matar o</div>
<div>tempo pra não me matar, esse é o meu nome. fiquei nos</div>
<div>quartos dessa casa em Benfica o dia todo, ouvindo rock</div>
<div>lendo história em quadrinho. boa noite. talvez alguém</div>
<div>leia e curta isso aqui. tanto faz. embora tudo que mais</div>
<div>quero nessa porca vida é te botar feliz. bagaço nasta o</div>
<div>meu e o da uva.</div>
</div>
<div>.</div>
<div>Eis que chegamos ao final de mais uma antologia. Desta vez, percorremos a poesia do poeta Ricardo de Carvalho Duarte, o Chacal. Poeta nervo do tempo da geração da marginal, do dizer poesia, do diálogo com a nova geração, dos eventos de poesia, quem começou tudo isso que nós vemos e vivemos hoje no cenário poético do Rio de Janeiro. Da Nuvem Cigana, Artmanhas, Circo Voador, ao CEP 20000 e o FalaPalavra. Lembrando Manuel Bandeira, o sexagenário Chacal, (dia 24 de maio fará 60 anos) é, de fato, umas das figuras mais notáveis da poesia brasileira, com especial devoção ao Rio de Janeiro, cidade onde cresceu e desenvolveu sua voz, seu grito. Semana que vem entraremos numa outra questão, numa outra proposição poética, em outros poemas, outra trajetória, só para lembrar que a poesia pode mudar tudo de uma hora para outra, e o poema é uma das chaves para isso. Evoé!</div>
<div>
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<div>.</div>
<div>SOBRE O SILENCIO</div>
<div>.</div>
<div>hoje não viemos discutir projetos</div>
<div>hoje não viemos pedir</div>
<div>hoje viemos como alguém que visita sua casa</div>
<div>que vem dizer pra família</div>
<div>sobre as dificuldades de se tecer a invenção</div>
<div>sobre o abismo que se abre para além do entretenimento</div>
<div>sobre o prazer que é lutar pelo que se acredita</div>
<div>hoje viemos dizer pra família</div>
<div>que não vamos mais terminar os estudos</div>
<div>e que nossa carne curtida, nosso olho vermelho,</div>
<div>nosso sorriso encarnado e, principalmente, nosso silêncio</div>
<div>dizem tudo.</div>
</div>
<br />Filed under: <a href='http://cartilhadepoesia.wordpress.com/category/todos-os-poetas-aqui/'>TODOS OS POETAS AQUI</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/cartilhadepoesia.wordpress.com/73/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/cartilhadepoesia.wordpress.com/73/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/cartilhadepoesia.wordpress.com/73/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/cartilhadepoesia.wordpress.com/73/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/cartilhadepoesia.wordpress.com/73/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/cartilhadepoesia.wordpress.com/73/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/cartilhadepoesia.wordpress.com/73/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/cartilhadepoesia.wordpress.com/73/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/cartilhadepoesia.wordpress.com/73/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/cartilhadepoesia.wordpress.com/73/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/cartilhadepoesia.wordpress.com/73/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/cartilhadepoesia.wordpress.com/73/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/cartilhadepoesia.wordpress.com/73/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/cartilhadepoesia.wordpress.com/73/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=73&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>José Saramago</title>
		<link>http://cartilhadepoesia.wordpress.com/2011/04/09/jose-saramago/</link>
		<comments>http://cartilhadepoesia.wordpress.com/2011/04/09/jose-saramago/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 09 Apr 2011 17:48:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cartilhadepoesia</dc:creator>
				<category><![CDATA[TODOS OS POETAS AQUI]]></category>

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		<description><![CDATA[José de Sousa Saramago nasceu em Azinhaga, vilarejo do conselho de Golegã, que fica localizada na antiga província de Ribatejo em Portugal no dia 16 de novembro de 1922. Cresceu &#8220;numa família de camponeses em terra&#8221; como uma vez escreveu. Neste mês, percorreremos a poesia, pouca conhecida, deste grande e laureado escritor da língua portuguesa [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=70&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>José de Sousa Saramago nasceu em Azinhaga, vilarejo do conselho de Golegã, que fica localizada na antiga província de Ribatejo em Portugal no dia 16 de novembro de 1922. Cresceu &#8220;numa família de camponeses em terra&#8221; como uma vez escreveu. Neste mês, percorreremos a poesia, pouca conhecida, deste grande e laureado escritor da língua portuguesa cuja prosa todos conhecemos. Com muita honra que determino: Agora é Saramago!</p>
<div><a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com/" target="_blank">http://pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div></div>
<div>ÁGUA AZUL</div>
<div>
<p>Altos segredos escondem dentro de água<br />
O reverso da carne, corpo ainda.<br />
Como um punho fechado ou um bastão,<br />
Abro o líquido azul, a espuma branca,<br />
E por fundos de areia e madrepérola,<br />
Desço o véu sobre os olhos assombrados.</p>
<p>(Na medida do gesto, a largueza do mar<br />
E a concha do suspiro que se enrola.)</p>
<p>Vem a onda de longe, e foi um espasmo,<br />
Vem o salto na pedra, outro grito:<br />
Depois a água azul desvenda as milhas,<br />
Enquanto um longo, e longo, e branco peixe<br />
Desce ao fundo do mar onde nascem as ilhas.</p>
</div>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Foi &#8220;numa família de camponeses sem terra&#8221; que Saramago nasceu. Consta que o nome &#8216;Saramago&#8217; vem de uma planta espontânea que servia de alimento aos pobres. Em 1924, aos dois anos de idade, a família se muda para Lisboa. O pai resolvera abandonar o trabalho no campo para exercer a profissão de policial na capital. Meses depois da mudança, seu irmão, Francisco, de quatro anos de idade, faleceria. As condições eram precárias, a família viveu em vários lugares, sempre em quartos alugados na ruas de Lisboa.</p>
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<div>TEU CORPO DE TERRA E ÁGUA</div>
<div>
<table border="0" cellspacing="0" cellpadding="3" width="100%">
<tbody>
<tr>
<td align="left" valign="top">
<div>
<p>Teu corpo de terra e água<br />
Onde a quilha do meu barco<br />
Onde a relha do arado<br />
Abrem rotas e caminho.</p>
<p>Teu ventre de seivas brancas<br />
Tuas rosas paralelas<br />
Tuas colunas teu centro<br />
Teu fogo de verde pinho</p>
<p>Tua boca verdadeira<br />
Teu destino minha alma<br />
Tua balança de prata<br />
Teus olhos de mel e vinho</p>
<p>Bem que o mundo não seria<br />
Se o nosso amor lhe faltasse<br />
Mas as manhãs que não temos<br />
São nossos lençóis de linho</p>
<p>José Saramago fez a instrução básica nas escolas primarias da Rua Martens Ferrão e do Largo do Leão, em Lisboa. A família o havia matriculado numa escola chamada Liceu Gil Vicente, onde fez boa parte do colegial, divido na época em Portugal, em liceu e técnico. Porém, por dificuldades econômicas, foi obrigado a transferir-se para a Escola Industrial de Afonso Domingues, onde estudou, durante cinco anos, o ofício de serralheiro mecânico.</p>
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<div></div>
<div>PASSO NUM GESTO QUE EU SEI</div>
<div>
<div>
<p>Passo num gesto que eu sei<br />
Deste mundo agoniado para o espaço<br />
Onde sou quanto serei<br />
No tempo que sobra escasso</p>
<p>No outro mundo sou rei<br />
E o meu rosto de cristal e puro aço<br />
É o espelho que forjei<br />
Com suor pena e cansaço</p>
<p>E se o mundo que deixei<br />
Tem as marcas desenhadas do meu passo<br />
São baralhas que enredei<br />
São teias e vidro baço</p>
<p>Tantas provas cá terei<br />
Tantas vezes do pescoço solto o laço<br />
Se me sagraram em rei<br />
Aceitem a lei que eu faço</p>
<p>Vem a ser que o homem novo<br />
Está na verdade que movo</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>À noite, o jovem Saramago frequentava a biblioteca municipal do Palácio das Galveias, como ele próprio diria &#8220;lendo ao acaso de encontros e de catálogos, sem orientação, sem ninguém que me aconselhasse, como o mesmo assombro criador do navegante que vai inventando cada lugar que descobre&#8221;. Foi assim, &#8220;guiado pela curiosidade e pela vontade de aprender&#8221; que desenvolveu o gosto pela leitura e o gosto especial por Kafka, Gogol, Cervantes, Montaigne, Raul Brandão e Padre Antônio Vieira.</p>
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<div></div>
<div>DISSERAM QUE HAVIA SOL</div>
<div>
<p>Disseram que havia sol<br />
Que todo o céu descobria<br />
Que nas ramagens pousavam<br />
Os cantos das aves loucas</p>
<p>Disseram que havia risos<br />
Que as rosas se desdobravam<br />
Que no silêncio dos campos<br />
Se davam corpos e bocas</p>
<p>Mais disseram que era tarde<br />
Que a tarde já descaía<br />
Que ao amor não lhe bastavam<br />
Estas nossas vidas poucas</p>
<p>E disseram que ao acento<br />
De tão geral harmonia<br />
Faltava a simples canção<br />
Das nossas gargantas roucas</p>
<p>Ó meu amor estas vozes<br />
São os avisos do tempo</p>
</div>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Avançando na vida do jovem José Saramago, em 1944, aos 22 anos, casa-se com a pintora Ilda Reis. Neste momento, já havia mudado sua atividade, do emprego de serralheiro mecânico, agora, trabalharia como empregado administrativo, primeiro nos Hospitais Civis de Lisboa, depois, na Caixa de Abono da Família do Pessoal de Industria e Cerâmica, de onde foi afastado, mais tarde, em 1947, por razões políticas, quando apoiou o candidato da oposição General Norton de Matos, nas eleições da presidência da República.</p>
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<div></div>
<div>DE PAZ E DE GUERRA</div>
<div>
<div>
<p>Na mão serena que num gesto de onda<br />
Em estátua musical o ar modela.</p>
<p>Na mão torcida que num frio de gelo<br />
A parede do tempo em fundos gritos risca.</p>
<p>Na mão de febre que num suor de chama<br />
Em cinzas vai tornando quanto toca.</p>
<p>Na mão de seda que num afago de asa<br />
Faz abrir os sonhos como fontes de água.</p>
<p>Na tua mão de paz, na tua mão de guerra,<br />
Se já nasceu amor, faz ninho a mágoa.</p>
</div>
</div>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Em 1947, nasce sua primeira e única filha, Violante, é também o ano da publicação de seu primeiro livro, Terra do Pecado, intitulado inicialmente, A Viúva. Graças à intervenção de seu antigo professor Jorge O&#8217;Neil, começou a trabalhar na Caixa de Previdência do Pessoal da Companhia de Previdente, fazendo cálculo de subsídios e de pensões. Nessa época, já escrevia poemas e contos, alguns deles publicados em algumas revistas e jornais. Outro romance, literário, viria.</p>
<div>Terapia High Tech em <a rel="nofollow" href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div></div>
<div>RETRATO DO POETA QUANDO JOVEM</div>
<div>
<div>
<p>Há na memória um rio onde navegam<br />
Os barcos da infância, em arcadas<br />
De ramos inquietos que despregam<br />
Sobre as águas as folhas recurvadas.</p>
<p>Há um bater de remos compassado<br />
No silêncio da lisa madrugada,<br />
Ondas brandas se afastam para o lado<br />
Com o rumor da seda amarrotada.</p>
<p>Há um nascer do sol no sítio exacto,<br />
À hora que mais conta duma vida,<br />
Um acordar dos olhos e do tacto,<br />
Um ansiar de sede inextinguida.</p>
<p>Há um retrato de água e de quebranto<br />
Que do fundo rompeu desta memória,<br />
E tudo quanto é rio abre no canto<br />
Que conta do retrato a velha história.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Em 1953, Saramago concluía o romance, até hoje inédito, Clarabóia, que seu amigo, o pintor Figueiredo Sobral, enviou para Empresa Nacional de Publicidade e de que esta só deu notícia em 1990 (!). Sobre este caso, Saramago disse que &#8220;sempre tive a consciência que não se perdeu grande coisa em não ter sido publicado&#8221;. Depois disso, consta que Saramago passaria dezenove anos sem escrever nada, quase duas décadas de silêncio, &#8220;achava que não tinha nada pra dizer&#8221;, dizia.</p>
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">EM VIOLINO FADO</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div>
<div>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Ponho as mãos no teu corpo musical<br />
Onde esperam os sons adormecidos.<br />
Em silêncio começo, que pressente<br />
A brusca irrupção do tom real.<br />
E quando a alma ascendendo canta<br />
Ao percorrer a escala dos sentidos,<br />
Não mente a alma nem o corpo mente.<br />
Não é por culpa nossa se a garganta<br />
Enrouquece e se cala de repente<br />
Em cruas dissonâncias, em rangidos<br />
Exasperantes de acorde errado.</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Se no silêncio em que a canção esmorece<br />
Outro tom se insinua, recordado,<br />
Não tarda que se extinga, emudece:<br />
Não se consente em violino fado.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:Georgia, 'Times New Roman', 'Bitstream Charter', Times, serif;">Saramago começou a trabalhar na editora Estúdios Cor, como responsável pela produção, o que lhe permitiu conhecer e fazer amizades com os principais escritores portugueses daquele momento. Nesta época, 1955, para melhorar os rendimentos da família, e também por gosto pessoal, Saramago inicia um trabalho de tradução literária. A partir daí, se envolve com Collete, Par Lagerkvist, Jean Cassou, Maupassant, André Bonnard, Tolstoi, Baudelaire, Étienne Balibar, Nicos Poulantzas, Henri Focillon, Jacques Roumain, Hegel e Raymond Bayer. Por aí vai.</p>
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<div>TAXIDERMA OU POÉTICAMENTE HIPÓCRITA</div>
<div>
<div>Posso falar de morte enquanto vivo?</div>
<div>Posso ganir de fome imaginada?</div>
<div>Posso lutar nos versos escondido?</div>
<div>Posso fingir de tudo, sendo nada?</div>
<div>Posso tirar verdades de mentiras,</div>
<div>Ou inundar de fontes um deserto?</div>
<div>Posso mudar de cordas e de liras,</div>
<div>E fazer de má noite sol aberto?</div>
<div>Se tudo a vãs palavras se reduz</div>
<div>E com elas me tapo a retirada,</div>
<div>Do poleiro da sombra nego a luz</div>
<div>Como a canção se nega embalsamada.</div>
<div>Olhos de vidro e asas prisioneiras,</div>
<div>Fiquei-me pelo gasto de palavras</div>
<div>Como rasto das coisas verdadeiras.</div>
</div>
<p></span></span></div>
<div></div>
<div></div>
<div></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-family:Georgia, 'Times New Roman', 'Bitstream Charter', Times, serif;">Em 1966, Saramago publicou seu primeiro livro de poesia, Os Poemas Possíveis, cujos poemas percorremos nessa semana. Paralelamente, entre maio de 67 e novembro de 68, colaborou como crítico literário na revista Seara Nova, analisando vinte e três livros de ficção, dentre os quais, Jorge de Sena, Agustina Bessa Luís, Alice Sampaio, Augusto Abelaira, Urbano Tavares Rodrigues, José Cardoso Pires, Rentes Carvalho, Nelson de Matos e Manuel Campos Pereira. Saramago definiu Agustina como &#8220;genial&#8221;. Publicou crônicas no jornal A Capital, que depois seriam reunidas no livro Deste Mundo e de Outro.</p>
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<div></div>
<div></div>
<div>MITOLOGIA</div>
<div>
<p>Os deuses, noutros tempos, eram nossos<br />
Porque entre nós amavam. Afrodite<br />
Ao pastor se entregava sob os ramos<br />
Que os ciúmes de Hefesto iludiam.</p>
<p>Da plumagem do cisne as mãos de Leda,<br />
O seu peito mortal, o seu regaço,<br />
A semente de Zeus, dóceis, colhiam.</p>
<p>Entre o céu e a terra, presidindo</p>
<p>Aos amores de humanos e divinos,</p>
<p>O sorriso de Apolo refulgia.</p>
<p>Quando castos os deuses se tornaram,</p>
<p>O grande Pã morreu, e órfãos dele,</p>
<p>Os homens não souberam e pecaram.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Em 1970, José Saramago se divorcia de Ilda Reis e inicia, logo após, uma relação que duraria dezesseis anos com a escritora Isabel da Nóbrega. No mesmo ano publica seu segundo livro de poemas Provavelmente Alegria. Saramago sai da editora Estúdios Cor, onde trabalhava, e foi ser editorialista e coordenador de um suplemento cultural do Diário de Lisboa. Colaborava também com o Jornal do Fundão.</p>
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<div></div>
<div>OUVINDO BEETHOVEN</div>
<div>
<table border="0" cellspacing="0" cellpadding="3" width="100%">
<tbody>
<tr>
<td align="left" valign="top">
<div>
<p>Venham leis e homens de balanças,<br />
Mandamentos daquém e dalém mundo,<br />
Venham ordens, decretos e vinganças,<br />
Desça o juiz em nós até ao fundo.</p>
<p>Nos cruzamentos todos da cidade,<br />
Brilhe, vermelha, a luz inquisidora,<br />
Risquem no chão os dentes da vaidade<br />
E mandem que os lavemos a vassoura.</p>
<p>A quantas mãos existam, peçam dedos,<br />
Para sujar nas fichas dos arquivos,<br />
Não respeitem mistérios nem segredos,<br />
Que é natural nos homens serem esquivos.</p>
<p>Ponham livros de ponto em toda a parte,<br />
Relógios a marcar a hora exacta,<br />
Não aceitem nem votem outra arte<br />
Que a prosa de registo, o verso data.</p>
<p>Mas quando nos julgarem bem seguros,<br />
Cercados de bastões e fortalezas,<br />
Hão-de cair em estrondo os altos muros<br />
E chegará o dia das surpresas.</p>
<p>&nbsp;</p>
</div>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>Em 1973, José Saramago publica O Embargo e o segundo livro de crônicas jornalísticas e publicadas no Jornal do Fundão e em A Capital com o título de A Bagagem do Viajante. Em abril de 1974 vem a Revolução dos Cravos e, Saramago, que já dirigia o suplemento literário do Diário de Lisboa e colaborava com a revista Arquitectura, torna-se uma espécie de &#8220;operário das palavras&#8221;, é nomeado diretor-adjunto do Diário de Notícias durante o período de governo chefiados pelo General Vasco Gonçalves. Saramago já havia coordenado uma equipe do Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis, dependente do Ministério da Educação. Editou também seu primeiro livro de crônicas políticas: As Opiniões que DL teve.</p>
<div>texto Lá vem Juvenal! no <a rel="nofollow" href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div></div>
<div>AOS DEUSES SEM FIÉIS</div>
<div>
<p>Talvez a hora escura, a chuva lenta,<br />
Ou esta solidão inconformada.</p>
<p>Talvez porque a vontade se recolha<br />
Neste findar de tarde sem remédio.</p>
<p>Finjo no chão as marcas dos joelhos<br />
E desenho o meu vulto em penitente.</p>
<p>Aos deuses sem fiéis invoco e rezo,<br />
E pergunto a que venho e o que sou.</p>
<p>Ouvem-me calados os deuses e prudentes,<br />
Sem um gesto de paz ou de recusa.</p>
<p>Entre as mãos vagarosas vão passando<br />
A joeira do tempo irrecusável.</p>
<p>Um sorriso, por fim, passa furtivo<br />
Nos seus rostos de fumo e de poeira.</p>
<p>Entre os lábios ressecos brilham dentes<br />
De rilhar carne humana desgastados.</p>
<p>Nada mais que o sorriso retribui<br />
O corpo ajoelhado em que não estou.</p>
<p>Anoitece de todo, os deuses mordem,<br />
Com seus dentes de névoa e de bolor,<br />
A resposta que aos lábios não chegou.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O verão quente de 75 foi turbulento, os tempos estavam confusos e Portugal, como muitos diziam, beirava uma guerra civil. No Diário de Notícias, onde Saramago trabalhava, consta que sentia-se o clima braço de ferro entre os tidos como &#8220;radicais&#8221; envolvidos no processo revolucionário de acordo com a linha política do Partido Comunista Português (PCP) do qual Saramago fazia parte desde 66, e com os mais &#8220;moderados&#8221;. A linha editorial do jornal foi posta em causa por trinta jornalistas que defendiam a revisão, ou seja, uma espécie de censura, através de uma abaixo-assinado, e exigiam a publicação do mesmo no próprio jornal.</p>
<div><a rel="nofollow" href="http://cartilhadepoeisia.wordpress.com/" target="_blank">http://cartilhadepoeisia.wordpress.com</a></div>
<div>POEMA A BOCA FECHADA</div>
<div>
<p>Não direi:<br />
Que o silêncio me sufoca e amordaça.<br />
Calado estou, calado ficarei,<br />
Pois que a língua que falo é doutra raça.</p>
<p>Palavras consumidas se acumulam,<br />
Se represam, cisterna de águas mortas,<br />
Ácidas mágoas em limos transformadas,<br />
Vasa de fundo em que há raízes tortas.</p>
<p>Não direi:<br />
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,<br />
Palavras que não digam quanto sei<br />
Neste retiro em que me não conhecem.</p>
<p>Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,<br />
Nem só animais boiam, mortos, medos,<br />
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam<br />
No negro poço de onde sobem dedos.</p>
<p>Só direi,<br />
Crispadamente recolhido e mudo,<br />
Que quem se cala quanto me calei<br />
Não poderá morrer sem dizer tudo.</p>
</div>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O processo de censura dentro do Diário de Notícias apareceu logo no dia seguinte no jornal Expresso, assim como na BBC. No jornal, para qualquer tipo de decisão era preciso convocar o Conselho Nacional de Trabalhadores, onde, em certa noite, fora decidido que 24 jornalistas seriam afastados após uma intervenção eloquente de Saramago. Porém, no governo seguinte, Saramago, que fora alvo de uma espécie de &#8220;saneamento&#8221;, foi definitivamente afastado do cargo e o jornal suspenso sem qualquer apoio do Partido Comunista.</p>
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<div>ESTUDO DE NU</div>
<div>
<table border="0" cellspacing="0" cellpadding="3" width="100%">
<tbody>
<tr>
<td align="left" valign="top">
<div>
<p>Essa linha que nasce nos teus ombros,<br />
Que se prolonga em braço, depois mão,<br />
Esses círculos tangentes, geminados,<br />
Cujo centro em cones se resolve,<br />
Agudamente erguidos para os lábios<br />
Que dos teus se desprenderam, ansiosos.</p>
<p>Essas duas parábolas que te apertam.<br />
No quebrar onduloso da cintura,<br />
As calipígias ciclóides sobrepostas<br />
Ao risco das colunas invertidas:<br />
Tépidas coxas de linhas envolventes,<br />
Contornada espiral que não se extingue.</p>
<p>Essa curva quase nada que desenha<br />
No teu ventre um arco repousado,<br />
Esse triângulo de treva cintilante,<br />
Caminho e selo da porta do teu corpo,<br />
Onde o estudo de nu que vou fazendo<br />
Se transforma no quadro terminado.</p>
</div>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Mais uma vez desempregado e com as portas completamente fechadas para qualquer possibilidade de emprego no contexto político, José Saramago dedica-se por completo à escrita e à tradução, vertendo para o português cerca de vinte e sete obras, quase todas de caráter político. Ganhava pouco dinheiro, porém, não desistia do ofício. Fez parte do Movimento Unitário dos Trabalhadores Intelectuais para a Defesa da Revolução (MUTI) e publicou até o final de 1976 o livro O Ano de 1993, Apontamentos, que se tratava de uma reunião de crônicas do Diário de Notícias e também publicou o romance Manual de Pintura de Caligrafia.</p>
<div>Graças ao incentivo de Tavinho Paes, arquivo deste mailing para pesquisa em <a rel="nofollow" href="http://cartilhadepoesia.wordpress.com/" target="_blank">http://cartilhadepoesia.wordpress.com</a></div>
<div></div>
<div>EXERCÍCIO MILITAR</div>
<div>
<table border="0" cellspacing="0" cellpadding="3" width="100%">
<tbody>
<tr>
<td align="left" valign="top">
<div>
<p>És campo de batalha, ou simples mapa?<br />
És combate geral, ou de guerrilhas?<br />
Na cortina de fumo que te tapa,<br />
É paz que vem, ou novas armadilhas?</p>
<p>Fechado neste posto de comando,<br />
Avanço as minhas tropas ao acaso<br />
E tão depressa forço como abrando:<br />
Capitão sem poder, soldado raso.</p>
<p>A lutar com fantasmas e desejos,<br />
Nem sequer sinto as balas disparadas,<br />
E disponho as bandeiras dos meus beijos<br />
Em vez de abrir crateras a dentadas.</p>
</div>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>&nbsp;</p>
<p>A infância marcada pelas dificuldades financeiras seria, mais tarde, lembrada num momento de glória do escritor e, aqui, poeta. Terminado o curso, conseguiu seu primeiro emprego como serralheiro mecânico nas oficinas dos Hospitais Civis de Lisboa. Desde cedo, adquiriu o hábito de ser pontual, rígido no cumprimento do dever e na dedicação ao trabalho. Consta que não tinha ambições na vida, que sabia que teria de viver cada dia com o árduo trabalho, e o que tivesse que chegar, chegaria com o tempo.</p>
<div>Experiência numa Biblioteca Municipal em <a rel="nofollow" href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div></div>
<div>NO TEU OMBRO POUSADA A MINHA MÃO</div>
<div></div>
<div>Eu luminoso não sou. Nem sei que haja<br />
Um poço mais remoto, e habitado<br />
De cegas criaturas, de histórias e assombros.<br />
Se no fundo do poço, que é o mundo<br />
Secreto e intratável das águas interiores,<br />
Uma roda de céu ondulando se alarga,<br />
Digamos que é o mar: como o rápido canto<br />
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável<br />
O movimento de asas. O musgo é um silêncio,<br />
E as cobras-d’água dobram rugas no céu,<br />
Enquanto, devagar, as aves se recolhem.</div>
<div></div>
<div></div>
<div></div>
<p>No início de 1976, Saramago vai morar no Alentejo, mais precisamente na povoação rural de Lavre, onde colheu importantes informações que seriam fundamentais para a escrita de seu aclamado romance e primeiro grande sucesso, Levantado do Chão, com o qual recebeu o Prêmio da Cidade de Lisboa. Dois anos antes, havia publicado a peça de teatro A Noite e recebeu o Prêmio da Associação Portuguesa de Escritores, e o conto O Ouvido, que integrou a antologia Poética dos Cinco Sentidos. Saramago iniciava o amadurecimento de sua linguagem.</p>
<div>tradução de Victor Hugo em <a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com/" target="_blank">http://pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div></div>
<div>RECORTO A MINHA SOMBRA DA PAREDE</div>
<div>
<div>
<p>Recorto a minha sombra da parede,<br />
Dou-lhe corda, calor e movimento,<br />
Duas demãos de cor e sofrimento,<br />
Quanto baste de fome, o som, a sede.</p>
<p>Fico de parte a vê-la repetir<br />
Os gestos e palavras que me são,<br />
Figura desdobrada e confusão<br />
De verdade vestida de mentir.</p>
<p>Sobre a vida dos outros se projecta<br />
Este jogo das duas dimensões<br />
Em que nada se prova com razões<br />
Tal um arco puxado sem a seta.</p>
<p>Outra vida virá que me absolva<br />
Da meia humanidade que perdura<br />
Nesta sombra privada de espessura,<br />
Na espessura sem forma que a resolva.</p>
</div>
</div>
<div></div>
<div></div>
<div></div>
<div>Na década de 80 veio a consagração internacional. Continuou traduzindo vários títulos, publicou a peça de teatro O que vou fazer com este livro?; publicou Viagem a Portugal; e Memorial do Convento, já em 1982, com o qual ganhou o prêmio Prêmio Pen Club e Prêmio Literário do Município de Lisboa. Depois, O Ano da Morte de Ricardo Reis, com o qual ganhou de novo o Pen Club, o Prêmio da Crítica 1985, pela Associação Portuguesa de Críticos, o Prêmio Dom Dinis (Fundação Casa de Mateus) e o Prêmio Grinzane-Cavour (Alba, Itália) 1987. No ano seguinte terminou seu relacionamento com a escritora Isabel de Nóbrega. Publicou ainda A Jangada de Pedra e A Segunda Vida de São Francisco de Assis. Um novo amor apareceria.</div>
<div><a rel="nofollow" href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div></div>
<div><span style="font-size:medium;">VENHO DE LONGE, LONGE, E CANTO SURDAMENTE</span></div>
<div>
<div>
<p><span style="font-size:medium;">Venho de longe, longe, e canto surdamente<br />
Esta velha, tão velha, canção de rimas tortas,<br />
E dizes que a cantei a outra gente,<br />
Que outras mãos me abriram outras portas:</span></p>
<p><span style="font-size:medium;">Mas, amor, eu venho neste passo<br />
E grito, da lonjura das estradas,<br />
Da poeira mordida e do tremor<br />
Das carnes maltratadas,<br />
Esta nova canção com que renasço.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Por conta do livro O Ano da Morte de Ricardo Reis, a jornalista e tradutora espanhola Pilar de Rio vai para Lisboa conhecer Saramago, acabam se apaixonando e casam-se em 1988. Sobre ela escreveu: &#8220;Se tivesse morrido aos 63, antes de a conhecer, morreria muito mais velho do que quando serei quando chegar minha hora&#8221;. Em 1989, publica História do Cerco de Lisboa. Também pertenceu à primeira Direção da Associação Portuguesa de Escritores, e de 1985 a 1994, foi presidente da Assembléia Geral da Sociedade Portuguesa de Autores, e ainda ficaria por um ano na presidência da Assembléia Municipal de Lisboa ao mesmo tempo da histórica coligação entre socialistas e comunistas que tinha como presidente da Câmara Jorge Sampaio. Amanhã, anos 90.</p>
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<div>CARTA DE JOSÉ A JOSÉ</div>
<div>
<div>
<p>Eu te digo, José: por esta carta<br />
Não garanto mentira nem verdade:<br />
O que de mim não sei sempre me aparta<br />
Da franqueza de ser e da vontade.</p>
<p>São cobiças inúteis, vãos desgostos,<br />
São braços levantados e caídos,<br />
São rugas que cortam os cem rostos<br />
Da comédia e do jogo repetidos.</p>
<p>Desse lado da mesa, ou desse espelho,<br />
Vais seguindo as palavras invertidas:<br />
Assim verás melhor se, quanto, valho<br />
Ao revés dos sinais e das medidas.</p>
<p>(Correm águas geladas no meu rio.<br />
E roucos cantos de aves, derivando<br />
Por silêncio frustrado e calafrio,<br />
Vão manhã doutro dia recordando.)</p>
<p>Cai a chuva do céu, e não te molha,<br />
Está a noite entre nós, e não te cega.<br />
Não sorrias, José: à tua escolha<br />
O que nos sobra de alma se me nega.</p>
<p>Desse lado da mesa, onde me acusas.<br />
Te levantas. A marca do teu pé,<br />
Na soleira da porta que recusas,<br />
Fecha de vez a carta inacabada.</p>
<p>Tua sombra pisada, teu amigo — José.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Na década de 90, Saramago vai para o exílio em virtude do vergonhoso ato de censura do governo português chefiado por Cavaco Silva (!), pela mão do então subsecretário do Estado, Sousa Lara, que vetou a indicação de seu conhecido romance O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de 1991, ao Prêmio Literário Europeu, alegando ser &#8220;ofensivo aos católicos&#8221;. Saramago então vai viver com Pilar na ilha de Lanzarote na Espanha. Lá construiu uma casa onde gravou em azulejos num muro branco o nome &#8220;A Casa&#8221;, &#8220;resolvi baptizá-la assim, se calhar pela minha necessidade de espetar uma pequena bandeira portuguesa. Foi a afirmação da minha origem&#8221;.</p>
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<div></div>
<div>A TI REGRESSO, MAR, AO GOSTO FORTE</div>
<div>
<table border="0" cellspacing="0" cellpadding="3" width="100%">
<tbody>
<tr>
<td align="left" valign="top">
<div>
<p>A ti regresso, mar, ao gosto forte<br />
Do sal que o vento traz à minha boca,<br />
À tua claridade, a esta sorte<br />
Que me foi dada de esquecer a morte<br />
Sabendo embora como a vida é pouca.</p>
<p>A ti regresso, mar, corpo deitado,<br />
Ao teu poder de paz e tempestade,<br />
Ao teu clamor de deus acorrentado,<br />
De terra feminina rodeado,<br />
Prisioneiro da própria liberdade.</p>
<p>A ti regresso, mar, como quem sabe<br />
Dessa tua lição tirar proveito.<br />
E antes que esta vida se me acabe,<br />
De toda a água que na terra cabe<br />
Em vontade tornada, armado o peito.</p>
</div>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O Evangelho Segundo Jesus Cristo recebeu o Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, assim como vários e importantes prêmios, inclusive na Italia. Foi Doutor Honoris Causa pela Universidade de Turim e Sevilha e recebeu o título de Cavaleiro da Ordem das Artes e Letras na França. Em 1993 publicou outra peça de teatro, In Nomine Dei, e iniciou a escrita de um diário, Cadernos de Lanzarote. Saramago se tornou membro do Parlamento Internacional de Escritores em Estrasburgo. Os prêmios viriam mais e mais junto com o prestígio internacional, porém, o grau máximo viria alguns anos depois. Mediante a riqueza de sua biografia e a quantidade de poemas, estenderei o estudo por mais uma semana.</p>
<div>Entra aí camarada!   <a rel="nofollow" href="http://cartilhadepoesia.wordpress.com/" target="_blank">http://cartilhadepoesia.wordpress.com</a></div>
<div>JOGO DO LENÇO</div>
<div>
<div>
<p>Trago no bolso do peito<br />
Um lenço de seda fina,<br />
Dobrado de certo jeito.<br />
Não sei quem tanto lhe ensina<br />
Que quanto faz é bem feito.</p>
<p>Acena nas despedidas,<br />
Quando a voz já lá não chega<br />
Por distâncias desmedidas.<br />
Depois, no bolso aconchega<br />
As saudades permitidas.</p>
<p>Também o suor salgado,<br />
Às vezes, enxugo a medo,<br />
Que o lenço é mal empregado.<br />
E quando me feri um dedo,<br />
Com ele o trouxe ligado.</p>
<p>Nunca mais chegava ao fim<br />
Se as graças todas dissesse<br />
Deste meu lenço e de mim,<br />
Mas uma coisa acontece<br />
De que não sei porque sim:</p>
<p>Quando os meus olhos molhados<br />
Pedem auxílio do lenço,<br />
São pedidos escusados.<br />
E é bem por isso que penso<br />
Que os meus olhos, se molhados,<br />
Só se enxugam no teu lenço.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Em 1995, José Saramago publica seu famoso Ensaio sobre a Cegueira, e o segundo livro de Cadernos de Lanzarote. No mesmo ano ganho o Prêmio Camões, o mais importante prêmio português, e o Prêmio de Consagração da Sociedade Portuguesa de Autores. Nos anos seguintes publicou mais um volume de Cadernos de Lanzarote, Todos os Nomes, e o belíssimo Conto da Ilha Desconhecida. A essa altura, Saramago é mais que reconhecido mundialmente, tendo recebido todos os prêmio importantes portugueses, alguns italianos e uma condecoração francesa. Porém, faltava o prêmio maior que um escritor pode almejar em sua carreira, se assim posso dizer.</p>
<div>Sei lá em <a rel="nofollow" href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div>CONTRACANTO</div>
<div>
<div>
<div>Aqui, longe do sol, que mais farei</div>
<div>Senão cantar o bafo que me aquece?</div>
<div>Como um prazer cansado que adormece</div>
<div>Ou preso conformado com a lei.</div>
<div>Mas neste débil canto há outra voz</div>
<div>Que tenta libertar-se da surdina,</div>
<div>Como rosa-cristal em funda mina</div>
<div>Ou promessa de pão que vem nas mós.</div>
<div>Outro sol mais aberto me dará</div>
<div>Aos acentos do canto outra harmonia,</div>
<div>E na sombra direi que se anuncia</div>
<div>A toalha de luz por onde vá.</div>
</div>
</div>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Após o Prêmio Nobel, sua vida fica muito mais movimentada, com viagens pelo mundo, palestras, recebe inúmeros títulos Doutor Honoris Causa. Através de uma iniciativa diplomática do Primeiro Ministro Durão Barroso, Saramago reconcilia-se com seu país, após suspensão do processo de censura. Após o evento, o mesmo Primeiro Ministro cria a Cátedra José Saramago na Universidade Autônoma do Mexico. Sua peças são encenadas sucessivamente, é criada uma biblioteca em sua casa de Lanzarote. Em 2007, é criada a Fundação José Saramago. Até então, desde 1998, Saramago publica Folhas Políticas; A Caverna, A Maior Flor do Mundo, O Homem Duplicado; Ensaio Sobre a Lucidez; Don Giovanni ou o Dissoluto Absolvido; As Intermitências da Morte e Pequenas Memórias.</p>
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<div>SALMO 136</div>
<div>
<p>Nem por abandonadas se calavam<br />
As harpas dos salgueiros penduradas.<br />
Se os dedos dos hebreus as não tocavam,<br />
O vento de Sião, nas cordas tensas,<br />
A música da memória repetia.<br />
Mas nesta Babilónia em que vivemos,<br />
Na lembrança Sião e no futuro,<br />
Até o vento calou a melodia.<br />
Tão rasos consentimos nos pusessem,<br />
Mais do que os corpos, as almas e as vontades,<br />
Que nem sentimos já o ferro duro,<br />
Se do que fomos deixarem as vaidades.</p>
<p>Têm os povos as músicas que merecem.</p>
</div>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>No dia 18 de dezembro de 2008, Saramago é internado por causa de uma pneumonia, que lhe causaria sérios danos à saúde. Meses mais tarde, é homenageado em Portugal com uma exposição sobre sua vida e obra. Em 14 de maio, em Cannes, estreia o filme Blindness, adaptação do livro Ensaio Sobre a Cegueira, realizada pelo diretor Fernando Meirelles, com elenco de peso. Saramago se emociona profundamente após ver o filme. Termina o livro Caderno de Elefante. Em outubro de 2009, publica seu último livro, Caim. Em dezembro, arranja forças e vai visitar Aminatu Haidar, defensora dos Direitos Humanos que fazia greve de fome após ter sua entrada impedida em Marrocos. Ainda realiza uma campanha para arrecadar fundos para as vítimas do terremoto no Haiti.</p>
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<div>BALADA</div>
<div>
<div>
<p>Dei a volta ao continente<br />
Sem sair deste lugar<br />
Interroguei toda a gente<br />
Como o cego ou o demente<br />
Cuja sina é perguntar</p>
<p>Ninguém me soube dizer</p>
<p>Onde estavas e vivias</p>
<p>(Já cansados de esquecer<br />
Só vivos para morrer<br />
Perdiam a conta aos dias)</p>
<p>Puxei da minha viola<br />
Na soleira me sentei</p>
<p>Com a gamela da esmola</p>
<p>Com pão duro na sacola<br />
Desiludido cantei</p>
<p>Talvez dissesse romanças<br />
Ou cantigas de encantar<br />
Aprendidas nas andanças<br />
Das poucas aventuranças<br />
De quem não soube esperar</p>
<p>Andavam longe os teus passos<br />
Nem as cantigas ouviste<br />
Vivias presa nos laços<br />
Que faziam outros braços<br />
No teu corpo que despiste</p>
<p>Quanto tempo ali fiquei<br />
Sangrando os dedos nas cordas<br />
Quantos arrancos soltei<br />
Nesta fome que criei<br />
Nem eu sei nem tu recordas<br />
Porque nunca tos contei</p>
<p>Até que um dia cansaste<br />
(Era pó não era monte)<br />
Outra lembrança deixaste<br />
E nas águas desta fonte<br />
A tua sede mataste<br />
— O arco da minha ponte</p>
</div>
</div>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>No dia 18 de junho de 2010, José Saramago morre em sua casa em Lanzarote. Um avião da Força Aérea Portuguesa trouxe os restos mortais do escritor para Portugal, que foi velado na Câmara Municipal de Lisboa, e depois cremado no cemitério Alto de São João. Assim terminamos este estudo sobre a poesia do grande escritor. Dois livros, foi o que produziu em versos. Espero que tenham gostado de sua poesia, que tenha servido para alguma coisa, pois a poesia serve para quem precisa dela. No fim da vida, Saramago revela que &#8220;gostaria de ter escrito um livro chamado Livro do Desassossego, mas Fernando Pessoa antecipou-se. O meu desassossego não é o mesmo dele, mas o título convinha-me. Como não tive sossego, quero desassossegar os outros&#8221;. Semana que vem, RESTROSPECTIVA 2010.</p>
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<div></div>
<div>PEQUENO COSMOS</div>
<div>
<table border="0" cellspacing="0" cellpadding="3" width="100%">
<tbody>
<tr>
<td align="left" valign="top">
<div>
<p>Ah, rosas, não, nem frutos, nem rebentos.<br />
Horta e jardim sobejam nestes versos<br />
De consonâncias velhas e bordões.</p>
<p>Navegante dum espaço que rodeio<br />
(Noutra hora diria que infinito),<br />
É por fome de frutos e de rosas<br />
Que a frouxidão da pele ao osso chega.</p>
<p>Assim árido, e leve, me transformo:<br />
Matéria combustível na caldeira<br />
Que as estrelas ateiam onde passo.</p>
<p>Talvez, enfim, o aço apure e faça<br />
Do espelho em que me veja e redefina.</p>
</div>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>&nbsp;</p>
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</div>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<br />Filed under: <a href='http://cartilhadepoesia.wordpress.com/category/todos-os-poetas-aqui/'>TODOS OS POETAS AQUI</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/cartilhadepoesia.wordpress.com/70/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/cartilhadepoesia.wordpress.com/70/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/cartilhadepoesia.wordpress.com/70/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/cartilhadepoesia.wordpress.com/70/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/cartilhadepoesia.wordpress.com/70/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/cartilhadepoesia.wordpress.com/70/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/cartilhadepoesia.wordpress.com/70/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/cartilhadepoesia.wordpress.com/70/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/cartilhadepoesia.wordpress.com/70/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/cartilhadepoesia.wordpress.com/70/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/cartilhadepoesia.wordpress.com/70/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/cartilhadepoesia.wordpress.com/70/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/cartilhadepoesia.wordpress.com/70/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/cartilhadepoesia.wordpress.com/70/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=70&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Álvares de Azevedo</title>
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		<pubDate>Sun, 20 Mar 2011 22:59:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cartilhadepoesia</dc:creator>
				<category><![CDATA[TODOS OS POETAS AQUI]]></category>

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		<description><![CDATA[Manuel Antônio Álvares de Azevedo nasceu em São Paulo no dia 12 de setembro de 1831. Além da poesia, se enveredou pelos contos e ensaios. Filho do estudante de Direito Inácio Manuel Álvares de Azevedo e Maria Luisa Mota de Azevedo, nasceu em berço de famílias ilustres da época. Neste mês, percorreremos um pouco pela [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=68&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div>
<p>Manuel Antônio Álvares de Azevedo nasceu em São Paulo no dia 12 de setembro de 1831. Além da poesia, se enveredou pelos contos e ensaios. Filho do estudante de Direito Inácio Manuel Álvares de Azevedo e Maria Luisa Mota de Azevedo, nasceu em berço de famílias ilustres da época. Neste mês, percorreremos um pouco pela obra deste poeta que pouco viveu, porém, o suficiente para ficar nos altos da literatura brasileira, que amava Lord Byron e foi da segunda geração do nosso romantismo.</p>
<div>Terra do Nunca no <a rel="nofollow" href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div>QUANDO À NOITE NO LEITO PERFUMADO</div>
<div>Quando à noite no leito perfumado</div>
<div>Lânguida fronte no sonhar reclinas,</div>
<div>No vapor da ilusão por que te orvalha</div>
<div>Pranto de amor as pálpebras divinas?</div>
<div>E, quando eu te contemplo adormecida</div>
<div>Solto o cabelo na suave leito,</div>
<div>Por que um suspiro tépido ressona</div>
<div>E desmaia suavíssimo em teu peito?</div>
<div>Virgem do meu amor, o beijo a furto</div>
<div>Que pouso em tua face adormecida</div>
<div>Não te lembra do peito os meus amores</div>
<div>E a febre do sonhar de minha vida?</div>
<div>Dorme, ó anjo de amor! No teu silêncio</div>
<div>O meu peito e afoga de ternura</div>
<div>E sinto que o porvir não vale um beijo</div>
<div>E o céu um teu suspiro de ventura!</div>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Embora tenha nascido em São Paulo, o pequeno Álvares passou a infância no Rio de Janeiro, onde iniciou os estudos primários. Voltou para São Paulo em 1847 para estudar na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Desde essa época, o jovem já apontava como grande talento. Menino precoce, já criava pequenas peças literárias de grande qualidade. O que também o destacava dos demais era sua imensa facilidade de aprender línguas, assim como portar um espírito jovial e sentimental. Nascia o poeta.</p>
<div>Arquivos deste mailing para consulta em <a rel="nofollow" href="http://cartilhadepoesia.wordpress.com/" target="_blank">http://cartilhadepoesia.wordpress.com</a></div>
<div>
<div>SONETO</div>
<div>Pálida à luz da lâmpada sombria,</div>
<div>Sobre o leito de flores reclinada,</div>
<div>Como a lua por noite embalsamada,</div>
<div>Entre as nuvens do amor ele dormia!</div>
<div>Era a virgem do mar, na escuma fria</div>
<div>Pela maré das águas embalada!</div>
<div>Era um anjo entre nuvens d&#8217;alvorada</div>
<div>Que em sonho se banhava e se esquecia!</div>
<div>Era mais bela! o seio palpitando&#8230;</div>
<div>Negros olhos as pálpebras abrindo&#8230;</div>
<div>Formas nuas no leito resvalando&#8230;</div>
<div>Não te rias de mim, meu anjo lindo!</div>
<div>Por ti &#8211; as noites eu velei chorando,</div>
<div>Por ti &#8211; nos sonhos morrerei sorrindo!</div>
</div>
<div>Questão interessante: Segundo alguns biógrafos, Álvares de Azevedo nasceu na sala da biblioteca da Faculdade de Direito de São Paulo, porém, outros biógrafos afirmam que o local de seu nascimento foi mais &#8220;ordinário&#8221;, tendo sido na casa do avô materno. Acontece que o jovem cresceu em condições plenamente favoráveis para seu desenvolvimento intelectual. Muito jovem, lia bastante Byron, Poe, Shakespeare, Musset, Lamartine, George Sand e Goethe, através dos livros que pedia para sua família trazer do exterior. Porém, o lorde inglês seria o grande caminho.</p>
<div>Terra do Nunca em <a rel="nofollow" href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">ANJOS DO MAR</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">As ondas são anjos que dormem no mar,</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Que tremem, palpitam, banhados de luz&#8230;</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">São anjos que dormem, a rir e sonhar</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">E em leito d&#8217;escuma revolvem-se nus!<br />
</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
E quando de noite vem pálida a lua</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Seus raios incertos tremer, pratear,</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">E a trança luzente da nuvem flutua,</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">As ondas são anjos que dormem no mar!<br />
</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
Que dormem, que sonham — e o vento dos céus</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Vem tépido à noite nos seios beijar!</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">São meigos anjinhos, são filhos de Deus,</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Que ao fresco se embalam do seio do mar!<br />
</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
E quando nas águas os ventos suspiram,</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"> </span>São puros fervores de ventos e mar:</p>
<p>São beijos que queimam&#8230; e as noites deliram,</p>
<p>E os pobres anjinhos estão a chorar!</p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"> </span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
Ai! quando tu sentes dos mares na flor</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Os ventos e vagas gemer, palpitar,</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Porque não consentes, num beijo de amor,</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Que eu diga-te os sonhos dos anjos do mar!</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">As leituras dos clássicos da poesia quando ainda era muito jovem e, sobretudo, de alguns filósofos, fizeram com que Álvares desenvolvesse uma incrível capacidade. O poeta também dominava história e outras áreas do conhecimento. Tamanho empenho e doação, rendeu a Álvares, dentre outras coisas, a carta de Bacharel em Letras quando ainda tinha 16 anos. Logo seria laureado com algo maior.</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"></p>
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<div>SONETO II</div>
<div>
<p>Passei ontem a noite junto dela.</p>
<p>Do camarote a divisão se erguia</p>
<p>Apenas entre nós &#8211; e eu vivia</p>
<p>No doce alento dessa virgem bela&#8230;<br />
Tanto amor, tanto fogo se revela</p>
<p>Naqueles olhos negros! Só a via!</p>
<p>Música mais do céu, mais harmonia</p>
<p>Aspirando nessa alma de donzela!<br />
Como era doce aquele seio arfando!</p>
<p>Nos lábios que sorriso feiticeiro!</p>
<p>Daquelas horas lembro-me chorando!<br />
Mas o que é triste e dói ao mundo inteiro</p>
<p>É sentir todo o seio palpitando&#8230;</p>
<p>Cheio de amores! E dormir solteiro!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O comportamento casto, puro e carinhoso devotado à mãe e irmã contradiziam com a personalidade perversa de alguns de seus personagens. O fato é que era adolescente, embora culto e letrado, o corpo, o espírito era movido, muitas vezes, pelo ímpeto hormonal, não há como negar isso. Álvares já apontava com inclinações a assuntos mórbidos, porém, falando de amor como ninguém, como por exemplo, na Lira dos Vinte anos.</p>
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">AMOR</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Amemos! Quero de amor </span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Viver no teu coração! </span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Sofrer e amar essa dor </span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Que desmaia de paixão! </span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Na tu&#8217;alma, em teus encantos </span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">E na tua palidez<br />
E nos teus ardentes prantos<br />
Suspirar de languidez!<br />
Quero em teus lábio beber<br />
Os teus amores do céu,<br />
Quero em teu seio morrer<br />
No enlevo do seio teu!<br />
Quero viver d&#8217;esperança,<br />
Quero tremer e sentir!<br />
Na tua cheirosa trança<br />
Quero sonhar e dormir!<br />
Vem, anjo, minha donzela,<br />
Minha&#8217;alma, meu coração!<br />
Que noite, que noite bela!<br />
Como é doce a viração!<br />
E entre os suspiros do vento<br />
Da noite ao mole frescor,<br />
Quero viver um momento,<br />
Morrer contigo de amor!<br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Lira dos Vinte Anos tem dois personagens, Ariel e Caliban. Representam o bem e o mal. Ambos foram usados por Shakespeare em A tempestade, e Álvares os usa como faces de sua personalidade, uma boa e outra perversa. O poema Ideias íntimas é da segunda parte desse livro e aparece ao melhor estilo inglês, em versos brancos, tratando daquele sentimento &#8220;Mal do século&#8221; que nosso Charles Pierre (Baudelaire) retratou bem em seu splenn. Haverá uma suspeita de comportamento na vida de Álvares muito interessante que pode, o não, explicar certas inclinações.</p>
<div>Texto de um não sei o quê no em <a rel="nofollow" href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">IDEIAS ÍNTIMAS</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Ossian o bardo é triste como a sombra</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Que seus cantos povoa. O Lamartine</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">E&#8217; monótono e belo como a noite,</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Como a lua no mar e o som da ondas&#8230;</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Mas pranteia uma eterna monodia,</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Tem na lira do gênio uma só corda,</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Fibra de amor e Deus que um sopro agita:</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Se desmaia de amor a Deus se volta,</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Se pranteia por Deus de amor suspira.</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"> </span>Basta de Shakespeare. Vem tu agora,</p>
<p>Fantástico alemão, poeta ardente</p>
<p>Que ilumina o clarão das gotas pálidas</p>
<p>Do nobre Johannisberg! Nos teus romances</p>
<p>Meu coração deleita-se&#8230; Contudo</p>
<p>Parece-me que vou perdendo o gosto,</p>
<p>Vou ficando blasé, passeio os dias</p>
<p>Pelo meu corredor, sem companheiro,</p>
<p>Sem ler, nem poetar. Vivo fumando.</p>
<p>Minha casa não tem menores névoas</p>
<p>Que as deste céu d&#8217;inverno&#8230;. Solitário</p>
<p>Passo as noites aqui e os dias longos;</p>
<p>Dei-me agora ao charuto em corpo e alma;</p>
<p>Debalde ali de um canto um beijo implora,</p>
<p>Como a beleza que o Sultão despreza,</p>
<p>Meu cachimbo alemão abandonado!</p>
<p>Não passeio a cavalo e não namoro;</p>
<p>Odeio o lasquenet&#8230; Palavra d&#8217;honra!</p>
<p>Se asim me continuam por dois meses</p>
<p>Os diabos azuis nos frouxos membros,</p>
<p>Dou na Praia Vermelha ou no Parnaso.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">II<br />
</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
Enchi o meu salão de mil figuras.</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Aqui voa um cavalo no galope,</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Um roxo dominó as costas volta</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">A um cavaleiro de alemães bigodes,</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Um preto beberrão sobre uma pipa,</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Aos grossos beiços a garrafa aperta&#8230;</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Ao longo das paredes se derramam</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Extintas inscrições de versos mortos,</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">E mortos ao nascer&#8230; Ali na alcova</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Em águas negras se levanta a ilha</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Romântica, sombria à flor das ondas</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">De um rio que se perde na floresta&#8230;</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Um sonho de mancebo e de poeta,</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">El-Dorado de amor que a mente cria</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Como um Édem de noites deleitosas&#8230;</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Era ali que eu podia no silêncio</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Junto de um anjo&#8230; Além o romantismo!</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Borra adiante folgaz caricatur</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"> </span>Com tinta de escrever e pó vermelho</p>
<p>A gorda face, o volumoso abdômen,</p>
<p>E a grossa penca do nariz purpúreo</p>
<p>Do alegre vendilhão entre botelhas</p>
<p>Metido num tonel&#8230; Na minha cômoda</p>
<p>Meio encetado o copo inda verbera</p>
<p>As águas d&#8217;ouro do Cognac fogoso.</p>
<p>Negreja ao pé narcótica botelha</p>
<p>Que da essência de flores de laranja</p>
<p>Guarda o licor que nectariza os nervos.</p>
<p>Ali mistura-se o charuto Havano</p>
<p>Ao mesquinho cigarro e ao meu cachimbo.</p>
<p>A mesa escura cambaleia ao peso</p>
<p>Do titânio Digesto, e ao lado dele</p>
<p>Childe-Harold entreaberto ou Lamartine</p>
<p>Mostra que o romantismo se descuida</p>
<p>E que a poesia sobrenada sempre</p>
<p>Ao pesadelo clássico do estudo.</p>
<div>&#8220;Cuidado, leitor, ao voltar esta página! Aqui dissipa-se o mundo visionário e platônico. Vamos entrar num mundo novo, terra fantástica, verdadeira ilha de Baratária de D. Quixote, onde Sancho é rei.[...] Quase depois de Ariel esbarramos em Caliban.&#8221; Consta na introdução de Álvares de Azevedo para a Lira dos Vinte Anos. E continua &#8220;A Razão é simples. É que a unidade deste livro e capítulo funda-se numa binomia. Duas almas que moram nas cavernas de um cérebro pouco mais ou menos de poeta escreveram este livro, verdadeira medalha de duas faces.&#8221;</p>
<div><span style="font-family:Arial, Helvetica, sans-serif;font-size:small;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:Arial, Helvetica, sans-serif;font-size:small;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:Arial, Helvetica, sans-serif;font-size:small;"><a rel="nofollow" href="http://cartilhadepoesia.wordpress.com/" target="_blank">http://cartilhadepoesia.wordpress.com</a></span></div>
<div><span style="font-family:Arial, Helvetica, sans-serif;font-size:small;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:Arial, Helvetica, sans-serif;font-size:small;"><br />
</span></div>
<div>
<div>IDEIAS ÍNTIMAS XI, XII E XIII</div>
<div>XI</div>
<div>Junto do leito meus poetas dormem</div>
<div>- O Dante, a Bíblia, Shakespeare e Byron -</div>
<div>Na mesa confundidos. Junto deles</div>
<div>Meu velho candeeiro se espreguiça</div>
<div>E parece pedir a formatura.</div>
<div>Ó meu amigo, ó velador noturno,</div>
<div>Tu não me abandonaste nas vigílias,</div>
<div>Quer eu perdesse a noite sobre os livros,</div>
<div>Quer, sentado no leito, pensativo</div>
<div>Relesse as minhas cartas de namoro!</div>
<div>Quero-te muito bem, ó meu comparsa</div>
<div>Nas doudas cenas de meu drama obscuro!</div>
<div>E num dia de spleen, vindo a pachorra,</div>
<div>Hei de evocar-te dum poema heróico</div>
<div>Na rima de Camões e de Ariosto,</div>
<div>Como padrão às lâmpadas futuras!</div>
<div>XII</div>
<div>Aqui sobre esta mesa junto ao leito</div>
<div>Em caixa negra dous retratos guardo.</div>
<div>Não os profanem indiscretas vistas.</div>
<div>Eu beijo-os cada noite: neste exílio</div>
<div>Venero-os juntos e os prefiro unidos</div>
<div>- Meu pai e minha mãe. &#8211; Se acaso um dia</div>
<div>Na minha solidão me acharem morto,</div>
<div>Não os abra ninguém. Sobre meu peito</div>
<div>Lancem-os em meu túmulo. Mais doce</div>
<div>Será certo o dormir da noite negra</div>
<div>Tendo no peito essas imagens puras.</div>
<div>XIII</div>
<div><span style="font-family:Arial, Helvetica, sans-serif;">Havia uma outra imagem que eu sonhava</span></div>
<div><span style="font-family:Arial, Helvetica, sans-serif;">No meu peito, na vida e no sepulcro.</span></div>
<div><span style="font-family:Arial, Helvetica, sans-serif;">Mas ela não quis&#8230; Rompeu a tela</span></div>
<div><span style="font-family:Arial, Helvetica, sans-serif;">Onde eu pintara meus dourados sonhos.</span></div>
<div><span style="font-family:Arial, Helvetica, sans-serif;">Se posso no viver sonhar com ela,</span></div>
<div><span style="font-family:Arial, Helvetica, sans-serif;">Essa trança beijar de seus cabelos</span></div>
<div><span style="font-family:Arial, Helvetica, sans-serif;">E essas violentas inodoras, murchas,</span></div>
<div><span style="font-family:Arial, Helvetica, sans-serif;">Nos lábios frios comprimir chorando,</span></div>
<div><span style="font-family:Arial, Helvetica, sans-serif;">Não poderei na sepultura, ao menos,</span></div>
<div><span style="font-family:Arial, Helvetica, sans-serif;">Sua imagem divina ter no peito.</span></div>
<div><span style="font-family:Arial, Helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:Arial, Helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:Arial, Helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:Arial, Helvetica, sans-serif;">Há biógrafos que apontam uma terceira face na obra de Álvares de Azevedo, a ironia. Ao melhor estilo bocagiano ou nas bordas de Gregório, Álvares consegue ser sarcástico em grandes momentos, &#8220;talvez eu ame quando estiver impotente&#8221;, ou, &#8220;o rosto é macio, os olhos lânguidos, o seio moreno&#8230; mas o corpo é imundo. Tem uma lepra que ocultam num sorriso [...] dão em troca do gozo o veneno da sífilis. Antes amar uma lazarenta&#8221;. Talvez aí o adolescente voraz e inteligente que também escreve com veneno, além de sua conhecida verve melancólica e lírica.</p>
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<div>É ELA, É ELA, É ELA, É ELA</div>
<div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">É ela! é ela! — murmurei tremendo,<br />
e o eco ao longe murmurou — é ela!<br />
Eu a vi&#8230; minha fada aérea e pura —<br />
a minha lavadeira na janela.</p>
<p>Dessas águas furtadas onde eu moro<br />
eu a vejo estendendo no telhado<br />
os vestidos de chita, as saias brancas;<br />
eu a vejo e suspiro enamorado!</p>
<p>Esta noite eu ousei mais atrevido,<br />
nas telhas que estalavam nos meus passos,<br />
ir espiar seu venturoso sono,<br />
vê-la mais bela de Morfeu nos braços!</p>
<p>Como dormia! que profundo sono!&#8230;<br />
Tinha na mão o ferro do engomado&#8230;<br />
Como roncava maviosa e pura!&#8230;<br />
Quase caí na rua desmaiado!</p>
<p>Afastei a janela, entrei medroso&#8230;<br />
Palpitava-lhe o seio adormecido&#8230;<br />
Fui beijá-la&#8230; roubei do seio dela<br />
um bilhete que estava ali metido&#8230;</p>
<p>Oh! decerto&#8230; (pensei) é doce página<br />
onde a alma derramou gentis amores;<br />
são versos dela&#8230; que amanhã decerto<br />
ela me enviará cheios de flores&#8230;</p>
<p>Tremi de febre! Venturosa folha!<br />
Quem pousasse contigo neste seio!<br />
Como Otelo beijando a sua esposa,<br />
eu beijei-a a tremer de devaneio&#8230;</p>
<p>É ela! é ela! — repeti tremendo;<br />
mas cantou nesse instante uma coruja&#8230;<br />
Abri cioso a página secreta&#8230;<br />
Oh! meu Deus! era um rol de roupa suja!</p>
<p>Mas se Werther morreu por ver Carlota<br />
Dando pão com manteiga às criancinhas,<br />
Se achou-a assim tão bela&#8230; eu mais te adoro<br />
Sonhando-te a lavar as camisinhas!</p>
<p>É ela! é ela, meu amor, minh&#8217;alma,<br />
A Laura, a Beatriz que o céu revela&#8230;<br />
É ela! é ela! — murmurei tremendo,<br />
E o eco ao longe suspirou — é ela!</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Spleen, em francês, representa uma espécie de estado de tristeza de pensamento, uma forte melancolia. Vem do grego <em>splēn </em>que na língua inglesa quer dizer baço. Consta que a ligação entre baço e melancolia vem da medicina grega, quando Galeno considerava o baço como uma das fontes dos quatro humores corporais &#8211; a bile negra &#8211; que, oriunda do baço seria a fonte da melancolia. O Talmud diz o contrário, que o baço é a &#8220;orgão da risada&#8221;. Em alemão, spleen, é alguém que está muito irritado. O termo ficou conhecido através de Baudelaire, Spleen de Paris, uma melancolia extrema, um desejo de auto-destruição. Esse &#8220;fenômeno&#8221; ocorreu no Brasil entre nossos românticos (interessante), com nosso Álvares no meio.</p>
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">AMOR</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Amemos! Quero de amor<br />
Viver no teu coração!<br />
Sofrer e amar essa dor<br />
Que desmaia de paixão!<br />
Na tu&#8217;alma, em teus encantos<br />
E na tua palidez<br />
E nos teus ardentes prantos<br />
Suspirar de languidez!<br />
Quero em teus lábio beber<br />
Os teus amores do céu,<br />
Quero em teu seio morrer<br />
No enlevo do seio teu!<br />
Quero viver d&#8217;esperança,<br />
Quero tremer e sentir!<br />
Na tua cheirosa trança<br />
Quero sonhar e dormir!<br />
Vem, anjo, minha donzela,<br />
Minha&#8217;alma, meu coração!<br />
Que noite, que noite bela!<br />
Como é doce a viração!<br />
E entre os suspiros do vento<br />
Da noite ao mole frescor,<br />
Quero viver um momento,<br />
Morrer contigo de amor!</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Além do mito sobre sua participação numa sociedade secreta que promovia orgias, há um outro mito sobre sua vida que vai completamente contra seu possível comportamento orgiástico, o de que Álvares teria sido virgem. Absurdo para uns, informação dispensável para outros, há quem pense que o poeta, devido a certos poemas cujos motivos trazem a mulher como uma figura distante de amor não realizado, ou com mulheres casadas, não teria realizado o amor físico. Futilidade biográfica ou não, eu, acho bobagem e prefiro o primeiro mito.</p>
<div>Texto novo no <a rel="nofollow" href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div>NAMORO A CAVALO</div>
<div>
<p>Eu moro em Catumbi. Mas a desgraça</p>
<p>Que rege minha vida malfadada</p>
<p>Pôs lá no fim da rua do Catete</p>
<p>A minha Dulcinéia namorada.<br />
Alugo (três mil réis) por uma tarde</p>
<p>Um cavalo de trote (que esparrela!)</p>
<p>Só para erguer meus olhos suspirando</p>
<p>À minha namorada na janela&#8230;<br />
Todo o meu ordenado vai-se em flores</p>
<p>E em lindas folhas de papel bordado</p>
<p>Onde eu escrevo trêmulo, amoroso,</p>
<p>Algum verso bonito&#8230; mas furtado.<br />
Morro pela menina, junto dela</p>
<p>Nem ouso suspirar de acanhamento&#8230;</p>
<p>Se ela quisesse eu acabava a história</p>
<p>Como toda a Comédia — em casamento.<br />
Ontem tinha chovido&#8230; que desgraça!</p>
<p>Eu ia a trote inglês ardendo em chama,</p>
<p>Mas lá vai senão quando uma carroça</p>
<p>Minhas roupas tafuis encheu de lama&#8230;<br />
Eu não desanimei. Se Dom Quixote</p>
<p>No Rocinante erguendo a larga espada</p>
<p>Nunca voltou de medo, eu, mais valente,</p>
<p>Fui mesmo sujo ver a namorada&#8230;<br />
Mas eis que no passar pelo sobrado</p>
<p>Onde habita nas lojas minha bela</p>
<p>Por ver-me tão lodoso ela irritada</p>
<p>Bateu-me sobre as ventas a janela&#8230;<br />
O cavalo ignorante de namoros</p>
<p>Entre dentes tomou a bofetada,</p>
<p>Arrepia-se, pula, e dá-me um tombo</p>
<p>Com pernas para o ar, sobre a calçada&#8230;<br />
Dei ao diabo os namoros. Escovado</p>
<p>Meu chapéu que sofrera no pagode</p>
<p>Dei de pernas corrido e cabisbaixo</p>
<p>E berrando de raiva como um bode.<br />
Circunstância agravante. A calça inglesa</p>
<p>Rasgou-se no cair de meio a meio,</p>
<p>O sangue pelas ventas me corria</p>
<p>Em paga do amoroso devaneio!&#8230;</p>
<div>Álvares de Azevedo também teve experiências em tradução literária. Quando jovem, ainda no colégio, o poeta traduziu o quinto ato de Otelo, de Shakespeare e traduziu Parisina, de Lord Byron. Consta em algumas biografias a forte influência de François-René de Chateaubriand e, sobretudo, Alfred de Musset. Lembrando que antes disso, Álvares havia sido aluno de Gonçalves Magalhães, um dos introdutores do Romantismo no Brasil. Mais amanhã.</p>
<div>Arquivo de dois anos destas pequenas antologias em <a rel="nofollow" href="http://cartilhadepoesia.wordpress.com/" target="_blank">http://cartilhadepoesia.wordpress.com</a></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">FRAGMENTO DE UM CANTO EM CORDAS DE BRONZE</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Deixai que o pranto esse palor me queime, </span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Deixai que as fibras que estalaram dores </span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Desse maldito coração me vibrem<br />
A canção dos meus últimos amores!<br />
Da delirante embriaguez de bardo<br />
Sonhos em que afoguei o ardor da vida,<br />
Ardente orvalhos de febris pranteios,<br />
Que lucro à alma descrida?<br />
Deixai que chore pois. &#8211; Nem loucas venham<br />
Consolações a importunar-me as dores:<br />
Quero a sós murmurá-la à noite escura<br />
A canção dos meus últimos amores!<br />
Da ventania às rápidas lufadas<br />
A vida maldirei em meu tormento -<br />
Que é falsa, como em prostitutos lábios<br />
Um ósculo visguento. Escárnio!<br />
Para essa muitas virgens<br />
Como flores &#8211; românticas e belas -<br />
Mas que no seio o coração tem árido,<br />
Insensível e estúpido como elas!<br />
Que agreste vibrar, ruja-me as cordas<br />
Mais selvagens desta harpa &#8211; quero acentos<br />
De áspero som como o ranger dos mastros<br />
Na orquestra dos ventos!<br />
Corre feio o trovão nos céus bramindo;<br />
Vão torvos do relâmpago os livores:<br />
Quero às rajadas do tufão gemê-la,<br />
A canção dos meus últimos amores!<br />
Vem, pois, meu fulvo cão! ergue-te, asinha,<br />
Meu derradeiro e solitário amigo! -<br />
Quero me ir embrenhar pelos desvios<br />
Da serra &#8211; ao desabrigo&#8230;</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Álvares de Azevedo tinha forte ligação com sua mãe. Preocupava-se com seu sofrimento, e isto fica claramente perceptível neste trecho &#8220;Não derramem por mim nem uma lágrima&#8230; E ti a minha mãe, pobre coitada/ Que por minha tristeza se definhas&#8221;. Lembrando que o poeta teve seu auge produtivo ainda na adolescência, e somente neste período, visto que seu caminho foi cortado ainda jovem, assunto que entraremos na semana que vem. Qual a razão deste comentário? Levar o leitor à ideia de que o poeta, mesmo prolixo e prodígio, ainda era um rapaz de 16, 17 anos.</p>
<div><a rel="nofollow" href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">CISMAR</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Fala-me, anjo de luz! és glorioso</p>
<p>À minha vista na janela à noite,</p>
<p>Como divino alado mensageiro</p>
<p>Ao ebrioso olhar dos froixos olhos</p>
<p>Do homem que se ajoelha para vê-lo,</p>
<p>Quando resvala em preguiçosas nuvens</p>
<p>Ou navega no seio do ar da noite.</p>
<p>Romeu Ai! Quando de noite, sozinha à janela,</p>
<p>Co&#8217;a face na mão te vejo ao luar,</p>
<p>Por que, suspirando, tu sonhas donzela?</p>
<p>A noite vai bela,</p>
<p>E a vista desmaia</p>
<p>Ao longe na praia</p>
<p>Do mar!</p>
<p>Por quem essa lágrima orvalha-te os dedos,</p>
<p>Como água da chuva cheiroso jasmim?</p>
<p>Na cisma que anjinho te conta segredos?</p>
<p>Que pálidos medos?</p>
<p>Suave morena,</p>
<p>Acaso tens pena</p>
<p>De mim?</p>
<p>Donzela sombria, na brisa não sentes</p>
<p>A dor que um suspiro em meus lábios tremeu?</p>
<p>E a noite, que inspira no seio dos entes</p>
<p>Os sonhos ardentes,</p>
<p>Não diz-te que a voz</p>
<p>Que fala-te a sós</p>
<p>Sou eu?</p>
<p>Acorda! Não durmas da cisma no véu!</p>
<p>Amemos, vivamos, que amor é sonhar!</p>
<p>Um beijo, donzela! Não ouves?</p>
<p>No céu A brisa gemeu&#8230;</p>
<p>As vagas murmuram&#8230;</p>
<p>As folhas sussurram: Amar!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<div>A morte é um assunto que sempre aparece na poesia de Álvares de Azevedo. Poemas lúgubres que vêm desde sua férias no Rio em 1849, quando pensa constantemente no tema. Um ano depois, escreve um romance de mais de duzentas páginas, dois poemas, dois contos e alguns textos, que infelizmente se perdeu. Em setembro de 1850, o quintanista Feliciano Coelho Duarte se suicida e, Álvares, escreve o discurso de adeus.</p>
<div>Algo com a Insustentável leveza do ser em <a rel="nofollow" href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">LEMBRANÇAS DE MORRER</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div>
<div>
<p>Quando em meu peito rebentar-se a fibra</p>
</div>
<div>
<p>Que o espírito enlaça à dor vivente,</p>
</div>
<div>
<p>Não derramem por mim nem uma lágrima</p>
</div>
<div>
<p>Em pálpebra demente.</p>
</div>
<div>
<p>&nbsp;</p>
</div>
<div>
<p>&nbsp;</p>
</div>
<div>
<p>E nem desfolhem na matéria impura</p>
</div>
<div>
<p>A flor do vale que adormece ao vento:</p>
</div>
<div>
<p>Não quero que uma nota de alegria</p>
</div>
<div>
<p>Se cale por meu triste passamento.</p>
</div>
<div>
<p>&nbsp;</p>
</div>
<div>
<p>&nbsp;</p>
</div>
<div>
<p>Eu deixo a vida como deixa o tédio</p>
</div>
<div>
<p>Do deserto, o poento caminheiro</p>
</div>
<div>
<p>— Como as horas de um longo pesadelo</p>
</div>
<div>
<p>Que se desfaz ao dobre de um sineiro;</p>
</div>
<div>
<p>&nbsp;</p>
</div>
<div>
<p>&nbsp;</p>
</div>
<div>
<p>Como o desterro de minh&#8217;alma errante,</p>
</div>
<div>
<p>Onde fogo insensato a consumia:</p>
</div>
<div>
<p>Só levo uma saudade — é desses tempos</p>
</div>
<div>
<p>Que amorosa ilusão embelecia.</p>
</div>
<div>
<p>&nbsp;</p>
</div>
<div>
<p>&nbsp;</p>
</div>
<div>
<p>Só levo uma saudade — é dessas sombras</p>
</div>
<div>
<p>Que eu sentia velar nas noites minhas&#8230;</p>
</div>
<div>
<p>De ti, ó minha mãe, pobre coitada</p>
</div>
<div>
<p>Que por minha tristeza te definhas!</p>
</div>
<div>
<p>&nbsp;</p>
</div>
<div>
<p>&nbsp;</p>
</div>
<div>
<p>De meu pai&#8230; de meus únicos amigos,</p>
</div>
<div>
<p>Poucos — bem poucos — e que não zombavam</p>
</div>
<div>
<p>Quando, em noite de febre endoudecido,</p>
</div>
<div>
<p>Minhas pálidas crenças duvidavam.</p>
</div>
<div>
<p>&nbsp;</p>
</div>
<div>
<p>&nbsp;</p>
</div>
<div>
<p>Se uma lágrima as pálpebras me inunda,</p>
</div>
<div>
<p>Se um suspiro nos seios treme ainda</p>
</div>
<div>
<p>É pela virgem que sonhei&#8230; que nunca</p>
</div>
<div>
<p>Aos lábios me encostou a face linda!</p>
</div>
<div>
<p>&nbsp;</p>
</div>
<div>
<p>&nbsp;</p>
</div>
<div>
<p>Só tu à mocidade sonhadora</p>
</div>
<div>
<p>Do pálido poeta deste flores&#8230;</p>
</div>
<div>
<p>Se viveu, foi por ti! e de esperança</p>
</div>
<div>
<p>De na vida gozar de teus amores.</p>
</div>
<div>
<p>&nbsp;</p>
</div>
<div>
<p>&nbsp;</p>
</div>
<div>
<p>Beijarei a verdade santa e nua,</p>
</div>
<div>
<p>Verei cristalizar-se o sonho amigo&#8230;.</p>
</div>
<div>
<p>Ó minha virgem dos errantes sonhos,</p>
</div>
<div>
<p>Filha do céu, eu vou amar contigo!</p>
</div>
<div>
<p>&nbsp;</p>
</div>
<div>
<p>&nbsp;</p>
</div>
<div>
<p>Descansem o meu leito solitário</p>
</div>
<div>
<p>Na floresta dos homens esquecida,</p>
</div>
<div>
<p>À sombra de uma cruz, e escrevam nelas</p>
</div>
<div>
<p>— Foi poeta — sonhou — e amou na vida.—</p>
</div>
<div>
<p>&nbsp;</p>
</div>
<div>
<p>&nbsp;</p>
</div>
<div>
<p>Sombras do vale, noites da montanha</p>
</div>
<div>
<p>Que minh&#8217;alma cantou e amava tanto,</p>
</div>
<div>
<p>Protegei o meu corpo abandonado,</p>
</div>
<div>
<p>E no silêncio derramai-lhe canto!</p>
</div>
<div>
<p>&nbsp;</p>
</div>
<div>
<p>&nbsp;</p>
</div>
<div>
<p>Mas quando preludia ave d&#8217;aurora</p>
</div>
<div>
<p>E quando à meia-noite o céu repousa,</p>
</div>
<div>
<p>Arvoredos do bosque, abri os ramos&#8230;</p>
</div>
<div>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Deixai a lua prantear-me a lousa!</span></p>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
</div>
</div>
</div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"></p>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">A morbidez se torna cada vez presente na poesia de Álvares de Azevedo, após a morte de João Batista da Silva Pereira, já em 1851. Alguns biógrafos ligam sua ligação com a morte, seus motivos em poemas com um certo pressentimento, como se o poeta soubesse que a morte estava perto. Disso jamais saberemos, mas, numa breve pesquisa sobre a vida de Álvares de Azevedo, trata-se, inclusive, de um lugar-comum.</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><a rel="nofollow" href="http://equivocos-pedrolago.blogspot.com/" target="_blank">http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</a></span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">À T&#8230;</span></div>
<div>Amoroso palor meu rosto inunda,<br />
Mórbida languidez me banha os olhos,<br />
Ardem sem sono as pálpebras doridas,<br />
Convulsivo tremor meu corpo vibra:<br />
Quanto sofro por ti! Nas longas noites<br />
Adoeço de amor e de desejos<br />
E nos meus olhos desmaiando passa<br />
A imagem voluptuosa da ventura&#8230;<br />
Eu sinto-a de paixão encher a brisa,<br />
Embalsamar a noite e o céu sem nuvens,<br />
E ela mesma suave descorando<br />
Os alvacentos véus soltar do colo,<br />
Cheirosas flores desparzir sorrindo<br />
Da mágica cintura.<br />
Sinto na fronte pétalas de flores,<br />
Sinto-as nos lábios e de amor suspiro.<br />
Mas flores e perfumes embriagam,<br />
E no fogo da febre, e em meu delírio<br />
Embebem na minh&#8217;alma enamorada<br />
Delicioso veneno<br />
Estrela de mistério! Em tua fronte<br />
Os céus revela, e mostra-me na terra,<br />
Como um anjo que dorme, a tua imagem<br />
E teus encantos onde amor estende<br />
Nessa morena tez a cor de rosa<br />
Meu amor, minha vida, eu sofro tanto!<br />
O fogo de teus olhos me fascina,<br />
O langor de teus olhos me enlanguesce,<br />
Cada suspiro que te abala o seio<br />
Vem no meu peito enlouquecer minh&#8217;alma!<br />
Ah! vem, pálida virgem, se tens pena<br />
De quem morre por ti, e morre amando,<br />
Dá vida em teu alento à minha vida,<br />
Une nos lábios meus minh&#8217;alma à tua!<br />
Eu quero ao pé de ti sentir o mundo<br />
Na tua alma infantil; na tua fronte<br />
Beijar a luz de Deus; nos teus suspiros<br />
Sentir as vibrações do paraíso;<br />
E a teus pés, de joelhos, crer ainda<br />
Que não mente o amor que um anjo inspira,<br />
Que eu posso na tu&#8217;alma ser ditoso,<br />
Beijar-te nos cabelos soluçando<br />
E no teu seio ser feliz morrendo!</div>
<p></span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:small;">Álvares de Azevedo teve tuberculose quando ainda era estudante do quarto ano de direito aos vinte anos, porém, há também uma informação de que teve um tumor na fossa ilíaca, assim como outra suposição de que o poeta sofria de apendicite. Fato mesmo é que nessa época já havia escrito a sua &#8220;Lira dos Vinte Anos&#8221; que seria publicada depois de sua morte. Álvares tem sonhos e escreve sobre morte. Faz uma viagem para o Rio de Janeiro para se tratar. Seria sua última viagem.</p>
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<div>PÁLIDA À LUZ</div>
<div>
<p>Pálida à luz da lâmpada sombria,</p>
<p>Sobre o leito de flores reclinada,</p>
<p>Como a lua por noite embalsamada,</p>
<p>Entre as nuvens do amor ela dormia!</p>
<p>Era a virgem do mar, na escuma fria</p>
<p>Pela maré das águas embalada!</p>
<p>Era um anjo entre nuvens d&#8217;alvorada</p>
<p>Que em sonhos se banhava e se esquecia!</p>
<p>Era mais bela! o seio palpitando</p>
<p>Negros olhos as pálpebras abrindo</p>
<p>Formas nuas no leito resvalando</p>
<p>Não te rias de mim, meu anjo lindo!</p>
<p>Por ti &#8211; as noites eu velei chorando,</p>
<p>Por ti &#8211; nos sonhos morrerei sorrindo!</p>
</div>
<p></span></div>
<div><span style="font-family:Verdana;">Já sofrendo de tuberculose e com um tumor na fossa ilíaca, Álvares sofre uma queda de cavalo no Rio de Janeiro. Tem que ser operado às pressas, sem anestesia, lembram os parentes, e após 46 dias de internação, morre no dia 25 de abril, Páscoa de 1852. Um mês antes havia escrito o poema &#8220;Se eu morresse amanhã&#8221;, razão pela qual os biógrafos apontam sua &#8220;premonição&#8221;. O poema é lido no enterro por Joaquim Manuel Macedo. A excessão de Lira dos Vintes Anos, tudo que se conhece hoje de Álvares de Azevedo foi publicado depois de sua morte. O poeta é patrono da cadeira 2 da Academia Brasileira de Letras por escolha de Coelho Neto.</p>
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<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">SE EU MORRESSE AMANHÃ</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Se eu morresse amanhã, viria ao menos</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Fechar meus olhos minha triste irmã;</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Minha mãe de saudades morreria</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Se eu morresse amanhã!<br />
</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Quanta glória pressinto em meu futuro!</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Que aurora de porvir e que manhã!</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Eu perdera chorando essas coroas</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Se eu morresse amanhã!<br />
</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Que sol! que céu azul! que doce n&#8217;alva</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Acorda a natureza mais louçã!</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Não me batera tanto amor no peito</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Se eu morresse amanhã!<br />
</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Mas essa dor da vida que devora</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">A ânsia de glória, o dolorido afã&#8230;</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">A dor no peito emudecera ao menos</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;">Se eu morresse amanhã!</span></p>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><br />
</span></div>
<div><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"></p>
<div>
<table border="0" cellspacing="0" cellpadding="3" width="100%">
<tbody>
<tr>
<td align="left" valign="top">
<div>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
</div>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p></span></div>
</div>
<p></span></div>
<p></span></div>
<p></span></div>
</div>
</div>
<p></span></div>
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<p></span></div>
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<p></span>&nbsp;</p>
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</div>
<p>&nbsp;</p>
</div>
<br />Filed under: <a href='http://cartilhadepoesia.wordpress.com/category/todos-os-poetas-aqui/'>TODOS OS POETAS AQUI</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/cartilhadepoesia.wordpress.com/68/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/cartilhadepoesia.wordpress.com/68/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/cartilhadepoesia.wordpress.com/68/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/cartilhadepoesia.wordpress.com/68/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/cartilhadepoesia.wordpress.com/68/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/cartilhadepoesia.wordpress.com/68/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/cartilhadepoesia.wordpress.com/68/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/cartilhadepoesia.wordpress.com/68/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/cartilhadepoesia.wordpress.com/68/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/cartilhadepoesia.wordpress.com/68/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/cartilhadepoesia.wordpress.com/68/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/cartilhadepoesia.wordpress.com/68/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/cartilhadepoesia.wordpress.com/68/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/cartilhadepoesia.wordpress.com/68/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=68&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>Mário Faustino</title>
		<link>http://cartilhadepoesia.wordpress.com/2011/03/09/64/</link>
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		<pubDate>Wed, 09 Mar 2011 18:59:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cartilhadepoesia</dc:creator>
				<category><![CDATA[TODOS OS POETAS AQUI]]></category>

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		<description><![CDATA[Mário Faustino dos Santos e Silve nasceu em Teresina, Piauí, no dia 13 de outubro de 1930. Estudou em Belém. Lá, foi redator e cronista n&#8217;A Província do Pará, depois na Folha do Norte. Durante este período, 1947 a 1949, estudou no Estados Unidos, mais precisamente na California, estudando teoria literária e literatura norte-americana. Neste [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=64&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Mário Faustino dos Santos e Silve nasceu em Teresina, Piauí, no dia 13 de outubro de 1930. Estudou em Belém. Lá, foi redator e cronista n&#8217;A Província do Pará, depois na Folha do Norte. Durante este período, 1947 a 1949, estudou no Estados Unidos, mais precisamente na California, estudando teoria literária e literatura norte-americana. Neste mês, percorreremos a poesia deste jovem, porém, profundo poeta, que fez um trabalho de extrema importância para a divulgação da poesia no Brasil e foi um notável poeta.</p>
<p>Rainer Maria em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>PREFÁCIO</p>
<p>Quem fez esta manhã, quem penetrou<br />
À noite os labirintos do tesouro,<br />
Quem fez esta manhã predestinou<br />
Seus temas a paráfrases do touro,<br />
As traduções do cisne: fê-la para<br />
Abandonar-se a mitos essenciais,<br />
Desflorada por ímpetos de rara<br />
Metamorfose alada, onde jamais<br />
Se exaure o deus que muda, que transvive.<br />
Quem fez esta manhã fê-la por ser<br />
Um raio a fecundá-la, não por lívida<br />
Ausência sem pecado e fê-la ter<br />
Em si princípio e fim: ter entre aurora<br />
E meio-dia um homem e sua hora.</p>
<p>Em 1956, após ter voltado para o Brasil, Mário Faustino se transfere para o Rio de Janeiro. Mário trabalha na Fundação Getúlio Vargas e logo depois torna-se editorialista do (infelizmente extinto) Jornal do Brasil, começando no Suplemente Dominical (SDJB). Falar da vida de Mário Faustino é tratar de sua relação com a poesia, com o jornalismo e com a crítica literária, exatamente o que pretendo apontar aqui ao longo desta antologia. </p>
<p>Poemas na http://cartilhadepoesia.wordpress.com</p>
<p>MENSAGEM</p>
<p>Em marcha, heróico, alado pé de verso,<br />
busca-me o gral onde sangrei meus deuses:<br />
conta às suas relíquias, ontem de ouro,<br />
hoje de obscura cinza, pó de tempo,<br />
que ele os venera ainda, o jogral verde<br />
que outrora celebrou seus milagres fecundos.</p>
<p>Dize a eles que vinham<br />
tecer silentes minha eternidade<br />
que a lava antiga é pura cal agora<br />
e queima-lhes incenso, e rouba-me farrapos<br />
de seus mantos desertos de oferendas<br />
onde possa chorar meus disfarce ferido.</p>
<p>Dize a eles que tombam<br />
como chuvas de sêmen sobre campos de sal<br />
sem mancha, mas terríveis<br />
que desçam sobre a urna deste olvido<br />
e engendrem rosas rubras<br />
do estrume em que tornei seus dons de trigo e vinho.<br />
Segue, elegia, busca-me nos portos<br />
e nas praias de Antanho, e nas rochas de Algures<br />
os deuses que afoguei no mar absurdo<br />
de um casto sacrifício.</p>
<p>Apanha estas palavras do chão túmido<br />
onde as deixo cair, findo dilúvio:<br />
forma delas um palco, um absoluto<br />
onde possa dançar de novo, nu<br />
contra o peso do mundo e a pureza dos anjos,<br />
até que a lucidez venha construir<br />
um templo justo, exato, onde cantemos.</p>
<p>O projeto do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil surgiu de um programa de rádio na Rádio Jornal do Brasil, dirigido pelo poeta Reynaldo Jardim. Reynaldo conseguiu reunir profissionais competentes. melhorar o aspecto gráfico e mudar o conteúdo do caderno. Foi apoiado pela condessa Pereira Carneiro, proprietária do jornal, e ganhou a confiança dos principais intelectuais do país, transformando o complemento, num ponto de referência para a vida cultural brasileira. Alí, Mário iria fazer história.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>LEGENDA</p>
<p>No princípio<br />
Houve treva bastante para o espírito<br />
Mover-se livremente à flor do sol<br />
Oculto em pleno dia<br />
No princípio<br />
Houve silêncio até para escutar-se<br />
O germinar atroz de uma desgraça<br />
Maquinada no horror do meio-dia.<br />
E havia, no princípio,<br />
Tão vegetal quietude, tão severa<br />
Que se entendia a queda de uma lágrima<br />
Das frondes dos heróis de cada dia.</p>
<p>Havia então mais sombra em nossa via.<br />
Menos fragor na farsa da agonia,<br />
Mais êxtase no mito da alegria.<br />
Agora o bandoleiro brada a atira<br />
Jorros de luz na fuga de meu dia -<br />
E mudo sou para cantar-te, amigo,<br />
O reino, a lenda, a glória desse dia.</p>
<p>Em Belém, o ainda jovem Mário realizou a maior parte de seus estudos. Para sua estreia como poeta, Mário teve a ajuda de Francisco Paulo Mendes, professor de literatura e figura aglutinadora de talentos literários locais. Estreou na Folha do Norte no suplemente literário. Alí também estaria a nova geração de autores, tais como Haroldo Maranhão, Max Martins, Rui Barata e o poeta americano Roberto Stock, que publicou no jornal enquanto esteve por lá. Clarice Lispector, então residente em Belém, contribuia para o jornal. Começaria aí o poeta.</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>ROMANCE</p>
<p>Para as Festas da Agonia<br />
Vi-te chegar, como havia<br />
Sonhado já que chegasses:<br />
Vinha teu vulto tão belo<br />
Em teu cavalo amarelo,<br />
Anjo meu, que, se me amasses,<br />
Em teu cavalo eu partira<br />
Sem saudade, pena, ou ira;<br />
Teu cavalo, que amarraras<br />
Ao tronco de minha glória<br />
E pastava-me a memória.<br />
Feno de ouro, gramas raras.<br />
Era tão cálido o peito<br />
Angélico, onde meu leito<br />
Me deixaste então fazer,<br />
Que pude esquecer da cor<br />
Dos olhos da Vida e a dor<br />
Que o Sono vinha trazer.<br />
Tão celeste foi a Festa,<br />
Tão fino o Anjo, e a Besta<br />
Onde montei tão serena,<br />
Que posso, Damas, dizer-vos<br />
E a vós, Senhores, tão servos<br />
De outra Festa mais terrena -</p>
<p>                                      Não morri de mala sorte,<br />
                                      Morri de amor pela Morte.</p>
<p>O professor de literatura Francisco Paulo Mendes foi, por algum tempo, uma espécie de mestre para Mário. Tinha uma vasta biblioteca. Porém, a figura do mestre mudaria para novos amigos. Assim, Mário fugia do provincianismo de Belém. Benedito Nunes foi o autor do primeiro ensaio de seu livro, O homem e sua hora, e revela numa carta: &#8220;sabes que aqui tem gente culta, inteligente, moderna e de espírito à beça, [...] tem um rapaz que escreve uns belos poemas, muito simples [...] traduz otimamente ingleses e americanos (inclusive Eliot e Cummings).&#8221; Assim, Mário foi se desenvolvendo.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>VIDA TODA LINGUAGEM</p>
<p>Vida toda linguagem,<br />
frase perfeita sempre, talvez verso,<br />
geralmente sem qualquer adjetivo,<br />
coluna sem ornamento, geralmente partida.<br />
Vida toda linguagem<br />
há entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome<br />
aqui, ali, assegurando a perfeição<br />
eterna do período, talvez verso,<br />
talvez interjetivo, verso, verso.<br />
Vida toda linguagem,<br />
feto sugando em língua compassiva<br />
o sangue que criança espalhará &#8211; oh metáfora ativa!<br />
leite jorrado em fonte adolescente,<br />
sêmen de homens maduros, verbo, verbo.<br />
Vida toda linguagem,<br />
bem o conhecem velhos que repetem,<br />
contra negras janelas, cintilantes imagens<br />
que lhes estrelam turvas trajetórias.<br />
Vida toda linguagem -<br />
                                  como todos sabemos<br />
conjugar esses verbos, nomear<br />
esses nomes:<br />
                      amar, fazer, destruir<br />
homem, mulher e besta, diabo e anjo<br />
e deus talvez, e nada.<br />
Vida toda linguagem,<br />
vida sempre perfeita,<br />
imperfeitos somente os vocábulos mortos<br />
com que um homem jovem, nos terraços do inverno contra a chuva,<br />
tenta fazê-la eterna &#8211; como se lhe faltasse<br />
outra, imortal sintaxe<br />
à vida que é perfeita<br />
                               língua<br />
                                        eterna.</p>
<p>Como dissera, de 1951 a 1953, Mário ganha uma bolsa do Institute of International Edication e passa a viver nos Estados Unidos. Estuda Teoria da Literatura e Literatura Norte-Americana, o que seria sua grande base para sua carreira de crítico literário. Sobre isso, Mário disse uma vez que &#8220;em todos os meus cursos [...] o trabalho é duro. Há semanas em que sou obrigado a ler dois, três livros inteiros, fora a consulta a inúmeras obras. Somente aos domingos é que posso passear &#8211; e que passeios&#8221;.</p>
<p>Casamentos&#8230; no http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>O MUNDO QUE VENCI DEU-ME UM AMOR</p>
<p>O mundo que venci deu-me um amor,<br />
Um troféu perigoso, este cavalo<br />
Carregado de infantes couraçados.<br />
O mundo que venci deu-me um amor<br />
Alado galopando em céus irados,<br />
Por cima de qualquer muro de credo,<br />
Por cima de qualquer fosso de sexo.<br />
O mundo que venci deu-me um amor<br />
Amor feito de insulto e pranto e riso,<br />
Amor que faça as portas dos infernos,<br />
Amor que galga o cume ao paraíso.<br />
Amor que dorme e treme. Que desperta<br />
E torna contra mim, e me devora<br />
E me rumina em cantos de vitória&#8230;</p>
<p>Em 1955, Mário retorno ao Rio de Janeiro com recursos da Fundação Getúlio Vargas, onde, um ano depois, seria contratado como professor. A história de Mário Faustino com o Suplemente Dominical do Jornal do Brasil, como já foi mencionado, surge a partir de um programa da Rádio Jornal do Brasil de mesmo nome. O programa era coordenado pelo poeta Reynaldo Jardim, e tinha apoio da proprietária e condessa Pereira Carneiro (Maurina Dunshee de Abranches). Antes, a primeira página era dominada por classificados. Mais amanhã.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>NAM SIBYLLAM&#8230;</p>
<p>Lá onde um velho corpo desfraldava<br />
As trêmulas imagens de seus anos;<br />
Onde imaturo corpo condenava<br />
Ao canibal solar seus tenros anos;<br />
Lá onde em cada corpo vi gravadas<br />
Lápides eloquentes de um passado<br />
Ou de um futuro arguido pelos anos;<br />
Lá cândidos leões alvijubados<br />
Às brisas temporais se espedaçavam<br />
Contra as salsas areias sibilantes;<br />
Lá vi o pó do espaço me enrolando<br />
Em turbilhões de peixes e presságios -<br />
Pois na orla do mundo as delatantes<br />
Sombras marinhas, vagas, me apontavam.</p>
<p>Inicialmente o Suplemento era aos domingos. Ousado graficamente, explorava os espaços em branco, o que causava espanto e consumia muito papel. Por isso, passou para os sábados, porém, conservando o nome que lhe deu fama: Suplemento Dominical do Jornal do Brasil. A equipe era composta de jovens bem informados. Logo ganhou o respeito e a confiança dos principais intelectuais do país, seduziu leitores e se tornou um ponto de referência para vida cultural brasileira. Mário Faustino era um dos que compunha o time de jornalistas e críticos literários. </p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>AGONISTES</p>
<p>Dormia um redentor no sol que ardia<br />
O louro e a cera, dons hipotecados<br />
Da carne postulada pelo dia;<br />
Dormia um redentor nos incensados<br />
Lençóis que a lua póstuma cobria<br />
De mira e de açafrões embalsamados;<br />
Dormia um redentor no navegante<br />
Das mortalhas de escuma que roía<br />
O verme de seus sonhos abafados;<br />
E até no atol do sexo triunfante<br />
Do mar e da salsugem da agonia<br />
Dormia um redentor: e era bastante<br />
Para acordá-lo o verso que bramia<br />
No cérebro do atleta e lá morria.</p>
<p>Logo que o Suplemento ganhou força, houve uma campanha contrária feita por escritores descontentes e apreensivos com resenhas nada benevolentes de suas obras, sobretudo, as assinadas por Mário Faustino. O jornal resistiu e superou. Anos depois, o sucesso do Suplemento fez com que o Jornal do Brasil mudasse todo seu editorial e sua parte gráfica, inclusive, criando o Caderno B. Mário começou sua história ali, ao lado de Dídimo, José Geraldo e Luís Carlos Barreto, seu amigo de juventude.</p>
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<p>INFERNO, ETERNO INVERNO, QUERO DAR</p>
<p>Inferno, eterno inverno, quero dar<br />
Teu nome à dor sem nome deste dia<br />
Sem sol, céu furor, praia sem mar,<br />
Escuna de alma à beira da agonia.<br />
Inferno, eterno inverno, quero olhar<br />
De frente a gorja em fogo da elegia,<br />
Outono e purgatório, clima e lar<br />
De silente quimera, quieta e fria.<br />
Inverno, teu inferno a mim não traz<br />
Mais do que a dura imagem do juízo<br />
Final com que me aturde essa falaz<br />
Beleza de teus verbos de granizo:<br />
Carátula celeste, onde o fugaz<br />
Estilo de teu riso &#8211; paraíso?</p>
<p>O SDJB (Suplemento Dominical do Jornal do Brasil) se tornou um verdadeiro palco de debate, inteiramente dedicado à poesia. Teve início no dia 23 de setembro de 1956 (início da primavera) e foi até 11 de janeiro de 1959. Mário Faustino organizava o Poesia-Experiência, e pretendia tirar da letargia a poesia, a crítica e o jornalismo literário brasileiros. Foi ali também que Mário começou a organizar sua própria obra poética. O objetivo do SDJB também era permitir ao público de jovens críticos e de poetas, ler os clássicos e os modernos, se possível em várias línguas, inclusive os portugueses.</p>
<p>O Arquivo deste mailing aqui http://cartilhadepoesia.wordpress.com</p>
<p>ONDE PAIRA A CANÇÃO RECOMEÇADA</p>
<p>Onde paira a canção recomeçada<br />
No capitel de acanto de teu lar?<br />
Onde prossegue a dança terminada<br />
Nas lajes de meu tempo de chorar?<br />
Rapaz, em minhas mãos cheias de areia<br />
Conto os astros que faltam no horizonte<br />
Da praia soluçante onde passeia<br />
A espuma de teu fim, pranto sem fonte.<br />
Oh juventude, um pálio de inocência<br />
Jamais se estenderá sobre outra aurora<br />
Mais clara que esta clara adolescência<br />
Que o lupanar da noite hoje devora:<br />
Que vale o lenço impuro da elegia<br />
Sobre teu rosto, lúcida alegria?</p>
<p>O Suplemento Dominical do Jornal do Brasil era dividido em diferentes seções. Havia &#8220;Poeta novo&#8221; divulgando novos autores. Era uma seção concorridíssima, estar alí era fundamental para um poeta debutante. Também era importante fazer o diálogo dos novos poetas com os grandes. &#8220;O melhor do português&#8221; selecionava poetas por excelência, muitos deles desconhecidos do grande público. Havia também o &#8220;É preciso conhecer&#8221; e &#8220;Clássicos vivos&#8221;. Mais amanhã. Nesta semana, poemas inacabados.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>CAMBIANTE FLORESTA</p>
<p>Cambiante floresta, rio, jóias,<br />
um repuxo de garças brotava<br />
o pescador se erguia<br />
os lábios contra a urna<br />
e a palmeira chovia luz-de-sol<br />
e a superfície d&#8217;água, cintilava e mudava de cor.<br />
Um repto, ao caçador, a sarça bruta,<br />
palma de mão, fechada em cano frio,<br />
cinto de brotos, artelhos frios,<br />
caçador de joelhos,<br />
a parede de folhas cintilava, não mudava de dor.<br />
Lontras mudas, caça-e-pesca, lontras frias.<br />
São, ao sul, as estrelas. São seus restos, a parada noturna<br />
câmbio de chaves, a cruz-ao-sul, os astrolábios,<br />
o coração se arguia, o coração supérfulo,<br />
vácuo, fluxo-e-refluxo, arcano, arcanjo,<br />
ar carregado, arfante, a flor e o resto.</p>
<p>Em &#8220;Diálogos de oficina&#8221;, Mário mostrava um pouco seus poemas e propunha debates ligados à poesia, envolvendo percepção, expressão, questões éticas e estéticas. Havia também o &#8220;Fontes da poesia contemporânea&#8221;, discutindo padrões criativos estrangeiros que deveriam estimular e favorecer a renovação. Mário fazia uma pequena introdução, e mostrava, lado a lado, o poema no original e o traduzido. &#8220;Evolução da poesia brasileira&#8221; pretendia abranger as manifestações de poesia desde a época colonial. Por fim, havia o &#8220;Personae&#8221;, nome que homenageava o maior ídolo de Mário, Ezra Pound, comentando as novidades do momento. Era mais ou menos por aí.</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>GESTOS DE AMOR<br />
(inacabado)</p>
<p>gestos de amor fizeram-se<br />
- estrelas brilham -<br />
se desfizeram.</p>
<p>Mãos postas, ovos gigantes postos<br />
(estrelas brilham)<br />
entre as coxas do caos.<br />
Estrelas brilham.<br />
A gaivota fecunda a rocha<br />
estrela, estrela<br />
esteriliza o mar<br />
um traço a mais no ar<br />
peixe a menos no mar.<br />
Gostos, demoras, fezes se refazem.<br />
Contra as costas do cão<br />
estrelas brilham<br />
fases da lua, brisas<br />
ilhas aventuradas, pescadores<br />
dormentes de aventura.<br />
A terra dura. A terra permanece,<br />
a terra flui, cortam-se umbigos, pêlos<br />
sobrevivem sobre os ossos, sobre carnes<br />
aterradoras&#8230;</p>
<p>O lema de seu mestre Ezra Pound &#8220;Repetir para aprender, criar para renovar&#8221; era constantemente usado na página do SDJB. A partir de então, poetas como Eliot, Baudelaire, Rimbaud, Marinetti, Blaise Cendrars, Whitman, Poe (só para falar dos grandes) e muitos outros passaram a ser conhecidos pelo público e, sobretudo, ao lado de poetas nacionais, como Drummond, Bandeira, Mário de Andrade e os &#8220;jovens&#8221; concretos, por exemplo. Mário desenvolveu uma personalidade crítica, conseguindo respeito de críticos e o medo de jovens poetas.</p>
<p>http://cartilhadepoesia.wordpress.com</p>
<p>O MAR RECEBE O RIO</p>
<p>O mar recebe o rio. O rio<br />
faustosamente corre para o mar<br />
o rio-mar<br />
                um hino apologético do mundo.<br />
Dosséis verdes flutuam sobre os outros<br />
tantos dosséis azuis -<br />
santos dos santos<br />
                                santos dos santos fluem<br />
deuses, deuses mais deuses &#8211; e floresta.<br />
Meu nome é legião. Meu nome escorre<br />
e pára &#8211; o mar! o mar! Apolo! &#8211; o fundo<br />
do céu é verde-gaio sobre os potros<br />
arfando &#8211; tantos, tantos &#8211; rumo sul.<br />
Mente mefistotélica arrastando<br />
rostos e restos, rosa, fumo, verme,<br />
santos dos santos<br />
                            azul-gaio<br />
                                          fluxo&#8230;</p>
<p>A atividade jornalística de Mário Faustino conviveu também com obras representativas da literatura brasileira na área da crítica: &#8220;Formação da literatura brasileira (1959) de Antonio Candido e &#8220;A literatura no Brasil (1955-1959) de Afrânio Coutinho, assim como outras. Nos debates entre críticos da época, Mário era uma espécie de &#8220;coluna do meio&#8221;, embora não se autodenominasse &#8220;crítico&#8221;. Era interessado em poesia, língua portuguesa e cultura brasileira e fazia o diálogo entre os caminhos que julgava importante para sua formação.</p>
<p>O milharal em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>AS SOMBRAS</p>
<p>Neste momento as sombras<br />
fervilhando no bosque<br />
procuram-se no bosque<br />
como cobras, no bosque,<br />
iguais a morcegos, sugam-se<br />
penetram-se &#8211; no bosque -<br />
como vermes.<br />
Umas as outras acham-se<br />
como quem acha o vácuo,<br />
no bosque<br />
o reverso do nada<br />
deparam<br />
para logo no bosque<br />
perder: bosque e vazio<br />
Neste momento, os carros<br />
ressoam sobre o concreto<br />
por entre bosque e rio -<br />
neste momento o mar<br />
trepida sobre o leito<br />
por entre praia, e praia -<br />
Neste momento a sombra<br />
cobre mundo e vazio<br />
neste momento o tempo<br />
suga o vazio, o tempo<br />
procura o tempo, encontra<br />
o tempo, penetra o tempo e perde-se<br />
sombra enrolada a sombra,<br />
nó de víboras, sombra,<br />
um só caos, busca e encontro<br />
e perda e tudo: sombras.</p>
<p>Assim, Mário percorreu, como pode, a história da poesia brasileira e mundial. Analisou desde Anchieta até o movimento concreto. De Poe a Pound passando por todos os grandes aos menos conhecidos, franceses, ingleses, portugueses, americanos, sempre fazendo o diálogo com o contemporâneo brasileiro. Jamais perdeu a condição de intelectual a serviço da poesia. Pound foi grande o guia, embora tenha aprendido com Eliot a importância da poesia para o enriquecimento da língua.</p>
<p>Para ler sobre poetas http://cartilhadepoesia.wordpress.com</p>
<p>TÚNEL, PEDRA, TONEL</p>
<p>Túnel, pedra, tonel.<br />
A mão sem luva,<br />
a mão com chaga.<br />
Mundo que sobe e desce,<br />
mundo que sofre e cresce.<br />
Mundo que principia, medra e finda,<br />
mundo de fel e mel,<br />
túnel, pedra, tonel.</p>
<p>E as dobras fartas<br />
do manto sono<br />
tombando em torno<br />
do leito tempo -</p>
<p>e os dobres fortes<br />
do pranto sino<br />
troando em turnos<br />
de luto e vento -</p>
<p>No fim do túnel, o princípio do túnel.<br />
Na subida da pedra, a descida da pedra.<br />
O tonel não tem fundo, a mão não chega às uvas -<br />
Lida, caixão e sorte,<br />
vida, paixão e morte.</p>
<p>E assim, de 23 de setembro de 1956 a 11 de janeiro de 1959, Mário participou do Poesia-Experiência no Jornal do Brasil. No final de 1959, decepcionado com os rumos que o suplemento tomava, Mário Faustino muda radicalmente de rota: passa a desempenhar as funções de redator e editorialista do mesmo jornal, formando dupla com Hermano Alves, ambos responsáveis pelas mais liberais proclamações da imprensa conservadora no Rio, no entender do amigo Paulo Francis. Abandona a militância literária, mas não desiste da poesia.</p>
<p>Tradução de texto de Paul Valéry no http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>BALADA</p>
<p>Não conseguiu firmar o nobre pacto<br />
Entre o cosmos sangrento e a alma pura<br />
Porém, não se dobrou perante o fato<br />
Da vitória do caos sobre a vontade<br />
Augusta de ordenar a criatura<br />
Ao menos: luz ao sul da tempestade.<br />
Gladiador defunto mas intacto<br />
(Tanta violência, mas tanta ternura),</p>
<p>Jogou-se contra um mar de sofrimentos<br />
Não para pôr-lhes fim, Hamlet, e sim<br />
Para afirmar-se além de seus tormentos<br />
De monstros cegos contra um só delfim,<br />
Frágil porém vidente, morto ao som<br />
De vagas de verdade e de loucura.<br />
Bateu-se delicado e fino, com<br />
Tanta violência, mas tanta ternura!<br />
Cruel foi teu triunfo, torpe mar.<br />
Celebrara-te tanto, te adorava<br />
Do fundo atroz à superfície, altar<br />
De seus deuses solares &#8211; tanto amava<br />
Teu dorso cavalgado de tortura!<br />
Com que fervor enfim te penetrou<br />
No mergulho fatal com que mostrou<br />
Tanta violência, mas anta ternura!</p>
<p>Envoi</p>
<p>Senhor, que perdão tem o meu amigo<br />
Por tão clara aventura, mas tão dura?<br />
Não está mais comigo. Nem conTigo:<br />
Tanta violência. Mas tanta ternura.</p>
<p>O jornalista e amigo de Mário Faustino, Paulo Francis, que também colaborava com o Poesia-Experiência, lembra de seu estilo no jornal: &#8220;Era violento e opinático, satirizando os maus artistas e distribuindo elogios com economia. Seus argumentos impressionavam pela lucidez e amplitude cultural. Não se tratava de crítico &#8220;pessoal&#8221;, mas de alguém que defendia um ponto de vista, que lutava pelo estabelecimento de uma escala de valores, que recusava peremptoriamente a contrafação de qualidade [...]&#8220;</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>BALATETTA</p>
<p>Por não ter esperança de beijá-lo<br />
Eu mesmo, ou de abraçá-lo,<br />
Ou contar-lhe do amor que me corrói<br />
O coração vassalo,<br />
Vai tu, poema, ao meu<br />
Amado, vai ao seu<br />
Quarto dizer-lhe quanto, quanto dói<br />
Amar sem ser amado,<br />
Amar calado.</p>
<p>Beijai-o vós, felizes<br />
Palavras que levíssimas envio<br />
Rumo aos quentes países<br />
De seu corpo dormente, rumo ao frio<br />
Vale onde vaga a alma<br />
Liberta que na calma<br />
Da noite vai sonhando, indiferente<br />
À fonte que, de ardente,<br />
Gera em meu rosto um rio<br />
Resplandecente.</p>
<p>No sonolento ramo<br />
Pousai, palavras minhas, e cantai<br />
Repetindo: eu te amo.</p>
<p>Ele, que dorme, e vai<br />
De reino em reino cavalgando sua<br />
Beleza sob a lua,<br />
Encontrará na voz de vosso canto<br />
Motivo de acalanto;<br />
E dormirá mais longe ainda, enquanto<br />
Eu, carregando só, por esta rua<br />
Dificil, meu pesado<br />
Coração recusado<br />
Verei, nesse seu sono renovado,<br />
Razão de desencanto<br />
E de mais pranto.</p>
<p>Entretanto cantai, palavras: quem<br />
Vos disse que chorásseis, vós também?</p>
<p>No final de 1958, Mário preocupava-se em fazer que a poesia pudesse satisfazer, de algum modo, as necessidades metafísicas do homem contemporâneo. Auto-sublimação, autodignificação, catarse, percepção mais funda e total dos fenômenos objetivos, autoconheciment e etc. Um universo de interesses estranhos à poesia que ajudou a divulgar, por ter conhecido nela um pólo instigador da produção brasileira.</p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>ENVOI</p>
<p>Vai meu canto,<br />
Dizer a quem te escute desta dor<br />
Severa como as coisas longevivas<br />
Prometem ser, troféus de heróis do olvido;<br />
Vai dizer-lhes<br />
Da dança que dançamos, rito ardente,<br />
E do barro fiel donde extraímos vida<br />
Mais casta que as ideias passageiras,<br />
Ornatos da tormenta&#8230;<br />
E dize-lhes do eterno,<br />
Do rubro que inda jaz sobre os mosaicos<br />
Onde o dourado é morto&#8230;</p>
<p>Vai, meu canto,<br />
Eu te sigo em segredo, por bizarros ouvidos:<br />
Como um rei que mandou seu segrel para a guerra<br />
E o vê partir de longe, do alto das seteiras&#8230;</p>
<p>De 1960 a 1962, Mário morou em Nova York, atuando como jornalista no Departamento de Informação da Organização das Nações Unidas. Volta para o Brasil no mesmo ano, onde, assume, por pouco tempo, a editoria-chefe da Tribuna de Imprensa, comprada pelo Jornal do Brasil. Em novembro de 1962, Mário Faustino morre num desastre de avião a caminho de Nova York, onde iria trabalhar como correspondente do Jornal do Brasil. Mário só publicou um livro de poemas em vida, O Homem e sua Hora, cujos poemas, vimos nesses vinte dias.</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>NÃO QUERO AMAR O BRAÇO DESCARNADO</p>
<p>Não quero amar o braço descarnado<br />
Que se oculta em meu braço, nem o peito<br />
Silente que se instala no meu lado,<br />
Onde pulsa de horror um ser desfeito<br />
Na presente visão de seu passado<br />
Em futuro sem tempo contrafeito,<br />
Em tempo sem compasso transmudado.<br />
O morto que em mim jaz aqui rejeito.<br />
Quero entregar-me ao vivo que hoje sua<br />
De medo de perder-me em pleno leito<br />
Rubro de vida e morte em que me deito<br />
A luz de ardente e grave e cheia lua.<br />
Ao que, se a Morte chama ao longe: Mário!,<br />
Me abraça estremecendo em meu sudário.</p>
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		<title>Eucanaã Ferraz</title>
		<link>http://cartilhadepoesia.wordpress.com/2010/12/23/eucanaa-ferraz/</link>
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		<pubDate>Thu, 23 Dec 2010 14:10:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cartilhadepoesia</dc:creator>
				<category><![CDATA[TODOS OS POETAS AQUI]]></category>

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		<description><![CDATA[Eucanaã Ferraz nasceu no Rio de Janeiro no dia 18 de maio de 1961. É professor do curso de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro e publicou alguns bons livros de poesia, sendo, inclusive, laureado com alguns prêmios. Neste mês, percorreremos a poesia deste poeta carioca, cuja poesia tem uma certa delicadeza e [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=59&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eucanaã Ferraz nasceu no Rio de Janeiro no dia 18 de maio de 1961. É professor do curso de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro e publicou alguns bons livros de poesia, sendo, inclusive, laureado com alguns prêmios. Neste mês, percorreremos a poesia deste poeta carioca, cuja poesia tem uma certa delicadeza e que organiza antologias. Veremos livro a livro. Aqui, Primeira Poesia.</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>PASSEIO</p>
<p>Na entrada do cinema, o drops<br />
pode ser misto ou de hortelã,<br />
o misto tem gosto de frutas,<br />
o de hortelã de hortelã.</p>
<p>As pessoas são muitas pessoas.</p>
<p>Dentro do cinema, quanto tudo é escuro<br />
são todos anônimos e mesmo em inúmeros<br />
assim como são, ficam uma só pessoa<br />
no escuro, como se não fosse ninguém.</p>
<p>Eucanaã Ferraz cresceu numa casa sem biblioteca. Seu pai era dentista. Os únicos livros que havia em sua casa eram de odontologia. Seu primeiro contato com a poesia fora com um livro encadernado do poeta Augusto dos Anjos, &#8216;Eu e outros poemas&#8217;, onde, Eucanaã descobriu a poesia ligada essencialmente à morte e ao passado. Consta que, para ele, a poesia era Augusto dos Anjos assim como a única de referência de poeta, grande poeta. </p>
<p>videopoesia do poema &#8216;Apenas&#8217; do meu livro Corpo Aberto feita pelo artística plástico Miguel Bandeira http://www.youtube.com/watch?v=uJru4FixGvQ</p>
<p>QUANDO EU MORRER</p>
<p>Pai, quando eu morrer,<br />
ficarei rosa como uma menina<br />
(você não deve ralhar ou querer que eu minta<br />
porque tudo será exato, sem mesmo carecer de ensaio).</p>
<p>Quando eu morrer sou tranqüilo<br />
como um príncipe que beijasse<br />
a boca do nada (você vai achar bonito<br />
esse quadro de tintas longínquas).</p>
<p>Pensarão que sou uma menina, um barco,<br />
um pombo. Todo o meu doce virá à tona.<br />
Veja pai, sou um mineral,<br />
intacto e sem passado.</p>
<p>Eucanaã diz que se apaixonou pela arte quando viu pela primeira vez um quadro de Henri Matisse, seria o Grand Nu couchè/ Nu Rose. A partir desse momento, a arte, para ele, foi associada ao belo, à beleza, a qual o mesmo conclui ser uma questão de olhar. Como já disse, o primeiro contato com a poesia fora com o livro &#8220;Eu e outros poemas&#8221; do Augusto dos Anjos. Estes &#8220;opostos&#8221;, Matisse e Augusto dos Anjos seriam o despertar para a arte, agora faltaria a linguagem.</p>
<p>Um blog que eu mantenho e pouco divulgo  http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>INICIAÇÃO</p>
<p>Conheço o primeiro livro de poemas:<br />
— Eu<br />
de Augusto dos Anjos.</p>
<p>Meu pai o tem entre<br />
tratados de odontologia,<br />
sem capa, velho, enferrujado.</p>
<p>De ortografia esquisita, leio<br />
como se adentrasse um círculo onde<br />
o tempo é outro, feito de palavras<br />
estranhas, como que odontologizadas<br />
pelo contato físico.</p>
<p>Livro misteriosíssimo,<br />
no qual a morte é o superlativo<br />
síntese de tudo, absoluta<br />
como minha preguiça<br />
de ir ao dicionário decifrar vocábulos.</p>
<p>Eucanaã diz não ser um poeta da abstração. Interessa-se por fotografia, pintura, arquitetura, porém, não muito por filosofia. Diz também que deixa-se atrair por aquilo que envolve o seu olhar, que tem volume e forma palpável. Acha que essa necessidade do toque é uma limitação e gostaria que as coisas fossem diferentes. Livro Primeiro foi publicado em 1990, e tem orelha do professor Roberto Corrêa dos Santos. Nesta semana, todos os poemas são desse livro.</p>
<p>Conheça meus equívocos  http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>O DRAGÃO</p>
<p>Semana que vem, chega-te pelo correio<br />
a lua: puro papelão,<br />
que aos teus dedos transmutará em loiça.</p>
<p>Não fosse a gripe que me assolou esses dias,<br />
não fosse a preguiça, os livros e o sono,<br />
eu te mataria um dragão.</p>
<p>Na entrada da tua vila, deixaria o bicho,<br />
pesado como uma hecatombe<br />
(um hematoma na boca do estômago,</p>
<p>as asas imensas de bomba<br />
imersas numa poça de sangue verde).<br />
Ora, não te assustes,</p>
<p>sei que te acostumei com presentes mais delicados.<br />
Mas não seria preciso guardá-lo: telefonarias<br />
para o Departamento de Limpeza Urbana</p>
<p>avisando que um louco que te ama<br />
deixou um sonho morto<br />
na porta da tua casa.</p>
<p>Antes de escrever, ainda menino, Eucanaã dedicou-se ao desenho às colagens. Disse uma vez que &#8220;aprendeu a pensar com o olho&#8221;. No colégio teve contato com a poesia além do Augusto dos Anjos que já conhecia. Escreveu os primeiros versos para um professor do colégio que havia morrido e, embora não tivesse a intenção de ser poeta, seria a primeira produção, a primeira poesia. Nesta semana veremos poemas do livro Martelo.</p>
<p>crítica de Fernando Py para o meu livro Corpo Aberto no blog http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>ACONTECIDO</p>
<p>Como quem se banhasse<br />
no mesmo rio<br />
de águas repetidas,<br />
outra vez era setembro<br />
e o amor tão novo.<br />
Iguais, teu hálito mascavo<br />
e minha mão inquieta.<br />
Novamente o quarto,<br />
a praça vista da janela,<br />
teu peito.<br />
Depois eu era só &#8211; vê -<br />
sob a chuva miúda daquele dia.</p>
<p>Eucanaã Ferraz entrou para a Universidade Federal do Rio de Janeiro para fazer o curso de Letras. Formou-se e fez mestrado sobre o poeta Carlos Drummond de Andrade &#8216;Drummond, um poeta na cidade&#8217; no ano de 1994. Em 1999, fez o doutorado sobre o poeta João Cabral de Melo Neto, &#8216;Máquina de Comover: A poesia de João Cabral de Melo Neto e suas relações com a arquitetura. De acordo com Eucanaã, Drummond o ensinou a descobrir suas próprias habilidades em poesia.</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>NOTÍCIAS PARA GRAÇA E QUITÉRIA</p>
<p>As terras estão lá<br />
e os céus de sempre.<br />
As casas são as mesmas,<br />
pequeninas, pele e osso.<br />
De ser feliz, não se sabe,<br />
nem há notícias de Deus.<br />
Usinas, canaviais,<br />
como um dilúvio.<br />
Morrer é facil<br />
e não há justiça.<br />
O chão que vocês pisaram,<br />
o azul que seus olhos viram – eternos.<br />
A mãe, o irmão,<br />
eternamente, dormindo<br />
no Olho d’Água da Pedra.</p>
<p>Eucanaã diz que gosta de ser influenciado por autores de outras linguagens, tais como a música, a prosa e as artes plásticas. É engajado na divulgação de poesia, tornou-es professor de literatura brasileira e dá aulas na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Eis um trecho do prefácio de Jorge Fernandes da Silveira para Martelo, livro dos poemas dessa semana: Um dia, a poesia andava no campus da UFRJ. (É verdade!). Foi preciso ver no peito do jovem para ler marTelo. Lá estava ele, batendo atento e forte: beaTles. Recorda? Aí, eu comecei a ler o livro: o T de martelo tinha um fim a mais; um terceiro elo no gume de corte duplo: mar/elo, marelo. </p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>Romântico<br />
Amar noutro mundo<br />
que não este.<br />
Poder equilibrar – perfeito –<br />
um prato sobre um alfinete.<br />
Equilibrar um livro, uma casa,<br />
sobre um alfinete.<br />
Outro mundo. Sua maquete:<br />
palavra e cavalete.<br />
Outro: este, mas<br />
em falsete. Sete vezes<br />
mais belo, mil mais leve.<br />
Setecentos o mesmo gesto – amar –<br />
e, no entanto, não se complete.<br />
Um rio que se repetisse,<br />
um Tibete ameno, translúcido – e seu fundo,<br />
em que não se chegasse,<br />
era jamais a morte.</p>
<p>Eis um belo trecho de uma resenha escrita por Victor Hugo Adler Pereira para o livro Martelo:Na leitura deste livro, ao mesmo tempo em que se confirma a consecução da proposta de fazer a poesia com o vigor e a precisão do martelo, ou da goiva da xilogravura, encontram-se as armadilhas da sedução pela sucessão de imagens e sons, muitas vezes meras sugestões, provocações à imaginação do leitor Sem timidez, tece-se um simulacro da vida: “Pois ‘a aparência’ significa aqui a realidade mais uma vez, só que selecionada, fortalecida, corrigida&#8230;”, na observação de Niezstche sobre o fascínio do artista pela “aparência”. </p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>ARQUITETURA DA ILHA</p>
<p>Praia que se imaginasse<br />
mármore.<br />
Ou mais que isso – o maciço<br />
do mineral monométrico,<br />
carbônio puro. Ali,<br />
no alvor de um pátio ininterrupto,<br />
erguer seus edifícios.<br />
Ou mais que isso &#8211; aquários aéreos<br />
sob pilotis<br />
que se imaginassem<br />
agulhas<br />
fincadas sobre nada, levitação. Ali,<br />
o opróbrio e a tirania<br />
degolados pela luz.</p>
<p>Creio que o livro Desassombro, de 2001, tenha sido de grande importância para Eucanaã. O livro foi indicado para a fase final do concurso Portugal Telecom de Literatura. Antes disso, o livro também rendeu o Prêmio Alphonsus de Guimaraens da Fundação Biblioteca Nacional de Melhor Livro de Poesia. Prêmios. Sempre um assunto delicado, ainda mais tratando-se de literatura e, sobretudo, poesia. Nesta semana, alguns poemas de Dasassombro.</p>
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<p>POR VEZES NÃO RARO&#8230;</p>
<p>Por vezes, não raro,<br />
basta um gesto, sua borracha,<br />
um quase nada de alvaiade,<br />
um rasgo e só.</p>
<p>No entanto, o carvão<br />
de certas palavras,<br />
de alguns nomes,<br />
não se apaga fácil.</p>
<p>Afogá-lo, inútil:<br />
o maralto traz<br />
de volta cada sílaba<br />
em sal fortalecida.</p>
<p>Enterrá-lo? Logo renascerá:<br />
árvore alta, trigo, praga.<br />
No fogo, irrompe a letra,<br />
inda mais sólida liga. </p>
<p>Há que esperar do esquecimento<br />
o dente miúdo<br />
e lento roer a nódoa na língua,<br />
o travo no peito.</p>
<p>Rua do Mundo é um livro de 2004. Na minha opinião, um bom livro de poemas. Nas resenhas feitas sobre o livro, Eucanaã é constantemente filiado a João Cabral, como por exemplo, apontou Francisco Bosco no, já extinto, Jornal do Brasil. Outro tema recorrente é a produção de poesia no mercado editorial, mais poetas, menos, como alguns ressaltam, qualidade. Enfim, falaremos um pouco disso.  Até sexta feira, alguns poemas do livro Rua do Mundo. </p>
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<p>UM MUNDO</p>
<p>Onde montanhas não são levantamentos<br />
íngrimes de terra. Onde rios não são cursos<br />
de água que se vão lançar no mar,<br />
nos lagos, noutros rios. As casas </p>
<p>não têm paredes ou teto, ruas<br />
não são vias de acesso, caminhos não vão<br />
de um ponto a outro e os pontos não põem<br />
fim, não abreviam, não são laçadas na malha </p>
<p>da lã ou nas voltas da linha. Por sua vez,<br />
linhas não são fios, nem fibras, nem traços.<br />
Não há sulcos na palma das mãos. Não há frentes<br />
de combate. Linhas não são rumos</p>
<p>ou normas. O Equador não é o anel extremo do globo<br />
e as superfícies esféricas não se chamam esferas.<br />
Não há moedas. O espaço ilimitado, indefinido<br />
no qual se movem os astros é a terra, enquanto</p>
<p>acima das cabeças, pregados pelo horizonte, densos,<br />
amarelos, vão jardins em movimento. Venta.<br />
Há um vento constante, há um canto constante.<br />
Pode-se ver a música, de terraços, belvederes</p>
<p>e torres instaladas para tal finalidade. Mundo<br />
em que se ganha o que se perde.<br />
Toda pedra é pérola. Onde o amor<br />
é entre duas mulheres.</p>
<p>Separei este trecho da resenha de Manuel da Costa Pinto, da Folha de São Paulo, para ilustrar melhor a constante filiação dos poemas de Rua do Mundo de Eucanaã com a poesia, ou &#8220;lição&#8221; de poesia João Cabral.&#8221;Seus poemas, ao contrário, utilizam a realidade concreta (no caso, a cidade) como experiência fenomenológica do sujeito que a contempla, que nela se projeta -mas que a ela se limita. Nesse sentido, estão mais próximos da “lição de poesia” de João Cabral de Melo Neto e do neoconcretismo&#8221;.</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>VIA</p>
<p>Eu caminhava nu, sem que você visse.<br />
Pra que você visse, eu caminhava sem.<br />
Você não via. Pra que você soubesse,<br />
eu caminhava nem, sem que você visse, </p>
<p>eu caminhava livre, além do limite de<br />
ser ninguém, sem remo e sem alento,<br />
o andar isento quase de mim mesmo,<br />
num estranho, cansado engano, </p>
<p>sem âncora, no vento, e mais contente.<br />
Nu, livro ao avesso; nu, anel sem dedo;<br />
nu, anel sem dentro; nu, a pedra<br />
bruta; nu, um livro bruto, antes </p>
<p>do acabamento, cimento grosso,<br />
na antemão da cal, da letra, descampado,<br />
como se a mão de alguém me desenhasse,<br />
antiqüíssimo, no dorso de um vaso.</p>
<p>Sem poder ser belo, sem poder ser feio,<br />
coisa-coisa no espaço, no tempo, eu ia.<br />
O sol me reconhecia: eu era o filho<br />
mais novo do boro e do alumínio. </p>
<p>Meu passo exalava o hálito do barro.<br />
As crianças me apontavam, riam.<br />
Tudo se condensava à minha roda.<br />
No entanto, nenhuma flor surgia</p>
<p>nos meus passos: os brejos permaneciam<br />
sáfaros, cobertos de urzes, sem que nada<br />
fosse esquivo, estranho ou intratável,<br />
nenhum recife, navalha ou gesto sórdido. </p>
<p>E pra que se desse a ver, meu silêncio<br />
dizia: cabelo, pele. Sorri: os anjos de pedra<br />
me acenaram. Eu caminhava sem,<br />
em você, sem que você visse.</p>
<p>Rua do Mundo foi o meu primeiro contato com a poesia de Eucanaã Ferraz. Buscava um nome contemporâneo e vi em Eucanaã uma possibilidade. O diálogo com outras linguagens é presente nesse livro, assim como o tema &#8216;casa&#8217;, com levanta bem Bernardo Nascimento de Amorim: &#8220;A poesia de Eucanaã, gestada a partir da experiência particular que o poeta tem com o que observa e vivencia, lançado no mundo, parece ter, efetivamente, no desejo de abertura e expansão a sua grande mola propulsora. Recusam-se delimitações rígidas, mesmo quando se revela a necessidade da ordenação, para que os espaços se misturem, se interpenetrem, como se penetram os parangolés de Oiticica&#8221;. </p>
<p>Entre e se equivoque   http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>RUA DO MUNDO</p>
<p>Onde morou a Luiza.<br />
Passei por ela, a rua, muitas vezes.<br />
Chama-se agora &#8220;da Misericórdia&#8221;<br />
e sabe de cor seu caminho</p>
<p>que desce à beira do rio<br />
no alto de um ramo de alecrim,<br />
como um Tejo miúdo, todo de pedras<br />
e seu aluvião de pastelarias, alfarrabistas.</p>
<p>O cano que rebentou junto ao passeio,<br />
sim, se calhar,<br />
inda não foi consertado,<br />
que as coisas são lentas.</p>
<p>Chama-se agora &#8220;da Misericórdia&#8221;<br />
a antiga Rua do Mundo.<br />
Era talvez pequena<br />
para nome tão afastadamente,</p>
<p>para a Terra toda e os astros,<br />
mas Luiza era um corpo celeste<br />
a vigiar o andamento, o ruído,<br />
o silêncio, o istmo,</p>
<p>as variações possíveis,<br />
imprevistas, o sangue,<br />
a asa, o sal inesgotável<br />
do vário, o jogo.</p>
<p>Rua do mundo fora,<br />
de seres que se queimavam à luz.<br />
Rua do mundo sensível,<br />
onde Luiza metia o nariz.</p>
<p>Abarcar o mundo com as pernas,<br />
afundar no poema, cair<br />
no mundo, ganhar mundos,<br />
fundos nenhuns, perder.</p>
<p>Era uma rua qualquer, mas<br />
a chuva sabia seu nome, bem como<br />
os males irremediáveis, as ventanias,<br />
os alvoroços de verão, os insetos.</p>
<p>Mesmo a felicidade tantas vezes<br />
desceu e subiu tal qual uma vaga<br />
desordenada, descalça, as pedras<br />
daquela via sem reis nem padres.</p>
<p>Os sábados enchiam as calçadas de pernas.<br />
Luiza ouvia o fragor. Os telhados ruíam.<br />
Luiza ouvia os cacos, cada um.<br />
A rua frágil, a palavra disparada.</p>
<p>Já não se chama &#8220;do Mundo&#8221;.<br />
É agora &#8220;Rua da Misericórdia&#8221;.<br />
Já não é a vastidão do orbe,<br />
mas, de joelhos, ora pro nobis.</p>
<p>O sol vinha reto varar a janela<br />
da louca que atravessara<br />
a noite à procura do verso<br />
mais irritado, mais de si.</p>
<p>Do punhal ali, rente aos olhos,<br />
ao fígado, ao coração, a mulher sabia<br />
que só uma palavra a salvaria:<br />
misericórdia. Não pediria? </p>
<p>De longe, era possível ouvir um grito<br />
(mas talvez fosse apenas eu) a pedir compaixão.<br />
Mas era menos para ela que para o mundo,<br />
menos para ela que para a rua do.</p>
<p>Francisco Bosco do Estado de São Paulo, faz uma resenha interessante sobre Cinemateca, onde, destaco a seguinte passagem: Assim, o verso, em Eucanaã, tem sempre uma natureza como que argilosa, no sentido de que é submetido a uma formalização intensa, e que obedece à sua escrita como só, às mãos, a matéria espessa.Os mais claros e simples poemas estão submetidos a esse olho ativo tanto quanto os mais longos, complexos e, eventualmente, até um pouco obscuros (pois a economia semântica de seus poemas, sua luz interna, vai do claro – a que sem dúvida tende – ao turvo, mantendo, porém, certa inalterada consistência, pois esta é garantida pelo forte princípio formalizador). </p>
<p>http://equivocos-pedrolago.blogspot.com</p>
<p>CALENDÁRIO</p>
<p>Maio, de hábito, demora-se à porta,<br />
como o vizinho, o carteiro, o cachorro.<br />
Das três imagens, porém, nenhuma diz </p>
<p>do que houve, para meu susto, àquele ano.<br />
O quinto mês pulou o muro alto do dia<br />
como só fazem os rapazes, mas logo </p>
<p>pelos quartos e sala convertia o ar em águas<br />
definitivamente femininas. Eu<br />
tentava decifrar. Mas</p>
<p>deitou-se comigo e, então, já não era isso<br />
nem seu avesso: a camisa azul despia<br />
azuis formas que eu não sabia, recém-saídas</p>
<p>de si mesmas, eu diria, e não sei ter<br />
em conta senão que eram o que eram. Partiu<br />
do mesmo modo, em bruto, coisa sem causa. </p>
<p>Maio, maravilha sem entendimento,<br />
demora-se à porta, como o vizinho,<br />
o carteiro, o cachorro. Porém, </p>
<p>nenhuma das três imagens, tampouco<br />
este poema, diz do que houve, para meu susto,<br />
àquele ano.</p>
<p>Eucanaã, além de ser professor da UFRJ, trabalha no Instituto Moreira Salles, na parte de literatura e pesquisa. Recentemente, reorganizou toda a obra de Vinicius de Moraes, livro a livro, num importante projeto, sobretudo, para quem não conhece a obra poética do Vinicius. Também relançou &#8216;Alguma Poesia&#8217; do Drummond. Eucanaã também é conhecido por ser um bom palestrante, esclarecedor e jamais arrogante. Creio que Eucanaã é uma boa voz da poesia contemporânea, se encaminhando, quem sabe, para uma consolidação definitiva com o público. Mais ou menos por aí.</p>
<p>Meus poemas no blog http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>O DOIDO</p>
<p>Diziam, verdade ou não, que fora rico e são<br />
e que a despeito dos bens que possuíra</p>
<p>acabara endividado, falido e torto. Talvez<br />
por isso, embora miserável, a cabeça</p>
<p>reta, o andar<br />
de quem governa e pisa terra extensa e sua</p>
<p>em perambular sob o sol absoluto,<br />
absorvido sabe-se lá por que delírios.</p>
<p>Absorvido sabe-se lá por que delírios,<br />
insultava o vento e o vazio numa agitação</p>
<p>de cabelos e palavras e era comum<br />
vê-lo penteando com seus dedos </p>
<p>encardidos a água das praias,<br />
como se província sua, </p>
<p>como sua líquida mulher ou filha.<br />
Viveu assim, entre feridas e piolhos, </p>
<p>até que desceu a noite<br />
e uma pedra veio buscá-lo.</p>
<p>Eis que chegamos ao final de mais uma antologia. Espero que tenham gostado de conhecer, ou reler, a delicada poesia deste notável nome da poesia contemporânea brasileira. Poeta que ama a pintura, queria ser ator, mas preferiu o caminho da escrita e, dentro da escrita, a poesia. Na semana que vem, entraremos num outro universo poético, com outras proposições, outros poemas, outras reflexões, enfim, até lá.</p>
<p>http://cartilhadepoesia.wordpress.com</p>
<p>O ATOR</p>
<p>Pensei em mentir, pensei em fingir,<br />
dizer: eu tenho um tipo raro de,<br />
estou à beira,</p>
<p>embora não aparente. Não aparento?<br />
Providências: outra cor na pele,<br />
a mais pálida; outro fundo para a foto:</p>
<p>nada; os braços caídos, um mel<br />
pungente entre os dentes.<br />
Quanto à tristeza</p>
<p>que a distância de você me faz,<br />
está perfeita, fica como está: fria,<br />
espantosa, sete dedos</p>
<p>em cada mão. Tudo para que seus olhos<br />
vissem, para que seu corpo<br />
se apiedasse do meu e, quem sabe,</p>
<p>sua compaixão, por um instante,<br />
transmutasse em boca, a boca em pele,<br />
a pele abrigando-nos da tempestade lá fora.</p>
<p>Daria a isso o nome de felicidade,<br />
e morreria.<br />
Eu tenho um tipo raro.</p>
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		<title>Cassiano Ricardo</title>
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		<pubDate>Sun, 10 Oct 2010 23:25:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cartilhadepoesia</dc:creator>
				<category><![CDATA[TODOS OS POETAS AQUI]]></category>

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		<description><![CDATA[Voltando aos poetas. Cassiano Ricardo nasceu em São José dos Campos, São Paulo, em 1895. Passou a infância na fazenda dos pais, que eram modestos lavradores. Consta que queria ser poeta e jornalista já aos dez anos. Neste mês percorreremos o universo poético deste, infelizmente, não tão divulgado bom poeta brasileiro. Assim como muitos que [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=54&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Voltando aos poetas. Cassiano Ricardo nasceu em São José dos Campos, São Paulo, em 1895. Passou a infância na fazenda dos pais, que eram modestos lavradores. Consta que queria ser poeta e jornalista já aos dez anos. Neste mês percorreremos o universo poético deste, infelizmente, não tão divulgado bom poeta brasileiro. Assim como muitos que não chegaram ao grande, porém, escasso, público de poesia. Pois este mailing se faz simplesmente por isso, para que as pessoas leiam, pelo menos uma vez por dia, um poema. Poesia é importante, mas só na prática percebemos. Garanto!</p>
<p>poema Apenas, do livro Corpo Aberto no blog http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>COEMA PIRANGA</p>
<p>de primeiro no mundo<br />
só havia sol mais nada<br />
noite não havia</p>
<p>havia só manhã<br />
uma manhã espessa<br />
com a coroa de plumas<br />
vermelhas à cabeça<br />
só manhã no mundo</p>
<p>pois noite não havia<br />
só manhã no mundo<br />
sem nenhuma ideia<br />
de haver noite nem dia</p>
<p>era tudo brasil<br />
tudo era madrugada<br />
não havia mais nada<br />
todas as mulheres<br />
eram filhas do sol<br />
na manhã gentil</p>
<p>e os homens cantavam<br />
que nem pássaros nus<br />
pelos galhos das árvores<br />
sem noite sem dia<br />
porque só havia sol<br />
noite não havia</p>
<p>no começo do mundo<br />
tudo era madrugada<br />
tudo era sol mais nada<br />
tudo amanhecia<br />
permanentemente<br />
num contínuo arrebol</p>
<p>sem ara nem pituna<br />
sem noite nem dia<br />
cantava o tié-piranga<br />
num ramo do sol<br />
sen nenhuma ideia<br />
de uma noite haver noite<br />
ou de um dia haver dia</p>
<p>mas dois frutos havia<br />
e num deles morava<br />
a Noite no outro o Dia<br />
mas ninguém sabia<br />
em que galho em que arbusto<br />
é que a Noite estaria<br />
e onde estava o Dia</p>
<p>não havia o medo<br />
de perder a hora<br />
ou contar-se um segredo<br />
só havia sol se rindo<br />
se rindo grande e real<br />
como um ruivo animal<br />
dentro do matagal</p>
<p>de primeiro no mundo<br />
noite não havia<br />
tudo era mesmo dia<br />
de tanto sol que havia<br />
era o tempo imóvel<br />
não havia esta coisa<br />
chamada noite e dia<br />
só havia sol mais nada<br />
noite não havia</p>
<p>só manhã no mundo<br />
noite não havia</p>
<p>Cassiano Ricardo publicou seus primeiros versos e &#8220;inventou&#8221; um pequeno jornal manuscrito chamado O Ideal, no ano de 1905. Adolescente, frequentou, em Jacareí, o Ginásio Nogueira da Gama. Logo mais, estudou Direito em São Paulo e colou grau no Rio de Janeiro, já estamos em 1917. Durante esse período publicou o seu primeiro livro de poemas, Dentro da Noite (1915), e logo a seguir, A frauta de Pã. Cassiano inicia seu diálogo com os modernistas, influência que será fundamental em sua obra. Na série desta semana, tratamos de Uiara, uma índia de cabelo verde e amarelo.</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>SEM NOITE, NÃO</p>
<p>&#8220;A manhã é muito clara&#8230;<br />
Não há Noite na terra&#8230;<br />
O sol espia a gente<br />
pelos vãos do arvoredo&#8230;<br />
Sem Noite, francamente,<br />
não quero me casar<br />
porque não há segredo&#8230;<br />
Ixé xatí xa ikó.<br />
O que há são olhos, olhos<br />
em que o sol se reparte.<br />
&#8220;Olhos que espiam tudo<br />
pelos vãos doa arvoredo&#8230;<br />
Olhos por toda a parte!<br />
Casar? nem por brinquedo.<br />
Não é porque me queixe<br />
mas o sol, sem-vergonha,<br />
até debaixo d&#8217;água<br />
quando vou tomar banho<br />
brilha mais do que um peixe.<br />
Os troncos têm orelhas<br />
sobre a casca, vermelhas,<br />
e contam tudo às folhas,<br />
que ouvem o que se diz;<br />
e as folhas que são línguas<br />
verdes e bem afiadas<br />
contam ao vento; e o vento<br />
que não guarda segredo<br />
conta depois aos bichos<br />
que moram no arvoredo;<br />
e os bichos, aos cochichos,<br />
contam ao mato, e o mato<br />
chama o sol, linguarudo,<br />
e conta tudo&#8230; Tudo</p>
<p>&#8220;Se você, meu amigo,<br />
quer se casar comigo,<br />
tenho uma condição.<br />
É haver Noite, na Terra.</p>
<p>&#8220;Sem Noite, não e NÃO.&#8221;</p>
<p>No Rio de Janeiro, Cassiano Ricardo foi cronista parlamentar do jornal O Dia. Agora, formado em Direito, depois de ter exercido a advocacia em São Paulo, resolveu se mudar para o Rio Grande do Sul, e lá, tentar a carreira. Volta para São Paulo e retorna para a carreira literária se integrando na redação do Correio Paulistano. Foi ali que conheceu e se aproximou de Plínio Salgado, Menotti Del Picchia, Mota Filho, Alfredo Ellis e Raul Bopp. Juntos iniciariam uma campanha modernista, tendo Cassiano, como um dos lideres. </p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>A COBRA GRANDE</p>
<p>Até que ao fim da estrada<br />
no sítio acaba-mundo<br />
por onde conduzira<br />
as tribos da manhã,<br />
o Rei do Mato encontra<br />
a Cobra Grande que,<br />
olhos de safira,<br />
se disse sua irmã.<br />
Então Cobra Grande<br />
lhe fala: &#8220;Eu tenho a Noite&#8221;</p>
<p>E dá-lhe um espinhento<br />
fruto de tucumã.<br />
&#8220;A Noite mora ao centro<br />
desta fruta do mato,<br />
que é espinhenta por fora<br />
mas gostosa por dentro&#8230;&#8221;<br />
(E em seu olhar fulgia<br />
o abismo da manhã.)</p>
<p>&#8220;Vá por este caminho<br />
mas não abra o segredo<br />
antes da hora marcada,<br />
pra seu amor não ser<br />
simples palavra vã.<br />
Que se abrires o fruto<br />
por encanto ou por medo<br />
você terá o castigo<br />
de sol e de chão bruto,<br />
que te dará Tupã.</p>
<p>Pois o Bicho Felpudo<br />
que mora na floresta<br />
cum só olho na testa<br />
e que usa pés de lã<br />
te esconderá os caminhos;<br />
cantará a jaçanã.<br />
E todas as corujas<br />
que são filhas da Noite<br />
sairão dos seus ocos<br />
e sujarão a cara<br />
soltinga da manhã.</p>
<p>E a Noite que está dentro<br />
deste crespo por fora<br />
fruto de tucumã,<br />
virará Onça Preta.</p>
<p>E tudo será Noite<br />
de não se ver mais nada.<br />
E você, Rei do Mato,<br />
depois de tanto afã,<br />
ficará o vagabundo<br />
do sítio acaba-mundo.<br />
E vagará, à toa,<br />
à frente do seu povo<br />
de rechã em rechã,<br />
na grande Noite cega,<br />
sem amor, sem cunhã.&#8221;</p>
<p>E enquanto a Cobra Grande<br />
falava, o Sol se ria.<br />
Sol coisarrão, Sol nu.<br />
Sol de mitologia.<br />
Com cinco labaredas<br />
de alegria pagã,<br />
presas, qual cinco dedos,<br />
ao fim de cada braço<br />
girassol da manhã&#8230;</p>
<p>Junto com Menotti Del Picchia, Plínio Salgado, Mota Filho, Alfredo Ellis e Raul Bopp, Cassiano Ricardo fundou os grupos modernistas &#8220;Verde-amarelo&#8221; e &#8220;Anta&#8221;. Vamos entrar nessa parte com calma. Tais grupos foram uma resposta ao nacionalismo Pau-Brasil. Uma crítica ao nacionalismo &#8220;afrancesado&#8221;, como eles levantaram, de Oswald de Andrade. Tinha como propostas o nacionalismo primitivista, ufanista, identificado com o fascismo. Estes grupos permearam os anos de 1923 (ou 26) a 1929. Estes grupos, depois, evoluiriam para o Integralismo. Cassiano, depois, assinará outros grupos, um deles, o &#8220;Bandeira&#8221;, já contra o Integralismo. Mais sobre amanhã.</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>DECLARAÇÃO DE AMOR</p>
<p>Eu vim do mar! Sou filho de outra raça.<br />
Para servir meu rei andei à caça<br />
de mundos nunca vistos nem sonhados,<br />
por mares nunca de outrem navegados.<br />
Ora de braço dado com a procela,<br />
ora a brigar com ventos malcriados.<br />
Trago um cruz de sangue em cada vela!</p>
<p>Na crista da onda, em meio do escarcéu,<br />
na solidão encrespada e redonda,<br />
quanta vez me afundei no inferno d&#8217;água<br />
ou com a cabeça fui bater no céu!<br />
Simples brinquedo em mãos da tempestade<br />
fabulosa ambição me trouxe aqui.</p>
<p>A ambição pode mais do que a saudade&#8230;<br />
Ambas me foram ver, quando eu parti.</p>
<p>A saudade, abraçou-me, tão sincera,<br />
soluçando, no adeus do nunca-mais.<br />
A ambição de olhar verde, junto ao cais,<br />
me disse: vai que eu fico à tua espera!</p>
<p>E agora, ó Uiara, eu sou um rouxinol.<br />
Épico só no mar, lírico em terra,<br />
quero gorjear à beira do regato<br />
e o teu beijo colher, fruta do mato,<br />
no teu corpo pagão, quente de sol.<br />
E agarrar-me aos teus seios matutinos,<br />
nauta que amou centenas e centenas<br />
de ondas em fúria e veio naufragar,<br />
depois de tudo, em duas ondas morenas,<br />
que valem mais, em sendo duas apenas,<br />
do que todas as ondas que há no mar.<br />
Que importa a nós as brejaúvas más,<br />
na virgindade insólita onde fechas<br />
o teu supremo bem-ínvio tesouro,<br />
vigiado pelas onças de olhos de ouro -<br />
guardem seus cachos roxos entre flechas<br />
e eu beba a água que o sertão me traz<br />
nas folhas grossas dos caraguatás?</p>
<p>Que importa, no ar, papagaios em bando,<br />
ou araras pintadas, dêem risadas,<br />
por nos verem assim, falando a sós,<br />
tu da cor da manhã, eu cor do dia,<br />
se os pássaros do amor e da alegria<br />
a todo instante pousarão cantando<br />
nas coisas que te digo, em minha voz?</p>
<p>Eu vim do mar! Sou filho da procela.<br />
Trago uma cruz de sangue em cada vela.<br />
Para sentir a glória de te amar,<br />
lobo do oceano acostumado a tudo,<br />
épico só no mar, lírico em terra,<br />
estenderei o couro de um jaguar<br />
sobre este chão que ficará um veludo<br />
mais verde, mais macio do que o mar&#8230;<br />
No mar, o bravo peito lusitano.<br />
Em terra o amor em primeiro lugar.</p>
<p>E tão grande há de ser a nossa luta<br />
sobre o leito trançado de cipós,<br />
que a Noite cairá, pesada e bruta,<br />
suando pingos de estrelas sobre nós!</p>
<p>Logo após a fundação dos grupos Verde-Amarelo e Anta, Cassiano publica os livros: Borrões de verde e amarelo; Vamos caçar papagaios e Martim Cererê. Também é eleito para a Academia Paulista de Letras com Plínio Salgado e Menotti Del Picchia. Plínio Salgado foi um dos fundadores da Ação Integralista Brasileira, partido político dos anos 30, extinto pelo Estado Novo. Menotti Del Picchia era poeta, e foi eleito, em 1943, para a Academia Brasileira de Letras. Os três participaram intensamente do modernismo brasileiro, publicando em 1929 o Nhengaçu Verde Amarelo &#8211; Manifesto do Verde Amarelismo ou da Escola da Anta.</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>LADAINHA</p>
<p>Por ser tratar de um ilha deram-lhe o nome de Ilha de Vera Cruz</p>
<p>                          llha cheia de graça<br />
                          Ilha cheia de pássaros<br />
                          Ilha cheia de luz.</p>
<p>                          Ilha verde onde havia<br />
                          mulheres morenas e nuas<br />
                          anhangás a sonhar com histórias de luas<br />
                          e cantos bárbaros de pajés em poracés batendo os pés.</p>
<p>                          Depois mudaram-lhe o nome<br />
                          pra Terra de Santa Cruz.<br />
                          Terra cheia de graça<br />
                          Terra cheia de pássaros<br />
                          Terra cheia de luz.</p>
<p>A grande Terra girassol onde havia guerreiros de tanga<br />
e onças ruivas deitadas à sombra das árvores mosqueadas de sol.</p>
<p>Mas como houvesse, em abundância,<br />
certa madeira cor de sangue cor de brasa<br />
e como o fogo da manhã selvagem<br />
fosse um brasido no carvão noturno da paisagem,<br />
e como a Terra fosse de árvores vermelhas<br />
e se houvesse mostrado assaz gentil,<br />
deram-lhe o nome de Brasil.</p>
<p>                       Brasil cheio de graça<br />
                       Brasil cheio de pássaros<br />
                       Brasil cheio de luz.</p>
<p>Em 1928, Cassiano foi nomeado para censor teatral e cinematográfico e também virou funcionário público. Sua carreira começava crescer. Em 1931, o então interventor Laudo de Camargo o nomeou para diretor efetivo da Secretaria do Palácio do Governo, em 1932 exerceu a função de secretário do Governador Pedro de Toledo, tendo sido preso (por motivo da Revolução Constitucionalista) e remetido entre outros paulistas, para a Sala da Capela, no Rio de Janeiro.</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>A NOTÍCIA</p>
<p>Então o vento<br />
lá dentro da serra,<br />
onde apenas insensato<br />
das coisas sem nome<br />
começou a bater<br />
a bater rataplã<br />
no tambor da manhã.</p>
<p>Então os ecos<br />
saíram das grutas<br />
levando a notícia<br />
por todos os lados.</p>
<p>Então as palmeiras<br />
ao fogo do dia,<br />
em verde tumulto,<br />
pareciam marchar<br />
carregando bandeiras.</p>
<p>Depois veio a Noite<br />
e os morros soturnos<br />
levavam estrelas<br />
por vales e rochas<br />
como um silente<br />
corrida de tochas&#8230;</p>
<p>Vale lembrar: A Revolução Constitucionalista (motivo pelo qual Cassiano fora preso quando exercia o cargo de secretário do Governador Pedro de Toledo) foi uma revolta armada contra o governo Vargas, e ocorreu em São Paulo. Em poucos meses, tendo início no dia 9 de julho, São Paulo conheceu um dos maiores conflitos armados da história do Brasil. 87 dias de combate no total, terminando com a rendição do revolucionários em outubro. Cassiano Ricardo foi o poeta mais recitado nas estações de rádio, por causa de seus poemas paulistas. </p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>SINAL DO CÉU</p>
<p>E uma cruz misteriosa de estrelas<br />
abriu no céu os seus braços de luz<br />
como uma enorme profecia:</p>
<p>Eu sou a cruz do cruzamento!<br />
O  cruzeiro do amor universal.</p>
<p>Eu tenho estes braços abertos<br />
assim, na amplidão dos espaços<br />
como que pra dizer: vinde todos!<br />
que este céu é bastante profundo<br />
e servirá de teto a todos quantos<br />
sofrem no mundo;<br />
que este chão é bastante fecundo<br />
e dará de comer a todos quantos<br />
têm fome, no mundo;</p>
<p>que estes rios darão de sobejo<br />
pra mitigar a sede a todos quantos<br />
têm sede, no mundo.</p>
<p>Sinal da cruz, descrucificador<br />
porque signo de &#8220;mais&#8221;, de soma e aliança.</p>
<p>Eu sou a cruz do amor.<br />
Um abraço de estrelas a quem chega<br />
à procura de uma ilha<br />
no mapa-múndi da desesperança.</p>
<p>Porque eu sou o caminho, ainda obscuro,<br />
por onde, finalmente,<br />
desfilará a humanidade do futuro.</p>
<p>No mesmo ano de 1937, quando toma parte no grupo intelectual &#8220;Bandeira&#8221;, Cassiano é eleito para a Academia Brasileira de Letras. Ocupa a cadeira #31 que tinha sido ocupada por Paulo Setúbal. Cassiano tinha sido o segundo modernista a ser eleito para a Academia, o primeiro a ter essa honra foi Guilherme de Almeida, o qual foi encarregado de recebê-lo. Vale lembrar: Guilherme de Almeida foi o responsável pela divulgação do Haikai no Brasil.</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>TREM DA NOROESTE</p>
<p>Olhos oblíquos<br />
pestanas ruivas;<br />
é o homem bíblico<br />
multiplicado<br />
pelo futuro<br />
pelo presente<br />
pelo passado.<br />
E a terra enigma<br />
modela o outro<br />
(ainda criança<br />
que há dentro dele)<br />
à sua imagem<br />
e semelhança.<br />
Porque ele mesmo<br />
cortado ao meio,<br />
ficou lá longe<br />
e entre o que veio<br />
e o que não veio<br />
o azul-atlântico<br />
lava a memória<br />
do que não veio.<br />
Rostos em viagem.<br />
Rostos em série.<br />
Baralho humano.</p>
<p>Novas trombetas<br />
de Jericó.<br />
A hora futura<br />
que Deus escreve<br />
por linhas tortas<br />
no mural rude<br />
da manhã clara,<br />
imprime aos rostos<br />
judeus, lituanos,<br />
sírios e russos<br />
o ensaio vivo<br />
de um mundo só.<br />
Nisto o trem pára.<br />
Que face é aquela<br />
que se debruça<br />
numa janela?</p>
<p>É a face do outro?</p>
<p>Em 1940, Cassiano Ricardo foi diretor do jornal A Manhã, no Rio de Janeiro. Sobre sua atuação na direção do jornal, Manuel Bandeira disse que &#8220;Cassiano chamou para o seu jornal grandes colaboradores adversários da situação, Gilberto Freyre, Afonso Arinos de Melo Franco, José Lins do Rego, Vinicius de Moraes, etc, na nobre atitude de não misturar literatura com política&#8221;. </p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>PECADO ORIGINAL</p>
<p>O dia nos espia&#8230; novamente.<br />
Mas, ó incrível morena de olhar verde,<br />
fecha os teus olhos pra fingir que é noite.<br />
E teremos a noite, duas, três vezes,<br />
quantas vezes fecharmos nossos olhos<br />
na quentura de um beijo. Porque a noite<br />
é uma pequena invenção de nós dois&#8230;<br />
Há um momento de treva em cada beijo<br />
e uma risada matinal depois,<br />
do dia, debruçado na janela,<br />
que nos espia, e quer saber de tudo<br />
o que se passa agora entre nós dois.<br />
   Fecha os olhos de novo, e eu te darei<br />
   a noite que ainda mora atrás do dia&#8230;</p>
<p>Em 1941, Cassiano Ricarco publicou seu principal ensaio &#8216;Marcha para Oeste&#8217; e o &#8216;Sangue das Horas&#8217;, denunciador de sua nova fase poética. Cassiano participara profundamente das novas proposições modernistas, sempre pela poesia, permeando os grupos, escrevendo ensaios e nos jornais. Martim Cererê é um longo poema indianista, com negros, índios e brancos tomando posse e criando um novo país. O poema termina com Brasil-Menino. Eis algumas partes.</p>
<p>Poema &#8216;Apenas&#8217; do livro &#8216;Corpo Aberto&#8217; no blog http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>BRASIL-MENINO I &amp; II</p>
<p>Meu pai era um gigante, domador de léguas.<br />
    Quando um dia partiu, a cavalo,<br />
no seu dragão de pelo azul que era o Tietê dos bandeirantes,<br />
lembro-me muito bem de que me disse: olhe, meu filho<br />
eu vou sururucar por esta porta e um dia voltarei trazendo<br />
    umas dezenas de onças arrastadas pelo rabo a pingar<br />
    sangue do focinho.</p>
<p>E dito e feito! lá se foi dando empurrões no mato dos barrancos<br />
por entre alas de jacarés e de pássaros brancos!</p>
<p>Quando veio o Natal meu pai estava longe,<br />
em luta com os bichos peludos, com os gatos grandões<br />
    de cabeça listada e com as mulas-de-sete-cabeças<br />
    que moram no fundo das árvores espessas.<br />
No planalto, batia um sino perguntando: ele não vem?<br />
                                                           ele não vem?</p>
<p>Um outro sino de voz grossa respondia &#8220;não&#8230;<br />
e não, dizendo &#8220;não&#8221;&#8230; e repetindo &#8220;não&#8230; e não&#8221;&#8230;</p>
<p>Em 1947, Cassiano volta a residir em São Paulo após alguns anos no Rio de Janeiro. A crítica ressalta que os poemas escritos e publicados por Cassiano nesse período o colocam &#8220;na primeira linha dos poetas brasileiros&#8221;. Tais poemas se encontram em Um dia depois do outro; A face perdida e Poemas murais. Nesta época também, Cassiano se aproxima dos concretistas das revistas Noigandres e Invenção. Depois, Cassiano viria a dirigir uma importante instituição. Amanhã.</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>BRASIL-MENINO IV &amp; V</p>
<p>Passou mais um ano e meu pai não voltou.<br />
Botei meus sapatões atrás da porta novamente<br />
    e no outro dia<br />
fui encontrar meus sapatões abarrotados de esmeraldas!<br />
Minha vovó, uma velhinha portuguesa com cabelo de<br />
garoa e xale azul-xadrez me garantia:<br />
&#8220;&#8230; foi o Papá Noel quem trouxe. &#8220;Até que um dia<br />
fiz que não vi mas vi; acordei da ilusão:<br />
meu pai era um gigante, domador de léguas;<br />
    um feroz caçador de onças pretas,<br />
    terror do mato, assombração das borboletas<br />
    mas tinha um grande coração.</p>
<p>Por fim cresci. Hoje sou gente grande.<br />
Sou comissário de café. Tenho viadutos encantados.<br />
Minha cidade é esse tumulto colorido que aí passa<br />
levando as fábricas pelas rédeas pretas da fumaça!</p>
<p>    Barulho fantástico<br />
de um mundo que saiu da oficina.<br />
Grito metálico de cidade americana.<br />
Vida rodando fremindo batendo martelos<br />
    com músculos de aço.</p>
<p>E o Tietê conta a história dos velhos gigantes,<br />
que andaram medindo as fronteiras da pátria,<br />
ao tempo em que São Paulo colocava os sapatões atrás da porta</p>
<p>e os sapatões amanheciam de ouro&#8230;</p>
<p>e os sapatões amanheciam de esmeraldas&#8230;</p>
<p>e os sapatões amanheciam de diamantes&#8230;</p>
<p>Em 1950, Cassiano Ricardo é eleito presidente do Clube da Poesia de São Paulo. Na direção dessa entidade, iniciou a publicação dos &#8220;cadernos&#8221; dedicados aos &#8220;novíssimos&#8221;, inaugurando o Curso de Poética &#8211; o primeiro, em seu gênero, realizado no país. Três anos depois, Cassiano foi para a França, em missão oficial. Permaneceu quase três anos e percorreu vários países, como Portugal, Espanha, Bélgica, Suiça, Itália, Inglaterra e Holanda.</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>INDOMITUS</p>
<p>O mar é uma esmeralda suja.<br />
Recifes de coral repontam como flores de sangue salpicado de espuma. </p>
<p>(Coisa que explica naturalmente sangue róseo dos náufragos.)<br />
As espadas dos peixes aguerridos<br />
(os espadartes) trançam cintilações de prata<br />
em campo blau, como num escudo.<br />
O escudo de Netuno contra o casco do Indômitus.<br />
A arte de navegar entre espadas<br />
não é tão fácil, senão a mais oscilante das<br />
artes. </p>
<p>Não consta da rosa-dos-ventos&#8230;<br />
Se bem que uma rosa-dos-ventos é rosa<br />
mas apenas no nome. Antes, a chamaremos de malme-quer<br />
até Dumquerque. </p>
<p>Indômitus está dançando agora entre duas espécies de<br />
estrêlas. </p>
<p>A hora não é pra considerações em tôrno do<br />
que possa acontecer. </p>
<p>É a hora do sangue-frio. Porque os peixes,<br />
como os capitães, são animais de sangue-frio. </p>
<p>A hora é do vento<br />
pela proa, ou a maubordo (não bombordo).<br />
Nasce uma flor no mastro, um flama (não flâmula).<br />
Indômitus então navega em plena rosa cega. </p>
<p>Uma fulguração súbita escreve no ar uma frase.<br />
Thamuz, Thamuz, panmegas tethneka. Fulmotondro.<br />
O comandante está dizendo à sua maruja que não há<br />
no dicionário uma palavra mas bonita do que arquipélago. </p>
<p>Trinta pombos azuis em formação geométrica voltarão<br />
ao navio.</p>
<p>Durante o período em que esteve em Paris, Cassiano Ricardo escreveu João torto e a Fábula; também escreveu Arranhacéu de Vidro, já inaugurando uma nova fase em sua linguagem. Cassiano também foi chefe do Escritório Comercial do Brasil em Paris no ano de 1953. Os cargos públicos era frequentes na vida de Cassiano, tendo ocupado alguns importantes. O início dos anos 60, Cassiano é laureado com prêmios, entre eles da Fundação Cultural de Brasília, Carmen Dolores Barbosa e o Jabuti.</p>
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<p>PAPAGAIO GAIO</p>
<p>Papagaio insensato,<br />
que te fêz assim?<br />
Que não sabes falar<br />
brasileiro<br />
e já sabes latim? </p>
<p>Papagaio insensato,<br />
ave agreste, do mato,<br />
que diabo em ti existe,<br />
verde-gaio,<br />
que nunca estás triste? </p>
<p>Papagaio do mato,<br />
se nunca estás triste,<br />
quem foi que te ensinou,<br />
por maldade,<br />
a palavra saudade? </p>
<p>Papagaio triste,<br />
papagaio gaio,<br />
quem te fêz tão triste<br />
e tão gaio,<br />
triste mas verde-gaio? </p>
<p>Papagaio gaio,<br />
quem te ensinou,<br />
em mais<br />
do mato, a repetir,<br />
papagaio,<br />
tanto nome feio? </p>
<p>Gaio papagaio,<br />
gaio, gaio, gaio,<br />
que repetes tudo&#8230;<br />
Antes fosses<br />
um pássaro mundo. </p>
<p>Papagaio do mato,<br />
se nunca estás triste,<br />
quem foi que te ensinou,<br />
por maldade,<br />
a palavra saudade? </p>
<p>Papagaio gaio.<br />
Gaio, gaio, gaio.</p>
<p>Com os livros do início da década de 60, Montanha Russa e Difícil Manhã, Cassiano recebe muitos prêmios. Seus último dois livros, Jeremia Sem-Chorar e Os Sobreviventes, são marcados por experimentações, tais como o linossigno e os poemas visuais. Cassiano tem também uma história com o concretismo, tendo participado dos grupos que desencadeariam no movimento estético.</p>
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<p>MONTANHA RUSSA</p>
<p>Já o ser inquieto não<br />
está em nenhum lugar<br />
porque a inquietação já<br />
é uma forma de não<br />
estar nunca estaR </p>
<p>que se dirá então<br />
do ninguém que mora<br />
em mim por não ter não<br />
onde morar<br />
na terra no ar no maR </p>
<p>quem imagina não<br />
está em si somente<br />
nem somente onde está<br />
está de repente<br />
sem cuspir nem porvir<br />
numa montanha russa<br />
só pelo prazer<br />
perpendicular<br />
de subir e caiR </p>
<p>Ó meu distante amor<br />
quando eu passar espera-me<br />
na tua porta não<br />
te poderei beijar não<br />
só terei tempo para<br />
na paisagem em fuga<br />
entre areia e sal<br />
te deixar na mão<br />
uma floR </p>
<p>Espera-me na porta<br />
se estiveres na lua<br />
maria azul luz clara<br />
quando eu passar como<br />
um peixe voador não<br />
terei tempo para<br />
te ofertar sequer<br />
uma floR </p>
<p>só terás tempo de dizer<br />
como a mulher de Arvers<br />
que louco é este<br />
que chegou da terra e não<br />
me trouxe sequer<br />
uma floR</p>
<p>Numa memorável luta, Cassiano Ricardo conseguiu que a Academia Brasileira de Letras premiasse o livro Viagem, de Cecília Meireles, e depois, propôs, com a aprovação dos demais acadêmicos, inclusive conservadores, que se comemorasse, naquele cenáculo, o trigésimo aniversário da Semana de Arte Moderna. Em todas as antologias, sobretudo nas resumidas, Cassiano sempre é lembrado pela &#8220;militância&#8221; na poesia, fazendo-se sempre o uso desta palavra.</p>
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<p>O CACTO</p>
<p>Vamos, todos, brincar de cacto<br />
na areia da nossa tristeza.<br />
Uma folha sobre outra,<br />
Em caminho do céu intacto.</p>
<p>Uns nos ombros dos outros,<br />
um braço a nascer de outro braço,<br />
uma folha sobre outra,<br />
formaremos um grande cacto.</p>
<p>De cada braço, já no espaço,<br />
nascerá mais um braço, e deste<br />
outros braços, qual ramalhete<br />
de flores para um só abraço.</p>
<p>Filhos da pedra e do pó,<br />
fique aqui embaixo o nosso orgulho,<br />
pisado sobre o pedregulho.<br />
Formaremos, num corpo só</p>
<p>(uma folha sobre outra<br />
uma folha sobre outra,<br />
um braço a nascer de outro braço),<br />
a nossa escada de Jacó.</p>
<p>Pra que torre de Babel<br />
ou o Empire State, compacto,<br />
se, uns nos ombros dos outros,<br />
chegaremos ao céu, num cacto?</p>
<p>Uma folha sobre outra<br />
e já uma árvore de feridas<br />
por entre os anjos de azulejo<br />
e as borboletas repetidas.</p>
<p>Que fique aqui embaixo a terra;<br />
lá de cima nós tiraremos<br />
uma grande fotografia<br />
do seu rosto de ouro e prata.</p>
<p>Para provar a Deus que a terra,<br />
numa fotografia exata,<br />
não é redonda, mas chata;<br />
não é redonda, mas chata.</p>
<p>Pra provar, por B mais H,<br />
que o homem, animal suicida,<br />
já sabe fabricar estrelas&#8230;<br />
Se é que Deus disto duvida.</p>
<p>Que iríamos fabricar luas<br />
(se não fora, para Seu gáudio,<br />
o espião nos ter furtado a fórmula)<br />
mais bonita do que as Suas.</p>
<p>Vamos, todos, brincar de cacto,<br />
uns nos ombros dos outros,<br />
um braço a nascer de outro braço,<br />
uma folha sobre outra.</p>
<p>Vamos subir, de folha em folha,<br />
mais alto do que vai o avião.<br />
Lá onde os anjos jogam pedras<br />
no cão da constelação.</p>
<p>Que outros usem avião a jacto<br />
pra uma viagem em linha reta:<br />
nós, filhos da planície abjeta,<br />
subiremos ao céu num cacto.</p>
<p>Uns nos ombros dos outros,<br />
injustiças sobre injustiças,<br />
formaremos um verde pacto&#8230;<br />
Vamos, todos, brincar de cacto.</p>
<p>Vamos, todos, brincar de cacto.</p>
<p>Cassiano fez parte da equipe &#8220;Invenção&#8221; grupo de vanguarda que desencadeou numa revista com o mesmo nome e foi o núcleo do movimento concreto na poesia brasileira. O grupo era constituído por Augusto de Campos, Décio Pignatari, Edgar Braga, José Lino Grunewald, Mário da Silva Brito, Mário Chamie, Ronaldo Azeredo e Pedro Xisto. Embora achasse que os poetas daquele grupo eram muito novos e por demais radicais, foi Cassiano quem proporcionou a página Invenção no Correio Paulistano.</p>
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<p>VOCE E O SEU RETRATO</p>
<p>Por que tenho saudade<br />
de você, no retrato,<br />
ainda que o mais recente?</p>
<p>E por que um simples retrato,<br />
mais que você, me comove,<br />
se você mesma está presente?</p>
<p>Talvez porque o retrato<br />
já sem o enfeite das palavras,<br />
tenha um ar de lembrança.</p>
<p>Talvez porque o retrato<br />
já sem o enfeite das palavras,<br />
tenha um ar de lembrança.</p>
<p>Talvez porque o retrato<br />
(exato, embora malicioso)<br />
revele algo de criança<br />
(como, no fundo da água,<br />
um coral em repouso)</p>
<p>Talvez pela idéia de ausência<br />
que o seu retrato faz surgir<br />
colocado entre nós-dois</p>
<p>(como um ramo de hortênsia)</p>
<p>Talvez porque o seu retrato,<br />
embora eu me torne oblíquo,<br />
me olha, sempre, de frente</p>
<p>(amorosamente)</p>
<p>Talvez porque o seu retrato<br />
mais se parece com você<br />
do que você mesma (ingrato).</p>
<p>Talvez porque, no retrato<br />
você está imóvel,</p>
<p>(sem respiração&#8230;)</p>
<p>Talvez porque todo retrato<br />
é uma retratação.</p>
<p>Cassiano Ricardo fez parte do Conselho Federal de Cultura, do MEC. Foi casado com Lourdes Fonseca Ricardo, jornalista e pós-graduada pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Cassiano fez parte dos movimentos estéticos e parte da política brasileira no século XX com atuação marcante em neles. Mudou de ideia, rompeu com grupos e sempre esteve perto do novo. Dizia que &#8220;situa-se o poeta numa linha geral de vanguarda, na problemática da poesia de hoje, mas as suas soluções são nitidamente pessoais&#8221;.</p>
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<p>DESEJO</p>
<p>As coisas que não conseguem morrer<br />
Só por isso são chamadas eternas.<br />
As estrelas, dolorosas lanternas<br />
Que não sabem o que é deixar de ser. </p>
<p>Ó força incognoscível que governas<br />
O meu querer, como o meu não-querer.<br />
Quisera estar entre as simples luzernas<br />
Que morrem no primeiro entardecer. </p>
<p>Ser deus — e não as coisas mais ditosas<br />
Quanto mais breves, como são as rosas<br />
É não sonhar, é nada mais obter. </p>
<p>Ó alegria dourada de o não ser<br />
Entre as coisas que são, e as nebulosas,<br />
Que não conseguiu dormir nem morrer.</p>
<p>Em 1972, Cassiano Ricardo recebe o Prêmio Nacional de Poesia do Instituto Nacional do Livro com seu livro Os sobreviventes, e também como lastro da grande obra poética de toda sua vida. No dia 14 de janeiro de 1974, Cassiano falece no Rio de Janeiro sendo sepultado no Mausoléu da Academia Brasileira de Letras. Ao lado de Alceu Amoroso Lima, Manuel Bandeira e Múcio Leão, levou adiante o processo de renovação da instituição (ABL), para garantir o ingresso dos verdadeiros valores. </p>
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<p>A MEDUSA DE FOGO</p>
<p>A simples bulha surda<br />
Do meu coração batendo<br />
Poderá te acordar.<br />
Mesmo a penugem da lua<br />
Que cai sobre o ombro nu<br />
Das árvores, tão de leve,<br />
Poderá te acordar. </p>
<p>A simples caída da bolha<br />
D&#8217;água sobre a folha,<br />
Por ser fria como a neve,<br />
Poderá te acordar.<br />
Só porque a rosa lembra<br />
Um grito vermelho,<br />
Retiro-a de diante do espelho<br />
Porque — de tão rubra —<br />
Poderá te acordar. </p>
<p>E se nasce a manhã<br />
Calço-lhe logo pés de lã,<br />
Porque ela, com seus pássaros,<br />
Poderá te acordar.<br />
Mesmo o meu maior silêncio,<br />
O meu mudo pé-ante-pé,<br />
De tão mudo que é,<br />
Não irá te acordar? </p>
<p>Ó medusa de fogo,<br />
Conserva-te dormida.<br />
Com o teu fogo ruivo e meu,<br />
Qual monstruosa ferida.<br />
Como data esquecida.<br />
Como aranha escondida<br />
Num ângulo da parede.<br />
Como rima água-marinha<br />
Que morreu de sede. </p>
<p>E eu serei tão breve<br />
Que, um dia, deixarei<br />
Também, até de respirar,<br />
Para não te acordar.<br />
ó medusa de fogo,<br />
Dormida sob a neve!</p>
<p>Eis que chegamos ao final de mais uma antologia. Conhecemos um pouco da obra deste importante poeta para modernismo brasileiro, com uma curiosa ligação com a extrema direita, que conseguia unir as mais diversas opiniões políticas em prol da literatura. Acadêmico, responsável pela mudança de postura da Academia com relação ao modernismo e que esteve perto, atuando, em todos os movimentos de vanguarda pelos quais o Brasil passou enquanto esteve vivo. Semana que vem entraremos num outro universo poético, outras proposições, outros poemas.</p>
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<p>FICARAM-ME AS PENAS</p>
<p>O pássaro fugiu, ficaram-me as penas<br />
da sua asa, nas mãos encantadas.<br />
Mas, que é a vida, afinal? Um vôo, apenas.<br />
Uma lembrança e outros pequenos nadas.<br />
Passou o vento mau, entre açucenas,<br />
deixou-me só corolas arrancadas&#8230;<br />
Despedem-se de mim glorias terrenas.<br />
Fica-me aos pés a poeira das estradas. </p>
<p>A água correu veloz, fica-me a espuma.<br />
Só o tempo não me deixa coisa alguma<br />
até que da própria alma me despoje! </p>
<p>Desfolhados os últimos segredos,<br />
quero agarrar a vida, que me foge,<br />
vão-se-me as horas pelos vãos dos dedos.</p>
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	</item>
		<item>
		<title>Grandes solilóquios do teatro</title>
		<link>http://cartilhadepoesia.wordpress.com/2010/09/10/grandes-soliloquios-do-teatro/</link>
		<comments>http://cartilhadepoesia.wordpress.com/2010/09/10/grandes-soliloquios-do-teatro/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 10 Sep 2010 19:36:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cartilhadepoesia</dc:creator>
				<category><![CDATA[TODOS OS POETAS AQUI]]></category>

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		<description><![CDATA[Neste mês, percorreremos os grande solilóquios do teatro mundial, para serem lidos como poemas, fora do contexto da peça. Édipo Rei foi montada pela primeira vez provavelmente em 430 a.C em Atenas. É a primeira peça da chamada Trilogia Tebana (Édipo Rei, Édipo em Colono e Antígona), todas escritas pelo poeta Sófocles (496 a.C &#8211; [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=52&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Neste mês, percorreremos os grande solilóquios do teatro mundial, para serem lidos como poemas, fora do contexto da peça. Édipo Rei foi montada pela primeira vez provavelmente em 430 a.C em Atenas. É a primeira peça da chamada Trilogia Tebana (Édipo Rei, Édipo em Colono e Antígona), todas escritas pelo poeta Sófocles (496 a.C &#8211; 406 a.C). A peça gira entorno das descobertas por Édipo dos fatos terríveis que motivaram o castigo que assola Tebas &#8211; a peste. Tendo ordenado Creonte consultar ao oráculo, Édipo, descobre que houve um crime &#8211; o assassinato de Laio &#8211; então pede ao adivinho Tiresias que conte tudo que sabe sobre a morte do antigo rei, da qual Tirésias foi testemunha. Após muito insistir diante à relutância de Tirésias, Édipo descobre que fora o responsável pela morte de Laio, que o mesmo também era seu pai e que casara com sua própria mãe, Jocasta. A rainha se mata e, Édipo, embebido de culpa, cega-se como auto-punição. Este é o solilóquio onde justifica seu ato. Fala ao corifeu.</p>
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<p>ÉDIPO<br />
(ÉDIPO REI)</p>
<p>Não tentes demonstrar que eu poderia agir<br />
talvez de outra maneira, com maior acerto.<br />
Não quero teus conselhos. Como encararia<br />
meu pai no outro mundo, ou minha mãe, infeliz,<br />
depois de contra ambos perpetrar tais crimes<br />
que nem se me enforcassem eu os pagaria?<br />
Teria eu algum prazer vendo o semblante<br />
dos pobres filhos meus, nascidos como foram?<br />
Não, certamente já não poderia vê-los,<br />
nem a minha cidade, nem seus baluartes,<br />
nem as imagens sacrossantas de seus deuses,<br />
eu, o mais infeliz entre os desventurados!<br />
Após haver vivido em Tebas a existência<br />
mais gloriosa e bela eu mesmo me proibi<br />
de continuar a usufruí-la ao ordenar<br />
que todos repelissem o maldito ser,<br />
impuro para os deuses, da raça de Laio.<br />
Depois de ter conhecimento dessa mácula<br />
que pesa sobre mim, eu poderia ver<br />
meu povo sem baixar os olhos? Não! E mais:<br />
se houvesse ainda um meio de impedir os sons<br />
de me chegarem aos ouvidos eu teria<br />
privado meu sofrido corpo da audição<br />
a fim de nada mais ouvir e nada ver,<br />
pois é um alívio ter o espírito insensível<br />
à causa de tão grandes males, meus amigos.</p>
<p>          pausa</p>
<p>Ah! Citéron! Por que tu me acolheste um dia?<br />
Por que não me mataste? Assim eu não teria<br />
jamais mostrado aos homens todos quem eu sou!<br />
Ah! Pólibo! e Corinto! Ah! Palácio antigo<br />
que já chamei de casa de meus pais! Que nódoas<br />
maculam hoje aquele que vos parecia<br />
outrora bom e tantos males ocultava!&#8230;<br />
Pois hoje sou um criminoso, um ser gerado<br />
por criminosos como todos podem ver.<br />
Ah! Tripla encruzilhada, vales sombreados,<br />
florestas de carvalhos, ásperos caminhos,<br />
vós que bebestes o meu sangue, derramado<br />
por minhas próprias mãos &#8211; o sangue de meu pai -<br />
ainda tendes a lembrança desses crimes<br />
com que vos conspurquei? Pois outros cometi<br />
depois. Ah! Himeneu! Deste-me a existência<br />
e como se isso não bastasse inda fizeste<br />
a mesma sementeira germinar de novo!<br />
Mostraste ao mundo um pai irmão dos próprios filhos,<br />
filhos-irmãos do próprio pai, esposa e mãe<br />
de um mesmo homem, as torpezas mais terríveis<br />
que alguém consiga imaginar. Mostraste-as todas!</p>
<p>          pausa</p>
<p>Mas vams logo, pois não se deve falar<br />
no que é indecoroso de fazer. Levai-me!<br />
Depressa, amigos! Ocultai-me sem demora<br />
longe daqui, bem longe, não importa onde;<br />
matai-me ou atirai-me ao mar em um lugar<br />
onde jamais seja possível encontrar-me!<br />
Aproximai-vos e não tenhais nojo, amigos,<br />
de pôr as vossas mãos em mim, um miserável.<br />
Crede-me! Nada receeis! Meu infortúnio<br />
é tanto que somente eu, e mais ninguém,<br />
serei capaz de suportá-lo nesta vida!</p>
<p>Antígona é a peça final da Trilogia Tebana e foi representada pela primeira vez em 441 a.C, em Atenas. Após a morte de Édipo em Colono (retratada em Édipo em Colono, segunda peça da trilogia), Antígona, filha de Édipo, retorna com Ismene, sua irmã, a Tebas, onde seus irmãos, Etéocles e Polinices disputavam a sucessão do pai no trono da cidade. Após um breve acordo, Etéocles não cede o lugar para Polinices que, revoltado, segue para Argos, cidade rival de Tebas. Após uma batalha entre os irmãos, ambos caem mortos. Creonte assume o poder e proíbe o sepultamento de Polinices. Antígona, revoltada, desrespeita a ordem de Creonte e concede o sepultamento alegando que seus direitos eram mais válidos. A maior parte da peça trata dessa medida. Este é o discurso de Antígona antes de ser levada pelos guardas de Creonte como punição de seus atos.</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>ANTÍGONA<br />
(Antígona de Sófocles)</p>
<p>Túmulo, alcova nupcial, prisão eterna,<br />
cova profunda para a qual estou seguindo,<br />
em direção aos meus que a morte muitas vezes<br />
já acolheu entre os finados! Eu, a última<br />
e sem comparação a mais desventurada,<br />
vou para lá, antes de haver chegado ao termo<br />
de minha vida! Mas uma esperança eu tenho:<br />
meu pai há de gostar de ver-me, e tu também<br />
gostarás muito, minha mãe, e gostarás<br />
também, irmão querido, pois quando morreste<br />
lavei-te e te vesti com minhas próprias mãos<br />
e sobre tua sepultura eu espargi<br />
as santas libações. E agora, Polinices,<br />
somente por querer cuidar de teu cadáver<br />
dão-me esta recompensa! Mas na opinião<br />
da gente de bom senso todo o meu cuidado<br />
foi justo. Sim! Se houvera sido mãe de filhos,<br />
ou se o esposo morto apodrecesse exposto,<br />
jamais enfrentaria eu tamanhas penas<br />
tendo de opor-me a todos os concidadãos!<br />
Que leis me fazem pronunciar estas palavras?<br />
Fosse eu casada e meu esposo falecesse,<br />
bem poderia encontrar outro, e de outro esposo<br />
teria um filho se antes eu perdesse algum;<br />
mas, morta minha mãe, morto meu pai, jamais<br />
outro irmão meu viria ao mundo. Obedeci<br />
a essas leis quando te honrei mais que a ninguém.<br />
Creonte acha, porém, que errei, que fui rebelde,<br />
irmão querido! Assim ele me leva agora,<br />
cativa em suas mãos; um leito nupcial<br />
jamais terei, nem ouvirei hinos de bodas,<br />
nem sentirei as alegrias conjugais,<br />
nem filhos amamentarei; hoje, sozinha,<br />
sem um amigo, parto &#8211; ai! infeliz de mim! -<br />
ainda viva para onde os mortos moram!<br />
Que mandamentos transgredi das divindades?<br />
De que me valerá &#8211; pobre de mim! &#8211; erguer<br />
ainda os olhos para os deuses? Que aliado<br />
ainda invocarei se, por ser piedosa,<br />
acusam-me de impiedade? Se isso agrada<br />
aos deuses me conformo, embora sofra muito,<br />
com minha culpa, mas se os outros são culpados,<br />
que provem penas pelo menos tão pesadas<br />
quanto as que injustamente me impuseram hoje!</p>
<p>Eurípides nasceu em Salamina (ilha situada nas proximidades de Atenas) provavelmente em 485 a.C e morreu em 406 a.C. Escreveu no mínimo 74 peças, destas, 19 chegaram a nós. Medéia foi apresentada provavelmente em 431 a.C em Atenas. A peça gira entorno dos acontecimentos finais de um mito grego muito conhecido: Jasón e os Argonautas. Após o grande êxito na expedição do Argonautas, Jasón retorna a cidade de Iolco também com Medéia, filha do rei Aietes e neta do Sol, com quem se casaria. Após negar a Pelias (o usurpador da coroa de Iolco) o mesmo remédio da juventude que dera a Áison, pai de Jasón, e tê-lo dado uma poção que o mataria, o casal, Jáson e Medéia, foge para Corinto. Após dez anos de união perfeita, Jáson se apaixona por Glauce, filha de Creonte, e repudia Medéia para casar-se com ela. Resultado: Além da traição, Medéia é expulsa de Corinto junto com os filhos. Medéia resolve fazer de tudo para causar sofrimento em Jáson, e, com isso, mata seus filhos. Este é o solilóquio onde Medéia decide matar seus filhos:</p>
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<p>MEDÉIA<br />
(MEDÉIA DE EURÍPIDES)</p>
<p>Dirigindo-se ao Corifeu</p>
<p>Agora vou contar-te todos os meus planos<br />
(minhas palavras não serão para agradar).<br />
Enviarei a Jáson um de seus criados<br />
para pedir-lhe que venha encontrar-me aqui.<br />
Quando chegar, falar-lhe-ei suavemente;<br />
direi que suas decisões são acertadas<br />
e concordo com elas; ele me abandona<br />
para casar-se com a filha do rei; faz bem,<br />
pois isso corresponde aos interesses dele.<br />
Mas pedirei que deixe meus filhos aqui,<br />
não que eu queira largá-los numa terra hostil<br />
nem os expor à sanha de quem os odeia,<br />
mas afim de aprontar para a filha do rei,<br />
por intermédio deles, a armadilha atroz<br />
em que ela morrerá levando o pai à morte.<br />
Mandá-los-ei a ela com presentes meus<br />
para a nova mulher, a fim de que ela evite<br />
o exílio deles: um véu dos mais finos fios<br />
e um diadema de ouro. Se ela receber<br />
os ornamentos e com eles enfeitar-se,<br />
perecerá em meio às dores mais cruéis<br />
e quem mais a tocar há de morrer com ela,<br />
tão forte é o veneno posto nos presentes.</p>
<p>     com uma expressão de horror</p>
<p>Mas mudo aqui meu modo de falar, pois tremo<br />
só de pensar em algo que farei depois;<br />
devo matar minhas crianças e ninguém<br />
pode livrá-los desse fim. E quando houver<br />
aniquilado aqui os dois filhos de Jáson,<br />
irei embora, fugirei, eu, assassina<br />
de meus muitos queridos filhos, sob o peso<br />
do mais cruel dos feitos. Não permitirei,<br />
amigas, que riam de mim os inimigos!<br />
Terá de ser assim. De que vale viver?<br />
Já não existem pátria para mim, meu lar,<br />
nenhum refúgio nesta minha desventura.<br />
Fui insensata quando outrora abandonei<br />
o lar paterno, seduzida pela fala<br />
desse grego que, se me ajudarem os deuses,<br />
me pagará justa reparação em breve.<br />
Jamais voltará ele a ver vivos os filhos<br />
que me fez conceber, e nunca terá outros<br />
de sua nova esposa que &#8211; ah! miserável! -<br />
deverá perecer indescritivelmente<br />
graças aos meus venenos! Que ninguém me julgue<br />
covarde, débil, indecisa, mas perceba<br />
que pode haver diversidade no caráter:<br />
terrível para os inimigos e benévola<br />
para os amigos. Isso dá mais glória à vida.</p>
<p>O enredo de Ifigênia em Áulis faz parte do chamado Ciclo Troiano, e foi representada pela primeira vez após a morte de Eurípides, provavelmente, em 405 a.C. A peça se passa em frente a tenda de Agamêmnon, no acampamento dos gregos em Áulis. O exército está pronto para partir para Tróia, porém, imóvel diante uma calmaria. Calcas, o adivinho, profetiza que, para os gregos poderem partir, Ifigênia, uma das filhas de Agamêmnon, rei e comandante do exército, precisaria ser sacrificada à deusa Ártemis. O rei então envia uma mensagem à sua mulher, Clitemnestra, para trazer Áulis ao acampamento, sob o pretexto de casá-la com Aquiles. Segredo revelado, Clitemnestra e Ifigênia imploram em vão. Po sua vez, Ifigênia, declara que está disposta a morrer pela Grécia. Após ser levada para o sacrifício, o Mensageiro, conta que no momento da morte, Ifigênia desaparece milagrosamente, surgindo no lugar dela uma corça enviada por Ártemis. Este é o solilóquio onde Ifigênia decide morrer.</p>
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<p>IFIGENIA<br />
(Ifigênia em Áulis de Eurípides)</p>
<p>fala a Aquiles e Clitemnestra</p>
<p>Ah! Minha mãe e tu! Agora vou falar.<br />
Vejo-te, mãe, inutilmente revoltada<br />
contra teu esposo insensível. Não é fácil<br />
ser persistente contra um fato inelutável.<br />
É justo que sejamos gratas a Aquiles<br />
por seu esforço, mas é hora de pensar<br />
que não devemos atrair acusações<br />
do exército contra ti mesma sem vantagens<br />
para nós duas; além disso ainda expomos<br />
nosso aliado e defensor a infortúnios.<br />
Escuta agora, minha mãe, o pensamento<br />
que ora me ocorre ao refletir sobre estes fatos.<br />
Tomei neste momento a decisão final<br />
de me entregar à morte, mas o meu desejo<br />
é enfrentá-la gloriosa e nobremente,<br />
sem qualquer manifestação de covardia.<br />
Pondera, então, comigo, minha mãe querida,<br />
na fama que me há de trazer esta atitude.<br />
A Grécia inteira, nossa generosa pátria,<br />
dirige neste instante os olhos para mim;<br />
dependem só de mim a viagem da frota<br />
e a extinção de Tróia, e de mim depende<br />
eliminar de vez a possibilidade<br />
de os bárbaros tentarem novas agressões<br />
contra as mulheres gregas e futuros raptos<br />
em nossa terra amada, depois de expiarem<br />
a vergonha de Helena levada por Páris.<br />
O fruto de meu sacrifício será este:<br />
propiciando uma vitória à nossa pátria<br />
conquistarei para mim mesma eterna fama.<br />
E mais ainda, não é justo que me apegue<br />
demasiadamente à vida, minha mãe;<br />
deste-me à luz um dia para toda a Grécia,<br />
e não somente para ti. Pensa comigo:<br />
muitos milhares de soldados protegidos<br />
por seus escudos, outros, também numerosos,<br />
empunhando seus remos, terão de arriscar-se<br />
a lutar e morrer pela terra natal<br />
porque ela foi insultada, e minha vida,<br />
a existência de uma única mulher,<br />
poderá ser um óbice a tanto heroísmo?<br />
Isto seria justo? De que subterfúgios<br />
nos valeríamos? Perguntarei ainda:<br />
este guerreiro &#8211; Aquiles &#8211; terá de lutar<br />
contra o exército dos gregos e arriscar-se<br />
por uma só mulher &#8211; por mim -, pois a existência<br />
de um homem só tem certamente mais valor<br />
que a de muitas mulheres juntas?. E se Ártemis<br />
quer receber meu corpo em santo sacrifício,<br />
resistirei à deusa, eu, simples mortal?<br />
De modo algum! Darei a minha vida à Grécia!<br />
Matem-me para que desapareça Tróia!<br />
Meu sacrifício me trará renome eterno<br />
como se fosse minhas núpcias e meus filhos<br />
e minha glória! Os gregos mandarão<br />
nos bárbaros, e não os bárbaros nos gregos,<br />
já que eles todos são de uma raça de escravos<br />
enquanto nós nos orgulhamos de ser livres!</p>
<p>As Bacantes é um peça em louvor ao deus Dioniso. Foi uma das tragédias preferidas pelos espectadores gregos, tendo sido representada até o século IV a.C. A cena se passa diante o palácio de Tebas, onde Dioniso, disfarçado de profeta, traz sua religião para a Grécia. Sua intenção é punir Agave e Autônoe, irmãs de sua mãe Sêmele, por terem dito que esta se unira a um mortal, e não a Zeus, e eliminar o jovem Penteu, rei de Tebas e filho de Agave. As servas de Dioniso, As Bacantes, estão no alto do monte Citéron, para onde se dirigem o Coro de devotas frígias, Tirésias, o adivinho, e Cadmo, pai de Agave. Penteu os censura, As Bacantes fazem um apelo a Dioniso, que é prontamente acorrentado por ordem de Penteu. Dioniso se revolta, provoca incêndios e terremotos no palácio. Penteu fica enfurecido, mas encontra um pastor de bois, que lhe conta das celebrações das Bacantes no monte Citéron e o convence a se vestir de mulher e ir conferir os ritos. Penteu, já confuso, sobe o monte. Depois, um mensageiro conta como Penteu lá foi esquartejado e degolado por sua própria mãe Agave, todos inebriados. Esta é a fala do Coro quando Dioniso convence Penteu a se vestir de mulher e ir para a celebração.</p>
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<p>CORO<br />
(AS BACANTES DE EURÍPIDES)</p>
<p>Vamos enfim juntar nosso pés nus<br />
aos cortejos noturno de Dioniso,<br />
lançando para trás nossas cabeças<br />
no ar umedecido pelo orvalho,<br />
como corças saltando satisfeitas<br />
nos verdes prados depois escaparem<br />
das redes escondidas nas veredas.<br />
Mas de repente o caçador incita<br />
com gritos a corrida de seus cães;<br />
mais rápidas que as tempestades súbitas<br />
elas saltam ao longo dos riachos<br />
pelas campinas, procurando, aflitas,<br />
bem longe dos homens desnaturados<br />
a paz e a sombra da floresta escura.<br />
Que é ciência, que é glória máxima,<br />
presentes dos bons deuses, senão ter<br />
nas mãos vitoriosas o inimigo?<br />
O que é bom é sempre desejável.<br />
Move-se lentamente a onipotência<br />
das divindades, mas é infalível.<br />
Elas dão o castigo às criaturas<br />
condescendentes com a iniquidade<br />
e cuja mente devotada ao mal<br />
tira dos deuses justas homenagens.<br />
Graças a mil ardis elas ignoram<br />
o perpassar do tempo e implacáveis<br />
seguem até o fim as suas presas.<br />
Mas nada nós devemos conceber,<br />
nada devemos praticar na vida,<br />
que esteja acima das divinas leis.<br />
Não é difícil realmente crer<br />
na onipotência de um poder supremo,<br />
seja qual for a verdadeira origem<br />
das divindades que desde os primórdios<br />
e ao longo dos tempos imemoráveis<br />
têm a força de lei entre os mortais,<br />
pois vem da natureza sua origem.<br />
Que é ciência, que é glória máxima,<br />
presentes dos bons deuses, senão ter<br />
nas mãos vitoriosas o inimigo?<br />
O que é bom é sempre desejável<br />
Feliz é quem pode escapar à morte<br />
em pleno mar e chega vivo ao porto!<br />
Feliz é quem consegue superar<br />
as provocações ao longo desta vida!<br />
Alguns seres humanos vencem outros<br />
em ventura e poder. São incontáveis<br />
os míseros mortais, e incontáveis<br />
as esperanças que eles acalentam.<br />
Alguns chegam sem dúvida à riqueza,<br />
mas para a maioria nada resta!<br />
Consideramos  bem-aventuradas<br />
as criaturas que sabem gozar<br />
toda a satisfação de cada dia!</p>
<p>Ésquilo é o mais antigo dos três grandes poetas trágicos gregos. Nasceu em Elêusis, em 525 a.C, combateu nas batalhas de Salamina e Maratona contra os invasores persas e morreu no ano de 456 a.C. Prometeu Acorrentado foi apresentada aproximadamente em 458 a.C. Trata do mito grego de Prometeu. Prometeu está acorrentado num rochedo da região da Cítia, vítima da ira de Hefesto (o deus do fogo). Prometeu havia se rebelado contra a vontade divina com o intuito de ajudar a humanidade primitiva. Prometeu se revolta diante do céu, do mar e da terra. Aparecem as Oceanides, ninfas do mar, para quem Prometeu revela que, por amor às criaturas humanas, deu-lhes o fogo por ele roubado no céu permitindo o início da civilização. Oceano chega, mas Prometeu se recusa a ser libertado. Aparece Io, a quem Prometeu revela uma profecia na qual um filho de Zeus o destronaria, seria Épafo. Hermes entra em cena no afã de saber mais sobre essa profecia. Por ter sido tratado desdenhosamente por Prometeu, Hermes anuncia que uma águia devoraria seu fígado todos os dias até que recompusesse. Ocorre um cataclismo e Prometeu desaparece junto com as Oceanides. Este é o solilóquio em que Prometeu revela seus bens feitos à humanidade.</p>
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<p>PROMETEU<br />
(PROMETEU ACORRENTADO DE ÉSQUILO)</p>
<p>depois de longo silêncio</p>
<p>Não se deve conjeturar que meu silêncio<br />
decorre da arrogância ou de maus sentimentos;<br />
mas uma ideia me atravessa o coração<br />
quando sou ultrajado de maneira ignóbil:<br />
quem concedeu, então, a esses deuses novos<br />
todos os privilégios recém-outorgados?<br />
Calo-me quanto a isto, porém já sabeis<br />
o que eu poderia dizer-vos novamente.<br />
Falar-vos-ei  agora das misérias todas<br />
dos sofridos mortais e em que circunstâncias<br />
fiz das crianças que eles eram seres lúcidos,<br />
dotados de razão, capazes de pensar.<br />
Farei o meu relato, não para humilhar<br />
os seres indefesos chamados humanos,<br />
mas para vos mostrar a bondade infinita<br />
de que são testemunhas  numerosas dádivas.<br />
Em seus primórdios tinham olhos mas não escutavam,<br />
e como imagens dessas que vemos em sonhos<br />
viviam ao acaso em plena confusão.<br />
Eles desconheciam as casas benfeitas<br />
com tijolos endurecidos pelo sol,<br />
e não tinham noção do uso da madeira;<br />
como formigas ágeis levavam a vida<br />
no fundo de cavernas onde a luz do sol<br />
jamais chegava, e não faziam distinção<br />
entre o inverno e a primavera<br />
e o verão fértil; não usavam a razão<br />
em circunstância alguma até há pouco tempo,<br />
quando lhes ensinei a básica ciência<br />
da elevação e do crepúsculo dos astros.<br />
Depois chegou a vez da ciência dos números,<br />
de todas a mais importante, que criei<br />
para seu benefício, e continuando,<br />
a da reunião das letras, a memória<br />
de todos os conhecimentos nesta vida,<br />
labor do qual decorrem as diversas artes.<br />
Fui também o primeiro a subjugar um dia<br />
as bestas dóceis aos arreios e aos senhores,<br />
para livrar os homens dos trabalhos árduos;<br />
em seguida atrelei aos carros os cavalos<br />
submissos desde então às rédeas, ornamento<br />
da opulência. Eu mesmo, e mais ninguém,<br />
inventei os veículos de asas de pano<br />
que permitem aos nautas percorrer os mares.<br />
Eo infeliz autor de tantas descobertas<br />
para os frágeis mortais não conhece um segredo<br />
capaz de livrá-lo da desgraça presente!</p>
<p>Voltando a Sófocles. Electra foi apresentada pela primeira vez por volta de 413 a.C. Há uma duvida histórica com relação a qual Electra foi montada primeiro, a de Sófocles ou a de Eurípides. A peça é sobre vingança. Agamêmnon, rei do argivos, retorna de Tróia para Micenas, capital de seu reino, onde Clitemnestra, sua esposa, tomara-se de amores pelo usurpador Egisto, primo de Agamêmnon. O rei é morto por Clitemnestra com um &#8220;cutelo todo de bronze&#8221; com a ajuda de Egisto, sob o pretexto de que Agamêmnon matara uma de suas filhas, Ifigênia, antes de partir para Tróia. O casal tinha mais três filhas &#8211; Ifiânassa, Crisôtemis e Electra &#8211; e um filho, Orestes. Electra consegue salvar Orestes, ainda com dez anos, e o envia a Fócida. Orestes retorna, anos depois, e junto com Electra, vingam a morte do pai, matando sua mãe. Este é o solilóquio onde Electra combina a morte de sua mãe com o irmão, Orestes.</p>
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<p>ELECTRA<br />
(ELECTRA DE SÓFOCLES)</p>
<p>Tudo se passará como mandaste, irmão,<br />
o meu contentamento é teu, não me pertence;<br />
nem o maior dos bens seria desejável<br />
à custa do menor transtorno para ti;<br />
não fosse assim, eu estaria sendo ingrata<br />
aos deuses poderosos, nossos protetores.<br />
Já sabes como vão as coisas por aqui?<br />
Egisto se ausentou, mas volta ainda hoje,<br />
e nossa mãe está lá dentro, mas não temas<br />
que em hora alguma eu lhe apareça inalterado.<br />
Apresentar-me-ei com lágrimas nos olhos<br />
porque também se chora de alegria, Orestes.<br />
Parece-te excessivo o meu contentamento?<br />
Não devo estar alegre se num mesmo dia<br />
primeiro regressaste morto e depois vivo?<br />
Tanta perplexidade tudo isto causa<br />
que eu eu visse voltar meu pai, ressuscitado,<br />
não descreveria nem assim de meus sentidos;<br />
a tua vinda não foi menos milagrosa.<br />
Dispõe de mim; ordena e obedecerei.<br />
Ainda que faltasses eu já decidira:<br />
matá-los-ia, mesmo só, ou morreria!</p>
<p>A montagem de Ájax tem data incerta, mas é provavelmente anterior a 441a.C, quando foi encenada a Antígona. É a peça da vaidade ferida. Decorre em frente à tenda de Ájax, no acampamento dos gregos próximo a Tróia. Revoltado com a resolução dos chefes gregos de entregar as armas de Aquiles, recém-morto por Páris a Odisseu, preterindo-o, Ájax toma a decisão de matar Agamêmnon e Menelau seu irmão. Atena priva-o da razão e ele, enfurecido, mata os animais dos rebanhos conquistados pelos gregos pensando estar matando os dois. Recuperando a lucidez, Ájax percebe que está perdido e resolve se matar. Após isso, Teucro, seu meio-irmão, aparece e decide desobedecer às ordens de Menelau e de Agamêmnon de deixá-lo insepulto. Até que Odisseu aparece e os convence do contrário. Sófocles foi muito criticado por não ter acabado a peça logo após a morte de Ájax. Este é o famoso solilóquio de Ájax antes de se matar.</p>
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<p>ÁJAX<br />
(ÁJAX DE SÓFOCLES)</p>
<p>Está firme a espada para o sacrifício,<br />
pronta a varar meu corpo da melhor maneira,<br />
se ainda posso demorar-me em falatórios.<br />
Ela foi o presente de um anfitrião<br />
abominado por minha alma e por meus olhos,<br />
e agora está fixada no solo inimigo<br />
de Tróia detestada, depois afiada<br />
na pedra que desgasta o ferro, e bem plantada<br />
com o maior desvelo para me trazer,<br />
como um grande favor, a morte imediata.<br />
Já estou pronto. Agora, Zeus, és o primeiro,<br />
como convém, a quem devo implorar ajuda.<br />
Não pretendo pedir-te um favor muito grande.<br />
Concede-me somente a graça de mandar<br />
um mensageiro a Teucro dando-lhe a notícia,<br />
para que ele seja o primeiro a levantar<br />
meu corpo traspassado pela espada férrea<br />
molhada com meu sangue quente. Não desejo<br />
que ele, encontrado antes meu inimigos,<br />
seja pasto de cães e de aves carniceiras.<br />
Eis tudo que espero de ti agora, Zeus.<br />
Invoco depois dele Hermes Infernal,<br />
guia dos mortos. Peço-lhe que me entorpeça<br />
suavemente, e que num salto ao mesmo tempo<br />
fácil e rápido eu consiga atravessar<br />
a longa espada no meu corpo. Ainda invoco<br />
as virgens inflexíveis, divinas Erínias<br />
de calcanhares rápidos, que sempre observam<br />
os males praticados pelos homens maus.<br />
Fiquem elas sabendo como vou morrer<br />
- pobre de mim! &#8211; por causa dos filhos de Atreu<br />
e os faça perecerem miseravelmente<br />
- ah, miseráveis! -; e da mesma forma que elas<br />
verão meu próprio sangue derramado aqui,<br />
eles pereçam sob os golpes de parentes<br />
depois de derramarem por seu turno o sangue!<br />
Avante, Erínias, vingadoras expeditas!<br />
Participai deste banquete e não poupeis<br />
nenhum dos súditos dos dois chefes argivos!<br />
E tu, sol cintilante que guias teu carro<br />
pelas alturas do insondável firmamento,<br />
quando vires a terra de meus ancestrais<br />
retrai as rédeas recobertas de ouro puro<br />
para comunicar a minha desventura<br />
e meu fim melancólico a meu velho pai<br />
e a minha mãe &#8211; coitada! E quando a infeliz<br />
receber a notícia, logo sairão<br />
de sua boca soluços intermináveis<br />
que repercutirão pela cidade inteira.<br />
Mas, de que serve lamentar-me inutilmente?<br />
Devo entregar-me por inteiro à minha obra,<br />
e com máxima preteza! Ah! Morte! Ah! Morte!<br />
Chegou a hora! Vem!  Olha bem para mim!<br />
No outro mundo ainda falarei contigo,<br />
pois estarás perto de mim a todo instante.<br />
Tu, ao contrário, claridade deste dia,<br />
e tu, sol em teu carro! Desejo saudar-vos<br />
pela última vez! Nunca mais vos verei!<br />
Luz e solo sagrados da terra natal!<br />
Ah! Salamina, que sempre serves de assento<br />
à lareira da casa dos antepassados!<br />
Atenas muito ilustre com teu povo irmão!<br />
E vós, fontes e rios que meus olhos viram<br />
nestas planícies troianas, agradeço-vos!<br />
Adeus, vós todos que me haveis dessedentado!<br />
Dirijo-vos as minhas últimas palavras.<br />
A partir deste instante falarei apenas<br />
com os habitantes das profundezas do inferno!</p>
<p>De modo geral, as tragédias conservadas têm um final infeliz. Não é o caso de Alceste, de Eurípides. A tragédia se aproxima dos dramas satíricos, e fora apresentada num tetralogia após três tragédias propriamente ditas. A peça transcorre diante do palácio de Ádmeto, rei da Tessália. O deus Apolo conta como conseguiu convencer as Parcas a permitirem que Ádmeto se livrasse da morte desde que alguém fosse sacrificado em seu lugar. O velhos pais do rei se recusaram a salvar o filho, somente sua mulher, Alceste, prontificou-se para tal. Apolo suplica, em vão, à Morte (Thânatos) pela vida da rainha. Após despedir-se dos cidadãos, Alceste está pronta para morrer, quando aparece o deus Heraclés, a quem Ádmeto pede que seja seu hóspede, sem dizer nada sobre o que haverá. Após impedir seu próprio filho, Feres, de tentar salvar sua mãe, Ádmeto revela a Heraclés o que está acontecendo. Um pouco mais sóbrio que antes, Heraclés decide salvar a rainha. Entra no castelo e sai com uma mulher nos braços, dizendo ter sido conquistada por ele como prêmio numa competição atlética, era Alceste coberta por um véu. Alceste não morre e tudo fica bem. Este é belo e divertido solilóquio do deus Heraclés, após as reclamação de um servo por estar bebendo e comendo muito.</p>
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<p>HERACLÉS<br />
(ALCESTE DE EURÍPIDES)</p>
<p>fala ao servo</p>
<p>Que significa, servo, o teu olhar tristonho<br />
e inquieto? Os serviçais devem cuidar<br />
de não mostrar o rosto contrafeito aos hóspedes;<br />
cumpre-lhe recebê-los em qualquer hipótese<br />
com o coração afável. Tu, que vês aqui<br />
um doa amigos de teu rei, estás expondo-lhe<br />
as feições contraídas, a testa enrugada:<br />
por que observas este luto rigoroso?<br />
Vem até mim; vou ensinar-te a ser sensato.<br />
Conheces bem a natureza dos mortais?<br />
Não creio; onde saberias? Então ouve-me.<br />
Sem excessão, todos morreremos um dia,<br />
e nenhum de nós sabe se amanhã bem cedo<br />
estará vivo. Ninguém é capaz de ver<br />
para onde nos levam os passos da sorte;<br />
não há maneira alguma, servo, de sabermos,<br />
e nenhuma ciência jamais nos dirá.<br />
Já que é assim, esclarecido finalmente<br />
por minha boca, vê se te manténs alegre;<br />
ciente de que só és dono incontestável<br />
do momento presente e o resto é do destino,<br />
bebe! Cultua a divindade que é sem dúvida<br />
a maior fonte de prazer para os mortais<br />
- Cípris, a bela deusa que só nos quer bem.<br />
Deixa de lado todos os outros cuidados<br />
e crê nestas palavras se as achaste certas<br />
(suponho que elas são). Não estás decidido<br />
a expulsar de ti essa tristeza toda<br />
para beber comigo, demonstrando assim<br />
que és superior a quaisquer contratempos?<br />
Vamos! Adorna de guirlandas a cabeça!<br />
Tenho certeza de que o bailado das taças<br />
afastará de ti esta disposição<br />
tensa e desagradável e a compelirá<br />
a procurar abrigo em outro ancoradouro.<br />
Somos todos mortais e nossa obrigação<br />
é ter apenas sentimentos de mortais,<br />
já que as pessoas de temperamento amargo,<br />
embora sejam muitas, só vivem catástrofes,<br />
com o cenho permanentemente contraído,<br />
em vez de viverem de fato suas vidas.</p>
<p>Fechando o ciclo de tragédias gregas. Eurípides foi chamado por Aristóteles como &#8220;o mais trágico dos trágicos&#8221;. Considerada por alguns como a mais dolorosa, foi representada provavelmente em 423 a.C, em Atenas. Após a queda de Tróia, as troianas foram entregues como escravas. Os gregos ansiavam partir de volta, mas havia uma grande calmaria que deixava as naus retidas. O fantasma de Aquiles surge e diz que Polixena, filha de Príamo e Hécuba, rei e rainha de Tróia, fosse sacrificada para que houvesse vento. Hécuba suplica, em vão, e Polixena segue para a morte. Enquanto Hécuba cuidava de um dos funerais, o cadáver de seu filho mais novo, Polidoro, é levado até ela. O jovem havia sido morto por Pólimestor, rei do Quersoneso Trácio, com o intuito de apoderar-se dos tesouros e jogou o cadáver ao mar. Hécuba revolta-se e apela a Agamêmnon por vingança, que reluta. Hécuba então vinga-se com a próprias mãos. Atrai Poliméstor e seus filhos para um tenda onde ela e suas companheiras matam o filhos e cegam Poliméstor. Este é o solilóquio de Hécuba após ter se vingado. Fala a Agamêmnon.</p>
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<p>HÉCUBA<br />
(HÉCUBA DE EURÍPIDES)</p>
<p>Entre as criaturas humanas, Agamêmnon,<br />
as palavras jamais devem prevalecer<br />
sobre as ações. Quando se age retamente,<br />
deve-se falar bem, e quando alguém faz mal,<br />
suas palavras nos parecem vãs e ocas.<br />
Nunca, jamais a injustiça possa ter<br />
uma linguagem agradável aos ouvidos!<br />
Os inventores de discursos refinados<br />
são realmente hábeis, mas não podem ter<br />
invariavelmente a mesma habilidade;<br />
seu fim é inditoso e ninguém até hoje<br />
se livrou dele. Quanto a ti, eis meu preâmbulo.</p>
<p>apontando para Poliméstor</p>
<p>Agora quero responder a este homem.<br />
Afirmas que mataste meu querido filho<br />
para poupar os gregos de uma dupla pena<br />
e para prestar um serviço a Agamêmnon.<br />
Devo dizer de início que jamais os bárbaros<br />
serão amigos dos aqueus &#8211; muito ao contrário.<br />
Qual o motivo de teu zelo, Poliméstor?<br />
Seria o desejo de algum casamento?<br />
Seriam os laços de sangue ou, porventura,<br />
outras razões? Iriam eles devastar<br />
as terras cultivadas de teu território<br />
antes de retornar ao mar com suas naus?<br />
Pensas que alguém aceitaria tais desculpas?<br />
Se quisesse dizer apenas a verdade,<br />
o ouro e tua cupidez foram as causas<br />
da morte de meu filho. Dize-me, afinal:<br />
quando existia Tróia e sua muralhas<br />
ainda a protegiam, quando o velho Príamo<br />
inda vivia e as armas de Heitor brilhavam,<br />
por que, então &#8211; se querias ser agradável<br />
a Agamêmnon &#8211; não mataste meu menino<br />
deixado a teus cuidados e sod o teu teto,<br />
ou por que não o entregaste vivo aos gregos?<br />
Mas não! Foi só após deixarmos de existir,<br />
depois do anúncio de que Tróia estava em chamas<br />
aniquilada pelos nosso inimigos<br />
que assassinaste o hóspede em teu próprio lar!<br />
E isto não é tudo. Escuta, celerado,<br />
na hora de mostrar teu péssimo caráter:<br />
se eras realmente amigo dos aqueus,<br />
estavas obrigado, quanto a este ouro<br />
que pertencia a Polidoro e não a ti<br />
de acordo com a tua própria confissão,<br />
a entregá-lo aos gregos, tão necessitados<br />
e há tanto tempo afastados de sua pátria.<br />
Mas, mesmo neste instante falta-te coragem<br />
para afastar as tuas mãos do ouro alheio<br />
e insistes  em guardá-lo ainda no palácio.<br />
De fato, é no infortúnio que se vê melhor<br />
a amizade das pessoas generosas;<br />
quando somos felizes não faltam amigos.<br />
Se meu filho vivesse e fosse venturoso,<br />
e se passasses por alguma provação,<br />
ele te ajudaria com o seu tesouro.<br />
Agora, que teu crime te privou do amigo,<br />
o ouro não te ajudará de forma alguma;<br />
teus filhos foram-se e tu mesmo estás assim.</p>
<p>voltando-se para Agamêmnon</p>
<p>Digo-te, rei: se resolveres apoiá-lo,<br />
serás considerado um homem de má índole;<br />
terás favorecido um homem sem caráter,<br />
impiedoso, infiel a seus deveres<br />
de anfitrião, indiferente às divindades<br />
a à justiça humana. Até pensaremos<br />
que dás valor aos maus por seres como eles.<br />
Mas não pretendo injuriar-te, meu senhor.</p>
<p>Lúcio Aneu Sêneca nasceu em Córdova, atual Espanha, no ano 4 a.C. Sua vida estendeu-se ao longo dos principados de Augusto, Tibério, Calígula, Cláudio e Nero. Anos após ter sido exilado por Cláudio, envolveu-se com opositores ao regime e, condenado por Nero, suicidou-se, em Roma, no dia 19 de abril de 65 d.C. O escasso teatro romano o tem como um dos grandes trágicos. Fedra enfoca o mito de uma filha de Minos e Pasífae, casada com Teseu, herói da Ática que venceu Minotauro e libertou Atenas do tributo anual devido a Creta. Teseu é dado como desaparecido e, Fedra, se apaixona por Hipólito, seu enteado. O rapaz, que havia dedicado sua vida e jurado castidade à Diana, recusa  as propostas da madrasta. Ela, furiosa, acusa-o de tê-la violado. Teseu, de volta à cidade, pede a Posêidon que mate o filho quando ele, após uma queda com sua biga, é pisoteado pelo cavalos. Este é o solilóquio onde Fedra se mata ao ver o corpo de Hipólito completamente despedaçado.</p>
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<p>FEDRA<br />
(FEDRA DE Sêneca)</p>
<p>De mim, de mim te apodera, cruel senhor do profundo<br />
pélago, e contra mim lança os monstros do mar cerúleo,<br />
o que quer que a longínqua Tétis no imo seio traga,<br />
o que quer que, abraçado pelas vagas errantes,<br />
o Oceano recubra com as suas mais remotas ondas.<br />
Ó Teseu, severo sempre, ó tu que nunca volta aos teus<br />
sem receio: filho e pai com a morte expiaram os teus<br />
retornos; a tua casa pervertes, sempre nocivo<br />
às esposas, por amor ou por ódio.<br />
Hipólito, teu rosto é esse que vejo, e causei isso?<br />
Que cruel Sínis ou que Procrustes te espedaçou os<br />
membros, ou que criatura de Creta, enchendo os claustros<br />
de Dédalo com fortes mugidos, Touro biforme, feroz,<br />
de fronte cornígera, te dilacerou?<br />
Ai de mim, para onde fugiu a tua beleza e os teus olhos,<br />
nossas estrelas? Tu jazes sem vida?<br />
Aproxima-te um instante e ouve as minhas palavras:<br />
nada de torpe falamos: com esta mão pagarei a ti<br />
as minhas dívidas e cravarei neste peito nefando a espada,<br />
despojarei Fedra igualmente da vida e do crime, e pelas<br />
ondas e pelos lagos do Tártaro, pelo Estige e pelos rios<br />
de fogo, insana, seguir-te-ei.<br />
Aplaquemos os manes: da minha cabeça toma os despojos<br />
e aceita a madeixa que corto da fronte mutilada.<br />
Não se puderam unir os corações, mas decerto podem<br />
unir-se os destinos. Se és casta, morre pelo marido;<br />
se incestuosa, pelo amor. Buscarei o leito do cônjuge,<br />
manchado por tamanho crime? Faltava-te este sacrilégio,<br />
para que, como se pura, fruísses do tálamo reclamado.<br />
Ó morte, único alívio do amor malévolo,<br />
ó morte, máxima honra do pudor ferido, recorremos a ti.<br />
Abre o teu seio sereno.<br />
Ouve, Atenas, e tu, um pai pior do que a funesta madrasta:<br />
falsas coisas relatei e, mentindo, forjei o sacrilégio que eu mesma,<br />
demente, concebera no coração insano. Puniste em vão, pai,<br />
e o jovem casto, por uma acusação incestuosa, jaz, puro,<br />
inocente: recebe de volta os teus costumes.<br />
Meu peito ímpio se abre à lâmina justa, e o meu sangue<br />
cumpre o sacrifício do homem virtuoso.<br />
O que devas fazer, pai, tendo um filho arrebatado, aprende-o<br />
com a madrasta: sepulta-te nas plagas do Aqueronte.</p>
<p>Teatro Elizabetano. Christopher Marlowe nasceu provavelmente em 1564 e morreu prematuramente em uma briga de taverna em 1593. Foi contemporâneo de Shakespeare, tendo conseguido reconhecimento antes dele. Consta que introduziu o verso branco (com métrica, sem rimas) na linguagem teatral. A Trágica História do Doutor Fausto é uma de suas obras mais conhecidas e influenciou a muitos posteriormente (Goethe, por exemplo). Foi escrita provavelmente em 1580, e publicada postumamente. Trata-se da história do estudioso alemão Fausto, que vende sua alma para o demônio, representado na figura de Mefistófeles, em troca de mais conhecimento, poder e extravasar os limites humanos. Uma curiosidade da peça: Além de Mefistófeles, há também Lúcifer e Belzebu. Este é o famoso solilóquio de Fausto, momentos antes de levado para o inferno pelos demônios. </p>
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<p>FAUSTO<br />
(A TRÁGICA HISTÓRIA DO DOUTOR FAUSTO DE CHRISTOPHER MARLOWE)</p>
<p>Ah, Fausto, você tem menos de uma hora de vida agora, e, depois, será<br />
a condenação eterna. Ah, esferas celestes em eterno movimento, detenham-se!<br />
Que o tempo cesse de correr e a meia-noite jamais chegue. Olhos brilhantes da<br />
natureza, ergam-se! Ergam-se novamente e façam de hoje um dia perpétuo.<br />
Ou permitam que esta hora seja um ano, um mês, uma semana, um dia.<br />
Que Fausto possa ainda se arrepender e salvar a sua alma.<br />
Oh, cavalos da noite, diminuam sua marcha, vão devagar!<br />
Mas as estrelas continuam se movendo, o tempo corre, o relógio logo baterá<br />
outra vez, o demônio chegará&#8230; e Fausto está condenado. Mas não, vou me<br />
atirar nos braços de Deus! Quem está me retendo? Vejam, vejam, se o sangue<br />
de Cristo fosse um filete percorrendo o firmamento, bastaria uma gota dele para<br />
me salvar. Oh, meu Jesus! Ah! Não rasgue meu coração por mencionar o nome<br />
de meu Salvador! E mesmo assim chamarei por Ele. Ó Lúcifer, me poupe!<br />
Onde ele está, agora? Desapareceu! E veja o ponto onde Deus me estende Seu<br />
braço, me apontando, e franze Seu cenho, irado. Montanhas, colinas, venham,<br />
caiam sobre mim e me ocultem da pesada fúria de Deus. Não? Não? Então, eu<br />
me precipitarei nas entranhas da terra. Terra, abra-se! Ah, não, a terra não vai me<br />
dar abrigo. Vocês, estrelas, que reinaram sobre o meu nascimento, cuja influência<br />
determinou a morte e o inferno, agora envolvam Fausto numa névoa mística, nas<br />
reentrâncias de nuvens de magníficas tempestades, de modo que, quando<br />
vomitarem sua raiva no ar, meus membros possam ser projetados de suas bocas<br />
fumarentas e minha alma, então, possa ascender aos céus. [Bate o relógio]<br />
Ah, passou-se meia hora. Logo tudo estará terminado! Oh, Deus, onde está a Vossa<br />
misericórdia? Não é ela infinita? Então, se não é Seu desejo ter piedade de minha alma,<br />
ainda assim, em nome de Cristo, cujo sangue resgatou meus pecados, pelo menos<br />
imponha um fim ao meu tormento infernal. Que Fausto padeça por mil anos, por cem<br />
mil anos, para, a seguir, ser salvo. Ah, não! Não há um fim para os tormentos de uma<br />
alma condenada. Ah, por que não sou uma criatura sem alma? Que imortalidade é essa<br />
que me foi dada? Se a Metempsicose de Pitágoras fosse verdadeira, essa alma sairia<br />
de mim, voaria para o ar e se transformaria em alguma besta brutal. Todas as bestas<br />
são felizes porque, quando morrem, suas almas se dissolvem entre os elementos,<br />
mas a minha deve viver para sempre, sofrendo, no inferno. Malditos sejam os pais<br />
que me geraram! Não, Fausto, amaldiçoe a você mesmo. Amaldiçoe Lúcifer, que<br />
o privou das alegrias do Paraíso. [O relógio bate meia-noite] Ah, o relógio bateu.<br />
Agora, corpo, torne-se ar, ou Lúcifer, depressa, o arrebatará para o inferno.<br />
[Relâmpagos, trovões] Ó alma, torne-se pequenas gotas de água e derrame-se<br />
no oceano para jamais ser encontrada! Meu Deus! Meu Deus! Não olhe para mim<br />
com essa raiva toda! [Entram Belzebu, Mefistófeles e outros demônios] Víboras,<br />
serpentes, deixem-me respirar por mais um instante! Tenebroso inferno, não se abra!<br />
Não venha, Lúcifer! Vou queimar meus livros, todos eles, prometo! Mefistófeles!</p>
<p>William Shakespeare nasceu em Stratford-upon-Avon em 23 de abril de 1564 e morreu no mesmo lugar em 23 de abril de 1616. Percorreremos em pouco mais de duas semanas alguns célebres solilóquios de suas peças com a difícil tarefa de resumi-las em poucas linhas. Romeu e Julieta, se não a mais montada, é, com certeza, a peça mais amada da história. O primeiro registro do texto é de 1597, de um ou dois autores que o tinham reconstituído de memória. O definitivo aparece em 1599 já com as características do nosso querido bardo. A peça se passa e Verona, onde, duas famílias, Capuletos e Montéquios sustentam um ódio mútuo. Há uma festa na casa dos Capuletos, onde, Romeu Montéquio, seu primo Benvólio e seu amigo Mercúcio, parente do príncipe de Verona, invadem para se divertir. Lá, Romeu se apaixona por Julieta Capuleto, sem saber de sua estirpe. Se casam escondidos. A paixão ganha proporções trágicas quando Teobaldo acidentalmente mata Mercúcio numa briga e depois é morto por Romeu. Romeu é banido da cidade. Para que fiquem juntos, Frei Lourenço, sugere que Julieta beba uma poção que a deixará como morta por dois dias e, assim, fugirem juntos. Porém, Romeu recebe a notícia que Julieta morrera. Desesperado, vai ao cemitério e se mata bebendo veneno nos braços da amada. Julieta, ao acordar, também se mata com um punhal. Este é o famoso soliloquio do riquíssimo personagem Mercúcio, antes de invadirem a festa na casa dos Capuletos. Mais amanhã.</p>
<p>MERCÚCIO<br />
(ROMEU E JULIETA DE WILLIAM SHAKESPEARE)</p>
<p>Sonhei que Mab, a rainha, o visitou.<br />
É a parteira das fadas e ela vinha<br />
Como uma ágata pequenininha<br />
No dedo indicador de um conselheiro.<br />
Puxada por um par de vermezinhos<br />
A correr no nariz do adormecido.<br />
Uma casca de noz é sua carruagem,<br />
Feita por um esquilo carpinteiro;<br />
Que sempre foi das fadas carreteiro.<br />
As varas são perninhas de uma aranha,<br />
Asas de gafanhoto sua cobertura;<br />
As rédeas vêm de teias pequeninas,<br />
E a canga, de résteas de luar.<br />
O seu chicote é um ossinho de grilo,<br />
Seu cocheiro, uma mosca varejeira cinza<br />
Que não é nem metade de uma larva<br />
Que uma donzela tira do dedinho;<br />
Assim cavalga ela pela noite<br />
E, atravessando o cérebro do amante,<br />
Faz nascerem ali sonhos de amor;<br />
Nos joelhos dos nobres, cortesias,<br />
No dedo do advogado, grandes ganhos;<br />
Os lábios das donzelas sonham beijos,<br />
Mas Mab, zangada, faz nascerem bolhas<br />
Nos que encontra borrados por bombons.<br />
Se pesa no nariz de um cortesão,<br />
Ela sonha com o cheiro de favores;<br />
Às vezes passa o rabo de um leitão<br />
Pelo nariz de um cura adormecido,<br />
E o faz sonhar com mais uma prebenda.<br />
Se passa no pescoço de um soldado,<br />
Seu sonho é com a degola do inimigo,<br />
Ou com assaltos, aço e emboscadas,<br />
Ou mares de bebida; e, logo após,<br />
Toca o tambor no ouvido, ele desperta<br />
Assustado, e, depois de uma oração ou duas,<br />
Dorme de novo. É essa aquela Mab<br />
Que embaraça a crina dos cavalos<br />
E assa as carapinhas dos capetas<br />
Que, penteadas, trazem grandes males.<br />
É essa a velha que, se uma donzela<br />
Adormece de costas, deita em cima<br />
E a ensina a arcar com um peso vivo,<br />
Pra aprender a pesar com outras cargas.<br />
É ela&#8230;</p>
<p>Após terem se apaixonado na festa da casa dos Capuletos, já sabendo que ambos eram de famílias rivais, Romeu segue sua volúpia, sua flamejante libido recém desperta por Julieta e pula os muros de seu pomar após a festa. É a famosa cena do balcão. Romeu a observa, balbucia sua paixão sem chamar atenção. Está escondido. Quando ouve Julieta, com os braços abertos dizer: Romeu, Romeu, por que há de ser Romeu, negue seu pai, renuncie esse nome; Ou se não quiser, jure só que me ama e eu não serei mais dos Capuletos. Romeu não aguenta mais e aparece. Julieta se apavora. Eles se veem. Há de novo a flama. Após algumas belas palavras de Romeu, Julieta, se abre.</p>
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<p>JULIETA<br />
(ROMEU E JULIETA DE WILLIAM SHAKESPEARE)<br />
tradução de Bárbara Heliodora</p>
<p>O meu rosto usa máscara da noite,<br />
Mas, de outro modo eu enrubesceria<br />
Por tudo que foi dito até aqui.<br />
Queria ser correta e renegar<br />
Tudo o que eu disse. Mas adeus, pudores!<br />
Me amas? Sei que vais dizer que sim,<br />
E aceito tua palavra. Se jurar,<br />
Pode ser falso. E dizem que Zeus ri<br />
Dos perjúrios do amor. Doce Romeu,<br />
Se me amas, mesmo, afirme-o com fé.<br />
Mas, se pensar que eu fui fácil demais,<br />
Serei severa e má, e direi não,<br />
Pra que me implore; de outra forma, nunca.<br />
Na verdade, Montéquio, ouso demais,<br />
E posso parecer-lhe leviana;<br />
Mas garanto, senhor, ser mais fiel<br />
Que as que, por arte, fazem-se de difíceis.<br />
Eu seria difícil, devo confessar,<br />
Se não ouvisse, sem que eu soubesse,<br />
Minha grande paixão; então perdoe-me<br />
E não julgue o amor que, cedo,<br />
O peso desta noite revelou.</p>
<p>Quando Romeu encontra o corpo de Julieta, morta, decide que ali também será o fim de sua vida. Não sabia que Julieta havia tomado uma poção que a deixaria como morta por dois dias. Julieta a tomara para fugir do casamento com Páris, pois, morta, poderia fugir com Romeu. Romeu não foi avisado do plano a tempo e se mata tomando veneno. Julieta, ao acordar, vê seu amado morto. Não aguenta a dor e se mata com um punhal. Este é o solilóquio de Romeu antes de se matar.</p>
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<p>ROMEU<br />
(ROMEU E JULIETA DE WILLIAM SHAKESPEARE)</p>
<p>Assim farei; deixe-me ver seu rosto.<br />
O primo de Mercúcio, o nobre Páris.<br />
O que disse o pajem quando minh&#8217;alma tonta,<br />
Não lhe dava atenção? Creio ter dito<br />
Que Páris ia casar com Julieta.<br />
Não disse isso? Ou será que sonhei?<br />
Ou fiquei louco, ao falar de Julieta,<br />
E pensei que foi isso? Dê-me a mão,<br />
Inscrita como a minha no infortúnio.<br />
Hei de enterrá-lo em cova triunfal.<br />
Cova? Não; junto a um esplendor de luz,<br />
Pois jaz aqui Julieta; e sua beleza<br />
Faz desta tumba festa luminosa.<br />
Morte, deita-te aí, junto a esse morto.<br />
Quantas vezes, logo antes de morrer,<br />
Um homem fica alegre? É o que chamam<br />
De fagulha mortal. E será isto<br />
Tal fagulha? Meu amor, minha esposa,<br />
A morte, que sugou-lhe o mel dos lábios,<br />
Inda não conquistou sua beleza.<br />
Não triunfou. A flâmula do belo<br />
É rubra em seus lábios e seu rosto,<br />
E o estandarte pálido da morte inda não tremula.<br />
Teobaldo, &#8216;stás aí, banhado em sangue?<br />
Que honraria mais posso eu prestar-te,<br />
Que, co&#8217;a mão que ceifou-te a juventude,<br />
Cortar a de quem foi te inimigo?<br />
Primo, perdão. Querida Julieta,<br />
Por que tão bela ainda? Devo crer<br />
Que a morte etérea está apaixonada,<br />
E que o esquelético monstro a prende aqui<br />
Pra, neste escuro, ser a sua amada?<br />
Só por medo que sim ficarei contigo<br />
E jamais do negror deste palácio<br />
Hei de partir. Aqui permanecerei<br />
Com os vermes, seus criados. Aqui mesmo<br />
Eu hei de repousar por todo o sempre,<br />
E libertar da maldição dos astros<br />
A carne exausta. Olhos, um olhar.<br />
Braços, o último abraço! E vós, oh lábios,<br />
Portal do alento, solene com este beijo<br />
Pacto eterno com a Morte insaciável.<br />
Vem, meu caminho amargo, insosso guia.<br />
Piloto insano atira neste instante<br />
Contra as rochas a barca desgastada.<br />
Ao meu amor! (bebe) Honesto boticário,<br />
Rápida é a droga. E assim, com um beijo, eu morro.</p>
<p>Datado provavelmente de 1601, chegou nas mãos de Shakespeare após ter passada pela mão de vários autores. Conta a história de Hamlet, príncipe da Dinamarca, que recebe a visita do fantasma do pai, recém morto, que revela seu assassino, Cláudio, seu irmão, tio de Hamlet. O jovem jura vingar-se, mas tem dúvidas quanto a isso. Não sabe se o fantasma está correto. No processo de investigação, Hamlet, finge estar louco para não levantar suspeitas. Hamlet corteja Ofélia, mas Polônio, pai de Ofélia, tanto quanto seu filho Laertes não crêem no interesse, acham que Hamlet está louco. Hamlet prepara uma peça de teatro dentro do castelo com o objetivo de desmascarar o tio. Dá certo, e Hamlet é banido por seu tio, sob um pretexto qualquer, para, na verdade, ser assassinado. Logo depois, Hamlet mata Polônio, sem querer. Ofélia enlouquece, morre. Hamlet escapa da morte e regressa. Num duelo de armas brancas com Horácio, Hamlet não bebe o veneno dado pelo rei, o que faz a rainha &#8220;à sua sorte&#8221;. A rainha morre, Hamlet envenena o tio à força. Laertes também morre, revelando a infâmia do rei. Hamlet, que havia sido ferido com a espada envenenada, também morre. Este é o famoso solilóquio do ato III.</p>
<p>HAMLET<br />
(Hamlet de William Shakespeare)<br />
tradução: Bárbara Heliodora</p>
<p>Ser ou não ser, essa é que é a questão:<br />
Será mais nobre suportar na mente<br />
As flechadas da trágica fortuna,<br />
Ou tomar armas contra um mar de escolhos<br />
E, enfrentando-os, vencer? Morrer &#8211; dormir,<br />
Nada mais; e dizer que pelo sono<br />
Findam-se as dores, como os mil abalos<br />
Inerentes à carne &#8211; é a conclusão<br />
Que devemos buscar. Morrer &#8211; dormir;<br />
Dormir, talvez sonhar &#8211; eis o problema:<br />
Pois os sonhos que vierem nesse sono<br />
De morte, uma vez livres deste invólucro<br />
Mortal, fazem cismar. Esse é o motivo<br />
Que prolonga a desdita desta vida.<br />
Quem suportara os golpes do destino,<br />
Os erros do opressor, o escárnio alheio,<br />
A ingratidão no amor, a lei tardia,<br />
O orgulho dos que mandam, o desprezo<br />
Que a paciência atura dos indignos,<br />
Quando podia procurar repouso<br />
Na ponta de um punhal? Quem carregara<br />
Suando o fardo da pesada vida<br />
Se o medo do que vem depois da morte -<br />
O país ignorado de onde nunca<br />
Ninguém voltou &#8211; não nos turbasse a mente<br />
E nos fizesse arcar co&#8217;o mal que temos<br />
Em vez de voar para esse, que ignoramos?<br />
Assim nossa consciência se acovarda,<br />
E o instinto que inspira as decisões<br />
Desmaia no indeciso pensamento,<br />
E as empresas supremas e oportunas<br />
Desviam-se do fio da corrente<br />
E não são mais ação. Silêncio agora!<br />
A bela Ofélia! Ninfa, em tuas preces<br />
Recorda os meus pecados.</p>
<p>Considerada por muitos como &#8220;a mais sanguinária das tragédias de Shakespeare&#8221;, Macbeth, foi concluída e apresentada, provavelmente, em 1606, porém, o texto, conta com um primeiro registro de 1623. Trata-se do caminho de Macbeth e sua mulher, Lady Macbeth, até o trono, acreditando encontrar a felicidade em tal posto. Macbeth assassina Duncan, Rei da Escócia, e inicia alí sua busca ao poder. Sempre se questionando e muito atormentado, Macbeth executa outros assassinatos, também pensando estar fazendo a coisa certa para justificar seus atos. Macbeth se consulta o todo tempo com as três bruxas que, num dado momento de crise, lhe revelam que &#8220;ninguém que tenha nascido de uma mulher fará mal a Macbeth&#8221;, e que ele &#8220;jamais será vencido até que a Grande Floresta de Birnam vá até as alturas do Monte Dusinane&#8221;. Todas as profecias se concretizam e Macbeth, apesar de ter conseguido chegar ao trono, morre pelas mãos de Macduff, um dos generais do exército do rei. Este é o famoso solilóquio de Macbeth, após saber que sua mulher morrera e pouco antes de saber que a floresta se aproximava, era o exército do rei camuflado com ramos e galhos.</p>
<p>MACBETH<br />
(MACBETH DE WILLIAM SHAKESPEARE)<br />
tradução Bárbara Heliodora</p>
<p>Ela só devia morrer mais tarde;<br />
Haveria um momento para isso.<br />
Amanhã, e amanhã, e ainda amanhã<br />
Arrastam nesse passo o dia-a-dia<br />
Até o fim do tempo pré-notado.<br />
E todo ontem conduziu os tolos<br />
À via em pó da morte. Apaga, vela!<br />
A vida é só uma sombra: um mau ator<br />
Que grita e se debate pelo palco,<br />
Depois é esquecido; é uma história<br />
Que conta o idiota, toda som e fúria,<br />
Sem querer dizer nada.</p>
<p>(entra o Mensageiro)<br />
Não tens língua? Depressa, a história.</p>
<p>Ricardo III é um drama histórico baseado na história verdadeira do Rei Ricardo III da Inglaterra. Sob o pretexto de que a situação na Inglaterra já fora melhor e de que tem direito ao trono, Ricardo, homem coxo e feio, se diz empurrado ao mal. Usando sempre a dissimulação e aos outros para chegar ao poder, Ricardo, primeiramente, elimina os sucessores ao trono para quando o rei morrer. Depois de ter matado o rei e seu filho, trata de seduzir Lady Anne, esposa de Príncipe Eduardo, recém morto. Mata seus filhos. Chega ao trono com ajuda de Buckingham, depois, não cumpre sua promessa de lhe conceder terras. Ricardo chega ao poder, mas logo tem que lutar por ele contra Richmond. Na batalha final, Ricardo diz seu famoso &#8220;My Kingdom for a horse&#8221; e morre pelas mãos de Richmond. Este é o solilóquio que Ricardo diz logo após ter tido um sonho terrível, sua morte não tardaria a chegar.</p>
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<p>RICARDO<br />
(RICARDO III DE WILLIAM SHAKESPEARE)<br />
tradução de Carlos A Nunes</p>
<p>Dai-me outro cavalo! Ligai minhas feridas!<br />
Tende piedade, Jesus! Chiu, tão-só sonhava.<br />
Ó covarde consciência, como me atormentas!<br />
As luzes ardem azuis, é a meia noite dos mortos.<br />
Gotas frias de terror são no meu corpo tremente.<br />
De que me receio? De mim próprio?<br />
Não é mais ninguém aqui. Ricardo ama Ricardo,<br />
 ou seja, eu e eu. E aqui um assassino? Não!<br />
Sim, sou eu! Então fuge. Quê, de mim próprio?<br />
Boa razão há, não me vá eu vingar!<br />
Quê, eu próprio contra mim próprio?<br />
Coitado de mim, eu amo-me a mim próprio. Porquê?<br />
Pelos bens que eu próprio a mim próprio ofereci?<br />
Oh, não, pobre coitado, antes a mim próprio tenho<br />
ódio por feitos odiosos que eu próprio cometi.<br />
Sou ruim vilão&#8230; mas minto, eu o não sou!<br />
Sandeu, diz bem de ti próprio! Sandeu, não uses de lisonja!<br />
Minha consciência tem milhares de línguas diferentes<br />
e cada língua me diz um conto diferente, e cada conto<br />
me condena como ruim vilão: perjúrio, perjúrio, no mais subido grau;<br />
assassínio, assassínio horrendo, no mais horrífico grau.<br />
Todos os pecados diferentes, todos cometidos<br />
em cada grau, se ajuntam diante o juiz todos bradando:<br />
“Culpado, culpado!” Em desespero cairei.<br />
Não há criatura que me ame, e se eu morrer,<br />
ninguém me lamentará&#8230;<br />
E porque o fariam, se eu próprio em mim<br />
próprio por mim próprio não encontro dó?<br />
Cuido que as almas de todos os que assassinei vieram<br />
a minha tenda, e cada qual me ameaçou que amanhã<br />
a vingança tombaria sobre a cabeça de Ricardo.</p>
<p>Considerada por muitos como a obra-prima definitiva do bardo, Rei Lear, foi escrita provavelmente em 1605, ou no início de 1606. No século XII, Geoffrey of Monmouth contou a história de Lear como sendo parte da história da Inglaterra, porém, Lyr ou Ler já era uma figura presente na lenda, mesmo que não muito definida. Lear foi reescrito algumas vezes até chegar em Shakespeare, que usou todos os textos como base. A grosso modo: Lear quer dividir seu reino entre as filhas. Cordélia, uma delas, o contraria, por não querer provar seu amor como havia pedido o rei. Lear, não compreende o amor da filha e a expulsa da Inglaterra e entregue ao Rei da França. Começa aí o calvário de Lear, que se arrepende, e volta-se contra sua filha Goneril, que se une a sua irmã, Regan, contra o pai. Lear é expulso, enlouquece, enquanto Edmundo, filho bastardo do conde Glócester, seduz Goneril e Regan e torna-se o comandante das forças inglesas. Resultado: Goneril envenena Regan por ciúmes e se mata; Glócester morre de desgosto; Cordélia é enforcada e Lear morre tentanto reavivar a filha. Este é o solilóquio onde Lear percebe sua loucura ouvindo as bajulações de Regan e Goneril.</p>
<p>LEAR<br />
(REI LEAR DE WILLIAM SHAKESPEARE)<br />
tradução de Bárbara Heliodora</p>
<p>Não pensem no que é preciso! até os mendigos<br />
Têm na sua miséria algo supérfulo.<br />
Só dando à natureza o necessário,<br />
A vida humana se iguala à das feras.<br />
A natureza não precisa do luxo<br />
Que te esquenta.Mas quando ao que preciso&#8230;<br />
Oh céus, dai-me paciência; é o que preciso!<br />
Deuses, aqui &#8216;stou eu, um pobre velho<br />
Infeliz pela dor e pela idade!<br />
Se colocastes os corações de tais filhas<br />
Contra o seu pai, não me deixeis qual tolo<br />
Suportá-lo; dotai-me de ira nobre,<br />
E não deixeis que armas femininas<br />
Me molhem as faces! Bruxas anormais,<br />
Hei de vibrar nas duas tais vinganças<br />
Que o mundo inteiro&#8230; Eu farei coisas,<br />
Não sei o que serão, mas hão de ser<br />
O horror da terra. Esperais que eu chore?<br />
Não não pra isso,<br />
(Ouve-se a tempestade ao longe)<br />
                          mas o peito<br />
Há de romper-se em cem mil estilhaços<br />
Antes que eu chore. Bobo, eu enlouqueço!</p>
<p>Fechando a série com Shakespeare, Henrique V é uma de suas peças históricas mais conhecidas. Encenada pela primeira vez em 1599, a ação centra-se nas batalhas de Harfleur e de Azincourt num dos conflitos que compõem a Guerra dos Cem Anos (1337-1453) e trata de um dos personagens mais importantes da história da Inglaterra, o monarca Henrique V, que governou de 1413 a 1422, pacificando a Inglaterra e consolidando a monarquia. É um texto essencialmente nacionalista onde, a todo momento, o Rei agradece aos céus pelos triunfos.  Este é o famoso discurso de Henrique V no Dia de São Crispino antes da batalha de Azincourt em pleno campo de batalha.</p>
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<p>HENRIQUE<br />
(HENRIQUE V DE WILLIAM SHAKESPEARE)<br />
tradução de Beatriz Viégas-Faria</p>
<p>Quem é este que deseja tal coisa? Meu primo<br />
Westmorland. Não, meu iluminado primo. Se estamos<br />
marcados para morrer, somos perda suficiente para o<br />
nosso país. Se marcados para viver, quanto menos homens,<br />
maior fração de glória competirá cada um. Pelo amor de Deus,<br />
eu lhe peço, não deseje nem um único homem a mais.<br />
Por Júpiter, não tenho ganância de ouro, nem me importa<br />
quantos comem às minhas custas. Não me entristece ver<br />
outro homem vestindo meus trajes. Essas coisas exteriores<br />
não habitam os meus desejos. Mas, se for pecado ter<br />
ganância de honra, sou a alma mais pecadora aqui neste mundo<br />
dos vivos. Não, meu primo, por minha fé, não peça por nem mais<br />
um homem da Inglaterra. Por Deus, não quero repartir com mais<br />
ninguém tão grande de honra, pois tenho grandes esperanças.<br />
Ah, primo, não queiras um único inglês a mais! Em vez disso,<br />
anuncie o seguinte: o homem que não tiver estômago para este<br />
combate está livre para partir. Seu salvo-conduto será confeccionado,<br />
e serão depositadas coroas francesas em sua bolsa para custear<br />
a passagem. Não queremos morrer na companhia desse homem<br />
que teme ter a sua pessoa morrendo conosco. Hoje é dia de São Crispino.<br />
Aquele que sobreviver ao dia de hoje e voltar para casa são e salvo<br />
ficará de ouvidos em pé sempre que este dia for mencionado e vai<br />
inflamar-se só de ouvir falar em São Crispino. Aquele que testemunhar<br />
o dia de hoje e viver até a velhice presenteará seus vizinhos todos os<br />
anos com um banquete, sempre na véspera, e dirá &#8220;Amanhã é dia<br />
de São Crispino&#8221;. Então ele vai arregaçar as mangas e mostrar<br />
os ferimentos e dizer: &#8220;Estas cicatrizes são herança do dia de São Crispino&#8221;.<br />
Os velhos se esquecem e, mesmo que ele tenha se esquecido de tudo,<br />
lembrará, contando vantagem, dos feitos que perpetrou naquele dia.<br />
Teremos então que os nossos nomes, na boca deste senhor idoso,<br />
tão comuns quanto as palavras que ele usa no dia-a-dia, serão pronunciados:<br />
o Rei Henrique, Bedford e Exeter, Warwick e Talboth, Salisbury e Gloucester,<br />
e serão todos lembrados uma vez mais, nos brindes de suas taças transbordantes.<br />
Esta história o bom homem há de ensinar ao filho, e não se passará um<br />
único dia de Crispino Crispiano, de hoje, até quando o mundo acabar, sem<br />
que sejamos lembrados. Nós, estes poucos; nós, um punhado de sortudos;<br />
nós, um bando de irmãos&#8230; pois quem derrama o seu sangue junto comigo<br />
passa a ser meu irmão. Pode ser homem de condição humilde; o dia de<br />
hoje fará dele um nobre. E os nobres que ficaram na Inglaterra, que estão<br />
agora em suas camas, irmão julgar-se amaldiçoados porque não estavam<br />
aqui e vão se considerar homens de menor virilidade sempre que ouvirem<br />
falar aquele que lutou conosco no dia de São Crispino.</p>
<p>Faremos uma pequena passagem pelo teatro do fim do século XIX até o início do século XX. Johan Augusto Strindberg nasceu em Estocolmo em 1849 e lá morreu em 1912. Foi escritor, dramaturgo, pintor e fotógrafo sueco. Escreveu poucos dramas, onde se destaca Senhorita Júlia, de 1888. A peça, O Pai, foi escrita em 1887, considerada &#8220;excelente&#8221; por Frederich Nietzsche, trata dos detalhes &#8220;explosivos&#8221; das relações dentro do casamento. O Capitão se vê cercado por mulheres (sua mulher Laura, a sogra, a governanta) que tentam a todo tempo controlar suas decisões e o futuro de sua filha, subtraindo assim seu &#8220;poder&#8221;. Pensado que toda mulher pode ter um filho sem precisar saber quem é o pai, e que, no caso do homem, isso é inadmissível, o Capitão quer a certeza que Bertha, é realmente sua filha, o que o leva à loucura. Aqui uma reflexão do Capitão sobre sua recente loucura e a perda de poder como homem dentro do casamento e da família. </p>
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<p>CAPITÃO<br />
(O PAI DE AUGUST STRINDBERG)<br />
tradução de Guilherme da Silva Braga</p>
<p>(larga os livros em cima da mesa) Tudo está salvo aqui<br />
nestes livros para quem quiser ler. Eu não estava louco!<br />
Está aqui no primeiro livro da Odisséia, verso 215, página<br />
seis da tradução de Uppsala. É Telêmaco quem fala a<br />
Atena. &#8220;De fato a minha mãe afirma que Odisseu é meu pai,<br />
mas disso não tenho certeza, pois ninguém descobre as<br />
origens de sí próprio&#8221;. E Telêmaco levanta essa suspeita<br />
a respeito de Penélope, a mais virtuosa das mulheres! Que<br />
beleza, hein? Aqui temos o profea Ezequiel: &#8220;O louco diz:<br />
eis aqui o meu pai, mas quem pode saber que semente<br />
o criou?&#8221;. Acho que está bem claro! o que mais tenho aqui?<br />
A história da literatura russa de Merzliákov: &#8220;O que matou<br />
Aleksandr Púchkin, o maior dos poetas russos, foi antes<br />
a angústia causada por rumores sobre a infidelidade da<br />
esposa do que a estocada que recebeu no peito em um<br />
duelo. No leito de morte, Púchkin jurou que ela lhe fora<br />
fiel&#8221;. Mas que imbecil, que imbecil! Como ele poderia<br />
jurar uma coisas destas? No entanto agora vocês sabem<br />
o que eu estava lendo em meus livros! &#8211; Ah, Jonas, você<br />
por aqui! Eo doutor, é claro! Vocês sabem o que eu respondi<br />
a uma senhora inglesa que uma vez se queixou para mim<br />
de que os irlandeses costumam jogar lamparinas de petróleo<br />
acesas no rosto das esposas? &#8211; Meu Deus, que mulheres! -<br />
eu disse. Mulheres? &#8211; ela resmungou. Claro! &#8211; respondi.<br />
Quando chega o ponto em que um homem, um homem<br />
que amou e idolatrou uma mulher, pega uma lamparina<br />
acesa e atira no rosto dela &#8211; é só aí que sabemos!</p>
<p>É com muito prazer que digo: Samuel Beckett nasceu em Dublin, Irlanda, no dia 13 de abril de 1906 e morreu em Paris em 22 de dezembro de 1989. Prêmio Nobel de 1969, na minha opinião, foi um dos maiores dramaturgos de século XX. Ao lado de Eugène Ionesco, Arthur Adamov, Jean Genet e, depois, Harold Pinter, &#8220;continuaram&#8221; o sonho de Jarry, naquilo que ficou conhecido como o teatro do absurdo. Maravilhoso. Esperando Godot é sua peça mais conhecida. Foi escrita em 1952 e não entrarei em nenhum tipo de interpretação da famosa espera, fica com cada um. A peça conta a história de Estragon, Vladimir, Pozzo, Lucky e um menino. Os dois primeiros se encontram numa estrada para esperar um tal de Godot. A peça de desenrola dentro da espera, onde, ambos, começam um diálogo trivial até a chegada de Pozzo e Lucky. Pozzo chega puxando Lucky por uma corda amarrada em seu pescoço, que causa estranheza em ambos. Um menino entra em cena avisando que Godot só chegaria no dia seguinte. No segundo ato, tudo igual, exceto pela árvore que está mudada. Os dois voltam a dialogar quando Pozzo e Lucky voltam, só que, Pozzo está cego e Lucky, surdo. Volta o menino com a mesma notícia. Este é o extenso solilóquio de Lucky, que nada dizia, até esse dado momento.</p>
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<p>LUCKY<br />
(ESPERANDO GODOT DE SAMUEL BECKETT)<br />
tradução de Fábio de Souza Andrade</p>
<p>Dada a existência tal como se depreende dos recentes trabalhos<br />
públicos de Poinçon e Wattmann de um Deus pessoal quaquaquaqua<br />
de barba branca quaqua fora o tempo e do espaço que do alto de sua<br />
divina apatia sua divina athambia sua divina afasia nos ama a todos<br />
com algumas poucas exceções não se sabe por quê mas o tempo dirá<br />
e sofre a exemplo da divina Miranda com aqueles que estão não se sabe<br />
por quê mas o tempo dirá atormentados atirados ao fogo às flamas às<br />
labaredas que por menos que isto perdure ainda e quem duvida acabarão<br />
incendiando o firmamento a saber levarão o inferno às nuvens tão azuis<br />
às vezes e ainda hoje calmas tão calmas de uma calma que nem por ser<br />
intermitente é menos desejada mas não nos precipitemos e considerado<br />
por outro lado os resultados da investigação interrompida mas consagrada<br />
pela Academia Antropopopometria de Berna-sobre-Bresse de Testu e Conard<br />
ficou estabelecido sem a menor margem de erro tirante a intrínseca a todo<br />
e qualquer cálculo humano que considerando os resultados da investigação<br />
interrompida interrompida de Tesu e Cunard ficou evidente dente dente o<br />
seguinte guinte guinte a saber mas não nos precipitemos não se sabe<br />
por quê acompanhando os trabalhos de Poinçon e Wattmann evidencia-se<br />
claramente tão claramente que à luz dos esforços de Fartov e Belcher<br />
interrompidos interrompidos não se sabe por quê de Tesu e Conard<br />
interrompidos interrompidos evidencia-se que o homem ao contrário<br />
da opinião contrária que o homem em Bresse de Tesu e Conard que o<br />
homem enfim numa palavra que o homem numa palavra enfim não<br />
obstante os avanços na alimentação e na defecação está perdendo peso<br />
e ao mesmo tempo paralelamente não se sabe por quê não obstante os<br />
avanços da educação física na prática de esportes tais quais quais o<br />
tênis o futebol a corrida o ciclismo a natação a equitação a aviação a<br />
conação o tênis a camogia a patinação no gelo e no asfalto o tênis a<br />
aviação o tênis o hockey na terra no mar no ar a penicilina e seus<br />
sucedâneos numa palavra recomeço ao mesmo tempo paralelamente<br />
de novo não se sabe por quê no Sena Sena-e-Oise Sena-e-Marne<br />
Marne-e-Oise a saber ao mesmo tempo paralelamente não se sabe<br />
por quê está perdendo peso e encolhendo recomeço Oise e Marne numa<br />
palavra a perda líquida per capita desde a morte de Voltaire sendo da ordem<br />
de por volta de duzentos gramas aproximadamente na média arredondando<br />
bem pesados e pelados na Normandia não se sabe por quê numa palavra<br />
enfim tanto faz fatos são fatos e considerando por outro lado o que é ainda<br />
mais grave se evidencia ainda mais grave à luz de à luz das experiências<br />
em curso de Steinweg e Petermann o que se evidencia ainda mais grave se<br />
evidência ainda mais grave à luz de à luz das experiências interrompidas<br />
de Steinweg e Petermann que nas planícies na montanha no litoral junto aos<br />
rios de água corrente fogo corrente o ar e a terra feitos de pedras na grande<br />
glaciação ai de mim no sétimo ano da sua era o éter a terra o mar feitos de<br />
pedras na grande escuridão na grande glaciação sobre o mar sobre a terra<br />
e pelos ares que pena recomeço não se sabe por quê recomeço adiante<br />
numa palavra enfim ai de mim adiante feitos de pedras quem poria em<br />
dúvida recomeço mas não nos precipitemos recomeço a cabeça ao mesmo<br />
tempo paralelamente não se sabe por quê não obstante o tênis adiante a<br />
barba as labaredas as lágrimas as pedras tão azuis tão calmas ai de mim<br />
a cabeça a cabeça a cabeça a cabeça na Normandia não obstante o tênis<br />
os esforços interrompidos inacabados mais grave as pedras numa palavra<br />
recomeço ai de mim ai de mim interrompidos inacabados a cabeça a cabeça<br />
na Normandia não obstante o tênis a cabeça ai de mim as pedras Conard Conard&#8230;<br />
(confuso, Lucky deixa escapar ainda vociferações_ Tênis!&#8230; As pedras!&#8230;<br />
Tão calmas!&#8230; Conard!&#8230; Inacabadas!&#8230;</p>
<p>Também é com enorme prazer que digo: Thomas Stearns Eliot nasceu em St Louis, EUA, no dia 26 de setembro de 1888 e morreu em Londres em 4 de janeiro de 1965. Foi, de longe, um dos maiores poetas do século XX. Laureado com o prêmio Nobel em 1948, escreveu poemas antológicos como The Love Song of J. Albert Prufrock e The Waste Land. Escreveu cinco peças de teatro, onde, destaca-se Cocktail Party. A peça Reunião de Família se passa numa casa de campo no Norte da Inglaterra, onde, a velha Amy, prepara um jantar. Harry, seu filho mais velho, reaparece na casa após oito anos de ausência. Ainda atormentado pela morte da esposa, Harry descobre, aos poucos, os demônios escondidos no passado da família. O jantar vai se tornando um pesadelo quando descobre que seu próprio pai tentara matá-lo quando ainda estava no ventre da mãe. Este é o solilóquio do Coro antes do fim da peça.</p>
<p>CORO<br />
(REUNIÃO EM FAMÍLIA DE T.S ELIOT)<br />
tradução de Ivo Barroso</p>
<p>Não gostamos de olhar pela mesma janela e ver uma paisagem<br />
de todo diferente.<br />
Não gostamos de subir uma escada e descobrir que ela nos leva<br />
para baixo.<br />
Não gostamos de atravessar uma porta e nos encontrarmos de<br />
novo na mesma sala.<br />
Não gostamos do labirinto do jardim porque parece demais com o<br />
labirinto do cérebro.<br />
Não gostamos do que acontece quando estamos acordados porque<br />
se parece demais com o que acontece quando estamos adormecidos.<br />
Compreendemos os normais afazeres da vida,<br />
Sabemos como operar as máquinas,<br />
Conseguimos em geral evitar acidentes,<br />
Estamos assegurados contra o fogo,<br />
Contra o furto e as doenças,<br />
Contra os defeitos dos encanamentos,<br />
Mas não contra a vontade de Deus.<br />
Conhecemos várias magias e encantamentos,<br />
E outras formas inferiores de feitiçaria,<br />
Adivinhações e quiromancia,<br />
Específicos contra a insônia,<br />
Lumbago e a perda de dinheiro.<br />
Mas o ciclo do nosso entendimento<br />
É uma área muito limitada.<br />
Exceto por um restrito número<br />
De desígnios estritamente práticos,<br />
Não sabemos de fato o que fazemos;<br />
E mesmo, quando pensamos a respeito,<br />
Não sabemos muito sobre o ato de pensar.<br />
Que está acontecendo no exterior do círculo?<br />
E qual o significado de acontecer?<br />
Que emboscada nos espera além das urzes<br />
Ou por trás das carrancas monolíticas?<br />
Acima da Camada de Heaviside<br />
E por trás do sorriso da Lua?<br />
O que foi feito conosco?<br />
E o que somos nós e o que fazemos?<br />
Para todas e cada uma destas perguntas<br />
Não há resposta concebível.<br />
Sofremos muito mais do que uma perda pessoal&#8230;<br />
Perdemos nosso caminho no escuro.</p>
<p>Anton Pavlovitch Tchékhov nasceu em Taganrog, Rússia, no dia 29 de janeiro de 1860 e morreu em Badenweiler em 14 ou 15 de julho de 1904. Curiosamente, além do grande dramaturgo e contista que foi, era também médico. Escreveu peças que se tornaram clássicos do teatro como: A gaivota, As três irmãs, Tio Vânia e o Jardim das Cerejeiras (está última é uma beleza). As Três Irmãs conta a história de Irina, Macha e Olga Prosorov, que veem suas esperanças despertarem após um ano de luto em virtude da morte do pai. Elas desejam intensamente voltar para Moscou, onde a vida volta a ser mais interessante, pois todas foram criadas na cidade grande e não se adaptaram à vida no campo. Elas apoiam suas esperanças no irmão Andrey, que, infelizmente, se apaixona por Natasha, desiste de ser tornar um professor e vicia-se em jogo. Após alguns percalços amorosos, seu sonho de voltar a Moscou não se realiza. Este é o pequeno monólogo de Olga após saber que não mais voltarão para Moscou</p>
<p>OLGA<br />
(AS TRES IRMÃS DE ANTON TCHÉKHOV)<br />
tradução de Klara Gouriánova</p>
<p>A música é tão alegre, tão animadora<br />
e dá vontade de viver! Oh, meu Deus!<br />
O tempo vai passar e nós iremos com ele,<br />
para sempre. Esquecerão de nós, dos<br />
nossos rostos, das nossas vozes e de<br />
quantas éramos, mas o nosso sofrimento<br />
vai se transformar em alegria daqueles<br />
que viverão depois de nós, a felicidade<br />
e a paz reinarão na Terra e aqueles que<br />
vivem agora serão lembrados com boas<br />
palavras e serão abençoados. Oh, minhas<br />
queridas irmãs, nossa vida ainda não<br />
terminou. Vamos viver! A música é tão<br />
alegre, tão feliz, parece que mais um<br />
pouquinho e saberemos por que vivemos,<br />
por que sofremos&#8230; Ah, se pudéssemos<br />
saber, se pudéssemos saber!</p>
<p>Terminando os dramaturgos-poetas do século XX em grande estilo e, ao meu ver, bem solto. Eugène Ionesco nasceu em Slatina, Romênia, no dia 26 de novembro de 1909 e morreu em Paris, no dia 28 de março de 1994. O termo mais usado é &#8220;Pai do teatro do absurdo&#8221;, &#8220;para um texto burlesco, uma interpretação dramática; para um texto dramático, uma interpretação burlesca’, assim definia-se o tom. A Cantora Careca foi escrita em 1954 e conta a história de Sr e Sra Smith, que dizem banalidades um para o outro, até a criada, Mary, anunciar a visita dos Martin. Entram, se sentam, começam a conversar, até perceberem, pelas coincidências, que são marido e mulher. Depois entra um Bombeiro em busca de um incêndio que não há. O bombeiro vai embora e a conversa continua entre os quatro. Esta é a história que o Bombeiro conta a pedido de Sr e Sra Smith.</p>
<p>BOMBEIRO<br />
(A CANTORA CARECA DE EUGÈNE IONESCO)<br />
tradução de Luiz de Lima</p>
<p>O resfriado. (sentam-se todos) Meu cunhado tinha do lado paterno,<br />
um primo irmão, cujo tio paterno tinha um sogro cujo avô paterno tinha<br />
desposado em segundas núpcias, uma jovem indígena, cujo irmão tinha<br />
encontrado, numa de suas viagens, uma moça de quem ele tinha se<br />
enamorado e da qual teve um filho que se casou com uma farmacêutica<br />
intrépida e era sobrinha de um oficial desconhecido da marinha de Sua<br />
Majestade a Rainha da Inglaterra (erguem-se todos e tornam a sentar)<br />
e cujo pai adotivo tinha uma prima falando correntemente o espanhol<br />
 e que era talvez uma das netas de um enfermeiro morto muito moço<br />
neto ele por sua vez de um proprietário de vinhas que dava um licor<br />
medíocre mas que tinha um primo em segundo grau, caseiro, sargento,<br />
cujo filho casara com uma linda moça divorciada, cujo primeiro marido<br />
era filho de um sincero patriota, que tinha sabido educar na ambição<br />
de fazer fortuna uma de suas filhas, que se casou com um caçador<br />
que conheceu um Rotschild e cujo irmão, depois de ter mudado várias<br />
vezes de profissão, se casou e teve uma filha, cujo bisavô avarento<br />
usava óculos que lhe tinha presenteado um seu primo, cunhado de um<br />
português, filho natural de um oleiro não muito pobre, cujo irmão de leite<br />
tomou por mulher a filha de um velho médico do interior, irmão de leite<br />
do filho de um leiteiro, ele mesmo filho natural de um outro médico de<br />
interior, casou duas vezes seguidas, cuja terceira mulher&#8230;</p>
<p>Agora, o teatro brasileiro. Plínio Marcos nasceu em Santos, São Paulo, no dia 29 de setembro de 1935 e morreu em São Paulo no dia 19 de novembro de 1999. Escreveu peças que se tornaram clássicos no teatro brasileiro, com especial devoção para Quando as Máquinas Param (1963); Dois Perdidos Numa Noite Suja (1966) e Navalha na Carne. Plínio retratou como ninguém as relações do submundo, dos &#8220;excluídos&#8221;. Navalha na Carne conta um dia na vida de três figuras: A prostituta Neusa Sueli, o cafetão Vado e o servente homossexual, Veludo. Vado exige de Neusa Sueli o dinheiro do programa, que Neusa diz ter colocado no criado-mudo. Após uma grande discussão, suspeitam que Veludo pode ter pego o dinheiro. Chamam Veludo, que prontamente nega, porém, logo confessa após apanhar um pouco. Depois disso, Vado toma de Veludo a maconha comprada por ele. Fuma, e começa um tórrido jogo de sedução e provocação entre os dois. Neusa fica irada e expulsa Veludo. A peça termina com Vado trancando Neusa no quarto após seduzí-la. Este é o famoso solilóquio de Neusa refletindo sobre sua vida, após ter suas coisas jogadas no chão por Vado.</p>
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<p>NEUSA SUELI<br />
(NAVALHA NA CARNE DE PLÍNIO MARCOS)</p>
<p>Pára com isso! Pára! Por favor, pára! Poxa, será que você<br />
não se manca? Será que você não é capaz de lembrar que<br />
venho da zona cansada pra chuchu? Ainda mais hoje.<br />
Hoje foi um dia de lascar. Andei pra baixo e pra cima, mais<br />
de mil vezes. Só peguei um trouxa na noite inteira. Um<br />
miserável que parecia um porco. Pesava mais de mil quilos.<br />
Contou toda a história da puta da vida dele, da puta da mulher<br />
dele, da puta da filha dele, da puta que o pariu. Tudo gente<br />
muito bem instalada na vida na puta da vida. O desgraçado<br />
ficou em cima de mim mais de duas horas. Bufou, bufou,<br />
babou, babou, bufou mais pra pagar, reclamou pacas.<br />
Desgraçado, filho da puta. É isso que acaba com a gente&#8230;<br />
Isso cansa a gente. A gente só quer chegar em casa, encontrar<br />
o homem de cara legal, tirar aquele sarro e se apagar, pra<br />
desforrar de toda a sacanagem do mundo de merda que está aí.<br />
Resultado: você está de saco cheio por qualquer coisinha, então<br />
apronta. Bate na gente, goza a minha cara e na hora do bem-bom,<br />
sai fora. Poxa, isso arreia qualquer uma. Às vezes chego a pensar:<br />
Poxa, será que eu sou gente? Será que eu, você, o Veludo, somos<br />
gente? Chego até a duvidar. Duvido que gente de verdade viva assim,<br />
um aporrinhando o outro, um se servindo do outro. Isso não pode<br />
ser coisa direita. Isso é uma bosta. Uma bosta! Um monte de bosta!<br />
Fedida! Fedida! Fedida!</p>
<p>Os célebres solilóquios não são uma característica na obra teatral de Nelson Rodrigues (Recife, 23 de agosto de 1912 &#8211; Rio de Janeiro, 21 de dezembro de 1980). Porém, encontrei uma fala, não por ser extensa, mas por conter maneiras de pensar que caracterizam bem alguns personagens de Nelson, no caso, sobre a morte, e que nos fazem tremer quando nos vimos nele. Teatro minha gente! Pois bem, esta é de Gastão, na tardia &#8216;O Anti-Nelson Rodrigues&#8217;. A peça foi aos palcos em 1974 sob direção de Paulo César Pereio. Conta a história de Oswaldinho, filho de Gastão e Tereza, um jovem mimado pela mãe e desprezado pelo pai. Inescrupuloso, ladrão e mulherengo, se torna o dono de uma da fábricas do pai e se apaixona por uma das recém contratadas, a jovem Joice. Acostumado a ter tudo que quer, Oswaldinho tenta comprar Joice, que sempre reluta, pois só quer seu amor. Aqui Gastão suspeita de algo que o incomoda.</p>
<p>GASTÃO<br />
(O ANTI-NELSON RODRIGUES DE NELSON RODRIGUES)</p>
<p>Não fecho nada. Tereza, escuta. Uma vez, eu vi um filme italiano.<br />
Era uma história de bandido. História feroz, sem nenhuma vergonha<br />
do dramalhão. E lá havia o velório genial, o velório que cada um<br />
deseja para si. O bandido estava na mesa do necrotério, e cravejado<br />
de balas. E de repente chega a mãe do defunto. Minha mulher, está<br />
ouvindo? Qualquer grande dor tem gritos que ninguém ouviu, jamais.<br />
Mas nenhuma mãe, em nenhum idioma, berra, uiva, como a mãe<br />
daquele morto. Era a mais siciliana das sicilianas. Ao ver o cadáver,<br />
esganiçou todos os gritos do seu espanto. Ah, Tereza, Tereza. Na<br />
minha poltrona, eu tive uma sensação de deslumbramento. E aquela<br />
mãe devoradora começou beijando o dedo grande do pé. Não beijou<br />
apenas. o que seria pouco para sua fome. Ela sorvia os dedos um por um,<br />
como aspargos. Ah, meu Deus, aquela boca continuou beijando &#8211; a sola<br />
do pé, o calcanhar, as canelas. Nada restou que não fosse beijado. E eu<br />
sei que também vou morrer, não varado de balas. Deus quer que eu tenha<br />
enfarte, que é a morte da moda. Essa dor manhosa no braço esquerdo<br />
não me engana. Eu sei que é minha morte que está doendo mansamente.<br />
Eu penso no bandido. Mas sei que não vou ser chorado assim, beijado<br />
assim, amado assim.<br />
Se não ouvisse a minha morte, ouve meu sonho. Um sonho de uma<br />
semelhança espantosa com a realidade. Sonhei que meu filho vinha<br />
me dizer: &#8211; &#8220;Sou eu que escrevo as cartas anônimas, eu!&#8221; E começou<br />
a chorar como um menino. Depois, caiu aos meus pés e beijou os meus<br />
sapatos. Tereza, se meu filho fizesse isso, eu estaria salvo, não morreria<br />
mais. E se morresse, seria beijado como o maravilhoso defunto siciliano.</p>
<p>José Oswald de Sousa Andrade Nogueira nasceu em São Paulo no dia 11 de janeiro de 1890 e lá morreu em 22 de outubro de 1954. Como muitos sabem, foi um dos personagens mais importantes para Modernismo Brasileiro. Humor, entusiasmo, busca pelo novo e por uma identidade artística nacional. O Rei da Vela é considerado o marco teatral modernista. Escrita a partir de 1933 após a crise de 29, que muito afetou Oswald, só foi montada 30 anos depois na antológica apresentação de Zé Celso Martinez Correa. Conta a história do agiota Aberlado I, o Rei da Vela, que faz empréstimos a juros altíssimos. Abelardo é um burguês ascendente, que trabalha em diversos ramos, sempre especulando. Abelardo II é um empregado que tenta tomar seu lugar. Heloisa de Lesbos é sua mulher, que representa a decadência das famílias fazendeiras. Abelardo II rouba toda a fortuna de Abelardo I, que se mata. Na peça há &#8220;desvios&#8221; sexuais entre todos os personagens, numa podrosa crítica à sociedade. Este é um belo trecho de Abelardo I num momento de crise.</p>
<p>ABELARDO I<br />
(O REI DA VELA DE OSWALD DE ANDRADE)</p>
<p>Tão esperto! Olhe menina. Eu fui um porcalhão!<br />
Sabe você a quem a burguesia devia erguer estátuas?<br />
Aos caixas dos bancos! Esses sim é que são colossais!<br />
Firmes como a rocha. Os homens que resistem à tentação<br />
da nota. Sabendo para onde ela vai, para que ela serve,<br />
donde vem, que infâmias pode tecer&#8230; Os que recusam<br />
o chamado da nota! Antigamente, quando a burguesia ainda<br />
era inocente&#8230; A burguesia já foi inocente, foi até revolucionária&#8230;<br />
Nos bons tempos do romantismo, antes do cinema devassar<br />
o mundo, acreditava-se no chamado do Oriente, esse apelo<br />
insondável dos países misteriosos e tardos, onde, no fundo -<br />
o cinema depois divulgou -, só havia exploração imperialista<br />
e palmeiras, mais nada. Na época moderna, para nós, classe<br />
dirigente, minha amiga, só há um chamado &#8211; chamado da nota!<br />
Eu não soube resistir ao chamado da nota! Sendo Rei da Vela,<br />
banquei o Rei do Fósforo. Também me apossei do que pude!<br />
Joguei numa terrível aventura, todas as minhas possibilidades!<br />
Pus as mãos no que não era meu. Blefei quanto pude! Mas fui<br />
vergonhosamente batido por um coringa&#8230; Pois bem! O Rei da Vela<br />
não será indigno do Rei do Fósforo!&#8230;<br />
(agita o revólver)</p>
<p>Francisco Buarque de Holanda nasceu no Rio de Janeiro no dia 16 de junho de 1944. Paulo Pontes nasceu em Campina Grande, Paraíba, no dia 8 de novembro de 1940 e morreu no Rio de Janeiro no dia 27 de dezembro de 1976. Escreveram juntos Gota D&#8217;Água em 1975. É uma adaptação de Medéia, de Eurípides. Tal como na tragédia grega, Jasão, um sambista morador da Vila do Meio-Dia, larga a mulher, Joana, para casar-se com Alma, filha do rico empresário Creonte. Trata-se de um belo musical, com Joana sendo interpretada por Bibi Ferreira na primeira montagem e direção de Gianni Ratto. Aqui o Desabafo de Joana para Jasão, revendo tudo aquilo que passara com o marido ao saber que Jasão a trocara por Alma.</p>
<p>JOANA<br />
(GOTA D&#8217;ÁGUA DE CHICO BUARQUE E PAULO PONTES)</p>
<p>Pois bem, você vai escutar as conta que eu vou lhe fazer.<br />
Te conheci moleque, frouxo, perna bamba, barba rala,<br />
calça larga, bolso sem fundo, não sabia nada de mulher,<br />
nem de samba e tinha um bruto medo de olhar pro mundo,<br />
As marcas do homem, Jasão, uma a uma, hein,<br />
tu tirou todas de mim.<br />
O primeiro filho, o primeiro prato, o primeiro violão,<br />
o primeiro refrão, o primeiro estribilho, te dei cada<br />
sinal do teu temperamento, te dei matéria prima<br />
para o teu tutano, e mesmo essa ambição, que nesse<br />
momento se volta contra mim, eu te dei por engano!<br />
Fui eu, Jasão, você não se encontrou na rua não!<br />
Você andava tonto quando eu te encontrei,<br />
fabriquei energia que não era tua, pra iluminar uma<br />
estrada que eu te apontei,<br />
e foi assim, do nada, que eu vi nascer uma alma ansiosa,<br />
faminta, preguiçosa, uma alma de homem, enquanto eu,<br />
enciumada dessa explosão, ao mesmo tempo vaidosa<br />
e orgulhosa de ti, Jasão, era feliz, eu era feliz Jasão,<br />
feliz e iludida, porque o que eu não sabia, quando eu fiz meus<br />
dez anos, há mais uma sobrevida, pra completar a vida<br />
que você não tinha, é que eu estava desperdiçando o meu<br />
alento, tava vestindo boneco de fuinha, assim que bateu<br />
um primeiro pé de vento, assim que despontou o segundo<br />
horizonte, lá se foi meu homem, orgulho, minha obra completa,<br />
lá se foi pro acervo de Creonte. Certo, o que eu não tenho,<br />
Creonte tem de sobra, prestígio, posição, o teu samba vai<br />
tocar em tudo quanto é programa, tenho certeza que a Gota D&#8217;Água<br />
não vai para de pingar de boca em boca, mas em troca pela<br />
gentileza, vai me engolir a filha, aquela mosca morta, como<br />
engoliu meus dez anos, é esse o preço, ahn? dez anos?<br />
até que apareça uma outra porta que te leve direto pro inferno<br />
Aguenta a vida rapaz! Só de ambição, sem amor, tua alma<br />
vai ficar torta, desgrenhada, aleijada, pestilenta, aproveitador!<br />
Aproveitador! Aproveitador! </p>
<p>Fechamos esta série de solilóquios de teatro com um muito especial. Marcos Vinicius da Cruz e Melo Moraes nasceu no Rio de Janeiro no dia 19 de outubro de 1913 e lá morreu no dia 9 de julho de 1980. Orfeu da Conceição foi escrita em 1954 e marca a parceria musical de Vinicius e Tom Jobim. A peça reconta o mito de Orfeu, que vai ao mundo dos mortos atrás de sua amada Eurídice. Nesta versão, Orfeu é um condutor de bonde e sambista que se apaixona pela jovem Eurídice, moça do interior, no Carnaval. O amor de ambos desperta os ciúmes de Mira, ex-noiva de Orfeu. Tal qual no mito, Eurídice morre e Orfeu desce às profundezas buscá-la. A peça contém músicas que se tornaram clássicos de Vinicius e Tom. Eis o famoso e belíssimo monólogo de Orfeu.</p>
<p>ORFEU<br />
(ORFEU DA CONCEIÇÃO DE VINICIUS DE MORAES)</p>
<p>Mulher mais adorada!<br />
Agora que não estás, deixa que rompa<br />
O meu peito em soluços! Te enrustiste<br />
Em minha vida; e cada hora que passa<br />
E&#8217; mais por que te amar, a hora derrama<br />
O seu óleo de amor, em mim, amada&#8230;<br />
E sabes de uma coisa? cada vez<br />
Que o sofrimento vem, essa saudade<br />
De estar perto, se longe, ou estar mais perto<br />
Se perto, &#8211; que é que eu sei! essa agonia<br />
De viver fraco, o peito extravasado<br />
O mel correndo; essa incapacidade<br />
De me sentir mais eu, Orfeu; tudo isso<br />
Que é bom capaz de confundir o espírito<br />
De um homem &#8211; nada disso tem importância<br />
Quando tu chegas com essa charla antiga<br />
Esse contentamento, essa harmonia<br />
Esse corpo! e me dizes essas coisas<br />
Que me dão essa força, essa coragem<br />
Esse orgulho de rei. Ah, minha Eurídice<br />
Meu verso, meu silêncio, minha música!<br />
Nunca fujas de mim! sem ti sou nada<br />
Sou coisa sem razão, jogada, sou<br />
Pedra rolada. Orfeu menos Eurídice&#8230;<br />
Coisa incompreensível! A existência<br />
Sem ti é como olhar para um relógio<br />
Só com o ponteiro dos minutos. Tu<br />
És a hora, és o que dá sentido<br />
E direção ao tempo, minha amiga<br />
Mais querida! Qual mãe, qual pai, qual nada!<br />
A beleza da vida és tu, amada<br />
Milhões amada! Ah! criatura! quem<br />
Poderia pensar que Orfeu: Orfeu<br />
Cujo violão é a vida da cidade<br />
E cuja fala, como o vento à flor<br />
Despetala as mulheres &#8211;  que ele, Orfeu<br />
Ficasse assim rendido, aos teus encantos!<br />
Mulata, pele escura, dente branco<br />
Vai teu caminho que eu vou te seguindo<br />
No pensamento e aqui me deixo rente<br />
Quando voltares, pela lua cheia<br />
Para os braços sem fim do teu amigo!<br />
Vai tua vida, pássaro contente<br />
Vai tua vida que eu estarei contigo!</p>
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		<title>Roberto Piva</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Aug 2010 14:16:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cartilhadepoesia</dc:creator>
				<category><![CDATA[TODOS OS POETAS AQUI]]></category>

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		<description><![CDATA[Roberto Piva nasceu em São Paulo no dia 25 de setembro de 1937. Cresceu e se formou na cidade ou na fazenda do pai no interior de São Paulo. Neste mês vamos nos concentrar nas ideias do poeta &#8220;beat&#8221; paulista e o possível sobre a vida, em virtude da escassez de informações e detalhes que [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=47&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Roberto Piva nasceu em São Paulo no dia 25 de setembro de 1937. Cresceu e se formou na cidade ou na fazenda do pai no interior de São Paulo. Neste mês vamos nos concentrar nas ideias do poeta &#8220;beat&#8221; paulista e o possível sobre a vida, em virtude da escassez de informações e detalhes que estão ao alcance do leitor. Piva teve seus primeiros poemas publicados em 1961, quando tinha 23 anos até participar de uma antologia que o deixou conhecido do público: Antologia dos Novísssimos. </p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>POEMA SUBMERSO</p>
<p>Eu era um pouco da tua voz violenta, Maldoror<br />
quando os cílios do anjo verde enrugavam as<br />
chaminés da rua onde eu caminhava<br />
E via tuas meninas destruídas como rãs por<br />
uma centena de pássaros fortemente de passagem<br />
NInguém chorava no teu reino, Maldoror, onde o<br />
infinito pousava na palma da minha mão vazia<br />
E meninos prodígios eram seviciados pela Alma<br />
ausente do Criador<br />
Havia um revólver imparcialíssimo vigiado pelas<br />
Amebas no telhado roído pela urina de tuas borboletas<br />
Um jardim azul sempre grande deitava nódoas nos<br />
meus olhos injetados<br />
Eu caminhava pelas aléias olhando com alucinada ternura<br />
as meninas na grande farra dos canteiros de<br />
insetos baratinados<br />
Teu canto insatisfeito semeava o antigo clamor dos<br />
piratas trucidados<br />
Enquanto o mundo de formas enigmáticas se desnudava<br />
para mim, em leves mazurcas</p>
<p>Nos anos 60, Piva estudou profundamente a Divina Comédia, orientado por Eduardo Bizzarri, que era adido cultural do Consulado da Itália em São Paulo. Talvez devamos começar a estruturar suas raízes por aí, pois, consta que foi através da leitura e da imersão na obra de Dante que Piva abriu sua visão para a poesia e para a filosofia. Depois, Piva estudou os poetas metafísicos ingleses, com especial devoção ao poeta William Blake. Bom diálogo.</p>
<p>link das fotos do lançamento de Corpo Aberto, na segunda feira dia 10 http://picasaweb.google.com/julioinx/CCLAPedroLago100510#</p>
<p>PRAÇA DA REPÚBLICA DOS MEUS SONHOS</p>
<p>A estátua de Álvares de Azevedo é devorada com paciência pela paisagem<br />
    de morfina<br />
a praça leva pontes aplicadas no centro de seu corpo e crianças brincando<br />
    na tarde de esterco<br />
Praça da República dos meus sonhos<br />
    onde tudo se faz febre e pombas crucificadas<br />
    onde beatificados vêm agitar as massas<br />
    onde Garcia Lorca espera seu dentista<br />
    onde conquistamos a imensa desolação dos dias mais doces<br />
os meninos tiveram seus testículos espetados pela multidão<br />
lábios coagulam sem estardalhaço<br />
os mictórios tomam um lugar na luz<br />
e os coqueiros se fixam onde o vento desarruma os cabelos<br />
Delirium Tremens diante do Paraíso bundas glabras sexos de papel<br />
    anjos deitados nos canteiros cobertos de cal água fumegante nas<br />
    privadas cérebros sulcados de acenos<br />
os veterinários passam lentos lendo Dom Casmurro<br />
há jovens pederastas embebidos em lilás<br />
e putas com a noite passeando em torno de suas unhas<br />
há uma gota de chuva na cabeleira abandonada<br />
enquanto o sangue faz naufragar as corolas<br />
Oh minhas visões lembranças de Rimbaud praça da República dos meus<br />
    Sonhos última sabedoria debruçada numa porta santa</p>
<p> O poeta alemão Holderlin foi um dos que permeou a estrutura (se assim posso chamar) de Roberto Piva, assim como a leitura dos poetas expressionistas Gottfried Benn e Georg Trakl, que também reforçaram, de certa forma, um certo pessimismo do poeta, porém, de acordo com José Silvério Trevisan, foi através de Nietzsche que essa característica de seu discurso se reforçou. A presença, muitas vezes citada, de Rimbaud e Lautreamont deram todos os motivos para que Piva encontrasse sua linguagem. Estamos nos anos 60.</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>JORGE DE LIMA, PANFLETÁRIO DO CAOS</p>
<p>Foi no dia 31 de dezembro de 1961 que te compreendi Jorge de Lima<br />
enquanto eu caminhava pelas praças agitadas pela melancolia presente<br />
    na minha memória devorada pelo azul<br />
eu soube decifrar os teus jogos noturnos<br />
indisfarçável entre as flores<br />
uníssonos em tua cabeça de prata e plantas ampliadas<br />
como teus olhos crescem na paisagem Jorge de Lima e como tua boca<br />
    palpita nos bulevares oxidados pela névoa<br />
uma constelação de cinza esboroa-se na contemplação inconsútil<br />
    de tua túnica<br />
e um milhão de vaga-lumes trazendo estranhas tatuagens no ventre<br />
    se despedaçam contra os ninhos da Eternidade<br />
é neste momento de fermento e agonia que te invoco grande alucinado<br />
    querido e estranho professor do Caos sabendo que teu nome deve<br />
    estar como um talismã nos lábios de todos os meninos</p>
<p>Piva é um poeta ligado ao surrealismo, sobretudo na vertente francesa de Breton, Artaud e René Crevel. É um dos três únicos poetas brasileiros a fazer parte do Dicionário Geral do Surrealismo, publicado na França. Para Piva &#8220;existe um compromisso absoluto entre a poesia e a vida&#8221; ou lembrando Artaud, &#8220;para conhecer minha obra, leia-se minha vida&#8221;. O poeta diz que &#8220;só acredito em vida experimental quem tem vida experimental&#8221;. Isto é fundamental para a compreensão da obra de Piva.</p>
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<p>OS ANJOS DE SODOMA</p>
<p>Eu vi os anjos de Sodoma escalando<br />
    um monte até o céu<br />
E suas asas destruídas pelo fogo<br />
    abanavam o ar da tarde<br />
Eu vi os anjos de Sodoma semeando<br />
    prodígios para a criação não<br />
    perder seu ritmo de harpas<br />
Eu vi os anjos de Sodoma lambendo<br />
    as feridas dos que morreram sem<br />
    alarde, dos suplicantes, dos suicidas<br />
    e dos jovens mortos<br />
Eu vi os anjos de Sodoma crescendo<br />
    com o fogo e de suas bocas saltavam<br />
    medusas cegas<br />
Eu vi os anjos de Sodoma desgrenhados e<br />
    violentos aniquilando os mercadores,<br />
    roubando o sono das virgens,<br />
    criando palavras turbulentas<br />
Eu vi os anjos de Sodoma inventando<br />
    a loucura e o arrependimento de Deus</p>
<p>Piva tem duas paixões musicais, o jazz e a bossa nova. Há também duas fortes presenças em sua obra: A geração beat e Pier Paolo Pasolini. De acordo com João Silvério Trevisan, Piva absorveu a estilística fragmentada da geração beat assim como a orientação transgressora, tanto na vida quanto na obra. Pasolini foi um grande ideal de profeta-intelectual e paradoxal que Piva precisava para seguir.</p>
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<p>POEMA DA ETERNIDADE SEM VÍSCERAS</p>
<p>Na última lua eu odiava as montanhas<br />
minha memória quebrada não pode receber<br />
     o amor<br />
eu tomava sopa aguardando meus amigos desordeiros<br />
    no outro lado da noite<br />
este é o meu estranho emprego este mês<br />
outro tempo quando o velho Gide se despachava para a África<br />
    meu coração era sólido eu dançava<br />
eu assistia uma guerra de chapéus e as brancas<br />
    lacerações dos garotos no Ibirapuera angélico<br />
    terreno vazio onde eu mastigava tabletes de<br />
    chocolate branco<br />
no próximo instante eu vi árvores e aeroplanos com bigodes<br />
    e lágrimas de Ouro<br />
no Ibirapuera esta noite eu perdi minha solidão<br />
ROBERTO PIVA TRANSFERIDO PARA REPARO DE VÍSCERAS<br />
todos os meus sonhos são reais oh milagres epifanias<br />
    do crânio e do amor sem salvação que eu sabia presos<br />
    no topo da minha alma<br />
meu esqueleto brilhava na escuridão<br />
    repleto de drogas<br />
eu nunca estou satisfeito e ando um incorrigível demônio<br />
    lunático com os dez dedos roídos tamborilando num campo<br />
    magnético<br />
memória do arsênico que eu dei a uma pomba<br />
    os olhos cinzentos do céu meu oculto Totem espiritual</p>
<p>Geração beat, Pasolini, vida experimental para uma poesia experimental. Dos nossos, Piva bebeu em Jorge de Lima e Murilo Mendes. Invenção de Orfeu do primeiro, o surrealismo do segundo. Piva é um poeta ligado ao xamanismo. Fazia caminhadas xamânicas na represa do Mairiporã e na serra da Cantareira, anos depois deu cursos e palestras sobre xamanismo. Para Piva, esta é a única solução possível para o mundo moderno.</p>
<p>poema Nervos, do livro Corpo Aberto no blog http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>HOMENAGEM AO MARQUêS DE SADE</p>
<p>O Marquês de Sade vai serpenteando menstruado por<br />
    máquinas &amp; outras vísceras<br />
imperador sobre-humano pedalando a Ursa maior no<br />
    tórax do Oceano<br />
onde o crocodilo vira o pescoço &amp; acorda a flor louca<br />
    cruzando a mente num suspiro<br />
é aéreo o intestino acústico onde ele deita com o vasto<br />
    peixe da tristeza violentando os muros de sacarina<br />
ele se ajoelha na laje cor do Tempo com o grito das<br />
    Minervas em seus olhos<br />
o grande cu de fogo de artifício incha este espelho de<br />
    adolescentes com uma duna em casa mão<br />
as feridas vegetais libertam os rochedos de carne<br />
    empilhadas na Catástrofe<br />
um menino que passava comprimiu o dorso descabelado<br />
    da mãe uivando na janela<br />
a fragata engraxada nos caminhos da sombrancelha<br />
    calcina<br />
o chicote de ar do Marquês de Sade<br />
    no queixo das chaminés<br />
falta ao mundo uma partitura ardente como o hímen<br />
    dos pesadelos<br />
os edifícios crescem para que eu possa praticar amor<br />
    nos pavimentos<br />
o Marquês de Sade pôs fogo nos ossos dos pianistas que<br />
    rachavam como batatas<br />
ele avança com tesouras afiadas tomando as nuvens de<br />
    assalto<br />
ele sopra um planador na direção de um corvo agonizante<br />
ele me dilacera &amp; me protege contra o surdo século de<br />
    quedas abstratas</p>
<p>O envolvimento de Piva com o xamanismo é intenso. Ele costuma tocar o tambor para evocar seu animal, o gavião, assim como para evocar seus orixás no candomblé, Xangô, Iemanjá e Oxum. Piva também fazia experimentos com drogas alucinógenas e bebidas libatórias, como &#8220;formas de atualizar a tradição dionisíaca e a transgressão sagrada do paganismo&#8221;, lembra Trevisan. Poética da transgressão, podemos entrar nesse assunto nos próximos dias.</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>PIAZZA IX</p>
<p>Os corações árticos coçavam suas cabeleiras cultivando<br />
    a morte<br />
grandes &amp; ardentes no mesmo sopro de um mesmo<br />
    sorriso apodrecido<br />
purificados como os nossos idênticos pioneiros metálicos<br />
às vésperas dos trovões de ar que nos arrebatam as<br />
    cabeças para o céu<br />
sobre os muros de plenas dissecações ao brilho<br />
    inesperado do salmão das nuvens<br />
nas cidades circulares de dolorosos espinhos atômicos<br />
na infância cor de pêssego como a hora do amor<br />
em cada solitário as mesmas oitavas com ossos à mostra<br />
éter &amp; línguas sólidas que nós não vemos<br />
catalogadas ao lado trágico das mesmas ondas paralelas<br />
aquelas que nos transportam vencendo toda a paisagem<br />
    purulenta<br />
gotas de meninos morenos mudados em nevoentos<br />
    cascalhos de desolação<br />
nas montanhas murchas de luar onde a lembrança é<br />
    cinzenta<br />
correndo teu arco na tempestade solar da incerteza<br />
o dia escurecia a auréola dos mortos descobridores de<br />
    Mágicas</p>
<p>Os surrealistas tinham uma maneira de escrever que consistia em escrever sem parar associando ideias ininterruptamente até esgotarem-se as possibilidades. Piva seguia esse &#8220;método&#8221; frequentemente, sobretudo em seus anos iniciais. Lembrando que Piva é um dos únicos brasileiros a fazer parte do Dicionário Geral do Surrealismo. Essa influência surrealista junto com a essência da contra cultura, mais a infinitude de Fernando Pessoa, levaram Piva à linguagem que muitos chamam de Poética da Transgressão.</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>O MINOTAURO DOS MINUTOS</p>
<p>Os pontos cardeais dos nossos elementos são: a traição, a não-compreensão<br />
da utilidade das vidraças, a violência montanha-russa do Totem, o<br />
rompimento com os labirintos e nervuras do penico estreito da Lógica,<br />
contra o vosso êxtase açucarado, vós como os cães sentis necessidade do<br />
infinito, nós o curto-circuito, a escuridão e o choque somos contra a mensagem<br />
lírica do Mimo, contra as lantejoulas pelos caracóis, contra a<br />
vagina pelo ânus, contra os espectros pelos fantasmas, contra as escadas<br />
pelas ferrovias, contra Eliot pelo Marquês de Sade, contra a polenta pelo<br />
ragu, nós estamos perfeitamente esquizofrênicos, paranoicamente cientes<br />
de que devemos nos afastar da Bandeira das Treza Listas cujos representantes<br />
são as bordadeiras de poesia que estão espalhadas por toda a cidade.</p>
<p>Uma curiosidade: Quando jovem, Piva gostava de ligar para os amigos lhes sugerindo leituras: &#8220;Olha, você tem que ler A função do orgasmo de Wlhelm Reich!&#8221;, ou, Tem um livro importante, El arco y a lira, de Octavio Paz. Ele citava trechos do livro para ilustrar  seus comentários. Foi assim com muitos títulos: Filosofia da tragédia de Leon Chestov, Homo ludens de Huyzinga, O Único e suas propriedades, de Max Stirner e muitos outros. Curiosidade ressaltada pelo poeta Cláudio Willer num ensaio sobre Piva.</p>
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<p>BULES, BÍLIS E BOLAS</p>
<p>Nós convidamos todos a se entregarem à dissolução e ao desregramento.<br />
A Vida não pode sucumbir no torniquete da Consciência. A Vida<br />
explode sempre no mais além. Abaixo as Faculdades e que triunfem<br />
os maconheiros. É preciso não ter medo de deixar irromper a nossa<br />
Alma Fecal. Metodistas, psicólogos, advogados, engenheiros, estudantes,<br />
patrões, operários, químicos, cientistas, contra vós deve estar o espírito<br />
da juventude. Abaixo a Segurança Pública, quem precisa disso?<br />
Somos deliciosamente desorganizados e usualmente nos associamos<br />
com a Liberdade.</p>
<p>Piva publicou apenas dois livros nos anos 60, Paranóia, em 63, e Piazzas, em 64. Após doze anos sem nada publicar, em 1974, Piva aparece com Abra os olhos e diga Ah!, onde há, essencialmente, poemas com a temática homossexual. Piva leu muito Lautreamont e, inclusive usa uma passagem de Les Chants de Maldoror abrindo o livro. É o lirismo do poeta de forma nua e direta, característica forte de Piva e que será cada vez mais presente.</p>
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<p>ABRA OS OLHOS E DIGA AH!</p>
<p>VISÃO ANTROPOLÓGICA DO CANTO DA JANELA<br />
  PRISMADA EM GELÉIA-CORAÇÃO NO VINHO<br />
  DE MARÇO (o mês mais terrível)<br />
      novos animais de rapina<br />
OS OLHOS DO MEU AMANTE OS OLHOS DO MEU AMANTE<br />
          galáxias internas OLHOS LIBERDADE galáxias internas<br />
   no fundo cor-de rosa do chocolate eu te respiro<br />
          nas tripas só com os mortos &amp; seus travesseiros de<br />
      flores<br />
           nas tripas extravagantes meu amor atrás das<br />
vitrinas<br />
                só com os mortos o universo é um espirro<br />
            no útero da maçã<br />
                        tudo começa<br />
                                 a anoitecer<br />
                       cheio de energia</p>
<p>Coxas, livro escrito depois de Abra os olhos e diga Ah!, também continua com a temática sexual anterior, desta vez, se desenvolvendo em textos em prosa. Há personagens, cenários urbanos, cenas de sexo e erotismo coletivas. Pólem, é o personagem principal de muitos poemas, passando por experiências e orgias ao longo do discurso. Diferentemente da contemplação de Piazzas, em Coxas, há ação.</p>
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<p>O MANIFESTO DE LINDO OLHAR</p>
<p>Múmia vadia.<br />
Deixa a pirâmide pegar fogo &amp; ouve o vento da noite onde<br />
Anúbis domina<br />
o Faraó morreu na orgia ao pôr do sol roxo de vinho<br />
Múmia vadia<br />
o amor atravessou seu caminho de ataduras enlouquecidas<br />
colhe o frenesi na língua caótica dos deuses &amp; pede<br />
o abraço de Osíris deus da agricultura subdesenvolvida<br />
Molha a alma no sangue da rebelião<br />
volta a adorar os deuses semeadores de discórdias<br />
Pólem carregou Lindo Olhar até o andar de cima colocou-o<br />
sobre as almofadas de veludo negro &amp; se beijaram até<br />
amanhecer, quando o grande rio dilatou suas águas até o<br />
fim do mundo &amp; Lindo Olhar percebeu que o amor fazia<br />
uma nova ronda em sua carne multiplicada onde as<br />
guitarras da paixão deixaram marcas de dentes &amp; pequenas<br />
gotas de suor.</p>
<p>As referências a outros autores é constante na obra de Piva, característica que aparece muito em Coxas. Não somente nas epígrafes, mas dentro dos poemas há diversos apontamentos para outros universos (prefiro colocar assim). Por ser também um poeta considerado &#8220;urbano&#8221;, Piva usa nas situações que descreve, lugares conhecidos, sobretudo de São Paulo, alimentos, obras e até uma marca de vinho. Por aí.</p>
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<p>A VIDA ME CARREGA NO AR COMO UM GIGANTESCO ABUTRE</p>
<p>A verdade dos deuses<br />
carnais como nós &amp; lânguidos<br />
não provém do nada<br />
mas do desejo trovejante do coração<br />
    partido pelo amor<br />
em sua disparada pelo rosto de um<br />
    adolescente<br />
com sua fúria delicada<br />
cruzo avenidas insones &amp; corroídas<br />
    de chuva<br />
minha mão alcança minha dor<br />
    presente<br />
&amp; me preparo para um dia duro<br />
    amargo &amp; pegajoso<br />
a tarde desaba seu azul sobre<br />
    os telhados do mundo<br />
você não veio ao nosso encontro &amp; eu<br />
    morro um pouco &amp; me encontro só<br />
    numa cidade de muros<br />
você talvez não saiba do ritual<br />
    do amor como uma fonte<br />
    a água que corre não correrá<br />
      jamais a mesma até o poente<br />
minha dor é um anjo ferido<br />
    de morte<br />
você é um pequeno deus verde<br />
    &amp; rigoroso<br />
horários de morte cidades cemitérios<br />
    a morte é a ordem do dia<br />
a noite vem raptar o que<br />
    sobra de um soluço</p>
<p>inte poemas com Brócoli é um livro de 1981. Se aprofunda ainda mais na temática erótica numa descrição de orgias com citações de poetas e obras da literatura mundial. Piva entra nas questões das orgias como rituais tribais, já associando sua ligação intensa com o xamanismo. Piva busca também na mitologia grega alguma sustentação para seu discurso andrógino. São poemas curtos que se pertencem.</p>
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<p>VINTE POEMAS COM BRÓCOLI</p>
<p>última locomotiva. gregos de Homero<br />
             sonhando dentro do chapéu de palha<br />
                  última vozes antes dos lábios &amp;<br />
       dos cabelos. sonoterapia voraz.<br />
                         você adora as folhas que caem<br />
                                        no lago escuro<br />
                        este é o banquete do poeta<br />
                                                   sempre<br />
                                                   querendo<br />
                                         penetrar<br />
                                                 no caroço<br />
                                                        da verdade.<br />
         nariz do garoto negro apontando para<br />
                               a praça apinhada de tucanos sambistas<br />
                                     você tranca o planeta</p>
<p>Baudelaire sangrou na ponte negra do Sena<br />
           molécula procurano a brecha do<br />
              universo &amp; suas trezentas flores.<br />
                         assim é a lucidez<br />
                         o swing das Fleurs du Mal.<br />
                  completa tortura roendo a<br />
                  realidade<br />
                              &amp;<br />
                                l&#8217;immense gouffre.<br />
            todas as paixões / convulsões no<br />
                     espelho. Baudelaire &amp; ses fatigues<br />
                               rumo à pálida estrela.</p>
<p>Considerada sua obra mais caótica e ensandencida, Quizumba, é um livro escrito depois de 20 poemas com Brócoli. O poeta se encontra com Dante, Riobaldo, cita Exu, e faz muitas homenagens a Jorge de Lima. Alguns poemas são interessantes na forma, parecem listas, cujos &#8220;itens&#8221; variam de grande achados poéticos a nomes de poetas e figuras da literatura. Quizumba é um bastante provocador.</p>
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<p>VENUS 9</p>
<p>Conversa com Mautner &amp; Jacobina no Ponto Chic / Maracatu que<br />
Gil gravou com voz de crioulo de Quilombo / tradição Villa-Lobos /<br />
dança do índio branco / formidável veneno de pantera / o cometa<br />
toma Crush / Califórnia Sunshine de novo atrás da igreja / guerrilheiro<br />
de emoções / Augusto dos Anjos / San Juan de la Cruz / figuras de alta<br />
voltagem do espírito + Bloody Mary matinal / queria estar no Rio no<br />
Espírito Santo queria comer empadinha na onda preferida de Iemanjá<br />
/ Dante afinou o piano ocidental no buraco ameno do purgatório /<br />
figuras suaves figuras mortas figuras suaves / Claudio Willer olhando<br />
em procissão no presépio da história / este espelho ampliou Napoleão /<br />
lente polida por Espinosa / calpestato dagli Ebrei / mínimo o bater<br />
de asas do anjo da história ouvido pelo conde Von Krosigk / moquecas<br />
de malefícios / na boca torta da tarde / lagartos perdem o fôlego /<br />
as horas espiam.</p>
<p>Ciclones é um livro de 1997. Impressionante mudança. Do Piva fervoroso, estendendo o discurso ao máximo nos primeiros livros, vemos agora um Piva sintético, commuitos poemas curtos, ainda explorando sua temática característica e seu surrealismo. Neste livro, Piva está com 60 anos, utilizando sua profunda influência com o xamanismo, e pensa, sobretudo, que os rituais da umbanda e do candomblé são o retorno ou o modo de manifestação do xamanismo.</p>
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<p>POEMA VERTIGEM</p>
<p>Eu sou a viagem de ácido<br />
    nos barcos da noite<br />
Eu sou o garoto que se masturba<br />
    na montanha<br />
Eu sou o tecno pagão<br />
Eu sou o Reich, Ferenczi &amp; Jung<br />
Eu sou o Eterno Retorno<br />
Eu sou o espaço cibernético<br />
Eu sou a floresta virgem<br />
    das garotas convulsivas<br />
Eu sou o disco-voador tatuado<br />
Eu sou o garoto e a garota<br />
    Casa Grande &amp; Senzala<br />
Eu sou a orgia com o<br />
    garoto loiro e sua namorada<br />
    de vagina colorida<br />
    (ele vestia a calcinha dela<br />
    &amp; dançava feito Shiva<br />
    no meu corpo)<br />
Eu sou o nômade de Orgônio<br />
Eu sou a Ilha de Veludo<br />
Eu sou a Invenção de Orfeu<br />
Eu sou os olhos pescadores<br />
Eu sou o Tambor do Xamã<br />
    (&amp; o Xamã coberto<br />
    de peles e andrógino)<br />
Eu sou o beijo de Urânio<br />
    de Al Capone<br />
Eu sou uma metralhadora em<br />
    estado de graça<br />
Eu sou a pomba-gira do Absoluto</p>
<p>Para Piva &#8220;Eu, como o Pasolini, não acredito na dialética. O que existe são oposições irreconciliáveis. Acredito naquilo que o Freud afirma em O mal-estar na Cultura: existe um movimento cada vez mais restritivo, não só da vida sexual, mas da subjetividade de modo geral.Quanto ao parentesco entre arte e loucura, acho que o &#8220;desregramento de todos os sentidos&#8221;, de que falava o Rimbaud, refere-se não propriamente à loucura, mas a um estado de transe. Um estado de transe xamânico, porque Rimbaud era um alquimista, um xamã avant la lettre, que propõe mesmo a &#8220;alucinação das palavras&#8221;; o termo é dele&#8221;.</p>
<p>No blog, lugares onde meu livro CORPO ABERTO pode ser comprado http//pedrolago.blogspot.com</p>
<p>A PROPÓSITO DE PASOLINI</p>
<p>quando você encontra um garoto<br />
perto de um chafariz<br />
&amp; ele se curva para a água<br />
tal qual em Caravaggio<br />
sombra selvagem do crepúsculo<br />
com o sol turquesa<br />
nos cabelos ouriçados<br />
é o momento doente<br />
como um solfejo pagão<br />
depois da orgia<br />
é assim que crescem os deuses<br />
na primavera e seu ardor melancólico<br />
são os anos os povos os garotos videntes<br />
que não broxaram sob as tenazes<br />
dos cegos que perderam a Palavra</p>
<p>Sobre sua poesia, Piva diz que &#8220;há uma única forma de se ler os jornais e várias formas de se ler um poema. Cada pessoa enxerga uma coisa diferente na minha poesia, pois, no fundo, ela é muito rica e permite uma enorme variedade de interpretações. A qualidade do arremate literário não exclui a radicalidade das experiências que estão na origem do poema. Mas acho que essa valorização excessiva da fatura pode revelar um certo preconceito contra o dionisismo, a idéia de que o dionisismo é algo superficial. Está errado. O dionisismo é uma das religiões mais profundas que já existiram. Basta ver que uma das suas manifestações produziu o teatro&#8221;.</p>
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<p>ESTRANHOS SINAIS DE SATURNO</p>
<p>o fundo do corredor<br />
cheio de ursos mal-assombrados<br />
garoto porco<br />
garota porca<br />
observam o<br />
porco das sombras<br />
transformando no monstro da mídia<br />
os sete sanduíches capitais<br />
o menino estufado de macaco<br />
derruba o disco voador<br />
com um nocaute voador<br />
com um norte da Terra<br />
no festival anual de Sacis<br />
na feira de cerveja Paracelso<br />
na República de Salò<br />
o ditirambo canta na escada<br />
você disse que o brasão dele é<br />
um cisne<br />
onde o Inferno está amarrado<br />
onde o Paraíso voa com a Lua<br />
nos trenós de arroz-doce<br />
no castelo hipnótico de Luís II da Baviera</p>
<p>os imperadores romanos encenaram<br />
a crueldade surrealista<br />
no Teatro Colossal do Coliseu<br />
as feras dançavam no submarino<br />
     da religião Pagã<br />
até o último suspiro do lobo da estepe<br />
quando a noite levava os adolescentes<br />
    pra cama dos gladiadores<br />
o formigão eletrônico &amp; o Apito selvagem<br />
trocaram de roupa &amp; de farofa<br />
&amp; fizeram<br />
Ebó pra Hermes<br />
no calafrio da palhoça</p>
<p>&#8220;A universidade é o túmulo da poesia. Eu só fiz curso superior para poder dar aula. Não podia lecionar com dois livros publicados. Lecionei por quinze anos. Tudo o que me deram para ler na universidade ou era sucata ou eu já havia lido. Insisto em que as universidades devem ser transformadas numa coisa viva, isso é, num terreiro de candomblé. Com pais-de-santo, ou xamãs, no lugar dos professores, de modo a propiciar aos alunos uma verdadeira iniciação. As universidades precisam de um corpo docente e um corpo indecente&#8221;. Por aí.</p>
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<p>O CHUTE DO MANDRIL DA MEIA-NOITE</p>
<p>O Império Romano<br />
    era assim:<br />
folhas revoltadas revoando<br />
    na Via Appia<br />
garotos &amp; garotas cochilando<br />
    no colo do imperador<br />
deuses sacralizando<br />
    todos os poros<br />
    da Terra<br />
o poeta Virgílio ganhou<br />
    um garoto de<br />
    Augusto<br />
o gladiador PIVOTUS<br />
    mergulhou na bacanal<br />
&amp; até hoje não veio<br />
    à tona para<br />
    tomar fôlego</p>
<p>Eis que chegamos ao final de mais uma antologia poética. Neste mês que passou, percorremos a poesia do Roberto Piva, surrealista, dionisíaco ao seu modo, provocador e necessário no cenário da poesia brasileira. Além de poeta, foi produtor de shows de rock e ensina xamanismo. Semana que vem, teremos um mês especial, onde, tentarei unir duas das minhas grandes paixões, a poesia e o teatro. Até lá.</p>
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<p>SOBRE DIONYSOS</p>
<p>Dionysos, na Grécia Antiga, era o Deus da vegetação, da orgia, do<br />
 vinho, da anarquia. Pra começar a falar em Ecologia, precisamos<br />
iniciar a gira invocando Dioysos, que traz a renovação da primavera<br />
&amp; da vegetação.<br />
É importante lembrar Dionysos neste momento em que a Igreja<br />
Católica nos impõe São Francisco de Assis como patrono da Ecologia.<br />
Muitos ecologistas caíram neste conto do vigário, a Igreja Católica<br />
depois da Revolução Francesa &amp; agora, com sua Teologia da Libertação<br />
(ou da Empulhação?), está do lado dos partidos chamados de &#8220;esquerda&#8221;<br />
&amp; dos trabalhadores.<br />
A Igreja Católica só pode viver à sombra do Poder, qualquer Poder.<br />
No Brasil, quando chegaram as caravelas de Cabral, o primeiro ato<br />
dos padres foi um ato antiecológico: cortaram a primeira árvore brasileira<br />
para fazer a cruz da primeira missa.<br />
Ato seguinte converteram &amp; vestiram os índios para melhor escravizá-los<br />
Por isso inaugurando esta coluna gritamos nosso Evoé a Dionysos patrono<br />
da Ecologia, da anarquia, do vinho &amp; da orgia.<br />
É preciso não confundir Ecologia com jardinagem.<br />
A Ecologia é uma ramificação da Biologia, que estuda as interações entre<br />
os seres vivos &amp; o seu ambiente.<br />
Nos anos 60 quando eu falava de Ecologia, a resposta das pessoas, que se<br />
amontoavam em bandos à direita &amp; à esquerda, era sempre uma profissão<br />
de fé na própria mediocridade. &#8220;Com tanta gente passando fome, esse cara<br />
vem falar de natureza&#8221;. Como se a vida do cretino não dependesse exatamente<br />
do equilíbrio ecológico. Os trabalhadores têm a CUT, a CGT. A onça pintada<br />
não te sindicato. Os rios não têm sindicato. O mar não tem sindicato.<br />
Eles terão agora o seu Sindicato neste cantinho. Crie você também com os<br />
colegas do bairro, do serviço, do clube, um SINDICATO DA NATUREZA.<br />
Nosso lema será sempre AMOR, POESIA &amp; LIBERDADE. A diversidade é a<br />
Verdade. Viva a diferença! Evoé!</p>
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		<item>
		<title>João José de Melo Franco</title>
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		<pubDate>Sat, 29 May 2010 00:24:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cartilhadepoesia</dc:creator>
				<category><![CDATA[TODOS OS POETAS AQUI]]></category>

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		<description><![CDATA[João José de Melo Franco nasceu em Barretos, interior de São Paulo, no dia 10 de agosto de 1956, às 10:30 da manhã. Filho de Àlvaro e Vera de Melo Franco, o nascimento se deu na casa dos avós maternos. Dois anos depois, muda com a família de Barretos para Indaiatuba, também em São Paulo. [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=45&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João José de Melo Franco nasceu em Barretos, interior de São Paulo, no dia 10 de agosto de 1956, às 10:30 da manhã. Filho de Àlvaro e Vera de Melo Franco, o nascimento se deu na casa dos avós maternos. Dois anos depois, muda com a família de Barretos para Indaiatuba, também em São Paulo. Neste mês, teremos a honra de percorrer a poesia de João José de Melo Franco. Vamos lá!</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>PÉRIPLO</p>
<p>É noite e as vísceras ainda empurram a máquina de ser.<br />
É noite e o ser insiste , víscero, no coexistir.<br />
É noite e a noite sonha e os sonhos insistem em vir.<br />
É noite e ser ou não ser redunda, é uma velha canção.</p>
<p>Mas, que é a vida senão velha e canção?</p>
<p>Eis aqui&#8230; o coração do ator e encena um velho ato&#8230;<br />
São velhas palavras, velhas roupagens.<br />
Não resolvemos, persona, o que fomos nem o que<br />
            seremos.<br />
Ser, não ser, talvez o nada&#8230;<br />
Morrer, dormir, sonhar&#8230;<br />
Morrer, óbvio ato.<br />
Dormir, enquanto persistir.<br />
Sonhar&#8230; périplo mar! périplo mar!</p>
<p>Em 1973, João José se integra ao movimento estudantil secundarista, participando ativamente da vida política estudantil. O desenvolvimento dentro da linguagem da poesia se dá já no ano seguinte, quando, tendo lido, apreendido e definido como base de sua linguagem os poetas Vinicius de Moraes, Mário de Andrade, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Fernando Pessoa, Augusto dos Anjos e Rilke, publica seus primeiros poemas no jornal do Centro Acadêmico do Colégio Equipe. Também nessa época, paticipava ativamente do Movimento Cineclubista, que realizava sessões com filmes contra a ditadura.</p>
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<p>GLÓRIA</p>
<p>Porque só tu destruiste todo rastro de incerteza<br />
e jogaste fora o coração como um caco de xícara</p>
<p>e o chá derramado como sangue<br />
sobre o livro de Maiakovski<br />
e as contas do colar de falsas pérolas<br />
pelo chão de madeira tão clara e escorregadia</p>
<p>A mancha de sangue é um marco no tempo<br />
se teceis tudo em comparação<br />
“isso como aquilo”</p>
<p>Como rosas, meu bem, abandonadas no jardim,<br />
sufocadas, desfolham como olhos e lágrimas<br />
e já não podem seus espinhos perfurar meus dedos</p>
<p>O amor, minha querida,<br />
é como o corpo de Maiakovski balançando<br />
na sombra da corda de Iessenin</p>
<p>Reprodução de mundos!<br />
as pérolas<br />
e o caos lá onde esteve o coração</p>
<p>Ó Glória! Ó Esperança! Ó Glória!<br />
O espírito vive por antecipação<br />
na espera de um redentor!</p>
<p>Os anos setenta são de muita agitação na vida do poeta. Em setenta e cinco conhece o cineasta paulista Roberto Santos, com quem realiza vários trabalhos e do qual será amigo e colaborador até sua morte em oitenta e cinco. Porém, no mesmo ano, João José é detido pelo DOPS, após sua participação na missa de sétimo dia do jornalista Vladimir Herzog, assassinado pela ditadura, e é fichado por suspeita de participação em movimentos de esquerda, inadmissíveis para o Governo Militar.</p>
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<p>CERIMÔNIA</p>
<p>Alhures onde estará agora<br />
como se fora uma bola de fogo<br />
Os corredores negros, tão negros que as paredes<br />
se enlaçam no nada e desaparecem<br />
e teu corpo, incandescente, brilha e refulge de orgulho<br />
           cósmico<br />
entre ataúdes que navegam solenes no vácuo<br />
perpétuo dos amanhãs<br />
Este universo incriado, que habitas em meu sonho,<br />
dá a ti, poeta morto, novo rumo biológico<br />
se te entrelaças em meus átomos, como ideia,<br />
e preenches meu corpo pelo simples ato da aspiração<br />
Em cada ato de minhas mãos refulge o brilho do teu<br />
            olhar,<br />
o pendor de tuas paixões, o calor de tuas amadas</p>
<p>e quando asado verso arremesso às paredes do universo<br />
como seta de sentido e verdade e beleza<br />
é a teu corpo que procuro</p>
<p>Átomos do universo, encontrai-nos!<br />
na pobreza simples (abastada solidão)<br />
na saúde de Cristo e Dioniso, na saúde<br />
dos fazedores de vinho<br />
e à doença atira as carnes<br />
quando a morte, derradeira cerimônia,<br />
de belos sonhos nos separe!</p>
<p>No final dos anos setenta, mais precisamente em setenta e sete, o poeta integra o grupo estudantil Refazendo, que se opunha ao grupo radical Liberdade e Luta. No mesmo ano, João José conhece aquele que seria seu grande amigo, o poeta Juvenal Juvêncio, com quem tem forte relação literária. Ainda estudando Cinema na USP, João José ingressa no curso de Filosofia da USP. Definitivamente seu caminho intelectual ganhava corpo. Os poemas dessa semana foram extraídos do livro Périplo, com poemas de 1984 a 1994.</p>
<p>poema O Grande Livro no blog http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>A VIZINHA</p>
<p>As mãos, intocadas,<br />
apanham o ar da noite gelada.<br />
À janela expõe o coração singelo<br />
embora a idade não lhe permita a doçura<br />
e a meiguice do olhar.<br />
Dizem: não fica bem para uma mulher,<br />
depois de certa idade, carregar nos olhos<br />
o fulgor das flores de laranjeira.<br />
No ar gelado do cômodo solitário<br />
os bicos dos seios endurecem e o<br />
oco vão entre as pernas é como se não portasse<br />
a áspera cor de certos desejos&#8230;<br />
Oco no olhar, é como se não houvesse<br />
úbere e já não pudessem cantar<br />
os pássaros na primavera.<br />
No entanto, porque é mulher, e porque<br />
a cerca a cidade, que também é feminino,<br />
aplaca o tempo de um só golpe<br />
com o simples sal do chorar.</p>
<p>No início dos anos 80, João José publica seu segundo livro Esse louco desejo, um livro que homenageia os poetas do Modernismo. Conclui o curso de filosofia em 81, publica seu terceiro livro Amor-perfeito, em 82, e conclui o curso de Grego e Latim. Nesse momento houve uma guinada intelectual, a partir de então, João José percorreria uma linha metafísica em sua linguagem. Vai para França, onde faz mestrado, estudando os fenômenos linguísticos, tendo como base a canção de gesta Chanson de Roland.</p>
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<p>OCASO</p>
<p>Hoje, uma poderosa tristeza,<br />
pantanosa, irremediável, invadiu-me a alma.<br />
Ou, mais, brotou dela, translúcida e terrivelmente bela.<br />
E cresceu tão rápido, tão segura de si,<br />
tão lamentavelmente cega,<br />
rasgando meus pensamentos mais ternos.<br />
Não era a morte,<br />
pois a morte me é terna neste entardecer desértico,<br />
em que caminho para além das costas rochosas,<br />
entre intervalos de areias lambidas pelo mar.<br />
Que maldição a tua,<br />
que vem me visitar no funeral de mais um dia,<br />
em que incansavelmente entrego-me absorto de agonia,<br />
mal dando para colher-te as lágrimas de viúva,<br />
tão desejada  intocada esposa.<br />
Abrupto me vem do norte o chamado,<br />
de pôr minha cabeça a prêmio,<br />
na guilhotina prateada pela clara luz do Cruzeiro,<br />
estica-se o pescoço pronto para o abate,<br />
a noite, o torniquete e, por fim,<br />
o alarde das aves cantoras,<br />
que me bicam o cérebro inerte,<br />
mergulhado na seca sopa de mais um ocaso,<br />
o esposo de uma deusa dolorosa,<br />
que chora de seu amor.</p>
<p>A metade dos anos 80 foi de estruturação intelectual e de expansão, em virtude do término de alguns ciclos acadêmicos e de viagens para a Europa. Em 84 conclui sua tese de mestrado e segue para a Itália, onde estuda semiótica na Universidade de Bologna. Enquanto isso, é publicado no Brasil o Pequeno Dicionário de Termos Literários, essencial peça para a compreensão do universo literário, tendo como sabe a literatura brasileira com especial devoção à poesia. Não fica por aí.</p>
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<p>CAFÉ COM MEU PAI</p>
<p>Debaixo de um pé de café<br />
sepultei o corpo de meu pai,<br />
com o rosto voltado para as ramas,<br />
de modo que seus olhos<br />
seguissem sempre num horizonte verde,<br />
e as narinas, um cheiro doce,<br />
capaz de matar sua sede.<br />
Também para que tivesse sombra nos dias de sol<br />
e muitos companheiros de viagem,<br />
como ele, plantados no cafezal.<br />
Colhe agora o que deu em vida<br />
e o que dele ficou inútil, o corpo,<br />
assim continua a ainda palpita.</p>
<p>Agora que envelheço,<br />
bebo café de outro jeito.<br />
Não só para abrandar o peito,<br />
não só para acender o pito,<br />
mas para rever seu rosto,<br />
um cafezal, e assim existo.</p>
<p>Em 1985, João José segue para a Alemanha, onde inicia doutorado com o linguísta Eugenio Coseriu. É publicado no Brasil o Dicionário Universal Três, com biografias de personalidades da história universal, escrito em parceria com seu amigo Juvenal Neto e com Ignácio de Loyola Brandão, e que será, ate 2006, sua última publicação. Conclui o doutorado em 87 e retorna ao Brasil, onde tentará até 91, a carreira como professor. </p>
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<p>MANHÃ</p>
<p>Esta manhã nasceu do silêncio.<br />
Nenhuma ave gorjeia, nenhum vento agita a onda, o mar<br />
         é um espelho.<br />
Ouço distante teus passos pela casa.<br />
Teu sol ameaça levantar-se, lança um tímido amarelo<br />
entre os verdes além da janela e o mar&#8230;<br />
Sei que estou ali, apoiado no beiral, esquecido da<br />
       paisagem<br />
os olhos assistindo, admirados, o agitar de tuas mãos,<br />
e o faro a ir e vir do teu perfume ao odor do café,<br />
nascendo de uma medida perfeita,<br />
como se soubesses quantas partículas de pó negro<br />
cabem exatos numa gota de água quente.<br />
E te sinto enrubescida de saber que meu olhos te seguem.<br />
Vejo-te preocupada de não mostrar o quanto sentes,<br />
de modo a evitar que o amor desabe sobre ti<br />
e te paralise os afazeres,<br />
numa tão grande alegria que poderias gritar o teu espanto<br />
e chorar todas as manhãs em que não tiveste a chance de a<br />
      isto renunciar.</p>
<p>m 1994, João José abandona a escrita e se volta completamente para a publicidade. Ficaria 10 anos sem escrever, dedicando-se à leitura e a estudos sobre a psicologia de Jung. Agora em 2005, volta a escrever poemas, e seu envolvimento na carreira publicitária diminui, contribuindo apenas esporadicamente. Em 2006, muda-se para o Rio de Janeiro, onde conhece a poeta e editora Thereza Christina Rocque da Motta, com quem começa a trabalhar como editor pela Ibis Libris.</p>
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<p>DIÁRIOS DE AMOR PERDIDO XIII</p>
<p>Ele esperou&#8230;<br />
Tanto, tanto, tanto&#8230;<br />
E esperou de tal modo,<br />
como se fora sua sina e o mais íntimo fado,<br />
que não mais lembrava quantas vezes virara a ampulheta.</p>
<p>E a virara tanto, tanto, tanto&#8230;<br />
que apagou a hora e afastou o pranto,<br />
até se transformar no girar dessa ampulheta e, depois,<br />
na areia que caía e recaía e, finalmente,<br />
no deserto de onde trouxeram a areia.</p>
<p>Assim, homem-deserto,<br />
na mais negra de suas noites,<br />
fitou perplexo a abóbada repleta de astros,<br />
onde divisou as constelações copulando há bilhões de<br />
      anos,<br />
muito antes da espécie humana florescer sobre a terra,<br />
então imarcescida&#8230;</p>
<p>Assim, homem-deserto,<br />
entendeu, pela primeira vez, que a vida é portal e passagem<br />
e, por isso, já passado&#8230;<br />
Que do passado a saudade nos aferra e aprisiona<br />
e o tempo é seu cárcere.</p>
<p>Todos os homens do mundo já foram esse homem.</p>
<p>Após 20 anos de ausência no mercado editorial, João José, morando no Rio de Janeiro, publica O mar de Ulisses (cujos poemas vimos na semana passada), livro este que tem como base a Odisséia de Homero. Em 2007, publica Diários de Amor Perdido (poemas desta semana), com poemas escritos na Alemanha e entre 2006 e 2007.João voltara definitivamente ao mercado editorial, publicando essencialmente poesia. </p>
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<p>ÊXODO</p>
<p>Reconstruo meu cérebro com o que restou de ti,<br />
como se caminhasse nas ruas<br />
com a massa inerme nas mãos.<br />
Como se em mim já não coubesse mais<br />
o instrumento com que organizei paisagem<br />
que fiz com o que não pude ver,<br />
como se nada mais sentisse do que fiz ou fui.<br />
Assim, não parece tão má a enorme desesperança,<br />
em que o desesperar não mais aflige a palavra amor,<br />
que agora flutua inerte entre meus dentes sem fome,<br />
como se soubessem de uma morte sem medo,<br />
e para ela sorrissem, vazios,<br />
como no vazio me dissipo,<br />
através do amor que por aí deixei.</p>
<p>João Jose diz que &#8220;nunca assinou manifestos literários, nem viveu vanguardas&#8221;. Foram os &#8220;bondes que perdeu&#8221;, disse ele no prefácio de Homens do Povo, livro ainda inédito. Nos anos 70, o jovem João comprava seus livros na Livraria Ler, na Praça da República, onde tinha crediário. Também comprava livros no Sebo Coimbra, na Benjamim Constant. Tudo em São Paulo. João elegeu como sua vanguarda literária os poetas Vinicius de Moraes, Mário de Andrade, Drummond, Bandeira, Murilo Mendes, Jorge de Lima e Augusto dos Anjos, pois &#8220;era o que tinha&#8221;. Veio a saber o que era Concretismo no final dos anos 70. </p>
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<p>ACEITAÇÃO DA DOR</p>
<p>Estive à tua porta.<br />
Eu tinha sede e me era cara a tua imagem.<br />
Eu abri os olhos e não te vi.<br />
Já não havia ali a tua imagem.<br />
Eu devia ter vivido quando ainda havia a coisa que vive.<br />
Agora procuro e estou no escuro de um portal<br />
que não é mais o teu, mas o meu.<br />
Por isso estou só e sinto medo por tudo que não posso ver.<br />
Há um terror nesta vida que só vem na solidão.<br />
Eu senti que sempre foi assim, mas jamais me entreguei.<br />
Agora, vem como a cara da morte, que não pode ver.<br />
Quero gritar, mas tornou-se oco e sem sentido.<br />
No entanto, é preciso caminhar pelo vale da morte,<br />
é preciso morrer sem pronunciar ais,<br />
reencontrar na miséria de tantos caminhos já percorridos uma<br />
      chama,<br />
saber que mais um caminho veio e não há ninguém onde<br />
     descansar.</p>
<p>Estrela que tudo reúne,<br />
a dor começou a caminhar.<br />
Ergue o fogo de tuas labaredas para além do visível,<br />
e permite, por hora, ser um pálido reflexo<br />
do fulgurante brilho, que espero, mísero e inferior,<br />
ao fim tocar.</p>
<p>João diz que &#8220;não sabe a qual geração de poetas pertenceu&#8221;. Tendo sido um rapaz pobre, e por isso, objetivo nos estudos, e ainda ter tido que trabalhar desde cedo, não teve muito contato com a chamada Geração Mimeógrafo que surgia nos anos 70, mesmo tendo conhecido alguns poetas. Sua grande influência foi o poeta Juvenal Neto, única figura com quem, de fato, compartilhava ideias sobre poesia e literatura. Porém, o amigo teve morte precoce em 1991.</p>
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<p>OGUM</p>
<p>A espada, o arado e a enxada &#8211; de ferro ele fez.<br />
A espada previne,<br />
o arado rasga a terra,<br />
a enxada tanto junta quando cobre.<br />
E então há paz, a terra é arada<br />
e é deitada a semente.<br />
Quando Iansã faz sexo, chove.<br />
E é assim que sobre o pacífico dom da terra<br />
o fruto vem e alimenta o homem.<br />
E é porque o fruto vem, que dão de fazer guerra,<br />
a maldição de que tudo o que dá vida,<br />
dá morte também.<br />
A espada, pendor de justiça, é um medo que vira arma,<br />
e para ela não há sangue que baste<br />
para cobrir o campo que o arado fez<br />
e sufocar a semente que a enxada bem escondeu.<br />
Em toda paz há um gosto de sangue sobre ferro<br />
e o nome disso é fome.</p>
<p>João José diz que o máximo de envolvimento que teve com um conjunto de ideias, ou grupo literário, foi a Metafísica. Leu Pessoa, Rilke, Eliot, Pound, Éluard, Valéry, os filósofos,Wittgenstein, Heidegger, Nietzsche, clássicos como Homero, Sapho, Píndaro, Eurípides, Sófocles, Virgílio, Ovídio, e os modernos, Pedro Abelardo, Vico, Bruno, e Balzac, e Goethe, e Joyce, e Camus, e um sem fim de autores e obras. Mais sobre a Metafísica na semana que vem.</p>
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<p>xangô</p>
<p>Ulisses, rei e guerreiro grego, que vagou por vinte anos<br />
enfrentando fortes batalhas e vivendo gloriosas aventuras,<br />
amava somente a uma mulher, a doce e fiel Penélope. Xangô,<br />
guerreiro e rei de Ifé, amava logo três: Iemanjá, a mãe, Oxum,<br />
a amante, e Insã, a companheira. E por elas, Xangô, como<br />
Ulisses por sua Penélope, lutava até. Ulisses e Xangô, ambos<br />
reis, guerreiros e astuciosos. Mas isso é tudo que os assemelha<br />
e em nada mais são par a par. Porque Ulisses amava somente<br />
a uma mulher e Xangô amava logo três. Porque Ulisses, que<br />
muito lutou, e que por isso virou semideus, entrou para a<br />
história e de suas lutas faz inspirar, mas Ulisses já não luta,<br />
Ulisses não luta mais. Já Xangô, que também muito lutou,<br />
ainda segue a lutar, e luta ainda pelas três amadas, e é por isso<br />
que ainda vive e é o santo desse lutar, que todo homem bem<br />
conhece, que é a luta do amor, que é a luta do amar. E essa é<br />
a justiça de Xangô, a justiça do amor, que todo homem bem<br />
conhece e, como o próprio Xangô, crê que por ela vale brigar.<br />
E essa é uma briga que todo mundo entende. Não é à toa que<br />
Xangô, comparado a Ulisses, é muito mais popular. Ao menos<br />
aqui, por essas bandas, em que por tudo se luta e na luta segue<br />
a sonhar.</p>
<p>Sobre sua relação com a poesia e a metafísica, João José diz que: &#8220;Lidar com uma poesia, que tem em sua base o homem real, de carne e osso, mas que também toma o corpo da humanidade como pano fundo, dando a ele um senso comum que transcende o imediato e o eleva à condição de catalisador de forças mais amplas, de sentido cósmico e espiritual, é o mesmo que fazer o caminho inverso das religiões, que, no mais, desejam sempre levar o homem a deus.&#8221; Hoje, dois poemas de Os Homens do Povo, livro ainda inédito.</p>
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<p>GEOGRAFIA</p>
<p>Não vai ler além e o que a paisagem sempre esconde,<br />
para lá da janela, em que não há mundo,<br />
só o desenho ideal da tarde em morte,<br />
as palavras que se perdem no vôo dos pássaros,<br />
inclassificáveis pela distância,<br />
e logo os olhos<br />
estarão a obliterar a geografia do que se não pode tocar<br />
com os anseios do ego-olhar.</p>
<p>Em sombras, geografia vã de tua essência,<br />
a casa inútil em que paralelamente existes,<br />
como paralelas e sem sentido são as janelas nas paredes<br />
e o mundo nelas recortado, aparentemente belo e sem dor,<br />
adornado pelo alarido de crianças e o latir dos cães.</p>
<p>Na outra janela, a outra paisagem,<br />
menos colorida, mais profunda, aceno de eternidade,<br />
a misteriosa cortina dos sonhos,<br />
que fechamos à espera.</p>
<p>CIDADE</p>
<p>Na madrugada bateram em minha porta.<br />
Eram os mortos.<br />
Clamavam por algo que pudesse lhes matar a sede.<br />
Eu bem sabia não ser água<br />
o que havia de matar-lhes a sede.<br />
Eu bem sabia a sede que sentiam<br />
e que água alguma há para matá-la.</p>
<p>Era o cheiro da cidade o que queriam,<br />
o cheiro da fuligem,<br />
o senso pleno na vertigem dos cheiros<br />
nascidos de milhares de fontes de suor.<br />
O cheiro de suas casas,<br />
dos armários entulhados de suas coisas,<br />
que, sem eles, parecem inúteis e são dadas,<br />
por misericórdia, ou para os esquecerem,<br />
e para se livrarem de seus cheiros mortos.</p>
<p>Homens que foram, só agora o sabem<br />
do faro que os guiou nessa vida de porco-odor.<br />
E porcos que foram, só agora se sabem<br />
seguidores da vida e de seu acre odor.<br />
Homens-porcos que foram,<br />
farejam agora o verdadeiro cheiro do corpo,<br />
do seu amor-porco, do seu apego pútrido e louco,<br />
matéria de sua carne histórica,<br />
nos chiqueiros quânticos dessas ruas insones.</p>
<p>Esquecidos habitantes dos umbrais&#8230;<br />
Por seus guinchos bestiais abro meu peito e canto,<br />
um hino de horror a esta fétida morada,<br />
testemunho de uma alma incurável e franca,</p>
<p>meu bafo poético, podre por perenidade,<br />
pá de cal, grãos de terra, pétalas semimortas,<br />
e minhas palavras, olfato e tato, minha alavanca.</p>
<p>Breve história: Conheci João José no café de uma livraria no Leblon. Eu estava um pouco angustiado por não ter recebido resposta de uma editora para o projeto de meu livro. Ele estava sentado com a poeta e minha amiga Juliana Hollanda, que o me apresentou. Contei a ele sobre o livro e ele me disse: &#8220;manda para mim que resolvo em dois tempos pra você&#8221;. Dito e feito. Além da edição do livro, uma amizade se iniciou. Através dele li Virgílio, Luis de Góngora, Horácio, Thereza Christina Rocque da Motta, Afonso Henriques Neto, Alphonsus de Guimaraens Filho, Ovídio e muito de mitologia grega. Mais ou menos por aí.</p>
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<p>CADERNO DE ANOTAÇÕES</p>
<p>Nada cumpri na vida senão em palavras.<br />
As árvores que plantei feneceram,<br />
ou por outras, mais afeitas ao solo,<br />
foram ensombreadas e finalmente esquecidas.<br />
Os filhos, não os tive, ou, talvez não os saiba,<br />
são como o pai, errantes viajantes de desertos.<br />
Os livros foram feitos, mas não se fizeram,<br />
como se fazem a si mesmos os livros,<br />
e até os vi vendidos por peso em troca de algum dinheiro,<br />
e este, sim, talvez tenha dado alimento a alguém.</p>
<p>Hoje, ante as inúmeras quedas do caminho,<br />
ou a contínua e desafortunada busca do ouro,<br />
conheço bem mais o chão,<br />
ou, talvez, a ele me assemelhe mais agora.<br />
Hoje, que me sei mais só,<br />
vejo-me livre de ter gerado uma prole de solitários,<br />
ou, talvez, inconscientemente, os tenha por mortos,<br />
e, assim, de modo inconsciente, ainda os ame.<br />
Hoje, a lide com as palavras não mais se sabe livro,<br />
e quer seja devotada indiferentemente<br />
a traduzir a crueldade ou a beleza da vida,<br />
busca instintivamente, modo super-humano,<br />
a simplicidade de um caderno de anotações,<br />
onde as palavras, perdidas as isenções da poesia,<br />
e adquirida a translucidez no rosto e no espelho,<br />
fluem como sangue, o rio-tinta.</p>
<p>Eis que chegamos ao final de mais uma antologia. Nesse mês, conhecemos um pouco da poesia de João José de Melo Franco, poeta metafísico, editor e amante do Rio de Janeiro. Veio de Barretos, estudou semiótica, grego e latim, e que se considera sem geração. Semana que vem entraremos num outro universo poético, com outras proposições, outras cores, outras facetas da poesia, enfim, outros poemas. Até!</p>
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<p>ORAÇÃO AOS POETAS DO AMOR</p>
<p>A minha amiga, Glaucia Dunley.</p>
<p>Quisera fossem as orações tristes poemas de amor.<br />
Assim, mesmo sem amor, os amantes teriam seu consolo<br />
e certa esperança de que curassem as feridas<br />
as palavras poéticas, proferidas como se fossem as de todo o povo.<br />
Não é o mesmo que prometeram os teus santos, senhor?<br />
Agora e na hora de nossa morte?<br />
Então, não morre também o amor?<br />
Os poemas de amor, os mais tristes, são como o animal sacrificado,<br />
que por nós morre, e nos purifica e, embora breve,<br />
nos dá um chão no céu, para nossos passos incertos<br />
e nossa fé apócrifa, como a vossa mão, senhor,<br />
em nossos enganos, a redenção de nossos sonhos,<br />
mesmo a quem nunca o encontrou, o amor,<br />
e nunca o deixou de procurar, mesmo o amor apedrejado,<br />
e mesmo o amor traído, que nos cegam o coração,<br />
cabem todos em um poema triste de amor,<br />
ainda que não tenha a cura, nem o mistério do perdão.</p>
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		<item>
		<title>João Cabral de Melo Neto</title>
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		<pubDate>Sat, 29 May 2010 00:16:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cartilhadepoesia</dc:creator>
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		<description><![CDATA[João Cabral de Melo Neto nasceu no dia 9 de janeiro, no Recife, no ano de 1920. Nasceu na rua da Jaqueira, que depois se chamou Leonardo Cavalcanti. Segundo filho de Luiz Antônio Cabral de Melo e de Carmem Carneiro-Leão Cabral de Melo. Primo, pelo lado paterno, de Manuel Bandeira, e pelo materno de Gilberto [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=41&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João Cabral de Melo Neto nasceu no dia 9 de janeiro, no Recife, no ano de 1920. Nasceu na rua da Jaqueira, que depois se chamou Leonardo Cavalcanti. Segundo filho de Luiz Antônio Cabral de Melo e de Carmem Carneiro-Leão Cabral de Melo. Primo, pelo lado paterno, de Manuel Bandeira, e pelo materno de Gilberto Freire. Neste mês, temos a honra e a responsabilidade de percorrer a obra deste incrível poeta brasileiro. Vamos ver no que dá!</p>
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<p>DENTRO DA PERDA DA MEMÓRIA</p>
<p>Dentro da perda da memória</p>
<p>uma mulher azul estava deitada</p>
<p>que escondia entre os braços</p>
<p>desses pássaros friíssimos</p>
<p>que a lua sopra alta noite</p>
<p>nos ombros nus do retrato.</p>
<p>E do retrato nasciam duas flores</p>
<p>(dois olhos dois seios clarinetes)</p>
<p>que em certas horas do dia</p>
<p>cresciam prodigiosamente</p>
<p>para que as bicicletas de meu desespero</p>
<p>corressem sobre seus cabelos.</p>
<p>E nas bicicletas que eram poemas</p>
<p>chegavam meus amigos alucinados.</p>
<p>Sentados em desordem aparente,</p>
<p>ei-los a engolir regularmente seus relógios</p>
<p>enquanto o hierofante armado cavaleiro</p>
<p>movia inutilmente seu único braço.</p>
<p>O pequeno João passa a infância em engenhos de açucar. Primeiro no Poço do Aleixo (em São Lourenço da Mata), e depois nos engenhos Pacoval e Dois Irmãos (município do Moreno). No ano de 1930, a família se muda para o Refice, onde o pequeno João faz o curso primário. Em 1935, é campeão juvenil de futebol pelo Santa Cruz Futebol Clube. Já aos dezessete, trabalha na Associação Comercial de Pernambuco e depois do Departamento de Estatística do Estado. A literatura viria depois.</p>
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<p>A MULHER NO HOTEL</p>
<p>A mulher que eu não sabia</p>
<p>(rosas nas mãos que eu não via,</p>
<p>olhos, braços, boca, seios),</p>
<p>deita comigo nas nuvens.</p>
<p>Nos seus ombros correm ventos,</p>
<p>crescem ervas no seu leito,</p>
<p>vejo gente no deserto</p>
<p>onde eu sonhara morrer.</p>
<p>Terei de engolir a poeira</p>
<p>que seus cabelos levantam</p>
<p>e pousa na minha alma</p>
<p>me dando um gosto de inferno?</p>
<p>Terei de esmagar crianças?</p>
<p>Pisar as flores crescendo?</p>
<p>Terei de arrasar as cidades</p>
<p>sob seu corpo um cemitério</p>
<p>onde um seu pé plantarei.</p>
<p>Vou cuspir nos olhos brancos</p>
<p>dessa mulher que eu não sei.</p>
<p>Em 1938, João Cabral começa a frequentar a roda literária do Café Lafayette, onde conhece o intelectual Willy Lewin e o pintor Vicente do Rego Monteiro, que regressara de Paris em virtude da guerra. O jovem, ainda sorvendo de suas companhias, iria ter grande curiosidade no universo da pintura. Um ano depois, viaja a serviço para Belém do Pará, porém, a viagem de maior importância aconteceu depois. Os Três Mal-Amados foi publicado em 1943, depois de seu primeiro livro, Pedra do Sono, e se tornou bastante conhecido, sobretudo a fala de Joaquim.</p>
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<p>Os Três Mal-Amados</p>
<p>fala de Joaquim</p>
<p>(trechos)</p>
<p>O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato.</p>
<p>O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço.</p>
<p>O amor comeu meus cartões da visita. O amor veio e comeu todos os papéis</p>
<p>onde eu escrevera meu nome.</p>
<p>(&#8230;)</p>
<p>O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas.</p>
<p>O amor comeu metros e metros de gravatas.</p>
<p>O amor comeu a medida dos meus ternos, o número dos meus sapatos,</p>
<p>o tamanho de meus chapéus.</p>
<p>O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.</p>
<p>(&#8230;)</p>
<p>O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas.</p>
<p>Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas meus raios-X.</p>
<p>Comeu meus testes mentais,meus exames de urina.</p>
<p>(&#8230;)</p>
<p>O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia.</p>
<p>Comeu em meus livros de prosa as citações em verso.</p>
<p>Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos</p>
<p>(&#8230;)</p>
<p>O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite.</p>
<p>Meu inverno e meu verão. Comeu meu silencio, minha dor de cabeça,</p>
<p>meu medo da morte.</p>
<p>Em 1940, João Cabral, ainda com vintes anos, viaja com a família para o Rio de Janeiro, então, capital do Brasil. No Rio, conhece o poeta Murilo Mendes, principal referência de poesia na época, que o apresenta a um poeta que despertara interesse no jovem João, o poeta era Carlos Drummond de Andrade. Ficaram amigos. O encontro foi realizado num círculo literário no consultório do poeta Jorge de Lima. João conhecera a segunda geração do modernismo.</p>
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<p>A CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE</p>
<p>Não há guarda-chuva</p>
<p>contra o poema</p>
<p>subindo de regiões onde tudo é surpresa</p>
<p>como uma flor mesmo num canteiro.</p>
<p>Não há guarda-chuva</p>
<p>contra o amor</p>
<p>que mastiga e cospe como qualquer boca,</p>
<p>que tritura como um desastre.</p>
<p>Não há guarda-chuva</p>
<p>contra o tédio:</p>
<p>o tédio das quatro paredes, das quatro</p>
<p>estações, dos quatro pontos cardeais.</p>
<p>Não há guarda-chuva</p>
<p>contra o mundo</p>
<p>cada dia devorado nos jornais</p>
<p>sob as espécies de papel e tinta.</p>
<p>Não há guarda-chuva</p>
<p>contra o tempo,</p>
<p>rio fluindo sob a casa, correnteza</p>
<p>carregando os dias, os cabelos.</p>
<p>Em 1941, João Cabral participa do Congresso de Poesia do Recife, onde apresenta Considerações sobre o poeta dormindo. Um ano depois viria o primeiro livro, Pedra do Sono. Meses depois, no Rio de Janeiro, é convocado para servir à FEB, porém, é dispensado por motivo de saúde. No Rio, João não perde tempo e começa a frequentar as rodas do Café Amarelinho e do conhecido Café Vermelhinho, onde iam intelectuais, políticos e outras personalidades como Tomás Santa Rosa, Carlos Castelo Branco, Carlos Drummond e outros. O poeta estava definitivamente inserido.</p>
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<p>PEQUENA ODE MINERAL</p>
<p>Desordem na alma</p>
<p>que se atropela</p>
<p>sob esta carne</p>
<p>que transparece.</p>
<p>Desordem na alma</p>
<p>que de ti foge,</p>
<p>vaga fumaça</p>
<p>que se dispersa,</p>
<p>informe nuvem</p>
<p>que de ti cresce</p>
<p>e cuja face</p>
<p>nem reconheces.</p>
<p>Tua alma foge</p>
<p>como cabelos,</p>
<p>unhas, humores,</p>
<p>palavras ditas</p>
<p>que não se sabe</p>
<p>onde se perdem</p>
<p>e impregnam a terra</p>
<p>com sua morte.</p>
<p>Tua alma escapa</p>
<p>como este corpo</p>
<p>solto no tempo</p>
<p>que nada impede.</p>
<p>Procura a ordem</p>
<p>que vês na pedra:</p>
<p>nada se gasta</p>
<p>mas permanece.</p>
<p>Essa presença</p>
<p>que reconheces</p>
<p>não se devora</p>
<p>tudo em que cresce.</p>
<p>Nem mesmo cresce</p>
<p>pois permanece</p>
<p>fora do tempo</p>
<p>que não a mede,</p>
<p>pesado sólido</p>
<p>que ao fluido vence,</p>
<p>que sempre ao fundo</p>
<p>das coisas desce.</p>
<p>Procura a ordem</p>
<p>desse silêncio</p>
<p>que imóvel fala:</p>
<p>silêncio puro,</p>
<p>de pura espécie,</p>
<p>voz de silêncio,</p>
<p>mais do que a ausência</p>
<p>que as vozes ferem.</p>
<p>O livro O engenheiro foi publicado em 1945, custeado pelo poeta Augusto Frederico Schmidt. Neste mesmo ano, João Cabral faz concurso para a carreira diplomática, e é nomeado em dezembro. Porém, no ano de 1945, o fato mais marcante foi a morte de Mário de Andrade. Os poetas surgidos nesta geração, a chamada Geração de 45, chegariam com uma proposta mais rígida, contra as inovações dos modernistas de 22. João Cabral, mesmo sendo sendo um poeta que, esteticamente, não se filiaria a nenhum movimento, foi incluído neste grupo.</p>
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<p>ANTIODE</p>
<p>(contra a poesia dita profunda)</p>
<p>Poesia, te escrevia:</p>
<p>flor! conhecendo</p>
<p>que és fezes. Fezes</p>
<p>como qualquer,</p>
<p>gerando cogumelos</p>
<p>(raros, frágeis cogu-</p>
<p>melos) no úmido</p>
<p>calor de nossa boca.</p>
<p>Delicado, escrevia:</p>
<p>flor! (Cogumelos</p>
<p>serão flor? Espécie</p>
<p>estranha, espécie</p>
<p>extinta de flor, flor</p>
<p>não de todo flor,</p>
<p>mas flor, bolha</p>
<p>aberta no maduro.)</p>
<p>Delicado, evitava</p>
<p>o estrume do poema,</p>
<p>seu caule, seu ovário,</p>
<p>suas intestinações.</p>
<p>Esperava as puras,</p>
<p>transparentes florações,</p>
<p>nascidas do ar, no ar,</p>
<p>como as brisas.</p>
<p>Depois, eu descobriria</p>
<p>que era lícito</p>
<p>te chamar: flor!</p>
<p>(Pelas vossas iguais</p>
<p>circunstâncias? Vossas</p>
<p>gentis substâncias? Vossas</p>
<p>doces carnações? Pelos</p>
<p>virtuosos vergéis</p>
<p>de vossas evocações?</p>
<p>Pelo pudor do verso</p>
<p>- pudor de flor -</p>
<p>por seu tão delicado</p>
<p>pudor de flor,</p>
<p>que só se abre</p>
<p>quando a esquece o</p>
<p>sono do jardineiro?)</p>
<p>Depois eu descobriria</p>
<p>que era lícito</p>
<p>te chamar: flor!</p>
<p>(flor, imagem de</p>
<p>duas pontas, como</p>
<p>uma corda). Depois</p>
<p>eu descobriria</p>
<p>as duas pontas</p>
<p>da flor; as duas</p>
<p>bocas da imagem</p>
<p>da flor: a boca</p>
<p>que come o defunto</p>
<p>e a boca que orna</p>
<p>o defunto com outro</p>
<p>defunto, com flores,</p>
<p>- cristais de vômito.</p>
<p>Como não invocar o</p>
<p>vício da poesia: o</p>
<p>corpo que estorpece</p>
<p>ao ar de versos?</p>
<p>(Ao ar de águas</p>
<p>mortas, injetando</p>
<p>na carne do dia</p>
<p>a infecção da noite.)</p>
<p>Fome de vida? Fome</p>
<p>de morte, frequentação</p>
<p>a morte, como de</p>
<p>algum cinema.</p>
<p>O dia? Árido.</p>
<p>Venha, então, a noite,</p>
<p>o sono. Venha,</p>
<p>por isso, a flor.</p>
<p>Venha, mais fácil e</p>
<p>portátil na memória,</p>
<p>o poema, flor no</p>
<p>colete da lembrança.</p>
<p>Como não invocar,</p>
<p>sobretudo, o exercício</p>
<p>do poema, sua prática,</p>
<p>sua lânguida horti-</p>
<p>cultura? Pois estações</p>
<p>há, do poema, como</p>
<p>da flor, ou como</p>
<p>no amor dos cães;</p>
<p>e mil mornos</p>
<p>enxertos, mil maneiras</p>
<p>de excitar negros</p>
<p>êxtases; e a morna</p>
<p>espera de que se</p>
<p>apodreça em poema,</p>
<p>prévia exalação</p>
<p>da alma defunta.</p>
<p>Poesia, não será esse</p>
<p>o sentido em que</p>
<p>ainda te escrevo:</p>
<p>flor! (Te escrevo:</p>
<p>flor! Não uma</p>
<p>flor, nem aquela</p>
<p>flor-virtude &#8211; em</p>
<p>disfarçados urinóis.)</p>
<p>Flor é a palavra</p>
<p>flor, verso inscrito</p>
<p>no verso, como as</p>
<p>manhãs no tempo.</p>
<p>Flor é o salto</p>
<p>da ave para o vôo;</p>
<p>o salto fora do sono</p>
<p>quando seu tecido</p>
<p>se rompe; é uma explosão</p>
<p>posta a funcionar,</p>
<p>como uma máquina,</p>
<p>uma jarra de flores.</p>
<p>Poesia, te escrevo</p>
<p>agora, fezes, as</p>
<p>fezes vivas que és.</p>
<p>Sei que outras</p>
<p>palavras és, palavras</p>
<p>impossíveis de poema.</p>
<p>Te escrevo, por isso,</p>
<p>fezes, palavra leve,</p>
<p>contando com sua</p>
<p>breve, Te escrevo</p>
<p>cuspe, cuspe, não</p>
<p>mais; tão cuspe</p>
<p>como a terceira</p>
<p>(como usá-la num</p>
<p>poema?) a terceira</p>
<p>das virtudes teologais.</p>
<p>Aos 26 anos, João Cabral trabalha no Departamento Cultural do Itamaraty, no Departamento Político e depois da Comissão de Organismos Internacionais. Casa-se com Stela Maria Barbosa de Oliveira e, meses depois, nasce seu primeiro filho, Rodrigo. A vida do poeta começa a ficar agitada com sua ida para Barcelona, Espanha, que lhe despertaria uma imensa ternura. Lá, começa a publicar, numa tipografia artesanal, poetas brasileiros e espanhóis. Em 1947, aos 27 anos, nasce sua filha Inês. A Espanha entrara de vez na vida do poeta.</p>
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<p>O CÃO SEM PLUMAS</p>
<p>(trechos)</p>
<p>A cidade é passada pelo rio</p>
<p>como uma rua</p>
<p>é passada por um cachorro;</p>
<p>uma fruta</p>
<p>por uma espada.</p>
<p>O rio ora lembrava</p>
<p>a língua mansa de um cão,</p>
<p>ora o ventre triste de um cão,</p>
<p>ora o outro rio</p>
<p>de aquoso pano sujo</p>
<p>dos olhos de um cão.</p>
<p>Aquele rio</p>
<p>era como um cão sem plumas.</p>
<p>Nada sabia da chuva azul,</p>
<p>da fonte cor-de-rosa,</p>
<p>da água do copo de água</p>
<p>da água de cântaro,</p>
<p>dos peixes de água,</p>
<p>da brisa na água.</p>
<p>(&#8230;)</p>
<p>Entre a paisagem</p>
<p>o rio fluía</p>
<p>como uma espada de líquido espesso.</p>
<p>Como um cão</p>
<p>humilde e espesso.</p>
<p>Entre a paisagem</p>
<p>(fluía)</p>
<p>de homens plantados na lama;</p>
<p>de casas de lama</p>
<p>plantadas em ilhas</p>
<p>coaguladas na lama;</p>
<p>paisagem de anfíbios</p>
<p>de lama e lama.</p>
<p>Como o rio</p>
<p>aqueles homens</p>
<p>são como cães sem plumas</p>
<p>(um cão sem plumas</p>
<p>é mais</p>
<p>que um cão saqueado;</p>
<p>é mais</p>
<p>que um cão assassinado.</p>
<p>Um cão sem plumas</p>
<p>é quando uma árvore sem voz.</p>
<p>É quando de um pássaro</p>
<p>suas raízes no ar.</p>
<p>É quando a alguma coisa</p>
<p>roem tão fundo</p>
<p>até o que não tem).</p>
<p>Em 1949, nasce seu filho Luiz. João Cabral reside agora na Catalunha, e lá, escreve um ensaio sobre o pintor Miró, cujo estúdio frequentava. O pintor faz publicar o texto em português com suas primeiras gravuras em madeira. O Cão sem Plumas é publicado depois. Em 1952, João Cabral é removido para o Brasil para responder um inquérito sob a acusação de subversão. Escreve O Rio, com o qual recebe o Prêmio José de Anchieta. É colocado em disponibilidade não remunerada pelo Itamaraty enquanto responde ao inquérito. Arquivado o inquérito, vai para Pernambuco onde é recebido em sessão solene pela Câmara Municipal.</p>
<p>poema Dedos no blog http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>O RIO</p>
<p>Sempre pensara em ir</p>
<p>caminho do mar.</p>
<p>Para alguns bichos e rios</p>
<p>nascer já é caminhar.</p>
<p>Eu não sei o que os rios</p>
<p>têm de homem do mar;</p>
<p>sei que sente o mesmo</p>
<p>e exigente chamar.</p>
<p>Eu já nasci descendo</p>
<p>a serra que se diz do Jacarará,</p>
<p>entre caraibeiras</p>
<p>de que só sei por ouvir contar</p>
<p>(pois, também como gente,</p>
<p>não consigo me lembrar</p>
<p>dessas primeiras léguas</p>
<p>de meu caminhar).</p>
<p>Desde tudo que me lembro,</p>
<p>lembro-me bem de que baixava</p>
<p>entre terras de sede</p>
<p>que das margens me vigiavam.</p>
<p>Rio menino, eu temia</p>
<p>aquela grande sede de palha,</p>
<p>grande sede sem fundo</p>
<p>que águas meninas cobiçava.</p>
<p>Por isso é que ao descer</p>
<p>caminho de pedras eu buscava,</p>
<p>que não leito de areia</p>
<p>com suas bocas multiplicadas.</p>
<p>Leito de pedra abaixo</p>
<p>rio menino eu saltava.</p>
<p>Saltei até encontrar</p>
<p>as terras fêmeas da Mata.</p>
<p>Os anos cinquenta foram de muita produção e importantes para o desenvolvimento de sua linguagem. Foi convidado para o Congresso Internacional de Escritores em 1954, assim como para o Congresso Nacional de Poesia (não sei porque ainda não há). Publica no mesmo ano Poemas Reunidos, pela Editora Orfeu. Também é, enfim, reintegrado à carreira diplomática pelo Supremo Tribunal Federal e passa a atuar no Departamento Cultural do Itamaraty. A partir daí, sua presença se torna mais firme no cenário poético brasileiro.</p>
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<p>FÁBULA DE JOAN BROSSA</p>
<p>Joan Brossa, poeta frugal,</p>
<p>que só come tomate e pão,</p>
<p>que sobre papel de estiva</p>
<p>compõe versos a carvão,</p>
<p>nas feiras de Barcelona,</p>
<p>Joan Brossa, poeta buscão,</p>
<p>as sete caras do dado,</p>
<p>as cinco patas do cão</p>
<p>antes buscava, Joan Brossa,</p>
<p>místico da aberração,</p>
<p>buscava encontrar nas feiras</p>
<p>sua poética sem-razão.</p>
<p>Mas porém como buscava</p>
<p>onde é o sol mais temporão,</p>
<p>pelo Clot, Hospitalet,</p>
<p>onde as vidas de artesão,</p>
<p>por bairros onde as semanas</p>
<p>sobram da vara do pão</p>
<p>e o horário é mais comprido</p>
<p>que fio de tecelão,</p>
<p>acabou vendo, Joan Brossa,</p>
<p>que os verbos do catalão</p>
<p>tinham coisas por detrás</p>
<p>eram só palavras, não.</p>
<p>Agora os olhos, Joan Brossa</p>
<p>(sua trocada instalação),</p>
<p>voltou às coisas espessas</p>
<p>que a gravidez pesa ao chão</p>
<p>e escreveu um Dragãozinho</p>
<p>denso, de copa e fogão,</p>
<p>que combate as mercearias</p>
<p>com ênfase de dragão.</p>
<p>Em 1955, dois &#8220;presentes&#8221;: o nascimento de sua filha Isabel e o Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras. Um ano depois, a Editora José Olympio publica Duas Águas, livro que reúne seus livros anteriores e os inéditos: Morte e Vida Severina, Paisagem com Figuras (o poema de hoje é desse livro) e Uma faca só lâmina. No mesmo ano, é removido para Barcelona, com a missão de fazer pesquisas históricas no Arquivo das Índias de Sevilha, onde reside. Sevilla para herir disse o Lorca uma vez, e o Cabral também teria o mesmo fascínio pela cidade que cantaria mais tarde.</p>
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<p>ENCONTRO COM UM POETA</p>
<p>Em certo lugar da Mancha,</p>
<p>onde mais dura é Castela,</p>
<p>sob as espécies de um vento</p>
<p>soprando armado de areia,</p>
<p>vim surpreender a presença,</p>
<p>mais do que pensei, severa,</p>
<p>de certo Miguel Hernández,</p>
<p>hortelão de Orihuela.</p>
<p>A voz desse tal Miguel,</p>
<p>entre palavras e terra</p>
<p>indecisa, como em Fraga</p>
<p>as casas o estão da terra,</p>
<p>foi um dia arquitetura,</p>
<p>foi voz métrica de pedra,</p>
<p>tal como, cristalizada,</p>
<p>surge Madrid a quem chega.</p>
<p>Mas a voz que percebi</p>
<p>no vento da parameira</p>
<p>era de terra sofrida</p>
<p>e batida, terra de eira.</p>
<p>Não era a voz expurgada</p>
<p>de suas obras seletas:</p>
<p>era uma edição do vento,</p>
<p>que não vai às bibliotecas,</p>
<p>era uma edição incômoda,</p>
<p>a que se fecha a janela,</p>
<p>incômoda porque o vento</p>
<p>não censura mas libera.</p>
<p>A voz que então percebi</p>
<p>no vento da parameira</p>
<p>era aquela voz final</p>
<p>de Miguel, rouca de guerra</p>
<p>(talvez ainda mais aguda</p>
<p>no sotaque da poeira;</p>
<p>talvez mais dilacerada</p>
<p>quando o vento a interpreta).</p>
<p>Vi então que a terra batida</p>
<p>do fim da vida do poeta,</p>
<p>terra que de tão sofrida</p>
<p>acabou virando pedra,</p>
<p>se havia multiplicado</p>
<p>naquelas facas de areia</p>
<p>e que, se multiplicando,</p>
<p>multiplicara as arestas.</p>
<p>Naquela edição do vento</p>
<p>senti a voz mais direta:</p>
<p>igual que árvore amputada,</p>
<p>ganhara gumes de pedra.</p>
<p>No ano de 1958, João Cabral é removido para Marselha. Depois, recebe o prêmio de melhor autor no Festival Nacional de Teatro Estudante, realizado no Recife. Vai para Lisboa onde publica Quaderna. Vai para Madrid onde publica Dois parlamentos. Nessa altura, suas proposições em poesia estão mais do que claras, que ficam ainda mais em evidência em suas conferências.</p>
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<p>MORTE E VIDA SEVERINA</p>
<p>O retirante explica ao leitor quem é e a que vai</p>
<p>O meu nome é Severino,</p>
<p>não tenho outro de pia.</p>
<p>Como há muitos Severinos,</p>
<p>que é santo de romaria,</p>
<p>deram então de me chamar</p>
<p>Severino de Maria;</p>
<p>como há muitos Severinos</p>
<p>com mães chamadas Maria,</p>
<p>fiquei sendo o da Maria</p>
<p>do finado Zacarias.</p>
<p>Mas isso ainda é pouco:</p>
<p>há muitos na freguesia,</p>
<p>por causa de um coronel</p>
<p>que se chamou Zacarias</p>
<p>e que foi o mais antigo</p>
<p>senhor desta sesmaria.</p>
<p>Como então dizer quem fala</p>
<p>ora a Vossas Senhorias?</p>
<p>Vejamos: é o Severino</p>
<p>da Maria do Zacarias,</p>
<p>lá da serra da Costela,</p>
<p>limites da Paraíba.</p>
<p>Mas isso ainda diz pouco:</p>
<p>se ao menos mais cinco havia</p>
<p>com nome de Severino</p>
<p>filhos de tantas Marias</p>
<p>mulheres de outros tantos,</p>
<p>já finados, Zacarias,</p>
<p>vivendo na mesma serra</p>
<p>magra e ossuda em que eu vivia.</p>
<p>Somos muitos Severinos</p>
<p>iguais em tudo na vida:</p>
<p>na mesma cabeça grande</p>
<p>que a custo é que se equilibra,</p>
<p>no mesmo ventre crescido</p>
<p>sobre as mesmas pernas finas,</p>
<p>e iguais também porque o sangue</p>
<p>que usamos tem pouca tinta.</p>
<p>E se somos Severinos</p>
<p>iguais em tudo na vida,</p>
<p>morremos de morte igual,</p>
<p>mesma morte severina:</p>
<p>que é a morte de que se morre</p>
<p>de velhice antes dos trinta,</p>
<p>de emboscada antes dos vinte,</p>
<p>de fome um pouco por dia</p>
<p>(de fraqueza e de doença</p>
<p>é que a morte severina</p>
<p>ataca em qualquer idade,</p>
<p>e até gente não nascida).</p>
<p>Somos muitos Severinos</p>
<p>iguais em tudo e na sina:</p>
<p>a de abrandar estas pedras</p>
<p>suando-se muito em cima,</p>
<p>e de tentar despertar</p>
<p>terra sempre mais extinta,</p>
<p>a de querer arrancar</p>
<p>algum roçado a cinza.</p>
<p>Mas, para que me conheçam</p>
<p>melhor Vossas Senhorias</p>
<p>e melhor possam seguir</p>
<p>a história de minha vida,</p>
<p>passo a ser o Severino</p>
<p>que em vossa presença emigra.</p>
<p>Início dos anos 60. João Cabral é nomeado chefe do gabinete do ministro da Agricultura, Romero Cabral da Costa, volta ao Brasil e reside em Brasília. Com o fim do governo Jânio Quadros, é removido outra vez para a embaixada em Madri. A Editora do Autor, de Rubem Braga e Fernando Sabino, publica Terceira feira, livro que reúne Quaderna, Dois parlamentos e um novo livro, Serial. Um ano depois, volta a morar em Sevilha. Uma Faca Só Lâmina é dedicado a Vinicius de Moraes.</p>
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<p>UMA FACA SÓ LâMINA</p>
<p>Assim como uma bala</p>
<p>enterrada no corpo,</p>
<p>fazendo mais espesso</p>
<p>um dos lados do morto;</p>
<p>assim como uma bala</p>
<p>do chumbo mais pesado,</p>
<p>no músculo de um homem</p>
<p>pesando-o mais de um lado</p>
<p>qual bala que tivesse</p>
<p>um vivo mecanismo</p>
<p>bala que possuísse</p>
<p>um coração ativo</p>
<p>igual ao de um relógio</p>
<p>submerso em algum corpo,</p>
<p>ao de um relógio vivo</p>
<p>e também revoltoso,</p>
<p>relógio que tivesse</p>
<p>o gume de uma faca</p>
<p>e toda a impiedade</p>
<p>da lâmina azulada;</p>
<p>assim como uma faca</p>
<p>que sem bolso ou bainha</p>
<p>se transformasse em parte</p>
<p>de vossa anatomia;</p>
<p>qual uma faca íntima</p>
<p>ou faca de uso interno,</p>
<p>habitando num corpo</p>
<p>como o próprio esqueleto</p>
<p>de um homem que o tivesse,</p>
<p>e sempre, doloroso,</p>
<p>de homem que se ferisse</p>
<p>contra seus próprios ossos.</p>
<p>Em 1964, ano do golpe militar, João Cabral é removido como conselheiro para a Delegação do Brasil junto às Nações Unidas, em Genebra. No mesmo ano, nasce seu quinto filho, João. Dois anos depois João Cabral passaria por uma situação inusitada: O Teatro da Universidade Católica produz o auto Morte e Vida Severina, musicado, sem sua autorização, pelo jovem Chico Buarque. Já era notório seu desinteresse por música. Logo mais, recebe um prêmio na França pelo texto da montagem. Ao publicar Educação pela Pedra, recebe os prêmios Jabuti, Luisa Cláudio de Souza e o Institucional pelo Livro.</p>
<p>poema Descrição crescendo no blog http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>PAISAGEM PELO TELEFONE</p>
<p>Sempre que no telefone</p>
<p>me falavas, eu diria</p>
<p>que falavas de uma sala</p>
<p>toda de luz invadida,</p>
<p>sala que pelas janelas,</p>
<p>duzentas, se oferecia</p>
<p>a alguma manhã de praia,</p>
<p>mais manhã porque marinha,</p>
<p>a alguma manhã de praia</p>
<p>no prumo do meio-dia,</p>
<p>meio-dia mineral</p>
<p>de uma praia nordestina,</p>
<p>Nordeste de Pernambuco,</p>
<p>onde as manhãs são mais limpas,</p>
<p>Pernambuco do Recife,</p>
<p>de Piedade, de Olinda,</p>
<p>sempre povoado de velas,</p>
<p>brancas, ao sol estendidas,</p>
<p>de jangadas, que são velas</p>
<p>mais brancas porque salinas,</p>
<p>que, como muros caiados</p>
<p>possuem luz intestina,</p>
<p>pois não é o sol quem as veste</p>
<p>e tampouco as ilumina,</p>
<p>mais bem, somente as desveste</p>
<p>de toda sombra ou neblina,</p>
<p>deixando que livres brilhem</p>
<p>os cristais que dentro tinham.</p>
<p>Pois, assim, no telefone</p>
<p>tua voz me parecia</p>
<p>como se de tal manhã</p>
<p>estivesses envolvida,</p>
<p>fresca e clara, como se</p>
<p>telefonasses despida,</p>
<p>ou, se vestida, somente</p>
<p>de roupa de banho, mínima,</p>
<p>e que por mínima, pouco</p>
<p>de tua luz própria tira,</p>
<p>e até mais, quando falavas</p>
<p>no telefone, eu diria</p>
<p>que estavas de todo nua,</p>
<p>só de teu banho vestida,</p>
<p>que é quando tu estás mais clara</p>
<p>pois a água nada embacia,</p>
<p>sim, como o sol sobre a cal</p>
<p>seis estrofes mais acima,</p>
<p>a água clara não te acende:</p>
<p>libera a luz que já tinhas.</p>
<p>Aos 48 anos, em 1968 (ano bastante confuso), João Cabral é eleito para a Academia Brasileira de Letras na vaga de Assis Chateaubriand. Toma posse no ano seguinte, onde é recebido por José Américo de Almeida. Na posse, João Cabral, num belíssimo discurso em homenagem ao jornalista, disse que &#8220;mesmo que eu quisesse fazer de Chateaubriand um perfil do tipo do que ele fez de Getúlio Vargas, não passaria, esse perfil, de uma enumeração dissaborida de anedotas alheias, sabidas de ouvir contar&#8221;.</p>
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<p>POEMA(S) DA CABRA</p>
<p>I</p>
<p>A cabra é negra. Mas seu negro</p>
<p>não é o negro do ébano douto</p>
<p>(que é quase azul) ou o negro rico</p>
<p>do jacarandá (mais bem roxo).</p>
<p>O negro da cabra é o negro</p>
<p>do preto, do pobre, do pouco.</p>
<p>Negro da poeira, que é cinzento.</p>
<p>Negro da ferrugem, que é fosco.</p>
<p>Negro do feio, às vezes branco.</p>
<p>Ou o negro do pardo, que é pardo.</p>
<p>Disso que não chega a ter cor</p>
<p>ou perdeu toda cor no gasto.</p>
<p>É o negro da segunda classe.</p>
<p>Do inferior (que é sempre opaco).</p>
<p>Disso que não pode ter cor</p>
<p>porque em negro sai mais barato.</p>
<p>II</p>
<p>Se o negro quer dizer noturno</p>
<p>o negro da cabra é solar.</p>
<p>Não é o da cabra o negro noite.</p>
<p>É o negro de sol. Luminar.</p>
<p>Será o negro do queimado</p>
<p>mais que o negro da escuridão.</p>
<p>Negra é do sol que acumulou.</p>
<p>É o negro mais bem do carvão.</p>
<p>Não é o negro do macabro.</p>
<p>Negro funeral. Nem do luto.</p>
<p>Tampouco é o negro do mistério,</p>
<p>de braços cruzados, eunuco.</p>
<p>É mesmo o negro do carvão.</p>
<p>O negro da hulha. Do coque.</p>
<p>Negro que pode haver na pólvora:</p>
<p>negro de vida, não de morte.</p>
<p>No ano de 1969, a Companhia de Paulo Autran encena Morte e Vida Severina em diversas cidades do Brasil. É removido para a embaixada em Assunção no Paraguai, como ministro conselheiro. Também é eleito membro da Hispania Society of America. Recebe a Ordem do Mérito Pernambucano. As honrarias seriam mais frequentes nos anos seguintes, até o início dos anos noventa. João Cabral era considerado um dos grandes poetas brasileiros.</p>
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<p>O OVO DE GALINHA</p>
<p>I</p>
<p>Ao olho mostra a integridade</p>
<p>de uma coisa num bloco, um ovo.</p>
<p>Numa só matéria, unitária,</p>
<p>maciçamente ovo, num todo.</p>
<p>Sem possuir um dentro e um fora,</p>
<p>tal como as pedras, sem miolo:</p>
<p>e só miolo: o dentro e o fora</p>
<p>integralmente no contorno.</p>
<p>No entanto, se ao olho se mostra</p>
<p>unânime em si mesmo, um ovo,</p>
<p>a mão que o sopesa descobre</p>
<p>que nele há algo suspeitoso:</p>
<p>que seu peso não é o das pedras,</p>
<p>inanimado, frio, goro;</p>
<p>que o seu é um peso morno, túmido,</p>
<p>um peso que é vivo e não morto.</p>
<p>II</p>
<p>O ovo revela o acabamento</p>
<p>a toda mão que o acaricia,</p>
<p>daquelas coisas torneadas</p>
<p>num trabalho de toda a vida.</p>
<p>E que se encontra também noutras</p>
<p>que entretanto mão não fabrica:</p>
<p>nos corais, nos seixos rolados</p>
<p>e em tantas coisas esculpidas</p>
<p>cujas formas simples são obra</p>
<p>de mil inacabáveis lixas</p>
<p>usadas por mãos escultoras</p>
<p>escondidas na água, na brisa.</p>
<p>No entretanto, o ovo, e apesar</p>
<p>da pura forma concluída,</p>
<p>não se situa no final:</p>
<p>está no ponto de partida.</p>
<p>Nos anos setenta, os prêmios e condecorações não param de acontecer: Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco, Prêmio da Crítica da Associação Paulista de Críticos de Arte, Medalha da Humanidade do Nordeste, Grande Oficial da Ordem do Mérito do Senegal. Se torna embaixador de Quito no Equador e publica Museu de Tudo e A escola de facas. João Cabral é um poeta mais do que celebrado e toma posições interessantes no cenário poético nacional.</p>
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<p>GRACILIANO RAMOS</p>
<p>Falo somente com o que falo:</p>
<p>com as mesmas vinte palavras</p>
<p>girando ao redor do sol</p>
<p>que as limpa do que não é faca:</p>
<p>de toda uma crosta viscosa,</p>
<p>resto de janta abaianada,</p>
<p>que fica na lâmina e cega</p>
<p>seu gosto da cicatriz clara.</p>
<p>Falo somente do que falo:</p>
<p>do seco e de suas paisagens,</p>
<p>Nordestes, debaixo de um sol</p>
<p>ali do mais quente vinagre:</p>
<p>que reduz tudo ao espinhaço,</p>
<p>cresta o simplesmente folhagem,</p>
<p>folha prolixa, folharada,</p>
<p>onde possa esconder-se na fraude.</p>
<p>Falo somente por quem falo:</p>
<p>por quem existe nesses climas</p>
<p>condicionados pelo sol,</p>
<p>pelo gavião e outras rapinas:</p>
<p>e onde estão os solos inertes</p>
<p>de tantas condições caatinga</p>
<p>em que só cabe cultivar</p>
<p>o que é sinônimo da míngua.</p>
<p>Falo somente para quem falo:</p>
<p>quem padece sono de morto</p>
<p>e precisa um despertador</p>
<p>acre, como o sol sobre o olho:</p>
<p>que é quando o sol é estridente,</p>
<p>a contrapelo, imperioso,</p>
<p>e bate nas pálpebras como</p>
<p>se bate numa porta a socos.</p>
<p>Anos 80. O poeta faz o discurso inaugural da Ordem do Mérito de Guararapes, sendo condecorado com a Grã-Cruz da Ordem. Acontece também a primeira exposição bibliográfica de sua obra no Palácio do Governo de Pernambuco, organizada por Zila Mamede. E por aí vai, Comenda do Mérito Aeronáutico, Grã-Cruz do Equador, Embaixador de Honduras. Publica Poesia crítica, um lúcido texto sobre composição e sua visão de poesia, que, na semana que vem, entraremos em suas ideias.</p>
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<p>A EDUCAÇÃO PELA PEDRA</p>
<p>Uma educação pela pedra: por lições;</p>
<p>para aprender da pedra, frequentá-la;</p>
<p>captar sua voz inenfática, impessoal</p>
<p>(pela de dicção ela começa as aulas).</p>
<p>A lição de moral, sua resistência fria</p>
<p>ao que flui e a fluir, a ser maleada;</p>
<p>a de poética, sua carnadura concreta;</p>
<p>a de economia, seu andensar-se compacta:</p>
<p>lições da pedra (de fora para dentro,</p>
<p>cartilha muda), para quem soletrá-la.</p>
<p>Outra educação pela pedra: no Sertão</p>
<p>(de dentro para fora, e pré-didática).</p>
<p>No Sertão a pedra não sabe lecionar,</p>
<p>e se lecionasse não ensinaria nada;</p>
<p>lá não se aprende a pedra: lá a pedra,</p>
<p>uma pedra de nascença, entranha a alma.</p>
<p>Em 1982, João Cabral publica seu, hoje conhecido, Auto do Frade, escrito em Tegucigalpa e recebe o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Pernambuco. No Rio de Janeiro, ganha o Prêmio Golfinho de Ouro e se torna cônsul geral do Porto. Três anos depois, publica os poemas Agrestes. Em 1986, falece sua esposa, no Rio de Janeiro, e casa-se em segunda núpcias com a poeta Marly de Oliveira.</p>
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<p>POEMA</p>
<p>Trouxe o sol à poesia</p>
<p>mas como trazê-lo ao dia?</p>
<p>No papel mineral</p>
<p>qualquer geometria</p>
<p>fecunda a pura flora</p>
<p>que o pensamento cria.</p>
<p>Mas à floresta de gestos</p>
<p>que nos povoa o dia,</p>
<p>esse sol de palavra</p>
<p>é natureza fria.</p>
<p>Ora, no rosto que, grave,</p>
<p>riso súbito abria,</p>
<p>no andar decidido</p>
<p>que os longes media,</p>
<p>na calma segurança</p>
<p>de quem tudo sabia,</p>
<p>no contato das coisas</p>
<p>que apenas coisas via,</p>
<p>nova espécie de sol</p>
<p>eu, sem contar, descobria:</p>
<p>não a claridade imóvel</p>
<p>da praia ao meio-dia,</p>
<p>de aérea arquitetura</p>
<p>ou de pura poesia:</p>
<p>mas o oculto calor</p>
<p>que as coisas todas cria.</p>
<p>No início dos anos 90, João Cabral, enfim, se aposenta na carreira  diplomática como embaixador. Publica Sevilha andando e é eleito para a Academia Pernambucana de Letras, da qual, havia recebido, anos antes, a medalha Carneiro Vilela. Em Lisboa, recebe o Prêmio Luis de Camões concedido conjuntamente pelos governos de Portugal e do Brasil. Em 91, pelo seu livro Sevilha andando, recebe o Prêmio Pedro Nava.</p>
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<p>O FOGO NO CANAVIAL</p>
<p>A imagem mais viva do inferno.</p>
<p>Eis o fogo em todos seus vícios:</p>
<p>eis a ópera, o ódio, o energúmeno,</p>
<p>a voz rouca de fera em cio.</p>
<p>E contagioso, como outrora</p>
<p>foi, e hoje, não é mais, o inferno:</p>
<p>ele se catapulta, exporta,</p>
<p>em brulotes de curso aéreo,</p>
<p>em petardos que se disparam</p>
<p>sem pontaria, intransitivos;</p>
<p>mas que queimada a palha dormem,</p>
<p>bêbados, curtindo seu litro.</p>
<p>(O inferno foi fogo de vista,</p>
<p>ou de palha, queimou as saias:</p>
<p>deixou nua a perna da cana,</p>
<p>despiu-a, mas sem deflorá-la.)</p>
<p>m 1992, João Cabral viaja para Sevilha para representar o presidente da República nas comemorações do dia 7 de setembro. Houve uma grande exposição, onde, no pavilhão do Brasil, foi distribuido o livro Poemas sevilhanos, numa edição especial feita pelo Itamaraty e a Nova Fronteira. No Rio de Janeiro, recebe do embaixador espanhol a Grã-Cruz da Ordem de Isabel, a Católica. Em 1993, recebe o Jabuti.</p>
<p>texto Uma Nova Era no blog http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>AUTO DO FRADE</p>
<p>(trecho de Frei Caneca)</p>
<p>Acordo fora de mim</p>
<p>como há tempo não fazia.</p>
<p>Acordo claro, de todo,</p>
<p>acordo com toda a vida,</p>
<p>com todos cinco sentidos</p>
<p>e sobretudo com a vista</p>
<p>que dentro dessa prisão</p>
<p>para mim não existia.</p>
<p>Acordo fora de mim:</p>
<p>como fora nada eu via,</p>
<p>ficava dentro de mim</p>
<p>como vida apodrecida.</p>
<p>Acordar não é ter saída.</p>
<p>Acordar é reacordar-se</p>
<p>ao que em nosso redor gira.</p>
<p>Mesmo quando alguém acorda</p>
<p>para um fiapo de vida,</p>
<p>como o que tanto aparato</p>
<p>que me cerca me anuncia:</p>
<p>esse bosque de espingardas</p>
<p>mudas, mas logo assassinas,</p>
<p>sempre à espera dessa voz</p>
<p>que autorize o que é sua sina,</p>
<p>esse padres que as invejam</p>
<p>por serem mais efetivas</p>
<p>que os sermões que passam largo</p>
<p>dos infernos que anunciam.</p>
<p>Essas coisas ao redor</p>
<p>sim me acordam para a vida,</p>
<p>embora somente um fio</p>
<p>me reste de vida e dia.</p>
<p>Essas coisas me situam</p>
<p>e também me dão saída;</p>
<p>ao vê-las me vejo nelas,</p>
<p>me completam, convividas.</p>
<p>Não é o inerte acordar</p>
<p>na cela negra e vazia:</p>
<p>lá não podia dizer</p>
<p>quando velava ou dormia.</p>
<p>Nos anos 50, sobre &#8216;composição&#8217;, Cabral disse &#8220;que para uns é o ato de aprisionar a poesia no poema e para outros o de elaborar a poesia em poema; que para uns é o momento inexplicável de um achado e para outros as horas enormes de uma procura, segundo uns e outros se aproximem dos extremos a que se pode levar o enunciado desta conversa (a inspiração e o trabalho de arte), a composição é, hoje em dia, assunto por demais complexo, e falar da composição, tarefa agora, se quem fala preza, em alguma medida, a objetividade.&#8221; Mais do mesmo amanhã.</p>
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<p>CONVERSA DE SEVILHANA</p>
<p>Se vamos todos para o inferno:</p>
<p>e é fácil dizer quem vai antes:</p>
<p>nus, lado a lado nesta cama,</p>
<p>lá vamos, primeiro que Dante.</p>
<p>Eu sei bem quem vai para o inferno:</p>
<p>primeiro, nós dois, nesses trajes</p>
<p>que ninguém nunca abençoou,</p>
<p>nós, desabençoados dos padres.</p>
<p>Depois de nós dois, para o inferno</p>
<p>vão todos os chauffeurs de táxi,</p>
<p>que embora pagos nos conduzem</p>
<p>de pé atrás, contra a vontade;</p>
<p>depois, a polícia, os porteiros,</p>
<p>os que estão atrás dos guichês,</p>
<p>quem controlando qualquer coisa</p>
<p>do controlado faz-se ver;</p>
<p>depois, irão esses que fazem</p>
<p>do que é controle, autoridade,</p>
<p>os que batem com o pé no chão,</p>
<p>os que &#8220;sabe quem sou? não sabe?&#8221;</p>
<p>Enfim, quem manda vai primeiro,</p>
<p>vai de cabeça, vai direto:</p>
<p>talvez precise de sargentos</p>
<p>a ordem-unida que há no inferno.</p>
<p>Ainda sobre &#8216;composição&#8217;: O ato do poema é um ato íntimo, solitário, que se passa sem testemunhas. Nos poetas daquela família para quem a composição é procura, existe como que o pudor de se referir aos momentos em que, diante do papel em branco, exerciam sua força. Porque eles sabem de que é feita essa força &#8211; é feita  de mil fracassos, de truques que ninguém deve saber, de concessões ao fácil, de soluções insatisfatórias, de aceitação resignada do pouco que se é capaz de conseguir e de renúncia ao que, partida, se desejou conseguir.</p>
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<p>RUBEM BRAGA E O HOMEM DO FAROL</p>
<p>É necessário vocação</p>
<p>na carreira de faroleiro.</p>
<p>Consta do serviço civil,</p>
<p>tem obrigação e direitos.</p>
<p>Porém não se entra nela como</p>
<p>em qualquer outra profissão:</p>
<p>entrar para ser faroleiro</p>
<p>é como entrar em religião.</p>
<p>É como entrar-se para a Igreja</p>
<p>num ordem contemplativa,</p>
<p>pois no alto cargo se cavalgam</p>
<p>vazios propícios à mística.</p>
<p>Na torre só, mais: isolado</p>
<p>de tudo o que faz transeunte,</p>
<p>habita a linha de fronteira</p>
<p>onde espaço e tempo se fundem.</p>
<p>O mar em volta do farol</p>
<p>é qual relógio sem ponteiros.</p>
<p>O faroleiro é só em si,</p>
<p>sem companhia nem do espelho.</p>
<p>O faroleiro é como nu,</p>
<p>ser devassado por janelas</p>
<p>que o cercam de todos os lados</p>
<p>e para o nada sempre abertas,</p>
<p>sobretudo para esse nada</p>
<p>que há na fronteira espaço-tempo:</p>
<p>o silêncio, que abafa como</p>
<p>almofada de algodão denso.</p>
<p>Ora o nada aberto ao redor</p>
<p>leva-o à posição uterina,</p>
<p>fechando-o ainda mais em si,</p>
<p>habitando a moela mais íntima,</p>
<p>ora dissolve o faroleiro,</p>
<p>que embora desperto se anula:</p>
<p>as vias da contemplação,</p>
<p>qualquer das duas se quer, usa.</p>
<p>Rubem Braga uma vez tentou</p>
<p>salvá-lo do não metafísico:</p>
<p>foi visitar um faroleiro</p>
<p>titular de uma ilha do Rio.</p>
<p>Rubem Braga logo decide:</p>
<p>não é homem de introspecção.</p>
<p>Vê que precisa de diálogo</p>
<p>esse afogado en tanto não.</p>
<p>De volta ao Rio, nos jornais,</p>
<p>lança um apelo: que doassem</p>
<p>vitrolas, rádios, qualquer voz</p>
<p>as navegante sem navegagens.</p>
<p>Mais sobre composição: Cada poeta tem sua poética. Ele não está obrigado a obedecer a nenhuma regra, nem mesmo àquelas que em determinado momento ele mesmo criou, nem a sintonizar seu poema a nenhuma sensibilidade diversa sua. O que se espeta dele, hoje, é que não se pareça a ninguém, que contribua com uma expressão original. Por isso ele procura realizar sua obra não com o que nele é comum a todos os homens, mas com o que nele é mais íntimo e pessoal, privado, diverso de todos.</p>
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<p>CIDADE DE NERVOS</p>
<p>Qual o segredo de Sevilha?</p>
<p>Saber existir nos extremos</p>
<p>como levando dentro a brasa</p>
<p>que se reacende a qualquer tempo.</p>
<p>Tem a tessitura da carne</p>
<p>na matéria de suas paredes,</p>
<p>boa ao corpo que a acaricia:</p>
<p>que é feminina sua epiderme.</p>
<p>E tem o esqueleto, essencial</p>
<p>a um poema ou um corpo elegante,</p>
<p>sem o qual sempre se deforma</p>
<p>tudo o que é só de carne e sangue.</p>
<p>Mas o esqueleto não pode,</p>
<p>ele que é rígido e de gesso,</p>
<p>reacender a brasa que tem dentro:</p>
<p>Sevilha é mais que tudo, nervo.</p>
<p>João Cabral de Melo Neto morreu no Rio de Janeiro no dia 9 de outubro de 1999 aos 79 anos. O poeta sofria de depressão e tinha problemas visuais crônicos que o deixaram praticamente cego. É notória a dor de cabeça com que conviveu ao longo de sua vida. Tomava aspirinas diariamente, inclusive, chegou a dizer que muito de sua inspiração vinha delas. Perto de sua morte, era forte candidato ao Prêmio Nobel de Literatura. Enfim, esta foi a pequena antologia de um dos nossos maiores poetas. Semana que vem, outro universo poético, outras proposições, outra poesia. Até.</p>
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<p>SEVILHA E A ESPANHA</p>
<p>O castelhano e o catalão</p>
<p>têm pobreza e riqueza tristes.</p>
<p>Assim desprezam a Andaluzia:</p>
<p>vêm-na africana ou sacrílega.</p>
<p>Em Castilha, ambas são viúvas,</p>
<p>um manto de beata as recobre</p>
<p>e seus ouros têm a cegueira,</p>
<p>a pátina humilde do cobre.</p>
<p>A Catalunha, tira a tristeza</p>
<p>de querer ser muito mais França,</p>
<p>que não a interessa, senão,</p>
<p>enquanto Espanha, dá-lhe entranhas.</p>
<p>A Andaluzia é de ouro e cobre,</p>
<p>mas nenhum dura mais que um dia:</p>
<p>se alternam, como em seu cantar</p>
<p>à soleá, segue a alegria.</p>
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		<item>
		<title>Thereza Christina Rocque da Motta</title>
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		<pubDate>Sun, 04 Apr 2010 15:06:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cartilhadepoesia</dc:creator>
				<category><![CDATA[TODOS OS POETAS AQUI]]></category>

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		<description><![CDATA[Thereza Christina Rocque da Motta nasceu em São Paulo no dia 10 de julho de 1957. É &#8220;poeta por opção, advogada por formação e tradutora por profissão&#8221; como costuma dizer. Também conhecida pelo trabalho de editora, neste mês contaremos a história desta poeta e sua maravilhosa relação com os livros. Como se deu o caminho [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=36&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Thereza Christina Rocque da Motta nasceu em São Paulo no dia 10 de julho de 1957. É &#8220;poeta por opção, advogada por formação e tradutora por profissão&#8221; como costuma dizer. Também conhecida pelo trabalho de editora, neste mês contaremos a história desta poeta e sua maravilhosa relação com os livros. Como se deu o caminho poético, o compromisso com a palavra e sua impressões pelo mercado editorial, confeccionando sonhos, belos sonhos. Allons-y</p>
<p>poema de Stéphane Mallarmé traduzido no blog http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>MANHÃ I &amp; II</p>
<p>I</p>
<p>Tens a forma</p>
<p>de um poema</p>
<p>obtuso,</p>
<p>lâmina ceifando a noite.</p>
<p>Tens a face</p>
<p>boreal e clara</p>
<p>- aurora repentina</p>
<p>circundando a terra.</p>
<p>II</p>
<p>Te sei presumida.</p>
<p>Adivinho-te bela,</p>
<p>enfeitiçada.</p>
<p>Teu riso longe ecoa</p>
<p>dentro do coração</p>
<p>tão vazio.</p>
<p>Teu vazio me corrompe.</p>
<p>Aceito-te mansa e meiga</p>
<p>- qual mesmo o teu nome?</p>
<p>Tua terra, arado, homens,</p>
<p>vegetação absurda.</p>
<p>Teu seio, sangue,</p>
<p>mel e lua.</p>
<p>Amo-te feito noite.</p>
<p>Amo-te feito vida.</p>
<p>Suas aventuras (e bota aventura nisso) pelo mundo editorial começaram em 1978, quando trabalhou como editora no Jornal Análise do DCE da Universidade de Mackenzie. Lá fundou também o Grupo POECO SÓ POESIA em 1980, promovendo concursos de poesia e leituras. Creio que este paralelo é importante na leitura dessa obra, a Thereza poeta com a Thereza editora, pois ambas confluem na pessoa que ela é, e sobretudo, na sua poesia.</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>AFRODITE</p>
<p>Redesenho</p>
<p>o sopro fácil e diurno:</p>
<p>dias antigos e alongados</p>
<p>em tua forma, hoje, de ser amado</p>
<p>- por que amado? &#8211; e ser tão difuso</p>
<p>quanto a retina de teus olhos.</p>
<p>Meu sonho, poeta, é minha sina,</p>
<p>pecado mortal, pecado carnal, pecado nenhum.</p>
<p>Aos 16 anos, Thereza ganha um concurso de poesia no colégio, foi quando se sentiu responsável pelo que escrevia. Aos 19, surge a oportunidade de publicar seus poemas no Jornal Análise, começando então seus dois caminhos, que para mim, alimentam livremente sua verve poética: a poesia e a produção literária. Logo após, surgiria uma figura fundamental para sua poesia e para outro caminho que percorreria depois. A figura? Hilda Hilst. Outro caminho? Tradução de poesia. Surgiria também a Thereza tradutora.</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>LICOR DAS HORAS III &amp; IV</p>
<p>III</p>
<p>Destruímos os sinos</p>
<p>ensurdecendo a terra</p>
<p>seus alforjes e cambraias.</p>
<p>Amaldiçoamos o tempo</p>
<p>maldizendo de nós</p>
<p>em prolongados uivos</p>
<p>sobre o descampado</p>
<p>onde ecoam as florestas</p>
<p>que ali estavam.</p>
<p>E arrancamos as sementes híbridas</p>
<p>para o plaino das horas.</p>
<p>IV</p>
<p>São noites</p>
<p>enclausuradas ou repentinas</p>
<p>desfeitas em pó.</p>
<p>São poucos os beijos</p>
<p>diante da impávida face visceral.</p>
<p>Beijaríamos muito mais</p>
<p>se fosse permitido.</p>
<p>Amaríamos</p>
<p>se nos fosse dado a chance.</p>
<p>As mãos dilapidam o horóscopo,</p>
<p>astrolábio de movimentos</p>
<p>fermentando a aguda fronte aromática.</p>
<p>As vestes magnetizadas pelo odor</p>
<p>revelam o desejo,</p>
<p>criando o mistério de pertencer-te.</p>
<p>Ainda nessa época do Jornal Análise, algo marcante aconteceria na vida da poeta Thereza: Hilda Hilst leu cerca de cem poemas e disse, sem dúvidas: &#8220;Ela é poeta&#8221;. Para um jovem poeta isso seria como receber uma carta do Rilke, só que dessa vez, o poeta não foi para o exército. Hilda Hilst também seria muito importante para Thereza quando numa entrevista para Marie Claire falou da importância de escrever em inglês para quem começa pois &#8220;ninguém lê em português&#8221; disse a poeta. Ok than!</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>CRISÁLIDA</p>
<p>Escrever não é oficio; é miragem. Miro-te e alcanço-te</p>
<p>como se fosse um fruto. Delicioso e ardente. Temos</p>
<p>tempo regressivo. O futuro é uma abóbora. Imaginar-te,</p>
<p>sempre instigante. Cresces como um gigante. Imagina</p>
<p>qual o particípio irregular de arrebatar. Rapto. Tens dedos</p>
<p>de feiticeiro. Tudo que tocas se incendeia. Vejo-me acesa</p>
<p>com todos os fogos em explosão. E à medida que se</p>
<p>queimam todos os troncos, deixam brasa, convertendo-</p>
<p>se em cinza. Digo que tens o dom de queimar, tanto a</p>
<p>superfície como o lago subterrâneo. Tenho-te dentro de</p>
<p>mim como coisa que não se doma. Que se avoluma e</p>
<p>toma forma. Não temo tua ausência, pois creio que jamais</p>
<p>estarás ausente. Mitifico-te além-vida. Sacralizo-te em</p>
<p>mim. Assim amo ser saber, indisciplinada menina que</p>
<p>zomba dos carinhos e faz deles coisas sublimes. Isto,</p>
<p>como prova ou testemunho de que estamos aqui e vivos.</p>
<p>Joio &amp; Trigo, livro que utilizamos nesta semana, foi o primeiro livro de Thereza Christina. Com prefácio do poeta Claudio Willer e apresentação crítica de nomes como Olga Savary, marcou definitivamente sua entrada nas prateleiras, posto que já publicava em antologias, porém, faltava o livro. Diria que os poemas do livro andam nos jardins de um lirismo suave (sem redundância) com poemas curtos e um belo poema chamado Terminal. Depois mais e mais e mais&#8230;</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>INVENÇÕES DO TEMPO I &amp; II</p>
<p>I</p>
<p>Descreve a suavidade das linhas oblíquas</p>
<p>em teu sono cálido e permanente,</p>
<p>figura despida em meu leito,</p>
<p>teu sorriso, corpo e mãos presentes.</p>
<p>Toco a palma das encostas</p>
<p>elevando tua alma da penumbra,</p>
<p>tua forma lapidada,</p>
<p>a se transformar com a luz.</p>
<p>II</p>
<p>Distante da tua imagem</p>
<p>aqui posta em sossego</p>
<p>- mais do que tudo, silêncio -</p>
<p>espero o sinal de partida</p>
<p>como o navio que aguarda levantarem âncora.</p>
<p>Saio de minha casa,</p>
<p>abandonando tudo.</p>
<p>Deixo para ti,</p>
<p>meu sono de profeta da clandestinidade.</p>
<p>Trago-te de volta ao que eras.</p>
<p>Areal é um livro de poemas líricos feitos ao longo dos anos 80. Faz parte de sua verve poética essa linha melódica e culta onde o motivo em evidência é tratado com extremo cuidado, como uma flor. Thereza agora já está imersa na produção editorial e na tradução. Nesta semana, somente poemas do livro Areal.</p>
<p>tradução do poema Pantomime de Paul Verlaine no blog http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>ÉS PERFEITO</p>
<p>És perfeito,</p>
<p>porque nascido do acaso.</p>
<p>Eu, que sem preocupação pude buscar-te,</p>
<p>aceito tua sina de camaleão de imagens.</p>
<p>Teu prazer quer alvuras e eu,</p>
<p>amadurecida de teus tons, sou mais frágil</p>
<p>entre as mãos que encerram o destino.</p>
<p>As manhãs, os breves sussurros,</p>
<p>o mastigar lento de maxilares.</p>
<p>Conheço-te como a mim,</p>
<p>tua casa, tuas vestas, tudo que te pertence.</p>
<p>Onde colocares a mão, eu sei,</p>
<p>aqui estiveste.</p>
<p>Não te amo pelo nome.</p>
<p>Amo-te pelo que transpareces.</p>
<p>Thereza ficou treze anos sem publicar livros de poemas. Desde Joio &amp; Trigo, publicado em 1982, um grande hiato se deu em sua vida. Filhos, mudança de cidade, coisas da vida que mantiveram a poeta sem publicar (jamais diria sem produzir). Pois então em 1995 veio Areal, livro desta semana, veio o Rio de Janeiro e vieram novos trabalhos editoriais. Logo mais, Thereza viria a encontrar outro objeto onde seria incrível: tradução de poemas.</p>
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<p>PORQUE TE QUIS&#8230;</p>
<p>Porque te quis e ninguém te alimentava<br />
de paixões,<br />
vieste, olhos mareados<br />
e tal foi tua fome,<br />
que abraçaste inteira a minha vontade<br />
de dar-me.<br />
Não quis ir ao teu encontro,<br />
senão como fora a tua vinda<br />
na véspera, cheia de expectativas e silêncios.<br />
Não te esperei em vão:<br />
pude aguardar-te, porque quis que viesses<br />
e por que te quis antes de mais nada,<br />
meu nome tornou-se precioso para ti,<br />
com saudade e vozes dentro,<br />
ruídos de uma vontade estranha,<br />
porque não esperavas por mim<br />
e me buscaste.</p>
<p>A linha que costura os poemas de Areal é a ideia da poeta sobre o amor. Thereza diz em seu posfácio que &#8220;a exteriorização do amor não deve causar medo. O amor é realidade e, como tal, é para ser vivido, sem pressupostos, para que dele seja extraído sua essência. E, mesmo assim, há ritos que são seguidos, como voltar-se para o amado, num movimento contínuo e mudo&#8221;. Mais ou menos por aí.<br />
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<p>ACOSTUMEI-ME&#8230;<br />
Acostumei-me a observar o indefinido.<br />
E a aceitar tudo que me dissessem,<br />
mesmo adeus.<br />
As lembranças daquilo<br />
que não guardei,<br />
atos e falhas dos meus gestos<br />
e não passar sua sensação de eternidade.</p>
<p>(Em cada pedra, a seiva<br />
que a mantém úmida.<br />
Pedregulho imerso<br />
na transparente alma marinha.)</p>
<p>E a esperar a travessia,<br />
antes do sinal das embarcações.<br />
Sem vento que antecipe a manhã.<br />
&#8220;Se fomos unidos pelo acaso, que não existe, então deve existir uma razão intrínseca, mesmo que desconhecida para nós. Ela existe, a partir do momento em que “você me faz bem”. Em hipótese alguma eu tentaria abolir isso por meras razões formais, por medo ou dúvida&#8221;. Desta maneira, Thereza conclui seu Areal, livro que apontaria um caminho essencialmente lírico em sua poesia. Voltamos na quarta de cinzas.</p>
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<p>DÉCIMA LUA</p>
<p><em>A laranja era a única luz dentro do quarto.</em><br />
Egon Shiele</p>
<p>Enquanto as barcas sobrevoam o ar estático,<br />
estamos entre os verdes olhares de gatos.<br />
Tudo é belo.<br />
Penetramos as células humanas,<br />
passagens entre orifícios e arestas.<br />
À noite, procuramos nos ver melhor.<br />
É o sonho que a habita?<br />
Vivemos e são nossas súplicas<br />
as únicas que se ouvem.<br />
Tudo está parado e se move.<br />
Nada é mais extremo que a permanência.<br />
Ficamos aqui, o segredo entre nós.<br />
As vestes caem e se prolongam pelo chão.<br />
São memórias mais do que tudo<br />
e vasto e largo o pausar das mãos em movimento.<br />
Somos os que desfrutam da pele seca das maçãs.<br />
Enlouquecemos, a nudez a tomar conta,<br />
desfiando as fibras dessa nova borboleta.<br />
O ar impregna-se do mesmo cheiro dos corpos.<br />
Vértebra a vértebra, distendemos o êxtase.<br />
Avolumam-se os seios umedecidos no beijo.<br />
Vocábulos balbuciados, não há som.<br />
Domado o instante, a serpente recolhe-se.<br />
Reconhecemos pelo tato a escamosidade<br />
desse momento.<br />
Da casa inabitada, conhecemos os reféns<br />
e os objetos, danificados pelo tédio.<br />
Sabíamos de tudo, embora não disséssemos.<br />
O cálice preparado, o veneno, dilatadas pupilas.<br />
Nosso nome encravado em pedra.</p>
<p>Após esse hiato de folia, retornamos à obra da poeta Thereza. Sabbath foi publicado em 1998. Segundo livro depois de um longo período fora da produção literária, apenas na produção editorial. O livro segue a linha lírica que permeia sua poesia com uma constante visita aos mitos e símbolos. Algo de muito interessante viria a aparecer depois. Seguindo&#8230;</p>
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<p>SABBATH<br />
Mãos tangem alaúdes noite adentro</p>
<p>A manhã não tarda</p>
<p>Ervas maceradas na água<br />
o líquido escuro e espesso<br />
escorre das vasilhas<br />
deixadas ao relento</p>
<p>Fogaréus ardendo no escuro<br />
céu sem estrelas</p>
<p>Uivos dos lobos<br />
entre chilreios de pássaros<br />
anunciam o fim da noite<br />
e todos os presságios se misturam</p>
<p>Não esperamos mais</p>
<p>Tudo passou sob a folhagem das árvores<br />
as adagas cravadas nas raízes<br />
testemunhando a chegada</p>
<p>Este é o limite<br />
Homem algum trespassará este lugar</p>
<p>Com os ramos cortados, tecemos guirlandas<br />
e coroamos os príncipes<br />
A festa começa</p>
<p>A lua nova lança sua face vazia<br />
sobre rostos brancos</p>
<p>Sabbath<br />
Um longo dia avança sobre o abismo<br />
Nossos olhos voltados para o infinito</p>
<p>Sabbath<br />
Nossas orações não fazem mais sentido<br />
O ouro líquido escorre sobre as máscaras<br />
preenchendo o contorno das faces<br />
que perseguem manhãs como estas</p>
<p>Sabbath<br />
Amanhecemos órfãos de nossa própria identidade<br />
Outros seres brotam de nossos corpos<br />
outro hálito de nossas bocas profanas</p>
<p>A água escorre sobre as pedras<br />
as mãos lambuzadas de óleo<br />
a besuntar as faces</p>
<p>Transgressão e violência<br />
Crianças abandonadas<br />
filhos da escuridão</p>
<p>Em vão esperamos no escuro<br />
A tocha acesa tremula sobre as cabeças<br />
crepitando a lenta sonolência de farpas</p>
<p>Silêncio</p>
<p>Hóspedes do eterno<br />
selamos nossa aliança<br />
Morte e vida alimentadas pelas mesmas mãos</p>
<p>Ouvem-se os últimos cantos até o anoitecer<br />
A noite retorna sobre a planície<br />
e novamente os riachos correm sobre a terra arada</p>
<p>Afastamos fantasmas<br />
almas que vagam ensimesmadas<br />
entes que gravitam entre esferas circunscritas<br />
nesse mapa aberto sobre o coração da floresta</p>
<p>Encerramos as arcas para as manhãs futuras<br />
e recolhemos pedras sob o pano púrpura<br />
para o novo sabbath.</p>
<p>A segunda parte de Sabbath se chama Livro das Horas. Uma série de poemas curtos que, assim como em Joio &amp; Trigo, podem ser lidos como num poema só. É interessante o lirismo de Thereza, sempre tive a impressão de uma voz encorpada, cheia de ensinamentos, pois é assim que vejo sua voz. Aliás, caminhar em águas mornas é difícil, por isso seu lirismo é interessante. Semana que vem contaremos a bela história da Ibis Libris.<br />
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<p>LIVRO DAS HORAS<em><br />
</em><em><br />
</em><em>Não há imperfeição possível</em></p>
<p>I</p>
<p>Caminhas<br />
sob águas e ramagens<br />
– manto transparente<br />
sobre paisagens noturnas –<br />
frios olhos<br />
de quem vê através a alma</p>
<p>II</p>
<p>Teus movimentos<br />
repetem-se<br />
únicos<br />
sob finas camadas de espera<br />
vozes<br />
que murmuram segredos<br />
pela primeira vez<br />
Teus rastros<br />
habitam o silêncio<br />
e as auroras</p>
<p>III</p>
<p>Percorres os desertos<br />
e despes teu rosto<br />
dos véus escuros<br />
retornando aos mesmos lugares<br />
sem a solidão das máscaras</p>
<p>IV</p>
<p>Visitante<br />
de esferas ambíguas<br />
cálido sopro<br />
entre dentes<br />
Torres altíssimas e distantes<br />
anunciam tua chegada<br />
Corpos sob os lençóis<br />
devolvem teus breves abraços</p>
<p>Thereza sempre teve tendência editorial. No ano 2000, o poeta e professor Ricardo Ruiz pediu para Thereza que revisasse um livro dele. Depois, pediu que ela que lhe fizesse um prefácio. Thereza terminou o prefácio numa terça-feira de Carnaval e ligou para Ricardo, que prontamente lhe disse: &#8220;Agora edita pra mim&#8221;. Nesse momento, Thereza atendia um impulso bem íntimo que nem ela sabia de onde vinha. Publicar? Thereza ficou um pouco perplexa, como iria publicar sem um selo? Ricardo então resolve a questão: &#8220;Então, cria!&#8221;. Quatro dias depois&#8230;</p>
<p>poema Feuillage du coeur de Maurice Maeterlinck traduzido no blog <a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com" target="_blank">http://pedrolago.blogspot.com</a></p>
<p>Olhos garçosPor detrás de cada sombra<em>o vento traz-me o teu rosto.</em>Roberto Piva<br />
Somos nós que carregamos as imagens dentro dos olhos,<br />
mareados, vertiginosos e esparsos,<br />
luz transida e esmaecida sobre o horizonte ainda pálido que contemplamos.<br />
Somos nós que carregamos as probabilidades feito romãs dentro dos bolsos,<br />
esperando que se abram para encher o ar com seu aroma tingido.<br />
Teremos sempre novos mistérios e insondáveis segredos<br />
diante de janelas abertas sobre o horizonte.<br />
A praia nos alcança em meio dia<br />
e nossa manhã ainda não escorreu pela tarde,<br />
procurando outra seiva para alimentar a noite.<br />
Aguardo, ainda, paciente,<br />
a vez de tangermos a vida<br />
com a devoção de quem acalenta<br />
um anjo.</p>
<p>Quatro dias depois do &#8220;ultimato&#8221; de Ricardo Ruiz, Thereza vai a um jantar em homenagem ao seu pai, que morrera em 1982. Era o dia 11 de março. No meio do jantar o nome &#8220;Ibis&#8221; lhe ocorreu. &#8220;Ibis&#8221; era o apelido de Fernando Pessoa. O poeta assinava suas cartas para Ofélia dizendo &#8220;do seu Ibis&#8221;. O nome também tinha a ver com o Rio de Janeiro por causa da imagem esculpida no Pão de Açúcar, que segundo a lenda, foi deixada ali pelos fenícios em 1.500 a.C, no pé do gigante adormecido formado pelas montanhas do Rio, sendo a Pedra da Gávea a cabeça do gigante. O pai de Thereza também havia lhe dado um livro com as cartas de Fernando Pessoa para Ofélia 25 anos antes. Ainda tem mais&#8230;</p>
<p><a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com" target="_blank">http://pedrolago.blogspot.com</a></p>
<p>AMOR<strong><br />
</strong>Para Ricardo Quintana<br />
Respondo-te com o mesmo calor,<br />
com o mesmo entusiasmo lançando-se sobre mim.<br />
Respondo-te com as mesmas palavras longínquas,<br />
o mesmo ardor do tempo,<br />
que só responde a perguntas com o silêncio.</p>
<p>Somos os olhos bravios da tempestade,<br />
o vórtice do furacão,<br />
a manhã estrelada de tantas auroras antigas<br />
– memória restaurada com as mãos ainda leves e breves.</p>
<p>Respondo-te com o que sei de mais límpido e transparente,<br />
meus cristais sobre a areia ainda úmida da manhã.<br />
A praia que nos cerca é fronteiriça<br />
e nos abre os limites da espera e da vida.</p>
<p>Toda vida está diante de nossos olhos,<br />
como o mar que nos aguarda<br />
se o singrarmos.</p>
<p>Partimos para descobertas irrealizadas,<br />
cruzamos outros mares por descuido<br />
e voltamos, exaustos e mudos,<br />
à mesma praia,<br />
à mesma origem,<br />
ao mesmo templo diante do abismo.</p>
<p>Avançamos sobre as águas<br />
– cortando a lâmina fina do esquecimento.<br />
Lembramos quem somos e o sabemos<br />
– toda vida está aonde a colocamos,<br />
vibrando a única melodia<br />
que conhecemos:<br />
amor.</p>
<p>A busca pela imagem que representaria o selo foi também cheia signos. Íbis são aves pernaltas com pescoço longo e bico comprido encurvado para baixo. A íbis era também a cabeça do deus Thoth, pai da literatura egípcia e criador do alfabeto. O pai de Thereza havia estudado a origem do alfabeto, mais uma homenagem ao pai. Fernando Pessoa tinha uma gráfica chamada íbis que jamais veio a funcionar. Na hora do registro, Thereza descobriu que já havia em São Paulo uma editora com esse nome, então, seu irmão sugeriu adicionar o Libris, assim ficaria &#8220;os livros da Ibis&#8221;.<br />
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<p>Ter ou não serTe chamo por vários nomes <em>e todos serão amor.</em><br />
Não lamente nada que tudo só parece ser.<br />
O que é, não sabemos e, se soubéssemos,<br />
seríamos desde já o fruto pronto a ser colhido.</p>
<p>Não se precipite.<br />
Não pense que seus desejos serão esquecidos,<br />
pois todos os desejos tecem a trama íntima do ser.</p>
<p>Nem tudo cabe numa vida.<br />
Ela se alarga toda vez que nos lançamos,<br />
temerosos, na amplidão que cerca os nossos passos.<br />
Descansemos.</p>
<p>Nada passa sem ser colhido.<br />
Tudo dá o que é seu a seu tempo.<br />
As flores colhidas ao acaso serão mais belas<br />
do que as de floristas?</p>
<p>Não lamente o tempo, inexorável,<br />
os minutos que escorrem sem olharmos para trás.<br />
Não sejamos as estátuas de sal,<br />
que ficarão impávidas a mirar a catástrofe.</p>
<p>Avancemos, com certezas<br />
que só podem ser trazidas por nós mesmos,<br />
os únicos guias a seguir atalhos,<br />
a reconhecer, como a palma da mão,<br />
a trajetória que nos une nos descaminhos.</p>
<p>O primeiro lançamento da Ibis Libris, o livro de Ricardo Ruiz, foi no dia 18 de agosto, dois após o aniversário do pai de Thereza, Dia de São Roque. Quatro livros depois, a Ibis editaria Neide Archanjo. Logo em seguida, João José de Melo Franco se junta a Thereza na editora. Desde então, a Ibis Libris publicou mais de 150 livros e, quase sempre, de poesia. Lembrando, dois meses depois da fundação, Thereza começa a organizar a Ponte de Versos, evento de leitura de poemas que já produziu uma bela antologia.<br />
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<p>Meu segredo e nosso deserto<br />
Teus caminhos são meus<br />
apenas em tua direção.<br />
Habito tuas horas fartas,<br />
porque as enche de carinhos.</p>
<p>Somos todos os seres possíveis num só.<br />
Conténs todas as órbitas<br />
e orbitas em mim com teus pensamentos.</p>
<p>Tuas rimas te falham,<br />
são poucas, esquece-as.</p>
<p>Nenhum pecado te atinge<br />
já que és puro e meu.</p>
<p>Sagra-te por seres vão.<br />
Sempre um espelho que me reflita<br />
e te reflita em mim.<br />
Corpos que transitam astros<br />
e nós dentro deles.</p>
<p>Acumulamos tempo, linhos e ondas.<br />
Completa-te em mim,<br />
pois naufrago em teus olhos mareados.</p>
<p>Sabemos apenas o que nos é dado ver.<br />
Nada vive senão por fora.</p>
<p>Por dentro já é eterno.</p>
<p>Ao longo de todo esse processo, Thereza jamais deixou de escrever um poema, o que seria nada menos que uma natureza rilkeana. Pois, lembrando uma amiga minha, apesar de todos os compromissos, do trabalho, dos anseios, ainda há a necessidade de sentar e escrever poemas. Admirável é o trabalho do editor, pois transforma sonhos em realidade, literalmente, e digo que além disso, em belíssimas e dignas realidades.</p>
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Renascido<br />
Há coisas que nunca sabemos até acontecidas.<br />
Antes que aconteçam, são insabidas.</p>
<p>Depois, passam a percorrer<br />
os pequenos abalos sísmicos<br />
de uma aurora pessoal.</p>
<p>As lembranças vazias buscam alentos<br />
em novos momentos<br />
reinventados.<br />
Quando reinventá-lo?<br />
Quando abri-lo em horizonte<br />
vasto e destemido?</p>
<p>Lentos olhos perscrutam<br />
- todo poente é um acidente.<br />
Ocaso.<br />
Renascente.</p>
<p>Nesse anos todos editando livros, Thereza tem muita história para contar. Pensando nisso, escreveu alguns textos que, se todo jovem autor lesse, com certeza, o processo do seu livro seria mais tranquilo. Thereza fez os Dez Mandamentos do livro, vamos a alguns: 1º &#8211; Reler o texto até a exaustão, até não querer mais mudar uma vírgula (evita o aparecimento de Sacis-Pererês); 2º &#8211; Tenha paciência com o tempo do livro (com isso, corta-se a ansiedade, o que atrapalha no primeiro mandamento, que não é bom para o livro).</p>
<p>poema novo Constatações no blog <a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com" target="_blank">http://pedrolago.blogspot.com</a><br />
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<p><strong>DE ABELARDO A HELOÍSA</strong></p>
<p><strong>I</strong></p>
<p>O que é tua beleza ensimesmada?</p>
<p>O que existe em teu olhar tão profundo?</p>
<p>Tuas mãos pousam sobre o livro e esperam.</p>
<p>Tuas horas são lentas cismas sobre ti mesma.</p>
<p>Devolves ao tempo a tua urgência.</p>
<p>Tudo verte o seu olhar absoluto</p>
<p>sobre os vergéis de tua casa.</p>
<p>Abram-se os mapas sobre a mesa</p>
<p>a traçar os caminhos que retornam.</p>
<p>Teu dia não se alonga mais do que a manhã.</p>
<p>O fremir das janelas não se ouve.</p>
<p>No silêncio, construímos a nossa morada,</p>
<p>esse tempo de vir a ser que se aproxima.</p>
<p>Tudo é, sem demora, vida ou nada,</p>
<p>e, por isso, fico à espera do teu amor.</p>
<p>Para Thereza, jamais devemos mentir para o livro. Mesmo que em devaneios, sempre pesquisar e compreender aquilo que diz. Isso é meio que óbvio, mas Thereza sabe o que diz, já passou por poucas e boas com autores desfinformados. Thereza acha que deve-se sempre consultar os amigos, são os primeiros leitores, mesmo que a maioria diga que gosta, sempre haverá aquele que diz &#8220;olha, não gostei&#8221;, e talvez pérolas saiam da sinceridade.<br />
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<p>DE HELOÍSA A ABELARDOII</p>
<p>Deixa a voz alçar o voo leve</p>
<p>na noite que temos para nós.</p>
<p>Estás à beira de tua honra e eu à beira de ti.</p>
<p>Não me comovo às lágrimas, senão por teus olhos,</p>
<p>olhos  veem tudo o que existe em mim.</p>
<p>Não sou senão a serva de um amor imenso,</p>
<p>este que me habita e me devasta.</p>
<p>Por onde me leve, o amor me tem pela mão,</p>
<p>e me guia até onde estás.</p>
<p>Que breve perfume dessas horas se destila</p>
<p>nas pétalas da flor que nos deslumbra?</p>
<p>É o seu aroma ou o nosso que sentimos?</p>
<p>Meu amor é mais puro por não ver</p>
<p>nada mais, nem outro, senão a ti.</p>
<p>&#8220;O livro não é uma coisa, é um ser&#8221;, eis um dos ensinamentos de Thereza. Para ela, (e para mim também), o livro é um ser que pensa, que decide, dá opinião, reclama, e sabe o que quer. Um livro dura mais que o autor, caso não seja queimado, tem o dom da permanência, de modo que não o empurre. Pois todas as histórias podem ser contadas, e o livro, está aí para carrega-las, portanto, cuide bem deste ser.<br />
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<p>DE HELOÍSA A ABELARDOIII</p>
<p>Nunca, dizes, te afastarás de mim,</p>
<p>mas, mesmo assim, me deixaste.</p>
<p>Meu pensamento se consome em chamas,</p>
<p>minha lucidez me falta neste momento vertigem.</p>
<p>Somos seres absolutos, em absoluta</p>
<p>servos e santos, blasfemos e hipócritas</p>
<p>Ó geração de enfermos!</p>
<p>Ó vida! O que nos deste, nos tiraste!</p>
<p>Restou tão pouco de nós sobre este estreito leito.</p>
<p>Ó dor maior que o mundo!</p>
<p>Ó planger de horas que não bastam!</p>
<p>Choram os filhos sem suas mães.</p>
<p>Choram os amantes sem o seu amor.</p>
<p>Thereza acha ,e eu concordo, que o autor não faz nada sozinho, que o livro é o somatório de tudo que o envolveu, todas forças, todos os percalços sobrenaturais que permeiam o Universo. Ih, não é exagero. Há também outra questão:  Jamais diga sobre o que você vai escrever, senão a mente acha que você já escreveu e passa adiante, isso é corretíssimo. Mostrar o que fez é fundamental, porém, jamais o que não fez. Palavra de editora.<br />
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DE ABELARDO A HELOÍSA</p>
<p>VIII</p>
<p>Meu pecado foi não ser casto.</p>
<p>Meu castigo foi me tornar.</p>
<p>Meu Pai, que mal fiz em amar-te</p>
<p>e deixar que me amasses?</p>
<p>Pela mão dos homens, Deus infligiu-me</p>
<p>o castigo da castidade para melhor servi-Lo.</p>
<p>Eu não fui digno Dele, não fui digno de ti.</p>
<p>Quis aproveitar-me da sorte, enquanto o diabo</p>
<p>rondava.</p>
<p>Quis ocultar o matrimônio para me preservar.</p>
<p>Meu egoísmo me castrou e me tornei o que sou.</p>
<p>Este é o meu amor verdadeiro, esta, a minha</p>
<p>missão.</p>
<p>Se por ti errei, por Deus fui corrigido.</p>
<p>Nosso amor redimiu-me perante todos.</p>
<p>Eis que chegamos ao fim de mais uma antologia. Percorremos a obra da poeta Thereza Christina Rocque da Motta, que, além de poeta, é uma exímia editora, leia-se, artesã de sonhos. <em>O mais puro amor de Abelardo e Heloísa</em> é seu último livro. Assim como Ovídio, Thereza criou correspondências amorosas entre dois personagens, sendo estes, reais. O filósofo goliardo Pedro Abelardo e sua amada Heloísa, que se amaram no fim da Idade Média, porém, esbarraram nos conceitos morais da época e outras coerções, que os impediu de continuar. Semana que vem entraremos em outro universo poético, outras proposições, outros poemas. Até!<br />
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DE ABELARDO A HELOÍSA</p>
<p>XI</p>
<p>Bem amada, irmã, serva do Senhor,</p>
<p>a quem sirvo ainda amando-te com todo o meu</p>
<p>amor.</p>
<p>É Dele o amor que nos nutre, Ele quem nos uniu,</p>
<p>e nos mantém unidos por Amor a Ele.</p>
<p>Amo-te mais sem te ter do que tendo-te comigo.</p>
<p>Estás em tudo que faço, toda obra minha tem tua</p>
<p>mão.</p>
<p>Teu silêncio está no meu, e minhas palavras</p>
<p>repetem as tuas. Sou o que restou do homem que</p>
<p>fui,</p>
<p>mas este ainda segue te amando, mesmo longe,</p>
<p>distante de corpo, jamais de alma.</p>
<p>Estas vivem juntas nas noites de vigília,</p>
<p>sob a abóbada celeste que nos testemunha.</p>
<p>Somos o anúncio vivo do nosso amor,</p>
<p>como eco de nossas palavras.</p>
<p><em><br />
</em></p>
<p><em><br />
</em></p>
<p>DE HELOÍSA A ABELARDO</p>
<p>XII</p>
<p>Nem Luís nem Eleonor se apiedaram.</p>
<p>Notre-Dame ergueu-se em dor,</p>
<p>abraçando, entre seus arcos, o nosso vazio.</p>
<p>Ao largo, flui o Sena, sem retorno.</p>
<p>Paris se cala e testemunha o nosso horror.</p>
<p>O que será de ti, meu amado?</p>
<p>O que será de mim, tua esposa?</p>
<p>Tu, exilado, escondes o teu rosto em vergonha.</p>
<p>Em Argenteuil, onde nasci e novamente vivo,</p>
<p>o véu desce sobre mim e me amortalha.</p>
<p>Tu, também, te entregas ao martírio.</p>
<p>Enlutados, a morte nos dita regras.</p>
<p>Aqui se encerra a nossa história,</p>
<p>mas, não o nosso amor.</p>
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	</item>
		<item>
		<title>Alphonsus de Guimaraens</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Mar 2010 14:24:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cartilhadepoesia</dc:creator>
				<category><![CDATA[TODOS OS POETAS AQUI]]></category>

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		<description><![CDATA[Afonso Henriques da Costa Guimarães nasceu no dia 24 de julho de 1870, em Ouro Preto. No dia 10 de junho de 1871 foi batizado na matriz da Freguesia de Nossa Senhora do Pilar do Fundo de Ouro Preto. Seu nome foi uma homenagem ao fundador do Velho Reyno. O menino tinha o apelido de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=35&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Afonso Henriques da Costa Guimarães nasceu no dia 24 de julho de 1870, em Ouro Preto. No dia 10 de junho de 1871 foi batizado na matriz da Freguesia de Nossa Senhora do Pilar do Fundo de Ouro Preto. Seu nome foi uma homenagem ao fundador do Velho Reyno. O menino tinha o apelido de &#8220;Afonso sonso&#8221;, dado por seus irmãos e colegas de correrias ladeirentas da infância. Nossa correspondência inicia os trabalhos em 2010 com o poeta maior Alphonsus de Guimarães.</p>
<p>poema Saxofonista do Arpoador no blog <a href="http://pedrolago.blogspot.com/">http://pedrolago.blogspot.com </a></p>
<p>INITIUM</p>
<p>Tanta agonia, dores sem causa,</p>
<p>E o olhar num céu invisível posto&#8230;</p>
<p>Prantos que tombam sem uma pausa,</p>
<p>Risos que não chegam mais ao rosto&#8230;</p>
<p>Noites passadas de olhos abertos,</p>
<p>Sem nada ver, sem falar, tão mudo&#8230;</p>
<p>Alguém que chega, passos incertos,</p>
<p>Alguém que foge, e silêncio em tudo&#8230;</p>
<p>Só, perseguido de sombras mortas,</p>
<p>De espectros negros que são tão altos&#8230;</p>
<p>Ouvindo múmias forçar as portas,</p>
<p>E esqueletos que me dão assaltos&#8230;</p>
<p>Só, na geena deste meu quarto</p>
<p>Cheio de rezas e de luxúria&#8230;</p>
<p>Alguém que geme, dores de parto,</p>
<p>- Satã que faz nascer uma fúria&#8230;</p>
<p>E ela que vem sobre mim, de braços</p>
<p>Escancarados, a agitar as tetas&#8230;</p>
<p>E nuvens de anjos pelos espaços,</p>
<p>Anjos estranhos com as asas pretas&#8230;</p>
<p>E o inferno em tudo, por tudo o abismo</p>
<p>Em que se me vai toda a coragem&#8230;</p>
<p>&#8220;Santa Maria, dá-me o exorcismo</p>
<p>Do teu sorriso, da tua imagem!&#8221;</p>
<p>E os pesadelos fogem agora&#8230;</p>
<p>Talvez me escute quem se levanta:</p>
<p>É a lua&#8230; e a lua é Nossa-Senhora,</p>
<p>São dela aquelas cores de Santa!</p>
<p>O jovem Afonso estudou português com o poeta romântico João Nemrod Kubitschek, latim com Afonso de Brito, francês com Randolfo Bretas e inglês com <em>mister</em> Charles Catton Kopsey. Aos 17 anos matriculou-se no Curso Complementar da Escola de Minas, com o objetivo de estudar engenharia civil e de minas. Nesta época, o jovem Afonso já fazia versos, que ganharam força já como aluno de engenharia. Afonso passou por uma experiência muito dolorosa: Sua prima, Constança, por quem era apaixonado, morreu quando eram namorados e admitidos como noivos, ainda adolescentes. Ontem seu nome foi escrito errado.</p>
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<p>VISÃO DOS SOLITÁRIOS</p>
<p>Com a vasta escuridão do teu cabelo ensombras,</p>
<p>Se o destranças pelo ar, o próprio sol que bate</p>
<p>Nessa carne que tem a maciez das alfombras</p>
<p>Feitas de seda branca e veludo escarlate.</p>
<p>Não sei quem és e ao mesmo tempo assombras.</p>
<p>Alguma coisa de astro o teu sorriso dá-te&#8230;</p>
<p>Errante multidão de espectros e de sombras</p>
<p>Anda em redor de ti como para um combate.</p>
<p>Para quê, para quê tanta mágoa me deste?</p>
<p>Por que surgiste aqui, na minha noite espessa,</p>
<p>Tu, Rainha imortal de algum Sabá celeste?</p>
<p>Fantasma, és a Mulher! Levanta-te, Anjo eterno!</p>
<p>Ergue-te mais, e mais! Como a tua cabeça</p>
<p>Pode tocar o Céu, se tens os pés no Inferno?</p>
<p>A perda da prima e noiva Constança foi extremamente marcante para o jovem poeta Afonso. Acompanhava sua doença de perto, rezando para São Bom Jesus de Matozinhos para que ela se curasse. O misticismo e o amor, que veremos em sua obra, parecem ter despertado desde cedo no poeta. Afonso ficou com Constança até sua morte aos 17 anos, muitas vezes sem estudar, sem destino. Afonso percorreu a boêmia literária dos botecos dos estudantes e não tardou a adoecer com uma bronquite, que seus pais desconfiavam ser uma tuberculose.</p>
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<p>S. BOM JESUS DE MATOZINHOS</p>
<p>S. Bom Jesus de Matozinhos</p>
<p>Fez a Capela em que o adoramos</p>
<p>No meio de árvores e ramos</p>
<p>Para ficar perto dos ninhos.</p>
<p>É como a Igreja de uma aldeia,</p>
<p>Tão sossegada e tão singela&#8230;</p>
<p>As moças, quando a lua é cheia,</p>
<p>Sentam-se à porta da Capela.</p>
<p>Vai-se pela ladeira acima</p>
<p>Até chegar no alto do morro.</p>
<p>Tão longe&#8230; mas quem desanima</p>
<p>Se Ele é o Senhor do Bom-Socorro!</p>
<p>Tem tanto encanto a sua Igreja,</p>
<p>Paz que nos é tão familiar,</p>
<p>Que é impossível que se não seja</p>
<p>Um bom cristão em tal lugar.</p>
<p>Alegrias mais que terrestres</p>
<p>Murmuram hinos pelas naves.</p>
<p>No adro, quantas flores silvestres,</p>
<p>Nas torres, quantos vôos de aves&#8230;</p>
<p>E atrás da Igreja o cemitério</p>
<p>Floresce cheio de jazigos.</p>
<p>Os próprios mortos, que mistério!</p>
<p>Vivem na paz de bons amigos.</p>
<p>Quando o Jubileu se aproxima,</p>
<p>Ai! quanta gente sobe o morro&#8230;</p>
<p>Tão longe&#8230; mas quem desanima</p>
<p>Se Ele é o Senhor do Bom-Socorro!</p>
<p>Velhas de oitenta anos contados</p>
<p>Querem vê-lo no seu altar,</p>
<p>Braços abertos, mas pregados,</p>
<p>Que nos não podem abraçar.</p>
<p>Entrevados de muitos anos,</p>
<p>Vão de rastros pelos caminhos</p>
<p>Olhar os olhos tão humanos</p>
<p>De Bom Jesus de Matozinhos.</p>
<p>Saem dos leitos, como de essas,</p>
<p>Espectros cheios de esperança,</p>
<p>E vão cumprir loucas promessas,</p>
<p>Pois de esperar a fé não cansa.</p>
<p>Vinde, leprosos do grande ermo,</p>
<p>Almas que estais dentro de lodos:</p>
<p>Que o Bom Jesus recebe a todos,</p>
<p>Ou seja o são ou seja enfermo.</p>
<p>Almas sem rumo como as vagas,</p>
<p>Vinde rezar, vinde rezar!</p>
<p>Se Ele também tem tantas chagas,</p>
<p>Como não há de vos curar&#8230;</p>
<p>Direis talvez: &#8220;Chegar lá em cima&#8230;</p>
<p>Antes de lá chegar eu morro!</p>
<p>Tão longe&#8230; &#8220;Mas quem desanima</p>
<p>Se Ele é o Senhor do Bom-Socorro!</p>
<p>Foi pelo meado de setembro,</p>
<p>No Jubileu, que eu vim amá-la.</p>
<p>Ainda com lágrimas relembro</p>
<p>Aqueles olhos cor de opala&#8230;</p>
<p>Era tarde. O sol no poente</p>
<p>Baixava lento. A noite vinha.</p>
<p>Ela tossia, estava doente&#8230;</p>
<p>Meu Deus, que olhar o que ela tinha!</p>
<p>Ela tossia. Pelos ninhos</p>
<p>Cantava a noite, toda luar.</p>
<p>S. Bom Jesus de Matozinhos</p>
<p>Olhava-a como que a chorar&#8230;</p>
<p>Afastado o perigo de pneumonia, o poeta melhora de sua bronquite. Assim, segue o jovem por sua contemporaneidade a abraçar o entusiasmo político que o cerca, a República. Escreve poemas sobre o assunto e é influenciado por Guerra Junqueiro e Manuel Ozzori, este, organizador do <em>Almanaque administrativo, mercantil, industrial, científico e literário do Município de Ouro Preto</em>. Afonso publicava seus poemas nesse Almanaque. Afonso vai então para São Paulo estudar Direito. Seu pai, queria o poeta em Coimbra, mas Afonso recusa prontamente.</p>
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<p>CAPUT V / <em>OSSA MAE</em></p>
<p>poema IV</p>
<p>Ó lábios que sereis de lodo e poeira,</p>
<p>Que intangível desejo vos abate?</p>
<p>Que ânsia suprema, na hora derradeira,</p>
<p>Em silêncio vos livra esse combate?</p>
<p>Quereis falar, e quietos sois: na inteira</p>
<p>Mudez do coração que já não bate,</p>
<p>Por debaixo de vós ri-se a caveira,</p>
<p>Lábios que fostes flamas de escarlate.</p>
<p>Se frios como neve estais agora,</p>
<p>Com saudades de beijos que não destes,</p>
<p>Alegrai-vos na dor que vos descora.</p>
<p>Cerrai-vos para sempre em doce calma:</p>
<p>Que os beijos dados, e ainda os mais celestes,</p>
<p>Nunca deixam vestígios na nossa alma&#8230;</p>
<p>Em São Paulo, Afonso mergulha no jornalismo. contribuindo com o <em>Comércio de S. Paulo, Diário Mercantil </em>e<em> Correio Paulistano</em>. No <em>Estado de São Paulo</em>, publica poemas na seção: <em>Parnaso</em>. Enamora-se da sobrinha da dona da pensão onde mora, Ester, depois de uma moça chamada Adélia. Já está prontamente estabelecido na grande cidade. Começa então a organizar os poemas publicados para um livro. Conhece o poeta Jacques d&#8217;Avray, que oferecia reuniões em sua casa com outros poetas, começa aí o diálogo com alguns contemporâneos.</p>
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<p>PULCHRA UT LUNA</p>
<p>de Dona Mística</p>
<p>Na solidão suprema dos conventos,</p>
<p>Em horas de pavor tão sossegadas,</p>
<p>Vêem-se passar fantasmas sonolentos,</p>
<p>Vultos de freiras mortas e de fadas.</p>
<p>Soluça a paz dos grandes monumentos,</p>
<p>Debruçado à beira das estradas:</p>
<p>Sombras de luto, pelos lutulentos</p>
<p>Caminhos, choram mágoas já choradas.</p>
<p>Vozes de além, pungentes de mistério,</p>
<p>Cantam: e os sinos dobram nas ermidas,</p>
<p>Acompanhando o cantochão funéreo&#8230;</p>
<p>(Brancas visões remotas, enfadonho</p>
<p>Enterro infindo de ilusões queridas</p>
<p>Na solidão suprema do meu Sonho!)</p>
<p>Com os poemas publicados nos jornais de São Paulo, Afonso preparava um livro, que se chamaria Salmos da Noite. Após a reforma Benjamin Constant, que permitiria a fundação nos Estados de Faculdade de Direito e com o entusiasmo de jovens advogados como Raimundo Correia e Afonso Arinos, fundou-se em Ouro Preto a Faculdade Livre de Direito. Em 1892, o poeta Afonso se mudaria para lá, e em 1894, colando o grau bacharel.  Volta para São Paulo, conclui o curso de Ciências Sociais, e já no quadro da Academia Livre de Direito de Minas Gerais, debaixo de sua foto, está seu nome literário e latinizado: Alphonsus de Guimaraens.</p>
<p>poema Museus e Livrarias no blog <a href="http://pedrolago..blogspot.com/">http://pedrolago.blogspot.com</a></p>
<p>ELECTA UT SOL V</p>
<p>de Dona Mística</p>
<p>Quantas vezes no caos destes meus longos dias</p>
<p>Eu ouço a tua voz de perdão e de queixa,</p>
<p>E te vejo surgir, à hora em que aparecias,</p>
<p>Solta a faixa da tua ensombrada madeixa!</p>
<p>Tarde louca de abril; gemem ave-marias</p>
<p>Pelas naves; o luar o mundo inteiro enfeixa</p>
<p>Num ramalhete de ouro estelar: nostalgias</p>
<p>Que o ocaso em funeral pelo infinito deixa.</p>
<p>Do alto onde estás, volves o teu olhar clemente:</p>
<p>Andas no céu. Toda a minha Alma é um sol no poente,</p>
<p>Onde morre a visão dos meu dias felizes&#8230;</p>
<p>Uma saudade cruel o coração me corta;</p>
<p>Recordo-me de ti como de alguma morta</p>
<p>Que me tivesse amado em longínquos países&#8230;</p>
<p>Após concluir os cursos, Alphonsus vai para o Rio de Janeiro, onde se encontra com o poeta Cruz e Sousa. O poeta catarinense já admirava os versos de Alphonsus publicados no Estado de São Paulo. Conheceu também os grupos literários da época, tornou-se amigo do poeta parnasiano Emílio de Meneses e foi muito admirado por todos que conheceu. Em 1895 foi nomeado promotor de justiça da comarca mineira de Conceição do Serro.</p>
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<p>RIMANCE DE DONA CELESTE</p>
<p>- Satã, onde a puseste?</p>
<p>Busco-a desde a manhã.</p>
<p>Oh pálida Celeste&#8230;</p>
<p>Satã! Satã! Satã!</p>
<p>E o cavaleiro andante,</p>
<p>A toda, a toda a rédea,</p>
<p>Passa em busca da Amante</p>
<p>Pela noite sem luar da Idade Média.</p>
<p>- O vento ulula e chora&#8230;</p>
<p>Maldição! maldição!</p>
<p>A quem amar agora,</p>
<p>Meu pobre coração&#8230;</p>
<p>E o Cavaleiro passa</p>
<p>Ante a sombria porta</p>
<p>Da lúgubre Desgraça,</p>
<p>Silenciosa mulher de olhar de morta.</p>
<p>- Viste, velha agoureira,</p>
<p>O Anjo do meu solar?</p>
<p>- Ah! com uma Feiticeira</p>
<p>Ela acaba de passar&#8230;</p>
<p>E bate o Cavaleiro</p>
<p>A outra porta escura:</p>
<p>É a casa do coveiro,</p>
<p>Solitária como uma sepultura.</p>
<p>- Quem sabe! acaso, acaso,</p>
<p>O meu anjo morreu?</p>
<p>- Fidalgo, morre o ocaso,</p>
<p>Não posso enterrá-lo eu!</p>
<p>Louco, às trevas pergunta:</p>
<p>Sombras pelos caminhos</p>
<p>Dizem que ela é defunta&#8230;</p>
<p>E ele começa a interrogar os ninhos.</p>
<p>- Acaso, acaso a viste,</p>
<p>Meu suave ruscinol?</p>
<p>- Ouves a endecha triste?</p>
<p>Bem vês que não vi o sol.</p>
<p>E o Cavaleiro escuta</p>
<p>Longe o estertor de um pio&#8230;</p>
<p>Talvez a voz poluta</p>
<p>E irônica de algum mocho erradio.</p>
<p>- O teu Anjo finou-se</p>
<p>Ao beijo de Satã&#8230;</p>
<p>Ai! do seu lábio doce,</p>
<p>Mais doce que a manhã!</p>
<p>Tinem arneses: voa</p>
<p>O cavaleiro andante</p>
<p>A toda a rédea, à-toa&#8230;</p>
<p>Não acharás, Fidalgo, a tua amante!</p>
<p>No Largo do Chafariz, em Conceição do Serro, Alphonsus se apaixona por uma moça de quinze anos. Filha de um escrivão da Coletoria Estadual, se chamava Zenaide. Para conquistá-la, o poeta enviou uma caixa de passas com flores na tampa e um poema. Não tardou a ficarem juntos. O poeta acabara de se banhar no mais puro lirismo! Em 1897, casa-se com a moça no dia de seu aniversário de dezessete anos. O poeta com seus 26. A viagem de núpcias foi em Ouro Preto, onde Zenaide conheceu seus pais. Algo de lúgubre aconteceria depois.</p>
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<p>ÁRIA DO LUAR</p>
<p>O luar, sonora barcarola,</p>
<p>Aroma de argental caçoula,</p>
<p>Azul, azul em fora rola&#8230;</p>
<p>Cauda de virgem lacrimosa,</p>
<p>Sobre a montanha negras pousa,</p>
<p>Da luz na quietação radiosa.</p>
<p>Como lençóis claros de neve,</p>
<p>Que o sol filtrando em luz esteve,</p>
<p>É transparente, é branco, é leve.</p>
<p>Eurritmia celestial das cores,</p>
<p>Parece feito dos menores</p>
<p>E mais transcendentes odores.</p>
<p>Por essas noites, brancas telas,</p>
<p>Cheias de esperanças de estrelas,</p>
<p>O luar é o sonho das donzelas.</p>
<p>Tem cabalísticos poderes</p>
<p>Como os olhares das mulheres:</p>
<p>Melancolia e enerva os seres.</p>
<p>Afunda na água o alvo cabelo,</p>
<p>E brilha logo, algente e belo,</p>
<p>Em cada lago um sete-estrelo.</p>
<p>Cantos de amor, salmos de prece,</p>
<p>Gemidos, tudo anda por esse</p>
<p>Olhar que Deus à terra desce.</p>
<p>Pela sua asa, no ar revolta,</p>
<p>Ao coração do amante volta</p>
<p>A Alma da amada aos beijos solta.</p>
<p>Rola, sonora barcarola,</p>
<p>Aroma de argental caçoula,</p>
<p>O luar, azul em fora, rola&#8230;</p>
<p>Após a viagem para Ouro Preto, foi diagnosticado na moça uma cardiopadia adiantada. Tal problema fez com que o poeta tomasse cuidados excessivos com a mulher. Em 1899, Alphonsus publica Setenário das Dores de Nossa Senhora, Câmara Ardente e Dona Mística. Sempre com tiragens de 250 a 500 exemplares. Em 1900, o poeta já tinha duas filhas. Depois segue para o Rio de Janeiro e reafirma o contato com o grupo simbolista contribuindo com as revistas Rosa-Cruz e Revista Contemporânea.</p>
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<p>PERISTYLUM</p>
<p>No sacro e fulvo peristilo jalde,</p>
<p>Entre silêncios de cristal imoto,</p>
<p>O meu Amor em nuvens se desfralde</p>
<p>Na perfeição astral do Eterno-Voto:</p>
<p>E pecador, a procurar embalde</p>
<p>A estrada espiritual do Céu remoto,</p>
<p>A aspiração da Fé sublime escalde</p>
<p>O meu peito medievo de devoto:</p>
<p>Longe da turbamulta que me cerca,</p>
<p>Eu fortaleça o coração vetusto</p>
<p>Para que nada do meu Ser se perca:</p>
<p>Neste poema de Amor, amplo e celeste,</p>
<p>Eu cante o extremo Epitalâmio augusto</p>
<p>À sombra funerária de um cipreste&#8230;</p>
<p>Alphonsus vai para Conceição do Serro onde contribui com o jornal A Gazeta. Fez algumas amizades na cidade e em junho de 1902 organiza o livro Kiriale, cronologicamente seu primeiro livro, editado em Portugal com despesas próprias. Em 1903 recusa um lugar na redação d&#8217;A Gazeta pelo salário de quatrocentos mil-réis. Logo após viria a ser redator de um jornal político. Alphonsus escrevia sátiras versificadas, muitas vezes contra médicos, que eram da oposição local, e também estava presente nas escassas quatro páginas com seus versos ao lado de Cruz e Sousa, Olavo Bilac, Coelho Neto, Raul Pompéia e outros amigos.</p>
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<p>ANTÍFONA</p>
<p>Volvo o rosto para o teu afago,</p>
<p>Vendo o consolo dos teus olhares&#8230;</p>
<p>Sê propícia para mim que trago</p>
<p>Os olhos mortos de chorar pesares.</p>
<p>A minha Alma, pobre ave que se assusta,</p>
<p>Veio encontrar o derradeiro asilo</p>
<p>No teu olhar de Imperatriz augusta,</p>
<p>Cheio de mar e de céu tranquilo.</p>
<p>Olhos piedosos, palmas de exílios,</p>
<p>Vasos de goivos, macerados vasos!</p>
<p>Venho pousar à sombra dos teus cílios,</p>
<p>Que se fecham sobre dois ocasos.</p>
<p>Volvo o peito para as tuas Dores</p>
<p>E o coração para as Sete Espadas&#8230;</p>
<p>Dá-me, Senhora, a unção que nunca morre</p>
<p>Nos pobres lábios de quem espera:</p>
<p>Sê propícia para mim, socorre</p>
<p>Quem te adorara, se adorar pudera!</p>
<p>Mas eu, a poeira que o vento espalha,</p>
<p>O homem de carne vil, cheio de assombros,</p>
<p>O esqueleto que busca uma mortalha,</p>
<p>Pedir o manto que te envolve os ombros!</p>
<p>Adorar-te, Senhora, se eu pudesse</p>
<p>Subir tão alto na hora da agonia!</p>
<p>Sê propícia para a minha prece.</p>
<p>Mãe dos aflitos&#8230;</p>
<p>Ave Maria.</p>
<p>Alphonsus exerceu a função de promotor de justiça durante o ano de 1905. Certa vez, o poeta estudou um processo e se preparou para os debates. Momentos antes, empalideceu na frente de sua mulher, Zenaide, escorregou na cadeira e desmaiou. Ser promotor de justiça não era de seus talentos. Foi nomeado juíz municipal de Mariana. Foi a Belo Horizonte, onde conheceu jovens poetas simbolistas e que o admiravam muito. O poeta teve muitos filhos.</p>
<p>tradução de um poema de Paul Valéry no blog <a href="http://pedrolago.blogspot.com/">http://pedrolago.blogspot.com </a></p>
<p>NOVA PRIMAVERA</p>
<p>XXVI</p>
<p>Dos cravos o perfume entre as brisas anseia</p>
<p>E os astros, voando como um enxame prateado,</p>
<p>Cintilam com um tremente esplendor irisado</p>
<p>No céu que ao fundo se arroxeia.</p>
<p>Dos castanheiros através, eis que fulgura</p>
<p>A casa dela; após, de repente clareada,</p>
<p>Uma janela se abre&#8230; e a voz tão dourada</p>
<p>Em meio à noite ergue-se pura.</p>
<p>Oh encanto! doce voz, eu tremo aos teus acentos:</p>
<p>O orvalho para ouvir-te o rorejar suspende;</p>
<p>O lírio, no jardim à escuta, a frente pende,</p>
<p>E os rouxinóis estão atentos.</p>
<p>Já estabelecido em Mariana, seus pais vieram morar na casa do poeta. Seu pai Albino da Costa Guimarães, com 70 anos, tivera um desmoronamento financeiro no fim da vida. O pai de Alphonsus morreu no dia 5 de março de 1908 e sua mãe, Francisca, dois anos depois, após um ano numa cadeira. Alphonsus já decidira passar sua vida na cidade que o chamaria de &#8220;solitário&#8221;.</p>
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<p>AS CANÇÕES I</p>
<p>Ando colhendo flores tristes:</p>
<p>Um goivo aqui, outro acolá&#8230;</p>
<p>Moças, por que não me sorristes?</p>
<p>Vossos sorrisos, flores tristes,</p>
<p>Eu não sei quem os colherá.</p>
<p>Eu colho flores para os noivos</p>
<p>Que já nã querem sonhar mais.</p>
<p>Nos vossos olhos nascem goivos&#8230;</p>
<p>Dai-me esas flores para os noivos</p>
<p>Que têm amadas celestiais.</p>
<p>Ando colhendo roxas flores:</p>
<p>Quantas saudades não colhi!</p>
<p>Eu já não tenho mais amores,</p>
<p>Pois vossos beijos, roxas flores,</p>
<p>Não mais florescem por aqui.</p>
<p>Eu colho flores para as mortas&#8230;</p>
<p>Quantos sepulcros enfeitei!</p>
<p>Dai-me grinaldas para as portas</p>
<p>Por onde vão saindo as mortas</p>
<p>Com que sonhei, com que sonhei!</p>
<p>Em janeiro de 1915, a França é invadida na Primeira Guerra Mundial. Alphonsus de Guimaraens entra numa crise cívica internacional. Escreve em francês os versos que surgiram da revolta contra o Kaiser que terminava assim: &#8220;<em>Le nouvel Attila, l&#8217;empereur aux moustaches/En défi à la terre, insidieux vautour/ Ne te souillera pas, car ta vie est sans taches/Berceau de Joanne d&#8217;Arc&#8221;. </em>No livro Pastoral aos Crentes do Amor e da Morte, há a presença de Verlaine e Mallarmé em poemas traduzidos.</p>
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<p>CISNES BRANCOS</p>
<p>Ó cisnes brancos, cisnes brancos,</p>
<p>Por que viestes, se era tão tarde?</p>
<p>O sol não beija mais os flancos</p>
<p>Da montanha onde morre a tarde.</p>
<p>Ó cisnes brancos, dolorida</p>
<p>Minh&#8217;alma sente dores novas.</p>
<p>Cheguei à terra prometida:</p>
<p>É um deserto cheio de covas.</p>
<p>Voai para outras risonhas plagas,</p>
<p>Cisnes brancos! Sede felizes&#8230;</p>
<p>Deixai-me só com as minhas chagas,</p>
<p>E só com as minhas cicatrizes.</p>
<p>Venham as aves agoireiras,</p>
<p>De risada que esfria os ossos&#8230;</p>
<p>Minh&#8217;alma, cheia de caveiras,</p>
<p>Está branca de padre-nossos.</p>
<p>Queimando a carne como brasas,</p>
<p>Venham as tentações daninhas,</p>
<p>Que eu lhes porei, bem sob as asas,</p>
<p>A alma cheia de ladainhas.</p>
<p>Ó cisnes brancos, cisnes brancos,</p>
<p>Doce afago de alva plumagem!</p>
<p>Minh&#8217;alma morre aos solavancos</p>
<p>Nesta medonha carruagem&#8230;</p>
<p>Em 1915, após sua crise cívica em virtude da Grande Guerra (perdoem o imenso deslize), Alphonsus teve um encontro com José Severiano Resende, poeta que vivia em Paris e que abandonara a batina. O encontro aconteceu em Belo Horizonte, onde um jantar foi oferecido aos dois poetas na Academia Mineira de Letras. Alphonsus não ia a Belo Horizonte desde 1906, mas o fez pelo amigo. No jantar houve uma leitura de poemas de todos os poetas que lá estavam. Por que este relato é importante? Porque foi a última viagem de Alphonsus de Guimaraens.</p>
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<p>ISMÁLIA</p>
<p>Quando Ismália enlouqueceu,</p>
<p>Pôs-se na torre a sonhar&#8230;</p>
<p>Viu uma lua no céu</p>
<p>Viu outra lua no mar.</p>
<p>No sonho em que se perdeu,</p>
<p>Banhou-se toda em luar&#8230;</p>
<p>Queria subir ao céu,</p>
<p>Queria descer ao mar&#8230;</p>
<p>E, no desvario seu,</p>
<p>Na torre pôs-se a cantar&#8230;</p>
<p>Estava perto do céu,</p>
<p>Estava longe do mar&#8230;</p>
<p>E como um anjo pendeu</p>
<p>As asas para voar&#8230;</p>
<p>Queria a lua do céu,</p>
<p>Queria a lua do mar&#8230;</p>
<p>As asas que Deus lhe deu</p>
<p>Ruflaram de par em par&#8230;</p>
<p>Sua alma subiu ao céu,</p>
<p>Seu corpo desceu ao mar&#8230;</p>
<p>Como é notório em qualquer antologia ou biografia breve, Alphonsus de Guimaraens é conhecido por &#8220;Solitário de Mariana&#8221;, cidade onde morou até o fim de sua vida. Seu filho, João Alphonsus, havia pleiteado que o pai fosse para Comarca de Sabará trabalhar no tribunal, porém, o projeto não foi adiante. O poeta vivia uma vida modesta, tendo somente a poesia como consolo. Algo trágico viria a acontecer.</p>
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<p>CAMPA EM FLOR</p>
<p>Quando tu viste o branco jasmineiro</p>
<p>Que dentro da minha alma florescia,</p>
<p>Sorriste-me e colhi logo o primeiro</p>
<p>Beijo que nos teus lábios me sorria.</p>
<p>Depois eras o meigo jardineiro,</p>
<p>Que o jardim cultivava noite e dia&#8230;</p>
<p>Água nunca faltava no canteiro,</p>
<p>Pois que a fonte dos olhos teus corria.</p>
<p>Mas vendo que eu, alheio a ti, pendera</p>
<p>Um dia a fronte para a terra impura,</p>
<p>Fitaste-te com os teus olhos antigos:</p>
<p>- &#8220;Desgraçada de mim, que me esquecera</p>
<p>Que nascem com mais viço e formosura</p>
<p>As flores que plantamos nos jazigos!&#8221;</p>
<p>A última filha do poeta, Constança, ou Constancinha, nasceu no dia 8 de março de 1920. Porém no dia 16 de maio, depois de uma doença rápida, a menina morre. A irmã do poeta, Estefânia, e sua tia, Maria Eugênia, haviam atribuido a tragédia de Constancinha ao nome que lhe fora dado (!), pois ambas haviam censurado a escolha. Mas foi um duro golpe ao coração do poeta. Foi se envolvendo numa amargura, até que na madrugada de 15 de julho de 1921, dois meses depois da morte da filha, morre Alphonsus de Guimaraens. Seu corpo, está no cemitério da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, no ponto mais alto de Mariana.</p>
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<p>A CATEDRAL</p>
<p>Entre brumas, ao longe, surge a aurora.</p>
<p>O hialino orvalho aos poucos se evapora,</p>
<p>Agoniza o arrebol.</p>
<p>A catedral ebúrnea do meu sonho</p>
<p>Aparece, na paz do céu risonho,</p>
<p>Toda branca de sol.</p>
<p>E o sino canta em lúgubres responsos:</p>
<p>&#8220;Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!&#8221;</p>
<p>O astro glorioso segue a eterna estrada.</p>
<p>Uma áurea seta lhe cintila em cada</p>
<p>Refulgente raio de luz.</p>
<p>A catedral ebúrnea do meu sonho,</p>
<p>Onde os meus olhos tão cansados ponho,</p>
<p>Recebe a bênção de Jesus.</p>
<p>E o sino clama em lúgubres responsos:</p>
<p>&#8220;Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!&#8221;</p>
<p>Por entre lírios e lilases desce</p>
<p>A tarde esquiva: amargurada prece</p>
<p>Põe-se a lua a rezar.</p>
<p>A catedral ebúrnea do meu sonho</p>
<p>Aparece, na paz do céu tristonho,</p>
<p>Toda branca de luar.</p>
<p>E o sino chora em lúgubres responsos:</p>
<p>&#8220;Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!&#8221;</p>
<p>O céu é todo trevas: o vento uiva.</p>
<p>Do relâmpago a cabeleira ruiva</p>
<p>Vem açoitar o rosto meu.</p>
<p>E a catedral ebúrnea do meu sonho</p>
<p>Afunda-se no caos do céu medonho</p>
<p>Como um astro que já morreu.</p>
<p>E o sino geme em lúgubres responsos:</p>
<p>&#8220;Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!&#8221;</p>
<p>Eis que chegamos ao final de mais uma antologia poética. Neste mês vimos um pouco da vida e da obra deste que se tornou um dos grandes nomes da poesia simbolista no Brasil. Poeta recluso, mineiro, de obra extensa e substancial, ligado às levitações religiosas e ao amor, que escolheu a calma da solidão para viver e que a vida fez gerar outros grandes poetas na família. Semana que vem, entraremos em outro universo poético, contemporâneo ou não, outras proposições, outros poemas. Pra frente companheiros!</p>
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<p>DOIS DE NOVEMBRO XX</p>
<p>Vou pela sombra. O luar é suave como</p>
<p>O sol que morre no claror supremo.</p>
<p>Agora a lua, em demorado assomo,</p>
<p>Domina todo o céu, de extremo a extremo.</p>
<p>Eis a floresta. O espírito de um gnomo</p>
<p>Em cada árvore ri. Valha-me o demo!</p>
<p>Por sobre a copa deste cinamomo</p>
<p>Desliza a lua, gôndola sem remo&#8230;</p>
<p>Sigo. Silêncio e luz&#8230; Dormem os ninhos.</p>
<p>Por toda a parte, heráldicos arminhos,</p>
<p>Aqui e ali, refulgem sobre o chão.</p>
<p>É a floresta enluarada da minh&#8217;alma:</p>
<p>E o teu olhar é a lua doce e calma</p>
<p>Que me segue através desta ilusão&#8230;</p>
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		<title>Retrospectiva 2009</title>
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		<pubDate>Sun, 27 Dec 2009 16:10:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cartilhadepoesia</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Começamos este bom ano de estudos com o grande poeta simbolista João da Cruz e Sousa. Nasceu em Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis, em 24 de novembro de 1861. Filho de negros alforriados, teve educação na &#8216;Casa Grande&#8217; com seu ex-senhor, cujo nome de família &#8220;herdou&#8221;. Aprendeu latim, grego, francês e se tornou poeta [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=29&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Começamos este bom ano de estudos com o grande poeta simbolista João da Cruz e Sousa. Nasceu em Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis, em 24 de novembro de 1861. Filho de negros alforriados, teve educação na &#8216;Casa Grande&#8217; com seu ex-senhor, cujo nome de família &#8220;herdou&#8221;. Aprendeu latim, grego, francês e se tornou poeta ligado à poesia francesa. Apesar de ser negro, Cruz e Sousa só se envolveu com a questão abolicionista numa viagem que fez com um grupo de teatro para a Bahia, onde conheceu outros intelectuais da causa. Cruz e Sousa morreu no povoado Estação de Sítio no município de Antônio Carlos em Minas Gerais no dia 19 de março de 1898.</p>
<p>BRAÇOS</p>
<p>Braços nervosos, brancas opulências,</p>
<p>brumais brancuras, fúlgidas brancuras,<br />
alvuras castas, virginais alvuras,<br />
latescências das raras latescências.</p>
<p>As fascinantes, mórbidas dormências<br />
dos teus abraços de letais flexuras,<br />
produzem sensações de agres torturas,<br />
dos desejos as mornas florescências.</p>
<p>Braços nervosos, tentadoras serpes<br />
que prendem, tetanizam como os herpes,<br />
dos delírios na trêmula coorte &#8230;</p>
<p>Pompa de carnes tépidas e flóreas,<br />
braços de estranhas correções marmóreas,<br />
abertos para o Amor e para a Morte!</p>
<p>ENCARNAÇÃO</p>
<p>Carnais, sejam carnais tantos desejos,<br />
carnais, sejam carnais tantos anseios,<br />
palpitações e frêmitos e enleios,<br />
das harpas da emoção tantos arpejos&#8230;<br />
Sonhos, que vão, por trêmulos adejos,<br />
à noite, ao luar, intumescer os seios<br />
láteos, de finos e azulados veios<br />
de virgindade, de pudor, de pejos&#8230;</p>
<p>Sejam carnais todos os sonhos brumos<br />
de estranhos, vagos, estrelados rumos<br />
onde as Visões do amor dormem geladas&#8230;</p>
<p>Sonhos, palpitações, desejos e ânsias<br />
formem, com claridades e fragrâncias,<br />
a encarnação das lívidas Amadas!</p>
<p>Torquato Pereira de Araújo Neto nasceu em Teresina, Piauí, no dia 9 de novembro de 1944. Veio como um cometa. Conheceu Gilberto Gil no colégio em Salvador, se mudou para o Rio e se tornou figura essencial na efervescência cultural dos anos 60. Explosivo, Torquato foi nome e porta-voz do Tropicalismo, da poesia Concreta e da música brasileira naquela época. Escrevia crítica de música para o Geléia Geral. Uma curiosidade: Torquato era fascinado por vampiros. Chegou a fazer um filme antologico chamado Nosferatu no Brasil. Torquato se suicidou em seu apartamento após a festa de seu aniversário de 28 anos, trancando-se na cozinha e abrindo o gás, o dia foi 10 de novembro de 1972.</p>
<p>Este poema é uma obra prima.</p>
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<p>EXPLICAÇÃO DO FATO PARTE II</p>
<p>Também tenho uma noite em mim tão escura</p>
<p>que nela me confundo e paro</p>
<p>e em adágio cantabile pronuncio</p>
<p>as palavras da nênia ao meu defunto,</p>
<p>perdido nele, o ar sombrio.</p>
<p>(Me reconheço nele e me apavoro)</p>
<p>Me reconheço nele,</p>
<p>não os olhos cerrados, a boca falando cheia,</p>
<p>as mãos cruzadas em definitivo estado, se enxergando,</p>
<p>mas um calor de cegueira que se exala dele</p>
<p>e pronto: ele sou eu,</p>
<p>peixe boi devolvido à praia, morto,</p>
<p>exposto à vigilância dos passantes.</p>
<p>Ali me enxergo, à força no caixão do mundo</p>
<p>sem arabescos e sem flores.</p>
<p>Tenho muito medo.</p>
<p>Mas acordo e a máquina me engole.</p>
<p>E sou apenas um homem caminhando</p>
<p>e não encontro em minha vestimenta</p>
<p>bolsos para esconder as mãos, armas, que, mesmo frágeis,</p>
<p>me ameaçam.</p>
<p>Como não ter medo?</p>
<p>Uma noite escura sai de mim e vem descer aqui</p>
<p>sobre esta noite maior e sem fantasmas.</p>
<p>como não morrer de medo se esta noite é fera</p>
<p>e dentro dela eu também sou fera e me confundo nela e</p>
<p>ainda insisto?</p>
<p>Não é viável.</p>
<p>Nem eu mesmo sou viável, e como não? Não sou.</p>
<p>O que é viável não existe, passou há muito tempo</p>
<p>e eram manhãs e tardes e manhãs com sol e chuva</p>
<p>e eu menino.</p>
<p>eram manhãs e tardes e manhãs sem pernas</p>
<p>que escorriam em tardes e manhãs sem pernas</p>
<p>e eu sentado num tanque absurdamente posto no meio da rua,</p>
<p>menino sentado sem a preocupação da ida.</p>
<p>E era todo dia.</p>
<p>Havia sol</p>
<p>e eu o sabia</p>
<p>sol: era de dia</p>
<p>Havia uma alegria</p>
<p>do tamanho do mundo</p>
<p>e era dia no mundo.</p>
<p>Havia uma rua</p>
<p>(debaixo dum dia)</p>
<p>e um tanque.</p>
<p>Mas agora é noite até no sol.</p>
<p>Mário de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa, em 19 de maio de 1890. Foi colaborador de diversos jornais em Portugal. Passou um tempo em Paris, se apaixonou por uma prostituta, viveu intensamente sua angústias na capital francesa. Correspondeu-se com o amigo Fernando Pessoa a quem deixou todos os seus manuscritos. Se tornou um pouco conhecido após participar da revista literária e modernista Orpheu, marco da chamada Geração d&#8217;Orpheu. No dia 26 de abril de 1916, aos 26 anos, Mário se suicida em Paris tomando arseniato e estricnina.</p>
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<p>ÁLCOOL</p>
<p>Guilhotinas, pelouros e castelos</p>
<p>Resvalam longemente em procissão;</p>
<p>Volteiam-me crepúsculos amarelos,</p>
<p>Mordidos, doentios de roxidão.</p>
<p>Batem asas de auréola aos meus ouvidos,</p>
<p>Grifam-me sons de cor e de perfumes,</p>
<p>Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,</p>
<p>Descem-me a alma, sangram-me os sentidos.</p>
<p>Respiro-me no ar que ao longe vem,</p>
<p>Da luz que me ilumina participo;</p>
<p>Quero reunir-me, e todo me dissipo &#8212;</p>
<p>Luto, estrebucho&#8230; Em vão! Silvo pra além&#8230;</p>
<p>Corro em volta de mim sem me encontrar&#8230;.</p>
<p>Tudo oscila e se abate como espuma&#8230;</p>
<p>Um disco de oiro surge a voltear&#8230;</p>
<p>Fecho os meus olhos com pavor da bruma&#8230;</p>
<p>Que droga foi a que me inoculei?</p>
<p>Ópio de inferno em vez de paraíso?&#8230;</p>
<p>Que sortilégio a mim próprio lancei?</p>
<p>Como é que em dor genial eu me eternizo?</p>
<p>Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,</p>
<p>Foi álcool mais raro e penetrante:</p>
<p>É só de mim que ando delirante &#8212;</p>
<p>Manhã tão forte que me anoiteceu.</p>
<p>SONETO DE AMOR</p>
<p>Que rosas fugitivas foste ali:</p>
<p>Requeriam-te os tapetes &#8211; e vieste&#8230;</p>
<p>- Se me dói hoje o bem que me fizeste,</p>
<p>É justo, porque muito te devi.</p>
<p>Em que seda de afagos me envolvi</p>
<p>Quando entraste, nas tardes que apar&#8217;ceste -</p>
<p>Como fui de percal quando me deste</p>
<p>Tua boca a beijar, que remordi&#8230;</p>
<p>Pensei que fosse o meu o teu cansaço -</p>
<p>Que seria entre nós um longo abraço</p>
<p>O tédio que, tão esbelta, te curvava&#8230;</p>
<p>E fugiste&#8230;. Que importa? Se deixaste</p>
<p>A lembrança violeta que animaste,</p>
<p>Onde a minha saudade a Cor se trava?&#8230;</p>
<p>Antônio Carlos de Brito, ou Cacaso, nasceu em Uberaba, Minas Gerais, no dia 13 de março de 1944. Foi um poeta e letrista de música popular, tendo feito letras para grandes nomes como Elton Medeiros, Edu Lobo e muitos outros. Foi professor da Puc e um dos principais teóricos da geração marginal da qual fez parte. Publicou artigos importantes sobre a poesia contemporânea, e lembra bem que esta geração é fruto da tradição de Bandeira e Mário de Andrade. Cacaso tinha um tom irônico único em sua poesia. No dia 27 de dezembro de 1987, um infarte o levou embora.</p>
<p>poema A estrada no blog http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>VIDA E OBRA</p>
<p>Você sabe o que Kant dizia?</p>
<p>Que se tudo desse certo no meio também</p>
<p>Daria no fim dependendo da ideia que se</p>
<p>Fizesse de começo.</p>
<p>E depois &#8211; para ilustrar &#8211; saiu dançando um</p>
<p>Foxtrote.</p>
<p>MODÉSTIA À PARTE</p>
<p>Exagerado em matéria de ironia e em</p>
<p>Matéria de matéria moderado.</p>
<p>CARTEIRA PROFISSIONAL</p>
<p>Não sou amado no amor: sou</p>
<p>Amador.</p>
<p>LÁ EM CASA É ASSIM</p>
<p>meu amor diz que me ama</p>
<p>mas jamais me dá um beijo</p>
<p>pra continuar rejeitado assim</p>
<p>prefiro viajar para a Europa</p>
<p>SURDINA</p>
<p>Primeiro o Tenório Jr.</p>
<p>que sumiu na Argentina</p>
<p>Depois quando perigava</p>
<p>onze e meia da matina</p>
<p>veio a notícia falal:</p>
<p>faleceu Elis Regina!</p>
<p>Um arrepio gelado</p>
<p>um frio de cocaína!</p>
<p>A morte espreita calada</p>
<p>na dobra de uma esquina</p>
<p>rodando a sua matraca</p>
<p>tocando a sua buzina</p>
<p>Isso tudo sem falar</p>
<p>na morte do velho Vina!</p>
<p>E agora é Clara Nunes</p>
<p>que morre ainda menina!</p>
<p>É demais! Que sina!</p>
<p>A melhor prata da casa</p>
<p>o ouro melhor da mina</p>
<p>Que Deus proteja de perto</p>
<p>a minha mãe Clementina!</p>
<p>Lá vai a morte afinando</p>
<p>o coro que desafina&#8230;</p>
<p>Se desse tempo eu falava</p>
<p>do salto da Ana Cristina&#8230;</p>
<p>Manuel Maria Barbosa du Bocage nasceu em Setúbal no dia 15 de setembro de 1765. Enfim foi um poeta que conseguiu ter uma voz em Portugal depois de Camões. Viveu numa sociedade onde os poetas beiravam à bajulação, e foi através de sua personalidade contestadora, provocadora e, sobretudo, libidinosa que marcou seu nome na poesia portuguesa. Bocage viajou para o Brasil, conheceu a modinha, assim como Camões seu grande ídolo, foi da Marinha, percorreu todas as colônias portuguesas, passou tempos na prisão e foi um metrificador nato. Bocage morreu no dia 21 de dezembro de 1805. Este poeta vale o mergulho.</p>
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<p>ACHANDO-SE PRESTES A AUSENTAR-SE DA SUA AMADA</p>
<p>Praias de Sacavém, que Lemnoria</p>
<p>Orna cos pés nevados e mimosos,</p>
<p>Gotejantes penedos cavernosos,</p>
<p>Que do Tejo cobris a margem fria:</p>
<p>De vós me desarreiga a tirania</p>
<p>Dos ásperos Destinos poderosos;</p>
<p>Que não querem que eu logre os amorosos</p>
<p>Olhos, aonde jaz minha alegria:</p>
<p>Oh funesto, oh penoso apartamento!</p>
<p>Objeto encantador de meus sentidos,</p>
<p>A sorte o manda assim, de ti me ausento:</p>
<p>Mas inda lá de longe os meus gemidos</p>
<p>Guiados por Amor, cortando o vento,</p>
<p>Virão ninfa querida, a teus ouvidos.</p>
<p>SONETO IX</p>
<p>Arreitada donzela em fofo leito</p>
<p>Deixando erguer a virginal camisa,</p>
<p>Sobre as roliças coxas se divisa</p>
<p>Entre sombras sutis pachocho estreito:</p>
<p>De louro pêlo um círculo imperfeito</p>
<p>Os papudos beicinhos lhe matiza;</p>
<p>E a branda crica, nacarada e lisa,</p>
<p>Em pingos verte alvo licor desfeito:</p>
<p>A voraz porra as guelras encrespando</p>
<p>Arruma a focinheira, e entre gemidos</p>
<p>A moça treme, os olhos requebrando:</p>
<p>Como é ainda boçal perde os sentidos;</p>
<p>Porém vai com tal ânsia trabalhando,</p>
<p>Que os homens é que vêm a ser fodidos.</p>
<p>Bruno Lúcio de Carvalho Tolentino nasceu no Rio de Janeiro no dia 12 de novembro de 1940. Bruno, que nasceu em uma família tradicional e rica do Rio de Janeiro, desde sempre conviveu com intelectuais e escritores. Ficou preso na Inglaterra durante anos, alfabetizou presos e ensinou literatura na prisão. Foi um poeta do pensamento de alta cultura, polêmico, criticava severamente a intelectualidade brasileira. Escreveu um livro que demorou quarenta anos para ficar pronto: O Mundo como Ideia, base da antologia do estudo que fizemos neste ano. Bruno morreu no dia 27 de junho de 2007. Um grande e peculiar poeta brasileiro.</p>
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<p>O PÊSSEGO</p>
<p>Estavas debruçada e me cobriste</p>
<p>dos bruscos panos brancos da alegria,</p>
<p>cantava a noite sacudindo a terra,</p>
<p>desatando o dia,</p>
<p>meu corpo todo em riste,</p>
<p>jubilação do instante, te bebia,</p>
<p>e encontados à crista</p>
<p>luminosa da terra,</p>
<p>fomos marulho puro, maresia,</p>
<p>rebentação da luz que não se avista.</p>
<p>Vive-se da saudade da surpresa</p>
<p>que sacudira acesa</p>
<p>a tocha humana pelo coração.</p>
<p>Mas se acaso outra vez me apareceres,</p>
<p>a rosa refolhada dos prazeres</p>
<p>no ventre e aquele cacto</p>
<p>de delícias na boca,</p>
<p>recomece o prodígio, não o ato:</p>
<p>somos bichos do chão</p>
<p>e à solidão da raça</p>
<p>toda carícia é pouca,</p>
<p>toda ternura passa</p>
<p>e, enquanto a chama cauteriza a chaga</p>
<p>um dia o coração, na escuridão</p>
<p>de si mesmo, instantâneo e vão, se apaga.</p>
<p>A VENDA</p>
<p>A voz do amor vem várias vezes,</p>
<p>mas a alma ama uma vez só.</p>
<p>De estrelas há um trilhão e treze</p>
<p>e somem quando um sol sem dó</p>
<p>recobre-as todas de ouro em pó.</p>
<p>No céu em que eu andei às vezes,</p>
<p>as belas balelas dos deuses</p>
<p>- neoclássicas, de um rococó</p>
<p>ou de um barroco de encomenda</p>
<p>ou de ilusão – de vez em quando</p>
<p>iam chegando e iam passando,</p>
<p>até que um dia um ser de lenda</p>
<p>passou por lá e pô-me a venda</p>
<p>da luz total nos olhos cândidos.</p>
<p>Neste ano fizemos um estudo de cinco semanas sobre tradução de poesia por poetas. Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos, Ivan Junqueira, Machado de Assis, Ana Cristina Cesar, Fernando Pessoa e muitos outros poetas que se enveredaram no árduo trabalho da tradução de poemas. As diferenças são enormes, os estilos também, e creio que a tradução literalmente justa não é possível, nem em poemas em espanhol. Mas foi um estudo muito prazeroso e instigante, gerou muitas respostas e incentivou outros mergulhos.</p>
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<p>ONDE JAMAIS VIAJEI</p>
<p>E.E CUMMINGS</p>
<p>tradução de</p>
<p>Paulo Mendes Campos</p>
<p>onde jamais viajei, alegremente além</p>
<p>de qualquer experiência, teus olhos têm o silêncio deles;</p>
<p>no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram</p>
<p>ou que não posso por perto demais tocar…</p>
<p>o teu mais leve olhar facilmente me descerra</p>
<p>embora como os dedos eu me tenha cerrado.</p>
<p>sempre me abres pétala por pétala como a primavera</p>
<p>abre (tocando-a jeitosa, misteriosamente) sua primeira rosa</p>
<p>ou, se te aprouvesse encerrar-me, eu</p>
<p>e minha vida nos fecharíamos em beleza, subitamente,</p>
<p>como quando o coração desta flor imagina</p>
<p>a neve cuidadosamente por todo lado a tombar;</p>
<p>nada do que nos é dado a perceber neste mundo se iguala</p>
<p>ao poder da tua imensa fragilidade: cuja textura</p>
<p>me compele com a cor das suas pátrias,</p>
<p>que me cedem a morte e o sem fim a cada alento</p>
<p>(não sei o que vai em ti que se fecha</p>
<p>e se entreabre; apenas alguma coisa em mim entende</p>
<p>que a voz dos teus olhos é mais funda que as rosas todas)</p>
<p>e ninguém, nem mesmo a chuva, tem as mãos assim tão pequenas</p>
<p>UMA PALAVRA É DEMAIS PROFANADA</p>
<p>SHELLEY</p>
<p>tradução</p>
<p>Thereza Christina Rocque da Motta</p>
<p>Uma palavra é demais profanada</p>
<p>para que eu a profane;</p>
<p>um sentimento é falsamente desdenhado demais</p>
<p>para que tu o desdenhes;</p>
<p>uma esperança se aproxima do desespero demais</p>
<p>para que a prudência a acalme;</p>
<p>e tua piedade é mais cara</p>
<p>do que de qualquer outra pessoa.</p>
<p>Não posso te dar o que chamam de amor;</p>
<p>mas não aceitarás</p>
<p>a adoração que eleva o coração</p>
<p>e os céus não desprezam, –</p>
<p>a ânsia da traça pela luz das estrelas,</p>
<p>da noite pelo amanhecer,</p>
<p>e a devoção pelo que se distancia</p>
<p>da esfera do nosso sofrer?</p>
<p>HELENA</p>
<p>PAUL VALÉRY</p>
<p>tradução</p>
<p>Pedro Lago</p>
<p>Azul! Sou eu… Venho das grutas da morte</p>
<p>Escutar a onda se romper aos degraus sonoros,</p>
<p>E eu revejo as galés dentro das auroras</p>
<p>Ressucitarem da sombra ao fio dos ramos de ouro.</p>
<p>Minhas solitárias mãos chamam os monarcas</p>
<p>Cuja barba de sal divertia meus dedos puros;</p>
<p>Eu chorava. Eles cantavam seus triunfos obscuros</p>
<p>E os golfos enterrados às popas de seus barcos,</p>
<p>Eu escuto as conchas profundas e os clarins</p>
<p>Militares ritmarem o vôo dos remos;</p>
<p>O canto claro dos remadores concatenam o tumulto</p>
<p>E os Deuses, na proa heróica, exaltados</p>
<p>Em seu sorriso antigo e que a espuma insulta,</p>
<p>Levantam sobre mim seus braços indulgentes e esculpidos.</p>
<p>Jorge Mateus de Lima nasceu em Alagoas no dia 23 de abril de 1893. Foi poeta, médico, político, ensaista, tradutor e pintor. Formou-se médico aos vinte anos na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Começou a escrever poesia parnasiana, aprofundou-se na forma do soneto e depois sobre a temática nativa. Jorge de Lima também é conhecido pela sua catolicidade. Escreveu poemas essencialmente religiosos e, junto com Murilo Mendes, restaurou a Poesia em Cristo. Foi recusado seis vezes para a Academia Brasileira de Letras. Jorge de Lima morreu no dia 15 de novembro de 1953.</p>
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<p>DOMÍNIO RÉGIO</p>
<p>Investiguei a Grécia em Platão e em Homero,</p>
<p>Vi Sócrates beber a taça de cicuta…</p>
<p>Depois passei a Roma e analisei de Nero</p>
<p>Na boca de Petrônio essa face corrupta.</p>
<p>Conheci Santo Anselmo e São Tomás, Lutero,</p>
<p>Estudei de Voltaire a inteligência arguta</p>
<p>E finalmente andei como se fosse Asvero</p>
<p>Pela Ciência e a História em requintada luta…</p>
<p>Mas a Arte é que me impõe o seu domínio régio</p>
<p>E é por isso que adoro a mão de Tintoretto</p>
<p>E a sublime palheta e o pincel de Correggio…</p>
<p>E é por isso que eu amo o verso alexandrino</p>
<p>E burilo, Mulher, este pobre soneto</p>
<p>Inspirado a pensar em teu perfil divino.</p>
<p>O CANTO DA DESPARIÇÃO</p>
<p>Aqui é o fim do mundo, aqui é o fim do mundo</p>
<p>em que até aves vêm cantar para encerrá-lo.</p>
<p>Em cada poço, dorme um cadáver, no fundo,</p>
<p>e nos vastos areais – ossadas de cavalo.</p>
<p>Entre as aves do céu: igual carnificina:</p>
<p>se dormires cansado, à face do deserto,</p>
<p>quando acordares hás de te assustar. Por certo,</p>
<p>corvos te espreitarão sobre cada colina.</p>
<p>E, se entoas teu canto a essas aves (teu canto</p>
<p>que é debaixo dos céus, a mais triste canção),</p>
<p>vem das aves a voz repetindo teu pranto.</p>
<p>E, entre teu angustiado e surpreendido espanto,</p>
<p>tangê-las-ás de ti, de ti mesmo, em que estão</p>
<p>êsses corvos fatais. E êsses corvos não vão.</p>
<p>Afonso Henriques de Guimaraes Neto nasceu em Belo Horizonte em 1944. Aos 10 anos, veio para o Rio de Janeiro e depois para Brasília, onde concluiu os estudos fundametais e, posteriormente, a faculdade de Direito. Afonso é filho do poeta Alphonsus de Guimaraes Filho e neto do grande poeta simbolista Alphonsus de Guimaraes. Afonso participou da Antologia 26 poetas hoje de Heloisa Buarque de Holanda. Desde sua estréia em 1972, publicou cerca de 10 excelentes livros de poesia.</p>
<p>Um dos grandes poetas contemporâneos.</p>
<p>poema No silêncio no blog http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>MOMENTO</p>
<p>Na sala</p>
<p>mãos muito brancas</p>
<p>passam e repassam páginas</p>
<p>do livro inconsolável.</p>
<p>Na cabeça</p>
<p>o vento enorme</p>
<p>de todos os poemas</p>
<p>cristalizando-se em nada.</p>
<p>No tempo</p>
<p>a percepção da eterna</p>
<p>derrota</p>
<p>sob ressurreições infinitas.</p>
<p>De repente a borboleta seca</p>
<p>voando</p>
<p>voando na sala.</p>
<p>Oh dai-nos ao menos</p>
<p>esse momento úmido</p>
<p>de nossas mãos no vazio.</p>
<p>NÃO SEJA TÃO LITERÁRIO</p>
<p>não seja tão literário</p>
<p>mas se homero dante a bíblia</p>
<p>são pura literatura</p>
<p>por que não escrever abismos com violinos?</p>
<p>(sei que minha geração</p>
<p>ainda uma vez ironizou</p>
<p>os programas do poder</p>
<p>os discursos literários</p>
<p>romantismos concretismos</p>
<p>panfletarismos cabotinismos</p>
<p>evoé nuvem cigana</p>
<p>saudades cacaso &amp; ana</p>
<p>mais tantos que sonharam</p>
<p>o fim das ditaduras</p>
<p>naqueles roarin’70)</p>
<p>e o consolo paralelo</p>
<p>das construções diamantinas</p>
<p>o la chair est triste, hélas!</p>
<p>et j’ai lu touts les livres</p>
<p>(não resolve</p>
<p>mas me ilumino de imenso)</p>
<p>última oportunidade a um cinquentão</p>
<p>sem poética consistente</p>
<p>mas com tanta vodka pela frente</p>
<p>(se pudéssemos estrangular deus</p>
<p>a branca medicina</p>
<p>tudo tudo</p>
<p>ironia na neblina)</p>
<p>a prosa invadiu de vez a poesia</p>
<p>com música ou sem melodia</p>
<p>o verso não mais recamará ossos</p>
<p>(parcas as parcas</p>
<p>aspérrimos verbos e este ônibus</p>
<p>seco)</p>
<p>corais de luzes dolorosas</p>
<p>navios do princípio do tempo</p>
<p>encalhados nos esqueletos sem fim</p>
<p>(ninguém virá na estrada para</p>
<p>e se vier não há mais jeito</p>
<p>refulgem ruíssimas retinas</p>
<p>o anjo se drogou todo de estrelas)</p>
<p>no fundo fosso a fera engole</p>
<p>a ferida tremenda</p>
<p>e no entanto a vida</p>
<p>entanto o sonho</p>
<p>(virá cantando aleluia pelo atalho</p>
<p>todos desconhecem o mapa mágico</p>
<p>rastro sagrado pedra angular</p>
<p>tudo se esqueceu)</p>
<p>última oportuidade hare</p>
<p>hare</p>
<p>Fizemos um estudo sobre a poesia barroca brasileira e foi muito interessante. Foi o primeiro momento da poesia nacional. Como lembra bem Manuel Bandeira em sua Apresentação da poesia brasileira, padre José Anchieta fizera as &#8220;primeiras letras&#8221;, mas em nosso estudo, atribuimos ao poeta Bento Teixeira, nascido no Porto em 1561 e vindo ao Brasil com cinco ou seis anos, o título de primeiro poeta &#8220;brasileiro&#8221;. Estudamos também Manuel Botelho de Oliveira e Sebastião da Rocha Pita, porém, foi em Gregório de Matos que nossa poesia teve seu primeiro grito, nascido em Salvador já no século XVII.</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>DESCRIÇÃO DO REFICE DE PARANAMBUCO</p>
<p>Bento Teixeira</p>
<p>Para a parte do Sul, onde a pequena</p>
<p>Ursa se vê de guardas rodeada,</p>
<p>Onde o Céu luminoso mais serena,</p>
<p>Tem sua influição, e temperada.</p>
<p>Junto da nova Lusitânia ordena</p>
<p>A natureza, mãe bem atentada,</p>
<p>Um porto tão quieto, e tão seguro,</p>
<p>Que para as curvas Naus serve de muro.</p>
<p>É este porto tal, por esta posta,</p>
<p>Uma cinta de pedra, inculta, e viva,</p>
<p>Ao longo da soberba e larga costa,</p>
<p>Onde quebra Netuno a fúria esquiva.</p>
<p>Entre a praia, e pedra descomposta,</p>
<p>O estanhado elemento se deriva</p>
<p>Com tanta mansidão, que uma fateixa</p>
<p>Basta ter à fatal Argos aneixa.</p>
<p>QUEIXA-SE O POETA EM QUE O MUNDO VAI ERRADO, E QUERENDO EMENDÁ-LO TEM POR EMPRESA DIFICULTOSA</p>
<p>Gregório de Matos</p>
<p>Carregado de mim ando no mundo,</p>
<p>E o grande peso embarga-me as passadas,</p>
<p>Que como ando por vias desusadas,</p>
<p>Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.</p>
<p>O remédio será seguir o imundo</p>
<p>Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,</p>
<p>Que as bestas andam juntas mais ornadas</p>
<p>Do que anda só o engenho mais profundo.</p>
<p>Nâo é fácil viver entre os insanos,</p>
<p>Erra, quem presumir, que sabe tudo,</p>
<p>Se o atalho não soube dos seus danos.</p>
<p>O prudente varão há de ser mudo,</p>
<p>Que é melhor neste mundo o mar de enganos</p>
<p>Ser louco cos demais, que ser sisudo.</p>
<p>Guilherme Zarvos nasceu em São Paulo no dia 23 de março de 1957, mas vive no Rio de Janeiro desde os dois anos de idade. Formou-se em Economia, fez mestrado em Ciências Sociais e Doutorado em Letras pela Puc – Rio. Trabalhou com Darcy Ribeiro, que o queria como político, mas Guilherme optou alguma coisa com poesia. Foi um dos fundadores do CEP 20000. É uma figura controversa, provocadora, generosa e muito peculiar no cenário poético do Rio de Janeiro e continua atuando no que faz melhor.</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>MONTE PASCOAL</p>
<p>Daqui de cima do Monte Pascoal viu. Neste</p>
<p>bosque encantado, nesta floresta que é parque</p>
<p>quando tudo era parque – correu morro: trinta</p>
<p>quilômetros. lá de cima havia enxergado. o</p>
<p>coração desejava explodir, o pé precisava voar</p>
<p>- ar pulmão ar – queria chegar na praia, em</p>
<p>Corumbau e conferir: nunca vira Deus tão lindo.</p>
<p>correu por meio de ipê caixeta pinha cupuba</p>
<p>gameleira pau-brasil sapucaia jacarandá oiti</p>
<p>pequi e deixou marcas das solas ligeiras no</p>
<p>manto tapete amarelo na trilha que tantas vezes</p>
<p>percorreu e nem sentiu o perfume doce da</p>
<p>floresta que ontem chovera. era manhã e</p>
<p>orvalhava e ele não viu os pingos ainda</p>
<p>agarrados nas folhas em todos os tons semitons</p>
<p>verdes que dependem das mudanças das horas</p>
<p>do dia e o do tempo e da Terra e das marcas dos</p>
<p>raios de sol. E uma codorna passou mansinha</p>
<p>e tentou lhe avisar que não se apressasse e outros</p>
<p>bichos tentaram lhe pedir que não fosse, gritando</p>
<p>estridentes, uivando, que parasse – ar ar pulmão</p>
<p>eu lhe estouro mas quero chegar – e correu como</p>
<p>nunca, em nome de todos os seus Deuses, de</p>
<p>todas as suas mulheres, não muitas, na sua</p>
<p>juventude. O corpo rijo acostumado à caça à</p>
<p>derrubada ao sexo às guerras aos jogos</p>
<p>correspondia. porém a Impaciência já havendo</p>
<p>lhe tomado exigia mais: passou batido por</p>
<p>borboletas brancas amarelas azuis que</p>
<p>aspiravam por enfeitar acariciar seu braço</p>
<p>guerreiro como só Bela sabia, mas não era a hora.</p>
<p>Apenas a praia lhe interessava e num descuido</p>
<p>uma raiz traiçoeira passou-lhe uma banda e o</p>
<p>guerreiro caiu de boca no chão, no tapete de</p>
<p>folhas de sêmen de óvulo de adubar terra, e um</p>
<p>sapo o encarou: dez centímetros era a distância.</p>
<p>não cuspiu, não era disso. tinha a cor das folhas.</p>
<p>caleidoscópio se protegia dos inimigos. o sapo</p>
<p>não falou absolutamente nada já que não era</p>
<p>um sapo falante mas o encarou preenchido – na</p>
<p>completa imobilidade de sapo que encara – e</p>
<p>Zinho, por alguns segundos, não pensou na areia</p>
<p>que precisava alcançar e lembrou de seu avô,</p>
<p>do olhar grave de tuxaua em momentos de</p>
<p>decisão. de tomar rumo, de falar o que o Tempo</p>
<p>lhe ensinou. a cara do sapo esculpida por pai e</p>
<p>mãe e pai e mãe e pai e mãe do sapo, dez</p>
<p>centímetros de seus olhos, o hipnotizava e ele</p>
<p>deitado de bruços, corpo todo no chão tapete de</p>
<p>folhas, por um minuto permitiu que maus</p>
<p>pressentimentos dominassem sua cabeça. o</p>
<p>corpo do forte fraquejou. foram apenas estes</p>
<p>segundos e o corpo do forte já corria e Fantasia</p>
<p>e Impaciência eram novamente suas donas e</p>
<p>Zinho já avistava a praia e não era só ele ali:</p>
<p>toda a aledeia, do mais velho à mais pequenininha</p>
<p>se grudava perto da água dentro da água para</p>
<p>ver:</p>
<p>A Fundação do Brasil.</p>
<p><em> </em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em>Assim terminamos o ano de 2009, com o o poeta considerado louco por muitos e redescoberto anos depois. Neste ano mergulhamos em grandes poetas da nossa língua e em 2010 não será diferente. Para mim, a poesia é algo a ser compartilhado, através da leitura de poemas, dizendo-os em público, para os amores, para outros poetas, enfim, não importa. Conhecer os poetas de nossa língua, mergulhar em suas obras. Para o leitor, um toque em si, para o poeta, um diálogo com a tradição. Boas festas a todos!</em></p>
<p><em>poema Intelectuais no blog <a href="http://pedrolago.blogspot.com/">http://pedrolago.blogspot.com </a></em></p>
<p><em>FRAGMENTOS SOBRE HELEURA</em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em>Desde a noite funérea, de tristeza</em></p>
<p><em>Heleura está doente. Ara, morrendo,</em></p>
<p><em>Nunca perdera as cores do semblante,</em></p>
<p><em>Um formoso defunto: “vivo! vivo!”</em></p>
<p><em>Gritava a filha p’ra que o não levassem:</em></p>
<p><em>“Vivo! vivo!” Prenúncios maus, diziam.</em></p>
<p><em>Mas para Ut era crença que, dos túmulos,</em></p>
<p><em>Corvos de Odin mandando pelo mundo,</em></p>
<p><em>Os mortos melhor cumprem seu desígnios.</em></p>
<p><em>Ora, a chorar no tum’lo (Ia, em violetas</em></p>
<p><em>Mudada pelo amor), perpétuas meigas</em></p>
<p><em>Tornara-se Ut-allah, que o amortalharam.</em></p>
<p><em>Fundo silêncio estava dia e noite</em></p>
<p><em>Na sombria mansão: de longe em longe,</em></p>
<p><em>Como rasgam-se as brisas açoitadas</em></p>
<p><em>Por vergônteas, manhãs d’esto, etérea aura</em></p>
<p><em>Parecia chamando: Heleura!’ … Heleura!…</em></p>
<p><em>Que ela escutava; e nuns baixinhos ecos</em></p>
<p><em>A febre arremedando: He – lê – u – rous …</em></p>
<p><em>Heliéiou-urion … Súbito saltava,</em></p>
<p><em>Pesar d’Ut e as Armênias vigilantes,</em></p>
<p><em>E as seráficas fraldas apanhando,</em></p>
<p><em>Nuzinhos pés, a rir toda, irradiava</em></p>
<p><em>No aposento a estelífera carreira</em></p>
<p><em>Atalanta de luz. E viam nela</em></p>
<p><em>A luzente visão dos cintilados</em></p>
<p><em>Limões de luz, de luz níveos triângulos</em></p>
<p><em>Nessa cal mortal brancura, o rosto,</em></p>
<p><em>O riso, a boca, os olhos brancos, brancos:</em></p>
<p><em>E o maternal diamante em pó desfeito</em></p>
<p><em>Que vivifica ao cândido diamante,</em></p>
<p><em>Torna-o ao leito Ut-allah: “Heleura! Heleura!”</em></p>
<br />Publicado emTODOS OS POETAS AQUI  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/cartilhadepoesia.wordpress.com/29/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/cartilhadepoesia.wordpress.com/29/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/cartilhadepoesia.wordpress.com/29/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/cartilhadepoesia.wordpress.com/29/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/cartilhadepoesia.wordpress.com/29/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/cartilhadepoesia.wordpress.com/29/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/cartilhadepoesia.wordpress.com/29/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/cartilhadepoesia.wordpress.com/29/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/cartilhadepoesia.wordpress.com/29/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/cartilhadepoesia.wordpress.com/29/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/cartilhadepoesia.wordpress.com/29/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/cartilhadepoesia.wordpress.com/29/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/cartilhadepoesia.wordpress.com/29/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/cartilhadepoesia.wordpress.com/29/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=29&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Sousândrade</title>
		<link>http://cartilhadepoesia.wordpress.com/2009/12/11/sousandrade/</link>
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		<pubDate>Fri, 11 Dec 2009 20:32:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cartilhadepoesia</dc:creator>
				<category><![CDATA[TODOS OS POETAS AQUI]]></category>

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		<description><![CDATA[Joaquim de Sousa Andrade nasceu na Vila dos Guimarães no Maranhão (consta numa biografia que nasceu em Alcântara, também no Maranhão) no dia 9 de julho de 1832. Formou-se em Letras pela Sorbonne, em Paris, onde também estudou Engenharia. Permaneceu na Europa por muitos anos, viajou muito e conheceu também as repúblicas latino-americanas. Neste mês entraremos [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=27&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Joaquim de Sousa Andrade nasceu na Vila dos Guimarães no Maranhão (consta numa biografia que nasceu em Alcântara, também no Maranhão) no dia 9 de julho de 1832. Formou-se em Letras pela Sorbonne, em Paris, onde também estudou Engenharia. Permaneceu na Europa por muitos anos, viajou muito e conheceu também as repúblicas latino-americanas. Neste mês entraremos na poesia deste poeta que só se tornou conhecido aqui no Brasil por volta de 1970. Vale o mergulho.</p>
<p><span style="font-size:medium;">HARPA XXXII</span><strong></p>
<p></strong>Dos rubros flancos do redondo oceano<br />
Com suas asas de luz prendendo a terra<br />
O sol eu vi nascer, jovem formoso<br />
Desordenando pelos ombros de ouro<br />
A perfumada luminosa coma,<br />
Nas faces de um calor que amor acende<br />
Sorriso de coral deixava errante.<br />
Em torno de mim não tragas os teus raios,<br />
Suspende, sol de fogo! tu, que outrora<br />
Em cândidas canções eu te saudava<br />
Nesta hora d&#8217;esperança, ergue-te e passa<br />
Sem ouvir minha lira. Quando infante<br />
Nos pés do laranjal adormecido,<br />
Orvalhado das flores que choviam<br />
Cheirosas dentre o ramo e a bela fruta,<br />
Na terra de meus pais eu despertava,<br />
Minhas irmãs sorrindo, e o canto e aromas,<br />
E o sussurrar da rúbida mangueira<br />
Eram teus raios que primeiro vinham<br />
Roçar-me as cordas do alaúde brando<br />
Nos meus joelhos tímidos vagindo.</p>
<p>oaquim de Sousa Andrade, ou Sousâdrade como era conhecido, era republicano convicto e militante. Em 1870 se muda para os Estados Unidos e vai morar em Nova Iorque. Lá funda um periódico republicano chamado O Novo Mundo, publicado em português. Veremos que o poeta se estende pelos poemas de forma &#8220;crescente&#8221; diria. Num estilo bem diferente dos outros poetas românticos. Alías, Sousândrade é um poeta da fase romântica da poesia brasileira e será um marco na divisão deste período quando deságua no realismo.</p>
<p><span style="font-size:medium;">POEMA</span></p>
<p><span style="font-size:medium;">O sol ao pôr-do-sol (triste soslaio!)&#8230;o arroio<br />
Em pedras estendido, em seus soluços<br />
Desmaia o céu d&#8217;estrelas arenoso<br />
E o lago anila seus lençóis d&#8217;espelho&#8230;<br />
Era a Ilha do Sol, sempre florida<br />
Ferrete-azul, o céu, brando o ar pureza<br />
E as vias-lácteas sendas odorantes<br />
Alvas, tão alvas!&#8230; Sonoros mares, a onda<br />
d&#8217;esmeralda<br />
Pelo areal rolando luminosa&#8230;<br />
As velas todas-chamas aclaram todo o ar.<br />
</span></p>
<p><span style="font-family:'times new roman', 'new york', times, serif;"><span style="line-height:normal;font-size:small;"><span style="font-family:Georgia, 'Times New Roman', 'Bitstream Charter', Times, serif;"><span style="line-height:19px;font-size:medium;">O Romantismo no Brasil teve como marco a publicação do livro &#8220;Suspiros póeticos e saudades&#8221; de Gonçalves Magalhães em 1836, entretanto, o Brasil já buscava uma identidade própria que nos diferenciasse da antiga metrópole, isto é, de Portugal. Conquistamos nossa Independência (não discuto o &#8220;conquistar&#8221;) em 1822, porém, a primeira manifestação cultural veio 14 anos depois, através do &#8220;Ensaio sobre a história da literatura no Brasil&#8221; publicado na revista Niterói do mesmo Gonçalves Magalhães. Durou apenas dois números.</span></span></span></span></p>
<p><span style="font-family:'times new roman', 'new york', times, serif;"><span style="line-height:normal;font-size:small;"><span style="font-family:Georgia, 'Times New Roman', 'Bitstream Charter', Times, serif;"><span style="line-height:19px;font-size:medium;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">DÁ MEIA-NOITE</span></span></span></span></span></p>
<p><span style="font-family:'times new roman', 'new york', times, serif;"><span style="line-height:normal;font-size:small;"><span style="font-family:Georgia, 'Times New Roman', 'Bitstream Charter', Times, serif;"><span style="line-height:19px;font-size:medium;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">Dá meia-noite em céu azul-ferrete<br />
Formosa espádua a lua<br />
Alveja nua,<br />
E voa sobre os templos da cidade.</p>
<p>Nos brancos muros se projetam sombras;<br />
Passeia a sentinela<br />
À noite bela<br />
Opulenta da luz da divindade.</p>
<p>O silêncio respira; almos frescores<br />
Meus cabelos afagam;<br />
Gênis vagam,<br />
De alguma fada no ar andando à caça.</p>
<p>Adormeceu a virgem; dos espíritos<br />
Jaz nos mundos risonhos -<br />
Fora eu os sonhos<br />
Da bela virgem&#8230; uma nuvem passa.</span></span></span></span></span></p>
<p><span style="font-family:'times new roman', 'new york', times, serif;"><span style="line-height:normal;font-size:small;"><span style="font-family:Georgia, 'Times New Roman', 'Bitstream Charter', Times, serif;"><span style="line-height:19px;font-size:medium;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">Antes de situar o Sousândrade no Romantismo Brasileiro, vale lembrar suas principais características lá fora. Surgiu na Europa no final do século XVIII. A grosso modo, tinha como objetivo propor uma visão de mundo contra o racionalismo e grifar o espírito nacionalista nos países. O termo &#8220;romântico&#8221;, que norteou o período, veio da necessidade do individuo de ter um sentido objetivo, no idealismo ou poéticamente. Não tardou a ganhar força na figura do próprio indivíduo, através do drama humano e um gosto pelo escapismo. A Revolução Francesa foi a menina dos olhos para os românticos. Liberté Egalité Fraternité.</span></span></span></span></span></p>
<p><span style="font-family:'times new roman', 'new york', times, serif;"><span style="line-height:normal;font-size:small;"><span style="font-family:Georgia, 'Times New Roman', 'Bitstream Charter', Times, serif;"><span style="line-height:19px;font-size:medium;"><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;"><span style="font-size:medium;">REPÚBLICA É MENINA BONITA DIAMANTE INCORRUPTÍVEL</span></span></span></span></span></span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">Entre os astros, sagrados montes</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">Feliz asilo da paixão:</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">Puros jardins, sonoras fontes,</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">E virginal um coração</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">Vibrando aos claros horizontes</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">E encantado à etérea soidão.</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">Quis ser em chegar, primeirinha:</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">Oh! A gentileza do lar!</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">A tudo dispor; pra onde vinha</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">Sem dizer e onde a s’encontrar</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">Fé, por sugestão que adivinha,</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">Alma que espera.</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">“Hei de, he de a(&#8230;)</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">“Doces miragens, adeus! Vejo</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">Na profundez do coração,</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">O interno oceano do desejo,</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">D’Heleura a ideal solidão:</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">Vos deixo a Deus. Deixai-me o beijo</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">Preço da livre sem senão:</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">“Doutra dona&#8230; oh, a inteligência</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">Dona&#8230; mas, cetim branco e flor!</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">‘Menina e moça’, áurea existência</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">Musa cívica a Musa-Amor!</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">Já fotografara-te o pensamento</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">Que um pensamento houve a transpor”.</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">Das cinzas fênix renascida,</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">Arte divina a retratar</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">Anos treze &#8211; quão parecida!</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">Ela era; hei de noutra a encontrar</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">Helê que dos céus é descida,</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">Céus! A borboleta solar!</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">“A metamorfose sagrada</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">De jovem pátria e o cidadão</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">Oiro de lei, Virgínia honrada</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">Por todo o nobre coração:</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">Ditando diga: eu sou a amada,</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">A amante Luz, o Amor</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">e o Pão.”</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;">O Romantismo é dividido em três gerações, cada qual com anseios e proposições diferentes. Pode-se dizer que a chamada Primeira Geração tinha como base a força de um movimento novo, ou seja, o olhar sobre o sonho com a vontade pura, o lirismo utópico, o exagero, a busca pelo exótico e, sobretudo, a busca pela indentidade nacional. Depois, na então Segunda Geração, o pessimismo, o gosto pela morte, uma inclinação que apontaria ao simbolismo e o sentimento religioso. Para então desaguar na Terceira Geração,  que seria já a intercessão para a corrente que viria depois, o Realismo. Pode-se dizer que no fim havia um Romantismo decadente.</span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;font-size:medium;"><span style="font-size:medium;">HARPAS SELVAGENS (trecho)</span></span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-size:small;">Aqui Byron cantou. Mesmo esta<br />
pedra,<br />
Que ora sente uma gota fria e<br />
rápida<br />
Do meu pranto que apaga a<br />
viração<br />
Talvez estremecera de escutá-lo<br />
Qual do raio ferida. Oh me parece<br />
Que aqui te vejo, ó Byron, a meu<br />
lado<br />
À minha esquerda unido me<br />
incitando<br />
Ao desespero da descrença imiga<br />
Com tua voz infernal &#8211; verdade<br />
horrível!<br />
- E à minha destra o tenha, anjo<br />
da guarda<br />
Preso ao meu braço contra a<br />
força tua<br />
Me arrancando de ti: co’ um<br />
dedo santo<br />
Aponta-me pra o sol que sai das<br />
serras<br />
Piedoso Lamartine! E o penhasco<br />
Bandeia e geme no pesar da luta<br />
E dum lado o demônio e o anjo<br />
doutro<br />
E eu no meio, minhalma<br />
despedaçam<br />
- Voa comigo, ó anjo, nas tuas asas<br />
Cândidas salva-me: o demônio<br />
embora<br />
Me persiga mostrando-me os<br />
meus dias<br />
Como são desgraçados&#8230; porém,<br />
antes<br />
Falaz esp’rança que a descrença<br />
eterna</span></span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-size:small;">Assim como Castro Alves e Tobias Barreto, Sousândrade pertence à terceira geração do Romantismo Brasileiro. Alguns teóricos encontram aí uma quarta geração. Enfim, esta geração é voltada ao progresso, ao nacionalismo e, sobretudo, ao abolicionismo. Sousândrade era abolicionista e encontraremos tais gritos em seu poema mais conhecido, o Guesa. A liberdade das formas européias de literatura, anseio maior dos românticos, também é firme na poesia de Sousândrade. poema Paladino do Sublime no blog <a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com/" target="_blank">http://pedrolago.blogspot.com</a> </span></span></p>
<p><span style="font-family:arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-size:small;">ELOGIO AO ALEXANDRINO <strong> </strong><strong></p>
<p></strong>Asclepiádeo verso: à evolução do poema<br />
Das sestas, cadenciar d&#8217;altas antigüidades,<br />
já porque bipartido em fúlgidas metades<br />
Reata em conjunção opostos de um dilema,<br />
E já por ser de gala a forma do matiz<br />
Heleno na escultura e lácio na linguagem<br />
Reacesda, de Alexandre, em fogos de Paris:<br />
Paris o tom da moda, o bom gosto, a roupagem;<br />
Que desperta aos tocsins, galo às estrelas d&#8217;alva,<br />
Que faz revoluções de Filadélfia às salvas<br />
E o verso-luz, <em>fardeur</em> das formas, de grandeza,<br />
o verso-formosura, adornos, lauta mesa<br />
<em>Ond&#8217; tokay, champanh&#8217;</em>, flor, copos cristal-diamantes<br />
Sobrelevam <em>roast-beef</em> e os queijos e o <em>pudding</em>.<br />
Porém, <em>mens divinior</em>, poesia é o férreo guante:<br />
Ao das delícias tempo, o fácil verso ovante,<br />
o verso cor de rosa, o de oiro, o de carmim,<br />
Dos raios que o astro veste em dia azul-celeste;<br />
E para os que têm fome e sede de justiça,<br />
O verso condor, chama, alárum, de carniça,<br />
D&#8217;harpas d&#8217;Ésquilus, de Hugo, a dor, a tempestade:<br />
Que, embora contra um deus &#8220;Figaro&#8221; impiedade<br />
Vesgo olhinho a piscar diga <em>tambour-major</em>,<br />
Restruge alto acordando os cândidos espíritos<br />
Às glórias do oceano e percutindo os gritos<br />
Réus. Ao belo trovoar do magno Trovador<br />
Ouve-se afinação no mundo brasileiro,<br />
Acorde tão formoso, hodierno, hospitaleiro,<br />
Flamívomo social, encantador. Fulgura<br />
Luz de dia primeiro, a nota formosura,<br />
Que ao jeová-grande-abrir faz novo Éden luzir.</span></span></p>
<p>Sousândrade foi agraciado pela fortuna rural do pai, que o permitiu, ainda jovem, percorrer vários países da Europa. Sabe-se que conhecia muito bem o idioma grego. Foi professor no fim da vida no Liceu Maranhense. Em 1857, publica seu primeiro livro, Harpas Selvagens. Treze anos depois viaja pela América do Sul ao lado da filha, e queria que esta estudasse nos Estados Unidos, pois como já dissera, Sousândrade era republicano convicto. Em 1871, vai enfim para Nova Iorque, onde contribui para um jornal. Ali começa a ruir sua herança.</p>
<p>Fujamos, vida e luz, riso da minha terra,</p>
<p>Sol do levante meu, lírio da negra serra,</p>
<p>Doce imagem de azuis brandos formosos olhos</p>
<p>Dos róseos mares vinda à plaga dos abrolhos</p>
<p>Muita esperança trazer, muita consolação!</p>
<p>Virgem, do undoso Sena à margem vicejante</p>
<p>Crescendo qual violeta, amando qual errante</p>
<p>Formosa borboleta às flores da estação!</p>
<p>Partamos para Auteuil, é lá que vivo agora;</p>
<p>Vê como o dia é belo! ali há sempre aurora</p>
<p>Nas selvas, denso umbror dos bosques de Bolonha.</p>
<p>- Ouve estrondar Paris! Paris delira e sonha</p>
<p>O que realiza lá voluptuar de amor -</p>
<p>Lá onde dorme a noite, acorda a natureza,</p>
<p>Reluz a flor na calma e os hinos da devesa</p>
<p>Ecoam dentro d&#8217;alma ais de pungido ardor.</p>
<p>Aos jogos nunca foste, às águas de Versailles?</p>
<p>Vamos lá hoje!&#8230; ali, palácios e convalles</p>
<p>Do rei Luís-catorze alembram grande corte:</p>
<p>Maria Antonieta ali previa a sorte</p>
<p>Dos seus cabelos d&#8217;ouro em ondas na bérgère. -</p>
<p>Tu contarás, voltando &#8230;inventa muita coisa,</p>
<p>Prazer de velhos pais, &#8211; o que viste a bela esposa</p>
<p>Das feras! com chacais dançando Lá Barrère!</p>
<p>Oh! vamos, meu amor! costuras abandona;</p>
<p>Deixa por hoje o hotel, que eu &#8230; deixo a Sorbona -</p>
<p>E fugitivos, do ar contentes passarinhos,</p>
<p>Perdidos pela sombra e a moita dos caminhos</p>
<p>Até a verde em flor vila Montmorency!</p>
<p>De lá, és minha prima andando séria e grave;</p>
<p>Entramos no portão: eu dou-te a minha chave</p>
<p>E sobes, meu condão, ao quarto alvo e joli!</p>
<p>Hesitas? ou, senão, sigamos outra via;</p>
<p>Do trem que vai partir a válvula assobia,</p>
<p>O povo se acumula, aqui ninguém a ver-nos:</p>
<p>Fujamos para o céu! que fosse p&#8217;ros infernos</p>
<p>Contigo&#8230; &#8211; &#8220;oui&#8221; &#8211; . Não deixes estar teu colo nu!</p>
<p>Há gente no vagon&#8230; sou fúria de ciúme -</p>
<p>Desdobra o véu no rosto&#8230; olhos com tanto lume&#8230; -</p>
<p>Corria o mês de agosto; entramos em Saint-Cloud.</p>
<p>Importante dizer: Sousândrade conheceu muitos países na adolescência e morou muito tempo nos Estados Unidos, fazendo com que suas influências fossem das mais variadas e ao mesmo tempo difíceis de apontar precisamente. Poe? Baudelaire? Laforgue? Talvez sim. Sousândrade foi testemunha das mudanças após a Guerra da Secessão, tendo presenciado também a expansão industrial americana e os escândalos que marcaram a presidência do general Grant. Seu poema Wall Street é fruto destas influências.</p>
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<p>HARPA III &#8211; AO SOL</p>
<p>Tímida e bela e taciturna virgem</p>
<p>Pelos campos, na zona solitária,</p>
<p>Do mar no isolamento, lá do azul</p>
<p>Banhando a terra de uma luta argêntea,</p>
<p>À matinada sobressalta e foge:</p>
<p>Chama aos seios o manto, os pés retira</p>
<p>Da terra e voa, descobrindo os bosques</p>
<p>Que estremecem, do monte a sombra arranca</p>
<p>Toma à pressa os vestidos que vão soltos</p>
<p>E as grinaldas d&#8217;estrelas, fugitiva.</p>
<p>Roda o plaustro de um príncipe, os cavalos</p>
<p>Vêm nevados nos vales do oriente;</p>
<p>Cobre os ares a poeira do caminho</p>
<p>Alva como o pó d&#8217;água; se arrepiam</p>
<p>No ninho as aves desatando o bico;</p>
<p>Brisa fresca e geral passa acordando</p>
<p>Os vegetais, o oceano; belas nuvens</p>
<p>De marinho coral, nuvens de pérola</p>
<p>Como a face de um lago os céus abriram;</p>
<p>Estende o colo o pássaro cantando</p>
<p>Por detrás da palmeira, qual pergunta</p>
<p>Aos pastores, ao gado apascentando</p>
<p>&#8220;Quem fez este rumor?&#8221; desliza o orvalho</p>
<p>Na flor, derrama o vento,o vento leva</p>
<p>Ondulações d&#8217;incenso; a natureza</p>
<p>Nas barras da manhã respira amores:</p>
<p>A noiva docemente bocejando</p>
<p>N&#8217;alva da noite da esperança longa</p>
<p>Embalada nos berços conjugais.</p>
<p>É difícil mencionar fatos sobre a vida de Sousândrade em virtude da carência de informações, de modo que confio nas biografias que consulto, sendo assim: Sousândrade antes de ir para os Estados Unidos para permanecer em Nova Iorque, ficou um tempo em Londres. Teria sido convidado a se retirar de lá por ter atacado, num artigo de imprensa, a rainha Vitória. Voltou ao Maranhão, casou-se, teve uma filha, Maria Bárbara, dedicou-se por um tempo à lavoura e separou-se da mulher por incompatibilidade de gênios. Este é o nosso incompatível poeta.</p>
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<p>HARPA XXXV VISÕES</p>
<p>Sobre o mar, procurando o céu, se eleva</p>
<p>Em colunas de sombra e de ar e d&#8217;água</p>
<p>Um templo: vejo um ser baixar sobre ele,</p>
<p>Que as colunas brandeiam, o mar se arqueja,</p>
<p>Humildemente geme, e o mar indômito!</p>
<p>Mais puro do que a noite, eu mal o enxergo,</p>
<p>Como o sol&#8230; não, não é, que o sol num disco</p>
<p>Encerra as formas de ouro: não tem forma,</p>
<p>Parece a eternidade e o infinito!</p>
<p>Disseras qual uma ave transparente</p>
<p>Que com as asas envolve a imensidade!</p>
<p>Uma luz, que concentra-se a extinguir-se,</p>
<p>Dando mais claridade ao pensamento,</p>
<p>Quanto a tire aos sentidos; que tão pura</p>
<p>Estende-se dali por toda a parte,</p>
<p>A terra, os astros e os celestes ares</p>
<p>Sem refração seus raios trespassando,</p>
<p>Embebendo de vida e de piedade;</p>
<p>Que tudo anima e faz amor tão santo,</p>
<p>Que de um só pulso inteiro este universo</p>
<p>Uma respiração palpita eterna</p>
<p>A ela só! Nela só tudo desperta:</p>
<p>As aves vivem mais a ela cantando;</p>
<p>As plantas quando o zéfiro as agita;</p>
<p>O mar quando mugindo balbucia,</p>
<p>Infante o nome de seu pai, mais vive;</p>
<p>O bosque amigos não teria e os ventos</p>
<p>Se fossem mudos, não dissessem &#8211; Deus!</p>
<p>Eu também vivo mais, morrendo nele;</p>
<p>Oh, tudo vive mais nele vivendo!</p>
<p>O Guesa Errante é considerado o grande poema de Sousândrade. Poema dividido em treze cantos, dos quais quatro ficaram inacabados. O poema tem como base a lenda indígena do Guesa Errante, o personagem principal é uma criança que roubada aos pais pelo deus do Sol é educado no templo da divindade até os dez anos e sacrificado aos quinze, após longa peregrinação pela &#8220;estrada do Suna&#8221;. Aqui se vê a tentativa de buscar as raízes da cultura como era notório no Romantismo. no caso, na figura deste pequeno índio.</p>
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<p>O GUESA ERRANTE CANTO I</p>
<p>Eia, imaginação divina!</p>
<p>Os Andes</p>
<p>Vulcânicos elevam cumes calvos,</p>
<p>Circundados de gelos, mudos, alvos,</p>
<p>Nuvens flutuando &#8211; que espetac&#8217;los grandes!</p>
<p>Lá onde o ponto do condor negreja,</p>
<p>Cintilando no espaço como brilhos</p>
<p>D&#8217;olhos, e cai a prumo sobre os filhos</p>
<p>Do lhama descuidado; onde deserto,</p>
<p>O azul sertão, formoso e deslumbrante,</p>
<p>Arde do sol o incêndio, delirante</p>
<p>Coração vivo em céu profundo aberto!</p>
<p>&#8220;Nos áureos tempos, nos jardins da América</p>
<p>Infante adoração dobrando a crença</p>
<p>Ante o belo sinal, nuvem ibérica</p>
<p>Em sua noite a envolveu ruidosa e densa.</p>
<p>&#8220;Cândidos Incas! Quando já campeiam</p>
<p>Os hérois vencedores do inocente</p>
<p>Índio nu; quando os templos s&#8217;incendeiam,</p>
<p>Já sem virgens, sem ouro reluzente,</p>
<p>&#8220;Sem as sombras dos reis filhos de Manco,</p>
<p>Viu-se&#8230; (que tinham feito? e pouco havia</p>
<p>A Fazer-se&#8230;) num leito puro e branco</p>
<p>A corrupção, que os braços estendia!</p>
<p>&#8220;E da existência meiga, afortunada,</p>
<p>O róseo fio nesse albor ameno</p>
<p>Foi destruído. Como ensaguentada</p>
<p>A terra fez sorrir ao céu sereno!</p>
<p>&#8220;Foi tal a maldição dos que caídos</p>
<p>Morderam dessa mãe querida o seio,</p>
<p>A contrair-se aos beijos, denegridos,</p>
<p>O desespero se imprimi-los veio, -</p>
<p>&#8220;Que ressentiu-se verdejante e válido,</p>
<p>O floripôndio em flor; e quando o vento</p>
<p>Mugindo estorce-o doloroso, pálido,</p>
<p>Gemidos se ouvem no amplo firmamento!</p>
<p>&#8220;E o sol, que resplandece na montanha</p>
<p>As noivas não encontra, não se abraçam</p>
<p>No puro amor; e os fanfarrões d&#8217;Espanha,</p>
<p>Em sangue edêneo os pés lavando, passam.</p>
<p>(&#8230;)</p>
<p>Guesa quer dizer &#8220;errante, sem lar&#8221;. Sousândrade diz que &#8220;o poema foi livremente esboçado segundo à natureza singela e forte da lenda, e segundo à natureza própria o autor. Compreendi que tal poesia, tanto nas ásperas línguas do norte como nas mais sonorosas do meio-da, tinha de ser a &#8220;que reside toda no pensamento, essência da arte&#8221;, embora fossem &#8220;as formas externas rudes, bárbaras ou flutuantes&#8221;.</p>
<p>poema UM FIM no blog http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>O GUESA CANTO III</p>
<p>As balseiras na luz resplandeciam —</p>
<p>oh! que formoso dia de verão!</p>
<p>Dragão dos mares, — na asa lhe rugiam</p>
<p>Vagas, no bojo indômito vulcão!</p>
<p>Sombrio, no convés, o Guesa errante</p>
<p>De um para outro lado passeava</p>
<p>Mudo, inquieto, rápido, inconstante,</p>
<p>E em desalinho o manto que trajava.</p>
<p>A fronte mais que nunca aflita, branca</p>
<p>E pálida, os cabelos em desordem,</p>
<p>Qual o que sonhos alta noite espanca,</p>
<p>&#8220;Acordem, olhos meus, dizia, acordem!&#8221;</p>
<p>E de través, espavorido olhando</p>
<p>Com olhos chamejantes da loucura,</p>
<p>Propendia p&#8217;ra as bordas, se alegrando</p>
<p>Ante a espuma que rindo-se murmura:</p>
<p>Sorrindo, qual quem da onda cristalina</p>
<p>Pressentia surgirem louras filhas;</p>
<p>Fitando olhos no sol, que já s&#8217;inclina,</p>
<p>E rindo, rindo ao perpassar das ilhas.</p>
<p>— Está ele assombrado?&#8230; Porém, certo</p>
<p>Dentro lhe idéia vária tumultua:</p>
<p>Fala de aparições que há no deserto,</p>
<p>Sobre as lagoas ao clarão da lua.</p>
<p>Imagens do ar, suaves, flutuantes,</p>
<p>Ou deliradas, do alcantil sonoro,</p>
<p>Cria nossa alma; imagens arrogantes,</p>
<p>Ou qual aquela, que há de riso e choro:</p>
<p>Uma imagem fatal (para o ocidente,</p>
<p>Para os campos formosos d&#8217;áureas gemas,</p>
<p>O sol, cingida a fronte de diademas,</p>
<p>índio e belo atravessa lentamente):</p>
<p>Estrela de carvão, astro apagado</p>
<p>Prende-se mal seguro, vivo e cego,</p>
<p>Na abóbada dos céus, — negro morcego</p>
<p>Estende as asas no ar equilibrado.</p>
<p>Nos cantos finais do poema o índio reflete sobre sua viagem percorrendo os Andes e algumas capitais da América do Sul. Como se fizesse parte das dores que cada povo sofre, reflete sobre liberdade, revolução, a divisão do Império Inca, a queda dos Impérios, critica os governos militares e lembra da mãe. É uma fase de meditação para o herói que será morto logo em seguida. Uma saga.</p>
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<p>GUESA CANTO XI</p>
<p>Quando as estrelas, cintilada a esfera,</p>
<p>Da luz radial rabiscam todo o oceano</p>
<p>Que uma brisa gentil de primavera,</p>
<p>Qual alva duna os alvejantes panos,</p>
<p>Cândida assopra, &#8211; da hora adamantina</p>
<p>Velando, nauta do convés, o Guesa</p>
<p>Amava a solidão, doce bonina</p>
<p>Que abre e às douradas alvoradas reza.</p>
<p>Ora, no mar Pacífico renascem</p>
<p>Os sentimentos, qual depois de um sonho</p>
<p>Os olhos de um menino se comprazem</p>
<p>Grande-abertos aos céus de luz risonhos.</p>
<p>Vasta amplidão &#8211; imensidade &#8211; iludem,</p>
<p>Côncavos céus, profunda redondeza</p>
<p>Do mar em luz &#8211; quão amplos se confundem</p>
<p>Na paz das águas e da natureza!</p>
<p>Nem uma vaga, nem florão d&#8217;espuma,</p>
<p>Ou vela ou íris à grandiosa calma,</p>
<p>Onde eu navego dentro da minha alma!</p>
<p>Eis-me nos horizontes luminosos!</p>
<p>Eu vejo, qual eu via, os mudos Andes,</p>
<p>Terríveis infinitos tempestuosos,</p>
<p>Nuvens flutuando &#8211; os espetac&#8217;los grandes -</p>
<p>Eia imaginação divina! Abraso</p>
<p>Do pensamento eterno &#8211; ei-lo magnífico</p>
<p>Aos Andes, que ondam alto ao Chimborazo,</p>
<p>Aos raios d&#8217;Ínti, à voz do mar Pacífico..</p>
<p>Os cantos XII e XIII são os últimos do poema-saga  Guesa Errante. O herói desce ao longo do Pacífico para o sul. Passa por todas as grandes cidades e ama Talita, a serva-liberta. Guesa fica enfermo, convalesce e lembra de seu drama familiar. Volta ao Equador onde semeia a revolta ideal até ser submetido ao ritual que marcaria sua trajetória. O Guesa é um poema instigante. Certa vez, Sousândrade disse que &#8220;Ouvi dizer já por duas vezes que &#8220;o &#8216;Guesa Errante&#8217; será lido 50 anos depois&#8221;; entristeci &#8211; decepção de quem escreve 50 anos antes&#8221;.</p>
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<p>O GUESA CANTO XII</p>
<p>Tudo que vive, repousando, sonha -</p>
<p>Está sonhando natureza! a imagem</p>
<p>Dos montes no ar balança-se risonha,</p>
<p>Ideal da platônica miragem</p>
<p>D&#8217;Atlantis!</p>
<p>Fumegando a onda nevoeiros,</p>
<p>Que são do oceano os vivas gloriosos,</p>
<p>Pavilhões auriverdes brasileiros,</p>
<p>Entre um cerrado d&#8217;iris luminosos</p>
<p>Rompe o steamer gentil. As nuvens alvas</p>
<p>Perdem as leves formas transparentes,</p>
<p>Tendo as do arbóreo gelo das escalvas,</p>
<p>Na patagônea costa e estão pendentes</p>
<p>Sobre as vagas que elevam-se do Atlântico.</p>
<p>- Porém, as aves que seguindo vieram,</p>
<p>Nesse acompanhamento aéreo-romântico</p>
<p>Do esteiro undoso, desapareceram.</p>
<p>Assim desaparecem da existência</p>
<p>Os sonhos, que conduzem ao futuro:</p>
<p>Desperta-se; e ante esta árida aparência</p>
<p>Nossa alma&#8230; &#8211; foi-lhe a vida, ao grande obscuro</p>
<p>Dos agitados ares sem sossego:</p>
<p>Oh, são a esp&#8217;rança os dias turbulentos</p>
<p>Do desespero, o homem bravo e cego,</p>
<p>Não a posse d&#8217;egípcios monumentos!</p>
<p>E &#8216;das marés no berço&#8217; austral arfando</p>
<p>Em tangagem cadente a nau tão bela</p>
<p>Nas argentinas águas, navegando</p>
<p>À luz da oriente-sul melhor estrela,</p>
<p>A &#8216;tarde no convés os passageiros</p>
<p>Formam parelhas (pela glória morrem!)</p>
<p>Zunindo os ventos frígidos ponteiros,</p>
<p>Jogando a nau, se equilibrando correm!</p>
<p>Neste vasto e magnífico estuário</p>
<p>As sul norte vagas oceânicas,</p>
<p>Mareiras brisas e o tufão pampário</p>
<p>Harmonias do mar guardam mecânicas.</p>
<p>Após o período nos Estados Unidos, o dinheiro do pai acaba e Sousândrade é obrigado a voltar para o Maranhão, já estamos no fim do segundo reinado. O poeta então começa a fazer pregação republicana abertamente. Informado da proclamação da República, passou um telegrama ao Marechal Deodoro da Fonseca dizendo o seguinte: &#8220;República proclamada. Paus-d&#8217;arco em flor&#8221;, associando ao acontecimento as cores festivas da natureza.</p>
<p>texto O Elfo e a Camponesa no blog http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>FRAGMENTOS SOBRE ADÃO E EVA</p>
<p>Levanta-se Eva: e folhas veludosas</p>
<p>Umbrando-lhe a cintura: alva, alta, lúcida</p>
<p>Andou direita: áurea figueira andando,</p>
<p>Sisuda, linda&#8230;</p>
<p>- Oh!&#8230;. &#8211; vê longe o marido</p>
<p>Nu! &#8230;as faces lhe arderam de vergonha.</p>
<p>Adão colhia os favos aromosos</p>
<p>De mel paradisíaco, os mais loiros</p>
<p>Cachos d&#8217;uvas passentas. Merendaram.</p>
<p>E Adão não dera pela falta d&#8217;Eva.</p>
<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.</p>
<p>Da sesta conjugal, do mal já feito</p>
<p>O rosto pudibundo, Eva encantava:</p>
<p>Magnetizou ao homem. Atordoando,</p>
<p>Já das ciências visão sagrada: noite</p>
<p>De vigílias ditosas, vendo os astros,</p>
<p>Dês que o d&#8217;Eva escondeu-se, agora os vendo</p>
<p>Nela luzir, que ali lhe dorme ao lado</p>
<p>Estendida no edêneo chão, divina</p>
<p>Coruscante de alvor.</p>
<p>Dia seguinte:</p>
<p>Oh, que formoso dia d&#8217;Éden! rosas</p>
<p>Toda a terra; sol grande, iluminando</p>
<p>Áureo o espaço; esplendor os arvoredos;</p>
<p>Cerúleo o etereal, a divindade</p>
<p>Da alma feliz amante; o noivo, a esposa.</p>
<p>Porém, sem que um ao outro s&#8217;entendessem,</p>
<p>Ela à nudez, nem ele aquelas cintas.</p>
<p>Além disto, gemendo os horizontes,</p>
<p>Que em alegre trinar amanheciam,</p>
<p>Ais as rolas do amor, angústia as fontes:</p>
<p>Coração principiava; os céus doíam.</p>
<p>Instaurada a República, Sousândrade foi presidente da Independência Municipal de São Luís e reformou o ensino cuidando da fundação de escolas mistas. Idealizou a bandeira maranhense, em cujas cores &#8211; branco, preto e vermelho &#8211; quis representar a fusão étnica do povo brasileiro. Candidatou-se ao Congresso Constituinte da República, pelo Partido Republicano Histórico do Maranhão, mas renunciou, com o objetivo de pacificar disputas eleitorais. O poeta vai caminhando para seu fim.</p>
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<p>FRAGMENTOS DE ADÃO E EVA II</p>
<p>Banidos do paraíso: olhando para trás,</p>
<p>D&#8217;espelho que se parte o relampagueamento</p>
<p>D&#8217;estampido seguido e que cegueira faz</p>
<p>Que d&#8217;alma a dor profunda apaga no momento,</p>
<p>Viram &#8230; um lago! ao longe &#8230; um monte! &#8230; nada mais.</p>
<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.</p>
<p>Iam pensando: essa onda &#8230; o monte &#8230; o céu que estronda &#8230;</p>
<p>Quem dessa água a desgraça? &#8230; quem desse monte a graça? ..</p>
<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..</p>
<p>Já era pôr-do-sol: cansados do caminho,</p>
<p>Eva chorando, o abrolho, o cardo, a urtiga, o espinho,</p>
<p>Rastos dos pés sangrando: unidos se deitaram</p>
<p>Sem mais o encanto edêneo &#8230; Amar? os céus olharam:</p>
<p>Os astros em fulgor, suas frontes em suor;</p>
<p>Travesseiro? uma pedra. E os astros sempre rindo! &#8230;</p>
<p>Foi quando Prometeus não pôde mais; e trouxe</p>
<p>Dos céus centelha: e ao fogo o homem que aquentou-se;</p>
<p>Toda tristeza ante ele, os olhos reluzindo</p>
<p>Meiga, mortal, calada: ao colo da mulher,</p>
<p>No Éden do amor, o lar cosmopolita, achou-se</p>
<p>Imagem de Deus uno, à carne rosicler;</p>
<p>Forma flor, forma céus, pára-olhos e pára-almas,</p>
<p>Da Criação o amor em gêmeos, dois amores,</p>
<p>Corpos vibrantes dois, duas psíquicas palmas</p>
<p>Os corações em luz, carnariums, sangues, dores</p>
<p>E o ideal Prometeus, ideal imagem-Deus.</p>
<p>Como disse antes, Sousândrade dava aulas de grego no Liceu Maranhense. Consta que tinha o hábito de dar estas aulas ao ar livre, na Quinta da Vitória, no bairro dos Remédios, às margens do Rio Anil. Preocupou-se durante muito tempo com a fundação  de uma Universidade Popular, com o nome de &#8220;Atlântida&#8221;, empenhando-se para isso, sem êxito, junto aos representantes federais do Maranhão. Certa vez escreveu que &#8220;Pensai-vos nos vossos caminhos de ferro, assim como  eu penso na minha locomotiva &#8211; que da decadência de ciências e letras &#8211; a inteligência e a locomotiva &#8211; que da decadência moral e financeira ainda havemos de alevantar o Estado do Maranhão&#8221;. Amanhã, explicações sobre o poema de hoje.</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>FRAGMENTOS SOBRE HELEURA</p>
<p>Desde a noite funérea, de tristeza</p>
<p>Heleura está doente. Ara, morrendo,</p>
<p>Nunca perdera as cores do semblante,</p>
<p>Um formoso defunto: &#8220;vivo! vivo!&#8221;</p>
<p>Gritava a filha p&#8217;ra que o não levassem:</p>
<p>&#8220;Vivo! vivo!&#8221; Prenúncios maus, diziam.</p>
<p>Mas para Ut era crença que, dos túmulos,</p>
<p>Corvos de Odin mandando pelo mundo,</p>
<p>Os mortos melhor cumprem seu desígnios.</p>
<p>Ora, a chorar no tum&#8217;lo (Ia, em violetas</p>
<p>Mudada pelo amor), perpétuas meigas</p>
<p>Tornara-se Ut-allah, que o amortalharam.</p>
<p>Fundo silêncio estava dia e noite</p>
<p>Na sombria mansão: de longe em longe,</p>
<p>Como rasgam-se as brisas açoitadas</p>
<p>Por vergônteas, manhãs d&#8217;esto, etérea aura</p>
<p>Parecia chamando: Heleura!&#8217; &#8230; Heleura!&#8230;</p>
<p>Que ela escutava; e nuns baixinhos ecos</p>
<p>A febre arremedando: He &#8211; lê &#8211; u &#8211; rous &#8230;</p>
<p>Heliéiou-urion &#8230; Súbito saltava,</p>
<p>Pesar d&#8217;Ut e as Armênias vigilantes,</p>
<p>E as seráficas fraldas apanhando,</p>
<p>Nuzinhos pés, a rir toda, irradiava</p>
<p>No aposento a estelífera carreira</p>
<p>Atalanta de luz. E viam nela</p>
<p>A luzente visão dos cintilados</p>
<p>Limões de luz, de luz níveos triângulos</p>
<p>Nessa cal mortal brancura, o rosto,</p>
<p>O riso, a boca, os olhos brancos, brancos:</p>
<p>E o maternal diamante em pó desfeito</p>
<p>Que vivifica ao cândido diamante,</p>
<p>Torna-o ao leito Ut-allah: &#8220;Heleura! Heleura!&#8221;</p>
<p>Em virtude dos excessivos gastos e da morte da lavoura na fazendo Feliz Asilo, o poeta passa por dificuldades financeiras. Chega a vender pedras para ter o que comer. Tido como louco, chegou a ser apupado nas ruas pelos garotos maranhenses. Seus alunos vão encontrá-lo gravemente enfermo na Quinta da Vitória. No dia 21 de abril de 1902, faleceu num quarto de hospital. Consta que os originais de suas últimas produções caíram nas mãos de um vendeiro, que os utilizou como papel de embrulho.</p>
<p>http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>FRAGMENTOS SOBRE HELEURA II</p>
<p>Heleura</p>
<p>Mirou-se toda; uma áspide a mordera,</p>
<p>Ela o sentiu;  fugiu para o aposento</p>
<p>Alcatifado de cravina e de ouro</p>
<p>E onde sonhos levianos não entravam,</p>
<p>Cheiro sentindo-se de jacintos, vendo</p>
<p>Lábios-luz, verdejeiras laranjeiras,</p>
<p>Flores-noivas grinaldas agitando</p>
<p>Sobre um abismo venturoso, em vagas</p>
<p>Como espelhos levando-a, combanidas,</p>
<p>À cristalina limpidez, reférvida</p>
<p>A epiderme num fosfor&#8217;luminoso -</p>
<p>Triângulos! triângulos! Semíramis!</p>
<p>A alvura e o sentimento! anéis da trança,</p>
<p>Quando as faces beijavam-lhe, incendiam.</p>
<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.</p>
<p>Porém, já prontinha</p>
<p>Co&#8217;as alvoradas stava Heleura, vendo:</p>
<p>Alta amarela estrela brilhantíssima;</p>
<p>Cadentes sul-meteoros luminosos</p>
<p>Do mais divino pó de luz; véus opalos</p>
<p>Abrindo ao oriente a homérea rododáctila</p>
<p>Aurora! e ao cristalino firmamento</p>
<p>Cygni &#8211; esse par de sóis unidos sempre,</p>
<p>Invisíveis; e que ela via claros</p>
<p>Dadas mãos, em suas órbitas eternas</p>
<p>Qual num lago ideal as belas asas</p>
<p>Por essa imensidade &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..</p>
<p>is que chegamos ao final de mais uma antologia. Aqui, o quase esquecido Sousândrade, &#8220;salvo&#8221; pelos irmãos Campos, poeta incompreendido, viajante, republicano e maranhense. Percorremos sua vida, suas obras, sem exegeses, apenas o &#8220;homem humano&#8221; lembrando o nosso Guimarães Rosa na figura de Riobaldo. Enfim, semana que vem farei uma retrospectiva dos poetas de 2009, bons estudos foram feitos, e eu, assim como todos aqui, aprendemos um pouco mais.</p>
<p>poema O corpo no blog http://pedrolago.blogspot.com</p>
<p>DA HARPA XLV</p>
<p>Eu careço de amar, viver careço</p>
<p>Nos montes do Brasil, no Maranhão,</p>
<p>Dormir aos berros da arenosa praia</p>
<p>Da ruinosa Alcântara, evocando</p>
<p>Amor &#8230; Pericuman! &#8230; morrer &#8230; meu Deus!</p>
<p>Quero fugir d&#8217;Europa, nem meus ossos</p>
<p>Descansar em Paris, não quero, não!</p>
<p>Oh! por que a vida desprezei dos lares,</p>
<p>Onde minh&#8217;alma sempre forças tinha</p>
<p>Para elevar-se à natureza e os astros?</p>
<p>Aqui tenho somente uma janela</p>
<p>E uma jeira de céu, que uma só nuvem</p>
<p>A seu grado me tira; e o sol me passa</p>
<p>Ave rápida, ou como o cavaleiro:</p>
<p>E lá! a terra toda, este sol todo -</p>
<p>E num céu anilado eu m&#8217;envolvia,</p>
<p>Como a água se perde dentro dele.</p>
<p>Ingrato filho que não ama os berços</p>
<p>Do seu primeiro sol. Eu se algum dia</p>
<p>Tiver de descansar a vida errante,</p>
<p>Caminhos de Paris não me verão:</p>
<p>Através os meus vales solitários</p>
<p>Eu irei me assentar, e as brisas tépidas</p>
<p>Que meus cabelos pretos perfumavam,</p>
<p>Dos meus cabelos velhos a asa trêmula</p>
<p>Embranquecerão: quando eu nascia</p>
<p>Meu primeiro suspiro elas me deram;</p>
<p>Meu último suspiro eu lhes darei.</p>
<br />Publicado emTODOS OS POETAS AQUI  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/cartilhadepoesia.wordpress.com/27/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/cartilhadepoesia.wordpress.com/27/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/cartilhadepoesia.wordpress.com/27/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/cartilhadepoesia.wordpress.com/27/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/cartilhadepoesia.wordpress.com/27/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/cartilhadepoesia.wordpress.com/27/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/cartilhadepoesia.wordpress.com/27/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/cartilhadepoesia.wordpress.com/27/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/cartilhadepoesia.wordpress.com/27/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/cartilhadepoesia.wordpress.com/27/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/cartilhadepoesia.wordpress.com/27/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/cartilhadepoesia.wordpress.com/27/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/cartilhadepoesia.wordpress.com/27/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/cartilhadepoesia.wordpress.com/27/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=27&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Guilherme Zarvos</title>
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		<pubDate>Sun, 08 Nov 2009 21:03:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cartilhadepoesia</dc:creator>
				<category><![CDATA[TODOS OS POETAS AQUI]]></category>

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		<description><![CDATA[Guilherme Zarvos nasceu em São Paulo no dia 23 de março de 1957, mas vive no Rio de Janeiro desde os dois anos de idade. Formou-se em Economia, fez mestrado em Ciências Sociais e Doutorado em Letras pela Puc &#8211; Rio. Neste mês percorreremos a poesia visceral, política e prosaica desta figura tão peculiar do [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=24&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div>Guilherme Zarvos nasceu em São Paulo no dia 23 de março de 1957, mas vive no Rio de Janeiro desde os dois anos de idade. Formou-se em Economia, fez mestrado em Ciências Sociais e Doutorado em Letras pela Puc &#8211; Rio. Neste mês percorreremos a poesia visceral, política e prosaica desta figura tão peculiar do cenário cultural carioca. Vamos além do Guilherme Zarvos do CEP 20.000, além do controverso e socrático provocador. Guilherme Zarvos é o nosso homenageado do mês.</div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;">texto DA NUCA no blog </span><a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com/" target="_blank"><span style="font-size:medium;">http://pedrolago.blogspot.com</span></a></div>
<div> </div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;">QUEM ME PRESERVA ME CASTIGA?</span></div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;">Não me lembro mais</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">se era doce ou salgado</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">só do pequeno futo na veia</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">                            da garganta</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">- refletivo no espelho -</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">onde filete-caminho descia</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">sem encontrar obstáculo</span></div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;">Não me recordo se já era dia</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">parece que clareava</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">a única sensação</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">(se era boa?)</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">a da entrada para o eterno</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">sono. Merecido.</span></div>
<div> </div>
<div>
<div>Guilherme Zarvos é filho de Nicolau Zarvos e Thereza Maria de Carvalho Cesário Alvim, depois Zarvos. Thereza participou, com sete anos, da retirada de Paris, em 1939. Nicolau Zarvos era grego. Guilherme cresceu em uma família, ora ligada, ora envolvida com política. O velho José Cesário Alvim foi Prefeito do Rio de Janeiro em 1889, e sua irmã, Sylvia, era mãe de Virgilio Alvim de Melo Franco e do Senador Afonso Arinos de Melo Franco. Nos anos 30, parte da família ajuda a fundar a UDN.</div>
<div> </div>
<div> </div>
<div><a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com/" target="_blank">http://pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div> </div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;">THEREZA</span></div>
<div> </div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;"> <br />
Visito minha mãe no Jardim Botânico<br />
Faz dois anos que ela morreu<br />
Parece que faz uma vida<br />
Tenho tanta saudade<br />
Das conversas<br />
Do uisquinho, até do barulho nervoso do gelo<br />
O excesso de uísque ajudou a matá-la<br />
Pena que os excessos matem<br />
Já conheci quem morreu de amor<br />
De excesso e falta<br />
 <br />
A árvore que eu e minha irmã escolhemos para depositar suas<br />
Cinzas não tem nada de excepcional<br />
É um Tiliacea da Malásia<br />
Ela me parece velha<br />
Foi um descuido espalhar as cinzas numa<br />
Árvore que pode tombar logo<br />
Mesmo antes da minha morte<br />
Me parece um canto agradável<br />
Ela deve estar contente no céu<br />
Estou aqui na terra<br />
 <br />
Depositar cinzas de cremação no Jardim Botânico<br />
É proibido. Tirar fotos de casamento pode<br />
Imagino se todos depositassem seus mortos no<br />
Jardim Botânico se assemelharia ao Ganges<br />
Todo humano deveria passar uma tarde<br />
Olhando uma cremação do Rio Ganges, na Índia<br />
Depois de pôr fogo no morto, com a presença da<br />
Família, com um pedaço de pau dilaceram-se os<br />
Ossos e o crânio que são muito resistentes ao<br />
Fogo. Tudo é calmo e sagrado. As cinzas vão para o rio<br />
 <br />
Minha mãe não sofreu muito ao morrer<br />
Eu e minha irmã ficamos contidos. Nossa família é<br />
Assim. Fatalista. Já me falaram que é um resquício<br />
Aristocrático. Sempre nos orgulhamos da<br />
República. Em volta da Tiliaceae nasceram cogumelos<br />
Cada vez que visito minha mãe tem novidade<br />
Em volta da árvore. Minha mãe está sempre<br />
 <br />
Presente e o chão sempre apresenta surpresas<br />
Os cogumelos formam um ajuntamento como uma ninhada<br />
Do meio salta uma flor! É da raça das Therezas.</span></div>
<div> </div>
<div>
<div>Importante ressaltar o ambiente que Guilherme vivia enquando jovem. Sua mãe, Thereza, era jornalista do Última Hora nos anos 60, Guilherme muito pequeno, é claro. Com família ligada à política, Thereza vai para o Rio de Janeiro, enquanto Nicolau volta para a Europa. Ruptura. No Rio, volta a ser Cesário Alvim e começa a namorar o jornalista Paulo Francis. É uma das primeiras jornalistas a escrever um livro sobre o Golpe de 64, ainda recente. Guilherme nesta época estudava no Andrews e não gostava de estudar francês.</div>
<div> </div>
<div> </div>
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<div> </div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;">TRANSPARÊNCIA</span></div>
<div> </div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;">A transparência da chuva fininha</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">a que permite enxergar calmamente</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">a enorme mangueira 200m afastada</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">da janela</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">A chuva é formadora de camadas e na</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">continuidade é uma cor</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">camada sobre camada</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Ela é cinza ela é branca ela é transparente</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">A enorme mangueira verde e amarela &#8211; </span></div>
<div><span style="font-size:medium;">está carregada &#8211; transforma-se numa</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">visão impressionista</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">O realismo da mangueira modificado pelo</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">difuso da chuva fininha e as centenas de camadas</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">está carregada &#8211; transforma-se numa </span></div>
<div><span style="font-size:medium;">visão impressionista</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">O realismo da mangueira modificado pelo</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">difuso da chuva fininha e as centenas de camadas</span></div>
<div> </div>
<div>
<div>Ainda criança, porém vivendo neste ambiente jornalístico dos anos 60, sempre inclinado à política, Guilherme então, já por volta de seus vinte anos, começa a trabalhar, em 1983, com quem seria seu grande mestre: Darcy Ribeiro. Darcy queria que Guilherme fosse político, porém, desde sempre, Guilherme queria a cultura. Trabalhava no Programa Especial de Educação, que era o núcleo gerador dos CIEPs, então presidido por Darcy e lá, apontava o interesse em fazer algo ligado à poesia. Muita coisa surgiria depois disso. Gerardo de Mello Mourão, Berlim e o Terças Poéticas.</div>
<div> </div>
<div> </div>
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<div> </div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;">CANÇÕES I &amp; II</span></div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;">I</span></div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;">Conto</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">quando meu coração flerta</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Que os 472 tufões do apocalipse</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Nada representam</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">São figuras pequenas, mero detalhe</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Só vejo um coração enorme</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">boiando &#8211; fileira de dentes</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">marfim em faísca</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">&#8230; a beleza da vida&#8230;</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Pode ser mais simples?</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Céus por que me presenteiam</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">com um corpo em harmonia</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">depois de tanta tormenta?</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Largo-me, que seja a tentação,</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">maçãs sempre fizeram parte </span></div>
<div><span style="font-size:medium;">principalmente as podres</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Mas quero, por segundos, ao menos</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">na cama abraçado esquecer</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">que nasci para ser triste?</span></div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;">II</span></div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;">Por um dia &#8211; não</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">foram apenas horas -</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">senti sublime, incontido</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">amor</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Veio de início cândido</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">a respiração tinha o som</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">do vento manso raspando</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">um fresta</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Bastou uma condenada hora</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">do corpo ausente</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Para que ouvisse a</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">reprovação dos Deuses</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Pela ousadia de sentir-me</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">um igual</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">explodiu, ditames do</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">subterrâneo,</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">dor &#8211; santo, santo</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">santo &#8211; me pus</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">de joelhos querendo</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">refrear e</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">queimava, por mais que </span></div>
<div><span style="font-size:medium;">me encolhesse.</span></div>
<div> </div>
<div> </div>
<div>
<div>Darcy Ribeiro deseja um caminho promissor dentro da política real para Guilherme, Educação Pública ou a eleição para um das três Câmaras. Porém, Guilherme desejava trabalhar com algo ligado à arte. Em 1989, vai para Berlim, foi com o objetivo de fazer Doutorado em Ciências Políticas na Universidade Livre de Berlim. Lá conheceu uma juventude política, punk e alternativa. Começara alí a idéia de fazer algo semelhante, que misturasse artes, juventude e algum tipo de atitude política, de resistência cultural.</div>
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<div><span style="font-size:medium;">texto a Menina e os Livros no blog </span><a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com/" target="_blank"><span style="font-size:medium;">http://pedrolago.blogspot.com</span></a></div>
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<div><span style="font-size:medium;">AMARELO</span></div>
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<div><span style="font-size:medium;">O amor de que fala Zarvoleta     Amor do poeta</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Encarcerado no Pinel              Na sua histeria</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Jogaram meu amor na enfermagem</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Trancaram a porta</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Os cabelos amarelos do meu poeta estavam sem brilho</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Meu cavalheiro cercado por lúmpens</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Tão pobres tão pobres</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Ele tinha esquecido do que era a enfermaria do Pinel</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">A melhor instituição pública para os insanos</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Eles denominam de sofredores mentais</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">A família os quer lá no quadrado de demo</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">País de bastardos tratando meu poeta e seus colegas</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">De quarto como matéria em detrito</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Abençôo todos os humanos que foram trancafiados</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">por perturbar</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">A paz.                                    Como vai seu vizinho?</span></div>
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<div>Guilherme fala com Darcy Ribeiro sobre seu interesse de desenvolver um projeto ligado à poesia para juntar gente. Guilherme afirma que &#8220;<em>apesar de conversar muito sobre o assunto com o mestre, foi através de João Luiz Souza que vi muitos dos meus anseios pessoais sendo postos em prática</em>&#8220;. Darcy indica o poeta Gerardo de Mello Mourão, então Presidente do Fundo Rio, da Secretária Municipal de Cultura na gestão de Marcelo Alencar, para tratar deste assunto com Guilherme. Gerardo gostou. Surgiria o Terças Poéticas.</div>
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<div><span style="font-size:medium;">PIPI E POPÓ</span></div>
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<div><span style="font-size:medium;">Anjos voam: se deixam levar</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Crianças sonham com anjos e</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Ambos têm porquês de mesma</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Natureza. Ambos fazem xixi de</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Anjo e cheiram criança e riem</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Covinhas e rolam no chão, em</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Tempo e espaço de reinação: brin-</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Cadeira de anjo e de criança que</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">É um anjo. E diz o povo de casa</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Que se criança morre vira anjo e</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Diz o povo de casa que viu uma</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Criança subir ao céu. tadinho</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Virou anjo e foi envolver as pernas</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">De Deus que é Cristo que foi me-</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Nino e morreu na cruz. Já não era</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Anjo mas subiu ao céu. Os anjos</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Estavam curiosos. Logo eles que</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Tanta perplexidade provocam: sobre</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">O sexo dos Anjos! dá vontade de rir</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Amontoaram-se dúzias de doutores e</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Nunca concluíram que anjo e criança</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Têm pipi e popó. Só que ninguém es-</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Tá muito preocupado. É coisa que vai</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Suscitar logo-logo. Vão virar meninos</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">E meninas no troca-troca das figurinhas.</span></div>
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<div>Guilherme Zarvos morava no Baixo Gávea e queria, num evento, misturar poetas renomados com jovens atuantes da poesia. Como achar estes jovens? Guilherme ia para os bares e, pelo estilo ou intuição, indagava-os na rua perguntando se eram poetas. O Terças Poéticas acontecia no teatro da Faculdade da Cidade, em Ipanema, com debates, sempre às 17 horas, sobre poesia e poetas. Os encontros contaram com a participação, separadamente, dos poetas Gerardo de Mello Mourão, Ferreira Gullar, Antonio Houaiss, João Cabral de Melo Neto e Heloisa Buarque de Hollanda, esta última, que falaria sobre Tropicalismo e Poesia, contou com a apresentação do poeta Chacal e Boato. Começou aí.</div>
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<div><span style="font-size:medium;"> A LUZ</span></div>
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<div><span style="font-size:medium;">E se eu pudesse dizer que é do meu canto</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Que é do lugar de onde convergem as</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Paredes, deixei desbotar fotos que lembram e</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">O passado vai e nunca vai completamente</span></div>
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<div><span style="font-size:medium;">Sou um desassossegado &#8211; destino que me quis</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Ferir &#8211; assim me resta o canto e as</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Fotos que descoloridas lembram que nada</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Vai completamente, pois não há tudo por ruir</span></div>
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<div><span style="font-size:medium;">Hoje após vinte anos de espera &#8211; já</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Que não arvoro a morte &#8211; me resta o</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Canto que por mais vinte ou trinta,</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Alvejará várias outras fotos convergidas</span></div>
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<div><span style="font-size:medium;">Parede que me escuta já que é muda</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Que não pretende aplacar minha dor</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Nem minha conduta. Apague apenas</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Vez em quando as fotos e se não incomodar</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">                                                         A LUZ<br />
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<div>Após alguns Terças Poéticas, Guilherme quis parar. Dizia estar cansado de ter que chamar alguém de nome conhecido para compor a mesa. Até que Chacal, convidado do último terças poéticas, sugere algo de noite. O Espaço Sérgio Porto pareceu uma boa opção. Pouco tem depois do último Terças Poéticas, se deu o primeiro CEP 20.000. Com curadoria de Guilherme e Chacal. O desejo era procurar jovens artistas para mostrarem seus trabalhos, desde poetas e músicos até artistas plásticos e grupos de teatro.</div>
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<div><span style="font-size:medium;">DARCY</span></div>
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<div><span style="font-size:medium;">Darcy é um bandoleiro</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">- Que os sigam as almas iracundas</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Já que é herói já que é pastor</span></div>
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<div><span style="font-size:medium;">Não entendo a complacência dos deuses que apenas</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">lhe testaram, muitas vezes, a tentação da morte. É</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">como se o alertassem: &#8211; Seu fim pode acontecer em breve!</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">E por algum motivo lindo, encantados por esse mortal</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">que encanta, como na frente de uma criança peralta</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">como que admirando um guerreiro, um bicho no mato livre</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">deram-lhe sempre mais uma oportunidade e Darcy Ribeiro</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">marcou a sorte, bandoleiro que cavuca o caminho, regendo</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">com todo o rigor de quem sabe, de quem olhou uma</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">estátua na principal praça pública e reconheceu seu lugar.</span></div>
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<div>Importante dizer: No que diz respeito à formação, Guilherme viera da Economia e das Ciências Sociais, para assim, desaguar nas Letras. O ambiente é que era mais rico. Sua mãe era escritora, jornalista, vivia com os intelectuais e era ligada à política na época do Golpe. Guilherme trabalhou por alguns anos com Darcy Ribeiro e quase virou político, tendo até se candidatado para vereador. Depois, a convivência com jovens poetas, músicos, artistas plásticos e poetas experientes como Bruno Tolentino e Gerardo de Mello Mourão. Tudo isso misturado, resultou nas linguagens de seus livros. A poesia coloquial, o lirismo da dor, discurso político e muita prosa poética.</div>
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<div><span style="font-size:medium;">texto Silêncios de uma tarde no blog </span><a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com/" target="_blank"><span style="font-size:medium;color:#810081;">http://pedrolago.blogspot.com</span></a></div>
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<div><span style="font-size:medium;">DIA TAL #5</span></div>
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<div><span style="font-size:medium;">E da forma escrita, seja prosa ou poesia, se houvesse uma fórmula: claro que</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">há dezenas! mas é o doce martíni, ou melhor, martírio, a tarefa de encontrar</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">o ponto e as vírgulas, de descrever patas de elefantes brancos nos jardins de</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">tons rosas das flores e dos mármores de marajás, na intenção de fazer pas-</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">sear e retornar ao bonde ao lotação à carrocinha puxada por bodes e vai indo</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">rua Augusta, Cabo Frio, Petrópolis, Águas de Lindóia, Ouro Preto e vão indo e</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">vindo tantas lembranças em crônicas, poesia, conto, romance que esta eu</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">viro: o mundo de cabeça para cada lado: e que alguém abra a página como </span></div>
<div><span style="font-size:medium;">um zíper, dois botões e a sensação plena de quem encontrou, em perfeita</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">sintonia, patas de elefantes brancos nos jardins de tons rosas das flores e dos</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">mármores de marajás.</span></div>
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<div>Guilherme publicou sete livros. O primeiro, Beijo na Poeira, de 1990, Guilherme conta suas aventuras em Berlim. Na mesma viagem que disse ter despertado o profundo interesse em fazer algo ligado à poesia e das saudades do Baixo Gávea. No prefácio, Darcy Ribeiro diz que &#8220;<em>Morro de inveja desse Daniel. Gostaria de vestir seu pelame e sair por aí vagabundando por Arábias e Alemanha afora, dando cabeçada, namorando. É mesmo uma pena que a vida não se repita&#8221;.</em></div>
<div><em> </em> </div>
<div><em> </em> </div>
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<div><span style="font-size:medium;">MONTE PASCOAL</span></div>
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<div><span style="font-size:medium;">Daqui de cima do Monte Pascoal viu. Neste</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">bosque encantado, nesta floresta que é parque</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">quando tudo era parque &#8211; correu morro: trinta</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">quilômetros. lá de cima havia enxergado. o</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">coração desejava explodir, o pé precisava voar</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">- ar pulmão ar &#8211; queria chegar na praia, em</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Corumbau e conferir: nunca vira Deus tão lindo.</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">correu por meio de ipê caixeta pinha cupuba</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">gameleira pau-brasil sapucaia jacarandá oiti</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">pequi e deixou marcas das solas ligeiras no</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">manto tapete amarelo na trilha que tantas vezes</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">percorreu e nem sentiu o perfume doce da</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">floresta que ontem chovera. era manhã e</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">orvalhava e ele não viu os pingos ainda</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">agarrados nas folhas em todos os tons semitons</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">verdes que dependem das mudanças das horas</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">do dia e o do tempo e da Terra e das marcas dos</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">raios de sol. E uma codorna passou mansinha</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">e tentou lhe avisar que não se apressasse e outros</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">bichos tentaram lhe pedir que não fosse, gritando</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">estridentes, uivando, que parasse &#8211; ar ar pulmão</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">eu lhe estouro mas quero chegar &#8211; e correu como</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">nunca, em nome de todos os seus Deuses, de</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">todas as suas mulheres, não muitas, na sua</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">juventude. O corpo rijo acostumado à caça à</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">derrubada ao sexo às guerras aos jogos</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">correspondia. porém a Impaciência já havendo</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">lhe tomado exigia mais: passou batido por</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">borboletas brancas amarelas azuis que </span></div>
<div><span style="font-size:medium;">aspiravam por enfeitar acariciar seu braço</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">guerreiro como só Bela sabia, mas não era a hora.</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Apenas a praia lhe interessava e num descuido</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">uma raiz traiçoeira passou-lhe uma banda e o</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">guerreiro caiu de boca no chão, no tapete de</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">folhas de sêmen de óvulo de adubar terra, e um</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">sapo o encarou: dez centímetros era a distância.</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">não cuspiu, não era disso. tinha a cor das folhas.</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">caleidoscópio se protegia dos inimigos. o sapo</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">não falou absolutamente nada já que não era</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">um sapo falante mas o encarou preenchido &#8211; na</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">completa imobilidade de sapo que encara &#8211; e</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Zinho, por alguns segundos, não pensou na areia</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">que precisava alcançar e lembrou de seu avô,</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">do olhar grave de tuxaua em momentos de</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">decisão. de tomar rumo, de falar o que o Tempo</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">lhe ensinou. a cara do sapo esculpida por pai e</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">mãe e pai e mãe e pai e mãe do sapo, dez</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">centímetros de seus olhos, o hipnotizava e ele</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">deitado de bruços, corpo todo no chão tapete de</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">folhas, por um minuto permitiu que maus</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">pressentimentos dominassem sua cabeça. o</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">corpo do forte fraquejou. foram apenas estes</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">segundos e o corpo do forte já corria e Fantasia</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">e Impaciência eram novamente suas donas e </span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Zinho já avistava a praia e não era só ele ali:</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">toda a aledeia, do mais velho à mais pequenininha</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">se grudava perto da água dentro da água para</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">ver:</span></div>
<div><em><span style="font-size:medium;">                  A Fundação do Brasil.</span></em></div>
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<div>O segundo livro de Guilherme foi a peça Nacos de Carne. Dois personagens, um rapaz e uma moça que discutem na cama sobre sua relação de modo extremamente íntimo e sem pudores. Há também um coro e intervenções musicais com participações. Nacos de Carne foi montada apenas uma vez, no teatro Cândido Mendes no centro, &#8216;havia gente que ia embora e quem morria de rir&#8221;. Trata-se de um texto em fluxo, característica da poesia de Guilherme. Nacos de Carne é do ano de 1992.</div>
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<div><span style="font-size:medium;">ZAÍDE</span></div>
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<div><span style="font-size:medium;">Nunca pensei que amar fosse tão doce</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">que era coisa de velhice de abelha</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">no jardim dedicado por casais que</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">de mãos dadas dormem e jogam sorrisos</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Pensava só no turbilhão e nas contas</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">do final do mês no ter que me transportar</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">no outro e que era disputa e nunca compla-</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">cência e cumplicidade e nunca criação</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Até que chegou o momento. Veio quieto</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Era final de uma noite sem vento na</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Gávea. Lembro-me da hora da cor da </span></div>
<div><span style="font-size:medium;">recém aurora das roupas do que to-</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">mamos acho que de cada palavra</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Agora que vejo o corpo mais frágil -</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">meus rins doem &#8211; e a cadeira que</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">ganhei no dia dos namorados dá uma tre-</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">menda alegria (como é confortável), posso</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">garantir que amar é tão doce que as abelhas</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">não se enjoam de parir potes de favos. Eu</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">no jardim, de mãos dadas, de cabelos tão brancos</span></div>
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<div>O terceiro livro de Guilherme chama-se Mais Tragédia Burguesa. O título é uma homenagem ao, infelilzmente, desconhecido escritor e imortal Otávio de Faria que escreveu A Tragédia Burguesa. O livro é ousado e trata de assuntos bastante polêmicos. Guilherme entra, através de confissões coloquiais, poemas e prosas-poéticas, na morte, no homossexualismo, opiniões políticas e nos percalços de sua vida. Inicia um estilo que virá a ser, e é, sua maior característica, o discurso lavado e puro direto do âmago que choca ou elucida.</div>
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<div><span style="font-size:medium;">HENRIQUE</span></div>
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<div><strong></strong></div>
<p><strong></p>
<div><span style="font-size:x-small;"><span style="font-family:arial,helvetica,sans-serif;"> </span></span> </div>
<div><span style="font-size:x-small;"><span style="font-family:arial,helvetica,sans-serif;"><span style="font-size:medium;"></span></span></span></div>
<div>O quinto livro de Guilherme é o mais corajoso, chama-se Morrer. Uma espécie de epitáfio-poético-confessional que revela a fragilidade do poeta. Conta casos da intimidade, revelações do âmago e uma reflexão dos caminhos tomados na vida. É um livro de 2002, e já mostra o poeta preocupado com a morte, tema vigente do livro. Entretanto, há momentos de ternura, como em qualquer turbilhão de facas que Guilherme costuma escrever, sempre há uma rosa quando se pensa que será apenas o abjeto.</div>
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<div><span style="font-size:medium;">MORRER</span></div>
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<div><span style="font-size:medium;">Querer ficar marcado pois</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">cada detalhe é belo</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">As formas ou idéias que</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">aguçam a inteligência</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">O que é mais pleno do</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">que olhar o transbordar</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">seja da floresta ou de um verso?</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">O que é belo aguça a inteligência</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">E a vontade de morrer é não</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">aguentar a espera do outro dia</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">É a incerteza do encontro de</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">outra planta ou texto</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Desejando então findar o que aguça</span></div>
<div> </div>
<div>
<div>Zombar é o sexto livro de Guilherme. Ousado, mais político e essencialmente coloquial, o livro conta com relatos de Guilherme pelas ruas do Rio, numa angustiante trajetória de lembranças e casos de uma vida de extremos. Zombar conta também com um belo prefácio de Heloisa Buarque de Holanda, que diz &#8220;<em>Foi adorável ficar indignada com sua intolerância passional quando julga a minha geração nas figuras de Jabor e Elio Gaspari. Foi excelente me deter na parte Poemas Soltos e descobrir que Guilherme é, antes de tudo, poeta&#8221;.</em></div>
<div><em> </em> </div>
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<div><span style="font-size:medium;">POETA</span></div>
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<div><span style="font-size:medium;">Quando a morte me levar, suave suave descanso,</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">quando a dita aconchegar, tragédia para uns poucos,</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">lembrança no ar (não há). Quando o cinza, o branco</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">desfocado, o negro do sonho, quando, talvez, morrer</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">e ver tudo colorido, poucas vezes sonhei colorido,</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">quando, como disse a senhora retornando do coma -</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">tudo é tranquilo, a morte é como esquecer para sempre</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">- sorvo mais duas latas e aspiro alguma substância</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">tóxica; só queria ser um velho culto a contar bobagens</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">como o meu primeiro beijo de língua ou mergulho na</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">cachoeira. Nunca menti seu desgraçado. Sempre</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">cumpri as ordens da nação. Ser repetitivo o apaixonado</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">e não espero que muitos me leiam. Tão educado</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">menininho.</span></div>
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<div>Publicado neste ano de 2009, Branco sobre Branco é a tese de Doutorado de Guilherme. Ele conta como se deu a criação do CEP 20.000, com textos de participantes, opiniões, pequenos casos e ainda uma bela homenagem a sua mãe e seu pai. Guilherme não considera Branco sobre Branco  um livro, é apenas uma tese. Modestia do autor, pois é um belo livro e diria de importante leitura para a compreensão da cena poética do Rio na década de 90. Mais opiniões nesta semana.</div>
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<div><span style="font-size:medium;">poema Surto de Volúpia Possessiva no blog </span><a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com/" target="_blank"><span style="font-size:medium;color:#810081;">http://pedrolago.blogspot.com</span></a></div>
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<div><span style="font-size:medium;"> AZUL CLARO</span></div>
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<div><span style="font-size:medium;">A excelência da manhã clara que é bebê acordando</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Que desperta a mãe que nunca está desligada</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Tempo de poucas palavras e olhares amarfanhados</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">De quem sonhou há tão pouco que ainda</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">De um pouco sonha estando ronronado pelo</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Sol que encosta pela fresta da janela que</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Empresta um calor que é brinquedo, ursinho</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">De criança, em casa bem guardada.</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">O cheiro do chá e da banana amassada em</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Mel. O pão e a geléia caseiros alguns estalam</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Um ovo ou mais um fruta e infelizmente</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">O mundo ganha juízo. Já não é tempo do</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Despertar na manhã azul: é agir pois</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Todos são chamados por um nome e profissão.</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">O tempo tão lento do espreguiçar do abrir</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">O jornal sem ler do membro rijo sem querer</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Da primeira vez de ir ao banheiro do escovar</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Os dentes do primeiro beijo selinho do apenas</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Encostar as mãos&#8230; e se este tempo não dura</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Para sempre ele retorna tantas vezes que sem</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Preocupação pode despertar e dizer bom-dia passarinho</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Bom-dia manga madura na árvore pronta para</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Ser chupada bom-dia Esperança que amassou a</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Banana e fez o chá e ainda fará bolinhos de</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Arroz no almoço. Bom-dia até para o trabalho pois</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Todos são chamados por um nome e profissão</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">A minha é descrever bom-dia para lembrar quando</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Dias menos claros quando em humores desgastados</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Que também há o despertar com raiva com dor na </span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Coluna brigado com quem ama sem cheiro de chá</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Com ar de sumiço. E se o abrir de uma página transformar</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">O maxilar rijo num sorriso, encostarei minhas pontas</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Dos dedos no chão &#8211; desdobrados braços e coluna -</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Finalizando o reverente cumprimento: estarei lisonjeado,</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Cumpri minha tarefa! Carregar palavras que são</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Mastros e entrar em seu silêncio que é espaço imenso</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">De sol e frio amor de sobra e falta de Esperança.</span></div>
<div> </div>
<div>
<div>Guilherme acha que não existe diferença entre prosa e poesia. Suas proposições provam isso. Há textos/poemas essencialmente prosaicos, assim como em outras formas. Guilherme não consegue dissociar a vida pessoal da obra, apesar de não concordar com sua primeira afirmativa, nesta última estou por completo. Ser assim causa muita estranheza entre poetas, o que Guilherme adora, pois a provocação, direta ou indireta, é um dos grandes &#8220;efeitos&#8221; que sua poesia causa.</div>
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<div><span style="font-size:medium;">PRA LÁ DOS 70</span></div>
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<div><span style="font-size:medium;">Envelhecendo com dignidade, convivendo com as</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Doenças, seja a diabete, que deixa minhas pernas</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Negras, o coração de mudanças de ritmo e de humor,</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">O pulmão com água. Envelhecendo e esperando a</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Morte. Sem revolta. Comendo de tudo. Tudo é</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Proibido. Sonhando com viagens que não posso</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Executar. O médico manda exames, às vezes os</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Faço, às vezes nem envio de volta: ficam no armário</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Canetas, relógios, fotos de família, contas já pagas e</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Várias pílulas, todas as cores, chego a tomar 17 ou</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Mais por dia. Se estou com raiva não olho a</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Prescrição. Esqueço. O que mais pode me acontecer</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Morrer? Já nem sei o que é isto. Estou tão próximo</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Da morte que ela já nem existe. Estou dentro do</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Enlace da morte. Eu quero é que se foda. Desculpem-me.</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Envelheço com dignidade.</span></div>
<div> </div>
<div>Creio que Guilherme é muito pouco lido. As pessoas se prendem na sua figura folclórica e controversa e não veem o que diz. Guilherme esteve presente na antologia Esses poetas, de Heloisa Buarque de Holanda, um tentativa de continuar com o acerto de <em>26 poetas hoje</em>, livro que revelou grandes poetas. Há quem diga que o livro não foi bem aceito, eu acho-o importante e deve ser lido pois é grupo interessante. Guilherme foi poeta nos anos 90, década um pouco confusa no quadro das artes, mas que teve suas jóias.</div>
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<div><span style="font-size:medium;">BRASÍLIA</span></div>
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<div><span style="font-size:medium;"></span><span style="font-size:medium;"> </span></p>
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<div>Conheci Guilherme Zarvos no Bar do Mineiro em Santa Tereza. Estava frio e logo me peguei com raiva dele por discordar de minhas idéias. Ele achava a fase figurativa do Antonio Dias melhor, era mais política. Hoje entendo. Guilherme disse que me faltava malícia, perversão, essa foi a palavra. Um ano depois, o procurei para ler meus poemas. Foi por causa que Guilherme que li Eliot a primeira vez. Pound, Bruno Tolentino, Konstantinos Kaváfis, Kant, Lorca e um que se tornou meu grande amigo, Paulo Fichtner. Esta é a homenagem que faço ao socrático e velho de guerra Guilherme Zarvos. Isso aí.</div>
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<div><span style="font-size:medium;">PAULO</span></div>
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<div><span style="font-size:medium;">Esperei 40 anos para ter 4 meses de felicidade. Espera-</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">ria outros 40.</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Duvidei do Ser aceito, quase da (di) vida: delirei de-</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">batendo-me: tinha certeza &#8211; como quem ora profundo</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">ou soleia carvão ou pedra quentes.</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Enxergar dormir acordar sorrir, meu anjo, meu homem,</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">me apraz + do que minha vida. + que amor, a palavra</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">é comunhão: pão queijo leite e café.</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Nunca duvidei do amor, nunca duvidaria.</span></div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;">Eu tinha certeza(?) E se tivesse de esperar outros 40 eu</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">morreria(?) 160 dias de felicidade valeram 12.000 de es-</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">pera(?) Quantos 1000 + esperaria(?) Valeria -</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">não vou duvidar, já que tenho.</span></div>
<div> </div>
<div>
<div>Eis que chegamos ao final de mais uma antologia poética. Espero que tenham gostado de conhecer a poesia deste controverso, polêmico, político e sensível poeta que é o Guilherme Zarvos. Mudança de linguagem, trazer a poesia para o relato pessoal, não separar a vida do artista de sua obra, verdade nua e crua, irreverência, humor e muito tapa na cara, está é a poesia de Guilherme. Na semana que vem entraremos em um outro universo poético, com outras proposições, outras linguagens, enfim, outros poemas. Ou como diria o Mario Quintana, &#8220;todos os poemas são o mesmo poema&#8221;. Até.</div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;">poema Momento Íntimo no blog </span><a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com/" target="_blank"><span style="font-size:medium;">http://pedrolago.blogspot.com</span></a><span style="font-size:medium;"> </span></div>
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<div><span style="font-size:medium;">POETA</span></div>
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<div><span style="font-size:medium;">Quando a morte me levar, suave suave descanso,</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">quando a dita aconchegar, tragédia para uns poucos,</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">lembrança no ar (não há). Quando o cinza, o branco</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">desfocado, o negro do sonho, quando, talvez, morrer</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">e ver tudo colorido, poucas vezes sonhei colorido,</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">quando, como disse a senhora retornando do coma -</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">tudo é tranquilo, a morte é como esquecer para sempre</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">- sorvo mais duas latas e aspiro alguma substância</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">tóxica; só queria ser um velho culto a contar bobagens</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">como o meu primeiro beijo de língua ou mergulho na</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">cachoeira. Nunca menti seu desgraçado. Sempre </span></div>
<div><span style="font-size:medium;">cumpri as ordens da nação. Ser repetitivo o apaixonado</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">e não espero que muitos me leiam. Tão educado</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">menininho.</span></div>
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<br />Publicado emTODOS OS POETAS AQUI  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/cartilhadepoesia.wordpress.com/24/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/cartilhadepoesia.wordpress.com/24/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/cartilhadepoesia.wordpress.com/24/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/cartilhadepoesia.wordpress.com/24/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/cartilhadepoesia.wordpress.com/24/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/cartilhadepoesia.wordpress.com/24/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/cartilhadepoesia.wordpress.com/24/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/cartilhadepoesia.wordpress.com/24/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/cartilhadepoesia.wordpress.com/24/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/cartilhadepoesia.wordpress.com/24/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/cartilhadepoesia.wordpress.com/24/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/cartilhadepoesia.wordpress.com/24/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/cartilhadepoesia.wordpress.com/24/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/cartilhadepoesia.wordpress.com/24/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=24&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>Poetas Barrocos Brasileiros</title>
		<link>http://cartilhadepoesia.wordpress.com/2009/10/09/poetas-barrcos-brasileiros/</link>
		<comments>http://cartilhadepoesia.wordpress.com/2009/10/09/poetas-barrcos-brasileiros/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 09 Oct 2009 16:31:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cartilhadepoesia</dc:creator>
				<category><![CDATA[TODOS OS POETAS AQUI]]></category>

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		<description><![CDATA[BENTO TEIXEIRA   Neste mês estudaremos a poesia feita no Brasil no período barroco. Vamos da contextualização histórica até a biografia de quatro poetas mais significativos: Bento Teixeira, Manuel Botelho de Oliveira, Gregório de Matos e Sebastião da Rocha Pita. O barroco no Brasil tem inicio &#8220;oficialmente&#8221; no século XVII, entretanto, na poesia, é em Bento Teixeira [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=20&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div>BENTO TEIXEIRA</div>
<div> </div>
<div>Neste mês estudaremos a poesia feita no Brasil no período barroco. Vamos da contextualização histórica até a biografia de quatro poetas mais significativos: Bento Teixeira, Manuel Botelho de Oliveira, Gregório de Matos e Sebastião da Rocha Pita. O barroco no Brasil tem inicio &#8220;oficialmente&#8221; no século XVII, entretanto, na poesia, é em Bento Teixeira que se dá o primeiro movimento. Bento Teixeira nasceu no Porto em 1561 e veio ao Brasil aos cinco ou seis anos em companhia dos pais. Bento estudou com os padres da Companhia de Jesus (que explicaremos depois) e seguiu para o Rio de Janeiro onde estudou a obra dos escritores latinos e teologia com os jesuítas. Segue para Bahia, casa-se, então segue para Olinda onde mantém uma escola.</div>
<div> </div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;">texto Amores Sempre no blog </span><a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com/" target="_blank"><span style="font-size:medium;">http://pedrolago.blogspot.com</span></a></div>
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<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">PROSOPOPÉIA I e II</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Cantem Poetas o Poder Romano,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Submetendo Nações ao jugo duro;</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">O Mantuano pinte o Rei Troiano,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Descendo à confusão do Reino escuro;</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Que eu canto um Albuquerque soberano,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Da fé, da cara Pátria firme muro,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Cujo valor e ser, que o Céu lhe inspira,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Pode estancar a Lácia e Grega lira.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">As Délficas irmãs chamar não quero,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que tal invocação é vão estudo;</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Aquele chamo só, de quem espero</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">A vida que se espera em fim de tudo.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Ele fará meu Verso tão sincero,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Quanto fora sem ele tosco e rudo,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Que per rezão negar não deve o menos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Quem deu o mais a míseros terrenos.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>Consta que Bento Teixeira  nos autos de seu processo no Santo Ofício, em Lisboa, &#8220;ensinou mais de 60 moços por espaço de dois anos e pouco mais ou menos&#8221;. Em 1593 ou 94, mata a esposa Felipa Raposa, com que se casara na Bahia, por ter-se &#8220;adulterado com muitos homens&#8221;, e &#8220;tinha pouca emenda&#8221;. Recebeu ordem de prisão pelo Santo Ofício em 19 de agosto de 1595 por práticas judaicas, que acabou por confessar  em 1597. O poeta foi considerado herege apóstata pela Igreja Católica.</div>
<div> </div>
<div><a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com/" target="_blank"><span style="color:#810081;">http://pedrolago.blogspot.com</span></a></div>
<div> </div>
<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">DESCRIÇÃO DO REFICE DE PARANAMBUCO</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Para a parte do Sul, onde a pequena</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Ursa se vê de guardas rodeada,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Onde o Céu luminoso mais serena,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Tem sua influição, e temperada.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Junto da nova Lusitânia ordena</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">A natureza, mãe bem atentada,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Um porto tão quieto, e tão seguro,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Que para as curvas Naus serve de muro.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">É este porto tal, por esta posta,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Uma cinta de pedra, inculta, e viva,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Ao longo da soberba e larga costa,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Onde quebra Netuno a fúria esquiva.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Entre a praia, e pedra descomposta,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">O estanhado elemento se deriva</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Com tanta mansidão, que uma fateixa</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Basta ter à fatal Argos aneixa.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">obs: Nova Lusitânia foi o nome inicial da Capitania de Pernambuco;</div>
<div style="text-align:left;">Argos é o nome do navio conduzido por Jasão e outros heróis chamados de argonautas, que se dirigiram à Cólquida em busca de Tosão de Ouro.</div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>O poema <em>Prosopopoéia</em>, de Bento Teixeira é um pequeno poema épico, composto de 94 estrofes em oitava de rima, que por sua vez consiste em estrofes de oito versos, composta de seis versos de rimas alternadas e os dois último versos com rimas emparelhadas nesta ordem &#8220;abababcc&#8221;, ao melhor estilo  d<em>&#8216;Os Lusíadas</em>. O poema celebra os primeiros donatários da capitania de Pernambuco, sendo dedicado a Jorge de Albuquerque Coelho (1539-1598). A magnânime obra de Camões foi o grande molde para a produção da época, como vemos agora e veremos mais adiante.</div>
<div> </div>
<div> </div>
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<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">CANTO DE PROTEU XII &amp; XIII</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Pelos ares retumbe o grave acento</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">De minha rouca voz, confusa e lenta,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Qual trovão espantoso e violento</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">De repentina e hórrida tormenta;</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Ao Rio de Aqueronte turbulento,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Que em sulfúreas borbulhas arrebenta,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Passe com tal vigor, que imprima espanto</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Em Minos rigoroso e Radamento.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">De lanças e d&#8217;escudos encantados</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Não tratarei em numerosa Rima,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Mais de Barões Ilustres afamados,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Mais que quantos a Musa não sublima.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Seus heróicos feitos extremados</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Afinarão a dissoante prima,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Que não é muito tão gentil sujeito</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Suprir com seus quilates meu defeito.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">Minos é o mítico rei de Creta, filho de Zeus e Europa. Por sua sabedoria e justiça, Minos tornou-se após a morte um dos três juízes do Inferno, ao lado de Éaco e Radamento.</div>
<div style="text-align:left;">Radamento é irmão de Minos, também se tornou após a morte um dos juízes do Inferno.</div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div style="text-align:left;">É clara a influência das lendas gregas e romanas na poesia de Bento Teixeira. No prólogo do poema Prosopopéia (este que estamos usando como base) há uma citação da Arte Poética do romano Horácio que diz &#8220;<em>Pictoribus atque poetis quid libet audendi semper fuit aequa potestas</em>&#8221; ou seja, &#8220;<em>a pintores e a poetas sempre se permitiu o mesmo poder de ousar</em>&#8220;. Mais adiante, na obra de outros poetas barrocos, as referências gregas e romanas estarão presentes, aqui, está Hércules, ou Héracles.</div>
<div> </div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;">poema <em>Pensando</em> no blog </span><a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com/" target="_blank"><span style="font-size:medium;color:#810081;">http://pedrolago.blogspot.com</span></a></div>
<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">CANTO DE PROTEU XXIV &amp; XXV</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"> <br />
</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Não quero no meu Canto alguma ajuda</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Das nove moradoras de Parnaso,</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Nem matéria tão alta quer que aluda</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Nada ao essencial deste meu caso.</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Porque, dado que a forma se me muda,</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Em falar a verdade serei raso,</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Que assim convém fazê-lo quem escreve,</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Se à justiça quer dar o que se deve.</span></div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;">A fama dos antigos coa moderna</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Fica perdendo o preço sublimado:</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">A façanha cruel, que a turva Lerna</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Espanta com estrondo d&#8217;arco armado:</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">O cão de três gargantas, que na eterna</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Confusão infernal está fechado,</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Não louve o braço de Hércules Tebano,</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Pois procede Albuquerque soberano.</span></div>
<div> </div>
<div>Hidra de Lerna, morta por Hércules no segundo de seus doze trabalhos, a serviço de seu primo Euristeu.</div>
<div>O cão de três gargantas é Cérbero, guardião do Inferno. O 11º Trabalho de Hércules consistia em trazer o cão para seu primo Euristeu.</div>
<div> </div>
<div> </div>
<div>
<div>Bento Teixeira morreu no ano de 1600, após o Santo Ofício tê-lo encontrado &#8220;<em>em cama com febre tendo lançado algum sangue pela boca</em>&#8220;, sendo anotado na capa dos autos do processo a seguinte informação: &#8220;<em>é falecido Bento Teixeira e faleceu andando com a penitência em o fim de Julho de 1600</em>&#8220;. Bento foi o primeiro poeta &#8221;brasileiro&#8221; barroco, que viria depois com mais ênfase e expansão ao longo do século XVII, pelas mãos de um grande artesão e pelas penas de outros poetas que veremos mais adiante.</div>
<div> </div>
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<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">CANTO DE PROTEU XCIII &amp; XCIV</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Assim diz; e com alta Majestade</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">O Rei do Salso Reino, ali falando,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Diz: &#8211; Em satisfação da tempestade</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Que mandei a Albuquerque venerando,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Pretendo que a mortal posteridade</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Com hinos o ande sempre sublimando,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Quando vir que por ti o foi primeiro,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Com fatídico esp&#8217;rito verdadeiro.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Aqui deu [fim] a tudo, e brevemente</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Entra no carro [de] cristal lustroso;</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Após dele a demais cerúlea gente</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Cortando a via vai do Reino aquoso.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Eu que a tal espetáculo presente</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">estive, quis em verso numeroso</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Escrevê-lo, por ver que assim convinha</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Para mais perfeição da Musa minha.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">Rei do Salso Reino é Netuno</div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">GREGÓRIO DE MATOS</div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>Continuando os estudos sobre a poesia barroca brasileira. Gregório de Matos nasceu em Salvador, Bahia, possivelmente em 1636 (outros biógrafos apontam 1623 ou 1636), em uma família abastada de proprietários da admnistração colonial. Estudou nos colégios jesuítas e, posteriormente, prossegue os estudos em Coimbra, sendo graduado em Cânones (como se chamava o estudo de Teologia na época) no ano de 1661 e casa-se com D. Micaela de Andrade, de uma família de magistrados. Gregório merece um estudo mais aprofundado, mas somente nesta semana veremos quem foi o Boca de Inferno.</div>
<div> </div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;">poema &#8216;Descrição em Blues&#8217; no blog </span><a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com/" target="_blank"><span style="font-size:medium;color:#810081;">http://pedrolago.blogspot.com</span></a></div>
<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">DESCREVE O QUE ERA REALMENTE NAQUELE TEMPO A CIDADE DA BAHIA DE MAIS ENREDADA POR MENOS CONFUSA</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<dl>
<dd>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">A cada canto um grande conselheiro. </span></div>
</dd>
<dd>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que nos quer governar cabana, e vinha, </span></div>
</dd>
<dd>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">não sabem governar sua cozinha, </span></div>
</dd>
<dd>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e podem governar o mundo inteiro. </span></div>
</dd>
</dl>
</div>
<dl>
<dd>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Em cada porta um freqüentado olheiro, </span></div>
</dd>
<dd>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que a vida do vizinho, e da vizinha </span></div>
</dd>
<dd>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha, </span></div>
</dd>
<dd>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">para a levar à Praça, e ao Terreiro. </span></div>
</dd>
</dl>
<dl>
<dd>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Muitos mulatos desavergonhados, </span></div>
</dd>
<dd>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">trazidos pelos pés os homens nobres, </span></div>
</dd>
<dd>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">posta nas palmas toda a picardia. </span></div>
</dd>
</dl>
<dl>
<dd>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Estupendas usuras nos mercados, </span></div>
</dd>
<dd>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">todos, os que não furtam, muito pobres, </span></div>
</dd>
<dd>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e eis aqui a cidade da Bahia. </span></div>
</dd>
<dd> </dd>
</dl>
</div>
<p> Gregório de Matos exerce vários cargos em Portugal e fica viúvo em 1678. Em 1679, é nomeado por D. Gaspar Barata de Mendonça para desembargador da Relação Eclesiástica da Bahia e, em 1682, tesoureiro a tonsura (ordens menores), no ano de 1681, é destituído, pelo Arcebispo D. Fr. João da Madre de Deus, dos cargos à cúria baiana, por não querer usar batina e por não aceitar a imposição das ordens maiores necessárias para o exercício das suas funções junto ao arcebispado. Começa a escrever poemas satíricos.</p>
<div> </div>
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<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">QUEIXA-SE O POETA EM QUE O MUNDO VAI ERRADO, E QUERENDO EMENDÁ-LO TEM POR EMPRESA DIFICULTOSA</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Carregado de mim ando no mundo,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E o grande peso embarga-me as passadas,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Que como ando por vias desusadas,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">O remédio será seguir o imundo</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Que as bestas andam juntas mais ornadas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Do que anda só o engenho mais profundo.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Nâo é fácil viver entre os insanos,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Erra, quem presumir, que sabe tudo,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Se o atalho não soube dos seus danos.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">O prudente varão há de ser mudo,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Que é melhor neste mundo o mar de enganos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Ser louco cos demais, que ser sisudo.</span></div>
<p> </p>
<div>A vida de Gregório de Matos merece um estudo mais aprofundado, porém, podemos ressaltar sua postura perante à Igreja, os problemas que enfrentou por ser considerado &#8220;herege&#8221;; a fama de &#8220;Boca do Inferno&#8221; ou &#8220;Boca de Rasa&#8221; e seu estilo satírico. Quanto a isto, vale lembrar que esta caracterítica apareceu depois do envolvimento com os &#8220;deveres&#8221; da Igreja, pois Gregório de Matos também apresenta uma linha lírica muito interessante. Por isso a necessidade do estudo, porém aqui, falamos do barroco, portanto, outros poetas também.</div>
<div> </div>
<div> </div>
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<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">NESTE RETIRO DEVEMOS SUPOR O POETA CONSULTADO DE VÁRIOS AMIGOS COM ALGUNS ASSUNTOS PARA RESOLVER, E ASSIM PROSSEGUIREMOS COM AS OBRAS SEGUINTES.</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Fábio; que pouco entendes de finezas.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Quem faz só, o que pode, a pouco obriga;</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Quem contra os impossíveis se afadiga,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">A esses se dê amor em mil ternezas.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Amor comete sempre altas empresas;</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Pouco amor muita sede não mitiga;</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Quem impossíveis vence, este me instiga</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Vencer por ele muitas estranhezas.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">As durezas da cera o sol abranda,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E da terra as branduras endurece,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Atrás do que resiste, o raio se anda.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Quem vence a resistência, se enobrece,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Quem pode, o que não pode, impera, e manda;</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Quem faz mais do que pode, esse merece.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">Consta que Gregório de Matos morreu em 1696 após uma febre contraída em Angola. O poeta recebera a permissão de voltar ao Brasil após tantas acusações de heresia, por ter colaborado em uma conspiração militar. Assim vai para o Recife. Fato interessante: Gregório de Matos, em seu leito de morte, pede que dois padres venham à sua casa e fiquem cada um de um lado de seu corpo e, representando a si mesmo como Jesus Cristo, alega &#8220;<em>estar morrendo entre dois ladrões, tal como Cristo ao ser crucificado</em>&#8220;. Semana que vem outro poeta barroco.</div>
<div> </div>
<div> </div>
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<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">A UMAS SAUDADES</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">Mote</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"><em><span style="font-size:medium;">Parti, coração, parti,</span></em></div>
<div style="text-align:center;"><em><span style="font-size:medium;">navegai sem vos deter,</span></em></div>
<div style="text-align:center;"><em><span style="font-size:medium;">ide-vos, minhas saudades,</span></em></div>
<div style="text-align:center;"><em><span style="font-size:medium;">a meu amor socorrer.</span></em></div>
<div style="text-align:center;"><em> </em> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Pelo mar do meu tormento,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">em que padecer me vejo,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">já que amante me desejo</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">navegue meu pensamento:</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">meus suspiros formem vento,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">com que me faças ir ter,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">onde me desejo ver,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e diga minha alma assi,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Parti, coração parti,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">navegai sem vos deter.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Ide onde meu amor</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">apesar desta distância</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">nem há perdido a constância,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">nem há admitido rigos:</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">antes mais superior</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">assim se quer exceder,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">porém se desfalecer</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">em tantas adversidades,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Ide-vos minhas saudades</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">a meu amor socorrer.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">MANUEL BOTELHO DE OLIVEIRA</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>Manuel Botelho de Oliveira nasceu em Salvador no ano de 1636. Estudou direito em Coimbra. Ao voltar ao Brasil, exerceu advocacia e foi vereador em Salvador. Foi um contemporâneo de Gregório de Matos com quem teria convivido. Fato interessante: <em>Música de Parnaso</em> tornou-se o primeiro livro impresso de autor nascido no Brasil. Os poemas desta semana serão todos deste livro. Manuel também foi poeta barroco, já no meio de seu desenvolvimento.</div>
<div> </div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;">poema Tarde no blog </span><a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com/" target="_blank"><span style="font-size:medium;">http://pedrolago.blogspot.com</span></a></div>
<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">ANARDA INVOCADA</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Invoco agora Anarda lastimado</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Do venturoso, esquivo sentimento:</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Que quem motiva as ânsias do tormento,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">É bem que explique as queixas do cuidado.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Melhor Musa será no verso amado,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Dando para favor do sábio intento</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Por Hipocrene o lagrimoso alento,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E por louro o cabelo venerado.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Se a gentil formosura em seus primores</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Toda ornada de flores se avalia,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Se tem como harmonia seus candores;</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Bem pode dar agora Anarda impia</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">A meu rude discurso cultas flores,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">A meu plectro feliz doce harmonia.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>O livro <em>Música de Parnaso</em> está dividido em quatro coros, sendo apenas o primeiro composto de versos em português, pois os três restantes trazem poemas em espanhol, italiano e latim. <em>À Ilha da Maré,</em> incluído no livro, é um poema longo e considerado por muitos como um dos primeiros exemplos do nativismo na literatura brasileira. Veremos depois alguns trechos do poema. Manuel também conviveu com Padre Antônio Vieira, a quem lhe dedica belo soneto.</div>
<div> </div>
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<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">AO SONO</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Quando em mágoas me vejo atribulado,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Vem, sono, a meu desvelo padecido,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Refrigera os incêndios do sentido,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Os rigores suspende do cuidado.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Se no monte Cimério retirado</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Triste lugar ocupas, te convido</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Que venhas a meu peito estristecido,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Porque triste lugar se tem formado.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Se querem noite escura teus intentos,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E se querem silêncio; nas tristezas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Noite, e silêncio têm meus sentimentos:</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Porque triste, e secreto nas ternezas,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">É meu peito uma noite de tormentos,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">É meu peito um silêncio de finezas.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>Raphael Bluteau define madrigal como &#8220;uma casta de verso, como ramo de silva, consta de versos pequenos e grandes; umas vezes com consoantes inperpolados e outros seguidos. É poesia pastoril. Madrigal vem de <em>mandra</em>, que no latim e no grego quer dizer curral, ou gado junto; madrigais eram cantigas de pastores&#8221;. Outros autores são mais românticos, dizem que vem de madrugar, porque cantava-se os madrigais nas madrugadas para as amadas ao pé da janela. Já Olavo Bilac diz que &#8220;de origem italiana, o madrigal era, no século XVI, uma espécie de composição destinada a exprimir, num resumido número de versos, um pensamento espirituoso e elegante, um elogio discreto ou uma discreta confissão de amor. Concisão, graça e delicadeza são as suas qualidades essenciais&#8221;. Esse é o Bilac.</div>
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<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">MADRIGAIS</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">I &#8211; Navegação Amorosa</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">É meu peito navio,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">São teus olhos o Norte,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">A quem segue o alvedrio,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Amor Piloto forte;</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Sendo as lágrimas mar, vento os suspiros,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">A venda velas são, remos seus tiros.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">II &#8211; Pesca Amorosa</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Foi no mar de um cuidado</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Meu coração pescado;</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Anzóis os olhos belos;</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">São linhas teus cabelos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Com solta gentileza,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Cupido pescador, isca a beleza.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">III &#8211; Naufrágio Amoroso</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Querendo meu cuidado</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Navegar venturoso,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Foi logo soçobrado</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Em naufrágio amoroso;</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E foram teus desdéns contrário vento,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Sendo baixo o meu vil merecimento.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>Manuel Botelho de Oliveira morreu em Salvador no ano de 1711. Seu poema <em>Lira Sacra</em>, extenso conjunto de poemas de teor religioso, permaneceu oculto até a segunda metade do século XX, quando em 1971, foi publicado por Heitor Martins. Este foi nosso terceiro poeta barroco. Semana que vem o último poeta que representa melhor esse período da poesia brasileira, o primeiro momento da nossa poesia.</div>
<div> </div>
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<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;">PONDERAÇÃO DA VIDA HUMANA</span></div>
<div> </div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;">Homem que queres?  Vida regalada;</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Vida que solicitas?     larga idade;</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Idade que procuras?   liberdade;</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Liberdade que logras?   prenda amada;</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Prenda que conta fazes?    conta errada;</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Conta que somas já?    pouca verdade;</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Verdade que descobres?   a vaidade;</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Vaidade que pretendes?   tudo e nada;</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Tudo que ganhos dá?   perda notória;</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Perda que vem a ser?   de Deus eterno;</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Deus que a vida nos presta?    transitória;</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Transitória que aspira?   ao Céu superno;</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Céu que nos oferece?    a eterna glória;</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">Glória que nos evita?    o triste inferno.</span></div>
<div> </div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;">SEBASTIÃO DA ROCHA PITA</span></div>
<div> </div>
<div>
<div>Sebastião da Rocha Pita nasceu em Salvador em 1660. Estudou no Colégio dos Jesuítas conquistanto título de mestre das artes. Ocupou alta posição social e fez fortuna com a cultura da cana-de-açucar. Foi membro do Senado da Câmara em 1687 e recebeu o título de coronel das Ordenanças da Corte em 1694. Será nosso último poeta do período barroco a ser estudado.</div>
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<div><span style="font-size:medium;">texto O Belo no blog </span><a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com/" target="_blank"><span style="font-size:medium;">http://pedrolago.blogspot.com</span></a></div>
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<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">SONETO JOCOSO</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Pondero a emudecida formosura</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">De Fília, sem temer que impertinente</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Possa, no meu soneto, meter dente,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Pois carece de toda a dentadura.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Se, por cobrir a falta, esta escultura</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Tão muda está que não parece gente,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Estátua de jardim será somente,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Se de pano de raz não for figura.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">O Senhor Secretário quer que a creia</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Bela sem dentes; eu lho não concedo:</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Desdentada é pior do que ser feia,</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E em silêncio só pode causar medo,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Ser relógio do sol para uma aldeia,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Para um povo estafermo do segredo.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>D. João II (1455 &#8211; 1495), foi rei de Portugal de 1481 até sua morte, foi chamado &#8220;O Príncipe Perfeito&#8221; devido à forma como governava. Grandes navegações foram realizadas sob o seu reinado, que culminariam com a chegada de Vasco da Gama à Índia em 1498. Os poemas enaltecendo figuras públicas e à Igreja eram bastante regulares no século XVII e XVIII em Portugal e, consequentemente, no Brasil. Vale lembrar que foi contra isso que Bocage se voltara no século XVIII em Portugal, e aqui, Gregório de Matos no século XVII.</div>
<div> </div>
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<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">GLORIAVA-SE O SENHOR REI DOM JOÃO II DE VER OS SEUS VASSALOS, ASSUNTO HERÓICO DA NOSSA ACADEMIA BRASÍLICA</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Aquele a quem mais cultos dá o respeito,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">O Segundo João de imenso brado,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Pelas vozes da fama proclamado</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Perfeito Rei, e Príncipe perfeito.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">As ações dos vassalos, e o conceito,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Com ânimo real, augusto agrado,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Para os prêmios trazia no cuidado,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Para as estimações tinha no peito.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">De ver aos lusitanos se gloriava,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E nesta ação a mesma simpatia</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">No monarca, e vassalos, se apurava.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Mas não sei quem mais glória conseguia:</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Se o Rei, que como lince os penetrava,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Se os vassalos, que como objetos via.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:x-small;">Sebastião da Rocha Pita fazia parte da Academia Brasílica dos Esquecidos. Consta que foi formada com o propósito de coligir informações sobre a Nova Lusitania. Este material seria enviado para a Corte a fim de ser anexado à História de Portugal, que estava sendo redigida pela Academia Real de História Portuguesa. A autodenominação <em>esquecidos</em> veio provavelmente do fato de que nenhum letrado colonial fora chamado para compor os quadros da Academia de História Portuguesa. Os acadêmicos se consideravam abandonados pela metrópole, consideravam que seus talentos intelectuais deveriam receber mais atenção da Corte.<br />
</span></div>
<div><span style="font-size:x-small;"> </span></div>
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<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">CAINDO UM RAIO SOBRE A ESTÁTUA DE APOLO, ASSUNTO HERÓICO DA PRESENTE ACADEMIA</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Fulmina, irado, Júpiter tonante</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Sobre a estátua de Apolo um raio ardente,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Fatal impulso, ação incompetente,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">De um amoroso pai a um filho amante.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Que mistério, que causa relevante,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Teve tão memorável acidente:</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Espedaçar o raio irreverente</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Da luz ao simulacro radiante?</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Se os destroços de imagens tanto dignas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Das próprias divindades são castigos,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Com pasmo das esferas cristalinas,</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Quem pode ter consoantes os abrigos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Quando ao sol não perdoam as ruínas,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Quando até nas deidades há perigos?</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><em><span style="font-size:medium;">O Acadêmico Vago</span></em></div>
<div style="text-align:left;"><em><span style="font-size:medium;">Sebastião da Rocha Pita</span></em></div>
<div style="text-align:left;"><em> </em> </div>
<div style="text-align:left;"><em> </em> </div>
<div style="text-align:left;">Fato histórico: Caio Júlio Cesar (100 a.C &#8211; 44 a.C), foi militar e político romano. Suas vitórias na Gália estenderam o domínio romano até o Oceano Atlântico. Consta que lutou numa guerra civil com a ala conservadora do senado romano, cujo líder era Pompeu; ao vencê-la, tornou-se governante vitalício de Roma. Foi assassinado por um grupo de senadores. Fato que gerou instabilidade e que levou ao fim da República e ao início do Império Romano. Já Cneu Pompeu Magno (106 a.C &#8211; 48 a.C) foi general político romano. Consta que participou do primeiro triunvirato, com Júlio César e Crasso. Com a morte de Crasso e a campanha de Júlio César na Gália, fez-se nomear cônsul único em 52 a.C. Pompeu parte para a Grécia e perde para César em 48 a.C. Foi assassinado no Egito, onde estava refugiado.<br />
 <br />
 <br />
texto Varanda no blog <a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com/" target="_blank">http://pedrolago.blogspot.com</a><br />
 <br />
 <br />
<span style="font-size:medium;">FOI CÉSAR TÃO GENEROSO, QUE CHOROU A MORTE DE SEU INIMIGO POMPEU<br />
 <br />
De Pompeu chora César com verdade<br />
A morte, ação por rara peregrina,<br />
No próprio peito que o furor domina<br />
Achar a compaixão tal liberdade.<br />
 <br />
Porém, nesta maior fatalidade,<br />
Nesta grandeza de um herói mais digna,<br />
Tão injusta em Pompeu foi a ruína,<br />
Como em César inútil a piedade.<br />
 <br />
Dos contrários um morre, e logo atento<br />
Outro a morte lhe chora, raro espanto!<br />
Sem remédio no golpe o sentimento.<br />
 <br />
Mas num correndo o sangue, noutro o pranto,<br />
Muito foi em Pompeu perder o alento,<br />
E César tudo fez em sentir tanto.<br />
</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"></span></div>
<div>Sebastião da Rocha Pita morreu em 1738 aos 78 anos. Assim chegamos ao final de mais uma antologia poética. Neste mês passamos pelo primeiro momento da poesia brasileira, muito lusitana ainda, mas que revelou um nome importante, que considero ter sido o primeiro grande poeta brasileiro, que foi Gregório de Matos. O barroco foi o momento, o lugar propício para o aparecimento desta figura, que, sem me desfazer dos demais, foi quem melhor grifou sua voz naquele momento. Semana que vem entraremos num outro universo poético, outras proposições, outros poemas e outra poesia, ou seria sempre a mesma?</div>
<div> </div>
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<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">UM DELFIM SALVANDO DAS ONDAS, SOBRE AS SUAS ESPALDAS A UM HOMEM.</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Quanto o lírico assunto desta vez</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Nada tem de fecundo, e de eficaz,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Delfim no mar, que dúvida nos faz,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">É mais próprio no mar, que no xadrez.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Porém que homem há, tão fraca rês,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Que um delfim de o suster seja capaz,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Pô-lo em salvo na terra, para trás</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Seguro que o não faço, nem das dez?</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Eu não acho no assunto cor, nem luz,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Com que possa formar algum matiz,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Sequer para pintar um avestruz,</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Que muito pois ignoro o que ele diz;</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Se o assunto conceitos não produz,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Que o soneto não valha dois ceitis.</span></div>
<p> </p>
</div>
</div>
</div>
</div>
</div>
</div>
</div>
</div>
</div>
</div>
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	</item>
		<item>
		<title>Afonso Henriques Neto</title>
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		<pubDate>Fri, 11 Sep 2009 14:37:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cartilhadepoesia</dc:creator>
				<category><![CDATA[TODOS OS POETAS AQUI]]></category>

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		<description><![CDATA[Afonso Henriques de Guimaraes Neto nasceu em Belo Horizonte em 1944. Aos 10 anos, veio para o Rio de Janeiro e depois para Brasília, onde concluiu os estudos fundametais e, posteiormente, a faculdade de Direito. Afonso é filho do poeta Alphonsus de Guimaraes Filho e neto do grande poeta simbolista Alphonsus de Guimaraes. Neste mês entraremos na [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=18&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div>Afonso Henriques de Guimaraes Neto nasceu em Belo Horizonte em 1944. Aos 10 anos, veio para o Rio de Janeiro e depois para Brasília, onde concluiu os estudos fundametais e, posteiormente, a faculdade de Direito. Afonso é filho do poeta Alphonsus de Guimaraes Filho e neto do grande poeta simbolista Alphonsus de Guimaraes. Neste mês entraremos na poesia forte, diria, deste grande poeta contemporâneo. Que desde sua estréia em 1972, publicou cerca de 10 excelentes livros de poesia. Vamos lá.</div>
<div> </div>
<div> </div>
<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">MOMENTO</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Na sala</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">mãos muito brancas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">passam e repassam páginas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">do livro inconsolável.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Na cabeça</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">o vento enorme</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">de todos os poemas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">cristalizando-se em nada.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">No tempo</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">a percepção da eterna</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">derrota</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">sob ressurreições infinitas.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">De repente a borboleta seca</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">voando</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">voando na sala.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Oh dai-nos ao menos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">esse momento úmido</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">de nossas mãos no vazio.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>Afonso Henriques neto estreou no mercado literário com um livro escrito a quatro mãos. <em>Misterioso Ladrão de Tenerife</em>, junto com Eudoro Augusto. Livro cujos poemas abrem esta semana. A capa foi feita pelo artista plástico Luiz Áquila, fato que seria presente em suas outras publicações: a participação de artistas plásticos na elaboração das obras. Como diz o João José de Melo Franco, desde a capa, o título, os poemas, a ordem, no livro, tudo é movimento da mesma orquestração, tudo marcado, afinado e ensaiado para o dia da estréia.</div>
<div> </div>
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<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">TEXTO</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">O texto, escura escama, pesadelo de eternidade,<br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">máscara densa do universo vomitando.</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">O texto, mas não a energia que o pensou,</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">interrogando a simultaneidade absoluta.</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">Há uma esperança nas ruas, nas pedras, no acaso</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">de tudo, uma esperança, uma forma suspensa</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">entre o aparente e a essência, entre o que vemos</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">e a substância, uma esperança, uma certeza talvez</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">de que o rio não se dissolva no mar, de que</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">o ínfimo, o precário, a voz, a sombra,</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">o estalar das carnes na explosão</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">não se dispersem no todo, impensável medusa da inexistência.</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">Há uma luz qualquer sonhando integração, o suposto</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">destino dos ventos, das energias globais, a suposta</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">sabedoria com que o homem fecundou a crosta</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">envenenada do planeta, há uma luz qualquer</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">ensaiando águas pensadas no eterno esvair-se,</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">abstrato expansionário, há uns olhos além</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">da frágil realidade, da terrível matança, da</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">cruel carnificina entre seres pestilentos aquém</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">da fronteira do sonho, um texto além do texto,</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">uma esperança talvez, enquanto somos e nos cumprimos,</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">enquanto somos e nos oxidamos, enquanto</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">somos e prosseguimos.</span><br />
</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"></p>
<div><span style="font-family:Arial,Helvetica;">O avô de |Afonso Henriques Neto foi o poeta simboista Alphonsus de Guimaraes. Creio que grupo que procurou fazer este tipo de poesia aqui no Brasil, foi dos mais notáveis. Ao lado do poeta Cruz e Sousa, Alphonsus conseguiu se desenvolver nesta linguagem tão &#8220;francesa&#8221;. O simbolismo de Valéry e Mallarmé, poesia essencialmente francesa, quando apareceu, notou certa procura nos poetas do Brasil, que buscavam uma saída aos parnasianos, o &#8220;problema&#8221; foi justamente o modernismo que veio depois, impedindo que este tipo de poesia fosse mais marcante em nossa literatura.</span></div>
<div> </div>
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<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">DOS OLHOS DO NÃO</span></div>
<div> </div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;"><span style="font-family:Arial,Helvetica;">se lhes derem Kennedy ou Kruschev ou De Gaulle</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">não acreditem nesta única realidade</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">neste implacável colar de conchas de ar</span></span></div>
<p><span style="font-size:medium;"><span style="font-family:Arial,Helvetica;">se lhes derem os códigos os gestos as modas</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">não acreditem nesta enlatada realidade</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">nesta implacável aranha de invisíveis fios</span></span></p>
<p><span style="font-size:medium;"><span style="font-family:Arial,Helvetica;">se lhes derem a esperança o progresso a palavra</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">não acreditem na imposta realidade</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">na implacável engrenagem das hélices de vácuo</span></span></p>
<div><span style="font-size:medium;"><span style="font-family:Arial,Helvetica;">aprendam a olhar atrás do espelho</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">onde a história jamais penetra</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">a profunda história do não registrado</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">aprendam a procurar debaixo da pedra</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">a estória do sangue evaporado</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">a estória do anônimo desastre</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">aprendam a perguntar</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">por quem construiu a cidade</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">por quem cunhou o dinheiro</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">por quem mastigou a pólvora do canhão</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">para que as sílabas das leis fossem cuspidas</span><br />
<span style="font-family:Arial,Helvetica;">sobre as cabeças desses condenados ao silêncio.</span><br />
</span></div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;"></p>
<div>O pai de Afonso Henriques Neto é o notável poeta Alphonsus de Guimaraes Filho. Alphonsus morreu em 2008 com 95 anos. Poeta místico, católico, não poderia dizer o quanto e como influenciou a obra do filho, visto que tal argumento seria meramente especulativo. Entretanto, cabe dizer que o poeta gostava muito do que o filho escrevia, posso dizer isso em virtude de um lindo poema do dedicado a ele. Afonso cresceu neste meio de poetas, bons poetas, o que lhe facilita o caminho e clareia a vocação.</div>
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<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">QUANDO O SOL</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">quando o sol tornar a colorir a figueira da montanha</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">aves iluminadas estarão cantando em teu silêncio.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">escutarás então o inexistente tempo</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">fluindo sob o peso morno das lágrimas:</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">sob sob.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">quando o sol tocar o vento</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e os longos dedos de gelo</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">coçarem a pele da manhã</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">incendiando os galos e os cabelos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">das árvores e montanhas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">dos caracóis e cachoeiras</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">quando o sol puxar entre os dentes</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">o interno verbo de todas as galáxias</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">altas redes de vento e luz e infinito</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">saberás que atrás de cada tortura</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">de cada assassínio</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">de toda a impostura</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">detrás de cada negação ou falsificação</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">do humano manancial</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">o olhar da vida</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">o permanente olhar da vida</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">sempre ardeu como um grito saltando do pó do avesso do ódio</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">dos ossos das sepulturas dos cárceres do rosto vazio e</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">implacável.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div><span style="font-size:x-small;font-family:Arial;">Assim como outros bons poetas de sua geração, Afonso se tornou mais conhecido em virtude da antologia <em>26 Poetas Hoje</em>, organizada por Heloisa Buarque de Hollanda. Nesta notória antologia, nomes como Ana Cristina Cesar, Cacaso, Chacal, Torquato Neto e outros notáveis poetas da, assim chamada, geração mimeógrafo, apareceram. Apesar de algumas controvérsias, o livro se tornou um marco desta geração, fazendo assim surgir um novo grupo, um novo &#8220;rumo&#8221; para a poesia daquela época. Tempos depois, nos anos noventa, a mesma tentativa fora feita por Heloisa, porém sem a mesma repercussão. Geração igual aquela, dificilmente haverá.</span></div>
<div> </div>
<div> </div>
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<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">MAIS UMA VEZ</span></div>
<div> </div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">o menino chora no meio da noite</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">no meio da praça</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">no meio do coração.</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">o menino chupa laranjas e abismos</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">as bombas caem.</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">está sozinho no meio do oceano</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">no meio de cem milhões</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">no meio do infinito.</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">o menino desenha navios submersos</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">enquanto mais uma vez</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">o povo é saqueado.</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">o menino chora sob um turbilhão</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">de cavalos em febre</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">sob uma teia de equívocos e fracassos.</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">estamos no meio da noite barroca</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">no meio da praça</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">onde os tiranos engolem o ouro</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">no meio do coração torturado</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">por mil punhais envenenados</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">e um punho de sombra redigindo leis imóveis.</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">o menino uiva um labirinto</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">(não há pai nem mãe</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">nem lembrança de ternura</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">para consolar o pranto).</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">o menino uiva uma farpa de cristal</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">um relâmpago de estrelas podres</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">o abandono definitivo</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">(não há luz no quarto</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">onde o menino chora</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">sob um fedor de sinfonia</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">estarrecida).</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">no meio da fome</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">no meio da morte</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">no meio do coração.</span></div>
<div> </div>
<div> </div>
<div>
<div><span style="font-size:x-small;font-family:Arial;">Afonso Henriques Neto pensa que a &#8220;<em> a poesia ‘vende pouco’, nada tendo que ver com o universo da comunicação de massa: no poema circula uma linguagem rarefeita, uma língua sem traduções nítidas, delírio a dançar o infinito (mesmo que seja só jogo…). Portanto, penso que o poeta não deve se preocupar em excesso com a retórica imbecilizante de toda a comunicação de massa (ela estará sempre presente em todas as mídias, na sociedade do dinheiro/espetáculo, no discurso do mesmo, da redundância): o poeta precisa é afiar as suas armas e gastar a sua energia na produção de uma obra que valha a pena. Pois todo mundo sabe que a arte ajuda demais na construção do sentido/caminho para uma vida mais rica, mais plena.&#8221;</em> Mais opiniões do poeta nesta semana.</span></div>
<div> </div>
<div>  </div>
<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">TERCEIRAS MARGENS</span></div>
<div> </div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">me canso de vez desse teu jeito de poeta metafísico</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">de navegador de intrincado torto lirismo</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">porto de ar aonde vão ter os silêncios</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">de que se armam os gestos para a navegação sem rota</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">canso-me por todos os nervos desse pobre</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">teu ar pedante e prosaico</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">a pisar o mesmo chão dos mesmos ossos insolúveis</span></div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">cansei-me de kant de joyce de cabral de pessoa</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">me cansei da repetição desse eterno sempre passado</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">a espreitar atrás da sensação e do idiota e do imprestável</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">quero que se fodam o verso solto e o empolado</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">a imagem de lã o provérbio alado</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">qualquer um dos lados por onde pensa sorrir</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">teu manco roto discurso entanto límpido</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">pois que é só cansaço nem estrela e nem</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">por isso gostaria de enlouquecer cantando</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">às margens de nada e falta de ar ou chope</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">velho dessas margens terceiras e falido rio.</span></div>
<div> </div>
<div>
<div><span style="font-size:x-small;font-family:Arial;">Afonso Henriques Neto toca num ponto interessante sobre o processo literário, o relaxamento e o comprometimento. Muitos poetas, sobretudo hoje em dia, optam pelo discurso coloquial tão utilizado pela geração dele nos anos 70. Acontece que naqueles tempos, a coisa se misturava de forma tão visceral, que mesmo poetas com boa formação literária e poetas sem formação literária dialogavam e produziam trabalhos de boa qualidade. Era opção de alguns e único caminho para outros. Cita o próprio poeta em entrevista o Cacaso e a Ana Cristina Cesar de um lado. Chacal, já com outras proposições e apostando no &#8220;faro poético&#8221;do outro. Outra época.</span></div>
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<div><span style="font-size:x-small;font-family:Arial;"><a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com/" target="_blank"></a></span> </div>
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<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">SATISFACTION</span></div>
<div> </div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">quero sugar sua boca</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">na velocidade da luz</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">não aguento mais</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">essa conversa fiada</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">esse apartamento trancado</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">essa burocracia de esgoto</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">amarelo de papel ressonando</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">enquanto a lua enlouquece</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">lágrimas e espermas</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">speed amor speed</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">eu quero chupar você</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">como um risco de gilete</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">na pele noite da estrela</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">eu quero comer você</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">olhando a foda no espelho</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">e espalhar pelos campos</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">meus ossos os labirintos o gozo</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">charme postiço</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">nossos prosaicos pentelhos</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">oh sonâmbula dama lúcida paixão</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">nenhum incêndio me basta</span></div>
<div><span style="font-size:medium;font-family:Arial;">minha fome meu tesão.</span></div>
<div> </div>
<div> </div>
<div>
<div>Ainda sobre a questão relaxamento x comprometimento (não que o poeta &#8220;relaxado&#8221; não seja comprometido, falo de busca, auto-crítica e aperfeiçoamento), Afonso Henriques Neto diz que &#8220;<span style="font-family:arial,helvetica,sans-serif;"><em>não basta o domínio técnico, uma certa postura formalista, para se fazer um bom poeta. O melhor, talvez, seja juntar as duas coisas: visceralidade e consciência técnica. Mas uma coisa é certa: se você quiser mesmo saber o que é grande literatura, siga os passos do Ezra Pound e procure Homero, Safo, Propércio, Catulo, Dante, Shakespeare, Camões, Fernando Pessoa; no Brasil, Gregório de Matos, Gonçalves Dias, Castro Alves, Augusto dos Anjos, Alphonsus de Guimaraens, Cruz e Sousa e os modernos.&#8221;</em></span></div>
<div><em> </em> </div>
<div><em> </em> </div>
<div> </div>
<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">FOGUEIRAS</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">não saberia o que fazer com todas essas vozes</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">todas essas narrações de viagem de vida consumida aos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">                                                         arrancos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">no meio dos desfiladeiros cintilantes dos corredores de</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">                                                         algodão</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">solidão e estrelas estripadas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">não saberia o que fazer com teus olhos de cenoura</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">cor e urro da fera escorrendo pelos teus rins</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">rasgando de dor o gozo de tuas mamas tão infantis</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">tão despudoradamente infantis</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">não saberia o que fazer com tua boceta de clarões secretos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">se o amor é essa mistura de lágrima e corpos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">se despedindo longamente na translúcida estrada</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">de parte alguma pra parte nenhuma o amor</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">rios ocos da morte que a vida inutilmente</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">tenta penetrar em líquidos em rochas em pulmões arfantes</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e resta o zumbido neutro dessas moscas implacáveis</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">não saberia mesmo arrematar a sinfonia</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">por isso agarro tuas mãos nessa urgência</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">de astros cadentes</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e ligamos a tv e as formigas lambem o açucar</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">talvez as crianças caminhem pelas fogueiras do tempo.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>Ainda sobre os poetas &#8216;marginais&#8217;. É muito certo que a antologia <em>26 poetas</em> hoje fez com que muitos poetas daquela ótima geração aparecessem. Porém, outros que não concordavam com a proposta do livro, não quiseram ser publicados. Há também os poetas que não eram atuantes na &#8220;militante&#8221; nuvem cigana e também não apareceram. Há também poetas que participaram do livro e depois &#8220;se arrependeram&#8221;. Enfim, mas o livro é marcante, de certa forma precisava ser feito. Agora, uma coisa é ter participado de uma antologia, outra coisa é conseguir manter-se com o trabalho bem feito. Quem carrega a obra é o povo.</div>
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<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">NÃO É QUALQUER AMOR</span></div>
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<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">não é qualquer amor que se acaba em Paris</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">angústia de mel nas praças sinfônicas do infinito</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">não é qualquer amor que risca na rocha o relâmpago</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">sonhos siderais nas guelras dos furacões</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">não é qualquer amor que se celebra na orgia das estrelas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">revoada dos deuses até então imóveis nas estátuas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">não é qualquer amor que se perfuma com o destino das flautas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">doce alfabeto sonhado nos pássaros em primavera</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">não é qualquer amor que será eterno como a carne</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">oblíqua emoção de lamber em prantos o sol entardecendo</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">não é qualquer amor</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>A questão do coloquialismo na geração marginal é apontada por Cacaso em <em>Não quero prosa</em> como sendo fruto da leitura e da tradição de Manuel Bandeira. Porém, Cacaso também levanta a importância de Mário de Andrade para este tipo de caminho. Concordo com ele pois vi isso na prática, é incrível. Aquela geração foi uma geração que lia muito o Bandeira, sem se desfazer obviamente dos franceses e outros fundamentais como dizia o Torquato Neto, mas foi uma geração que surgiu abrindo o que as anteriores vinham construindo, e creio que é isto que acontece de tempos em tempos, o processo de destruição da reconstrução, ou reconstrução da destruição. Por aí.</div>
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<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">LA MER MÊLÉE AU SOLEIL</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">quem trouxe o mar para beber</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">em toda a sua sede</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">junto ao sangue trêmulo da ironia?</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">rimbaud respirou a vertigem</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">árvores amarelas no coração dos cósmicos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">caracóis</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">oh mandala dos verbos e dos sentidos.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">nublados estão os poemas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">na carne sem conceito da melodia.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">assassinado artesão dos corações sem ferrugem</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">amo em desespero os céus prateados</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">daquelas sinfônicas esperanças.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">quantas lágrimas para uivar?</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">quantos cães ferrados a este osso de testamento?</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">todos os versos já visitados</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">digeridos mapas das emoções de pedra</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e sonho</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e os navios abertos em grito nos horizontes da cor.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">o mar alado</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">sol sol Sol.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">sempre dentro dos olhos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">o invisível.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">taça estúpida da palavra</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">rimbaud</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">o desespero branco da eternidade</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">irrevelável.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>Em 1976, um ano após a pubublicação de seu segundo livro, Afonso Henriques Neto recebe a seguinte crítica de Carlos Drummond de Andrade : &#8220;<em>Sua personalidade poética é indiscutível &#8211; tanto mais quanto, chegando após duas gerações de poetas de alta qualidade, ela se afirma independente da influência dos grandes que o rodeiam. E é tanto mais curiosa essa personalidade quanto ela se permite ondular entre formas simplesmente modernas de poesia e formas de nítida vanguarda, como a experimentar forças nos dois setores. Por mim, confesso que o experimentalismo vanguardista me importa menos que a dicção livre, a serviço de alguma coisa veemente que exige expressão comovida e comovedora, sem excluir as graças e os luxos do verso belo em si, mesmo quando aparentemente desarticulado</em>.&#8221; Por aí vai.</div>
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<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">TODA PALAVRA</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">língua de segredos, arquitetura de vulcões, sonoridade</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">em cor profunda, nômades do sentido os batalhões</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">labiais velares palatais borbulhas,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">cachoeiras de bichos enlameados, vapor do signo,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">mel noturno de nuvens esmagadas, calendário</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">translúcido, oceano em lâminas incandescidas, mágica</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">de pedras escarlates, sol, cabeça do mito,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">usina de fábulas, espetáculos, fetos lunares, plantação</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">de sonhos, murmúrios de constelações, acme</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">dos mortos a sobrenadar,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">luz abstrata, resumo das águas, matemáticas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">do vento, história dobrada em si mesma,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">estranheza do número, imaginar é verbo infinito,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">formigas em fogo, relâmpagos teóricos, nada</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">se imprime em fátuo papel evanescente, arco tensão,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">construção do invisível, sólida estrada.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>Nesta semana veremos o corpo crítico à poesia de Afonso Henriques Neto. O escritor Antônio Carlos Villaça, em 1981, disse o seguinte sobre Afonso: &#8220;<em>tive um choque, ao ler seus poemas de Ossos do paraíso. Tudo alí é abismo. Fiquei verdadeiramente perturbado com a intensidade da sua poesia, que é de uma autenticidade, de uma verdade total, arrepiante</em>&#8220;. Não sei o quanto a resenha crítica mudou daqueles tempos pra cá, mas creio que antes era mais substancial, porém hoje, para um jovem poeta, é tão importante quanto, não importando onde e como. Afonso Henriques, pela qualidade do trabalho, recebeu muitas outras. Isso aí.</div>
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<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">NÃO SEJA TÃO LITERÁRIO</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">não seja tão literário</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">mas se homero dante a bíblia</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">são pura literatura</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">por que não escrever abismos com violinos?</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">(sei que minha geração</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">ainda uma vez ironizou</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">os programas do poder</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">os discursos literários</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">romantismos concretismos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">panfletarismos cabotinismos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">evoé nuvem cigana</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">saudades cacaso &amp; ana</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">mais tantos que sonharam</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">o fim das ditaduras</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">naqueles roarin&#8217;70)</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e o consolo paralelo</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">das construções diamantinas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">o la chair est triste, hélas!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">et j&#8217;ai lu touts les livres</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">(não resolve</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">mas me ilumino de imenso)</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">última oportunidade a um cinquentão</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">sem poética consistente</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">mas com tanta vodka pela frente</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">(se pudéssemos estrangular deus</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">a branca medicina</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">tudo tudo</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">ironia na neblina)</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">a prosa invadiu de vez a poesia</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">com música ou sem melodia</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">o verso não mais recamará ossos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">(parcas as parcas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">aspérrimos verbos e este ônibus</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">seco)</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">corais de luzes dolorosas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">navios do princípio do tempo</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">encalhados nos esqueletos sem fim</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">(ninguém virá na estrada para</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e se vier não há mais jeito</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">refulgem ruíssimas retinas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">o anjo se drogou todo de estrelas)</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">no fundo fosso a fera engole</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">a ferida tremenda</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e no entanto a vida</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">entanto o sonho</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">(virá cantando aleluia pelo atalho</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">todos desconhecem o mapa mágico</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">rastro sagrado pedra angular</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">tudo se esqueceu)</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">última oportuidade hare</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">hare</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>Antônio Carlos de Brito, ou Cacaso, é um dos meus poetas favoritos. Assim como sua crítica, Cacaso fazia uma poesia muito intressante, uma linguagem bem característica. Cacaso foi amigo de Afonso Henriques Neto, e sobre sua poesia, disse o seguinte: &#8220;<em>Mário de Andrade notou, a respeito de Murilo Mendes, que apesar do estilo surrealista, o poeta era carioquíssimo. Algo de análogo se dá com Afonso, que pratica um surrealismo com sotaque&#8230; mineiro. Sua imaginação é aérea; sua síntese poética se dá num elevado grau de abstração. A alegoria de Afonso Henriques é fortemente evocativa, uma espécie de inventário de ruínas &#8211; familiares, ideológicas, pessoais</em>&#8220;. Grande Cacaso!</div>
<div> </div>
<div> </div>
<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">CLARÃO</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e os tambores que soam sendo sombras</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">dos sorrisos de amor, fogo de outrora,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">eis refulgem na cinza desta hora,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">luz a corroer a pedra mais escura.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">ah que esta dor na alma é que perdura</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">rente ao nojo dos anjos, flama impura,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">relâmpago a transmudar-se em poesia,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">astro que consola energiza cura.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">o verso é esta pedra viva, pão</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">da luz, claro segredo inviolado</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">a preencher de sonho o que era ausência,</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">muda forma do amor reconquistado</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">pelo fulgor do coração em fúria</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">(estrelas bebem deste sumo intato).</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>Não que a crítica seja essencial para um poeta ser adorado, porém, para ser lido ela serve muito bem, depois o trabalho é com o leitor. Entretanto vale ressaltar aqui, no caso do nosso homenageado do mês, o que foi dito sobre seu trabalho. Ana Cristina Cesar, minha predileta bem na frente dos outros, disse que &#8220;<em>a nova poesia aparece aqui marcada pelo cotidiano, ali por brechtinano rigor. Anticabralina, (&#8230;) é antes uma poesia que não se dá ares, que desconfia dos plenos poderes da sua palavra (&#8230;), que faz da consciência do distanciamento o seu tema ou o seu tom. (&#8230;) No choque entre os poetas, comparece tanto a contenção, a brevidade e o inacabamento (&#8230;), como o &#8216;excesso de palavras&#8217;, o derramamento sem pudor de um Afonso Henriques Neto.&#8221;</em> Palavra da belíssima.</div>
<div> </div>
<div>
<div><a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com/" target="_blank"></a></div>
<p><span style="text-decoration:underline;"></span> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">RADAR DE ELEVADOR</span></div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">(rápido reflexo de los &#8217;70 en nuestros trópicos)</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">primeiro o cheiro</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">ovos fritos pigarros &amp; zumbidos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">sobre a mesa frutas da estação</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">ouvido pouco atento</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">lenta circulação o sangue o trânsito</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">janela trancada da manhã</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">nenhum cigarro</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">nenhuma idéia</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">planos do godard</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">faxineira no quadro</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">composição tão caseira</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">sangue sugado</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">aranha capitalista</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">vertigens bêbadas do mar</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">uau</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">novos baianos no rádio na porta o jornal</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">nuvem na cortina entreaberta</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">abrir janela sobre o caminhão de coca-cola</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">planos do godard</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">por favor traz o açucar</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">ssshih! como é que se pode esquecer?</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">o senhor me desculpe</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">a mosca salta do prato emborcado</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">para o silêncio dos óculos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">pijama com nervos expostos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">uma água escorre na morte</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que não sei estancar</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">bule de minha mãe de trinta anos atrás</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">salto de mosca o silêncio </span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">óculos esmagados</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">sol na faca da manhã</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">galáxia no ladrilho latido lá fora</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">longe como um ex-voto</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">arrastando os pés o verbo o açucar</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">preciso limpar o aquário</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">uma simbologia de relâmpagos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">não sei lidar com a revolta dos filhos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">nem com a paixão da vizinha</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">peixe morre torto de velhice</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">mesmo</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"> Terminando o que foi dito sobre sua poesia, creio que o relato mais interessante é do pai de Afonso, o poeta Alphonsus de Guimaraes Filho. Grande poeta que será com certeza estudado por aqui, lhe dedicou um poema, que na horizontal, fica assim : <em>Afonso Henriques, meu filho poeta,/poeta de um tempo atônito e triste./Tudo nos fere? tudo nos inquieta?/A luz, que amamos, subsiste./Desmoronam-se mitos? Recriaremos/outros. O Mundo atômico é grito?/De afeto é que povoaremos/com um sonho infinito./Sombras somos no pânico e na vertigem?/Pouco importa. Que nos leve/a luz que vem da origem:/não é ouro, nem breve.</em> Voltamos na terça, que ninguém é de ferro.</p>
<div> </div>
<div> </div>
<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">COMPLETO</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">amor tão completo</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que o efêmero reflita o eterno</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que o silêncio sonhe a melodia</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que os cavalos sejam selvagens</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">ventanias</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">amor tão completo</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que longe o corpo viva perto</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que na água adormeça a transparência</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que na treva se esclareça</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">a incandescência</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">amor tão completo</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que o gozo fecunde o deserto</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que a pele fale pelo que arrepia</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que o desejo arda a infinita</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">poesia</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>Afonso ressalta que é preciso tentar assimilar visceralidade com consciência técnica. É ler Homero, Safo, Catulo, Dante, Camões, Shakespeare, Fernando Pessoa, e aqui no Brasil, de acordo com Afonso, ler Gregório de Matos, Gonçalves Dias, Castro Alves, Augusto do Anjos, Alphonsus de Guimaraens, Cruz e Sousa e o modernos, dos quais, levanto em Mário de Andrade e Manuel Bandeira, nossa grande &#8220;bandeirante&#8221;, já na minha opinião. Listar nomes sempre será injusto, ou causará impactos, pois todos temos nossos sopros, porém, há sopros tão substanciais que mesmo discordando, conduzem muito bem nossa vela.</div>
<div> </div>
<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">NÃO EXISTE</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Esta paisagem não existe.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Existiu um dia de tanto sol</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que esta paisagem se enfeitou</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">de infância transparente.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Hoje a fórmula enguiçou.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Subo a rua das notícias mortas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e o pouco do cheiro que restou</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">de sonho dentro da noite</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">sobre esse velhos meninos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">rola por um sentimento difícil</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">gesto de agonia espessa</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">sombra sem possível aurora.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Esta paisagem é a hora</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">do verbo estagnar-se.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E os sóis vingadores</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">a arrancarem do futuro</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">um sangue novo que invada</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">as trêmulas rochas da morte</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">são apenas o mesmo rio</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">esquecido de correr</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">desesperançado de mar.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Contudo canta canta coração</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">inventa a luminosa paisagem</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">personagem sem raiz e chão.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>Afonso tem um texto visceral, um discurso que pontua versos como uma pegada de gigante (assim que me sinto). Vemos aí questões dos anos 60 e 70, influências surrealistas, político sem ser excessivamente engajado, o que é bom, e outras coisas que só lendo e relendo para perceber, eu tenho as minhas, mas creio que apontar características de um poeta é questão pessoal. Afonso é professor da UFF e poeta desde sempre, morador do Cosme Velho que achou sua linguagem desde cedo, pelo menos é o que vi ao longo desde mês.</div>
<div> </div>
<div> </div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;">Reportagem no Futura que fala deste grupo de e-mail, bem legal     </span><a rel="nofollow" href="http://www.youtube.com/watch?v=ymYDWW2WPzY&amp;feature=channel_page" target="_blank"><span style="font-size:medium;">http://www.youtube.com/watch?v=ymYDWW2WPzY&amp;feature=channel_page</span></a></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">VOCÊ</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">as mulheres mais belas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">habitam você</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">fragor do mar nos vulcões do meio-dia</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">espuma lunar a flutuar</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">fotografia que o sonho grava no invisível</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">(você vestida em nuvem violeta, você e um gato</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">branco de patas azuis, você fugindo nua</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">pela praia do infinito,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">você dançando o som do violino-pensamento,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">você de olhos de surpresa com o peixe pulsando nas mãos,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">você, você)</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">aprender você</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">intacta liberdade</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">amor é saber leveza</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">no centro da tempestade</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>Das pesquisas que fiz sobre a obra de Afonso Henriques Neto, encontrei muitas vezes relatos de leitores e críticos como &#8220;<em>um dos únicos fazendo boa poesia contemporânea</em>&#8220;. É uma questão interessante, pois Afonso é de uma geração muito talentosa cujas figuras, hoje, são como &#8221;mitos urbanos&#8221;. Poetas emblemáticos, poetas de rua, poetas que se foram ainda jovens, todos misturados, como a cavalaria, o pelotão de frente de um exército, pois se hoje, a minha geração tem essa liberdade toda, para mim, é porque eles deram seu sangue (nossa!). <img src='http://s1.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_wink.gif' alt=';-)' class='wp-smiley' /> </div>
<div> </div>
<div> </div>
<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">MUITO ANTIGO</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">o doloroso exame da tarde me incendeia</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">em nebuloso crepúsculo a cuspir luar.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">hordas de mortos pelos campos onde branqueia</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">floração soprada em vago a flutuar.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">bem quisera das águas ácidas deste mar</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">beber o sumo de prata dos enluarados</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">silêncios de bocas, uma a uma, decepadas,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">raiva do tempo a chover, a nos entrangular.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">não há mais quem peça amor nos olhs parados</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e das mensagens de bronze regressam navios</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">com seus cordames de névoa e os velames de lua,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">caveiras de sonhos por tombadilhos vazios.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>Eis que chegamos ao final de mais uma antologia poética. A obra do poeta Afonso Henriques Neto foi nosso objeto de estudo através deste pequeno mergulho. Visceralidade sem perder a compreensão técnica, foi a primeira coisa que ficou. Espero que tenham gostado de sua poesia, ou apenas de ter conhecido. As respostas foram muitas e sempre positivas. Semana que vem entraremos em um novo universo poético, novas proposições, outras influências, outros versos, outros versos.</div>
<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">MATURANDO</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">toda a mágica lenta maturação.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">recolha uma rara imagem da infância </span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e a lance no vôo do tiê-sangue</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e da nuvem ao fundo despeje a chuva</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">sobre um amor antigo</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">desenho a cantar no barro do tempo</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">sabor-frêmito de cristal</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">então forma</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">poesia</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">silêncio a se escrever música no aberto.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">toda a mágica supõe um céu maravilhado.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">a destilação é lenta</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">sabemos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">pois de um jovem perfume</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">sentir a sombra de um susto</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">a descoberta da luz em flores mortas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">porejar essências quando a surpresa</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">flutuar abismos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">brancos teatros do invisível.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">mágicas que são bonecos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">narrando o que o poema busca nas fábulas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e nas auroras.</span></div>
</div>
</div>
</div>
</div>
</div>
</div>
</div>
</div>
</div>
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</div>
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</div>
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<p></span></div>
<p></span></div>
</div>
<br />Publicado emTODOS OS POETAS AQUI  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/cartilhadepoesia.wordpress.com/18/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/cartilhadepoesia.wordpress.com/18/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/cartilhadepoesia.wordpress.com/18/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/cartilhadepoesia.wordpress.com/18/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/cartilhadepoesia.wordpress.com/18/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/cartilhadepoesia.wordpress.com/18/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/cartilhadepoesia.wordpress.com/18/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/cartilhadepoesia.wordpress.com/18/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/cartilhadepoesia.wordpress.com/18/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/cartilhadepoesia.wordpress.com/18/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/cartilhadepoesia.wordpress.com/18/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/cartilhadepoesia.wordpress.com/18/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/cartilhadepoesia.wordpress.com/18/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/cartilhadepoesia.wordpress.com/18/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=18&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>Jorge de Lima</title>
		<link>http://cartilhadepoesia.wordpress.com/2009/08/15/jorge-de-lima/</link>
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		<pubDate>Sat, 15 Aug 2009 19:45:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cartilhadepoesia</dc:creator>
				<category><![CDATA[TODOS OS POETAS AQUI]]></category>

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		<description><![CDATA[Jorge Mateus de Lima nasceu em Alagoas no dia 23 de abril de 1893. Foi poeta, médico, político, ensaista, tradutor e pintor. Formou-se médico aos vinte anos na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Começou a escrever poesia parnasiana, aprofundou-se na forma do soneto e depois sobre a temática nativa. Jorge de Lima também [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=16&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div>Jorge Mateus de Lima nasceu em Alagoas no dia 23 de abril de 1893. Foi poeta, médico, político, ensaista, tradutor e pintor. Formou-se médico aos vinte anos na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Começou a escrever poesia parnasiana, aprofundou-se na forma do soneto e depois sobre a temática nativa. Jorge de Lima também é conhecido pela sua catolicidade. Escreveu poemas essencialmente religiosos e, junto com Murilo Mendes, restaurou a Poesia em Cristo. Em quatro semanas, entraremos no universo poético deste poeta brasileiro, em todas as suas fases e algumas polêmicas.</div>
<div> </div>
<div> </div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;">texto &#8220;O Conto do Conquistador&#8221; no blog </span><a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com/" target="_blank"><span style="font-size:medium;">http://pedrolago.blogspot.com</span></a></div>
<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">O MUNDO DO MENINO IMPOSSÍVEL</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Fim da tarde, boquinha da noite<br />
com as primeiras estrelas<br />
e os derradeiros sinos.</p>
<p>Entre as estrelas e lá detrás da igreja,<br />
surge a lua cheia<br />
para chorar com os poetas.</p>
<p>E vão dormir as duas coisas novas desse mundo:<br />
                              o sol e os meninos.</p>
<p>Mas ainda vela<br />
o menino impossível<br />
         aí do lado<br />
enquanto todas as crianças mansas<br />
                           dormem<br />
               acalentadas<br />
        por Mãe-negra Noite.<br />
O menino impossível<br />
        que destruiu<br />
  os brinquedos perfeitos<br />
       que os vovós lhe deram:</p>
<p>              o urso de Nürnberg,<br />
         o velho barbado jugoeslavo,<br />
      as <em>poupées de Paris aux</em><br />
<em>            cheveux crêpés</em>,<br />
        o carrinho português<br />
     feito de folha-de-flandres,<br />
    a caixa de música checoslovaca,<br />
     o polichinelo italiano<br />
<em>               made in England</em>,<br />
  o trem de ferro de U. S. A.<br />
  e o macaco brasileiro<br />
                de Buenos Aires<br />
<em>  moviendo la cola y la cabeza</em>.</p>
<p>    O menino impossível<br />
    que destruiu até<br />
    os soldados de chumbo de Moscou<br />
e furou os olhos de um Papá Noel,<br />
    brinca com sabugos de milho,<br />
                           caixas vazias,<br />
                           tacos de pau,<br />
    pedrinhas brancas do rio&#8230;</p>
<p>    “Faz de conta que os sabugos<br />
     são bois&#8230;”<br />
     “Faz de conta&#8230;”<br />
     “Faz de conta&#8230;”</p>
<p>         E os sabugos de milho<br />
mugem como bois de verdade&#8230;</p>
<p>    e os tacos que deveriam ser<br />
    soldadinhos de chumbo são<br />
    cangaceiros de chapéus de couro&#8230;</p>
<p>  E as pedrinhas balem!<br />
  Coitadinhas das ovelhas mansas<br />
                        longe das mães<br />
   presas nos currais de papelão!</p>
<p>É boquinha da noite<br />
no mundo que o menino impossível<br />
povoou sozinho!</p>
<p>                    A mamãe cochila.<br />
                    O papai cabeceia.<br />
                    O relógio badala.</p>
<p>E vem descendo<br />
       uma noite encantada<br />
               da lâmpada que expira<br />
                    lentamente<br />
               na parede da sala&#8230;</p>
<p>      O menino poisa a testa<br />
     e sonha dentro da noite quieta<br />
             da lâmpada apagada<br />
    com o mundo maravilhoso<br />
   que ele tirou do nada&#8230;</p>
<p>Xô! Xô! Pavão!<br />
Sai de cima do telhado<br />
Deixa o menino dormir<br />
Seu soninho sossegado!<br />
</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"></p>
<div>Jorge de Lima é filho do pernambucano José Mateus de Lima e D. Delmina Simões Mateus de Lima. O pai era negociante e senhor de engenho de antiga linhagem local, o menino passou seus primeiros anos, ora na casa-grande, ora no sobradinho português do final do século XIX que havia na cidade. Atrás do sobrado onde nasceu e a poucos quilômetros, fica a Serra da Barriga, onde Zumbi fundou seu famoso quilombo. Jorge andava por essa paisagem bucólica, entre paisagens da Serra da Barriga e a cidade. Jorge disse uma vez que &#8220;quando em uma pequena comitiva conheci os interiores da Serra da Barriga, me senti, pela primeira vez, tocado pela poesia&#8221;.</div>
<div> </div>
<div> </div>
<div><a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com/" target="_blank">http://pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">SONHO DE FARAÓ</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">&#8220;Trezentos e sessenta e seis mil braços</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">erigem as pirâmides do Egito,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">para que eu, Faraó, vença os espaços,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e através dos espaços o Infinito&#8230;</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E, terminando o meu labor, medito:</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Gravei de mim perpetuadores traços.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Hão de cem povos repetir meu grito,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e o mundo inteiro eternizar meus passos.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E quando em tebas renascer, Amon,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">dobra as cem portas nos sagrados quícios!&#8221;</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Feliz quem tem o transcendente dom</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">de ter um sonho, &#8211; nem que seja um só -</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">pois tem a chave de ancestrais auspícios,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que abre cem portas como Faraó!</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>Jorge de Lima publicou seus primeiros poemas aos 10 de anos de idade em um jornalzinho do colégio, intitulado <em>O Corifeu</em>. Poemas estes que já haviam sido elaborados desde os 7 anos. Jorge, também compôs um romance nesta idade (!). Já com treze anos, seus poemas começaram a ser publicados em jornais locais de Alagoas. Aos 15, se transfere para Salvador, onde começa o curso de Medicina. Alí começariam as primeiras experiências regionalistas na poesia de Jorge. Aos 18 anos, Jorge se muda para o Rio de Janeiro onde conclui o curso de Medicina. Apenas começando. Este &#8220;Primeiro dos Quatorze&#8221; pertence a uma série de poemas alexandrinos.</div>
<div> </div>
<div> </div>
<div><a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com/" target="_blank">http://pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">O PRIMEIRO DOS QUATORZE</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Há muita gente eu sei que não gosta de versos,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Porque&#8230; não sei&#8230; talvez&#8230; porque não queira;</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Daí uma asserção de críticos diversos:</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Morrerá no Porvir a poesia inteira.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Eu me esteio a mim mesmo em pontos controversos:</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">A Ciência julgada austera e sobranceira</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Pousa no fictício os pedestais emersos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Que sustêm uma bíblia eterna e verdadeira.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Vêde: a Química conta as moléculas; dita</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">A Mecânica as leia tendo por base a inércia;</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Outros mundos além a Astronomia habita&#8230;</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Se mesmo o positivo é sonho e controvérsia</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Nem Porvir, nem ninguém, cousa alguma desliga</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">A Ciência que sonha e o verso que investiga.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>Em 1914, Jorge de Lima recebeu o grau de doutor em medicina, depois de defender a tese sobre <em>O Destino Higiênico do Lixo no Rio de Janeiro</em>, recebendo, inclusive, elogios de Afranio Peixoto. O poeta tinha 21 anos. O livro <em>XIV Alexandrinos</em> foi publicado quando ainda era estudante de medicina. Voltou a Maceió onde seguiu na carreira de médico, granjeando prestígio sem par. Curiosamente, em 1919, foi eleito deputado estadual no mesmo estado. Não parou por aí, dois anos depois, tornou-se por concurso, professor catedrático da Escola Normal de Alagoas, na cadeira de História Natural e Higiene Escolar. Publicou seu primeiro livro de ensaios <em>A Comédia dos Erros</em> em 1923. Este é seu famoso poema que o tornou conhecido.</div>
<div> </div>
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<div><span style="font-size:medium;">texto &#8220;Sensibilidade&#8221; no blog </span><a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com/" target="_blank"><span style="font-size:medium;">http://pedrolago.blogspot.com</span></a></div>
<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">O ACENDEDOR DE LAMPIÕES</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Lá vem o acendedor de lampiões da rua!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Este mesmo que vem infatigavelmente,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Parodiar o sol e associar-se à lua</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Quando a sombra da noite enegrece o poente!</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Um, dois, três lampiões, acende e continua</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Outros mais a acender imperturbavelmente,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">À medida que a noite aos poucos se acentua</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E a palidez da lua apenas se pressente.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Triste ironia atroz que o senso humano irrita: -</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Ele que doira a noite e ilumina a cidade,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Talvez não tenha luz na choupana em que habita.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Tanta gente também nos outros insinua</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Crenças, religiões, amor, felicidade,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Como este acendedor de lampiões da rua!</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>Em 1925, Jorge de Lima casa-se com D. Ádila Alves de Lima, de tradicional família gaúcha. O casamento foi em Belém. Há uma quetão interessante que pede uma discussão depois: Jorge, nesta época, adere ao Modernismo. Começa a ecrever poemas livres, publica em folhetos e decepciona muita gente que já o considerava &#8220;o príncipe dos poetas alagoanos&#8221;. Sua experiência com o coloquialismo se deu acolhendo formas da infância e da região de alagoas. Jorge depois afirmaria não ter participado do modernismo como movimento, o que entraremos depois. Seus poemas &#8220;regionais&#8221; o tornam mais conhecido, sobretudo com o poema Essa Negra Fulô.</div>
<div> </div>
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<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">DOMÍNIO RÉGIO</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Investiguei a Grécia em Platão e em Homero,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Vi Sócrates beber a taça de cicuta&#8230;</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Depois passei a Roma e analisei de Nero</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Na boca de Petrônio essa face corrupta.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Conheci Santo Anselmo e São Tomás, Lutero,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Estudei de Voltaire a inteligência arguta</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E finalmente andei como se fosse Asvero</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Pela Ciência e a História em requintada luta&#8230;</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Mas a Arte é que me impõe o seu domínio régio</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E é por isso que adoro a mão de Tintoretto</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E a sublime palheta e o pincel de Correggio&#8230;</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E é por isso que eu amo o verso alexandrino</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E burilo, Mulher, este pobre soneto</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Inspirado a pensar em teu perfil divino.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>Em 1928, Jorge de Lima publica em edição limitada da Casa Trigueiros de Maceió, Essa Negra Fulô, a primeira grande manifestação conforme à nova tendência poética, já completamente inclinado ao modernismo e na busca por uma identidade brasileira. Anos depois, Jorge afirmara que não participara do movimento, embora o apoiasse desde o início. &#8220;é aquilo que os rapazes de São Paulo faziam era o que nós do Norte também achávamos que precisava ser feito&#8221;. Jorge não sabia o que queria, porém, sabia o que não queria e como &#8220;todos agiam por si&#8221; não participou do movimento. A renovação é algo biológico e Jorge de Lima não gostava de Marinetti.</div>
<div> </div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;">texto Os Livros no blog </span><a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com/" target="_blank"><span style="font-size:medium;">http://pedrolago.blogspot.com</span></a></div>
<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">ESSA NEGRA FULÔ</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Ora, se deu que chegou<br />
(isso já faz muito tempo)<br />
no bangüê dum meu avô<br />
uma negra bonitinha,<br />
chamada negra Fulô.</p>
<p>Essa negra Fulô!<br />
Essa negra Fulô!</p>
<p>Ó Fulô! Ó Fulô!<br />
(Era a fala da Sinhá)<br />
— Vai forrar a minha cama<br />
pentear os meus cabelos,<br />
vem ajudar a tirar<br />
a minha roupa, Fulô!</p>
<p>Essa negra Fulô!</p>
<p>Essa negrinha Fulô!<br />
ficou logo pra mucama<br />
pra vigiar a Sinhá,<br />
pra engomar pro Sinhô!</p>
<p>Essa negra Fulô!<br />
Essa negra Fulô!</p>
<p>Ó Fulô! Ó Fulô!<br />
(Era a fala da Sinhá)<br />
vem me ajudar, ó Fulô,<br />
vem abanar o meu corpo<br />
que eu estou suada, Fulô!<br />
vem coçar minha coceira,<br />
vem me catar cafuné,<br />
vem balançar minha rede,<br />
vem me contar uma história,<br />
que eu estou com sono, Fulô!</p>
<p>Essa negra Fulô!</p>
<p>&#8220;Era um dia uma princesa<br />
que vivia num castelo<br />
que possuía um vestido<br />
com os peixinhos do mar.<br />
Entrou na perna dum pato<br />
saiu na perna dum pinto<br />
o Rei-Sinhô me mandou<br />
que vos contasse mais cinco&#8221;.</p>
<p>Essa negra Fulô!<br />
Essa negra Fulô!</p>
<p>Ó Fulô! Ó Fulô!<br />
Vai botar para dormir<br />
esses meninos, Fulô!<br />
&#8220;minha mãe me penteou<br />
minha madrasta me enterrou<br />
pelos figos da figueira<br />
que o Sabiá beliscou&#8221;.</p>
<p>Essa negra Fulô!<br />
Essa negra Fulô!</p>
<p>Ó Fulô! Ó Fulô!<br />
(Era a fala da Sinhá<br />
Chamando a negra Fulô!)<br />
Cadê meu frasco de cheiro<br />
Que teu Sinhô me mandou?<br />
— Ah! Foi você que roubou!<br />
Ah! Foi você que roubou!</p>
<p>Essa negra Fulô!<br />
Essa negra Fulô!</p>
<p>O Sinhô foi ver a negra<br />
levar couro do feitor.<br />
A negra tirou a roupa,<br />
O Sinhô disse: Fulô!<br />
(A vista se escureceu<br />
que nem a negra Fulô).</p>
<p>Essa negra Fulô!<br />
Essa negra Fulô!</p>
<p>Ó Fulô! Ó Fulô!<br />
Cadê meu lenço de rendas,<br />
Cadê meu cinto, meu broche,<br />
Cadê o meu terço de ouro<br />
que teu Sinhô me mandou?<br />
Ah! foi você que roubou!<br />
Ah! foi você que roubou!</p>
<p>Essa negra Fulô!<br />
Essa negra Fulô!</p>
<p>O Sinhô foi açoitar<br />
sozinho a negra Fulô.<br />
A negra tirou a saia<br />
e tirou o cabeção,<br />
de dentro dêle pulou<br />
nuinha a negra Fulô.</p>
<p>Essa negra Fulô!<br />
Essa negra Fulô!</p>
<p>Ó Fulô! Ó Fulô!<br />
Cadê, cadê teu Sinhô<br />
que Nosso Senhor me mandou?<br />
Ah! Foi você que roubou,<br />
foi você, negra fulô?</p>
<p>Essa negra Fulô!<br />
</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"></p>
<div>Jorge de Lima achava que Proust e Pirandello influenciaram muito mais os modernistas do que os notórios Apollinaire, Max Jacob e Marinetti. Ainda acha que Freud e Einstein foram também figuras fundamentais. Dizia que depois do modernismo, o relativo passou a preponderar sobre o definitivo, isto se dá pela fragmentação dos personagens de Proust, caso de Swann e outros que têm suas trajetórias mudadas durante toda a obra. Aqui, <em>Menino de Engenho</em> de José Lins do Rêgo, que dá mais importância à memórias da infância, já sob influência proustiana. Mais sobre isso ainda.</div>
<div> </div>
<div> </div>
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<div> </div>
<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">SERRA DA BARRIGA</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Serra da Barriga!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Barriga de negra-mina!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">As outras montanhas se cobrem de neve,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">de noiva, de nuvem, de verde!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E tu, de Loanda, de panos-da-costa,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">de argolas, de contas, de quilombos!</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Serra da Barriga!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Te vejo da casa em que nasci.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Que medo danado de negro fujão!</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Serra da Barriga, buchuda, redonda,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">de jeito de mama, de anca, de ventre de negra!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Mundaú te lambeu! Mundaú te lambeu!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Cadê teus bumbuns, teus sambas, teus jongos?</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Serra da Barriga,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Serra da Barriga, as tuas noites de mandinga,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">cheirando a maconha, cheirando a liamba?</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Os teus meio-dias: tibum nos peraus!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Tibum nas lagoas!</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Pixains que saem secos, cobrindo</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">sovacos de sucupira,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">barrigas de baraúna!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Mundaú te lambeu! Mundaú te lambeu!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">De noite: tantãs, curros-curros</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e bumbas, batuques e baques!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E bumbas!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E cucas: ô ô!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E bantos: ê ê</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Aqui não há cangas, nem troncos, nem banzos!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Aqui é Zumbi!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Barriga da África! Serra da minha terra!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Te vejo bulindo, mexendo, gozando Zumbi!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Depois, minha serra, tu desabando, caindo,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">levando nos braços Zumbi!</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>A questão da multiplicidade de personalidades é fato marcante na poesia brasileira após o modernismo. Fato este apontado por Jorge de Lima, que já citava João Cabral, seu amigo Murilo Mendes e, claro, do &#8220;trezentos&#8221; Mario de Andrade neste ponto. Jorge também aponta uma &#8220;saturação russa&#8221; nesta época, ora, é alí, no fim do século XIX que Tchekov reinou no teatro russo e, depois, Gorki no início do século XX, e claro, os poemas proletários, a identidade soviética, as proposições comunistas, fizeram com que surgisse também os romances revolucionários, figuras essencialmente fortes de ideologia e consequentemente, estas influências também se deram aqui.</div>
<div> </div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;">texto &#8220;A Gruta&#8221; no blog </span><a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com/" target="_blank"><span style="font-size:medium;">http://pedrolago.blogspot.com</span></a></div>
<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">DIABO BRASILEIRO</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Enxofre, botijas, galinha preta!<br />
Credo em cruz, capeta, pé-de-pato!<br />
Diabo brasileiro, dente-de-ouro, botija, onde está?<br />
Credo, capeta, pé-de-pato!<br />
</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Diabo brasileiro quero saber quando dá<br />
a dezena do carneiro?<br />
Enxofre, botija, galinha preta!<br />
Credo em cruz, capeta, pé-de-pato!<br />
</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Capeta, dente-de-ouro, tome galinha preta,<br />
quero dormir com a Zefa!<br />
Capeta, bode preto, quero dormir com a Zefa!<br />
Capeta, diabo brasileiro, só lhe dou galinha preta!<br />
Capeta, quero casar com a Zefa, quero que Sêo Vigário<br />
me case logo com a Zefa!<br />
</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Capeta, tome galinha preta!<br />
Capeta, diabo brasileiro, quando dá<br />
a centena do macaco?<br />
Quero quebrar banqueiro, capeta danado, pé-de-pato,<br />
dente-de-ouro, cheiro de enxofre, tome galinha preta!<br />
Capeta, pé-de-pato, quero acertar com o bicho,<br />
quero comprar gravata, botina de bico fino,<br />
terno de casimira pra quando a Zefa me ver!<br />
Capeta, pé-de-pato, tome galinha preta!</p>
<p>Capeta, pé-de-pato, dente-de-ouro, quero dente de ouro,<br />
quero capa de borracha, punho engomado, camisa,<br />
bengala castão de ouro, capeta, pé-de-pato,<br />
tome galinha-preta!<br />
Quero saber suas partes, suas sabedorias,<br />
quero saber mandingas,<br />
capeta, pé-de-pato, tome galinha preta,<br />
que eu quero quebrar banqueiro, que eu quero tirar botija,<br />
que eu não quero trabalhar, que eu também sou brasileiro!<br />
</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Capeta, tome galinha preta,<br />
que eu quero saber embolada,<br />
quero saber martelo, quero ser um cantador,<br />
capeta, quero dizer à Zefa essa quentura de amor!<br />
Capeta, tome galinha preta, que eu quero casar com a Zefa.<br />
Por Deus, que eu quero, capeta, pé-de-pato!<br />
Tome galinha preta!<br />
</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"></p>
<div>Em 1944, Jorge de Lima é recusado pela primeira vez à Academia Brasileira de Letras. Perguntado pelos motivos que o levaram a querer entrar na instituição disse que &#8220;<em>ela representa uma tradição, uma fundação que dispõe das maiores garantias de perpetuidade</em>&#8220;, acho incrível este relato, visto que a Academia o recusou mais cinco vezes além desta, e hoje, 65 anos depois, abraça nomes como José Sarney e Paulo Coelho. Jorge ainda disse que &#8220;<em>é o nosso maior núcleo intelectual digno de receber sumidades do panorama mundial de esquerda ou de direita</em>&#8220;. Isso aí.</div>
<div> </div>
<div> </div>
<div> </div>
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<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">NORDESTE</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Nordeste, terra de São Sol!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Irmã enchente, vamos dar graças a Nosso Senhor,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que a minha madrasta Sêca torrou seus anjinhos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">para os comer.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">São Tomé passou por aqui?</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Passou, sim senhor!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Pajeú! Pajeú!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Vamos lavar Pedra Bonita, meus irmãos,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">com o sangue de mil meninos, amém!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">D. Sebastião ressuscitou!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">S. Tomé passou por aqui?</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Passou, sim senhor.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Terra de Deus! Terra de minha bisavó</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que dançou uma valsa com D. Pedro II.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">São Tomé passou por aqui?</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Tranca a porta, gente, Cabeleira aí vem!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Sertão! Pedra Bonita!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Tragam uma viagem para D. Lampião!</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>Após 1932, Jorge de Lima sente-se insatisfeito com o caminho que percorrera e procura novas fontes. Volta a um tipo de poesia que fazia ainda jovem, inclinada ao místico. Acreditava que para chegar ao &#8220;<em>nível mais alto, na mais alta verdade, a poesia deveria se restaurar em Cristo</em>&#8220;. Então, junto com o poeta Murilo Mendes, Jorge de Lima publica um série de poemas intitulados Poesia em Cristo. Dizia que &#8220;<em>era o menino voltando ao homem, pois lembro até de uma frase do Machado que diz &#8220;o menino é o pai do homem&#8221;, portanto, este sempre foi meu caminho natural</em>&#8220;. Esta escolha fez com que sofresse muitos ataques da intelectualidade e, dizem que contribuiu para que não entrasse na Academia.</div>
<div> </div>
<div> </div>
<div> </div>
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<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">O FILHO PRÓDIGO</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Nas engrenagens das fábricas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">bolem como vermes &#8211; dedos decepados de operários.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Há vaivéns do correame das oficinas.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">A cor e a alegria das moças empregadas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">dissolvem-se na algazarra monótona dos teares.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">O avião comeu a saudade das mães</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que a distância separou dos filhos vagabundos.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Há máquinas que cegam os adolescentes</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">ansiosos de ver o progresso do mundo.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Um homem teve medo de enlouquecer</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">perseguido pela força e pelo orgulho</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">das máquinas assassinas.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Cadê a luz trêmula de vela</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">pra alumiar o meu poema antigo?</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">O lirismo perdeu a sua liturgia.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">As lâmpadas Osram velam funebremente a poesia.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Ah! que existe uma tristeza na terra</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que nem lágrimas produz</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">de sua esterilidade tão seca.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Eu sou um corpo distraído.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Bóiam os meus olhos pelas superfícies.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Mas os meus olhos correm mais perigo</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">do que se andassem em acrobacias contemplativas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">pulando no céu alto, perto das estrelas.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Vovózinha, venho de longe,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">ando há muitos séculos à pé.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Ensina-me de novo a ficar de joelhos,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que já é tarde e eu quero me deitar.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>Em 1952, Jorge de Lima publica <em>Invenção de Orfeu</em>, poema de 11.000 versos entre 10 cantos exatamente como em <em>Os Lusíadas</em>, a grande inspiração. <em>Invenção de Orfeu</em>, como o próprio Jorge disse &#8220;<em>é a modernização da epopéia&#8221;</em>. Com aspectos de sua infância até suas impressões do Brasil contemporâneo, <em>Invenção de Orfeu</em> é o nosso <em>Lusíadas</em> sim, muito lido e discutido quando publicado e esquecido hoje. Nesta semana, somente versos desta magnânime obra de Jorge de Lima.</div>
<div> </div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;">texto &#8220;Livrarias e Museus&#8221; no blog </span><a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com/" target="_blank"><span style="font-size:medium;">http://pedrolago.blogspot.com</span></a></div>
<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">FUNDAÇÃO DA ILHA</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Um barão assinalado</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">sem brasão, sem gume e fama</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">cumpre apenas o seu fado:</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">amar, louvar sua dama,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">dia e noite navegar,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que é de aquém e de além-mar</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">a ilha que busca e amor que ama.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Nobre apenas de memórias,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">vai lembrado de seus dias,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">dias que são as histórias,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">histórias que são porfias</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">de passados e futuros,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">naufrágios e outros apuros,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">descobertas e alegrias.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Alegrias descobertas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">ou mesmo achadas, lá vão</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">a todas as naus alertas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">de vária mastreação,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">mastros que apontam caminhos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">a países de outros vinhos.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Esta é a ébria embarcação.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Barão ébrio, mas barão,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">de manchas condecorado;</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">entre o amor, o céu e o chão</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">fala sem ser escutado</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">a peixes, homens e aves</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">bocas e bicos, com chaves</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e ele sem chaves na mão.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>Jorge de Lima define seu Invenção de Orfeu, desta forma:&#8221;<em>A idéia central é a epopéia do poeta olhado como herói diante das vicissitudes do mundo através do tempo e do espaço. O drama da Queda. Sem a Queda não haveria história. O poema é um momento da eternidade perdida que o poeta procura conquistar. E todo esse despojamento do espaço, tempo e corpo tende para a concepção do puro espírito capaz de sentir a tragédia da Queda e compreender a tragédia do mundo. O poeta é seu herói.&#8221; </em></div>
<div><em></em> </div>
<div><em></em> </div>
<div><em></em> </div>
<div><em></em> </div>
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<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">SUBSOLO E SUPERSOLO</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div><em></em> </div>
<div><span style="font-size:medium;">É preciso falar-se das criaturas,</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">verdadeiras criaturas animadas,</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">das vivências totais, arbítrio e tudo,</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">alma, corpo funesto e essa imortal</span></div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;">perpetuidade além, Deus nas alturas,</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">nomes de terra e nomes eternados,</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">anjos, demônios, sonhos acordados</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">e as profecias, fúrias, posses, tudo</span></div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;">que um poema pode ter: esse clamor,</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">essa indefinição, esses apelos,</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">- sonho de rei Nabucodonosor,</span></div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;">que depois de refeito e decifrado</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">é a condição do bicho: carne, pêlos,</span></div>
<div><span style="font-size:medium;">e sangue breve do homem desgraçado.</span></div>
<div> </div>
<div>
<div>Entre os intelectuais e artistas de outros tempos, não tão distantes assim, a catolicidade era apenas uma opção. Figuras importantes para a cultura nacional como Alceu Amoroso Lima, um dos fundadores da PUC, por exemplo, ou Dom Helder Câmara, Padre Leonel Franca, tido como homem muito inteligente, compunham a intelectualidade nacional com grande destaque e respeito. Hoje, os religiosos convictos e atuantes são outros, são vistos como lunáticos ou de caráter duvidoso, sem entrar em quaisquer dogmas. Jorge de Lima foi um desses respeitados e, ao lado de Murilo Mendes, publicou poemas católicos belíssimos, que como diz o João José de Melo Franco, &#8220;onde mais alto foi em sua poesia.&#8221;</div>
<div> </div>
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<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">POEMAS RELATIVOS VII</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Alegria achareis neste meu poema</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">como poema lícito, como um</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">corpo casual ou vão, como a memória</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">dura e acídula, como um homem se</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">conhece respirando, ou como quando</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">se entristece sem causa ou se doendo,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">ou se lavando sempre ou comparando-se</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">às dimensões das coisas relativas;</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">ou como sente os membros de seu ser,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">transmitidos e opacos, e os avós</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">responsabilizando-se presentes.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">São alegrias rápidas. Lugares,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">reencontrados países, becos, passos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">sob as chuvas que não vos molharão.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div><em>Invenção de Orfeu</em> tem dez cantos. Tem que ser lido, inclusive, montado teatralmente. Há uma antiga edição da Nova Aguilar, a conhecida Obra Completa, em papel de bíblia, pois não conheço outro nome para essa gramatura, onde há, obviamente, a magnânime obra que o poeta chama apenas de poema. De modo que não há como sintetizar aqui a coisa toda, mas é um prazer imenso, algo esquecido pelas gerações atuais, sobretudo a minha. Jorge de Lima não é poeta para o colégio, é para sempre. Rasgados elogios veem de um sentimento bonito. Isso aí.</div>
<div> </div>
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<div><span style="font-size:medium;">texto O Índio no blog </span><a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com/" target="_blank"><span style="font-size:medium;">http://pedrolago.blogspot.com</span></a></div>
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<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">O CANTO DA DESPARIÇÃO</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Aqui é o fim do mundo, aqui é o fim do mundo</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">em que até aves vêm cantar para encerrá-lo.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Em cada poço, dorme um cadáver, no fundo,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e nos vastos areais &#8211; ossadas de cavalo.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Entre as aves do céu: igual carnificina:</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">se dormires cansado, à face do deserto,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">quando acordares hás de te assustar. Por certo,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">corvos te espreitarão sobre cada colina.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E, se entoas teu canto a essas aves (teu canto</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que é debaixo dos céus, a mais triste canção),</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">vem das aves a voz repetindo teu pranto.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E, entre teu angustiado e surpreendido espanto,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">tangê-las-ás de ti, de ti mesmo, em que estão</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">êsses corvos fatais. E êsses corvos não vão.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>Vi recentemente um vídeo na internet com jovens poetas contemporâneos e publicados, darem suas impressões sobre a poesia. Um deles disse que &#8220;<em>poesia não serve pra nada</em>&#8220;, ou &#8220;<em>ninguém lê, só poetas mesmo</em>&#8220;. Este tipo de comentário não é novo, sempre há poetas que dizem que &#8220;<em>poemas não foram feitos para serem lidos</em>&#8221; e coisas antagônicas e irresponsáveis dessa natureza. Gosto do que o Jorge de Lima diz &#8220;<em>a poesia aproxima constantemente os povos, separados pelas guerras, pela política, pelos regimes, pelos ódios, que são cordilheiras mais difíceis de transpor do que as comuns cordilheiras e as grandes serras que separam os povos da América do Sul&#8221;.</em> Há poetas e poetas, felizmente.</div>
<div><em></em> </div>
<div><em></em> </div>
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<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">MISSÃO E PROMISSÃO XIV</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Pra conhecer a calma que há na vida</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">isolemo-nos dentro desses frutos.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Que doçura perene nesses sumos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">de cavilosos ácidos despidos!</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Os pomares repousam nesses úteros</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">de rubis, ó maçã redescoberta;</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">repouso no teu seio como um púero</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">pois nesses fins de tempo sou um certo</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">cavaleiro chamado Adão segundo</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">flagelado de quedas, e barão</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">de azorragues de fogo assinalado;</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que deseja na beira desses mundos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">dormir nas frondes que amanhã virão,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">dormir já morto nos futuros pomos.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>Foi sem o poema, voltando. Gilberto Freyre levanta a questão de um movimento essencialmente nordestino na literatura brasileira &#8220;<em>o poeta leva sem nenhum rancor nem ranger de dentes o cristianismo para o campo específico das relações fraternais dos brancos com os povos de cor. Daí me parecer que precisamente nessa zona de expressão literária e ética é que o Brasil merece receber um desses dias o Prêmio Nobel, pela mão de algum dos seus poetas ou romancistas.&#8221;</em> Assim o disse o criador de Casa Grande e Senzala.</div>
<div> </div>
<div> </div>
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<div><span style="font-size:medium;">texto Nayana no blog </span><a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com/" target="_blank"><span style="font-size:medium;">http://pedrolago.blogspot.com</span></a></div>
<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">OBAMBÁ É BATIZADO</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Pela fé de zambi te digo:</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Obambá é batizado, confirmado, cruzado e coroado.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Dá licença meu pai?</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Licença venha</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">para os alufás de babalau.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Licença tem</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">o Babá de Olubá.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Licença tem.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Licença têm</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">cacuriqués, cacuricás.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Licença têm.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Licença tem</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">babalaô, babalaô.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Licença tem.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Na fé de Zambi te digo:</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Obambá é batizado, confirmado e coroado.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Oxóssi está reinando: dá pra ele.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Dá pra o pai-de-sala, dá pra ele.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Ó ocaia dá pra ele.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Na fé de Zambi te digo:</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Te vira em meu sangue.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Obambá é batizado, confirmado e coroado.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Dá licença meu pai?</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Licença venha para outros bacuros.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Ó ocaiá dá pra ele.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Dá licença meu pai?</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Ó ocaiá, me deixa só com meu santo,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">me deixa só,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">me deixa só,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">dá pra ele</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que Obambá é batizado, confirmado, cruzado e coroado.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Ôxóssi está reinando: dá pra ele.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>O <em>Livro de Sonetos</em> de Jorge de Lima é um dos pontos altos de sua obra. Assim como <em>Invenção de Orfeu</em>, o poeta aqui, chega a seu &#8220;limite&#8221; digamos assim, com sonetos que se pertencem e se voltam para o Divino, o Sublime, e a própria poesia, sua poesia. Fausto Cunha julgou ter sido o maior acontecimento de 1949. Há alí a qualidade do grande poeta, do grande sonetista. Vale lembrar que Jorge de Lima havia abandonado o soneto há bastante tempo e, nesta obra, retorna com todas as forças.</div>
<div> </div>
<div> </div>
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<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">LIVRO DE SONETOS</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E são setas no céu (Ó sagitário).</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Versos brotam de mim. Depois de lidos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">os distribuo por um destino vário,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">depondo em seus percursos meus sentidos.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Exijo que eles sejam meu sudário.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Reconheço-me: aqui os meus gemidos,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e ali esse vulcão desnecessário,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">jogando lava em todos os sentidos.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Que chegar de presenças! Que contágio!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Que pajens anunciados e banidos!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Nos bosques sugeridos &#8211; que presságio!</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Perscruto-me nos verbos nunca ouvidos,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">apenas pressentidos ou passados.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Ó bosque êrmo de pássaros calados!</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>Após algumas complicações e prolongada enfermidade, Jorge de Lima morre na Capital Federal no dia 15 de novembro de 1953. Um ano antes, Jorge fora eleito o primeiro presidente da recém fundada Sociedade Carioca de Escritores (SOCE). Não faltariam relatos enaltecendo sua importância, sobretudo após sua história com a Academia Brasileira de Letras. Seis vezes recusado. Mario Faustino disse que &#8220;<em>Jorge foi o mais alto, o mais vasto, o mais importante e o mais original poetas brasileiro de todos os tempos</em>&#8220;, ou o Ítalo Moriconi, que disse &#8220;<em>Quem os conhece, mesmo quando os amam, como é o meu caso, hesitam em substituir um daqueles quatro por esses dois&#8221;.</em> Rerefindo-se primeiramente a Jorge de Lima e Murilo Mendes, e depois, a Bandeira, Drummond, Cabral e Quintana. Enfim, tudo é muito relativo e pessoal, ainda bem. </div>
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<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">BÔBO</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Estou comparecendo,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">ó senhores que pensais</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que eu sou bôbo também.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Pois sou.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Basta olhardes estas cinzas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que me cobrem o rosto,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e estes punhos em amaranto,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e este colarinho que me empata as palavras,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e estas mãos como estrelas de barro.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Tudo é um fingimento claro</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">por mais que mude a voz</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e oculte o guarda-chuva</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">por detrás desta armadura baça.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Também há um rasgão nesta púrpura sovada</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que já perdeu o orgulho e os brasões.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Se chegardes lume aos mulambos da blusa,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">eis que o coração abrasado de medo</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">poderá ficar enxuto de prantos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e abrir-se diante de vosso contentamento.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">O mais nada vale como disfarce de mim.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Sou transparente,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e o timbre de minha voz repercute sombrio</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">como de uma abóbada afogada.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Sem faróis e sem brilho</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">grito: não me atropeleis que eu sou turba.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Escutai:</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">há vários carnavais chorando neste poema</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e em cada gesto vago que eu faço,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">fingindo ser rei-do-mundo.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Mas para vós sou infelizmente &#8211; palhaço.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>Eis que chegamos ao final de mais uma antologia poética. Espero que tenham gostado de penetrar na obra de um dos maiores poetas brasileiros. Jorge de Lima, o poeta católico, o poeta regionalista, o poeta que escreveu Invenção de Orfeu, o poeta que foi recusado seis vezes na Academia, o poeta médico, o poeta vereador, o poeta alagoano, o poeta &#8220;negra fulô&#8221;. Semana que vem, entraremos em outro universo poético, que em quatro semanas, tentaremos dar um mergulho mais detalhado na obra e na vida, revivendo assim, partes da poesia brasileira.</div>
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<div><span style="font-size:medium;">texto &#8220;Maresia&#8221; sobre duas mamães no Arpoador no blog  </span><a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com/" target="_blank"><span style="font-size:medium;">http://pedrolago.blogspot.com</span></a></div>
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<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">ERA O OLVIDO</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Com o olvido vão as andorinhas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">(quando outra voz como a sombra move</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">sua distância desfolhada em neve)</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">as tôrres da alma, peregrinas.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Pairam sobre os ventos como ruínas;</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e àvidamente a soluçar se atreve</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">esta faixa de névoa que tão breve,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">morre e nasce em ti, se em mim te inclinas</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Já não querem o olvido nem sua pista;</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">nem seus muros de ausentes mariposas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">errando como dunas ou faisca.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Nem sequer seu antigo labirinto;</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que em ti minha vida acaba entre as cousas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">por um lírio arroxeado e um jacinto.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"> </div>
</div>
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<br />Publicado emTODOS OS POETAS AQUI  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/cartilhadepoesia.wordpress.com/16/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/cartilhadepoesia.wordpress.com/16/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/cartilhadepoesia.wordpress.com/16/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/cartilhadepoesia.wordpress.com/16/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/cartilhadepoesia.wordpress.com/16/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/cartilhadepoesia.wordpress.com/16/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/cartilhadepoesia.wordpress.com/16/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/cartilhadepoesia.wordpress.com/16/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/cartilhadepoesia.wordpress.com/16/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/cartilhadepoesia.wordpress.com/16/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/cartilhadepoesia.wordpress.com/16/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/cartilhadepoesia.wordpress.com/16/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/cartilhadepoesia.wordpress.com/16/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/cartilhadepoesia.wordpress.com/16/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=16&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Poetas tradutores</title>
		<link>http://cartilhadepoesia.wordpress.com/2009/07/18/poetas-tradutores/</link>
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		<pubDate>Sat, 18 Jul 2009 18:43:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cartilhadepoesia</dc:creator>
				<category><![CDATA[TODOS OS POETAS AQUI]]></category>

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		<description><![CDATA[Vamos dar início a uma antologia diferente das que estamos acostumados. Neste mês homenagearemos o poetas tradutores. Traduzir poesia é tarefa árdua. Não há como algo não mudar, uma palavra, um sentido, uma letra que for. De modo que o poema traduzido, de certa forma, passa a pertencer também ao poeta. Digo poeta, pois, há tradutores formidáveis, mas [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartilhadepoesia.wordpress.com&amp;blog=8133612&amp;post=11&amp;subd=cartilhadepoesia&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div>Vamos dar início a uma antologia diferente das que estamos acostumados. Neste mês homenagearemos o poetas tradutores. Traduzir poesia é tarefa árdua. Não há como algo não mudar, uma palavra, um sentido, uma letra que for. De modo que o poema traduzido, de certa forma, passa a pertencer também ao poeta. Digo poeta, pois, há tradutores formidáveis, mas aqui, veremos a visão de alguns poetas com os objetos estudados e ver no que dá. Paulo Mendes Campos foi um deles, para mim, um dos maiores poetas brasileiros, eis então sua proposições de tradução, a começar pelo grande T.S Eliot, americanos de St. Louis, mas londrino de coração e opção. Foi certamente um dos mais importants poetas do século XX, opinião de 10 entre 10 poetas. Posso dizer com toda segurança que Eliot é descoberta de Ezra Pound. Eliot, ganhou o prêmio Nobel de literatura em 1948. Eliot tem que ser lido, pelo menos, uma vez por ano.</div>
<div> </div>
<div> </div>
<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">O HIPOPÓTAMO </span></div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">tradução de</span></div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">Paulo Mendes Campos</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>O espesso hipopótamo dorme</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>com sua barriga no mangue;</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>pareça embora firme, enorme,</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>não é senão de carne e sangue.</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em> </em></span> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>A carne fraca, o sangue ralo,</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>podem causar choques nervosos;</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>A Igreja não sofre abalo</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>porque de funda em chãos rochosos.</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em> </em></span> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>Fraco, o hipo pode perder-se</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>ao procurar seus pavimentos,</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>mas a Igreja, sem mexer-se,</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>pode colher seus rendimentos.</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em> </em></span> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>Não pode o pótamo se alçar</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>até a manga da mangueira;</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>romãs, pêssegos de além-mar,</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>sabem à Mestra verdadeira.</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em> </em></span> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>Amando, o hipo tem na voz</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>roncos grotescos e plebeus;</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>aos domingos ouvimos nós</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>a Igreja juntar-se a Deus.</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em> </em></span> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>O hipo dorme a tarde inteira,</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>durante a noite sai à caça;</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>pode a Igreja verdadeira</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>dormir e se nutrir de graça.</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em> </em></span> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>Vi o pótamo, asas ganhando,</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>voar acima das savanas,</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>em torno os anjos entoando,</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>para a glória de Deus, hosanas.</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em> </em></span> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>No Céu, no sangue do Cordeiro,</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>suas manchas serão lavadas;</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>por entre os mártires, fagueiro,</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>irá tocar harpas douradas.</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em> </em></span> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>E terá, limpo, da brancura</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>da neve, o beijo virginal;</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>embaixo a Igreja perdura</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;"><em>na velha marema letal.</em></span></div>
<div style="text-align:left;"><em> </em></div>
<div style="text-align:left;">
<div> </div>
<div> </div>
<div>Federico Garcia Lorca é o maior autor espanhol desde Cervantes. Tudo bem, pode-se dizer isso numa boa, sem exagero, pois ele foi e é. Garcia Lorca é daqueles foi daqueles autores imensos; poesia, teatro, prosa, pintura, pianista e abre-alas para o sublime. Sim, para o sublime. Garcia Lorca é o lirismo delicado quando fala da Espanha, da natureza, das mulheres, e pode ser utópico e verdadeiro quando fala dos horrores da guerra civil, da qual, foi vítima. Ficar dizendo que é um dos maiores do século XX é ser pleonástico ao quadrado, digo apenas que tem que ser lido, sempre, pois Federico, teto de Vinicius, é tudo aquilo que um poeta deseja de sutileza, pelo menos para mim.</div>
<div> </div>
<div> </div>
<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">DE &#8220;MARIANA PINEDA&#8221;</span></div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">tradução de</span></div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">Paulo Mendes Campos</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Na tourada mais bonita</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que se viu em Ronda, a velha.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Cinco touros de azeviche</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">com divisa verde e negra</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Eu pensava sempre em ti;</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">eu pensava: Se comigo</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">estivesse minha triste</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">amiga Marianita,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Marianita Pineda!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">As moças vinham gitando</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">em caleças coloridas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">com abaninhos redondos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">bordados de lantejoulas.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Também os moços e Ronda</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">em cavalinhos faceiros,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">os amplos chapéus cinzentos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">colados nas sombrancelhas.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">A praça com povaréu</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">(chapéus baixos, altos pentes)</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">girava como um zodíaco</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">de risos brancos e negros.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Quando o grande Caetano,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">pisando em palhas de areia,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">atravessou a arena</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">com traje cor de maçã</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">bordado de prata e seda,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">destacando-se Galhardo</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">entre os sujeitos de briga</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">frente os touros traiçoeiros</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que cria a terra de Espanha,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">parecia que a tarde</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">se botava mais morena.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Ah, se visses com que graça</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">se virava com as pernas!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Que grande equilíbrio o seu</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">com a capa e a muleta!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Melhor nem Pedro Romero</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">a tourear as estrelas!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Cinco touros matou; cinco,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">com divisa verde e negra.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Na ponta de seu estoque</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">cinco flores pôs abertas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e a cada instante roçava</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">pelos focinhos das feras</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">como imensa borboleta</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">de ouro com asas vermelhas.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">A praça, tal qual a tarde,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">vibrava forte, violenta,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e entre o aroma do sangue</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">ia o aroma da serra.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Eu pensava sempre em ti;</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">estivesse minha triste</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">amiga Marianita,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Marianita Pineda!</span></div>
<div style="text-align:left;">
<div> </div>
<div> </div>
<div> </div>
<div>Wilhem Apollinaris de Kostrowitzky, ou Guillaume Apollinaire, foi o único poeta &#8220;cubista&#8221;. Amigo e influenciador de Picasso, foi a figura mais interessante daquela efervescência vanguardista do início do século XX. Lider intelectual, crítico de arte, crítico literário, fez manifestos, jornalismo e muita poesia. Uma vez disse que &#8220;<em>os grandes poetas e os grandes artistas têm como função social renovar sem cessar o aspecto que adquire a natureza aos olhos dos homens&#8221;</em>. Esteve envolvido no roubo da Monalisa, foi muito lido por Pound, sobretudo em seus poemas caligramas, esquentou o clima em diversas áreas em que esteve. Nosso Mário de Andrade também foi outro que bebeu muito em Apollinaire. Esse eu queria ter conhecido. Liberdade para as palavras, é disso que se trata.</div>
<div> </div>
<div> </div>
<div> </div>
<div><a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com/" target="_blank">http://pedrolago.blogspot.com</a></div>
<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">A BONITA RUIVA</span></div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">tradução</span></div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">Paulo Mendes Campos</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Eis-me aqui diante de todos um homem cheio de sentido</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Conhecendo da vida e da morte o que um vivo pode conhecer</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Tendo provado as mágoas e as alegrias do amor</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Algumas vezes tendo sabido impor suas idéias</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Conhecendo diversas línguas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Tendo viajado um pouco</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Visto a guerra na Artilharia e na Infantaria</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Ferido na cabeça trepanado sob clorofórmio</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Tendo perdido seus melhores amigos na pavorosa luta</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Sei do antigo e do novo tanto quanto um homem só poderia saber</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E sem preocupar-me no dia de hoje com esta guerra</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Entre nós e para nós meus amigos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Julgo essa longa querela entre a tradição e a invenção</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">      Entre a Ordem e a Aventura</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Você cuja boca foi feita à imagem da boca de Deus</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Boca que é a própria ordem</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Seja indulgente ao comparar-nos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Aos que foram a perfeição da ordem</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Nós que por toda parte buscamos a aventura</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Não somos inimigos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Queremos obter vastos e estranhos domínios</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Onde o mistério se oferece a quem deseja colhê-lo</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Aí existem chamas novas e cores jamais vistas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Mil fantasmas imponderáveis</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Aos quais é preciso dar realidade</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Queremos explorar a bondade enorme país onde tudo se cala</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Existe ainda o tempo que se pode expulsar ou trazer de volta</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Piedade para nós que sempre combatemos nas fronteiras</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Do ilimitado e do futuro</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Piedade para os nossos erros piedade para os nossos pecados</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Eis de volta o verão a estação violenta</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E a minha juventude está morta como a primavera</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Ó sol eis o tempo da Razão ardente</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">       E espero</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Para segui-la sempre a forma nobre e doce</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Que ela assume a fim de que eu a ame exclusivamente</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">       E tem a aparência encantadora</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">       de uma ruiva adorável</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Seus cabelos são de ouro dir-se-ia</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Um bonito relâmpago que perdurasse</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Ou a palavra destas chamas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Na rosa-chá que se fana</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Mas riam riam de mim</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Homens de todos os lugares gente daqui sobretudo</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Porque há tantas coisas que não ouso dizer-lhes</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Tantas coisas que vocês não me deixariam dizer</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Piedade de mim.</span></div>
<div style="text-align:left;">
<div> </div>
<div> </div>
<div> </div>
<div>Edward Estlin Cummings, ou simplesmente E.E. Cummings foi um poeta norte-americano de Massachusetts. Nasceu em 1894 e morreu em 1962. Muito conhecido nos EUA, é tido, como consta, como grande poeta e voz literária do século XX. Nele podemos encontrar experimentações linguísticas, questões relacionadas à maiúsculas e minúsculas, formas não ortodoxas (que hoje não seriam novidade, mas na época foram mal vistas pelos &#8220;puritanos&#8221; da língua) e também pela sua postura irônica diante a contemporaneidade literária, uma vez disse que &#8220;<span style="color:#8e8e8e;font-family:Arial Narrow;"><em><span style="color:#000000;font-family:arial,helvetica,sans-serif;">Se o poeta é alguém, ele é alguém para quem as coisas feitas importam muito pouco &#8211; alguém que é obcecado pelo Fazer. Como todas as obsessões, a obsessão de Fazer tem desvantagens; por exemplo, meu único interesse em fazer dinheiro seria fazê-lo. Mas felizmente eu preferiria fazer quase tudo o mais, inclusive locomotivas e rosas. É com rosas e locomotivas (para não mencionar acrobatas primavera eletricidade Coney Island o 4 de Julho os olhos dos camundongos e as Cataratas do Niágara) que meus &#8220;poemas&#8221; competem</span>.&#8221;</em></span></div>
<div> </div>
<div> </div>
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<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">ONDE JAMAIS VIAJEI</span></div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">tradução de</span></div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">Paulo Mendes Campos</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">onde jamais viajei, alegremente além</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">de qualquer experiência, teus olhos têm o silêncio deles;</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">ou que não posso por perto demais tocar&#8230;</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">o teu mais leve olhar facilmente me descerra</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">embora como os dedos eu me tenha cerrado.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">sempre me abres pétala por pétala como a primavera</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">abre (tocando-a jeitosa, misteriosamente) sua primeira rosa</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">ou, se te aprouvesse encerrar-me, eu</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e minha vida nos fecharíamos em beleza, subitamente,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">como quando o coração desta flor imagina</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">a neve cuidadosamente por todo lado a tombar;</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">nada do que nos é dado a perceber neste mundo se iguala</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">ao poder da tua imensa fragilidade: cuja textura</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">me compele com a cor das suas pátrias,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que me cedem a morte e o sem fim a cada alento</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">(não sei o que vai em ti que se fecha</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e se entreabre; apenas alguma coisa em mim entende</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que a voz dos teus olhos é mais funda que as rosas todas)</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e ninguém, nem mesmo a chuva, tem as mãos assim tão pequenas</span></div>
<div style="text-align:left;">
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;">O motivo pelo qual Paulo Mendes Campos veio para o Rio de Janeiro e aqui ficou a vida inteira, foi conhecer o poeta chileno Pablo Neruda, que visitava o país. Isso ele conta em relatos escritos e registros de áudio. Pablo Neruda, que era canceriano, também era diplomata. Foi um poeta lírico por essência e, por que não, por excelência. Assim com Lorca, dizer que Neruda foi dos mais importantes poetas da língua castelhana é lugar comum desde que era vivo, mas enfim, falamos de novo e de novo se preciso, pois é assim que as gerações novas chegam aos poetas eternos. Com esta dobradinha, terminamos as traduções do Paulo, semana que vem, outras apropriações poéticas e algumas surpresas. <em>Voilá!</em></div>
<div><em> </em> </div>
<div><em> </em> </div>
<div><em> </em> </div>
<div><span style="font-size:medium;">texto &#8220;Asas Frágeis&#8221; no blog  </span><a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com/" target="_blank"><span style="font-size:medium;">http://pedrolago.blogspot.com</span></a></div>
<div> </div>
<div> </div>
<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">CAVALEIRO SOLITÁRIO</span></div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">tradução</span></div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">Paulo Mendes Campos</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Os jovens homossexuais e as moças amorosas,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e as longas viúvas que sofrem a delirante insônia,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e as jovens senhoras emprenhadas faz trinta horas,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e os gatos roucos que cruzam meu jardim em trevas,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">como um colar de palpitante ostras sexuais</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">rodeiam minha residência solitária,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">como inimigos estabelecidos contra a minha alma,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">como conspiradores em trajes de dormitório</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">que trocaram longos beijos espessos como instruções.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">O radiante verão conduz os enamorados</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">em uniformes regimentos melancólicos,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">feitos de gordos e magros e alegres e tristes casais:</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">sob os elegantes coqueiros, junto ao oceano e à lua,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">há uma contínua vida de calças e saias,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">um rumor de meias de seda acariciadas,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e seios femininos que brilham como olhos.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">O pequeno empregado, depois de muito,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">depois do tédio semanal, e os romances lidos de noite na cama,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">definitivamente seduziu sua vizinha,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e a leva para miseráveis cinemas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">onde os heróis são potros ou príncipes apaixonados,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e acaricia suas pernas cheias de um doce pelo</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">com suas ardentes e úmidas mãos que cheiram a cigarro.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Os entardecedores do sedutor e as noites dos esposos</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">unem-se como dois lençóis me sepultando,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e as horas depois do almoço em que os jovens estudantes</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e as jovens estudantes, e os sacerdotes se masturbam</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e os animais fornicam diretamente,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e as abelhas cheiram a sangue, e as moscas zumbem coléricas,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e os primos brincam estranhamente com as suas primas,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e os médicos olham com fúria para o marido da jovem paciente,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e as horas da manhã em que o professor, como por descuido,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">cumpre o seu dever conjugal e toma café,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e ainda mais, os adúlteros que se amam com verdadeiro amor</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">sobre leitos altos e longos como embarcações;</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">seguramente, eternamente me rodeia</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">este grande bosque respiratório e enredado</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">com grandes flores como bocas e dentaduras</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">e negras raízes em forma de unhas e sapatos.</span></div>
<div style="text-align:left;">
<div> </div>
<div> </div>
<div> </div>
<div>Edgar Allan Poe nasceu em Boston no ano de 1809 e morreu em Baltimore quarenta anos depois. Poe foi dos primeiros a escrever obras de ficção, reconhecidas como os primeiros policiais. Há quem diga que foi com ele que &#8220;a verdadeira literatura americana começou&#8221;. O Corvo, seu poema mais conhecido, foi traduzido por muitos. Fiquei na dúvida se usava a do Fernando Pessoa, mas acho que a do Machado tem um sabor a mais. Poe, que foi traduzido por Baudelaire, foi também grande crítico literário. Seus ensaios são boas aulas de métrica em língua inglesa. Machado tinha fascínio por ele, por isso sua tradução é interessante de ser lida.</div>
<div> </div>
<div> </div>
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<div> </div>
<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;"> O CORVO</span></div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">tradução</span></div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">Machado de Assis</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<div>
<div><span style="font-size:medium;">Em certo dia, à hora, à hora<br />
Da meia-noite que apavora,<br />
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,<br />
Ao pé de muita lauda antiga,<br />
De uma velha doutrina, agora morta,<br />
Ia pensando, quando ouvi à porta<br />
Do meu quarto um soar devagarinho,<br />
E disse estas palavras tais:<br />
&#8220;É alguém que me bate à porta de mansinho;<br />
Há de ser isso e nada mais.&#8221;</span></div>
<p> </p>
<div><span style="font-size:medium;">Ah! bem me lembro! bem me lembro!<br />
Era no glacial dezembro;<br />
Cada brasa do lar sobre o chão refletia<br />
A sua última agonia.<br />
Eu, ansioso pelo sol, buscava<br />
Sacar daqueles livros que estudava<br />
Repouso (em vão!) à dor esmagadora<br />
Destas saudades imortais<br />
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora.<br />
E que ninguém chamará mais.</span></div>
<p> </p>
<p><span style="font-size:medium;">E o rumor triste, vago, brando<br />
Das cortinas ia acordando<br />
Dentro em meu coração um rumor não sabido,<br />
Nunca por ele padecido.<br />
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,<br />
Levantei-me de pronto, e: &#8220;Com efeito,<br />
(Disse) é visita amiga e retardada<br />
Que bate a estas horas tais.<br />
É visita que pede à minha porta entrada:<br />
Há de ser isso e nada mais.&#8221;</p>
<p>Minh&#8217;alma então sentiu-se forte;<br />
Não mais vacilo e desta sorte<br />
Falo: &#8220;Imploro de vós, — ou senhor ou senhora,<br />
Me desculpeis tanta demora.<br />
Mas como eu, precisando de descanso,<br />
Já cochilava, e tão de manso e manso<br />
Batestes, não fui logo, prestemente,<br />
Certificar-me que aí estais.&#8221;<br />
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,<br />
Somente a noite, e nada mais.</p>
<p>Com longo olhar escruto a sombra,<br />
Que me amedronta, que me assombra,<br />
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,<br />
Mas o silêncio amplo e calado,<br />
Calado fica; a quietação quieta;<br />
Só tu, palavra única e dileta,<br />
Lenora, tu, como um suspiro escasso,<br />
Da minha triste boca sais;<br />
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;<br />
Foi isso apenas, nada mais.</p>
<p>Entro coa alma incendiada.<br />
Logo depois outra pancada<br />
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:<br />
&#8220;Seguramente, há na janela<br />
Alguma cousa que sussurra. Abramos,<br />
Eia, fora o temor, eia, vejamos<br />
A explicação do caso misterioso<br />
Dessas duas pancadas tais.<br />
Devolvamos a paz ao coração medroso,<br />
Obra do vento e nada mais.&#8221;</p>
<p>Abro a janela, e de repente,<br />
Vejo tumultuosamente<br />
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.<br />
Não despendeu em cortesias<br />
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto<br />
De um <em>lord</em> ou de uma <em>lady</em>. E pronto e reto,<br />
Movendo no ar as suas negras alas,<br />
Acima voa dos portais,<br />
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;<br />
Trepado fica, e nada mais.</p>
<p>Diante da ave feia e escura,<br />
Naquela rígida postura,<br />
Com o gesto severo, — o triste pensamento<br />
Sorriu-me ali por um momento,<br />
E eu disse: &#8220;O tu que das noturnas plagas<br />
Vens, embora a cabeça nua tragas,<br />
Sem topete, não és ave medrosa,<br />
Dize os teus nomes senhoriais;<br />
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?&#8221;<br />
E o corvo disse: &#8220;Nunca mais&#8221;.</p>
<p>Vendo que o pássaro entendia<br />
A pergunta que lhe eu fazia,<br />
Fico atônito, embora a resposta que dera<br />
Dificilmente lha entendera.<br />
Na verdade, jamais homem há visto<br />
Cousa na terra semelhante a isto:<br />
Uma ave negra, friamente posta<br />
Num busto, acima dos portais,<br />
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta<br />
Que este é seu nome: &#8220;Nunca mais&#8221;.</p>
<p>No entanto, o corvo solitário<br />
Não teve outro vocabulário,<br />
Como se essa palavra escassa que ali disse<br />
Toda a sua alma resumisse.<br />
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,<br />
Não chegou a mexer uma só pluma,<br />
Até que eu murmurei: &#8220;Perdi outrora<br />
Tantos amigos tão leais!<br />
Perderei também este em regressando a aurora.&#8221;<br />
E o corvo disse: &#8220;Nunca mais!&#8221;</p>
<p>Estremeço. A resposta ouvida<br />
É tão exata! é tão cabida!<br />
&#8220;Certamente, digo eu, essa é toda a ciência<br />
Que ele trouxe da convivência<br />
De algum mestre infeliz e acabrunhado<br />
Que o implacável destino há castigado<br />
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,<br />
Que dos seus cantos usuais<br />
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,<br />
Esse estribilho: &#8220;Nunca mais&#8221;.</p>
<p>Segunda vez, nesse momento,<br />
Sorriu-me o triste pensamento;<br />
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;<br />
E mergulhando no veludo<br />
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera<br />
Achar procuro a lúgubre quimera,<br />
A alma, o sentido, o pávido segredo<br />
Daquelas sílabas fatais,<br />
Entender o que quis dizer a ave do medo<br />
Grasnando a frase: &#8220;Nunca mais&#8221;.</p>
<p>Assim posto, devaneando,<br />
Meditando, conjeturando,<br />
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,<br />
Sentia o olhar que me abrasava.<br />
Conjeturando fui, tranqüilo a gosto,<br />
Com a cabeça no macio encosto<br />
Onde os raios da lâmpada caíam,<br />
Onde as tranças angelicais<br />
De outra cabeça outrora ali se desparziam,<br />
E agora não se esparzem mais.</p>
<p>Supus então que o ar, mais denso,<br />
Todo se enchia de um incenso,<br />
Obra de serafins que, pelo chão roçando<br />
Do quarto, estavam meneando<br />
Um ligeiro turíbulo invisível;<br />
E eu exclamei então: &#8220;Um Deus sensível<br />
Manda repouso à dor que te devora<br />
Destas saudades imortais.<br />
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora.&#8221;<br />
E o corvo disse: &#8220;Nunca mais&#8221;.</p>
<p>“Profeta, ou o que quer que sejas!<br />
Ave ou demônio que negrejas!<br />
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno<br />
Onde reside o mal eterno,<br />
Ou simplesmente náufrago escapado<br />
Venhas do temporal que te há lançado<br />
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo<br />
Tem os seus lares triunfais,<br />
Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?&#8221;<br />
E o corvo disse: &#8220;Nunca mais&#8221;.</p>
<p>“Profeta, ou o que quer que sejas!<br />
Ave ou demônio que negrejas!<br />
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!<br />
Por esse céu que além se estende,<br />
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,<br />
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la<br />
No éden celeste a virgem que ela chora<br />
Nestes retiros sepulcrais,<br />
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!”<br />
E o corvo disse: &#8220;Nunca mais.&#8221;</p>
<p>“Ave ou demônio que negrejas!<br />
Profeta, ou o que quer que sejas!<br />
Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!<br />
Regressa ao temporal, regressa<br />
À tua noite, deixa-me comigo.<br />
Vai-te, não fique no meu casto abrigo<br />
Pluma que lembre essa mentira tua.<br />
Tira-me ao peito essas fatais<br />
Garras que abrindo vão a minha dor já crua.&#8221;<br />
E o corvo disse: &#8220;Nunca mais&#8221;.</p>
<p>E o corvo aí fica; ei-lo trepado<br />
No branco mármore lavrado<br />
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.<br />
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,<br />
Um demônio sonhando. A luz caída<br />
Do lampião sobre a ave aborrecida<br />
No chão espraia a triste sombra; e, fora<br />
Daquelas linhas funerais<br />
Que flutuam no chão, a minha alma que chora<br />
Não sai mais, nunca, nunca mais!</p>
<p> </p>
<p></span></p>
<div>Outro que traduziu Poe para o português foi Fernando Pessoa. Como consta, Annabel Lee é o último poema composto por Poe, em 1849, e foi publicado depois de sua morte neste mesmo ano, em dois jornais. Atribui-se à Virginia, mulher de Poe, o papel de Annabel Lee, que para outros estudiosos, serviu apenas de inspiração para o poema. Enfim, isso não importa muito, pois o poema está aí e é muito bonito, tal qual a tradução do Pessoa que, obedece fielmente, ao ritmo original. Além d&#8217;<em>Annabel</em> <em>Lee</em>, Pessoa traduziu <em>O Corvo</em> e <em>Ulalume</em> do poeta americano. Vale ler sobretudo <em>O Corvo</em>, que tem outra cadência.</div>
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<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">ANNABEL LEE</span></div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">tradução</span></div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">Fernando Pessoa</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;">
<p><span style="font-size:medium;">Foi há muitos e muitos anos já,<br />
Num reino de ao pé do mar.<br />
Como sabeis todos, vivia lá<br />
Aquela que eu soube amar;<br />
E vivia sem outro pensamento<br />
Que amar-me e eu a adorar. </span></p>
<p><span style="font-size:medium;">Eu era criança e ela era criança,<br />
Neste reino ao pé do mar;<br />
Mas o nosso amor era mais que amor &#8211;<br />
O meu e o dela a amar;<br />
Um amor que os anjos do céu vieram<br />
a ambos nós invejar. </span></p>
<p><span style="font-size:medium;">E foi esta a razão por que, há muitos anos,<br />
Neste reino ao pé do mar,<br />
Um vento saiu duma nuvem, gelando<br />
A linda que eu soube amar;<br />
E o seu parente fidalgo veio<br />
De longe a me a tirar,<br />
Para a fechar num sepulcro<br />
Neste reino ao pé do mar. </span></p>
<p><span style="font-size:medium;">E os anjos, menos felizes no céu,<br />
Ainda a nos invejar&#8230;<br />
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,<br />
Neste reino ao pé do mar)<br />
Que o vento saiu da nuvem de noite<br />
Gelando e matando a que eu soube amar. </span></p>
<p><span style="font-size:medium;">Mas o nosso amor era mais que o amor<br />
De muitos mais velhos a amar,<br />
De muitos de mais meditar,<br />
E nem os anjos do céu lá em cima,<br />
Nem demônios debaixo do mar<br />
Poderão separar a minha alma da alma<br />
Da linda que eu soube amar. </span></p>
<p><span style="font-size:medium;">Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos<br />
Da linda que eu soube amar;<br />
E as estrelas nos ares só me lembram olhares<br />
Da linda que eu soube amar;<br />
E assim &#8216;stou deitado toda a noite ao lado<br />
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,<br />
No sepulcro ao pé do mar,<br />
Ao pé do murmúrio do mar. </span></p>
<p> </p>
<div>
<div><span style="font-size:medium;"> </span></div>
<p> <span style="font-size:medium;">Ana Cristina Cesar, minha poeta preferida, fez importantes estudos sobre tradução. Alguns deles estão em <em>Escritos da Inglaterra</em>, uma detalhada reunião de anotações sobre tradução de prosa e poesia. Emily Dickinson, nasceu em Massachusetts em 1830 e lá se foi em 1886. Pouco se sabe sobre sua vida particular, apenas que era reclusa, muito reclusa, chegando até virar mito, pela sua personalidade solitária. Teve boa formação, nunca se casou, não publicou mais que dez poemas em vida, e somente em 1955, em uma publicação contendo 1.775 poemas, ou seja, todos, que a poesia de Emily Dickinson veio à público e imediatamente reverenciada.</span></p>
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<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">POEMA 280</span></div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">tradução</span></div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">Ana Cristina Cesar</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Sinto um Enterro em minha Mente,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Enlutados vêm e vão</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Marcham &#8211; marcham &#8211; até que</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E quando todos sentam,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Um Tambor em minha Mente</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Bate &#8211; bate &#8211; até que o Senso</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Parece estar dormente</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E os ouço erguer um grande Peso</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E em minha Alma range</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">O chumbo dessas Botas, sempre</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E o Espaço todo &#8211; tange,</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E o Céu inteiro é só um Sino</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E o ser é só um Ouvir,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Silêncio, e eu, uma estranha raça</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Destruída, solitária, aqui -</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E quebra a Tábua da Razão,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E eu afundo mais, e mais -</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E atinjo um Mundo em cada choque</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E sei Enfim &#8211; então -</span></div>
<div style="text-align:left;">
<div> </div>
<div> </div>
<div> </div>
<div>Dylan Marlays Thomas nasceu no País de Gales em 1914 e morreu em Nova York em 1953. Considerado por aí o maior poeta de Gales, escreveu poemas bastante conhecidos na língua inglesa e peças de teatro, entre elas, <em>Under Milk Wood.</em> Lançou também uma coletânea de contos intitulada <em>Portrait of the Artist as a Young Dog</em>. Dylan era muito bom de copo, tomava aqueles &#8220;porres homéricos&#8221; (já está na hora de achar outro termo para isso, Homero já cansou de beber) e, por isso, morreu de alcoolismo. Dizem que o compositor americano Roberto Allen Zimmerman, mudou o nome para Bob Dylan por causa dele. Incrível isn&#8217;t it?</div>
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<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">NÃO ENTRES DOCILMENTE NESTA NOITE MANSA</span></div>
<div style="text-align:center;">tradução</div>
<div style="text-align:center;">Ana Cristina Cesar </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Não entres docilmente nesta noite mansa:</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">A idade deve arder e irar-se ao fim do dia;</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Grita, grita contra a luz que está morrendo.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Mesmo sabendo no final que a justa escuridão avança,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Pois seus gestos não forjaram raios, o homem sábio</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Não entra docilmente nesta noite mansa.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">O homem, à onda derradeira, gemendo</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Que seus frágeis atos poderiam ter brilhado e dançado na enseada,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Grita, grita contra a luz que está morrendo.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">O homem louco que reteu e cantou o sol em fuga,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E aprendeu, tão tarde, que apenas lamentava seu passar,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Não entra docilmente nesta noite mansa.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">O homem grave, ao morrer, já cego vendo</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Que olhos cegos poderiam brilhar como as estrelas e alegrar-se,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Grita, grita contra a luz que está morrendo.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E tu, meu pai, aí da tua altura triste,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Amaldiçoa-me, abençoa-me, te peço, com tuas lágrimas ferozes.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Não entres docilmente nesta noite mansa.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Grita, grita contra a luz que está morrendo.</span></div>
<div style="text-align:left;">
<div> </div>
<div> </div>
<div> </div>
<div>Sylvia Plath nasceu em Massachusetts em 1932 e morreu em Londres 31 anos depois, cometendo suicídio. Já havia tentado o suicídio antes, quando estava na faculdade. Sylvia era casada com o também poeta Ted Hughes, com quem teve dois filhos, tendo se separado depois. Há quem diga que foi uma das mais importantes poetas dos EUA. Precoce, organica, poeta de chagas e caótica. Fazer um paralelo entre a poeta e sua tradutora não é dificil, não pelas semelhantes tragédias, pelo discurso mesmo, há muito de Sylvia em três ou quatro de Ana. Há duas traduções de Palavras feitas por Ana Cristina, escolhi a segunda, que é a menos conhecida, ou seja, isso quer dizer&#8230;.nada.</div>
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<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">PALAVRAS</span></div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">tradução</span></div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">Ana Cristina Cesar</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Golpes</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">De machado que fazem soar a madeira,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E os ecos!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Ecos partem</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Do centro como cavalos.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">A seiva</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Jorra como lágrimas, como a</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Água lutando</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Para repor seu espelho</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Sobre a rocha</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Que cai e rola,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Crânio branco</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Comido por ervas daninhas.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Anos depois as encontro</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Na estrada</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Palavras secas e sem rumo,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Infatigável bater de cascos.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Enquanto </span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Do fundo do poço estrelas fixas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Governam uma vida.</span></div>
<div style="text-align:left;">
<div><span style="font-size:medium;">PALAVRAS (primeira tradução)</span></div>
<div> </div>
<div><span style="font-size:medium;">Golpes,<br />
De machado na madeira,<br />
E os ecos!<br />
Ecos que partem<br />
A galope.</span></div>
<div><span style="font-size:medium;"> </span></div>
<div> </div>
<div> </div>
<div> </div>
<div>Jean-Nicolas Arthur Rimbaud, veio ao mundo como um cometa em 1854 e se foi em 1891. Ter sido precoce, ter escrito tudo até os dezenove, ter virado traficante de armas, ter sido o mais voraz dos simbolistas, são aquelas coisas que todo mundo pensa quando se fala dele. &#8220;<em>Je est un autre</em>&#8220;,  e assim mesmo definiu-se em prosa, &#8220;<em>O primeiro estudo do homem que quer ser poeta é seu próprio conhecimento, completo; pesquisa sua alma, inspeciona-a, experimenta-a, aprende-a. A partir do momento em que a conhece, deve cultivá-la&#8230; portanto o poeta é na verdade um ladrão de fogo</em>&#8220;. Não há muito mais o que dizer, pois Rimbaud não é poeta para poucos, e sim, para todos, e aqui, agora, navega-se por aí. Como hoje é meu aniversário, vamos brindar com ele.</div>
<div> </div>
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<div><span style="font-size:medium;">texto Tentações no blog </span><a rel="nofollow" href="http://pedrolago.blogspot.com/" target="_blank"><span style="font-size:medium;">http://pedrolago.blogspot.com</span></a></div>
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<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">O BARCO ÉBRIO</span></div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">tradução</span></div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">Augusto de Campos</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-family:trebuchet ms;"> </p>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Quando eu atravessava os Rios impassíveis,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Senti-me libertar dos meus rebocadores</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Cruéis peles-vermelhas com uivos terríveis</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Os espetaram nus em postes multicores.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Eu era indiferente à carga que trazia,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Gente, trigo flamengo ou algodão inglês</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Morta a tripulação e finda algaravia</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Os Rios para mim se abriram de uma vez.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Imerso no furor do marulho oceânico</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">No inverno, eu, surdo como um cérebro infantil,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Deslizava enquanto as penínsulas em pânico</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Viam turbilhonar marés de verde anil.</span><span style="font-family:trebuchet ms;"></p>
<p><span style="font-size:medium;font-family:arial,helvetica,sans-serif;">O vento abençoou minhas manhãs marítimas.<br />
Mais leve que uma rolha eu dancei nos lençóis<br />
Das ondas a rolar atrás de suas vítimas,<br />
Dez noites, sem pensar nos olhos dos faróis!</p>
<p>Mais doce que as maçãs parecem aos pequenos,<br />
A água verde infiltrou-se no meu casco ao léu<br />
E das manchas azulejantes dos venenos<br />
E vinhos me lavou, livre de leme e arpéu.</p>
<p>Então eu mergulhei nas águas do poema<br />
Do Mar, sarcófago de estrelas, latescente,<br />
Devorando os azuis, onde às vezes &#8211; dilema<br />
Lívido &#8211; um afogado afunda lentamente;</p>
<p>Onde, tingindo azulidades com quebrantos<br />
E ritmos lentos sob o rutilante albor,<br />
Mais fortes que o álcool, mais vastas que os nossos prantos,<br />
Fermentam de amargura as rubéolas do amor!</p>
<p>Conheço os céus crivados de clarões, as trombas,<br />
Ressacas e marés: conheço o entardecer,<br />
A aurora em explosão como um bando de pombas,<br />
E algumas vezes vi o que o homem quis ver!</p>
<p>Eu vi o sol baixar, sujo de horrores místicos,<br />
Iluminando os longos túmulos glaciais;<br />
Com actrizes senis em palcos cabalísticos,<br />
Ondas rolando ao longe os frémitos de umbrais!</p>
<p>Sonhei que a noite verde em neves alvacentas<br />
Beijava, lenta, o olhar dos mares com mil coros,<br />
Soube a circulação das seivas suculentas<br />
E o acordar louro e azul dos fósforos canoros!</p>
<p>Por meses eu segui, tropel de vacarias<br />
Histéricas, o mar violentando as areias,<br />
Sem esperar que aos pés de ouro das Marias<br />
Esmorecesse o ardor dos Oceanos sem peias.</p>
<p>Cheguei a visitar as Flóridas perdidas<br />
Com olhos de jaguar florindo em epidermes<br />
De homens! Arco-íris tensos como bridas<br />
No horizonte do mar de glaucos paquidermes.</p>
<p>Vi fermentarem pântanos imensos, ansas<br />
Onde apodrecem Liviatãs distantes!<br />
O desmoronamento da água nas bonanças<br />
E abismos a abrirem-se no caos, cataratantes!</p>
<p>Glaciares, sóis de prata, ondas e céus cadentes!<br />
Naufrágios abissais na tumba dos negrumes,<br />
Onde, pasto de insectos, tombam as serpentes<br />
Dos curvos cipoais, com pérfidos perfumes!</p>
<p>Ah! Se as crianças vissem o dourar das ondas,<br />
Áureos peixes do mar azul, peixes cantantes&#8230;<br />
- Espumas em flor ninaram minhas rondas<br />
E as brisas da ilusão me alaram por instantes.</p>
<p>Mártir de pólos e de zonas misteriosas,<br />
O mar a soluçar cobria os meus artelhos<br />
Com flores fantasmais de pálidas ventosas<br />
E eu, como uma mulher, me punha de joelhos&#8230;</p>
<p>Quase ilha a balouçar entre borras e brados<br />
De gralhas tagarelas com olhar de gelo,<br />
Eu vogava, e por minha rede os afogados<br />
Passavam, a dormir, descendo a contrapelo.</p>
<p>Mas eu, barco perdido em baías e danças,<br />
Lançado no ar sem pássaros pela torrente,<br />
De quem os Monitores e os arpões das Hansas<br />
Não teriam pescado o casco de água ardente;</p>
<p>Livre, fumando em meio às virações inquietas,<br />
Eu que furava o céu violáceo como um muro<br />
Que mancham, acepipe raro aos bons poetas,<br />
Líquens de sol e vómitos de azul escuro;</p>
<p>Prancha louca a correr em lúnulas e faíscas<br />
E hipocampos de breu, numa escolta de espuma,<br />
Quando os sóis estivais estilhaçavam em riscas<br />
O céu ultramarino e seus funis de bruma;</p>
<p>Eu que tremia ouvindo, ao longe a estertorar,<br />
O cio dos Behemóts e dos Maeltroms febris,<br />
Fiandeiro sem fim dos marasmos do mar,<br />
Anseio pela Europa e os velhos peitoris!</p>
<p>Eu vi os arquipélagos astrais! e as ilhas<br />
Que o delírio dos céus desvela ao viajor;<br />
- É nas noites sem cor que te esqueces e te ilhas,<br />
Milhão de aves de ouro, ó futuro Vigor?</p>
<p>Sim, chorar eu chorei! São mornas as Auroras!<br />
Toda lua é cruel e todo sol, engano:<br />
O amargo amor opiou de ócios minhas horas.<br />
Ah! que esta quilha rompa! Ah! que me engula o oceano!</p>
<p>Da Europa a água que eu quero é só o charco<br />
Negro e gelado onde, ao crepúsculo violeta,<br />
Um menino tristonho arremesse o seu barco<br />
Trémulo como a asa de uma borboleta.</p>
<p>No meu torpor, não posso, ó vagas, as esteiras<br />
Ultrapassar das naves cheias de algodões,<br />
Nem vencer a altivez das velas e bandeiras,<br />
Nem navegar sob o olho torvo dos pontões.<br />
</span></span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<p></span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-family:trebuchet ms;"><span style="font-size:medium;font-family:arial,helvetica,sans-serif;"> </span></span> </div>
<div>Charles-Pierre Baudelaire nasceu em Paris em 1821 e lá encantou-se em 1867. Muito se fala dele, que foi um dos maiores poetas da história, que revolucionou a poesia francesa, que adorava Egdar Allan Poe, que precedeu e influenciou a geração simbolista que viria, enfim, todas essas coisas que não cansamos de falar. Para mim, Baudelaire foi importante quando li seus &#8220;pequenos poemas em prosa&#8221;. Aquilo tudo alí é crônica pura. Quem gosta de ler o Rubem Braga, o Sabino, o Otto, vai achar alí a fonte, é simplesmente incrível. Irônico, sarcástico, muito engraçado e, sobretudo, leve. Isso mesmo, leve, Baudelaire leve. Pois é obvio que o autor de <em>Le Fleurs du mal</em> é muito mais importante pelo que fez alí, no simbolo, no sórdido, no sublime, na narrativa, mas, com suas &#8220;experimentações&#8221; atrevidas de prosa poética, com certeza, abriu caminhos para muitos que aí estão, inclusive eu.</div>
<div> </div>
<div> </div>
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<div> </div>
<div> </div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">O LETES</span></div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">tradução</span></div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">Dante Milano</span></div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:center;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Vem ao meu peito, alma surda e traiçoeira,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Tigre adorado, de ares indolentes.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Quero tocar-te com dedos trementes</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E acariciar a tua cabeleira.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Em tua saia, onde há o teu odor,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Enterrar a cabeça dolorida</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E aspirar, qual de flor emurchecida,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">O hálito suave de um extinto amor.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Quero dormir! Dormir e não viver!</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Num sono assim como o que a morte encobre,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Em teu corpo brunido como o cobre</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Colar meus beijos, no último prazer.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Para afogar soluços nada vejo</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Melhor que a cova aberta em tua cama.</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">De tua boca o olvido se derrama</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E a água do Letes flui pelo teu beijo.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Ao meu destino, que é delícia e vício,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Obedeço como um predestinado,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Um mártir, inocente condenado,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Cujo fervor atiça o seu suplício.</span></div>
<div style="text-align:left;"> </div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E afogando o rancor desta paixão,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">A cicuta e o nepentes saboreio</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Nas suaves pontas desse agudo seio</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Que nunca teve dentro um coração.</span></div>
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<div>Mário Faustino tinha uma coluna no Jornal do Brasil aos domingos onde publicava poemas e pequenas biografias de poetas do mundo inteiro, era como se fosse uma pequena aula, para elucidar àqueles que desejavam conhecer um pouco mais de poesia. Traduzia e, muitas vezes, não metrificava, gostava de dizer (e é verdade) que as traduções apenas apontam algo que pode vir a ser próximo do original. Isso é importante dizer, pois, assim lemos os poetas traduzidos com mais clareza, sem achar que o mergulho está sendo definitivo. Robert Frost, americano de San Francisco (1875 -1963), ganhou quatro vezes o Prêmio Pulitzer, como disse o próprio Mário &#8220;<em>simples, humano, sutil, humorístico, contemplativo, poesia penetrada de sentimento trágico; poeta regional, seu humanismo o torna decerto nacional e até certo ponto universal&#8221;.</em></div>
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<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">THE MASTER SPEED</span></div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">tradução</span></div>
<div style="text-align:center;"><span style="font-size:medium;">Mário Faustino</span></div>
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<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Pressa de vento ou de água aos pés correndo,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Tua pressa é maior. Podes subir</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Radiante, riacho acima, rumo ao céu,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">E história acima, rumo ao tempo, atrás</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Deram-te essa leveza por amor</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Da ligeireza não, nem para ires</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Aonde queiras: sim para que possas</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Tudo gastar até seres senhor</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Do poder de deter-te, quieto, fora</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">De tudo quanto digas &#8211; coisa quieta</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Ou movediça. Dois iguais a ti,</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">A mesma rapidez de mestre, quem</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Apartar-vos pudera se sabeis</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Que a vida é vida, apenas, para sempre</span></div>
<div style="text-align:left;"><span style="font-size:medium;">Juntos, remo com remo, asa com asa.</span></div>
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<div>Johann Christian Friedrich Hölderlin nasceu em Lauffen am Neckar na Alemanha em 1770 e morreu em Tubingen em 1843. Era um poeta ligado à grande filosofia. Seus poemas interessaram a Heidegger, por exemplo, e era íntimo dos filósofos de sua época, ou seja, os fundadores do chamado Idealismo Alemão. Holderlin tinha ligações pessoais com Schiller. Hegel e Schelling foram seus colegas 
