Florbela Espanca

Florbela d’Alma da Conceição Espanca nasceu no dia 8 de dezembro de 1894, em Vila Viçosa, Alentejo, na casa de sua mãe Antónia da Conceição Lobo. A casa ficava localizada na Rua do Angerino. Seu pai era republicano e se chamava João Maria Espanca, e era casado com Mariana do Carmo Ingleza. Após o nascimento de Florbela, João faz com que sua esposa torne-se madrinha de batismo na filha. Nos registros da Igreja Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, Florbela está registrada como “filha ilegítima de pai incógnito”. Vamos por aqui.




SONHOS


Sonhei que era a tua amante querida,
A tua amante feliz e invejada;
Sonhei que tinha uma casita branca
À beira dum regato edificada…

Tu vinhas ver-me, misteriosamente,
A horas mortas quando a terra é monge
Que reza. Eu sentia, doidamente,
Bater o coração quando de longe

Te ouvia os passos. E anelante,
Estava nos teus braços num instante,
Fitando com amor os olhos teus!

E, vê tu, meu encanto, a doce mágoa:
Acordei com os olhos rasos d’água,
Ouvindo a tua voz num longo adeus!
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Florbela teve um irmão, Apeles, também filho da mesma mãe e pai com o mesmo registro de “filho ilegítimo de pai incógnito”. Em 1899, Florbela faz os estudos primários em Vila Viçosa. O pai trabalha com antiquário, viajando muito, até que em 1900 torna-se um dos introdutores do cinematógrafo em Portugal, projetando para todo o país, filmes em salas particulares com o “Vitascópio de Edson”. Apaixonado por fotografia, chega a abrir um estúdio em Évora, chamado “Photo Calypolense de J.M.Espanca”. Com isso, Florbela desenvolve um imenso gosto por fotografia e tornando-se a modelo preferida de seu pai.
FLORES DE ROSA
Todas as prendas que me deste, um dia,
Guardei-as, meu encanto, quase a medo,
E quando a noite espreita o pôr-do-sol,
Eu vou falar com elas em segredo…
E falo-lhes d’amores e de ilusões,
Choro e rio com elas, mansamente…
Pouco a pouco o perfume de outrora
Flutua em volta delas, docemente…
Pelo copinho de cristal e prata
Bebo uma saudade estranha e vaga,
Uma saudade imensa e infinita
Que, triste, me deslumbra e m’embriaga.
O espelho de prata cinzelada,
A doce oferta que eu amava tanto,
Que refletia outrora tantos risos,
E agora reflete apenas pranto,
E o colar de pedras preciosas,
De lágrimas e estrelas constelado,
Resumem em seus brilhos o que tenho
De vago e de feliz no meu passado…
Mas de todas as prendas, a mais rara,
Aquela que mais fala à fantasia,
São as folhas daquela rosa branca
Que a meus pés desfolhaste, aquele dia…
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Em diversas ocasiões, pai de Florbela e o pai de Milburges Ferreira, sua vizinha e amiga Buja, republicanos, foram perseguidos por serem considerados inimigos do regime monárquico. Em 1903, no dia 11 de novembro, data provável do primeiro poema escrito por Florbela, “A vida e a morte”, aos nove anos de idade. Poema feito na tenra infância, que consta “como uma forma de aproximação e devoção ao pai e ao irmão”.



FADO


Corre a noite, de manso num murmúrio,
Abre a rosa bendita do luar…
Soluçam ais estranhos de guitarra…
Oiço, ao longe, não sei que voz chorar…

Há um repoiso imenso em toda a terra,
Parece a própria noite a escutar…
E o canto continua mais profundo
Que a página sentida de Mozart!

É o fado. A canção das violetas:
Almas de tristes, almas de poetas,
Pra quem a vida foi uma agonia!

Minha doce canção dos deserdados,
Meu fado que alivias desgraçados,
Bendito sejas tu! Ave Maria!…
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No dia 1 de fevereiro de 1908, dia do aniversário de João Maria Espanca, o rei D. Carlos e o príncipe herdeiro D. Luís Felipe são assassinados em Lisboa. A partir desse acontecimento, não demoraria para a instauração da República em Portugal. Nesta época, Florbela ingressa no Liceu de Évora, onde ficaria até 1912. Para ajudar, a família de muda para Évora. Ainda no mesmo ano de 1908, falece em Vila Viçosa, a mãe de Florbela, Antónia da Conceição Lobo, com 29 anos de idade.


VERDADES CRUÉIS


Acreditar em mulheres
É coisa que ninguém faz;
Tudo quanto amor constrói
A inconstância desfaz.

Hoje amam, amanhã ‘squecem,
Ora dores, ora alegrias;
E o seu eternamente
Dura sempre uns oito dias


Li um dia, não sei onde,
Que em todos os namorados
Uns amam muito, e os outros
Contentam-se em ser amados.

Fico a cismar pensativa
Neste mistério encantado…
Digo pra mim: de nós dois
Quem ama e quem é amado?…
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Em 1913, Florbela batiza o primo Túlio Espanca, a quem se dedicará como assídua madrinha. Túlio se tornaria  um importante intelectual português. No mesmo ano, no dia de seu aniversário, aos dezenove anos, Florbela casa-se na Conservadoria do Registro Civil de Vila Viçosa, com Alberto de Jesus Moutinho, antigo amigo do primário. No ano seguinte, Florbela e o marido vão morar em Redondo. Tempos difíceis, falta dinheiro, as aulas para alunos particulares não são suficientes, então, em 1915, o casal volta para Évora para viver na casa do pai de Florbela.


A poesia de Guimarães Rosa https://cartilhadepoesia.wordpress.com


MENTIRAS


“Ai quem me dera uma feliz mentira
Que fosse uma verdade para mim”
J. Dantas


Tu julgas que eu não sei que tu me mentes
Quando o teu doce olhar poisa no meu?
Pois julgas que eu não sei o que tu sentes?
Qual a imagem que alberga o peito teu?

Ai, se o sei, meu amor! Eu bem distingo
O bom sonho da feroz realidade…
Não palpita d’amor, um coração
Que anda vogando em ondas de saudade!

Embora mintas bem, não te acredito;
Perpassa nos teus olhos desleais,
O gelo do teu peito de granito…

Mas finjo-me enganada, meu encanto,
Que um engano feliz vale bem mais
Que um desengano que nos custa tanto!
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Em 1914, Mariana Ingleza encontra-se doente e o pai de Florbela passa a viver livremente com a empregada Henriqueta de Almeida, se divorciaria anos depois para se casar com a nova mulher. Em 1916, Florbela reune poemas para formar o projeto de Trocando Olhares, 88 ao todo. Neste mesmo ano colabora com os suplementos, Notícias de Évora e A Voz Pública, com poemas. Com a entrada de Portugal na Primeira Guerra Mundial, Florbela, entusiasmada com a causa republicana, inicia o projeto de Alma de Portugal.



 Tradução de Mauvais Sang, de Saison en Enfer de Rimbaud aqui http://pedrolago.blogspot.com


DESALENTO


Às vezes oiço rir, e ‘ma agonia
Queima-me a alma como estranha brasa.
Tenho ódio à luz e tenho raiva ao dia
Que me põe n’alma o fogo que m’abrasa!

Tenho sede d’amar a humanidade…
Eu ando embriagada… entorpecida…
O roxo de meus lábios é saudade
Duns beijos que me deram noutra vida!

Eu não gosto do Sol, eu tenho medo
Que me vejam nos olhos o segredo
De só saber chorar, de ser assim…

Gosto da noite, negra, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim!
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Florbela envia os originais de Primeiros Passos a Raul Proença, por intermédio do pai. Raul é o primeiro crítico a reconhecer a personalidade poética de Florbela, o que seria fundamental para seu caminho. Logo após, Florbela também engendra novo projeto de livro, com Minha Terra, Meu Amor. A esta altura, Florbela é explicadora do mesmo colégio e conclui o Curso Complementar de Letras, em 1917. Em novembro de 1917, Florbela, vivendo em Lisboa, subsidiada pelo pai, matricu-la-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Dos 347 alunos, 14 são mulheres.


Gotas e outras constatações http://equivocos-pedrolago.blogspo.com


LÁGRIMAS OCULTAS


Se me ponho a cismar e outras eras
Em que ri e cantei, em que era qu’rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida…

E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago…
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim…

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!
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Em 1918, Florbela encontra-se adoentada e segue com o marido para Quelfes (Algarve) para uma temporada de repouso. Neste período inicia o projeto de Livro de Mágoas, que, em junho de 1919 sai pela Tipografia Maurício de Lisboa. Logo depois, Florbela começa a trabalhar em Livro do Nosso Amor e Claustro de Quimeras. Em 1921, é decretado o divórcio entre Florbela e Moutinho. Meses depois, casa-se novamente, com alferes de artilharia da Guarda Republicana, António José Marques Guimarães. O casal se muda para Lisboa.

A FLOR DO SONHO


A Flor do Sonho alvíssima, divina
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína.

Pende em meu seio a haste banda e fina.
E não posso entender como é que, enfim,
Essa tão rara flor abriu assim!…
Milagre… fantasia… ou talvez, sina…

Ó Flor que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amor de ti?!…

Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa da minh’alma
E nunca, nunca mais eu me entendi…
 .
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Apeles sobe patentes na Marinha e presta serviços no cruzador “Carvalho-Araújo” que transporta de Portugal para o Brasil um dos aviões utilizados por Gago Coutinho e Sacadura Cabral na travessia aérea sobre o Atlântico. Florbela acompanha tudo pelos jornais e cartas. Em janeiro de 1923, sai Soror de Saudade. No fim do mesmo ano, mais uma doença. Em 1924, António Guimarães entra com pedido de divórcio contra Florbela, seu segundo. Fato curioso é que do espólio de António se encontrava o mais abundante material sobre Florbela publicado depois de sua morte.


PARA QUE?!…


Tudo é vaidade neste mundo vão…
Tudo é tristeza; tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!

Até o amor nos mente, essa canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão!…

Beijos d’amor! Pra quê?!… Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!

Só acredita neles quem é louca!
Beijos d’amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta!…
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Em outubro de 1925, Florbela casa-se novamente, no civil, com Mário Pereira Lage, médico, tinha 32 anos. O casal passa a morar em Esmoriz e depois para a casa dos pais de Mário, em Matosinhos. Em 1926, é publicado o decreto ditatorial que dissolve o Congresso da República. Apeles torna-se primeiro-tenente da Marinha. Durante o ano de 1927, Florbela passa a colaborar no D.Nuno de Vila Viçosa, com poemas. Passa também a traduzir romances franceses para a Civilização do Porto.


SAUDADES


Saudades! Sim… talvez…e por que não?…
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?… Ah, como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-os ser sagrado como o pão!

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem dera fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!
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No dia 6 de junho de 1927, Apeles, mergulha no Tejo em treino num hidroavião, morre, assim como havia exposto para Florbela em carta, tragicamente após a morte de sua mulher em 1925. Florbela começa a produzir um livro de contos à memória do irmão. Apesar do esforço, Florbela inicia uma fase de depressão, doente dos nervos, fumando em demasia e emagracendo sensivelmente.


Fumaças e Presenças em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com


SE TU VIESSES VER-ME


Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses todas nos teus braços…

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca…o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte… os teus abraços…
Os teus beijos…a tua mão na minha…

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braços se estendem para ti…
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Em 1930, Florbela começa a colaborar com o recém fundado Portugal Feminino com poemas e contos. De vez em quando vai para Lisboa e Évora onde participa de reuniões da revista feminina. Há inclusive uma imagem de Florbela ao lado de outras intelectuais e feministas portuguesas como Elina Guimarães, Maria Amélia Teixeira, Branca da Gonta Colaço e outras. Florbela mostra sua solidão em Diário do último ano “o olhar dum bicho comove-me mais que um olhar humano. Há lá dentro uma alma que quer falar que não pode, princesa encantada por qualquer fada má […] Ah, ter quatro patas e compreender a súplica humilde, a angustiosa ansiedade daquele olhar!”



A NOSSA CASA



A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onde está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!
Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?
Sonho… que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,
Num país de ilusão que nunca vi…
E que eu moro — tão bom! — dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim…
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No dia 18 de junho de 1930, Florbela inicia correspondência com Guido Battelli, com quem revisa e discute aspectos estéticos de Charneca em Flor, seu último projeto. A está altura, certo decadentismo toma conta de seus temas, algo que predomina, embora não tomando por completo a obra da poeta. Porém, Florbela encerra o diário em 2 de dezembro de 1930 com uma única frase “e não haver gestos novos nem palavras novas!”.



CHOPIN


Não se acende hoje a luz… Todo o luar
Fique lá fora. Bem aparecidas
As estrelas miudinhas, dando no ar
As voltas dum cordão de margaridas!

Entram falenas meio entontecidas…
Lusco-fusco… Um morcego, a palpitar,
Passa… torna a passar… torna a passar…
As coisas têm o ar de adormecidas…

Mansinho… Roça os dedos p’lo teclado,
No vago arfar que tudo alteia e doira,
Alma, Sacrário de Almas, meu Amado!

E, enquanto o piano a doce queixa exala,
Divina e triste, a grande sombra loira,
Vem para mim da escuridão da sala…

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Na passagem de 7 para 8 de dezembro, no dia de seu aniversário, Florbela D’Alma da Conceição Espanca suicida-se em Matosinhos, aos 36 anos, ingerindo dois frascos de Veronal, uma espécie de sedativo e sonífero. Foi enterrada no mesmo dia no Cemitério de Sedim. No dia 17 de maio de 1964, seus restos mortais são transportados para o Cemitério de Vila Viçosa, “a terra alentejana a que entranhadamente quero”, como se referiu em carta a José Emídio Amaro em 15 de maio de 1927. Florbela foi homenageada por muitos poetas, dentre eles Manuel da Fonseca e Fernando Pessoa, que escreve “alma sonhadora/Irmã gêmea da minha”. Assim, terminamos essa antologia. Bom Carnaval para todos!

AMOR QUE MORRE


O nosso amor morreu… Quem o diria!
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta.
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!

Bem estava a sentir que ele morria…
E outro clarão, ao longe, já desponta!
Um engano que morre… e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia…

Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer
E são precisos sonhos pra partir.

Eu bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
Doutro amor impossível que há de vir!

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1 comentário

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Guimarães Rosa

João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, no dia 27 de junho de 1908. Canceriano. Primeiro filho de Florduardo Pinto Rosa, Seu Fulô, e Francisca Guimarães Rosa, D. Chiquitinha. Seu pai era comerciante, juiz de paz, caçador de onças e contador de estórias. O casal teve mais cinco filhos além de Joãozito, como era conhecido. Ainda jovem, se mudou para a casa do avós, em Belo Horizonte, para estudar. Notavelmente, aos sete anos, começou a estudar francês sozinho.

Aqui os mortos deixam seus ossos http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

OU…OU

A moça atrás da vidraça
espia o moço passar.
O moço nem viu a moça,
ele é de outro lugar.

O que a moça ouvir
o moço sabe contar:
ah, se ele a visse agora,
bem que havia de parar.

Atrás da vidraça, a moça
deixa o peito suspirar.
O moço passou, depressa,
ou a vida vai devagar?

Com a chegada do Frei Canísio Zoetmulder, frade franciscano holandês, o pequeno João pode iniciar-se nos estudos da língua holandesa e prosseguir com os estudos no francês, agora, com a supervisão do frei. Terminou o curso primário no Colégio Afonso Pena, em Belo Horizonte. Iniciou os estudos secundários no Colégio Santo Antônio, em São João Del Rey, em regime de internato, porém, logo saiu, pois não se adaptou, detestava a comida.


Tradução de Une Saison en Enfer aqui http://pedrolago.blogspot.com


PESCARIA


O peixe no anzol
é kierkegaardiano
(O pescador não sabe,
só está ufano).

O caniço é a tese,
a linha é pesquisa:
o pescador pesca
em mangas de camisa.

O rio passa,
por isso é impassível:
o que a água faz
é querer seu nível.

O pescador ao sol,
o peixe no rio:
dos dois, ele só
guarda o sangue frio.

O caniço, então,
se sente infeliz:
é o traço de união
entre dois imbecis…
 .
 .
 .

Parte da família de João é de origem portuguesa, porém, o sobrenome é suevo. Os suevos, assim como os celtas, foram um povo emigrante, que também não fixaram raízes, tendo, de certa forma, desaparecido. O nome da família também designava a capital de um estado suevo na Lusitânia, Guimaranes, hoje, ao Norte de Portugal, Guimarães, na província do Minho, perto de Braga, antiga cidade real e de peregrinação.

Poetas traduzidos e outros https://cartilhadepoesia.wordpress.com

TEOREMA


Malmequer falhado,
cão madrugador,
pôde simples fado:
tem amado.

Malmequer maior,
deus decapitado;
se cumprido for,
viverá de amor.

Malmequer e bem,
com porquê e a quem:
severo exercício,
amar é transgredir-se.
 .
 .
 .

Saindo de São João Del Rey e de volta à Belo Horizonte, João matricula-se no Colégio Arnaldo, de padres alemães. Logo inicia o estudo da língua alemã que, notavelmente, aprende com rapidez. Começava sua relação com as línguas. Anos depois, disse numa entrevista: “falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituânio, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do tcheco, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração.”



Encontre o grão perdido aqui http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

ALONGO-ME


O rio nasce
toda a vida.
Dá-se
ao mar a alma vivida.
A água amadurecida,
a face
ida.
O rio sempre renasce
A morte é vida.
 .
 .
 .

Em 1925, entre 16 e 17 anos, João matricula-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais. Fato interessante para quem conhece sua biografia ocorreu no velório da lamentável morte de um estudante por febre amarela. Segundo Dr. Ismael de Faria, antigo colega de turma, João teria dito “as pessoas não morrem, ficam encantadas” neste velório. Frase que ficaria conhecida quarenta e um anos depois no discurso de posse na Academia Brasileira de Letras.


OS TRES BURRICOS


Por estradas de montanha
vou: os três burricos que sou.
Será que alguém me acompanha?

Também não sei se é uma ida
ao inverso: se regresso.
Muito é o nada nesta vida.

E, dos três, que eram eu mesmo
ora pois, morreram dois;
fiquei só, andando a esmo.

Mortos, mas, vindo comigo
a pesar. E carregar
a ambos é o meu castigo?

Pois a estrada por onde eu ia
findou. Agora, onde estou?
Já cheguei, e não sabia?

Três vezes terei chegado
eu – o só, que não morreu
e um morto eu de cada lado.

Sendo bem isso, ou então
será: morto o que vivo está.
E os vivos, que longe vão?
 .
 .
 .

Rosa estreou na literatura em 1929, quando ainda era estudante. Escreveu quatro contos: Caçador de Camurças, Chronos Kai Anagke (título grego para Tempo e Destino), O mistério de Highmore Hall e Makiné para um concurso da revista O Cruzeiro. Todos os contos foram premiados e publicados com ilustrações em 1929 e 1930. Rosa ganhou 100 contos de réis como premiação. Tempos depois, confessou que, nessa época, escrevia friamente, sem paixão.


MULHER MAR MORTE


Devoro-me de a mais a
imagem indesmanchável
desfazendo-me – eis e
vôos entes e sei – vagas
em mim despedaçadamente
vasto a
som sal soledade
aos
céu e céu
olhos leste-oeste olhos
onde entre onde
me movo
morro-me e
me arranco de ti
a ti: a
amarga.
 .
 .
 .

No dia 27 de junho de 1930, Rosa, aos 22 anos, casa-se com Ligia Cabral Penna, que tinha 16 anos. Com ela tem duas filhas: Vilma e Agnes. Porém dura pouco seu casamento, que se desfaz poucos anos depois. No mesmo ano, forma-se na Faculdade de Medicina e é escolhido para ser o orador da turma, tendo sido aclamado por mais de trinta e cinco colegas. Viaja para Itaguara, em Itaúna, onde exercerá a profissão de médico. Lá permanece cerca de dois anos. Relaciona-se intensamente com a comunidade, com raizeiros e receitadores e faz um grande amigo, Manoel Rodrigues de Carvalho, Seu Nequinha, que morava num grotão enfurnado entre morros.




SAUDADE SEMPRE

Sem mim
me agarro a um tanto de mim
não aqui
já existente
sobre tudo e abismo.
Horas são outrora
além-de. O
muito em mim me faz:
som de solidão.
 .
 .
 .

Curiosidade: “Seu Nequinha” era espírita e, ao que as suposições indicam, parece ter inspirado o personagem Cumpadre meu Quelémem, do Grande Sertão: Veredas. Eis que Guimarães Rosa afasta-se da Medicina diante a incapacidade de mudar a vida de uma cidade que não tinha nem energia elétrica. Rosa também teve que assistir a um dos partos de sua mulher diante a ausência do médico e do farmacêutico que não haviam chegado. Mistura de decepção com sensibilidade vocacional.

SAUDADE, SEMPRE
(versão aflita)


Alma é dor escondida.
O coração existe
animal a um canto
– o triste.
Posso pecar contra ti
ingenuamente:
há fogo, o fundo
o instante; não,
o esquecimento
é voluntária covardia.
 .
 .
 .

Rosa trabalha como voluntário na Força Pública durante a Revolução Constitucionalista de 1932. Logo depois, efetiva-se através de concurso. Em 1933 vai para Barbacena como Oficial Médico do 9º Batalhão de Infantaria. Segundo Mário Palmério, “o quartel pouco exigia de Guimarães Rosa, algumas visitas médicas rotineiras, algumas viagens a cavalo e, às vezes, era escolhido como orador da corporação em solenidades de dias cívicos.” Assim, tinha tempo para o estudo de línguas estrangeiras. Fazia também demoradas pesquisas no quartel e convivia com velhos milicianos, com quem obteve informações valiosas sobre o jaguncismo barranqueiro que até por volta de 1930, existiu na região do Rio São Francisco.



A AUSENTE PERFEITA


Mal refletida em multidão de espelhos,
traída pela carne de meus olhos,
pressentida
uma ou outra vez, quando
consigo gastar um quanto da minha
pesada consolação transitória – 
poderás ser:
a ave
a água
a alma?
 .
 .
 .

Um entusiasmado amigo, espantado com sua cultura, erudição e conhecimento de línguas, incentiva Rosa a fazer prova para o Itamarati. Fez a prova no Rio de Janeiro e tirou segundo lugar. Reconhece também sua falta de vocação para a medicina “repugna-me qualquer trabalho material, só posso agir por satisfeito no terreno das teorias, dos textos, do raciocínio puro, do subjetivismo”. Em 1936 recebe um prêmio de poesia da Academia Brasileira de Letras com o livro Magma, de poemas. Seu primeiro livro. Um ano depois, concorre ao Prêmio Humberto de Campos, sob o pseudônimo “Viator” com um volume intitulado “Contos”, livro que anos depois, após uma revisão de Rosa, se transformaria em Sagarana.


A ESPANTADA ESTÓRIA


O relógio o
crustáceo
de dentro de pólo-norte
e escudos de vidro
em dar remedido
desfechos indivisos
cirúrgicas mandíbulas
desoras antenas;
ele entranha e em torno e erra
o milagre monótono

intacto em colméias;
nem e sempre outro adeus
me não-usa, gasta o
fim não fim:
repete antecipadamente
meu único momento?

…nele
eternizo
agonizo
metalicamente
maquinalmente
sobressaltada
mente
ciente.
 .
 .
 .

Em 1938, Rosa é nomeado Cônsul Adjunto em Hamburgo, e segue viagem para a Europa. Lá conhece sua segunda mulher Aracy Moebius de Carvalho. Sua história com o misticismo e o ocultismo ganham mais força nessa época. Escapa algumas vezes da morte durante a guerra. Certa vez, de noite, encontra sua casa em escombros, bombardeada.  Respeita curandeiros, feiticeiros, umbanda, quimbanda, kardecismo e na força da lua. Uma vez, protegeu a facilitou a fuga de judeus perseguidos, com a ajuda de Aracy, cedendo vistos e indicando caminhos. Seria, em 1985, homenageado pelo Governo de Israel por esses atos.





DISTANCIA


Um cavaleiro e um cachorro
viajam para a paisagem.
Conseguiram que esse morro
não lhes barrasse a passagem.
Conseguiram um riacho
com seus goles, com sua margem.
Conseguiram boa sede.
Constataram:
cai a tarde.

Sobre a tarde, cai a noite,
sobre a noite a madrugada.
Imagino o cavaleiro
esta orvalhada e estrelada.
O pensar do cavaleiro
talvez o amar, ou nem nada.
Imagino o cachorrinho
imaginário na estrada.
Caía a tarde.

Para a tarde o cavaleiro
ia, conforme avistado.
Após, também o cachorro.
Todos – iam, de bom grado,
à tarde do cavaleiro
do cachorro, do outro lado
– que na tarde se perderam,
no morro, no ar, no contato.
Caiu a tarde.
 .
 .
 .

Em 1942, quando o Brasil rompe relações com a Alemanha, Rosa é internado em Baden-Baden, junto com outro brasileiros, dentre os quais, Cícero Dias. Ficam retidos durante quatro meses até serem trocados por oficiais alemães. Volta ao Brasil e segue para Bogotá, como Secretário da Embaixada. A altitude da cidade lhe inspira o conto Páramo. Em 45 volta ao Brasil. No ano seguinte é nomeado chefe-de-gabinete João das Neves da Fontoura e vai a Paris como membro da delegação à Conferência de Paz. Em 48, novamente na Colômbia, ocorre o assassinato do líder popular Jorge Eliécer Gaitán, fundador do partido Unión Nacional Izquierdista Revolucionaria.

RECAPÍTULO


Neste dia
quieto e repartido em tédio e falta de coragem,
não mereci a música que sofro na memória,:
não me doeram a fuga, o espesso, o pesado, o opaco;
não respondi.
Apenas fui feliz?
 .
 .
 .

Em 1951, Rosa faz uma excursão ao Mato Grosso que lhe rende uma reportagem poética: Com o vaqueiro Mariano. O mesmo Mariano que se tornaria personagem da novela Uma estória de amor, dentro do volume Manuelzão e Miguilim. Mariano disse que Rosa “perguntava mais que padre”. Com ele fez extensa pesquisa sobre fauna, flora, animais, superstições e etc. Em 1956 sai Corpo de Baile. A está altura, após Sagarana, Rosa já é considerado autor criador de moderna linha de ficção regional brasileira. O livro obtém ensaio de Ivan Teixeira que o define como “talvez o mais enigmático da literatura brasileira”.


CONTRATEMA


A lua luz em veludo
    barba longa
    respingada de violetas.

Perdidos todos os verdes
    – cor que dorme –
    desconforme
    se escoa o mundo no abandono.

Eis que belos animais,
    quente resplandor nos olhos,
    quente vida com maldade,
    vêm das sombras.

Assim o sol
    seu rio alto,
    novos ouros, novas horas,
    revolve agudas lembranças.

Fria, a noite fecha as asas
    – mundo erguido, céu profundo –
    sol a sol
    ou sono a sono?
 .
 .
 .

Em Maio de 1956, Rosa publica seu terceiro romance: Grande Sertão: Veredas. Que se estende numa narrativa de mais ou menos 600 páginas, após dois anos de intensa pesquisa e desenvolvimento. O livro logo causa grande impacto na cena literária brasileira, sendo traduzido para várias línguas. Em meio à críticas vorazes e elogios, o livro torna-se sucesso comercial e recebe três prêmios: Machado de Assis, do Instituto Nacional do Livro, Carmen Dolores Barbosa, de São Paulo, e Paula Brito, do Rio de Janeiro. Rosa, com o livro, passa a figurar entre os autores mais aclamados da terceira geração do modernismo, ao lado de João Cabral e Clarice Lispector. Em 1961, recebe um prêmio Machado de Assis, pelo conjunto da obra, pela Academia Brasileiras de Letras.


ROTA


Antes que me vissem triste
ou que outras voltas me dessem
entendi contrário rumo
desci esta rua até o fim
concedi-os aos prólogos:

a nuvem válida
a estátua de alma
a véspera de véspera
o cenho da calma
o fogo, imágico
o doer intacto
a santa no armário
o cume calabouço
a lembrança do peixe
o celeumatário
o outro anão
a mulher de pés no chão
as senhas vagas
o homem enrodilhado
a ânfora e a âncora
o jacto de madrugada
a folga
a força.
 .
 .
 .

Em 1962, Rosa assume a chefia do Serviço de Demarcação de Fronteiras, cargo que assume com empenho. Participa dos casos Pico da Neblina e das Sete Quedas. Anos depois, o pico culminante da Cordilheira do Curupira, recebe seu nome, devido ao desempenho de seu trabalho. Em 1958, Rosa viaja para Brasília, nova capital, e se encanta com o lugar “Em começo de junho estive em Brasília, pela segunda vez lá passei uns dias. O clima da nova capital é simplesmente delicioso, tanto no inverno quanto no verão. E os trabalhos de construção se adiantam num ritmo e entusiasmo inacreditáveis: parece coisa de russos ou de norte-americanos”… “Mas eu acordava cada manhã para assistir ao nascer do sol e ver um enorme tucano colorido, belíssimo, que vinha, pelo relógio, às 6 hs 15’, comer frutinhas, na copa da alta árvore pegada à casa, uma tucaneira’, como por lá dizem. As chegadas e saídas desse tucano foram uma das cenas mais bonitas e inesquecíveis de minha vida”.





ÁRIA


Em meio ao som da cachoeira
hei-de ouvir-me, a vida inteira
dar teu nome.
Tudo o mais levam águas,
mágoas vagas
para a foz.
Vida que o viver consome.
Um rio, e, do rio à beira,
tua imagem. Minha voz.
A cachoeira
diz teu nome.
 .
 .
 .

A partir de 1958, Rosa começa a apresentar problemas de saúde. Hipertensão arterial e notórias consequencias do tabagismo. Certa vez, em carta ao amigo Paulo Dantas, confessa que “também estive mesmo doente, com apertos de alergia nas vias respiratórias; daí, tive de deixar de fumar (coisa tenebrosa!) e, até hoje (cabo de 34 dias!), a falta de fumar me bota vazio, vago, incapaz de escrever cartas, só no inerte letargo árido dessas fases de desintoxicação. Oh coisa feroz. Enfim, hoje, por causa do Natal chegando e de mais mil-e-tantos motivos, aqui estou eu, heróico e pujante, desafiando a fome-e-sede tabágica das pobrezinhas das células cerebrais. Não repare.”



Antes que tudo fosse tudo http://equivocos-pedrolago.blogsot.com


QUERENCIA

Um vaga-lume
muge
na noite e distância
de uma chuva que estiou, chuvinha,
de uma porteira que bate, que range e que bate,
de um cheiro de únicos úmidos verdes inventos
de amigas árvores, agradadas,
de uma marulho de riacho,
de muitos e matinais pássaros,
de uma
esperança-e-vida-e-velhice e morte
que faz em mim.
 .
 .
 .

Rosa passa a incluir em suas leituras espirituais, texto e publicações sobre a Ciência Cristã, a Christian Science, religião criada nos EUA, em 1866, por Mrs. Mary Baker Eddy, que afirma a totalidade do espírito sobre a matéria. Em 1962, Rosa lança Primeiras Estórias, com 21 contos pequenos. Em maio de 63, candidata-se pela segunda vez à Academia Brasileiras de Letras (a primeira fora em 1957, com apenas 10 votos), desta vez, para a vaga deixada por João Neves Fontoura. É eleito por unanimidade, porém, a posse tinha sido adiada, sine die.


TORNAMENTO


I

A viagem dos teus cabelos –
este cabelos povoariam legião de poemas
e as borboletas circulam indagando tua cintura,
incertamente. Teu corpo em movimento
detém uma significação de perfume.
O som de um violino conseguiria dissolver
um copo de ouro?

II

Houve reis que construíram seus nomes milenários
e poetas que governam palácios em caminhos.
Povos. Proêmios. Penas.
Mas toda você, um gosto só, matar-me-ia a sede
e teus pés e rosas.

III

Às vezes – o destino não se esquece –
as grades estão abertas,
as almas estão despertas:
às vezes,
quando quanda,
quando à hora,
quando os deuses,
de repente
– antes-
a gente
se encontra.
 .
 .
 .

Em janeiro de 1965, Rosa participa do Congresso de Escritores Latino Americanos em Gênova. Logo após o congresso foi criada a Primeira Sociedade Latino Americana de Escritores, com Rosa e o guatemalteco Miguel Angel Asturias (Nobel de 1967) como vice-presidentes. Em 1967, publica aquele que seria seu último livro, Tutaméia, de contos. O livro teve muito sucesso e divide a crítica. Rosa então resolve assumir na Academia Brasileira de Letras, quatro anos após ser eleito. O temor pela emoção que sentiria foi o motivo da espera, temia algo, “a gente morre, para provar que viveu…”.



MARJOLININHA


Ai de mim –
te vejo…
esmolinha que me dás:
uma aurora
e um
seixo;
e quanto digas
quanto faças
quanto és
– Princesa! –
como ruidoso é o mundo
e redondo o mar.

As estrelas são boizinhos
que de dia vão pastar.

Carlinhos me deste;
de ti vou dizer:
maria me aria
quero teu pensar
quero teu celeste
quero teu terrestre
quero teu viver.

Onde, onde, onde
estás?

Vou medir teus gestos
vou saber teus passos
maria do centro 
maria do sempre
maria do amar:

em ti quero estar.
 .
 .
 .

No dia 16 de novembro de 1967, Rosa faz discurso de posse na Academia, com a voz embargada, frágil. O tema foi João Neves da Fontoura, como é de costume na academia falar do antecessor. Porém, o final ficaria mais conhecido “Alegremo-nos, suspensas ingentes lâmpadas. E: “Sobe a luz sobre o justo e dá-se ao teso coração alegria!” – desfere-se então o salmo. As pessoas não morrem, ficam encantadas. Soprem-se as oitenta velinhas. Mais eu murmure e diga, ante macios morros e fortes gerais estrelas, verde o mugibundo buriti, buriti, e a sempre-viva-dos-gerais que miúdo viça e enfeita. O mundo é mágico. Ministro, está aqui CORDISBURGO!”.


PRESENÇA E PERFIL DA MOÇA DE CHAPEUZINHO CôNICO


Em primeiro lugar
ela não está presente;
vizinha de mim
indefinidamente.

Tudo o mais, isto sim,
ela representa:
representa o fim
de qualquer começo.

(Do chapéu, não me esqueço)

Seu perfil repensa
um outro pensamento.

(A moça pousada
no meu pensamento.)

Repetindo o inédito
ela se representa.
 .
 .
 .

Três dias após a posse na Academia Brasileira de Letras, Rosa, morre, sozinho, em sua casa em Copacabana, no dia 19 de novembro de 1967. Rosa seria indicado ao prêmio Nobel de Literatura por seus editores na Alemanha, França e Italia. “Penso dessa forma: cada homem tem seu lugar no mundo e no tempo que lhe é concedido. Sua tarefa nunca é maior que sua capacidade para poder cumpri-la. Ela consiste em preencher seu lugar, em servir à verdade e aos homens. Conheço meu lugar e minha tarefa; muitos homens não conhecem, ou chegam a fazê-lo quando é demasiado tarde. Por isso, tudo é muito simples para mim, e só espero fazer justiça a esse lugar e a essa tarefa. Veja como meu credo é simples. Mas quero ainda ressaltar que credo e poética são a mesma coisa. Não deve haver nenhuma diferença entre homens e escritores”. Assim terminamos mais uma antologia poética.

MARJOLININHA 9


Correi, meninas, que o prado
pede vosso bailado.

Bailai, meninas,
eis, sim, que o prado
sempre é um chamado
por vós outras – flores,
pés multicores:
– o amor desejado
o alado.
Ide.
Voai, meninas,
o amor voz pede.

Sabei que os verdes do prado
só estão fugindo.
Sabei, oh flores, meninas.
Correi.

Se as flores do prado, só estão fingindo,
é o amor esperado que já vem vindo.

Bailai, meninas.

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Poesia francesa

Semana de traduções, pois, traduzir é preciso. Un souvenir de Noel. Paul Valéry dizia que “o poema é uma duração, na qual, leitor, respiro uma lei que foi preparada”. Tem aquela importância, não só pelo notável simbolismo, muito influenciado pelo Mallarmé, mas por ter pensado a poesia, a linguagem, o que sustenta. Foi redator no Ministério da Guerra, trabalhou na Primeira Guerra Mundial, para, logo depois, ser aceito na Academia Francesa. Traduzir não é trair, embora a etimologia nos leve para essa máxima. Paul Valéry, 30 de outubro de 1871 a 20 de julho de 1945.

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HELÈNE
de Paul Valéry
tradução de Pedro Lago

Azul! Sou eu… Venho das grutas da morte
Escutar a onda se romper aos degraus sonoros,
E revejo as galés dentro das auroras
Ressucitarem da sombra ao fio dos ramos de ouro.

Minhas solitárias mãos chamam os monarcas
Cuja barba de sal divertia meus dedos puros;
Eu chorava. Eles cantavam seus triunfos obscuros,
E os golfos enterrados às popas de seus barcos,

Eu escuto as conchas profundas e os clarins
Militares ritmarem o vôo dos remos;
O canto claro dos remadores concatenam o tumulto,

E os Deuses, na proa heróica, exaltados,
Em seu sorriso antigo e que a espuma insulta
Levantam sobre mim seus braços indulgentes e esculpidos.

Baudelaire é aquela importância. Viveu apenas 46 anos, o suficiente para grifar tudo que veio depois dele, e cada vez que se volta à sua obra, seu escritor sobre arte, descobre-se que a coisa vai cada vez mais longe. “Bom poeta é aquele que tem boa memória” disse mais ou menos assim na ‘Invenção da Modernidade’. Os poemas em prosa são como crônicas antes da crônica. Só lendo. Hoje, 144 anos após sua morte, com as coisas caminhando para um cenário raso e acelerado, Baudelaire traz a necessidade do espanto, para as novas e velhas gerações. Charles-Pierre Baudelaire (Paris, 9 de abril de 1821 – Paris, 31 de agosto de 1867)

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LXXVII SPLEEN
de Charles Baudelaire
tradução de Pedro Lago

Eu sou como o rei de um país chuvoso
Rico, mas desamparado, jovem e ao mesmo tempo muito velho
Quem de seus mentores desdenha as reverências,
Se aborrece com seus cachorros como o faz com outros bobos.
Nada pode o alegrar, nem um animal de caça, nem um falcão
Nem seu povo morrendo em frente à sacada.
Do bufão favorito a grotesca balada
Não distrai mais a face deste cruel doente;
Sua cama ornada de flores de lis se transforma em túmulo,
E as damas do quarto de dormir, para quem todo príncipe é belo,
Não sabem mais achar o impudico toalete
Para gerar um sorriso deste jovem esqueleto.
O erudito que fê-lo ouro jamais pode
De seu ser remover o elemento corrompido,
E nestes banhos de sangue que os Romanos nos trouxeram
De cujos velhos tempos os poderosos se recordam,
Ele não soube aquecer este cadaver atordoado
Onde corre no lugar de sangue a água verde do Létes.

O diálogo entre as gerações é o que acho que mais fascinante em qualquer linguagem, não importa qual. Foi o que Victor Hugo disse sobre Chateaubriand: “ser Chateaubriand ou nada”. Mal sabia que seria fonte. Mal sabia que sua Notre-Dame de Paris, que seu Quasímodo, pegariam tanta gente boa. De jeito. Fato é que o século XIX foi essa vitória sobre o Échec de poètes que os franceses tanto falam. Victor Hugo ainda seria levantado às alturas pelos seus Misérables e tantos outros. Grandes homens, grandes mesmo. Victor-Marie Hugo (Besançon, 26 de fevereiro de 1802 – Paris, 22 de maio de 1885).

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À VIRGILE
de Victor Hugo
tradução de Pedro Lago

Ó Virgílio! Ó poeta! Ó meu mestre divino!
Venha, deixemos esta cidade ao grito sinistro e vão,
A qual é gigante e jamais fecha a pálpebra,
Esprema uma onda espumante entres seus flancos de pedra,
Lutécia, tão pequena nos tempos de seus Césares,
E que joga hoje, cidade cheia de charretes,
Sobre o nome estridente cujo mundo nomeia,
Mais clareza que Atenas, mais barulho que Roma.

Por você que nos bosques faz, como a água dos céus,
Cair de folha em folha um verso misterioso,
Por você cujo pensamento enche meu devaneio,
Encontrei, numa sombra onde ri uma erva florida,
Entre Buc e Meudon, num profundo esquecimento,
– E quando digo Meudon, suponho Tivoli! –
Encontrei , meu poeta, um vale verde
Nas encostas charmosas displicentemente místicas,
Retrato favorável aos amantes escondidos,
Feito de ondas dormentes e de ramos inclinados,
Onde o belo meio-dia banha em vão com seus raios sem número
A gruta e a floresta, frescos asilos de sombra!

Por você eu a procurei, uma manhã, orgulhoso, feliz,
Com o amor no coração e a madrugada nos olhos;
Por você eu a procurei, acompanhado daquela
Que sabe todos os segredos que minha alma esconde,
E quem, só comigo sobre os bosques hirsutos,
Seria minha Licoris se eu fosse seu Gallus.

Porque ela tem no coração esta flor larga e pura,
O amor misterioso de antiga natureza!
Ela ama como nós, mestre, estas doces vozes
Este barulho de ninhos felizes que saem dos sombrios bosques,
E, a noite, toda ao fundo do vale estreito,
As encostas derrubadas no lago que reverbera,
E, quando o poente triste perdeu seu rubor,
Os pântanos irritados dos passos do viajante,
E o humilde sapê, e o antro obstruído de erva verde,
E que lembra uma boca com o terror aberto,
As águas, os prados, os montes, os refúgios charmosos,
E os grandes horizontes cheios de brilhos!

Mestre! pois eis a estação das pervincas
Se você quiser, cada noite, afastando os galhos,
Sem despertar ecos em nossos passos ousados,
Nós iremos todos os três, quer dizer, todos dois,
Nesse valezinho selvagem e de solidão,
Sonhadores, nós surpreenderemos a secreta atitude.
Na parda clareira onde a árvore ao tronco nodoso
Toma a noite um perfil humano e monstruoso,
Nós deixaremos fumar, à costa de um Falso Ébano,
Algum fogo que se extingue sem pastor que o atiça
E, a orelha esticada à suas vagas canções,
Sobre a sombra, ao luar, a atravessar as moitas,
Ávidos, nós poderemos ver, furtivamente
Os sátiros dançantes que imitam Alfesibéia.

Esse mistério que veio do Uruguai, que escreveu em francês e, como muito se diz, foi precursor do surrealismo, o próprio Breton que disse. Pouco se sabe, mesmo, inclusive como era fisicamente. Há alguns desenhos, um deles, do Artaud. Escreveu Les Chants de Maldoror, onde diz “eu fiz um pacto com a prostituição, para semear a desordem entre as famílias”. Perdeu a mãe francesa com vinte meses de idade. Escolheu um nome para si, Conde de Lautréamont, talvez para homenagear o Marquês de Sade, cruzamento direto, mas, como saber? Fato é que, Lautréamont, é um animal feroz, sem exagero. Isidore Lucien Ducasse, Conde de Lautréamont – Montevidéu, Uruguai, 4 de abril de 1846 – Paris, 24 de novembro de 1870.

Miasmas em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

VIEIL OCÉAN
de Lautréamont
tradução de Pedro Lago

Eu me proponho, sem ser de modo algum comovido, a entoar o canto sério e frio que vocês irão ouvir. Prestem atenção ao que ele contém, e guardem a impressão penosa que vocês não carecerão de deixar, como um estigma, dentro de suas imaginações perturbadas. Não creiam que eu esteja no ponto de morrer, porque eu não sou mais um esqueleto, e a velhice não grudou na minha face. Afastemos adequadamente toda a idéia de comparação com um cisne, no momento onde sua existência se evapora, e não vejam diante de vocês um monstro, do qual eu estou feliz que vocês não possam perceber a cara, mas menos horrível é ela que sua alma!… Entretanto eu não sou mais um criminoso… o bastante sobre este assunto. Há não muito tempo que eu revi o mar e andei até o cais, e minhas memórias estão vívidas como se eu as tivesse abandonado na véspera. Sejam, contudo, se vocês o podem, tão calmos quanto eu nessa leitura da qual eu já me arrependo de oferecer, e não ruborizem ao pensamento do que é o coração humano. Ah! Dazet! Tu, cuja alma é inseparável da minha; tu, o mais belo dos filhos da mulher, embora adolescente ainda; tu, cujo nome se parece ao maior amigo da juventude de Byron; tu em quem reúnem-se nobremente, como em sua residência natural, por um comum acordo, de um laço indestrutível, a doce virtude comunicativa e as graças divinas, porque não és tu comigo, teu peito contra o meu peito, sentados todos os dois sobre algum rochedo da orla, para contemplar este espetáculo que eu adoro.

Velho Oceano, as ondas de cristal, tu te pareces proporcionalmente a essas manchas azuladas que vemos sobre as costas feridas das espumas; tu és um imenso azul sobre os corpos da terra: eu amo esta comparação. Assim, ao teu primeiro aspecto, um sopro prolongado de tristeza, que acreditamos ser o murmúrio de tua brisa suave passa deixando inefáveis traços sobre a alma profundamente abalada, e tu chamas de volta a lembrança de teus amantes, sem que se perceba sempre, os rudes princípios do homem onde ele trava conhecimento com a dor que não o deixa mais. Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, tua forma harmoniosamente esférica, que alegra a face grave da geometria, não me lembra menos do que muitos dos pequenos olhos do homem, parecidos aos do javali para a pequenez, e aos dos pássaros da noite para a perfeição circular do contorno. No entanto, o homem acreditou-se belo em todos os séculos. Eu, suponho, antes de preferência, que o homem não acreditou em sua beleza apenas por amor próprio; mas que ele não é belo realmente e que ele disso duvida; senão por que ele observa a figura de seu semelhante com tanto desprezo? Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, tu és o símbolo da identidade: sempre igual a ti mesmo. Tu não varias de uma maneira essencial, e se tuas ondas estão em alguma parte em fúria, mais ainda em qualquer outra zona elas estão na calma mais completa. Tu não és como um homem, que para na rua para ver dois buldogues se agarrando no pescoço, mas que não para quando um funeral passa; que está nesta manhã acessível e nesta noite de mal humor, que ri hoje e chora amanhã. Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, não haveria nada de impossível no que tu escondes em teus seios de futuras utilidades para o homem. Tu já lhe destes as baleias. Tu não te deixas facilmente adivinhar pelos olhos ávidos das ciências naturais os mil segredos de tua íntima organização: Tu és modesto. O homem se gaba sem cessar e para as minúcias. Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, as diferentes espécies de peixes que tu alimentas, não juraram fraternidade entre elas. Cada espécie vive de sua parte. Os temperamentos e as conformações que variam em cada uma delas, explicam de uma maneira satisfatória; o que parece a princípio uma anomalia. É desse modo um homem que não possui os mesmos motivos de desculpa. Um pedaço de terra é ocupado por trinta milhões de seres humanos, os que se crêem obrigados em não se misturar na existência de seus vizinhos, fixados como raízes sobre o pedaço de terra que perseguem. Descendo do grande ao pequeno, cada homem vive como um selvagem dentro de sua caverna, e saem raramente para visitar seu semelhante agachado igualmente dentro de outra caverna. A grande família universal dos humanos é uma utopia digna da lógica das mais medíocres. Além disso, do espetáculo de tuas tetas fecundas emerge a noção de ingratidão, porque pensa-se imediatamente aos seus parentes numerosos demasiadamente ingratos para com o Criador para abandonar o fruto de sua miserável união. Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, tua grandeza material, não pode ser comparada ao cálculo que se fez do que foi necessário de força ativa para engendrar a totalidade de tua massa. Não se pode te beijar de lampejo. Para te contemplar, é preciso que a paisagem se transforme por um momento contínuo em direção aos quatro pontos do horizonte, igualmente a um matemático que no afã de resolver uma equação algébrica, examina separadamente diversos casos possíveis antes de determinar as dificuldades. O homem come substancias nutritivas e faz outros esforços dignos de uma melhor sorte para parecer alimentado: que ela se inche tanto que ela desejará, esta rã. Sejas tranqüilo, ela não te igualará em dimensão; eu acho, pelo menos. Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, teus olhos são amargos. É exatamente o mesmo gosto da bílis que destila a critica sobre as belas artes, sobretudo as ciências, sobretudo. Se alguém tem a genialidade sobre as ciências, faz-se passar por um idiota; se um outro alguém é belo de corpo, é um corcunda abominável. Certamente, é preciso que o homem sinta com força sua imperfeição, cujos três quartos, aliás, não devem menos que a ele mesmo, para a criticar assim! Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, os homens, apensar da excelência de seus métodos, não são ainda seguros, ajudados pelos meios de investigação da ciência, a medir a profundidade vertiginosa de teus abismos; tu que tens as sondas longas, as mais pesadas reconheceram-se inacessíveis. Aos peixes isto é permitido, não aos homens. Muitas vezes eu me questionei que coisa seria mais fácil a reconhecer: a profundidade do Oceano ou a profundidade do coração humano! Muitas vezes, com a mão ao alcance da testa, em pé diante dos navios, enquanto a lua se balançava entre os mastros de um jeito irregular, eu me surpreendi fazendo abstrações de tudo o que não era o fim que eu perseguia, me esforçando para resolver esse difícil problema! Sim, qual é o mais profundo, o mais impenetrável dos dois, o Oceano ou o coração humano? Se trinta anos de experiência de vida podem até certo ponto inclinar a balança para uma ou outra dessas soluções, me será permitido dizer que, apesar da profundidade do Oceano, não se pode igualar, quanto à comparação sobre esta propriedade, com a profundeza do coração humano. Eu estive em relação com os homens que foram virtuosos. Eles morreram aos sessenta anos, e cada um não deixava de se gabar: “Eles fizeram o bem sobre esta terra, quer dizer, ele praticaram a caridade: eis tudo, isto não é malicioso, cada um pode fazer tanto quanto” Quem compreenderá porque dois amantes que se idolatram na véspera, por uma palavra mal interpretada, se afastam, um em direção ao Oriente, o outro em direção ao Ocidente, com os aguilhões do ódio, da vingança, do amor e do remorso, e não se revêem mais, cada um coberto em seu orgulho solitário. É um milagre que se renova a cada dia e que não é menos miraculoso. Quem compreenderá porque aprecia-se não somente as desgraças gerais de seus semelhantes, mas também, as particularidades de seus mais queridos amigos, mesmo de seu pai e de sua mãe, ao passo que se aflige ao mesmo tempo? Um exemplo incontestável para concluir a série: o homem diz hipocritamente sim e pensa não. É por isso que os homens tem tanta confiança uns nos outros, e não são egoístas. Resta à psicologia mais progresso a fazer. Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, tu és tão poderoso que os homens o aprenderam as suas próprias custas. Eles fazem bom uso de todos os recursos de seu gênio…; incapazes de te dominar. Eles acharam seu mestre. Eu digo que eles encontraram alguma coisa mais forte que eles. É alguma coisa, um nome. Este nome é: O Oceano! O medo que tu os inspiras é tal que eles te respeitam. Apesar disso, tu fazes valsar suas mais pesadas maquinas com graça, elegância e facilidade. Tu os fazes dar saltos ginásticos, até o céu, e dar mergulhos admiráveis até o fundo de teus domínios: um saltimbanco ficaria com inveja. Bem aventurados são eles quando tu não os envelopa definitivamente em tuas camadas espumantes para ir ver, sem trilhos, em tuas entranhas aquáticas, como se portam os peixes, e sobretudo, como se portam eles-mesmos. O homem disse: “Eu sou mais inteligente que o Oceano” É possível, mas o Oceano a ele é mais abominável que ele ao Oceano: é o que não é necessário provar. Este patriarca observador, contemporâneo das primeiras épocas de nosso globo suspenso, sorriu de pena quando viu os combates navais das nações… Eis uma centena de leviathans que saíram das mãos da humanidade! A ordens enfáticas dos superiores, os gritos dos feridos, os tiros de canhão, é o ruído feito com o propósito de aniquilar alguns segundos… O drama termina, o Oceano colocou tudo em seu ventre! Oh! Essa garganta formidável!… Quão grande deve ela ser para baixo, na direção do desconhecido! Para coroar a estúpida comédia, que não é mesmo interessante, vê-se no meio dos ares alguma cegonha atrasada pela fadiga, que se põe a gritar, sem parar a envergadura de seu vôo: “Ei! acho que é ruim! Havia lá embaixo pontos negros. Eu fechei os olhos… eles desapareceram” Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, ó grande celibatário, quando tu atravessas a solidão solene de teus reinos fleumáticos, tu te orgulhas acertadamente de tua magnitude nativa, e os elogios verdadeiros que me apresso em te dar. Balanças voluptuosamente pelos brilhos suaves de tua lentidão majestosa, que é a mais grandiosa entre os atributos cujo soberano poder te gratificou, tu desenrolas, no meio de um sombrio mistério, sobre tua superfície sublime, tuas ondas incomparáveis com o sentimento calmo de teu poder eterno. Elas se acompanham paralelamente, separadas por curtos intervalos. Mal uma diminui, uma outra vai até ela se reencontrar crescendo, acompanhadas elo ruído melancólico da espuma. (desta forma os seres humanos, as ondas vívidas, extinguem uma após a outra de uma maneira monótona, mas sem deixar o barulho espumoso) O pássaro de passagem descansa sobre elas com confiança, e se deixa abandonar a seus movimentos cheios de uma graça orgulhosa, até que os ossos de suas asas tenham recuperado seu vigor acostumado para continuar a peregrinação aérea. Eu gostaria que a dignidade humana não fosse nada menos que uma encarnação do reflexo da tua; eu desejo muito. Este desejo sincero é glorioso para ti. Tua grandeza moral, imagem do infinito, é imensa como a reflexão do filosofo, como o amor da mulher, como a beleza divina do pássaro, com as meditações do poeta. Tu és mais belo que a noite. Responda-me, Oceano, tu queres ser meu irmão? Me agites com impetuosidade, mais… mais ainda, se tu quiseres que eu te compare à vingança de Deus; alongues tuas garras lívidas abrindo um caminho sobre teu próprio seio… é ótimo… Desenroles tuas ondas abomináveis, Oceano repugnante, compreendido por mim somente e diante do qual eu tombo, prosternado a teus joelhos. A dignidade do homem é emprestada; ele não me imporá um ponto. Tu, sim. Oh! Quando tu avanças a alta crista e terrível, cercada de tuas dobras tortuosas como de uma corte, magnetizador e feroz, rolando tuas ondas umas sobre as outras, com a consciência de que tu és, para que tu cresças das profundezas de teu peito, como que comovido de um remorso intenso que eu não pude descobrir, este surdo rugido perpétuo que os homens receiam tanto, mesmo quando eles te contemplam em segurança, trêmulos sobre a margem, então, eu vejo que ele não me pertence, o direito notável de me dizer teu igual. É porque na presença de tua superioridade, eu te daria todo o meu amor (e nulo não sabes a quantidade de amor que contem minha aspirações sobre o belo), se tu não me fizesses dolorosamente pensar aos meus semelhantes, que formam com ti o mais irônico contraste, a antítese mais bufônica que jamais se viu na criação: Eu não posso te amar. Eu te detesto. Porque volto a ti pela milésima vez, em direção a teus braços amigos que se entreabrem para acariciar meu rosto ardente, que vê desaparecer a febre em teu contato! Eu não conheço teu destino escondido: Tudo que te concerne me interessa. Digas para mim então se tu és a morada do Príncipe das Trevas. Dizes para mim, dizes para mim, Oceano (a mim somente para não entristecer os que ainda não conheceram nada menos que ilusões) e se o sopro de Satan criou as tempestades que agitam teus olhos salgados até as nuvens. É preciso que tu me digas, porque eu me alegraria em conhecer o inferno tão perto do homem. Eu quero que esta seja a última estrofe da minha invocação. Assim sendo, uma última vez de novo, eu quero te saldar e te fazer meus adeuses! Velho Oceano, as ondas de cristal… Meus olhos se molham de lágrimas abundantes, e eu não tenho a força de perseguir, pois eu sinto que o momento de voltar para entre os homens chegou, ao aspecto brutal: Mas; coragem! Façamos um grande esforço e terminemos com o sentimento do dever, nosso destino sobre esta terra. Eu te saúdo, velho Oceano!

A apropriação da imagem do Rimbaud pelo movimento punk é um reflexo bem interessante do que ele representa. Hoje, camisas são vendidas na França. Parece também que o “dia mundial do poeta” é comemorado no dia de seu aniversário, dentre muitas outras reverberações. Ecos. E pensar que não fosse pelo Verlaine, talvez, isso não ocorresse. Outra figura importante na divulgação da obra do jovem poeta de Charleville foi Ezra Pound. Rimbaud sofreu muito na mão dos padres de sua infância, suas prosas do início são lindas, menino da província explodindo em Paris, belo e rústico, poeta de técnica impressionante. Depois de explorar tudo, foi viver o corpo, viajou, ganhou dinheiro com armas, foi para a Àfrica, perdeu uma perna, coisas que todos sabemos. Rimbaud é desses poetas de substância concentrada, capaz de nos fazer mudar, ou mais. Jean-Nicolas Arthur Rimbaud, Charleville 20 de outubro de 1854 – Marselha, 10 de novembro de 1891.

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LE BATEU IVRE
de Arthur Rimbaud
tradução de Pedro Lago

Como eu descia os Rios Impassíveis,
Não me senti mais guiado pelos sirgadores.
Os Peles-Vermelhas berrantes os tinham pego para alvo
Tendo-os pregado, nus, nos postes de cores.

Eu estava inconsciente de toda a tripulação,
Carregador de trigo flamengo ou de algodão inglês.
Quando com meus sirgadores terminaram a algazarra
Os Rios me deixaram descer para onde eu queria.

Dentro dos marulhos furiosos das marés,
Eu, outro inverno, mais surdo que os cérebros das crianças,
Corri! E as Penínsulas desamarradas
Não sofreram confusões triunfantes.

A tempestade abençoou meus despertares marítimos.
Mais leve que uma rolha eu dancei sobre as marés
Que chamamos balanço eterno das vítimas,
Dez noites, sem prantear o óleo parvo das lanternas!

Mais doce que as crianças a carne das maçãs ácidas,
A água verde penetrou minha casca de pinho
E as manchas de vinhos azuis e os vômitos
E me lavou, dispersando leme e arpéu.

E desde então, eu me banhei dentro do poema
Do mar, infundido de astros e lactescente,
Devorando os azuis verdes; onde, na flutuação lívida
E cantante, um afogado pensativo às vezes desce;

Onde, tingindo subitamente os azuis delírios
E ritmos lentos sobre os rutilamentos do dia,
Mais fortes que o álcool, mais vastos que vossas liras,
Fermentando os ruivos amargos do amor!

Eu conheço os céus arrebentando em relâmpagos, e as trombas
E as ressacas e as correntes; eu conheço a noite,
A madrugada exaltada assim que um povo de pombas,
Eu vi às vezes o que o homem jamais acreditou ver!

Eu vi o sol baixo manchado de horrores místicos,
Iluminando do alto coágulos violetas,
Semelhante ao dos atores de dramas muito antigos
As ondas rolando ao longe seus frissons de persianas!

Eu sonhei a noite verde às neves ofuscantes,
Beijos subindo aos olhos dos mares com lentidão,
A circulação das seivas inauditas,
E o despertar amarelo e azul dos fósforos cantantes!

Eu segui, de mêses cheios, semelhantes às vacarias
Histéricas, o marulho ao assalto dos recifes,
Sem sonhar que os pés luminosos das Marias
Pudessem forçar o focinho aos Oceanos asmáticos!

Eu colidi, sabe você, de inacreditáveis Floridas
Misturando as flores dos olhos de panteras às peles
Dos homens! Dos arco-íris estendidos como as rédeas
Sobre o horizonte de mares, aos glaucos gados!

Eu vi fermentar os pântanos enormes, nassas
Onde apodreceu dentro dos juncos um inteiro Leviatã!
Os desabamentos de água ao meio das bonanças,
E os longínquos para os abismos cataratantes!

Geleiras, sóis de prata, marés de nácar, céus de brasas!
Fracassos hediondos do fundo dos golfos pardos
Onde as serpentes gigantes devoradas pelos percevejos
Caem das árvores tortas com negros perfumes!

Eu quereria mostrar às crianças esses dourados
Do mar azul, esses peixes de ouro, esses peixes cantantes,
– As espumas de flores abençoaram minhas enseadas
E os inefáveis ventos me fizeram voar por instantes.

Às vezes, martírio laçado dos pólos e das zonas,
O mar cujo soluço fazia meu balanço doce
Subiam sobre mim suas flores de sombras dos ventosos amarelos
E eu ficava, portanto, como uma mulher de joelhos…

Quase-ilha, sobre minhas bordas as querelas
E os excrementos dos pássaros gritantes aos olhos louros.
E eu vogava, quando através meus laços frágeis
De afogadas desciam para dormir, recuando!

Ora, eu, barco perdido sob os cabelos das ansas
Atirado pelo furacão no éter sem pássaro,
Eu cujos Monitores e os veleiros das Hansas
Não queriam pescar de novo a carcassa ébria da água;

Livre, fumando, embarcado de brumas violetas,
Eu que abri um buraco no céu avermelhando como um muro
Que traz, geléias delicadas aos bons poetas,
Liquens de sol e mucos do azul;

Que corria, manchado de lúnulas elétricas,
Prancha louca, escoltado de hipocampos negros,
Quando os julhos faziam desabar a golpes de porrete
Os céus ultramarinos aos ardentes funis;

Eu que tremia, sentindo choramingar à cinquenta lugares
O cio do Béhémots e dos Maelstroms espessos,
Fiandeiro eterno das imobilidades azuis,
Eu anseio a Europa dos antigos parapeitos!

Eu vi os arquipélagos siderais! e ilhas
Cujos céus delirantes são abertos ao navegante:
– São nessas noites sem fundo que você dorme e se exila,
Milhões de pássaros de ouro, ó futuro Vigor?

Mas, na verdade, eu chorei muito! As madrugadas são aflitivas,
Toda lua é atroz e todo sol amargo:
O acre amor me encheu de torpores inebriantes
Ah que minha quilha quebre! Ah que eu vá ao mar!

Se eu desejo uma água da Europa, é a leve
Negra e fria para o crepúsculo embalsamado,
Uma criança agacha cheia de tristeza, solta
Um barco frágil como uma borboleta de maio.

Eu não pude mais, banhado de vossa languidez, ó ondas,
Arrebatar suas esteiras aos carregadores de algodão,
Nem atravessar o orgulho das bandeiras e das flâmulas,
Nem nadar sob os olhos horríveis dos pontões.

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Euclides da Cunha

No dia 20 de janeiro de 1866, nasce Euclides Rodrigues da Cunha, na Fazenda da Saudade, em Santa Rita do Rio Negro, atual Euclidelândia, no município de Cantagalo, Rio de Janeiro. Fillho de Manoel Rodrigues Pimenta da Cunha e Eudóxia Alves Moreira, o jovem foi batizado, apenas, no dia 24 de novembro. Entraremos, então, na obra poética, pouco difundida, deste grande escritor brasileiro. Evoé Euclides!

Thunder, thunder, hhhôôôuh! em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

EU QUERO…

Eu quero à doce luz, os vespertinos pálidos,
Lançar-me, apaixonado, entre as sombras das matas –
– Berços feitos de flores e de carvalhos válidos,
Onde a Poesia dorme, aos cantos da cascatas…

Eu quero aí viver – o meu viver funéreo,
Eu quero aí chorar – os tristes prantos meus…
E envolto o coração, nas sombras do mistério,
Sentir minh’alma erguer-se entre a floresta e Deus!…

Eu quero aí unir a voz de meus martírios
C’os trenos, que murmura a brisa nos palmares
– As lágrimas guardar, no seio azul dos lírios,
E os soluços no seio dos trêm’los nenúfares…

Eu quero, da ingazeira – erguida aos galhos úmidos,
Ouvir os cantos virgens – da agreste patativa…
Da natureza eu quero nos grandes seios túmidos
Beber a Calma, o Bem e a Crença – ardente, altiva –

Eu quero, eu quero ouvir o esbravejar das águas
Das ásp’ras cachoeiras que irrompem do sertão…
– E a minh’alma cansada – ao peso atroz das mágoas –
Silente adormecer no colo da solidão…

Em1868, nasce a irmã de Euclides, Adélia, no dia 9 de agosto. Um ano depois, o pequeno Euclides, com apenas três anos de idade, torna-se órfão de mãe, vítima de uma tuberculose. Com isso, em 1870, muda-se com a família para Teresópolis, no Rio de Janeiro, para a casa de seus tios Rosinda e Urbano Gouveia, porém, sua tia, Rosinda, que havia ocupado o posto de mãe em sua criação, também morre.

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O JAGUAR

Livre das selvas que trazes
Na garra – o pavor da terra,
No peito – as canções da guerra
Nos olhos – chamas audazes!

Quando convulso tu bramas
Nas brenhas – bravo, possante –
E o Sol te arranca, ofuscante,
Do olhar – punhados de flamas!…

Quando na raiva sem termos –
Povoas – fremindo forte
Com um poema de morte
A calma mudez dos ermos!;

Lembras o meu coração!…
Livre qual tu, qual tu forte
Freme, palpita sem norte
De meu peito na solidão!…

Salta – estaca – bravo, lesto
Cheio de amor e ódio, deixa
Uma blafêmia uma queixa
Um poema em cada esto…

Se a trevosa e fria vaga
Da desgraça nele bate
Ele blasfema am embate
Crê Satã e ruge a praga!

Jaguar! ida a raiva tua
Imóvel, calmo tu lavas
Do sangrento olhar as lavas
No argênteo clarão da Lua…

Meu coração – ida a dor
Chora e canta – entre a soidade –
– No saltério da saudade
A Eterna harmonia: – o amor!…

Depois da morte de sua tia Rosinda, em 1871, Euclides se muda para São Fidélis, no Rio de Janeiro, com a irmã e passa a morar com os tios Laura e Cândido José Magalhães Garcez, na Fazenda São Joaquim. Um ano depois, matricula-se no Colégio Caldeira, sob direção de Francisco José Caldeira, que era um pedagogo português. Em 1878, mais uma mudança, desta vez, para Salvador, Bahia, para, morar com a avó e passa a estuda no Colégio Bahia.

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OS GRANDES ENJEITADOS

Servis!… dançai, folgai – na régia bacanália…
Quadro-voz essa luz que nos raios espalha
A treva e o crime atrai!…

Valsai – nesse delírio atroz, brutal que assombra –
Folgai… a grande Luz espia-vos na sombra!
Folgai, cantai – valsai!…

Que vos importa – ó vis, caricatos atletas –
Se o povo dorme nu – nas lôbregas sarjetas –
Entre o pântano e os Céus!….

Q’importa se essa luz – faz as noites da História!
Q’importa se os heróis ‘stão entre a lama e a Glória
Entre a miséria e Deus!…

Q’importa-vos a dor; – a lágrima brilhante
Do seio dos heróis -, estrela palpitante
Que ao céu do porvir vai…

Q’importa-vos a honra, a consciência, a crença,
A justiça, o dever!?… ah! vossa febre é imensa! –
Folga, folgai, folgai!…

Q’importa-vos a Pátria…a pátria – é-vos um nome!….
Q’importa-vos o povo – esse galé da fome –
Ó cortesãos, ó rei!?

Se o olhar das barregãs, de amor e febre aceso
Vos ferve dentro d’alma – e se o direito é preso
Nessa grilheta – Lei!

Fazeis bem em rir – ó pequeninos seres…
O crime, o vício e o mal são os vossos deveres –
Avante pois – gozai…

Atufai-vos – rolai ó almas guarida –
No abismo fundo e frio – o seio da perdida!…
– Cantai… cantai, cantai!…

Gritai com força! assim… não percebeis agora
O eco de vossa voz?… – de vossa voz sonora –
Tremer na vastidão!?

Não ouvis as canções que o seu frêmito espalha?…
Ele desce de Deus – ó dourada canalha –
Ele é – Revolução!…

Em 1879, Euclides volta para a região fluminense para morar com seu tio paterno, Antônio Pimenta da Cunha, em uma chácara nas imediações do atual Largo da Carioca e matricula-se no Colégio Anglo-Americano. Em 1880, muda novamente de escola, agora frequenta os colégios Vitório da Costa e Meneses Vieira e faz os preparatórios. Em 1883, inicia estudos no Colégio Aquino sob a supervisão de Benjamin Constant. Com alguns colegas, passa a editar o periódico mensal ‘O Democrata’ lançado em 1884, no qual Euclides publicará seu primeiro trabalho em prosa. Também declama poemas no Centro José de Alencar. São dessa época seus primeiros poemas.

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AO CLARÃO DAS FORJAS

Ó fronte varonil – brônzea, dominadora
Que a palpitante luz das fornalhas aclara…
– Alma – altiva e viril, como o bronze – sonora,
Tão rija como o aço e como as forjas – clara!…

Combatente da paz nas lutas do trabalho,
Tu – que ani’las com o olhar – a fome tenebrosa;
E fazer teu porvir – com o ferro, o fogo e o malho
– Dá-me esta áspera mão dá-me esta mão calosa!…

Esta ásp’ra mão robusta, ardente, válida – esta
Mão – que os malhos levanta e, esplêndida à vibrá-los
– Férrea e grande – produz do progredir a orquestra!
– Dá-me esta mão que veste – uma luva de calos!…

E deixa te dizer em cálida linguagem
Ígnea – como o suor – com o qual a fronte adornas –
Como tu’alma – brava, intérmina, selvagem –
– Ásp’ra como a canção sonora das bigornas…

Não invejes – jamais – aos que a sorte fagueira
As frontes osculou descendo um áureo traço –
Eles têm o futuro e a crença – na algibeira –
Tu – tens a crença n’alma – e o futuro – em teu braço.

Em 1885, Euclides entra na Escola Politécnica no Largo de São Francisco no Rio de Janeiro. Um ano depois assenta na Escola Militar da Praia Vermelha como cadete número 308, estundando com Cândido Rondon e Tasso Fragoso. Datam desta época, poemas filosóficos e melancólicos. Passa a colaborar com artigos e poemas na Revista da Família Acadêmica editada pelos alunos da Escola Militar. Porém, um incidente mudaria seu percurso.

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VIAM-NO SEMPRE A DIVAGAR TORVADO

Viam-no sempre a divagar torvado
Pelas tabernas vos, – sempre seguido
De um velho cão famélico e ferido,
Bêbado – impuro, torpe e enlameado…

Veio afinal o inverno amaldiçoado!…
No negro quarto o homem enf’recido
E o cão vacilam ante empedernido,
Vil pedaço de pão – duro e gelado…

Ambos têm fome… torvo – lutulento
Ao pão gelado o miserável corre
E atira-o ao companheiro famulento

Do quarto os cantos a tatear percorre
Erguendo uma garrafa – esgota-a lento
E cambaleia e cai e arqueja e – morre!…

Há duas versões para o incidente da Escola Militar de 1888. O primeiro foi que os alunos do terceiro ano, que não haviam recebido promoção, segundo a lei, para o posto de alferes-alunos, dentre eles, Euclides, organizaram um manifesto aberto diante o Ministro da Guerra do Império, Tomás Coelho, para quando visitasse a escola. A segunda versão conta que os alunos aguardavam para assistir ao desembarque de Lopes Trovão, que voltava da Europa. A questão é que uma visita regulamentar de Tomás Coelho foi marcada no mesmo dia para impedir os alunos de irem ao desembarque. Pois bem, durante o desfile, Euclides saiu da forma, e em vez de levantar seu sabre-baioneta de sargento em saudação, tenta quebrá-lo no joelho, joga-o no chão e profere palavras de protesto. Por isso, é preso, expulso da escola, considerado “doente dos nervos”, e se recusa a mentir no depoimento para aliviar sua pena. É expulso do exército e vai para São Paulo, onde começa a escrever para o jornal ‘A Província de S. Paulo’.

O poema Corpo Aberto aqui http://pedrolago.blogspot.com

A RIR

Eu já não creio mais… sombrio e calmo enfrento
– O lábio ermo da prece; o peito ermo da crença –
A estrela – rubra e imensa
De meu destino atroz, aspérrimo e sangrento!…
E embora sobre mim flamívoma suspensa
Em minh’alma os clarões fatais ela concentre
Eu suporto-lhe bem o flamejante baque
– Altivamente calmo – entricheirando-me entre
Uma canção de Byron
E um cálix de cognac…
– Não há dor que resista ao som de uma risada! —
Depois – se me exacerbo
E tremo e choro erguendo a prece à alma magoada
Mais me dói essa dor, mais esse mal é acerbo!
Assim – eu resolvi, indiferente e frio
Cheio de orgulho e spleen – como um banqueiro inglês!
Sepultar na ironia o pranto meu sombrio…
Por isso quando atroz na triste palidez
De minha fronte paira amarga ideia – eu rio!…
E quando pouco a pouco
Essa ideia me abate e vence-me alterosa
De amargores repleta – eu rio como um louco…
E se ela inda dói mais e forte e tenebrosa
Sói a último idela de minh’alma aniilar
E vencer-me de todo
Então – eu me ergo mais – e desvairando o olhar
– Divinamente doido –
Eu rio, rio muito e rio – até chorar!…

Em 1889, Euclides volta ao Rio de Janeiro e presta exames para a Escola Politécnica. No dia 16 de novembro, chega-lhe a notícia da proclamação da República. No mesmo dia, visita o major Solon Ribeiro, e participa de uma reunião em sua casa. Euclides, enfim, é reintegrado ao exército graças ao apoio do novo Ministro da Guerra, seu antigo mestre, Benjamin Constant. Dois dias depois é promovido a alferes-aluno. Publica em ‘A Província de São Paulo’ uma série de oito crônicas intitulada ‘Atos e Palavras’. Seu trabalho com as crônicas se estende, e Euclides assina mais quatro crônicas no mesmo jornal.

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RIMAS

Ontem – quando soberba escarnecias
Dessa minha paixão – louca – suprema
E no teu lábio essa rosada algema
A minha vida – gélida – prendias…

Eu meditava em loucas utopias
Tentava resolver grave problema…
– Como engastar tu’alma num poema? –
E eu não chorava quando tu rias…

Hoje – que vives desse amor ansioso
E és minha – és minha, extraordinária sorte,
Hoje eu sou triste sendo tão ditoso!…

E tremo e choro – pressentindo – forte
Vibrar – dentro em meu peito, fervoroso
Esse excesso de vida – que é a morte…

Em 1890, Euclides matricula-se na Escola Superior da Guerra, no dia 8 de janeiro, e completa, em 11 de fevereiro, o curso de artilharia. Não demora muito a ser promovido a segundo-tenente e, em seguida, oficial do Batalhão Acadêmico. No dia 10 de setembro do mesmo ano, Euclides casa-se com Ana Ribeiro, ou “Saninha”, filha do major Solon Ribeiro. No ano seguinte, recebe um mês de licença para tratamento de saúde e vai para a Fazenda Trindade, de seu pai, em São Paulo. Quando se prepara para fazer os cursos de Estado-Maior e Engenharia Militar na Escola Superior de Guerra, morre sua primeira filha, Eudóxia, semana depois de seu nascimento.

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OS LEMURES

Ó minha musa – imaculada e santa!
Deixa um momento os sonhos teus benditos
Despe os teus véus de noiva do ideal
Deixa-os, despe-os e canta
Sobre as ruínas trágicas do mal
As almas arruinadas dos malditos!…

Em 1892, Euclides conclui os cursos de Estado-Maior e Engenharia Militar na Escola Superior de Guerra e é promovido a tenente do Estado-Maior. Começa a colaborar com O Estado de São Paulo sob o pseudônimo de José Dávila com crônicas. Em novembro deste ano nasce seu primeiro filho Solon e começa a trabalhar na Estrada de Ferro Central do Brasil no trecho entre São Paulo e Caçapava depois de ter solicitado posto a Floriano Peixoto. Em dezembro do ano seguinte, 1893, durante a Revolta da Armada, Euclides é designado a servir provisoriamente na Diretoria de Obras Militares para dirigir a construção de trincheiras no Morro da Saúde, no Rio de Janeiro.

Pedro Lage em https://cartilhadepoesia.wordpress.com

ESTANCIAS

Les beaux yeux sauvent beaux vers!…
V. Hugo

Meu pobre coração tão cedo aniquilado
Na ardência das paixões – ó pálida criança –
Revive à doce luz do teu olhar magoado

E cheio de ilusões, de crenças e esperança
Faz o castelo ideal das louras utopias
– Com os brilhos desse olhar e o ouro de tua trança! –

Quando sobre as sombrias
Ondas – vasto luar esplêndido se espalma
De todo o seu negror, arranca as ardentias

De teu olhos assim à luz divina e calma
Dimanam – cintilando – as ilusões e os versos
Das sombras de minh’alma…

E sonho e canto e rio e me deslumbro… imersos
– No místico luar que sobre mim derramas –
Fulguram como sóis meus ideais dispersos!…

Fulguram como sóis – entre sonoras flamas –
Partindo no meu peito a tétrica penumbra
E o silêncio fatal de dolorosos dramas…

E tudo hoje antes tem luz, tem voz – deslumbra –
Pois – tal como um ideal – uma canção ressumbra –
E em cada uma canção – o teu olhar cintila…

Em 1894, Euclides publica um polêmico artigo na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, replicando o modo punitivo sugerido para a execução dos prisioneiros pelo senador florianista João Cordeiro, do Ceará, durante a revolta da Armada. Os protestos, porém, surtiram efeito contrário e houve desconfiança dos militares que o afastaram, pouco a pouco do campo da ação. Floriano Peixoto e outros jacobinos não o apoiam mais. Ao fim da revolta, é transferido par Campanha, em Minas Gerais, para a reforma do prédio da Santa Casa de Misericórdia. Este período é marcado por estudos. No dia 18 de julho do mesmo ano, nasce seu segundo filho, Euclides, o Quindinho.

A lua em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

D. QUIXOTE

Assim à aldeia volta o da triste figura
Ao tardo caminhar do Rocinante lento;
No arcabouço dobrado um grande desalento,
No entristecido olhar uns laivos de loucura.

Sonhos, a glória, o amor, a alcantilada altura,
Do ideal e da fé, tudo isto num momento,
A rolar, a rolar, num desmoronamento,
Entre risos boçais do bacharel e o cura.

Mas certo, ó D. Quixote, ainda foi clemente,
Contigo a sorte ao pôr neste teu cérebro oco,
O brilho da ilusão do espírito doente;

Porque há cousa pior: é o ir-se pouco a pouco
Perdendo qual perdeste um ideal ardente
E ardentes ilusões e não se ficar louco.

Em 1896, Euclides, já reformado do exército, retorna a São Paulo, onde é nomeado engenheito-ajudante de primeira classe da Superintendência de Obras Públicas do Estado de São Paulo. Neste momento, estreita laços de amizade com Gonzaga de Campos, Teodoro Sampaio e Bueno Andrade. Visita várias cidades do interior paulista, e sobretudo, São José do Rio Pardo. Em novembro deste ano, irrompe o movimento de Canudos.

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PÁGINA VAZIA

Quem volta da região assustadora
De onde eu venho, revendo inda na mente
Muitas cenas do drama comovente
Da Guerra despiedada e aterradora,

Certo não pode ter uma sonora
Estrofe, ou canto ou ditirambo ardente,
Que, possa figurar dignamente
Em vosso Álbum gentil, minha Senhora.

E quando, com fidalga gentileza
Cedestes-me esta página, a nobreza
Da vossa alma iludiu-vos, não previstes

Que quem mais tarde nesta folha lesse
Perguntaria: “Que autor é esse
De uns versos tão mal feitos e tão triste”?!

Em 1897, Euclides publica “Distribuição dos Vegetais no Estado de São Paulo” em O Estado de São Paulo no mês de julho. No mesmo mês, saem a primeira e a segunda parte do primeiro ensaio sobre a guerra de Canudos, “A Nossa Vendéia”. A convite de Júlio Mesquita, proprietário d’O Estado de São Paulo, Euclides aceita realizar reportagem sobre a guerra de Canudos, agregando-se à comitiva militar do Ministro da Guerra, Marechal Bittencourt. Parte de navio para Salvador e passa 23 dias na casa de seu tio, observando os acontecimentos pelos jornais e enviando artigos para São Paulo.

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NESTES TRES DIAS ESPLENDIDOS

Neste três dias esplêndidos
Em que o Prazer tudo arrasa
Desde o cristão ao ateu,
Quem se sente neurastênico
Faz como eu,
Fica em casa.

No dia 30 de agosto de 1897, Euclides deixa o Rio de Janeiro para iniciar a grande jornada pelo sertão baiano: Alagoinhas, Queimadas e Monte Santo, onde chega no dia 6 de setembro e de onde parte no dia 13, para chegar a Canudos no dia 16. Ali escreve as primeiras notas de Os Sertões. Terminada a guerra, parte para o arraial logo em seguida, para depois de dias no local, voltar ao Rio de Janeiro. No início de 1898, assume seu cargo na Superintendência de Obras Públicas de São Paulo. Em janeiro aparecem os primeiros textos públicos de Os Sertões n’O Estado de São Paulo.

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NOTA PROSAICA

Sábio… o título diz que a fantasia
do Juvenal mineiro é vasta; fá-lo
ver em mim a quem só em nome igualo:
o venerando avô da geometria…

Desculpo-o. Quem com tanta galhardia
ergue uma fronte branca feita em halo,
ou nimbo, que nos leva a venerá-lo,
tem jus à mais perfeita cortesia.

Que passe, pois, o sábio; e que os tercetos
(versos de prosador que os faz tão mancos)
Acabem o mais feio dos sonetos,

num cumprimento e nos aplausos francos
de uma velhice de cabelos pretos
à mocidade de cabelos brancos!

Em 1899, em São José do Rio Pardo, Euclides tem o auxílio de Francisco Escobar, um amigo, que disponibiliza sua biblioteca para consulta enquanto Euclides faz crescer o texto de Os Sertões. Nesta época publica o artigo “A Guerra no Sertão” na Revista Brazileira. Em maio de 1900, pede a José Augusto Pereira Pimenta, cabo do destacamento local, para passar a limpo o manuscrito de Os Sertões. Publica o artigo “As Secas do Norte” no Estado de São Paulo. Seu grande livro estaria muito próximo de sair, porém, enfrentaria alguns percalços.

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LE?… NÃO LE. AQUELE AR NÃO É POR CERTO

Lê?… Não lê. Aquele ar não é por certo
De quem medita. É o ar de quem atrai.
E se qualquer de nós, naquelas praias,
Aparecesse, quedaria incerto.

Sem saber distinguir quem mais nos trai
– Entre a insídia de uma onda ou de um afago
Se o velho mar misterioso e vago,
Ou esse abismo de roupão e saia!

Em 1901, nasce, em São José do Rio Pardo, seu terceiro filho, Manuel Afonso. Em dezembro deste ano, após passar um período no interior de São Paulo, Euclides segue para o Rio de Janeiro, com os originais de Os Sertões. É encaminhado para a Livraria Laemmert cujo editor não se interessa pela obra. Euclides então resolve custear parcialmente a primeira edição do livro, pela qual paga um conto e quinhentos mil-réis. Em janeiro de 1902, recebe as primeiras provas do livro. Nos primeiros dias de dezembro deste ano, Euclides recebe carta da editora saudando-o pelo sucesso do livro. A primeira edição esgotara em poucas semanas. O livro fora bem recebido pelos críticos da época, Araripe Júnior, José Veríssimo e Sílvio Romero.

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SE ACASO UMA ALMA SE FOTOGRAFASSE

Se acaso uma alma se fotografasse
De modo que nos mesmos negativos
A mesma luz pusesse em traços vivos
O nosso coração e a nossa face;

E os nossos ideais, e os mais cativos
De nossos sonhos… Se a emoção que nasce
Em nós, também nas chapas se gravasse
Mesmo em ligeiros traços fugitivos.

Poeta! tu terias com certeza
A mais completa e insólita surpresa
Notando, deste grupo bem no meio,

Que o mais belo, o mais forte e o mais ardente
Destes sujeitos, é precisamente
O mais triste, o mais pálido e o mais feio…

No dia 9 de junho de 1903, Euclides lança a segunda parte de Os Sertões. Uma crise orçamentária motivada pela crise do café fez com que o Governo cortasse verbas destinadas à construção e melhoramentos de obras públicas, e por isso, Euclides deixa o posto, obrigado. Porém, no dia 21 de setembro, Euclides é eleito por uma margem de 41 votos, membro da Academia Brasileira de Letras, na cadeira de Valentim Magalhãe, cujo patrono é Castro Alves.

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DESPEDIDA

No momento cruel da despedida,
Gelado o lábio, mudo, hirto, sem ar,
Eu vi sua alma, de ilusões despida,
Tremer à luz de seu tão triste olhar.

E eu não chorei… Seu peito – a alva guarida
De minha alma – chorava em doudo arfar…
E eu não chorei, mas eu senti a vida
Das lágrimas ao peso se curvar!…

Saí, andei, corri, parei cansado.
Voltei-me e longe, longe eu vi asinha
– Garça de amor fugindo pr’a o passado

Branca, pura, ideal, – sua casinha –
E as lágrimas de amor deixei – domado –
Constelarem da dor a noite minha!

Em janeiro de 1904, Euclides é nomeado engenheiro-fiscal da Comissão de Saneamento de Santos, porém, após três meses, por causa de um desentendimento com o gerente da City of Santos Improvements, Hugh Stenhouse, e com Eugênio Lefreve, diretor da Secretária de Obras Públicas, pede demissão. Na falta de dinheiro, volta a escrever para O Estado de São Paulo. Logo depois, Euclides, por indicação, é nomeado chefe de Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus, que estabeleceria a fixação limítrofe entre Brasil e Peru. Nesta oportunidade, conhece o Barão do Rio Branco.

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A CRUZ DA ESTRADA

Ah! que de vezes quando no ar desfila
A treva, e as sombras a amplidão negrejam
E das estrelas que no céu palejam,
O vasto poema aos pés de Deus cintila.

E mil perfumes as campinas pejam
E da floresta o coração destila
Um vago som que em nosso ser instila,
Gerando sonhos que em noss’alma adejam.

Quando há na terra uma magia imensa
Eu – que não tenho a vida d’alma – a crença
Nem uma prece que divina sagre-ma.

Eu (oh! dizei-me o que a solidão exprime!)
Eu rezo um nome – Minha mãe! – sublime
E me ergo a Deus nos brilhos de uma lágrima.

Em 1905, Euclides parte para Manaus para o Purus. Lá contrai forte impaludismo. Em julho deste ano ocorre o banquete de Curanja, em homenagem à duas comissões, onde Euclides discursa lamentando a ausência da bandeira brasileira. Em 1906, volta ao Rio de Janeiro e torna-se adido do Barão do Rio Branco. Publica o artigo “Entre os Seringais” e o “Relatório da Comissão Mista Brasileiro-Peruana de Reconhecimento do Alto Purus. Em julho, nasce quarto filho, Mauro, da esposa com Dilermando de Assis. A criança veio a falecer uma semana depois do nascimento. Em dezembro, toma posse na Academia Brasileira de Letras tendo sido recebido por Sílvio Romero.

Tatu com Tabasco em http://equivocos-pedrolago.blogspo.com

AMOR ALGÉBRICO

Acabo de estudar – da ciência fria e vã
O gelo, o gelo atroz – me gela ainda a mente
Acabo de arrancar a fronte minha ardente
Das páginas cruéis de um livro de Bertrand.

Bem triste e bem cruel de certo foi o ente
Que este Saara atroz – sem auras, sem manhã
A Álgebra criou – a mente a alma mais sã
Nele vacila e cai sem um sonho virente…

Acabo de estudar e pálido, cansado
Dumas dez equações os véus hei arrancado…
Estou cheio de spleen, cheio de tédio e giz

É tempo, é tempo pois de trêmulo ansioso
Ir dela descansar no seio venturoso
E achar de seu olhar o luminoso X!…

Euclides passa todo o ano de 1907 sem cargo fixo, aborrecido, mantendo-se de favores. Em novembro, nasce quinto filho, Luís, de sua esposa com Dilermando. Sua tuberculose volta a se manifestar. Em dezembro presta conferência sobre Castro Alves. Em maio de 1909, presta concurso para a cadeira de Lógica no Ginásio Nacional, onde hoje é o Colégio Pedro II. Fica em segundo lugar, atrás de Farias Brito, porém, Euclides renuncia meses depois.

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MEU POBRE CORAÇÃO TÃO CEDO ANIQUILADO

Meu pobre coração tão cedo aniquilado
Na ardência das paixões, ó pálida criança,
Revive à doce luz do teu olhar magoado;

E cheio de ilusões, de crenças e esperança,
Faz o castelo ideal das loiras utopias
Com a luz do teu olhar e o ouro de tua trança.

Quando pelas sombrias
Ondas do oceano o luar vastíssimo se espalma,
De todo o seu negror desprende as ardentias.

De teus olhos, assim, à luz divina e calma,
Dimanam, fulgurando, as ilusões e os versos
Das sombras da minha alma…

Euclides chega a dar dez aulas na cátedra de Lógica do Ginásio Nacional quando é morto tragicamente com quatro tiros por Dilermando de Assis, amante de sua esposa, na casa número 214 da Estrada Real de Santa Cruz, estação da Piedade, hoje, Quintino Bocaiúva, subúrbio do Rio de Janeiro. Seu enterro foi realizado no cemitério São João Batista, recebendo sua sepultura o número 3.026. Nesta época, Euclides morava em Copacabana. Deixou uma resenha incompleta sobre o Barão Homem de Melo e de Francisco Homem de Melo. Seus restos mortais se encontram em São José do Rio Pardo, São Paulo, e em Cantagalo, Rio de Janeiro. Ficamos por aqui, até a próxima, beijo grande.

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VOLTA À ALDEIA

E assim à aldeia torna el da triste figura.
Acabrunhado e triste, exangue e macilento
Na acorvada postura – em torno desalento
No desvairado olhar – um laivo de loucura.

Dias de Glória! Ideais! A alcantilada altura
De um sonho! Nada mais resta de tal intento.
Essa nossa carcaça vil – o Rocinante lento
E amigos carnais – o bacharel e o cura…

Feliz Herói! Que importa o riso mau das gentes
Se ele não sói entrar dentro de um crânio oco
Repleto das visões dos cérebros doentes…

Há uma coisa pior que é ir-se a pouco a pouco
Perdendo qual perdeste – ideais grandes e ardentes
E ardentes ilusões – e não ficar-se louco!

1 comentário

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Pedro Lage

Antônio Pedro Marinho Lage nasceu no dia 7 de março de 1952, no bairro de Botafogo no Rio de Janeiro. Começou o jardim da infância no colégio Santa Rosa de Lima, em Botafogo, vizinho de muro da casa de seu avô, onde passou parte de sua infância. Sua avó materna era grande leitora de Proust, Tolstoi e Machado de Assim, e foi quem o introduziu na leitura ainda na tenra infância. Neste mês, passaremos pela poesia do poeta Pedro Lage.

Turvo turvo turva aqui http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

BATEFORTE

as palavras, como usar?
como ousar dizê-las ternas
no sopro dos meus lábios untados aos teus?
trêmulas, não convencerão:
soarão desculpas, parecerão ridículas,
perecerão em teus olhos noturnos.
teu riso franco as dispersará,
tufão incrédulo sobre a cidade.
as frases cairão imprecisas,
na fuga das águas de um rio,
perdidas no mar.
prefiro o gosto úmido silêncio:
o sentimento, morena,
palavra alguma jamais pode alcançar.

Boa semana!
🙂

Foi sua avó quem o introduziu na literatura. Conhecia Paschoal Carlos Magno, poeta, dramaturgo e crítico de teatro. Sua avó o apresentou também ao poeta Manuel Bandeira, numa feira de livros na Cinelândia quando tinha seus dez anos. Pedro, nesta ocasião, perguntou ao poeta: “O senhor foi mesmo para Pasárgada?” Lugar mítico que se tornaria real, quando, aos vinte e cinco anos, Pedro visitaria, Pasárgada, a real, próxima a Isphahan, no Irã, numa viagem pela Eurásia, mas isso, é depois.

Elegia a José de Alencar Adnet Filho em http://pedrolago.blogspot.com

RESÍDUO

a Ruthinha

trago comigo a saudade levo
loura carrego seu peso meço
jamais me esqueço do meu amor
seus traços de sol escuros
roubam o clarão da Lua
na tela da noite fulva
fulmina bate depressa
escravo – meu coração!

Seu avô se chamava José. Era industrial de café. Sua avó, Olga. Seus pai se chamavam Antônio e Carmen, que, além de Pedro, tiveram, Toninho, Olga e Nena, essas duas, mais velhas. Toninho, aos seis anos, prematuramente, faleceu de câncer, e assim, a via seguiu com três irmãos. A casa dos avós era grande, ficava na Voluntários da Pátria, e lá, Pedro, gostava de descobrir esconderijos. Brincava também com suas primas, Mônica, que adorava cantar marchinhas, e Susie. Pedro gostava de jogar bola com o pai e no colégio Santo Inácio, e não tardaria a descobrir uma de suas grandes paixões, o Botafogo.

Paulo Mendes Campos aqui https://cartilhadepoesia.wordpress.com

COZINHA

ao Charles

no hospital há uma sala trancada
proibida a entrada
o brinquedo ali dentro custou ao governo
mais de seis milhões
os doentes não podem ousar o rim eletrônico;

enquanto isso, falta sonda na enfermaria sete
o velhinho, todo nu, agarra-se
às grades da cama, tonto, com medo do
tombo.

Pedro Lage tinha uma madrinha que se chamava “Tia Mary”. Era botafoguense. Levou-o para ver a final do carioca de 57. Botafogo e Fluminense, com direito a Mané Garrincha. Seis a dois para o Botafogo. Dalí em diante, Pedro Lage se tornou alvinegro. Frequentou o Maracanã até 71, quando, viu o Botafogo perder para o mesmo Fluminense “com gol roubado de Lula aos 44 do segundo tempo”. O futebol ficou apenas no colégio Santo Inácio.

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ARREBATE D’AMOR
ao Cacaso

permito-me arremeto fronde
enfrento a fonte de tuas águas
bebo seus sucos
nas narinas teus vapores
fluidos fardos deste amor
maior que todos os amores.

Pedro Lage terminou o segundo grau no Colégio Santo Inácio, onde, em 1970, lidera o motim estudantil da turma de medicina do terceiro ano colegial, em que treze dos trinta e cinco estudantes trocaram o curso pelo Miguel Couto. No Santo Inácio conheceu o poeta Luiz Olavo Fontes, o músico Arnaldo Brandão, o jornalista José Castello, o filósofo Guy van de Beuque, Gustavo Schnor, Antônio Luiz Salgado, Manoel Correia do Lago, e seu grande amigo Antônio Quinet. Naquele tempo, as meninas estudavam no Sion, e as festas de fim de semana, no Clube do Botafogo e no Olímpico, era o que se poderia fazer para encontrá-las.

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ESQUINA

manhã, sol forte, a prática é o critério da verdade
nasce a noite, vai-se a vida rebolando pr’outra parte
nem vale a pena pensar sem malícia e agilidade
tudo pode acontecer? não, tudo irá.
olhos abertos, mãos ávidas agarram-se ao mundo:
o amor e seus cabelos, as ilusões, o coração aprisionado.
o medo existe para ser vencido.
olhar as crianças e aprender o que não foi ensinado.
ensinar? sim… mas, quando?
E saber que, mais cedo ou mais tarde,
nem tudo vai dar errado.

Embora já tivesse aparecido como poeta em recitais/performances em 1972, Pedro Lage publicou seu primeiro livro, ‘Vai que vai’, em 1976. Com ilustrações de Anamaria Caravalho, o livro foi lançado na Oficina de Artes do prof. Hélio Rodrigues. Nesta época, Pedro frequentava o Pedro Lage, onde conheceu muita gente, teve aulas de cinema com Sérgio Santeiro e fez pequenos filmes de animação e aprendeu a discutir todo tipo de assunto. Tempo de formação.

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DESVENTURA

a Manuel Bandeira

janela aberta em meu quarto
brilha a luz de outra noite
eu não compreendo
tento olhar através de seus olhos
descobrir o que se passa
uma estrela, talvez, um amigo,
ou apenas o céu, o mistério infinito . . .

queria encontrar Juquinha sorrindo pra mim
deixar a tristeza de lado, queria voar…
mas a janela é bem alta e, assim, permaneço
com as costas cravadas na palha dura do catre.
somente uma luz me penetra: a luz fria de outra noite
que bebe tranqüilamente mais um pedaço de minha paixão.

Pedro chegou a frequentar a efervescência do Pier de Ipanema. Ficava perto da Laura Alvim. Porém, o lugar onde Pedro, de fato, estendeu sua gama de relações foi no Sol Ipanema. Na época em que publicou seu primeiro livro, Pedro frequentava a casa do Cacaso, onde se reunia uma rapaziada “da pesada”: Charles, Lui, Bia Carneiro, Massoca Fontes, Tony Lins, Chico Alvim e muitos outros. Nesta mesma época saiu a coletânea ’26 poetas hoje’, de Heloisa Buarque de Holanda, que Pedro veio a conhecer meses depois em São Paulo num evento de poesia no Theatro Municipal.

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ENQUANTO TERESA DORME

nasce a estrela fugitiva de outros universos
anunciando o final dos tempos
toca um cambalache doido, explode a guerra
passa a carruagem azul repleta de foragidos
e os corações das ruas estremecem em bombain
sentados na galáxia estrema
dois homens mortos conversam sobre a vida
um incêndio intenso toma conta do pensamento
do mundo, o nada se transforma em cor
as praias de mindano acordam com o maremoto
e as criancinhas fogem apavoradas
o reino do krenkrokren prepara-se para a sesta
um padre vira morcego
a faca mais-que-prateada cruza o espaço exterior
e vai cravar-se no peito da ursa-menor

em passadena os cientistas constroem a centopéia atômica
que irá sondar as rugas dos anéis de saturno
e uma animada partida de hóquei sobre patins
tem lugar nos pátios das escolas de pequim
um pingue-pongue de raios espouca por todos
os lados e as nove escolas-de-samba invadem
de uma só vez todas as avenidas
a lua desfalece sôfrega neste céu americano
e ruma para o japão, enquanto o sol,
vindo de angola, surge e ilumina

é quando teresa acorda,
estremunha quentinha na cama e, tranquila,
caminha nas areias de ipanema
pensando no amor que lhe apressa o coração.

Em 1976, Pedro Lage vai para São Paulo com um grupo de poetas para se apresentar no Theatro Municipal. Tratava-se do Encontro de Arte e Poesia. Nesta época, Pedro já se apresentava com a Nuvem Cigana. O clima não estava muito amigável. Chacal, Xico Chaves, Tavinho Paes, Charles Peixoto. No meio de uma vaia que acontecia, em virtude de um pedido de “um minuto de barulho” do Xico Chaves, Tavinho Paes entrou no palco e mijou. Logo depois, Pedro, entrou com Charles e cada um disse um poema. Em meio às vaias, alguns aplausos.

No calor da hora http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

ÀS CAGARRAS

Hoje, o dia anda cinza e chuvoso.
Não a esperei para o almoço, aliás, nada comi.
O Rio, cidade outrora maravilhosa, chora,
perseguido por fantasmas e temporais.
Já quase nem posso escrever-lhe,
nada lhe posso adiantar além de minha loucura.
Minha mão rouca dispara palavras que nada dizem.
A vida, impassível, se ausenta, e apenas o frio
desta noite sensata me entristece demais.
O tempo escorre, macio, implacável,
envolto em seu manto de quasar…
Não sei como isto vai terminar, continuo aflito.
E, ainda, por cima de tudo,
a inconstância do céu a massacrar
minhas tênues ilusões.
Ficarei por aqui,
posso vê-las do Leme ao Leblon.
O oceano imenso,
meus passos pequenos,
adeus.

Em dezembro de 1976, Pedro parte com seu amigo Lui Fontes para a Ásia. Ficou dois anos fora. Passou pela Itália, Turquia, Irã, Afeganistão, Paquistão. Ficou um ano na Índia, passando pelo Nepal, Ceilão, Cingapura, Birmânia, Tilâdia, Marrocos até voltar pela Europa. Voltou no final do ano de 1978. Esta viagem lhe renderia um livro, mas que não seria publicado imediatamente, antes, em 1981, Pedro publica De Mão em Mão.

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COMEÇO

em pompéia meus olhos desertos
e colunas empinadas como a piroca dos vetti
que custa mille lire apreciar,
as turrbinas do jato monstruoso ainda roncavam
na memória de meus ouvidos apavorados,

– saudades não havia –

e os dias foram-se perdendo pelas fontanas,
pelas vias – del corso superiore, veneto, grimaldi,
e amalfi, siracura, agrigento, cidades
e mais cidades,
até dar, assim por acaso, com os labirintos
de ortygia, onde as nuvens,
refletidas nos espelhos das ruelas submarinas,
se parecem com cabelos,

gaivotas exímias em vôos incríveis sobre
o mar – um chicote –
e a falta de ar vinha também na tarde pura,
hotel garda, via lombardia,
(- que deus te perdõe, meu filho, e te guie,
por esta tua louca aventura!)

viagem pela Europa, Oriente Médio e Índia é cercada de causos e profundas impressões. Lá, Pedro viu muitos mendigos no Irã, aviões de guerra voando baixo pelas praias ao norte do estreito de Ormuz, a repressão da polícia nos carregadores de sacos de arroz ou trigo, os inúmeros shopping-centers de Cingapura e seu horror ao comunismo, o templo de Madurai no sul da Índia, chá de cadeira na entrada do Afeganistão, os space cakes em Kabul, os ônibus kamikases do Paquistão e um jardim coberto de cerejas, cinquenta graus de Lahore, o estranho eclipse de Katmandu, a sensação de estar num planeta distante, a suiça Maya e a impressão de que tudo fora um sonho.

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CARTA

um detalhe,
um canto mais amargo de seu riso
sob a lua da cidade,
palavras sugeridas num sarro dos ombros
enquanto as sombras da noite nos ultrapassavam,

de pouco me recordo, as imagens se apagam,
mesmo a sua ao telefone, indiferente
à partida, ao nosso desejo, ao corte de tudo,
– triste representação!

até logo, uma cerveja, um baseado,
dois, três, cinco cigarros e a parede suja
do quarto quando nada mais parece adiantar,
os ridículos milhares de quilômetros,
este inverno turco,
os pulmões encardidos,
este beco sem saída,
e você?

Quando voltou da Ásia, Pedro foi morar em Santa Tereza, do fim de 79 até 80. Porém, pouco tempo depois, foi morar em Botafogo com Martha da Costa Ribeiro. Permaneceu neste endereço até separar-se, um ano depois. Em 81 publicou o livro De Mão em Mão e foi morar na Rua Icatu, onde, em diferentes meses, dividiu o aparamento com Chacal e com Ledusha. No verão de 81/82, Pedro começa uma experiência com o pessoal do Rajnesh e com o grupo que iniciava o Circo Voador. Pedro ajudou a fundar o Circo, ajudando o Perfeito Fortuna a levantar fundos e até mesmo carregando cadeiras.

Aqueles olhos azuis http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

ABISMO

deste abraço
ao avanço da estrela mais íngreme
– apenas um passo,

os lugares menos reconhecíveis,
as lembranças mais frouxas
e uma voz rouca
fecham sobre mim seus lábios de tempestade
no pálio pálido da madrugada,

é tarde,
te amo

Em 1981, Pedro começa a frequentar as oficinas de teatro do Amir Haddad. Lá conhece Rosa, Sérgio Luz, Aninha Cretton e muitos outros. No meio disso, havia as peladas do Caxinguelê. Lá se reuniam o Vinicius Cantuária, Rodrix, Guabira, Novelli, Didito, Lula Lindeberg, Maurício Maestro. Chacal às vezes jogava. De 79 a 83, foram mais ou menos umas duzentas peladas. Era uma confraternização muito importante, eram encontros. Muitos artistas, sobretudo músicos. Nesta época, Pedro já havia passado por uma experiência na FACHA fazendo Comunicação, porém, não se encaixou. Escolheu a Odontologia como profissão.

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FUTUROS AMANTES

..e quem sabe, então, o Rio será
alguma cidade submersa…
Chico Buarque

Um dia, porém,
quando não mais houver, talvez, nem noites nem dias,
e do Rio restar somente, dissipada a atmosfera,
um indício, uma marca deixada nas pedras,
nas veias calcinadas do planeta;
quando viajantes remotos do Universo
por acaso aqui chegarem
e resolverem buscar algum signo sobrevivente
da história morta desse pequeno mundo,
encontrarão rabiscado no espaço azul do teu quarto,
perdido pelas cinzas da cidade,
um retrato – apenas um traço: a imagem fóssil
do amor inscrito por aquele que viveu louco por ti,
(e vive ainda, na imatéria de outros mundos)
e os amantes siderais, com esse traço,
se lembrarão do que é preciso,
aprenderão que nunca é tarde,
e hão de amar-se assim, perdidamente,
por toda a eternidade.

Pedro se tornou dentista. E por isso, tinha um conflito social: Não conseguia cruzar seus amigos artistas com seus amigos dentistas. Pedro costuma dizer que “Odonto tem um pouco a ver com artes plásticas, com poesia tem muito pouco,embora eu até tenha feito umas ligações, mas, não tenho muito saco pra explorar este filão. Não acho interessante ficar poetizando a “curva de spix” ou a “curva de Wilson”, ou as “polarizações axiais das cúspides de trabalho”. Por ironia, Pedro veio a se tornar o dentista de muitos do pessoal das artes. Sorriso total.

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VER DE TI

ver te quero – imenso trecho de desejo
suores trêmulos
penso, não vejo
te quero dentro
ver-te aqui – névoa sobre mim.
acordar – sair do sonho trágico
o ancorar mágico do dia
trapézio de vidro sobre o fio
da cidade.
de madrugada, os animais morrem
em silêncio, à beira do rio.

manhã fria – o outro lado do verso te espera
morceguiando a esfera sombria
figuras funestas fecham o círculo de ferro
sempre elas, na terra e no céu
casamatas na vista acirrada do artista
salto sobre o nada –
sem a bruma, pela brecha,
com seus peitos de mãe-musa,
cuida de ti em seu leito
e te mata.
de madrugada, os animais morrem
em silêncio, à beira da estrada.

Quando voltou do Marrocos, Pedro foi assistir ‘Trate-me Leão’ montado pelo Asdrúbal Trouxe o Trombone no Morro da Urca. Lá, reencontra com Charles Peixoto e Chacal, da Nuvem Cigana, Perfeito Fortuna e Evandro. Foi morar novamente em Santa Teresa. Nesta época conhece o Milton Machado e Malena Barreto. Também participa da reuniões na casa do Cacaso, onde conhece o Chico Alvim. Inicia uma amizade com Ana Cristina Cesar. Também nesta época houve um recital de poesia na Álvaro Ramos organizado pela Ana e sua prima Grazinska onde foram a Nuvem Cigana e o Ferreira Gullar.

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DUAS FACES

a noite vazia, a noite nua,
um palmo de lua, a noite completa,
sereia lânguida a meio luar,
jogo de sombras, céu a reinar…
mas já o dia mostra suas garras líquidas,
– suas guerras íntimas:
o lado mais louco do despertar,
penhascos a que me aferro – o perigo!
nado bem pouco,
não me afogar é o que persigo,
não me perder nos negros rios do azar,
à revelia da lua, da noite do eterno mar –
o príncipe mar, o rei mar, a deusa mar – amar!

A experiência com o Tá na Rua é do início dos anos 80. Pedro frequentava as oficinas do Amir Haddad. Formou-se um grupo que logo levou o nome de “Instituto”. Em 83, Pedro foi morar no Jardim Botânico. No Tá na Rua, Pedro conhece Rosa Douat e Sérgio Luz, que viriam a ser seus grandes amigos para a vida toda. Era teatro de rua aos domingos, oficinas na casa do estudante às segundas e reuniões nas manhãs de terça e quinta com o grupo que não era o titular do Tá na Rua. A experiência culminou na montagem de “Morrer pela Pátria” no Teatro Villa Lobos em 1985.

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SILENCIO, O SILENCIO, SILENCIO

ouve vozes, se assusta, o meu silêncio.
arrojam-se vozes das torres do dia quente,
o silêncio noturno da alma desprega-se,
abandona o frescor cristalino,
transpira, se alarma, ajeita o nó da bravata,
abre seus grandes olhos insones –
brilhantes olhos, eloquentes de silêncio.
o silêncio vazio da alma estilhaça-se
na lama do dia e sorri respingando de preces,
as vozes, os sonhos, o começo e o fim da condição
humana, não humana, humana.
para onde vai o silêncio no isolamento dos passos
pelo vento áspero da tarde?
quem passa não sabe: ele arde, longe das horas,
das rodas pensantes da horda,
a flor do silêncio sorri tranquilamente
entre a última morte e o próximo encontro
(ou pensamento)
o silêncio se nutre na floresta do deus-mar,
ondulante senhor dos segredos, irmão do tempo sem dono,
o silêncio fio de espada – sem adeus, sem amor, sem engano,
o silêncio apenas, mais nada – amante das ondas-fantasmas:
o Cosmos é a sua morada.

Em 1983, Pedro conhece Juliana Prado Teixeira no Tá na Rua. Não demoraria muito para ficarem juntos, se casarem e terem seu primeiro filho, Manoel. São vinte e oito anos juntos. Viravolta foi publicado em 1985, livro que conta toda a experiência da viagem à Europa e Ásia com seu amigo Luis Olavo Fontes. Poemas e um pouco de prosa. Pedro neste época morava no Jardim Botânico com Juiana e o pequeno Manoel. Permance lá até 1992, quando se muda para Teresópolis.

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TEORIA

Poder simplesmente esquecer-te
no instante em que partíssemos
e amar-te com extrema ternura
assim que nos reencontrássemos

Fazer amor aventura como se
nunca de amar nos deixássemos

(um beija flor vem beber
preso a seu vôo de átomo
as gotas-diamantes que explodem
na límpida cachoeira do parque

nego beija-flor na tarde cintila
imerso no perfume das pedras lavadas
com o sêmen da montanha viva)

Há alguns bons anos, Pedro Lage é responsável por um recital de poesia que se chama ‘Conversa Portátil’ em homenagem a um livro do poeta Murilo Mendes. Começou em Teresópolis, no Bar Cottage. Juliana fazia esquetes teatrais todo sábado a noite com Airton Rebelo chamados Teatro a Vapor. Pedro começava com dez minutos falando poemas. O primeiro poeta era Augusto dos Anjos. Já estamos no ano de 1994. Depois Pedro encontra com Henrique Cukierman no ônibus voltando para o Rio e o convidou para participar. Henrique permaneceu no recital por dez anos. Sempre homenageando um poeta com convidados. Jorge de Lima, Murilo Mendes, Maiakovski, Brecht, Lorca e outros tantos. Muitos passaram pelo ‘Conversa Portátil’, muitos, ali, inclusive, recitaram pela primeira vez em público.

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O FINAL

Aí, ela teve que me deixar.
Contra a vontade e tudo o mais.
Amor possuía mas tudo tem um limite,
chega uma hora em que não dá mais, aliás,
elas sempre acabaram me deixando, um dia,
desde às primeiras lembranças.

Laura me largou no meio de uma sessão de cinema;
Rita perdeu-se na Serra, (fui atrás dela,
sofri, dormi ao relento, o diabo);
Dora deixou-me com as calças dependuradas na noite,
fazia frio, vaguei horas na escuridão;
Elizete partiu de repente, nem um bilhete, nada;
Eugênia espetou-me um postal na cortina do quarto;
Mary, uma foto antiga, muita saudade;
Luiza me abandonou de uma maneira radical,
torto, irrecuperável quase.

Ela também me deixou, ora, por que não haveria?

O lançamento de Entrevista com o Chipanzé foi em um bar GLS na Rainha Elizabeth em 1996. Houve um recital com direito a uma pequena banda formada por Gil de Windsor, George Clark e Chico Lá. Depois o lançamento foi no Museu da República até chegar em Teresópolis. Pedro já com dois filhos, Manoel e Nicolau, ambos, fruto do casamento com Juliana. A Conversa Portátil já bem estabelecida e a poesia caminhando bem.

Tradução de Le Bateau Ivre no http://pedrolago.blogspot.com

DO AMOR

A poesia se escreve no silêncio de um quarto vazio
– um parque vazio de estrelas espelhos e sombras,
gruta de beijos-cascatas e sabiás brejeiros que por
ali não passam, mas despejam seu aroma, seu sabor
em algum canto do Universo – e um bilhete na mão.

A poesia se inscreve num olhar de mulher nesse quarto,
a mesma noite de frio – ou no calor de um verão invencível
em que o poeta não se derreta jamais em si mesmo…

A poesia eu não escrevo, eu muito,
o manto desta verdade arde em meus olhos vivos,
tuas lágrimas sem conta, o luar mais triste sobre a canção
feita pra ti, por mim, por todos nós que somos um – e teu,
pra sempre teu.

‘Cal do Cosmos’ foi publicado em 2004. Após quase dez anos sem publicar, Pedro, então com 59 anos, voltaria. Ao longo desse período, desenvolvendo a ‘Conversa Portátil’, percorreu todos os lugares onde ainda se diz poesia no Rio de Janeiro. Passaria também outro hiato de sete anos até seu último livro ‘Dicionário de Estrelas’, lançado na Casa de Cultura Laura Alvim, em 2011. Este, reunindo seus 35 anos de poesia, com seleção de poemas de seus livros e uma penca de inéditos.

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SABER QUE TE AMO

à minha Juju

Saber que te amo – apenas um prisma
da verdade que nos recorta
com sua alameda de abismos,
sua força de vida, seu desespero
de um dia ter de renunciar a esse tesouro.

Saber que te amo –
pôr-do-sol e aurora concorrentes,
um dia recoberto por farinha de estrelas,
neve crepitante de encontros e solidões
sem limite.

Saber que te amo –
entrego-me a este aprisco e me preparo
para a morte deliciosa dos corações que deliram
imersos na certeza de ter somente um amor
verdadeiro.

Saber que temo – que te amo assim,
infinitamente,
por inteiro.

Então, Pedro Lage torna-se avô pela primeira vez. Francisco, ou Chiquinho. E disse que a poesia ficou em suspenso quando ele veio, tamanha era a satisfação, mas, logo depois, voltou aos trabalhos que vieram a compor ‘Dicionário de Estrelas’. E por aqui ficamos nesta pequena antologia ao poeta Pedro Lage. Na semana que vem, outro universo poético, outra biografia, caminho, percalço, liame entre um poema e outro.

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SE PODES

Se podes andar sobre as águas
não és melhor que uma palha,
se podes voar pelo espaço
não és melhor que uma mosca;
conquista teu coração
para que possas tornar-te alguém.
Abdulah Ansari

Se podes exterminar outro,
não és melhor do que um vírus;
es podes destruir uma cidade, uma floresta,
não és melhor do que um míssil, uma motosserra.
Afeiçoa-te primeiro a teu próprio coração
para que possas amar-te e amar alguém:
só assim frutificarás realmente,
e tua vida não terá sido em vão.

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Paulo Mendes Campos

Paulo Mendes Campos nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, no dia 22 de fevereiro de 1922. Era Carnaval. Escapou de ser bissexto por um dia, pois, naquele ano, haveria o 29. Filho do médico e escritor Mário Mendes Campos e de D. Maria José de Lima Campos. Tinha nove irmãos, sendo ele, o quinto homem. Seu pai trabalhava no município de Dom Silvério, hoje, Saúde, no interior de Minas, onde passou o início da infância. Neste mês, o poeta Paulo Mendes Campos. Evoé!

Nos píncaros da paranóia em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com

OS DOMINGOS

Todas as funções da alma estão perfeitas neste domingo.
O tempo inunda a sala, os quadros, a fruteira.
Não há um crédito desmedido de esperança
Nem a verdade dos supremos desconsolos –
Simplesmente a tarde transparente,
Os vidros fáceis das horas preguiçosas,
Adolescência das cores, preciosas andorinhas.

Na tarde – lembro – uma árvore parada,
A alma caminhava para os montes,
Onde o verde das distâncias invencidas
Inventava o mistério de morrer pela beleza.
Domingo – lembro – era o instante das pausas,
O pouso dos tristes, o porto do insofrido.
Na tarde, uma valsa; na ponte, um trem de carga;
No mar, a desilusão dos que longe se buscaram;
No declive da encosta, onde a vista não vai,
Os laranjais de infindáveis doçuras geométricas;
Na alma, os azuis dos que se afastam,
O cristal intocado, a rosa que destoa.
Dos meus domingos sempre fiz um claustro.
As pétalas caíam no dorso das campinas,
A noite aclarava os sofrimentos,
As crianças nasciam, os mortos se esqueciam mortos,
Os ásperos se calavam, os suicidas se matavam.
Eu, prisioneiro, lia poemas nos parques,
Procurando palavras que espelhassem os domingos.
E uma esperança que não tenho.

Paulo nasceu na Rua dos Otoni em Belo Horinzonto, mas, quando Paulo fez dois aos de idade, seus pais foram para o interior de Minas. Seu pai precisava trabalhar. Antes disso, Guimarães Rosa, estudante e vizinho de Paulo, o carregava para sua república, onde esperava que fizesse gracinhas, revelou-lhe a história 25 anos depois. Paulo abriu o olhos para vida na cidade de Saúde, onde, viu “o automóvel, um cavalo, um caçador de perna de pau, a morte dentro de casa, rasgou as pernas no arame farpado e tomei sorvete pela primeira vez”. Para Paulo, Saúde, hoje, Dom Silvério, “é um album de estampas”.

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MADRIGAL 1942

Mulher
que interrompe a primavera de um exército
repartindo cartas suicidas e peixes solitários
que insinuas o desespero sem vigência
e os amoralismos cruciais do coração
fantasma de organdi e nuvens enigmas
viajando para os lados de um soluço
mulher fatal como o quadro instantâneo
que realeja na memória um céu especial
comício de poemas obscuros
ausente dos acampamentos da madrugada
carne dominical falsamente casta
intrusa das salas dos concertos sinfônicos
mulher cem vezes mulher
cem vezes mulher de meu poema
retórica dos madrigais de ternura precipitada
ladra sobretudo dos propósitos pacíficos
alto e sorridente eflúvio de repente
mulher
carta enlutada mentida de rosa
amargura corrosiva das raízes
Em ti me crucificara
como um pássaro
sem ti os jardins não são poemas
os hemisférios da alma não se entendem
em ti
mil vezes em ti eu remo para mais adiante
pesquisador vencido catedral abstrata
por ti perdi-me mendigo nos parques
e nos comboios irremediáveis
que fogem gotejando um tempo lento e venenoso
por ti os telefones floresciam
ou se cobriam de lutos e mistérios
por ti colecionando tardes e alvoradas
eu nadava para o delta dos sortilégios
e alevantava-se um clamor maior que a esperança
dos lados de onde me chegam flores mortuárias
um sentimento de chamas
e um prelúdio infinito.

Em 1929, pula de um bonde na rua da Bahia, em Belo Horizonte, cai no chão, quebrando o braço, com um carro parando em cima. Ainda no colégio, Paulo ouviu de um padre professor entusiasmado com seu desempenho nas aulas de português “Ainda vai ser um escritor!”. Após este período em Dom Silvério, aos seis anos de idade, Paulo volta a Belo Horizonte com os pais, no ano seguinte ingressa no Ginásio. As mudanças de cidade são constantes e Paulo faz o Ginásio em três colégios, em três cidades: Belo Horizonte, Cachoeira do Campo e, enfim, São João Del Rey, onde, conhece, aluno de outro ginásio, um que viria a se tornar um grande amigo, Otto Lara Resende.

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NO VERÃO

Inventaremos no verão os gritos
Verberados na carta episcopal.
Somos apenas pássaros aflitos
Que nada informam da questão moral.

Tens os olhos audazes, infinitos,
E eu sinto em mim o deus verde do mal,
De nossas almas nascerão os mitos,
De nossas bocas uma flor de sal.

Deitaremos raízes sobre a praia
A jogar com palavras inexatas
O desespero de se ter um lar.

E quando para nós enfim se esvaia
O demônio das coisas insensatas
Nossa grandeza brilhará no mar.

Paulo tinha o sonho de ser aviador. Pouco tempo depois de terminar o ginásio, em Belo Horizonte, Paulo, que ficara amigo de Otto em São João Del Rey, ingressa no grupo literário adolescente de que Otto fazia parte. Lá conhece João Etienne Filho, Hélio Pellegrino e Fernando Sabino. “Foi um deslumbramento” recorda. Paulo, desde a infância, já escrevia alguma coisa, contos e alguns poemas. Através desse grupo literário, Paulo começa a publicar alguns textos em pequenos jornais. Já com dezenove anos, descobre Mário de Andrade, Maiakovski, Baudelaire, Rimbaud e outros, “triste e impenetrável como um cisne de feltro”.

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SENTIMENTO DO TEMPO

Os sapatos envelheceram depois de usados
mas fui por mim mesmo aos mesmos descampados
E as borboletas pousavam nos dedos de meus pés.
As coisas estavam mortas, muito mortas,
Mas a vida tem outras portas, muitas portas.
Na terra, três ossos repousavam
Mas há imagens que não podia explicar; me ultrapassavam.
As lágrimas correndo podiam incomodar
Mas ninguém sabe dizer por que deve passar
Como um afogado entre as correntes do mar.
Ninguém sabe dizer por que o eco embrulha a voz
Quando somos crianças e ele corre atrás de nós.
Fizeram muitas vezes minha fotografia
Mas meus pais não souberam impedir
Que o sorriso se mudasse em zombaria
E um coração ardente em coisa fria.
Sempre foi assim: vejo um quarto escuro
Onde só existe a cal de um muro.
Costumo ver nos guindastes do porto
O esqueleto funesto de outro mundo morto
Mas não sei ver coisas mais simples como a água.
Fugi e encontrei a cruz do assassinado
Mas quando voltei, como se não houvesse voltado,
Comecei a ler um livro e nunca mais tive descanso.
Meus pássaros caíam sem sentidos.
No olhar do gato passavam muitas horas
Mas não entendia o tempo àquele como agora.
Não sabia que o tempo cava na face
Um caminho escuro, onde a formiga passe
Lutando com a folha.
O tempo é meu disfarce.

Em 1945, Paulo tinha vinte e três anos. Largou todos seu pequenos empregos em Belo Horizonte e foi “com mãos abanando” para o Rio de Janeiro no trem noturno. Antes, chegou a dirigir o suplemento literário da Folha de Minas e até a trabalhar na construção civil de um tio. Seu amigo Fernando Sabino já estava no Rio de Janeiro e Paulo veio encontrá-lo, e também para conhecer o poeta chileno Pablo Neruda, em viagem na, então, capital do país. O Otto e o Fernando vieram depois.

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RENASCIMENTO

Mais fria do que o sono do meu túmulo
É minha soledade, quando cúmulo
Da carícia mortal se esvai, essência.
Vértice perigoso da inocência,
Entrega-me a manhã seu cemitério,
Quando, extintas espadas, sigo sério
Sorrindo para quem foi num momento
Chama que se desfez nas mãos do vento,
Belo animal que foge ternamente
E em lento movimento está presente
Nos círculos que pensam no meu ser.
Descobre-me a luz crua do prazer
E a sombra do langor se arrasta lenta
No sulcos de meu rosto; se ela tenta,
Beijando-me, apagar a minha face,
Onde o seu lábio vai, a voz renasce,
Nítida, calma, quase com tristeza.
A escuridão despede-se, e a certeza
De um deus fere a vidraça, verdes chamas,
Labaredas do céu, fogo nas ramas
De uma roseira que sobe à janela.
Depois, se o sol maduro se rebela
No mar, sobre as espumas, nós, constantes
Da memória das vagas inconstantes
Vamos colher a flor do tempo. Ausentes
Nos beijamos, tranquilos, transparentes.

Paulo começou a fazer faculdade de Odontologia, dois anos. Depois fez um pouco de Direito e mais um pouco de Veterinária. Queria também ser aviador, o que também não conseguiu fazer. Gostava de dizer que “diploma mesmo, só o de datilógrafo”. Dizia que “deveria ter estudado filologia”. Mas o que gostava mesmo era de literatura, das palavras e da maquina de escrever. Já no Rio de Janeiro, começou a colaborar para O Jornal, O Correio da Manhã e para o Diário Carioca. Em 1947, foi admitido no IPASE e foi fiscal de obras daquele orgão. Neste período trabalhou também como Diretor da Divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional.

poema que fiz para o meu pai http://pedrolago.blogspot.com

A MORTE

Ontem sonhei com a morte
Por duas horas desertas:
As pálpebras não se fecharam,
Antes ficaram abertas.
Os olhos esbugalhados
Cravados num ponto incerto,
Por fora desesperados,
Por dentro o mal do deserto.
Todo de preto vestido
Me aparteava a nudez
De estar ali sem sentido
De um mundo que se desfez.
Se alguém quisesse podia
Cuspir-me em cima do rosto
O nojo que lhe subia
De ver-me assim tão composto.
Talvez um ríctus na boca
O meu segredo explicasse,
Foi-me sempre a vida pouca
E era a morte o meu disfarce.
Vi-me no esquife hediondo,
As mãos cruzadas de vez,
Vi-me só me decompondo,
Doído de lucidez.
Senti o cheiro das flores,
As velas que crepitavam,
O enjôo forte das cores
Que minha morte enfeitavam.
Vi um remorso ingente
Chegar ao pé do caixão,
Um animal repelente
Feito de amor e paixão.
Um padre de voz plangente
Depois de orar disse amém,
Em torno os olhos da gente
Me sepultavam também.
Sei que tudo era aflição
No meu destino acabado:
O terror da solidão
Ia comigo deitado.

Em 1951, Paulo publicou seu primeiro livro de poemas, ‘A palavra escrita’, no mesmo ano em que se casou com Joan, de ascendência inglesa. Com ela teve dois filhos, Gabriela e Daniel. Paulo participou, nesta época e até o fim de sua vida, da boêmia carioca do cafés do centro da cidade, Vermelhinho, onde, iam figuras como Carlos Castelo Branco, Carlos Drummond de Andrade e Tomás Santa Rosa. Eram os anos cinquenta, e Paulo, com seus vinte anos, começava a ganhar a vida.

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JOSETTE

Colunas de tu corpo. O real
Das coxas longas onde se implanta o ventre
Leve. O branco do seio
Dando o leite do sonho ao animal
Da noite acostumado a sofrer sede.
Teu perfil tem a linha imaginária
Das mais felizes frases literárias.
És quem tu és, és a rosa e o rosicler.
Quando caminhas vais frisando a rua
De uma sequencia clara de escultura.
És sol agora, ontem na praia foste a lua.
És tudo o que quiser o meu poema,
Mas não és o orvalho que roreja nem és pura.
Possuis a elegância de uma ave
De pés espapaçados (as mais belas)
E tens do mar o frescor suave e a voz tão grave.
Como a vaga empinada que se espraia
Abres equestres movimentos no vento. Teus cabelos
São as últimas lembranças lúcidas que me restam.
Calmarias de ilhas verdes, teus olhos,
Ah,
São teus olhos.

Paulo teve vários pequenos empregos. Desde sua infância e adolescência em Minas Gerais, trabalhando com o tio, depois, contribuindo para alguns jornais. Costumava dizer que o dinheiro durava para viver quinze dias. No Rio, procurava qualquer coisa para sobreviver. Foi morar numa pensão no Leme chamada Palacete de Mon Rêve, cuja comida era horrível. E foi Drummond quem o arranjou dois empregos e o emprestou uma máquina escrever. Primeiro no Instituto Nacional do Livro onde começou a trabalhar para um dicionário da literatura brasileira. Trabalhava com uma mulher chamada Eneida.

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POEMA DIDÁTICO

Não vou sofrer mais sobre as armações metálicas do mundo
Como o fiz outrora, quando ainda me perturbava a rosa.
Minhas rugas são prantos da véspera, caminhos esquecidos,
Minha imaginação apodreceu sobre os lodos do Orco.
No alto, à vista de todos, onde sem equilíbrio precipitei-me,
Clown de meus próprios fantasmas, sonhei-me,
Morto do meu próprio pensamento, destruí-me,
Pausa repentina, vocação de mentira, dispersei-me,
Quem sofreria agora sobre as armações metálicas do mundo,
Como o fiz outrora, espreitando a grande cruz sombria
Que se deita sobre a cidade, olhando a ferrovia, a fábrica,
E do outro lado da tarde o mundo enigmático dos quintais.
Quem, como eu outrora, andaria cheio de uma vontade infeliz,
Vazio de naturalidade, entre as ruas poentas do subúrbio
E montes cujas vertentes descem infalíveis ao porto de mar ?

Meu instante agora é uma supressão de saudades. instante
Parado e opaco. Difícil se me vai tornando transpor este rio
Que me confundiu outrora. Já deixei de amar os desencontros.
Cansei-me de ser visão, agora sei que sou real em um mundo real.
Então, desprezando o outrora, impedi que a rosa me perturbasse.
E não olhei a ferrovia – mas o homem que sangrou na ferrovia –
E não olhei a fábrica – mas o homem que se consumiu na fábrica –
E não olhei mais a estrela – mas o rosto que refletiu o seu fulgor.
Quem agora estará absorto? Quem agora estará morto ?
O mundo, companheiro, decerto não é um desenho
De metafísicas magnificas (como imaginei outrora)
Mas um desencontro de frustrações em combate.
nele, como causa primeira, existe o corpo do homem
– cabeça, tronco, membros, as pirações e bem estar…

E só depois consolações, jogos e amarguras do espírito.
Não é um vago hálito de inefável ansiedade poética
Ou vaga advinhação de poderes ocultos, rosa
Que se sustentasse sem haste, imaginada, como o fiz outrora.
O mundo nasceu das necesidades. O caos, ou o Senhor,
Não filtraria no escuro um homem inconsequente,
Que apenas palpitasse no sopro da imaginação. O homem
É um gesto que se faz ou não se faz. Seu absurdo –
Se podemos admiti-lo – não se redime em injustiça.
Doou-nos a terra um fruto. Força é reparti-lo
Entre os filhos da terra. Força – aos que o herdaram –
É fazer esse gesto, disputar esse fruto. Outrora,
Quando ainda sofria sobre as armações metálicas do mundo,
Acuado como um cão metafísico, eu gania para a eternidade,
sem compreender que, pelo simples teorema do egoísmo,
A vida enganou a vida, o homem enganou o homem.
Por isso, agora, organizei meu sofrimento ao sofrimento
De todos: se multipliquei a minha dor,
Também multipliquei a minha esperança.

O segundo emprego que Drummond arranjou para Paulo foi numa publicação trimestral da Câmara de Comércio chileno-brasileira sob a direção de Sílvio Cunha. Mas quando a verba do Instituto do Livro que o sustentava acabou e a revista da Câmara do Comércio resultou insolvente, o poeta Augusto Frederico Schmidt, também ajudou Paulo arranjando-lhe um lugar no Correio da Manhã. Embora “apadrinhado” Paulo teve que mostrar que sabia escrever uma reportagem, pois, Paulo Bittencourt, quando soube que era parente de um amigo seu, não podia acreditar que Paulo soubesse redigir uma oração com sujeito, verbo e complemento.

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LITOGRAVURA

Eu voltava cansado como um rio.
No Sumaré altíssimo pulsava
a torre da tevê, tristonha, flava.
Não: voltava humilhado como um tio
bêbado chega à casa de um sobrinho.
Pela ravina, lento, lentamente,
feria-se o luar, num desalinho
de prata sobre a Gávea de meus dias.
Os cães quedaram quietos bruscamente.
Foi no tempo dos bondes: vi um deles
raiar pelo Bar Vinte, borboleta
flamante, touro rútilo, cometa
que se atrasa no cosmo e desespera:
negra, na jaula em fuga, uma pantera.

Passei a mão nos olhos: suntuosa,
negra, na jaula em fuga, ia uma rosa.

Quando era fiscal de obras do IPASE, Paulo passava duas ou três noites por semana no planejamento de um grande negócio: Uma livraria de alta classe em Copacabana. Levou-se meses discutindo se uisque, chá ou sorvete seria servido na livraria. O investimento viria de Carlos Lacerda, Marcelo Garcia e de Fernando Sabino. Mas não chego-se a conclusão nenhuma e a livraria não foi aberta. Paulo dizia que queria trabalhar na China após a guerra na UNRRA (United Nations Relief e Rehabilitations Agency) mas, como não havia feito o curso de paraquedista, não deu. Verdade ou não, vale lembrar.

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CANTIGA PARA TOM JOBIM

Quem for além simplesmente
deste espelho transparente
há de sumir? ou se ver?
relembrar? ou esquecer?
Quem for além simplesmente
deste espelho transparente
há de sentir? ou sonhar?
prosseguir? ou regressar?
Mas quem achar uma seta
que lhe apontar o sentido
neste espelho, há de se achar
no paraíso, perdido,
onde achará o poeta
de repente ou devagar.

Com o livro de poemas ‘O Domingo azul do mar’, de 1958, Paulo recebe o Prêmio Alphonsus de Guimaraens do Ministério da Educação. Em 1960, Paulo publica seu primeiro livro de crônicas reunidas. São crônicas datadas de 1946, anos 50 e início dos anos 60 publicadas no Diário Carioca, revista Manchete e de alguns jornais dos Estados. A esta altura, seguindo de certa forma a ênfase do capixaba Rubem Braga, Paulo se dedica à escrita de crônicas, algumas antológicas, que poderiam ser consideradas como pequenos contos.

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BALADA DE AMOR NA PRAIA

Ai como sofre o corpo que se esfrega
no corpo que se entrega e não se entrega

é como a convulsão da preamar
a querer atirar o mar no ar

a onda rija bate como espada
nos musgos da mulher ensolarada

guelras arfantes pernas semifusas
grifam sombras morenas de medusas

e a verde rocha em V vê o duelo
do peixe azul fisgado no amarelo

compondo um bicho humano sobre a praia
que se desfaz em rendas e cambraia

moluscos musculares do desejo
decápode do homem – caranguejo

anêmonas e polvos complacentes
a resvalar abismos inocentes

como se amar no mar fosse encontrar
nossa animalidade elementar

ou fosse o ser na praia (duplicado
de amor) bicho de amor do mar gerado

cujas garras fatais persuasivas
deslizam pelas angras sensitivas

pelos quadris que dançam pelos frisos
conjugais – ziguezague de mil guizos –

garras que buscam a melhor textura
no ventre no pescoço na cintura

já quase a devorar a lua cheia
no litoral do céu feito de areia

e o sol diz nomes feios para a lua
pedindo que ela entenda e fique nua

para que possa a coisa hermafrodita
mudar a vida breve e infinita

e quando enfim de amor o bicho – arraia
na confusão voraz freme e se espraia

é como a convulsão da preamar
que conseguiu jogar o mar no ar

A revista Manchete era comprada, curiosamente, por pessoas que, de fato, não eram do interesse da revista, porém, lá dentro havia um objeto de desejo: a crônica de Paulo Mendes Campos. Paulo desenvolveu-se na crônica. Algumas autobiográficas e célebres, como a que lembra do tempo em que morava no Palacete Mon Rêve, no Leme, uma espécie de cortiço, e ouviu, no quarto ao lado, uma briga de dois namorados sob o tema da infidelidade. Muitas delas faziam um cruzamento entre sua vida e a literatura, algumas eram prosas poéticas. Em 1962, Paulo publica outra reunião de crônicas ‘Homenzinho na Ventania’, três anos depois, ‘O Colunista do Morro’.

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SALA DE JANTAR

Faltava um tema a nossa companhia,
Faltava a nossa mesa certo espaço:

O mar em nossa casa não bramia,
Mar de gravura dá certo embaraço.

A chuva de repente era alegria,
À falta de amplidão para o fracasso:

A serra do curral nos elidia,
Só o céu nos abria seu compasso:

Só o dente do sal nos conhecia,
Só no prato de sopa era o sargaço.

So no pano um brigue estremecia.
Só na vaga do vento nosso abraço.

Em 1966, Paulo republica os livros de poemas ‘Testamento do Brasil’ e ‘Domingo Azul do Mar’. Todas elas pela Editora do Autor, que vinha publicando todos os contemporâneos. Paulo já fazia parte de uma “geração”, tanto de mineiros, ao lado de Fernado Sabino, Murilo Rubião, João Etienne Filho, Carlos Castello Branco, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino, quanto de cronistas, com Rubem Braga, e alguns dos supracitados. Em 1967, publica a reunião de crônicas ‘A Hora do Recreio’ pela Editora Sabiá.

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VARANDA

De lá de via um muro transparente
E além uns mares lentos e facundos,
Roteiros retorcidos, submundos
De porões recriados num repente
De luz das vesperais de antigamente,
Trilhas navais, romances vagabundos,
Entrelaçados mares oriundos
De ser a gente um ente diferente
Que só pretende o que não vê e vê
De olhos limpos aquilo que não há,
Gente desmedida que descrê
De quanto existe para ver e está
Sempre eludindo o muro e que demanda
O céu a terra o mar de uma varanda.

Sobre o Rio de Janeiro, Paulo dizia que “descobri que amo esta cidade por me sentir exilado em outras” […] “Amo o bairro de Ipanema. Foi Álvaro Moreyra o primeiro a dizer que a cidade do Rio nasceu velha e aos poucos virou menina, contanto o tempo às avessas. Podemos contemplar essa observação no próprio espaço. O Centro do Rio representou a velhice da cidade: o morro do Castelo, os conventos, os prédios burocráticos dos reinados. Flamengo e Botafogo foram a maturidade do Rio. Copacabana foi a louca adolescência. Ipanema e Leblon: eis a infância da cidade. Preciso dessa meninice de Ipanema, onde tenho meu lar, o meu mar e o meu bar”.

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TANQUE DE ROUPA: SCHERZO

Era uma tarde pastoril mineira,
Eram cirros e cúmulos mentais,
Era o dolce staccato da torneira,
Virações de Offenbach pelos varais,
Eram trêmulos barrocos de roseira,
Trissos de amor nas frinchas dos beirais,
Era uma tarde abril à brasileira,
Era uma tarde ardil Minas Gerais.

E era na tarde tarde redundante
– longe vestígio em meigo pergaminho –
Um refluir azul de mar distante.

Era uma tarde estática de Deus

Mas a boca da noite de mansinho…

E a tarde anil rendeu alma. Adeus.

A relação de Paulo com Ipanema é longa. Muitas de suas crônicas são sobre um bairro. Paulo intitulou um livro com o nome de uma delas chamado ‘O Cego de Ipanema’. Frequentava a boêmia do bairro, Veloso, Pizzaiolo, e outros bares. Seus contemporâneos de bar eram Vinicius de Moraes, Lucio Cardoso, Carlinhos Oliveira, Lucio Rangel, Roniquito, Tarso de Castro, Hugo Bidet, Zequinha Estelita, Narceu de Almeida e muitos outros. Em 1967, Paulo publica ‘Hora do Recreio’ pela Sabiá e em 1969, ‘O Anjo Bêbado’, também pela Sabiá.

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TEMPO-ETERNIDADE

La sensualité, chère amie, consiste simplement à
considerer comme une fin et non comme un moyen
l’objet présent et la vie presente.
André Gide

O instante é tudo para mim que ausente
Do segredo que os dias encadeia
Me abismo na canção que pastoreia
As infinitas nuvens do presente.

Pobre do tempo, fico transparente
À luz desta canção que me rodeia
Como se a carne se fizesse alheia
À nossa opacidade descontente.

Nos meus olhos o tempo é uma cegueira
E a minha eternidade uma bandeira
Aberta em céu azul de solidões.

Sem margens, sem destino, sem história
O tempo que se esvai é minha glória
E o susto de minh’alma sem razões.

Em 1962, Paulo, na presença do Dr. Murilo Pereira Gomes, tomou ácido lisérgico em um apartamento da rua General Glicério em Laranjeiras. Paulo, que em 1954, lera ‘As portas da percepção’ do Aldous Huxley logo após sua publicação, fez-se de cobaia desta experiência. Tinha já seus quarenta anos. Paulo descreveu os efeitos de sua experiência em crônicas memoráveis. “Apurando os ouvidos, poderia se ouvir a parede”, descobriu que “como se dentro da delicadeza, houvesse uma segunda delicadeza e, dentro desta, uma terceira, uma quarta, uma quinta e, só lá no fundo de não sei qual película sutil, estivesse, intacta, a verdadeira delicadeza”.

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SONHO DE UMA INFANCIA

Meu sonho, breve emoção,
A tarde deitada no limoeiro,
Paralelas de aço se agarrando no longe.
Há muito tempo que fui infeliz
E desconhecia meu corpo embrulhando nas vestes.
Um cisne repetia o facílimo soneto do exílio.
Animais do ar esvoaçavam,
Flores se assustavam, muito altas, olhando o momento.
Nascia por nascer a vida tímida.
Os minutos respiravam cadenciados
Como a criança próxima à grande cachoeira.
Breve emoção da pedra, meu sonho
Ficava difícil,
Sol entre constelações remotas.
Sempre a palavra de um poema se perdia.
Um barco remava entre chamas, um coração se consumia,
A noite erguida apagava o meu desejo de pensar.
Vi como se desprende de um pântano a garça nua,
Vi a fantasia e a tristeza de meu ser.
Foi há muito, entre o mineral silencioso
Há muito tempo que nasci da infância para crescer
Entre milícias douradas que marchavam cantando.

Deixarei meu destino como a pátria.
Renovando a aventura, reinarei entre vós,
Sonhos fiéis.
Sobe a fumaça na caligem de uma tarde chuvosa.
Sinto o aroma feliz do bife,
A friagem do ladrilho onde estraçalho um besouro,
O tinir da louça, a água caindo no zinco.
Estamos grandes, do tamanho de um defunto.
Morte, emoção de meu sonho,
Surda floresta que voa no vendaval e se esfacela.

Paulo chamou a viagem de ácido de teve de “purificação do consciente pelo inconsciente”. Ficou deliciado com o paladar de uma azeitona que demorou horas para comer, “a quantidade de caldo, com a ternura, com o mistério do caroço”. Seu único medo era ser trazido de volta pelo consciente. Quando saiu do apartamento, ainda no efeito, tomou um táxi e foi a uma reunião numa casa de amigos. Disse que todos (o motorista, o porteiro, os amigos) o tratavam com delicadeza. Descreveu a experiência, primeiramente, no livro ‘O colunista do morro’ e depois em outros meios. Hoje, estão todas no livro ‘Cisne de Feltro’ com outra crônicas autobiográficas.

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O BEBADO

Já vomita no mar a lua pálida.
Bondes trazem de longe a madrugada
E entre golfos de sombra resplandecem
Fantásticas piscinas de luz crua.
Os ruídos do dia vão nascendo
Da noite que abandona o céu. Tilinta
Real a campainha de um ciclista,
Dobra irreal o sino de um convento.
A própria luz a caminhar cicia
Nos trilhos azulados da manhã.
A espaços, o silêncio coagula
O soturno alarido da ressaca.
O bêbado caminha em direção
De um luzir qualquer no lusco-fusco,
Onde grita a luz fulva dos açougues.
Do mais alto beiral nasce uma pomba
Que voa rente ao asfalto orvalhado,
Ensurdecendo a claridade triste
Do bêbado. Do esforço alvar das vagas
Nascem as gaivotas tresnoitadas.
Cavalos mal dormidos vão surgindo
Nas esquinas, enquanto os operários
Passam numa cadência primitiva.
O bêbado quer morrer, de desfazer,
Andando sem vontade sobre a terra
Que oferece a seus pés o espaço hostil.
Seu ideal é simples, geométrico,
E o sorriso em que fala ao transeunte
É um sorriso de paz e de ironia.

Nós que andamos certos e orgulhosos na manhã
E nos apossamos do dia como nosso território natural,
Como entenderemos este ser obscuro
Cujos passos se extraviam e se afastam de nós
E se aproximam de novo e se perdem em atropelo.
Quando seu rosto se inclina para o chão
E outra vez se levanta com um sorriso de paz e de ironia,
Sentimos uma luz de mentira em seus olhos
E tontos de lucidez nos disfarçamos.

A relação de Paulo com o álcool se estendia para suas crônicas. “Os os bares morrem numa quarta feira” e Paulo falava da boêmia carioca, de anedotas de bares, dizia que “não bebo tanto quando mereço”. Seus vinte últimos anos de vida foram um pouco difíceis. Por motivos variados, mas, com o álcool como centro. Paulo virou um sujeito irritado, muitas vezes evitados nas ruas, chegando a ser, inclusive, impedido de entrar em alguns bares. Paulo dizia que se tornara “um homem entornado”.

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A MÁRIO DE ANDRADE

Não sei que mãos teceram teu silêncio.
Morto. Estás morto. Sonhas morto? Morto.
Espantalho fatal, onde flutuas
Acordas borboletas tresvairadas.

Tua morte chegou nas folhas secas
Mas nada vi no ventre da noitinha,
Que não interpretei nas alegrias
Tua razão mais bela de acabar.

A noite está coalhada de formigas.
A cruz amarga a fé desesperada.
Há formigas na treva de tua morte
E em mim erram punhais entrefechados.

O simples tempo agora abre a vidraça.
Desarmaram nos campos a barraca.
Chega do canteiro a razão – flor
Para agravar sinais do inevitável.

O silêncio borbulha nos esgotos.
Bebamos o licor de tua morte.
Enquanto se suporta a solidão.
Tua morte foi servida numa salva.

Cisnes feridos, franzem meu destino.
Os convivas, as moças, as vitrinas
Não sabem que paraste. Mas eu sofro
O sono vegetal dos passarinhos.

Mas eu sofro. Eu e o morto que conduzo
Vamos sofrer até de manhãzinha.
Vamos velar aflitos sobre a terra
Que desviou o teu olhar das rosas.

Em 1984, Paulo publica ‘Trinca de Copas’, seria seu último livro publicado. No dia 1 de julho de 1991, Paulo morre no Rio de Janeiro. Seu amigo Otto Lara Resende, escreve na Folha de São Paulo: “Paulo morreu. Não, não estamos preparados. Confuso sentimento de que era preciso ter feito alguma coisa. Sim, era previsível. Mas não precisava ser irreparável”. Anos depois, no fim da década de noventa, a Editora Civilização Brasileira inicia um trabalho de republicação de sua obra. Paulo, que ficara por algum tempo esquecido da literatura brasileira, volta.

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NESTE SONETO

Neste soneto, meu amor, eu digo,
Um pouco à moda de Tomás Gonzaga,
Que muita coisa bela o verso indaga
Mas poucos belos versos eu consigo.
Igual à fonte escassa no deserto,
Minha emoção é muita, a forma, pouca.
Se o verso errado sempre vem-me à boca,
Só no meu peito vive o verso certo.
Ouço uma voz soprar à frase dura
Umas palavras brandas, entretanto,
Não sei caber as falas de meu canto
Dentro de forma fácil e segura.
E louvo aqui aqueles grandes mestres
Das emoções do céu e das terrestres.

Paulo Mendes Campos tinha um sonho sólido: Morar definitivamente na serra de Petrópolis, visitar a Europa mais uma vez e passear com frequencia nas velhas cidades de Minas. Dizia que “na carreira literária, a glória está no começo, o resto da vida é aprendizado intensivo, para o anonimato, para o ouvido […] O sucesso não me interessa. Faço questão de fracassar […] Aqui jaz Paulo Mendes Campos. Por favor, engavetem-me com a máxima simplicidade e do lado da sombra […] No mais, é como dizia Freud: morreu, babau”. Até a próxima antologia.

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BALADA DE AMOR PERFEITO

Pelo pés das goiabeiras,
pelo braços das mangueiras,
pelas ervas fratricidas,
pelas pimentas ardidas,
fui me aflorando.

Pelos girassóis que comem
giestas de sol e somem,
por marias-sem-vergonha,
dos entretons de quem sonha
fui te aspirando.

Por surpresas balsaminas,
entre as ferrugens de Minas,
por tantas voltas lunárias,
tantas manhãs cineárias,
fui te esperando.

Por miosótis lacustres,
por teus cântaros ilustres,
pelos súbitos espantos
de teus olhos agapantos,
fui te encontrando.

Pelas estampas arcanas
do amor das flores humanas,
pelas legendas candentes
que trazemos nas sementes,
fui te avivando.

Me evadindo das molduras,
de minhas albas escuras,
pelas tuas sensitivas,
açucenas, sempre-vivas,
fui te virando.

Pela rosa e o resedá,
pelo trevo que não há,
pela torta linha reta
da cravina do poeta,
fui te levando.

Pelas frestas das lianas
de tuas crespas pestanas,
pela trança rebelada
sobre o paredão do nada,
fui te enredando.

Pelas braçadas de malvas,
pelas assembléias alvas
de teus dentes comovidos
pelo caule dos gemidos
fui te enflorando.

Pelas fímbrias de teu húmus,
pelos reclames dos sumos,
sobre as umbelas pequenas
de tuas tensas verbenas,
fui me plantando.

Por tuas arestas góticas,
pelas orquídeas eróticas,
por tuas hastes ossudas,
pelas ânforas carnudas,
fui te escalando.

Por teus pistilos eretos,
por teus acúleos secretos,
pelas úsneas clandestinas
das virilhas de boninas,
fui me criando.

Pelos favores mordentes
das ogivas redolentes,
pelo sereno das zínias,
pelos lábios de glicínias,
fui te sugando.

Pelas tardes de perfil,
pelos pasmados de abril,
pelos parques do que somos,
com seus bruscos cinamomos,
fui me espaçando.

Pelas violas do fim,
nas esquinas do jasmim,
pela chama dos encantos
de fugazes amarantos,
fui me apagando.

Afetando ares e mares
pelas mimosas vulgares
pelos fungos do meu mal,
do teu reino vegetal
fui me afastando.

Pelas gloxínias vivazes,
com seus labelos vorazes,
pelo flor que desata,
pela lélia purpurata,
fui me arrastando.

Pelas papoulas da cama,
que vão fumando quem ama,
pelas dúvidas rasteiras
de volúveis trepadeiras
fui te deixando.

Pelas brenhas, pelas damas
de uma noite, pelos dramas
das raízes retorcidas,
pelas sultanas cuspidas,
fui te olvidando.

Pelas atonalidades
das perpétuas, das saudades,
pelos goivos do meu peito,
pela luz do amor perfeito,
vou te buscando.

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Augusto dos Anjos

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Augusto Carvalho Rodrigues dos Anjos, nasceu no Engenho do Pau D’Arco no município de Cruz do Espírito Santo, no Estado da Paraíba no dia 20 de abril de 1884. Terceiro filho do casal Alexandre Rodrigues dos Anjos e D. Córdula Carvalho Rodrigues dos Anjos, conhecida por Sinhá Mocinha. Consta que recebeu, junto com seus irmãos, a educação primária e secundária por seu pai. Neste mês, tentaremos percorrer a vida e a poesia desta estranha figura da poesia brasileira, alguns relatos, a escassez de detalhes sobre sua infância, sua vida e seu desenvolvimentos como poeta. Voilá, Augusto dos Anjos!

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O MORCEGO
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Meia noite. Ao meu quarto me recolho
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vêde:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela igneo e escaldante molho.
“Vou mandar levantar outra parede…”
– Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!
Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A toca-lo. Minha alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!
A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, a noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!
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Da casa onde viveu, recorda sua mãe, Sinha Mocinha “A vasta casa-grande, de muitas salas, a senzala ao lado, o engenho d’água lá embaixo, o canavial na várzea e, pelos altos, o agreste, onde floriam no verão o pau d’arco roxo de outubro e os paus d’arcos amarelos de novembro”. O engenho era sombrio, era de açucar e ficava à aba do rio Una. Alexandre, seu pai, assumiu os engenhos no meio de uma crise de açucar que arrasava as lavouras. Os engenhos, hipotecados, estavam nas mãos de comerciantes da Paraíba, porém, ao contrário dos outros donos de engenho, seu Alexandre era um homem letrado.
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A IDEIA
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De onde ela vem? De que maneira bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?
Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas
Delibera, e, depois, quer a executa!
Vem do encéfalo absconso que a constringe
Chega em seguida às cordas da laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica…
Quebra a força centrípeta que a amarra
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica!
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Dr. Alexandre, como era conhecido, era letrado senhor de engenho e gostava de vagar a cavalo pelos limites de sua terra. Gostava de filosofia, lia muito, e por mais que se esforçasse, não tinha nas mãos a força do mando. Gostava de conversar com as pessoas, com os trabalhadores, procurava manter um clima ameno. Sabia latim, grego e ciências naturais, tinha mãos finas e gostava de escrever. Lia muito Cícero. Costumava dizer que com a casa cheia de meninos querendo estudar, “o tamarindo virava uma escola socrática”, se referindo ao pé de tamarindo que havia no engenho.
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IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA
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Rugia nos meus centros cerebrais
A multidão dos séculos futuros
– Homens que a herança de ímpeto impuros
Tornara etnicamente irracionais! –
Não sei que livro, em letras garrafais
Meus olhos liam! No humus dos monturos,
Realizavam-se os partos mais obscuros
Dentre as genealogias animais!
Como quem esmigalha protozoários
Meti todos os dedos mercenários
Na consciência daquela multidão…
E, em vez de achar a luz que os Céus inflama
Somente achei moléculas de lama
E a mosca alegre da putrefação!
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As informações sobre este período da infância são escassas, por isso, em 1900, Augusto ingressa no Liceu Paraibano. Tinha dezesseis anos e já gozava de uma fama de preparo, de prodígio, que corria pela cidade. Era desembaraçado como afirma Orris Soares, seu amigo dessa época “não soube resistir ao desejo de travar conhecimento com o poeta. Fui imperiosamente atraído, como para um sítio encantado onde a vista se alerta por encontrar movimento. E de tal forma nos acamaradamos, que, dias depois, lhe devia o exame de latim, desembaraçando-me de complicada tradução, numa ode de Horácio”.

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Poema EMPÓRIO dedicado ao Vicente http://pedrolago.blogspot.com
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O DEUS VERME
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Fator universal do transformismo,
Filho da teológica matéria,
Na superabundância ou na miséria
Verme – é o seu nome obscuro de batismo.
Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua diária ocupação funérea,
E vive em contubérnio com a bactéria
Livre das roupas do antropomorfismo.
Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão…
Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!
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Ainda em 1900, na mesma época em que entra no Liceu, Augusto dos Anjos escreve seu primeiro soneto, chamado “Saudade”. Augusto, ainda estudante, gostava de andar recitando, consta que tinha uma voz metálica que continha “complacência e enternecimento”. Nesta época, impressionou muito Orris Soares, de quem se tornaria amigo e que escreveria o texto “Elogio a Augusto dos Anjos”. Em 1901, publica um soneto no jornal O Comércio, e passaria a colaborar com o mesmo. Logo mais, dois anos depois, iria para Recife para se inscrever na faculdade de Direito e lá conhece, enfim, o Carnaval.
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DEBAIXO DO TAMARINDO
No tempo de meu pai, sob estes galhos
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canceira
De inexorabilíssimos trabalhos!
Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,
Guarda, como uma caixa derradeira,
 O passado da Flora Brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!
Quando pararem todos os relógios
De minha vida, e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,
Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade
A minha sombra há de ficar aqui!
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Em 1903, Augusto entra na Faculdade de Direito em Recife. Dois anos depois, em 1905, perde seu pai, Dr. Alexandre. Escreve então três sonetos dedicados ao pai e publica n’O Comércio, que posteriormente fariam parte de seu único livro “Eu”. Nesta época, começa a escrever a “crônica paudarquense” e participa de duas polêmicas. Augusto lia muito os escritos de Charles Darwin, Haeckel, Spencer e Pascal. Em 1907, conclui a faculdade de Direito, para, um ano depois, instalar-se, de vez, na capital da Paraíba.
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Dois poemas meus aqui ao lado de outros poetas http://www.olegalmeida.com/page_25.html
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UMA NOITE NO CAIRO
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Noite no Egito. O céu claro e profundo
Fulgura. A rua é triste. A Lua Cheia
Está sinistra, e, sobre a paz do mundo,
A alma dos Faraós anda e vagueia.
Os mastins negros vão ladrando à lua…
O Cairo é de uma formosura arcaica.
No ângulo mais recôndito da rua
Passa cantando uma mulher hebraica.
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O Egito é sempre assim quando anoitece!
Às vezes das pirâmides o quêdo
E atro perfil, exposto ao luar, parece
Uma sombria interjeição de medo!
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Como um contraste aqueles míseres
Num quiosque em festa a alegre turba grita
E dentro dançam homens e mulheres
Numa aglomeração cosmopolita.
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Tonto do vinho, um saltimbanco da Asia
Convulso e rôto, no apogeu da fúria,
Executando evoluções de razzia
Solta um brado epiléptico de injúria!
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Em derredor duma ampla mesa preta
– Última nota do conúbio infando –
Vêem-se dez jogadores de roleta
Fumando, discutindo, conversando.
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Resplandece a celeste superfície
Dorme soturna a natureza sabia…
Em baixo, na mais próxima planície,
Pasta um cavalo esplêndido da Arábia.
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Vaga no espaço um silfo solitário.
Trôam kinnors! Depois tudo é tranquilo…
Apenas, como um velho stradivario,
Soluça toda a noite a água do Nilo!
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Em 1908, Augustos dos Anjos vai para a capital da Paraíba onde começa a dar aulas particulares. Nesta época, começa a colaborar com o jornal Nonevar e com a revista Terra Natal. Sua mãe, Sinhá Mocinha, ficava no Engenho a esperar por notícias do filho. Eis um relato de sua experiência, em carta, pela “Veneza Brasileira”: “Os três dias de Carnaval nesta capital foram festivos, alegres e esplendorosos. Profusão de clubes carnavalescos, Caraduras, etc, confete, bisnagas, serpentina, danças, e, no entretanto, eu me diverti um pouco. O que é afinal divertimento? Uma fenomenalidade transitória, efêmera, o que fica é a saudade. Saudade! Ora, eu não disposto a ter saudades. Entendo que só devemos acalentar recordações dos entes caros, idolatrados, parcelas de nossa existência, de nossa vida, e esses entes – deixei-os eu aí”.
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A UM MASCARADO
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Rasga esta máscara ótima de seda
E atira à area ancestral dos palimpsestos…
É noite, e, à noite, a escândalos e incestos
É natural que o instinto humano aceda!
Sem que te arranquem da garganta queda
A interjeição danada dos protestos.
Hás de engolir, igual a um porco, os restos
Duma comida horrivelmente azeda!
A sucessão de hebdômadas medonhas
Reduzirá os mundos que tu sonhas
Ao microcosmos do ovo primitivo…
E tu mesmo, após a árdua e atra refrega,
Terás somente uma vontade cega
E uma tendência obscura de ser vivo!
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No mesmo ano de 1908, morre Afrígio Pessoa de Melo, padrasto de sua mãe e patriarca da família, deixando o Engenho em péssima situação financeira. Também começa a lecionar no Instituto Maciel Pinheiro e é nomeado professor do Liceu Paraibano. No ano seguinte, 1909, Augusto publica o poema “Budismo moderno” e outros em A União e num discurso que profere no Teatro Santa Rosa pela comemorações do dia 13 de maio, choca a plateia com seu léxico “incompreensível e bizarro”, logo depois, abandona o Instituo Maciel Pinheiro.
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CONTRASTES
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A antítese do novo e do obsoleto
O Amor e a Paz, o Ódio e a Carnificina,
O que o homem ama e o que o homem abomina,
Tudo convém para o homem ser completo!
O ângulo obtuso, pois, e o ângulo reto,
Uma feição humana e outra divina
São como a eximenina e a endimenina
Que servem ambas para o mesmo feto!
Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes!
Por justaposição destes contrastes,
Junta-se uma hemisfério a outro hemisfério,
Às alegrias juntam-se as tristezas
E o carpinteiro que fabrica as mesas
Faz também os caixões do cemitério!…
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Em 1910, Augusto publica em A União, o poema, “Mistério de um Fósforo” e “Noite de um Visionário”. Mas, o fato mais importante deste ano de 1910, embora, de certa forma avesso às questões do afeto, conhece e casa-se com Ester Fialho. Augusto continua a colaborar com a revista Nonevar até que outro fato marcante, desta vez trágico, acontece na vida do poeta: Sua família, por dificuldades financeiras, vende o Engenho Pau D’Arco. Augusto se atordoa e decide de mudar para o Rio de Janeiro. Embora professor do Liceu Paraibano por dois anos, Augusto quer se tornar poeta conhecido em círculos mais amplos. Então, pega parte de sua herança no Engenho e, com Ester, parte para a capital do país.
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VERSOS DE AMOR
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Parece muito doce aquela cana.
Descasco-a, provo-a, chupo-a… ilusão trêda!!
O amor, poeta, é como a cana azeda,
A toda a boca que o não prova engana.
Quis saber que era o amor, por experiência,
E hoje que, enfim, conheço o seu conteúdo,
Pudera eu ter, eu que idolatro o estudo,
Todas as ciências menos esta ciência!
Certo, este o amor não é que, em ansias, amo
Mas certo, o egoísta amor este é que acinte
Amas, oposto a mim. Por conseguinte
Chamas amor aquilo que eu não chamo.
Oposto ideal ao meu ideal conservas.
Diverso é, pois, o ponto outro de vista
Consoante o qual, observo o amor, do egoísta
Modo de ver, consoante o qual, observas.
Porque o amor, tal como eu o estou amando,
É espírito, é éter, é substância fluida,
É assim como o ar que a gente pega e cuida,
Cuida, entretanto, não o estar pegando!
É a transubstanciação de instintos rudes,
Imponderabilíssima e impalpável,
Que anda acima da carne miserável
Como anda a garça acima dos açudes!
Para reproduzir tal sentimento
Daqui por diante, atenta a orelha cauta,
Como Marsyas – inventor da flauta –
Vou inventar também outro instrumento!
Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo
Ambiciono, que o idioma em que te eu falo
Possam todas as línguas declina-lo
Possam todos os homens compreendê-lo!
Para que, enfim, chegando à última calma
Meu podre coração roto não role
Integralmente desfibrado e mole,
Como um saco vazio dentro da alma!
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No Rio de Janeiro, Augusto e sua mulher Ester, hospedam-se em uma pensão no Largo do Machado mas logo se mudam para a Avenida Central. São constantes as mudanças. O casal vai de pensão em pensão. Augusto termina o ano de 1910 sem conseguir um emprego. No ano seguinte, altos e baixos. Sua mulher engravida, porém, seis meses depois, perde a criança. Augusto é nomeado professor de Geografia, Corografia e Cosmografia no Ginásio Nacional (Pedro II atualmente) e Ester engravida novamente e no fim do ano nasce sua filha Glória.
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DEPOIS DA ORGIA
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O prazer que na orgia a hetaíra goza
Produz no meu sensorium de bacante
O efeito de uma túnica brilhante
Cobrindo ampla apostema escrofulosa!

Troveja! E anelo ter, sôfrega e ansiosa,
O sistema nervoso de um gigante
Para sofrer na minha carne estuante
A dor da força cósmica furiosa.

Apraz-me, enfim, despindo a última alfaia
Que ao comércio dos homens me traz presa,
Livre deste cadeado de peçonha,

Semelhante a um cachorro de atalaia
Às decomposições da Natureza,
Ficar latindo minha dor medonha!

Em 1912, Augusto começa a colaborar com o jornal O Estado e dá aulas na escola Normal. Porém, um dos grandes feitos desse ano vem através da ajuda de seu irmão Odilon, que o ajuda a custear a edição de 1000 exemplares de seu único livro de poemas chamado “Eu” no dia 6 de julho deste ano. O livro é recebido, ora com estranheza, ora, com entusiasmo, as crítica variam muito entre os elogios e a repulsa. De acordo com seu amigo Orris Soares “três fatores fizeram a profunda tristeza de Augusto do Anjos: – um de carater individualíssimo, outro mesológico e o terceiro espiritual”.
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As bodas com sussurro de Blake em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com
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A ILHA Do CYPANGO
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Estou sozinho! A estrada se desdobra
Como uma imensa e rutilante cobra
De epiderme finíssima de areia…
E por essa finíssima epiderme
Eis-me passeando como um grande verme
Que, ao sol, em plena podridão, passeia!

A agonia do sol vai ter começo!
Caio de joelhos, trêmulo… Ofereço
Preces a Deus de amor e de respeito
E o Ocaso que nas águas se retrata
Nitidamente reproduz, exata,
A saudade interior que há no meu peito…

Tenho alucinações de toda a sorte…
Impressionado sem cessar com a Morte
E sentindo o que um lázaro não sente,
Em negras nuanças lúgubres e aziagas
Vejo terribilíssimas adagas,
Atravessando os ares bruscamente.

Os olhos volvo para o céu divino
E observo-me pigmeu e pequenino
Através de minúsculos espelhos.
Assim, quem diante duma cordilheira,
Pára, entre assombros, pela vez primeira,
Sente vontade de cair de joelhos!

Soa o rumor fatídico dos ventos,
Anunciando desmoronamentos
De mil lajedos sobre mil lajedos…
E ao longe soam trágicos fracassos
De heróis, partindo e fraturando os braços
Nas pontas escarpadas dos rochedos!

Mas de repente, num enleio doce,
Qual se num sonho arrebatado fosse,
Na ilha encantada de Cypango tombo,
Da qual, no meio, em luz perpétua, brilha
A árvore da perpétua maravilha,
À cuja sombra descansou Colombo!

Foi nessa ilha encantada de Cypango,
Verde, afetando a forma de um losango,
Rica, ostentando amplo floral risonho,
Que Toscanelli viu seu sonho extinto
E como sucedeu a Afonso Quinto
Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho!

Lembro-me bem. Nesse maldito dia
O gênio singular da Fantasia
Convidou-me a sorrir para um passeio…
Iríamos a um país de eternas pazes
Onde em cada deserto há mil oásis
E em cada rocha um cristalino veio.

Gozei numa hora séculos de afagos,
Banhei-me na água de risonhos lagos,
E finalmente me cobri de flores…
Mas veio o vento que a Desgraça espalha
E cobriu-me com o pano da mortalha,
Que estou cosendo para os meus amores!

Desde então para cá fiquei sombrio!
Um penetrante e corrosivo frio
Anestesiou-me a sensibilidade
E as grandes golpes arrancou as raízes
Que prendiam meus dias infelizes
A um sonho antigo de felicidade!

Invoco os Deuses salvadores do erro.
A tarde morre. Passa o seu enterro!…
A luz descreve ziguezagues tortos
Enviando à terra os derradeiros beijos.
Pela estrada feral dois realejos
Estão chorando meus amores mortos!

E a treva ocupa toda a estrada longa…
O Firmamento é uma caverna oblonga
Em cujo fundo a Via-láctea existe.
E como agora a lua cheia brilha!
Ilha maldita vinte vezes a ilha
Que para todo o sempre me fez triste!





Ainda vivendo de pensão em pensão, Augusto pede emprego público aos políticos da Paraíba radicados no Rio de Janeiro. No dia 2 de junho de 1913, nasce seu segundo filho Guilherme Augusto. A péssima situação financeira não permite que Augusto vá com a sua mulher e filha visitar sua mãe na Paraíba. Nesta ocasião Augusto escreve: “minhas ocupações de professor, aliás, mal remuneradas, não me permitem folgas refociladoras dessa natureza”. Augusto continuam a lecionar em diversos lugares, dando inclusive, aulas particulares para obter mais rendimentos.
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MATER


Como a crisálida emergindo do ovo
Para que o campo flórido a concentre,
Assim, oh! Mãe, sujo de sangue, um novo
Ser, entre dores, te emergiu do ventre!
E puseste-lhe, haurindo amplo deleite,
No lábio róseo a grande teta farta
— Fecunda fonte desse mesmo leite —
Que amamentou os éfebos de Sparta. —
Com que avidez ele essa fonte suga!
Ninguém mais com a Beleza está de acordo,
Do que essa pequenina sanguessuga,
Bebendo a vida no teu seio gordo!
Pois, quanto a mim, sem pretensões, comparo,
Essas humanas cousas pequeninas
A um biscuit de quilate muito raro
Exposto aí, à amostra, nas vitrinas.Mas o ramo fragílimo e venusto
Que hoje nas débeis gêmulas se esboça,
Há de crescer há de tornar-se arbusto
E álamo altivo de ramagem grossa.

Clara, a atmosfera se encherá de aromas,
O Sol virá das épocas sadias…
E o antigo leão, que te esgotou as pomas,
Há de beijar-te as mãos todos os dias!

Quando chegar depois tua velhice
Batida pelos bárbaros invernos!
Relembrarás chorando o que eu te disse,
A sombra dos sicômoros eternos!





O livro “Eu” era considerado estranho. Havia uma excentricidade temática, falava muito da morte, o tratamento da linguagem era cheio de vocábulos e expressões científicas e filosóficas. O léxico era difícil, com rimas ricas, muitas vezes causando espanto. Augusto bebeu muito em Herbert Spencer, Ernst Haeckel e muito Schopenhauer. A Bíblia também foi absorvida por Augusto e, de acordo com alguns exegetas, “a utilização da Bíblia potencializou seu contraponto às ideias iluministas/materialistas que havia em sua época”. Vale conferir.
O MEU NIRVANA


No alheamento da obscura forma humana,
De que, pensando, me desencarcero,
Foi que eu, num grito de emoção, sincero
Encontrei, afinal, o meu Nirvana!
Nessa manumissão schopenhauereana,
Onde a Vida do humano aspecto fero
Se desarraiga, eu, feito força, impero
Na imanência da Ideia Soberana!
Destruída a sensação que oriunda fora
Do tacto — ínfima antena aferidora
Destas tegumentárias mãos plebeias
—Gozo o prazer, que os anos não carcomem,
De haver trocado a minha forma de homem
Pela imortalidade das Ideias!




Parênteses: Por volta do início do século XX, havia no Recife uma espécie de “evolução” no pensamento brasileiro, por ação, sobretudo, de Tobias Barreto. Matins Junior, pelo que consta, foi dos primeiros, senão o primeiro, a introduzir a poesia científica, que não teve seguidores. Esse era o ambiente em que Augusto sorvia. Aprendeu muito com um professor que teve chamado Laurindo Leão, que era um devoto do fenomenismo gnóstico. Augusto passava por tudo isso calado. Emancipou-se intelectualmente da educação católica, de acordo com Horácio de Almeida, influenciado pelos evolucionistas e naturalistas século.

GUERRA

Guerra é esforço, é inquietude, é ânsia, é transporte…
E a dramatização sangrenta e dura
Da avidez com que o Espírito procura
Ser perfeito, ser máximo, ser forte!

E a Subconsciência que se transfigura
Em volição conflagradora… É a coorte
Das raças todas, que se entrega à morte
Para a felicidade da Criatura!

E a obsessão de ver sangue, é o instinto horrendo
De subir, na ordem cósmica, descendo
À irracionalidade primitiva.

E a Natureza que, no seu arcano,
Precisa de encharcar-se em sangue humano
Para mostrar aos homens que está viva!


Outro parênteses: Augusto não era muito de falar. Ficava quase sempre calado na rodas que se faziam na Paraíba. Inclusive, uma amigo que veio a morar com ele numa pensão na Paraíba, veio a conhecê-lo bem só depois que se formou. Pelos 17 anos escreveu Monólogos da Sombra. Um intelectual chamado Flósculo da Nóbrega, da Academia Paraibana de Letras, quando o encontrou, o achou excessivamente intelectualizado, com o pensamento frio, mas, como já dissemos, seu núcleo emocional, a fonte propriamente dita, se encontrava ainda na memória do Engenho do Pau D’Arco. Mais semana que vem.

HINO À DOR


Dor, saúde dos seres que se fanam,
Riqueza da alma, psíquico tesouro,
Alegria das glândulas do choro
De onde todas as lágrimas emanam…

És suprema! Os meus átomos se ufanam
Da pertencer-te, oh! Dor, ancoradouro
Dos desgraçados, sol do cérebro, ouro
De que as próprias desgraças se engalanam!

Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato.
Com os corpúsculos mágicos do tato
Prendo a orquestra de chamas que executas…

E, assim, sem convulsão que me alvoroce,
Minha maior ventura é estar de posse
De tuas claridades absolutas!


Após alguns meses em busca de um lugar para morar, Augusto e sua família encontram uma casa em Leopoldina. Ali seria então o lugar definitivo, a base. Publica “O lamento das coisa” na Gazeta Leopoldina que é dirigida por seu cunhado, Rômulo Pacheco e também é nomeado diretor do Grupo Escolar de Leopoldina. A vida anunciava tempos calmos na vida do poeta, porém, já há alguns meses que Augusto sofria com uma espécie de tuberculose ou pneuomonia. 

Metendo o malho no Maiacovski em http://equivocos-pedrolago.blogspot.com


 DANÇA DA PSIQUE


A dança dos encéfalos acesos
Começa. A carne é fogo. A alma arde. A espaços
As cabeças, as mãos, os pés e os braços
Tombara, cedendo à ação de ignotos pesos!
É então que a vaga dos instintos presos
— Mãe de esterilidades e cansaços —
Atira os pensamentos mais devassos
Contra os ossos cranianos indefesos.
Subitamente a cerebral coréa
Pára. O cosmos sintético da Idéa
Surge. Emoções extraordinárias sinto…
Arranco do meu crânio as nebulosas.
E acho um feixe de forças prodigiosas
Sustentando dois monstros: a alma e o instinto!





Após alguns meses doente, mais precisamente, desde o dia 30 de outubro, o poeta Augusto dos Anjos morre, às quatro horas da manhã, do dia 12 de novembro de 1914, aos 30 anos de idade, em Leopoldina, oficialmente de pneumonia. Em carta à Sinha Mocinha, Ester, sua mulher, lamenta: “O mês de outubro já corria em meados quando Augusto dos Anjos adoeceu. O Dr. Custódio Junqueira lhe fez uso de alguns remédios, que não fizeram ceder o mal estar. No dia 29, Augusto caiu na cama com muita febre, frio e dor de cabeça. O Dr. Custódio foi novamente chamado. A base do pulmão direito está congestionada, disse, depois que o examinou […] A doença abateu o seu corpo franzino, não conseguindo, entretanto, abater-lhe o espírito que se conservou lúcido até 20 minutos antes de expirar… Ele me chamou, despediu-se de mim, dizendo-me: Mande as minhas lágrimas para a minha mãe; mande lembranças para os meus amigos do Rio; trate bem as criancinhas Glória e Guilherme; dê lembranças às meninas do grupo… Recomendou-me que guardasse com cuidado todos os seus versos…”




NOLI ME TANGERE



A exaltação emocional do Gozo,
O Amor, a Glória, a Ciência, a Arte e a Beleza
Servem de combustíveis à ira acesa
Das tempestades do meu ser nervoso!
Eu sou, por conseqüência um ser monstruoso!
Em minha arca encefálica indefesa
Choram as forças más da Natureza
Sem possibilidades de repouso!
Agregados anômalos malditos
Despedaçam-se, mordem-se, dão gritos
Nas minhas camas cerebrais funéreas…
Ai! Não toqueis em minhas faces verdes,
Sob pena, homens felizes, de sofrerdes
A sensação de todas as misérias!




Assim que morreu o poeta, um amigo, alguém que o conhecia e admirava seus versos, foi se lamentar com o Olavo Bilac, que não o conhecia. Pediu para ver alguns versos e, logo após lê-los, disse: “Não lamente, a poesia brasileira não perdeu grande coisa!”. Porém, algo de inesperado aconteceria. Edições de “Eu” foram sendo republicadas e Augusto, não só foi passou a ser lido, como popularizado, sendo recitado, inclusive, em rodas de rua e feiras populares. Mais precisamente a partir de 1920, com introdução do amigo Orris Soares.



MINHA ÁRVORE


Olha: E um triângulo estéril de ínvia estrada!
Como que a erva tem dor… Roem-na amarguras
Talvez humanas, e entre rochas duras
Mostra ao Cosmos a face degradada!
Entre os pedrouços maus dessa morada
É que, às apalpadelas e às escuras,
Hão de encontrar as gerações futuras
Só, minha árvore humana desfolhada!
Mulher nenhuma afagará meu tronco!
Eu não me abalarei, nem mesmo ao ronco
Do. furacão que, rábido, remoinha…
Folhas e frutos, sobre a terra ardente
Hão de encher outras árvores! Somente
Minha desgraça há de ficar sozinha!



Em 1928, a terceira edição do livro “Eu” é lançada no Rio de Janeiro pela Livraria Castilho, com imensa repercussão e sucesso de público e crítica. Augusto dos Anjos é, enfim, reconhecido como grande poeta. Nas palavras de Horácio de Almeida: “Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio. Só muito raramente soltava uma blasfêmia. Por outro lado, não se pode dizer fosse ele um materialista ético. De inflexões mentais sua obra anda cheia. E como era sincero e honesto, virtudes que cultivava com extremado zelo, nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência.”




À MESA

Cedo à sofreguidão do estômago. É a hora
De comer. Coisa hedionda! Corro. E agora,
Antegozando a ensangüentada presa,
Rodeado pelas moscas repugnantes,
Para comer meus próprios semelhantes
Eis-me sentado à mesa!
Como porções de carne morta … Ai! Como
Os que, como eu, têm carne, com este assomo
Que a espécie humana em comer carne tem! …
Como! E pois que a Razão me não reprime,
Possa a terra vingar-se do meu crime
Comendo-me também.




Como não poderia deixar de ser, terminamos este augusto mês de agosto com a descrição de Paulo Soares sobre morte do poeta: “A notícia do falecimento de Augusto dos Anjos logo corre porta a fora, levada não pela dor da mãe desconsolada, mas pela empregada da casa, Dona Ermíria que, ao perceber as lágrimas que longe estão de se conterem em sua fonte, pergunta à patroa enigmática o motivo de tanto desperdício de humor. Ao saber do acontecido, corre a mulher pela calçada a gritar aos que passam: morreu o magro, morreu Augusto, não sei se de tuberculose ou de susto”. Assim terminamos mais uma antologia, na semana que vem, outros poemas, outras proposições e mais deflagrações. Evoé!





REVELAÇÃO I & II


I

Escafandrista de insondado oceano
Sou eu que, aliando Buda ao sibarita,
Penetro a essência plásmica infinita,
– Mãe promíscua do amor e do ódio insano!
Sou eu que, hirto, auscultando o absconso arcano,
Por um poder de acústica esquisita,
Ouço o universo ansioso que se agita
Dentro de cada pensamento humano!
No abstrato abismo equóreo, em que me inundo,
Sou eu que, revolvendo o ego profundo
E a escuridão dos cérebros medonhos,
Restituo triunfalmente à esfera calma
Todos os cosmos que circulam na alma
Sob a forma embriológica de sonhos!

II

Treva e fulguração; sânie e perfume;
Massa palpável e éter; desconforto
E ataraxia; feto vivo e aborto…
– Tudo a unidade do meu ser resume!
Sou eu que, ateando da alma o ocíduo lume,
Apreendo, em cisma abismadora absorto,
A potencialidade do que é morto
E a eficácia prolífica do estrume!
Ah! Sou eu que, transpondo a escarpa angusta
Dos limites orgânicos estreitos,
Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia,
Sinto bater na putrescível crusta
Do tegumento que me cobre os peitos
Toda a imortalidade da Substância!

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