Bertolt Brecht

Eugen Berthold Friedrich Brecht nasceu no bairro operário de Augsburg, 50 kilômetros ao norte de Munique no dia 10 de fevereiro de 1898. Apesar do bairro ser operário, seu pai era um próspero diretor de um florescente fábrica de papel. Segundo o dramaturgo Arnolt Bronnen, o pai de Bertold era católico, amante da ordem e da hierarquia, avarento, exigente e autoritário. Sua mãe, Sophie Brezing era filha de um alto funcionário da Floresta Negra e fez o pequeno Bertold ser batizado em sua religião protestante. Vamos de Brecht!

 
 
Uma canção sobre um berço http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
 
 
A LENDA DO SOLDADO MORTO
 
 
Durava já seis anos a guerra
E a paz não aparecia
Então decidiu-se o soldado
E morreu como um herói
Mas a guerra não terminava
E o rei vendo morto o soldado
Ficou muito triste e pensou:
Morreu ele antes do fim.
 
O sol esquentava o cemitério
Onde o soldado jazia em paz
Até que um noite chegou ao front
Um médico militar
Tiraram o soldado da cova
Ou o que dele sobrou
E o médico disse
“Tá bom pro serviço
ainda tem muito pra dar!”
 
Saíram levando o soldado
Que já todo apodrecia
Rezavam em seus braços duas freiras
E uma puta qualquer
E como cheirava a morte
Um padre ia à sua frente
Soltando nuvens de incenso
Pra disfarçar o fedor
 
Uma banda puxava o andor
Fazendo bum bum tara trá
Pra que o soldado marchasse
Como no batalhão
Dois enfermeiros o erguiam
Para mantê-lo de pé
Pois se caísse por terra
Virava um monte de lixo!
 
Na frente um homem de fraque
marchava, usando uma gravata
Um bom cidadão consciente
um “Patriota da Pátria Amada”
Tambores e gritos saudavam
A mulher, o padre e um cachorro
O soldado ia morto oscilando
qual um macaco de porre
E quando cruzavam as cidades
Ninguém enxergava o soldado
Mas todos entravam na marcha
Gritando: “Pela Pátria lutar!”
Agitavam bandeiras rasgadas
Para esconder o defunto
Que só se via de cima
Mas em cima só brilham as estrelas…
 
E as estrelas nem sempre aparecem
Foi quando outro dia nasceu
Então de novo o soldado morreu
E foi outra vez enterrado!
 
 
 
Bertold frequentou a escola primária de 1904 a 1908 e o ginásio de 1908 a 1916: “Me aborreci durante 4 anos na escola primária, e nos 9 anos que passei no Realgymnasium de Augsburg, nada consegui aprender de meus professores. Eles não cessaram de estimular meu gosto pelo prazer e pela independência…”. Foi aluno rebelde e esperto. Certa vez precisava de uma nota alta em francês, mas recebeu a prova cheia de correções em caneta vermelha e com nota baixa. Bertold pegou uma caneta vermelha e aumentou o número de correções onde não havia erros. Foi mostrar ao professor que, envergonhado por ter corrigido mal a prova, aumentou a nota.

 
 
 
DO   POBRE   B. B.
 
 
 
Eu, Bertolt Brecht, venho da Floresta Negra.
Minha mãe me trouxe para a cidade ainda em seu ventre.
O frio da floresta ficará em mim até o dia de minha morte.
 
Nas cidades de asfalto estou em casa. Desde o início
Abastecido com os últimos sacramentos:
Jornais, tabaco e aguardente.
Desconfiado, contente e preguiçoso até o fim.
 
Sou gentil com as pessoas. Uso 
um chapéu-coco como eles costumam fazer.
Eu digo: estes animais têm um cheiro estranho.
E digo: isso não importa, eu também tenho.
 
Pelas manhãs, em minha cadeira de balanço
Uma mulher ou outra às vezes faço sentar
E observando-a calmamente lhe digo:
Em mim você não deve, você não pode confiar.
 
À noite, alguns homens se reúnem em minha volta
E entre nós “gentlemen” é o tratamento vigente.
Colocam os pés sobre minha mesa 
E dizem: tudo vai melhorar. E eu não pergunto: –  quando ?
 
Na luz cinzenta da aurora mijam os pinheiros,
E seus parasitas, os pássaros, começam a gritar.
Por esta hora na cidade eu esvazio o meu copo,
Jogo fora o charuto e vou dormir, inquieto.
 
Uma geração leviana, nós nos fechamos em casas
Que acreditávamos indestrutíveis. (Assim 
Construímos aquelas imensas caixas na ilha de Manhattan
e as antenas compridas que conversam por cima do Atlântico. )
 
Dessas cidades, o que restará? O vento que por elas passa!
A casa faz o hóspede alegre, este a esvazia.
Sabemos que somos provisórios e que depois de nós
Nada virá que valha a pena mencionar.
 
Nos terremotos do futuro eu espero
Não abandonar meus charutos, nem achá-los amargos.
Eu, Bertolt Brecht, que fui trazido às cidades de asfalto, 
vindo da floresta negra, no ventre de minha mãe, anos atrás.
 
 
 
Outro episódio interessante no colégio ocorreu em 1915. Empolgado com as vitórias da Alemanha na Primeira Guerra Mundial, o professor pediu que os alunos fizessem uma redação sobre o verso de Horácio “Dulce et dulcorum est pro mori (Doce e honroso é morrer pela pátria). Bertold então escreveu “Essa frase só pode ser entendida como propaganda tendenciosa. Morrer na cama ou no campo de batalha é geralmente difícil para jovens na flor da idade. Só idiotas podem ter a vaidade de falar sobre ‘o pequeno salto através da porta escura’. E isto somente enquanto acreditam estar distantes da hora final”.

 
 
 A LENDA DA PROSTITUTA EVELYN ROE
 
Quando veio a primavera e o mar ficou azul
A bordo chegou
Com a última canoa
A jovem Evlyn Roe.
 
Usava um pano sobre o corpo
Que era bonito, bem vistoso.
Não tinha ouro ou ornamento
Exceto o cabelo generoso.
 
“Seu Capitão, leve-me à Terra Santa
Tenho que ver Jesus Cristo.”
“Venha conosco, pois somos tolos, e é uma mulher
Como não temos visto.”
 
“Ele recompensará. Sou uma pobre garota.
Minha alma pertence a Jesus.”
“Então, pode nos dar seu corpo!
Pois o seu senhor não pode pagar:
Ele já morreu, dizem que  na cruz.”
 
Eles navegaram com sol e vento
E Evlyn Roe amaram.
Ela comia seu pão e bebia seu vinho
E nisso sempre chorava.
 
Eles dançavam à noite, dançavam de dia
Não cuidavam do timão.
Evlyn Roe era tímida e suave:
Eles eram duros e sem coração.
 
A primavera se foi. O verão acabou.
Ela corria à noite, os pés em sujas sapatilhas
De um mastro a outro. Olhando no breu
Procurando praias tranquilas
A pobre Evlyn Roe.
 
Ela dançava à noite, dançava de dia.
E ficou quase doente, cansada.
“Seu Capitão, quando chegaremos
À Cidade Sagrada?”
 
O  capitão estava em seu colo
E sorrindo a beijou:
“De quem é a culpa, se nunca chegamos?
Só pode ser de Evlyn Roe.”
 
Ela dançava à noite, dançava de dia
Até ficar totalmente esgotada.
Do capitão ao mais novo grumete
Todos estavam bem saciados.
 
Usava um vestido de seda
Com uns rasgões e remendos
E na fronte desfigurada trazia
Uma mecha de cabelos sebentos.
 
“Nunca eu te verei, ó Jesus,
Com este corpo pecador.
A uma puta qualquer
Não podes dar teu amor.”
 
De um lado para o outro corria
Os pés e o coração começavam a lhe pesar:
Uma noite, quando já ninguém via
Uma noite desceu para o mar.
 
Isto se deu no fim de Janeiro
Ela nadou muito tempo no frio, pois
O tempo melhora, os ramos florescem
Somente em março ou abril.
 
Abandonou-se às ondas escuras
Que a lavaram por dentro e por fora.
Chegará antes à Terra sagrada
O capitão ainda demora.
 
Ao chegar ao céu, já na primavera,
São Pedro na porta a recusou:
“Deus me disse: não quero aqui
A prostituta Evlyn Roe.”
 
E ao chegar ao inferno
O portão fechado encontrou:
O Diabo gritou: “Não quero aqui
A beata Evlyn Roe.”
 
Assim vagou no vento e no espaço
E nunca mais sossegou.
Num fim de tarde eu a vi passar no campo:
Tropeçava muito, não encontrava descanso
A pobre Evlyn Roe.
 
 
 
 
A partir de 1914, publica prosas curtas e alguns poemas no Augsburg Neusten Nachrichten sob o pseudônimo de ‘Bertold Eugen’. Wilhelm Brustle, chefe da redação do jornal, descreveu-o como um jovem tímido, que falava com dificuldade, mas que experimentava uma enorme ânsia de viver, tinha o espírito vivo e não cedia ao sentimentalismo; na política, inclinava-se para a esquerda. Nesta época, fez amigos que seriam importantes em sua vida, como Caspar Neher, pintor e cenógrafo. Na feira anual de outono, Bertold disse que “a execução do anarquista Ferrer em Madri, Nero contemplando o incêndio de Roma, ou a fuga de Carlos, o temerário – tinha olhos enormes, cheios de angústia, como sentisse o horror daquela situação histórica”.

 
 
 
 
APAGUE AS PEGADAS
 
 

Separe-se de seus amigos na estação

De manhã vá à cidade com o casaco abotoado
Procure alojamento, e quando seu camarada bater:
Não, oh, não abra a porta  //  Mas sim  //  Apague as pegadas!
 
Se encontrar seus pais na cidade de Hamburgo ou em outro lugar
Passe por eles como um estranho, vire na esquina, não os reconheça
Abaixe sobre o rosto o chapéu que eles lhe deram
Não, oh, não mostre seu rosto  /  Mas sim  //  Apague as pegadas!
 
Coma a carne que aí está.  Não poupe.
Entre em qualquer casa quando chover, sente em qualquer cadeira
Mas não permaneça sentado. E não esqueça seu chapéu.
Estou lhe dizendo:    //   Apague as pegadas!
 
O que você disser, não diga duas vezes.
Encontrando o seu pensamento em outra pessoa:  //  negue-o.
Quem não escreveu sua assinatura, quem não deixou retrato,
Quem não estava presente, quem nada falou
Como poderão apanhá-lo ?   //   Apague as pegadas!
 
Cuide, quando pensar em morrer
Para que não haja sepultura revelando onde jaz
Com uma clara inscrição a denunciá-lo
E o ano de sua morte a entregá-lo.
Mais uma vez:   //   Apague as pegadas!
 
(Assim me foi ensinado.)
 
 
 
Ainda sobre o sistema educacional da Alemanha em sua época de estudante, Brecht diria depois que “lá só se aprendia o necessário, a arte de enganar, esconder conhecimentos que não possuíam, assimilar rapidamente os lugares comuns, estar sempre pronto a denunciar os companheiros aos superiores. Os filhos dos burgueses eram mais bem tratados que os dos operários”. Diria também que “um certo professor não fornecia solução para os problemas – limitava-se a colocar o problema com força. Dava imagens da realidade, deixando a nós a tarefa de tirar as conclusões, procedimento incomparavelmente mais fecundo”. Quando  estourou a Grande Guerra, Brecht tinha 16 anos.

 
 
 
 
CONTRA A SEDUÇÃO
 
 
Não se deixe seduzir!
Não há caminho de volta.
O dia se aproxima
E já se sente o frio da noite.
A manhã não virá nunca mais.
 
Não se deixe enganar!
A vida não é muita coisa.
É preciso bebê-la em grandes goles!
Vocês não terão bebido o bastante
Quando chegar a hora de deixá-la.
 
Não se deixem envolver!
Não terão tempo bastante!
Deixem apodrecer os cadáveres.
A vida leva-os sempre
E não se vive senão uma vez.
 
Não se deixem arrastar
Aos trabalhos e às galeras.
De que, então, vocês têm medo?
Como todos os animais, vocês morrerão
E depois da morte não há mais nada.
 
 
 
Em setembro de 1916, Bertold ingressa na faculdade de medicina em Munique. Neste mesmo ano, em Berlim, o dirigente revolucionário Karl Liebknecht, em uniforme militar, grita às massas da Praça Potsdam “Abaixo o governo! Abaixo a guerra! Viva o socialismo!”. A vitória da revolução proletária na rússia e 1917 teve grande influência na Alemanha. Greves saúdam o novo regime e conselhos de deputados e militares são formados nos moldes bolchevistas. Bertold se mobiliza e trabalha num hospital do exército em Augsburg. “Eu fazia curativos, transfusões de sangue, aplicava tintura de iodo. Se o médico ordenava: “Brecht, ampute esta perna!” Eu respondia: “Sim, excelência!”, e cortava a perna. Se me diziam “Faça uma trepanação”, eu abria o crânio do homem e mexia em seus miolos. Via como os médicos remodelavam as pessoas para enviá-los de volta ao front o mais rapidamente possível”. Assim, tornou-se pacifista.

 
 
 
 
SOUBE QUE VOCES NADA QUEREM APRENDER
 
 
Soube que vocês nada querem aprender
Então devo concluir que são milionários.
Seu futuro está garantido – á sua frente
Iluminado. Seus pais
Cuidaram para que seus pés
Não topassem com nenhuma pedra. Neste caso
Vocês nada precisam aprender. Assim como estão
Podem ficar.
 
Havendo dificuldades, pois os tempos
Como ouvi dizer, são incertos
Vocês têm seus líderes, que lhes dizem exatamente
O que têm a fazer para que fiquem bem.
Eles leram aqueles que sabem
As verdades válidas para todos os tempos
E as receitas que sempre funcionam.
Onde há tantos a seu favor
Vocês não precisam levantar um dedo.
Sem dúvida, porém, se fosse diferente
Vocês teriam muito o que aprender.
 
 
 
Em 1918, Bertold escreve seu primeiro poema contundente ‘A lenda do soldado morto’, que lhe rende o quinto lugar na lista das pessoas a serem executadas se o putsch de Hitler em 1923 tivesse saído vitorioso. Em 1919 o movimento operário na Alemanha enfraquece com a morte de Liebknecht e Rosa Luxemburgo num zoológico em Berlim. Em julho é proclamada a República de Weimar. Com isso, Bertold retorna para a faculdade de Medicina e para a vida boêmia de Munique. Nesta época escreve Baal e Nos Tambores da Noite. Todas as traduções foram feitas por Paulo César de Souza.

 
 
 
CANÇÃO DO PINTOR HITLER
 
 
1
 
HItler, o pintor de paredes
Disse: Caros amigos, deixem eu dar uma mão!
E com um balde de tinta fresca
Pintou como nova a casa alemã
Nova a casa alemã.
 
2
 
Hitler, o pintor de paredes
Disse: Fica pronta num instante!
E os buracos, as falhas e as fendas
Ele simplesmente tapou
A merda inteira tapou.
 
3
 
Ó Hitler pintor
Por que não tentou ser pedreiro?
Quando a chuva molha sua tinta
Toda a imundície vem abaixo
Sua casa de merda vem abaixo.
 
4
 
Hitler, o pintor de paredes
Nada estudou senão pintura
E quando lhe deixaram dar uma mão
Tudo o que fez foi um malogro
E a Alemanha inteira ele logrou.
 
 
 
Em 1919 consegue um lugar de dramaturg do Kammerspiele de Munique. O cargo combinava as atividades de dramaturgo da companhia, a de adaptador de peças, leitor de textos e orientador literário da empresa. Em 1921, Bertold foi várias vezes a Berlim tentar publicar suas peças e conheceu Arnolt Bornnen, líder do movimento expressionista, tornaram-se amigos. Nesta época Bertold também conhece outro que seria seu grande amigo, o cômico Karl Valentin, o clown metafísico. Em 1922, Bertold casa-se com a cantora Marianne Zoff.

 
 
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DE QUE SERVE A BONDADE
 
 
1
 
De que ser a bondade
Se os bons são imediatamente liquidados, ou são liquidados
Aqueles para os quais eles são bons?
 
De que ser a liberdade
Se os livres têm que viver entre os não-livres?
 
De que serve a razão
Se somente a desrazão consegue o alimento de que todos necessitam?
 
2
 
Em vez de serem apenas bons, esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne possível a bondade
ou melhor: que a torne supérflua!
 
Em vez de serem apenas livres, esforcem-se
Para criar um estados de coisas que liberte a todos
E também o amor à liberdade
Torne supérfluo!
 
Em vez de serem apenas razoáveis, esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne a desrazão de um indivíduo
Um mau negócio!
 
 
 
Estreia Tambores na Noite em Kammerspiele, em Munique. Um sucesso enorme. “O poeta de 24 anos Bert Brecht mudou do dia para a noite a fisionomia literária da Alemanha. Um novo tom, uma nova melodia, uma nova visão entraram em nossos tempos…” Neste ano, Bertold ganha o Prêmio Kleist de melhor dramaturgo. Em 1923, mais duas peças estreiam, Na selva das cidades e Baal. Esta última, causando enorme polêmica em Leipzig. Suas peças trazem algo especial ao teatro alemão. “Brecht promove a distância em vez da grandeza, não rebaixa os homens, mas priva o ator de sentimentalismo, reclama gestos simples, uma dicção clara e fria”, escreve Karl Valentin.

 
 
TODAS AS TRADUÇÕES DOS POEMAS FORAM FEITAS POR PAULO CESAR DE SOUZA
 
A INSCRIÇÃO INVENCÍVEL
 
 
No tempo da Guerra Mundial
Em uma cela da prisão de San Carlo
Cheia de soldados aprisionados, de bêbados e ladrões
Um soldado socialista riscou na parede com um estilete:
VIVA LENIN!
Bem alto na cela meio escura, pouco visível, mas
Escrito com letras imensas.
Quando os guardas viram, enviaram um pintor com um balde de cal
Que com um pincel de cabo longo cobriu a inscrição ameaçadora.
Mas, como ele apenas acompanhou os traços com cal
Via-se agora em letras brancas, no alto da cela:
VIVA LENIN!
Somente um segundo o pintor cobriu tudo com pincel largo
De modo que durante horas desapareceu, mas pela manhã
Quando a cal secou, destacou-se novamente a inscrição:
VIVA LENIN!
Então enviaram os guardas um pedreiro com uma faca para eliminar a inscrição.
E ele raspou letras por letras, durante uma hora
E quando terminou, lá estava no alto da cela, incolor
Mas gravada fundo na parede, a inscrição invencível:
VIVA LENIN!
Agora derrubem a parede! disse o soldado.
 
 
 
Em 1924, Bretolt muda-se definitivamente para Berlim. Seu casamento anda turbulento e assim ele conhece a atriz Helene Weigel. Apaixonam-se. Passa a trabalhar como dramaturg no Deutsches Theatre junto com Carl Zuckmayer e Erich Engel. A companhia encena Na Sekva das Cidades com direção de Max Reinhardt. Nesta época Bretolt conhece o diretor Erwin Piscator que reorganiza a Volksbuhne, uma associação de espectadores apoiada pelo movimento político e sindical de esquerda. Piscator exerce forte influência em Bertolt e disse que “é o único autor que resolve as necessidades de nossa época. Sartre se orienta pelo mesmo caminho, mas não chega tão longe. Brecht e eu fomos irmãos. Nossa relação foi possível porque tínhamos basicamente a mesma visão de mundo e esperávamos o mesmo teatro”.

 
 
O último suspiro antes do amanhecer http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
 
 
A QUEIMA DE LIVROS
 
 
Quando o regime ordenou que fossem queimados publicamente
Os livros que continham saber pernicioso, e em toda parte
Fizeram bois arrastarem carros de livros
Para as pilhas em fogo, um poeta perseguido
Um dos melhores, estudando a lista dos livros queimados
Descobriu, horrorizado, que os seus
Haviam sido esquecidos. A cólera o fez correr
Célere até sua mesa, e escrever uma carta aos donos do poder.
Queimem-me! Escreveu com pena veloz. Queimem-me!
Não me façam uma coisa dessas! Não me deixem de lado! Eu não
Relatei sempre a verdade em meus livros? E agora tratam-me
Como um mentiroso? Eu lhes ordeno:
Queimem-me!
 
 
 
Em 1926 estreia Mann ist Mann com direção de Jacob Greis e cenário de Caspar Neher, no mesmo ano também há a estreia de Baal, causando confusão entre os espectadores e prepara uma coletânea de poemas chamada Breviário de Bolso. O livro é impresso em papel-bíblia e se parecia muito com uma. Em 1927 é o ano das parcerias com Kurt Weil. Sai nesta época o embrião de Mahagonny. O sucesso veio com A Ópera dos Três Vinténs com direção de E. Engel. O espetáculo tinha Lotte Lenya, então mulher de Weil no elenco. O processo foi desacreditado, ninguém acreditava no êxito da peça, mas, foi um sucesso.

 
 
 
 
AOS QUE VÃO NASCER
 
 
1
 
É verdade, eu vivo em tempos negros.
Palavra inocente é tolice. Uma testa sem rugas
Indica insensibilidade. Aquele que ri
Apenas não recebeu ainda
A terrível notícia.
 
Que tempos são esses, em que
Falar de árvores é quase um crime
Pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?
Aquele que atravessa a rua tranquilo
Não está mais ao alcance de seus amigoa
Necessitados?
 
Sim, ainda ganho meu sustento
Mas acreditem: é puro acaso. Nada do que faço
Me dá direito a comer a fartar.
Por acaso fui poupado. (Se minha sorte acaba, estou perdido.)
 
As pessoas me dizem: Coma e beba! Alegre-se porque tem!
Mas como posso comer e beber, se
Tiro o que como ao que tem fome
E meu copo d’água falta ao que tem sede?
E no entanto eu como e bebo.
 
Eu bem gostaria de ser sábio.
Nos velhos livros se encontra o que é sabedoria:
Manter-se afastado da luta do mundo e a vida breve
Levar sem medo
E passar sem violência
Pagar o mal com o bem
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los
Isto é sábio.
Nada disso sei fazer:
É verdade, eu vivo em tempos negros.
 
2
 
À cidade cheguei em tempo de desordem
Quando reinava a fome.
Entre os homens cheguei em tempo de tumulto
E me revoltei junto com eles.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.
 
A comida comi entre as batalhas
Deitei-me para dormir entre os assassinos
Do amor cuidei displicente
E impaciente contemplei a natureza.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.
 
As ruas de meu tempo conduziam ao pântano.
A linguagem denunciou-me ao carrasco.
Eu pouco podia fazer. Mas os que estavam por cima
Estariam melhor sem mim, disso tive esperança.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.
 
As forças eram mínimas. A meta
Estava bem distante.
Era bem visível, embora para mim
Quase inatingível.
Assim passou o tempo
Que nesta terra me foi dado.
 
3
 
Vocês, que emergirão do dilúvio
Em que afundamos
Pensem
Quando falarem de nossas fraquezas
Também nos tempos negros
De que escaparam.
Andávamos então, trocando de países como de sandálias
Através das lutas de classes, desesperados
Quando havia só injustiça e nenhuma revolta.
 
Entretanto sabemos:
Também o ódio à baixeza
Deforma as feições.
Também a ira pela injustiça
Torna a voz rouca. Ah, e nós
Que queríamos preparar o chão para o amor
Não pudemos nós mesmos ser amigos.
 
Mas vocês, quando chegar o momento
Do homem ser parceiro do homem
Pensem em nós
Com simpatia.
 
 
 
Com o sucesso da Ópera dos Três Vinténs, é produzido o filme Romance dos Três Vinténs, editado em Amsterdam. O filme foi dirigido por Pabst que usou praticamente o mesmo elenco. Também foi um sucesso. Logo depois consegue apoio para produzir Kuhle Vamp, sobre uma área de loteamento nos subúrbios proletários de Berlim. Porém, o Governo proibe o filme. Happy End não obteve o mesmo sucesso que a Ópera, mas curiosamente suas canções se perpetuaram. Em 1932, Bertolt escreve Santa Joana dos Maradouros, que sem teatros para trabalhar, foi apresentada apenas pelo rádio.

 
 
Nas escadas da Cinelândia http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
 
 
MOSTRAR O QUE TEM QUE SER MOSTRADO
 
 
Mostrem que mostram! Entre todas as diferentes atitudes
Que vocês mostram, ao mostrar como os homens se portam
Não devem esquecer a atitude de mostrar.
A atitude de mostrar deve ser a base de todas as atitudes.
Eis o exercício: antes de mostrarem como
Alguém comete traição, ou é tomado pelo ciúme
Ou conclui um negócio, lancem um olhar
À plateia, como se quisessem dizer:
Agora prestem atenção, agora ele trai, e o faz deste modo.
Assim ele fica quando o ciúme o toma, assim ele age
Quando faz negócio. Desta maneira
O seu mostrar conservará a atitude de mostrar
De pôr a nu o já disposto, de concluir
De sempre prosseguir. Então mostram
Que o que mostram, toda noite mostram, já mostraram muito
E a sua atuação ganha algo próprio do mostrar:
Que vocês estão sempre preocupados em facilitar
O assistir, em assegurar a melhor visão
Do que se passa – tornem isso visível! Então
Todo esse trair e enciumar e negociar
Terá algo de uma função cotidiana como comer,
Cumprimentar, trabalhar. (Pois vocês não trabalham?) E
Por trás de seus papéis permanecem
Vocês mesmos visíveis, como aqueles
Que os encenam.
 
 
 
 
Em 1928, no mesmo ano que Hitler publica em grande tiragem o livro Mein Kampf, Bertolt apresenta o texto de Ascensão e Queda da Cidade de Mahagony. A estreia em 1930 é tumultuada e o público de sente ofendido. Desta peça em diante, Bertolt assume definitivamente o marxismo. Frequenta as conferências do Colégio dos Operários Marxistas de Berlim. Nesta época começa a fazer as conhecidas Peças Didáticas. Bertolt rompe com Kurt Weil e trabalha constantemente com Hans Eisler. 

 
 
 
 
O LADRÃO DE CEREJAS
 
 
Bem cedo numa manhã, antes do grito do galo
Fui acordado por um assovio e andei até a janela.
Em minha cerejeiras – a alvorada tomava o jardim –
Estava sentado um jovem de calça remendada
Que colhia alegremente minhas cerejas. Ao me ver
Acenou com a cabeça. Com ambas as mãos
Tirava as cerejas dos ramos e punha nos bolsos.
Ainda por um bom tempo, novamente deitado
Ouvi-o assoviar sua alegre cançãozinha.
 
 
Em 1933, Hitler assume o poder. O Partido Comunista convoca uma greve geral. No dia 31 de janeiro, Hitler discursa ao povo alemão e logo em seguida, o Reischtag, prédio do parlamento é incendiado. Hitler culpa os comunistas. Começa a caça. Primeiro todas as lojas de judeus são marcadas com tinta em suas portas. Depois, por unanimidade, o Partido Nazista proíbe qualquer casamento de alemães com judeus. A partir daí a perseguição fica cada vez maior. Comunistas, intelectuais são perseguidos. Bertolt é o quinto da lista negra. No dia 10 de maio, livros considerados subversivos para os nazistas são queimados em praça pública. É o início do terror. No dia seguinte da ordem de caça, os nazistas já estão em sua casa, porém, horas antes, Bertolt havia fugido com sua família de trem para Praga.

 
 
 
 
O TUFÃO
 
 
Fugindo do pintor, rumo aos Estados Unidos
Notamos de repente que nosso pequeno navio não se movia.
Toda uma noite e um dia inteiro
Permaneceu na altura de Luzon, no Mar da China.
Alguns diziam ser devido a um tufão que rugia no norte
Outros temiam barcos piratas alemães.
Todos
Preferiam o tufão aos alemães.
 
 
 
De Praga, Bertolt segue com sua família para Viena. Não acredita que ficará tanto tempo viajando, o Nazismo, até para o mais paranóico, não parecia que cresceria tanto, tamanho era o absurdo que abordava. Mas isso não aconteceu. Hitler crescia cada vez mais. Anexou a Áustria. O objetivo primeiro era “reunir” os países do antigo Império. Bertolt de Viena vai para Zurich onde encontra com Heinrich Mann e Walter Benjamim. Depois França e então Dinamarca, em Svendborg. Bertolt produz muito nessa época. Algumas Perguntas a um Homem Bom, Os três soldados, Os sete pecados capitais do pequeno burguês e muitas outras. A esta altura se estabelece definitivamente a Segunda Guerra Mundial.

 
 
 
REFLETINDO SOBRE O INFERNO
 
 
Refletindo, ouço dizer, sobre o inferno
Meu irmão Shelley achou ser ele um lugar
Mais ou menos semelhante a Londres. Eu
Que não vivo em Londres, mas em Los Angeles
Acho, refletindo sobre o inferno, que ele deve
Assemelhar-se mais ainda a Los Angeles.
 
Também no inferno
Existem, não tenho dúvidas, esses jardins luxuriantes
Com as flores grande como árvores, que naturalmente fenecem
Sem demora, se não são molhadas com água muito cara. E mercados
de frutas
Com verdadeiros montes de frutos, no entanto
Sem cheiro nem sabor. E intermináveis filas de carros
Mais leves que suas próprias sombras, mais rápidos
Que pensamentos tolos, automóveis reluzentes, nos quais
Gente rosada, vindo de lugar nenhum, vai a nenhum lugar.
E casas construídas para pessoas felizes, portanto vazias
Mesmo quando habitadas.
Também as casas do inferno não são todas feias.
Mas a preocupação de serem lançados na rua
Consome os moradores das mansões não menos que
Os moradores dos barracos.
 
 
 
 
Entre 1932 e 1936, Bertolt trabalha em uma peça sobre o nazismo, Cabeças redondas, Cabeças pontudas. Em 1935, parte para a Rússia e lá encontra amigos como Carola Neher, Piscator e outros. Nesta época também conhece atores chineses e desperta uma profunda relação com a poesia chinesa. A partir daí, muitas estreias em Paris, encontros com Walter Benjamin. Escreve Mãe Coragem e seus filhos e O Processo de Lúculus. Hitler já havia anexado a Tchecoeslováquia e partia para outras frentes. Bertolt continua as viagens, os exílios. 

 
 
 
 
CANÇÃO DE UMA ENAMORADA
 
 
Quando me fazes alegre
Penso por vezes:
Agora poderia morrer
Então seria feliz
Até o fim.
 
E quando envelheceres
E pensares em mim
Estarei como hoje
E terás um amor
Sempre jovem.
 
 
 
 
Em outubro de 1936, Brecht está em Paris onde escreve e encena muitas peças. É nesta época também que surge a primeira versão de A Vida de Galileu. Sempre ligado no avanço nazista, Bertolt parte para a Finlândia em 1940. Em 1941, consegue um visto para os EUA e parte para Moscou onde estão outros amigos. Só que nesse interin, morre de tuberculose sua grande amiga Margareth Steffin. De Moscou para de trem para Vladivostok. Sai o texto A Alma Boa de Setsuan. Morre Walter Benjamin. Assim, Bertolt parte com a família para os EUA a bordo do navio sueco Anni Jonhson. 

 
 
 
 
OS ESPERANÇOSOS
 
 
Pelo que esperam?
Que os surdos se deixem convencer,
Que os insaciáveis lhes devolvam algo?
Os lobos por certo os alimentarão, 
em vez de devorá-los!
E por amizade 
os tigres solicitarão 
que lhes arranquem os dentes!
É por isso que esperam!
 
 
 
Bertolt reúne-se com outros exilados alemães nos EUA. Thomas Mann, Hans Eisler e outros. Lá conhece Charles Chaplin e Aldous Huxley. Passa a maior parte do tempo tentando escrever roteiros para cinema e até se envolve numa produção, quando um de seus roteiros é usado quase que completamente por Fritz Lang mas que não lhe dá o crédito. Decepciona-se profundamente com a América. Tem algumas peças montadas, mas longe do ideal. Até que é chamado a comparecer à Comissão de Atividades Antiamericanas, onde é interrogado longamente sobre sua ligação com o Partido Comunista. Bertolt finge-se de ingênuo e consegue enganar a Comissão, no dia seguinte parte para a Alemanha.

 
 
 
 
A SOLUÇÃO
 
 
Após a revolta de 17 de junho
O secretário da União dos Escritores
Fez distribuir comunicados na Alameda Stalin
Nos quais se lia que o povo
Desmerecera a confiança do governo
E agora só poderia recuperá-la
Pelo trabalho dobrado. Mas não
Seria mais simples o governo
Dissolver o povo
E escolher outro?
 
 
 
Bertolt vai para a Suiça, conhece os atores que encenaram suas peças enquanto esteve nos EUA. Em 1948 volta para Berlim e em 1949 obtêm cidadania austríaca. Em setembro deste ano, funda, o Berliner Ensemble e encena várias peças. Em 1950, volta a trabalhar com vários colaboradores, Hans Eisler, Caspar Neher, Ruth Berlau e muitos outros. Bertolt agora vive numa casa perto do teatro cujo fundo dá para um cemitério onde está enterrado Hegel. Quando morrer quer ser enterrado ao lado dele. Recebe uma casa do Estado onde escreve Os Poemas de Buckow. 

 
 
 
 
NÃO NECESSITO DE PEDRA TUMULAR
 
 
Não necessito de pedra tumular, mas
Se necessitarem de uma para mim
Gostaria que nela estivesse:
Ele fez sugestões
Nós as aceitamos.
Por uma tal inscrição
Estaríamos todos honrados.
 
 
 
 
 
O Berliner Ensemble encena várias peças de Bertolt e segue crescendo. Sua saúde não vai bem e em 1955 escreve sua última adaptação Tambores e Trombetas, baseado em O Oficial Recrutador, de George Farquhar. Participa também do Congresso dos Partidários da Paz, em Dresden e viaja para Moscou para receber o Prêmio Stalin da Paz, antes renegado por Thomas Mann. Em fevereiro de 1956 assiste sua última montagem da Ópera do Três Vinténs em Milão. No dia 10 de agosto vai pela última vez ao Berliner Ensemble e dirige um ensaio, até que no dia 14 do mesmo mês, sofre uma parada cardíaca e morre. É enterrado num túmulo perto de Hegel, como queria. No dia 18 é feita uma homenagem no Berliner Ensemble onde textos são lidos. Assim terminamos o companheiro Bertolt Brecht.

 
 
 
SE FOSSEMOS INFINITOS
 
 
Fôssemos infinitos
Tudo mudaria
Como somos finitos
Muito permanece.
 
 
 
 
 
 
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