Alex Hamburger (incompleto)

Alexander Hamburger nasceu no dia 23 de setembro de 1950, em Belgrado, ex-Iugoslávia, hoje, Sérvia. Filho de Franjo Hamburger, judeu austro-húngaro, e Liliana Hamburger, sérvia filha de um russo. Alex, viveu apenas dois meses em Belgrado, que se encontrava em situação muito complicada tornando assim a vida difícil, sobretudo em virtude da Segunda Guerra Mundial. De lá, foram para Jerusalém, Israel, onde, a situação de encontrava um pouco melhor, ocupada pelos ingleses, para depois, se tornar o Estado de Israel.

 
 
 
 
SONHO DALINIANO
 
 
Do interior de claros olhos
fulgem reflexos oníricos
folhagem esparramada ao longo
penumbra cinza d’alameda
 
Sonho no presente, perscruto ecos
desencanto do tempo;
abraço o vazio!
 
Na manhã permaneço,
sugerindo veredas
mesclando odores nem sempre
primevos, inconcluídos,
não experimentados!
 
Nenhuma voz se faz ouvir
ao longo das aléias
vulto mimético
companheiro das tardes-noites
passo dançante desapercebido
gravado nesse devaneio.

 

 

O pai de Alex, Franjo Hamburger, era eletrotécnico. Após o período de cinco anos em Jerusalém, desde sua saída de Belgrado, a família vai para o Brasil. Assim, logo tem a experiência de percorrer o interior do país no rastro das instalações de usinas hidroelétricas, sendo a maioria do sistema de Furnas, sediadas nos municípios de Ibiracy, Passos, Fronteira, Franca e São José do Rio Preto, com estadas alternadas em São Paulo.

 
 
Outros lados do Pessoa em https://cartilhadepoesia.wordpress.com
 
 
FOTOGRAFIA
 
 
 
Na câmara escura
do meu grito mudo
o silêncio de anseios
incontidos
 
Lágrimas veladas
vôo imaginativo?
 
Na câmara escura
do meu apelo ao mundo.
 
Traços delineiam o
quadro, tanto desejado,
noites de insônia
destinos surdos…
 
Quando o sol com seus raios
iluminou o estúdio
o retrato sobre-exposto
na câmara escura
imagem de fundo.
 
O nome, Alexsandar Hamburger, lhe foi dado, inicialmente, em homenagem ao Príncipe Alexsandar I da Sérvia, muito pelo fato de sua mãe e de sua avó materna admirarem muito o príncipe assim como a monarquia existente naquele país desde o século XIX até 1930. O pai de Alex, Franja (pronuncia-se Franha), tinha uma pequena loja de consertos elétricos em Belgrado, a Hamburger & Danon. Sua família foi a Jerusalém, como já foi dito, por causa do precário estado em que se encontrava Belgrado após a Segunda Guerra. Em Israel já havia um movimento de chamar os judeus para irem lá habitar e trabalhar, o que foi feito. Então, a loja Hamburger & Danon, foi transferida Israel. 

 
 
 
 
ATOMICA MUSA
à Noel Nuttels
 
 
Na aurora do homem-máquina
As primaveras dos bardos
São matérias-primas gastas
no tecnificante progresso voraz:
 
     – fontes de concreto
       ninfas de boutique
       lírios de estufa
       e liras megatômicas –
 
Panorama desolador
Na era da “bomba-relógio”
E seu cortejo estampado
nos crispados vespertinos
 
    Tempos irracionais
    dita-me resto de lucidez,
    Ah! se assim o fôsse!
    Mas não! a Razão é o Parnaso!
 
E minha musa, chama-se Atômica,
nascida por ordem da Deusa Bomba.
 
Alex viveu em Jerusalém até os cinco anos de idade. As memórias são poucas, porém, ficaram. “A beleza pétrea daquela cidade ancestral, a primeira vez que vi o mar Mediterrâneo, na cidade portuária de Haifa, e o ensino”. Alex aprendeu a ler e escrever em hebraico, que esqueceria tudo posteriormente por falta de prática. Havia também uma figueira em frente à sua casa, que dava figos no inverno, cujo gosto junto com a neve que caía proporcionavam um prazer inesquecível. 

 
 
 
 
O FIO DA ARANHA
 
 
Obra longa
Teia macia
Mundo polígono
Disparo certeiro
Surpresa artesanal
 
Técnica viva
Emaranhado lapidar
Linha ríspida
Tato infalível
 
Jogo mortal
Abrigo invisível
Estilo (a)temporal
 
Engenho sábio
Sequência instantânea
Tece e avança
 
O fio d’aranha.
 
 
 
O sócio do pai de Alex na loja de reparos elétricos resolveu voltar para a Sérvia, emperrando a continuidade dos serviços, ao mesmo tempo que sua mãe e sua avó materna, cristãs ortodoxas, não conseguiram se adaptar à Israel, e iniciaram um movimento de incentivo a uma mudança para um lugar mais laico, onde pudessem exercer sua religião mais à vontade. Neste momento, notícias sobre o Brasil vinham de amigos, boas notícias, que com o governo Juscelino, desfrutava um bom momento desenvolvimentista. Até em meados de 1955, os “Hamburgers” à bordo do ‘Conte Grande’ para o Brasil, do porto de Haifa para o porto de Santos, e após 21 dias no mar, chegam à São Paulo.

 
 
 
 
FICÇÃO LETAL
 
 
Entre 4 e 100 horas da tarde
A ponta do lápis no meio-fio
Grafite riscando nas ruas
Sem quase figuras nos trilhos
O jornal trás todos os tipos
Na praça ao lado atiçando o coro
Enfim um “hit” total
A um metro do ponto do brilho.
 
 
A família de Alex ficou apenas um ano e meio na capital paulista, porém, esse período foi de grande influência. Foram residir no bairro Bom Retiro, que se tornara um lugar conhecido por receber imigrantes judeus do leste europeu. Lá a família encontrou alguns conterrâneos. Alex nessa época aprendera a falar português sem sotaque, na companhia de outros garotos que o acompanhavam em partidas de futebol de rua. Seu pai arrumara um emprego na Cia Paulista de Força e Luz, hoje, Light. Porém, a cidade experimentava um crescimento voraz, Franja tinha que tomar muitas conduções para ir trabalhar e voltar para casa, até que decide aceitar uma proposta de emprego na Furnas Centrais Elétricas, e passa a viajar com a família pelo interior de São Paulo.

 
 
 
RIMBAUD DE SAIA
 
 
Por acaso era Copacana
olhares cúbicos te espreitando
na filial da Max Factor
poesia de rádio
escapando pela manga
do teu paletó preto
Abissínia de cabelos
travestida em rio elétrico
um reflexo, vitrines
pés, mãos, olhos de areia
manequim de zoom à tira colo
a mala desfeita pro show.
 
 
A mudança da capital para o interior fez com que Alex tivesse experiências juvenis mais bucólicas. Com isso, passou o início da adolescência em lugares onde a natureza predominava, com brincadeiras ao ar livre, futebol com outros garotos da mesma idade, frutas silvestres, riachos, cachoeiras e tudo que se pode pensar. Nessa época, começou a estudar inglês e despertar interesse pelos assuntos internacionais, o que depois viria a ser de extrema importância em sua vida. 

 
 
 
 
A DANÇARINA SEM FÓSFOROS
 
 
Não há quase distância entre
sua meia o bidê e o espaço pretenso
um homem sem chapéu e a falta de temas
desmembração: dança com o atributo
de crimes fáceis línguas que dão crepe
 
A dançarina dos anúncios e ritmos pobres
coleta ações telefônicas
para seu instrutor de gala
contorção para dedos do pé (com em Tarsila)
ri ao quadrado
 
só, no sótão, com uma certa dor de agulha-roxa
 
Alta-tensão que percorre sob o piso de baskete
creiam, a estação de vagos
passos dobles
acontece ao longo das cercas da fama
 
E mesmo quando na plataforma 21 da rodoviárias
haverá reações, tantos às notas, quanto às farpas
que existem da mão corrente
 
Fuga insana de colegiais gymnastas
que o toque de caixa ilegal faz reunir
acima dos voluteios e modelos de pano
 
O desafio/convite em branco permanece
para a peça dos pratos da cozinha marca ideal
 
 
Alex fez os estudos básicos na cidade de Passos, no interior de Minas, há trinta minutos de Furnas, onde morava com a família. Nesta época pode conhecer os textos de Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Sabino, Ávilla e outros. Alex teve muito apreço pelo estudo das Letras e dificuldade na ciências exatas. Redação (que se chamava Dissertação) foi ganhando força nos estudos. Havia também uma matéria que Alex tinha facilidade e prazer, Trabalhos Manuais, o que depois viria a influenciar em seus trabalhos futuros.

 
 
 
DANDY
 
 
Bastariam 5 volts cromáticos
dessa volta à anatomia do passado
hoje os dados são anêmicos
e nada permanece
é no Rápido Zefir que se dá o transporte
vocês provocam com essa face na lapela
vocês provocam a todos com essas faces
que só se percebem em meio às fileiras
queria ter essa sua isenção
esse tipo frigorífico importado do Japão
mas qual…
os assuntos as letras os títulos
surdo, busco na física
nas ciências endêmicas e meio exatas
repetitivo repetitivo
monótono duas rotações
atavio que poucos – lembra? – muito poucos
como esses dandies vagos que ainda
arriscam umas tantas voltas
à frente da artilharia onde
o júri sem vértebras poderá por ti
ser arrebatado
como num qualquer apagar
dos baixos teores que se elevam
mortalmente em novembro

 

 

 

Após a colação do segundo grau, a família de Alex muda-se de cidade novamente, desta vez para São Paulo, em virtude do término da construção da primeira usina hidrelétrica brasileira. Estamos em 1965. O Brasil passava por um processo de avanço tecnológico, sobretudo na área de energia. Assim, vive de perto essa realidade com seu pai, variando entre a capital de São Paulo e o interior. Muitos rios, muitos rios.

 
 
 
SÃO PAULO RH-5087
 
 
– Traças, novamente por todos os lados
pontuais e bem-vindas traças
nem o notário teria percebido
que um número tão significante
carrega para o sub-solo, a cada hora
o meu armário de livros e carimbos
(o nome no notário é Rolet)
coleção amada de carimbos comemorativos
e bilhetes ray-o-til
que carrego nos bolsos de trás das calças
e que para as caras e répteis
já se tornou marca registrada
da minha agência de inaugurações
de tudo tudo um pouco
mas quão ilógico!
contêm mastros, mapas gerais da groenlândia,
limos de aqualuzia,
colapsos percorrendo tubos eternites
de espessuras impróprias
etiquetas devolvidas com o preço fácil
na alinhada gola
e tua tão delicada carta
afirmando (quantas vezes isto se repete!)
a farsa postal
no plano dos dois insistindo
na troca de selos avisos
e finalmente o largo e doce tédio dos dias
 
 
Só para informar a todos que os e-mails com a biografia do nosso querido Alex Hamburger voltarão em breve. Nosso herói está se recuperando de um pequeno percalço e já já continuaremos a percorrer sua bela trajetória. Saravah!

 
 
 
 
GALA REGINA
 
 
 
Gala Ostronowna Regina
de mil maneiras amaverik
qual cedilha que sorri
abalada pela luna
 
Agora um coquetel molotov
regência impedância refúgio
harmonia em si bemol um sequestro
de waltz eletro-acústico saloon-ex
 
minha morte impune
 
Joana D’arcos da Lapa ousa
me oferto a ti em aquedutos
em acordes grandiloquentes para Roland
 
A cada fino risco no disco
 
Navilouca que me arrebata
em 2/4 de doze horas
incendiária malstroom
polinaise vesga que me habita
de cima del quatrocientos y siete dept.
 
Hierática andante
rosa em franca do meu repto
lança luxemburgo
em variações de um corpo que cai
 
Química quasi um encontro em Valencia
e como me atrevo qual outro Cervantes
quero essa marcha andaluz
minha extremada vanguarda
extermínio dos sonhos de las classes
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1 comentário

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Uma resposta para “Alex Hamburger (incompleto)

  1. Gleison

    Alex, “pai”; amigo; precursor das artes “interior”; clara; pura e eterna; eternamente, é ter na mente, éter na mente!!!!
    Gleison Amaral – Belo Horizonte… Av. Calógeras, Villarino – Rio de Janeiro

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